Abrindo a Boceta de Pandora: Pastorino e a Falácia Etimológica

Confessa: Pensou naquilo, hein?

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Em Busca das Origens


“Concluo que não se devem abolir as loterias. Nenhum premiado as acusou ainda de imorais, como ninguém tachou de má a boceta de Pandora, por lhe ter ficado a esperança no fundo; em alguma parte há de ela ficar. “


Que diria o “Bruxo do Cosme Velho”, se soubesse que esse trecho do sétimo capítulo de Dom Casmurro soaria tão estranho cem anos depois do lançamento? Se meu leitor de hoje consegue depreender o que ocorreu com a antes inocente palavra “boceta”, não terá dificuldade em entender a minha crítica a seguinte passagem de Sabedoria do Evangelho”, por Carlos Torres Pastorino. E sem maldade alguma.

INSTRUÇÕES AOS EMISSÁRIOS – PARTE I

(Ano 30 A. D. ou 783 A. U . C. – Janeiro – Fevereiro)

Mat. 10:5-15 Marc. 6:7 -11 Luc. 9:1-5
5. A estes doze (veja vol. 2) enviou Jesus, dando-lhes estas instruções: ‘Não ireis pelas estradas dos gentios, nem entrareis nas cidades dos samaritanos,

6. mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel.

7. Pondo-vos a caminho, pregai dizendo “está próximo o reino dos céus”.

8. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expeli os espíritos desencarnados; de graça recebestes, de graça dai 9. Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de bronze em vossas cinturas;

10. nem de alforge para a jornada, nem de duas túnicas, nem de sandálias, nem de bordão, pois é digno o operário de seu sustento.

11. Em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, indagai quem nela é digno; e aí ficai até vos retirardes.

12. Ao entrardes na casa, saudai-a

13. e se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; mas se o não for, torne para vós vossa paz.

14. E se alguém vos não receber nem ouvir vossas palavras ao sairdes daquela casa ou daquela cidade, sacudi o pó de vossos pés.

15. Em verdade vos digo, que no dia do carma haverá menor rigor para a terra de Sodoma e de Gomorta, do que para aquela cidade”
7. E chamou a si os doze e começou a enviá-los dois a dois e deu-lhes autoridade sobre os espíritos atrasados,

8. e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, exceto um só bordão; nem alforge, nem pão, nem dinheiro na cintura;

9. mas que fossem calçados de sandálias e que não vestissem duas túnicas.

10. Disse mais a eles: “Em qualquer casa onde entrardes, permanecei ali até que vos retireis do lugar.

11. E se algum (lugar) não vos receber, nem vos ouvir saindo dali sacudi o pó da sola de vossos pés em testemunho contra eles”.

1. Convocando a si os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os espíritos desencarnados e para curarem doenças,

2. e enviou-os a pregar o reino de Deus e a curar.

3. E disse-lhes: “Nada leveis para o caminho, nem bordão, nem alforge, nem pão, nem prata, nem tenhais duas túnicas.

4. Em qualquer casa em que entrardes, nela ficai e dali partireis.

5. E qualquer (local) que vos não receber, ao sair da cidade, sacudi o pó de vossos pés, em testemunho contra eles.
(…)

A memória do cataclismo de Sodoma e Gomorra permanecia viva, e era julgado como o mais terrível castigo da impiedade. Pois menos rigor haveria para essas cidades, que para aquela que não recebesse os enviados do Mestre.

No entanto, a permanência em cada localidade devia ser curta. A tradição da época, registrada da Didachê (11:1) prescreve um dia ou, no máximo, dois, acrescentando que “aquele que permanecer três dias é falso profeta”.

O “dia do carma” (krisis) não se refere ao “juízo final”, mas à colheita do resultado das ações feita por meio da frequência vibratória de cada um: de acordo com as ondas básicas (tônica) de cada ser, será ele atraído para este ou para aquele local, tal como as ondas hertzianas que penetram no aparelho de rádio-receptor de acordo com a sintonia em que este se encontra.

Se as ações forem na linha do bem (na direção do Espírito) a colheita será alegria e paz; se forem no sentido do mal (matéria ou satanás) o resultado colhido (carma) será dores e sofrimentos. Essa triagem, essa “separação” (Krísis) é exatamente o carma automático, pois a Lei já estabeleceu tudo de antemão, e não é necessário que ninguém faça julgamentos. A humanidade de hoje não precisa mais dessas figurações infantis: já está madura para receber a verdade sem distorções. Então, de acordo com o carma será o estado de espírito dos seres, vibratoriamente separados segundo suas tônicas.

JULGAMENTO

Há um verbo grego (krínó) que é sistematicamente traduzido nas edições correntes por JULGAR; e seu substantivo (krísis) é sempre transladado por JULGAMENTO ou JUÍZO.

Estudemos esses termos, que são de capital importância na compreensão do ensino de Jesus.

O verbo KRÍNÔ apresenta os sentidos básicos de: separar, fazer triagem, escolher, decidir, resolver e, por analogia e extensão, julgar.

O substantivo KRÍSIS exprime fundamentalmente: ação, separação, triagero, escolha, o resultado da ação de escolher, decisão, donde, por analogia e extensão, julgamento, ou juízo.

Analisemos, agora o sentido etimológico, que também importa. Foram consultados: “Émile Boisacq, Dictionnaire Étimologique de la Langue Grecque, 4.ª edição, Heidelberg, 1950″; Liddell & Scott, Greek-English Dictionary“, Oxford, 1897”; e “Sir Monier Monier-Williams, A Sanskrit-English Dictionary , Oxford, 1960”, pág. 258 e 300.

KRÍNÔ e KRÍSIS (assim como o latim CERNO) vêm da raiz sânscrita KRI, que significa: agir, fazer, causar, elaborar, construir, escolher, etc.

Dessa mesma raiz KRI deriva o substantivo sânscrito KARMA, que exprime: ação, realização, efeito, resultado da ação escolhida, escolha, e cujo sentido é perfeitamente compreendido pelos estudiosos do espiritualismo, ou seja: CARMA é a consequência (boa ou má) de uma ação (boa ou má) que a criatura tenha realizado por sua livre escolha.

Verificamos, pois, que traduzir sistematicamente KRÍNÔ e KRÍSIS por “julgar” e “julgamento” (sentidos analógicos e extensivos) é, em muitos casos, forçar o sentido e até desvirtuá-lo totalmente.

EXEMPLOS – “O Pai a ninguém julga, mas deu todo julgamento ao Filho” (João, 5:22) só formaria sentido se aceitássemos um deus pessoal, sentado num trono (como Salomão) a proferir sentenças, embora de grande sabedoria. Aliás, muita gente imagina exatamente uma cena assim … Sabemos, porém, que isso jamais pode dar-se com o Ser Absoluto e Impessoal que é O Pensamento Criador e Sustentador dos universos, transcendente a tudo e a todos, mas imanente em todos e em tudo, pois que constitui a essência última de todos os seres e de todas as coisas.

Apliquemos a tradução lógica (não a “analógica”) e vejamos: “O Pai a ninguém escolhe, mas deixa toda escolha ao filho”. Aí o sentido procede: justamente por ser imanente em todos, o Pai Impessoal a ninguém escolhe, porque a todos, “bons e maus, justos e injustos” (cfr. Mat. 5:45), santos e criminosos, dá as mesmas oportunidades, a mesma quantidade de amor e, liberdade absoluta do livre-arbítrio. Mas “toda escolha é dada ao filho”, isto é, ao ser humano, “filho de Deus” que, com seu livre-arbítrio, escolhe o caminho que quer, arcando depois com as consequências, na “época do carma” (no “dia do juízo”, que pretende traduzir exatamente a palavra krisis). No caso de Jesus, Ele podia afirmar, em continuação: “e minha escolha é justa, porque não busco a minha vontade, mas a vontade de quem me enviou” (João, 5:30), isto é, o Pai que é representado em nós pelo Cristo Interno, pelo Logos em nós .

Se nesse trecho traduzíramos KRÍNÔ por “julgar”, haveria frontal contradição com os seguintes textos:

  1. João, 8:15-16: “vós julgais segundo a carne (as aparências); eu a ninguém julgo. Mas se eu julgo alguém, é verdadeiro meu julgamento, por que não estou só, mas eu, e o Pai que me enviou”. Afinal, é o Pai que julga? ou deu o julgamento ao filho? E como o filho não julga ninguém? Não seria possível compreender-se. Substitua-se, porém, nesse passo, a tradução analógica pela lógica, e o sentido se torna claro, óbvio, compreensível: “vós escolheis segundo a carne (as aparências); eu não escolho ninguém; mas, se escolho alguém, é verdadeira minha escolha, porque não estou só, mas eu, e o Pai que me enviou”.

  2. João, 12: 47: “Se alguém me ouve as palavras e não confia, eu não o julgo, pois não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo”. Afinal o julgamento é do filho ou do Pai? Se “todo o julgamento foi dado ao filho”, como diz o filho que “não veio para julgar”? Então, compreendemos que realmente, há uma diferença entre os dois textos, e que, neste último passo, krínô tem, de fato, o sentido analógico de “julgar”. Aqui é mesmo JULGAR como naquele outro passo de Lucas (5:37): “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados”.

No trecho que aqui comentamos, compreendemos perfeitamente que não pode haver um “dia do juízo”, interpretação que deu margem à invenção de um “juízo particular” e de um “juízo universal”, quando “o mundo terminaria”. Esses absurdos anticientíficos e antilógicos não mais podem ser aceitos hoje. Não haverá “fim do mundo”, pois no máximo poderá ocorrer um “fim de ciclo”, que coincide com o movimento pendular do eixo do planeta, cada 26.000 ou 28.000 anos. No entanto, há comprovadamente a época da “colheita de resultado de nossas ações” a cada término de existência terrena, ou seja, “o dia do carma”, assim como, a cada fim de ciclo, haverá uma triagem (separação) de acordo com as vibrações de cada um. Portanto, a melhor tradução do trecho, em termos atuais, para compreendermos o que Jesus ensinou, é exatamente “o dia do carma”, isto é, “o dia da colheita (krísis) dos resultados de nossas ações, boas ou más”.

Isto porque, a cada pessoa ou coletividade, “será dado segundo suas obras” (cfr. Mat. 16:27; Rom. 2:6; 2 Cor. 5:10 e 11:15; 1 Pe. 1:17: Apoc. 2:23 e 22:12; e outros semelhantes).

Pastorino, Sabedoria do Evangelho, Vol. III, 1964.

* * *

Deixe-me ver se captei: se, em sua origem, a raiz de uma palavra for afim de um sentido reencarnacionista, então ela deve ser traduzida com esse viés, pouco importando séculos de evolução linguística.

Ok, só que não.

Quando o Passado NÃO condena: a Falácia Genética

Primeiros colonizadores britânicos da Austrália rumam esperançosos à nova pátria.

“O Brasil fracassou porque foi colonizado pelos portugueses e não pelos ingleses.”

“Somos uma mistura de índios indolentes com brancos degredados e negros escravizados. Não tem como dar certo.”

Aposto que algum dos leitores já ouviu alguma das frases acima (ou algo do mesmo quilate) e, o pior, inconscientemente aquiesceu com a cabeça. Mas será que há mesmo uma verdade autoevidente nesses dois lugares-comuns? Teria sido melhor que o governo de Maurício de Nassau perdurasse ou a França Antártica de Villegaignon tivesse prosperado? Ucronia pode ser um exercício interessante, até divertido, diria eu; mas há boas chances de o resultado dessa linha alternativa da História não ser animador: poderíamos ter sido um grande Suriname ao norte e um mega Senegal ao Sul. O fato de termos nos tornado uma colônia de exploração tem mais a ver com a geografia do que a metrópole em questão. Vide a diferenças entre as colônias do Norte e do Sul dos EUA, que levariam esse país à Guerra Civil menos de um século após a independência delas.

A pergunta que fica, então, é até que ponto nosso passado explica o presente? Certo que uma nação recém-independente ainda está sobre grande impacto da administração da ex-metrópole, mas o quanto isso permanece válido à medida que o tempo passa? A Índia, para começar, já está há 75 anos livre do jugo britânico e, embora tenha feito grandes progressos no século XXI, continua longe do padrão de desenvolvimento social que os europeus ocidentais. Questões como superpopulação, corrupção e nepotismo ainda são grandes entraves a serem vencidos por lá. Vamos para o continente sul-americano: Brasil e Argentina, por algum tempo, se saíram melhor que as antigas metrópoles, antes de suas administrações desandarem. Não esqueçamos da Coreia do Sul, que já foi, junto com sua irmã do norte, colônia japonesa. Entretanto, Seul já superou Tóquio em muitos aspectos, ao passo que Pyongyang patina num comunismo anacrônico.

O passado tem seu peso? Sem dúvida! Será que ele dá a última palavra? Às vezes, caso um ranço dele persista fortemente no entorno de um país, uma sociedade ou um indivíduo. Em grande parte das situações, por outro lado, atribuir poderes divinos ao que aconteceu numa cada vez mais profunda “noite dos tempos” é apenas um atalho preguiçoso – a falácia genética -, que nos impede de ir atrás de razões bem mais recentes e imediatas para problemas atuais.

Enfim, tal como um indivíduo de meia-idade que ainda culpa seus pais por não ter tomado rumo na vida, uma hora chega-se ao ponto em que a culpa dos antigos opressores começa a ser substituída pelos erros cometidos pelas escolhas dos habitantes locais. O Brasil não dá certo por ter sido uma terra de índios “indolentes”, portugueses degradados e africanos escravizados? Não vou entrar no mérito, mas Austrália começou como uma colônia penal, literalmente. O que cada extremo do globo fez com os seus libertos é que foi diferente…

Campo Minado: na Ponta da Língua, mas não em sua Base

O Demolidor (1993): tão despretensioso quanto profético.

Quem já se entendia como gente em meados dos anos 90 do século XX pôde assistir a uma impressionante mudança cultural ocorrida dentro de uma única geração: a ascensão do “politicamente correto”. Antes de me tacar pedra, já digo sou a favor de mudanças de postura que tornem ambientes sociais e de trabalho mais salutares para grupos historicamente marginalizados. E justamente por isso lamento a caricatura que o movimento tem se tornado ao servir mais como ferramenta de ostentação de virtude própria e linchamento moral de desafetos, em vez de uma genuína consideração pelo próximo.

A lista de palavras “proibidas” só tem crescido, na medida que qualquer alegação de “termo agressivo” é acriticamente aceita. Ninguém deseja estar do lado “errado” e sofrer as consequências. Parece justo e razoável evitar de usar as palavras “judiar” e “denegrir”, visto que seus radicais facilmente identificáveis são “judeu” e “negro”, respectivamente, além de elas possuírem substitutas equivalentes, como “maltratar” e “macular”. Agora, vejamos o caso da palavra “histérico(a)”: alega-se que seu radical vem do grego hystéra (útero), o que é verdade, e até o começo do século XX era associado a doenças mentais tidas como tipicamente femininas. O problema é que (i) o termo hoje é utilizado para descrever comportamentos destemperados de homens, também, e (ii) será que alguém leigo saberia a relação de histérico com útero sem consultar um dicionário?

Há outras palavras que “etimologia engajada” (1) gostaria de banir e que talvez já tenham vindo à mente do leitor do começo desta terceira década do século XXI, ou de alguém que, no futuro, estude esta época. Ainda que você seja um militante sincero ou um hipócrita em busca de status moral, pelo próprio bem de sua causa (ou para não dar vexame), atente para não cometer uma variante da falácia genética mencionada acima: a falácia etimológica, i.e., a alegação que significado original de uma palavra (ou de seus radicais) determina o uso dela nos dias de hoje.

Línguas evoluem constantemente, sejam se modificando, crescendo, diversificando, hibridizando e, sim, extinguindo. Tudo numa dinâmica que guarda interessantes paralelos com a evolução biológica. Uma delas é que mudanças discretas podem até ser percebidas no prazo de uma geração de humanos, ao passo que mudanças mais profundas podem demandas um tempo maior que a mais memoriosa cabeça consiga guardar. Não foi à toa que coloquei “boceta” no título deste artigo. Além de ser uma isca para o leitor – capaz de atrair até os mais pudicos – ela é um exemplo perfeito de mudança semântica documentado. Originalmente, esta palavra designava uma pequena caixa com alguma ornamentação, cujo usos podiam ir desde guardar joias de mulheres ou o rapé dos homens.

Para quem nunca viu: isto é uma boceta!

Como ela também era usada para as damas guardarem “seus tesouros” a associação com a vulva começou a ocorrer. Na virada do século XIX para o XX já devia estar bem estabelecido o trocadilho, que o diga a música “A Boceta de Rapé” (1905), de Mário Pinheiro, que usa e abusa do duplo sentido:

É coisa boa devera
Num tabaco, fino pó
Quando tiro assim
Com o dedo da boceta de vovó
Fico triste, fico mudo
Fico mesmo que faz dó
Quando aparece raspada

Pelo visto, safadeza não foi invenção da contracultura. Com o tempo o sentido original caiu em desuso (até porque o consumo de rapé saiu de moda), restando apenas o sexual.

Um Apelo à Antiguidade

Etimologia, explanando superficialmente, é o ramo da Linguística focado no estudo da evolução das palavras; retrocedendo, se possível, até sua versão original em uma antiga língua-mãe. Já o “significado” de uma palavra é o seu emprego corrente ou em determinado período histórico, atestado por testemunhos da época. A falácia etimológica é uma irmã da falácia genética, consistindo na impostura intelectual de achar que o verdadeiro (e “válido”) significado de uma palavra é o seu sentido original.

Quando Pastorino diz “analisemos, agora o sentido etimológico, que também importa“, declara algo um tanto discutível, pois o sentido original de uma palavra pode ser irrelevante caso já tenha sido esquecido há muito tempo. Qualquer estudante de inglês em nível médio já conhece as arapucas do “falsos cognatos”, i.e., palavras parecidas entre dois idiomas, mas com sentidos totalmente diferentes, como compasso e compass (2):

Para abalizar seu ponto de vista, Pastorino se valeu de três dicionários. Na época da publicação de Sabedoria …, eles estavam disponíveis apenas em bibliotecas de especialistas ou universidades. Felizmente, a Internet democratizou o conhecimento e, hoje, o grande público pode ver o que realmente dizem:

  • Liddell & Scott, Greek-English Dictionary: talvez o melhor dicionário de grego clássico para uma língua moderna a possuir uma versão em formato wiki. Em seu verbete κρίνω aparecem os significados básicos de “separar”, “escolher”, “selecionar”; porém a quantidade de exemplos para “extensões” – como “decidir uma disputa”, “decidir em favo”, “ajuizar”, “julgar”,”estimar” – é tamanha que fica difícil comprar a ideia de usá-las nos evangelhos seja desvirtuar totalmente o sentido. Por sua vez, κρίσις, como derivado de κρίνω, é apresentado primeiramente como “separação”, “distinção” (poucos exemplos), para em seguida exibir vários exemplos como “escolha”, “eleição”, “julgamento”, “julgamento em corte”, condenação”. Não aparece, contudo, um sentido como “ação”, que o aproximaria da raiz sânscrita kṛi;

  • Dictionnaire Étimologique de la Langue Grecque: em suas páginas 518 e 519 tratam do verbete κρίνω, ao passo que κρίσις não possui um verbete próprio, sendo apresentado como derivado de κρίνω. Aqui a ênfase em significados no sentido de “separação”,”escolha” ou “discernimento” é maior, o que pode explicar o viés de Pastorino. Por sua natureza etimológica, o dicionário procura apresentar vários correlatos de cada verbete com o que seriam seus cognatos em outras línguas indo-europeias antigas, sendo feita a correlação com a latina cerno. No caso do sânscrito, chama atenção que o paralelo é feito com ava-skara-h -“dejetos”-, i.e, algo que “convém ficar separado/apartado”;

  • A Sanskrit-English Dictionary: embora seja a edição (ou impressão), de 1899, a numeração das páginas bate com a fornecida por Pastorino. As páginas 258 e 259 tratam de karman, ao passo que 300 e, principalmente, 301 tratam da raiz kṛi, trazendo um dado curioso: os cognatos apresentados para latim são (3) creo (4) e ceremonia, já para o grego são κραίνω (5) e κρόνος (6).

Ou seja, pelas próprias fontes que Pastorino usa, não é possível afirmar que κρίνω derive da raiz sânscrita kṛi. Para começo de conversa, o grego e o sânscrito se originaram, paralelamente, do proto-indo-europeu (PIE): um hipotético ancestral comum a diversas línguas europeias, iranianas e indianas falado há cerca de 5.000 anos nas estepes russas. Ou essas palavras gregas teriam uma raiz indo-europeia comum ou o grego teria importado a raiz sânscrita de algum modo. Dado que κρίνω pode ser encontrado em obras tão antigas como a Odisseia (cf. Liddell & Scott), não foram as conquistas de Alexandre que a trouxeram para a orla do Mar Egeu. Quanto à segunda hipótese, ela não se sustenta: na reconstituição feita do PEI, κρίνω e karma têm raízes distintas. E ainda que possuíssem a mesma raiz, suas evoluções semânticas poderiam ter sido divergentes (7).

Segundo The American Heritage Dictionary, a palavra inglesa crisis (“crise”) é oriunda da grega κρίσις, que, por sua vez, tem krei- (peneirar, separar, dividir) por raiz PIE. A palavra karma, para esse mesmo dicionário, possui a raiz PIE kwer- (fazer, preparar, construir). O Wikitionary corrobora essas informações (8).

Sobrevivendo ao Campo Minado


Soldados cavando.

– Sargento, encontrei um significado ideal pr’aquela nossa tradução!
– Ô bizonho! Não mexe nisso, que é bomba!

Deve ser tentador para um palestrante, escritor ou articulista espírita (para ser justo, de qualquer credo) realizar a exegese de uma determinada passagem de um livro sagrado a partir de uma palavra-chave, cujo significado que (lhe) é mais conveniente está atestado em dicionário. O resultado final terá com o cheiro doce de erudição, porém pode muito bem não passar de uma tradução “à moda da casa” e “ao gosto do freguês”, capaz de fazer o, em geral, ignoto autor se revirar na tumba.

É preciso ter sempre em mente que, por mais ranço que um texto em uma língua morta possua, houve uma época quando enamorados a usavam para trocar juras de amor, os comerciantes para fechar seus negócios, as crianças para dar ação às suas brincadeiras, os torcedores para aclamar/xingar seus favoritos, e os fiéis louvavam ou blasfemavam os deuses com ela. Sim, um dia esses idiomas estiveram vivos. E, mesmo com todo o analfabetismo reinante, esses escritores sabiam que seus textos seriam lidos em voz alta em algum templo, sinagoga ou catacumba por algum afortunado letrado (9). Assim, Paulo de Tarso queria ser compreendido no mundo helênico do primeiro século da Era Comum, não por Homero e, muito menos, pelos gregos atuais.

Concordo que um pouco de “sentimento” e “tato” se faz necessário na hora de executar uma tradução, e que o risco de algo particular adentrar o texto vertido é constante. Ainda assim, há uma pedra de toque sempre capaz de ajudar chamada contexto, do de maior relevância para o de menor:

  • A fonte da passagem em questão: não apenas o entorno da citação analisada, mas todo o espectro de conotações que a palavra tem o longo do livro. Ao se observar não apenas a árvore, mas toda a floresta permite também identificar os temas de que ele trata. Se ele tiver um perfil apocalipsista – como Marcos e Paulo -, então traduções com viés reencarnacionista não fazem o menor sentido;
  • Outras obras do mesmo autor: aí se cai na que questão verdadeira autoria dos textos bíblicas, o que pode ser problemático. Ficando no Novo Testamento, por exemplo, pode-se agrupar Lucas e Atos, João e I João, e as genuínas cartas paulinas;
  • Outras obras da mesma época: como Marcos e a mais antigas cartas paulinas;
  • Outras obras do mesmo testamento: com certas ressalvas. Cronologicamente, ocorreu uma progressiva separação do judaísmo e adaptação do cristianismo para se tornar uma religião de longo prazo. Isso se refletiu na criação de um jargão cristão próprio, que é um dos contrastes entre as cartas reconhecidamente autênticas de Paulo e as pseudopaulinas;
  • Obras de outro testamento, porém no mesmo idioma: notadamente a Septuaginta, de onde os autores do Novo Testamento buscavam suas citações;
  • Obras extrabíblicas da mesma época: que podem ser pseudoepígrafas ou até mesmo literatura pagã. Por vezes são o único recurso que sobra para palavras de uso raro, como a batida e rebatida palingenesia;
  • Todo o espectro de conotações: ou seja, pegar um dicionário em busca do melhor sentido para a palavra.

Suspeite, portanto, quando alguém pular direto para a última opção com uma palavra de uso recorrente dentro da própria obra ou literatura afim, com direito a análise etimológica.

Deixando claro que não sou contra o uso de dicionários, muito pelo contrário. O que digo é que o grosso do desempate entre os diversos significados que trazem para um verbete não reside neles, mas no uso que os antigos falantes davam. Bons dicionários são fundamentais para a identificação de polissemia, sinonímia e homonímia. Talvez um futuro estudioso do futebol brasileiro do século XX se valha de um dicionário etimológico da língua de Camões para determinar que certa cidade do Estado do Rio de Janeiro nada tinha de libidinosa.

cartão postal do distrito de Pau Grande.

Que foi? É só o letreiro de boas vindas do distrito de Pau Grande, na cidade de Magé – RJ, terra natal de Mané Garrincha (10). Pois é, a evolução dos idiomas nunca cessa.


Notas

(1) Ganha um manual de uso das “três conchas” quem acertar o nome do primeiro apologista a usar minha crítica aos excessos do “politicamente correto” contra mim mesmo. Dica: deve ser o mais hipócrita.

(2) Este mesmo exemplo produziu algo constrangedor na História das traduções literárias em terras tupiniquins:

O que dói é que a própria capa da edição em língua inglesa dava a dica.

(3) Por praxe, os dicionários gregos e latinos apresentam os verbos pela primeira pessoa do singular do presente do indicativo.

(4) Produzir, fazer crescer, engendrar, fazer nascer / nomear, eleger, indicar / causar, ocasionar. Deu origem ao nosso “criar”.

(5) Acabar, realizar, cumprir / mandar, governar / chegar ao termo.

(6) Liddell & Scott trata como uma variante de Khronos (um deus grego primordial, pai de Zeus, Hades e Posêidon), “era de ouro”, ou um apelido para “caduco” (dotard, old fool). O Wiktionary cogita a possibilidade de esse nome divino ser um derivado de κραίνω, na acepção de “comandar”/”governar”.

(7)Um exemplo disso são a portuguesa atualmente e a inglesa actually. Neste caso em particular, as palavras são cognatos genuínos, originários do latim actualis (“ativo”) e, com o tempo, derivaram significados diferentes em cada língua.

(8) Verifique os verbetes para κρίνω e कर्मन् (karma).

(9) Da Epístola aos Colossenses:

E, uma vez lida esta epístola perante vós, providenciai por que seja também lida na igreja dos laodicenses; e a dos de Laodiceia, lede-a igualmente perante vós.

v. 4:16
Quanto à Epístola aos Laodicenses, ninguém sabe, ninguém viu… é mais uma das obras citadas/mencionadas na Bíblia que não entraram nela.

(10) Caso tenhas chegado até aqui, sua poupança astral foi debitada em 1.000 (“hum” mil) bônus-hora, por teres lido e absorvido esse monte de sacanagem, ainda que inconscientemente. Caso ela tenha negativado, serás enviado ao pior lugar do Umbral e “de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil” (Mt 5:26).

Para saber mais:

– Ferreira, António Gomes; Dicionário de Latim – Português , Porto Editora.

– Isidro Pereira, S.J.; Dicionário Grego – Português e Português – Grego, Livraria Apostolado da Imprensa, 8a. ed., Braga, 1998.

– Rezende, Antônio Martinez de & Bianchet, Sandra Braga; Dicionário do Latim Essencial, Tessitura/Crisálida, 2005.

O Carro na Frente dos Bois (revisitado)

Você está fazendo isso errado!

A palavra Palingenesia aparece duas vezes no Novo Testamento (Tito 3:4-5 e Mt 19:28), sendo comumente traduzida por comentaristas espíritas como “reencarnação”. Carlos Torres Pastorino pode até não ter sido o autor dessa tradução “à moda da casa”, mas, sem dúvida, foi um de seus divulgadores pelas terras tupiniquins. Na série Sabedoria do Evangelho, ela aparece pelo menos duas vezes:

Paulo interpreta assim esse ensinamento de Jesus: “Mas quando apareceu a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com os homens, não por obras de justiça que tivéssemos feito, mas segundo sua misericórdia nos salvou pelo lavatório da reencarnação , e pelo renascimento de um espírito santo” (Tit.3:4-5). As palavras utilizadas são bastante claras e insofismáveis: lavatório (lavar com água; λουτρον da reencarnação: παλιγγενεσια que é o termo técnico da reencarnação entre os gregos; pelo renascimento (anaxinóseos) isto È, um novo nascimento). Paulo, pois, diz que Deus nos salvou não porque o tivéssemos merecido, mas por Sua misericórdia, servindo-se da palingenésia (isto é, da reencarnação) a qual é um “lavatório” (de água) e um “renascimento” do espírito.

Volume II, p. 5

Temos que assinalar a expressão en têi paliggenesíai, “na reencarnação”, termo familiar aos pitagóricos e estoicos, para exprimir o que chamamos hoje, ainda, de reencarnação: o renascimento na matéria do espírito imortal; com ele também era designada outrora a “transformação do mundo”, nos passos evolutivos que o planeta vai conquistando através dos milênios. Flávio [Josefo] emprega a palavra para exprimir a restauração de Israel, sentido provavelmente corrente na época, entre os israelitas, o que fez que os discípulos pensassem que Jesus vinha operar essa restauração; e isso quiçá tenha provocado o pedido de Tiago e de João (Marc. 10:35) logo a seguir. Philon de Alexandria usa essa palavra para designar o renascimento do planeta após o dilúvio. E Paulo de Tarso (Tito, 3:5) com o sentido material de reencarnação e o sentido espiritual de nascimento na individualidade ou transição do psiquismo ao espírito, tendo como resultado o surgir do “homem novo”

(. . .)

Essa frase consolida a interpretação de “palingenesia” dada por Flávio Josefo: a restauração do reino de Israel, tornando a dividi-lo em doze tribos soberanas, cada uma das quais seria governada por um dos doze discípulos. Os Apocalipses (cfr. 4.º Esdras 7:75) falam na renovação messiânica do mundo, “quando o Todo-Poderoso vier renovar Sua criação”. Mas embora se acreditasse que o Messias julgaria o mundo (cfr. Mat. 25:31ss), neste trecho é dito que o julgamento seria feito pelos doze, a exemplo dos “juízes” de Israel (como os “sufetas” de Cartago). Já Paulo fala que “os santos julgarão o mundo” (l.ª Cor. 6:2).

Volume VI, p. 86

Na primeira versão, há apenas uma menção ao sentido de reencarnação que a palavra palingenesia pode assumir e uma atribuição a Paulo de Tarso desse uso. Poderíamos questionar isso duas forma: a primeira seria, em razão da apocalipcista natureza da mensagem de Paulo, não haveria tempo para uma salvação por um longo ciclo de reencarnações; e, em segundo lugar, o sofisticado “plano de salvação” descrito pormenorizadamente em sua Carta aos Romanos foca no sacrifício de Jesus, não deixando espaço para ela.

Já no volume sexto de Sabedoria…, somos apresentados a mais uma acepção de palingenesia: “restauração”, “renovação”, porém aplicada a países e ou ao Cosmo. Ficam, então as perguntas: “por que não para pessoas, também?”, “haveria outros sentidos de palingenesia omitidos por Pastorino a seus leitores?”. Como já disse alhures, quem define o sentido de uma palavra não é um dicionário, e muito menos seu tradutor, mas quem a usa(va). Assim, deixo abaixo linkado o artigo original, em que, embora não cite Pastorino explicitamente, discorro sobre o emprego desse palavra grega por um de seus herdeiros, lançando mão do que a literatura clássica grega tem a nos oferecer. Com vocês:

Palingenesia:

Colocando o carro na frente dos bois

(Original)