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Abrindo a Boceta de Pandora: Pastorino e a Falácia Etimológica (25/09/22)

15 de maio de 2022 1 comentário

Confessa: Pensou naquilo, hein?

Índice

Em Busca das Origens


“Concluo que não se devem abolir as loterias. Nenhum premiado as acusou ainda de imorais, como ninguém tachou de má a boceta de Pandora, por lhe ter ficado a esperança no fundo; em alguma parte há de ela ficar. “


Que diria o “Bruxo do Cosme Velho”, se soubesse que esse trecho do sétimo capítulo de Dom Casmurro soaria tão estranho cem anos depois do lançamento? Se meu leitor de hoje consegue depreender o que ocorreu com a antes inocente palavra “boceta”, não terá dificuldade em entender a minha crítica a seguinte passagem de Sabedoria do Evangelho”, por Carlos Torres Pastorino. E sem maldade alguma.

INSTRUÇÕES AOS EMISSÁRIOS – PARTE I

(Ano 30 A. D. ou 783 A. U . C. – Janeiro – Fevereiro)

Mat. 10:5-15 Marc. 6:7 -11 Luc. 9:1-5
5. A estes doze (veja vol. 2) enviou Jesus, dando-lhes estas instruções: ‘Não ireis pelas estradas dos gentios, nem entrareis nas cidades dos samaritanos,

6. mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel.

7. Pondo-vos a caminho, pregai dizendo “está próximo o reino dos céus”.

8. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expeli os espíritos desencarnados; de graça recebestes, de graça dai 9. Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de bronze em vossas cinturas;

10. nem de alforge para a jornada, nem de duas túnicas, nem de sandálias, nem de bordão, pois é digno o operário de seu sustento.

11. Em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, indagai quem nela é digno; e aí ficai até vos retirardes.

12. Ao entrardes na casa, saudai-a

13. e se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; mas se o não for, torne para vós vossa paz.

14. E se alguém vos não receber nem ouvir vossas palavras ao sairdes daquela casa ou daquela cidade, sacudi o pó de vossos pés.

15. Em verdade vos digo, que no dia do carma haverá menor rigor para a terra de Sodoma e de Gomorta, do que para aquela cidade”
7. E chamou a si os doze e começou a enviá-los dois a dois e deu-lhes autoridade sobre os espíritos atrasados,

8. e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, exceto um só bordão; nem alforge, nem pão, nem dinheiro na cintura;

9. mas que fossem calçados de sandálias e que não vestissem duas túnicas.

10. Disse mais a eles: “Em qualquer casa onde entrardes, permanecei ali até que vos retireis do lugar.

11. E se algum (lugar) não vos receber, nem vos ouvir saindo dali sacudi o pó da sola de vossos pés em testemunho contra eles”.

1. Convocando a si os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os espíritos desencarnados e para curarem doenças,

2. e enviou-os a pregar o reino de Deus e a curar.

3. E disse-lhes: “Nada leveis para o caminho, nem bordão, nem alforge, nem pão, nem prata, nem tenhais duas túnicas.

4. Em qualquer casa em que entrardes, nela ficai e dali partireis.

5. E qualquer (local) que vos não receber, ao sair da cidade, sacudi o pó de vossos pés, em testemunho contra eles.
(…)

A memória do cataclismo de Sodoma e Gomorra permanecia viva, e era julgado como o mais terrível castigo da impiedade. Pois menos rigor haveria para essas cidades, que para aquela que não recebesse os enviados do Mestre.

No entanto, a permanência em cada localidade devia ser curta. A tradição da época, registrada da Didachê (11:1) prescreve um dia ou, no máximo, dois, acrescentando que “aquele que permanecer três dias é falso profeta”.

O “dia do carma” (krisis) não se refere ao “juízo final”, mas à colheita do resultado das ações feita por meio da frequência vibratória de cada um: de acordo com as ondas básicas (tônica) de cada ser, será ele atraído para este ou para aquele local, tal como as ondas hertzianas que penetram no aparelho de rádio-receptor de acordo com a sintonia em que este se encontra.

Se as ações forem na linha do bem (na direção do Espírito) a colheita será alegria e paz; se forem no sentido do mal (matéria ou satanás) o resultado colhido (carma) será dores e sofrimentos. Essa triagem, essa “separação” (Krísis) é exatamente o carma automático, pois a Lei já estabeleceu tudo de antemão, e não é necessário que ninguém faça julgamentos. A humanidade de hoje não precisa mais dessas figurações infantis: já está madura para receber a verdade sem distorções. Então, de acordo com o carma será o estado de espírito dos seres, vibratoriamente separados segundo suas tônicas.

JULGAMENTO

Há um verbo grego (krínó) que é sistematicamente traduzido nas edições correntes por JULGAR; e seu substantivo (krísis) é sempre transladado por JULGAMENTO ou JUÍZO.

Estudemos esses termos, que são de capital importância na compreensão do ensino de Jesus.

O verbo KRÍNÔ apresenta os sentidos básicos de: separar, fazer triagem, escolher, decidir, resolver e, por analogia e extensão, julgar.

O substantivo KRÍSIS exprime fundamentalmente: ação, separação, triagero, escolha, o resultado da ação de escolher, decisão, donde, por analogia e extensão, julgamento, ou juízo.

Analisemos, agora o sentido etimológico, que também importa. Foram consultados: “Émile Boisacq, Dictionnaire Étimologique de Ia Langue Grecque, 4.ª edição, Heidelberg, 1950″; Liddell & Scott, Greek-English Dictionary“, Oxford, 1897”; e “Sir Monier Monier-Williams, A Sanskrit-English Dictionary , Oxford, 1960”, pág. 258 e 300.

KRÍNÔ e KRÍSIS (assim como o latim CERNO) vêm da raiz sânscrita KRI, que significa: agir, fazer, causar, elaborar, construir, escolher, etc.

Dessa mesma raiz KRI deriva o substantivo sânscrito KARMA, que exprime: ação, realização, efeito, resultado da ação escolhida, escolha, e cujo sentido é perfeitamente compreendido pelos estudiosos do espiritualismo, ou seja: CARMA é a consequência (boa ou má) de uma ação (boa ou má) que a criatura tenha realizado por sua livre escolha.

Verificamos, pois, que traduzir sistematicamente KRÍNÔ e KRÍSIS por “julgar” e “julgamento” (sentidos analógicos e extensivos) é, em muitos casos, forçar o sentido e até desvirtuá-lo totalmente.

EXEMPLOS – “O Pai a ninguém julga, mas deu todo julgamento ao Filho” (João, 5:22) só formaria sentido se aceitássemos um deus pessoal, sentado num trono (como Salomão) a proferir sentenças, embora de grande sabedoria. Aliás, muita gente imagina exatamente uma cena assim … Sabemos, porém, que isso jamais pode dar-se com o Ser Absoluto e Impessoal que é O Pensamento Criador e Sustentador dos universos, transcendente a tudo e a todos, mas imanente em todos e em tudo, pois que constitui a essência última de todos os seres e de todas as coisas.

Apliquemos a tradução lógica (não a “analógica”) e vejamos: “O Pai a ninguém escolhe, mas deixa toda escolha ao filho”. Aí o sentido procede: justamente por ser imanente em todos, o Pai Impessoal a ninguém escolhe, porque a todos, “bons e maus, justos e injustos” (cfr. Mat. 5:45), santos e criminosos, dá as mesmas oportunidades, a mesma quantidade de amor e, liberdade absoluta do livre-arbítrio. Mas “toda escolha é dada ao filho”, isto é, ao ser humano, “filho de Deus” que, com seu livre-arbítrio, escolhe o caminho que quer, arcando depois com as consequências, na “época do carma” (no “dia do juízo”, que pretende traduzir exatamente a palavra krisis). No caso de Jesus, Ele podia afirmar, em continuação: “e minha escolha é justa, porque não busco a minha vontade, mas a vontade de quem me enviou” (João, 5:30), isto é, o Pai que é representado em nós pelo Cristo Interno, pelo Logos em nós .

Se nesse trecho traduzíramos KRÍNÔ por “julgar”, haveria frontal contradição com os seguintes textos:

  1. João, 8:15-16: “vós julgais segundo a carne (as aparências); eu a ninguém julgo. Mas se eu julgo alguém, é verdadeiro meu julgamento, por que não estou só, mas eu, e o Pai que me enviou”. Afinal, é o Pai que julga? ou deu o julgamento ao filho? E como o filho não julga ninguém? Não seria possível compreender-se. Substitua-se, porém, nesse passo, a tradução analógica pela lógica, e o sentido se torna claro, óbvio, compreensível: “vós escolheis segundo a carne (as aparências); eu não escolho ninguém; mas, se escolho alguém, é verdadeira minha escolha, porque não estou só, mas eu, e o Pai que me enviou”.

  2. João, 12: 47: “Se alguém me ouve as palavras e não confia, eu não o julgo, pois não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo”. Afinal o julgamento é do filho ou do Pai? Se “todo o julgamento foi dado ao filho”, como diz o filho que “não veio para julgar”? Então, compreendemos que realmente, há uma diferença entre os dois textos, e que, neste último passo, krínô tem, de fato, o sentido analógico de “julgar”. Aqui é mesmo JULGAR como naquele outro passo de Lucas (5:37): “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados”.

No trecho que aqui comentamos, compreendemos perfeitamente que não pode haver um “dia do juízo”, interpretação que deu margem à invenção de um “juízo particular” e de um “juízo universal”, quando “o mundo terminaria”. Esses absurdos anticientíficos e antilógicos não mais podem ser aceitos hoje. Não haverá “fim do mundo”, pois no máximo poderá ocorrer um “fim de ciclo”, que coincide com o movimento pendular do eixo do planeta, cada 26.000 ou 28.000 anos. No entanto, há comprovadamente a época da “colheita de resultado de nossas ações” a cada término de existência terrena, ou seja, “o dia do carma”, assim como, a cada fim de ciclo, haverá uma triagem (separação) de acordo com as vibrações de cada um. Portanto, a melhor tradução do trecho, em termos atuais, para compreendermos o que Jesus ensinou, é exatamente “o dia do carma”, isto é, “o dia da colheita (krísis) dos resultados de nossas ações, boas ou más”.

Isto porque, a cada pessoa ou coletividade, “será dado segundo suas obras” (cfr. Mat. 16:27; Rom. 2:6; 2 Cor. 5:10 e 11:15; 1 Pe. 1:17: Apoc. 2:23 e 22:12; e outros semelhantes).

Pastorino, Sabedoria do Evangelho, Vol. III, 1964.

* * *

Deixe-me ver se captei: se, em sua origem, a raiz de uma palavra for afim de um sentido reencarnacionista, então ela deve ser traduzida com esse viés, pouco importando séculos de evolução linguística.

Ok, só que não.

Quando o Passado NÃO condena: a Falácia Genética e uma de suas Filhas

Primeiros colonizadores britânicos da Austrália rumam esperançosos à nova pátria.

“O Brasil fracassou porque foi colonizado pelos portugueses e não pelos ingleses.”

“Somos uma mistura de índios indolentes com brancos degredados e negros escravizados. Não tem como dar certo.”

Aposto que algum dos leitores já ouviu alguma das frases acima (ou algo do mesmo quilate) e, o pior, inconscientemente aquiesceu com a cabeça. Mas será que há mesmo uma verdade autoevidente nesses dois lugares-comuns? Será teria sido melhor que o governo de Maurício de Nassau perdurasse ou a França Antártica de Villegaignon tivesse prosperado? Ucronia pode ser um exercício interessante, até divertido, diria eu; mas há boas chances de o resultado dessa linha alternativa da História não ser animador: poderíamos ter sido um grande Suriname ao norte e um mega Senegal ao Sul. O fato de termos nos tornado uma colônia de exploração tem mais a ver com a geografia do que a metrópole em questão. Vide a diferenças entre as colônias do Norte e do Sul dos EUA, que levariam esse país à Guerra Civil menos de um século após a independência delas.

A pergunta que fica, então é até que ponto nosso passado explica o presente? Certo que uma nação recém-independente ainda está sobre grande impacto da administração , da ex-metrópole, mas o quanto isso permanece válido à medida que o tempo passa? A Índia, para começar, já está há 75 anos livre do jugo britânico e, embora tenha feito grandes progressos no século XXI, continua longe do padrão de desenvolvimento social que os europeus ocidentais. Questões como superpopulação, corrupção e nepotismo ainda são grandes entraves a serem vencidos por lá. Vamos para o continente sul-americano: Brasil e Argentina, por algum tempo, se saíram melhor que as antigas metrópoles, antes suas administrações desandarem. Não esqueçamos da Coreia do Sul, que já foi, junto com sua irmã do norte, colônia japonesa. Entretanto, Seul já superou Tóquio em muitos aspectos, ao passo que Pyongyang patina num comunismo anacrônico. Enfim, tal como um indivíduo de meia-idade que ainda culpa seus pais por não ter tomado rumo na vida, uma hora chegasse ao ponto em que a culpa dos antigos opressores começa a ser substituída pelos erros cometidos pelas escolhas dos habitantes locais. O Brasil não dá certo por ter sido uma terra de portugueses degradados e africanos escravizados? Não vou entrar no mérito, mas Austrália começou como uma colônia penal, literalmente. O que cada extremo do globo fez com os seus libertos é que foi diferente…

(Em Construção)

O Carro na Frente dos Bois (revisitado)

1 de maio de 2022 Deixe um comentário
Você está fazendo isso errado!

A palavra Palingenesia aparece duas vezes no Novo Testamento (Tito 3:4-5 e Mt 19:28), sendo comumente traduzida por comentaristas espíritas como “reencarnação”. Carlos Torres Pastorino pode até não ter sido o autor dessa tradução “à moda da casa”, mas, sem dúvida, foi um de seus divulgadores pelas terras tupiniquins. Na série Sabedoria do Evangelho, ela aparece pelo menos duas vezes:

Paulo interpreta assim esse ensinamento de Jesus: “Mas quando apareceu a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com os homens, não por obras de justiça que tivéssemos feito, mas segundo sua misericórdia nos salvou pelo lavatório da reencarnação , e pelo renascimento de um espírito santo” (Tit.3:4-5). As palavras utilizadas são bastante claras e insofismáveis: lavatório (lavar com água; λουτρον da reencarnação: παλιγγενεσια que é o termo técnico da reencarnação entre os gregos; pelo renascimento (anaxinóseos) isto È, um novo nascimento). Paulo, pois, diz que Deus nos salvou não porque o tivéssemos merecido, mas por Sua misericórdia, servindo-se da palingenésia (isto é, da reencarnação) a qual é um “lavatório” (de água) e um “renascimento” do espírito.

Volume II, p. 5

Temos que assinalar a expressão en têi paliggenesíai, “na reencarnação”, termo familiar aos pitagóricos e estoicos, para exprimir o que chamamos hoje, ainda, de reencarnação: o renascimento na matéria do espírito imortal; com ele também era designada outrora a “transformação do mundo”, nos passos evolutivos que o planeta vai conquistando através dos milênios. Flávio [Josefo] emprega a palavra para exprimir a restauração de Israel, sentido provavelmente corrente na época, entre os israelitas, o que fez que os discípulos pensassem que Jesus vinha operar essa restauração; e isso quiçá tenha provocado o pedido de Tiago e de João (Marc. 10:35) logo a seguir. Philon de Alexandria usa essa palavra para designar o renascimento do planeta após o dilúvio. E Paulo de Tarso (Tito, 3:5) com o sentido material de reencarnação e o sentido espiritual de nascimento na individualidade ou transição do psiquismo ao espírito, tendo como resultado o surgir do “homem novo”

(. . .)

Essa frase consolida a interpretação de “palingenesia” dada por Flávio Josefo: a restauração do reino de Israel, tornando a dividi-lo em doze tribos soberanas, cada uma das quais seria governada por um dos doze discípulos. Os Apocalipses (cfr. 4.º Esdras 7:75) falam na renovação messiânica do mundo, “quando o Todo-Poderoso vier renovar Sua criação”. Mas embora se acreditasse que o Messias julgaria o mundo (cfr. Mat. 25:31ss), neste trecho é dito que o julgamento seria feito pelos doze, a exemplo dos “juízes” de Israel (como os “sufetas” de Cartago). Já Paulo fala que “os santos julgarão o mundo” (l.ª Cor. 6:2).

Volume VI, p. 86

Na primeira versão, há apenas uma menção ao sentido de reencarnação que a palavra palingenesia pode assumir e uma atribuição a Paulo de Tarso desse uso. Poderíamos questionar isso duas forma: a primeira seria, em razão da apocalipcista natureza da mensagem de Paulo, não haveria tempo para uma salvação por um longo ciclo de reencarnações; e, em segundo lugar, o sofisticado “plano de salvação” descrito pormenorizadamente em sua Carta aos Romanos foca no sacrifício de Jesus, não deixando espaço para ela.

Já no volume sexto de Sabedoria…, somos apresentados a mais uma acepção de palingenesia: “restauração”, “renovação”, porém aplicada a países e ou ao Cosmo. Ficam, então as perguntas: “por que não para pessoas, também?”, “haveria outros sentidos de palingenesia omitidos por Pastorino a seus leitores?”. Como já disse alhures, quem define o sentido de uma palavra não é um dicionário, e muito menos seu tradutor, mas quem a usa(va). Assim, deixo abaixo linkado o artigo original, em que, embora não cite Pastorino explicitamente, discorro sobre o emprego desse palavra grega por um de seus herdeiros, lançando mão do que a literatura clássica grega tem a nos oferecer. Com vocês:

Palingenesia:

Colocando o carro na frente dos bois

(Original)