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Abrindo a Boceta de Padora: Pastorino e a Falácia Etimológica (14/05/22)

15 de maio de 2022 1 comentário

Confessa: Pensou naquilo, hein?

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O Carro na Frente dos Bois (revisitado)

1 de maio de 2022 Deixe um comentário
Você está fazendo isso errado!

A palavra Palingenesia aparece duas vezes no Novo Testamento (Tito 3:4-5 e Mt 19:28), sendo comumente traduzida por comentaristas espíritas como “reencarnação”. Carlos Torres Pastorino pode até não ter sido o autor dessa tradução “à moda da casa”, mas, sem dúvida, foi um de seus divulgadores pelas terras tupiniquins. Na série Sabedoria do Evangelho, ela aparece pelo menos duas vezes:

Paulo interpreta assim esse ensinamento de Jesus: “Mas quando apareceu a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com os homens, não por obras de justiça que tivéssemos feito, mas segundo sua misericórdia nos salvou pelo lavatório da reencarnação , e pelo renascimento de um espírito santo” (Tit.3:4-5). As palavras utilizadas são bastante claras e insofismáveis: lavatório (lavar com água; λουτρον da reencarnação: παλιγγενεσια que é o termo técnico da reencarnação entre os gregos; pelo renascimento (anaxinóseos) isto È, um novo nascimento). Paulo, pois, diz que Deus nos salvou não porque o tivéssemos merecido, mas por Sua misericórdia, servindo-se da palingenésia (isto é, da reencarnação) a qual é um “lavatório” (de água) e um “renascimento” do espírito.

Volume II, p. 5

Temos que assinalar a expressão en têi paliggenesíai, “na reencarnação”, termo familiar aos pitagóricos e estoicos, para exprimir o que chamamos hoje, ainda, de reencarnação: o renascimento na matéria do espírito imortal; com ele também era designada outrora a “transformação do mundo”, nos passos evolutivos que o planeta vai conquistando através dos milênios. Flávio [Josefo] emprega a palavra para exprimir a restauração de Israel, sentido provavelmente corrente na época, entre os israelitas, o que fez que os discípulos pensassem que Jesus vinha operar essa restauração; e isso quiçá tenha provocado o pedido de Tiago e de João (Marc. 10:35) logo a seguir. Philon de Alexandria usa essa palavra para designar o renascimento do planeta após o dilúvio. E Paulo de Tarso (Tito, 3:5) com o sentido material de reencarnação e o sentido espiritual de nascimento na individualidade ou transição do psiquismo ao espírito, tendo como resultado o surgir do “homem novo”

(. . .)

Essa frase consolida a interpretação de “palingenesia” dada por Flávio Josefo: a restauração do reino de Israel, tornando a dividi-lo em doze tribos soberanas, cada uma das quais seria governada por um dos doze discípulos. Os Apocalipses (cfr. 4.º Esdras 7:75) falam na renovação messiânica do mundo, “quando o Todo-Poderoso vier renovar Sua criação”. Mas embora se acreditasse que o Messias julgaria o mundo (cfr. Mat. 25:31ss), neste trecho é dito que o julgamento seria feito pelos doze, a exemplo dos “juízes” de Israel (como os “sufetas” de Cartago). Já Paulo fala que “os santos julgarão o mundo” (l.ª Cor. 6:2).

Volume VI, p. 86

Na primeira versão, há apenas uma menção ao sentido de reencarnação que a palavra palingenesia pode assumir e uma atribuição a Paulo de Tarso desse uso. Poderíamos questionar isso duas forma: a primeira seria, em razão da apocalipcista natureza da mensagem de Paulo, não haveria tempo para uma salvação por um longo ciclo de reencarnações; e, em segundo lugar, o sofisticado “plano de salvação” descrito pormenorizadamente em sua Carta aos Romanos foca no sacrifício de Jesus, não deixando espaço para ela.

Já no volume sexto de Sabedoria…, somos apresentados a mais uma acepção de palingenesia: “restauração”, “renovação”, porém aplicada a países e ou ao Cosmo. Ficam, então as perguntas: “por que não para pessoas, também?”, “haveria outros sentidos de palingenesia omitidos por Pastorino a seus leitores?”. Como já disse alhures, quem define o sentido de uma palavra não é um dicionário, e muito menos seu tradutor, mas quem a usa(va). Assim, deixo abaixo linkado o artigo original, em que, embora não cite Pastorino explicitamente, discorro sobre o emprego desse palavra grega por um de seus herdeiros, lançando mão do que a literatura clássica grega tem a nos oferecer. Com vocês:

Palingenesia:

Colocando o carro na frente dos bois

(Original)