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Palingênese – colocando o carro na frente dos bois!

29 de novembro de 2011 2 comentários

Carro na frente do boi

– Se o verbete é este, então vou escolher o sentido que mais me agrada.
– Acho que está fazendo isso errado…

Uma tradução controvertida que Severino da Silva faz de Tito 3:4-5 em seu Analisando as Traduções Bíblicas, cap. XVII:

Paulo, em sua epístola a Tito 3:4-5, interpreta bem esta citação do Cristo: ‘Mas quando apareceu a vontade de Deus, nosso salvador; e seu amor para com os homens, não por obras de justiça que tivéssemos feito, mas segundo sua misericórdia nos salvou pelo lavatório da reencarnação, e pelo renascimento de um espírito santo’.

Aqui, Paulo deixa bem claro que Deus nos salvou não porque o tivéssemos merecido, mas por Sua misericórdia, servindo-se da reencarnação a qual é um ‘lavatório’ (de água) e um ‘renascimento do espírito’. A palavra grega do texto a que se refere Paulo é παλιγγενεσιας ‘Palingenesia’ – isto é, ‘renascimento’, ‘Novo Nascimento’, REENCARNAÇÃO. [grifos do autor]

É um argumento até bem organizado, mas que, visto de perto, revela sérias rachaduras. Em primeiro lugar, se uma das máximas espíritas é “fora da caridade não há salvação”, então como essa passagem afirma que as obras têm pouco valor na misericórdia divina? E, segundo, o mais interessante ainda aparece nos versículos seguintes:

que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador a fim de que, justificados por graça [misericórdia], nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna. Fiel é esta palavra, e quero que, no tocante a estas coisas, faças afirmação, confiadamente, para que os que têm crido em Deus sejam solícitos na prática de boas obras. Estas coisas são excelentes e proveitosas aos homens.

Tito 3:6-8

Ele até diz que devemos ser “solícitos na prática de boas obras”, mas o que salta aos olhos é “somos justificados por graça”. Severino Celestino da Silva forçou a barra da reencarnação em um texto salvacionista! Analisou uma palavra e desviou a atenção do leitor para fora do contexto (1).

E quanto ao sentido de Palingenesia? De fato, há registros dela com o uso de “reencarnação” na filosofia grega(2), mas seria esse o único uso que lhe era dado? Quem define o significado de uma palavra é quem a usa, não os dicionários, que apenas registram suas diversas acepções. O panorama, seja do texto ou social, é o que nos dá noção do real significado, do contrário temos uma inversão de raciocínio: em vez de analisar o texto para determinar se a realidade dos primeiros leitores possibilitava a presença da reencarnação em seu credo e a partir daí traduzir conforme seus conceitos, arbitra-se a existência dela no credo e a tradução é feita conforme tal prejulgamento.

Portanto, passemos à análise dos diversos valores que “palingenesia” pode assumir. Ela só aparece mais uma vez na Bíblia:

E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, quando, na regeneração [εν τη παλιγγενεσια], o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel.

Mt 19:28

O versículo se relaciona diretamente com o sentido escatológico do fim dos tempos. Este sentido escatológico aparece também na literatura pagã, em especial entre os filósofos estoicos. Fazia parte da doutrina dessa corrente, entre outras coisas, a crença em diversos ciclos nos quais o universo seria renovado. Assim escreveu o imperador romano Marco Aurélio em suas Meditações, livro XI, 1

E além disso, ela [a alma racional] percorre todo o universo e o vácuo circundante, e analisa sua forma, e se estende para o infinito de tempo, e abarca e compreende a periódica renovação [περιοδικην παλιγγενεσιαν] do universo, e entende que os que virão após nós não verão nada novo, nem os que vieram antes viram algo mais, mas de certo modo, o quarentão, ainda que não tenha discernimento, viu tudo o que foi e o que será, em virtude da similaridade das coisas.

Sentido escatológico similar é o que deve ser entendido em (Mt. 19:28). Em outras partes não bíblicas da literatura judaico-cristã é possível “palingenesia” significando “regeneração”, “restauração”:

Agora que Zorobadel obtivera estas concessões do rei, ele saiu do palácio e, olhando para o céu, começou a render graças a Deus pela sabedoria que lhe dera e a vitória que tivera com isso, mesmo na presença do próprio Dario; visto que, disse ele,”Eu não tinha me julgado merecedor destas vantagens, ó Senhor, a menos que tivesses sido favorável a mim“. Então, quando já agradecera a Deus pelas presentes circunstâncias em que se achava e orara para que ele lhe proporcionasse como um favor o tempo vindouro, voltou para Babilônia e trouxe as boas novas sobre as concessões que conseguira do rei a seus compatriotas; que, assim que ouviram o mesmo, também deram graças a Deus que mais uma vez restaurou a eles a terra de seus antepassados. Então puseram-se a beber e comer, e por sete dias continuaram festejando, e mantiveram uma celebração pela reconstrução e restauração de seu país [καὶ παλιγγενεσιαν της πατρίδος εορταζοντες].

Extraído de Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas X, cap. III, parágrafo 9. Uma passagem que relata o fim do cativeiro de Babilônia e retorno dos judeus a sua terra, após a tomada deste reino pelos persas de Dario. Fontes grego-latinas disponíveis em Antiquitates Judaicae.

Outro exemplo de uso “macro” da palingênese se encontra em um texto atribuído (talvez pseudonimamente) ao terceiro bispo de Roma, na virada do primeiro século d.C. para o segundo, e endereçado à Igreja de Corinto a fim de resolver uma desavença local. Em certa altura, seu autor aplica essa palavra para se referir uma das metas da missão de Noé.

Portanto, vamos render graças a Sua excelsa e gloriosa vontade; e implorando Sua misericórdia e bondade amorosa, enquanto deixamos todas as tarefas infrutíferas, e disputa, e inveja que leva a morte, vamos nos voltar a Sua compaixão e se valer dela. Vamos contemplar continuamente os que ministraram perfeitamente para Sua excelsa glória. Tomemos (por exemplo) Enoque, que, sendo reconhecido virtuoso em obediência, foi arrebatado e nunca foi sua morte registrada. Noé, sendo reconhecido fiel, pregou a regeneração (παλιγγενεσιαν) do mundo através de seu ministério; e o Senhor salvou através dele os animais que, harmoniosamente, entraram na arca.

I Carta de Clemente de Roma aos Coríntios, cap. IX

Não só o universo, o mundo ou nações podem sofrer um processo de “palingenesia”. Pessoas também podem sofrê-lo e ainda em vida. Diz-nos isso o político e orador romano Cícero, em sua coletânea de cartas a seu amigo Ático, mais especificamente na carta 6 do livro VI:

Amicorum litterae me ad triumphum vocant, rem a nobis, ut ego arbitror, propter hanc palingenesian nostram non neglegendam. Qua re tu quoque, mi Attice, incipe id cupere quo nos minus inepti videamur.

As cartas de meus amigos me convidam ao triunfo, uma coisa, em minha opinião, que não devo negligenciar em vista de minha restauração, Por isso, meu [caro] Ático, que tu também comeces a desejá-lo para que eu pareça menos tolo (3).

As circunstâncias da carta representam o fim do proconsulado de Cícero na província da Cilícia, ao sul da atual Turquia. Fora a contragosto devido a um sistema de sorteio entre os magistrados e governou de 51 a 50 a.C., tendo se preparado para possível invasão dos partas (que acabou ocorrendo na Síria, mas foram repelidos) e feito pequena campanha contra tribos ainda hostis [Ferrero]. Aparenta ter feito bom governo, ainda mais quando comparado com a rapinagem praticada pelos demais governadores romanos. Foi-lhe decretado um triunfo por suas vitórias na ocasião de seu retorno à Itália. Cícero considerou seu retorno triunfal uma nova fase de sua vida, adotando a palavra “palingenesia” para defini-la e traduzida por certo erudito inglês como “nova etapa da vida”. Essa “palingenesia” para encarnados é a que melhor define a ideia contida em Tito 3:5, especialmente pela mudança de comportamento apresentada nos versículos que antecedem:

Lembra-lhes que devem ser submissos aos magistrados e às autoridades, que devem ser obedientes e estar sempre prontos para qualquer trabalho honesto, que não devem difamar a ninguém, nem andar brigando, mas sejam cavalheiros e delicados para com todos. Porque também nós antigamente éramos insensatos, desobedientes, extraviados, escravos de toda sorte de paixões e de prazeres, vivendo em malícias e inveja, odiosos e odiando uns aos outros.

Confrontando 3:1-3 com 3:6-8, fica claro que, para o autor de Tito, a mudança foi operada externamente por meio da graça. Se a plateia é composta de um grupo de prosélitos (o mais comum num cristianismo nascente), pouco sentido faz falar em reencarnação, pois experimentaram a mudança em vida. Aqui, o sentido de “palingenesia” está mais para o de Cícero que o de Platão, e mais conforme com a pregação paulina.

Por fim, passemos a um exemplo em que “lavagem” e “palingênese” caminham juntos para uma renovação em vida, desta vez por um texto do apologista cristão Teófilo de Antioquia (ca. 180 d.C.) em que ele rebate as acusações de um suposto pagão (4).

No quinto dia foram criados os animais que procedem das águas, pelas quais e nas quais se mostra a multiforme sabedoria de Deus. De fato, quem seria capaz de enumerar sua quantidade e a variedade de suas variadíssimas espécies? Além disso, o que foi criado das águas por Deus foi abençoado por ele, para que isso servisse de prova sobre o que os homens deveriam receber: penitência e remissão dos pecados através da água e banho de regeneração [λουτρου παλιγγενεσιας], todos os que se aproximam da verdade, renascem e recebem a bênção de Deus.

II Livro a Autólico, cap. XVI. Texto grego em Patrologia Graeca, Migne, Vol. VI, col. 1.078

Ou seja, por meio do batismo.

Talvez haja um fenômeno que já ocorreu antes, na transição do judaísmo para o cristianismo: a releitura. Passagens de um tipo de exegese estão sendo remodeladas para outra. Quando os tradutores da LXX usaram a palavra “parthenos” em Is 7:14 : “a jovem conceberá um filho”, eles usaram uma palavra que podia abarcar pelo menos três sentidos: “virgem”, “menina” e “mulher jovem”. Com observou Geza Vermes, o judaísmo do Segundo Templo possuía uma grande fluidez em seu conceito de “virgindade”: inexperiência sexual, ser ainda impúbere, ter concebido e dado filhos sem menstruação anterior, e o estado de pós-menopausa de da esposa de Abraão, como uma mulher que se tornara virgem pela segunda vez (segundo Filo de Alexandria). O que o cristianismo fez foi adotar seu sentido estrito e desprezar todas as demais possibilidades. Coisa que os espíritas estão fazendo novamente com “palingenesia”.

Notas

(1) Ficou um tanto ambíguo o uso da palavra “lavatório”. No original grego, lê-se loutron: “lavagem, banho” (λουτρον declinada para λουτρου, em genitivo-ablativo). “Lavatório” pode ter esse sentido em português, embora também possa significar “instrumento com que se lava”, “pia” (λουτηρ). O “local onde se lava” seria λουτρων (cujo gen-abl é λουτρωνος).

(2) Plutarco, em Sobre o Consumo de Carne, faz uma defesa apaixonada do vegetarianismo. Um dos argumentos expostos seria a possibilidade reencarnar em corpos animais, conforme algumas escolas apregoavam (ex.: pitagóricos):

No entanto, se alguém porventura demonstrar que as almas em seus renascimentos [παλιγγενεσιαις] fazem uso de corpos comuns e que o que é agora racional reverte para o irracional , e, de novo, o que é agora selvagem se torna-se doméstico, e que a Natureza muda tudo e atribui novas moradas, não irá isso deter o componente indisciplinado naqueles que adotaram a doutrina em razão da implantação de doenças e da indigestão em nossos corpos e pervertendo as nossas almas a uma ilegalidade ainda vez mais cruel, assim que são alijadas do hábito de não divertir um convidado ou celebrar um casamento ou se reunir a nossos amigos sem derramamento de sangue e assassinato?

Sç 998c

Platão, por sua vez, não utilizou essa palavra em seus escritos. Em vez disso, valeu-se da expressão similar “palin gignesthai”:

Dizem eles pois que a alma do homem é imortal, e que ora chega ao fim e eis aí o que se chama morrer, e ora nasce de novo [παλιν γιγνεσθαι], mas que ela não é jamais aniquilada. É preciso, por causa disso, viver da maneira mais pia possível.

Menão (ou Mênon), Sç 81b

Curiosamente, Platão tem um uso consistente do verbo αναβιοω no sentido de “reanimar”, “ressuscitar”, tal qual o escritor judeu Flávio Josefo.

(3) Na tradução foram desfeitos os plurais de modéstia comuns na pena de Cícero.

(4) Atólico pode não ter sido uma pessoa real, mas um personagem a representar todas as críticas dos pagão da época.

Para saber mais

– Ferrero, Guglielmo; Grandeza e Decadência de Roma, vol. II, Globo, 1ª ed., 1963, caps. IX – XI, p. 147-187.

– Liddell, Henry George & Scott, Robert; A Greek-English Lexicon, παλιγγενεσια, versão eletrônica de Perseus Digital Library.

– Teófilo de Antioquia, Livro a Autólico, Coleção Patrística, Vol II – Padres Apologistas, Ed. Paulus.

– Vermes, Geza; As Várias Faces de Jesus, Record, 1ª ed., 2006, cap. VI, p. 252-254

Virgindade de Maria

29 de novembro de 2011 Comentários desligados
Para ver a história da concepção de Jesus num contexto mais amplo, é necessário contrastá-la com outras lendas de nascimento correntes no judaísmo intertestamental. Os autores do Velho Testamento acreditavam que a esterilidade de uma mulher era causada por Deus, que lhe fechava o útero, mas ele podia igualmente reabri-lo e assim torná-la fértil. Muitos dos heróis bíblicos, inclusive os patriarcas Isaac, Jacó e José, assim como o profeta Samuel, nasceram de mulheres consideradas infecundas – e no caso de Sara, a mulher de noventa anos de Abraão, depois de toda uma vida de esterilidade, Na antiga sociedade e cultura judaicas, esses nascimentos foram considerados milagrosos.

Em seguida, não devemos deixar de observar em nossa avaliação dos evangelhos da infância que o termo “virgem” era suscetível de várias interpretações entre os judeus. É claro, a ausência de experiência sexual era uma delas, mas o grego parthénos também podia significar que a moça era jovem e/ou não casada. Na verdade, na tradução septuaginta do Velho Testamento, parthénos foi usado para traduzir três palavras hebraicas diferentes, “virgem”, “menina” e “jovem mulher”. Já os rabinos da era tanaítica (do século I ao II d.C.) sancionaram ainda outras nuanças, e não há razões para pensar que todas tenham sido inventadas por eles. Mesmo a palavra bethulah, que normalmente significa virgem intacta, quando usada por eles podia transmitir um sentido lateral de imaturidade corporal, com a consequente incapacidade de conceber. Na terminologia rabínica, esse tipo de virgindade numa mulher cessava com o início da puberdade física. A Mixná, o mais velho dos códigos rabínicos, define a virgem como uma mulher que “nunca viu sangue, mesmo sendo casada” (mNiddah 1:4). A Tosefa, outro antigo código legal judeu, afirma, em nome do rabino Eliezer ben Hircanos (final do primeiro século d.C.), que a mulher continuaria a contar como virgem mesmo depois de ter concebido e dado filhos à luz sem menstruação anterior! (tNiddah 1:6)

Para entendermos essas afirmações, devemos nos lembrar que o casamento pré-púbere era geralmente permitido no início da era intertestamental rabínica (7). A bem da verdade, rabinos debatiam seriamente se as manchas de sangue encontradas após a noite de núpcias no leito nupcial de uma menor, isto é, de uma “virgem quanto à menstruação”, marcavam a primeira menstruação ou a consumação do casamento. Assim a ideia de conceber na primeira oportunidade física e tornar-se destarte mãe virgem não foi apenas um arroubo fantasioso da mente rabínica excessivamente imaginativa.

Contudo, outro aspecto da antiga representação judaica da virgindade nos é dado pelo famoso filósofo Filo de Alexandria, contemporâneo de Jesus. Ele descreveu a esposa pós-menopáusica de Abraão como uma mulher que se tornara virgem pela segunda vez (De posteritate Caini 134). Em seu modo de pensamento alegórico usual, ele caracterizou Isaac, a criança nascida milagrosamente de Sara e Abraão, como o “filho de Deus” (De mutatione nominum 131). Citando as palavras de Sara em Gênesis 21:6, “Deus me deu motivo de riso” (Isaac quer dizer “Ele ri”), Filo comentou: “Abre os teus ouvidos e aceita os mais sagrados ensinamentos: o riso é ‘alegria’, e fez iguais ‘procriarem’. De modo que o que é dito é semelhante a : ‘O Senhor gerou Isaac’.” (De allegoria legum iii 129). Ou então, optando por um simbolismo ainda mais surpreendente, Filo atribuiu a gravidez de Sara ao seu encontro com Deus: “Pois Moisés nos mostra Sara concebendo no momento em que Deus a visitou em sua solidão; mas quando ela gera, não é para o autor da sua visita, mas para Abraão.” (De cherubim 45) A única conclusão que precisamos tirar de tudo isso é que as noções de virgindade e de parir sendo virgem eram muito mais elásticas na antiguidade judaica do que a tradição cristã admite.

Nota

(7) – A mulher podia casar-se ao atingir a maioridade, que era fixada por ficção legal aos doze anos e um dia, independentemente de ter atingido ou não a puberdade. Os casamentos da seita essênia proibiam a coabitação até que a jovem tivesse provado, por três períodos consecutivos, que estava fisicamente madura (Josefo, Jewish War [Guerra Judaica] ii.161). É provável que o ato de “fornicação com a esposa”, mencionado num dos manuscritos de Documento de Damasco de Qumrã (4Q270), fosse cometido ao desobedecer-se a esta regra.

Fonte:

-Vermes, Geza; As Várias Faces de Jesus, Record,1ª ed., 2006, cap. VI, p. 252-254

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Patrística: Comentários Finais

24 de novembro de 2011 Deixe um comentário
O fato de os primeiros teólogos terem agido com tanta veemência na rejeição da “transmigração” pode ser tomado como sinal de que algum grupo ou seita um dia a aceitou. De fato, seitas gnósticas a aceitavam (ainda que para elas fosse algo ruim) e a cultura grega em que os primeiros cristãos estavam imersos a admitia. Contudo, a maior parte da alegações dos que defendem que ela era moeda corrente entre os primeiros devotos passa pela tese de que a reencarnação era professada pela massa que viria a ser a ortodoxia. Ou ao menos uma doutrina secreta reconhecia pelas autoridades mais altas. Não é o que aparenta pelos depoimentos acima. Outro mito que se arraigou foi de que a reencarnação foi retirada dos ensinos religiosos em dois tempos: No Concílio de Niceia, em 325, – o que é falso, pois vários dos exemplos acima são anteriores – e em 553 no Concílio de Constantinopla. Este merece uma elucidação especial.

Quem quiser uma fonte de consulta, pode procurar em

Early Church Fathers

Agostinho de Hipona

24 de novembro de 2011 Deixe um comentário
Do livro “O Espiritismo e as Igreja Reformadas” (de Jayme Andrade, editora EME, quarta edição) capítulo VII, parte 3:

Santo Agostinho escreveu: “Não teria eu vivido em outro corpo, ou em outra parte qualquer, antes de entrar no ventre de minha mãe?” (‘Confissões’, I, cap. VI).

Já em traduções diretas do latim, encontra-se: “E antes deste tempo, que era eu, minha doçura, meu Deus? Existi, porventura, em qualquer parte, ou era acaso alguém. Não tenho quem me responda, nem meu pai, nem minha mãe, nem a experiência dos outros, nem minha memória. (…)[não há nenhuma alusão à entrada no ventre]”? (Confissões, da coleção “Os Pensadores”, vol. 6, Abril Cultural, 1973). Provavelmente houve algum conflito com versões inglesas onde se lê: “Was I, indeed, anywhere, or anybody? ” [fuine alicubi aut aliquis?, em latim], daí uma má tradução errada do termo anybody. Estas duas versões têm sutis e cruciais diferenças: a primeira é claramente reencarnacionista, ao passo que a segunda não o é necessariamente, podendo ser um questionamento apenas quanto a preexistência. O trecho imediatamente antes esclarece a dúvida: “dizei se a minha infância sucedeu a outra idade já morta ou se tal idade foi a que levei no seio da minha mãe?”. Esta dúvida sempre acompanhou Agostinho, que nunca se definiu como a favor ou contra a existência antes do nascimento, preferindo assumir sua ignorância quanto à origem da alma:

Pois você [Vincêncio Vítor] não apenas caluniou com sua censura os que são afligidos com a mesma ignorância sob a qual eu próprio estou penando, quero dizer, no que diz respeito à origem da alma humana (apesar de eu não ser absolutamente ignorante mesmo quanto a esse ponto, pois sei que Deus soprou a face do primeiro homem, e tal “homem então se tornou alma vivente” (Gn 2:7) – uma verdade, porém, que eu nunca soube por conta própria, exceto o que lera na Escritura); mas você perguntou tão sucintamente. “Qual diferença há entre um homem e uma fera selvagem, se ele não sabe como discutir e determinar sua própria qualidade e natureza?” E você parece nutrir sua opinião tão distintamente, como tendo pensado que um homem deva ser capaz de discutir e determinar completamente os fatos de própria qualidade e natureza tão distintamente, de modo que nada acerca de si mesmo deva escapar de sua observação. Agora, se isto é realmente a verdade da questão, devo, então, compará-lo “ao gado” se não puder me dizer o número preciso de fios de cabelo da sua cabeça. Mas se, apesar do quanto possamos avançar nesta vida, você nos permitir sermos ignorantes de diversos fatos pertencentes a nossa natureza, então eu quero sabe o quão longe sua concessão se estende, que, porventura, pode incluir o mesmo ponto que estamos tratando agora, que de qualquer maneira não sabemos a origem de nossa alma, apesar de sabermos – algo que pertence à fé – além de qualquer dúvida, que a alma é um presente de Deus ao homem, e ainda que ela não é da mesma natureza do próprio Deus.

Da Alma e Sua Origem, Livro IV, cap. III

Ao contrário de Orígenes, ele não considerava a união da alma com o corpo como uma punição. Os problemas viriam com o pecado, que imporia um domínio da matéria sobre alma. A discordância entre Orígenes fica patente numa carta de Agostinho a Optatus:

Mas como afirmas que as almas não se propagam, deves explicar a partir de quê Deus as faz. É a partir de algum material pré-existente ou do nada? Pois é impossível que sustentes a opinião de Orígenes, Prisciliano e outros hereges que, por causa dos atos cometido numa vida anterior, as almas são confinadas em corpos mortais e terrenos. Esta opinião é, na verdade, categoricamente contradita pelo o que o apóstolo de Jacó e Esaú que, antes de terem nascido, não cometeram nem o bem, nem o mal (Rom 9:11).

Nota: Esta carta aparece como sendo a 144ª da coletânea de Jerônimo, que teria, na verdade, uma versão simplificada dela.

J.R. Chaves em seu Reencarnação na Bíblia e na Ciência, cap. VI até traz uma versão correta do texto de “Confissões”, que sugere pré-existência, mas não ainda reencarnação. O texto que Chaves realmente traz de novo é o de “Contra Acadêmicos”:

A mensagem de Platão, a mais pura e luminosa de toda a Filosofia, pelo menos tornou difusa a escuridão do erro e agora brilha em Plotino, discípulo de Platão, tão semelhante ao mestre, que se pensaria que viveram juntos, ou melhor – uma vez que separados por tão longo período de tempo-, que Platão nasceu de novo em Plotino. (8)

Na nota de rodapé (8) : Vidas passadas – Vidas Futuras, pág. 35, Dr. Bruce Goldberg, Editorial Nórdica Ltda, Rio de Janeiro, 1993.

Ora, mais uma citação de citação. Mas, felizmente, tal texto realmente existe e está no capítulo XVIII de Contra Acadêmicos. O texto da tradução inglesa de John J. O’Meara (Paulist Press) traz : “that one should rather think that Plato had come to life again in Plotinus”. Isto é: “voltara à vida novamente em Plotino”. Isto pode até significar “nascer de novo”, mas pode ter, também, sentido puramente metafórico. Digo isso porque, quando questões doutrinárias estavam realmente em jogo, Agostinho tinha uma posição bem nítida:

Devo agora, vejo eu, entrar na arena de afável controvérsia com aqueles cristãos compassivos que renegam em acreditar que qualquer, ou todos os que o infalivelmente justo Juiz possa declarar merecedor do castigo do inferno, sofrerá eternamente e quem supõe que eles serão enviados a um período fixo de castigo, maior ou menor de acordo com a quantidade de pecado de cada homem. Quanto a esta questão, Orígenes foi ainda mais indulgente; pois acreditava que mesmo o próprio diabo e seus anjos, depois de sofrerem das mais severas e prolongadas dores a que seus pecados estão reservados, devam ser libertados de seus tormentos e associados com os santos anjos. Mas a Igreja, não sem razão, condenou-o por este e outros erros, especialmente por sua teoria de alternâncias incessantes entre felicidade e miséria e uma interminável transição de um estado a outro em períodos de eras fixas; pois nesta teoria ele perde mesmo o crédito por ser misericordioso, ao distribuir aos santos misérias verdadeiras misérias para a expiação de seus pecados e falsa felicidade, que não lhes traz nenhuma alegria verdadeira e segura, isto é, uma destemida certeza da eterna redenção. Muito diferente, porém, é o erro de que falamos, que é ditado pela compaixão destes cristãos que supõem que os sofrimentos dos que forem condenados no julgamento será temporário, ao passo que a redenção de todos que serão cedo ou tarde libertos será eterna.

Cidade de Deus, XXI, 17

De Chaves:

Santo Agostinho morreu em 430, ou seja, 123 anos antes de V Concílio Ecumênico de Constantinopla II (553), o qual, supostamente, teria condenado a reencarnação.

Agostinho de Hipona, mais de 123 antes de 553, já condenava o origenismo com seu sistema entre-eras e as ideias ao estilo de Gregório de Nissa, afinal fora contemporâneo à primeira crise origenista. Podes até achar cruéis as palavras de Agostinho – também acho – mas era o que ele realmente pensava. Apesar de crente em certo tipo de pré-existência, adota a vida única em estado mortal. Uma combinação sui generis. Ironicamente, Chaves deveria saber disso, pois um autor usado por ele – William Walker Atkinson, em A Reencarnação e a Lei do Carma, p. 47; uma página após falar de Justino – já falava da oposição de Agostinho ao origenismo.

Latino, pelo fim do terceiro século opinava que a ideia de imortalidade da alma implicava sua pré-existência. S. Agostinho, em suas “Confissões”, usa as seguintes notáveis palavras: ‘Não vivi eu em outro corpo [erro aqui, como visto acima] antes de entrar no ventre de minha mãe?’ Esta expressão é tanto mais notável, porque Agostinho se opunha a Orígenes em muitos pontos da doutrina, e porque foram escritas no ano de 415.

A quem quiser saber mais sobre as ida e vindas de Agostinho quanto à origem das almas, do sofrimento humano e a gestação de sua doutrina do “pecado original”, sugiro a leitura de The Origenist Controversy, de Elzabeth A. Clark, cap. V, p. 227-244.

Gregório de Nissa

23 de novembro de 2011 Deixe um comentário

São Gregório de Nissa era reencarnacionista e fazia parte dos teólogos cabalistas que afirmavam que o maior argumento a favor da reencarnação era a justiça de Deus.(14)

Um texto dele: ”Há necessidade de natureza para a alma imortal ser curada e purificada, e se ela não o for na sua vida terrestre, a cura se dará através de vidas futuras e subsequentes.”(15)

José Reis Chaves, em A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, 7ª ed., ebm, cap VI;

notas de rodapé:

(14) A Reencarnação e a Lei do Carma, pág 47, William Walker Atkinson, São Paulo, SP.

(15) Reencarnação, pág. 153, John Van Auken, Editora Record, Rio de Janeiro, RJ, 1989; e O Mistério do Eterno Retorno, pág. 123, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, SP.

Bem, estamos diante de mais uma “citação de citação” patrística sem referência exata da fonte. Diz-se o nome do autor, mas nada sobre a obra de onde ela saiu. Chaves até acerta ao afirmar (um pouco antes) que Gregório de Nissa não cria na “eternidade do inferno” e, junto a Orígenes, foi um dos poucos universalistas da patrística:

Nós certamente cremos, tanto por causa da opinião prevalecente e ainda mais do ensinamento da Escritura, que existe um outro mundo de seres além deste, despojado de corpos tais como são os nossos, que se opõem a tudo que é bom e são capazes de machucar as vidas dos homens, tendo por um ato de vontade se desviado da nobre visão e por sua revolta contra a bondade, personificaram o princípio oposto em si mesmos; e esse mundo é o que, dizem alguns, o Apóstolo acresce ao número de “coisas sob a terra”, significando em tal passagem que quando o mal for algum dia aniquilado nos longos ciclos das eras, nada será deixado fora do mundo de bondade, mas que mesmo aqueles maus espíritos se erguerão em harmonia com a confissão da Soberania de Cristo.

Sobre a alma e a Ressurreição.

Porém, ao contrário de Orígenes, ele limitava a existência humana a duas claras etapas:

A primeira das ordens de Deus atesta a verdade disto; a tal que, nominalmente, deu ao homem irrestrito gozo de todas as bênçãos do Paraíso, proibindo apenas o que fosse uma mistura do bom e mal e, assim, composto de opostos, mas fazendo da morte a pena por transgredir esse detalhe. Porém o homem, agindo livremente por um impulso voluntário, abandonou o quinhão que não estava misturado com o mal e atirou-se no que era uma mistura de opostos. Embora a Divina Providência não tenha deixado aquela nossa imprudência sem um corretivo. De fato a morte, como a pena prescrita para a quebra da lei, necessariamente caiu sobre seus transgressores; mas Deus dividiu a vida do homem em duas partes, nominalmente, esta vida presente e a “fora do corpo” do além-mundo, e colocou sobre a primeira um limite do mais breve tempo possível, enquanto prolongou a outra para a eternidade; e em Seu amor pelo homem deu-lhe sua escolha, de ter uma ou outra dessas coisas, bom ou mal, digo, qual das partes ele preferia: ou esta curta e transitória ou aquela de eras infindáveis, cujo limite é a eternidade. (…)

Quando, então, a humanidade tiver alcançado a que pertence, este movimento contínuo de produção cessará totalmente; terá tocado a meta destinada e uma nova ordem de coisas bem distinta da presente precessão de nascimentos e morte que conduz a vida da humanidade. Se não há nascimento, segue necessariamente que não haverá nada para morrer. Composição deve preceder dissolução ( e por composição entendo como a vinda a este mundo pelo nascer); necessariamente, portanto, se a síntese não precede, a dissolução não se segue. Portanto, se temos de ir além das probabilidades, a vida após esta se mostra de antemão como algo que é fixo e imperecível, com nenhum nascimento ou decomposição para mudá-la.

Sobre a alma e a Ressurreição.

Gregório de Nissa não desconhecia transmigração de almas, mas não aprovava nem sua versão entre humanos, nem a de metempsicose e muito menos a pré-existência das almas:

Desde então a doutrina envolvida em ambas destas teorias está aberta à crítica – a doutrina similar àquelas que associam às almas uma fabulosa pré-existência em um estado especial e as que pensam terem elas sido criadas em uma época posterior aos corpos, talvez seja necessário não deixar nenhuma das declarações contidas nas doutrinas sem exame: embora embrenhar-se e lutar completamente com as doutrinas de cada lado e revelar todos os absurdos envolvidos nas teorias necessitaria de grande empenho tanto de argumentos como de tempo; iremos, contudo, rapidamente pesquisar o melhor que pudermos de cada um dos pontos de vista mencionados e então prosseguir nosso assunto.

Aqueles que advogam a referida doutrina e asseveram que o estado de almas é anterior a esta vida na carne, não me parecem serem limpos das doutrinas fabulosas dos pagãos que sustentam aspecto da sucessiva incorporação: pois alguém tiver de procurar cuidadosamente, descobrirá que a doutrina deles é necessariamente resumida a isto. Contam-nos que em um de seus doutos disse que, sendo uma e a mesma pessoa, nasceu como homem, e depois assumiu a forma de uma mulher, e voou com os pássaros, e brotou como um arbusto, e obteve a vida de um ser aquático. E ele que disse essas coisas de si mesmo, até onde podemos julgar, não foi muito longe da verdade: por tais doutrinas como esta, dizendo que alma passou através de diversas mudanças, são realmente adequadas para o matraquear das rãs e gralhas, a estupidez dos peixes ou insensibilidade das árvores.

Sobre a Criação do Homem – XXVIII. “Aos que dizem que a alma existiu antes dos corpos ou que os corpos foram formados antes das almas; e daí também uma refutação para as fábulas acerca da transmigração da alma.

Ele era, na verdade, traducianista, i.e., acreditava que alma e corpo eram gerados juntos:

Mas assim como dissemos que no trigo, ou em qualquer outro grão, toda a forma da planta está potencialmente inclusa – as folhas, o talo, as juntas, o grão, a farpa – e não dissemos em nossa avaliação de sua natureza que nenhuma dessas coisas tem pré-existência ou vem à existência antes das outras, mas que o poder conformado na semente é manifestado em certa ordem natural, não por quaisquer meios que outra natureza seja infusa dentro dele – da mesma maneira que supomos que o germe humano possui a potencialidade de sua natureza, semeada com ele ao primeiro ímpeto de sua existência e que se desdobra e manifesta por uma sequência natural como procede ao seu perfeito estado, não empregando nada externo a si mesma como um degrau para a perfeição, mas avançando por conta própria no devido curso para o estado perfeito; de modo que não é verdade dizer tanto que a alma existia antes do corpo ou que o corpo existia antes da alma, mas há um começo para ambos, que, de acordo com a visão celeste, jazem sua fundação no arbítrio original de Deus; segundo a outra, veio à existência por ocasião de sua geração.

Sobre a construção do homem, cap. XXIX – “Uma instituição da doutrina de que a causa da existência da alma e do corpo é uma e a mesma.

I Enoque 10:9 – 11:2

21 de novembro de 2011 Comentários desligados
Extermina os espíritos de todos os monstros, juntamente com todos os filhos dos Guardiões, porque eles maltrataram os homens! Purga a terra de todo ato de violência! Toda obra má deve ser eliminada! Que floresça a árvore da Verdade e da Justiça. O sinal da bênção será o seguinte: as obras da Verdade e da Justiça sempre serão semeadas na alegria verdadeira. Então florescerão os justos e haverão de viver até gerarem mil filhos, e completarão em paz todos os dias da sua juventude e da sua velhice. Então toda a terra será cultivada com a Justiça, inteiramente plantada de árvores, e cheia de bênção. Toda espécie de árvore boa será plantada sobre ela, igualmente videiras; e as videiras produzirão uvas em abundância. De todas as sementes que forem semeadas uma medida produzirá mil outras; e uma medida de olivas dará dez cubas de óleo. Purifica a terra de todo ato de violência, de toda injustiça, de todo pecado e impiedade; elimina toda a impudicícia que sobre ela se pratica! Todos os homens serão justos, todos os povos me prestarão honra e glória, e todos me adorarão. A terra então ficará expurgada de toda maldade, de todo pecado, de toda praga, de todo tormento; e nunca mais mandarei sobre ela um dilúvio, ao longo de todas as gerações, por toda a eternidade. Naqueles dias eu abrirei as câmaras dos depósitos da bênção do céu e deixá-las-ei derramar sobre a terra, sobre as obras e os trabalhos dos filhos dos homens. Então a Verdade e a Paz juntar-se-ão por todos os dias da terra e por todas as gerações dos homens.

Fonte:
– Tricca, Maria Helena de Oliveira (compiladora); Apócrifos – Os proscritos da Bíblia, tradução do alemão de Ivo Martinazzo, vol. I e III, Ed. Mercuryo, 2003, pp. 122-3.

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Jerônimo de Estridão

19 de novembro de 2011 Deixe um comentário
Quanto ao elaborador da Vulgata, Léon Denis diz em Cristianismo e Espiritismo que ele “afirma que a transmissão das almas fazia parte dos ensinos revelados a um certo número de iniciados”, porém não faz nenhuma alusão à fonte. O livro O Espiritismo e as Igreja Reformadas (de Jayme Andrade, editora EME, quarta edição) dedica o capítulo VII, parte 3 ao estudo da reencarnação na história e lá preenche tal lacuna:

São Jerônimo afirmou (Hyeron, Epistola ad Demeter) que a “doutrina das transmigrações era ensinada secretamente a um pequeno número, desde os tempos antigos, como um verdade tradicional que não devia ser divulgada”. Esse mesmo Pai se mostra crente na preexistência, em sua 94ª Carta a Ávitus.

José Reis Chaves, em A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, 7ª ed., ebm, cap VI; faz coro com Andrade :

São Jerônimo (…) também aceitava a reencarnação. Aliás talvez seja por isso que a Igreja pouco fale de São Jerônimo.

Ele afirma que a transmigração das almas foi ensinada durante um longo tempo na Igreja. (9)

Muito do que escreveu São Jerônimo escreveu está em forma de cartas. Em suas Cartas a Avitus, imperador romano, Jerônimo fala sobre a reencarnação (transmigração das almas) (10).

E eis o que escreveu São Jerônimo: “A transmigração das almas é ensinada secretamente a poucos, desde os mais remotos tempos, como uma verdade não divulgável”.(11)

As notas de rodapé são:

(9) Evangelho Esotérico de São João, pág. 68, Paulo le Cour, São Paulo, 1993.

(10) Vidas Passadas – Vidas Futuras, pág. 237, Dr. Bruce Goldberg, Editorial Nórdica Ltda. Rio de Janeiro, 1993.

(11) O Mistério do Eterno Retorno,pág. 123, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, SP.

Sinceramente, estranhei quando foi atribuído a Jerônimo um perfil pró reencarnação. Ao contrário dos citados acima, Jerônimo já é um Pai pós-nicêno e, portanto, viveu numa época em que a fluidez teológica já diminuíra bastante. Bem, começando com a carta a Demetrius, pode-se constatar, procurando diretamente na tal carta, que NÃO existe tal referência elogiosa à doutrina da transmigração na carta a Demetrius. Pelo contrário, o que se encontra é:

Este ensinamento perverso e ímpio foi anteriormente amadurecido no Egito e no Oriente e agora que embosca secretamente como uma víbora em sua toca muitas pessoas daquela região, corrompendo a pureza da fé e gradualmente tocando conta de forma silenciosa como um mal hereditário, até atacar um grande número.

Isto é, Jerônimo está fazendo alusão à disseminação do origenismo no meio sírio-egípcio, um dos ingredientes da primeira crise origenista. Continuando: a Carta a Ávitus é de número 124 (desconheço outra sequência que a enquadre na 94ª posição), bom… são detalhes. O que começa a chamar atenção seria é o título de imperador desse tal de Ávitus. Jerônimo nasceu em 340, no ano da morte de Constantino II (imperador do ocidente) e subida ao trono de Constante (340-350). O oriente era governado pelo irmão de ambos Constâncio II. Em 350, Magnêncio toma o trono do ocidente, mas no ano seguinte Constâncio II o derrota e governa o império todo até 360 (ano de batismo de Jerônimo) quando é derrubado por Juliano (360-363). Seguem Valentiano I (364-375), tendo como co-imperador Valente (364-378) e Teodósio – o último a governar um império indiviso (378-395). Seu filho Honório ficou com o ocidente (395-423) e Arcádio com o oriente (395-408). Este foi substituído por Teodósio II (408-450). Jerônimo morreu em 420, não conhecendo nenhum imperador de nome Avitus. O cidadão a que ele faz menção deve ter sido o mesmo que o apresentou a uma mulher de nome Salvina na carta 79ª, datada em 400 d.C. A carta a Avitus é datada em 409-10. De fato, existiu um imperador romano de nome Avitus (Marcus Maecilius Flavius Eparchius Avitus) que reinou em 455-6 no ocidente, mais de trinta anos após a morte de Jerônimo. Ele nasceu em 395, logo era muito novo quando Jerônimo conheceu Salvina por intermédio do outro Avitus e um rapazola quando a carta em questão foi escrita. Voltando ao que interessa, J.R. Chaves acerta quando diz que que Jerônimo escreveu sobre a “transmigração das almas” para Avitus. Só esqueceu de dizer que ele desceu o sarrafo em tal doutrina a carta inteira! Isso parece um típico caso de informação que se corrompeu ao passar de mão em mão. Na verdade, Jerônimo faz uma sinopse ácida para Avitus de sua tradução latina de De Principiis, a mais polêmica obra de Orígenes, em contraposição à versão feita por Rufino, e acusa (erroneamente) Orígenes de ser crente na transmigração e não se mostra nem um pouco a favor da preexistência como diz Andrade. Maiores comentários em dessa briga no artigo sobre o Concílio de Constantinopla.