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A Profissão – por Isaac Asimov

6 de agosto de 2018 2 comentários

Capa de Astounding Science Fiction, novembro de 1957

este conto integra o livro Nove Amanhãs

traduzido e adaptado por Sérgio Coelho*

Terra, 30 de abril de 6551. George Platen mal se continha de ansiedade e ressentimento. No dia seguinte, como todos os anos, 1.500 mundos habitados iriam participar das Olimpíadas, nas quais “técnicos registrados” se confrontariam em uma prova de habilidades, sendo que os melhores em cada profissão iriam ser convocados para trabalhar nos mundos superiores, como Nóvia. Mas George não poderia participar.

Desde criança, George demonstrara algumas esquisitices. Queria ser programador de computadores, porque achava que sempre seriam necessários, independentemente das profissões da moda. Seu vizinho, principal amigo e rival, Trevelyan, queria ser metalúrgico como seu pai e avô haviam sido antes dele. Só que, havia mais de 1.500 anos, as pessoas não escolhiam mais aquilo que gostariam de ser. O sistema de ensino havia se desenvolvido tanto que se tornara instantâneo.

Todo mês de novembro, os jovens que completavam 18 anos passavam pelo Dia da Instrução, quando tinham seus cérebros vasculhados por grandes máquinas capazes de reconhecer para que tipo de profissão eles eram mais aptos, e programá-los para ela através de fitas pré-gravadas. De um dia para o outro, eles se tornavam “técnicos registrados”, sabendo tudo o que era preciso para ganhar a vida, sem poder decidir sobre isso – da mesma forma que, dez anos antes, haviam passado pelo “Dia da Leitura”, quando aprendiam a ler, também instantaneamente.

As Olimpíadas existiam, então, para que se classificassem aqueles que iriam trabalhar em mundos mais evoluídos. Desde criança George se preparava para ir para o melhor deles, Nóvia, chegando até – coisa esquisita – a estudar computação por conta própria, em antigos livros que ninguém mais usava, querendo aumentar as sua chances. No Dia da Leitura, porém, já havia surgido um primeiro sinal: os técnicos demoraram um pouco mais para fazê-lo ler, parecendo intrigados com seu caso.

Mas no Dia da Instrução, a desgraça caiu sobre ele. Depois de uma disputa acirrada na fila de espera com seu rival Trevelyan, para saber quem iria ter uma profissão mais nobre, George entrou na máquina, ansioso, e recebeu um resultado ainda pior do que poderia imaginar. Simplesmente seu cérebro não podia ser lido pela máquina: não era apto a absorver nenhum conhecimento em especial. George era um desadaptado para o mundo perfeito do século 60.

George então é encaminhado em segredo para uma instituição especial, que lhe dizem ser uma casa para débeis mentais, onde ele tem que aprender lentamente, através de livros. Dizem também que ele é “um protegido do planeta” mas nada o consola. Pensa que “não passaria nunca disso. Seria uma adolescente por toda a vida. Um pré-instruído eterno, e para ele teriam que ser escritos livros especiais”.

George Platen, como 18 anos, tem que ficar morando em um quarto junto com Omani, que tem 30, o mesmo problema que ele, mas parecendo não se importar.

Quando chega a época das Olimpíadas, George se revolta. Não consegue esquecer que, no Dia da Instrução, caíra na besteira de ter se vangloriado diante do técnico de que havia tentado aprender por conta própria. Acha que tudo é uma vingança dos burocratas por ele ter tentado burlar as regras, e quer provar para o mundo que não é débil mental. Por isso, toma a iniciativa de sair da instituição, depois de um ano de reclusão, e ir até um centro olímpico, encontrar alguém importante que o escute.

Para a sua surpresa, ninguém o impede de sair, e também não tem nenhuma dificuldade em tomar um avião. Por coincidência, chega ao mesmo centro no qual seu antigo colega Trevelyan – agora um metalúrgico registrado, como imaginou que seria – compete para poder ir trabalhar em Nóvia.

No estádio imenso, cheio de uma torcida histérica, George está desamparado. Lembra de repente que, quando criança, fizera uma pergunta que ninguém soube responder: por que chamam isso de Olimpíada? De onde veio esse nome? Qual a razão de tudo isso? O seu pai simplesmente dissera: “Não faça perguntas bobas. Quando for instruído saberá tudo o que for preciso saber”, e ninguém poderia imaginar a possibilidade de ele nunca vir a ser instruído.

Cada competido tem que analisar uma barra de liga não-ferrosa e descobrir sua composição exata, usando um “microespectógrafo Beeman”. Trevelyan não consegue ficar entre os três primeiros, e tem de desistir de Nóvia. Quando encontra George, no final da competição, fica um pouco surpreso, mas não desconfia de que seu amigo agora é um “fora-da-lei”, porque está muito preocupado em reclamar da injustiça que sofreu.

Como Trevelyan tivesse vindo de uma cidade pequena, suas fitas de instrução o haviam habilitado para o uso de máquinas Hensler, menos sofisticadas que as Beeman de última geração, que eram usadas em Nóvia. Ele sabia disso, mas mesmo assim insistiu em tentar concorrer para Nóvia. Ingenuamente, George pergunta: “Se você sabia com antecedência que seriam usadas Beemans, não poderia ter estudado sobre elas em livros?”. Trevelyan acha a proposta tão estranha, que deduz que seu antigo rival está querendo gozá-lo. Puxa uma briga, como nos velhos tempos, e o policial que vem apartar a luta está pronto descobrir sobre George, quando … surge um senhor grisalho e mostra uma carteira ao policial, que se afasta rapidamente. Esse senhor é um sociólogo registrado, Ingenescu, que estivera observando George havia algum tempo. Convida George para jantar em seu hotel, e explica-lhe por quê, por ser desadaptado, era tão importante: “Sociólogos trabalham com sociedades e sociedades são compostas de pessoas. Mas pessoas não são máquinas. Os profissionais das ciências físicas trabalham com máquinas. Há apenas uma quantidade limitada de coisas a saber a respeito de uma máquina, e os profissionais sabem tudo a seu respeito. Além do mais, todas as máquinas de determinada espécie são extremamente parecidas, de modo que não há nada que lhes interesse especialmente em determinada máquina. Mas as pessoas … bem, tratam-se de estruturas tão complexas e diferentes umas das outras, que um sociólogo nunca é capaz de saber tudo ou mesmo uma boa parte do que há para saber. Para compreender sua especialidade ele deve estar sempre pronto a estudar as pessoas, especialmente os espécimes incomuns”.

Sentindo-se valorizado pela primeira vez, George pede a Ingenescu para falar com uma noviano por “visofone”, privilégio de poucos terráqueos, para poder provar que ele não é um inútil. O sociólogo aceita.

O noviano é uma figura totalmente desprezível, pretensioso e meio bêbado, que fica ridicularizando Ingenescu por a Terra ser um “supermercado mental”, que vive trocando de modelos para obrigar Nóvia a vir fazer compras todos os anos. Ele mesmo, naquele dia, havia contratado três novos metalúrgicos que só diferiam dos modelos antigos por uma pequeno detalhe: o fato de conhecerem os espectrógrafos Beeman.

Neste momento, para espanto do noviano, George pede para interferir na conversa, e lhe apresenta sua ideia de “instruir sem fitas”, para que os metalúrgicos pudessem pensar por conta própria, sem que fosse preciso substituí-los. A princípio divertido, o noviano vai se irritando com essa ideia de “pensadores originais”, e, alegando que isso não seria prático, desliga na cara de George.

George, que havia chegado muito perto da realização de seu sonho, se desespera. Ingenescu tenta consolá-lo, e de repente George percebe que o sociólogo o chama pelo seu nome, sem que ele tivesse dito – tudo era um grande complô, e ele vinha sendo observado desde que saiu da “casa para débeis mentais”. Desesperado, grita: “Eu não sou débil mental! O mundo inteiro é, mas eu não!”. Dois policiais aparecem e o anestesiam.

Quando George Platen acorda, está de novo ao lado de Omani, na Casa. De repente, tudo fica claro. Percebe que aquilo que estava querendo propor ao noviano, uma lugar que concentrasse homens e mulheres com pensamentos originais, já existia: a própria Casa. Omani confirma, e revela que o verdadeiro nome da Casa é Instituto para Estudos Superiores. “Por que não me disseram isso desde o início?”, pergunta George. Omani responde: “Podemos analisar uma mente e dizer que esta dará um bom arquiteto e aquela um bom entalhador. Não somos capazes, porém, de detectar a capacidade para pensamentos originais e ideias criativas…”.

“No Dia da Instrução, um em cada 100 mil apresenta a desadaptação que você apresentou, e são mandados para lugares como este aqui. Mas, mesmo depois dessa seleção, nove entre dez dos que vêm para cá não chegam a ser do tipo de material classificável como gênio criativo. Esses nove restantes recebem instrução por fita e acabam se tornando sociólogos registrados como Ingenescu, ou psicólogos, como eu. O décimo, ele mesmo tem que se revelar.”

“Nós trazemos todos para uma ‘casa para débeis mentais’, e aquele que não consegue aceitar isso é justamente o homem que procuramos. Pode ser um método cruel, mas funciona. Não adianta dizer a um homem: ‘Você é capaz de criar. Crie!’. É bem mais seguro esperar que o próprio homem diga: ‘Eu sou capaz de criar e vou fazê-lo, quer vocês queiram, quer não’. Há apenas 10 mil homens como você, George, que constituem a base para o avanço tecnológico de 1.500 mundos.”

George pensa na pergunta que nunca lhe haviam respondido: “por que” (e não “como são”) “as Olimpíadas?”. E descobre a grande responsabilidade que lhe cabe: inventar as novas fitas de instrução.

(*)[publicado em Escuta, Charlie Brown!, Moderna, 2a. ed., pp. 72-8]

* * *

E você, prezado leitor, qual a pergunta que fez e nunca lhe responderam em seu centro espírita (ou igreja, terreiro, sinagoga, mesquita, templo, etc.)?

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