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Orígenes

8 de novembro de 2011 1 comentário

A Igreja Católica aceitava a reencarnação até o ano 553 da nossa era (…) Orígenes afirmava ser a doutrina do Carma e do renascimento uma doutrina cristã.

– Severino Celestino da Silva, Analisando as traduções bíblicas, cap. IX

Com estas palavras, Severino Celestino da Silva abre o tópico Os Cristãos daquele capítulo. Note que é a “Igreja Católica” a que ele se refere, não se está fazendo nenhuma menção grupos gnósticos, seitas sincréticas, heresias, etc. Bem, se a “ortodoxia” que daria origem ao catolicismo moderno já defendera a reencarnação até aquela data, nada mais natural que encontrássemos referências simpáticas a ela nos escritos de seus primeiros teólogos. Mas será?

O teólogo cristão do século III Orígenes, mencionado acima, não desconhecia tal doutrina, nem a metempsicose professadas por seitas orientais, mas não as aprovava. Dou aqui algumas pinceladas em obras de Orígenes que rejeitam a transmigração das almas em moldes pitagóricos e até modernos. Orígenes terá um tratamento à parte posteriormente, pois poucos Padres da Igreja têm sido tão mal citados como ele.

[As escrituras dizem] Eles então lhe perguntaram: “Quem és, então? Elias?” e ele disse: “Não sou” (Jo, 1:21). Não se pode deixar de lembrar a conexão disso com o que Jesus disse a respeito de Elias: “Se quiserdes dar crédito, ele é o Elias que deve vir“. (Mt 11:14). Como então João replica aos que lhe perguntaram: “És tu Elias?“Não sou“. (… ) Pode-se dizer que João não sabia que era Elias. Esta será a explicação para aqueles que encontraram nessa passagem sustentação para sua doutrina de transmigração, como se a alma fosse revestida em novo corpo e também não lembrasse das vidas anteriores (…) Entretanto, um membro da Igreja, que rejeita a doutrina da transmigração como falsa e não admite que a alma de João fosse a de Elias, pode se referir às palavras do anjo supracitadas e assinalar que não é a alma de Elias que é dita ao nascimento de João, mas o espírito e poder de Elias.

Comentário sobre o Evangelho de João, livro VI, cap VII

Quanto aos espíritos dos profetas, esses são dados por Deus e são considerados como, de certo modo, propriedades deles, como “Os espíritos dos profetas estão submissos aos profetas” (I Cor 14:32) e o “Espírito de Elias repousou sobre Eliseu” (2 Reis 2:15). Assim, diz-se, não há nada de absurdo supor que João, “no espírito e poder de Elias“, converteu o coração dos pais para os filhos (Lc 1:17) e foi por causa desse espírito que foi chamado de “o Elias que deve vir“.

Idem.

Se a doutrina [da transmigração] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias? E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença. Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento.

Idem.

Alguém pode dizer, porém, que Herodes e parte da população mantinham o falso dogma da transmigração de almas para os corpos, com a consequência de que eles pensassem que o antigo João apareceu outra vez devido a um novo nascimento e tinha vindo da morte para a vida como Jesus. Mas o tempo entre o nascimento de João e o de Jesus, que não foi mais que seis meses, não permite se dar crédito a esta falsa opinião. E talvez fosse melhor que outra ideia estivesse na mente de Herodes – os poderes que operaram com João tivessem passado para Jesus – fazendo que ele fosse visto pelo povo como João Batista. E pode-se usar a seguinte linha de raciocínio: apenas por causa do espírito e poder de Elias, não pela alma dele, que se diz de João: “Este é o Elias que deve vir“.

Comentário sobre Mateus, livro X, cap XX

Nesse ponto [a dentificação de João Batista com Elias em Mt 17:10-13], não me parece que se falava da alma de Elias, para que eu não caia na doutrina da transmigração, que é estranha à Igreja de Deus, não sendo ensinada pelos apóstolos, nem encontrada nas escrituras.

Comentário sobre Mateus Livro XIII, cap I

Mas se necessariamente os gregos, que introduziram a doutrina da transmigração, ajustando as coisas em harmonia com ela, não reconhecem que o mundo está se corrompendo; é adequado, que quando eles encararem diretamente a escritura, que declara de modo franco que o mundo perecerá, devem ou desacreditá-las ou inventar uma série de argumentos a respeito da interpretação das coisas referentes à consumação; que mesmo que desejem, não serão capazes de fazer.

Idem

Celso, portanto, não viu de modo algum a intenção de nossas Escrituras. Se tivesse compreendido o destino da alma na vida eterna futura, e o que sua essência e origem implicam, não teria criticado dessa forma a vida do ser imortal num corpo moral, explicada não segundo a teoria platônica da metensomatose, mas numa perspectiva mais elevada. Teria visto, ao contrário, uma descida extraordinária devido a um excesso de amor aos homens, visando reconduzir, conforme a expressão misteriosa da divina Escritura, “as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15:24), que desceram das montanhas, e para as quais o pastor de certas parábolas “desceu”, deixando nas montanhas as que não se tinham perdido (Mt 18:12-13, Lc 15:4s).

Contra Celsus, IV, 17

Entretanto, não admitimos, de modo algum, a metensomatose da alma nem sua queda em animais irracionais, e se por vezes nos abstemos de carne de animais, evidentemente não é pelo mesmo motivo de Pitágoras que nos privaremos dela. Pois sabemos honrar somente a alma racional e confiar com honra seu órgãos a uma sepultura honrada conforme os costumes estabelecidos.

Contra Celsus, VIII, 30

O assunto encerra uma profunda doutrina mística à qual se aplicam as palavras: “É bom manter o oculto o segredo do rei” (Tb 12, 7). Não devemos expor aos ouvidos profanos a doutrina sobre a entrada das almas no corpo que não se dá por metensomatose; não devemos dar aos cães as coisas sagradas, nem lançar as pérolas aos porcos (cf. Mt 7,6).

Contra Celsus, V, 29 – Note que ele rejeita a mudança da alma de um corpo para outro (metensomatose), mas sugere admitir sua pré-existência (entrada no corpo).

O desconhecimento das citadas obras de Orígenes tem levado a uma série de equívocos facilmente evitáveis por parte de apologistas espiritualistas. Léon Denis expõe nas notas num. 4 de seu “Cristianismo e Espiritismo” apenas a parte que lhe interessava de Orígenes, ele poderia ter dado o exemplo e não ter escondido fatos: Cita um resumo do abade Bérault-Bereastel sobre Orígenes que, de cara, erra ao afirmar que “as almas foram criadas simples, livres, ingênuas e inocentes por sua própria ignorância”, de estilo semelhante ao proposto pelos espíritas, em vez de racionais. Também não inclui as explanações do livro III de De Principiis, que privilegiam a pré-existência das almas em vez de reencarnação, nem faz menção a obras posteriores do teólogo alexandrino (Comentários sobre Mateus, João, Contra Celsus) que rejeitam a interpretação que ele quer. Já no século XX, certo autor fez uma curiosa citação:

Ele [Orígenes] chegou a tecer judiciosas ponderações sobre certos trechos da Escritura (…) que não teriam sentido sem admitir a preexistência da alma: “Se o nosso destino atual não era determinado pelas obras de nossas existências passadas, o que dizer de um Deus justo permitindo que o primogênito servisse ao mais jovem e fosse odiado, antes de haver cometido atos que merecessem a servidão e o ódio? Só as nossas vidas anteriores podem explicar a luta de Jacó e Esaú antes do seu nascimento, a eleição de Jeremias quando ainda estava no seio da mãe … e tantos outros fatos que atirarão o descrédito sobre a Justiça Divina, se não forem justificados ou praticados pelos atos bons ou maus cometidos em existências passadas” (Contra Celso, I, III, cit. por Mário C. Mello, em Como os Teólogos Refutam, pg. 153).

Andrade, Jayme; O Espiritismo e as Igreja Reformadas, editora EME, 4ª ed., cap. VII, parte 3

Tal citação não existe em Contra Celso, livro I, cap. III. Uma menção à superioridade de Jacó em relação a Esaú ainda no útero é encontrada em De Pricipiis, livro II, cap. IX. O texto real de Contra Celsus é:

Depois disto, Celsus prosseguindo a falar dos cristãos ensinando e praticando suas doutrinas favoritas em segredo e dizendo que eles fazem isto para, com alguma intenção, ver se escapam de uma pena de morte que é iminente; ele compara seus perigos com aqueles encontrados por homens tais como Sócrates pelo amor à filosofia; e aqui ele poderia ter citado Pitágoras também e outros filósofos. Mas nossa resposta com relação a isto é que, no caso de Sócrates, os atenienses se arrependeram imediatamente depois e nenhum sentimento de amargor permaneceu em suas mentes com relação a ele, bem como ocorreu na história de Pitágoras. Os seguidores do último, de fato, estabeleceram por um tempo considerável suas escolas numa parte da Itália chamada Magna Grécia; mas no caso dos cristãos, o Senado Romano, e o príncipe do momento, e a soldadesca, e o povo, e os parentes dos que se tornaram conversos à fé fazem guerra contra sua doutrina e teriam impedido seu (progresso), sobrepujando-a com uma aliança de natureza tão poderosa que, não fosse pela ajuda de Deus, não teria escapado do perigo e se erguido acima dele, a fim de (finalmente) derrotar o mundo em sua conspiração contra ela.

Orígenes, Contra Celsus, I,III

É um capítulo curto e não há nenhuma referência a Esaú e Jacó nele. A questão destes filhos de Rebeca é recorrente nas discussões entre ortodoxos e reencarnacionistas, porém a chave dela pode estar além de qualquer teologia. Numa visão laica, a diferença de tratamento entre estes dois gêmeos pode ser, na verdade, parte do mito nacional da criação de Israel e seus vizinhos, contidos na Gênese:

Deus diz a Rebeca, então grávida: “Duas nações estão em teu útero, e dos dois povos, nascidos de ti, serão divididos; um será mais forte que o outro, o mais velho deverá servir ao mais moço.” (Gen 25:23). Como os eventos se desenrolaram, aprendemos que Esaú é o mais velho e Jacó, o mais moço. Portanto a descrição dos dois irmãos fundadores de Edom e Israel, serve como legitimação para uma relação política entre duas nações nos tempos posteriores da monarquia. Jacó-Israel é sensível e educado, enquanto Esaú-Edom é bem primitivo, um caçador e um homem ao ar livre. Mas Edom não existe como entidade política até um período relativamente tardio.(…) A evidência arqueológica também é clara: a primeira onda de assentamento em larga escala em Edom, acompanhada pelo estabelecimento de grandes povoações e fortalezas, pode ter começado no final do século VIII a.C., mas alcançou o ápice apenas no século VII e no início do século VI a.C. Antes, portanto, a área era pouco povoada. (…) Assim, aqui também as histórias de Jacó e Esaú – filho delicado e poderoso caçador – são habilmente construídas como lendas arcaizantes, para refletir as rivalidades dos tempos monárquicos posteriores.

Finkelstein, Israel & Silberman, Neil Aser; A Bíblia não tinha razão, Ed. A Girafa, cap. I

Este “erro de citação” é até uma falha “menor”, digamos assim. Porém demonstra claramente que nem Andrade, nem sua fonte (Mello) se deram ao trabalho de ler Orígenes diretamente.

Agora, só para constar:

Orígenes é conhecido como um dos maiores sábios cristãos de todos os tempos. Foi praticamente o criador de nossa teologia cristã. E, como apenas 17 anos, foi reitor da Universidade de Alexandria, em substituição a São Clemente de Alexandria. E diga-se, de passagem, que Alexandria foi o maior centro intelectual do mundo, na época de Orígenes, século 3º.

José Reis Chaves, A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, cap. VI, 7ª ed., p. 203.

Se formos conferir o que nos diz o principal biógrafo de Orígenes, leremos algo um tanto diferente:

Orígenes ia completar dezoito anos quando foi posto à frete da escola catequética, momento em que, sob a perseguição do governador de Alexandria Aquila, realizava grandes progressos. Foi então também que seu nome se fez famoso entre todos a quem movia a fé, pela acolhida e solicitude que mostrava para com todos os santos mártires conhecidos e desconhecidos. [grifo meu]

Eusébio de Cesareia, A História Eclesiástica, VI, cap. 3, item 3

Não é demérito nenhum um garoto ser posto no comando de um cargo importante na comunidade cristã de então – a escola catequética. Indica que era reconhecido como um mestre pelos seus. Mas convenhamos que é uma posição bem mais modesta do que ser o reitor da pagã Universidade de Alexandria, que cobria uma gama bem maior de interesses e gente.

Clemente de Alexandria

6 de novembro de 2011 1 comentário
Bem, já foi exposto que Justino não acreditava coisíssima nenhuma nisto. O que o professor de Orígenes, Clemente de Alexandria, achava da ideia de sua pupilo quanto à pré-existência? Primeiro a bancada espiritualista:

(…)Temos existido desde o princípio, pois no princípio era o Logos (…) Não pela primeira vez [o Logos] mostra piedade de nossas perambulações; ele se apiedou de nós desde o princípio.

Clemente de Alexandria, Stromata, citado por :
MacGregor, Geddes; Reincarnation in Christianity, Quest Book, cap. V

Clemente de Alexandria, um professor cristão que dirigiu a escola de catequese antes de Orígenes. – Diz-se que ele ensinava a reencarnação. (16)

Prophet, Elizabeth C.; Reencarnação: O elo perdido do Cristianismo, Nova Era, cap. XVI.

Consultando a nota 16 a esse capítulo:

Clemente de Alexandria não questiona a preexistência da alma, que é a base da reencarnação. Ele confirma o conceito de preexistência do Cristo e do homem em sua obra “Exhortation to the Greeks” * (Exortação aos Gregos). Em “Stromateis”, aborda a reencarnação, mas não faz nenhuma declaração explícita a seu favor. Entretanto, o estudioso da Igreja do século IX, Photius, diz que Clemente ensinou sobre a reencarnação. (…)

(*)Nota do Portal: também conhecido como “Exhortation to the Heathen” (Exortação aos pagãos).

Outro autor espiritualista:

Ademais, São Clemente de Alexandria era ligado à corrente gnóstica cristã, e os gnósticos eram contrários à entrega espontânea ao martírio por parte de muitos cristãos da época dele. E, assim, sempre que lhes fosse possível, eles protegiam sua vida contra as perseguições dos inimigos do cristianismo (…)
Fócio, um patriarca de Constantinopla no século IX, era político ambicioso e sem escrúpulos, como diz a História, e responsável pelo Cisma dos Gregos, em 863, foi, no entanto, escritor de talento.

Sempre houve uma certa rivalidade entre os sábios de Constantinopla e os de Alexandria, sendo que os desta cidade sempre levavam vantagem sobre os daquela. E essa rivalidade atingiu os próprios patriarcas das duas cidades.

Não se sabe muito bem por que, pois Fócio viveu cerca de seiscentos anos depois de São Clemente de Alexandria, mas o fato é que Fócio escreveu um trabalho em que desprestigiava muito o célebre sábio de Alexandria, de cuja universidade São Clemente foi reitor. Teria Fócio escrito esse livro por causa da citada rivalidade intelectual que havia entre os sábios de Constantinopla e Alexandria?

O certo é que o Papa Benedito (Bento) XIV, em meados de século XVIII, após ter lido a referida obra do patriarca de Constantinopla, Fócio, decidiu-se pela cassação do título de santo de São Clemente, cujo nome foi tirado do calendário de santos da Igreja.

Se Fócio, como vimos, era um político ambicioso e de poucos escrúpulos, além de ter sido responsável pelo Cisma Grego (863) já mencionado, é estranho que o Papa Benedito (Bento) XIV tenha se deixado influenciar pela citada obra de Fócio. Por isso, nos arriscamos a dizer que o fato dessa cassação do título de santo de São Clemente de Alexandria, por parte de Benedito (Bento) XIV, poderia ter sido, na verdade, a crença de São Clemente na reencarnação, fato esse que passou a se destacar muito, justamente na época de Benedito (Bento) XIV.

José Reis Chaves, A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, cap. VI, 7ª ed., p. 200-1.

Bem, vamos por partes. A citação de Clemente apresentada aqui, feita por MacGregor como pertencente a Stromateis (Miscelâneas), na verdade é a referência feita por Prophet a Exortação aos Gregos, mais especificamente no capítulo primeiro desse tratado. Vejamos uma amostra panorâmica do que realmente é dito no contexto:

Mas antes da fundação do mundo éramos nós, que, por sermos destinados a estar nele, pré-existimos antes no olho de Deus, – nós as criaturas racionais do Verbo [Logos] de Deus, em cujo cômputo datamos do início; pois “no princípio era o Verbo”. Bem, visto que Ele agora assumiu o nome de Cristo, consagrado de antigo e merecedor de poder, eu o tenho chamado de a Nova Canção. Este Verbo, então, o Cristo, [é] a causa tanto de nossa existência, em primeiro lugar, (pois Ele estava em Deus) e de nosso bem-estar, este mesmo verbo agora apareceu como homem, sendo sozinho ambos, tanto Deus e homem – o Autor de todas as graças a nós; por quem nós, sendo ensinados ao bem viver, somos enviados em nosso caminho para a vida eterna. (…)

Clemente de Alexandria, Exortação aos Gregos, cap. I

A declaração “pré-existimos (…) no olho de Deus” mostra que essa “pré-existência” ainda está associada termos sido conjunto de “ideias” dentro de uma mente onisciente divina, não como criaturas individuais. Tanto Prophet quanto MacGregor fizeram uma extrapolação indevida e a primeira alega não haver nenhuma menção negativa à reencarnação em Stromateis. Não sei se isto aqui é algo que se possa chamar “exatamente” de uma afirmação “neutra”:

Pois os sacrifícios da Lei expressam figurativamente a piedade que praticamos, como a rola e o pombo oferecidos em troca de pecados assinalam que a limpeza da parte irracional da alma é aceitável a Deus. Mas se qualquer um dos justos não oprime sua alma em comer carne, ele tem a vantagem de um motivo racional, não como o sonho de Pitágoras e seus seguidores da transmigração da alma.

Clemente de Alexandria, Stromateis (Miscelâneas), Livro VII, cap. VI.

Parece que ao menos as versões pitagóricas de reencarnação são taxadas de “sonhos” e não seriam algo “racional”. Voltarei a este tópico mais abaixo. Quanto a Fócio (Photius), nem Prophet, nem J.R. Chaves leram suas obras para terem uma ideia realmente completa do que ele estava falando acerca de Clemente de Alexandria. Em primeiro lugar, situemos qual obra de Fócio deve ser pesquisada: Biblioteca (Myriobiblon). Ao contrário do que J.R. Chaves alega, não foi escrita no intuito de denegrir Clemente de Alexandria por ele ser de uma escola teológica rival, que, por sinal, àquela época já estava sob domínio muçulmano e fora das maquinações da corte bizantina. Biblioteca é, na verdade, um grande conjunto de resenhas de mais de 200 livros de diversos teólogos lidos e comentados por Fócio. No bojo dessa “biblioteca”, Fócio comenta três obras de Clemente de Alexandria e o que talvez seja de interesse dos autores reencarnacionistas seja a entrada 109:

109. [Clemente de Alexandria, Esboços.]

Lidos três volumes de trabalhos de Clemente, presbítero de Alexandria, intitulados Esboços, As Miscelâneas e O Tutor.

Os Esboços (Hypotyposes) contém uma breve explanação e interpretação de certas passagens no Antigo e Novo Testamentos. Apesar de em alguns casos o que ele diz parecer ortodoxo, em outros ele se entrega a fábulas ímpias e lendárias. Visto que é da opinião de que a matéria é eterna e que ideias são introduzidas por certas condições fixas; também reduz o Filho a algo criado. Fala absurdos prodígios acerca da transmigração das almas e a existência de numerosos mundos antes de Adão. Empenha-se em mostrar que Eva veio de Adão, não como a Sagrada Escritura nos diz, mas de uma forma iníqua e vergonhosa, imagina negligentemente que anjos têm relações com mulheres e geram filhos; que o Verbo não encarnou, mas apenas o aparentou. Ele é depois o culpado de monstruosas declarações acerca dos dois Verbos do Pai, o menor que apareceu aos mortais, ou antes nem isso, pois escreve : “O Filho é chamado de Verbo, do mesmo nome de ‘Verbo do Pai’, mas não é o Verbo que se tornou carne, nem mesmo o Verbo do Pai, mais um certo poder de de Deus, como se fosse um eflúvio do próprio Verbo, tendo se tornado mente, penetrado nos corações dos homens”. Tudo isso ele tenta suster com passagens da Escritura. Fala muitas outros absurdos blasfemos, seja ele ou outrem sob seu nome. Estas monstruosas blasfêmias estão contidas em oito livros, nos quais ele frequentemente discute os mesmos pontos e cita passagens da Escritura de forma promíscua e confusa, como um possesso. Toda a obra inclui notas sobre Gêneses, Êxodo, os Salmos, epístolas de São Paulo, epístolas Católicas e Eclesiástico. Clemente foi discípulo de Pantaenus, como ele mesmo declara. Que isto baste para Esboços.

Esboços foi perdido. Talvez durante a IV Cruzada, que saqueou Constantinopla, ou durante conquista da cidade pelos turcos otomanos. Além dessa breve resenha de Fócio (que realmente o lera), restam algumas citações feitas por outros membros da patrística. Não dá para saber que “tipo” de “transmigração das almas” era discutido no livro, apesar de os “numerosos mundos antes de Adão” apontarem na direção versão “entre eras” da coisa, que teria sido herdada (?) por Orígenes, porém, como será visto adiante, a obra Miscelâneas (Stromateis) deixa isso muito em dúvida. De resto, sobram aspectos bem heterodoxos que vão muito além da simples reencarnação. Fócio, inclusive, levanta a hipótese de esse trabalho não ter sido de punho de Clemente. Na falta de algum exemplar mais completo, só nos resta especular. O que nem Prophet ou J.R. Chaves informam é da existência de aspectos bem mais, digamos, “ortodoxos” na obra de Clemente. Bastaria dar prosseguimento à leitura de Biblioteca para constatar isso:

110. [Clemente de Alexandria, O Tutor]

O Tutor é uma obra elaborada em três livros, contendo regras de comportamento e conduta. Foi precedida e compilada com outro trabalho, no qual refuta a iniquidade dos pagãos. Estas falas nada têm em comum com “Esboços”, visto que são inteiramente livres de opiniões infundadas e blasfemas. O estilo é florido, subindo às vezes a uma agradável e moderada altivez, ao passo que a exposição do aprendizado não é desaconselhável. No último livro, algo é dito sobre as imagens.

Olha só que interessante: Fócio foi capaz de atribuir boas qualidades a Clemente. Aqui vai por terra a teoria conspiratória citada por J.R. Chaves de que Fócio teria perseguido Clemente em seus escritos. No item 110, Fócio faz uma rápida menção à existência de “Exortação aos Gregos”, cujo extrato mostrado mais acima demonstra que Clemente já exibia um opinião quanto cristológica bem mais próxima do que seria o homoousios niceno. Quanto a retirada dele do calendário martirológico do catolicismo, a Catholic Encyclopedia relata fatos sob um ângulo mais ameno:

Mas quando a martirologia foi revisada pelo Papa Clemente VIII seu nome saiu do calendário, sob sugestão do Cardeal Barônio. Bento XIV manteve essa decisão de seu predecessor como base que a vida de Clemente era pouco conhecida ao ponto que ele nunca obtivera cultos públicos na Igreja e que algumas de suas doutrinas eram, se não errôneas, ao menos suspeitas. Em tempos mais recentes, a simpatia por Clemente tem crescido em favor de seu elegante toque literário, sua atrativa franqueza, o bravo espírito que o tornou um pioneiro na teologia e sua inclinação aos clamores da filosofia.

Bento XIV apenas manteve uma decisão anterior a ele, quais aspectos ele julgou “suspeitas” não está claro aqui. Esboços já estava perdido, mas outra obra comentada em Biblioteca pode ter pesado na decisão, ainda que bem mais “ortodoxa” que Esboços:

111. [Clemente de Alexandria, As Miscelâneas]

As Miscelâneas (*), em oito livros, contém um ataque às heresias e aos pagãos. O material é disposto promiscuamente e os capítulos não estão em ordem, razão pela qual o próprio dá ao final do sétimo livro, nas seguintes palavras: “Visto que estes pontos foram meticulosamente discutidos e nossa formulação ética foi esboçada sumária e fragmentadamente, como prometemos, sendo espalhados aqui e ali ensinamentos calculados para acender a chama do verdadeiro conhecimento, de modo que a descoberta dos mistérios sacros pode não ser fácil para nenhum dos não-iniciados, e assim por diante. Essa, diz o próprio, é a razão pela qual o tema está tão desorganizadamente arranjado. Em uma cópia antiga, descobri que o título do trabalho é dado não apenas como Miscelâneas, mas na forma ampla seguinte: “Miscelânea de Comentários Gnósticos de acordo com a Verdadeira Filosofia”, livros 1-8. Os primeiros sete livros têm o mesmo título e são idênticos em todas as cópias. O título do oitavo livro,contudo, varia, assim como o tema. Em algumas cópias é chamado “Quem é o Rico que está salvo?” e começa, “ Os que … falas de louvor,” etc.; em outras é chamado de “As Miscelânea, livro oitavo”, como os outros sete e começa, “Mas nem mesmo o mais antigo dos filósofos,” etc. A obra é em algumas partes infundada, mas não como Esboços, de cujo alguns argumentos ela refuta.

Diz-se que Clemente escreveu diversas outras obras, das quais as seguintes são mencionadas por outros escritores: “Sobre a Páscoa“; “Sobre o Jejum“; “Sobre o Discurso do Mal“; “Sobre os Cânones Eclesiásticos” e “Contra Aqueles que seguem as Errôneas Doutrinas dos Judeus“, dedicada a Alexandre, bispo de Jerusalém. Ele produziu durante o reinado de Severo e seu filho Antonino em Roma.

(*)Stromateis: literalmente, sacos de viagem onde roupas de cama e miudezas são guardadas.

Miscelâneas é uma obra engraçada, pois uma simples espiada em seu texto refuta que Clemente teria sido gnóstico, fugira ao martírio (por ser gnóstico) e advogava reencarnação aos moldes ocidentais. Ou pelo menos, numa versão bem tacanha de karma. O segundo livro de Miscelânea, por exemplo, dedica o capítulo oitavo para refutar teses gnósticos como Basílides e Valentino. No livro quarto, o capítulo VII é denominado: “A Santidade do Mártir” e assim começa:

Então aquele que mentiu e mostrou-se infiel e sublevado para o exército do diabo, em que mal pensamos estar ele? Ele calunia, portanto, o Senhor, ou melhor mentiu quanto a sua própria esperança que crê não em Deus; e crê não no que Ele ordenou. E então? Não está ele, que renega ao Senhor, negando a si mesmo? Pois não rouba seu Mestre de Sua autoridade, o que priva si mesmo de sua relação com Ele? Ele, então, que nega o Salvador, nega vida;” pois a luz era vida” (Jo 1:4). Ele não os chama de homens de pouca fé, mas de incréus e hipócritas (Mt 4:30), que tem o nome escrito neles, mas nega que sejam legítimos crentes. Mas o fiel é chamado de servo e amigo. De forma que se alguém se ama, ama o Senhor e professa a salvação de que ele pode salvar sua alma. Embora de morras por seu próximo por amor e consideres o Salvador nosso próximo(pois diz-se que o Deus que salva está próximo em respeito ao que é salvo); fazes assim, escolhendo a morte por causa da vida e sofrendo por teu próprio bem em vez do dele. E não é por isto que ele é chamado irmão? Aquele que, sofrendo por amor a Deus, sofreu por sua própria salvação, enquanto ele, por outro lado, que morre por sua própria salvação, persevera no amor ao Senhor. Pois sendo vida, no que sofreu desejou sofrer para que pudéssemos viver por seu sofrimento.

Clemente fala de forma quase poética que os optam pela vida (negando a Cristo) escolhem, na verdade, a morte; ao passo que os que morrem pela salvação vivem e espalham vida entre os que permanecem. Pode estar agora se perguntando por que Clemente fugiu de Alexandria durante a perseguição? Ele mesmo dá a resposta dá a resposta no capítulo Xdo livro IV:

Quando, novamente, diz Ele, “Quando vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra, (Mt 10:23)” não aconselha uma fuga, como se a perseguição fosse algo ruim, nem os ordena fugir, como que em pavor dela, mas deseja que não sejamos nem autores nem cúmplices de nenhum mal a ninguém, seja a nós mesmos ou ao perseguidor e assassino. Pois ele, de certa forma, nos proclama a tomarmos conta de nós mesmos. Mas o que desobedece é precipitado e incauto. Se aquele que mata um homem peca contra Deus, o que se apresenta por conta própria perante o assento do tribunal se torna culpado de sua morte. E assim também é quem não evita a perseguição, mas por ousadia amostra-se para a captura. Tal, até onde se encontra, torna-se um cúmplice no crime do perseguidor. E se usa a provocação, ele é totalmente culpado, provocando uma fera selvagem.

Em outras palavras: se fores capturado não negue a Cristandade, mas não fique “dando mole” por aí. Palavras de moderação. Ainda no livro IV, Clemente volta a criticar Basílides no capítulo XII (o seguinte é dedicado a Valentino), apontando uma postura bem bitolada dele quanto ao sofrimento e ao martírio:

Mas a hipótese de Basílides diz que a alma, tendo pecado previamente em outra vida, enfrenta castigo nesta – a alma eleita com honra pelo martírio, a outra purgada pela punição adequada. Como pode isso ser verdade, quando abraçar e sofrer a punição ou não depende de nós mesmos? Pois no caso do homem que negará [ser cristão], a Providência, como sustenta Basílides, deixa de ter relação. Perguntá-lo-ei, então, no caso de um fiel que foi preso, se ele confessará e será punido em virtude da Providência ou não? Pois se caso negar, ele não será punido. Mas se, com propósito de escapar e se evitar a necessidade de punir tal sujeito, disser que a destruição de todos aqueles que negam é da Providência, ele será um mártir contra a sua vontade. Como seria esse o caso, já que há guardada no céu a mui gloriosa recompensa a ele que testemunhou, por seu testemunho? Se a Providência não permitiu o pecador sentir as consequências de pecar, é injusta em ambos os casos; tanto não resgatando quem está fadado à punição pelo bem da justiça e tendo resgatado quem desejava o mal fazer, tendo ele o feito até onde lhe dizia a vontade, todavia [a Providência] tendo evitado o ato [de execução] e injustamente favorecido o pecador. E quão ímpio é ao deificar o diabo e se atrever achamar o Senhor de homem pecaminoso!(…)

A última fase é interessante, pois uma consequência imediata da lógica simplista de Basílides seria concluir que o próprio Cristo teve “culpa no cartório”. Bem, como a lógica espírita é um pouco mais flexível, alguém dirá que ele sofreu por necessidade da missão por ele abraçada. Tudo bem, então por que João Batista teve de morrer decapitado (supostamente expiando a ordem de Elias de matar 400 sacerdotes de Baal) e não por um cumprimento de missão? Por que as coisas assim melhor aparentam se encaixar? Irritar crentes e católicos? Defender-se deles? Não importa a teologia, sempre há um pouco de arbitrariedade e livre associação…. e mais embaixo, Clemente prossegue:

Se, então, um deles vier dizer, em resposta, que o mártir é punido por pecados cometidos antes desta incorporação e irá novamente colher o fruto de sua conduta nesta vida, pois tais são os desígnios da [divina administração], perguntar-lhe-emos se a retribuição ocorre pela Providência. Mas se não for da divina administração, o planejamento de expiações se foi e sua hipótese caiu por terra; mas se as expiações ocorrem devido à Providência, punições são devido à Providência, também. Mas a Providência, embora comece, por assim dizer, a agir com o Soberano, ainda assim é implantada nas substâncias junto com a origem delas pelo Deus do universo. Tal sendo o caso, devem confessar ou que a punição não é justa e aqueles que condenam e perseguem os mártires [não] fazem o certo, ou que as próprias perseguições são elaboradas pelo arbítrio de Deus. Labuta e medo não são, então, como dizem eles, incidentes às coisas como ferrugem é ao ferro, mas chegam à alma pelo próprio arbítrio dela. E sobre estas questões há muito o que falar, o que será reservado para futura consideração, tomando-as no seu devido curso.

Em outras passagens de Miscelâneas e outras obras, Clemente é francamente contra noções de pré-existência, tais como:

Os filósofos a quem temos mencionado, dos quais os marcionitas blasfemamente derivaram sua doutrina de que o nascimento é um mal, à qual eles então se ufanam como se fosse sua própria ideia, não sustêm que ele seja mal por natureza, mas apenas para a alma que se apercebeu da verdade. Pois pensam que a alma é divina e desceu cá a este mundo como um lugar de punição. Em seu ponto de vista as almas que ficaram incorporadas precisam se purificadas. Mas esta doutrina não é a dos marcionitas, a dos que acreditam que as almas forma aprisionadas em corpo em se mudam desta prisão e se submetem à transmigração. Haverá uma oportunidade de responder a estes quando viermos a falar da alma.

Miscelâneas, III, 3

E se esforçando ainda mais longe para suster sua opinião ímpia, ele [Júlio Cassiano,a.k.a. Cassia, criador do docetismo] acrescenta: “Não se poderia justamente descobrir uma falha no Salvador se ele fosse responsável por nossa formação e então nos libertou do erro e deste uso de órgãos gerativos?” Quanto a seu ensino, é o mesmo de Ticiano. Mas ele divergiu da escola de Valentino. Por conta disto, diz: “Quando Salomé perguntou quando saberia a resposta a suas questões, o Senhor disse, Quando esmagares aos pés o manto da vergonha e quando dois forem um, e o macho com a fêmea, e não houver nem macho, nem fêmea

Em primeiro lugar, não temos tal dito nos quatro Evangelhos que nos foram legados, mas no Evangelho dos Egípcios. Em segundo, Cassia me parece não saber referir-se à ira e ao desejo quando fala da fêmea. Quando estes atuam, aí se segue arrependimento e vergonha. Mas quando um homem não cede nem à ira, nem ao desejo, ambos crescem em consequência do mal hábito ou criação de modo a enevoar e obscurecer o raciocínio, mas tira dele a escuridão que causam com a penitência e a vergonha, unindo espírito e alma em obediência ao Verbo, então, como também disse Paulo, “não há entre vós nem macho, nem fêmea“. Pois a alma deixa esta forma em que macho e fêmea são distinguíveis e não sendo nem uma nem outra, muda para a unidade. Mas este digno companheiro pensa à moda de Platão que a alma é de origem divina e , tendo-se tornado fêmea por desejo, desce para cá das altura para o nascimento e corrupção.

Miscelâneas, III, 13

Era um costume dos judeus lavarem-se frequentemente depois de estarem acamados.Então, bem diziam: “Sê puro, não por banhar-se pela água, mas em mente“. Por santidade, como eu a concebo, é a perfeita pureza de mente, e atos, e pensamento, e palavras também, e, num último degrau, pureza de sonhos. E a suficiente purificação a um homem, presumo eu, é o total e sincero arrependimento. Sendo assim, condenando a nós mesmos por nossos atos passados, vamos adiante depois destas coisas se estabelecerem nos pensamentos e libertarem nossa mente tanto do que nos agrada aos sentidos como das nossas transgressões passadas.

Miscelâneas, IV, 22

O justo Jó diz: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu para lá retornarei” (Jó 1:21); não despido de posses, visto ser uma coisa comum e trivial, mas, como um homem justo, ele parte despido de mal e pecado e da repugnante forma que acompanha aqueles levaram vidas más. Por isso foi o que foi dito: “Se não converterdes e não vos tornarem como crianças” (Mt 18:3), puros em carne, santos em alma pela abstinência de maus atos; mostrando que Ele nos teria sendo tais quais nos gerou de nossa mãe – a água. Pois o objetivo de uma geração suceder à outra é imortalizar pelo progresso. “Mas a lâmpada do ímpio será extinta” (Jó 18:5 – Pr 13:9). A pureza do corpo e da alma da qual o gnóstico compartilha, o todo-sábio Moisés indicou, ao empregar a repetição ao descrever a incorruptibilidade do corpo e da alma de Rebeca, desta forma: “Agora a virgem era bela e nenhum homem a conhecera“(Gn 24:16). E [o nome] Rebeca, interpretado, significa “glória de Deus”, a glória de Deus é a imortalidade. Isto é, na verdade, virtude, não desejar outras coisas, mas ser inteiramente consagrado ao templo do Senhor. Virtude é paz devida e um estado de bem-estar ao qual o Senhor a mandou quando disse: “vá em paz” (Mc 5:34). Pois Salém é, por interpretação, paz; da qual nosso Salvador é entronado Rei, como Moisés diz, Melquisedeque rei de Salém, sacerdote do Deus altíssimo, que deu pão e vinho, suprimento consagrado de comida para um tipo de Eucaristia. E Melquisedeque é interpretado como “rei justo”, e o nome é sinônimo para virtude e paz. Basílides, porém, supõe que a Virtude e sua filha Paz residem estacionárias na oitava esfera.

Miscelâneas, IV, 25

A alma não é enviada dos céus para o que é pior. Visto que Deus cria todas as coisas para o que é de melhor. Mas a alma que escolheu a melhor vida – a vida que vem de Deus e da virtude – troca a terra pelo céu. Com razão, portanto, Jó, que atingira o conhecimento, disse: “Agora reconheço que tudo podes; e nada é impossível a Ti. Pois quem me fala do que eu sabia, coisas grandes e maravilhosas com as quais não estava familiarizado? Sinto-me vil, considerando-me ser pó e cinzas” (Jo 42:2,3,6). Pois aquele que, se encontrando em estado de ignorância, é pecador, “é pó e cinzas;” enquanto o que está em estado de saber, sendo assimilado o tanto quanto possível a Deus, já é espiritual e, portanto, eleito.

Miscelâneas, IV, 26

Deus nos criou quando não pré-existíamos. Deveríamos também saber onde estávamos, se pré-existíssemos, e como e por que fomos ajuntados aqui. Mas se não pré-existimos, somente Deus é o autor do nascimento. Como ele nos fez quando não existíamos, portanto, traz-nos à existência, salva-nos por sua própria graça, se nos tornamos dignos e idôneos; de outra forma, dar-nos-á um fim apropriado, porque “é senhor dos vivos e dos mortos“.

Eclogae propheticae (Extratos Proféticos) 17:1,2.

É provável que os autores citados no começo deste item jamais tenham lido tais passagens de Clemente ou de qualquer obra dele. Clemente claramente rejeita a ideia de estado original de graça que foi seguido por uma queda em corpos humanos – o que o distingue totalmente de seu discípulo Orígenes; dá como condição necessária para a purificação apenas o arrependimento “puro e sincero”, sem a necessidade de expiações; ataca pre-existencialistas como Júlio Cassiano e Basílides – sendo este último um adepto da transmigração, rotula essa doutrina como algo “à moda de Platão”; interpreta alegoricamente Jó 1:21 num sistema de vida única, um versículo que hoje tem alegorias reencarnacionistas. O autor de Miscelâneas, Extratos Proféticos, Pedagogo, etc., se revela muito diferente do de Esboços. O que exatamente havia nessa última e o que era exagero de Fócio jamais saberemos até que se encontre novo exemplar. Até lá, é pura especulação.

Isso põe em xeque a alegação de Clemente como reencarnacionista. Quanto à postura mística de Clemente é preciso ressaltar que uso ele dá para ao termo gnose. Clemente criticava muito os gnósticos clássicos por desejaram uma fé exclusivamente racional, bem como devotos comuns com sua crença exclusiva em êxtases. Num resumo feito por Philip Schaff, tradutor do livro para o inglês na coleção Ante Nicene Fathers:

O título completo de “Stromata“, segundo Eusébio e Fócio, era (…) “Coleções de Miscelâneas de notas especulativas (gnósticas) em acordo com a Verdadeira Filosofia de Titus Flavius Clemens“. O objetivo da obra, em concordância com este título, é, em oposição ao gnosticismo, fornecer os materiais para a construção de uma verdadeira gnose, uma filosofia cristã, nas bases da fé, e conduzir a este mais elevado conhecimento aqueles que, pela disciplina do Tutor, tinham treinado para isso. O trabalho consistia originalmente de oito livros. O oitavo está perdido; o que aparece sob este nome claramente não tem conexão com o resto de Stromata. Várias considerações tem sido dadas quanto a significado da palavra distintiva do título (Στρωµατεις); mas todas concordam em considerá-la como indicativas do caráter miscelânico de seus conteúdos. E são muito miscelânicos. Consistem de especulações de filósofos gregos, de heréticos e daqueles que cultivavam a verdadeira gnose cristã e citações da sagrada Escritura. Essa última ele afirma ser a fonte da qual o mais alto conhecimento cristão é extraído; como ela foi de onde os germes da verdade em Platão e na filosofia helênica foram extraídos. Descreve a filosofia dos gregos como uma preparação divinamente ordenada dos gregos para a fé em Cristo, como foi a leis dos hebreus; e mostra a necessidade e valor da literatura e cultura filosófica para a obtenção do verdadeiro conhecimento cristão, em contraposição ao numeroso corpo entre os cristãos daqueles que julgavam o aprendizado como inútil e perigoso. Ele se autoproclama um eclético, acreditando na existência de fragmentos de verdade em todos os sistemas, que devem ser separados do erro; mas declarando que a verdade pode ser encontrada em unidade e completude apenas em Cristo, como foi dEle de onde todos os seus germes espalhados originalmente procederam. A “Stromata” foi escrita de maneira descuidada e até mesmo confusa; mas o trabalho é um de prodigiosa instrução e supre com material de grande valor para o entendimento de vários sistemas conflitantes que a cristandade teve de combater.

Trocando miúdos, Clemente teve seu verdadeiro conhecimento (gnose) oriundo da aplicação da filosofia helênica aos princípios de fé do cristianismo. Uma revelação de viés mais “ortodoxo” distinta dos gnósticos, a quem combatia e refutava. Boa parte do método alegórico criado em Alexandria visava criar interpretações capazes de tornar “palatáveis” passagens pesadas do Antigo Testamento, usadas por gnósticos para justificar ser o Iahweh dos hebreus inferior ao Pai do Novo Testamento, o que levaria à rejeição de quase toda herança judaica do cristianismo. Como resultado desse apanágio de Clemente, estamos diante de um escritor de estilo difícil, com forte herança helênica e cuja obra não pode ser reduzida a um todo coerente. O que dele chegou até nós é de caráter predominantemente “ortodoxo”, estando sob uma névoa a perdida obra Esboços: o que teria realmente saído da pena do próprio (“ou outrem sob seu nome”), o que seria exagero de Fócio ou o quanto ela representaria de um estágio do pensamento clementino, que evoluíra posteriormente? De qualquer forma, posso afirmar com grande certeza que Clemente de Alexandria foi um escritor complexo e que, tal como seu pupilo Orígenes, vem sendo excessivamente simplificado para fins polemistas no embate pró e contra a reencarnação.

PS: Clemente presidiu a escola catequética de Alexandria, não a universidade local (segundo J. R. Chaves), pelo que sei.

Irineu de Lião

3 de novembro de 2011 Deixe um comentário
Irineu de Lião (130-202) redigiu em sua obra Adversus haeresis (Contra as heresias) violentas críticas a diversas seitas cristãs de sua época, especialmente aos gnósticos, que se opunham à hierarquização. Até a redescoberta de parte da literatura gnóstica, sua obra foi uma das principais fontes de informações sobre estas seitas. No cap. XXXIII do segundo tomo do livro, dirigiu-se à filosofia platônica:

Podemos solapar sua doutrina da transmigração de um corpo para outro corpo por este fato: as almas não lembram nada de qualquer dos eventos que ocorreram em seus estados anteriores de existência. Se tivessem sido elas originadas com esta característica, que elas devem ter experiência com todo tipo de ação, devem ter retido alguma lembrança das coisas que teriam previamente efetuado, que podem ser preencher o que ainda lhe fosse deficiente; e não por ficarem vagueando, sem interrupção, pelas mesmas buscas, despendendo seu trabalho desgraçadamente em vão.

(…)Com referência a estas objeções, Platão (…) não tentou nenhum tipo de de prova, mas simplesmente respondeu dogmaticamente que, quando as almas entram nesta vida, elas são induzidas a beber do esquecimento pelo (*) demônio que vigia sua entrada, antes que efetivamente entrem nos corpos. Escapou-lhe que ele caiu em outra e maior complicação. Se a taça do esquecimento, após ter sido ingerida, pode apagar a memória de todas as obras que foram feitas, como, ó Platão, tomaste conhecimento desta fato(…)?

(*)no sentido de “gênio”, não se necessariamente de um ser maléfico.