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Pastorino, o Santo Graal e os Dinossauros Venusianos

18 de abril de 2021 Deixe um comentário

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Com este artigo, pretendo iniciar uma série sobre algumas técnicas, digamos, “criativas” do ex-padre, escritor de autoajuda e tradutor espírita Carlos Torres Pastorino, nacionalmente conhecido como o autor do best seller chamado Minutos de Sabedoria. Entretanto, não é sobre essa obra que eu pretendo falar, e, sim, sobre outra mais técnica deles: a coleção Sabedoria do Evangelho.

De certa forma, já falei dela no artigo Palingenesia: colocando o carro na frente dos bois, em que trato dessa palavra grega, referida por Pastorino no capítulo inicial do segundo volume de Sabedoria. Não pretendo me focar especificamente no preciosismo de palavras aqui, mas usar um ou outro caso sobre atitudes recorrentes em suas traduções.

Alego, também, que não vou entrar no mérito das interpretações sucessivamente mais livres de passagens da Bíblia, pois são como testes de “figuras de Rorschach”: podem ser o que você quiser. No caso de Sabedoria do Evangelho, as interpretações progressivamente alegóricas e místicas visam sustentar o ponto de vista kardecista. O foco deste portal é buscar qual seria a interpretação dos primeiros leitores, baseando-se no contexto em que viviam. Por exemplo, o Livro do Apocalipse: em cada geração há os intérpretes ávidos em relacionar suas alegorias com supostos “sinais” de sua própria época, em vez de buscar o que um leitor do começo do século II suporia ao ler o texto.

Comecemos apresentando um extrato contaminado -suponho inadvertidamente- por uma falácia lógica chamada: “exclusão do termo médio”.

Levanta-te!

O caso em estudo corresponde à seguinte passagem:

OPINIÃO DE HERODES

Mat. 14:1-2 Marc. 6:14-16 Luc. 9:7-9
1. Nessa época, ouviu o tetrarca Herodes a fama de Jesus 14. E Herodes o rei ouviu (porque o nome dele se tornava conhecido) e disse: “João o Batista despertou dentre os mortos, e por isso os poderes operam nele”. 7. Ora, o tetrarca Herodes ouviu tudo o que foi feito por ele (Jesus), e admirou-se, porque era dito por alguns:
2. e disse a seus cortesãos: “esse é João o Batista; ele despertou dentre mortos, e por isso os poderes operam nele”. 15. Outros diziam: “É Elias”; outros ainda: “É profeta, como um dos profetas” 8. “João despertou dentre os mortos”, por outros: “Elias apareceu”, e outros: “reencarnou um dos antigos profetas”.
16. Mas, ouvindo isso, Herodes dizia: “É João, que eu degolei, que despertou dentre os mortos”. 9. Disse, porém, Herodes: “Eu degolei João, mas quem é este de quem ouço tais coisas”. E procurava vê-lo.

Além da ação pessoal de Jesus a pregar as Boas-Novas, houve um recrudescimento de fatos extraordinários, que se multiplicaram com a saída dos Emissários Dele, por diversas aldeias concomitantemente. A fama de Jesus, em nome de Quem todos agiam, cresceu muito, estendendo-se tanto que chegou aos ouvidos do tetrarca daquela região.

As palavras de Herodes dão a perfeita impressão de que ele se convenceu da ressurreição de João Batista, “ressurreição” no sentido atual do termo, isto é, que o “morto” voltara a viver no mesmo corpo.Herodes não se refere à reencarnação, conforme o notara já Jerônimo (Patrol. Lat. vol. 26, col. 96)com razão: Jesus tinha mais de trinta anos, quando João desencarnou.

* * *

Para fins de estudo, observemos o emprego dos verbos gregos nesses textos, e para isso analisemos antes os próprios verbos.

Aparecem dois; egeírô e anístêmi, ambos traduzidos correntemente com a mesma palavra portuguesa:”ressuscitar”. Mas o sentido difere bastante de um para outro.

EGEÍRÔ, composto de GER com o prefixo reforçativo E (cfr. o sânscrito ajardi, que significa “estar acordado”) tem exatamente o sentido de “despertar do sono, acordar”, ou seja, passar do estado de sono ao de vigília. Era empregado correntemente com o sentido de ressuscitar, isto é, sair do estado de sono da morte, para o da vigília da vida. Para não haver confusão, acrescentava-se ao verbo o esclarecimento indispensável: egeíró ek (ou apó) nekrôn, “despertar de entre os mortos”.

ANÍSTÊMI, composto de ANÁ (com três sentidos: “para cima”, ou “de novo” ou “para trás”) e ÍSTÊMI (“estar de pé”). De acordo com as três vozes, teríamos os seguintes sentidos:

  1. voz ativa (transitivo) – “levantar alguém”, “elevá-lo”; ou “tornar a levantar”, ou então “fazer alguém voltar”;
  2. voz média – “levantar-se” (do lugar em que se estava sentado ou deitado, sem se cogitar se se estava desperto ou adormecido), ou “tornar a ficar de pé”, ou “regressar” ao lugar de onde se viera;
  3. voz passiva – “ser levantado por alguém”, ou “ser posto de novo em pé”, ou “ser mandado embora de volta”.

Esse verbo, portanto, apresenta maior elasticidade de sentido que o anterior, podendo, inclusive, ser interpretado como “ressuscitar”; com efeito, não só a ressurreição pode ser compreendida um “despertar do sono da morte” (egeírô, que é o mais exato tecnicamente), como também pode ser entendida como um “levantar-se” de onde se estava deitado (o caixão); ou como um “tornar a ficar de pé”; ou como um “regressar ao lugar de onde se veio”. No sentido de ressuscitar foi usado por Homero (“Ilíada”, 24, 551), por Ésquiles de Elêusis (“Agamemnon”, 1361), por Sófocles (“Electra”, 139), etc.

No entanto, esse verbo anístêmi apresenta outro sentido muito importante, e que geralmente é desprezado pelos hermeneutas, que procuram esconder as ideias originais dos autores, quando não estão de acordo com a sua, e isso até em obras “cientificamente” organizadas (Não estamos fazendo acusações levianas. Para só citar um exemplo moderno, tomemos a obra “Lexique de Platon, publicada em dois volumes (1964) pelas edições “Les Belles lettres” (portanto editora crítica, da qual se espera fidelidade absoluta ao original). Pois bem, nessa obra, preparada pelo padre Édouard des Places, jesuíta, não figuram anístêmi, nem egeírô, nem o substantivo anástasis, nem qualquer outra palavra que signifique “reencarnação” …), e é o sentido de “reencarnar”. Realmente, a reencarnação é um “levantar-se” para reaparecer na Terra; é um “tornar a ficar de pé”, e é sobretudo um “regressar ao lugar de sua vida anterior”. Nesse sentido foi bastante empregado pelos autores gregos. Anotemos, todavia, que esse não era um verbo especializado nesse sentido, como o é, por exemplo, ensómatóô ou o substantivo paliggenesía. Numerosas vezes é usado, mesmo nos Evangelhos, com a simples acepção de “levantar-se” do lugar em que se estava sentado (cfr. Marc. 3:26; Luc. 10:25; At. 6:9, etc.).

Daí a necessidade de interpretar, pelo contexto, qual o sentido exato em que foi empregado.

Ora, nos textos em estudo, os três sinópticos referem-se à opinião de Herodes com o mesmo verbo egeírô (que sistematicamente traduzimos por “despertar”, seu significado real e etimológico). No entanto, o próprio Lucas que empregou egeírô para exprimir a ideia de “ressurreição”, nesse mesmo versículo 8, para exprimir o “regresso à Terra” de algum dos antigos profetas, muda o verbo, e usa anístêmi … Então, não era a mesma coisa: João “ressuscitara”, despertara do sono da morte; mas o antigo profeta “regressara à Terra”, ou seja, em linguagem moderna, “reencarnara”. E assim traduzimos, acreditando haver agora justificado nossa tradução afoita.

Para antecipadamente responder à objeção de que não havia esse rigor “literário” nos evangelistas, queremos chamar a atenção para o verbo usado com referência a Elias. Era crença geral que Elias não desencarnara, mas fora raptado num carro de fogo (cfr. 2.º Reis, 2:11). Ora, nesse caso especial, não podia ser empregado egeírô (despertar dentre os mortos), nem anistêmi (reencarnar); e de fato, nenhum dos dois foi usado por Lucas, e sim um terceiro verbo: epháne, isto é “apareceu”.

Bem, meditem sobre essas observações e, quando estiverem quase convencidos, se distraiam com o grupo humorístico inglês Monty Python!

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O Julgamento da Bruxa

Na cena do julgamento da bruxa, do filme Monty Python e o Cálice Sagrado, a quantidade falácias contidas é tamanha, que é fácil se perder no meio do “raciocínio”. Melhor ir por partes:

Alegação Problema
Essa mulher é uma bruxa porque se parece com uma. Não passava de uma jovem mal disfarçada pelos aldeões para parecer com uma bruxa.
Ela transformou alguém em verme. O sujeito não mudou tanto assim (engordou um pouco).
Bruxas queimam, madeira queima. Logo bruxas queimam porque são feitas de madeira. Vários outros materiais também queimam. Os aldeões citam alguns exemplos.
Pontes são feitas de madeira, contudo outros materiais, como pedras, também podem ser usados na construção de pontes. Aqui está certo: fazer uma ponte com bruxas não ajudaria a elucidar.
Madeira flutua na água. Patos também flutuam na água, logo uma bruxa deve pesar o mesmo que um pato. Vários outros materiais também flutuam, novamente elencados pelos aldeões. Ademais, o que faz um corpo flutuar não é seu peso, mas o fato de possuir uma densidade menor que a da água.
Se ela pesar o mesmo que um pato, a será feita de madeira. E assim será um bruxa! Faz sentido.

Das diversas falácias inclusas nesse exemplo de humor inglês, uma se destaca: a do termo médio não distribuído.

Creio que muitos já devem ter ouvido falar na expressão silogismo categórico, isto é, um raciocínio dedutivo básico em que, a partir de duas premissas, chega-se a uma conclusão. Um dos exemplos mais “clássicos” e simples é:

Todo homem é mortal.
Sócrates é homem.
Logo, Sócrates é mortal.
Que utiliza apenas afirmações universais. Sua estrutura pode ser definida assim:
Todo A é B.
(Todo) C é A.
Logo, (todo) C é B.

Neste caso, A representa o termo médio, ao estar presente nas duas premissa, conectando-as. Diz-se que um termo está distribuído quando um predicado que lhe é feito abarca a todos de sua classe. Uma das regras para a validade de um silogismo estabelece que o termo médio deve estar distribuído em ao menos uma das premissas. No exemplo acima “homem” está distribuído na primeira premissa.

Uma falácia surge quando essa distribuição não ocorre em nenhuma delas, como neste exemplo:

Todos os cearenses são brasileiros.
Todos os baianos são brasileiros.
Logo, todos os baianos são cearenses.

A conclusão é, evidentemente, falsa. Neste caso, o termo médio é “brasileiros” e nem cearenses, nem baianos abarcam sua totalidade. Arapucas lógicas como esta já pregaram peças, inclusive, em cientistas, como vamos tratar no próximo tópico.

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Não estamos vendo Nada, logo existem Dinossauros em Vênus!

Capa da HQ En los Pantanos de Venus (1955).

Carl Sagan, famoso divulgador científico (e astrônomo) do século XX registrou em seu livro Cosmos, cap. IV – “Céu e Inferno” (ou no homônimo quarto episódio da série televisiva) relatou a curiosa crença de alguns cientistas de que Vênus seria um irmão tropical da Terra, tendo até animais análogos aos antigos dinossauros que andaram por estas bandas. O raciocínio deles era assim:

A ausência de algo visível em Vênus levou alguns cientistas à curiosa conclusão de que a sua superfície era um pântano, como a Terra no Período Carbonífero. O argumento — se pudermos usar esta palavra — foi mais ou menos este:

   — Não posso ver nada em Vênus.
   — Por que não?
   — Porque é totalmente coberto de nuvens.
   — De que são formadas?
   — De água, naturalmente.
   — Então por que as nuvens de Vênus são mais espessas do que as da Terra?
   — Porque há mais água lá.
   — Mas, se há mais água nas nuvens, deve haver mais água na superfície. Em que tipo de superfície há muita água?
   — Nos pântanos.

E se há pântanos, por que não ciacádeas, libélulas e talvez até dinossauros em Vênus? Observação: não há absolutamente nada visível em Vênus. Conclusão: deve ser coberto de vida. As nuvens amorfas refletem nossas próprias predisposições. Estamos vivos e admitimos a ideia da vida em outros locais. Mas somente o acúmulo e coleta cuidadosos de evidências podem-nos dizer se um determinado mundo é habitado. Vênus não força nossas predisposições.

Hoje sabemos que essas nuvens são compostas principalmente por gás carbônico, o que levou Vênus a sofrer um “efeito estufa” em último nível e se tornar o planeta cuja superfície é a mais quente do sistema solar (mais até que Mercúrio). Se houve alguma vida em sua superfície no passado, foi torrada há muito tempo.

Este pitoresco episódio da história da Ciência é, também, um caso de exclusão do ponto médio, desta vez aplicado à astrobiologia. Diversas substâncias, que não a água, estão em estado gasoso à temperatura ambiente. Ainda que essa substância na atmosfera venusiana fosse a água, a vida provavelmente teria trilhando um caminho totalmente diverso ao que percorreu na Terra. Seria possível, por uma espécie de “evolução convergente”, a aparição de análogos venusianos aos nossos dinossauros? Sim, caso satisfeitas diversas outras hipóteses prévias. Porém seria apenas uma entre um imenso leque de possibilidades.

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Escolha com Sabedoria

He chose … poorly!

Agora que apresentamos duas aplicações, digamos, lúdicas da falaciosa não-distribuição do termo médio, passemos à sua aplicação em Sabedoria… , se é que o leitor já não a percebeu. Caso não a tenha, não se apoquente, pois ela está diluída e refinada para parecer um raciocínio primoroso.

Se fizéssemos uma diagrama de Venn do silogismo básico apresentado na primeira parte deste artigo, teríamos algo assim:

E para o primeiro exemplo de meio-termo não-distribuído:

Já o que Pastorino faz com o sentido do verbo grego ανιστημι (anístêmi) é algo deste estilo:

Alguns empregos de anístêmi significam “reencarnar”.
Anístêmi é usado nos evangelhos.
Logo, algumas vezes “reencarnar” aparece nos evangelhos.

Que graficamente pode ser descrito como:

O que Pastorino propõe.

O problema é que o termo – reencarnar não está distribuído, já que não foram dadas garantias que a realidade não seja isto aqui:

A hipótese não considerada.

Uma maneira de sanar a dúvida seria testar a hipótese. No caso da acusação de bruxaria, a jovem e o pato tiveram seu peso comparado numa balança (que estava quebrada, diga-se de passagem). A tese dos dinossauros venusianos começou a ruir já na segunda década dos século XX, quando a análise espectral da luz vinda de Vênus indicava uma atmosfera composta principalmente de gás carbônico, porém sem sinais de água, e foi sepultada de vez quando as primeiras sondas lhe foram enviadas. Agora, como testar o que o evangelista tinha em mente quando empregou o verbo ανιστημι ?

Primeiramente, não há informação precisa alguma sobre o emprego de ανιστημι com a conotação “regressar à Terra” na literatura grega, embora tenham sido dados exemplos para a de “ressuscitar”. Procurando nos seguintes dicionários:

Em nenhum deles encontrei o sentido “regressar ao lugar de sua vida anterior”, muito pelo contrário: ele pode significar “expulsar alguém de um lugar”, “partir” ou até “forçar à emigração”. Embora Pastorino critique Lexique de Platon por não conter um sentido associável a “reencarnar”, em instante algum ele dá exemplo, na literatura pagã, em que isso ocorra inequivocamente. Simplesmente, algo muito curioso.

Ademais, embora Pastorino dê o braço a torcer e admita que “numerosas vezes é usado, mesmo nos Evangelhos, com a simples acepção de “levantar-se” do lugar em que se estava sentado (cfr. Marc. 3:26; Luc. 10:25; At. 6:9, etc.)”, a frequência dessa acepção é absurdamente maior do que se sugere nesses três exemplos. Tomemos, para começar, Lucas:

  • 1:39 Naqueles dias levantou-se Maria, foi apressadamente à região montanhosa, a uma cidade de Judá,
  • 4:16:Chegando a Nazaré, onde fora criado; entrou na sinagoga no dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler.
  • 4:29: e, levantando-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até o despenhadeiro do monte em que a sua cidade estava edificada, para dali o precipitarem.
  • 4:38: Ora, levantando-se Jesus, saiu da sinagoga e entrou em casa de Simão; e estando a sogra de Simão enferma com muita febre, rogaram-lhe por ela.
  • 4:39: E ele, inclinando-se para ela, repreendeu a febre, e esta a deixou. Imediatamente ela se levantou e os servia.
  • 5:25: Imediatamente se levantou diante deles, tomou o leito em que estivera deitado e foi para sua casa, glorificando a Deus.
  • 5:28: Este, deixando tudo, levantou-se e o seguiu.
  • 6:8: Mas ele, conhecendo-lhes os pensamentos, disse ao homem que tinha a mão atrofiada: Levanta-te, e fica em pé aqui no maio. E ele, levantando-se, ficou em pé.
  • 8:55: E o seu espírito voltou, e ela se levantou imediatamente; e Jesus mandou que lhe desse de comer
  • 9:19: Responderam eles: Uns dizem: João, o Batista; outros: Elias; e ainda outros, que um dos antigos profetas se levantou.
  • 10:25: E eis que se levantou certo doutor da lei e, para o experimentar, disse: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?
  • 11:7: e se ele, de dentro, responder: Não me incomodes; já está a porta fechada, e os meus filhos estão comigo na cama; não posso levantar-me para te atender;
  • 11:8: digo-vos que, ainda que se levante para lhos dar por ser seu amigo, todavia, por causa da sua importunação, se levantará e lhe dará quantos pães ele precisar.
  • 11:32:Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração, e a condenarão; porque se arrependeram com a pregação de Jonas; e eis aqui quem é maior do que Jonas.
  • 15:18:Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti;
  • 15:20:Levantou-se, pois, e foi para seu pai. Estando ele ainda longe, seu pai o viu, encheu-se de compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.
  • 16:31:Abraão, porém, lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos.
  • 17:19:E disse-lhe: Levanta-te, e vai; a tua fé te salvou.
  • 18:33: e depois de o açoitarem, o matarão; e ao terceiro dia ressurgirá.
  • 22:45: Depois, levantando-se da oração, veio para os seus discípulos, e achou-os dormindo de tristeza;
  • 22:46: e disse-lhes: Por que estais dormindo? Lenvantai-vos, e orai, para que não entreis em tentação.
  • 23:1: E levantando-se toda a multidão deles, conduziram Jesus a Pilatos.
  • 24:7: dizendo: Importa que o Filho do homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e ao terceiro dia ressurja (*resurgere, na Vulgata).
  • 24:12: Mas Pedro, levantando-se, correu ao sepulcro; e, abaixando-se, viu somente os panos de linho; e retirou-se, admirando consigo o que havia acontecido.
  • 24:33: E na mesma hora levantaram-se e voltaram para Jerusalém, e encontraram reunidos os onze e os que estavam com eles,
  • 24:46: e disse-lhes: Assim está escrito que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressurgisse dentre os mortos;

São vinte e seis exemplos deste evangelho, dos quais :

  • Quinze podem ser associadas ao sentido simples de “levantar(-se)”, tendo-se estado, implícita ou explicitamente, sentado ou deitado (4:16, 4:29, 4:38, 4:39, 5:25, 5:28, 6:8, 8:55, 10:25, 11:7, 11:8, 17:19, 22:45, 22:46, 23:1);
  • Cinco significam algo como “partir”, “pôr-se a caminho” (1:39, 15:18, 15:20, 24:12, 24:33);
  • Quatro passam a ideia de “reaparecer” dos mortos (16:31, 18:33, 24:7, 24:46). Não as coloco simplesmente por “ressuscitar”, pois é possível interpretá-las como “aparecer espiritualmente” ou dar algum viés docentista;
  • Uma está associada ao “levantar” dos mortos (11:32), i.e, “ressuscitar” no sentido tradicional, devido a sua associação ao fim dos tempos (“juízo”);
  • Uma é a que Pastorino deu como exemplo para sua tradução de anístêmi.

Em João este verbo e seu substantivo associado aparecem mais uma vez no sentido claro de ressurreição:

Jo 11:24 Disse-lhe Marta: Sei que ele há de ressurgir na ressurreição (αναστασει), no último dia.

Jo 11:25 Declarou-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá.

Resumindo: além de ainda carecer de um uso claro de anístêmi como “reencarnar”, a evidência interna ofertada pelos evangelhos depõe contra essa acepção. Ainda que Pastorino tenha feito uma tradução “possível”, ela está longe de ser “provável”. O diagrama de Venn que tem se delineado é o abaixo:

Por fim, tal como a associação entre flutuação e peso feita no “julgamento da bruxa”, Pastorino ainda faz um declaração que está simplesmente errada de que o substantivo paliggenesía seria especializado no sentido de “reencarnação”. Como foi demonstrado neste artigo, ele está longe de ser especializado nessa acepção, como também nem seu uso mais frequente na literatura pagã.

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E os Necromantes seriam Médiuns Espíritas, ok?

Do Evangelho segundo o Espiritismo (ESE), cap. IV:
A reencarnação fazia parte dos dogmas judaicos sob o nome de ressurreição. Somente os saduceus, que pensavam que tudo acabava com a morte, não acreditavam nela. As ideias dos judeus sobre esse assunto, e sobre muitos outros, não estavam claramente definidas, pois apenas tinham noções vagas e incompletas sobre a alma e sua ligação com o corpo. Acreditavam que um homem que viveu podia reviver, sem entender entretanto de que modo isso podia acontecer. Designavam pela palavra ressurreição o que o Espiritismo chama mais apropriadamente de reencarnação. De fato, a ressurreição supõe o retorno à vida do corpo que está morto, o que a Ciência demonstra ser materialmente impossível, porque os elementos desse corpo estão, desde há muito tempo, desintegrados na Natureza. A reencarnação é o retorno da alma ou Espírito à vida corporal, mas em um outro corpo, formado novamente para ele, e que não tem nada em comum com o que se desintegrou. A palavra ressurreição podia assim se aplicar a Lázaro, mas não a Elias, nem aos outros profetas. Se, portanto, conforme se acreditava, João Batista era Elias, o corpo de João não podia ser o de Elias, porque João tinha sido visto desde criança e sabia-se quem eram seu pai e sua mãe. João, portanto, podia ser Elias reencarnado, mas não ressuscitado.

Entrando num assunto que já discutira em outro artigo (nota nr 7), O “Mestre lionês” cometeu dois erros pesados nessa passagem do ESE. Primeiro, os grupos judaicos que creem em reencarnação também abraçam a ressurreição (esta praticamente um universal judaico), mas a tratam como algo diverso sua versão de reencarnação ,a gigul, além de esta ter tido uma aceitação mais tardia entre os herdeiros de Abraão. O outro ponto é a confusão que faz entre ressurreição e ressuscitação: segundo a teologia tradicional cristã, até o presente momento, a primeira só é aplicável ao caso de Jesus, tido por Paulo como as personificação das “primícias dos que dormem” (I Cor 15:20). Todos os demais casos, no Antigo e Novo Testamentos, de cadáveres que tornaram a viver, apenas para morrer novamente tempos depois, enquadram-se na segunda categoria.

Não é para fazer “um bicho de sete cabeças” desse erro, mas para mostrar como três conceitos distintos foram misturados para se obter uma tradução muito conveniente. Óbvio que essa atitude não é exclusividade do Espiritismo. Severino Celestino da Silva, em seu Analisando as Traduções Bíblicas identificou algumas traduções da ortodoxia cristã propositadamente enviesadas contra o Espiritismo. Eis uma delas:

Agora observe a tradução da 35a. edição da Bíblia, realizada pelo centro Bíblico Católico Editora Ave Maria [Dt 18:9-11]

“Quando tiveres entrado na terra que o Senhor, teu Deus, te dá, não te porás a imitar as práticas abomináveis da gente daquela terra. Não se ache no meio de ti quem faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, nem quem se dê à adivinhação, à astrologia, aos agouros, ao feiticismo, à magia, ao espiritismo, à adivinhação ou a evocação dos mortos” (tradução incorreta).

Está de acordo, caro leitor, com os textos hebraicos traduzidos acima?

Observe ainda o que coloca a Bíblia “Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas” dos nossos irmãos Testemunhas de Jeová:

“Quando tiveres entrado na terra que Jeová, teu Deus, te dá, não deves aprender a fazer as coisas detestáveis dessas nações. Não se deve achar em ti alguém que faça seu filho ou sua filha passar pelo fogo, alguém que empregue adivinhação, algum praticante de magia ou quem procure presságios, ou um feiticeiro, ou alguém que prenda outros com encantamento, ou alguém que vá consultar um médium Espírita, ou um prognosticador profissional de eventos, ou alguém que consulte os mortos” (tradução incorreta).

Analise a tradução, comparando-a com o texto traduzido acima e tire suas conclusões… onde existe médium e espírita neste versículo?

Agora segue o texto traduzido e desprovido de qualquer intenção pessoal ou preconceituosa. Compare-o e veja que está de acordo com o original.

“Quando entrares na terra que Iahvéh, teu Deus, te dá, não aprendas a fazer as abominações daquelas nações. Não se achará em ti quem faça passar seu filho ou sua filha pelo fogo, nem adivinhador, nem feiticeiros, nem agoureiro, nem cartomante, nem bruxo, nem mago e semelhante, nem quem consulte o necromante e o adivinho, nem quem exija a presença dos mortos.”
[Cap. V, pp. 88-9]

Quem estiver chegando agora neste blog talvez não saiba, mas já teci críticas ácidas a esse livro, porém devo fazer justiça e reconhecer que ele demonstra valor na hora de defender a doutrina de ataques, como no trecho acima.

Antes de apontar o dedo, seja para Allan Kardec ou para os tradutores da Ave Maria ou da Torre de Vigia, gostaria de expor uma hipótese haver em comum na metodologia de ambos os lados, embora os resultados sejam tão diferentes:

Espíritas Ortodoxia cristã
A ressurreição advoga o retorno à vida.
A reencarnação advoga o retorno à vida.
“Reencarnação” é outro nome para “ressurreição”.
Necromantes se valem de espíritos.
Espíritas se valem de espíritos.
Espíritas cometem o mesmo pecado que necromantes.

Assim, a não-distribuição do termo médio se torna o recurso falacioso ideal para quem quer provar qualquer coisa baseando-se em informações incompletas. Um recurso ao alcance de ambos os lados de qualquer disputa.

(Índice)

Para saber mais

– Sagan, Carl; Cosmos, Ed. Francisco Alves, 1980.

– Salmon, Wesley C.; Lógica, Coleção Curso Moderno de Filosofia, Zahar Editores, 1969.

– Santos, Marcos; Vénus: planeta de dinossauros e outras maravilhas, acessado em 18/11/2021.

(Índice)

Contendas do Deserto – As Crises Origenistas vistas de seus Epicentros

5 de setembro de 2012 4 comentários
Converti para PDF um longo estudo estudo em que reuni (quase) tudo que pude encontrar a respeito do tema. Espero que não tenha se tornado um daqueles textos que no afã de esgotar o assunto terminam por esgotar o leitor, mas não há caminho fácil. A questão origenista atravessou séculos, envolveu uma série de adversários e simpatizantes de Orígenes, foi de uma ponta a outra do mundo greco-romano e teve a consolidação da atual ortodoxia cristã como pano de fundo. Foi extremamente difícil um assunto não puxar outro e a maior dificuldade foi decidir o que ter de deixar de fora sem que algo mais adiante ficasse nebuloso. Podar demais poderia acarretar em similares às simplificações espiritualistas que ainda gracejam e ou omitir os documentos históricos que tanto cobrei. De certa forma, aqui está o trabalho que deveria ter sido dos espiritualistas, embora você talvez ainda encontre algum deles por este mundo virtual perguntando por fonte fidedigna para o “assassinato de 500 prostitutas a mando da imperatriz Teodora”, como se tudo tivesse sido acionado por esse episódio. Não foi e, mesmo que tivesse ocorrido, a condenação do teólogo Orígenes no II Concílio de Constantinopla teve outras causas bem mais profundas. E como se isso já não fosse surpreendente a muitos, se tal Concílio nunca ocorresse, o verdadeiro Orígenes jamais corroboraria o espiritualismo moderno e nem os espiritualistas aceitariam vários dos anátemas de 553.

Bem, eis o link para baixar:

Contendas do Deserto (pdf)

Para os que talvez se sintam intimidados pelo tamanho, informo que muito do conteúdo é composto por anexos ou de citações que podem ser lidos conforme a disponibilidade de tempo. Poderia ter dado apenas referências, mas preferi deixar tudo ao alcance de suas mãos para pudessem ter certeza de que tudo foi dito com conhecimento de causa. Expressões como “dizem” ou “sabe-se que” estão longe de ser praxe neste portal.

Termino colocando nesta postagem o último capítulo em sua totalidade. É um agradecimento singelo por tudo que aprendi.

* * *

Capítulo 21- Palavras Finais

Este artigo cresceu muito além do esperado. De início, almejava apenas traduzir as partes de A Vida de Saba correspondentes à segunda crise origenista e dar um breve complemento a ela. Esse complemento, porém, ganhou cada vez mais corpo até ficar praticamente mais importante que o texto de abertura. Não houve outro jeito, pois o tema Origenismo revelou-se tão complexo que qualquer tentativa de explanação sucinta corria o risco de cair em erros similares aos que tanto critiquei e, além disso, não é possível entender a própria evolução que a memória de Orígenes teve sem descrever o pano de fundo: as idas e vindas na consolidação da ortodoxia cristã.

Nos três anos em que me dediquei a este texto, vi ao longe mudanças em duas personagens que me motivaram a começar a tarefa, ainda que involuntariamente. No primeiro caso, José Reis Chaves lançou no final de 2009 o livro A Bíblia e o Espiritismo, que é uma coletânea de artigos seus no jornal mineiro O Tempo relacionados de alguma forma ao tema-título. Sinceramente, fiquei honrado em saber que o artigo Críticas sem Persuasão – justamente a maior propaganda gratuita que já me deram – é logo o primeiro. Vale assinalar que não é o artigo original postado na época, mas uma versão com as correções de uma errata, que, por sinal, piorou as coisas. Não foi à toa que fiquei contente: se Chaves concluiu dizendo que “as críticas desse site não persuadem ninguém” e ao mesmo tempo me deu esse destaque, então, de algum jeito, eu tive importância, ainda que não da forma mais producente.

Uma postura distinta, mas não exatamente oposta, foi tomada por Paulo da Silva Neto Sobrinho. Também profícuo articulista, Paulo Neto dedicara um artigo à questão origenista “Reencarnação no Concílio de Constantinopla – Orígenes x Império Bizantino”. Bem, na verdade, há três versões desse artigo circulando pelo veio virtual. A primeira, de 2005, transcreve textos de autores que defendem uma teoria conspiratória no século VI e não os questiona praticamente. A versão de 2007 se deu após o autor tomar ciência do pouco embasamento de alguns dos autores que utilizara. Uma sirene de alarme foi acionada e artigo ganhou mais extratos de autores espiritualistas, perdeu alguns trechos dúbios, e Paulo Neto se dedicou um pouco mais à análise de evidências, em particular, à História Secreta, de Procópio. Foi essa a versão destrinchada dois capítulos antes. A última mudança foi em 2010, e o estado atual do artigo pode ser resumido a duas palavras: concessão e cautela. Algo da primeira e um bocado da última. A historicidade do episódio de Teodora e as 500 prostitutas é vista com ressalvas, finalmente se reconhece que o “Orígenes histórico” não corresponde ao “Orígenes idealizado” por muitos espíritas/espiritualistas – embora o perfil do alexandrino apresentado ainda deixe a desejar – e admite-se que há pouca evidência para a uma alegada multidão de teólogos ortodoxos reencarnacionistas até o século VI. Sem dúvida, foi mudança e tanto de postura, mas o autor ainda é um apologista espírita e tem de cumprir esse papel. Talvez por isso não tenha esmiuçado os textos de outros autores que traz, evitando, apenas, comprometer-se com eles. Botar para valer o dedo em feridas seria pedir muito. O que mais chamou atenção, porém, foi ainda ter se detido em A História Secreta, nem mesmo outras obras de Procópio foram analisadas. De 2007 para cá, traduzi praticamente todos os principais cronistas do período e, se alguém não confiar em mim, deixei referências para acessar suas obras no idioma original. Por que não usar todo esse material novo? Talvez por demandar muito mais tempo refazer o artigo do zero tenha decido fazer referência a mim (a que sou grato) e deixar ao leitor a tarefa de estudar-me.

Ambos os autores acima possuem seus méritos intelectuais e arriscaria dizer que isso se estenderia a outros membros do grupo apologético a que pertencem. Contudo, justamente pelo seu compromisso assumido e, em parte, por reputações estarem jogo, suas capacidades não são usadas plenamente. Um exemplo interessante de situação similar foi dado pelo próprio Orígenes.

Numa das poucas trocas de correspondências que chegaram até nós, preservada em Filocalia, Orígenes discutiu com Júlio Africano, um erudito cristão romano que lhe escrevera questionando a autenticidade da história de Susana e os Anciãos, no livro de Daniel, que fora objeto de um dos trabalhos de Orígenes. Júlio observa que, além de não pertencer ao texto hebraico adotado pelos judeus do século III, a história possuía um estilo que destoava do restante do livro, sendo provavelmente espúria. Orígenes não só lançou uma defesa apaixonada da canonicidade da passagem, mas também de outras como Bel e o Dragão, a Oração de Azarias e o Cântico dos Três Judeus, que existem somente na versão dos LXX. Essa carta, ainda que involuntariamente, acabou por se tornar o exemplo de quando Orígenes enfrentou uma mente tão eclética quanto a sua, ao ponto de não ter sido capaz de refutar os argumentos literários de Júlio Africano e preferir calcar sua defesa num apelo à tradição da Igreja. O irônico é que Gregório de Nissa e Gregório Nazianzeno – os compiladores de Filocalia – preservaram a carta justamente por considerarem que foi bom o desempenho de Orígenes.

Guardada as devidas proporções, diria que a situação de muitos apologistas espíritas é análoga: são capazes de agir com destreza contra padres e pastores – gente mais comprometida ainda e seguidores de doutrinas bem engessadas – mas têm muita dificuldade com quem não encara a Bíblia como matéria de fé e que muito menos está presa ao Sola Scriptura ou à infalibilidade papal. Muitos de seus argumentos, infelizmente, não vão além de um conhecimento emprestado e que lhes dá uma rasteira quando descobrem esse autor não é a última palavra em gramática de uma língua antiga ou aquele outro é incapaz de fundamentar sua pesquisa histórica em documentos de época, ou pelo menos em outros pesquisadores realmente embasados. Os membros desses grupos muitas vezes se exercitam com pesos de isopor por não colocar a si mesmos à prova. Falta-lhes alguém que lhes dê o contraditório, um “advogado do diabo”. Algo que só detratores (como gostam desse rótulo!) com mais musculatura e menos amarras podem oferecer.

Por falar em diabo, antes que me recomendem para uma longa estadia no pior lugar do umbral, lembrem-se que Satanás originalmente não era o “diabo” que hoje conhecemos e, sim, um anjo que gozava de intimidade com seu deus, cumprindo apenas seu papel de promotor. Talvez por fazê-lo tão bem, tornou-se tão detestado. Assim vejo a mim e a vocês, meus caros espiritualistas: promotor e defensor, as duas faces de uma mesma moeda e, de certa forma, a razão de ser um do outro. Nossa relação conduz ao progresso mútuo, não por simbiose, mas por pura corrida armamentista. Talvez possamos tomar uma cerveja após cada sessão, porém, diante do júri, devemos fazer o que esperam de nós.

Outra limitação que vi aqui foi a maneira como lidam com o tema “Orígenes” que, em vez de ser algo merecedor de atenção por si só, tornou-se apenas um artifício, uma carta na manga para ser usada em debates. Não há nada que mais deprecie um objeto de estudo que isso. Portanto, não perca seu tempo perguntando por aí afora se alguém conhece a origem para a história das 500 prostitutas assassinadas. Se tal episódio tivesse o mínimo de embasamento, alguma biografia de Teodora já deveria tê-lo mencionado, não acha? Não fique matutando entre versões conflitantes a respeito do que Orígenes realmente acreditava. Leia Orígenes primeiro e descubra quais autores fazem análises mais fundamentadas e, a partir dessa comparação, verifique qual mais se aproxima. Por fim, acima de tudo, deixe o teólogo do século III falar mais alto. Fuja da tentação de elaborar um Orígenes a sua imagem e semelhança. Se ele acreditava em abobrinhas, como a vida das estrelas e planetas, era a opinião dele e cabe a você documentá-la e entender suas motivações; nunca ridicularizá-las Se a ideia de “queda” das almas de uma beatitude original para você não condiz com o que é de se esperar de um reecarnacionista, que pregaria um começo “simples e ignorante” para todos os espíritos, lembre-se que era isso o alegado por Orígenes. Tanto defensores como opositores dele não lhe negaram essa tese e tal entendimento é ponto pacífico entre os historiadores.

Confesso que inicialmente também buscava em Orígenes e Teodora apenas material que me fosse útil no portal. Foi a prazerosa leitura da biografia de Evans que realmente me despertou interesse pela figura de Teodora. Não queria mais saber apenas se ela mandara 500 prostitutas para o carrasco ou não e, sim, responder a mesma indagação (ou lamento) que Procópio fez: como pôde Justiniano escolher uma atriz/meretriz quando ele tinha ao seu dispor as mais casadouras donzelas da nobreza? A resposta só pode ser uma: era uma mulher extraordinária, em todos os sentidos que essa palavra possa assumir. O fato de vir da ralé social de sua época acabou se convertendo em uma vantagem, pois Teodora aprendeu na escola da vida muitas coisas que a vasta educação formal do futuro imperador nunca ofereceria e muito menos teriam a oferecer as ricas herdeiras preparadas para a submissão. Deve ter sido uma forte atração entre opostos que, em vez de enfraquecer passada a impressão inicial, evoluiu para uma estreita simbiose.

Chamo-a de extraordinária, sim, porque minha admiração não é pela devassa de A História Secreta, mas pela mulher de fibra que liderou a reação contra a revolta de Nika e que também segurou as rédeas do governo quando Justiniano quase morreu da peste, pela devota monofisita tida por santa pelos seus confrades, pela mão amiga estendida à desamparada Preiecta, por aquela que financiava a liberdade de prostitutas, pela provável inspiradora das leis em prol das mulheres no Código de Justiniano e pela esposa dedicada cuja morte abalou profundamente seu marido. Enfim, Teodora vai além de uma simples obra de Procópio e os livros espiritualistas com quem me deparei não conseguiram buscá-la nas demais obras dele e muito menos em outros autores do período. Não sei se por ignorância, comodismo ou conveniência, para eles existe apenas uma “prostituta” para suas teses conspiratórias.

O despertar de meu interesse por Orígenes foi um pouco diferente, mas também partiu de uma pergunta capciosa: “quem foi esse indivíduo que provocava tão intensas emoções de amor e ódio, às vezes na mesma pessoa?” Foi algo estupidamente mais difícil de responder. O alcance de Teodora, bem ou mal, não foi muito além de sua vida e seu protegido movimento monofisita já estava revitalizado o bastante para continuar pelas próprias pernas. Já com Orígenes, temos o oposto:seu poder foi maior APÓS sua morte. E não era por menos, pois, ao contrário de Teodora, ele deixou vários escritos que foram lidos e relidos por gerações. Portanto, não é exagero dizer que existiram diversos “Orígenes” do século IV ao VI, ou melhor, cada grupo de teólogos relembrava Orígenes de um jeito. Estudá-lo acabou por ser algo como lidar com aquelas bonequinhas russas chamadas matrioskas: quando se abre uma, aparece outra dentro. Da mesma forma, um pequeno pormenor das crises origenistas encaminhava a análise para outro assunto. Orígenes se tornou tão instigante e desafiador por sua complexidade que, se você reler a cada cinco anos sobre os temas que o envolvem, vai sempre revisar esse ou aquele ponto sobre sua obra e de seus seguidores e detratores.

Então, apaixonei-me por meus objetos de estudo e maltratei muito meu cartão de crédito comprando livros que me fornecessem o máximo possível da vida, obra e época dos dois. Isso significou investir em literatura estrangeira, importada, especializada e, às vezes, esgotada das prateleiras. Mas assevero que valeu cada centavo. Lamento não ter tido desde início à minha disposição livros como When the Souls had Wings (“Quando as Almas tinham Asas”, de Terryl L.Givens) ou The Rise of Monophisite Movement “ (“A Ascensão do Movimento Monofisita, de William H.C. Frend), que fornecem informações valiosas sobre esse período turbulento da consolidação do cristianismo e,infelizmente, decidi não inserir para não ter que reorganizar a estrutura do artigo demasiadamente. Afinal, já levara três anos para uma tarefa que julgava não consumir mais que seis meses. Durante esse tempo, amadureci muito minha prosa e hoje já me considero capaz de conversar com meus leitores sobre as análises que tenho em mente, em vez de ser um mero catador de “falhas” ou compilador de citações como no início deste portal. Devo tudo isso a vocês e venho aqui deixar meu agradecimento pessoal e que possamos um dia “jogar conversa fora” em um território neutro e ameno.

Até mais e obrigado por tudo!!!