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Justino, o Mártir

30 de outubro de 2011 Deixe um comentário
Em um texto de José Reis Chaves, em A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, cap. VI, 7ª ed., p. 213:

São Justino, mártir, autor de Apologia da Religião Cristã, também faz parte da lista de santos reencarnacionistas e sábios do cristianismo primitivo. Segundo ele, “a alma habita corpos sucessivos, perdendo a memória das vidas passadas” (16)

e na nota de rodapé:

(16)A Reencarnação e a Lei do Carma, pág. 46, William Walker Atkinson, Editora Pensamento, São Paulo, SP.

O livro de Atkison realmente tem essa frase na página referida, só que não dá indicação nenhuma de que obra de Justino ela saiu. O fio da meada estaria perdido, seu eu não a conhecesse de antes do livro de Geddes MacGregor, Reincarnation in Christianity, Ed. A Quest Book, cap. III:

According to de Dialogue with Trypho, he taught that human souls inhabit more than one body in the course of their earthly pilgrimage(13)

Que é quase uma versão inglesa do que traz Chaves. A nota 13 fornece:

Dial. IV P.G. 6, cols. 481-484.

Isto é: “Diálogo com Trifão, cap IV”. Bem finalmente alguma referência mais precisa. Encontrei outra fonte, agora online, que cita Justino

Near Death – Reincarnation and the Church

“E o que sofrem aqueles que são considerados indignos deste espetáculo?”, disse ele?

“Eles são aprisionados no corpo de certos animais selvagens e esta é a punição deles.”

Aliás, o portal Near Death é perito em fazer citações mutiladas, vide o link:

Modern Misrepresentation of Quotes by Origen

Por outro lado, Near Death fez a caridade de disponibilizar um link para Diálogos com Trifão: http://www.earlychristianwritings.com/text/justinmartyr-dialoguetrypho.html, que no cap. IV:

“(…) Responda-me, porém, a isto: a alma vê [Deus] enquanto no corpo, ou depois de ter sido retirada dele?”

“Enquanto na forma de um homem, é possível para ela”, continuei, “alcançar isto por meio da mente; mas especialmente quando ela foi posta livre do corpo e estando livre por si mesma, ganha posse do que estava habituada a amar contínua e plenamente.”

” Ela lembra disto [a visão de Deus], então, quando está novamente no homem?”

“Parece-me que não”, disse eu.

“Qual a vantagem, então, de eles terem visto[Deus]? Ou tem o homem que viu mais do que aquele que não viu, a menos que ele se lembre do fato que viu?”

“Não sei dizer”, respondi.

“E o que sofrem aqueles que são considerados indignos deste espetáculo?”, disse ele?

“Eles são aprisionados no corpo de certos animais selvagens e esta é a punição deles.”

“Sabem eles, então, que é por esta razão que eles se encontram em tais formas e que eles cometeram algum pecado?”

“Acho que não”

“Então este não colhem nenhuma vantagem de sua punição, ao que parece: além disso, eu diria que eles não estão sendo punidos a menos que tenham consciência do castigo.”

“De fato, não”

“Portanto as almas [ψυχαι] nem vêem Deus, nem transmigram de um corpo para outro, visto que elas saberiam porque estão sendo punidas e teriam depois medo de cometer mesmo o mais trivial pecado. Mas que elas percebem que Deus existe e que justiça e piedade são honrosas, eu também concordo contigo”, disse ele.

“Tens razão”, repliquei.

Justino (100 d.C? – 165), o Mártir, Diálogo com Trifão, cap IV.

Aí que está, em Diálogo…, do capitulo III ao VII, Justino narra a história de sua conversão ao cristianismo, graças a uma conversa que teve com um idoso cristão. Ao citar essa passagem, Gregor e Near Death (e, por tabela, J.R. Chaves) pegam palavras de quando, na altura da narrativa, Justino ainda era pagão e, portanto, crente em algum tipo de reencarnação. Você pode até achar os argumentos do veterano cristão fracos, visto que segundo o espiritismo certo inatismo persiste, mas não é o ponto aqui: houve um caso que anglófonos chamariam de misquotation: fragmentos escolhidos a dedo para serem usados como “prova” da opinião de certo autor, mas que no contexto original tinham um significado totalmente diferente. Este Pai da Igreja também é citado por Severino Celestino da Silva como alguém tido por defensor de “maneira limitada” da transmigração das almas (Analisando as Traduções Bíblicas, cap. XVII).

Para saber mais

– Mártir, Justino; Προς Τρυφωνα Ιουδιον Διαλογος, edição grega de Diálogos com o Judeus Trifão. Acessado em 10/08/2017.

_________________; Dialogue with Trypho, tradução em língua inglesa já de domínio público do portal Early Christian Writings, muito usada por autores anglófonos. Acessado em 10/08/2017

– Patrística, Padres Apostólicos, vol I, Paulus, 1995. Contém tradução para o português de Diálogos…

Traduções Bíblicas: escolha uma!

21 de outubro de 2011 Deixe um comentário

Traduções Bíblicas

Índice

Apresentação


Na busca de textos de maior “autoridade”, procura-se sempre promover sua base escrita e demolir a do adversário. A perda dos manuscritos originais joga uma verdadeira névoa sobre como foi a redação original e seu verdadeiros e profundo significado. Mudanças, acréscimos e mutilações pios, erros de transcrição são fatos presentes neste verdadeiro processo de investigação que é a reconstituição. Um subproduto desta pesquisa é a desconstrução de verdadeiros mitos que permeiam o imaginário de exegetas de plantão. A saber:

  • Somente a Bíblia hebraica é fiel ao original. O resto está sujeito a erros de traduções de deturpações;

  • A Septuaginta (LXX) é uma tradução mal feita, mutilada e corrompida do texto hebraico. Ou seja, um lixo;

  • A vulgata é uma tradução de tradução, portanto é pior ainda;

  • Da Vetus Latina, nem se fala.

Para começo de conversa, seria mais correto usar o termo “versão” no lugar de tradução, pois nem sempre um livro é uma tradução pura e simples de outro. Ao contrário do que muitos pensam, A LXX não é uma tradução do texto hebraico que conhecemos, nem a Vulgata é uma tradução dela. Bem, vamos por partes.

[topo]

Original, mas nem Tanto


Todos os textos hebraicos modernos se baseiam em um trabalho iniciado após a destruição do templo de Jerusalém e continuado ao longo da Idade Média por sábios judeus conhecidos por “massoretas”, daí o nome “texto massorético” (TM). Fizeram a tarefa de fixar o texto consonantal existente em diversos manuscritos (as vogais não são grafadas) e adicionar um sistema de pontuações e acentos sobre as letras para indicar a pronúncia que, até então, era passada pela tradição oral. Tem grande autoridade, mas não é possível precisar até que ponto são fiéis a um suposto texto original. Já no século II d.C, existiam diferenças entre vários manuscritos, além erros de copistas ou modificações de amanuenses (cf. [Barrera, IV.1, p. 439ss]). A maioria, porém, são fragmentos de dimensões reduzidas que tinham escapado a um processo de fixação já em andamento. Um complicador a mais para os pesquisadores é o antigo hábito as comunidades judias de queimar ou enterrar seus manuscritos velhos assim que chegavam cópias novas. Como resultado, faltam manuscritos de grande porte dos mais antigos. O mais velho dos manuscritos em que se baseiam a maioria das bíblias impressas modernas é o códice de S.Petersburgo, do século X, distando cerca de 1500 anos de seus supostos originais. Como manuscritos recentes podem preservar textos antigos fielmente e levando em conta que o trabalho dos massoretas foi bem metódico, mais o fato de a fixação do texto consonantal ser bem mais antiga que a do vocálico, pode-se retroceder a tradição destes sábios a até 500 anos após a redação da maioria do Antigo Testamento (AT). Antes disto, havia a possibilidade de flutuação no texto, suspeita confirmada pela descoberta dos Manuscritos do Mar Morto (Qumran). Antes deles, as únicas evidências de grande porte que se tinha de modificações do texto hebraico pré-massorético eram o pentateuco samaritano (PS) e a LXX que eram vistos com certa ressalva por serem testemunhos indiretos, quer na datação recente das cópias do PS ou no fato da língua ser diferente na LXX (o grego). Com Qumran, foi patente que houve uma evolução do cânon. Por exemplo, O livro de Jeremias é cerca treze por cento menor que o do TM. Fato parecido ocorre na LXX. O Pentateuco, apesar de sua grande estabilidade textual, permite disparidade grandes como Dt32,43. Este trecho é mais breve que o da LXX, mas o manuscrito qumrânico 4QDtq conserva o texto mais amplo, refletindo a versão grega:

TM LXX/4QDtq
Aclamai, nações,
a seu povo,

porque ele vingará o sangue
seus servos
devolverá a vingança
contra seus adversários,
aos que o odeiam,

e expiará
por sua terra,
seu povo

Aclamai, céus,
a seu povo,
e fazei cair diante dele todos os deuses
porque ele vingará o sangue
de seus filhos,
devolverá a vingança
contra seus adversários

e lhes dará o troco,
e expiará
pela terra de
seu povo

Fonte [Barrera, IV.1, p.448]

Disparidades antes tidas como má tradução ou adulteração proposital se tornaram apenas indício de fontes distintas. Vale lembrar, porém, que nem sempre Qumran destoa do TM, muito pelo contrário, indica muitas vezes fixação adiantada do texto.

Em resumo: o TM está escrito na mesma língua do original. Só que não podemos dizer com precisão o quanto ele tem do original.

[topo]

Qumran: a Encruzilhada das Versões


Na antiga biblioteca da comunidade essênia de Qumran foi encontrada uma multitude de manuscritos de liturgia comunal, comentários, literatura apocalíptica e a mais antiga coletânea de texto hebraicos da Bíblia, antecedendo em cerca de um milênio os melhores manuscritos massoréticos. Esta descoberta (1947) revelou uma pluralidade de textos no período intertestamentário que já era suspeitada antes de sua descoberta. Na antiga comunidade do Mar Morto, tradições textuais distintas coexistiam lado a lado, evidenciando uma época em que padronização do TM ainda não havia se imposto. O especialista Emanuel Tov dividiu em cinco grupos

  1. Textos escritos nas práticas de Qumran: revelam o estilo de ortografia, morfologia e práticas escriturais de uma escola provavelmente pertencente à própria comunidade. Em gera, aborda o texto bíblico de forma livre, com muitas adaptações (por exemplo, às mudanças gramaticais que o hebraico sofrera [Barrera]), correções e até erros. Alguns textos são transcrições de proto-massoréticos (grupo 2), mas a maioria foi transcrita de textos de identidade própria (grupo 5). Corresponde à cerca de 20% dos textos;

  2. Protomassoréticos: possuem quadro consonantal similar ao TM, porém até um milênio mais antigos que os códices medievais da Masorah. Não possuem nenhuma característica especial além da concordância com o TM;

  3. Pré-Samaritanos: estes textos refletem características do Pentateuco Samaritano, porém sem as adaptações ideológicas vindas posteriormente. Este grupo também abrange textos não-samaritanos que comportam um comum e exclusivo caráter textual. A principal característica é a preponderância de leituras de harmonização. Corresponde a cerca de 15% dos textos;

  4. Textos próximos a fonte hebraica da LXX: Não há um texto em Qumran que seja “exatamente” igual a “vorlage” da LXX em toda a sua extensão. Alguns, porém, são muito próximos à LXX, seja no arranjo dos versos e extensão. Certos textos, como 4QSama, possuem proximidade com a LXX (e a recensão luciânica), mas também exibem características próprias que o levam a ser classificados no grupo 5. O grupo 4 abrange certa de 5% dos textos;

  5. Textos não-alinhados: textos que não são exclusivamente próximos de nenhuma tradições consideradas acima são, portanto, considerados independentes. Eles concordam algumas vezes com o TM contra outros textos ou com o PS e/ou LXX, mas discordam destes em outros trechos. Ademais, contem, também, leituras que não pertencem a nenhum outro texto ou grupo. É uma característica importante quando se tenta determinar a amplitude textual à época do Segundo Templo.

Qumran contribuiu em muito para o conhecimento acerca do texto bíblico nos tempos de Jesus. Até sua descoberta em 1947, o estudiosos baseavam suas análises principalmente em manuscritos medievais. O testemunho de Qumran enriqueceu nosso conhecimento nestas áreas:

  • Leituras anteriormente desconhecidas nos ajudaram a conhecer melhor muitos detalhes dos textos bíblicos. Entretanto, apesar de antigos, os manuscritos do Mar Morto ainda estão muito longe de quando os textos originais foram definidos;

  • A variedade textual refletida nos cinco grupos acima provém um bom panorama da condição do texto bíblico no período intertestamentário;

  • Os manuscritos fornecem indiretamente informação sobre a cópia de textos e sua transmissão durante esse período;

  • A confiabilidade das antigas traduções, especialmente a LXX, é fortalecida pelos textos qumrânicos. Ela é uma importante fonte de pesquisa, mas, por estar em grego, sua matriz hebraica tem de ser reconstituída a partir dessa língua. A recomposição de tantos detalhes é agora embasada pela descoberta de leituras idênticas em hebraico. Vide o exemplo de Dt 32:43 no tópico acima.

[topo]

Septuaginta: em Busca da “Vorlage”

A versão dos “setenta” ou Septuaginta (LXX) data do século III a.C. Foi feita por sábios da comunidade judaica de Alexandria no Egito, a pedido de Ptolomeu Filadelfo. Diz-se que setenta ( ou setenta e dois) eruditos se isolaram em cabanas separadas e só saíram após setenta dias, quando concluíram juntos trabalhos de tradução idênticos. Nada verossímil, mas a lenda ficou. Parece que só o Pentateuco foi incluído no projeto original, sendo os demais livros do Antigo Testamento adicionados posteriormente. A rigor, poder-se-ia afirmar que o que se conhece por LXX “não existe”. O que se tem é a chamada “tradição dos setenta”, um conjunto dos mais textos do AT mais antigos escritos em grego koiné, a então língua franca do mediterrâneo oriental, anteriores traduções subsequentes. Foi feita por diversos autores, que variavam em estilo e grau de liberdade na tradução. Ela não foi estática, teve desenvolvimento complexo, sofrendo com erros de copistas e revisões. Duas famosas reavaliações (ou retraduções) foram as feitas por Áquila, discípulo de Rabbi Akiva, e a hexapla do teólogo Orígenes. Uma das hipóteses de reconstituição segue no quadro abaixo:

Evolução da LXX

Extraído de An Invitation to the Septuagint

Por ser uma tradução, o valor da LXX como fonte de crítica textual era extremamente subestimado. Quando Léon Denis, no segundo capítulo de seu Cristianismo e Espiritismo, escreveu: “Mas já desvirtuado pela versão dos Setenta, o Antigo Testamento não refletia, nos últimos séculos antes da vinda de Cristo, mais que uma vaga intuição das verdades superiores”; estava apenas reproduzindo um pensamento corrente da época. Porém, reviravolta profunda se deu com a já mencionada descoberta dos Manuscritos do Mar Morto. Diversos paralelos entre ambas as coletâneas frente ao TM revalorizaram o testemunho da versão grega. Surgiu uma nova vertente entre os historiadores que atribui a origem da LXX a uma antiga versão hebraica, agora perdida. Seria possível reconstituir este original judeu da LXX (Hebrew Vorlage) a partir do que se tem hoje? Karen Jobs e Moisés Silva fizeram uma interessante analogia no capítulo 6 de seu An Invitation…

Talvez uma simples ilustração ajudará a esclarecer a natureza do desafio. Estações de tratamento de água deveriam prover uma água que fosse 100% pura, mas isto não é factível. O obstáculo, contudo, não é razão para parar de se tratá-la ou considerar a tarefa de importância secundária. Desde que sejamos capaz de determinar níveis exequíveis e seguros de contaminação, é certo e necessário fazer deles a nossa meta.

Isto não quer dizer que se deva usar a Vorlage como pura e simples corretora do TM, pois esta também contém corrupções e o TM tem de ser usado para corrigi-la. Mais amplamente, os quatro “pesos-pesados” da pesquisa exegética da atualidade – MT, LXX. Qumran e PS – tem cada um o valor na reconstituição de um possível ancestral comum; tal como biólogos trabalham fósseis na reconstituição filogenética de sua evolução. J. Barrera assim descreveu o desafio da restauração:

Um texto reconstituído criticamente pode ser, e é muitas vezes, mais autêntico , quer dizer, está mais próximo do original que um texto documentado. A reconstituição de textos envolve problemas similares aos da restauração artística: qual “Sistina” é mais verdadeira e seria reconhecida por Michelangelo como própria, a que contemplávamos até alguns anos atrás, enegrecida pela tempo, ou a que hoje se oferece, remoçada de colorido?

A crítica de épocas passadas pecou no desprezo pelo tardio e tradicional (= o “massorético”), pelo canônico e confessional. Uma grande parte da crítica atual peca, ao contrário, pelo abandono da diacronia, por não querer enfrentar o desafio do original e da distância que media entre o original e o tradicional. Justamente esta distância é, contudo, o fator movente de todo processo hermenêutico, que permitiu libertar os textos do acúmulo de séculos para deixá-los contar sua própria história.

[Barrera, IV.1, p. 462]

Um exemplo interessante de como “testemunhos indiretos” podem acabar tendo um valor inesperado pelo fato de terem se tornado únicos: O discurso original que Albert Einstein pronunciou em alemão por ocasião da entrega do Nobel de física de 1921 se perdeu. Por coincidência, naquela época encontrava na universidade de Kioto, Japão, onde fez o mesmo discurso, só que desta vez ele foi anotado por um discípulo nipônico que o publicou, mais tarde, em japonês. Este texto foi traduzido para o inglês em 1982 (Physics today 8, 1982) e desta versão inglesa que se fez a tradução para o alemão (1983). Certo que a forma deve estar diferente do original, mas a importância do conteúdo vale a atenção. O mesmo pode se dizer de versões latinas e gregas preservam um texto hebraico diferente do tradicional massorético. Os originais se perderam e estas traduções se tornaram a única fonte para traçar formas antigas do texto bíblico.

Independente da apologia, o desprezo do tradutor espírita Severino Celestino da Silva pelo antigo e não hebraico pode ser uma fraqueza de sua obra. Só dá valor ao texto grego ou latino na medida em que (pensa que) ele o confirma no TM. Lembra da dobradinha ex 20:5, 34:7? Em seu Analisando as Traduções Bíblicas, ele desconsidera todo a importância de crítica textual da LXX, para não dizer que até a deprecia:

O talmude comenta que “o dia da tradução foi tão doloroso quanto o dia em que o bezerro de Ouro foi construído, pois a Torá não poderia ser acuradamente traduzida’. Alguns rabinos disseram que ‘as trevas cobriram a terra por três dias”, quando a LXX (Setenta ou Septuaginta) foi escrita”[grifos do autor]

Analisando…, cap II, p.44

Opiniões feitas por homens de fé e não por verdadeiros historiadores críticos, numa época em que o judaísmo já estava em rixa com o cristianismo, que adotara a LXX, são um tanto suspeitas. Como o próprio Severino C. da Silva observou, o famoso filósofo e teólogo Fílon defendeu a “inspiração” desta versão. Conversa de detrator? Não, pois gente gabaritada e insuspeita também concorda comigo nesse aspecto e, ao contrário de pesquisas ao estilo recorte/cole, dá referências precisas:

O abandono da LXX. Os primeiros cristãos muito naturalmente escolheram a LXX como sua Sagrada Escritura e fonte para textos adicionais, visto que grego era sua língua. Como resultado, a LXX influenciou-os não apenas pelo conteúdo da tradução em gera, mas também por sua terminologia. O frequente uso da LXX levou os judeus a se dissociarem dela e a começar novas traduções. À luz disso, deve-se ver as crítica a LXX em Sof. 1.7: “Certa vez cinco anciãos escreveram a Torá em grego para o Rei Ptolomeu e tal dia foi tão agourento para Israel como o dia em que o bezerro de ouro foi feito, já que a Torá não poderia ser traduzida acuradamente”.

[Tov, cap. II, p. 143]

A referência que Tov dá vem de Massekhet Soferim, membro de um conjunto de tratados da literatura rabínica conhecido como “pequenos tratados” que é editados junto com o Talmude babilônico (sim, convém a boa pesquisa dizer qual talmude é) por sua estrutura semelhante, porém Tov e mais alguns não os consideram parte do cânon talmúdico. Além disso, possíveis fontes talmúdicas negativas podem ser confrontadas com outras injunções (só que, desta vez, diretas) do mesmo livro:
[Tov, cap. II]

Não há nenhuma diferença entre os Livros Sagrados e Thephelin e Mezuzoth, exceto que o primeiro citado pode ser escrito em qualquer linguagem, mas o último em caracteres assírios, apenas. Rabi Simeon b. Gamaliel diz: “A permissão para escrever os Livros Sagrados foi limitada à língua grega, somente.”

(…)

Disse R. Judas: “Os sábios permitiram escrever em grego apenas o Pentateuco, mas nada além. E isto também foi permitido somente por causa do que aconteceu ao rei Ptolomeu, como se segue: ocorreu ao rei Ptolomeu de trazer setenta e dois anciãos de Jerusalém e colocou-os em setenta e dois recintos separados, não os informando do propósito pelo qual ele os trouxera. E em seguida ele entrou em cada um delas e lhes disse: Traduza-me a Torá de Moisés de cor. E o Sagrado, louvado O seja, enviou ao coração de cada um conselhos, e todos eles concordaram em ter uma só inspiração (mind) e mudaram conforme o seguinte:(…)

Fonte: Talmude Babilônico – Tratado Megilla, cap. I

e vem uma sequência de diferenças entre o TM e a LXX.

Com isto fica claro que, para alguns talmudistas, a língua grega gozava de autoridade teológica, ao menos até a destruição do segundo Templo ( cerca de 70 d.C). R. Judas, inclusive, sustenta a versão lendária da origem da LXX. De fato, porém, a versão dos setenta começou a cair em descrédito com o os judeus tempos depois; como um reflexo da apropriação que os cristãos fizeram dela. De início, foram criadas novas traduções extremamente literais, como a de Áquila, que resultava em um grego muitas vezes esdrúxulo, ininteligível para quem desconhece o hebraico. Por fim, o dia de festa que era o aniversário da tradução da Torá tornou-se um dia de luto, devido aos danos que ela causou ao judaísmo (Megillat Ta’anit 13, segundo [Barrera, pág. 150]).

Tanto a LXX quanto suas revisões foram trabalhos feitos por judeus e para judeus; gente que se empenhou em verter as peculiaridade de uma língua para outra. Áquila, por exemplo, reproduziu o neogilismo da primeira palavra do Gêneses – Beréshit (No princípio), fusão de preposição be com o substantivo réshit (começo, princípio, parte inicial) – com um novo neologismo grego: Entête (En tête). A alegação, portanto, de que o valor exegético da versão hebraica foi irremediavelmente perdido na tradução é fraca e não muito defendida por estudiosos:

A denominada “escola das religiões” prestou grande atenção a este transvase de expressões e conceitos da Bíblia hebraica para a grega, segunda uma linha de estudo desenvolvida por G.Betram e aplicada no novo Dicionário teológico do Novo Testamento(…). É evidente , por ex., a repugnância dos tradutores em admitir expressões gregas que tivessem ressonância pagã. A antiga tradução latina mostra um similar rechaço. A palavra hebraica “torah” é traduzida correntemente pelo termo grego “nómos”. Todavia o conceito hebraico de “lei” é muito mais amplo que o expresso pelo termo grego; uma equivalência mais apropriada poderia ser “didakhê”, “ensino”, que é justamente o título de um importante escrito cristão dos primeiros tempos. A eleição de “nómos” pôde conduzir a interpretações excessivamente legalistas ou nomistas da lei hebraica e inclusive do própria judaísmo como um todo.

É preciso, contudo, recordar as críticas de J. Barr ao citado dicionário teológico do NT, no sentido que há de se desconfiar, em princípio, dos saltos demasiado rápidos para conclusões teológicas, desprovidas de base linguística suficiente. Assim, por ex., Bertram desenvolvia as supostas implicações teológicas da versão do epíteto divino hebraico “šadday” (“o onipotente”) para o grego “ho hikanós”. Na realidade, todavia, o tradutor grego não fez mais que interpretar etimologicamente o termo “šadday” como “še-day” (“o que é suficiente”). A versão grega representa uma forma helenizada da Bíblia Hebraica, porém realizada por e para judeus e à maneira judaica. A tradução das Escrituras em grego judaizou a koiné em maior medida do que helenizou o judaísmo. Carregou de ressonâncias tipicamente israelitas termos até então de sentido profano e pagão(…)

Barrera, Bíblia Judaica…, parte III, cap III.

[topo]

Versões Latinas: Tardias, mas com Valor

Durante o império romano, o grego foi a língua dominante no cenário cultural do Império Romano, sendo a língua franca do oriente e das classes abastadas do ocidente. Até mesmo as classes mais pobres romanas travaram com ela através de muitos escravos importados do oriente. Importantes escritores cristãos do ocidente como Clemente de Roma, Hipólito, Irineu e Hermas também escreveram neste língua. Exceção talvez feita ao norte-africano Tertuliano, que era capaz de se expressar tanto em grego como em latim. Apesar de não haver indícios do uso do latim no culto sinagogal da África Romana, algumas comunidades judaicas da época deste escritor falavam seguramente o latim. Pode-se supor que versão latina do Pentateuco tenha tido efetivamente origem judaica.

O termo Vetus latina (Antiga Latina) não se refere a uma tradução única e completa da Bíblia, porém a um conjunto de traduções anteriores à Vulgata de Jerônimo (final séc. IV). É possível que alguns estágios sejam posteriores a Jerônimo. Apesar da falta de método unificado de tradução que a poria em desvantagem frente à Vulgata, a Vetus Latina (VL) possui qualidades que a Vulgata não pode oferecer. Em termos linguísticos, a VL foi escrita no vernáculo popular, já mostrando os inúmeros vulgarismos de um latim em plena evolução para o romance, ao passo que a Vulgata, apesar de sua linguagem bem despretensiosa, é gramaticalmente correta. Como crítica textual, ela tem um efeito similar às mais antigas da tradição da LXX: reflete muitas vezes um texto grego do século II, anterior a recensão de Orígenes e de Luciano. Isso supõe um texto muito antigo que goza, portanto, de um considerável valor textual. Por exemplo, o Livro de Jó latino e copta refletem uma forma textual grega mais antiga, da qual não restou manuscritos; A VL do livro de Ester é a único testemunho de outra forma textual grega perdida, com similaridades chamativas com o qumrânico 4QprotoEster, em aramaico.

Apesar destas qualidades, a falta de padronização dos textos da VL, somado a corrupções de cristãos latinos que se achavam capazes de “corrigir” o texto grego com seus conhecimentos, começaram a irritar, a ponto de Agostinho de Hipona se queixar parecer haver tantas versões latinas quanto códices. Neste quadro, entra em cena o erudito Jerônimo que, atendendo a uma encomenda feita pelo papa Dâmaso por volta de 382, iniciou o trabalho o trabalho de retradução do NT. Sua tarefa seria o embrião da versão divulgada ou “Vulgata”.

Quanto a validade do NT da vulgata, Leon Denis atribuiu estas palavras a Jerônimo em seu prefácio à tradução dos evangelhos:

De uma velha obra me obrigais a fazer uma nova. Quereis que de alguma sorte me coloque como árbitro entre exemplares da Escrituras que estão dispersos por todo o mundo e, como diferem entre si, que eu distinga os que estão de acordo com o verdadeiro texto grego (…)

Cristianismo e Espiritismo, cap II

E o texto prossegue com um relato de Jerônimo quanto ao seu receio de que algum leitor pense que ele adulterara o texto, por ele se diferir do que ele está acostumado. O fato de ser uma profunda revisão a torna ruim ou venalmente forjada? Denis ainda insere depreciação nos adjetivos: “corrigida, aumentada e modificada”. Modificar faz parte de qualquer trabalho de correção. Isto só seria grave se as modificações totalmente inventadas, sem nenhuma base grega ou latina. Em outras ocasiões Jerônimo se coloca mais confiante como “revisor” do NT, tal como em sua carta CXII a Agostinho, cap VI ( ou LXXV na numeração deste último): “E já que aprovas meus trabalhos na revisão da tradução do Novo Testamento, como dizes(…)”; ou a carta LXXI, 5 a Lucínio: “Eu restaurei o NT à autoridade da forma grega original”. Denis continua a crítica alegando que as novas correções da Vulgata tiveram de ser feitas ao longo dos séculos. Não há nada de desqualificador nisto! O conhecimento se acumula com o tempo e ferramentas que Jerônimo não teve hoje estão disponíveis. Sem contar que várias cabeças analisando têm, juntas, mais potencial que a tarefa de “lobo solitário” dele.
Da obra de (Leite):

Foi, pois, o texto “exclusivo, oficial” da Igreja Católica, até o início do nosso século [século XX], quando, com o retorno ao estudo das línguas orientais, ressurgiu o desejo e necessidade de novas investigações para dirimir dúvidas em certos pontos.

Em 1907 Pio X confiou aos monges beneditinos o encargo de fazer os estudos preparatórios para uma nova edição da versão das escrituras. E com Pio XII começaram a aparecer livros litúrgicos com a nova tradução, feita segundo os preceitos de crítica científica e com recursos dos métodos modernos.

O trabalho foi concluído em 1987 (com exceção de 1-2 Mac, ainda em andamento), com o título de “Neo-Vulgata”.

A tradução AT feita por Jerônimo foi um trabalho posterior, iniciado por volta de 392. À exceção dos livros da Gênese, Salmos, Tobias e Judite, Jerônimo se baseou em versões gregas de tradutores judeus, isto é, Áquila, Teodocião e Símaco. Tais versões já refletiam uma fonte hebraica bem próxima do TM medieval, com poucas alterações. A Gênese foi, na verdade, uma revisão da VL e os Salmos foram fundamentados na Hexapla de Orígenes. Jerônimo não se dedicou a Tobias e Judite que posteriormente foram importados da VL. Com isso, faz-se necessário distinguir entre a Vulgata e a “tradução jeronimiana”, que abarca apenas os livros que Jerônimo realmente traduziu e revisou.

O valor da Vulgata está no fato de ela ser o amálgama de três tradições. Preserva a VL e suas qualidades, seja nos livros que não foram traduzidos, seja nos comentários de Jerônimo, que ainda a utilizava. Em seus salmos, conserva o testemunho grego do texto hexaplar agora perdido. Permite rastrear as leituras de Áquila e Símaco e, por elas, entender o estado do texto hebraico da época.

Houve um atrito, porém, entre Agostinho e Jerônimo quanto à tradução do AT. Agostinho dava o valor de “inspirado” ao texto grego:

“A meu ver, eu preferiria que nos suprisse com a tradução com versão grega das Escrituras canônicas conhecidas como o trabalho dos Setenta intérpretes. Pois se tua tradução começar a ser mais comumente lida em várias igrejas, será algo doloroso ter que, ao se ler a Escritura, surgirem diferenças entre as Igrejas latinas e gregas, especialmente vendo que a discrepância é facilmente condenada numa versão latina pela produção do original grego, que é uma língua bem amplamente conhecida; visto que, se qualquer um que ficado perturbado pela ocorrência de algo que ele não estava acostumado na tradução tomada do hebreu e alegar que a nova tradução está errada, será difícil, se não impossível, obter documentos hebraicos pelos a exceção da versão possa ser defendida. E quando forem encontrados, quem, tendo tantas autoridades em grego e latim, alegará: declarado estar errado? Além disso tudo, judeus, se consultados sobre o significado de um texto hebraico, podem dar uma opinião diferente da tua: neste caso será como se tua presença fosse indispensável, como sendo o único capaz de refutar seus pontos de vista, e seria um milagre encontrar alguém apto de atuar com árbitro entre tu e eles.

Agostinho de Hipona, Carta LXXI

Ou seja, já no século V, a LXX e o protomassorético haviam tomado caminhos divergentes. Severino Celestino da Silva traz um trecho da carta parecido, mas um tanto “reduzido”:

“A meu ver, eu preferia que tua antes nos interpretasse as Escrituras gregas canônicas que são atribuídas aos setenta intérpretes, pois se há discordância entre o latim das antigas versões e o grego da Setenta, pode-se ir verificar, mas se há dissonância entre o latim da nova versão e o texto da nova versão e o texto conhecido do público, como dar prova de sua exatidão?”

Silva, Analisando …, cap II

Tudo bem que, no fundo, os dois trechos dizem a mesma coisa; ou melhor, quase a mesma coisa. Severino C. da Silva reforça um equívoco ao afirmar que carta testifica “a inexistência de exatidão nas traduções bíblicas”. Nada mais errado. O que a carta escancara é que a fonte da LXX e do TM já tinham se tornado distintas. A exposição integral de Agostinho deixa claro que Jerônimo se baseou em intérpretes hebraicos (ainda que escritos em grego) e que os manuscritos deles já diferiam da matriz hebraica da LXX. Por isso, nem sempre um documento na língua original é garantidamente o original.

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O Original: dificuldades da crítica textual

Apesar do otimismo de alguns autores, a crítica textual está longe de ser uma ciência exata. Muitos podem acusá-la até de muita subjetividade. Pode ser, pois suas metodologias não são precisas. De qualquer forma, são um jeito limitado de fazer as coisas que de outro modo seriam piores. Ruim com ela… Comparando diversos estudiosos, concluo que fazer uma declaração categórica de que determinado versículo está mal traduzido e/ou corrompido é algo um tanto temerário às vezes. Dou aqui um pequeno exemplo extraído de Gn 4:8:

E disse Caim a Abel, seu irmão. Estando eles no campo, sucedeu que se levantou Caim contra Abel, seu irmão, e o matou.

Afinal, o que Caim disse a Abel? Fica claro a sensação de uma lacuna no texto. Trago quatro autores, cada um com uma opinião distinta:

  • André Chouraqui, comenta este versículo (Volume No princípio de sua coleção A Bíblia) com a seguinte nota: “O texto não explicita o que é dito dor Caîn. Os tradutores que completam a frase apenas inventam por sua própria conta”;

  • Jobes e Silva em seu An Invitation…<, cap. X, comentam: "A frase διελθμεν εις το πεδιον [vamos ao campo] não possui nenhuma correspondente no TM, mas é atestada no Pentateuco Samaritano, na Peshitta, e na Vulgata. Visto que o hebraico vayyo’mer normalmente introduz o que está sendo dito, muitos estudiosos alegam que o tradutor da Vorlage incluiu as palavras (consonantais) nlkh hsrh, que seria leitura original e que foi acidentalmente omitida numa tradição hebraica bem antiga. Alguns estudiosos assinalam, em resposta, que ao menos três outras passagens onde vayyo’mer é usado sem expressar noção do que é dito. (Ex. 19:25, 2 Cr 1:2 e 32:24 – apesar de não proverem paralelos exatos). Devemos, pois, deixar em aberta a possibilidade que, como uma leitura mais difícil, o TM seja considerado o original e que o tradutor grego (talvez confiando numa tradição antiga) introduziu a sentença para completar o significado”;

  • Julio T. Barrera, em Bíblia judaica…, parte IV, cap. III: “O tradutor (do Targum Pseudo-Jônatas) introduziu um desenvolvimento teológico, convertendo Abel na figura do protomártir e Caim no protótipo do apóstata perseguidor dos justos. É possível que a frase ‘Vem, subamos ao campo’, não seja uma inserção ‘targúmica’, mas leitura de um texto hebraico antigo. Esta leitura, perdida no texto massorético, foi conservada em numerosos manuscritos hebraicos medievais e no Pentateuco Samaritano, e aparece refletida no texto da versão da LXX e nas versões Peshitta e Vulgata”

  • Emanuel Tov, em Textual Critiscim…, cap. IV-C, ”[após citar uma comparação entre Gn 4:8 no TM e no PS] parece que no TM algumas palavras foram omitidas ( por be‘emsha` pasuq – ‘uma subdivisão no meio de um verso’) talvez as mesmas palavras com as do PS e versões – visto que TM realmente não declara o que Caim na verdade disse.”

Quatro autores distintos, cada um trazendo um pedaço de informação diferente. Curiosamente, aqui o elogiado Chouraqui possui o argumento mais fraco de todos, pois se baseia numa indevida primazia massorética. Mesmo as traduções possuem grande importância e o PS não pode ser considerado “exatamente” uma tradução. Jobes e Silva são mais conciliatórios e expõem um caso em que duas técnicas de crítica textual se opõem: a preferência pela leitura mais difícil (visto uma tendência dos copistas a harmonizar textos difíceis com doutrinas, outros textos mais fáceis ou sua própria intuição) contra a múltipla confirmação por documentos antigos. Barrera coloca mais crédito na múltipla confirmação das versões, sendo alguns documentos hebraicos corroboradores de sua opinião, e Tov lança uma hipótese para a origem da lacuna. A balança pende realmente a existência de uma lacuna no TM, apesar de isto não poder ser atestado de forma absoluta. Por isso quando alguém diz: “há um erro de tradução aqui”, é bom pensar duas vezes antes de ser tão categórico.

Masssorético X Pentateuco Samaritano em Gn 48

Comparação entre o texto massorético (à direita e pontuado) de Gn 4:8-9 com seu equivalente no Pentateuco Samaritano (à esquerda, não-pontuado e transcrito com caracteres hebraicos). Aqui está em evidência a lacuna presente no TM. Esta falta estava no original ou produzida por um acidente de cópia? Nem sempre é fácil estabelecer um juízo.

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Para saber mais

– Abegg Jr., Martin, Flint, Peter & Ulrich Eugene – The Dead Sea Scrolls Bible- Harper San Francisco, 1ª ed.

– Barrera, Julio Trebolle – A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã- Editora Vozes, 2ª ed, 1999.

– Jobes, Karen H. & Silva, Moisés – An Invitation to the Septuagint- Paternoster / Baker Academic, 1ª ed.

– Leite, Thomaz Paula; Sabedoria da Bíblia, Ed. Cultrix

– Shoulson, Mark (organizador); The Torah: Jewish and Samaritan Versions Compared, 1ª ed. (editado pelo organizador)

– Tov, Emanuel; Textual Criticism of the Hebrew Bible, Fortress Press, 2ª ed. revisada, 2001.

Notes on the Septuagint, acessado em 05/09/2016.

Nota: O livro de Barrera, “A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã” consta na bibliografia de “Analisando as Traduções Bíblicas”

Princípios de Crítica Textual Bíblica

20 de outubro de 2011 4 comentários
Antes de qualquer um vir a pensar em refutar os argumentos apresentados no portal que tenham a ver com o aspecto religioso, é preciso ter em mente os princípios sobre os quais se baseiam. Qualquer crítica feita aos artigos deve primeiro refutar estes princípios ou provar que não foram bem aplicados. Informa-se aos candidatos que o perfil do portal nada tem de devocional, calcando-se, sim, em consensos para a abordagem histórico-crítica da Bíblia, em particular do Novo Testamento. Como nem todos estavam elaborados ou eram amplamente aceitos em medos do século XIX, muitos espíritas vão rechaçá-los e os cristãos fundamentalistas, então, nem se fala. Pensando bem, como “fundamentalismo” é o pretenso retorno de uma ideologia às suas supostas e puras origens, os “espíritas fundamentalistas” é que não suportam a ideia de que parte da análise kardecista possa estar tremendamente defasada. E há uma razão muito simples para essa atitude: embora alguns dos princípios aqui usados não sejam novidade para os apologistas espíritas (ex., humanidade de Jesus, presença de erros e contradições na Bíblia) eles agora se voltam contra eles. Por mais que digam acompanhar o progresso da Ciência (a ciência em questão é a História) o próprio “espiritismo fundamentalista” se mostra resistente à mudança, pois é muito mais fácil ser cético com a crença alheia que com a sua própria. Acredito serem bem intencionados, mas no zelo de defender a doutrina contra os detratores, mumificaram-na. Eis os princípios:

  1. A Bíblia NÃO é a palavra de Deus
  2. A Bíblia não é o bastante
  3. A patrística será levada em consideração
  4. A Bíblia tem contradições
  5. A Bíblia não foi feita para você
  6. Tudo o que for apropriação será assinalado
  7. Há variações nos exemplares dos livros bíblicos
  8. Gramática rima com Matemática. E só!
  9. Contexto é tudo
  10. A Bíblia NÃO é intérprete de si mesma
  11. Usar alguma metodologia de interpretação
  12. Separar o “Jesus da fé” da “fé de Jesus”
  13. O que Jesus disse é diferente do que escreveram que ele disse
  14. As duas tradições evangélicas
  15. Resolva o quebra-cabeça sinóptico
  16. Parecidos, mas não idênticos:
  17. Outras fontes:
  18. Considerar os “Cânons dentro do Cânon”:

* * *

  1. A Bíblia NÃO é a palavra de Deus: E muito menos uma prévia da Terceira Revelação! O problema dessas duas posturas é que elas só valem dentro de igrejas e centros espíritas, respectivamente. O que temos aqui é “Literatura Hebraica Clássica” e “Literatura Cristã Primitiva”. Com isso deixo bem claro que não há o menor interesse na interpretação contemporânea desses livros, mas em chegar o mais próximo possível do entendimento de seus leitores originais.
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  2. A Bíblia não é o bastante: Como corolário do item anterior, não há razão para excluir a vasta literatura hoje tida como “apócrifa”. Os Manuscritos do Mar Morto, por exemplo, demonstram a popularidade entre os essênios de livros que não eram específicos deles, mas que ficaram fora da Bíblia Hebraica, como Enoque e Jubileus. Deveríamos deixá-los de fora se eles inspiravam a tantos naquela época? Seria aconselhável excluir I e II Macabeus, como fazem os evangélicos, se o pano de fundo deles é genuinamente histórico? Da mesma forma, em relação ao cristianismo, por que se deveria abandonar as epístolas de Barnabé, Clemente, Policarpo e o evangelho do Pastor se todos lançam alguma luz sobre o período de consolidação do cristianismo proto-ortodoxo? Não se está advogando um “vale-tudo”, mas que cada conjunto literário teve seu valor em um ou mais grupos do judaísmo intertestamentário e do cristianismo primitivo. Até mesmo os “Evangelhos da Infância” têm importância ao revelar o Jesus aos olhos populares – o folclore cristão antigo – , embora pouco úteis para o estudo do Jesus Histórico.
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  3. A patrística será levada em consideração: Por “patrística”, entenda-se o conjunto de teólogos cristãos (conhecidos como Pais da Igreja) responsável por moldar a ortodoxia. Não há consenso sobre até quando se processou esse período de formação, mas usarei como limite João Damasceno(675 – 749), embora, na prática, raramente mencione eu como “Pai” teólogos após Agostinho de Hipona. O motivo principal para levar em conta o testemunho deles é que, para boa parte dos apologistas espíritas (a mais teimosa) o cristianismo ortodoxo foi reencarnacionista até o II Concílio de Constantinopla (553 d.C.). Para corroborar isso, muitas citações de obras desses teólogos são dadas como exemplo. O problema é que, ao verificar as palavras originais deles, constato que os autores espíritas:
    • Fazem citações indiretas, evidenciando que não leram os teólogos por eles usados;

    • Citações de citações tornam difícil a verificação posterior por parte dos leitores, quando não impossível;

    • Citações indiretas por si só não são algo ruim, contanto que estejam sendo usadas fontes intermediárias com um mínimo de credencial. A questão justamente é quem teria esse gabarito? Em vez de se basear em fontes de caráter acadêmico, muitos apologistas espíritas optam por outros apologistas, místicos ou qualquer escritor reencarnacionista, como se isso fosse um atestado de qualidade e isenção. Assim, demonstram excessiva confiança e pouco senso crítico ao escolher suas fontes. A leitura do original é a meta a ser perseguida, embora nem sempre possível.

    Para os apologistas que não fizeram uso da patrística, lembro que:

    • Bem sei que muitos dos “Pais da Igreja” defenderam ideias que hoje são consideradas heréticas pelos que vocês chamam de “fundamentalistas”. Por exemplo, Justino foi milenarista e Tertuliano, montanista. Isso é irrelevante, pois o período em que eles viveram, principalmente a patrística pré-nicena (100 – 325 d.C), foi de formação, quando muitos pontos doutrinários ainda estavam em aberto;

    • Sei que essas divergências deixam de ser importantes quando elas lhes convém. O exemplo mais notório é o caso de Orígenes e sua suposta defesa da reencarnação;

    • Farei questão de lembrar de seus confrades que fizeram uso equivocado da patrística, apenas como um lembrete de que a “fé racionada” pode voluntariamente se “cegar” se lhe oferecido um tentador boato. O vício não está na fé, mas nos humanos e, portanto, vocês também podem partilhar de muitos defeitos que atribuem exclusivamente aos “fundamentalistas”;

    • A patrística é um fonte histórica! Por mais enviesados que fossem, eles ainda são um testemunho de como seu próprio grupo via a si mesmo. Desconsiderá-los é, no mínimo, desaconselhável.

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  4. A Bíblia tem contradições: Justamente por ser um cânon feito a partir de diversos outros cânones menores, a Bíblia possui coisas que hoje chamaríamos de “erros de roteiro” e “falhas de edição”, além de mensagens pura e simplesmente díspares. Como são tratadas essas questões aqui? Não são tratadas. Ponto. Não há a menor razão em perder tempo tentando harmonizar incongruências com diversas hipóteses ad hoc ou apelações duras de engolir. As contradições foram uma mera consequência processo não coordenado de redação de cada livro bíblico. São as teologias de cada religião que tentam costurar as pontas soltas numa espécie de “credo de compromisso”. Como não há abordagem devocional aqui, o melhor é desmontar o cânon em suas subunidades e admitir que, no período intertestamentário, havia várias comunidades judaicas e cristãs com doutrinas diferentes umas das outras em algum grau. A propósito, apologistas espíritas se divertem prendendo cristãos fundamentalistas numa camisa de força chamada “inerrância bíblica”. Sinto muito, mas aqui isso não será possível. [topo]

  5. A Bíblia não foi feita para você: Isso não significa que não haja ensinamentos úteis ainda hoje, mas, sim, um lembrete de que muita coisa nela é datada. Os que não levam isso em conta, correm o risco de continuar a errar a data da segunda vinda de Jesus ou ter que explicar por que o movimento montanista, o maniqueísmo ou o Islã não devem ser considerados a Terceira (Quarta, Quinta, etc.) Revelação(ões) no lugar de seu credo.[topo]

  6. Tudo o que for apropriação será assinalado: Mesmo com o aviso acima, as pessoas continuarão a se enxergar no passado. E isso não é de hoje. Nos Manuscritos do Mar Morto, por exemplo, foi encontrado um documento (1QpHab) que explana o livro o profeta Habacuque de uma forma muito curiosa:

    [“Vede entre as nações e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não acreditareis, quando ] contada [Hab 1:5].

    [Interpretado, isso se refere] aos que foram infiéis junto com o Mentiroso, por não [ouvirem a palavra recebida pelo] mestre da Retidão proveniente boca de Deus. E se refere aos infiéis da Nova [Aliança], pois não terem acreditado na Aliança de Deus [ e profanando] Seu santo nome. E da mesma forma, esse pronunciamento deve ser interpretado [como referência aos que] serão infiéis no fim dos dias. Eles, os homens violentos que romperam a Aliança, não acreditarão quando ouvirem tudo que [está para acontecer] à última geração, relatado pelo Sacerdote [em cujo coração] Deus colocou [discernimento] para que ele interpretasse todas as palavras dos Seus servos, o Profetas, através de quem Ele profetizou tudo o que iria acontecer a Seu povo e [Sua terra].

    “Sim, eis que suscito os caldeus, essa [cruel e impetuosa] nação.”

    [Hab 1:6] Interpretado, isso se refere aos kittim [que são] rápidos e bravos na guerra, levando muitos a perecer. [O mundo inteiro cairá] sob o domínio dos kittim e os [iníquos …] eles não acreditarão nas leis de [Deus …]

    Habacuque se referia os babilônios (a quem chama de “caldeus”) e ao cativeiro por ele imposto aos hebreus. Seu clamor era para o povo desterrado contemporâneo seu, contra um inimigo que eles bem conheciam. O comentarista do deserto, cerca de meio milênio depois, pegou esse texto e, a partir dele, produziu livre-associações para explicar sua própria realidade. No caso, os romanos – chamados nos Manuscritos pelo código de “kittim” – fariam o papel dos babilônios, em terrível associação com o “Mentiroso” – O sumo-sacerdote de Jerusalém, inimigo jurado dos essênios – em oposição ao mestre da Retidão, sua própria liderança. Esse tipo de (re)leitura de textos religiosos tem até um nome técnico pesher (interpretação em hebraico) e permeia boa parte do material não bíblico dos Manuscritos. Aliás, ele está longe de ser exclusividade da seita, diga-se de passagem. No Novo Testamento, mais especificamente em Atos, há um interessante pormenor em um discurso atribuído a Pedro:

    Mas Deus o ressuscitou, rompendo os grilhões da morte, porque não era possível que ela o retivesse em seu poder. Pois dele diz Davi: Eu via sempre o Senhor perto de mim, pois ele está à minha direita, para que eu não seja abalado. Alegrou-se por isso o meu coração e a minha língua exultou. Sim, também a minha carne repousará na esperança, pois não deixarás a minha alma na região dos mortos, nem permitirás que o teu santo conheça a corrupção. Fizeste-me conhecer os caminhos da vida, e me encherás de alegria com a visão de tua face (Sl 16,8-11). Irmãos, seja permitido dizer-vos com franqueza: do patriarca Davi dizemos que morreu e foi sepultado, e o seu sepulcro está entre nós até o dia de hoje. Mas ele era profeta e sabia que Deus lhe havia jurado que um dos seus descendentes seria colocado no seu trono. É, portanto, a ressurreição de Cristo que ele previu e anunciou por estas palavras: Ele não foi abandonado na região dos mortos, e sua carne não conheceu a corrupção.

    Atos 2:25-32

    Aqui, Pedro cita o salmo 16 como uma profecia da ressurreição de Jesus, só que é extremamente duvidoso que o salmista tivesse essa intenção. Acontece que Pedro discursava para uma plateia amiga, que não teve problemas em aceitar essa associação entre dois contextos díspares. Já que um dos temas do Novo Testamento (em especial Mateus, Lucas e Atos) é mostrar que o ministério de Jesus e o próprio cristianismo nascente são o cumprimento das Escrituras Judaicas – escritas séculos antes -, pode-se dizer que os livros cristãos são um tipo de pesher.

    Uma certa religião, cerca 1.800 anos depois, interpretou o seguinte trecho de João:

    Não se turbe o vosso coração. Crede em Deus, crede também em mim. – Há muitas moradas na casa de meu pai. Se assim não fosse, eu vo-lo teria dito; pois vou preparar-vos o lugar. E depois que eu me for, e vos aparelhar o lugar, virei outra vez e tomar-vos-ei para mim, para que lá onde estiver, estejais vós também. (João, XIV:1-3).

    Como um indicativo de duas coisas (ESE, cap III):

    1. Haveria vários tipos de “planos” espirituais, de acordo com o grau de evolução de cada grupo de espíritos na erraticidade (i.e., desencarnados);
    2. Seriam vários os mundos materiais para os espíritos encarnados.

    Decididamente, a comunidade joanina, ao redigir o longo “discurso de despedida” seu evangelho (Jo 13-17), não devia estar pensando nisso. Da mesma forma como a seita dos essênios se apropriou dos antigos documentos judaicos para prever o mundo vindouro em sua época, como os judeus modernos o fazem para ainda aguardar do Messias, como os cristão antigos o fizeram para se justificar e os modernos para aguardar a segunda vinda de Jesus; o espíritas se apropriam do Antigo e do Novo Testamento para justificar seu próprio credo, torná-lo palatável aos cristão modernos menos inflexíveis como genuína continuação do ministério de Jesus. Contudo, é duvidoso que o “consolador prometido” (Jo 14:26, cf. ESE, cap. VI) fosse o “Espírito da Verdade”, apregoado como coordenador da falange que ditou as respostas compiladas com Allan Kardec. Existiram outros grupos religiosos que alegaram (e alegam) ser esse continuador e não há nenhuma razão para crer que esse não seja mais um caso de grupo tardio de apoderando de textos sagrados que não eram seus originalmente. O Evangelho Segundo o Espiritismo é exatamente isto: um pesher espírita e será tratado como tal. [topo]

  7. Há variações nos exemplares dos livros bíblicos: Mas a situação não é caótica como querem alegar certos apologistas espíritas que clamam aos quatro ventos haver 400.000 alterações na Bíblia . Essa mania começou depois da publicação de “O que Jesus disse? O que Jesus não disse?” de Bart D. Ehrman, Ediouro, 2006. O livro é muito bom como obra de divulgação, mas, infelizmente, houve um abuso por parte de alguns leitores aqui. O próprio Ehrman reconhece nesse livro (cap VII, p. 187-8), e mais explicitamente em outras obras, que a maior parte dessas variações se constitui de erros de transcrição acidentais de copistas e não uma conspiração dos primeiros cristãos ortodoxos. Outro livro que vi ser usado e traz cifra de mesma ordem de grandeza faz a seguinte ressalva:

    A maior parte das variantes nos manuscritos do NT [Novo Testamento] referem-se a formas ortográficas ou a questões gramaticais e de estilo. São bastante escassas as que afetam o significado do texto. Muitas constituem mudanças deliberadas, introduzidas pelos copistas. Contudo, inclusive nos casos em que as mudanças introduzidas afetam o sentido do texto, não tocam em geral nas questões substanciais do que mais tarde converteu-se no dogma cristão. Algum caso resulta mais chamativo, como o da variante “filho” ou “Deus” em Jo 1, 18, pois afeta nada menos que a questão da divindade de Cristo (cf. p. 491s).

    Barrera, Julio Trebolle. A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã, parte II, cap. V, p. 397.

    Certo que essas mudanças intencionais, ocorridas principalmente no calor dos debates teológicos dos séculos II e III, merecem atenção. Antes, porém, de sair gritando que certo versículo que lhe é difícil foi adulterado, responda as seguintes perguntas:

    • Qual texto foi alterado? Em minha experiência pessoal, há espíritas que só consideram alterados os textos que lhe são inconvenientes, embora os que lhe são úteis devam ser, para eles, considerados genuínos.

    • Em que se baseia sua suspeita? Você notou alguma mudança brusca de estilo? Existe algum manuscrito com variante? Ou é simplesmente por que não se enquadra em sua teologia?

    • Você é capaz de estimar o texto original? Qual o critério que você usa para preferir uma leitura à outra? Existem contra-argumentos?

    • Qual foi a suposta motivação para o texto ser alterado?

    • Consegue estimar a época que houve a adulteração? Isso pode ser muito elucidativo para a pergunta anterior, pois nos permite saber quais eram as discussões teológicas de então.

    Ehrman e Barrera seguem esse esquema, ainda que não o explicitem. Se alguém quiser uma lista com comentários sobre as principais variantes, pode adquirir Textual Commentary on the Greek New Testament , de Bruce M. Metzger, ex-professor de Ehrman. Informa-se, também, que aqui não se admite a “primazia massorética” no Antigo Testamento. O texto Massorético (TM) continua sendo o ponto de partida de qualquer estudo, sem dúvida, afinal está completo e manteve-se estável por mais de 1.800 anos. Entretanto, sabe-se hoje que, antes de as sofisticadas técnicas de transcrição desenvolvidas pelos sábios massoretas se consolidarem, havia variantes dos textos judaicos. Os massoretas adotaram um grupo específico de variantes e desprezaram as demais. Como consequência disso, o máximo que se pode dizer é que o TM está no idioma do original, mas não se pode precisar o quanto ele tem de original. Desconsiderar isso é o maior erro conceitual presente em Analisando as Traduções Bíblicas, de Severino Celestino da Silva. Aqui, o testemunho dos fragmentos de Qumran, dos targumim, da Septuaginta, da Vulgata e da Peshitta são fundamentais por nos darem acesso, ainda que indireto, a essas variantes perdidas da Bíblia Hebraica.
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  8. Gramática rima com Matemática. E só!: Leia essas duas frases:
    • Fui no cinema hoje.
    • Aquela menino me emprestou um par de tênis.

    As duas contêm erros gramaticais – a primeira na regência verbal e a segunda de concordância de gênero -, mas aposto, com uma probabilidade de 99%, que a primeira delas já saiu alguma vez da boca leitor, por mais grammar nazi que sejas. Mas as duas estão erradas, não? Depende da gramática que você use. Se estiveres usando um livro do Prof. Pasquale, um manual de redação de algum jornal ou uma apostila de pré-vestibular, as duas serão dadas como erradas. Por outro lado, é possível que um livro que ensine português para estrangeiros apresente a primeira como válida, ao menos oralmente, isso porque esses estão mais preocupados em expor a língua como ela é, e não como pensam que ela deveria ser. Para eles, a segunda frase não têm vida própria no idioma e até dói aos ouvidos dos nativos. A primeira, por sua vez, é apenas uma variante desprestigiada na língua escrita, apesar de ser comuníssima. E antiquíssima também, com rastros até a época de Camões. O problema é que, quando resolveram codificar a língua portuguesa, deixaram-na de fora, embora continue ativa e saltitante nas terras de Pindorama.

    Foi feita essa prelação para alertar o leitor que existem gramáticas normativas, que codificam um suposto ideal de língua-padrão, e as descritivas , que tratam os vários matizes de um idioma. Cada uma tem sua utilidade e, no caso de línguas mortas, as gramáticas normativas costumam ser uma apresentação dos estudantes ao grego, ao hebraico ou ao latim. A questão é que não existe um único dialeto no Antigo Testamento e grego do Novo era muito discrepante da norma culta de Atenas ou Alexandria. Para entendê-los são necessárias gramáticas descritivas e que tenham um enfoque mais histórico para abranger as transformações por que passaram esses idiomas.

    Um problema, então, surge quando um devoto deseja impor uma norma gramatical como única variante aceitável para o entendimento de um texto, embora os antigos falantes nativos daquele idioma a tratassem apenas como uma possibilidade entre outras. Três casos são recorrentes nesse mundo apologético:

    • A preposição hebraica `al: segundo os espíritas fundamentalistas ela deveria significar apenas “sobre” ou “em”, para auxiliar sua interpretação reencarnacionista de Ex 20:5. O problema é que são várias as passagens bíblica em que ela é intercambiável com preposições que significam “até” (1 Sm 14:1 / 1 Sm 14:4);

    • O significado da proposição latina in: similar ao caso anterior. O os espíritas fundamentalistas querem impor apenas o significado “em”, esquecendo que, ao reger o caso acusativo, in pode significar “a” ou “até” (At 8:26);

    • O uso do artigo em grego: alegam que na ausência de artigo (definido), deve-se traduzir sem artigo ou com o artigo indefinido português compatível. Se assim fosse, o prólogo de João começaria deste jeito: “Em princípio era o Verbo” ou “Num princípio era o Verbo”. O estudo de construções anartras (sem artigo) de sentido definido não faz parte do programa deles.

    Não que se deva querer saber mais que indivíduos que estudaram idiomas antigos, como Pastorino ou Severino Celestino da Silva, mas duvidar quando alegam saber mais do que os falantes originais deles.

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  9. Contexto é tudo: Ou, pelo menos, quase. Repare o seguinte trecho de Eclesiastes:

    Se o homem gerar cem filhos, e viver muitos anos, de modo que os dias da sua vida sejam muitos, porém se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, Digo que um aborto é melhor do que ele.

    Ec 6:3

    Talvez se impressione em saber disso, mas esse versículo Já foi utilizado por dirigentes da Igreja Universal como autorização para o aborto! Óbvio que a reação contrária foi forte, como visto no link anterior, mas, deixando a polêmica de lado, esse incidente é um pequeno exemplo de como um versículo escolhido a dedo e uma imaginação fértil podem ser usados para justificar qualquer coisa. Ofereço um exemplo mais “das antigas”:

    Agora Basílides, falhando em observar que essas coisas devem compreendidas a partir de lei natural, rebaixa o discurso do Apóstolo para fábulas insensatas e profanas [cf. I Tm 4:7] e tenta produzir a partir dessa fala do Apóstolo a doutrina chamada de mentosomatosis, i.e., que as almas são transferidas para dentro de um corpo após outro. Pois ele diz que Paulo diz: “outrora vivia sem a lei” [Rm 7:8-9], que significa: Antes de vir para dentro deste corpo, vivi numa forma corporal que não estava sob a lei, ou seja, a de uma vaca ou de um pássaro. Mas ele falha em olhar o que se segue, a saber: “Mas quando o mandamento veio, reviveu o pecado” (Rm 7:9). Pois Paulo não diz que ele veio para o mandamento, mas o mandamento lhe veio; e não diz que não que o pecado não existia nele, mas que estava morto e reviveu. Por essas declarações ele está garantidamente mostrando que dizia ambas as coisas a respeito da mesma e única vida sua. Mas que Basílides e os que partilham de suas percepções sejam deixados a sua própria impiedade. Voltemo-nos, porém, para o sentido do Apóstolo em conformidade com pia reverência para doutrina eclesiástica.

    Comentário sobre a Epístola aos Romanos, Livro V, cap. I, parágrafo 27

    E agora? Também está disposto a aceitar a metempsicose (ou metensomatose) como uma doutrina secreta destinada apenas aos iniciados e repassada desde Jesus até os mestres gnósticos do século II e III (como Basílides) ou vai concordar com Orígenes e outros apologistas proto-ortodoxos que eles enxergavam o que queriam e por meio de frutífera imaginação? Talvez a resposta varie se o leitor for hindu ou espírita, mas lendo a Epístola aos Romanos diretamente, fica difícil não dar razão a Orígenes.

    Se consideras as duas ideias expostas acima estapafúrdias, então concordarias que um simples respeito ao contexto evitaria tais equívocos. Afinal, o significa essa palavra “contexto”? Poder-se-ia pegar um dicionário e listar as várias atribuições desse verbete, mas para mim isso é falsa erudição de debatedor de internet. Ser-lhe-á inútil, caro leitor, o que as equipes do Aurélio ou do Houaiss acham para apreender a amplitude do termo “contexto” usado aqui. Grosso modo ele é assim definido:

    Conjunto hierarquizado de significados que definem o significado de um significante abaixo deles.

    E o que seria essa hierarquia? Bem, ordem crescente de generalidade:

    1. A palavra: Tive um professor de inglês que afirmou nunca dizer o significado de uma palavra inglesa a quem lhe perguntava. Em vez disso, sempre perguntava de volta: “Diga-me a frase em que ela aparece”. Um Dicionarista busca catalogar todos os significados de uma palavra, mas cada um deles só tem valor quando usado. Por isso, os bons dicionários vêm com pequenas frases de exemplo. Ainda assim, dicionários não são exaustivos, pois perdem sempre em versatilidade para o verdadeiro “dono” de uma palavra: quem a usa. Do contrário, o sentido delas não se modificaria com o tempo, não ocorreriam empréstimos, nem neologismos. Portanto, os dicionários são um bom ponto de partida, mas nunca de chegada. O passo lógico seguinte é avaliar a palavra na frase para descobrir qual o significado listado mais afim ou até mesmo deduzi-lo a partir do que se está tratando. Caso persistam dúvidas, há o arbítrio último do autor do texto, que pode tê-la usado mais de uma vez, dando outras frases para exemplo; tem um tema a tratar, devendo a palavra se enquadrar nele; ou, simplesmente, é um representante de uma cultura e época que davam um uso distinto para ela. Um dos casos mais ridículos que já vi de desrespeito a esse princípio é quando apologistas espíritas tentam definir a palavra grega “palingenesia” como “reencarnação” quando ela, na verdade, tem vários significados registrados e seus antigos usuários, inclusive os pagãos, podiam estar muito bem desconsiderando o assunto de “transmigração da alma”.

    2. A frase: Uma frase pode ser considerada a unidade básica para a transmissão de uma informação. As mais curtas podem transmitir apenas ideias simples de forma inequívoca e quanto mais sofisticada a informação a se passar, maior tem de ser a frase, por composição de várias orações, ou usam-se várias frases para compor um parágrafo. Quem escreve deve, pois, ter o cuidado para explanar seu raciocínio o mais pormenorizado possível, para não dar margem a ambiguidades, sem chegar a ser maçante. Quem lê deve tomar cuidado para não enxergar no texto ideias que na verdade são suas, como se quisesse dizer ao autor o que ele tem de pensar. Por exemplo, de experiência pessoal, já vi espírita que encarou a citação feita acima sobre Basílides como uma prova de que Paulo cria na reencarnação. Cada um vê o que quer…

      A um problema adicional, porém, está arriscado a surgir quando o leitor recebe um material de segunda mão. Leia o seguinte:

      Esses campos [nazistas], em Sobiór, Belzec e Treblinka, não eram campos de concentração e não tinham equivalentes no Gulag soviético.

      Davies, Norman; Europa na Guerra, 1939-1945: Uma vitória nada simples, Record, 2009, cap. V, “Genocídio”, p. 396.

      Pronto, quem ler isso pode começar a cogitar que o autor, Norman Davies, é um revisionista do Holocausto judaico buscando reduzir o número de vítimas para “livrar a cara” dos nazistas. Agora leia a frase imediatamente seguinte:

      Eram pura e simplesmente estações de extermínio, consistindo em um terminal ferroviário, um complexo de câmaras de gá e crematórios.

      Idem.

      Isso muda tudo, não? As frases, tal como as palavras, também só têm real significado em meio a outras. O que apresentei não passou de um exemplo proposital e didático de uma falácia chamada pelos anglófonos de misquotation, uma palavra sem tradução exata, mas que pode ser entendida como “má citação, proposital ou não, que distorce o sentido original”. Há várias formas de conseguir esse efeito:

      • Citação falsa – o autor simplesmente nunca disse isso;
      • Atribuição errônea – a citação é outra pessoa;
      • Má tradução – intencional ou por imperícia;
      • Omissão de frases antes do texto – elas poderiam demonstrar que a intenção de um autor era expor uma opinião que não era dele ou que falaria de uma opinião antiga;
      • Omissão de frases após o texto – ocorre quando explicariam melhor o que se queria dizer, que se estava apenas num exercício retórico ou demostrariam um mudança de opinião;
      • Uso indevido de elipses – uma elipse “(…)” é um recurso válido para se poupar o leitor de textos demasiado longos, porém o uso mal intencionado dela está em omitir o que não é supérfluo.

      Sem dúvida, misquotation é a falácia mais utilizada por espiritualistas quando lidam a patrística. Não esquecendo que ela ocorre no trato deles com a Bíblia, como o uso de I Cor 15:50 para provar a ressurreição puramente espiritual. Repare só:

      Digo-vos, irmãos: a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorruptibilidade.
      I Cor 15:50

      Mas …

      Digo-vos, irmãos: a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorruptibilidade. Eis que vos dou a conhecer um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num instante, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final; sim a trombeta tocará, e os mortos ressurgirão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Com efeito, é necessário que este ser corruptível revista a incorruptibilidade e que este ser mortal revista a imortalidade.

      I Cor 15:50-53

      E aí, mudou alguma coisa? Será que um teólogo protestante/católico não poderia dizer que arrebatado Elias pôde viver no Céu por ter sido “transformado”? Bem, isso é assunto para outra ocasião.

    3. A obra: Cada autor tem pelo uma mensagem básica a passar. Caso tenha se baseado em mais de um predecessor, pode muito bem ter deixado passar algumas das ideias deles em sua edição. Ao se identificar exatamente quais são as ideias das quais um autor em questão queria convencer sua plateia, fica mais fácil entender como ele interpretava os livros da Escritura que o antecederam. Da mesma forma, qualquer suposição que contrarie a mensagem básica deve ser descartada. Por exemplo, as interpretações do livro de Jó usadas para justificar noções de “ação e reação” ou karma devem ser desconsideradas como originais do autor, pois uma das premissas básicas desse livro era a inocência do personagem Jó.

    4. O autor: O problema principal da autoria … é que ela muitas vezes é desconhecida. Chamam-se de apócrifos (“ocultos” em grego) os livros que se encontram nessa situação e os teólogos tendem a desconsiderá-los como material para suas religiões. A classificação, contudo, é por demais injusta, pois mesmos os evangelhos tidos como canônicos e boa parte das cartas não foram escritos pelas pessoas que lhes dão nome aos títulos. Os autores dos evangelhos nunca nomearam a si mesmos e o estilo de certas cartas atribuídas a Paulo – como Hebreus – é muito diferente das genuinamente paulinas. Sendo assim, nenhum religioso terá autoridade para determinar quem é válido ou não. A necessidade do estudo em questão é quem dirá isso. Por outro lado, continuar-se-á a chamar os anônimos autores dos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, por pura praticidade. Embora desconhecidos, esses autores deixaram rastros com informações importantes sobre si: seu estilo, quais fontes usaram, que experiência de vida tinham suas comunidades. Com isso podemos identificar “anônimas” que tiveram o mesmo autor (Evangelho de Lucas e Atos) e outras que, tendo uma mesma autoria pela tradição, foram redigidas por pessoas diferentes (O Evangelho de João e Apocalipse); ajudando o pesquisador a classificar as obras por afinidade e estudá-las de forma agrupada ou em separado.

    5. A cultura: Cada autor viveu em determinada comunidade, de um específico local, em uma limitada faixa de tempo, possuía um público-alvo definido e partilhava de alguma tradição literária precedente e a de então. Atribuir a ele algo que destoe das circunstâncias que em que viveu é, no mínimo, temerário. Por exemplo, enxergar reencarnação em Ex 20:5 não faz sentido ao se levar em conta que Êxodo foi escrito numa época em que até mesmo o conceito de pós-morte era nebuloso no judaísmo.

    Talvez o leitor possa questionar se não há certa circularidade na busca pelo “contexto”, afinal usamos palavras para definir outras, frases para entender outras e manifestações culturais para situar uma específica. Sim, há sempre algum grau de circularidade, mas é possível escapar disso cruzando dados entre os diversos níveis acima e rejeitando as hipóteses de contexto destoantes. Por exemplo, ainda que se insista em amenizar Ex 20:5 com uma interpretação reencarnacionista, alegando que o justo não deve pagar pelo pecador, há várias outras passagens no Antigo Testamento de punições hereditárias (embora algumas as neguem) e o Pentateuco está cheio de penas capitais e passagens indigestas aos olhos contemporâneos. Como é difícil suavizar tanta coisa, melhor considerar Ex 20:5 como mais uma dessas passagens ásperas.

    Há algum grau de subjetividade na busca pelo contexto? Sem dúvida! Mesmo assim é a melhor maneira de analisar algo que, de outra seria pior. Ou será que preferes criar teu próprio contexto particular e buscar na Escritura só aquilo que o corrobora? Cristãos fizeram isso com o Antigo Testamento, os gnóstico fizeram com o Novo e espíritas o fazem com os dois!

    Curiosamente, é não é incomum em discussões com devotos (católicos, evangélicos e espíritas) que os próprios tomarem a iniciativa de dizer: “isso deve ser contextualizado”. Concordo, lembrando apenas que tal contexto é o de dois mil anos atrás (ou mais). E ele não existe mais.[topo]

  10. A Bíblia NÃO é intérprete de si mesma: Agora muitos dos que fizeram cursos de teologia vão querer me matar, mas estou jogando fora a “regra de ouro” da Hermenêutica (A ciência/arte da interpretação bíblica). Concordo que o princípio de que a Bíblia é capaz de explicar a ela mesma – ou melhor, uma passagem obscura pode ser esclarecida por outra mais fácil e o simples contexto pode explicar muita coisa -, foi estabelecido com as melhores intenções. Entre elas, permitir aos teólogos realizar uma boa “exegese” (aplicação prática das regras da hermenêutica) e evitar a “eixegese” (pinçar na Bíblia passagens que corroboram ideias pré-concebidas). Mas não é assim que a coisa funciona na prática, pois se dermos exclusivamente uma Bíblia para um grupo de pessoas lerem, várias interpretações podem surgir conforme cada leitor. E não é para menos:

    • A Bíblia não é autossuficiente: O Antigo e o Novo Testamentos estão pontilhados de citações e referências a livros que ficaram de fora da Bíblia. Vários livros populares à época de Jesus (Enoque, Jubileus, etc.) também ficaram fora dela, mas o que eles diriam a respeitos dos interesses de seus primeiros leitores?

    • A Bíblia não é um bloco monolítico: A Bíblia abarca uma ampla faixa de tempo da literatura hebraica e a rápida ramificação que ocorreu no cristianismo após a morte de Jesus. São livros que podem ser agrupados por afinidades em “subcânons”. Não é bem provável que uma passagem de um “subcânon” elucide a de outro;

    • Contexto não é simplesmente texto: é preciso levar em conta para quem o autor escreveu e por quê.

    Se você acha que isso é balela e o uso adequado de alegorias resolve tudo, então me responda:

    • Você conseguiria com uma simples leitura de um texto entender qual o cerne da mensagem dele, qual seu ponto de inflexão, clímax, etc?

    • Uma simples passagem pode ser entendida sem levar em conta os temas tratados pelo autor?

    • Pode uma simples leitura identificar o que estaria ocorrendo nos bastidores da realidade em que viviam seus primeiros leitores?

    • Pode uma simples leitura de um texto lhe dizer qual foi o legado doutrinário que um autor recebeu ou em quais fontes ele se baseou?

    • Seria razoável desconsiderar informações auferidas de outras formas de literatura ou da arqueologia?

    Por esses e outros motivos foram elaborados os “métodos de interpretação”, para que pudéssemos descobrir qual era a intenção do autor e evitar que julguemos o passado com nossos olhos. São eles que separam um olhar de historiador daquele de um mero religioso.
    [topo]

  11. Usar alguma metodologia de interpretação: Caso se reúnam dez pessoas para interpretar algum texto relativamente longo, é provável que surjam dez interpretações diferentes, mesmo que a intenção do autor tenha sido uma só. Para balizar a busca por ela, foram desenvolvidos alguns métodos (cf. [Ehrman], cap. XII, p. 192):

    • Método Literário-histórico: busca estabelecer o gênero literário de uma obra (biografia, carta, narrativa histórico, apologia, etc.) e é útil para entender como aquele gênero “funcionava” no contexto histórico em que era usado (ex.: Evangelhos);

    • Método Redacional: analisa como um autor modificou suas fontes a fim de ver quais eram seus interesses ocultos;

    • Método Comparativo: Analisa as similaridades e diferenças entre duas obras, ignorante ao fato de se uma é fonte da outra, a fim de encontrar suas ênfases distintivas;

    • Método Temático: Determinas os principais temas de um livro e examina como esses temas são apresentados ao longo da narrativa ou da argumentação;

    • Método Sócio-histórico: Tenta reconstituir a história social que jaz por trás de um documento, tomando pistas do próprio texto – como o auxílio de outros métodos – e estabelecendo um conjunto plausível de circunstâncias históricas que possa explicá-las;

    • Método Contextual: É o reverso do anterior: usa a reconstruída história social da comunidade que jaz atrás do texto para estabelecer o contexto histórico do qual o autor fala, lançando luz sobre o significado do texto.

    [topo]

  12. Separar o “Jesus da fé” da “fé de Jesus”: Leia atentamente o Credo Apostólico:

    Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso,
    Criador do céu e da terra.
    E em Jesus Cristo,
    seu único Filho
    nosso Senhor.
    Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo,
    nasceu da Virgem Maria,
    padeceu sob Pôncio Pilatos,
    foi crucificado, morto e sepultado,
    desceu à mansão dos mortos,
    ressuscitou ao terceiro dia,
    subiu aos Céus
    está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso,
    donde há de vir julgar os vivos e mortos.
    Creio no Espírito Santo,
    na Santa Igreja Católica,
    na comunhão dos santos,
    na remissão dos pecados,
    na ressurreição da carne,
    na vida eterna.

    Pergunta: tirando Pôncio Pilatos e a crucifixão, o que do Credo pode ser considerado histórico?

    Resposta: Nada.

    O que temos aí é o Jesus paulino, o Jesus da fé, como ele é lembrado por seus seguidores. O que o Jesus de carne e osso realmente quis dizer sobre si e sua mensagem é que são o grande desafio do historiador. A ele, voltamos mais tarde. Por enquanto, informo que o Jesus “Governador do Planeta” é tão da fé quanto o nascimento virginal. Se você me vier com uma defesa envolvendo o suposto “Consenso Universal dos Espíritos”, então vejo-me no direito de exigir os dados estatísticos desse “Consenso” e os cuidados que tomaram para que não fosse um mero “falso positivo”. Como sei que você não os tem, volte quando refizerem a pesquisa de Kardec, de preferência envolvendo médiuns de todo o planeta. Vai que o governador é, na verdade, Buda?
    [topo]

  13. O que Jesus disse é diferente do que escreveram que ele disse: Assim como, existiram alterações nos textos bíblicos após sua redação, nada impede que outras alterações tenham ocorrido antes de ela ser feita. Que digam discrepâncias entre as bem-aventuranças de Mateus e Lucas e suas versões do Pai Nosso. Para ser mais sincero, o quadro pode ser bem desolador: 82% das palavras de Jesus nos evangelhos pode ser considerado material duvidoso ou espúrio, pelo menos segundo os estudiosos do Jesus Seminar em sua obra The Five Gospels (os canônicos e Tomé). Seus critérios para descartar esse ou aquele dito são:
    • Indícios de plágio pelos evangelistas: Por exemplo: o aforismo “Não necessitam de médico os sãos, mas sim os enfermos” (Mt 9:12) é encontrado também na literatura pagã.
    • Linguajar cristão antes do cristianismo: A frase “Se alguém quiser me seguir, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16:24) está mais para uma justificativa para sua crucifixão por parte de Mateus.
    • Falas extremamente longas: É muito duvidoso que uma tradição oral pudesse preservar tão bem exposições complexas.
    • Falas de Jesus a respeito de si mesmo: O evangelista provavelmente colocou na boca de Jesus o que sua comunidade achava que ele era. É o Jesus da fé, não a fé de Jesus.
    • Texto em conformidade com seus tecido social:Não é o discípulo mais do que o seu mestre, nem o servo mais do que o seu senhor” (Mt 10:25, cf. Lc 6:40). Se Jesus histórico fosse tão enquadrado, não teria sido crucificado.
    • Textos destoantes do contexto em que Jesus viveu: Todos os ditos de Tomé com viés gnóstico, pois a inserção do gnosticismo em grupos cristão foi tardia.

    Quem mais sai perdendo nesses critérios é João, com seus longos discursos e seus vários “Eu sou“. Quase nenhuma das falas de Jesus desse evangelho pode ser atribuída à personagem histórica, inclusive o versículo 14:26. Os sinópticos e metade dos ditos de Tomé se saem melhor por seu conteúdo atender mais aos critérios de “declarações de maior probabilidade”:

    • Parábolas e aforismos: Porque, em geral, são curtos e mais fáceis de memorizar.
    • Ditos que apareçam em mais de uma fonte: O famoso critério da “múltipla atestação”. Neste caso, os ditos não-gnósticos de Tomé revelam surpreendente valor, pois são uma fonte independente dos sinópticos.
    • Frases difíceis ou constrangedoras: Ensinos de difícil execução – como “dar a outra face” (Mt 5:39) devem retroceder a Jesus, pois a tendência natural é suavizá-los.
    • Frases que cortem o tecido social e religioso de sua época: Jesus de forma alguma incomodaria o status quo se não o fizesse. Se ajustam nesse critério as parábolas do “bom samaritano” (Lc 10:30-35) e “o fariseu e o coletor de impostos” (Lc 18:10-14), pois nelas indivíduos desprezados fariseus (tidos como a nata da devoção judaica da época) aparecem em melhor condição que eles.
    • Ditos de grande originalidade e alto impacto devem ter sido de Jesus: O famoso “Dai a César o que é de César e dai a Deus o que é de Deus” (mt 22:21) é tido como autêntico de Jesus.

    Há, além disso, a questão dos ditos de Jesus que se repetem entre os evangelhos, mas não de forma igual. Para decidir qual é o preferível, há algumas pedras de toque, como:

    • Os evangelistas tendiam a suavizar passagens difíceis: O aforismo de Marcos “muitos dos primeiros serão os últimos e dos últimos muitos serão os primeiros” (Mc 10:31) é uma versão mais suave do fecho da parábola dos trabalhadores na vinha: “os últimos serão os primeiros e os primeiros, os últimos” (Mt 20:16). O tratamento de Marcos pode deixar o aforismo mais palatável a nossa experiência cotidiana, mas justamente por isso fica menos provável de ter sido original de Jesus, que preferiria chocar o público ao reverter o tratamento esperado.
    • Os evangelistas tendiam a expandir textos para explicá-los e adaptá-los a sua teologia: Por exemplo, veja Mt 11:12-15

      E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele. Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

      Compare com Lc 16:16

      A lei e os profetas duraram até João; desde então é anunciado o reino de Deus, e todo o homem emprega força para entrar nele.

      Ambos falam de João Batista como último profeta antes da chegada do Reino de Deus e da violência usada para se chegar a ele. A ordem de um está invertida em relação outro e, como não há terceira fonte para comparação, não é possível precisar o dito original. A questão é o trecho destacado sobre a identidade de João Batista com Elias, que possui o tremendo cheiro de uma glosa posterior (oral ou escrita) que entrou no texto principal. E é bem provável que tenha sido isso mesmo, pois a ênfase toda de Mateus é apresentar Jesus como o Messias esperado, adequando sua vida às profecias messiânicas. No caso, precursão de Elias dita em Mt 11:10, em referência a Ml 3:1.

    • São preferíveis as variantes com as quais seus primeiros ouvintes mais se identificariam: Na oração do Pai Nosso (Lc 11:2-4/ Mt 6:9-13), Lucas transcreve “perdoai os nossos pecados“, enquanto Mateus pede o perdão de dívidas. Para um povo pobre e oprimido por coletores de impostos, qual versão o leitor acha que eles associariam mais a sua realidade?

    Informa-se que há mais critérios de aceitação ou rejeição em Five Gospels, estando aqui apenas uma amostra. Também se deixa claro que esses critérios dependem de que tipo de Jesus se tenha em mente. O Jesus Seminar rejeita Jesus como profeta apocalíptico e, com isso, todas as passagens com esse viés (Marcos, principalmente) são dadas como pertencentes ao evangelista em questão, não a Jesus. [topo]

  14. As duas tradições evangélicas: Pode-se dividir os evangelhos em dois grandes grupos: os sinópticos, que admitem um resumo (sinopse) comum entre eles, e João. As diferenças na forma como esses dois conjuntos retratam Jesus chegam a ser gritantes:
    Sinópticos João
    • Começa com João Batista ou histórias da natividade e infância.
    • Jesus é batizado por João.
    • Jesus fala em parábolas e aforismos.
    • Jesus é um sábio.
    • Jesus é um exorcista.
    • O Reino de Deus é o tema de seus ensinos.
    • Jesus fala pouco de si mesmo.
    • Jesus toma partido dos pobres e oprimidos.
    • O Ministério público de Jesus dura um ano.
    • O incidente do Templo é tardio.
    • Jesus toma a Última Ceia com seus discípulos
    • Viés apocalíptico forte ou mediano.
    • Baixa cristologia (Jesus humano).
    • Começa com a criação. Nenhum registro sobre nascimento ou infância.
    • O batismo de Jesus é pressuposto.
    • Jesus fala em longos e elaborados discursos.
    • Jesus é um místico.
    • Jesus não faz exorcismos.
    • O próprio Jesus é o tema de seus ensinamentos.
    • Jesus reflete extensamente sobre si e sua missão
    • Jesus tem pouco a dizer sobre os pobres e oprimidos.
    • O ministério público dura dois anos.
    • O incidente do Templo ocorre cedo.
    • Lavagem dos pés e “Discurso de Despedida” no lugar da Última Ceia.
    • Ausência de escatologia.
    • Baixa e alta cristologia (Jesus divino).

    São duas visões de Jesus inconciliáveis do ponto de vista histórico, um impasse que é resolvido ao se lembrar que o valor de João como fonte histórica é consideravelmente menor que o dos sinópticos. A regra geral é algo como “quanto mais místico, menos histórico é o Jesus”. A ortodoxia cristã, porém, quis ambos. O resultado foi uma intrincada teologia capaz de abranger um amplo leque de cristianismos do século II. Mas todo esse ecletismo teve de uma desvantagem o deixar a ortodoxia vulnerável ao ataque de outros grupos cristãos de doutrina mais simples. Uma demonstração moderna disso é encontrada nas discussões acerca da Trindade, quando católicos e evangélicos ressaltam o caráter divino de Jesus contido em João e grupos unitaristas – espíritas e Testemunhas de Jeová – centram-se no aspecto humano contido nos sinópticos. Situação oposta ocorre quando se trata da ressurreição, sendo a vez de os espíritas realçarem a valorização que o evangelho de João faz do “Espírito”, ao passo que a maioria das demais denominações cristãs enfatiza a restauração corporal dos sinópticos e de Paulo.
    De certa maneira, essa atitude consiste em “jogar com os evangelhos”, conforme a conveniência. Para evitar isso, um evangelho, ou melhor, qualquer livro da Bíblia não será usado para o entendimento de outro sem que se verifique se pertencem a tradições similares. [topo]

  15. Resolva o quebra-cabeça sinóptico: Quem quer leia os três primeiros evangelhos na ordem em que são tradicionalmente publicados nas Bíblia, logo de cara poderá ter a impressão que Marcos não passa de uma condensação de Mateus e Lucas parece uma versão editada dele. Como esses três contam essencialmente a mesma história, é possível lê-los de outra forma: em paralelo. Essa nova abordagem revela alguns fatos interessantes:
    • Quase tudo que aparece em Marcos, também aparece em Mateus e Lucas, ainda que não literalmente.
    • Em geral, quando Lucas destoa de Marcos, Mateus concorda.
    • Da mesma forma, quando Mateus destoa de Marcos, Mateus concorda
    • Quando tanto Mateus e Lucas destoam de Marcos, raramente ambos concordam entre si.
    • Há passagens exclusivas de Mateus.
    • Outras são exclusivas de Lucas.
    • Há um grande conjunto de passagens que são comuns tanto a Mateus e Lucas (as bem-aventuranças, o Pai Nosso, etc.), coincidindo, às vezes, palavra a palavra.

    Uma solução proposta para esse intrincado relacionamento e muito aceita entre os acadêmicos é a seguinte:

    • Marcos precedeu Lucas e Mateus, tendo sido usado para construir o fio narrativo deles. A pedra de toque para isso é que quando ambos destoam de Marcos, raramente o fazem igual, mostrando que os evangelistas agiram de forma independente em cima de uma fonte comum (Marcos). Outras vezes apenas um decidia alterar enquanto o outro mantinha a redação original de Marcos. Qualquer outro arranjo entre os três sinópticos não consegue explicar com tanta praticidade esses fatos.
    • Teria existido um documento, tecnicamente de chamado de “Q” (do alemão Quelle, “fonte”), que foi usado por Mateus e Lucas para a redação de seus evangelhos. Q não teria nenhum fio narrativo, mas um apanhado de ditos e feitos atribuídos a Jesus que foram independentemente encaixados dentro da narrativa de Marcos.
    • Existiu uma fonte oral ou escrita para as passagens exclusivas de Mateus (M) e outra para as de exclusivas de Lucas (L)

    Lucas, na introdução de seu evangelho (Lc 1:1-4), já dava a entender que trabalhou em cima de material legado. Aqueles que se debruçaram sobre o relacionamento entre seu evangelho e os outros dois sinópticos identificaram ao menos duas dessas fontes – Marcos e Q – também usadas por Mateus. Isso é crucial, pois permite saber onde e como esses evangelistas modificaram seus predecessores e cogitar o porquê.

    Hipótese das quatro fontes.

    Hipótese das quatro fontes.

    Não se pode deixar de comentar as controvérsias acerca de Q. A principal delas é o fato de ele, até o presente momento, ser apenas hipotético. Sua existência foi pressuposta no século XIX a partir da leitura em paralelo dos sinóptico, mas nenhum documento foi achado até agora. Isso gerou certo ceticismo quanto a existência de um evangelho formado quase todo por fragmentos soltos. Uma reviravolta, porém, ocorreu em 1945 com a descoberta da biblioteca gnóstica de Nag Hammadi, no Egito. Um de seus livros era justamente um evangelho de ditos – Tomé – muitos deles com similares nos sinópticos. Isso aumentou em muito a confiança na hipótese de Q. A seu favor também está a concordância literal em algumas das passagens comuns entre Lucas e Mateus (Mt 6:24/Lc 16:13, Mt 7:7–8/Lc 11:9–10), algo difícil de ocorrer se trabalhassem com tradição oral. Outro problema é saber exatamente o que estava em Q. Será a interseção entre Lucas e Mateus tudo de Q ou algo ficou de fora? Não seriam as fontes M e L partes de Q usadas por apenas um evangelista e descartadas pelo outro? Teria Q tido uma narrativa da Paixão? Essas são perguntas sem resposta enquanto não se encontrar um manuscrito de Q, embora ainda haja quem tente reconstruí-lo com precisão.


    * * *

  16. Parecidos, mas não idênticos:

    Embora tenham uma forte dependência entre si e vários pontos em comum, cada evangelho sinóptico mostra uma face diferente para Jesus, a saber:

    • Marcos: Jesus é apresentado como “Filho de Deus” no sentido judaico da palavra: um humano com uma relação íntima com Deus, capacitado por Ele para pregar sua Palavra e realizar milagres. Contundo, Jesus foi incompreendido por seu povo, que não o identificou prontamente (Mc 8:28) e combatido pelos líderes dele. O ponto de inflexão da narrativa é a cura de um cego em duas etapas (Mc 22-25), inicialmente ele vê as pessoas distorcidas (árvores ambulantes) e só depois de uma segunda intervenção enxerga plenamente. Como uma analogia, é a partir daí que os discípulos começam a ter um entendimento de sua missão (Mc 8:28), mas não com clareza (Mc 8:32-33). Só no último capítulo é que alguém diz exatamente o que ele é e, por sinal, foi um pagão (Mc 15:39), deixando a entender que são os gentios os que realmente compreenderam Jesus. O rasgo do véu do Templo (Mc 15:38) simboliza o fim da separação entre o altar do sacrifício e o mundo exterior, pois Jesus fora a imolação definitiva, como ele mesmo alegara (Mc 8:31) ser necessário. O sofrimento da paixão de Jesus, para esse evangelho, foi o que trouxe a salvação à humanidade.

      Outro aspecto peculiar de Marcos é o famoso “segredo messiânico”: Embora a identificação de Jesus como “Filho de Deus” apareça logo de cara (1:1), ao longo da narrativa Jesus parece se esforçar para manter em segredo sua identidade (1:34, 1;43, 3:12, 5:43): demônios são impedidos de expô-lo, os beneficiados dos milagres devem manter segredo sobre Jesus e até seus discípulos, quando um o identifica, devem guardar a informação consigo (8:30). É um contraste grande com o Jesus de João, que não faz apenas milagres, mas espetáculos. O que teria levado Marcos a retratar Jesus assim? A mais polêmica resposta dada foi feita pelo estudioso alemão William Wrede: O Jesus histórico jamais se proclamou Messias e como essa alegação teria surgido apenas após sua morte, Marcos inventou histórias que justificassem um sigilo em vida. Um explicação mais amena é que Jesus preferiu se ocultar para que não fizessem um juízo errôneo dele, já que não era um grande príncipe ou o guerreiro cósmico esperado pela massa dos judeus. É uma discussão ainda em aberto e com muito “pano para manga”.

    • Mateus: É o mais judaico dos evangelhos e sua ênfase está em (1) mostrar a vinda de Jesus como um fiel cumprimento das profecias messiânicas (um novo “Moisés”, nascido de virgem, precedido por “Elias”) e (2) seus ensinos centram-se em mostrar qual seria a verdadeira aplicação da lei mosaica. Ao contrário do que se pensa, o Jesus de Mateus de forma alguma veio abolir a Lei:

      Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido.
      Mateus 5:17-18 (Sermão da Montanha)

      A diferença básica é que os seguidores de Jesus deveriam cumprir a Lei de uma forma ainda melhor que a preconizada pelos fariseus e outros “doutos” (Mt 5:20). Subjacente a cada mandamento, haveria algo mais profundo e essencial da Lei, Isso fica patente nas chamadas “antíteses” do Sermão da Montanha, por exemplo:

      Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo.

      Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno.
      Mateus 5:21-22

      Se a verdadeira causa do assassínio era o ódio, não se deve apenas se conter para não matar, mas sim combater esse sentimento negativo. De forma análoga:

      Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério.

      Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.
      Mateus 5:27-28

      No caso, deve-se eliminar a cobiça.
      Todos esses princípios podem ser condensados numa única “Regra de Ouro”, estabelecida no mesmo Sermão:

      Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas.
      Mateus 7:12

      Talvez o leitor já esteja pensando: “nada disso é caracteristicamente judaico”. De fato, um gentio pode muito bem concordar com tais princípios de vida, o que não significa que eles seja acréscimo a Marcos feito por um cristão helênico. Na verdade, houve outros rabinos do mesmo período – como Hiliel – que propuseram fórmulas similares à Regra de Ouro. Se Jesus teve correspondentes quanto à parte ética do judaísmo intertestamental, estaria ele também de acordo com seu aspecto ritual, isto é, as práticas que realmente distinguem os judeus de outros povos como a circuncisão masculina, alimentação kosher ou a guarda do sábado? O Jesus de Mateus, sim, parece se preocupar. Principalmente se comparado ao de Marcos. Eis duas “pedras de toque”:

      1. No famoso dito “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem” (Mc 715/Mt 15:11), apenas Marcos coloca como adendo uma explicação de Jesus em que ele afirma que todos os alimentos acabam se “tornando puros” (Mc 7:19);
      2. Em seu “Pequeno Apocalipse”, o Jesus de Marcos lança um alerta: “Orai, pois, para que a vossa fuga não suceda no inverno.“. Mateus acrescenta “nem no sábado” (Mt 24:20).

      Não é possível, contudo, saber se a versão que temos hoje de Marcos foi editada por cristãos helênicos ou se Mateus judaizou Marcos.

      Vale ressaltar que Mateus não era refratário a ideia de gentios também partilharem da salvação e é provável que a comunidade marcana fosse mista, como sugerem as passagens da cura de um servo de um centurião (Mt 8:5-13) e a ordem para fazer discípulos de “todas as nações” (Mt 28:19). O que não se pode decidir é se esses prosélitos gentios deveriam também se tornar judeus ou se estariam dispensados disso, como Lucas deixou claro em Atos (a continuação de seu evangelho) ou ficou implícito em Marcos.

    • Lucas: Não é possível entender a mensagem Lucas sem levar em conta seu “segundo volume”: Atos dos Apóstolos. Ambas são dedicadas ao mesmo patrono(Teófilo), possuem o mesmo estilo e um único objetivo: mostrar como a salvação começou com os judeus e se espalhou para todo o mundo. A ênfase inicial de Lucas está em mostrar o Templo de Jerusalém – o centro da fé judaica – como ponto de partida da salvação. É nele que a narrativa começa e termina, onde Jesus sofre a última das tentações (diferentemente de Mateus) e para lá se dirige por longos dez capítulos (9 ao 19), em vez da rápida viagem de Marcos (apenas o décimo capítulo). Contudo, a salvação vai ao coração do judaísmo apenas para lá ser rejeitada, pois o Jesus de Lucas reproduz muito da trajetória de profetas como Elias, Eliseu, Jeremias, Ezequiel e Amós, que tiveram sua mensagem rejeitadas pelos seus, tendo alguns sido martirizados. Neste evangelho a missão de Jesus consiste em nascer, viver, pregar, curar, sofrer e morrer como muitos desses profetas. Mas toda essa história de rejeição faz parte do “plano” ou “vontade” de Deus (4:43, 13:33, 22:37, 24:7, 26, 44). A certeza dessa tarefa faz com que, durante a paixão, Jesus tenha uma postura confiante ante à execração pública e morte iminente; algo bem diferente do que acontece em Marcos, em que Jesus aparenta estar em “estado de choque” a maior parte do tempo ante um contexto inteiro de desamparo. Para Lucas, a morte de Jesus não é o que traz salvação. Em seu evangelho o véu do Templo não se rasga, nem há frases como “o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mc 10:45, Mt 20:28) e centurião proclama “Na verdade, este homem era justo” (23:47) em de “Filho de Deus” (Mc 15:39).
      O verdadeiro motor da salvação só fica explícito em Atos em passagens como o discurso evangelístico de Pedro (At 2:30-41), quando é revelado que o principal pecado foi a assassínio do profeta de Deus. A ciência desse crime seguido pelo arrependimento é o que faz os homens se voltarem a Deus que, pela confissão de suas culpas, retribui com a absolvição dos pecados. Não foi a simples morte de Jesus que trouxe a salvação, mas o arrependimento que ela proporcionou. Óbvio que essa mensagem não foi aceita por todos os judeus, pois o messias esperado era diferente da figura de Jesus. De certa forma, então, os discípulos de Jesus reproduzem sua trajetória: recebem o Espírito Santo, pregam, curam, convertem, são rejeitados e perseguidos; mas a “boa nova” continua a se expandir conforme o mandamento de Lc 24:47 para que “e em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém “. No que diz respeito às “nações” (i.e., os gentios) entra em cena a figura de Paulo de Tarso, ex-perseguidor de cristãos, que converte-se após ter uma visão do próprio Jesus e torna-se um pregador infatigável no mundo helênico. A maior parte de Atos centra-se em sua trajetória e seu maior feito foi o de chegar a um consenso com os apóstolos originais de que os gentios não precisariam se tornar judeus antes de serem cristãos. Essa era uma questão em que Mateus foi omisso e Marcos superficial, mas Lucas, em seu segundo volume, foi categórico e a decisão supostamente tomada permitiu uma expansão muito mais ampla do cristianismo nascente no mundo greco-romano, que considerava estranhos muitos costumes judaicos.

      A necessidade de se pregar o evangelho ao mundo levou à mudança de expectativa quanto à chegada do “Reino de Deus”. Lucas também vê um final cataclísmico para o mundo tal como conheciam (21:7-32), mas sua data começou a ficar incerta. Embora tenha dito que aquela geração não passaria sem a vinda do cósmico Filho do Homem (21:32), não seria um acontecimento tão imediato como em Marcos, que assegurou ao próprio sumo sacerdote que ele veria “o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu ” (Mc 14:62). Em Lucas, a fala de Jesus é simplesmente que “desde agora o Filho do homem se assentará à direita do poder de Deus” (22:69), não há previsão alguma de que os anciãos presenciariam o fim daquela Era. Há de se compreender que o adiamento da Consumação Final é necessário no contexto criado por Lucas, a fim de que houvesse tempo para pregar o evangelho “à todas as nações”. Um corolário dessa foi uma maior preocupação “social” do Jesus de Lucas, enquanto o status quo não mudasse. Por exemplo, compare a maneira como as Bem Aventuranças em Mateus e Lucas:

      Mateus Lucas
      • Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. (5:3)
      • Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; (5:6)
      • Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. (6:20)
      • Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. (6:21)
      • Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. (6:24)
      • Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. (6:25)

      Para Mateus, os sofrimentos são mais morais que físicos e Lucas não se preocupa em apenas consolar os que sofrem: também é preciso punir os que agora vivem na abundância.

    * * *

    Ressalto um pormenor importante: todos os três reconhecem Jesus como judeu, profeta, messias e admitem a possibilidade de salvação para os gentios. O que os diferem é a ênfase que cada um dá.
    [topo]

  17. Outras fontes: Outros dois evangelhos a nos fornecer algum material de relevância sobre o que Jesus fez e/ou disse são os de João e Tomé. De certa forma, eles são complementares: quase nenhuma das falas de João pode ser considerada histórica, embora fatos nele relatados tenham paralelos nos sinópticos. Tomé não possui fio narrativo algum, sendo composto de 114 ditos atribuídos a Jesus. Metade deles aparenta ter cunho gnóstico, enquanto a outra metade possui análogos nos sinópticos, servindo de base para comparação. Não temos acesso explícito a nenhuma das fontes que os compuseram, mas algumas pistas deixadas entranhadas na redação deles poderão fornecer alguns vislumbres à pesquisa moderna. Vejamos cada um desses evangelhos:
    • Tomé: Quanto aos ditos gnósticos de Tomé, pegue o dito nº18 como exemplo:

      Os discípulos disseram a Jesus: “Diz-nos como será o nosso fim”. Jesus lhes disse: “Descobristes então o princípio para que possais perguntar sobre o fim? Bendito aquele que se mantiver no princípio, pois não provará a morte”.

      Ler esse dito sem nenhuma outra referência dá margem a uma miríade de interpretações, cada uma ao gosto do esoterismo que esteja em voga. Para se escapar da armadilhas dos “achismos”, deve-se ter em mente os princípios que norteavam os diversos sistemas gnósticos dos séculos II e III. Um deles é o estado perfeição original que existia antes do cataclismo que levou à queda da centelhas divinas e à criação do maligno mundo material. Escapar deste mundo e retornar “ao princípio” era a meta de um gnóstico. A maioria desse ditos exóticos só ganha um nexo quando enquadrada no gnosticismo.

      Acontece que o gnosticismo foi uma doutrina tardia dentro do cristianismo. Os ditos de Tomé com esse viés não têm valor histórico. Restam aqueles que possuem semelhança com outros dos evangelhos sinópticos, mas daí vem uma dúvida Tomé baseou-se nos canônicos (ou em Q) ou foi uma tradição oral registrada independentemente?

      Tomé chegou quase completo até nós numa tradução copta (a língua popular do Egito na época), descoberta na biblioteca de Nag Hammadi (1947). Antes disso, já se conheciam dezessete ditos dele em grego, a partir de fragmentos de papiro encontrados na cidade egípcia de Bechnesa, antiga Oxyrhynchus. A parte não gnóstica dos “papiros de Oxyrhynchus”, não revela uma correspondência literal com os canônicos, tal como há em Mateus e Lucas nos trechos extraídos de Q. Além disso, os ditos de Q aparentam ser versões mais curtas das passagens sinópticas. Como, em geral, os textos tendem ao crescimento quando passados de mão em mão, isso levanta a indagação: teria o autor de Tomé se baseado numa fonte não só distinta, como também mais antiga que as dos sinópticos?

      Toda dúvida reside na validade do princípio de “o texto mais curto é o melhor”. Há quem critique a aplicação dele com relação a Tomé (John P. Meier, Um Judeu Marginal, vol I, 3ª ed., cap V, pp. 130-5), pois a intenção de seu autor poderia muito bem ter sido mutilar os textos mais amplos para deixá-los enigmáticos, conforme o gosto gnóstico. Pode até ser, mas alguns ditos encontrados em Tomé mereciam certa reflexão. Confira:

      Tomé Sinópticos
      • Os discípulos disseram a Jesus: “Diz-nos com que se parece o Reino dos Céus”. Ele lhes disse: “É como a semente da mostarda, a menor de todas as sementes. Mas quando ela cai na terra arada, produz grandes galhos e se torna abrigo para os pássaros dos céu”. (Dito 20)
      • Ele disse: “O homem é como o pescador sábio que joga sua rede ao mar, e a puxa cheia de pequenos peixes; no meio deles, acha um peixe tão grande e bom que o pescador sábio devolve ao mar todos os pequenos peixes, escolhe o peixe grande sem remorsos. Quem tem ouvidos que ouça”. (Dito 8)
      • Disse Jesus: “Se um cego guia outro cego, ambos caem no abismo”. (Dito 34)
      • E dizia: A que assemelharemos o reino de Deus? ou com que parábola o representaremos? É como um grão de mostarda, que, quando se semeia na terra, é a menor de todas as sementes que há na terra. Mas, tendo sido semeado, cresce; e faz-se a maior de todas as hortaliças, e cria grandes ramos, de tal maneira que as aves do céu podem aninhar-se debaixo da sua sombra. (Mc 4:30-32)
      • Igualmente o reino dos céus é semelhante a uma rede lançada ao mar, e que apanha toda a qualidade de peixes. E, estando cheia, a puxam para a praia; e, assentando-se, apanham para os cestos os bons; os ruins, porém, lançam fora. Assim será na consumação dos séculos: virão os anjos, e separarão os maus de entre os justos, e lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. (Mt 13:47-50)
      • E dizia-lhes uma parábola: Pode porventura o cego guiar o cego? Não cairão ambos na cova? (Lc 6:39; compare com Mt 15:14, que é um pouquinho maior)
    • João:Ao fim do penúltimo capítulo desse evangelho, seu autor avisa:

      Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome. (Jo 20:30-31)

      Ele, implicitamente, assume que fez uma coletânea de material legado. Não é tão direto, como nos sinópticos, identificar quais foram suas fontes, mas variações de estilo ao longo de João permitem, ao menos, catalogar quais foram elas:

      • Um Hino à Jesus: O famoso “prólogo de João” (Jo 1:1-18), quando removido de suas referências a João Batista (vv 6-8, 15), ganha um interessante formato:

        No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

        Ele estava no princípio com Deus.

        Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

        Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.

        E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

        Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo.

        Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu.

        Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.

        Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome;

        Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.

        E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

        E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça.

        Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.

        Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.

        É nítido um padrão poético nessa passagem. Ouvir uma gravação dela em grego, mesmo com as referências ao “batista” quebrando o ritmo, é algo que me enternece. Ela provavelmente foi um antigo hino de louvor que recebeu glosas posteriormente.

      • Uma fonte de Sinais: São sete o total de sinais (entenda-se “milagres públicos”) relatados em João (das bodas de Caná à ressurreição de Lázaro). Pode ser mera coincidência, mas “sete” também é considerado como o “número de Deus” na Bíblia (o dia de descanso, o ano do jubileu, etc.). O que chama atenção é que os dois primeiros sinais são numerados (2:11 e 4:54) e os demais, por algum motivo, não. E por um lapso do autor, há uma indicação de que Jesus realizou mais sinais entre esses dois (2:23). É possível que o autor de João tivesse um livro missionário contendo longa enumeração de feitos miraculosos atribuídos a Jesus e selecionado sete dos mais chamativos.
      • Fontes de discurso Há uma redundância entre os capítulos 13 e 15, pertencentes ao “Discurso de Despedida”: Jesus ordena que os discípulos sem amem uns aos outros (13:34 e 15:9,12). Entre os capítulos 14 e 16 as repetições aumentam: em ambos Jesus diz que partiria deste mundo em pouco tempo, mas que seus discípulos não deveriam se preocupar porque viria o Consolador/Espírito Santo em seu lugar. Seu discípulos seriam odiados pelos mundo, mas também gozariam de instrução e encorajamento desse Espírito entre eles. Poderia ter sido apenas uma questão de ênfase, diriam alguns se não fosse uma senhora discrepância. No capítulo 13, Pedro indagou a Jesus “Senhor, para onde vais?” (13:36) e no capítulo seguinte foi a vez de Tomé dizer ““Senhor, não sabemos para onde vais ” (14:5). Um pouco mais tarde Jesus agiu como se tivesse problemas em fixar memórias recentes: ““E agora vou para aquele que me enviou; e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’“(16:5). A melhor explicação para esse quadro é a existência de duas fontes para o Discurso de Despedida, ambas muito similares nos temas tratados, mas díspares nos pormenores. Durante a edição de João, elas foram unidas sem que as incompatibilidades fossem sanadas. Talvez em respeito ao texto legado.

        Discurso de Despedida.

        As fontes para o Discurso de Despedida.

      • Uma narrativa da Paixão: A descrição feita por João da execução de Jesus é muito similar em vários aspectos a de Marcos. Não se sabe, porém, se ela deriva de uma fonte oral ou escrita.
      • Fontes menores: Além da origem do Prólogo, mencionada acima, o último capítulo de João também parece ter sido criado à parte. O penúltimo capítulo (o vigésimo) já poderia muito bem ser o encerramento do livro, mas se adicionou um capítulo extra como uma espécie de adendo para assinalar dois fatos importantes:
        1. A previsão do martírio de Pedro;
        2. A morte do “discípulo amado”.

        Esse último merece certa atenção. Atente ao diálogo entre o Jesus ressuscitado e Pedro:

        E Pedro, voltando-se, viu que o seguia aquele discípulo a quem Jesus amava, e que na ceia se recostara também sobre o seu peito, e que dissera: Senhor, quem é que te há de trair?

        Vendo Pedro a este, disse a Jesus: Senhor, e deste que será?

        Disse-lhe Jesus: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu.

        Divulgou-se, pois, entre os irmãos este dito, que aquele discípulo não havia de morrer. Jesus, porém, não lhe disse que não morreria, mas: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti?
        João 21:20-23

        Uma hipótese levantada entre os estudiosos é que a comunidade joanina originalmente acreditava que o retorno de Jesus no fim dos tempos se daria antes da morte desse anônimo “discípulo amado”. Como bem o sabem as Testemunhas de Jeová e os Adventistas do Sétimo Dia, uma previsão fracassada pode até não significar o fim de um movimento, mas diminui muito seu crédito. A forma final de João, com os devidos remendos, só ficou quase pronta após o martírio de Pedro e a morte do “discípulo amado”.

        “Quase” porque o episódio relatado em 7:53-8:12 (a “mulher adúltera”) não se encontra nos manuscritos mais antigos e melhores que chegaram até nós. Provavelmente se trata de um episódio que circulara oralmente por muito tempo até que um escriba o anotou marginalmente. Outros colocaram essa nota no texto principal e passaram adiante.

    • Estágios da comunidade Joanina: É preciso também levar em consideração de João é um amálgama de diversos registros de etapas diferentes da própria história de sua comunidade, a saber:
      1. Na Sinagoga: A comunidade joanina começou, evidentemente, como um grupo de judeus fiéis que acreditava ser Jesus o Messias esperado. No próprio evangelho de João, Jesus é chamado de “rabi”, “cordeiro de Deus” e “messias”, termos de ambientação judaica, pois seu público era judeu. Nas palavras de encerramento da chamada “fonte de sinais”:

        Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.

        Jo 20:30-31

        Ao que parece, essa fonte era uma coletânea para fins missionários, cujo o objetivo era convencer os judeus de que Jesus era o que esperavam. Não lhe são dados atributos divinos.

      2. Expulsa da Sinagoga: Há fatos no capítulo IX de João – o famigerado episódio sobre “o cego de nascença” – que não condizem com o esperado durante a vida de Jesus:

        Responderam os pais: Sabemos que ele é nosso filho e que nasceu cego.Mas não sabemos como ele pode ver agora ou quem lhe abriu os olhos. Perguntem a ele. Idade ele tem; falará por si mesmo. Seus pais disseram isso porque tinham medo dos judeus, pois estes já haviam decidido que, se alguém confessasse que Jesus era o Cristo, seria expulso da sinagoga.

        Jo 9:20-22

        Nem nos sinópticos, nem em Atos há relatos de expulsão dos cristãos das sinagogas durante a vida de Jesus ou bem no início da pregação do apóstolos. Os registros judaicos de expulsão de quem apontasse Jesus como Messias (ou qualquer outro) também são mais tardios. Então, o autor de João está narrando uma experiência vivida por sua comunidade, não por Jesus e seus discípulos.

      3. Contra a Sinagoga: Após a cisão do corpo principal do judaísmo, a comunidade joanina começou a desenvolver uma mentalidade de “nós contra eles”, levando a que a maioria das referências aos judeus fosse negativa, quando não francamente antissemita (cf. Jo 8:31-59). Começaram a ver Jesus não apenas como um portador da mensagem de Deus, mas a exclusiva corporificação dela, o Verbo do Pai. Como seu Verbo, ele existia desde o princípio, estando com Deus e sendo Deus, de alguma maneira. O judeus não teriam apenas rejeitado o Messias, mas seu próprio Deus. São nesses estágios tardios da comunidade joanina que aparecem o indícios de divinização de Jesus (o prólogo, 8:58, 10:30, etc).
  18. Considerar os “Cânons dentro do Cânon”:
    Boa parte das discrepâncias encontradas entre os livros bíblicos pode ser compreendida ao se levar em conta que eles foram escritos para públicos distintos. A própria ideia de “Cânon” – um conjunto definido de livros que abrangiam toda uma doutrina – não existia nos tempos de Jesus. Quem adentrasse uma sinagoga de então não encontraria a Tanach – a Bíblia Hebraica – em um lugar de destaque, mas um armário contendo vários rolos, um para cada livro. Quais deles seriam é algo que variava de seita para seita.

    O cristianismo, por sua vez, é herdeiro da Septuaginta, como é chamado um conjunto de traduções gregas de livros hebraicos. Como o mundo helênico já fazia a transição do rolo para o “códice”, a ideia de um cânon começou a se formar quando os componentes desse “texto recebido” (textus receptus) passaram a ser encadernados juntos. A formação cânon para o Novo Testamento é complexa e está fora do escopo aqui, mas pode-se dizer que o grupo que se tornou dominante no cristianismo a partir do século III – a proto-ortodoxia – realizou um grande apanhado das diversas tendências que existiam no cristianismo já no início do século II. Para ter uma noção das diversas ramificações que surgiram após a morte de Jesus, eis este esquemático:

    Evolução dos grupos cristãos.

    Desenvolvimento do cristianismo primitivo
    Adaptado de [Theissen, p.345].

    O entendimento dessas variantes no cristianismo do início do século II ajuda a explicar incompatibilidades como esta:

    E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano,

    E algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?

    Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.

    Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.
    Tg 2:15-18

    * * *

    Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus.

    Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.

    Não vem das obras, para que ninguém se glorie;

    Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.
    Ef 2:7-10

    São duas opiniões praticamente opostas sobre o papel das “boas obras”, reflexo da diversidade de “cristianismos” existente já no começo do século II. A proto-ortodoxia (ou protocatolicismo) rejeitou os extremos de judaísmo e de gnose, ficando ainda assim com muito para conciliar. Sua resposta foi exigir tanto fé como obras para a salvação, adotar uma interpretação alegórica do AT para justificar-se e amenizar passagens obsoletas ou questionáveis e deixar a data do segundo advento de Jesus indefinida, como prega o capítulo terceiro de 2 Pd. Todos os grupos autoproclamados cristãos modernos carregam a ênfase em um ou outro aspecto dos livros do NT. Os protestantes optam por uma religião predominantemente de salvação, subordinando as boas obras à fé. Os espíritas centram-se na ética e nas obras, não fazendo da fé em Jesus uma obrigação e não possuem escatologia alguma. Vale lembrar, também, os que tentam recriar o judeo-cristianismo e os neognósticos.

    Portanto, não é possível aceitar a tese de que “a essência de todas as religiões (cristãs) é a mesma”. Não o foi no passado e fazer isso no presente só é viável caso se pegue as semelhanças (cânon comum) e se desconsidere as imensas diferenças (particularidades de cada subcânon).

[Em construção]

E quanto aos essênios?

19 de outubro de 2011 Deixe um comentário

Carvernas onde foram encontrados os manuscritos do Mar Morto.

As Cavernas de Qumran: a Arca de Noé dos manuscritos essênios.

Vamos supor que você faça uma viagem ao extremo oriente e visite um templo budista. Fica admirado com a sinceridade do voto de pobreza dos monges, as vestimentas despojadas e características, suas cabeças raspadas, seu trabalho social, horas gastas em estudos doutrinários, hierarquia interna, atitudes contemplativas e meditação. Voltando aqui para o ocidente, é interpelado por um colega seu que é totalmente ignorante quanto aos hábitos fora de sua cultura. Sabendo que seu colega é católico, ou tenha algum conhecimento sobre o catolicismo, manda-lhe uma comparação com algo que mais familiar: “os monges budistas vivem como os frades franciscanos”.

Obviamente, foram ignoradas diferenças enormes: meditar não é orar (se bem que o efeito cerebral parece ser semelhante), a coroinha dos franciscanos não chega a ser uma cabeça totalmente pelada, os budistas não prestam contas ao Vaticano e, principalmente, o conceito de vida única não condiz com os ciclos de renascimento. Visto que a intenção foi apenas ilustrar, até que não foi nada de mais.

Seria perigoso, com tão pouca informação, deduzir as crenças budistas usando os franciscanos como referencial. Então, por que extrapolar que a seita dos essênios do século I acreditavam em reencarnação a partir de uma frase tão curta:

Estes homens [os essênios] levam o mesmo estilo de vida daqueles a quem os gregos chamam de pitagóricos.

Josefo, Antiguidades Judaicas, XV, cap.10.

Isto quer dizer que eles viviam em comunidades religiosas e reclusas, se assemelhando ao estilo de vida dos pitagóricos; ou que eles também professavam suas crenças na reencarnação? Ou melhor: na metempsicose, com a possibilidade de uma alma humana habitar um corpo animal.

No Preceito da Guerra (1QM II,1), há uma alusão a sacrifícios rituais: “Os sacerdotes-chefes ministrarão durante o sacrifício diário diante de Deus…” foram encontrados 26 depósitos de ossos de diversos animais em Qumran. Seria estranho se eles acreditassem em metempsicose e matassem animais, coisa que os pitagóricos evitavam. Mesmo para a alimentação. Vamos obter mais informação, então. Na continuação da mesma frase de Josefo em Ant. XV, 10; ele diz: “dos quais discursarei mais plenamente em outro lugar.” E aqui está esse “outro lugar”:

A doutrina dos essênios é esta: que todas as coisas são melhor atribuídas a Deus. Ensinam a imortalidade das almas, e consideram que as recompensas da retidão são zelosamente adquiridas com esforço, e quando enviam o que dedicaram a Deus para o templo, não oferecem sacrifícios porque têm mais pura lustração por conta própria; razão pela qual são excluídos do pátio comunitário do templo, mas oferecem sacrifícios por si mesmos; embora seu estilo de vida seja melhor que o dos outros homens; e eles se entregam inteiramente ao zelo da atividade econômica. Também merece nossa admiração o quanto eles excedem todos os homens que se entregam a virtude, e isto em correção e em tal grau que nunca apareceu entre qualquer grupo de homens, quer gregos, quer bárbaros; não, não for pouco tempo, visto que isto tem durado bastante entre eles. Tal fica demonstrado pela sua instituição, que nada sofrerá para impedi-los de ter todas as coisas em comum; de forma que o rico não desfrute mais de suas fortuna do que aquele que nada tem. Há cerca de quatro mil homens que vivem desta forma, que nem se casam, nem desejam manter servos; pensando que a última tenta os homens a serem injustos e a primeira dá espaço a disputas domésticas; mas como eles vivem por conta própria, ensinam um para o outro. Também indicam certos administradores para receber os lucros de suas rendas e dos frutos da terra; tal qual bons homens e sacerdotes, que aprontam seu trigo e alimento para eles. Não se diferem nenhum deles dos outros essênios em seus estilo de vida, mas se assemelham aos dacas, que são chamados polistas (citadinos*).

Antiguidade judaicas, livro XVIII, cap I
(*) Os dacas eram membros de uma seita pitagórica. Pouco se sabe quanto ao ramo dos polistas, se realmente viviam de forma monástica ou nas cidades, como o próprio nome diz.

Fica patente, aqui, que os essênios criam na imortalidade da alma, mas sem a ressurreição farisaica no fim dos tempos. A semelhança com os pitagóricos é quanto ao seu estilo de vida, não com as suas crenças. A atitude de Josefo foi a de usar comparações a para auxiliar seu público helênico de leitores, como explica [Vermes, cap. III]:

Segundo Josefo, eles adotaram um conceito de imortalidade claramente helenístico, sustentando que a carne é uma prisão da qual a alma indestrutível dos justos escapa para um êxtase infinito, “num lugar além do oceano”, depois de sua libertação final (1) (Guerra Judaica, II, 8).

A ressurreição, que significa o retorno do espírito ao corpo material, não pode assim fazer parte deste esquema.

Os manuscritos nada ajudaram neste particular, até recentemente. Encontramos afirmações tais como “Içai uma bandeira, ó vós que jazeis no pó! Ó corpos roídos pelos vermes, erguei um estandarte…!” (1QH VI, 34-5; cf. XI, 10-14), o que pode ter uma conotação de ressurreição corporal. Por outro lado, a linguagem poética pode ser apenas alegórica. Há mais informações sobre a imortalidade distinta da ressurreição. Elas confirmam a descrição de Josefo, embora – o que não é de surpreender – sem qualquer coloração tipicamente helenística (sem dúvida introduzida por ele para agradar a seus leitores gregos).

Outro texto importante de Qumran, “O preceito da comunidade” (1QS), cap. IV, assim descreve:

O julgamento divino de todos que caminham com este espírito será a saúde, uma vida longa em grande paz, e abundância, junto com todas as bênçãos eternas e alegrias infinitas numa vida sem fim, uma coroa de glória e uma vestimenta majestosa de luz infinda

Mas os caminhos do espírito da falsidade são estes: ganância e negligência na busca da retidão, maldade e mentiras, arrogância e orgulho, hipocrisia e engano, crueldade e mal abundantes, mau humor e muita insensatez e descarada insolência, atos abomináveis (cometidos) com espírito de luxúria, e conduta lasciva a serviço da impureza, uma língua blasfema, cegueira do olho e surdez o ouvido, cerviz dura, dureza de coração, assim caminha, assim caminha este homem para as sendas das trevas e do logro.

E o julgamento de todo aquele que caminha com este espírito trará incontáveis flagelos por intermédio dos anjos destruidores, maldição eterna por causa da ira vingativa de Deus, tormento eterno e desgraça infinita junto com a extinção vergonhosa do fogo das regiões escuras. Todas as suas gerações futuras decorrerão em tristes lamentações e amarga miséria, e em calamidades tenebrosas até que sejam todas destruídas, sem deixar rastro ou sobreviventes.

Fica nítida a crença em redenção e danação eternas, bem como uma crença das gerações seguintes pagando pelo pecado das outras. Curiosamente, os essênios poderiam ter um ponto em comum com os fariseus:

A liberação dos manuscritos em 1991 revelou, todavia, um texto poético, usualmente chamado de “fragmento da Ressurreição” (4Q521) que, fazendo eco com Isaías LXI, 1, descreve Deus na idade do Messias curando e revivendo os mortos. Se este poema for uma composição essênia, pode-se dizer que um dos 813 manuscritos de Qumran definitivamente comprova a crença da seita na ressurreição do corpo.

[Vermes, cap. III]:

E por falar em fariseus, é bom que se diga que os essênios não foram a única seita judaica da qual Josefo fez paralelos com a cultura grega:

Quando tinha eu cerca de dezesseis anos, tive a ideia de provar das diversas seitas que existiam entre nós. Havia três delas, a dos fariseus, os saduceus e a dos essências, como frequentemente lhes disse. Pensava que me familiarizando com todas elas, poderia escolher a melhor. Então me entreguei às asperezas, e me submeti a grandes dificuldades, e passei por todas elas. Nem mesmo me contentei em experimentar apenas dessas três, pois quando tomei ciência daquele cujo nome era Bano, que vivia no deserto, e não usava outra vestimenta senão o que crescia sobre as árvores, e não tinha outro alimento senão o que crescesse por conta própria, e se banhava em água fria frequentemente, tanto de dia como de noite, a fim de se purificar. Eu o imitei nessas coisas e fiquei com ele três anos. Então, quando tinha realizado os meus intentos, voltei para a cidade, estando agora dezenove anos de idade , e comecei a me conduzir conforme as regras da seita dos fariseus, que é aparentada à seita dos estoicos, como os gregos os chamam.

Flávio Josefo, Autobiografia, segundo parágrafo

Nem por isso cabe se considerar os fariseus como uma versão judaica dos estoicos ou será que até isso irão apelar? O que Josefo queria passar a seus leitores originais é que os essênios estariam mais para um grupo monástico e místico, ao passo que os fariseus continuavam integrados à sociedade e com um perfil mais racionalista.

Notas:

(1) Transcrevendo o texto completo:

Pois sua doutrina é esta: que os corpos são corruptíveis e que a matéria de que são feitos não é permanente; mas que as almas são imortais e continuam para sempre; e que vieram do mais sutil ar e são unidas a seus corpos como a uma prisão, a que foram arrastadas por um espécie de atração natural; mas quando são libertadas dos laços da carne, então elas, como libertas de um longo cativeiro, regozijam-se e ascendem. E isso é como as opiniões dos gregos, que boas almas têm suas moradas além do oceano, numa região que não é oprimida nem pelas tempestades de chuva ou neve, nem com calor intenso, mas esse tal lugar é refrescado por uma suave brisa de um vento do oeste, que sopra perpetuamente do oceano; ao passo que designam para as almas más um antro escuro e tempestuoso, cheio de castigos incessantes. E de fato os gregos aparentam-me seguir a mesma noção, quando designam as ilhas dos abençoados para seus bravos homens, a quem chamam de heróis e semideuses; e para as almas dos iníquos, a região dos ímpios, no Hades, onde suas fábulas relatam que certas pessoas, tais como Sísifo, e Tântalo, e Ixíon, e Títio, são punidos; que está assentada sobre essa primeira suposição, que as almas são imortais; e daí são reunidas as exortações à virtude e dissuasões da iniquidade; pelas quais bons homens são aperfeiçoados na conduta de sua vida através da esperança de terem uma recompensa após suas mortes; e pelas quais a veementes inclinações dos maus ao vício são restringidas através do medo e da expectativa em que se encontram de que, apesar encobrirem nesta vida, devam sofrer castigo imortal após suas mortes. Essas são as doutrinas divinas dos essênios sobre a alma, que lançam uma irresistível isca para os que uma vez que tiveram uma amostra de sua filosofia.

Guerras, livro II, cap. VIII

Para saber mais:

– Vermes, Geza: Os Manuscritos do Mar Morto, Ed. Mercuryo.

– Flusser, David; O Judaísmo e as origens do cristianismo, vol. I, ed. Imago.

Reencarnação X Ressurreição

18 de outubro de 2011 26 comentários

Ressurreição da Carne

Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. (I Cor 15:52)”

Luca Signorelli: A Ressurreição da Carne

    Índice

    Se a reencarnação realmente estivesse contida na Bíblia, tão importante ponto referente ao destino deveria estar escrito de maneira bem explícita. Autores espíritas, possivelmente querendo tornar sua doutrina mais palatável com a ortodoxia cristã, começaram um esforço violento para extrair supostos versículos que confirmassem a presença deste antigo ensino. O Evangelho Segundo o Espiritismo (ESE), já alega arbitrariamente que a ressurreição é a reencarnação entendida pelos judeus do séc. I. Como eles não criam em novo nascimento, acreditavam que no retorno ao mesmo corpo. Segundo Kardec o certo seria crer em reencarnação, visto ser impossível reagrupar nossos átomos após o corpo se decompor. Isto é muito questionável, pois não interessa se algo é possível ou não, mas se teve algum significado para o povo do século I. Pelo menos, o próprio “mestre lionês” teve a prudência de reconhecer que o credo corrente na época pregava a ressurreição. Vejamos, então, o que realmente os judeus do século I entendiam como ressurreição e verificar se corrobora o preconizado por Kardec.

    1 – Antigas Visões Judaicas do Pós-Morte

    Túmulos judaicos

    Ao longo dos livros do Antigo Testamento, pode-se notar uma evolução uma progressiva evolução de pensamento sobre o que acontece após a morte:

    1. Aniquilação;
    2. Existência desencorpada;
    3. Não morrer.
    4. Restauração corporal.

    1.1 Aniquilação

    A primeira a ser encontrada na Bíblia e se resume a sentença de Iahweh sobre Adão (Gn 3:19): “Com o suor de teu rosto comerá teu pão até que retornes ao solo. Pois tu és pó e ao pó retornarás“. Dessa forma, a morte é o fim inexorável de nossa existência, a ser retardado o mais possível. As bênçãos que uma pessoa poderia esperar seriam uma vida longa, feliz, ter muitos filhos e ser enterrado junto aos ancestrais. A “imortalidade” existiria através da descendência e daí um grande temor de que punições recaíssem sobre ela (1). No mundo pagão, essa (des)crença se expressava em inscrições lapidares como RIP – Resquiat in Pace (Descanse em paz) ou NFFNSNC – Non fui, fui, non sum, non curo (Não existia, existi, não existo, não me importo). Como paralelo moderno, esse seria o destino imediato de todo ser humano, segundo as Testemunhas de Jeová, e o destino final da maior da humanidade não salva.

    1.2 Existência de desencorpada

    As almas não seriam imateriais, mas formadas de alguma substância sutil que sobreviveria, de certa maneira, em um lugar chamado Xeol (pronuncia-se Sheol). Ao menos nos livros que lhe fazem menção, o Xeol estava longe de ser um prolongamento desta vida, mas a contemplação de um eterno vazio, não muito diferente do Hades dos pagãos:

    Lembra-te que minha vida é um sopro, e que meus olhos não voltarão a ver a felicidade. Os olhos de quem me via não mais me verão, teus olhos pousarão sobre mim e não mais existirei. Como a nuvem se dissipa e desaparece, assim que desce ao Xeol não subirá jamais.

    Jó: 7-10

    Volta-te, Iahweh! Liberta-me! Salva-me por teu amor! Pois na morte ninguém se lembra de ti, quem te louvaria no Xeol?

    Salmos 6:5-6

    Ainda há esperança para quem está ligado a todos os vivos, e um cão vivo vale mais que um leão morto. Os vivos sabem ao menos que irão morrer; os mortos, porém, não sabem, e nem terão recompensa, por que sua memória cairá no esquecimento. Seu amor, ódio e ciúme já pereceram, e eles nunca mais participarão de tudo que se faz debaixo do Sol.

    Eclesiastes 9:4-6

    Com efeito, não é o Xeol que te louva, nem a morte que te glorifica, pois já não esperam em tua felicidade aqueles que descem à cova. Os vivos, só os vivos é que te louvam, como estou fazendo hoje.

    Isaías 38:18-19

    Não te prives da felicidade presente, não deixes escapar nada de um legítimo desejo. Não deixarás a outro os teus recursos, e o fruto de teu trabalho à decisão da sorte? Dá e recebe, faze divagar a tua alma, pois não há no Xeol quem procure algum prazer. Como uma roupa, toda carne vai envelhecendo, porque a morte é lei eterna. Como as folhas numa árvore frondosa tanto caem como brotam, assim a geração de carne e sangue: esta morre, aquela nasce.

    Eclesiástico 14:14-20

    As expectativas de longo prazo dos vivos não seriam muito diferentes do caso anterior.
    Um paralelo moderno aparece no terceiro volume da série Fronteiras do Universo (no original, His Dark Materials), do escritor Philip Pullman, em que o “Mundo dos Mortos” é apresentado como um lugar sombrio, acinzentado, onde as almas são impostas a uma espécie de tédio sem fim, ao ponto de acabarem esquecendo, com os séculos, seus próprios nomes.

    1.3 Não Morrer – Vivendo no Céu

    Três grandes figuras da mitologia judaicas se constituem exceção à regra:

    • Enoque: Brevemente citado em Gn 5:18-24 como um justo ancestral de Noé, que “andou com Deus”, viveu 365 anos e então desapareceu, “pois Deus o arrebatou”. Aparentemente, livro Gêneses foi extremamente sucinto ao falar de uma personagem que teve vida bem mais ampla no imaginário judaico e se tornou título de três livros:

      • I Enoque: Na verdade, uma compilação de cinco livros redigidos entre III e I a.C., que tratam desde a queda de um grupo de anjos conhecido como Vigilantes até a consumação dos tempos, além das jornadas de Enoque ao Xeol e aos céus.
      • II Enoque ou Livro dos Segredos de Enoque: Apesar do nome, não é continuação do anterior, tendo sido redigido no I século de nossa era e narra a viagem de Enoque aos dez céus, ao Xeol e as coisas que aprendeu sobre a origem do mundo, a queda dos anjos e destino dos justos e iníquos. Enoque volta à Terra, fala aos seus sobre o que viu, de como deveriam se portar para agradar a Deus e redige 366 livros. É arrebatado de novo e definitivamente por Deus. Alguns manuscritos possuem um adendo sobre a origem de outro imortal: Melquisedeque.
      • III Enoque: Também sem relação com seus antecessores e datado no século V de nossa era. Nele o arcanjo Metatron é apresentado como tendo sido originariamente Enoque.
    • Melquisedeque: Figura enigmática da mitologia judaica, Melquisedeque (“Meu rei é justiça”) é apresentado e Gn 14:17-20, como o rei-sacerdote da cidade de Salém, a quem o patriarca Abraão deu um décimo de um butim de guerra. E só. Fora da Bíblia, porém, Melquisedeque parece ter tido várias faces. Um dos seus reaparecimentos foi nos Manuscritos do Mar Morto, mais especificamente em 11QMelch (ou 11Q13), onde ele é retratado como um grande juiz escatológico celestial, sugerindo uma metamorfose parecida com a que viria ter Enoque/Metatron. Um dos mais elucidativos retratos de seus foi registrado em algumas versões de II Enoque. Nele, informa-se que Melquisedeque teve um nascimento de circunstâncias miraculosas e já veio ao mundo grande o bastante para ficar em pé e pregar. Essa criança foi arrebatada antes do dilúvio e, após as águas baixarem, um novo Melquisedeque apareceu, sem grandes explicações. A partir dele, viria uma sequência de sacerdotes com esse título e último deles seria um juiz escatológico. Talvez a menção ao “sacerdócio eterno de Melquisedeque” na Epístola aos Hebreus não seja mera coincidência.
    • Elias: Profeta que teria sido arrebatado por uma carruagem de fogo (II Reis 2:11). Segundo Malaquias (Ml 3,1) e (Ml 3,22-24 ou 4,4-6), retornará como precursor do Messias.

    Um problema surge ao se tratar com os “arrebatados”: o corpo humano está sujeito ao desgaste e à deterioração. Como, então, poderiam eles permanecer indefinidamente no Céu? Uma conjectura já foi dada acima, pela transformação de Enoque e Melquisedeque (o de Qumran) em seres celestiais. Há também o caso do pseudepígrafo judaico-cristão “Ascensão de Isaías” (séc. I ou II), em que é relatada uma jornada desse profeta pelas várias regiões celestiais. Essa viagem não se enquadra bem como um caso de “arrebatamento” porque se tratou de uma visão: Isaías não esteve lá em corpo físico. Mesmo nessa “visão”, ele precisou colocar uma veste a partir do sétimo Céu para poder prosseguir e ela o deixou similar aos anjos. Já no sétimo Céu, ele encontrou … Enoque, que trajava o mesmo tipo de veste! Não é impossível que seu autor tenha se inspirado em um trecho de I Enoque (62:10), onde se lê de forma poética:

    Serão [os justos] recobertos com as vestes da glória, que são as vestes da Vida do Senhor dos Espíritos. Vossas vestes não envelhecerão e vossa glória não passará na presença do Senhor dos Espíritos.

    Seja por uma mudança em sua natureza intrínseca ou por um influxo externo de poder, a transformação de um corpo mortal em outro celestial foi melhor explorada em outros exemplares da literatura intertestamentária que se encarregaram de democratizar a imortalidade de uns poucos.

    1.4 Restauração corporal

    No judaísmo posterior ao exílio, talvez por influência persa e pela constatação de que muitos justos sofrem e maus prosperam nesta vida, começam a se desenvolver ideias a respeito da ressurreição dos mortos, i.e., a reunião da alma dos falecidos com corpo a ocorrer durante a concretização das profecias apocalípticas. Seria o tempo de as injustiças serem reparadas:

    Como mulher grávida, ao aproximar-se a hora do parto, se contorce e, nas suas dores, dá gritos, assim nos encontrávamos nós na tua presença, ó Iahweh: Concebemos e tivemos as dores do parto, mas quando demos à luz, eis que era vento: não asseguramos a salvação da terra; não nasceram novos habitantes para o mundo. Os teus mortos tornarão a viver, os teus cadáveres ressurgirão. Despertai e cantai, vós os que habitais o pó, porque o teu orvalho será um orvalho luminoso, e a terra dará à luz sombras.

    Isaías 26:17-19

    Nesse tempo levantar-se-á Miguel, o grande Príncipe, que se conserva junto aos filhos do teu povo. Será um tempo de tal angústia qual jamais terá havido até aquele tempo, desde que as nações existem. Mas nesse tempo o teu povo escapará, isto é, todos os que se encontrarem inscritos no Livro. E muitos dos que dormem no solo poeirento acordarão, uns para a vida eterna e outros para o opróbrio, para o horror eterno. Os que são esclarecidos resplandecerão como o resplendor do firmamento; e os que ensinam a muitos a justificar hão de ser como as estrelas, por toda a eternidade. Quanto a ti, Daniel, guarda em segredo estas palavras e mantém lacrado o livro até o tempo do Fim. Muitos andarão errantes, e a iniquidade aumentará.

    Daniel 12:1-4

    Neste caso, o Xeol passaria a ser um estágio intermediário enquanto os mortos esperam o fim da realidade tal como conhecemos, que cederá lugar ao “Mundo Vindouro”, quando a opressão sobre os judeus terminará, o Mal será punido e os justos recompensados.

    No deuterocanônico II Macabeus, torna-se mais explícita a crença em uma restauração corporal. Era uma forma de honrar aqueles que morreram por sua fé na luta contra o domínio da dinastia helênica dos Selêucidas na Palestina.

    Passado também este à outra vida, passaram a torturar da mesma forma ao quarto, desfigurando-o. Estando ele próximo a morrer, assim falou: “É desejável passar à outra vida às mãos dos homens, tendo da parte de Deus as esperanças de ser ressuscitado por Ele. Mas para ti, ao contrário, não haverá ressurreição para a vida!”

    II Mc 7:13-4

    Depois, tendo organizado uma coleta individual, enviou a Jerusalém cerca de duas mil dracmas de prata, a fim de que se oferecesse o sacrifício pelo pecado: agiu absolutamente bem e nobremente, com o pensamento na ressurreição. De fato, se ele não esperasse que os que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos. Mas se considerava que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormecem na piedade, então era santo e piedoso seu modo de pensar (5).

    II Mc 12:43-5

    Repare a semelhança entre II Mc 7:14 e o registro feito por Flávio Josefo (6) sobre a crença da facção dos fariseus:

    Eles também acreditavam que as almas tinham uma força imortal dentro delas e que sob a terra elas serão premiadas ou punidas, segundo elas tivessem vivido virtuosamente ou em vício esta vida; e estas últimas são mantidas numa prisão eterna, ao passo que as primeiras terão o poder de revivificar-se e viver novamente (…)

    Antiguidades Judaicas, livro XVIII, cap. I

    Uma forma curiosa de ressurreição apenas para os bons. Contudo, a independência de Israel durou pouco e os romanos tomaram o lugar dos Selêucidas. Uma nova literatura apocalíptica floresceu em torno da imagem desse novo agressor.

    [topo]

    2 – II Baruque: um Apocalipse Judaico por Excelência

    Quadro da destruição do Templo

    A Destruição do Templo em Jerusalém, por Francesco Hayez (1867).

    Apesar de todas as previsões da escatologia judaica quanto à vinda do Messias e advento do Reino de Deus, algo saiu errado. Em 70 d.C., uma revolta judaica foi esmagada pelas tropas do general Tito, a população de Jerusalém foi chacinada, a cidade reduzida a escombros e tesouro do Templo saqueado. Os “kittim” [grego-romanos] venceram e o processo de diáspora se acelerou. Com o mundo em que Jesus viveu se extinguindo e um judaísmo estupefato com a tragédia, os sobreviventes precisavam de uma explicação para o ocorrido.

    Uma das respostas veio em Apocalipse de Baruque (ou II Baruque), datada no final do século I e começo do II. Nele (2) são narrados diálogos de Baruque (ou Baruch, Baruc), contemporâneo da tomada de Jerusalém pelos babilônicos ocorrida em 587 a.C., a lamentar com o próprio Criador e vozes celestes a sorte de Sião, sua pátria, e indagar-lhes o porquê da calamidade. É nítida a intenção do desconhecido autor do livro de comparar destruição que presenciou com aquela ocorrida séculos antes, além de levantar o moral de seu povo ao afirmar que tudo isso já estava previsto e dias melhores viriam com a chegada do Messias (“Ungido”) aos que persistissem na Lei. Eis alguns trechos elucidativos:

    IV – Nova Jerusalém

    Falou-me então o Senhor: “Sim, esta cidade [Jerusalém] será abandonada por algum tempo, e temporariamente será castigado o seu povo; contudo, o mundo não terminará. Pensas tu por acaso que é esta a cidade da qual eu falei: ‘Trago-te inscrita nas minhas mãos’?, não, esta vossa cidade, com as suas edificações, não é a cidade futura que eu anunciei, já anteriormente preparada, desde o tempo em que decidi criar o Paraíso. Eu mostrei-a a Adão antes da queda em pecado; ela foi-lhe tirada juntamente com o Paraíso, depois que ele se rebelou contra a proibição.

    “Mostrei-a também ao meu servo Abraão, naquela noite, entre as oferendas partidas ao meio. Mostrei-a a Moisés sobre o monte Sinai, onde lhe expliquei a imagem do tabernáculo e todos os seus utensílios. Assim, ela continuará preparada na minha mente, juntamente com o Paraíso. Vai, pois, e faz o que eu te ordeno!”

    XXIX – O Messias

    Ele falou-me: “O que vai acontecer atingirá toda a terra; dessa forma, experimentá-lo-ão todos os que estiverem em vida. Mas naquele tempo eu protegerei apenas aqueles que nesses dias se encontrarem neste país [Sião]. Uma vez cumprido aquilo que deve acontecer nos períodos do tempo, o Messias começará a sua revelação. Também Behemoth virá dos seus domínios, e Leviatã se levantará do mar; os dois imensos monstros marinhos por mim criados no quinto dia da Criação, e que reservo para aqueles dias; eles servirão de alimento para todos os que sobreviverem.

    “Então a terra produzirá os seus frutos ao cêntuplo; numa cepa de videira haverá mil ramos, um ramo carregará mil racimos, e um racimo mil bagos, e um bago data até quarenta litros de vinho (3). Os que sofreram fome comerão regiamente, e a cada dia lhes estão reservadas novas maravilhas (4).

    “Pois de mim procederão ventos que trarão todas as manhãs o perfume de frutos saborosos, e farão gotejar ao final do dia o orvalho salvífico. Do alto cairá de novo grande quantidade de maná; dele comerão eles naqueles anos, por haverem participado do final dos tempos”.

    XXXII – Reconstrução de Sião

    “Mas preparai os vossos corações e semeai neles os frutos da Lei, para estardes protegidos no tempo em que o Todo-Poderoso haverá de abalar toda a Criação. Pois as edificações de Sião dentro de pouco tempo serão aniquiladas, mas logo em seguida reconstruídas.

    “Todavia, essa reconstrução não durará muito; após algum tempo, Sião será arrasada uma vez mais e permanecerá em destroços por um período. Depois será renovada em todo o esplendor, e, uma vez plenamente reconstruída, permanecerá para todo o sempre.

    “Não devemos perturbar-vos excessivamente com a desgraça que aconteceu, mas muito mais com aquilo que ainda há de vir. Pois, maior ainda do que ambas essas calamidades será o embate em que o Todo-Poderoso renovará a sua Criação. Agora, porém, não te preocupeis mais por alguns dias! Não vos preocupeis comigo, até que eu volte para junto de vós!”

    Após essas palavras, eu, Baruch, segui meu caminho. Mas quando o povo percebeu que eu desejava afastar-me, levantou a voz em lamentos, clamando: “Aonde vais tu? Por que, Baruch, nos abandona, como um pai que vai embora e deixa os filhos na orfandade? (…)”

    Fonte [Tricca, p. 304,316-8]

    A glória que viria após a vitória final do Bem não seria vivenciada apenas pelos que houvessem nascido um pouco antes, mas também pelos morto, que seriam restaurados. Uma inovação que II Baruque traz é que os maus também ressuscitariam para o castigo. Ele assim relata:

    “Terminado o tempo vigente do Messias, Ele voltará de novo à glória do céu. Então haverão de ressuscitar todos aqueles que outrora adormeceram na esperança. Naquele tempo acontecerá que se abrirão as câmaras onde se demoram as almas dos piedosos; elas sairão, e todas essas numerosas almas, como uma legião de um só coração, apareceram todas juntas, abertamente. As que foram as primeiras, alegrar-se-ão; as que foram as últimas, não estarão tristes.

    “Cada uma delas sabe que foi chegado o tempo, previsto como o fim de todos os tempos. As almas dos pecadores perder-se-ão em angústia, ao presenciarem tudo isso. Pois elas já sabem que o tormento as atingirá, e que a hora da sua condenação é chegada.”

    Cap. XXX. Fonte: [Tricca, p. 317]

    O mesmo livro vai além e descreve o próprio processo de ressurreição:

    Mas além disso, eu te pergunto, ó Poderoso; e pedirei graça dele que criou todas as coisas. Em qual forma irão os viventes viver em seu dia? Ou como permanecerá o esplendor que haverá depois dele? Irão eles, talvez, retomar esta presente forma e adquirirão membros acorrentados que são malignos e pelos quais males são feitos? Ou irás mudar essas coisas que têm estado no mundo, bem como o próprio mundo?

    E ele respondeu e me disse: “Ouça, Baruch, estas palavra e registre na memória de seu coração tudo o que aprenderá. Pois a terra seguramente devolverá os mortos naquele tempo; ela os recebe agora a fim de preservá-los, sem mudar nada em sua forma. Mas assim como ela os tem recebido, então ela os devolverá. E como eu os tenho enviado para ela, então ela os erguerá. Pois aí será necessário mostrar aos que vivem que os mortos estão vivendo novamente e que voltaram os que partiram. E será então quando tiverem reconhecido uns aos outros aqueles que se conhecem neste momento, então meu julgamento será forte e aquelas coisas que foram ditas antes serão cumpridas.“

    E será então após esse dia que ele indicou ter acabado é que tanto a forma daqueles que se descobriram culpados quanto a glória dos que se demonstraram justos serão mudadas. “Pois a forma dos que agora agem iniquamente será feita mais maligna que é (agora) de modo que sofram tormento. Também, como a glória dos que demonstraram serem justos em nome de minha lei, os que possuíram inteligência em sua vida e os que plantaram a raiz da sabedoria em seu coração – seu esplendor será então glorificado por transformações e a forma de sua face será convertida na luz de sua beleza de modo que possam adquirir e receber um mundo imperecível que está prometido a eles. Portanto, especialmente eles que então virão a ficar tristes, porque desprezaram minha Lei e taparam seus ouvidos a fim de que não ouvissem sabedoria e recebessem inteligência. Quando, portanto, virem que os que estão acima deles, que são agora exaltados, serão então ainda mais exaltados e glorificados que eles, então tanto estes e aqueles serão mudados, estes no esplendor dos anjos e aqueles em aspectos chocantes e formas horríveis; e arrasar-se-ão ainda mais. Pois primeiro verão e, então, partirão para o tormento. (…)” (7)

    Cap 49-51. Fonte: [Charlesworth, p. 637-8] (8)

    Desse apocalipse judaico, fica claro um paralelo com a defesa de Paulo da ressurreição mortos através de transformação de um corpo material em espiritual (I Cor 15), que será vista a seguir.
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    3 – Paulo: um Apocalipsista Cristão

    Ícone de Paulo de Tarso

    Em sua primeira carta aos coríntios, Paulo trata de diversos problemas enfrentados por uma das assembleias que fundou. No capítulo XV, ele trata particularmente de uma questão doutrinária que surgira entre eles:

    Ora, se prega que Cristo ressuscitou dos mortos como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé. Acontece mesmo que somos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, quando de fato não ressuscitou, se é que mortos ressuscitam. Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo estão perdidos. Se temos esperança em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens.
    (1 Co 15.14-20).

    Ao que aparenta, alguns membros daquela igreja estavam descrentes da ressurreição dos mortos. Paulo, então, não tenta convencê-los disso, mas lembrá-los de algo que eles já aceitam: a ressurreição do próprio Jesus como exemplo dessa possibilidade.

    Mas, dirá alguém, como ressuscitam os mortos? Com que corpo voltam? Insensato! O que semeias não readquire vida a não ser que morra. E se o que semeias não é o corpo da futura planta que deve nascer, mais um simples grão de trigo ou de qualquer outra espécie. A seguir, Deus lhe dá corpo como quer; a cada uma das sementes ele dá o corpo que lhe é próprio.

    Nenhuma carne é igual às outras, mas uma é a carne dos homens, outra a carne dos quadrúpedes, outra a dos pássaros, outra a dos peixes. Há corpos celestes e corpos terrestres. São, porém, diversos o brilhos dos celestes e o brilho dos terrestres. Um é o brilho do Sol, outro o brilho da Lua,e outro o brilho das estrelas. E até de estrela para estrela há diferenças de brilho. O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos; semeado corruptível, ressuscita incorruptível; semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual.

    Se há um corpo psíquico, há também um corpo espiritual. Assim está escrito: o primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o último Adão tornou-se espírito que dá a vida. Primeiro foi feito não o que é espiritual, mas o que é psíquico; o que é espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terrestre. O segundo homem vem do céu. Qual foi o homem terrestre, tais são os homens celestes. E assim como trouxemos a imagem do homem terrestre, assim traremos a imagem do homem celeste.

    (I Co.15:35-49)

    Tomando Jesus como modelo (o “segundo homem”), a ressurreição para Paulo não consiste numa existência etérea, quase desencorpada, mas na transformação do corpo carnal em outro melhor, celestial. A afirmação mais contundente de Paulo, porém, foi deixada bem para o fim:

    Digo-vos, irmãos: a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorruptibilidade. Eis que vos dou a conhecer um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num instante, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final; sim a trombeta tocará, e os mortos ressurgirão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Com efeito, é necessário que este ser corruptível revista a incorruptibilidade e que este ser mortal revista a imortalidade.

    I Cor 15:50-5

    Portanto, o apóstolo dos gentios cria que essa ressurreição seria um evento iminente, que se daria até mesmo para alguns de seus conhecidos que ainda estivessem vivos e consistiria, tal como em II Baruque ou I Enoque, não no descarte do corpo físico, mas em sua modificação. Ela seria não um evento rotineiro como a reencarnação espírita (ressurreição material, segundo eles) ou o desencarne (ressurreição espiritual), mas um episódio ímpar destinado a se concretizar apenas no fim dos tempos, do mundo tal como o conhecemos (cf. I Cor 15:20-28).

    Ou seja, a ressurreição é ponto fundamental do cristianismo e se dará num corpo análogo ao de Cristo ressuscitado. Em A Gênese, cap XV, 65, Kardec dá a ideia de que Jesus teria dois corpos: o carnal e o fluídico. O primeiro foi sepultado e o segundo foi o que teria aparecido para os apóstolos. Não era essa a crença contida contida em I Coríntios ou II Baruque. A ressurreição, segundo esses autores antigos, não deixaria restos. Em vez disso, esses restos seriam matéria-prima para algo novo
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    4 – Outras Visões da Ressurreição

    Fênix renascida.

    Vale lembrar que opiniões sobre a ressurreição expostas acima são de judeus que criam nela, como Paulo e o anônimo autor de II Baruque. A seita judaica dos saduceus (9) não acreditava nela e os essênios, aparentemente, criam numa imortalidade meramente espiritual. A literatura patrística registrou variantes da opinião paulina:

    – Clemente I (30 -100): bispo de Roma (na época não existia a denominação Papa) e possivelmente companheiro de Paulo em Filipos, comparou a ressurreição à lenda da Fênix, em sua carta aos coríntios, cap XXV – A Fênix, um emblema de nossa ressurreição:

    Vamos considerar este maravilhoso sinal [de ressurreição] que acontece nas terras orientais, isto é, na Arábia e países adjacentes. Há certo pássaro que é chamado Fênix. Este é o único de sua espécie e vive quinhentos anos. E quando o tempo de sua dissolução mostra que sua morte está próxima, constrói por si só um ninho de olíbano, mirra e outras especiarias, no qual, quando é chegada a hora, entra e morre. Mas a medida que a carne se decompõe, um certo tipo de verme é produzido, que sendo alimentado pelos fluidos do pássaros morto, produz penas. Então, quando adquire força, ergue o ninho em que estão os ossos de seu pai e, carregando-os, vai da Arábia para o Egito, para a cidade chamada Heliópolis. E, num dia de céu limpo, voando à vista de todos os homens, deposita-os sobre o altar do sol, e feito isto, apressa-se em voltar à antiga residência. Os sacerdotes, então, inspecionam o registro das datas e descobrem que ele retornou exatamente ao quingentésimo ano ser completado.

    – Justino Mártir (100-165): acreditava na ressurreição da carne, pois tinha uma visão tríplice do ser humano: corpo, alma e espírito. Em seu tratado sobre a ressurreição (*), cap. X:

    A ressurreição é uma ressurreição da carne que morreu. Visto que o espírito não morre, a alma está no corpo, e sem uma alma ele não pode viver. O corpo, quando a alma o abandona, perece. Visto que o corpo é a casa da alma e a alma é a casa do espírito. Estes três, em todos aqueles que nutrem uma fé sincera e inquestionável em Deus, serão salvos. Considerando, portanto, mesmo tais argumentos como são adequados a este mundo e descobrindo que, mesmo com tais argumentos, não é impossível que a carne seja regenerada; e vendo que, além de todas estas provas, o Salvador em todo o Evangelho mostra que há salvação para a carne, por que não deixamos de aturar esses céticos e perigosos argumentos e falhamos em ver que retrocedemos quando escutamos tais argumentos como se fossem: a alma é imortal, mas o corpo é mortal e incapaz de ser redivivo?

    (*) Só restam fragmentos deste tratado. Não há certeza absoluta que são de sua autoria, mas há forte possibilidade de que sejam.

    – Irineu de Lião (120? – 200?): segue a interpretação paulina de um corpo carnal incorrupto em seu “Contra as heresias”, livro V, cap VII:

    Da mesma maneira que Cristo se ergue na substância da carne e assinalou para Seus discípulos a marcas dos cravos a abertura em seu lado [Jo 20:20,25] (agora estes são símbolos da carne que ascendeu dos mortos), então “Ele também irá”, diz [I Co 6:14], “nos ressuscitar pelo seu próprio poder”. E mais uma vez diz aos romanos [Rom 8:11], “e se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos dará vida também aos vossos corpos mortais”. Então o que são corpos mortais? Seriam eles almas? Não, visto que almas são incorpóreas quando postas em “comparação com corpos mortais; pois Deus soprou na face do homem o sopro da vida e o homem se tornou alma vivente”. Agora o sopro da vida é algo incorpóreo. E certamente eles não podem manter aquele mesmo sopro da vida que é mortal. (… ) Nos devemos assim concluir que isto é em referência a carne cuja morte é mencionada; que, depois da partida da alma, torna-se parada e inanimada e se decompõe gradualmente na terra de onde foi tirada. Isto, então, é o que é mortal. E é disto que ele também fala, “Ele dará vida a seus corpos mortais”. E assim em referência a isto ele diz na primeira [epístola] aos coríntios: “O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos; semeado corruptível, ressuscita incorruptível.” Visto que declara,”O que semeias não readquire vida até que morra.”

    – Orígenes ( 182? – 254?): É um dos mais controversos teólogos pré-nicenos, utilizado, equivocadamente, por grupos esotéricos e espiritualistas para reforçar suas teses. No “Analisando as Traduções Bíblicas”, cap. XVI, de Severino C. da Silva, 4ª ed., Idéia; aparece a seguinte alusão a Orígenes:

    O teólogo cristão primitivo, Orígenes de Alexandria, sugere uma versão diferente. Ele defendia que haveria duas ressurreições, uma no final dos tempos e outra “do espírito, da vontade e da fé”, que poderia ocorrer durante a vida. Este conceito apresenta a ressurreição como sinônimo de Reencarnação. Orígenes também achava que o corpo da ressurreição era um corpo espiritual que não tinha nenhuma relação com o corpo mortal.

    Severino C. da Silva dá como embasamento desta opinião a obra “Reencarnação: O Elo perdido do Cristianismo“, de Elizabeth Clare Prophet; portanto não se baseou no original de Orígenes. Sugiro uma leitura na categoria Patrística para saber a verdadeira opinião de Orígenes quanto a “transmigração de almas”. Por hora, deixemos o próprio Orígenes contar suas ideias quanto à ressurreição: na obra De Principiis, livro II, cap X; ele também disserta sobre o enfoque de Paulo:

    O que então? Se é certo que devemos fazer uso de corpos, e se os corpos caídos são declarados ter de erguer-se novamente (pois apenas o que caiu antes pode ter a adequada capacidade de se reerguer), não pode ser matéria de dúvida a ninguém que eles se erguem de novo para que sejamos revestidos com eles uma segunda vez na ressurreição. Uma coisa está estreitamente relacionada com a outra. Pois se corpos são erguido outra vez, sem dúvida eles se erguem para nos revestir; e se nos é necessários ser investidos de corpos, como é certamente necessário, não devemos ser investidos com nenhum outro senão o nosso próprio.

    Mas se é verdade que eles se reerguem e que ressuscitam como corpos “espirituais”, não pode haver dúvida que eles vêm do morto, após se livrarem da corrupção e posto de lado a mortalidade; de outra forma pareceria vão e inútil a qualquer um ressuscitar dos mortos para morrer uma segunda vez. E finalmente isto deve ser mais distintamente compreendido desta forma, se cuidadosamente se considerar quais são as qualidades de um corpo animal, que, quando semeado na terra, recupera as de um corpo espiritual. Pois é de um corpo animal que o próprio poder e graça da ressurreição extraem o corpo espiritual, quando ele transmuta de uma condição indigna para uma de glória.

    Pois é… não seria um novo corpo ou apenas o perispírito, mas o mesmo corpo modificado. A questão é, como Orígenes imaginou essa transformação:

    Nós, porém, estamos convencidos de que aquilo que semeamos “não adquire vida a não ser que morra” e “não é o corpo da futura planta” que é semeado. Pois “Deus dá o corpo que quer”: semeado “corruptível, o corpo ressuscita incorruptível, semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado desprezível, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual” (I Cor 15:36-44). Conservamos tanto a doutrina da igreja de Cristo quanto a grandeza da promessa de Deus. Podemos provar que é uma coisa possível não por uma afirmação mas por meio do argumento. (…) Portanto, não afirmamos que o corpo putrefato voltará à sua verdadeira natureza original, assim como o grão de trigo, uma vez corrompido, não retorna ao seu estado de grão de trigo. Afirmamos que, assim como do grão de trigo surge uma espiga, há também no corpo um princípio que não está sujeito à corrupção, a partir do qual o corpo surge “incorruptível”. (…) Não recorremos à mais absurda evasiva: tudo é possível para Deus; pois sabemos entender a palavra “tudo” sem incluir nela o que não tem existência ou não é concebível. Concordamos assim que Deus nada pode fazer de vergonhoso, pois então Deus não poderia ser Deus: pois se Deus fizesse algo de vergonhoso, não seria Deus.

    Contra Celso, V.22-3

    Qual era esse “princípio não sujeito à corrupção” só é explicado bem mais adiante:

    Celso não compreendeu nossa doutrina da ressurreição, doutrina rica, difícil de expor, por exigir mais do que qualquer outra intérprete bem preparado para mostrar o quanto esta doutrina é digna de Deus e sublime: de acordo com ela, existe uma relação seminal no que a Escritura chama de tenda da alma (II Cor 5:4), na qual os justos gemem acabrunhados; e gostariam de não ser “despojados de sua veste, mas revestir a outra por cima desta” (idem). Por ter ouvido falar da ressurreição da boca de pessoas simples, incapazes de apoiá-la com qualquer razão, ridiculariza o que se afirma. Será útil acrescentar ao que ficou dito acima esta simples observação sobre a doutrina: não é, como acredita Celso, por ter compreendido mal a doutrina da metensomatose que nós falamos de ressurreição; mas é porque sabemos que a alma, que por sua própria natureza é incorpórea e invisível, precisa, quando se encontra num lugar corporal qualquer, de um corpo apropriado por sua natureza neste lugar. Ela carrega este corpo depois de ter abandonado a veste, necessária antes, mas supérflua para um segundo estado, e a seguir, após tê-lo revestido por cima com aquela veste que tinha inicialmente, porque precisa de uma veste melhor para chegar às regiões mais puras, etéreas e celestes. Ao nascer para o mundo, ela abandonou a placenta que era útil à sua formação no seio de sua mãe enquanto nela se encontrava; revestiu por baixo o que era necessário a um ser que viveria na terra.

    Contra Celso, VII.32

    Essa “relação/princípio seminal” (logos spermatikos) seria uma espécie de lei ou força que, por sua própria natureza, sobreviveria à morte e, nutrindo-se com os elementos adequados, conforme a situação em que se encontrasse, construiria um novo invólucro. O corpo atual e o futuro seriam contínuos por esse princípio, mas não em substância. Vale atentar que Orígenes usou aqui a mesma expressão de filósofos estoicos para se referir ao “princípio gerativo” responsável pela renovação do universo. Com isso, novos adversários pagãos teriam a dificuldade extra de rejeitar suas próprias ideias.

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    5 – A Questão da Gilgul

    Escultura de uma roda de carruagem

    A crença na transmigração de almas (gilgul neshamot – “roda de almas”) é mais tardia, tendo sido assimilada por certas correntes judaicas ao longo da Idade Média e posteriormente. Ainda é matéria de discussão entre os historiadores de como isso ocorreu exatamente (10).

    Assim relata a Jewish Enclyclopedia

    Transmigração das almas: A passagem de alma em sucessivos formas corpóreas, sejam humanas ou animais. De acordo com Pitágoras, que provavelmente aprendeu a doutrina no Egito, a mente racional, após ter se libertado dos grilhões do corpo, assume uma veículo etéreo e passa para a região dos mortos, onde permanece até ser enviada de volta a este mundo para habitar algum outro corpo, humano ou animal. Depois de passar por sucessivas purgações e quando estiver suficientemente purificada, ela é recebida entre os deuses e retorna para a fonte eterna de onde originalmente procedeu. Esta doutrina era estranha ao judaísmo até cerca do século oitavo, quando, sob influência de místicos maometanos, foi adota pelos caraítas e outras dissidências judaicas. Ela é mencionada pela primeira vez na literatura judaica por Saadia [Gaon], que protestou contra esta crença, que em seu tempo era compartilhada pelos yudghanitas(…)”

    Assim relatou Saadia Gaon:

    Embora eu deva dizer que tenho encontrado certas pessoas, que chamam a si mesmas de judias, professando a doutrina da metempsicose, que é designada por eles com a teoria da “transmigração” das almas. O que ele querem dizer com isso é que o espírito de Rúben transferiu-se a Simão e depois a Levi e, em seguida a isto, a Judá. Muitos deles iriam tão longe como ao ponto de afirmar que o espírito de um ser humano pode entrar no corpo de uma fera ou que o de uma fera no de uma ser humano e outros tipos de absurdo e estupidez”

    Saadia Gaon, Livro das crenças e opiniões, tratado VI, cap. VIII, “A alma”. Acesse aqui para uma versão completa do texto.

    A primeira aparição da doutrina da gilgul em um tratado esotérico escrito vem a ocorrer só no século XII, num trabalho intitulado Bahir. A partir daí, a reencarnação se torna popular entre a vertente mística do judaísmo, a Cabala.

    De 1.200 d.C. A 1.500, ocorreram trabalhos cabalísticos afirmando a possibilidade em alguns casos de transmigração para corpos de animais. Esta ideia entrou em declínio depois, apesar de nunca ter desaparecido totalmente (11).

    Atualmente, a reencarnação não é professada por boa parte dos judeus, e muitos desses alegam que judeus não devem adotá-la. Ela ainda permanece vigente entre cabalistas, muitos grupo judaicos hassídicos (seita fundada no século XVIII) e até mesmo entre alguns ultraortodoxos.

    Para outros, como o professor e rabino Yehuda Ribco é lícito um judeu crer em reencarnação, mas não uma questão central do judaísmo, e nem mesmo ele a defende:

    Logo, e já passando a responder: graças a Deus não sou o único que não compartilha da ideia da reencarnação (gilgul haneshamot), pois houve outros, anteriores e imensamente maiores que este humilde mestre, que se opuseram, tal qual Saadia Gaon, Bajia ibn Pakuda, Iosef ibn Tzadik, e até (segundo alguns entendidos) o príncipe dos pensadores judaicos: Rambam [Maimônides], entre outros.

    Se bem é certo, outros insignes mestres e filósofos a sustentaram (Ramban [Nachmânides] e Baal Shem Tov, por exemplo, ambos posteriores a aparição pública do Zohar), não é por isso que a ideia da reencarnação é parte das crenças judaicas centrais, nem é obrigação que se compartilhe dela.

    (…)

    Em resumo: a reencarnação é uma crença individual (ou de certos grupos), tal como a descrença na mesma o é. É uma crença de natureza restrita e que não atenta contra os princípios gerais e superiores (Torá e halacá); nem tão pouco é obrigatório compartilhá-la. Portanto, não há razão de identificá-la ao judeu e ao judaísmo, tal como, por exemplo, a crença em alienígenas.

    De fato, a conversão do escritor judeu americano Norman Mailer à crença na reencarnação chamou atenção até da imprensa:

    Como todo construtor de crenças de ocasião, Mailer não quer perder o vínculo com a religião original. Embora os cabalistas acreditem na transmigração de almas, a reencarnação não faz parte da essência da fé judaica. Não é mencionada na Bíblia, nem na literatura rabínica”

    Revista Veja, edição 1834, ano de 2003, pág. 125.

    Já a ressurreição é dogma (ou lei como preferem) a todas as correntes do judaísmo:

    A crença na ressurreição dos mortos é declarada nas orações, na teologia e na lei: no fim dos dias, a morte morrerá. A certeza da ressurreição origina-se de um fato simples da teologia restauracionista: Deus já mostrou que pode fazê-la.

    Você observa que tudo o que o Sagrado, abençoado o seja, destina-se a fazer nos dia vindouros ele já se adiantou e fez por meio dos justos nesse mundo. O Sagrado, abençoado seja, levantará os mortos, e Elias levantou os mortos.

    O fato de Deus erguer os mortos leva à última pergunta: quem ele erguerá dos mortos? E a resposta é: “Todo Israel, com poucas exceções”. Por Israel entendem-se aqueles que serão erguidos dentre os mortos; praticar o judaísmo e guardar a Torá e escolher a vida eterna, de acordo com a admoestação de Moisés em Deuteronômio 30:19: “Portanto, escolhe a vida”. Aquela definição de quem é israelita e o que é Israel – aqueles que se levantarão do túmulo, o povo destinado à vida eterna nos céus – retira o modo de vida judaico do domínio meramente étnico ou terreno.

    [Neusner, cap VII]

    A morte, todavia, não assinala o fim da vida. Nos tempos de Deus, os mortos viverão novamente. A ressurreição representa a mais completa metamorfose de uma experiência desse mundo: a morte simboliza o seu oposto, a vida eterna. Na lei judaica, a reação à antecipada transformação traduz-se numa regra especial e estrita contra a autópsia ou a desfiguração do corpo. Os mortos viverão, portanto, o corpo deve ser preservado como foi em vida, tanto quanto possível, para a ressurreição vindoura.

    Idem, cap IV

    Portanto, é errôneo afirmar que a “ressurreição era a reencarnação entendida pelo judeus da época de Cristo”, pois mesmo os grupos que professam a gilgul modernamente, lhe dão tratamento diferente da ressurreição (12). Há até questões de ordem teológica própria, como “qual corpo será o ressuscitado?” Alguns grupos alegam que apenas última encarnação será ressuscitada; outras, a primeira, e até há quem creia em uma ressurreição que englobe todo o conjunto de vidas (13).

    Do exposto acima, conclui-se que a doutrina da reencarnação entrou tardiamente no judaísmo, só sendo posta por escrito na Idade Média e ainda hoje não é consenso.
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    6 – Distorções Espíritas

    Ciclo da reencarnação

    Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.

    Todas as versões acima quanto ao processo de ressurreição possuem um traço comum: de algum modo, o novo corpo espiritual é produzido a partir do antigo corpo material. Para os proto-ortodoxos, o mundo material era inerentemente bom como seu Criador, embora corrompido pelas forças do Mal. Mas no fim dos tempos, ele também seria redimido. Para os gnóstico, a situação era bem distinta: o mundo material fora criado por uma divindade inferior e maligna, escapar dele seria a atitude correta. O espiritismo, por sua vez, não julga o mundo material como algo ruim, embora ele tenha limites de melhoria (as leis naturais) e seja apenas um estágio transitório na jornada evolutiva de um espírito. Assim, não é incomum encontrar autores espíritas que tentam expor a ressurreição antiga como uma espécie de desencarne: o simples descarte do corpo físico e permanência do corpo perispiritual subjacente.
    Para obter esses efeito, lança-se mão dos seguintes artifícios:

    • A boa e velha misquotation: Escolher um pequeno fragmento a dedo para que ele, destacado do conjunto, aparente corroborar essa tese. Por exemplo, pegue I Coríntios 15:50: “Digo-vos, irmãos: a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorruptibilidade“. Agora, prolongue a citação até o versículo 55 e veja as implicações;

    • Desconsiderar a escatologia: A ressurreição em corpo espiritual ocorreria apenas no fim dos tempos, com a vinda do Messias (II Baruque) ou, para os cristãos, sua segunda vinda (cf. I Cor 15:20-28), ao contrários dos exemplos relatados evangelhos, cujos ressuscitados certamente morreriam outra vez, nem que fosse de velhice. O que aconteceria entre a morte nesta era e a consumação final é ambíguo nas escrituras, podendo-se buscar ao bel-prazer passagens sobre aniquilação, um Xeol de simples espera ou castigos e recompensas logo após a morte. De qualquer forma, a ressurreição não é um simples retorno ao mundo espiritual após o “desencarne”, mas o estágio final da existência humana (ao menos para os “salvos”) com data para ocorrer e de forma coletiva;

    • Fazer jogo com os evangelhos: O modelo de ressurreição apresentado acima é, entre os cristãos, essencialmente sinóptico e paulino. O cristianismo joanino, por sua vez, quase nada possui de escatologia. Para os primeiros, o Reino de Deus é uma mudança temporal e cataclísmica, ao passo a comunidade joanina o via como uma mudança espacial (ou dimensional, se preferir): “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18:36). Evangelho de João dá tanto valor ao espiritual, que até mesmo uma parte da comunidade em que ele surgiu (cf. Segunda Epístola de João) passou a negar que Jesus tivesse um corpo físico real, apenas aparentando um (i.e., inventaram o docetismo (14). Já no século II, o Evangelho de João seria, inclusive, admirado por gnósticos, que viram nele similaridades com sua doutrina (15). Óbvio que a proto-ortodoxia, ao adotar João como canônico, não o interpretava assim, procurando harmonizá-lo com os sinópticos. O discurso espírita, então, consiste em desfazer essa harmonização, ao enfatizar os itens convenientes da mensagem de João (16);

    • Usar a consultoria de judeus ortodoxos: Que, por coincidência, também creiam na gilgul neshamot. Nada contra um filho de Abraão expressar seu entendimento sobre o pós-morte. A questão é saber o quanto a opinião de um judeu moderno seria representativa no judaísmo do primeiro século. Mal comparando, seria como se fiar num católico para afirmar que o culto aos santos era corrente entre os primeiros cristãos. Note que não estou afirmando que seja errado cultuar santos ou acreditar na gilgul, a questão é que tais crenças são inovações que surgiram, em suas respectivas religiões, bem depois dos tempos de Jesus. Há muitas coisas, sem dúvida, em que os judeus ortodoxos foram conservadores, mas é irrealista supor que tenham permanecido estáticos por 2.000 anos e possam ser usados como “pedra de toque”, sem nenhuma ressalva, para estudar o judaísmo intertestamentário.

    ***

    Caso se queira realmente validar a crença da reencarnação na Bíblia, é necessário comprovar que o contexto em que ela foi produzido era reencarnacionista. As seguintes abordagens podem ser feitas:

    1. Obras que relatem certo ensino explicitamente: Foi, por exemplo, o caso da ressurreição em “II Baruque” ou nas cartas paulinas. Por outro, não seria viável considerar a reencarnação como presente no “nascer de novo” do diálogo entre Jesus e Nicodemos (Jo 3), pois o discurso é tão alegórico, que dá margem a múltiplas interpretações;

    2. Comentários religiosos: Os comentários rabínicos do midrash e as obras da patrística são silentes quanto ao assunto. Mesmo o sistema concebido por Orígenes, no século III, não era compatível com a proposta espírita para reencarnação. Gnósticos, sim, criam na reencarnação, só que, outra vez, “à moda deles”;

    3. Relatos de não religiosos: Flávio Josefo, pelo visto, revelou-se um tiro n’água.

    Assim, ao escolher frases a dedo, desconsiderar a evolução histórica do pós-morte judaica e tratar o cânon bíblico como monolítico, você pode até se dar bem contra religiosos presos à inerrância e autossuficiência bíblica, mas dificilmente poderá ser considerado um pesquisador.
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    Notas:

    (1) Cf. Gn 9:24-25, Dt 23:2, Dt 28:18, 2 Sm 12:13-14, 2 Sm 21:6, 1 Rs 2:33, 1 Rs 11:11-12, 1 Rs 21:29, 2 Rs 5:27, Is 14:21, Jr 16:10-11, Jr 29:21, Jr 32:18, Sl 109:14. Algumas passagens preveem o fim das punições hereditárias em um tempo futuro, como Jr 31:29-30, e algumas a negam desde já: Dt 24:16 e Ez 18:20.

    (2) Informo que II Baruque NÃO é continuação do deuterocanônico de mesmo nome, constante nas Bíblias católicas.

    (3) Obviamente, a unidade de medida “litro” não existia na época. Em versões inglesas do livro, encontra-se “a cor of wine”. Essa unidade de capacidade (cor) corresponderia a aproximadamente 400 litros (391 mais precisamente). Talvez um erro de digitação tenha transformado 400 em 40 e tradutor assim transcrito por extenso.

    (4) Compare essa fartura dos tempos pós-apocalípticos com aquela descrita mais acima no Livro de I Enoque, 10:9 -11:2. Um traço comum à literatura apocalíptica é a superabundância do Mundo Vindouro”.

    (5) Repare que os livros de Macabeus fazem menção explícita a orações pelos mortos. Isto pode ser um dos motivos que levaram os líderes da Reforma protestante a adotar a Bíblia hebraica como Antigo Testamento e assim eliminar de seu cânon um livro que iria contra a sua teologia, embora ele tivesse grande valor como documento histórico por narrar um genuíno episódio.

    (6) Se Flávio Josefo aponta os fariseus como defensores da reencarnação, como defendem alguns, favor explicar porque os maus, que mais precisariam de uma nova chance, não a teriam. Também explicar porque reencarnar num mundo de sofrimento seria alguma espécie de “recompensa”, se havia opções melhores…

    (7) No Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IV

    A reencarnação fazia parte dos dogmas judaicos sob o nome de ressurreição. Somente os saduceus, que pensavam que tudo acabava com a morte, não acreditavam nela. As ideias dos judeus sobre esse assunto, e sobre muitos outros, não estavam claramente definidas, pois apenas tinham noções vagas e incompletas sobre a alma e sua ligação com o corpo. Acreditavam que um homem que viveu podia reviver, sem entender entretanto de que modo isso podia acontecer. Designavam pela palavra ressurreição o que o Espiritismo chama mais apropriadamente de reencarnação. De fato, a ressurreição supõe o retorno à vida do corpo que está morto, o que a Ciência demonstra ser materialmente impossível, porque os elementos desse corpo estão, desde há muito tempo, desintegrados na Natureza. A reencarnação é o retorno da alma ou Espírito à vida corporal, mas em um outro corpo, formado novamente para ele, e que não tem nada em comum com o que se desintegrou. A palavra ressurreição podia assim se aplicar a Lázaro, mas não a Elias, nem aos outros profetas. Se, portanto, conforme se acreditava, João Batista era Elias, o corpo de João não podia ser o de Elias, porque João tinha sido visto desde criança e sabia-se quem eram seu pai e sua mãe. João, portanto, podia ser Elias reencarnado, mas não ressuscitado.

    Tal argumento de Kardec é muito questionável. Mesmo os grupos judaicos que desenvolveram em tempos medievais o conceito reencarnacionista gilgul ainda creem em ressurreição no fim dos tempos. Algumas facções alegam que apenas última encarnação será ressuscitada; outras, a primeira, e até há quem creia em uma ressurreição que englobe todo o conjunto de vidas [cf. Blau]. O fato de a ressurreição ser inviável do ponto de vista científico é irrelevante do ponto de vista de um historiador. Se os judeus do período intertestamentário advogavam uma ressurreição física, então qualquer estudo que se faça sobre eles deve respeitar isso, do contrário correrá o risco de distorcer o passado para que se adeque a ideias e vieses do presente. Por último, havia relatos que deixavam bem claro que tal ressurreição estava longe de ser reencarnação nos moldes espíritas ou um processo exclusivamente espiritual. O livro de II Baruque dá um exemplo disso, apresentando uma ressurreição física seguida por uma espécie de transfiguração.

    (8) O livro Apócrifos – Os Proscritos da Bíblia, vol. III, de Maria H. O. Tricca possui uma gigantesca lacuna em II Baruque, que vai do capítulo XL ao LXXXIX. Não creio que tenha sido só o meu exemplar, pois a numeração das páginas não dá saltos. Ao que me parece, não há ruptura no texto, apenas na numeração dos capítulos. Os capítulos XLIX – LI corresponderiam aos XCIX – CI dessa edição. Como consequência, o livro está incompleto. Ignoro se isso foi corrigido em edições posteriores e, por via das dúvidas, traduzi a referida passagem do texto inglês de Charlesworth.

    (9) Os saduceus, de acordo com o Evangelho segundo o Espiritismo, Introdução, item 3

    Seita judia que se formou por volta de 248 a.C.; assim nomeada devido a Sadoc, seu fundador. Os saduceus não acreditavam nem na imortalidade da alma, nem na ressurreição, nem nos bons e maus anjos. Entretanto, acreditavam em Deus, mas não esperavam nada após a morte, somente o serviam em vista de recompensas temporais que, segundo a crença que tinham, era ao que se limitava sua Providência. A satisfação dos sentidos era para eles o objetivo essencial da vida. Quanto às Escrituras, os saduceus se prendiam ao texto da antiga lei, não admitindo nem a tradição, nem nenhuma interpretação; colocavam as boas obras e a execução pura e simples da lei acima das práticas exteriores do culto. Eram, como podemos ver, os materialistas, os deístas e os sensualistas daquela época. Essa seita era pouco numerosa, mas contava com personagens importantes, e se tornou um partido político constantemente oposto aos fariseus.

    Não deixa de ser um tanto ilógico associar uma seita que cria em Deus e o temia com materialistas. O fato de crerem que esta vida era a única que poderiam almejar não os torna automaticamente sensualistas. Se as punições também eram deste mundo, era preciso seguir condutas éticas para evitá-las, e isso também pode ser encontrado na Antiga Lei. Seria um pouco de preconceito por não crerem em vida após a morte?

    (10) Vide [Raphael, cap. VIII, pp. 314-20] para uma análise histórica mais aprofundada.

    (11) De [Asheri, cap. XLI, pp. 251-2]:

    REENCARNAÇÃO: Em hebraico, a reencarnação é chamada de gilgul neshamot, e um grande número de judeus ortodoxos sustenta que em certas circunstâncias, nunca definidas de maneira muito clara, a alma de um judeu pode retornar à vida no corpo de outra pessoa ou até no de um animal ou de um planta. Não é necessariamente como castigo que o gilgul ocorre, mas com frequência alguma boa ação que a alma foi incapaz de realizar enquanto estava na Terra é completada na reencarnação dessa alma em outro corpo.

    Ver também [Raphael, cap. VIII, pp. 318-9].

    (12) Fazendo coro com Neusner:

    O MESSIAS E A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS. De todas as crenças, esta é a mais amplamente aceita, sendo considerada por muitos ortodoxos como absoluto artigo de fé. Em resumo, diz-se que algum dia aparecerá um judeu que anunciará o fim do mundo, tal como o conhecemos, e a criação do Reino de Deus, no qual, finalmente, o leão se deitará ao lado do cordeiro. Esse judeu, e ele será uma pessoa, não uma encarnação de Deus (como se tal coisa fosse possível), é chamado de Mashiach, ou Messias. Quando ele chegar, haverá uma ressurreição dos mortos, chamada em hebraico de T’chiat Ha-metim, e todos os judeus ressurrectos reunir-se-ão em Israel, para lá viver eternamente. O Messias será um descendente da Casa de Davi e seu anúncio será feito por Elias, o Profeta (Eliahu Anavi).

    Nada muito diferente das crenças apocalípticas circulantes pela Judeia do século I.

    (13) Cf. [Blau]

    (14) Qualquer semelhança com Roustaing não é mera coincidência.

    (15) Em João, Jesus é um ser divino (O Verbo) enviado à terra como figura redentora (“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida“, Jo 14:6) para que por meio dele tenhamos o conhecimento necessário para nos libertarmos (“Conhecereis a verdade e a Verdade vos libertará“, Jo 8:32). Essas similaridades fizeram de João um prato cheio para os gnósticos e o primeiro comentário a esse evangelho foi feito por um gnóstico: Heracleão.

    (16) Quando o assunto é a Trindade, a tática é oposta: enfatizar os sinópticos e menosprezar João.
    [topo]

    Para saber mais

    – Asheri, Michael; O Judaísmo Vivo – As tradições e as leis dos judeus praticantes, Imago, 1995.

    Bíblia de Jerusalém, Sociedade Bíblica Internacional e Editora Paulus, 1995.

    – Blau, Yitzchak; Body And Soul:Teh.iyyat ha-Metim and Gilgulim in Medieval and Modern Philosophy, publicado em The Torah u-Madda Journal (10/2001).

    – Charlesworth, James H.; Old Testament Pseudoepigrapha, vol. I, Doubleday, 1983.

    – Ehrman, Bart D.; Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millennium, Oxford University Press, 2001.

    – Neusner, Jacob; Introdução ao Judaísmo, Imago, 2004.

    – Raphael, Simcha Paul; Jewish View of the Afterlife, Aronson, 2004.

    – Reddish, Mitchell G., Apocalytiptic Literature: A Reader [Literatura Apocalíptica: um Manual de Leitura], Hendrickson Publishers, Inc., 1995.

    – Schweitzer, Albert; The Quest of the Historical Jesus [A Busca do Jesus Histórico], Acessado em 10/09/2009 no portal Early Christian Writings.

    – Tricca, Maria Helena de Oliveira (compiladora); Apócrifos – Os proscritos da Bíblia, tradução do alemão de Ivo Martinazzo, vol. I e III, Ed. Mercuryo, 2003.

    Para acessar

    Jewish Eschatology, acessado em 05/10/2013.

    Rabbi scheinerman – After life, acessado em 05/10/2013.

    Ser judio – Vida y Muerte, acessado em 05/10/2013.

    [topo]

Enoque 62:4-10

18 de outubro de 2011 Comentários desligados
Então sobrevir-lhes-á sofrimento igual ao de uma mulher em dores de difícil parto, quando o filho passa pela abertura matriz, e ela sofre ao dar à luz. Uma parte deles então encarará a outra; assustar-se-ão, baixarão seus olhos, e serão acometidos de dores quando virem o Filho do Homem assentar-se sobre o trono de sua Glória.

Então os reis, os poderosos e os demais senhores da terra haverão de glorificar, louvar e enaltecer Aquele que reina sobre todas as coisas e que estava oculto. Pois, no princípio, o Filho do Homem estava oculto, e o Altíssimo conservava-O na presença do seu poder; e revelou-O aos escolhidos.

Florescerá então a comunidade dos escolhidos e dos santos, e todos os escolhidos, naquele dia, estarão na sua presença. Todos os reis, os poderosos, os grandes senhores da terra cairão sobre a sua face, na sua presença, e suplicarão: irão colocar a sua esperança naquele Filho do Homem, invocá-lO-ão e implorarão sua misericórdia.

Todavia, aquele Senhor dos Espíritos os obrigará a se afastarem o mais rapidamente possível da sua presença; o rosto deles cobrir-se-á de vergonha, e sobre eles cairá a escuridão. E Ele os entre os entregará aos Anjos vingadores, porque maltrataram seus filhos e seus escolhidos.

Eles propiciaram um espetáculo para os justos e escolhidos: estes rejubilarão, porque a ira do Senhor dos Espíritos abater-se-á sobre eles, e Sua espada embeber-se-á de seu sangue. Naquele dia, os justos e os escolhidos serão salvos, e não verão nunca mais a face dos pecadores e dos ímpios.

O Senhor dos Espíritos habitará então com eles, e estes comerão com o Filho do Homem, deitar-se-ão e levantar-se-ão por toda a eternidade. Os justos e os escolhidos exalçar-se-ão sobre a terra, e nunca mais haverão de baixar seus olhos.

Serão recobertos com as vestes da glória, que são as vestes da Vida do Senhor dos Espíritos. Vossas vestes não envelhecerão e vossa glória não passará na presença do Senhor dos Espíritos.

Fonte:
– Tricca, Maria Helena de Oliveria (compiladora); Apócrifos – Os proscritos da Bíblia, tradução do alemão de Ivo Martinazzo, vol. I e III, Ed. Mercuryo, 2003, p. 153.

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Flávio Josefo e a Crença dos Fariseus

17 de outubro de 2011 18 comentários

Flávio Josefo

Retrato hipotético de Josefo, da tradução inglesa de William Whiston.

O historiador judeu Flávio Josefo, cuja obra data da segunda metade do século I, muitas vezes é apontado como alguém que registrou a crença da reencarnação entre os fariseus (1). Até mesmo o verbete metempsychosis da Catholic Encyclopedia lhe atribui tal relato, provavelmente baseada na seguinte passagem:

Eles [os fariseus] também acreditavam que as almas tinham uma força imortal dentro delas e que sob a terra elas serão premiadas ou punidas, segundo elas tivessem vivido virtuosamente ou em vício esta vida; e estas últimas são mantidas numa prisão eterna, ao passo que as primeiras terão o poder de revivificar-se e viver novamente (2); (…)

Antiguidades Judaicas, livro XVIII, cap I

É preciso ter em mente que Josefo é um judeu escrevendo para um público helenizado e, portanto, explica suas crenças por meio de empréstimos da cultura e do vocabulário gregos. Assim, uma análise mais aprofundada do uso que Josefo dá às palavras, com paralelos a outras fontes judaicas e pagãs de sua época, revela sutilezas que apontam para uma direção bem diferente daquela que os reencarnacionistas gostariam. Josefo, na passagem acima, usa o verbo αναβιοω, que pode ser traduzido por “voltar à vida”, “reviver”, “ressuscitar” (3). Este verbo aparece em mais duas ocasiões em “Antiguidades Judaicas”:

  1. A ressurreição do filho da viúva feita por Elias:

    Agora esta mulher, de quem falamos antes, que amparara o profeta, quando seu filho caiu doente até que entregou o espírito e aparentou estar morto, veio ao profeta chorando, e batendo contra seu peito com suas mãos, e exclamando tamanhas expressões conforme suas paixões lhe ditavam, e reclamou a ele que viera censurá-la por seus pecados, que por causa disto seu filho estava morto. Mas ele a mandou ter bom ânimo e dar-lhe seu filho, a fim de que devolvesse a ela novamente vivo. Quando ela lhe entregou seu filho, ele o levou para um quarto de cima, onde estava hospedado, e deitou-o sobre a cama, e clamou a Deus, e disse que Deus não agira bem em recompensar a mulher que o hospedara e amparara tomando-lhe o filho; e orou para Ele enviasse novamente a alma da criança para dentro dela, e a trouxesse à vida novamente. Por conseguinte, Deus teve pena da mãe e estava desejoso por gratificar o profeta, que não poderia parecer ter vindo a ela para lhe fazer mal, e a criança, além de toda expectativa, voltou à vida outra vez [ανεβιωσεν]. Então a mãe foi grata ao profeta e ficou nitidamente contente que Deus conversasse com ele.

    Antiguidades Judaicas, livro VIII, cap 13

  2. Com relação ao fim do cativeiro de Babilônia e a volta para Israel:

    Então eles fizeram seus juramentos a Deus e ofereceram os sacrifícios que foram tradicionais no tempo antigo; quanto a isto me refiro à reconstrução de sua cidade e ao reviver [αναβιουσης] de antigas práticas de sua adoração.

    Antiguidades Judaicas, livro XI, cap 1

Nenhuma dessas citações permite o entendimento de “reencarnar”, aliás, os exemplos obtidos na literatura grega e pagã vão contra essa suposição. Até mesmo Platão, um crente na transmigração de almas, usava este verbo no sentido de “ressuscitar” (4):

Sócrates — Não é a história de Alcino que te vou contar, mas a de um homem valoroso: Er, filho de Armênio, originário de Panfília. Ele morrera numa batalha; dez dias depois, quando recolhiam os cadáveres já putrefatos, o seu foi encontrado intacto. Levaram-no para casa, a fim de o enterrarem, mas, ao décimo segundo dia, quando estava estendido na pira, ressuscitou. Assim que recuperou os sentidos, contou o que tinha visto no além. (…)

A República, livro X.

Continuando em outras obras de Josefo.

Mas então quanto às duas ordens anteriormente mencionadas, os fariseus são aqueles estimados por sua habilidade na exata explicação de suas leis e introduzem a primeira seita. Estes atribuem tudo ao destino [ou providência] e a Deus, e embora deixe que o agir de forma correta ou o contrário esteja principalmente nas mãos dos homens, apesar de o destino, de fato, cooperar com cada ação. Dizem que todas as almas são incorruptíveis, mas que as almas dos bons homens apenas são movidas para outros corpos, – porém as almas dos maus são sujeitas ao castigo eterno. Mas os saduceus são os que compõem a segunda seita, e excluem inteiramente o destino, e supõem que Deus não está interessado se o que fazemos ou deixamos de fazer é mau; e dizem que o bom ou mal agir está na escolha dos homens, e que um ou outro, portanto, pertence a todos, que podem agir como bem entenderem. Também excluem a crença na duração imortal da alma, e nos castigos e recompensas no Hades.

Guerra Judaica, livro II, cap. VIII

Ademais, nossa lei ordena justamente que escravos que fogem de seus senhores deverão ser punidos, apesar de que os senhores dos quais eles fugiram tenham sido cruéis com eles. E nos atreveremos a fugir de Deus, que é o melhor de todos os senhores, e não sermos culpados de impiedade? Não sabes que os que partem desta vida conforme a lei da natureza e pagam a dívida que foi adquirida de Deus, quando ele, que no-la emprestou, fica prazeroso em pedi-la de volta, gozam de eterno renome; que suas casas e suas posteridades estão asseguradas, que suas almas são puras e obedientes e obtêm o mais sagrado lugar do paraíso, de onde, nos ciclos dos tempos [περιτροπης αιωνων], eles são novamente postos em corpos puros; enquanto as almas daqueles cujas mãos agiram desvairadamente contra si mesmos são recebidos nos lugares mais sombrios do Hades, onde Deus, que é o Pai deles, pune quem comente ofensa contra qualquer uma destas na sua posteridade? Por esta razão Deus odeia tais atos [de suicídio] e o crime é punido pelo nosso mais sábio legislador. (…)

Guerra Judaica, livro III, cap VIII

Além disso, se alguém engana outro nas medidas e pesos ou faz transação e venda desonesta a fim de enganar outrem, se rouba os bens de outrem, e leva o que nunca guardou; todos estes têm punições os aguardando; não daquelas reservadas para os de outras nações, mas mais severas. E quanto a tentativas de comportamento injusto aos pais ou de impiedade contra Deus, ainda que não realmente concretizados, os agressores são destruídos imediatamente. Porém, a recompensa para os que vivem exatamente de acordo com as leis não é prata ou outro; não é uma grinalda de ramos de oliveira nova, nem qualquer semelhante sinal de aprovação; mas todo bom homem que tenha sua própria consciência dando testemunho se si mesmo, e pela virtude do espírito profético de nosso legislador, e a firme segurança que o próprio Deus propicia tais, ele crê que Deus fez esta dádiva àqueles que observam estas leis, ainda que sejam obrigados a prontamente morrer por elas, que eles retornarão à existência e, num determinado ciclo [περιτροπης] das coisas, receberão uma vida melhor do que a que gozaram. Nem eu me arriscaria em escrever assim agora não fosse bem conhecido por todos pelas nossas ações que muitos de nosso povo decidiram várias vezes resistir a qualquer sofrimento, em vez de falar uma palavra contra a lei.

Contra Apião, livro II

As duas primeiras passagens chamam atenção por assinalar que apenas os justos teriam uma nova vida. Os maus permaneceriam em castigo eterno, sendo que, na quarta passagem, os que ofenderam a Deus e aos pais seriam eliminados. Seria estranho um tipo de reencarnação em que apenas os bons retornassem à vida, quando justamente os ímpios têm mais o que resgatar. Na terceira passagem, em que Josefo explana porque era melhor se entregar aos romanos do que cometer suicídio, deixa transparecer a ideia de “corpo puro” por ocasião da ressurreição, e faz uma breve alusão castigos hereditários. O mais interessante é o caráter do “corpo puro” atribuído por Josefo. As versões inglesas muitas vertem por “pure” ou “chaste”, o que talvez oculte um significado alternativo do original grego ‘αγνος – “sagrado, santo, consagrado”. No Corpus Flavianum, esta palavra aparece apenas mais quatro vezes além desta, todas em Antiguidades Judaicas:

Esta novilha foi sacrificada pelo sumo sacerdote e seu sangue aspergido com o dedo dele sete vezes perante o tabernáculo de Deus; depois disto, toda a novilha é queimada naquele estado, junto com sua pele e entranhas; e atiraram madeira de cedro, e hissopo, e lã escarlate no meio do fogo; então um homem ‘αγνος ajuntou todas as suas cinzas e as pôs em local perfeitamente limpo.
Livro IV. Cap IV, 6

E certamente esta legislação é cheia de sabedoria oculta e totalmente irrepreensível, como sendo a legislação de Deus; razão pela qual é, como Hecateus de Abdera diz, que os poetas e historiadores não fazem menção dela, nem dos homens que levam suas vidas de acordo com ela, visto que é uma ‘αγνης lei.
XII, II, 6

Havia um grande portão através do qual os que eram ‘αγνοι entravam, junto com suas esposas; mas a parte mais interior do templo naquele portão não era permitia às mulheres.
XV, XI, 5

Mas a nação dos Samaritanos não escapou sem tumulto. O homem que os incitou a isto foi aquele que pensou que o ato de mentir é uma de pequenas consequências, e imaginou cada coisa para que a multidão pudesse ser agradada; então os conclamou a se ajuntar no Monte Gerizim, que lhes é respeitado como a ‘αγνοτατον (*) de todas as montanhas…

XVIII, IV, 1.
(*) superlativo: a mais sagrada

Em cada uma delas, ‘αγνος é usado para dar um caráter distintivo de santidade/sacralidade e/ou pureza, logo Josefo estava falando de um corpo santo ou sagrado para uma vida melhor. Tanto este corpo especial se faz necessário, pois, caso fosse um normal (ainda que sadio), não poderia ser um prêmio aos justos, já que nas próprias palavras de Josefo: “(…), pois é verdade que a alma, por estar unida ao corpo, fica sujeita a misérias, e não é outra vez liberta disso senão pela morte (…)” (Contra Apion, II, 25). Esta forma de retorno à vida atribuída aos fariseus por Josefo guarda similaridades com o que se chamaria “ressurreição”, na literatura rabínica e doutrina neotestamentária do ex-fariseu Paulo de Tarso. Tanto Guerra Judaica III, VIII, e Contra Apion, II, possuem a expressão “ciclo(s) dos tempos, das coisas”. Apesar de a tradução inglesa whistoniana colocar “ciclos” (plural) em “Guerra..”, em ambas as passagens o original grego é εν/εχ περιτροπης, i.e., uma expressão singular. O historiador Steve Mason, em sua obra Flavius Josephus: on the Pharisees, assim comenta o uso flaviano do vocabulário grego:

Portanto o uso de περιτροπη, περιτρεπω, e εχ περιτροπης em Josefo e outra literatura grega permite tanto a ideia de “revolução contínua” e a de “transformação súbita, inversão, ou sucessão”. Mas o εχ περιτροπης de Josefo envolve o αιωνες. Apesar de αιων poder significar períodos de variável comprimento, de um período de vida a uma época, ele praticamente sempre tem o sentido de um concebível, determinado período de tempo. E esta observação parece suportar a ideia de sucessão ou mudança para εχ περιτροπης, em vez de uma “revolução contínua”: não que todos os éons de alguma forma façam um ciclo simultaneamente, mas sim que quanto uma era chega ao fim, a próxima começa. Eu proponho, portanto, a tradução: “na sucessão (ou mudança) das eras”

p. 168

Expressão análoga em Guerra Judaica VI, cap. V, onde narra a destruição do segundo templo:

Então Tito recuou para dentro da torre Antônia e decidiu tomar de assalto o Templo no dia seguinte, no começo da manhã, com todo o seu exército, e acampar em torno da Santa Casa; mas, com relação a esta Casa, Deus tinha determinado a muito tempo condená-la ao fogo; e agora que o dia fatal chegara, de acordo com o ciclo dos tempo [χρονων περιοδιος]: era o décimo dia do mês de Lous, [Av], sobre o qual ela fora anteriormente queimada pelo rei de Babilônia.(…)

Esta data concorda com Jr 52:12 e discorda de 2 Rs 25:8 (que seria o sétimo dia), o que importa é que Josefo lança e ideia de a destruição do segundo templo já estar definida para um plano “de acordo com o ciclo dos tempos”, sendo uma passagem (trágica) para o povo judeu.

Esta é uma última, porém suspeita, passagem de Josefo:

Este é o discurso sobre o Hades, onde as almas de todos os homens estão confinadas até a época adequada, que Deus determinou, quando ele fará a ressurreição de todos os homens dos mortos, não obtendo a transmigração de almas de um corpo para outro, mas erguendo novamente aqueles mesmos corpos, que vós gregos, vendo serem dissolvidos, não acreditam [em sua ressurreição]. Mas aprendei a não descrer dela; pois embora acreditais que a alma é criada de acordo com a Doutrina de Platão, e apesar de ser feita imortal por Deus,(…), não sejai incrédulos; mas acreditai que Deus é capaz, quando ergueu para a vida aquele corpo que foi feito como um composto dos mesmos elementos, de fazê-lo imortal; já que não se deve dizer que Deus é capaz de realizar algumas coisas e incapaz de outras. Temos, pois, acreditado que o corpo se erguerá novamente; mesmo que esteja dissolvido, ele não pereceu; pois a terra recebeu seus vestígios e preservou-os; e embora eles sejam como semente e estejam misturados aos solo mais fértil, florescem, e o que foi semeado na verdade foi grão nu, mas ao poderoso som do Senhor o Criador, germinará e será erguido numa condição revestida e gloriosa, ainda que tenha sido dissolvido e misturado [com a terra]. (…) Mas no que se refere aos injustos, eles receberão seus corpos não transformados, não libertos de suas doenças e desequilíbrios, nem feitos gloriosos, mas com as mesmas doenças de quando morreram; e assim como eles estavam em sua descrença, assim estarão quando forem acuradamente julgados. (…)

Discurso aos gregos sobre o Hades

Note que aqui há uma contradição com as passagens anteriores, agora com uma ressurreição universal, sendo a dos maus para o juízo, um tanto em contradição com os extratos anteriores. O “Discurso aos gregos…” merece uma ressalva: atualmente duvida-se que ele tenha sido realmente uma obra de Josefo.

Em suma, três são as características do Corpus Flavianum quanto ao pós-morte farisaico que o distinguem de uma doutrina de “transmigração de almas” (5):

  1. A volta ao corpo é uma recompensa, não uma punição, regeneração, aprendizado ou missão. Em princípio, ela se daria apenas para os justos, tendo um paralelo flagrante com o pseudoepígrafo 2 Mc 7:9, 14
    Tu, celerado, nos tiras desta vida presente. Mas o Rei do mundo nos fará ressurgir para uma vida eterna [εις αιωνιον αναβιωσιν ζωης ημας αναστησει], a nós que morremos por suas leis (…)
    É desejável passar para a outra vida às mãos dos homens, tendo da parte de Deus as esperanças de um dia ser ressuscitado por ele. Mas a ti, ao contrário, não haverá ressurreição para a vida!
    ”;
  2. a natureza do corpo futuro é distinta daquela do corpo anterior;
  3. a volta à vida é um clímax a se dar num mundo vindouro, estabelecido pelo uso do singular na narrativa, não algo cíclico. A estadia no céu não é o ápice disto.

Na conclusão de Mason (6):

A forma de reencarnação atribuída aos fariseus por Josefo, portanto, suporta muitas similaridades com o que chamaríamos de ressurreição – uma doutrina farisaica bem atestada pela literatura rabínica e no Novo testamento. Uma leve dificuldade surge, talvez, com o uso de Josefo do adjetivo ‘ετερον [outro] para σομα [corpo], que parece conflitar com a costumeira ideia judaica de que na ressurreição os corpos dos mortos se reerguem. Não se deve, porém, ler demais nisso, já que Josefo deixa claro que o novo corpo será diferente do antigo com respeito a sua “santidade” (cf. ‘αγνος) uma visão compartilhada em certo grau pelo ex-fariseu Paulo (I Cor 15:35 ss). Em qualquer caso, não há nenhuma questão em Josefo quanto a repetidas mudanças de corpo humano (ou animal) para outro.

p. 169

Notas:

(1) De fato, as chances de haver confusão são grandes, se não fossem certos pormenores:

Josefo também afirma que os fariseus diferem dos saduceus nesse ponto, em duas das passagens em que ele apresenta o farisaísmo como uma espécie de escola filosófica grega, conhecida por seus leitores greco-romanos (G.J. 2.8.14 parágrafo 163; Ant. 18.1.3 § 14). Mais especificamente, os fariseus assumem a coloração dos estoicos. (cf. Vida § 12). Nessas duas passagens, Josefo diz claramente que os fariseus, diferentemente dos saduceus, acreditam na imortalidade da alma, em algum lugar de recompensa e castigo após a morte e – pelo menos em uma delas – na ressurreição do corpo (G.J 2.8.14 § 163, embora os leitores gentios de Josefo devam ter entendido que sua linguagem ambígua se referia à reencarnação) (n. 142).

[Meier, cap. XXVIII, p. 48]

Eis a nota 142, p. 102:

Ver Mason, Flavius Josephus on the Pharisees. 156-69. Na verdade, há apenas uma tênue linha entre certos conceitos de ressurreição dos corpos e de reencarnação. Contudo, a linha de pensamento em G.J. 2.8.25 § 163 (*) sugere uma passagem definitiva e de uma vez por todas da alma de uma pessoa boa para um novo corpo, como forma de recompensa eterna (em oposição ao “castigo eterno” que “os ímpios sofrem”). Isso é notavelmente diferente de pelo menos algumas ideias sobre reencarnação, que muitas vezes envolvem a possibilidade de se passar por uma longa sucessão de muitos corpos, como parte de um processo de purificação ou punição, enquanto se segue no objetivo desejado de existência incorpórea ou mesmo de total extinção da pessoa humana com sua consciência individual.

Não apenas os gentios de antigamente podiam confundir habeas corpus com corpus Christi, os espiritualistas de hoje, também. A diferença é que não o fazem mais por um equívoco ao identificar uma crença desconhecida com as suas próprias e, sim, para se municiarem em embates apologéticos.

(*) Observação: No texto da nota 142, a referência à Guerra dos Judeus parece ter sofrido um erro tipográfico.

(2) Na tradução de W. Whiston, “[the good souls] shall have power to revive and live again“, e em Feldman, “receive an easy passage to a new life“.

(3) Do prefixo ανα (“para cima”, “de novo”, “de volta”) e βιοω (“vivo”). O portal Perseus traz dois dicionários com esse verbo: o de Henry George Liddell e Robert Scott e uma versão simplificada dele. No verbete do primeiro, somos informados de uma variante popular cuja primeira pessoa do singular do presente é αναβιωσκομαι e o léxico grego-português ao final do segundo volume da gramática de Murachco traz como significado, para essa variante, “ressuscito”.

(4) Mason reconhece o sentido de αναβιοω como sendo “ressuscitar”, dentro da obra josefiana (e inclusive 2 Macabeus 7:9), mas não aceita muito bem a evidência externa da literatura grega pagã. Questiono um pouco isto, pois há vasta evidência externa. Além do trecho de A República, de Platão, que relatei, há vários outros testemunhos disto, todos acessíveis no Portal Perseus, por exemplo: Hípias Maior e Fédon, de Platão; Descrição da Grécia, livro IV, cap. 19 e 26, de Pausânias; Discurso I, seção 125 de Andrócides, e outros (link alternativo para elas). Uma coisa, porém, concordo com ele, muitos judeus ou judeu-cristãos ao escreverem em grego tomavam empréstimos do paganismo para expressar características própria de sua religião, o que torna um erro querer que certas expressões tenham seu significado pagão em textos neotestamentários ou pseudoepígrafos. Voltarei a isto em Tito 3:5.

(5) Uma das principais traduções de Flávio Josefo para a língua inglesa são The Works of Flavius Josephus de William Whitson, que data de 1737 e tornou-se extremamente popular nos séculos XVIII e XIX e já é de domínio público. Contudo, seu estilo é arcaizante à la King James Bible, usou manuscritos tidos hoje como de má qualidade e privilegiou o estilo à precisão. No século XX, surgiram novas traduções, como as da Loeb Classical Library, feitas a partir de manuscritos melhores, com uma linguagem moderna e mais rigor, apesar do estilo seco e frio. Nas obras de Josefo dessa coleção bilíngue de clássicos greco-latinos, destaca-se o nome de Henry St. John Thackeray, que retraduziu boa parte das obras de Josefo, até sua morte em 1930. Thackeray, contudo, foi um dos divulgadores da ideia de que os fariseus eram crentes na metempsicose, um equívoco que um dos continuadores de seu trabalho apontou e corrigiu:

Thackeray, Selections [from Josephus], p. 159 dá uma referência cruzada para B.J. [Bellum Judaicum – “Guerra dos Judeus”] iii. 374 (“suas almas … são designadas ao mais santo lugar no céu, de onde, na revolução das eras, retornam para encontrar em corpos castos uma nova morada”), na qual Josefo discursa para seus homens sobre o mal do suicídio. Essa passagem em B.J. iii. 374, diz Thackeray, contém uma referência à metempsicose. Mas nossa passagem [Antiguidades Judaicas xviii. 3], a passagem em B.J. e aquela em Contra Ap. ii. 218, que Thackeray cita em sua nota sobre B.J. iii. 374, não se refere à metempsicose, que não era um princípio dos fariseus, mas à crença na ressurreição, que era uma doutrina central dos fariseus. Cf. 2 Mac vii.9, que emprega αναβιωσιν, o substantivo correspondente ao verbo αναβιοω (a palavra usada por Josefo em nossa passagem) em clara referência à ressurreição.

Feldman, Jewish Antiquities: Books XVIII – XIX, p.13

Ou seja, Mason não foi o único nem o primeiro a perceber o engano, dado que a primeira impressão da tradução de Feldman é de 1965.

(6)Mason considera a ressurreição um tipo de reencarnação que se dá uma única vez, o que tem até sentido.

Para saber mais

– Josefo, Flávio; Textos em inglês e grego do portal Perseus.

_____________; The Works of Flavius Josephus, as clássicas e já de domínio público traduções inglesas de William Whiston.

_____________; Jewish Antiquities: Books XVIII – XIX, tradução inglesa de Louis H. Feldman, Loeb Classical Library, Vol. 433, Harvard University Press, 2000.

– Mason, Steve; Flavius Josephus – on the Pharisees, Brill Academic Publishers, 2001, cap. VI, pags. 156-170.

– Meier, John P.; Um Judeu Marginal – Repensando o Jesus Histórico, Vol. III, livro II, Imago, 2004.

– Murachco, Henrique; Língua Grega – Visão Semântica, Lógica, Orgânica e Funcional, Vol. II (Prática), Vozes.