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O Cego de Nascença – A Vida antes da Vida no Judaísmo Intertestamentário

27 de janeiro de 2012 2 comentários

Índice

Jesus curando o cego

Jesus curando o cego, de El Greco, 1570.

* * *

O Cego de Nascença

E, passando Jesus, viu um homem cego de nascença.

E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: “Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?”

Jesus respondeu: “Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus.

Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar.

Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.”

Tendo dito isto, cuspiu na terra, e com a saliva fez lodo, e untou com o lodo os olhos do cego.

E disse-lhe: “Vai, lava-te no tanque de Siloé” (que significa o Enviado). Foi, pois, e lavou-se, e voltou vendo.

João 9:1-7

A meu ver essa é a única passagem da Bíblia que efetivamente pode sugerir reencarnação. Até mesmo identidade Elias/João Batista já teve respostas ortodoxas razoáveis, como as de (quem diria) Orígenes, em seu Comentário sobre João, ou Agostinho de Hipona, em seus estudos sobre o Evangelho de João. Um ponto comum a ambas é o entendimento de “espírito” (pneuma, em grego e spiritus, em latim) distinto de “alma” (psyché/anima). Bem, isso é assunto para outro artigo…

O que chama atenção no episódio desse milagre é a pouca atenção dada a ele pela ortodoxia atual. Não é incomum explicações que envolvam a crença em “pecado original”, mas esse conceito é tardio, só ganhando plena forma com o já citado Agostinho de Hipona (séculos IV e V). Qualquer explicação acadêmica deve-se limitar a conceitos existentes entre os judeus da época. Mas mesmo entre os acadêmicos, esse episódio não tem muito tratamento. John P. Meier, por exemplo, escreveu um livro inteiro dedicado aos milagres de Jesus (Um Judeu Marginal, vol. II, tomo 3) e foi superficial demais nessa questão, lembrando apenas que Jesus descartou a hipótese de a culpa ser do próprio cego…

Por que não cogitar uma espécie de karma contraído em uma encarnação passada? De certo essa é a explicação mais simples, direta e preferida pelos reencarnacionistas, contudo esbarra em um problema: existe alguma evidência robusta para a crença em reencarnação entres os judeus daquela época?

Muitos espiritualistas diriam que sim, baseados em pérolas como:

  • Os judeus de hoje creem em reencarnação, logo os de antigamente também deviam crer: primeiramente, o certo seria dizer que parte (1) dos judeus atuais creem em reencarnação e outra não. O segundo e principal furo é que, se esse raciocínio fosse válido, então os primeiros cristão adoravam santos e imagens porque parte dos cristãos atuais também o faz. Note que não estou dizendo a reencarnação ou a adoração de santos sejam crenças errôneas, apenas ressaltando que elas tiveram uma aceitação mais tardia.

  • Passagens bíblicas como a “conversa com Nicodemos” ou “Ezequiel no vale dos ossos secos” aludem a reencarnação: São passagens que de tão alegóricas ou mesmo crípticas podem ter várias interpretações. Em vez de ter uma ideia preconcebida (a reencarnação está na Bíblia) e fazer um monte de livre associações para justificá-la, por que não tentam descobrir que teria sido a ideia original do autor, baseados no contexto?

  • Flávio Josefo registrou essa crença entre os fariseus: Não, não a registrou. O linguajar das descrições de Josefo quanto às crenças deles até chega a ser um pouco ambíguo, mas uma análise pormenorizada revela uma exposição da crença na ressurreição.

  • A reencarnação era doutrina secreta e por isso deve ser extraída das entrelinhas: Melhor provar essa tese antes de usá-la. O próprio Orígenes alegou ausência dela nas doutrinas esotéricas dos judeus de seu tempo (Com Jo, Livro VI, cap. VII). Infelizmente, o estado fragmentário de seu Comentário sobre João não nos legou a análise do “cego de nascença”.

Quando falo de “evidência sólida”, refiro-me a comentários dos judeus da época a respeito do que eles mesmos criam. Josefo é um tiro n’água e o Talmude é silente quanto à reencarnação, que só começou a deixar registros em tempos medievais.

Então como o cego poderia ter pecado antes de nascer? A resposta deve jazer em outra crença judaica, essa sim bem documentada no período: a preexistência da alma.
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A Preexistência da Alma no Judaísmo Intertestamentário

O Céu estrelado

No início do livro de Jó, temos uma espécie de reunião de seres celestiais (Jó 1:6), na qual os membros do séquito divino são chamados de “filhos de Deus”, estando, curiosamente, Satanás entre eles. No Salmo 82 (81) há um curioso discurso a respeito de alguns desses que teriam se desviado:

Deus está na congregação dos poderosos; julga no meio dos deuses.

Até quando julgareis injustamente, e aceitareis as pessoas dos ímpios? (Selá.)

Fazei justiça ao pobre e ao órfão; justificai o aflito e o necessitado.

Livrai o pobre e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.

Eles não conhecem, nem entendem; andam em trevas; todos os fundamentos da terra vacilam.

Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo.

Todavia morrereis como homens, e caireis como qualquer dos príncipes.

Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois tu possuis todas as nações.

Sl 82:1-8

Ou seja, Deus os puniu os membros displicentes de sua corte transformando-os em humanos que, como todos nós, terminarão no pó. É uma espécie de queda semelhante a que Adão e Eva teveram e, como essa foi, constitui um caso particular, não uma regra geral. Fora o primeiro casal de Gêneses e o seres desse salmo, não há na literatura hebraica clássica (i.e., o Antigo Testamento) outra menção a uma existência pré-mortal de humanos. Há indícios vagos de alguma residual sobrevivência post mortem no Xeol. Bênçãos e castigos são concretizados neste mundo, seja com o próprio indivíduo, seja com sua descendência, pois só por meio dela seria possível uma “imortalidade sanguínea”. assim, mente e corpo ganham importâncias similares. A situação começou a mudar na literatura intertestamentária – juntando aqui os deuterocanônicos e pseudoepígrafos -, quando surgiram as primeiras alusões à uma existência antes do nascimento, a recompensas no além túmulo e à ressurreição do corpo.

Sabedoria de Salomão

Amei a sabedoria, busquei-a desde a minha juventude e procurei tomá-la por esposa, pois fiquei enamorado da sua formosura.
(…)
Assim sendo, eu ia por toda a parte procurando o modo de a conquistar para mim.
Eu era um jovem de boas qualidades e tive a sorte de ter uma boa alma,
Ou melhor, sendo bom, entrei num corpo sem mancha.
Sabendo que jamais teria conquistado a sabedoria, se Deus não ma tivesse concedido (…)

Sabedoria de Salomão 8:2, 8:18-21

Os protestantes podem muito bem desconsiderar os versículos acima, pois não constam em suas Bíblias. Os espiritualistas se deliciam com eles, pois, alegam, significam reencarnação, além de preexistências. Os católicos é que possuem um nó para desatar. Uma nota de rodapé na edição de 1995 da Bíblia de Jerusalém explica a passagem assim:

Este texto [v. 20] não ensina a preexistência da alma como se poderia crer, se fosse isolado do contexto. Ele corrige a expressão do v. 19, que parecia dar prioridade ao corpo como sujeito pessoal, e sublinha a proeminência da alma.

Talvez, mas o capítulo também pode passar a ideia de a encarnação como um estágio de aprendizado, principalmente se cruzarmos essa passagem com outras do mesmo livro:

As almas dos justos, pelo contrário, estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá.
Aos olhos dos insensatos pareciam ter morrido, e o seu fim foi considerado uma desgraça.
Os insensatos pensavam que a morte dos justos fosse um aniquilamento, mas agora estão em paz.
As pessoas pensavam que os justos estavam a cumprir uma pena, mas esperavam a imortalidade.
Por uma breve pena receberão grandes benefícios, porque Deus os provou e os encontrou dignos de Si.
Deus examinou-os como ouro no crisol, e aceitou-os como holocausto perfeito.
No dia do julgamento, eles resplandecerão, correndo como fagulhas no meio da palha.
Eles governarão as nações, submeterão os povos, e o Senhor reinará para sempre sobre eles.

Sb 3:1-8

Os pensamentos dos mortais são tímidos e os nossos raciocínios são falíveis,
porque um corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime a mente pensativa.

Sb 9:14-15

Vale notar que o tempo é linear, sem indicação de punições e/ou renascimentos cíclicos. Se isso não foi o bastante para convencer a equipe de A Bíblia de Jerusalém, há vários outros livros contemporâneos ao surgimento do cristianismo que atestam uma vida celestial antes de uma única vida terrena:

II Esdras

“As entradas para este mundo foram feitas estreitas, dolorosas e árduas, poucas e de aspereza triturante. Mas as entradas para o mundo maior são largas e seguras, e levam à imortalidade. Todos os homens, portanto, adentram esta existência curta e fútil; do contrário nunca poderão atingir as bênçãos guardadas. Por que então, Esdras, estás tão profundamente perturbado com a ideia de que és mortal e deves morrer? Por que não voltaste tua mente para o futuro em lugar do presente?”

“Meu senhor, meu mestre”, respondi, “é em Vossa lei que deixastes que os justos virão a gozar dessas bênçãos, mas o ímpios se perderão. Os justos, assim, podem suportar esta vida curta e aspirar à ampla vida futura; mas os que viveram uma vida iníqua terão ido por entre os estreitos sem nunca atingir os espaços abertos.”

Disse-me ele: “Não és melhor juiz que Deus, nem mais sábio que o Altíssimo. Melhor que muitos do que agora vivem se percam do que a lei que Deus pôs diante deles seja desprezada! Deus deu claras instruções a todos os homens quando vieram a este mundo, dizendo-lhes como alcançar a vida e como escapar da punição. Mas os ímpios se recusaram a obedecer-Lhe; adotaram suas próprias ideias vazias e planejaram fraude e iniquidade; até mesmo negaram a existência do Altíssimo e não reconheceram Seus caminhos. Ele rejeitaram Sua lei e recusaram Suas promessas, nem puseram fé em Seus decretos nem fizeram o que ordena. Assim, Esdras, o vazio para os vazios, a plenitude para os plenos”.

(…)
Eu respondi e disse: “Eu sei, ó Senhor, que o Altíssimo agora se chama piedoso, porque tem piedade dos que ainda não vieram a este mundo; e é afável, porque é afável aos que se voltam em arrependimento para Sua lei; é paciente, porque demonstra paciência para com os que têm pecado, já que são suas próprias criaturas; é recompensador, porque prefere dar a tomar; é abundante em compaixão, porque faz Sua compaixão abundar mais e mais aos que agora vivem e aos que já se foram e aos que ainda estão por vir”.

2 Esdras 7:13-25 e 132-137
Fonte: 2 Esdras

O texto acima foi extraído do Apocalipse Judaico de Esdras. Não é uma história, mas um conjunto de sete visões atribuídas a esse profeta e as explicações dadas pelo anjo Uriel, sendo que a terceira visão possui clara referência à preexistência. A nomenclatura desse livro é um pouco complicada, correspondendo aos capítulos 3-14 do livro 2 Esdras das edições de pseudoepígrafos feitas por protestantes, 3 Esdras nas igreja eslavas e a 4 Esdras na Vulgata de Jerônimo. Datado do final do I século, esse livro corrobora outro apocalipse do mesmo período quanto à existência prévia das almas:

Apocalipse de Abraão

E disse eu:” Eterno, Todo Poderoso! O que é essa imagem da criação?” E disse-me ele: “… O que quer que eu tenha determinado a existir já fora delineado nessa e em todas as [coisas] previamente criadas que viste perante mim”. E disse eu: “Ó Soberano, poderoso e eterno! Por que estão as pessoas dessa imagem deste lado e do outro?” E disse para mim: “Estes que estão à esquerda são uma multidão de tribos que existia previamente … Os da direita da imagem são as pessoas que separei para mim das pessoas com Azazel; esses são os que tenho preparado para nascer de ti e serem chamados de meu povo”

Apocalipse de Abraão 21:7 -22:5

Poderia dar mais exemplos (2), mas, por enquanto, basta saber que a própria ideia de um envio de almas previamente constituídas chegou a adentrar alguns círculos cristãos, como relatou Jerônimo – “Ou são as almas mantidas em um divino Tesouro onde foram armazenada há muito tempo, como alguns eclesiásticos, tolamente enganados, creem?” (epístola 126.1)- ao listar as hipóteses correntes ao final do século IV para a origem delas.

Então, seria possível as almas pecarem antes de vir a este mundo e receberem um “corpo maculado”, como poderia sugerir a lógica de Sabedoria de Salomão? Talvez, mas antes seria útil analisar uma outra e surpreendente hipótese para o pecado do cego de nascença, a ser tratada a seguir.
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John Lightfoot – uma Abordagem Inusitada

Retrato de John Lightfoot

Reclamei no início deste artigo sobre o baixo interesse dos cristãos ortodoxos atuais sobre a passagem do “cego de nascença” em João. Justiça seja feita, houve comentaristas que realmente abordaram a questão a fundo e, de certa forma, fazem escola até hoje. Um nome deve ser ressaltado: John Lightfoot (1602-1675), teólogo e hebraísta inglês e um dos primeiros a analisar os evangelhos à luz de informação colhidas de documentos hebraicos fora do Antigo Testamento.

Em edições antigas deste portal, já havia colocado links para seu comentário ao nono capítulo de João, mas, como estava perdido no corpo de artigos um tanto longos e – suspeito – muitos dos autoproclamados pesquisadores que sonham em me refutar são monoglotas, acho que pouquíssimos o leram. Portanto, faço a tradução do inglês para o texto original disponível neste portal. Como o texto é um tanto longo, vamos passo a passo.

João 9

2. E seus discípulos lhe perguntaram, dizendo, “Mestre quem pecou, este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego?”

[Quem pecou, este homem ou seus pais?]

  1. Era uma doutrina aceita nas escolas judias que as crianças, em razão de alguma iniquidade de seus pais, nasciam coxas, ou tortas, ou mutiladas ou deficientes em alguma de suas parte, etc.; através da qual elas mantinham os pais em temor, a fim de que não ficassem desleixados e negligentes na realização de alguns rituais relacionados a seu estado de limpeza, tais como lavagens e purificações, etc. Demos exemplos em outro lugar.
  2. Mas que a criança deva nascer coxa, ou cega, ou em alguma parte por algum pecado ou falta sua própria aparenta ser um enigma, de fato.
    1. Nem resolvem o problema os quem partem para o princípio da transmigração das almas, com o qual teriam pintado os judeus; ao menos se admitirmos Josefo como um intérprete justo e juiz desse princípio. Pois segundo ele:

      É a crença dos fariseus que “as almas de todos são imortais e passam para outro corpo; isto é, apenas os do Bem [observe isso]; mas os da iniquidade são punidos com tormentos eternos.” De modo que, a não ser que diga que a alma de algum bom homem passou para o corpo ser a causa de sua cegueira de nascença (uma suposição que qualquer um deveria se envergonhar), não dirás nada quanto ao caso em mãos. Se a crença da transmigração das almas entre os judeus prevalecia apenas até esse ponto, que supunham ‘apenas as almas dos homens de bem’ passariam para outros corpos, esse mesmo assunto está fora da presente questão; e toda suspeita de punição ou defeito ocorrendo à criança em razão da transmigração desaparece completamente, a não ser que digas que isso poderia ocorrer a uma boa alma vinda do corpo de um bom homem.
      (…)

É interessantíssima essa observação de Lightfoot, válida para os que ainda insistem em utilizar Flávio Josefo para alegar crença na reencarnação entre os judeus intertestamentários. Para Josefo, o retorno a um novo corpo é prêmio e não uma punição. Os maus sofreriam a danação eterna. Um estudo pormenorizado do linguajar de Josefo feito por Steve Mason demonstrou que Josefo utilizava um palavreado grego para explicar a seu público helênico a crença na ressurreição à moda paulina.

Prosseguindo com Lightfoot:

  1. (cont.)

    1. Há uma solução tentada por alguns a partir da preexistência da alma; da qual, imaginariam eles, os judeus tinham alguns traços, a partir do que dizem sobre aquelas almas que estão na Goph ou Guph.

      “R. José disse, O Filho de Davi não virá até que todas as almas que estão na Goph sejam consumadas.” A mesma passagem é recitada também em Niddah e Jevamoth, onde é atribuída a R. Asi.

      “Há um repositório (diz R. Salomão), cujo nome é Goph: e desde a criação, todas as almas que já estiveram para nascer foram formadas juntas e lá colocadas.”

      Mas há outro rabino, trazido por outro comentarista, que supôs uma Goph dupla e que as almas dos israelistas e dos gentios não estão na mesma e única Goph. Além disso, ele concebe que, nos dias do Messias, haverá uma terceira Goph e uma nova raça de almas criada.

      R. José deduziu sua opinião de Isaías 57;16, torcendo miseravelmente as palavras do profeta para este sentido, “Minha vontade se retardará para as almas que criei.” Pois assim Aruch e os comentaristas explicam seu pensamento.

      Considerando, agora, que o que citei possa ser suficiente confirmação de que os judeus realmente partilhavam a crença na preexistência da alma, embora eu confesse não ter nem uma apreensão rápida, nem uma forma de imaginar o que considerar a preexistência de almas tenha a ver com essa questão.

De fato, não basta a simples crença na preexistência da alma para explicar o episódio de “o cego de nascença”. Se as almas ficarem meramente estocadas, inertes enquanto aguardam sua vez, o problema persiste. É preciso que elas, antes de nascerem, tenham algum grau de consciência e livre-arbítrio. Sabedoria de Salomão sugeriu que, de algum modo, isso ocorre, Lightfoot, por sua vez, resolve essa questão de uma forma surpreendente para a maioria dos leitores:

  1. Eu, portanto, procuraria desatar esse nó de alguma outra forma .
    1. Teria observado a passagem que temos em Vajicra Rabba:”E estão próximos os dia em que não dirás ‘Neles tenho prazer'” (Ecl 12:1). “Esses
      são os dias do Messias, nos quais não haverá mérito nem demérito
      “: isto é, se não me engano, em que nem os bons merecimentos dos pais serão imputados aos filhos para seu benefício, nem seus merecimentos por sua falta e castigo. Essas são palavras de R. Akibah in locum, e elas sua aplicação dessa passagem de Eclesiastes e certamente de sua invenção: mas a própria crença de que não haverá mérito nem demérito nos dias do Messias é que é comumente aceita entre os judeus. Sendo assim, então deixe-me aumentar um pouco a pergunta dos discípulos de nosso Salvador, por meio de paráfrase, para este propósito: “Mestre, sabemos que sois o Messias, e que estes são os dias do Messias; também aprendemos de nossas escolhas que não há imputação de mérito ou demérito dos pais nos dias do Messias; qual a razão, então para que este homem nascesse cego? Para que nestes dias do Messias ele devesse vir ao mundo com alguma marca e imputação de falta em algum parte? Por acaso foi alguma falta de seus pais? Isso parece contra a crença aceita. Parece, portanto, que carrega alguns sinais de sua própria falta: é isso ou não?”

    2. Era um preceito entre os judeus que a criança, quando já formada e a chutar dentro do ventre, poderia se comportar de forma anormal e fazer algo não pudesse ser de todo sem falta.

      No último tratado mencionado, traz-se uma mulher perante o juiz em seríssima reclamação sobre seu filho, que a chutava irracionalmente dentro do ventre. Em Midas Coheleth e Midras Ruth, cap. III. 13, há uma história que fala de Elisha Ben Abujah, que se afastou da fé e se tornou um horrível apóstata e, entre outras razões de sua apostasia, ela é devida a:

      “Há os que dizem que sua mãe, quando já estava grande na gestação dele, ao passar por um templo dos gentios, cheirou algo muito forte, e eles deram a ela do que cheirou, e o comeu; e a criança em seu ventre ficou quente, e inchou em bolha, como no ventre de uma serpente.”

        Em tal história, sua apostasia é supostas como sendo originariamente enraizada e fundada nele dentro do ventre, em razão da falta de sua mãe ao comer do que fora oferecido aos ídolos. Também é igualmente presumido que uma criança possa chutar e socar de forma irracional e anormal no ventre de sua mãe além da frequência de crianças comuns. Sejam como exemplo as crianças no ventre de Rebeca; onde os judeus certamente absolvem Jacó de falta, apesar de ter puxado Esaú pelo calcanhar; mas dificilmente perdoarão Esaú por se voltar com seu irmão Jacó.

        “Antonino perguntou a R. Judá, ‘Em qual época as afeições malignas começam prevalecer no homem? Será assim que se forma o feto no ventre ou por ocasião de sua chegada?‘ Disse-lhe o Rabi, ‘A partir da época de sua chegada.’ ‘Então,’ disse Antonino, ‘chutará ele de dentro do ventre de sua mãe e apressar-se-á em sair.’ Disse o Rabi, ‘Isso aprendi de Antonino; e a escritura parece tornar a isso quando diz: o pecado jaz à porta.'”

        Dessa disputa, seja verdadeira ou fictícia, aparenta que a antiga crença dos judeus era que a criança, desde seus primeiros chutes, tinha alguma mancha de pecado sobre ela. E esse grande doutor, R. Judá, o Santo, era ele mesmo originalmente dessa crença, mas mudara ligeiramente sua opinião em tão insignificante discussão. De fato, eles iriam um pouco mais longe: não apenas a criança poderia ter alguma mancha de pecado no ventre, mas ela poderia, em alguma medida, realmente pecar e fazer o que poderia torná-la criminosa. Para tal propósito essa passagem dos discípulos parece ter alguma relação; “Esse homem pecou para que nascesse cego?” Isto é, fez ele, quando sua mãe o carregava no ventre, alguma insensatez ou coisa enorme para que merecesse essa severa deficiência nele, para que trouxesse essa cegueira consigo ao mundo?

Pecados pré-natais. Impressionante, não? É preciso alertar o leitor de que o cerne do judaísmo rabínico é aperfeiçoar a prática da Lei e não a teologia dogmática, como viria a ser no cristianismo. Excetuando alguns assuntos chaves como o monoteísmo estrito, a ressurreição no fim dos tempos e a vinda do Messias, existe uma ampla variedade de opiniões quanto ao funcionamento da Criação e outros assuntos não relacionados com a Lei, de modo que dificilmente um grupo conseguiria acusar outro de heresia (3). Lightfoot trouxe uma opinião para explicar a origem do sofrimentos dos recém-nascidos. Explicações de cunho “kármico” surgiram na Idade Média, às quais o rabino Saadia Gaon contrapôs a tese de compensações futuras no pós-morte.

Talvez algum apologista espírita esteja achando a solução aqui trazida uma apelação. Talvez ignore ele que um nome bem conhecido entre os espiritualistas concordaria com isso, embora discordasse em vários outros pontos meus. Esse é o próximo assunto.
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Uma Inesperada Corroboração

A jornalista Elizabeth Clare Prophet produziu um livro muito falado entre os espiritualistas de nome Reencarnação: o Elo Perdido do Cristianismo. Comparada com outras obras sobre o tema, esse livro apresenta vários pontos positivos: uma pormenorizada descrição das crises origenistas, ao contrário da simplificação exagerada feita por outros autores, e não cai na tentação fácil de explicar tudo numa teoria conspiratória centrada na figura da imperatriz Teodora. Também devo comentar que Prophet fez a gentileza de colocar muitas vezes referências diretas às obras de Orígenes, o que facilita muito o trabalho de revisão e crítica, embora ainda se valha demais de citações não verificadas. Já comentei em outro artigo certos vícios de pesquisa da autora, que não vou repetir aqui. O que interessa agora é uma valiosa informação que ela traz no capítulo XVI do livro (“Os Diferentes Destinos dos Gêmeos”).

Os rabinos chegaram a uma conclusão incomum. Como as escrituras diziam que os destinos dos gêmeos [Esaú e Jacó] eram diferentes desde o nascimento, e uma vez que Deus era justo, acharam que a única resposta possível era que Esaú havia pecado enquanto estava no ventre de sua mãe. Por mais estranho que pareça, é exatamente esta especulação que encontramos num comentário do Gêneses escrito por volta de 400 a.C.. Os rabinos conjeturavam que, quando Rebeca passava por “casas de idolatria”, Esaú indicava a sua preferência dando pontapés, mas “quando ela passava por sinagogas e casas de estudo, era Jacó quem dava pontapés, tentando sair” (n. 4). Por estas ações os rabinos concluíram que Deus preferia Jacó e sua semente a Esaú e sua semente, por gerações.

Prophet afirma que essa história consta no comentário rabínico Genesis Rabbah 63.6.3 (4) e, conforme ela explica em sua nota nº4 para esse capítulo ao fim do livro, foi retirada de um livro do escritor judeu Jacob Neusner. Bom, como estamos falando de citações de citações surge uma questão a respeito da datação de Gêneses Rabbah. Tenho outro livro desse mesmo autor (Introdução ao Judaísmo, ed. Imago ) cujo glossário traz a datação para Genesis Rabbah para 450 E.C. (Era Comum, isto é, d.C), portanto quando Prophet situa o livro em 400 a.C. devo indagar se o correto não seria 400 d.C. De fato, há um erro aí, mas não da autora e sim da tradução da edição brasileira. Consultando o original em inglês, encontra-se:

Edição em língua inglesa de Prophet

A expressão usada é “A.D. 400” (Anno Domini 400), que significa literalmente “400º ano do Senhor“, ou, em bom português, “ano 400 depois de Cristo“. Por algum motivo, confundiram a sigla A.D., comum entre os anglófonos, com o nosso tradicional a.C. Esse lapso não é tão inofensivo assim, pois, ao datar Genesis Rabbah 400 anos antes de Cristo, haveria tempo para sua proposta para o caso de Esaú e Jacó ter sido substituída por uma doutrina reencarnacionista que, supostamente, teria se difundido no seio do judaísmo intertestamentário. Com a datação correta, fica menos provável que a reencarnação já fosse moeda corrente no mainstream do judaísmo ao tempo de Jesus. Prophet, sem querer, confirma a mesma ideia trazida por John Lightfoot em seu comentário de João.

Bem, muitos podem estar se perguntando por que estou usando uma autora cujo trabalho tanto critiquei. A resposta é que aqui ela está agindo contra os seus interesses, portanto não há motivo para que fraudasse isso. Vale lembrar que Prophet também abordou a passagem do “Cego de Nascença” no capítulo IX de seu livro e óbvio que sua análise está ao gosto espiritualista. Ela não percebeu que sua alusão a Genesis Rabbah, bem mais à frente, deixaria a obra inconsistente. Isso também deve ter passado despercebido por vários apologistas que fazem uso dessa autora, mas não por este portal.
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A Finitude da Criação

ampulheta

A crença na existência alguma forma de Juízo Final ou Fim dos Tempos torna imperioso que, em algum dado instante, novas almas deixem de ser criadas. Num modelo traducianista (alma e corpo são gerados juntos) ou com criação contínua de almas, bastaria que novas concepções não ocorressem. O que aconteceria, porém, se todas as almas já estivessem prontas e contadas desde o princípio? É esse o caso que nos traz o apocalipse judaico II Baruque, que defende o começo da era messiânica para quando a última alma em espera vier a nascer:

XXIII – A Proximidade da Salvação
(…)
Então ele falou-me: “Por que te preocupas, pois, com aquilo que não sabes? Por que te angustias com o que não conheces? Se tu tens conhecimento dos homens de hoje, e dos que já se foram, eu conheço os que hão de vir. Quando Adão pecou, atraindo a morte sobre os seus descendentes, foi então contada a grande massa daqueles que haveriam de nascer; e foi preparado um lugar para aquela multidão, tanto para morada dos vivos como para a guarda dos mortos. Enquanto aquele número predeterminado não for preenchido, as criaturas que morreram não reviverão. O meu Espírito é o de Criador da vida; e o mundo inferior continuará a receber os mortos.
“Porém, mais coisas ainda ser-te-á permitido ouvir sobre o que irá acontecer após esses tempos. Em verdade, a Salvação que vos preparei está próxima, e já não mais tão distante como anteriormente.”

Fonte [Tricca, p. 314]

O interessante que esse apócrifo nos revela é o fato de a preexistência, embora seja uma condição necessária para a reencarnação, de forma alguma é uma condição suficiente para ela. É perfeitamente possível conceber um sistema – e foi concebido – em que as almas encarnem apenas uma vez e, depois, permaneçam numa espécie de limbo até a ressurreição do Mundo Vindouro, algo do qual o próprio livro de II Baruque apresenta sua versão em outra parte.

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Uma Análise Histórica de João, capítulo IX

Tudo que foi escrito acima partiu de dois pressupostos:

  1. Os ensinos de Jesus estavam dentro de seu contexto histórico-cultural;
  2. A passagem do “cego de nascença” foi histórica.

Nenhum dos dois, porém, me parece válido, ou melhor, válido do modo como os espiritualistas alegam. Com relação ao primeiro, pode-se conceber uma racionalização para a discrepância assinalada ao final do tópico anterior: Prophet consideraria a reencarnação como um ensino de Jesus, ao passo que os pecados pré-natais pertenceriam aos de outros rabinos. A brecha que ela e outros escritores esotéricos dispõem são os “anos perdidos”: o período dos 13 aos 30 anos de Jesus em que a literatura cristã é silente. Jesus poderia ter absorvido a reencarnação pelo contato com a cultura grega ou viajado à Índia pegando carona com a “Rota da Seda” (cap. VIII do citado livro de Prophet). É um tanto questionável a primeira hipótese porque o ambiente em que Jesus viveu era fortemente nacionalista e apocalíptico, ou seja, não eram seus conterrâneos tão propícios a aceitar ideias alienígenas e acreditavam numa mudança iminente (e cataclísmica) da realidade que conheciam. Quanto ao suposto contato de Jesus com monges budistas na Índia, isso não é levado muito a sério no meio acadêmico (5). Em outras palavras, “Jesus em contexto” aqui assumido não é o mesmo deles.

Resta ainda saber se Jo 9:2 tem alguma probabilidade relevante de ter sido verídico. Em suas palavras após a pergunta dos discípulos são: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isto aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele“; Jesus vai contra o tecido social da época, um ponto favorável a sua autenticidade. Por outro lado, como contexto é uma hierarquia, há fatos no capítulo IX de João que não condizem com o esperado durante a vida de Jesus:

Responderam os pais: Sabemos que ele é nosso filho e que nasceu cego. Mas não sabemos como ele pode ver agora ou quem lhe abriu os olhos. Perguntem a ele. Idade ele tem; falará por si mesmo. Seus pais disseram isso porque tinham medo dos judeus, pois estes já haviam decidido que, se alguém confessasse que Jesus era o Cristo, seria expulso da sinagoga.

Jo 9:20-22

Nem nos sinópticos, nem em Atos há relatos de expulsão dos cristãos das sinagogas durante a vida de Jesus ou bem no início da pregação do apóstolos. Os registros judaicos de expulsão de quem apontasse Jesus como Messias (ou qualquer outro) também são mais tardios. Então, o autor de João está narrando uma experiência vivida por sua comunidade, não por Jesus e seus discípulos. A resposta de Jesus é feita de palavras desse desconhecido autor, embora façam o estilo do Messias cristão.

João é o mais tardio dos canônicos, tendo sido escrito após a destruição do Segundo Templo em 70 d.C., quando a maioria das seitas judaicas foi extinta e o judaísmo rabínico emergiu como força distinta do cristianismo. O “cego de nascença” reflete o começo das tensões que levaram declaração de que judeus-cristãos não eram mais filhos de Abraão nesse novo judaísmo centrado na sinagoga. Note-se o teor antissemita das palavras ao final do capítulo precedente ao nono:

Vós [os judeus] tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira.

Mas, porque vos digo a verdade, não me credes.

Quem dentre vós me convence de pecado? E se vos digo a verdade, por que não credes? Quem é de Deus escuta as palavras de Deus; por isso vós [os judeus] não as escutais, porque não sois de Deus.

Jo 8:44-47

Assim, pode-se cogitar que a cura do cego de nascença seja uma metáfora para como a comunidade joanina encarava sua antiga matriz religiosa: todo judeu nasceria cego e apenas Jesus Cristo lhe “abriria os olhos”, especialmente se fosse fariseu (cf. Jo 9:39-41).

É possível, também, que essa passagem reflita um estágio em que a comunidade joanina já contasse com um bom número cristãos gentios entre eles e a pergunta dos apóstolos refletisse uma antiga crença pagã deles (6). Ou era mesmo parte de uma herança rabínica ainda recente, como alegado acima. Embora não seja possível decidir quanto a isso, o certo é que quando foi abraçado pela ortodoxia cristã, notadamente por Irineu de Lião (7), a reencarnação não fazia parte de sua doutrina.
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Notas

(1) Acesse o portal Ser Judio – Vida y muerte ou leia O Judaísmo Vivo, de Michael Asheri, cap. XLI, pp. 251-2 , para verificar que a aceitação da reencarnação ou gigul neshamot não é universal entre os judeus modernos. Leia Jewish View of the Afterlife, de S.P. Raphael, cap. VIII, pp. 314-20 para uma análise histórica e mais aprofundada. Curiosamente, esses dois autores também tocam na possibilidade, em alguns círculos kabalísticos, de reencarnação em corpos de animais. Será que os espiritualistas modernos compram essa ideia?

(2) Cf. [Givens], cap.III. e – [Chamberlin]

(3) O historiador Paul Johson fez uma interessante observação:

[Na Idade Média] Havia uma tal variedade de opiniões sobre o Messias no judaísmo que era quase impossível ser herético nesse assunto. O judaísmo dizia respeito à Lei e sua observância. O cristianismo dizia respeito à teologia dogmática. Um judeu podia atrapalhar-se quanto a um ponto delicado da observância do sábado que a um cristão pareceria ridículo. Por outro lado, um cristão podia ser queimado vivo por sustentar uma ideia sobre Deus que a todos os judeus pareceria um assunto de opinião legítima e de controversa.

Johson, Paul; A História dos Judeus, Imago, 1995, parte III, p. 228.

O comentário rabínico Genesis Rabbah 34:10 (a conversa entre Antonino Pio e Rabi Judá ha-Nasi, trazida por Lightfoot), mostra uma opinião oposta à possibilidade de um feto pecar. Porém, conforme a nota seguinte, dentro do mesmo comentário há uma opinião a favor disso. Uma alternativa para Jo 9:2 é a de que os discípulos de Jesus quisessem justamente sanar essa dúvida.

(4) Da própria transcrição de Genesis Rabbah 63:6 feita por Jacob Neusner (p. 180):

When she sent by houses of idolatry, Esau would kick, trying to get out: “The wicked are estranged from the womb” (Ps. 58:4). When she passed by synagogues and study-houses, Jacob would try to kick, trying to get out: “Before I formed you in the womb, I know you” (Jer 1:5)

Tradução

Quando ela [Rebeca] cruzasse com casas de adoração dos ídolos, Esaú se contorceria querendo sair, como se diz, “os ímpios são desviados desde o ventre materno” (Sl 58:4). Quando ela passasse por sinagogas ou casas de estudo, Jacó se contorceria querendo sair, como se diz, “antes que eu te formasse no ventre, eu te conheci” (Jr 1:5).

Óbvio que aqui houve uma “rabinização” da história de Gêneses, pois não havia sinagogas ou casas de estudo à época da narrativa sobre Esaú e Jacó.

Observação: Uma edição completa e bilíngue (hebraico/inglês) do livro pode ser encontrada no portal www.seferia.org. O portal “Sacred Texts” possui apenas uma seleta deste livro e carece desta passagem. A Bíblia Ecumênica Barsa (1979) comenta a passagem Jo 9:2 de forma parecida com a de John Lightfoot, mas não faz nenhuma referência bibliográfica.

(5) Essa história de que “Jesus viveu na Índia” teria começado quando um russo – Nicolai Notovitch -, no final do século XIX, teria viajado ao Tibete e se abrigado no mosteiro budista de Hemis enquanto convalescia de uma fratura. Lá teria conseguido acessar um manuscrito chamado A Vida de São Issa, que lhe era recitado, e ficou pasmo com similaridades entre essa personagem e Jesus Cristo, com o diferencial de ela conter informações sobre os “anos perdidos de Jesus”, i.e., o período que vai dos doze aos trinta anos que supostamente foram passados na fronteira entre a atual Índia e o Tibete, e dedicados ao aprendizado do budismo. Já de volta ao ocidente, publicou em francês suas memórias no livro A Vida Desconhecida de Jesus Cristo. Um dos apologistas desse “Jesus indiano” – Holger Kersten (de Jesus Viveu na Índia) – não ignora as críticas surgidas e adota a postura de que “a melhor defesa é o ataque”: acusa um dos críticos da tese – Max Müller, hindulogista de Oxford – de ser fanático cristão e de nunca ter estado na Índia. Isso é de uma extrema esperteza e covardia, pois assinalar as fraquezas do adversário de forma alguma torna alguém mais forte. Pelo contrário, afinal fica claro que não se tem resposta às críticas do oponente. E um dos ataques de Müller era o fato de tão notável documento não constar em grandes cânones do budismo tibetano, como o Kanjur e o Tanjur. Notovitch acabou mudando sua história em novas edições: a biografia de Issa não era mais uma obra em dois volumes e, sim, um apanhado de contos espalhados em diversas outras. Além disso, existe outra acusação de fraude feita à mesma época pelo acadêmico inglês J. Archibald, que foi ao mosteiro de Himes e não encontrou nada e ninguém sabia de tal manuscrito. A história foi encerrada por um tempo até que outros alegaram ter visto o documento, inclusive entrando em contradição com Notovitch, só que ninguém o trouxe ou fotografou. Como se não bastasse, o documento, posteriormente, foi dado como “perdido”, apesar de a história original de Notovitch não tratar os textos de Himes como exclusivos…

A quem quiser saber mais, sugiro a leitura de Jesus in Tibet – A Modern Myth, de Robert M. Price, e a das publicações originais de Müller e Archibald. O recentemente aclamado Bart Ehrman chega a fazer um breve comentário a respeito das teses do “Jesus indiano”:

Outras falsificações têm sido perpetradas nos tempos modernos, de relevância direta para nosso corrente estudo de apócrifos cristãos antigos. Pode-se pensar que, em nossos dias e época, ninguém seria tão ardiloso para assegurar quaisquer relatos de primeira mão de Jesus como autênticos. Mas nada poderia estar mais longe da verdade. Estranhos evangelhos aparecem regularmente, se você souber onde procurá-los. Muitas vezes esses registram incidentes dos “anos perdidos” de Jesus, por exemplo, relatos de Cristo ainda criança ou jovem anteriores a seu ministério público, um gênero que retrocede até o segundo século. Esses relatos algumas vezes descrevem viagens de Jesus à Índia para aprender a sabedoria dos brâmanes (como de outra forma ele seria tão sábio?) ou seus feitos no deserto, juntando-se com monges judaicos para aprender o caminho da santidade.

– Ehrman, Bart D.; Lost Christianities, Oxford University Press, 2003, cap. IV, p. 68:

Ehrman não chega a citar Notovitch, nem a desenvolver o tema do Jesus budista/hindu. Mas esse parágrafo deixa transparecer que a tese não é levada muito a sério nos meios acadêmicos.

(6) Para mais pormenores da evolução social da comunidade joanina, ver Ehrman, Bart; The New Testament, Oxford University Press, 2008, cap. XI. O Jesus Seminar, no livro The Five Gospels, também não considerou essa passagem como genuína, mas por razões estilísticas: serve de abertura a um discurso um tanto longo, improvável de ser relembrando com tanto precisão, e como mais uma brecha para os característicos “Eu sou” desse evangelho.

(7) Contra as Heresias, livro III, 11
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Para Saber Mais

– Asheri, Michael; O Judaísmo Vivo; Imago,1995;

– Chamberlin, Frank; Pre-Existence of the Soul in the Book of Wisdom and in the Rabbinical Writings, The American Journal of Theology, Vol. 12, No. 1, (Jan., 1908), pp. 53-115, The University of Chicago Press.

– Givens, Terry L.; When the Souls had Wings – Pre-Mortal Existence in Western Thought, Oxford, 2010.

– Johson, Paul; A História dos Judeus, Imago, 1995

– Raphael, Simcha, Paull; Jewish Views of the Afterlife, Aronson, 2004.

– Neusner, Jacob; Introdução ao Judaísmo, Imago, 2004.

– Tricca, Maria Helena de Oliveira (compiladora); Apócrifos – Os proscritos da Bíblia, tradução do alemão de Ivo Martinazzo, vol. I e III, Ed. Mercuryo, 2003.

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Balanço da Questão Origenista

24 de janeiro de 2012 Deixe um comentário

Índice

* * *

Afinal, Orígenes acreditava ou não na reencarnação?

Sim, não, depende. Defina-me reencarnação primeiro e aí, então, discutimos. Quando se tem que definir algo, surge o problema de o quanto a definição deve ser abrangente e, em geral, cada lado tenta impor a definição que mais lhe convier, o que já é meio caminho andado para ganhar (desonestamente) um debate.

De concreto, temos a crença na preexistência das almas e sua queda. Por outro lado, defendeu um modelo de ressurreição bem ortodoxo em De Principiis, II, X

Pois se corpos são erguido outra vez, sem dúvida eles se erguem para nos revestir; e se nos é necessários ser investidos de corpos, como é certamente necessário, não devemos ser investidos com nenhum outro senão o nosso próprio.

O sistema origenista guarda grandes semelhanças também com sistemas platônicos. Algumas diferenças, porém, são chamativas: a volta a algum corpo físico só se daria entre “aeons” (eras) distintos, não no mundo tal como o conhecemos e, sim, em novos; com uma possível continuidade entre o antigo corpo físico e o seguinte, o que permitiria conciliar este sistema cíclico com uma ressurreição ortodoxa (ou uma ressurreição e julgamento final ao fim de cada era, como na versão de Rufino); um ponto final para essa criações sucessivas (apocatástase), quando todas as almas estariam “sujeitas a Cristo” e Deus seria “tudo em todos”; e o valor do mérito no futuro, coisa nem sempre presente em sistemas neoplatônicos e que podia levar tanto a ascensões quanto a quedas momentâneas.

A falta de um texto confiável de De Principiis só piora a questão. Basicamente, as fontes que temos são a tradução corrompida de Rufino, extratos da coletânea Philocalia e uma sinopse de uma tradução “literal” latina de Jerônimo. Rufino, ao menos, foi honesto em assumir as modificações que fez e deu algumas “justificativas” para tanto em um panfleto chamado “A corrupção das palavras de Orígenes”:

  1. Seria impossível um homem inteligente e erudito como Orígenes se contradizer dentro de um mesmo tratado, às vezes quase em sentenças sucessivas;

  2. Outros escritores de inquestionável ortodoxia tiveram suas palavras adulteradas dos “hereges”, como Clemente de Roma, Clemente de Alexandria, Dionísio de Alexandria;

  3. O próprio Orígenes reclaramara, em uma carta ainda existente, que seu trabalho fora corrompido por heréticos. O ponto em questão nessa carta era a possibilidade de salvação do diabo. Orígenes assevera que jamais teria ensinado isso; mas, durante uma discussão com um herético, tomara ciência que uma versão adulterada de seus textos devia estar circulando.

Jerônimo contra-atacou a defesa de Rufino lembrando que escritores anteriores a ele, como Eusébio e Dídimo , já declaravam que Orígenes ensinara coisas indevidas.

Outro complicador ao entendimento é o fato de que – segundo alguns estudiosos [Malaty, p. 125] – Orígenes não foi um pensador sistemático. Não é possível juntar seus tratados de forma que eles formem um todo coerente. Por exemplo, a crença em criações sucessiva por não conceber uma divindade ociosa também entra, de certa forma, em contradição com uma restauração universal final. Além disso, os trabalhos de Orígenes que categoricamente rejeitam a “transmigração de almas” e interpretações reencarnacionistas do Novo Testamento são os do fim de sua vida, como Contra Celsus e os Comentários. Teria ele adquirido um viés mais “tradicional” conforme envelhecia? Possivelmente ou, como uma análise pormenorizada mostra, o universo multi-eras de Orígenes poderia ser conciliado com leituras ortodoxas da Bíblia, ao passo que reencarnações dentro de uma mesma criação não o são e foram vigorosamente rejeitadas por ele. Prophet defende ter Orígenes se tornado “ortodoxo” por conveniência ao fim da vida, para despistar inimigos (no caso do Comentário de Mateus), o que mela esta análise é que uma obra anterior, cuja redação foi concluída no ambiente mais ameno de Cesareia (a salvo de adversários alexandrinos), e tida por Prophet como reencarnacionista, na verdade não o é: Comentário de João. Orígenes, por sinal, nem sempre levava a ferro e fogo muitas de suas especulações e dava ênfase nisso. Os pontos destoantes dele com a ortodoxia algumas vezes são vistos como um exercício intelectual em expor argumentos pró e contra – opinião de Atanásio – ou que não são dogmas antigos, mas opiniões pessoais sujeitas a discussão – segundo de Jerônimo:

Ele [Orígenes] escreve que “(…) suas ações [das almas] e decisões nesta ou naquela direção é que determinaram seus vários futuros; isto é, se anjos virão a ser homens ou demônios e se demônios se tornaram anjos ou homens“. Então, aduzindo vários argumentos para sustentar sua tese e sustentando que, enquanto não incapaz de virtude, o diabo ainda não escolheu ser virtuoso; ele finalmente raciocina de maneira bem difusa que um anjo, uma alma humana, e um demônio – todos de acordo como ele com a mesma natureza, mas diferentes arbítrios – pode, em razão de grande negligência ou insensatez, ser transformada em feras. (…) Então, para que ele não seja acusado de sustentar junto com Pitágoras a transmigração das almas, ele termina o raciocínio ímpio com o qual tem ferido seu leitor ao dizer: “não se deve pensar que faço destas coisas dogmas, elas são apenas conjecturas expostas para mostrar que não se faz vista grossa a elas totalmente“.

Carta 124 a Ávito.

Em suma, tal “reencarnação entre eras” guarda imensas diferenças tanto com os antigos pitagóricos e platônicos quanto às modernas visões ocidentais do fenômeno. A principal delas é que a volta a algum tipo de forma física não seria possível na realidade tal como a conhecemos, o que explica porque não se deve estranhar quando Orígenes ataca os que associam João Batista a uma reencarnação de Elias. Vale lembrar que o leitor deve se desatrelar do modelo reencarnatório espírita (um para um, progresso constante, várias vezes numa mesma era, passagem obrigatória pelo útero materno, causa e efeito, etc.). O Mediterrâneo oriental era um mosaico de religiões e um verdadeiro laboratório de crenças aos séculos II e III, cujos sistemas teológicos eram muito mais amplos que isto. A própria ressurreição judaico-cristã não deixa de ser, de certa forma, – segundo o estudioso de Josefo, Steve Mason – uma espécie de “reencarnação”. Inclusive a crença da escatologia judaico-cristã em um fim dos tempos, começo de uma nova era (o “mundo vindouro”), transformação do antigo corpo físico em outro “glorificado” para os justos, redenção ou danação para os homens de acordo com o que fizeram na era que finda, etc.; também é uma forma de “reencarnação entre eras” muito similar a do polêmico tratado De Principiis da juventude de Orígenes. A ideia de preexistência, ainda que momentânea, não é tão inédita assim: o deuterocanônico “Sabedoria de Salomão” vv 8:19-20 pode ser interpretado nessa óptica e Agostinho de Hipona também cogitou alguma forma de preexistência, embora não partilhasse da teoria das quedas de Orígenes. Sob estes aspectos e levando em conta a importância que dá ao sacrifício de Cristo, ele é mais ortodoxo que a maioria dos anti-reencarnacionistas imagina ou que os reencarnacionistas gostariam de admitir.

O que torna Orígenes peculiar em De Principiis é que ele não especula apenas três estados do ser (preexistente, o desta era e o da próxima), mas situações dele ao longo de uma quantidade enorme de eras antes e após esta. Aí que a maioria dos reencarnacionistas derrapa: confundem isto com o conceito mais em voga atualmente de reencarnação – na cabeça de alguns o único viável – e não enfatizam o caráter especulativo deste tratado de Orígenes (uma espécie filosofia-ficção semelhante a encontrada em muitos filmes modernos), passando a falsa idéia do que ele propusera era dogma para o próprio e foi e que sua especulação foi consenso até o século VI.
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Orígenes foi rejeitado ou não no II Concílio de Constantinopla (V Concílio Ecumênico)?

Orígenes já havia sido rejeitado várias vezes por diversos teólogos do século IV e começo do V, num conjunto de disputas, condenações e tentativas de defesa que ficou conhecido como “Primeira Crise Origenista” ou “Crises Origenistas do Século IV”. O sínodo de 543 fez tão somente reafirmar isso de uma forma “oficial”, devido ao fato de uma contenda local entre monges palestinos ortodoxos e origenistas ter sido enviada ao arbítrio do imperador. Antes do origenismo, outras dissidências tiveram prioridade como o arianismo, monofisismo, donatismo, docetismo, maniqueísmo, nestorianismo, etc. Ao que tudo indica, as especulações origenistas que no começo eram “matéria de discussão” foram realmente tornadas “dogma” por admiradores de Orígenes, em especial, os evagrianistas. Este teria sido, sim, o sistema condenado na segunda crise origenista. Até 543 há consenso entre os historiadores. O que está em dúvida é se houve uma nova rejeição a Orígenes no Concílio de Constantinopla de 553, ou melhor, o quão de oficial e conciliar tem essa rejeição. Léon Denis escreveu em Cristianismo e Espiritismo,cap I, item IV:

(…)reconhecemos que estes concílios [Calcedônica (451) e Constantinopla(553)] repeliram, não a crença na pluralidade de existências, mas simplesmente a preexistência da alma, tal como ensinava Orígenes, sob esta feição particular: que os homens eram anjos decaídos e que o ponto de partida tinha sido para todos a natureza angélica.

Na realidade, a questão da pluralidade das existências da alma jamais foi resolvida pelos concílios. Permaneceu aberta às resoluções da igreja no futuro, e é esse um ponto que se faz preciso estabelecer.

O que Denis não resolve é como existir reencarnação sem preexistência, nem ele faz alusão às obras anti-reencarnacionistas do teólogo alexandrino. Dá a entender que muitos espíritas não leram o próprio comentário do continuador de Kardec. Ainda assim ele está errado: o objetivo principal do primeiro concílio citado certamente foi combater o nestorianismo.

Para os mais aficcionados por pesquisa, nossas principais fontes históricas para a compreensão da segunda questão origenista são:

  1. Resumo das Controvérsias dos Nestorianos e dos Eutiquianos – do bispo africano Liberato de Cartago. Relata em seus dois últimos capítulos uma manobra política feita pelo bispo origenista Teodoro Ascidas. Sabendo que o núncio papal em Constantinopla, Pelágio – um futuro papa e rival seu na corte –, encaminhara monges palestinos ortodoxos a Justiniano, o que resultou no sínodo de 543, resolveu desviar o foco o imperador para três teólogos caros à Igreja latina: Teodoro de Mopsuéstia, Teodoreto de Cirro e Ibas de Edessa. Os três haviam sido inocentados da acusação de nestorianismo (i.e., de separar radicalmente as naturezas humana e divina de Cristo) pelo Concílio de Calcedônia, cuja decisão era apoiada por Roma. Ascidas convencera Justiniano de que, se condenasse de vez esses três teólogos, poderia obter a simpatia de monofisistas (que declaravam uma única natureza em Cristo – a divina). Um edito imperial foi lançado contra os três, gerando uma controvérsia entre o Oriente e o Ocidente conhecida como a questão dos “Três Capítulos”;

  2. Em defesa dos Três Capítulos – do também bispo africano Facundo de Hermiano. Faz coro como Liberato ao acusar os origenistas da corte de maquinar contra esses três teólogos;

  3. A Vida de São Saba – do monge palestino Cirilo de Citópolis. Parte integrante de um conjunto de hagiografias chamado A Vida dos Monges da Palestina, é a mais detalhada descrição da Segunda Crise Origenista que chegou até nós, tendo um ponto de vista a partir da periferia do império. Ao longo da vida de Saba, os origenistas aparecem pouco, embora Cirilo não deixe de mencionar como, aos poucos, eles se infiltraram e instalaram no mosteiro Nova Laura, fundado por Saba. O confronto entre origenistas e ortodoxos estourou apenas após a morte de Saba, por volta de 532, e os origenistas levaram vantagem e colocaram os ortodoxos na defensiva. O gatilho do sínodo de 543 é um pouco diferente do relatado por Liberato, sem nenhuma alusão a Pelágio, mas concordando que foi solicitação local a Justiniano. Entretanto, o efeito prático do sínodo foi nulo e a década de 40 do século VI marcou o ápice do poder origenista na Palestina. A situação só começou a mudar com o rompimento entre origenistas radicais e moderados, tendo esses últimos retornado para o partido ortodoxo. O V Concílio Ecumênico teve por objetivo resolver de vez a briga, que terminou com a expulsão dos origenistas de Nova Laura em 555, por meio de força militar. Como complemento a esse texto e também de Cirilo de Citópolis, sugiro os capítulos de XI a XV de A Vida de Ciríaco, em que são listadas as diferenças em os monges origenistas e os ortodoxos;

  4. A História Eclesiástica – de Evágrio Escolástico. Bispo de Antioquia que escreveu um conjunto de crônicas da política religiosa imperial de 431 (no segundo concílio de Éfeso) até 594. Seu relato da segunda crise origenista (livro IV, cap. 38) começa pelo fim, já no ano de 553, e corresponde aproximadamente ao último capítulo de A Vida de Saba. Há algumas diferenças: a expulsão dos origenistas de Nova Laura precede o concílio e dá a entender que a questão dos “Três Capítulos” foi exposta só naquele ano. Tal como nos relatos anteriores acerca dos eventos de 543, Evágrio dá como gatilho para a ação de Justiniano a requisição de clérigos ortodoxos palestinos e defende a tese da intriga origenista contra os Três Capítulos como uma espécie de ação diversiva. De certa forma, este autor compacta as duas etapas da crise em uma só.

Nas versões latinas das atas de Constantinopla II que chegaram até nós, são praticamente só relatadas as questões dos “Três Capítulos” e quase nenhuma menção é feita a Orígenes ou ao origenismo. Somente no item XI do Cânon aparece uma citação textual de seu nome e de alguns seguidores, seguida por uma condenação deles. Não se sabe se os quinze anátemas de 543 (encontrados apenas no século XVII) tiveram participação nas atas ou se foram as opiniões do teólogo quanto a natureza de Cristo. Esta página de Early Church Fathers apresenta argumentos pró e contra o uso do material do sínodo em 553. De qualquer forma, os sucessores de Vigílio (Pelágio I e II, Gregório), ao tratarem do quinto concílio, falaram apenas dos “Três Capítulos” e agiram como se não soubessem da condenação (segundo a Catholic Encyclopedia). Há a possibilidade de os papas não terem tido nenhum interesse na questão origenista, pois, como relatou [Alberigo] o origenismo era fraco no ocidente. É possível também que Justiniano, como já obtivera dez anos antes a corroboração dos cinco patriarcas (com o papa incluído) para o sínodo local, tenha apenas quisto uma nova confirmação que tivesse mais “status” que a anterior. Se assim foi, estaria explicado por que o origenismo pouco espaço tomou nas atas. Vale lembrar que se Teodora teve alguma coisa a ver com esta confusão toda, deve ter sido apenas na memória do Imperador, pois ela morrera em 548.
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A preexistência das almas foi, então, anatematizada?

Os anátemas contra Orígenes – tanto os do imperador quanto os do sínodo de 543 – revelam que a questão origenista transcendia em muito a simples questão da preexistência. Em geral só é citado o primeiro anátema de 543:

I – Se algum crer na fabulosa preexistência das almas e na monstruosa reabilitação das mesmas, que é associada a ela, seja anátema.

Mas uma análise dos seguintes chama a atenção:

III – Se alguém disser que o sol, a lua e as estrelas pertencem ao conjunto dos seres racionais a que se tornaram o que eles hoje são por se voltarem para o mal, seja anátema.

IV – Se alguém disser que os seres racionais nos quais o amor a Deus se arrefeceu, se ocultaram dentro de corpos grosseiros como são os nossos, e foram em consequência chamados homens, ao passo que aqueles que atingiram o último grau do mal tiveram como partilha corpos frios e tenebrosos, tornando-se o que chamamos demônios e espíritos maus, seja anátema.

Dos anátemas de Justiniano:

V – Se alguém disser ou pensar que, na ressurreição, os corpos humanos ressurgirão numa forma esférica e distinta da atual, seja anátema.(*)

VII – Se alguém disser ou pensar que Cristo, o Senhor, será, em algum tempo futuro, crucificado por demônios assim como foi por homens, seja anátema.

VIII – Se alguém disser ou pensar que o poder de Deus é limitado e que ele criou apenas aquilo que foi capaz de alcançar, seja anátema.

(*)A tese desse anátema não pode ser encontrada nos escritos que sobraram de Orígenes, estando em alguma obra perdida ou foi cunhada por origenistas posteriores.

Apesar de alguma semelhança aparente com a doutrina espírita, as diferenças são imensas. Sou cético se a maioria dos espíritas conhece esta parte mais “heterodoxa” do origenismo – talvez nem saibam do que falam – e duvido muito se os que lamentam o episódio de 543 o aceitariam integralmente.
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Teodora matou 500 prostitutas?

Não há nenhum documento histórico que comprove isto. Mesmo o mais virulento cronista da corte bizantina, Procópio, relata apenas um encarceramento. E ainda que houvesse ocorrido tal chacina, há evidência suficientes para que o verdadeiro gatilho da segunda crise origenista tenha sido as dissensões ocorridas nos mosteiros sírio-palestinos. De toda a sorte de crimes que a imperatriz cometeu, foram logo escolher um forjado. Como o ônus da prova recai sobre quem propõe e Procópio foi o único nome apresentado, cabem aos proponentes arrumar alguma fonte alternativa em outro cronistas bizantino. Se ela existir. [topo]

Afinal, qual o papel de Orígenes nessa história toda?

O de um mito. Ele representa – para os espiritualistas – “aquilo que fomos um dia, nos desviamos e almejamos voltar a ser”. Isto, na verdade se encaixa na definição de qualquer mito. O rei Davi, que unificou as tribos e fez de Israel uma nação imperialista; Solano Lopez, o déspota esclarecido que fez o Paraguai peitar os interesses ingleses e seus lacaios brasileiros; Duque de Caxias, militar modelo e pacificador do Brasil. Todas estas figuras realmente existiram, mas não eram tidos por seus contemporâneos pelas imagens que têm hoje. Escavações comprovam que Davi deve ter sido apenas um monarca local, sem tanta pompa e glória. Francisco Daratioto, em seu livro Maldita Guerra, mostra que Solano Lopez era tido pelos paraguaios como um tiranete que levou sua pátria à uma aventura desastrosa. A construção do “herói nacional” se deu ao longo do século XX, em especial durante a ditadura Stroessnser e, deste lado da fronteira, uma espécie de desforrismo contra a ditadura militar pintou o Brasil como marionete inglesa. Caxias não era tão bem visto assim na República Velha por ter sido monarquista. Ele sempre teve prestígio militar, sem dúvida, mas este não era maior do que o dos demais chefes das campanhas platinas, como Osório. Teve seu valor inflacionado grandemente pela ditadura Vargas.

Nesse aspecto, Orígenes se tornou um mito espiritualista. O prolífico teólogo alexandrino – cujos escritos despertavam igual número de paixões pró e contra – de fato existiu. O mártir intelectual que cria numa reencarnação aos moldes modernos, era uma unanimidade até o século VI e foi perseguido pelos delírios de um casal de monarcas – em especial a esposa -, é uma construção dos tempos atuais. Uma “história” personalista da cristandade que tira o foco do que interessaria: o que realmente os pequenos grupos cristãos originais discutiam entre si? Será que o sacrifício da arena contaria com tantos adeptos caso eles não vissem nisso uma porta da a redenção imediata?
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Não estás fazendo “tempestade em copo d’água”?

Não, por um simples motivo: as táticas usadas na criação de mitos. Seleção de fatos e escritos, aumento da importância de alguns aspectos em detrimento a outros, teorias conspiratórias, erros biográficos, quando não revisionismo puro e simples, são coisas que deveriam preocupar qualquer espiritualista que preze algum respeito. Citei vários autores como Severino Celestino da Silva, Elizabeth Clare Prophet, Noel Langley, José Reis Chaves, Kersten e te pergunto: posso levar a sério alguns desses estudos? Definitivamente, NÃO!!! Devo acusá-los de má-fé? Também não, do contrário o ônus da prova seria meu e poderia incorrer em calúnia. A interpretação mais leve que posso fazer quanto a eles é que não leram em os escritos de Orígenes e pegaram citações de outros autores (ou uns dos outros) sem fazer a devida verificação. Nesse caso, agiram de modo descuidado com seus leitores e seus “trabalhos acadêmicos” não passam de “recorte e cole” feito por estudantes fundamentais. Ao encontrar alguma citação que apoiasse seus pontos de vista, suspenderam todo o senso crítico. É a emoção humana adentrando na “fé racionada”. Simplificações exageradas também ocorrem por parte de anti-reencarnacionistas como D.Estevão Bettencourt, que desconsidera o aspecto de múltiplas eras de Orígenes, e há “tábuas de salvação”, como a História da Filosofia feita por Giovanni Reale e Dario Antiseri, que não apela para teorias conspiratórias e situa corretamente o pensamento de Orígenes no conceito de múltiplas eras.
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Para Saber mais sobre Orígenes e o Origenismo

24 de janeiro de 2012 2 comentários

– Alberigo, Guiseppe; História dos Concílios Ecumênicos, Ed. Paulus, 1995.

– Ballou, Hoseas, The Ancient History of Universalism. Ed. Z. Baker, 2ª ed., 1842.

– Blume, Fred H.; Annotated Justinian Code, University of Wyoming, 2ª ed. Acessado em 05/01/2009.

– Bridge, Antony; Theodora – Portrait in a Byzantine Landscape, Academy Chicago Publishers, 1993.

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Misquoting Origens: Elizabeth Clare Prophet

19 de janeiro de 2012 Deixe um comentário

“Estatísticas são como biquínis: mostram o que é sugestivo, mas escondem o que é vital”

(anônimo)

A jornalista e escritora de ficção Elizabeth Clare Prophet produziu um livro muito falado de nome Reencarnação: o elo perdido do cristianismo. Devo admitir que quando comparado com as limitações hitoriográficas das obras de Severino Celestino da Silva, José Reis Chaves e José Carlos Leal, esta obra é em muito superior. As querelas origenistas são descritas com uma quantidade maior de pormenores, ao contrário da simplificação exagerada feita pelos demais (ainda que a imparcialidade…), e não cai na tentação fácil de explicar tudo numa teoria conspiratória centrada na figura da imperatriz Teodora. Também devo comentar que Prophet fez a gentileza de colocar muitas vezes referências diretas às obras de Orígenes, o que facilita muito o trabalho de revisão e crítica, embora ainda se valha demais de citações não verificadas. O que mais chama atenção, porém, não é exatamente o que ela diz (também o é), e sim o que ela deixa de dizer. Procedamos a uma análise do capítulo XVI do livro (“Os Diferentes Destinos dos Gêmeos”).

Os rabinos chegaram a uma conclusão incomum. Como as escrituras diziam que os destinos dos gêmeos [Esaú e Jacó] eram diferentes desde o nascimento, e uma vez que Deus era justo, acharam que a única resposta possível era que Esaú havia pecado enquanto estava no ventre de sua mãe. Por mais estranho que pareça, é exatamente esta especulação que encontramos num comentário do Gêneses escrito por volta de 400 a.C.. Os rabinos conjeturavam que, quando Rebeca passava por “casas de idolatria”, Esaú indicava a sua preferência dando pontapés, mas “quando ela passava por sinagogas e casas de estudo, era Jacó quem dava pontapés, tentando sair”(4). Por estas ações os rabinos concluíram que Deus preferia Jacó e sua semente a Esaú e sua semente, por gerações.

Pouco depois disso, Prophet compara a explicação acima com a proposta de pré-existência dos gêmeos dada por Orígenes, em De Pricipiis, livro II, cap. IX, com esta contida no comentário rabínico Genesis Rabbah 63.6.3. Este, conforme ela explica em sua nota (4) para este capítulo ao fim do livro, foi retirado de um livro do escritor judeu Jacob Neusner. Bom, como estamos falando de citações de citações surge uma questão a respeito da datação de Gêneses Rabbah. Tenho outro livro desse mesmo autor ( Introdução ao Judaísmo, ed. Imago ) cujo glossário traz a datação para Genesis Rabbah para 450 E.C. (Era Comum, isto é, d.C), portanto quando Prophet situa o livro em 400 a.C. devo indagar se o correto não seria 400 d.C. De fato, há um erro aí, mas não da autora e sim da tradução da edição brasileira. Consultando o original em inglês, encontra-se:

Edição em língua inglesa de Prophet

A expressão usada é “A.D. 400” (Anno Domini 400), que significa literalmente “400º ano do Senhor“, ou, em bom português, “ano 400 depois de Cristo“. Por algum motivo, confundiram a sigla A.D., comum entre os anglófonos, com o nosso tradicional a.C. Esse lapso não é tão inofensivo assim, pois, ao datar Genesis Rabbah 400 anos antes de Cristo, haveria tempo para sua proposta para o caso de Esaú e Jacó ter sido substituída por uma doutrina reencarnacionista que, supostamente, teria se difundido no seio do judaísmo intertestamentário. Com a datação correta, fica menos provável que a reencarnação já fosse moeda corrente no mainstream do judaísmo ao tempo de Jesus. Isso tem um efeito grande na interpretação de passagens como O “cego de nascença” (Jo 9:2), pois mostra que a crença em pecados pré-natais já podia estar presente no período intertestamentário; aliás, essa é a tese defendida por John Lightfoot em seu comentário de João. A quanto engano autores espiritualistas brasileiros (e demais lusófonos) podem ter sido induzidos por essa falha de tradução!

Continuando:

– Orígenes conhecia bem as tradições judaicas sobre a reencarnação e a divinização e, às vezes, parecia fazer eco à palavras de Filon, que escreveu sobre a reencarnação. Orígenes acreditava que os judeus ensinavam a reencarnação. (15)

Vejamos como Prophet desenvolve a questão em sua nota (15):

(…)Orígenes pode ter tido algo a acrescentar sobre a questão de se os judeus acreditavam ou não em reencarnação. Em seu comentário sobre as passagens de João/Elias em seu Comentário sobre João, ele afirma que a pergunta a João: “És tu Elias?” que eles acreditavam na metensomatose [transmigração], como uma doutrina herdada de seus ancestrais e que, por isso, não se chocava com o ensinamento secreto de seus mestres. Ele afirma também que uma tradição judaica diz que Fineias, filho de Eleazar, “foi Elias”. Talvez Orígenes tenha tido acesso a ensinamentos secretos judaicos além dos evangelhos. O Comentário de João 6.7, citado por Jean Daniélou em “Gospel Message and Hellenistic Cuture” (A Mensagem do Evangelho e a Cultura Helenica), trad. John Austin Baker, vol. 2 de “A History of Early Christian Doctrine before the Coucil of Nicaea” (A História da Doutrina do Cristianismo Primitivo antes do Concílio de Niceia) (Londres: Darton, Longman and Todd, 1973), pp. 493-494.

Bem, vejamos excertos maiores do capítulo VII do sexto livro de Comentários de João, edição de Ante-Nicene Fathers, a mesma de usada por ela:


Nosso primeiro erudito, cuja visão da transcorporação vimos ser baseada em nossa passagem, pode prosseguir com um exame mais detalhado do texto e argumentar contra seu antagonista que se João foi o filho de um homem como o sacerdote Zacarias e se nasceu quando seu pais já eram ambos idosos, contrariando todas as expectativas humanas, não é provável que tanto judeus em Jerusalém o desconhecessem, ou os sacerdotes e levitas por eles enviados não estariam a par dos fatos de seu nascimento. Não declara Lucas que “o temor veio sobre todos os que viviam por perto” (Lc 1:65), – claramente nas proximidades ao redor de Zacarias e Isabel – e que “todas essas coisas foram divulgadas por toda terra montanhosa da Judeia“?
E se o nascimento de João a partir de Zacarias foi matéria de comum conhecimento e os judeus de Jerusalém já enviaram sacerdotes e levitas para perguntar, “És tu Elias?” então está claro em dizer que eles consideravam a doutrina da transcorporação com verdadeira e que ela era uma doutrina corrente de seu país, e não estranha aos seus ensinos secretos. João, portanto, diz, “Eu não sou Elias, porque não sabe sobre sua vida prévia. Estes pensadores, assim, cogitam uma opinião que não deve de forma alguma ser desprezada. Nosso membro da Igreja, contudo, pode replicar à alegação e perguntar se é digno de um profeta, que é iluminado pelo Espírito Santo, que foi previsto por Isaías, e cujo nascimento por pressagiado antes que sucedesse por tão grande anjo, que recebeu da plenitude de Cristo, que partilha de tal graça, que sabe que a verdade vem por meio de Jesus Cristo e ensinou coisas tão profundas a respeito de Deus e do unigênito, que está no seio do Pai, é digno de tal indivíduo mentir ou mesmo hesitar, em razão da ignorância do que era. Pois com relação ao que estava obscuro, ele deveria ter se abstido de confessar, e não ter nem afirmado, nem negado a proposição que foi posta. Se a doutrina [da transcorporação] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias? E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença. Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento.

Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

Em negrito as informações desconsideradas por Prophet

Senhores, está claro que, quando Orígenes fala de um ensino “secreto dos hebreus”, ele o coloca na boca de filósofos antagonistas. Depois ele diz com todas as letras que, àquela altura, a transmigração ainda não entrara no judaísmo místico. Quanto ao caso de Fineias, Orígenes fala ao fim do capítulo:

Eu não sei como os hebreus começaram a falar que Fineias, filho de Eleazar, que admitidamente prolongou sua vida ao tempo de muitos dos juízes, como lemos no Livro de Juízes (Jz 20:28), para dizer o que agora menciono. Dizem que ele foi Elias porque Deus lhe prometera imortalidade, devido à aliança concedida a ele (Nm 25:12-13) (…) .

Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

Aqui fica claro que não se tratava de reencarnação, mas de uma imortalidade. Os judeus teriam confundido o “sacerdócio eterno” de Fineias e sua descendência com uma espécie de imortalidade para o próprio. Por todo o exposto acima, fica-se com a impressão de que Prophet não leu nada do texto original de Orígenes e, além disso, ou mal citou suas fontes ou confiou demais nelas. Uma falha grave de pesquisa. Prossigamos:

– Clemente de Alexandria, um professor cristão que dirigiu a escola de catequese antes de Orígenes – Diz-se que ensinava a reencarnação (16)

Deem uma lida no artigo sobre Clemente de Alexandria para esclarecimentos reais sobre o que ele defendia.

– O Gnosticismo – Orígenes absorveu este conceito através de um professor chamado Paulo de Antioquia (…) Existe ainda uma possível sexta fonte para a crença de Orígenes na reencarnação. Ele pode tê-la aceito por ter-se convencido – através do estudo do Gnosticismo, dos escritos de Clemente ou de outras escrituras que se perderam – de que a reencarnação fazia parte dos ensinamentos secretos de Jesus.

Sinceramente, quem escreve uma coisa dessas quase passa um atestado de jamais ter lido sequer um parágrafo de De Principiis nem que fosse apenas por passatempo. A carreira de Orígenes teve por adversários e antagonistas grupos gnósticos:

(…) agora, quanto àquelas expressões que ocorrem no antigo Testamento, quando se diz que Deus ficou raivoso ou arrependido, ou quando um sentimento ou paixão humana é descrito, (nossos oponentes) pensam que estão abastecidos de subsídios para nos refutar, alegando que Deus é impassível ao todo e é considerado totalmente livre de sentimentos de qualquer tipo, nós temos de mostrar a eles que declarações similares são encontradas mesmo nas parábolas do Evangelho.

De Principiis, livro II, cap. IV

Fora dito nos profetas, “Eu sou Deus e além de Mim não há outro Deus”. Pois se o Salvador, sabendo que Ele que está escrito na lei é o Deus de Abraão e que é o mesmo que diz, “Eu sou Deus e além de Mim não há outro Deus”, reconhece que o mesmíssimo que é Seu Pai é ignorante quanto a existência de qualquer outro Deus acima dEle mesmo, como os heréticos supõem, Ele absurdamente O declara ser Seu Pai que não conhece um Deus superior. Mas se não é da ignorância, mas do engodo, que diz não haver outro Deus além de Si mesmo, então é um absurdo muito maior confessar que Seu Pai é culpado de falsidade. De tudo, a conclusão a que se chega é que Ele desconhece outro Pai além de Deus, Fundador e Criador de todas as coisas.

Idem

Aqui é claro o combate de Orígenes ao dualismo gnóstico, que asseverava ser um demiurgo inferior o deus do Antigo Testamento e criador do mundo material, aprisionando centelhas divinas em corpo de carne. O mundo material seria mal em si mesmo. Jesus teria sido enviado pelo verdadeiro deus superior e bom para libertar as almas das mãos do demiurgo. Boa parte do texto de De Principiis é gasto em justificar a unidade entre o Deus do Antigo e do Novo Testamentos e buscar uma justificativa para a encarnação das almas que estivesse de acordo com parâmetros de “bondade divina”, daí a teoria de uma beatitude primordial, as quedas, necessidade de corpos para individualizar almas decaídas, regeneração pela submissão a Cristo. Ao contrário do que alguns escritores reencarnacionistas afirmam, Orígenes não foi influenciado pelo gnosticismo, muito pelo contrário, era antignóstico. Se isto ainda não te convence, veja Orígenes citando com todas as letras expoentes gnósticos:

Agora, quando dizemos que este mundo foi estabelecido na diversidade na qual acima explicamos que foi criada por Deus e quando dizemos que este Deus é bom e reto, e mais justo, há numerosos indivíduos, especialmente aqueles que, oriundos da escola de Marcião, e Valentino, e Basílides, ouviram que há almas de diferentes naturezas, que nos objetam, que isto não pode consistir com a justiça de Deus em criar o mundos para designar a algumas de Suas criaturas uma morada nos céus, e não apenas para dar uma melhor habitação, mas também uma mais alta e honrável posição (…) [grifos do portal]

De Principiis, II, IX

Muitos autores não têm Marcião como gnóstico, apesar de possuir pontos em comum com eles, mas Valentino e Basílides eram sem dúvida gnósticos.

– Ele responde à sua própria pergunta: “É claro que alguns pecados existem [isto é, foram cometidos] antes de as almas [terem corpos] e, como resultado, cada alma recebe a recompensa de acordo com seu mérito” (19)

Em sua nota (19), Prophet dá sua fonte para esta frase: Orígenes On the First Principles (Sobre os Primeiros Princípios) 1.8.1, Butterworth, p. 67.

Prophet situa tal citação no livro I, capítulo VIII, parágrafo primeiro; porém tal trecho não aparece na tradução de De Principiis feita por Frederick Crombie na série Ante-Nicene Fathers (1866-1872). Há uma explicação simples para o fato, segundo John S. Uebersax, G. W. Butterworth (1936/1966) baseou sua popular tradução inglesa não numa tradução direta do texto latino de Rufino. Ele a extraiu de uma tradução alemã feita por Paul Koetschau, que tentara uma magnus opus visando reconstruir o original De Principiis como existia antes da editada tradução de Rufino, a forma em que a maior parte do trabalho chegou até nós. “Tem-se sugerido que Koetschau fez um uso extremamente liberal de fontes secundárias, i.e., citações ou paráfrases meramente atribuídas a Orígenes“. De fato, quem se dispuser a adquirir um exemplar da edição de Butterworth/Koetschau verá que sua versão grega para De Principiis 1.8.1 é uma montagem feita a partir de extratos de Antípater de Bostra, Leôncio de Bizâncio e Epifânio. Apesar de a frase não ser demasiadamente estranha ao sistema origenista, fica revelado aspecto temerário da obra da autora ao não se basear em uma fonte confiável, caso Uebersax esteja certo. Os texto disponíveis on-line de Ante-Nicene Fathers não tentam fazer uma reconstrução crítica de forma tão atrapalhada. Eles simplesmente expõem como base o texto de Rufino e, ao fim de cada tomo, colocam extratos da carta de Jerônimo a Ávito e de Philocalia. Fica a cargo dos leitores a comparação. O texto disponível on-line de Ante-Nicene Fathers não tentam fazer uma reconstrução crítica de forma tão atrapalhada. Eles simplesmente expõem como base o texto de Rufino e, ao fim de cada tomo, colocam extratos da carta de Jerônimo a Avitus e de Philocalia. Fica a cargo dos leitores a comparação.

– Ao dizer que o nosso destino resulta de nossas ações passadas, Orígenes dá a entender que tivemos alguma forma de existência anterior que precedeu o nosso corpo atual. Para Orígenes a conclusão óbvia é que a esta existência anterior também foi vivida sob a forma humana.

Na verdade, o estado humano foi devido a um grau de queda maior que o dos anjos e os astros celestes. Antes das quedas, todas as alma tinham um estado primordial incorpóreo, sem contar que, entre uma era e outra, um humano poderia ascender a um desses dois ou decair para um demônio. Note a (errônea) citação que Prophet faz de Orígenes (digo, de Butterworth) logo acima. Parece que ela leu uma coisa e entendeu outra.

– Em seu Comentário sobre João, trata da questão da reencarnação, mas não chega a oferecer uma resposta dizendo: “O assunto da alma é muito amplo e difícil de ser esclarecido… Exige, por isso, tratamento diferenciado.” (21)

A nota (21) informa que a citação foi extraída de Comentário de João 6.7. Para começo de conversa, como se viu acima, nesse livro e capítulo se discute, sim, a reencarnação. Ele afirma que não era doutrina entre os judeus contemporâneos seus e que seus pares:

Entretanto, um membro da Igreja, que rejeita a doutrina da transcorporação como falsa e não admite que a alma de João fosse a de Elias, pode se referir às palavras do anjo supracitadas e assinalar que não é a alma de Elias que é dita ao nascimento de João, mas o espírito e poder de Elias.

Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

e segue com uma longa argumentação de que João Batista não era uma reencarnação de Elias, muito similar, por sinal, a que os apologistas cristãos fazem hoje:

Quanto aos espíritos dos profetas, estes são dados por Deus e são considerados como sendo, de certo modo, propriedades deles, como “Os espíritos dos profetas estão submissos aos profetas” (I Cor 14:32) e o Espírito de Elias repousou sobre Eliseu (2 Reis 2:15). Assim, diz-se, não há nada de absurdo supor que João, “no espírito e poder de Elias”, voltou o coração dos pais para os filhos e foi por causa deste espírito que foi chamado de “o Elias que deve vir”.

Idem

O trecho que Prophet exibe se encontra ao fim do capítulo referido do Comentário de João e merece uma contextualização maior:

Não admira, então, se aqueles que conceberam Fineias e Elias como a mesma pessoa; caso tenham julgado ajuizadamente ou não, não é a questão agora, considerariam João e Jesus como também sendo so mesmo. Isto, então, eles duvidaram e desejaram saber se João e Elias eram os mesmos. Em outra ocasião que nem esta, a questão [identificação entre Jesus e João] certamente exigiria uma análise detalhada e o argumento teria de ser bem ponderado quanto à essência da alma, ao princípio de sua composição e quanto a sua entrada neste corpo terreno. Também deveremos ter de inquirir quanto às distribuições da vida de cada alma, e quanto a sua partida desta vida, e se é possível para ela entrar numa segunda vida em um corpo ou não, e se tal ocorre no mesmo período e após o mesmo arranjo em cada caso, ou não, e se entra no mesmo corpo ou em outro distinto, e se o mesmo, se o sujeito permanece o mesmo ao passo que as qualidades mudam ou se tanto o sujeito quanto as qualidades permanecem, e se a alma sempre fará uso do mesmo corpo ou o trocará. Junto com estas questões, seria também necessário perguntar o que é transcorporação e como ela se difere da incorporação e ele que sustém a transcorporação deve necessariamente que o mundo seja eterno. A noções desses pensadores também devem ser consideradas; quem considera que, segundo as Escrituras, a alma é semeada junto com o corpo e as consequências de tal noção também deve ser levada em conta. De fato, o assunto da alma é muito amplo e difícil de ser esclarecido e tem de ser compreendido de expressões dispersas da Escritura. Exige, por isso, tratamento diferenciado. A breve consideração que fomos levados a dar ao problema em relação a Elias e João pode bastar por enquanto; prossigamos ao que se segue no Evangelho.

Idem

Orígenes não estava falando de nenhum ensinamento secreto a respeito da alma, mas enumerando os pontos a serem levantados com pensadores pagãos ou influenciados por doutrinas tidas por heréticas. Ele dá uma “receita de bolo” sobre a mesma técnica de argumentação que ele usou contra aqueles que associavam Elias a João e que poderia novamente ser útil no caso de lançarem a hipótese de Jesus e Elias serem os mesmos.

Prophet faz uma única admissão de um texto anti-reencarnacionista de Orígenes no Comentário sobre Mateus. Ela dá essa passagem como uma atitude defensiva de Orígenes contra perseguidores, pois ele:

(…) escreveu quando já estava com mais de 60 anos (por volta de 246-248), o seu contexto leva-nos a questionar se não a estaria negando como uma tentativa de despistar seus inimigos (22). Pois Orígenes, assim como todos os iniciados nos mistérios gregos e gnósticos, praticava o sigilo.

Bem, vamos à nota 22:

Orígenes nega a reencarnação quando se discute se João Batista era ou não Elias que voltara. Nessa discussão dirige-se claramente aos bispos. Eis a sua negação:”’Aqui não me parece que por Elias se expressa a alma, ou cairei no dogma da transmigração, que é contrário à Igreja de Deus, que não foi transmitido pelos apóstolos nem é encontrado nas Escrituras” (ênfase da autora).

Aqui, Orígenes rejeita a reencarnação porque ela não se coaduna com a ideia cristã do julgamento final. Como poderia haver um fim, ele pergunta, se as almas estão continuamente cometendo atos que as obrigarão a retornar à terra para redimi-los? Ele conclui que o conceito de um final deveria “abolir a doutrina da transmigração”. Commentary on Mathew (Comentário Sobre Mateus) 13.1, em The Ante-Nicene Fathers (Os Patriarcas Ante Niceia) 10:474, 475.

Orígenes, entretanto, procurou conciliar a ideia de um final com a ideia de oportunidade contínua através da reencarnação. Mesmo afirmando que haveria um final quando o mundo for ‘tudo em todos’ (1 Cor 15:28), ele também previu que “depois da dissolução deste mundo haveria um outro”. On First Principles (Sobre Primeiros Princícios) 3.5.3 Butterworth, p.239(…)

Aqui no caso há uma meia-verdade. Orígenes cria num tipo de reencarnação “entre eras”, mas em instante algum em De Principiis ou qualquer outra obra que chegou até nós ele defendeu alguma reencarnação “na mesma era”. Do jeito que Prophet coloca tal aspecto de Orígenes ao fim do livro, em uma nota, e como uma saída alternativa em vez de ser o principal; um leitor desavisado pode ter uma impressão errônea de que Orígenes estava escondendo algo que ele nunca defendeu. Se não tiver lido a nota 22, pior será a ideia. Orígenes cria, também, em ressurreição e julgamento final ao fim de cada era e dedica até um capítulo de De Principiis a isso. Além disso, há mais passagens em Comentários sobre Mateus contra a reencarnação (Livro X, cap. XX), além de os trechos que ela tem como pró reencarnação do Comentário sobre João na verdade, como vimos, serem anti. O Comentário de João, por sinal, precede o de Mateus e na própria introdução do capítulo VI (o utilizado por Prophet), Orígenes fala que tal fora originalmente escrito em Alexandria antes de seu exílio em Cesareia (231), embora tenha sido extraviado e reescrito já na Palestina. Orígenes era mais jovem, enfraquecendo o peso do fator idade que Prophet para descartar o Comentário sobre Mateus. Também não se deve esquecer de Contra Celso IV, XVII. Prophet ainda tenta associar Orígenes ao gnosticismo e um errinho menor ao citar I Cor 15:28: “quando Deus for tudo em todos”.

O ponto que Prophet considera xeque-mate para uma crença de Orígenes na reencarnação (ao estilo ocidental) é o relato de Jerônimo:

Se ainda restam dúvidas sobre o fato de Orígenes ter se referido ou não à reencarnação, podemos confiar no Patriarca da Igreja do século IV, Jerônimo, que o acusou de fazê-lo. Jerônimo teve acesso aos textos originais em grego, e disse que uma das passagens de Primeiros Princípios prova que Orígenes “acreditava na transmigração das almas”. (26)

A nota (26) informa a passagem: Ad Avitum, 14. Na verdade, o texto de Jerônimo também foi passível de alteração e, mesmo que não tivesse sido, Jerônimo dá uma citação textual do que dissera Orígenes, não apenas afirmando da boca para fora:

O Fogo do Inferno, além disso, e os tormentos com os quais a sagrada escritura ameaça os pecadores são explicados por ele não como punições externas, mas como aflições de consciências pesadas quando, pelo poder de Deus, a memória de nossas transgressões é posta perante nossos olhos. “Toda colheita de nossos pecados cresce de novo das sementes que permanecem na alma e todos os atos desonrosos e indignos são outra vez retratados diante de nossas vistas. Assim é o fogo da consciência e os espinhos do remorso que torturam a mente a medida que ela relembra na referida autoindulgência”. E de novo: “mas talvez este grosseiro e terreno corpo deva ser descrito como névoa e escuridão; pois ao fim deste mundo e quando for necessário passar ao outro, o similar à escuridão levará ao similar nascimento físico [ou fisicamente nascido]”. Falando assim ele claramente pleiteia claramente pela transmigração das almas como ensinado por Pitágoras e Platão.

Jerônimo de Aquileia, Carta 124 (a Ávito).

Ao fim deste mundo e quando for necessário passar ao outro … ” Mesmo na versão mais heterodoxa possuída por Jerônimo, o relato é de uma reencarnação entre eras e talvez com continuidade de corpo, não do conceito comum no ocidente moderno.

Resumindo Prophet: a maior parte do tempo, ela insinua que Orígenes defendia a reencarnação ao estilo ocidental, com vários reencarnes num mesmo mundo. Passagens que rejeitam a reencarnação tradicional são minoradas (Comentário sobre Mateus), distorcidas para se tornarem pró reencarnacionistas (Comentário sobre João) ou esquecidas (Contra Celso). As passagens onde Orígenes adota o modelo entre eras são relatadas de forma marginal (De Principiis) ou explanadas por alto sem citação explícita (Carta a Ávito, de Jerônimo). Apesar de tudo, Prophet é “menos mal” que muitos outros autores espiritualistas analisados neste portal, mas ainda deixa muito a desejar.

Uma História de Dois Equívocos

17 de janeiro de 2012 Deixe um comentário
Leia as frase abaixo:

– “Até a época, a doutrina do renascimento e do carma era aceita pela Igreja Cristã.”

– “O concílio condenou o Origenismo em termos claros e severos2.”

São duas declarações extraídas do cap. IX, tópico “Os Cristãos”, de “
Analisando as Traduções Bíblicas, 4ª ed. A primeira está categoricamente errada. O origenismo já era rejeitado de pelo menos duzentos anos antes do fatídico quinto concílio. A segunda citação foi deixada propositadamente com o índice (2) que constava no original. Este número nada mais é do que a referência bibliográfica dada pelo autor Severino Celestino da Silva:

2. Alberigo, G. História dos Concílios Ecumênicos. São Paulo: Paulus, 1995.

Bem, o que realmente continha o texto da coletânea de Alberigo?

Quanto ao origenismo, uma carta de Justiniano, cujo texto se perdeu (Jorge o Monge, ed. ch. De Boor, 1904, 630), servia como documento de trabalho. O decreto de 543 foi praticamente ignorado. É certo que o concílio condenou Orígenes, suas idéias, seus seguidores. São consideradas como heréticas as teorias sobre a apocatástase do universo, sobre a reencarnação das almas e outras menos conhecidas. Infelizmente, perderam-se as atas e não possuímos sequer sua tradução latina, pois a questão não interessava aos ocidentais. Ainda que nossos conhecimentos sejam incompletos nesse campo, o rápido declínio do origenismo depois do concílio indica que ele foi condenado em termos claros e severos.

pág. 134

Curiosamente, o texto de [Alberigo] é contraditório. Dois parágrafos antes do texto acima:

Não sabemos, porém, com exatidão o que aconteceu durante o concílio. As atas do concílio se perderam. Temos somente uma tradução latina, e em duas versões diferentes. Parece que os originais se perderam em 1453, por ocasião da tomada de Constantinopla, pois em 1448, durante o concílio de Florença, ainda se fez uso deles (Gill S., Actorum Graecorum Conciliorum Concilii Florentini, Roma, 1953). De qualquer modo, sabemos que se realizaram oito sessões no secretum de Santa Sofia.

De fato, versões das atas do V concílio chegaram até nós e uma delas, inclusive, pode ser encontrada em inglês na bibliografia ao fim deste tópico. Porém, há algo interessante no primeiro extrato: “(…) o rápido declínio do origenismo depois do concílio indica que ele foi condenado em termos claros e severos”, em contraste com o termo citado por Severino Celestino da Silva: “O concílio condenou o Origenismo em termos claros e severos”. Parece pouca coisa, não fica claro aos mais desavisados a abismal diferença entre uma alegação categórica e uma dedução lógica representada pelo verbo “indicar” usado no texto original e cujas premissas estão envoltas por certa névoa. Isto é mais sério do que alguns apologistas espíritas gostariam de admitir. A coletânea de Alberigo não foi tão categórica assim no trato contra o origenismo, apesar de dar bons indícios. Se isso ainda não te convenceu da gravidade do mal uso de fontes bibliográficas em Analisando…, citemos alguns parágrafos anteriores de Alberigo:

Claro, o origenismo não chamava tanto a atenção dos ortodoxos, pois não questionava o concílio de Calcedônia. Mas depois do decreto de 533 e do sínodo de 536, os ortodoxos perceberam que por trás das decisões imperiais havia sempre um origenista. Roma, sobretudo, não tinha motivo para tolerar o origenismo, pois este não compartilhava as idéias romanas a propósito dos “três capítulos” (cf. Liberatus, Breviarium, ACO II V, 98-141). Os ortodoxos do Oriente começaram a se preocupar com os origenistas, pois estes fortaleciam suas fileiras com padres ortodoxos como Gregório de Nissa, Dídimo, o Cego, e outros. Sobretudo na Síria, os origenistas apareciam demais, por causa de seu grande número. Por isso o patriarca Efrém de Antioquia convocou em 542 um sínodo que condenou o origenismo. Os origenistas da Palestina recorreram, então a Pedro de Jerusalém, pedindo-lhe que não mencionasse mais Efrém nos dísticos de Jerusalém. Pedro, apertado entre as próprias opiniões ortodoxas e as pressões dos origenistas, apelou para Justiniano, com o apoio também do patriarca Mena e do representante de Roma, Pelágio. Justiniano publicou um “Edito” em 543 (Mansi, 9, col. 125-128; ACO III, 189-214) contra o origenismo. Mena aproveitou a ocasião e no mesmo ano convocou um sínodo, que deu à decisão imperial autoridade sinodal. O papa Vigílio, os patriarcas orientais, e também os origenistas de Constantinopla Ascida e Domiciano assinaram a decisão. Isso, porém, não eliminou o origenismo, que continuou a existir e predominar na Palestina. A condenação sinodal conseguiu radicalizar as posições dos origenistas, que assumiram então atitude hostil à ortodoxia.

págs. 130-131

Eis aí uma explicação mais correta para a primeira condenação do origenismo em 543 e os motivos pelos quais ele (talvez) voltou a ser comentado em 553. E o nome da imperatriz Teodora não é citado em nenhum instante. Muito menos as ditas 500 prostitutas! Severino Celestino da Silva teve acesso a uma melhor informação sobre as preliminares do V concílio. Mas preferiu a teoria conspiratória …. por quê? E mais:

Nesse contexto já complicado, um novo movimento – o origenismo – veio tornar a situação realmente insolúvel. É verdade que Orígenes fora condenado há muito tempo, mas sua irradiação intelectual nunca cessou, e seu misticismo exercia constante atração sobre os monges instruídos do deserto. Na realidade, o origenismo jamais desapareceu das zonas sírio-palestinenses. Era tolerado na medida em que não criava problemas. Ora, na efervescência provocada pelas decisões do concílio de Calcedônia, tudo estava envolto pela suspeita de heresia. Pelo final do séc. V, o origenismo reapareceu sob a forma de contestação contra a ortodoxia, contra o monofisismo e contra o nestorianismo. É claro que essa quarta via não tinha muitas possibilidades em contexto tão carregado como aquele.

Pág. 125

A própria referência de Severino Celestino da Silva o desmente quando diz que até o século VI a Igreja (i.e. a ortodoxia, não os dissidentes) acreditava na reencarnação. O origenismo já fora rejeitado de muito antes – como explanado acima – e recruscedeu como um fenômeno sírio-palestino, que estava mais ligado ao monacato local. O texto de Severino Celestino da Silva contém mais dois erros crassos. O primeiro é que o concílio não se deu 299 dias após a morte do teólogo, mas 299 anos! Poderia até ser um descuido de revisão, se esta não fosse a quarta edição do livro. O mesmo dado (299 “dias”) se encontra em um livro de sua bibliografia (O Livro Tibetano dos Mortos, W.Y. Evans-Wentz, Ed. Pensamento, p. 177). Talvez houve uma predileção por esta fonte errônea em vez de outra correta, porém menos chamativa. A definição de apocatástase também está errada. Ela era uma doutrina concebida por Orígenes que enfatizava o caráter sacrificial da morte de Cristo, resgate tão alto pago aos poderes do mal que levaria não só todas as criaturas à salvação. Ou seja, Orígenes era um universalista, mas fica patente que sua doutrina era essencialmente salvacionista. Uma consequência lógica deste princípio seria a salvação até do diabo, ideia que Orígenes parece ter rejeitado depois. José Reis Chaves, outra fonte de Analisando…, acerta mais nessa definição.

Noel Langley: Eliminando Fontes Históricas

14 de janeiro de 2012 Deixe um comentário
Outros autores espiritualistas já abordaram a questão origenista de formas “alternativas”. Em 1968, Noel Langley publicou o livro Edgar Cayce on Reincarnation (1), em que dedicou o capítulo XI ao estudo da condenação a Orígenes. O curioso é que Langley deu relatos largamente distintos para a convocação do V Concílio. O capítulo abre assim:

Nossas versões ortodoxas do Antigo e Novo Testamento não datam de antes do século VI, quando o Imperador bizantino Justiniano convocou o V Congresso Ecumênico de Constantinopla em 553 d.C. para condenar os platonicamente inspirados escritos de Orígenes.

Contrariando a crença das modernas Igrejas, este não foi um congresso sem influência secular. O papa Vigílio foi proibido de comparecer e sua denúncia disto foi escarnecida. Ele [o congresso] foi instigado pelo mesmo substrato de bárbaros abestalhados que tinham sido “convertidos” à cristandade sob Constantino.

Caso o leitor deva achar singular que seja dada tanta atenção a esse congresso nas páginas seguintes, é por causa de os eventos que levaram ao Quinto Congresso representarem praticamente a única evidência sobrevivente de por que a reencarnação desapareceu da Bíblia.

Sinceramente, a leitura desse texto poderia ser encerrada por aqui: “Nossas versões ortodoxas do Antigo e Novo Testamento não datam de antes do século VI”. Para o conhecimento dele, existem inúmeros códices como o Vaticanus (325-350 d.C), Sinaiticus (350), Alexandrino (400), Efremi (400), Beza (450), Washingtonense (450) e Claromontano (séc. V) que precedem essa data, além disso há várias porções menores contendo só o NT como o papiro Chester Beatty (200 d.C.) e o AT das comunidades hebraicas, que tinham escolas importantes na Babilônia do Reino dos Partas e, portanto, livres de qualquer intervenção bizantina. Também já havia Bíblias etíopes fora do domínio bizantino. Como são ferramentas inestimáveis na crítica textual, pergunto onde, confrontando esses documentos com as Bíblias modernas, são reveladas mudanças visando à eliminação da reencarnação? Quais eram os versículos originais? Aliás, os que advogam esta outra teoria conspiratória deveriam explicar por que um suposto censor bizantino da Bíblia teria deixado passagens como o “cego de nascença” e a identificação entre Elias e João Batista? Lembrando que a primeira já foi apontada por Jerônimo como ferramenta dos origenistas de sua época ( Epístola a Demetrias) e que a última foi até refutada por Orígenes (Comentário sobre João, livro 6, cap. VII). Que censura fajuta foi feita então, hein? Ademais, o capítulo anterior desse livro trata justamente dessas supostas reminiscências.

Além de se basear numa premissa errônea, Langley “inova” ao dar uma justificativa inusitada para o ódio de Teodora ao trabalho de Orígenes:

Infelizmente, sob a influência de Eutiques, Teodora tornou-se uma conversa a este dogma monofisista [que dava a Cristo uma natureza exclusivamente divina]. A principal reivindicação dele para com os sentimentos dela era a sua total rejeição àqueles ensinamentos de Orígenes que tinham tão profundamente influenciado os primeiros Padres da Igreja. Orígenes não apenas acreditava na metempsicose, como argumentava que Cristo o Logos, ou a Palavra, habitou o corpo humano de Jesus, santificando-o, assim.

Ou seja, para Langley, o detonador da perseguição a Orígenes pela imperatriz foram questões cristológicas e a reencarnação foi rejeitada por estar no bojo dos ensinamentos origenistas. Em nenhum instante Langley fala do assassinato de 500 prostitutas. Lembro-me, agora, de uma citação que Severino Celestino da Silva faz de Jerônimo no começo de Analisando as Traduções Bíblicas: “A verdade não poderia existir em coisas que divergem” [grifo do autor]. Apesar de eu ter minhas ressalvas quanto a validade plena desta frase – afinal, é possível que versões um pouco destoantes possuam fragmentos da verdade distintos – uma coisa devo admitir: ela cai como uma luva para a confrontação dele com Langley (2).

Cayce e Langley podem até ser ilustres desconhecidos entre muitos dos espiritualistas tupiniquins, mas as ideias dele chegaram a estas terras por um nome bem mais conhecido aqui: José Carlos Leal, que na primeira parte de seu seu livro Reencarnação: Coisas que devemos saber sobre as vidas sucessivas repassa a tese de Langley quanto à motivação do V Concílio (3).

Notas:

(1) Edgar Cayce foi famoso vidente e médium norte-americano da primeira metade do século XX.

(2) William Walker Atkinson, em A Reencarnação e a Lei do Carma, p. 47, situa o começo dos episódios em 538. Mais confusão.

(3)Consta nas páginas 58 a 60 da primeira edição da Léon Denis, 2009. Leal não fez nenhuma referência explícita a Langley, mas a obra dele aqui comentada consta na bibliografia de Leal e a identificação entre ideias que cada autor sobre o V Concílio é nítida.

Teorias Conspiratórias a (des)Serviço da História

12 de janeiro de 2012 Deixe um comentário
Há muitos boatos e meias-verdades espalhados quanto ao II Concílio de Constantinopla, que teria riscado a reencarnação da Bíblia. Um bem conhecido é:

Até agora, quase todos os historiadores da Igreja acreditaram que a doutrina da reencarnação foi declarada herética durante o Concilio de Constantinopla em 553. No entanto, a condenação da doutrina se deve a uma ferrenha oposição pessoal do imperador Justiniano, que nunca esteve ligado aos protocolos do Concilio. Segundo Procópio, a ambiciosa esposa de Justiniano, que, na realidade, era quem manejava o poder, era filha de um guardador de ursos do anfiteatro de Bizâncio. Ela iniciou sua rápida ascensão ao poder como cortesã. Para se libertar de um passado que a envergonhava, ordenou, mais tarde, a morte de quinhentas antigas “colegas” e, para não sofrer as consequências dessa ordem cruel em uma outra vida como preconizava a lei do Carma, empenhou-se em abolir toda a magnífica doutrina da reencarnação. Estava confiante no sucesso dessa anulação, decretada por “ordem divina”!

Em 543 d.C. o imperador Justiniano, sem levar em conta o ponto de vista papal, declarou guerra frontal aos ensinamentos de Orígenes, condenando-os através de um sínodo especial. Em suas obras De Principiis e Contra Celsum, Orígenes (185-235 d.C), o grande Padre da Igreja, tinha reconhecido, abertamente, a existência da alma antes do nascimento e sua dependência de ações passadas. Ele pensava que certas passagens do Novo Testamento poderiam ser explicadas somente à luz da reencarnação.

– Kersten, Holger; Jesus Viveu na Índia, Ed. Best Seller, 7ª ed., Cp. VI – “Considerações Finais”.

O engraçado é terem encontrado recentemente uma tumba atribuída a Jesus e Maria Madalena em Israel. Será que enterraram a cabeça em Jerusalém e as canelas na Índia? Bem, isto foge ao assunto, vamos a José Reis Chaves:

A Igreja teve alguns concílios tumultuados. Mas parece que o V Concílio de Constantinopla II (553) bateu o recorde em matéria de desordem e mesmo de desrespeito aos bispos e ao próprio Papa Virgílio, papa da época.

O imperador Justiniano tem seus méritos, inclusive o de ter construído a famosa Igreja de Santa Sofia, obra-prima da arte bizantina, hoje uma mesquita muçulmana.

Era um teólogo que queria saber mais que teologia do que o papa. Sua mulher, a imperatriz Teodora, foi uma cortesã e se imiscuía nos assuntos do governo do seu marido, e até nos de teologia.

Contam alguns autores que, por ter sido ela uma prostituta, isso era motivo de muito orgulho por parte das suas ex-colegas. Ela sentia, por sua vez, uma grande revolta contra o fato de suas ex-colegas ficarem decantando tal honra, que, para Teodora, se constituía em desonra.

Para acabar com esta história, mandou eliminar todas as prostitutas da região de Constantinopla – cerca de quinhentas.

Como o povo naquela época era reencarnacionista, apesar de ser em sua maioria cristão, passou a chamá-la de assassina, e a dizer que deveria ser assassinada, em vidas futuras, quinhentas vezes; que era seu carma por ter mandado assassinar as suas ex-colegas prostitutas.

O certo é que Teodora passou a odiar a doutrina da reencarnação. Como mandava e desmandava em meio mundo através de seu marido, resolveu partir para uma perseguição, sem tréguas contra essa doutrina e contra o seu maior defensor entre os cristãos, Orígenes, cuja fama de sábio era motivo de orgulho dos seguidores do cristianismo, apesar de ele ter vivido quase três séculos antes.

Como a doutrina da reencarnação pressupõe a da preexistência do espírito, Justiniano e Teodora partiram, primeiro, para desestruturar a da preexistência, com o que estariam, automaticamente, desestruturando a da reencarnação.

Chaves, J.R.; A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, cap. VIII, 7ªed., Ed. Ebm

Agora, um texto extraído de Analisando as traduções bíblicas, de Severino Celestino da Silva, Editora Idéia, 4ª ed., cap XI:

Orígenes afirmava ser a doutrina do Carma e do renascimento uma doutrina Cristã.
Devido a esta sua crença, 299 (duzentos e noventa e nove) dias, após sua morte, contra ele a igreja decretou a excomunhão. O segundo Concílio de Constantinopla, no ano de 553, decretou: “Todo aquele que defender a doutrina mística da preexistência da alma e a consequente assombrosa opinião de que ela retorna, seja anátema”[grifo do autor].

Até a época, a doutrina do renascimento e do carma era aceita pela Igreja Cristã.

A história do II Concílio de Constantinopla teve marcante acontecimento com a figura do imperador Justiniano, um teólogo, que queria saber mais teologia do que o papa. Justiniano tentou reinserir os monofisistas no meio dos ortodoxos da Igreja, pois temia que os monofisistas, comandados por Severo de Antioquia, se afastassem e voltassem-se para a Pérsia. Organizou no palácio a primeira conferência entre ortodoxos e monofisistas, para a qual convidou seis ortodoxos e seis monofisistas tentando definir diferenças entre as doutrinas.

O papa, Vigílio, apesar de se encontrar em Constantinopla, recusou-se a participar do concílio convocado pelo imperador e tampouco se fez representar. O Concílio pressionado pelo imperador excomungou o papa. O papa Vigílio acabou reconhecendo o concílio em troca da suspensão de sua excomunhão.

A esposa de Justiniano chamada Teodora, teve muita influência nos assuntos do marido e até no que se referiu à teologia. Foi ela quem acomodou os monges egípcios e os clérigos siríacos nos vários palácios da capital e sobretudo no palácio Hormisdas, que se tornara o centro da propaganda monofisista.

Por ter sido uma prostituta, suas ex-colegas se sentiam orgulhosas e decantavam tal honra. Mas esse fato a revoltava e se constituía numa desonra, fazendo com que mandasse matar todas as quinhentas prostitutas de Constantinopla.

Os cristãos da época passaram a chamá-la de assassina e a dizer que ela deveria ser assassinada, quinhentas vezes, em vidas futuras. Este seria seu carma por ter mandado matar suas quinhentas ex-colegas prostitutas.
A partir daí, Teodora passou a odiar a doutrina da Reencarnação e como mandava e desmandava em meio-mundo através de seu marido, resolveu partir para a perseguição sem tréguas contra essa doutrina e contra maior defensor que era Orígenes.

O concílio tratou de duas questões básicas: o Monofisismo e o Origenismo. O Origenismo defendia a apocatástase do universo (revolução de um astro) e a Reencarnação. O concílio condenou o Origenismo em termos claros e severos.

Para começo de conversa, eu adoraria saber quais foram estes historiadores comentados por Kersten, em quais de suas obras está essa tese de reencarnação na igreja primitiva e em quais capítulos. O único historiador citado, Procópio, dá uma versão “ligeiramente” diferente dos fatos:

(…)Havia uma multidão de mulheres em Bizâncio que realizava em bordéis uma atividade de libertinagem, não por escolha própria, mas sob a força da luxúria. Visto que isto era mantido por cafetões, e as mulheres de tais casas eram obrigadas a toda e qualquer hora a praticar obscenidade e copular de imediato com desconhecidos à medida que apareciam, elas se submetiam aos seus abraços. Já que houvera um numeroso corpo de alcoviteiros na cidade desde os tempos antigos, conduzindo seu tráfico em licenciosidade nos bordéis e vendendo a juventude alheia no mercado público, reduzindo pessoas virtuosas à escravidão. Mas o imperador Justiniano e a Imperatriz Teodora, que sempre compartilhavam uma comum piedade em tudo que faziam, arquitetaram o seguinte plano. Limparam o estado de poluição dos bordéis, banindo o próprio nome dos cafetões e libertaram de uma licenciosidade adequada apenas a escravas as mulheres que estavam lutando com imensa pobreza, provendo-as com sustendo independente e liberando virtude. Isso ele conseguiram da seguinte forma. Próximo à margem do estreito que está à direita dos que navegam em direção ao mar chamado Euxino, eles transformaram o que fora anteriormente um palácio em um imponente mosteiro projetado para servir de refúgio a mulheres que se arrependessem de suas vidas anteriores, de forma que lá, através da ocupação que suas mentes teriam com Deus e com a religião, poderiam ser capazes de limpar os pecados de suas vidas no prostíbulo. Portanto, denominaram o domicílio de tais mulheres de ‘Arrependimento’, em adequação com seu propósito. E estes soberanos dotaram este convento com ampla soma em dinheiro e adicionaram várias construções, a maioria notável por sua beleza e suntuosidade, para servirem de consolo às mulheres, a fim de que nunca se sintam compelidas a se afastar da prática da virtude de uma forma ou de outra.(..)

Procópio, Das Construções (De Aedificiis), livro I, cap. IX.

E, agora, uma variação do mesmo tema:

Teodora também devotou considerável atenção ao castigo de mulheres flagradas em pecado carnal. Ela apanhou quinhentas prostitutas no Fórum, que lá auferiam uma vida miserável se vendendo por três óboles, e as enviou para a margem oposta [do Bósforo], onde foram trancadas no mosteiro chamado Arrependimento, para forçá-las a reformar seu estilo de vida. Algumas delas, porém, atiravam-se à noite dos parapeitos e assim se livravam de uma salvação indesejada.

Procópio, A História Secreta, (Anekdota), cap XVII, “Como Teodora salvou quinhentas prostitutas de uma vida de pecado.”

Os dois relatos de Procópio dão um tratamento radicalmente distinto ao casal imperial. Das Construções é uma propaganda estatal, cheia de elogios às realizações urbanísticas e arquitetônicas do governo de Justiniano. A História Secreta, por sua vez, macula a imagem deles o tempo todo, chegando ao ponto de considerar Justiniano, literalmente, um demônio encarnado (cap. XII). Comparando esses dois extratos, consta-se que Procópio muda o tom de um ato piedoso para uma deportação das prostitutas para fora da capital. Ao que parece, o mosteiro ex-palácio fora convertido numa “gaiola de ouro” para uma espécie de noviciado forçado e perpétuo. Algumas (note bem, algumas) preferiam a liberdade com insegurança àquela vida de beatas e morriam tentando escapar (ou se suicidavam, simplesmente). Nada diz que o mosteiro “Arrependimento” era uma usina de morte como o Auschwitz nazista, onde elas iriam esmagadoramente parar morrer. A não ser morrer de velhas.

Um importante historiador do iluminismo inglês – que, ao contrário dos historiógrafos espiritualistas acima, procurava sempre ler os originais – fez interessante fusão dessas duas passagens de Procópio, fornecendo um panorama intermediário do que pode ter ocorrido:

O nome de Teodora figura com igual distinção em todas as iniciativas piedosas e caritativas de Justiniano; as instituições mais benevolentes do seu reinado podem ser atribuídas à simpatia da imperatriz por suas irmãs menos afortunadas que haviam sido seduzidas ou compelidas a dedicar-se ao ramo da prostituição. Um palácio no lado asiático do Bósforo foi convertido num espaçoso e imponente mosteiro, e um generoso sustento, garantido a quinhentas mulheres recolhidas das ruas e bordéis de Constantinopla. Nesse retiro sacro e seguro, elas se devotavam a um perpétuo confinamento, e o desespero de algumas, que se precipitaram ao mar, foi calado pela gratidão das penitentes libertadas do pecado e da miséria por sua generosa benfeitora.

Edward Gibbon, Declínio e queda do Império Romano, Cap. XV, Tradução de José Paulo Paes, Companhia das Letras.

Diga-se de passagem que Teodora não era flor que se cheirasse, sendo que tanto Procópio e Gibbon concordam que ela cometeu inúmeras crueldades. Procópio, porém, exagera demais nos ataques à imperatriz, a ponto descrever o voraz apetite sexual da imperatriz, quando solteira, de maneira pouco verossímil (cap. IX). De qualquer forma, nada indica que ela tenha cometido o crime que seria o pivô da condenação de Orígenes. Justiniano não era tão fantoche assim como foi alegado. Ele e Teodora tinham visões políticas diferentes em alguns pontos, sendo que ela advogava uma tolerância religiosa maior do que de seu fanático e intransigente marido, afinal era monofisista.

Outro cronista bizantino, João Malala, deu um curioso relato de uma tentativa de Teodora de erradicar a prostituição:

Naquela época, a piedosa Teodora acrescentou o seguinte a suas outras boas ações. Certos conhecidos cafetões percorriam cada distrito em busca que homens pobres que tivessem filhas e dando-lhes, dizia-se, sua palavra e alguns nomismata, levavam as garotas como se fosse um contrato; transformavam-nas em prostitutas públicas, vestindo-as como sua desventurada sorte exigia e recebendo delas, e miserável preço de seus corpos, forçavam-nas a ingressar na prostituição. Ela ordenou que todos os cafetões deveriam ser presos com urgência. Quando foram apresentados junto com as garotas, ordenou que cada um deles declarasse sob juramento o quanto haviam pagado aos pais das garotas. Disseram que deram a cada um cinco nomismata. Quando todos deram a informação sob juramento, a piedosa imperatriz devolveu o dinheiro e libertou as garotas do jugo de sua desgraçada escravidão, ordenando que a partir daí não houvesse cafetões. Presenteou as garotas com um conjunto de roupas e dispensou-as com um nomismata para cada.

João Malala; Crônicas, Livro XVIII, seção 24

Malala data seu relato em 532-3 d.C. e a partir de 534 começou a ser publicado um conjunto de leis conhecido como Novellae, cujo artigo primeiro do capítulo XIV traz uma condenação de morte aos que perpetrassem o tráfico humano e a cafetinagem, mas é compassivo com as prostitutas. É provável que a indenização relatada por Malala tenha fracassado, pois o dinheiro concedido à cada garota era pequeno demais para recomeçar a vida e dotação mais farta dos agenciadores deve ter servido para realimentar o tráfico humano (1). Uma hipótese aventada é que a construção de “Arrependimento” tenha sido parte dessa nova política social de acabar com a prostituição à força.

Notas:

(1) Cf. Evans, J. A; The Empress Theodora – Partner of Justinian, University of Texas Press, 2002, cap. III, p. 30-32.