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Uma Resposta a José Reis Chaves

29 de maio de 2013 Deixe um comentário

Índice

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O Artigo em Questão

A Bíblia e o Espiritismo

José Reis Chaves, escritor espírita e ex-seminarista, lançou em 2009 o livro O Espiritismo e a Bíblia (Espaço Literarium Editora), uma compilação de artigos que escreve às segundas-feiras no jornal O Tempo, de Belo Horizonte – MG. Logo no início, há um artigo a respeito do trabalho deste portal:

Precisaríamos do espaço de um volumoso livro para abordar o site http://br.geocities.com/falhasespiritismo/index_int_2.html Mas fá-lo-emos assim mesmo. Ele cita Flávio Josefo, Procópio, são Clemente de Alexandria, Orígenes, são Gregório de Nissa, são Jerônimo, Kardec, Léon Denis, Elizabeth C. Prophet, N. Langley, H. Kersten, dom Estêvão Bitencourt, S. Celestino, este colunista e outros.

E já que os espíritas gostam de estudar, vale a pena ver o site, apesar das falhas. São simplistas algumas de suas questões, que se apoiam em teses também simplistas. Kardec disse que se houver divergência entre um ensino espírita e a ciência, que se seguisse a ciência. De fato, o espiritismo não se considera infalível. Aliás, nem Jesus sabia tudo! Céptico, o site critica os Evangelhos. E desfaz-se do inconsciente coletivo de Jung, dos campos morfogenéticos, do adamantino Pastorino e do renomado cientista Ian Stevenson, diretor do Dtº de Psiquiatria da U. de Virgínia, o qual pesquisa o fenômeno da reencarnação, há mais de 50 anos e em mais de 40 países, autor duma obra de 2.300 páginas (2 volumes) sobre a reencarnação, e admirado por todo o mundo científico.

São de autoria de Procópio (morto em 562) “Histórias das Guerras de Justiniano” e “História Secreta”. Ele registra, de modo diferente, o episódio de 500 prostitutas, que, segundo vários autores, foram assassinadas a mando da imperatriz Teodora, esposa de Justiniano, que era mesmo sanguinário, pois mandou matar cerca de um milhão de pessoas adeptas da reencarnação no Oriente Médio, após a condenação dela pelo Concílio de Constantinopla, em 553 (Paul Brunton, “Ideias em Perspectivas”, pág. 118, Ed. Pensamento).

Não teria Procópio contado essa história de modo diferente, justamente porque era amigo do casal imperial? E porque o site desconhece outras fontes que registram essa história das prostitutas assassinadas, ele tenta depreciar o meu livro “A Reencarnação na Bíblia e na Ciência”, EBM Ed., SP, e outras obras que falam do assunto. E é insustentável a sua tese de que só se conhece um autor, lendo suas obras, pois Jesus, Sócrates e outros grandes vultos da História não escreveram nada. Aliás, o próprio site se contradiz nisso, ao defender ideias de certos autores tiradas de obras de outros autores.

Realmente, as críticas desse site não persuadem ninguém!

Será feita uma análise passo a passo dessas declarações.
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Sobre o Portal

Precisaríamos do espaço de um volumoso livro para abordar o site http://br.geocities.com/falhasespiritismo/index_int_2.html Mas fá-lo-emos assim mesmo. Ele cita Flávio Josefo, Procópio, são Clemente de Alexandria, Orígenes, são Gregório de Nissa, são Jerônimo, Kardec, Léon Denis, Elizabeth C. Prophet, N. Langley, H. Kersten, dom Estêvão Bitencourt, S. Celestino, este colunista e outros.

Pois então abordem todo o portal em uma obra ampla ou parceladamente, o que pode ser feito até via internet. Mesmo tendo se limitado a um único assunto – o suposto assassinato de 500 prostitutas a mando de uma imperatriz bizantina como estopim para a supressão do reencarnação na Igreja – continua sendo imprudente comentá-lo no espaço exíguo de uma coluna semanal. O resultado saiu mais como um espécie de desabafo do que uma dissecação do tema, o que seria de se esperar de uma verdadeira refutação. Listar os autores citados no portal pode até impressionar seus leitores com a tarefa hercúlea a que está se propondo, embora seja algo um tanto nebuloso, pois não diz exatamente a intenção com que os cito: aprovar, discordar, usar como testemunha histórica, como referência, discordar de interpretações de terceiros, etc. Um último comentário a esse parágrafo, em forma de sugestão, seria a utilidade em colocar o nome deste portal junto ao endereço virtual, pois esse pode mudar (e já mudou), ao passo que a “marca” do portal permanece. [topo]

Espiritismo e Ciência

E já que os espíritas gostam de estudar, vale a pena ver o site, apesar das falhas. São simplistas algumas de suas questões, que se apoiam em teses também simplistas. Kardec disse que se houver divergência entre um ensino espírita e a ciência, que se seguisse a ciência. De fato, o espiritismo não se considera infalível. Aliás, nem Jesus sabia tudo!

Concordo que certas partes de meu portal são sofríveis. Sério! Ele se desenvolveu de forma desigual. Nas partes bem incrementadas, como a da reencarnação bíblica, o texto cresceu muitas vezes por “sedimentação”. Apesar de me agradar o conteúdo, a forma não estava boa e por isso o estou reescrevendo. Agora, justiça me seja feita: por ocasião da publicação do artigo original (27/08/2007) já havia material suficiente no portal para ao menos fazer os espíritas suspeitarem que havia algo errado na história repassada em seus centros e, posteriormente, fiz um estudo exaustivo sobre a questão que, quando comparado com a literatura espiritualista disponível, nem apelando pode ser chamado de “simplista”.

Quanto ao dito de Kardec, já o conheço e considero utópico. Nem a ciência “tradicional” avança desse jeito, descartando teorias a cada novo fato contrário. Muito pelo contrário, sempre são levantadas hipóteses ad hoc para conciliar dados discrepantes com um arcabouço teórico já bem estabelecido. Muitas vezes isso é bem sucedido ou o é por algum tempo. Quando a quantidade de anomalias se avoluma ou as hipóteses auxiliares começam a ficar fracas, impassíveis de qualquer verificação, podemos estar diante uma iminente mudança nos paradigmas científicos. Enfim, a ciência é resistente à mudança e é bom que seja assim, do contrário ela seria um caos (1). Com o espiritismo, não é diferente e, mesmo quando a ciência o contradiz, é capaz de lançar uma “carta na manga”. Vide as supostas civilizações marcianas que seriam invisíveis aos nossos olhos e aos instrumentos de nossas sondas. Isto não deixa de ser uma hipótese auxiliar. Das mais fracas.

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O Peso da Autoridade

Céptico, o site critica os Evangelhos. E desfaz-se do inconsciente coletivo de Jung, dos campos morfogenéticos, do adamantino Pastorino e do renomado cientista Ian Stevenson, diretor do Dtº de Psiquiatria da U. de Virgínia, o qual pesquisa o fenômeno da reencarnação, há mais de 50 anos e em mais de 40 países, autor duma obra de 2.300 páginas (2 volumes) sobre a reencarnação, e admirado por todo o mundo científico.

A primeira e curta frase pode dar a impressão de que desdenho de um conjunto de livros que lhe é prezado, então retruco: critico os evangelhos de que jeito? Digo que são um amontoado de disparates ou material que contém coisas boas para os dia de hoje, mas que deve ser analisado tendo em mente seus primeiros leitores – os judeus do primeiro século? Lógico que eu, jogando no time dos céticos, não darei a eles a mesma análise tua ou a dos cristãos “tradicionais”, a quem tanto critica. Digamos que eu seja adepto da tese de Jesus como Profeta Apocalíptico, defendida também por outro descrente e “céptico” chamado Bart D. Ehrman (2). Ele foi, por sinal, considerado “o maior biblista do mundo” em sua coluna de 24/03/2008.

Também não estou muito interessado na reencarnação como fato, atendo-me mais ao revisionismo histórico perpetrado por alguns espiritualistas para conceber um cristianismo antigo “à própria imagem e semelhança“. Muitos repassam essa moeda falsa de total boa fé, mas ainda assim erram por um excesso de confiança não condizente com a “fé racionada”. Um pouco de ceticismo lhes faria bem e foi a isso que me propus.

Quanto ao Dr. Ian Stevenson, nem de longe me atrevi a questionar seu gabarito acadêmico e, principalmente, sua disposição em fazer “trabalho de campo” e sua postura crítica. Só não entendo por que espíritas extraem de seu trabalho mais do que pode oferecer e fazem vista grossa para as discrepâncias. A grande pergunta que ele tentou responder foi se “há reencarnação”, porém ele achava um passo grande demais querer dizer “como ela é” ou afirmar que sua ocorrência fosse universal. Também vale lembrar que muitos dos casos de “recordação espontânea” com que trabalhou foram considerados fracos por ele mesmo, sendo divulgada ao grande público justamente uma seleção dos mais fortes.

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Procópio: Esse Desconhecido (Parte I)

São de autoria de Procópio (morto em 562) “Histórias das Guerras de Justiniano” e “História Secreta”. Ele registra, de modo diferente, o episódio de 500 prostitutas, que, segundo vários autores, foram assassinadas a mando da imperatriz Teodora, esposa de Justiniano (…)

Faltou uma importante obra de Procópio no trecho acima: Das Construções, um registro dos principais feitos arquitetônicos do reinado de Justiniano. Além da afamada Catedral de Santa Sofia, Procópio relata a construção do convento Metanoia (Arrependimento):

(…)Havia uma multidão de mulheres em Bizâncio que realizava em bordéis uma atividade de libertinagem, não por escolha própria, mas sob a força da luxúria. Visto que isto era mantido por cafetões, e as mulheres de tais casas eram obrigadas a toda e qualquer hora a praticar obscenidade e copular de imediato com desconhecidos à medida que apareciam, elas se submetiam aos seus abraços. Já que houvera um numeroso corpo de alcoviteiros na cidade desde os tempos antigos, conduzindo seu tráfico em licenciosidade nos bordéis e vendendo a juventude alheia no mercado público, reduzindo pessoas virtuosas à escravidão. Mas o imperador Justiniano e a Imperatriz Teodora, que sempre compartilhavam uma comum piedade em tudo que faziam, arquitetaram o seguinte plano. Limparam o estado de poluição dos bordéis, banindo o próprio nome dos cafetões e libertaram de uma licenciosidade adequada apenas a escravas as mulheres que estavam lutando com imensa pobreza, provendo-as com sustendo independente e liberando virtude. Isso ele conseguiram da seguinte forma. Próximo à margem do estreito que está à direita dos que navegam em direção ao mar chamado Euxino, eles transformaram o que fora anteriormente um palácio em um imponente mosteiro projetado para servir de refúgio a mulheres que se arrependessem de suas vidas anteriores, de forma que lá, através da ocupação que suas mentes teriam com Deus e com a religião, poderiam ser capazes de limpar os pecados de suas vidas no prostíbulo. Portanto, denominaram o domicílio de tais mulheres de ‘Arrependimento’, em adequação com seu propósito. E estes soberanos dotaram este convento com ampla soma em dinheiro e adicionaram várias construções, a maioria notável por sua beleza e suntuosidade, para servirem de consolo às mulheres, a fim de que nunca se sintam compelidas a se afastar da prática da virtude de uma forma ou de outra.(..)

Procópio, Das Construções (De Aedificiis), livro I, cap. IX.

Na verdade, existem dois relatos feitos por Procópio para o episódio. Como Das Construções é propaganda estatal, essa é versão idílica dos fatos. O outro se encontra em História Secreta:

Teodora também devotou considerável atenção ao castigo de mulheres flagradas em pecado carnal. Ela apanhou quinhentas prostitutas no Fórum, que lá auferiam uma vida miserável se vendendo por três óboles (3), e as enviou para a margem oposta [do Bósforo], onde foram trancadas no mosteiro chamado Arrependimento, para forçá-las a reformar seu estilo de vida. Algumas delas, porém, atiravam-se à noite dos parapeitos e assim se livravam de uma salvação indesejada.

Procópio, A História Secreta, (Anekdota), cap XVII, “Como Teodora salvou quinhentas prostitutas de uma vida de pecado.”

Essa versão mostra que aquela obra social não era tão perfeita assim, com um certo número de internas que não queriam estar lá e chegando ao ponto de tentar uma fuga suicida. Existe um outro cronista de época que também relata a relação entre Teodora e as prostitutas.

Naquela época, a piedosa Teodora acrescentou o seguinte a suas outras boas ações. Certos conhecidos cafetões percorriam cada distrito em busca que homens pobres que tivessem filhas e dando-lhes, dizia-se, sua palavra e alguns nomismata, levavam as garotas como se fosse um contrato; transformavam-nas em prostitutas públicas, vestindo-as como sua desventurada sorte exigia e recebendo delas, e miserável preço de seus corpos, forçavam-nas a ingressar na prostituição. Ela ordenou que todos os cafetões deveriam ser presos com urgência. Quando foram apresentados junto com as garotas, ordenou que cada um deles declarasse sob juramento o quanto haviam pagado aos pais das garotas. Disseram que deram a cada um cinco nomismata. Quando todos deram a informação sob juramento, a piedosa imperatriz devolveu o dinheiro e libertou as garotas do jugo de sua desgraçada escravidão, ordenando que a partir daí não houvesse cafetões. Presenteou as garotas com um conjunto de roupas e dispensou-as com um nomismata para cada.

João Malala; Crônicas, Livro XVIII, seção 24

Uma possível conciliação entre esses dois episódios(4) seria a hipótese de tentativa de acabar com a prostituição “por bem” ter fracassado: a relativamente pequena indenização paga não bastou para que recomeçassem a vida, muito menos para se livrarem do estigma. Já o dinheiro mais polpudo dados aos cafetões prestou para realimentar o tráfico de seres humanos. Teodora, então, teria resolvido agir “na marra”, isolando as prostitutas e endurecendo o cerco à caftinagem. Alguém poderia alegar “oh, mas as garotas estavam querendo fugir, algo de horrível devia estar acontecendo lá dentro!” Não necessariamente: a vida daquele internato forçado simplesmente poderia ser espartana demais para algumas que preferissem as incertezas do meretrício à perda da liberdade. Guardada as devidas proporções, uma atitude análoga aos pacientes que fogem das clínicas de reabilitação modernas, após uma internação compulsória. Há, pelo menos, três fatos de depõem contra a tese de que Teodora criou um matadouro:

  1. Metanoia era obra de propaganda estatal e ficaria estranho realizar vultosos investimentos em instalações luxuosas no que seria um mero campo de concentração.
  2. Esse convento transcendeu Teodora em pelo menos cinco séculos (5). Ele foi feito para durar e não para “um serviço sujo de dois déspotas”. Seu princípio não seria essencialmente diferente de conventos similares surgidos no ocidente posteriormente, como os patrocinados pela corte papal de Avignon (6). Um exemplo próximo a nós desse tipo de instituição seriam os “Asilos Madalena” presentes na Irlanda até os anos 90 do século passado e que foram causticamente retratados no filme “Em Nome de Deus” (The Magdalene Sisters, 2002, lançado em 2004 no Brasil).
  3. O Código de Justiniano – o maior legado jurídico de seu reinado – é simpático às vítimas da prostituição, mas contra a caftinagem (Novella XIV, artigo primeiro)

Ainda que isso não tenha convencido a ti ou a algum leitor, continua a questão sobre qual a relação desse episódio com a condenação o II Concílio de Constantinopla, que supostamente baniu a reencarnação do cristianismo. Procópio nem de longe os relaciona e podem muito bem ser independentes. Será que algum outro historiador o fez?

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Um Milhão de Mortos(?)

Uma piadinha para aliviar a tensão:

Em uma fábrica, o Presidente envia uma mensagem clara e precisa para seu Gerente:

De: Diretor Presidente
Para: Gerente

“Na próxima sexta-feira, aproximadamente às 17 horas, o Cometa Halley estará nesta área. Trata-se de um evento que ocorre somente a cada 78 anos. Assim, por favor, reúnam os funcionários no pátio da fábrica, todos usando capacetes de segurança, quando explicarei o fenômeno a eles. Se estiver chovendo, não poderemos ver o raro espetáculo a olho nu, sendo assim, todos deverão se dirigir ao refeitório onde será exibido um filme documentário sobre o Cometa Halley”.

De: Gerente
Para: Supervisor

“Por ordem do Diretor Presidente, na sexta-feira, às 17 horas, o Cometa Halley vai aparecer sobre a fábrica, se chover, por favor, reúna os funcionários, todos com capacete de segurança e os encaminhe ao refeitório, onde o raro fenômeno terá lugar, o que acontece a cada 78 anos a olho nu”.

De: Supervisor
Para: Chefe de Produção

“A convite de nosso querido Diretor, o Cientista Halley, 78 anos, vai aparecer nu no refeitório da fábrica, usando capacete, pois vai ser apresentado um filme sobre o problema da chuva na segurança. O Diretor levará a demonstração para o pátio da fábrica”.

De: Chefe da Produção
Para: Mestre

“Na sexta-feira, às 17 horas, o Diretor pela primeira vez em 78 anos, vai aparecer no refeitório da fábrica, para filmar o Halley nu, o cientista famoso e sua equipe. Todo mundo deve estar lá, e de capacete, pois será apresentado um show sobre a segurança na chuva. O Diretor levará a banda para o pátio da fábrica”.

De: Mestre
Para: Funcionários

Todo mundo nu, sem exceção, deve estar com segurança no pátio da fábrica, na próxima sexta-feira, às 17 horas, pois o mandachuva (Diretor), e o Sr. Halley, guitarrista famoso, estarão lá para mostrar o raro filme “Dançando na Chuva”. Caso comece a chover mesmo é para ir para o refeitório de capacete na mesma hora. O show será lá, o que ocorre a cada 78 anos.

Aviso para Todos
Na sexta-feira, o chefe da diretoria vai fazer 78 anos e liberou geral para a festa, às 17 horas, no refeitório. Vai estar lá, pago pelo mandachuva, Bill Halley e seus Cometas. Todo mundo deve estar nu e de capacete, porque a banda é muito louca e o rock vai rolar solto até no pátio, mesmo com chuva”.

Talvez alguém esteja se perguntando por que resolvida resgatar essa piada antiga do limbo. É que não pude deixar de lembrar dela quando analisei melhor isto aqui:

[Justiniano],que era mesmo sanguinário, pois mandou matar cerca de um milhão de pessoas adeptas da reencarnação no Oriente Médio, após a condenação dela pelo Concílio de Constantinopla, em 553 (Paul Brunton, “Ideias em Perspectivas”, pág. 118, Ed. Pensamento).

O passo lógico foi verificar em in loco a referência repassada:

O vigor com que o imperador Justiniano proscreveu e destruiu livros e documentos heréticos deixou poucos registros que permitissem às gerações subsequentes saber o que outros cristãos haviam ensinado e acreditado a respeito da doutrina da reencarnação. Só no Oriente Próximo, Justiniano mandou matar mais de um milhão de hereges.

[Brunton, p. 118]

Não há menção alguma no referido livro de algo que vincule essa matança especificamente ao II Concílio de Constantinopla, não passando, provavelmente, de uma livre associação feita por ti. Os que estudaram algo a respeito do reinado de Justiniano sabem que ele se caracterizou por profunda intolerância religiosa, tendo dedicado grande esforço na supressão dos remanescentes pagãos, no extermínios dos maniqueus e repressão aos dissidentes e aos judeus. Isso foi uma política imperial (7) iniciada bem antes do Concílio, fossem os hereges reencarnacionistas (como os maniqueus) ou não. Quanto a Paulo Brunton, convém mencionar que ele não foi especialista em história bizantina, mas um jornalista inglês que, após uma estadia na Índia, tornou-se uma espécie de “guru ocidental”. A obra Ideias em Perspectiva não é exatamente algo que se possa chamar de livro, mas um apanhado póstumo de anotações feito por admiradores e discípulos em seus cadernos. Sendo assim, não há nenhuma bibliografia ou referência nela. Entretanto, foi viável encontrar uma possível origem do “fato” relatado:

Os drusos (8) são os únicos representantes modernos dos assassinos exterminados. Como eles, são ismaelitas, seu declarado fundador é Hakim, um califa fatímida do Cairo (9), que se considerava a nova encarnação da Mente de Deus. Sua noção de que o local atual de seu sempre ausente Grão Mestre é a Europa corresponde com bastante curiosidade à teoria de Von Hammer sobre o relacionamento que existiu entre os Templários e o real progenitor dos drusos. Esses mesmos drusos talvez também representem os “politeístas e Samaritanos” que floresceram tão vigorosamente no Líbano até tão tardiamente quanto os tempos de Justiniano, a cuja perseguição Procópio atribui o extermínio de um milhão de habitantes somente daquele distrito. De seu atual credo, preservado com segredo inviolado, jamais algo autêntico veio à luz; a crendice popular entre seus vizinhos faz deles adoradores de um ídolo em forma de bezerro e, para celebrar suas reuniões noturnas, [fazem] orgias como aquelas atribuídas aos ofitas (10) em Roma, aos templários (11) nos tempos medievais e aos maçons (continentais) (12) nos modernos.

King, Charles William, The Gnostics and their Remains , parte V, p. 413

Ou seja, por vias tortas, retorna-se ao famigerado Procópio! Agora, pelas mãos de C.W. King, um joalheiro da Inglaterra vitoriana que procurou em The Gnostics and their Remains (“Os Gnósticos e seus Vestígios”) reunir tudo que havia sobrado de informações sobre o antigo gnosticismo. A obra se encontra ultrapassada hoje, pois, além não ter podido contar com o material da biblioteca de Nag Hammad (descoberto em 1945), King se vale de teses hoje um tanto duvidosas ou imprecisas. A origem mais provável do relato de King atribuído a Procópio deve ter sido o capítulo XI de História Secreta, onde uma mais detalhada descrição é feita sobre uma luta ocorrida numa região próxima ao atual Líbano – a revolta samaritana de 529 d.C.:

E quando uma lei similar [obrigando conversão à ortodoxia] foi imediatamente emitida, afetando também os samaritanos, uma confusão indiscriminada varreu a Palestina. Então, todos os residentes de minha própria Cesareia e de todas as outras cidades, considerando-a como uma tolice para submeter a qualquer sofrimento em defesa de um dogma sem sentido, adotaram a denominação de cristãos no lugar da que então seguiam e, por meio desse disfarce conseguiram se safar do perigo oriundo da lei. E todos entre eles que eram pessoas de alguma prudência e racionalidade não demonstraram nenhuma relutância em aderir lealmente a essa fé, mas a maioria, sentindo ressentimento que, não por sua própria escolha, mas sob coação da lei, tiveram de abandonar a crença de seus pais, instantaneamente foram favoráveis aos maniqueus e politeístas, como eram chamados. E todos os agricultores, tendo se reunido em grande número, decidiram se rebelar contra o imperador, lançando como seu imperador um certo bandoleiro de nome Juliano, filho de Savaro. E travando combate com os soldados, suportaram por algum tempo, mas finalmente foram derrotados na batalha e pereceram junto com seu líder. E diz-se que cem mil pereceram nessa luta e a terra, que era a melhor no mundo, tornou-se, em consequência, destituída de agricultores. E para os donos de terra que era cristãos, isso deixou consequências muito sérias. Pois lhes foi incumbida, como um tipo de coerção, pagar para sempre ao imperador, ainda que não estivesse auferindo nenhuma renda da terra, a imensa taxa anual, já que não se mostrou nenhuma piedade na administração dessa atividade.

Assim, o total de cem mil mortos (dez miríades, no original) pode ter sido corrompido para um milhão ao passar para o livro de King (13). Caso se continuasse um encadeamento, Brunton colocou todos os mortos como reencarnacionistas e, depois, outros espiritualistas intuíram que deveriam ser origenistas. Óbvio que isso é uma especulação de como a informação teria se deteriorado. É plausível e o melhor que pôde ser feito com o material fornecido, pois o simples fato de que nenhum autor de King a Chaves ser capaz de dizer de onde a informação saiu torna impossível a eliminação de qualquer dúvida.

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Procópio: Esse Desconhecido (Parte II)

Não teria Procópio contado essa história de modo diferente, justamente porque era amigo do casal imperial?

Depende de qual Procópio vocês está falando. Ele é reconhecido como o autor das três obras supracitadas, mas ele mudava seu estilo conforme cada. Das Construções foi feita por encomenda e, aí sim, bajula o casal imperial. Em Guerras, tenta manter um certo distanciamento, mas não deixar de alfinetar as obsessões de Justiniano em reconquistar o ocidente e se envolver em questões teológicas, ao passo que a segurança das províncias orientais era negligenciada. Foi em A História Secreta que Procópio realmente extravasou seus ressentimentos contra o casal de monarcas. Para ele:

  1. Justiniano era um demônio: Isso não era uma figura de linguagem, nem queria dizer que ele vendeu sua alma por meio de um pacto. Ele seria, mesmo, um demônio sob uma casca humana. Vários “causos” são contados no capítulo XII: a mãe de dele foi fecundada por um demônio, viram-no andando pelo palácio sem a cabeça, seu rosto poderia se transformar numa massa disforme de carne, um monge do deserto se recusou a adentrar o salão do trono porque vira o Rei dos Demônios sentado sobre o mesmo. A imperatriz – ainda em seus dias de palco – recebia a visita de demônios em seu quarto, que expulsavam os amantes da ocasião para ficar com ela. Em um sonho ela soube que dividiria o leito com o Rei dos Demônios. Até os hábitos frugais de alimentação de Justiniano e sua pouca necessidade de sono eram indicativos de uma natureza satânica!
  2. Seria obra dos governantes tudo o que fosse fatídico: Uma consequência direta do item acima. Nas próprias palavras de Procópio (cap. XII): “Pois foi por meio de terremotos, pestilências e enchentes das águas dos rio que veio posteriormente a ruína, como presentemente demonstrarei. Não por meios humanos, mas por algum outro tipo de poder eles alcançaram seus terríveis desígnios”. E, realmente, Procópio coloca na conta de Justiniano (cap. XVIII) os mortos do terremoto de Antioquia.
  3. A imperatriz seria a mais pervertida das criaturas: a falta de “virtude” da jovem Teodora teria se refletido em sua crueldade quando no poder. Não bastava para ele ressaltar a sua origem de uma profissão socialmente desprestigiada. Era preciso deixar clara que ela foi a maior de todas as prostitutas de seu tempo. Para isso vale, como relatado acima, dizer que ela se deitava com demônios, descrever suas performances no palco (cap. IX) e assombrar o leitor com a incrível disposição sexual de Teodora, capaz de dar conta de dez marmanjos mais a criadagem deles, totalizando cerca de quarenta indivíduos em pleno vigor numa noite só(id.)! É difícil dizer se o que movia Procópio era uma espécie de machismo contra mulheres que gozavam de influência nos círculos do governo (como Teodora e a esposa de Belisário, Antonina) ou um ódio de classe. Ele não se conformava por Justiniano ter desposado uma cortesã quando poderia ter escolhido a mais nobre e educada de todas as donzelas do império (cap. X). A nova imperatriz seria apenas uma alpinista social, que fazia questão de mostrar seu novo status humilhando homens da elite com um cada vez mais estrito cerimonial da corte (cap. XV).

Mencionados tantos “atributos” assim, fica difícil chamar o autor de História Secreta de “amigo”. O que mais impressiona é que, com toda sua virulência, Procópio não disse taxativamente que estaria havendo um massacre dentro dos muros de Metanoia, nem vinculou sua inauguração ao II Concílio de Constantinopla. Afinal, de onde veio essa ideia? Nenhum espiritualista até agora soube responder.
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“Vaidade de Vaidades! Tudo é Vaidade…”

E porque o site desconhece outras fontes que registram essa história das prostitutas assassinadas, ele tenta depreciar o meu livro “A Reencarnação na Bíblia e na Ciência”, EBM Ed., SP, (…)

O que eu desconheço são fontes primárias que atestem tal assassinato. Já rastreei Procópio, Evágrio Escolástico, João Lídio, João Malalas e outros. Não encontrei absolutamente nada. Se nenhuma pessoa da Idade Média fez o favor de registrar esse episódio e vinculá-lo ao II Concílio de Constantinopla, surge a hipótese de tudo não passar de um boato criado por espiritualistas modernos. Quanto à desmoralização, eu jamais faria uma análise crítica por tão pouco. Somente comparei inúmeras citações feitas com os textos que lhes eram atribuídas. Muita coisa não bateu. Sinceramente, Chaves, acho que levou a coisa demais para o pessoal ou entendeu tudo errado. Consegui te chamar a atenção, mas o resto está sendo mais complicado. O exemplar que possuo de seu livro traz na capa “sétima oitava ed. Revisada”. Simplesmente, talvez tenha de fazer outra revisão. Caso não tenha problemas com o inglês, poderá ler boa parte de minha bibliografia e avaliar se há realmente pontos nebulosos ou não. Terá acesso a muitas coisas em primeira mão e será capaz de se aperfeiçoar largamente. Pode me ver como um mero detrator a mais (intuo que, para a maioria, eu faça o papel de vilão) ou encarar isto como uma oportunidade. Oportunidade de ir bem a fundo em cada pesquisa, avaliar todos os ângulos, montar panoramas, buscar o contraditório. Não fará apenas cópia desse ou daquele autor, mas superará muitos deles. Fará pesquisa historiográfica de qualidade.

Pode adotar em uma atitude defensiva e se encastelar em bibliografia que julga “segura”. É um direito seu. Entretanto duvido que em todo o portal não haja algo que lhe acrescente “substância”. Se baixar um pouco a guarda, talvez aprenda coisas com este antagonista que jamais aprenderia em um meio que só te congratula. E quem sabe, eu também aprenda algo…

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Ninguém sabe, Ninguém viu

Capa do Livro The Lives of the Monks of Palestine

Uma fonte primária, para quem se interessar.

(…) e outras obras que falam do assunto.

Quais são elas, por favor? Como só com absurda boa vontade seria possível relacionar o texto de Brunton com o assunto, então você ainda não trouxe nenhuma. Já que está usando o plural (“obras”), presumo que conheça ao menos outra fonte. De preferência uma feita por um historiador, que me permita rastrear a origem do relato. Agora, se você só me trouxer obras de espiritualistas que apenas citam (se citarem) outros espiritualistas, então nada mudará. De conhecimento meu, sei de Holger Kersten (14), mas você aparentemente não o utiliza e, mesmo que o tivesse usado, de pouco valor seria por ele não dar referência alguma para autoria do relato. Conheço, também, Cajazeiras (15) e Severino Celestino da Silva (16), mas eles não contam por serem dependentes de você nesse episódio. Esse último, por sinal, tem em sua bibliografia G. Alberigo (17), que traz em seu trabalho uma versão bem mais embasada dos fatos:

Claro, o origenismo não chamava tanto a atenção dos ortodoxos, pois não questionava o concílio de Calcedônia. Mas depois do decreto de 533 e do sínodo de 536, os ortodoxos perceberam que por trás das decisões imperiais havia sempre um origenista. Roma, sobretudo, não tinha motivo para tolerar o origenismo, pois este não compartilhava as ideias romanas a propósito dos “três capítulos” (cf. Liberatus, Breviarium, ACO II V, 98-141). Os ortodoxos do Oriente começaram a se preocupar com os origenistas, pois estes fortaleciam suas fileiras com padres ortodoxos como Gregório de Nissa, Dídimo, o Cego, e outros. Sobretudo na Síria, os origenistas apareciam demais, por causa de seu grande número. Por isso o patriarca Efrém de Antioquia convocou em 542 um sínodo que condenou o origenismo. Os origenistas da Palestina recorreram, então a Pedro de Jerusalém, pedindo-lhe que não mencionasse mais Efrém nos dísticos de Jerusalém. Pedro, apertado entre as próprias opiniões ortodoxas e as pressões dos origenistas, apelou para Justiniano, com o apoio também do patriarca Mena e do representante de Roma, Pelágio. Justiniano publicou um “Edito” em 543 (Mansi, 9, col. 125-128; ACO III, 189-214) contra o origenismo. Mena aproveitou a ocasião e no mesmo ano convocou um sínodo, que deu à decisão imperial autoridade sinodal. O papa Vigílio, os patriarcas orientais, e também os origenistas de Constantinopla Ascida e Domiciano assinaram a decisão. Isso, porém, não eliminou o origenismo, que continuou a existir e predominar na Palestina. A condenação sinodal conseguiu radicalizar as posições dos origenistas, que assumiram então atitude hostil à ortodoxia.

[Alberigo, pp. 130-1]

O gatilho para a segunda crise origenista foi um conflito local entre monges ortodoxos e origenistas na Palestina do século VI, que foi relativamente bem registrado por cronistas da época como Liberato de Cartago, Facundo de Hermiano e, principalmente, Cirilo de Citópolis. Teodora mal entra na história e, quando aparece, intercede por Ascida (origenista) ou leva um pito do monge Saba (ortodoxo). Ainda que nossas fontes careçam de uma versão origenista dos fatos, fica ao menos patente que a ortodoxia do século VI (aliás, desde o século IV) estava longe de morrer de amores pelos voos mais altos da mente de Orígenes.

Voltando ao artigo:

E é insustentável a sua tese de que só se conhece um autor, lendo suas obras, (…)

Então, por que centros espíritas sempre recomendam o Pentateuco a todos os que querem aprender a doutrina? Uma obra do Frei Boaventura Kloppenbourg seria recomendável aos iniciantes em espiritismo? Você pode até entender algo de um autor por vias indiretas, contanto que você se garanta de não estar aprendendo por um intermediário “duvidoso”. Do contrário, pode estar brincando de “telefone sem fio” como na piada do “cometa Halley” sem o saber. Na primeira vez que li Gibbon, notei que havia algo de diferente no relato dele de Teodora com o que era repetido no meio espírita. Declínio e Queda do Império Romano é um clássico. Não está imune a imprecisões, equívocos na metodologia e a uma inevitável defasagem, mas Gibbon ganhou fama, entre outras coisas, pela esmerada busca por fontes primárias que fazia. A partir das notas de rodapé presentes em versões on-line, cheguei às duas obras de Procópio que cito. Gibbon tem todo o caminho das pedras disponível a seus leitores. Repetir seus passos é simples caso se tenha as mesmas fontes primárias disponíveis. Já as obras espiritualistas apresentadas, ninguém sabe, ninguém viu …

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Em Nome dos Grandes

(…) pois Jesus, Sócrates e outros grandes vultos da História não escreveram nada.

Imagino que sua intenção era se apoiar “em ombros de gigantes”, mas lamento informar que fincou seus alicerces na areia. Não poderia ter escolhido exemplos piores que esses para usar em defesa da qualidade de fontes indiretas.

Comecemos por Sócrates. Chegaram até nós três grandes fontes a respeito dessa personagem histórica:

  1. Platão: Discípulo mais famoso de Sócrates, fez do mestre o personagem principal na maioria de seus diálogos filosóficos. Escreveu também Apologia, em que relata os argumentos usados por ele em seu julgamento;

  2. Xenofonte: Também discípulo e autor de Ditos e Feitos Memoriáveis de Sócrates. Não teve, contudo, a mesma envergadura intelectual que Platão;

  3. Aristófanes: Teatrólogo cuja comédia As Nuvens retrata Sócrates como um charlatão a enganar desde escravos a homens da elite e, de quebra, corrompe um jovem tornando-o um tremendo sofista.

Temos as opiniões de discípulos e a de um oponente. As primeiras, provavelmente, exageram nos elogios, ao passo que a última pode ter carregado demais nas críticas. Como As Nuvens foi lançada uns trinta anos antes do julgamento de Sócrates, há quem cogite ela retratar um filósofo ainda imaturo, um “Sócrates pré-socrático”, além de lembrar que Aristófanes criou uma caricatura em sua peça, distinta do filósofo real. Por outro lado, ele não poderia distorcer Sócrates a ponto de deixá-lo irreconhecível para o público e, tirando os apelos, o estilo elucubrativo ridicularizado na peça tem ecos em diálogos platônicos. Talvez haja, de fato, um fundo de verdade em As Nuvens no modo como o filósofo era visto por não socráticos ou, pelo menos, pelo “povão”. Dos perfis legados pelos discípulos, outros problemas emergem. O filósofo de Platão é muito mais intelectualizado que o de Xenofonte. Não que seja inviável ver na obra desse último o estilo de ensinar em perguntas para induzir o instruendo ao conhecimento por conta própria (maiêutica), muito pelo contrário, mas falta-lhe a elaboração de sistemas filosóficos mais sofisticados. De certa forma, sempre haverá a suspeita de que Platão colocou na boca de seu mestre ideias que, na verdade, seriam suas (19).

E no caso de Jesus Cristo a situação piora, pois nem sequer temos um registro de contemporâneos dele. A aparente similaridade entre os evangelhos sinópticos é ilusória, pois Lucas e Mateus são, muito provavelmente, dependentes do fio narrativo de Marcos. Quando lidos em paralelo, as discrepâncias aparecem, não apenas em pormenores narrativos, mas até mesmo na teologia. Por exemplo: as bem-aventuranças em Mateus buscam mais aplacar o sofrimento moral, ao passo que Lucas enfoca mais a questão social. Como se isso já não bastasse para criar certo desconforto aos cristãos ortodoxos, eles resolveram adotar João, que traz um perfil com diferenças ainda mais gritantes:

Sinópticos João
  • Começa com João Batista ou histórias da natividade e infância.
  • Jesus é batizado por João.
  • Jesus fala em parábolas e aforismos.
  • Jesus é um sábio.
  • Jesus é um exorcista.
  • O Reino de Deus é o tema de seus ensinos.
  • Jesus fala pouco de si mesmo.
  • Jesus toma partido dos pobres e oprimidos.
  • O Ministério público de Jesus dura um ano.
  • O incidente do Templo é tardio.
  • Jesus toma a Última Ceia com seus discípulos
  • Viés apocalíptico forte ou mediano.
  • Baixa cristologia (Jesus humano).
  • Começa com a criação. Nenhum registro sobre nascimento ou infância.
  • O batismo de Jesus é pressuposto.
  • Jesus fala em longos e elaborados discursos.
  • Jesus é um místico.
  • Jesus não faz exorcismos.
  • O próprio Jesus é o tema de seus ensinamentos.
  • Jesus reflete extensamente sobre si e sua missão
  • Jesus tem pouco a dizer sobre os pobres e oprimidos.
  • O ministério público dura dois anos.
  • O incidente do Templo ocorre cedo.
  • Lavagem dos pés e “Discurso de Despedida” no lugar da Última Ceia.
  • Ausência de escatologia.
  • Baixa e alta cristologia (Jesus divino).

E posso complicar ainda mais: basta lembrar que há um “Jesus folclórico” permeando vários textos apócrifos, com direito a emoções, digamos, “humanas demais” e atitudes que lembram mais um feiticeiro que um messias. Ah! Não esqueçamos do exotérico Cristo dos evangelhos gnósticos, claro.

Não creio que todas essas visões de Jesus Cristo (ou Sócrates) sejam ao mesmo tempo verdadeiras, como naquela historinha dos três cegos tateando um elefante (18). As personagens dessa história poderiam pesquisar o animal mais demoradamente, dar-se conta que tomavam partes dele como o todo, trocar ideias e daí imaginar o animal completo. Mas esses hipotéticos “pesquisadores do elefante” tinham duas vantagens em relação aos historiadores do Jesus e do Sócrates históricos: possuíam seu objeto de análise completo à disposição e, em princípio, ninguém havia enxertado algum pedaço alienígena ao animal. Assim, o desafio que os historiadores enfrentam é muito mais difícil e, justamente por isso, instigante.

Se isso não te convenceu, então vou me valer de outra figura famosa: Paulo de Tarso. Ao contrário desses dois exemplos, chegaram até nós cartas que são tidas como de autoria genuína dele e um relato em segunda mão de seu trabalho missionário contido em boa parte de Atos dos Apóstolos. Acontece que nem tudo é harmonioso entre essas partes. Compare:

Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça,

Revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue,

Nem tornei a Jerusalém, a ter com os que já antes de mim eram apóstolos, mas parti para a Arábia, e voltei outra vez a Damasco.

Gálatas 1:15-17

Com isto:

E, quando Saulo chegou a Jerusalém, procurava ajuntar-se aos discípulos, mas todos o temiam, não crendo que fosse discípulo.

Atos 9:26

Afinal, após a experiência com a visão de Jesus, o gatilho para a transformação de Saulo em Paulo, o futuro apóstolo foi (levado) direto para Damasco ou passou um tempo na Arábia antes (20)? Se acha isso um pormenor sem significância, há outras questões bem cruciais em jogo, por exemplo, será que o “Concílio de Jerusalém” (At 15 e, talvez, Gl 2) conseguiu convencer a todos os judeus cristão que os seus irmãos gentios estavam dispensados da Lei Mosaica? Se assim o fosse, qual o porquê das Epístolas Pseudoclementinas com sua crítica velada a Paulo e defesa da primazia de Pedro? Lucas tenta passar em Atos que qualquer disenção entre os primeiros cristãos era resolvida por algum consenso entre as lideranças. Talvez a concórdia não fosse tão plena assim (21). É possível que haja tanta diferença entre o “Paulo histórico” e o “Paulo segundo Lucas” quanto entre o “Jesus histórico” e o “Salvador do Mundo” contido em seu evangelho.

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“E Tu Também!”

Aliás, o próprio site se contradiz nisso, ao defender ideias de certos autores tiradas de obras de outros autores.

Simplesmente porque é impossível, para mim, ter todas as fontes primária que gostaria. E olhe que muito de minha biografia envolve livros caros, raros, importados e há muito não impressos. Muita coisa coisa até já está gratuita na Internet, mas é preciso que já esteja em domínio público e alguma alma caridosa a tenha digitalizado. No caso o II Concílio de Constantinopla, creio que já rastreei os cronistas de época mais importantes, cujos nomes já estão supracitados.

Quanto a consultar outros autores, sim, deve-se fazê-lo mesmo que se tenha a fonte primária, para que se inteire do que outros já pensaram sobre o tema, cruze informações e, então, crie um juízo próprio. A questão é quem você consulta: historiadores profissionais e/ou renomados ou leigos, no caso “leigos espiritualistas”. É impressionante que historiadores que escreveram longas páginas sobre a querela arianista e, mais tarde, sobre o movimento monofisita passem quase que de raspão na Segunda Crise Origenista. Ela sem dúvida tem importância no estudo do origenismo, mas será que teve tanta relevância na política imperial? Na história do cristianismo? Provavelmente, não:

A condenação do origenismo em 553 não teve o eco de alcance mundial que a disputa dos Três Capítulos criaria. A disputa foi bem sucedidamente decidida em particular com os monges afetados antes e, dentro desse grupo, especialmente os monges da Palestina. Mesmo lá, ele afetou predominantemente, conforme os princípios do evagrianismo ascético, apenas uma classe, na verdade um exótico grupo de monges, que após uma dura praktike estavam treinados para a theoria e, após essa preparação, confessavam a extrema cristologia evagrianista. Contudo, é adequado notar a explosiva natureza dessa posição. Foi apenas no século sexto que ela teve efeito, como os cânones de 553 e, posteriormente, nossas exposições sobre o patriarcado de Jerusalém mostrarão.

[Grillmeier, parte III, cap. III, p. 408]

Se quer ter ideia do que esses monges palestinos elucubravam, busque saber sobre O Livro de Hierotheos, outra fonte primária – dessa vez dos origenistas. Duvido, contudo, que você ou qualquer outro espírita compre o pacote inteiro.

Como só encontro material espiritualista falando de tal “catástrofe histórica”, fico com a impressão que boa parte do movimento padece de uma “síndrome de paraíso perdido”: a ideia de que o cristianismo antes do século VI era uma espécie de protoespiritualismo. Não vejo fundamento algum para tal crença. Os primeiríssimos cristãos foram apocalipsistas – uma característica ausente nos espiritualistas modernos -, os traços gerais da ortodoxia nicena já estavam delineados no século III, Orígenes nunca foi consenso e o reencarnacionismo dele era incompatível com o seu (22). A Segunda Crise Origenista (sabiam que houve outra?) foi, de certa forma, fim de feira.

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Uma Incoerência ao Final

Realmente, as críticas desse site não persuadem ninguém!

Se não convencem a ninguém, então por que dedicar um artigo a elas? E mais: por que selecionar esse artigo para uma coletânea e, ainda por cima, encabeçando-a? Estranho. De certa forma, mereceram alguma atenção justamente por significarem algo. O que foi é que não está claro. Talvez tenha sido grande o incômodo que ser lhe apontadas fraquezas argumentativas que antes julgasse exclusivas da ortodoxia cristã que tanto critica. Porém também sei que quando os critica não os quer mal, mas que evoluam para o que julga ser mais condizente com a mensagem cristã. Da mesma forma, não gostaria que levasse para o lado pessoal, mas como um apelo e convite para que qualidade da argumentação espiritualista melhore.

Tenho ciência que boa parte de seus confrades jamais admitirá que o movimento foi vítima de um hoax, seja por convicção, para não ferir o orgulho ou credulidade em teorias conspiratórias. Por incrível que pareça, a simples tentativa de desmentir boatos pode acabar por reforçá-los, embora ainda tenha eu alguns fios de esperança a que me agarro, como a considerável mudança de opinião de um conhecido seu e também profícuo articulista.

Após ter feito esta pequena propaganda de um livro seu, gostaria de fazer outra, só que agora do livro
Reincarnation in Christianity, escrito por seu confrade teósofo Geddes MacGregor. Não que eu morra de amores pelo livro ou o considere isento de pontos duvidosos, mas seu entendimento sobre o começo do cristianismo como credo profético e apocalítico, sobre as crises origenistas e de como se poderia conceber a atual ortodoxia aceitando a reencarnação é muito mais produtivo do que o que tenho visto por aí. Ele tenta conceber uma delicada adaptação entre o conceito de salvação e o de reencarnação, de futura aceitação um tanto incerta, mas que respeita a História do Cristianismo, em vez de sugerir que ela é uma fraude.

Um outro Olhar

Tudo de bom e que possamos um dia nos falar em termos mais amenos.

Notas

(1) Sugestões de leitura:

  • What Is This Thing Called Science?, de A.F. Chalmer, Hackett Publishing Company; 3ª ed. (1999)
  • A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn, editado em português pela Perspectiva

(2) Sugestões de leitura para o autor Ehrman sobre o Jesus apocalipsista: [Ehrman (1999)] e [Ehrman (2004)]. Sobre a descrença de Ehrman, ver O Problema com Deus, 2008, Agir.

(3)Fração da moeda grega dracma. Lembra da parábola “Óbolo da viúva”.

(4) [Cesaretti, cap. XIII, p. 228-230]

(5) Cf. Janin, Raymond; Constantinople Byzantine. Développement urbain et répertoire topographique. 2ª ed., Paris, 1964, p. 151

(6) Cf. [Rollo-Koster].

(7) Cf. Código de Justiniano 1.5.12.

(8) Seita muçulmana, presente em partes da Síria e do Líbano, que acredita num sistema reencarnacionista sem karma: ao longo dos tempos cada alma é submetida a inúmeras experiências diferentes, não havendo relação de “causa e efeito” entre elas. Na consumação final, é feito um balanço das ações feitas em sua existência total, o que decidirá se o destino dela será o paraíso ou o inferno.

(9) A principal diferença entre as duas maiores correntes do islamismo – sunitas e xiitas – é sobre como deveria ser a liderança da comunidade após a morte do profeta Maomé. Os primeiros defendiam a escolha de líderes entre os membros da comunidade, ao passo que os últimos defendem que sucessão sempre pertença aos descendentes da união entre Ali e a filha de Maomé chamada Fátima. Perseguidos desde o princípio pela maioria sunita, o movimento xiita ganhou um perfil radical e uma de suas mais extremadas facções era a dos ismaelitas, crentes na figura do imã, um infalível e inspirado descendente de Ali e Fátima, por intermédio de Ismael, a ser obedecido sem objeção. No século X, o poder no Egito foi tomado por uma dinastia que alegava esse parentesco e estabeleceu o califado fatímida (de Fátima) do Cairo, para rivalizar com o califado sunita de Bagdá.

No tempo das cruzadas, o império fatímida entrou em declínio e foi finalmente tomado por lideranças sunitas oriundas da Síria. Pela mesma época, um grupo de ismaelitas da Pérsia, sob o comando de Hasan Ibn al-Sabbah, estabeleceu-se nas montanhas da Síria e do Líbano, onde montou um complexo de fortalezas que serviu de base para suas campanhas de conversão e ataques aos sunitas, visando restaurar o reinado fatímida. Seu principal método era o terrorismo político: membros da seita se infiltravam entre a população próxima ao alvo e, quando sua comitiva passava, tentavam matá-lo e também todos os que estivessem ao redor. O nome de “assassino” (do árabe hashshashîn), atribuído a um fiel da seita, vem de seu hábito de tomar haxixe (hashish) para praticar um atentado em estado alterado e, assim, mais imune ao medo. A seita foi extinta no século XIII, com a ascensão de uma casta de guerreiros-escravos que tomou o poder do Egito à Síria – os mamelucos – e também destruiu os últimos redutos cruzados.

Uma curiosidade: a palavra “assassino” chegou ao ocidente por via italiana e, até hoje, no idioma inglês (assassin) se refere a quem atenta contra a vida de pessoas importantes.

(10)Seita gnóstica que atribuía à serpente (do grego ophis) a missão de ter revelado o conhecimento para Adão e Eva, coisa que o demiurgo queria ocultar.

(11)Antiga ordem monástico-militar da Igreja Católica. Sua principal missão era guardar os lugares santos nas terras cruzadas e zelar pelo bem-estar dos peregrinos. Também foram usados como exército regular no combate a tropas muçulmanas. Por desenvolver sofisticada rede de abastecimento para suas tropas no Levante, a Ordem dos Cavaleiros Templários despertou a cobiça do rei francês Felipe IV e, principalmente após a perda de prestígio com o fim do ciclo das cruzadas, foi alvo de uma campanha difamatória promovida por ele, envolvendo acusações de sodomia, feitiçaria e prática secreta do islamismo. A ordem foi extinta, seu líderes queimados e seus bens confiscados. Em tempos modernos, desenvolveu- se toda uma mística em torno do destino dos templários, com direito a teorias especulativas alegando a existência de remanescentes, responsáveis por guardar o Santo Graal ou o tesouro de Salomão.

Por outro lado, sua ordem irmã – os Hospitalários – sobreviveu à Idade Média, em parte por ter uma base segura em na ilha de Rodes e, depois, em Malta, onde poderiam se refugiar. Além disso, a própria sorte dos templários os convenceu da importância de manterem um corpo de advogados profissionais para defender seus interesses, coisa com que seus rústicos irmãos não puderam contar. Com o tempo, o Hospital perdeu seu caráter militar e essa transição suave fez com ela praticamente não tivesse mítica alguma junto ao grande público leigo.

(12) “Continentais” no sentido de “pertencentes à Europa continental”, para diferenciar da maçonaria do arquipélago britânico.

(13) Não está claro se esse número (cem mil mortos) se refere somente aos rebeldes ou também aos não combatentes mortos por ambos os lados. Malala, no livro XVIII de sua Crônica, falha em vinte mil mortos em combate e número igual vendidos como escravos, crianças entre esses. Há, também, uma quantidade indeterminada de refugiados nas montanhas que foram mortos posteriormente. São mencionadas chacinas de cristãos pelos samaritanos, tanto por Malala quanto por Cirilo de Citópolis (A Vida de Saba, cap.LXX), mas seu total de vítimas também é desconhecido.

(14) Cf. Jesus Viveu na Índia, Ed. Best Seller, 7ª ed., cap. VI – “Considerações Finais”.

Bart Ehrman chega a fazer um breve comentário a respeito das teses do “Jesus Indiano” em [Ehrman (2003), cap. IV, p. 68]:

Outras falsificações têm sido perpetradas nos tempos modernos, de relevância direta para nosso corrente estudo de apócrifos cristãos antigos. Pode-se pensar que, em nossos dias e época, ninguém seria tão ardiloso para assegurar quaisquer relatos de primeira mão de Jesus como autênticos. Mas nada poderia estar mais longe da verdade. Estranhos evangelhos aparecem regularmente, se você souber onde procurá-los. Muitas vezes esses registram incidentes dos “anos perdidos” de Jesus, por exemplo, relatos de Cristo ainda criança ou jovem anteriores a seu ministério público, um gênero que retrocede até o segundo século. Esses relatos
algumas vezes descrevem viagens de Jesus à Índia para aprender a sabedoria dos brâmanes (como de outra forma ele seria tão sábio?) ou seus feitos no deserto, juntando-se com monges judaicos para aprender o caminho da santidade.

Esse parágrafo deixa transparecer que a tese não é levada muito a sério nos meios acadêmicos.

(15) Elementos de Teologia Espírita, EME.

(16) Analisando as Traduções Bíblicas

(17) História dos Concílios Ecumênicos, Paulus, 1995.

(18) Em determinada aldeia, chega um caravana transportando diversos animais tidos como exóticos para seus isolados habitantes. Três residentes cegos, que nunca haviam travado contato com um elefante, põem-se a tateá-lo. O que apalpava a orelha diz: “este animal se parece com um tapete”. O que apalpava a perna declara: “este animal se parece com uma coluna”. O terceiro, abrindo os braços sobre a lateral, é categórico: “Nada disso, este animal se parece é com uma parede.”

(19) Para um discussão pormenorizada a respeito do Sócrates histórico, cf. [Pensadores, vol. LIII, cap. II, pp. 33-5].

(20) E há quem tente harmonizar isso.

(21) Cf. [Ehrman (2003), cap. V, pp. 95 – 103; cap. IX, pp. 181-5]

(22) A concepção da reencarnação para Orígenes, como elaborada em sua obra De Principiis era “inter eras”. Teria havido várias eras antes desta em que vivemos e haveria outras após. A Bíblia falaria explicitamente de apenas três: a paradisíaca no começo de Gênesis, a atual e uma futura em Apocalipse, deixando as demais nas entrelinhas. Cada uma teria seu própria criação envolvendo uma região celeste, um firmamento, uma Terra e uma região infernal, que seriam habitadas respectivamente por anjos, corpos celestes (portadores de alma, segundo Orígenes), humanos e demônios. Originalmente, todas as almas teriam sido criadas perfeitas e puras, mas pelo mau uso do livre-arbítrio, se afastaram da graça e Deus criou essas quatro regiões para que pudessem se regenerar e distribuiu as almas conforme o grau de queda que tiveram. O destino de cada alma numa era futura estava condicionado às suas atitudes na anterior, podendo até mesmo haver quedas para níveis mais baixo. Ao final de cada era, ocorreria uma ressurreição e um julgamento final, seguido por um estado purgatório (fogo moral) a fim de preparar a alma para a próxima era. O diferencial da nossa seria a encarnação do Verbo coeterno do Pai, que se associou à única alma que não caíra para constituir a natureza humano-divina de Jesus Cristo. Seu sacrifício na cruz teve o poder de catalizar a retorno das almas à beatitude original. Por fim, o último inimigo – a Morte – se tornaria submisso a Deus por meio de Jesus. É bom ressaltar que Orígenes era contra a ideia de múltiplas vidas dentro de uma mesma era, como deixou claro em outras obras.

Se atentarmos que Bíblia identifica claramente a existência de pelo menos três eras (a primeira antes da queda de Adão, a atual e o pós-apocalipse) e que, de certa forma, a ressurreição cristã também é um tipo de reencarnação, então o origenismo guarda mais similaridades com a ortodoxia cristã do que com o kardecismo.

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Para Saber Mais:

– Alberigo, Giuseppe; História dos Concílios Ecumênicos, Ed. Paulus, 1995.

– Cesaretti, Paolo; Theodora – Empress of Byzantium, tradução inglesa de Rosanna M. Giammanco Frongia, Vendome Press, 2001.

– Ehrman, Bart D.; Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millennium, Oxford University Press, 1999.

_______________; Lost Christianities, Oxford University Press, 2003

_______________; The New Testament: A Historical Introduction to the Early Christian Writings , Oxford Press, 2004

– Grillmeier, Aloys & Hainthaler, Theresia; Christ in Christian Tradition, tradução inglesa Pauline Allen e John Caste, vol. II, parte II, Mowbray/ Westminster John Knox Press, 1995.

Os Pensadores, vol. LIII – Biografias I, Abril Cultural, 1972

– Rollo-Koster, Joëlle; From Prostitutes to Brides of Christ: The Avignonese Repenties in the Late Middle Ages, publicado em Journal of Medieval and Early Modern Studies – Volume 32, nº 1, Inverno 2002, pp. 109-144.

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A Reencarnação na Bíblia e na Ciência

28 de maio de 2013 Deixe um comentário

A História como o Espiritualismo gostaria que fosse. Gostaria.

Autor: José Reis Chaves, ebm editora, 7ª ed.

Fiquei na dúvida se classificaria este livro como de “Ciência e Religião” ou de “História”. Optei por esta última porque vou apenas me deter ao capítulo VI e VIII da obra, que têm um cunho mais histórico. Bem, aqui vai uma relação de “problemas” encontrados:

São Justino, mártir, autor de Apologia da Religião Cristã, também faz parte da lista de santos reencarnacionistas e sábios do cristianismo primitivo. Segundo ele, “a alma habita corpos sucessivos, perdendo a memória das vidas passadas” (16)

Cap VI. p.203

e em nota de rodapé:

(16)A Reencarnação e a Lei do Carma, pág. 46, William Walker Atkinson, Editora Pensamento, São Paulo, SP.

É uma citação de citação e quem buscar a obra de Atkinson não encontrará referência alguma. Puxa-se o fio para descobrir que não há nada na outra ponta. Por meio de citações análogas feitas por outros espiritualistas, chega-se ao livro Diálogos com Trifão, cap. IV. Quando se lê esse texto, constata-se que Justino ainda era pagão e foi convencido de estar errado por seu interlocutor. Se o leitor ainda acha que ele continuou reencarnacionista ainda cristão, tudo bem. Mas lembre-se: o ônus da prova passa a ser teu, i.e., diga a todos onde ele escreveu isso!

Ademais, São Clemente de Alexandria era liga à corrente gnóstica cristã, e os gnósticos eram contrários à entrega espontânea ao martírio por parte de muitos cristãos da época dele. E, assim, sempre que lhes fosse possível, eles protegiam sua vida contra as perseguições dos inimigos do cristianismo (…)
Fócio, um patriarca de Constantinopla no século IX, era político ambicioso e sem escrúpulos, como diz a História, e responsável pelo Cisma dos Gregos, em 863, foi, no entanto, escritor de talento.

Sempre houve uma certa rivalidade entre os sábios de Constantinopla e os de Alexandria, sendo que os desta cidade sempre levavam vantagem sobre os daquela. E essa rivalidade atingiu os próprios patriarcas das duas cidades.

Não se sabe muito bem por que, pois Fócio viveu cerca de seiscentos anos depois de São Clemente de Alexandria, mas o fato é que Fócio escreveu um trabalho em que desprestigiava muito o célebre sábio de Alexandria, de cuja universidade São Clemente foi reitor. Teria Fócio escrito esse livro por causa da citada rivalidade intelectual que havia entre os sábios de Constantinopla e Alexandria?

O certo é que o Papa Benedito (Bento) XIV, em meados de século XVIII, após ter lido a referida obra do patriarca de Constantinopla, Fócio, decidiu-se pela cassação do título de santo de São Clemente, cujo nome foi tirado do calendário de santos da Igreja.

Se Fócio, como vimos, era um político ambicioso e de poucos escrúpulos, além de ter sido responsável pelo Cisma Grego (863) já mencionado, é estranho que o Papa Benedito (Bento) XIV tenha se deixado influenciar pela citada obra de Fócio. Por isso, nos arriscamos a dizer que o fato dessa cassação do título de santo de São Clemente de Alexandria, por parte de Benedito (Bento) XIV, poderia ter sido, na verdade, a crença de São Clemente na reencarnação, fato esse que passou a se destacar muito, justamente na época de Benedito (Bento) XIV.

cap. VI, pp. 200-1.

Em primeiro lugar, situemos qual obra de Fócio deve ser pesquisada: Biblioteca (Myriobiblon). Ao contrário do que se alega, não foi escrita no intuito de denegrir Clemente de Alexandria por ele ser de uma escola teológica rival, que, por sinal, àquela época já estava sob domínio muçulmano e fora das maquinações da corte bizantina. Biblioteca é, na verdade, um grande conjunto de resenhas de mais de 200 livros de diversos teólogos lidos e comentados por Fócio. No bojo dessa “biblioteca”, Fócio comenta três obras de Clemente de Alexandria e o que talvez seja de interesse dos autores reencarnacionistas seja a entrada 109 acerca da obra Esboços. A questão é que esse livro está perdido atualmente e não dá para saber até que ponto a resenha dele é justa ou não. As outras duas (Miscelâneas e Tutor) receberam comentários bem mais simpáticos. Em Miscelâneas, por sinal, fica claro que o conceito dele de gnose é bem diferente das seitas gnósticas, às quais ele combate no livro.

Orígenes é conhecido como um dos maiores sábios cristãos de todos os tempos. Foi praticamente o criador de nossa teologia cristã. E, como apenas 17 anos, foi reitor da Universidade de Alexandria, em substituição a São Clemente de Alexandria. E diga-se, de passagem, que Alexandria foi o maior centro intelectual do mundo, na época de Orígenes, século 3º.

cap. VI, p. 203.

Eusébio de Cesaréia – o principal biógrafo de Orígenes -, em seu “História Eclesiástica”, Livro VI, cap. III, item 3, informa que Orígenes dirigiu a Escola Catequética da cidade. Um cargo importante para a comunidade cristã, de fato, mas irrelevante para o mundo pagão a sua volta.

São Jerônimo (…) também aceitava a reencarnação. Aliás talvez seja por isso que a Igreja pouco fale de São Jerônimo.

Ele afirma que a transmigração das almas foi ensinada durante um longo tempo na Igreja. (9)

Muito do que escreveu São Jerônimo escreveu está em forma de cartas. Em suas Cartas a Avitus, imperador romano, Jerônimo fala sobre a reencarnação (transmigração das almas) (10).

E eis o que escreveu São Jerônimo: “A transmigração das almas é ensinada secretamente a poucos, desde os mais remotos tempos, como uma verdade não divulgável”.(11)

Cap. VI, p. 210-211

As notas de rodapé são:

(9) Evangelho Esotérico de São João, pág. 68, Paulo le Cour, São Paulo, 1993.

(10) Vidas Passadas – Vidas Futuras, pág. 237, Dr. Bruce Goldberg, Editorial Nórdica Ltda. Rio de Janeiro, 1993.

(11) O Mistério do Eterno Retorno, pág. 123, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, SP.

Não existiu nenhum imperador romano de nome Ávitus durante o tempo de vida de Jerônimo. Apenas trinta anos após sua morte houve um que governou por cerca de um ano. Pouco se sabe a respeito do destinatário dessa carta. Ademais, ela não tem referência elogiosa alguma para a reencarnação, muito pelo contrário: é a carta em que Jerônimo expõe uma sinopse de sua tradução de De Principiis e o critica o tempo todo.

São Gregório de Nissa era reencarnacionista e fazia parte dos teólogos cabalistas que afirmavam que o maior argumento a favor da reencarnação era a justiça de Deus.(14)

Um texto dele: ”Há necessidade de natureza para a alma imortal ser curada e purificada, e se ela não o for na sua vida terrestre, a cura se dará através de vidas futuras e subsequentes.”(15)

Cap VI; p. 212

notas de rodapé:

(14) A Reencarnação e a Lei do Carma, pág 47, William Walker Atkinson, São Paulo, SP.

(15) Reencarnação, pág. 153, John Van Auken, Editora Record, Rio de Janeiro, RJ, 1989; e O Mistério do Eterno Retorno, pág. 123, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, SP.

Bem, estamos diante de mais uma “citação de citação” patrística sem referência exata da fonte. Diz-se o nome do autor, mas nada sobre a obra de onde ela saiu. Chaves até acerta ao afirmar (um pouco antes) que Gregório de Nissa não cria na “eternidade do inferno” e, junto a Orígenes, foi um dos poucos universalistas da patrística. Entretanto, como fica patente em suas obras Sobre a alma e a Ressurreição e Sobre a Construção do Homem (cap. XXVIII), Gregório de Nissa acreditava que a alma se formava junto com o corpo (traducianismo).

Santo Agostinho morreu em 430, ou seja, 123 anos antes de V Concílio Ecumênico de Constantinopla II (553), o qual, supostamente, teria condenado a reencarnação.

Cap. VI, p.209-10

Agostinho de Hipona, mais de 123 antes de 553, já condenava o origenismo com seu sistema inter eras (Dos Processos de Pelágio, cap. IX e X.) e as ideias universalista ao estilo de Gregório de Nissa (Cidade de Deus, XXI, 17), afinal fora contemporâneo à primeira crise origenista. Podes até achar cruéis as palavras de Agostinho – também acho – mas era o que ele realmente pensava. Apesar de sugerir certo tipo de preexistência em Confissões, recusava-se a fazer qualquer afirmação categórica quanto a origem da alma (Da Alma e Sua Origem, Livro I, cap. III) adota a vida única em estado mortal. Uma combinação sui generis. Ironicamente, um autor usado por Chaves – William Walker Atkinson, em A Reencarnação e a Lei do Carma, p. 47; uma página após falar de Justino – já falava da oposição de Agostinho ao origenismo.

A Igreja teve alguns concílios tumultuados. Mas parece que o V Concílio de Constantinopla II (553) bateu o recorde em matéria de desordem e mesmo de desrespeito aos bispos e ao próprio Papa Virgílio, papa da época.

O imperador Justiniano tem seus méritos, inclusive o de ter construído, em 552, a famosa Igreja de Santa Sofia, obra-prima da arte bizantina, hoje uma mesquita muçulmana.

Era um teólogo que queria saber mais que teologia do que o papa. Sua mulher, a imperatriz Teodora, foi uma cortesã e se imiscuía nos assuntos do governo do seu marido, e até nos de teologia.

Contam alguns autores que, por ter sido ela uma prostituta, isso era motivo de muito orgulho por parte das suas ex-colegas. Ela sentia, por sua vez, uma grande revolta contra o fato de suas ex-colegas ficarem decantando tal honra, que, para Teodora, se constituía em desonra.

Para acabar com esta história, mandou eliminar todas as prostitutas da região de Constantinopla – cerca de quinhentas.

Como o povo naquela época era reencarnacionista, apesar de ser em sua maioria cristão, passou a chamá-la de assassina, e a dizer que deveria ser assassinada, em vidas futuras, quinhentas vezes; que era seu carma por ter mandado assassinar as suas ex-colegas prostitutas.

O certo é que Teodora passou a odiar a doutrina da reencarnação. Como mandava e desmandava em meio mundo através de seu marido, resolveu partir para uma perseguição, sem tréguas contra essa doutrina e contra o seu maior defensor entre os cristãos, Orígenes, cuja fama de sábio era motivo de orgulho dos seguidores do cristianismo, apesar de ele ter vivido quase três séculos antes.

Como a doutrina da reencarnação pressupõe a da preexistência do espírito, Justiniano e Teodora partiram, primeiro, para desestruturar a da preexistência, com o que estariam, automaticamente, desestruturando a da reencarnação.

Cap. VIII, p. 231-2

Não há evidência histórica alguma quanto a essas alegações e nem referência que se preze é fornecida. Seria um boato espalhado? O único cronista da época (Procópio: Dos Edifícios, Livro I, cap. IX, e História Secreta, cap. XVII) que comenta sobre Teodora e as 500 prostitutas, não assevera nenhuma chacina e não relaciona isso com o V Concílio. Os cronistas que efetivamente falaram do V Concílio ou do sínodo de 543 (Cirilo de Citópolis: Vida de Saba; Liberato de Cartago: Breviarium…, cap. XXIII e XXIV; Evágrio Escolástico: História Eclesiástica, Livro IV, cap. XXXVIII) mostram que o estopim para a sua convocação partiu de baixo para cima, mais especificamente através da solicitação de monges ortodoxos da Palestina. Nenhum dá importância à Teodora no desenrolar dos acontecimentos e, inclusive, Liberato (cap. XXIV) a expõe como favorecedora de um origenista. Ademais, não há explanação alguma quanto à Primeira Crise Origenista ocorrida 150 anos antes e que praticamente definiu os dogmas da ortodoxia quanto à origem e o destino da alma.

* * *

Bem, o panorama é esse: em pouco espaço de texto, uma quantidade alta de erros históricos. Livros com erros são coisas da vida e compra quem quiser. As edições mais antigas do mesmo livro tinham o título A Reencarnação Segundo a Bíblia e Ciência e, conforme entrevista dada pelo autor, ele teria sido usado para trabalho na PUC-RS. De posse das informações acima, será que ainda seria usado?

O problema desses capítulos é que não se fez uma verdadeira pesquisa a respeito do cristianismo primitivo, em especial, da ortodoxia. Caso estivéssemos falando de seitas gnósticas, seria menos complicado para ele, pois muitas eram realmente reencarnacionistas, apesar de não crerem que estar encarnado fosse algo bom… Onde o livro “peca” é em atribuir à própria ortodoxia um pensamento reencarnacionista moderno. Uma simples leitura das obras da patrística desfaria muito dos equívocos aqui mostrados, mas o que se vê é um apanhado de informações de segunda mão, muitas duvidosas. Não que fazer “citações de citações” seja algo proibitivo, até porque muitas vezes o original pode não estar tão acessível assim, porém até para isso há convenções a que convém seguir. Primeiramente, a referência deve encadear até que se chegue à fonte primária. Quanto mais distante estiver a citação presente da ponta da cadeia, pior; já que aumentam as chances de ter ocorrido alguma prática de misquotation ou cherry picking. Outro pormenor importante é saber de quem você está pegando a informação. É um trabalho acadêmico ou algo de caráter mais jornalístico, voltado à divulgação e ao lucro? As fontes dos capítulos em questão encontram-se majoritariamente neste segundo e bem mais fraco grupo ou, no caso de Teodora, não há uma referência sequer. Isso viola o princípio da verificabilidade: uma fonte bem indicada para que outros possam lê-la e, se for o caso, refutá-la. Até a mal afamada Wikipedia procura seguir isso. E, em terceiro, é preciso ter em mente que fontes primárias são sempre filtradas pelas secundárias. O ideal é sempre ler as primárias e, então, partir para uma gama de secundárias para se inteirar do que os pesquisadores antes de ti já pensaram, porque eles descartaram ou relativizaram esse ou aquele testemunho, e só daí tecer o seu juízo. Afinal você também será uma fonte secundária para outros e deve se embasar em argumentos e evidências de melhor qualidade, e não meramente pinçar esse ou aquele autor que lhe aprouver. Quando isso não é plenamente possível, prefira os autores que fornecem generosos extratos dos originais em que se basearam e os discutem, também mostrando opiniões contrárias as sustentadas, ainda que para mostrar que estão erradas logo depois. As chances de má fé são menores, mas não impossíveis.

No caso da patrística, boa parte dos originais já está disponível ao público. Temos as séries Nicene and Ante-Nice Fathers – já de domínio público – em vários portais como o Sacred Texts ou a Christian Classics Ethereal Libary (em inglês), várias obras de autores cristãos primitivos em Documenta Catholica Omnia (vários idiomas, principalmente grego e latim), e finalmente o Google Books nos oferta digitalizações da Patrologia Graeca e da Patrologia Latina, de Migne. Estas duas últimas são, sem dúvida, as coletâneas mais completas de obras da Patrística atualmente em domínio público. Como a Patrologia Graeca é bilíngue, o conhecimento de latim é suficiente para ambas. Se você é monoglota, existe a coleção Patrística, da editora Paulus. Só que ela não é tão exaustiva como as anteriores e juntar todos os seus volumes pode doer no bolso, além de existir certo preconceito no meio espiritualista contra editoras católicas. Mas cá entre nós: se tens alguma pretensão em ser estudioso (em qualquer coisa), vais ter que aprender alguma língua estrangeira. Viva, morta ou moribunda. Portanto, não há desculpa para deixar de ler os originais neste assunto.

Avaliação: Sem nota. Não avaliei o livro inteiro porque o resto não me atrai tanto, então me abstenho. Mas a porção analisada merece séria revisão.

Recomendado para: quem ainda quer arriscar quanto ao que é dito sobre reencarnação na ciência nesse livro, por sua própria conta e risco. Mas, sinceramente, sugiro que se leia o portal Existem Espíritos. É gratuito, tem vasto estoque de artigos quanto ao estado da arte e, o melhor de tudo, não subordina as pesquisas científicas às crenças religiosas espiritualistas (use a codificação UTF-8 em seu navegador). Para quem souber inglês e desejar saber mais sobre a compatibilidade entre cristianismo e reencarnação, recomendo Reincarnation in Christianity, de Geddes MacGregor. Não que eu assine embaixo de tudo que ele diz, mas ele respeita muito mais a história do cristianismo que a maioria dos autores espiritualistas.

Contendas do Deserto – As Crises Origenistas vistas de seus Epicentros

5 de setembro de 2012 4 comentários
Converti para PDF um longo estudo estudo em que reuni (quase) tudo que pude encontrar a respeito do tema. Espero que não tenha se tornado um daqueles textos que no afã de esgotar o assunto terminam por esgotar o leitor, mas não há caminho fácil. A questão origenista atravessou séculos, envolveu uma série de adversários e simpatizantes de Orígenes, foi de uma ponta a outra do mundo greco-romano e teve a consolidação da atual ortodoxia cristã como pano de fundo. Foi extremamente difícil um assunto não puxar outro e a maior dificuldade foi decidir o que ter de deixar de fora sem que algo mais adiante ficasse nebuloso. Podar demais poderia acarretar em similares às simplificações espiritualistas que ainda gracejam e ou omitir os documentos históricos que tanto cobrei. De certa forma, aqui está o trabalho que deveria ter sido dos espiritualistas, embora você talvez ainda encontre algum deles por este mundo virtual perguntando por fonte fidedigna para o “assassinato de 500 prostitutas a mando da imperatriz Teodora”, como se tudo tivesse sido acionado por esse episódio. Não foi e, mesmo que tivesse ocorrido, a condenação do teólogo Orígenes no II Concílio de Constantinopla teve outras causas bem mais profundas. E como se isso já não fosse surpreendente a muitos, se tal Concílio nunca ocorresse, o verdadeiro Orígenes jamais corroboraria o espiritualismo moderno e nem os espiritualistas aceitariam vários dos anátemas de 553.

Bem, eis o link para baixar:

Contendas do Deserto (pdf)

Para os que talvez se sintam intimidados pelo tamanho, informo que muito do conteúdo é composto por anexos ou de citações que podem ser lidos conforme a disponibilidade de tempo. Poderia ter dado apenas referências, mas preferi deixar tudo ao alcance de suas mãos para pudessem ter certeza de que tudo foi dito com conhecimento de causa. Expressões como “dizem” ou “sabe-se que” estão longe de ser praxe neste portal.

Termino colocando nesta postagem o último capítulo em sua totalidade. É um agradecimento singelo por tudo que aprendi.

* * *

Capítulo 21- Palavras Finais

Este artigo cresceu muito além do esperado. De início, almejava apenas traduzir as partes de A Vida de Saba correspondentes à segunda crise origenista e dar um breve complemento a ela. Esse complemento, porém, ganhou cada vez mais corpo até ficar praticamente mais importante que o texto de abertura. Não houve outro jeito, pois o tema Origenismo revelou-se tão complexo que qualquer tentativa de explanação sucinta corria o risco de cair em erros similares aos que tanto critiquei e, além disso, não é possível entender a própria evolução que a memória de Orígenes teve sem descrever o pano de fundo: as idas e vindas na consolidação da ortodoxia cristã.

Nos três anos em que me dediquei a este texto, vi ao longe mudanças em duas personagens que me motivaram a começar a tarefa, ainda que involuntariamente. No primeiro caso, José Reis Chaves lançou no final de 2009 o livro A Bíblia e o Espiritismo, que é uma coletânea de artigos seus no jornal mineiro O Tempo relacionados de alguma forma ao tema-título. Sinceramente, fiquei honrado em saber que o artigo Críticas sem Persuasão – justamente a maior propaganda gratuita que já me deram – é logo o primeiro. Vale assinalar que não é o artigo original postado na época, mas uma versão com as correções de uma errata, que, por sinal, piorou as coisas. Não foi à toa que fiquei contente: se Chaves concluiu dizendo que “as críticas desse site não persuadem ninguém” e ao mesmo tempo me deu esse destaque, então, de algum jeito, eu tive importância, ainda que não da forma mais producente.

Uma postura distinta, mas não exatamente oposta, foi tomada por Paulo da Silva Neto Sobrinho. Também profícuo articulista, Paulo Neto dedicara um artigo à questão origenista “Reencarnação no Concílio de Constantinopla – Orígenes x Império Bizantino”. Bem, na verdade, há três versões desse artigo circulando pelo veio virtual. A primeira, de 2005, transcreve textos de autores que defendem uma teoria conspiratória no século VI e não os questiona praticamente. A versão de 2007 se deu após o autor tomar ciência do pouco embasamento de alguns dos autores que utilizara. Uma sirene de alarme foi acionada e artigo ganhou mais extratos de autores espiritualistas, perdeu alguns trechos dúbios, e Paulo Neto se dedicou um pouco mais à análise de evidências, em particular, à História Secreta, de Procópio. Foi essa a versão destrinchada dois capítulos antes. A última mudança foi em 2010, e o estado atual do artigo pode ser resumido a duas palavras: concessão e cautela. Algo da primeira e um bocado da última. A historicidade do episódio de Teodora e as 500 prostitutas é vista com ressalvas, finalmente se reconhece que o “Orígenes histórico” não corresponde ao “Orígenes idealizado” por muitos espíritas/espiritualistas – embora o perfil do alexandrino apresentado ainda deixe a desejar – e admite-se que há pouca evidência para a uma alegada multidão de teólogos ortodoxos reencarnacionistas até o século VI. Sem dúvida, foi mudança e tanto de postura, mas o autor ainda é um apologista espírita e tem de cumprir esse papel. Talvez por isso não tenha esmiuçado os textos de outros autores que traz, evitando, apenas, comprometer-se com eles. Botar para valer o dedo em feridas seria pedir muito. O que mais chamou atenção, porém, foi ainda ter se detido em A História Secreta, nem mesmo outras obras de Procópio foram analisadas. De 2007 para cá, traduzi praticamente todos os principais cronistas do período e, se alguém não confiar em mim, deixei referências para acessar suas obras no idioma original. Por que não usar todo esse material novo? Talvez por demandar muito mais tempo refazer o artigo do zero tenha decido fazer referência a mim (a que sou grato) e deixar ao leitor a tarefa de estudar-me.

Ambos os autores acima possuem seus méritos intelectuais e arriscaria dizer que isso se estenderia a outros membros do grupo apologético a que pertencem. Contudo, justamente pelo seu compromisso assumido e, em parte, por reputações estarem jogo, suas capacidades não são usadas plenamente. Um exemplo interessante de situação similar foi dado pelo próprio Orígenes.

Numa das poucas trocas de correspondências que chegaram até nós, preservada em Filocalia, Orígenes discutiu com Júlio Africano, um erudito cristão romano que lhe escrevera questionando a autenticidade da história de Susana e os Anciãos, no livro de Daniel, que fora objeto de um dos trabalhos de Orígenes. Júlio observa que, além de não pertencer ao texto hebraico adotado pelos judeus do século III, a história possuía um estilo que destoava do restante do livro, sendo provavelmente espúria. Orígenes não só lançou uma defesa apaixonada da canonicidade da passagem, mas também de outras como Bel e o Dragão, a Oração de Azarias e o Cântico dos Três Judeus, que existem somente na versão dos LXX. Essa carta, ainda que involuntariamente, acabou por se tornar o exemplo de quando Orígenes enfrentou uma mente tão eclética quanto a sua, ao ponto de não ter sido capaz de refutar os argumentos literários de Júlio Africano e preferir calcar sua defesa num apelo à tradição da Igreja. O irônico é que Gregório de Nissa e Gregório Nazianzeno – os compiladores de Filocalia – preservaram a carta justamente por considerarem que foi bom o desempenho de Orígenes.

Guardada as devidas proporções, diria que a situação de muitos apologistas espíritas é análoga: são capazes de agir com destreza contra padres e pastores – gente mais comprometida ainda e seguidores de doutrinas bem engessadas – mas têm muita dificuldade com quem não encara a Bíblia como matéria de fé e que muito menos está presa ao Sola Scriptura ou à infalibilidade papal. Muitos de seus argumentos, infelizmente, não vão além de um conhecimento emprestado e que lhes dá uma rasteira quando descobrem esse autor não é a última palavra em gramática de uma língua antiga ou aquele outro é incapaz de fundamentar sua pesquisa histórica em documentos de época, ou pelo menos em outros pesquisadores realmente embasados. Os membros desses grupos muitas vezes se exercitam com pesos de isopor por não colocar a si mesmos à prova. Falta-lhes alguém que lhes dê o contraditório, um “advogado do diabo”. Algo que só detratores (como gostam desse rótulo!) com mais musculatura e menos amarras podem oferecer.

Por falar em diabo, antes que me recomendem para uma longa estadia no pior lugar do umbral, lembrem-se que Satanás originalmente não era o “diabo” que hoje conhecemos e, sim, um anjo que gozava de intimidade com seu deus, cumprindo apenas seu papel de promotor. Talvez por fazê-lo tão bem, tornou-se tão detestado. Assim vejo a mim e a vocês, meus caros espiritualistas: promotor e defensor, as duas faces de uma mesma moeda e, de certa forma, a razão de ser um do outro. Nossa relação conduz ao progresso mútuo, não por simbiose, mas por pura corrida armamentista. Talvez possamos tomar uma cerveja após cada sessão, porém, diante do júri, devemos fazer o que esperam de nós.

Outra limitação que vi aqui foi a maneira como lidam com o tema “Orígenes” que, em vez de ser algo merecedor de atenção por si só, tornou-se apenas um artifício, uma carta na manga para ser usada em debates. Não há nada que mais deprecie um objeto de estudo que isso. Portanto, não perca seu tempo perguntando por aí afora se alguém conhece a origem para a história das 500 prostitutas assassinadas. Se tal episódio tivesse o mínimo de embasamento, alguma biografia de Teodora já deveria tê-lo mencionado, não acha? Não fique matutando entre versões conflitantes a respeito do que Orígenes realmente acreditava. Leia Orígenes primeiro e descubra quais autores fazem análises mais fundamentadas e, a partir dessa comparação, verifique qual mais se aproxima. Por fim, acima de tudo, deixe o teólogo do século III falar mais alto. Fuja da tentação de elaborar um Orígenes a sua imagem e semelhança. Se ele acreditava em abobrinhas, como a vida das estrelas e planetas, era a opinião dele e cabe a você documentá-la e entender suas motivações; nunca ridicularizá-las Se a ideia de “queda” das almas de uma beatitude original para você não condiz com o que é de se esperar de um reecarnacionista, que pregaria um começo “simples e ignorante” para todos os espíritos, lembre-se que era isso o alegado por Orígenes. Tanto defensores como opositores dele não lhe negaram essa tese e tal entendimento é ponto pacífico entre os historiadores.

Confesso que inicialmente também buscava em Orígenes e Teodora apenas material que me fosse útil no portal. Foi a prazerosa leitura da biografia de Evans que realmente me despertou interesse pela figura de Teodora. Não queria mais saber apenas se ela mandara 500 prostitutas para o carrasco ou não e, sim, responder a mesma indagação (ou lamento) que Procópio fez: como pôde Justiniano escolher uma atriz/meretriz quando ele tinha ao seu dispor as mais casadouras donzelas da nobreza? A resposta só pode ser uma: era uma mulher extraordinária, em todos os sentidos que essa palavra possa assumir. O fato de vir da ralé social de sua época acabou se convertendo em uma vantagem, pois Teodora aprendeu na escola da vida muitas coisas que a vasta educação formal do futuro imperador nunca ofereceria e muito menos teriam a oferecer as ricas herdeiras preparadas para a submissão. Deve ter sido uma forte atração entre opostos que, em vez de enfraquecer passada a impressão inicial, evoluiu para uma estreita simbiose.

Chamo-a de extraordinária, sim, porque minha admiração não é pela devassa de A História Secreta, mas pela mulher de fibra que liderou a reação contra a revolta de Nika e que também segurou as rédeas do governo quando Justiniano quase morreu da peste, pela devota monofisita tida por santa pelos seus confrades, pela mão amiga estendida à desamparada Preiecta, por aquela que financiava a liberdade de prostitutas, pela provável inspiradora das leis em prol das mulheres no Código de Justiniano e pela esposa dedicada cuja morte abalou profundamente seu marido. Enfim, Teodora vai além de uma simples obra de Procópio e os livros espiritualistas com quem me deparei não conseguiram buscá-la nas demais obras dele e muito menos em outros autores do período. Não sei se por ignorância, comodismo ou conveniência, para eles existe apenas uma “prostituta” para suas teses conspiratórias.

O despertar de meu interesse por Orígenes foi um pouco diferente, mas também partiu de uma pergunta capciosa: “quem foi esse indivíduo que provocava tão intensas emoções de amor e ódio, às vezes na mesma pessoa?” Foi algo estupidamente mais difícil de responder. O alcance de Teodora, bem ou mal, não foi muito além de sua vida e seu protegido movimento monofisita já estava revitalizado o bastante para continuar pelas próprias pernas. Já com Orígenes, temos o oposto:seu poder foi maior APÓS sua morte. E não era por menos, pois, ao contrário de Teodora, ele deixou vários escritos que foram lidos e relidos por gerações. Portanto, não é exagero dizer que existiram diversos “Orígenes” do século IV ao VI, ou melhor, cada grupo de teólogos relembrava Orígenes de um jeito. Estudá-lo acabou por ser algo como lidar com aquelas bonequinhas russas chamadas matrioskas: quando se abre uma, aparece outra dentro. Da mesma forma, um pequeno pormenor das crises origenistas encaminhava a análise para outro assunto. Orígenes se tornou tão instigante e desafiador por sua complexidade que, se você reler a cada cinco anos sobre os temas que o envolvem, vai sempre revisar esse ou aquele ponto sobre sua obra e de seus seguidores e detratores.

Então, apaixonei-me por meus objetos de estudo e maltratei muito meu cartão de crédito comprando livros que me fornecessem o máximo possível da vida, obra e época dos dois. Isso significou investir em literatura estrangeira, importada, especializada e, às vezes, esgotada das prateleiras. Mas assevero que valeu cada centavo. Lamento não ter tido desde início à minha disposição livros como When the Souls had Wings (“Quando as Almas tinham Asas”, de Terryl L.Givens) ou The Rise of Monophisite Movement “ (“A Ascensão do Movimento Monofisita, de William H.C. Frend), que fornecem informações valiosas sobre esse período turbulento da consolidação do cristianismo e,infelizmente, decidi não inserir para não ter que reorganizar a estrutura do artigo demasiadamente. Afinal, já levara três anos para uma tarefa que julgava não consumir mais que seis meses. Durante esse tempo, amadureci muito minha prosa e hoje já me considero capaz de conversar com meus leitores sobre as análises que tenho em mente, em vez de ser um mero catador de “falhas” ou compilador de citações como no início deste portal. Devo tudo isso a vocês e venho aqui deixar meu agradecimento pessoal e que possamos um dia “jogar conversa fora” em um território neutro e ameno.

Até mais e obrigado por tudo!!!

The Origenist Controversy – The Cultural Construction of an Early Christian Debate

16 de agosto de 2012 Deixe um comentário

Por Elizabeth Ann Clark, Princeton University Press.

The Origenist Controversy - visão lateral

Orígenes como você nunca viu (ou leu)!

É muito comum se usar em diversos debates usar um estratagema desonesto chamado de “rótulo odioso”: atribui-se ao oponente algum adjetivo tido como repugnante à plateia. Nos anos 60, quem que defendesse a reforma agrária, mesmo que não fosse compadre do Brizola, podia ser acusado de ter com o comunismo, de ser financiado pelo “ouro de Moscou”. Após a volta da democracia, o perigo está em atacar os ex-guerrilheiros de esquerda e, então, tornar-se suspeito de ser “filhote da ditadura”. Besteira. Achar que pegar em armas era a melhor – ou mesmo a única – maneira de combater os milicos é esquecer dos esforços dos vários políticos cassados do MDB, a ação da OAB pelos direitos humanos e a resistência passiva da Igreja Católica brasileira (já sua irmã argentina…). Chamar de herói quem só combatia uma ditadura de direita para impor outra de esquerda é, no mínimo, equivocado. A pior situação do rótulo odioso é quando o debate é ao vivo. Nessa circunstância, o calor das emoções embota o raciocínio e o tempo para o acusado ressaltar suas diferenças em relação ao atribuído é exíguo.

Por que estou relembrando essas histórias? Talvez seja uma atitude defensiva minha, mas já preparo terreno para o que pode vir. Desqualificam traduções porque o tradutor talvez tivesse interesses em defender certa facção, sem analisar o próprio texto traduzido. Um historiador não pode ser usado por ser membro do grupo vencedor (algum não é?). Um católico/protestante/ateu não pode criticar o espiritismo por ser fanático ou detrator. Assim, fica fácil. Porém é bem mais difícil acusar quem é do meio, ainda mais se for respeitado. Por isso, ninguém melhor para falar de Orígenes do que uma estudiosa declaradamente simpática a ele. Elizabeth Ann Clark (favor não confundir com a Prophet):

Minha abordagem, como mesmo um leitor desatento poderá notar logo, é admitidamente partidária. Trouxe todos os documentos que conheço para sustentar minha interpretação dos eventos, Estive ciente do começo ao fim de fazer uma leitura simpática do lado origenista do debate. Evágrio Pôntico, Rufino e os pelagianos são, portanto, os “heróis” de meu relato – e não Epifânio, Jerônimo e Agostinho. A minha abordagem não é a mesma da maioria dos livros-texto de teologia. É, em vez disso, uma tentativa de promover, por consideração, a teologia derrotada que, por alguns anos, moveu o mundo cristão em direção a uma nova criatividade intelectual.

Introdução.

Curiosamente, Clark fala pouco de Orígenes, dedicando-se mais a contar o que foi feito dele após sua morte. Ele é analisado de forma retrospectiva a partir das críticas de grandes antagonistas dos séculos IV e VI e de seus defensores. Como a própria diz na introdução:

Ainda permanece uma pergunta irritante: o debate era realmente sobre Orígenes? Por alguns ângulos, a resposta é não: “Orígenes” servia como uma palavra-código para vários tópicos problemáticos aos cristãos na virada do século V.

No primeiro capítulo, a autora ambienta o leitor com as relações de mecenato existentes ao fim do século IV. Muitas das personagens envolvidas nos ácidos debates (Jerônimo e Rufino, por exemplo) gozavam de generoso patrocínio de viúvas ricas. Mulheres a maioria das vezes desconhecidas para o grande público, mas que, por causa das redes socais de amizade e antagonismo que teceram, contribuíram para dar à crise origenista do século IV um tom extremamente vigoroso, para não dizer passional. Além de motivos teológicos, houve razões de cunho bem pessoal para que seus protegidos se empenhassem tanto; afinal, num mundo bem mais religioso que o nosso, era de vital importância garantir que realmente representava e defendia o “lado ortodoxo” da questão.

Rufino, Jerônimo e vários outros contendedores foram monges e promoveram comunidades monásticas em determinada etapa de suas vidas. Pois é pelo monacato oriental que surgiu outra faceta da primeira crise origenista, discutida no capítulo II. Entre os monges eruditos do deserto, a teologia origenista evoluiu para formas mais radicais, representadas principalmente na Kephalaia Gnostica de Evágrio Pôntico. O homem ainda mantinha ou não a imagem e semelhança de Deus ou as perdera depois da queda, quando teria recebido o invólucro carnal? Que repercussões isso teria para o sacramento da Eucaristia? O corpo de Deus (Cristo) poderia ser representado lá? Muitos historiadores da Igreja, como assinala Clark, acusam a repressão promovida pelo patriarca de Alexandria, Teófilo, aos monges do mosteiro de Nítria em 399 d.C. como motivada por fins políticos. Sua brevidade sugere que ela não era sincera ou motivada por fins exclusivamente teológicos. Ainda que fosse assim, as acusações de origenismo podiam, sim, ter certa razão, baseando-se na difusão que o evagrianismo alcançou nos mosteiros dos desertos.

Teófilo, por outro lado, pode ter apenas reproduzido um comportamento que já era recorrente desde meados do século IV: acusar adversários teológicos (ou políticos) de origenismo. Por incrível que pareça, a acusação de ser “origenista” se tornara um “rótulo odioso” tal qual comentado acima. Orígenes escreveu sua obra para uma realidade em que o gnosticismo era o principal desafio à teologia ortodoxa, mas após cem anos o panorama mudara bastante. De seita marginal, o cristianismo passou a ser a religião imperial e seus principais antagonistas também já não eram os mesmos. A controvérsia cristológica de Niceia ainda não estava bem resolvida e, por muito tempo, o arianismo rivalizou ombro a ombro com os trinitários; no campo pagão e sincrético, o determinismo do qual alguns gnósticos eram acusados ressurgia no maniqueísmo. Seria o subordinacionismo (hierarquia entre Pai, Filho e o Espírito Santo) de que Orígenes era acusado uma característica ariana? Se o corpo físico era um resultado da queda das almas, então a reprodução humana era algo ruim, como alguns grupos maniqueus pensavam? Que lugar teria o corpo na ressurreição? Sua restauração universal conflitava com a teoria de Jerônimo da hierarquia celestial baseada no mérito da renúncia ascética? Como essas diversas questões mexeram com a cabeça dos antiorigenistas é o assunto do capítulo III, quando é feito um retrospecto das acusações de origenismo feitas de 370 até cerca de 450 d.C., passando de Epifânio até o longevo Shenute [também grafado Shenoute ou Shenoud. Não encontrei sua versão em português]. A conclusão desse apanhado é que a definição do origenismo e seus pontos problemáticos era extremamente elástica. Nas próprias palavras da autora:

Uma passagem cronológica pelos escritos de Epifânio, Teófilo, Jerônimo e Shenute que dizem respeito ao origenismo proverá uma indicação surpreendentemente próxima de como temas da teologia de Orígenes faziam interseção com questões religiosas de suas próprias épocas. (…) Pelo exame dos escritos de cada autor na ordem de sua composição, podemos notar os pontos exatos em que novas referências surgem e lançar algumas hipóteses sobre as razões do surgimento delas.

Nem só da fala dos opositores foi feita a primeira crise origenista. De seus defensores, destacam-se os grandes nomes de Pânfilo e Rufino. Pânfilo defendeu em Apologia em prol de Orígenes que, onde soava mais herético, o teólogo alexandrino apenas expressara uma opinião pessoal acerca de temas que Igreja ainda não tinha uma tese definida – como a origem das almas – e para tanto usou o próprio prefácio de De Principiis. Citou largamente tratados de Orígenes para assegurar que ele atacava grupos hereges notórios, defendia uma visão ortodoxa da Trindade e tinha uma visão tradicional da ressurreição. A ironia (capítulo IV) é que uma das obras usadas por Pânfilo para defender a questão da ressurreição (Comentário sobre o I Salmo, v. 5) é a mesma que Epifânio se valeu para acusar Orígenes de uma opinião heterodoxa. Cada lado via o que queria! Quanto a Rufino, sua participação se deu em longa e tensa controvérsia com Jerônimo. Por estranho que pareça, ambos foram amigos e Jerônimo deveu muito ao estilo de interpretação alegórico de Orígenes em suas primeiras obras. Quando Rufino lançou sua tradução latina de De Principiis e incluiu o nome de Jerônimo em seu prefácio, dando a entender que ele também era simpatizante, Jerônimo se alarmou: sua reputação como ortodoxo poderia estar em risco. Jerônimo providenciou sua própria tradução (da qual resta apenas a sinopse contida em sua carta a Ávito) e acusou Rufino de despudoradamente editar o texto grego, eliminando suas partes mais heréticas. Rufino defendeu sua tradução em um tratado onde alegava que boa parte dos textos de Orígenes já estava corrompida e apenas tentou restaurar o texto de suas fases espúrias, dando razoáveis justificativas para isso. Traduziu, também, a Apologia de Pânfilo e escreveu seus próprios ataques a Jerônimo.

No balanço geral, Rufino levou a pior na briga contra Jerônimo. No ocidente, a teologia origenista entrou em rápido declínio com a morte de seus principais partidários pouco após o saque de Roma pelos visigodos (410 d.C.), entre eles, Rufino. Mesmo assim diversas questões levantadas pelos origenistas ainda estavam em aberto, em especial, o Problema do Mal; afinal como conciliar a bondade divina com a maldade do mundo? No vácuo deixado pelo origenismo, Clark narra no capítulo V a ascensão de uma novo sistema teológico que também condenava origenismo, mas se dispunha a tapar o buraco deixado por sua rejeição: o pelagianismo. Sem explanar sua teologia em detalhes aqui, pode-se adiantar que Pelágio e seus continuadores conseguiram criar um sistema coerente que conseguia solucionar boa parte da questão do Mal sem apelar para preexistência. Baseavam-se grandemente no livre-arbítrio humano: cada bebê nasceria puro como Adão antes da queda, mas tal como ele, cometeria pecados ao longo da vida. Cabia a fiel zelar por todos os mandamentos e se abster de pecar. Cristo mostrou como isso era possível. A questão dos gêmeos (Esaú e Jacó), por exemplo, foi respondida valendo-se do atributo de onisciência divina: Deus teria antevisto tudo o que cada irmão faria por espontânea vontade e daí escolhido seu preferido. Apesar não terem obtido uma explicação satisfatória para o sofrimento infantil, não tinham medo de encará-la e matutaram longamente sobre a questão. Sua ênfase na responsabilidade individual em seguir os mandamentos ou pecar e, portanto, ser senhor de sua própria salvação se chocava com a opinião de teólogos do ocidente como Agostinho de Hipona. Onde ficaria a graça divina nesse sistema? Mas graça não envolvia um bem imerecido, uma espécie de determinismo tão criticado pelos pelagianistas? A solução aceita pela ortodoxia foi sintetizada por Agostinho em sua teoria do pecado original que, de certa forma, sugeria que a queda de Adão era transmitida a seus descendentes. Mesmo fazendo essa observação, Clark repara no igualitarismo da humanidade em sua condição de pecadora e na recusa sistemática do teólogo latino em tomar uma posição quanto à origem da alma, o que a leva a não crer que tenha sido essa a mensagem implícita dele. Ao fechar o capítulo, faz uma declaração que vale alguns minutos de reflexão:

Mais apropriadamente, seu postulado de pecado original “representa” uma teoria de preexistência da alma e queda no corpo. Foi a surpreendentemente única reconstrução agostiniana da teodiceia de Orígenes que iria influenciar toda a posterior teologia do ocidente.

Repare nas aspas. É provável que Agostinho negasse isso até a morte, mas ele teve que aceitar algum grau de origenismo ainda que fosse para criar um sistema meia-boca. Tal como o Evangelho de João foi o “gnosticismo” de adentrou na ortodoxia, a solução de Agostinho foi o origenismo aceito por ela. Como não faz sentido falar em um e, sim, em vários sistemas origenistas nos séculos IV e V, não há razão para negar ao agostinianismo um lugar na família. Será que se vivesse em Roma, em vez do norte africano, ou lesse mais avidamente os materiais gregos ele teria uma postura diferente? Conforme Clark assume na conclusão, esta é uma pergunta “perturbadora” e “irrespondível”.

O pelagianismo foi rechaçado no Concílio de Éfeso (431 d.C.) e desapareceu como seita herética. Mas a história não acaba aí, já que o origenismo oriental continuou a existir no deserto egípcio ao longo do alto rio Nilo durante o século V. Sua versão radical se instaurou na Palestina do século VI, mais especificamente no panteísmo final do partido “isocrista”. A briga deste com os origenistas moderados marcou o colapso do movimento após o II Concílio de Constantinopla.

Além de uma referência ao relato dado por Cirilo de Citópolis, Clark pouco fala dos episódios do século do VI. Eles transcendem o escopo do livro e, de certa forma, pouco têm a acrescentar. As ações dos monges do mosteiro Nova Laura e a intervenção de Justiniano tiveram lá sua importância histórica, mas empalidecem tremendamente diante da primeira crise origenista dos século IV e V. Foi essa época que gerou as mais intensas discussões teológicas, envolvendo personagens que viviam em lugares tão variados como Roma, Constantinopla, Alexandria, Jerusalém e África Romana. Grandes membros da patrística como Jerônimo, Rufino e Agostinho tomaram parte nelas e catalizaram o processo iniciado em Niceia de consolidação do credo ortodoxo. Mesmo declarando sua simpatia pelo origenismo (e pelagianismo), Clark, sem querer, deixa uma importante lição para aqueles que continuam a defender a teoria conspiratória de que “a Igreja até 553 acreditava na reencarnação e ela foi proibida por um casal de monarcas”. Primeiro que nem todos os sistemas origenistas advogavam a reencarnação e, segundo, quando o faziam, não era nos moldes espiritualistas modernos; terceiro, Orígenes nunca foi consenso, sendo que sua rejeição levou décadas de acaloradas discussões feitas por teólogos, não por imperadores; quarto, a consolidação da ortodoxia já havia se delineado pelo menos 120 anos antes. A segunda crise origenista foi uma erupção datada e de efeito local, um fenômeno mais especificamente palestino. Perto de sua antecessora, ela foi fim de feira.

Mas não há livros em português que também tratem essas duas crises de forma panorâmica? Pode ser que haja, mas os livros de grande aceitação junto ao público espiritualista não tratam o assunto dessa forma. Dou quatro exemplos: Holger Kersten (Jesus Viveu na Índia), Severino Celestino da Silva (Analisando as Traduções Bíblicas), José Reis Chaves (A Reencarnação na Bíblia e na Ciência) e Elizabeth C. Prophet (Reencarnação – O Elo Perdido do Cristianismo). Kersten e Celestino falam apenas da segunda crise e da nada embasada conspiratória do assassinato das 500 prostitutas pela imperatriz bizantina Teodora. Chaves também se restringe só a segunda crise, cita a conspiração sem chegar a endossá-la totalmente, mas ainda dá a Teodora uma importância que ela nunca teve. Os três dão a errônea ideia que o origenismo foi amplamente aceito, inclusive pela patrística ortodoxa, até o século VI. A abordagem “menos infiel” aos fatos é a de Prophet. Vale comentar que Clark consta na bibliografia de Prophet, mas a discípula não fez jus à mestra. Se o fizesse não usaria a tradução inglesa de De Principiis feita por Butterworth, a partir da desastrada reconstituição alemã de Koetschau (capítulo III, nota 1 de Clark); não dividiria simploriamente os monges egípcios em cultos (origenistas) e incultos (antiorigenistas), pois muitos dos antiorigenistas, egípcios ou não, eram monges de cultura (Jerônimo que o diga); nem esqueceria de dizer que a condenação de 553 contou com a sabotagem interna dos origenistas protoktistas (posfácio de Clark). Só que não é possível falar da rixa entre estes e os isocristas omitindo uma importante personagem: Evágrio Pôntico, pois foi derivado dele o origenismo rejeitado em 553. Uma simplificação menos radical, mas ainda indevida, dos fatos foi feita por Prophet, pois muitas vezes o “debate não era sobre Orígenes”.

O que torna Clark diferente desses quatro? É que, para ela, Orígenes não é um “mártir reencarnacionista”, e, sim, uma “chance perdida” e houve até uma segunda chance (Pelágio). Apesar de simpatizar com os origenistas, ela não demoniza seus adversários com atributos de “incultos”, “fanáticos”, “maus”. Muito pelo contrário, ela faz uma reconstrução em profundidade deles, buscando, na realidade de sua época, as razões para tenham agido de tal maneira. A consequência é que sua narrativa é bem mais profunda e muito menos emotiva que a de suas contrapartes espiritualista. Clark honra o passado tentando reconstitui-lo em toda sua complexidade, pesquisando em cerca de 250 páginas um período de tempo (350 – 450) que os demais não dedicaram nem um décimo em papel.

Avaliação: 9,0. Darei 10,0 se vier uma continuação. Não que eu assine embaixo de tudo que ela escreva, mas tenho de admitir sua tese foi extremamente bem defendida. Ah! Existe uma virtude grande nela: além de uma quantidade imensa de citações, a amostragem que fiz revela que são genuínas e devidamente contextualizadas. Isto é algo que ainda estou para ver em seus congêneres já editados em língua portuguesa.

Recomendado para: quem ainda considera Prophet, Chaves, Celestino e Kersten o supra-sumo da historiografia do tema.

Balanço da Questão Origenista

24 de janeiro de 2012 Deixe um comentário

Índice

* * *

Afinal, Orígenes acreditava ou não na reencarnação?

Sim, não, depende. Defina-me reencarnação primeiro e aí, então, discutimos. Quando se tem que definir algo, surge o problema de o quanto a definição deve ser abrangente e, em geral, cada lado tenta impor a definição que mais lhe convier, o que já é meio caminho andado para ganhar (desonestamente) um debate.

De concreto, temos a crença na preexistência das almas e sua queda. Por outro lado, defendeu um modelo de ressurreição bem ortodoxo em De Principiis, II, X

Pois se corpos são erguido outra vez, sem dúvida eles se erguem para nos revestir; e se nos é necessários ser investidos de corpos, como é certamente necessário, não devemos ser investidos com nenhum outro senão o nosso próprio.

O sistema origenista guarda grandes semelhanças também com sistemas platônicos. Algumas diferenças, porém, são chamativas: a volta a algum corpo físico só se daria entre “aeons” (eras) distintos, não no mundo tal como o conhecemos e, sim, em novos; com uma possível continuidade entre o antigo corpo físico e o seguinte, o que permitiria conciliar este sistema cíclico com uma ressurreição ortodoxa (ou uma ressurreição e julgamento final ao fim de cada era, como na versão de Rufino); um ponto final para essa criações sucessivas (apocatástase), quando todas as almas estariam “sujeitas a Cristo” e Deus seria “tudo em todos”; e o valor do mérito no futuro, coisa nem sempre presente em sistemas neoplatônicos e que podia levar tanto a ascensões quanto a quedas momentâneas.

A falta de um texto confiável de De Principiis só piora a questão. Basicamente, as fontes que temos são a tradução corrompida de Rufino, extratos da coletânea Philocalia e uma sinopse de uma tradução “literal” latina de Jerônimo. Rufino, ao menos, foi honesto em assumir as modificações que fez e deu algumas “justificativas” para tanto em um panfleto chamado “A corrupção das palavras de Orígenes”:

  1. Seria impossível um homem inteligente e erudito como Orígenes se contradizer dentro de um mesmo tratado, às vezes quase em sentenças sucessivas;

  2. Outros escritores de inquestionável ortodoxia tiveram suas palavras adulteradas dos “hereges”, como Clemente de Roma, Clemente de Alexandria, Dionísio de Alexandria;

  3. O próprio Orígenes reclaramara, em uma carta ainda existente, que seu trabalho fora corrompido por heréticos. O ponto em questão nessa carta era a possibilidade de salvação do diabo. Orígenes assevera que jamais teria ensinado isso; mas, durante uma discussão com um herético, tomara ciência que uma versão adulterada de seus textos devia estar circulando.

Jerônimo contra-atacou a defesa de Rufino lembrando que escritores anteriores a ele, como Eusébio e Dídimo , já declaravam que Orígenes ensinara coisas indevidas.

Outro complicador ao entendimento é o fato de que – segundo alguns estudiosos [Malaty, p. 125] – Orígenes não foi um pensador sistemático. Não é possível juntar seus tratados de forma que eles formem um todo coerente. Por exemplo, a crença em criações sucessiva por não conceber uma divindade ociosa também entra, de certa forma, em contradição com uma restauração universal final. Além disso, os trabalhos de Orígenes que categoricamente rejeitam a “transmigração de almas” e interpretações reencarnacionistas do Novo Testamento são os do fim de sua vida, como Contra Celsus e os Comentários. Teria ele adquirido um viés mais “tradicional” conforme envelhecia? Possivelmente ou, como uma análise pormenorizada mostra, o universo multi-eras de Orígenes poderia ser conciliado com leituras ortodoxas da Bíblia, ao passo que reencarnações dentro de uma mesma criação não o são e foram vigorosamente rejeitadas por ele. Prophet defende ter Orígenes se tornado “ortodoxo” por conveniência ao fim da vida, para despistar inimigos (no caso do Comentário de Mateus), o que mela esta análise é que uma obra anterior, cuja redação foi concluída no ambiente mais ameno de Cesareia (a salvo de adversários alexandrinos), e tida por Prophet como reencarnacionista, na verdade não o é: Comentário de João. Orígenes, por sinal, nem sempre levava a ferro e fogo muitas de suas especulações e dava ênfase nisso. Os pontos destoantes dele com a ortodoxia algumas vezes são vistos como um exercício intelectual em expor argumentos pró e contra – opinião de Atanásio – ou que não são dogmas antigos, mas opiniões pessoais sujeitas a discussão – segundo de Jerônimo:

Ele [Orígenes] escreve que “(…) suas ações [das almas] e decisões nesta ou naquela direção é que determinaram seus vários futuros; isto é, se anjos virão a ser homens ou demônios e se demônios se tornaram anjos ou homens“. Então, aduzindo vários argumentos para sustentar sua tese e sustentando que, enquanto não incapaz de virtude, o diabo ainda não escolheu ser virtuoso; ele finalmente raciocina de maneira bem difusa que um anjo, uma alma humana, e um demônio – todos de acordo como ele com a mesma natureza, mas diferentes arbítrios – pode, em razão de grande negligência ou insensatez, ser transformada em feras. (…) Então, para que ele não seja acusado de sustentar junto com Pitágoras a transmigração das almas, ele termina o raciocínio ímpio com o qual tem ferido seu leitor ao dizer: “não se deve pensar que faço destas coisas dogmas, elas são apenas conjecturas expostas para mostrar que não se faz vista grossa a elas totalmente“.

Carta 124 a Ávito.

Em suma, tal “reencarnação entre eras” guarda imensas diferenças tanto com os antigos pitagóricos e platônicos quanto às modernas visões ocidentais do fenômeno. A principal delas é que a volta a algum tipo de forma física não seria possível na realidade tal como a conhecemos, o que explica porque não se deve estranhar quando Orígenes ataca os que associam João Batista a uma reencarnação de Elias. Vale lembrar que o leitor deve se desatrelar do modelo reencarnatório espírita (um para um, progresso constante, várias vezes numa mesma era, passagem obrigatória pelo útero materno, causa e efeito, etc.). O Mediterrâneo oriental era um mosaico de religiões e um verdadeiro laboratório de crenças aos séculos II e III, cujos sistemas teológicos eram muito mais amplos que isto. A própria ressurreição judaico-cristã não deixa de ser, de certa forma, – segundo o estudioso de Josefo, Steve Mason – uma espécie de “reencarnação”. Inclusive a crença da escatologia judaico-cristã em um fim dos tempos, começo de uma nova era (o “mundo vindouro”), transformação do antigo corpo físico em outro “glorificado” para os justos, redenção ou danação para os homens de acordo com o que fizeram na era que finda, etc.; também é uma forma de “reencarnação entre eras” muito similar a do polêmico tratado De Principiis da juventude de Orígenes. A ideia de preexistência, ainda que momentânea, não é tão inédita assim: o deuterocanônico “Sabedoria de Salomão” vv 8:19-20 pode ser interpretado nessa óptica e Agostinho de Hipona também cogitou alguma forma de preexistência, embora não partilhasse da teoria das quedas de Orígenes. Sob estes aspectos e levando em conta a importância que dá ao sacrifício de Cristo, ele é mais ortodoxo que a maioria dos anti-reencarnacionistas imagina ou que os reencarnacionistas gostariam de admitir.

O que torna Orígenes peculiar em De Principiis é que ele não especula apenas três estados do ser (preexistente, o desta era e o da próxima), mas situações dele ao longo de uma quantidade enorme de eras antes e após esta. Aí que a maioria dos reencarnacionistas derrapa: confundem isto com o conceito mais em voga atualmente de reencarnação – na cabeça de alguns o único viável – e não enfatizam o caráter especulativo deste tratado de Orígenes (uma espécie filosofia-ficção semelhante a encontrada em muitos filmes modernos), passando a falsa idéia do que ele propusera era dogma para o próprio e foi e que sua especulação foi consenso até o século VI.
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Orígenes foi rejeitado ou não no II Concílio de Constantinopla (V Concílio Ecumênico)?

Orígenes já havia sido rejeitado várias vezes por diversos teólogos do século IV e começo do V, num conjunto de disputas, condenações e tentativas de defesa que ficou conhecido como “Primeira Crise Origenista” ou “Crises Origenistas do Século IV”. O sínodo de 543 fez tão somente reafirmar isso de uma forma “oficial”, devido ao fato de uma contenda local entre monges palestinos ortodoxos e origenistas ter sido enviada ao arbítrio do imperador. Antes do origenismo, outras dissidências tiveram prioridade como o arianismo, monofisismo, donatismo, docetismo, maniqueísmo, nestorianismo, etc. Ao que tudo indica, as especulações origenistas que no começo eram “matéria de discussão” foram realmente tornadas “dogma” por admiradores de Orígenes, em especial, os evagrianistas. Este teria sido, sim, o sistema condenado na segunda crise origenista. Até 543 há consenso entre os historiadores. O que está em dúvida é se houve uma nova rejeição a Orígenes no Concílio de Constantinopla de 553, ou melhor, o quão de oficial e conciliar tem essa rejeição. Léon Denis escreveu em Cristianismo e Espiritismo,cap I, item IV:

(…)reconhecemos que estes concílios [Calcedônica (451) e Constantinopla(553)] repeliram, não a crença na pluralidade de existências, mas simplesmente a preexistência da alma, tal como ensinava Orígenes, sob esta feição particular: que os homens eram anjos decaídos e que o ponto de partida tinha sido para todos a natureza angélica.

Na realidade, a questão da pluralidade das existências da alma jamais foi resolvida pelos concílios. Permaneceu aberta às resoluções da igreja no futuro, e é esse um ponto que se faz preciso estabelecer.

O que Denis não resolve é como existir reencarnação sem preexistência, nem ele faz alusão às obras anti-reencarnacionistas do teólogo alexandrino. Dá a entender que muitos espíritas não leram o próprio comentário do continuador de Kardec. Ainda assim ele está errado: o objetivo principal do primeiro concílio citado certamente foi combater o nestorianismo.

Para os mais aficcionados por pesquisa, nossas principais fontes históricas para a compreensão da segunda questão origenista são:

  1. Resumo das Controvérsias dos Nestorianos e dos Eutiquianos – do bispo africano Liberato de Cartago. Relata em seus dois últimos capítulos uma manobra política feita pelo bispo origenista Teodoro Ascidas. Sabendo que o núncio papal em Constantinopla, Pelágio – um futuro papa e rival seu na corte –, encaminhara monges palestinos ortodoxos a Justiniano, o que resultou no sínodo de 543, resolveu desviar o foco o imperador para três teólogos caros à Igreja latina: Teodoro de Mopsuéstia, Teodoreto de Cirro e Ibas de Edessa. Os três haviam sido inocentados da acusação de nestorianismo (i.e., de separar radicalmente as naturezas humana e divina de Cristo) pelo Concílio de Calcedônia, cuja decisão era apoiada por Roma. Ascidas convencera Justiniano de que, se condenasse de vez esses três teólogos, poderia obter a simpatia de monofisistas (que declaravam uma única natureza em Cristo – a divina). Um edito imperial foi lançado contra os três, gerando uma controvérsia entre o Oriente e o Ocidente conhecida como a questão dos “Três Capítulos”;

  2. Em defesa dos Três Capítulos – do também bispo africano Facundo de Hermiano. Faz coro como Liberato ao acusar os origenistas da corte de maquinar contra esses três teólogos;

  3. A Vida de São Saba – do monge palestino Cirilo de Citópolis. Parte integrante de um conjunto de hagiografias chamado A Vida dos Monges da Palestina, é a mais detalhada descrição da Segunda Crise Origenista que chegou até nós, tendo um ponto de vista a partir da periferia do império. Ao longo da vida de Saba, os origenistas aparecem pouco, embora Cirilo não deixe de mencionar como, aos poucos, eles se infiltraram e instalaram no mosteiro Nova Laura, fundado por Saba. O confronto entre origenistas e ortodoxos estourou apenas após a morte de Saba, por volta de 532, e os origenistas levaram vantagem e colocaram os ortodoxos na defensiva. O gatilho do sínodo de 543 é um pouco diferente do relatado por Liberato, sem nenhuma alusão a Pelágio, mas concordando que foi solicitação local a Justiniano. Entretanto, o efeito prático do sínodo foi nulo e a década de 40 do século VI marcou o ápice do poder origenista na Palestina. A situação só começou a mudar com o rompimento entre origenistas radicais e moderados, tendo esses últimos retornado para o partido ortodoxo. O V Concílio Ecumênico teve por objetivo resolver de vez a briga, que terminou com a expulsão dos origenistas de Nova Laura em 555, por meio de força militar. Como complemento a esse texto e também de Cirilo de Citópolis, sugiro os capítulos de XI a XV de A Vida de Ciríaco, em que são listadas as diferenças em os monges origenistas e os ortodoxos;

  4. A História Eclesiástica – de Evágrio Escolástico. Bispo de Antioquia que escreveu um conjunto de crônicas da política religiosa imperial de 431 (no segundo concílio de Éfeso) até 594. Seu relato da segunda crise origenista (livro IV, cap. 38) começa pelo fim, já no ano de 553, e corresponde aproximadamente ao último capítulo de A Vida de Saba. Há algumas diferenças: a expulsão dos origenistas de Nova Laura precede o concílio e dá a entender que a questão dos “Três Capítulos” foi exposta só naquele ano. Tal como nos relatos anteriores acerca dos eventos de 543, Evágrio dá como gatilho para a ação de Justiniano a requisição de clérigos ortodoxos palestinos e defende a tese da intriga origenista contra os Três Capítulos como uma espécie de ação diversiva. De certa forma, este autor compacta as duas etapas da crise em uma só.

Nas versões latinas das atas de Constantinopla II que chegaram até nós, são praticamente só relatadas as questões dos “Três Capítulos” e quase nenhuma menção é feita a Orígenes ou ao origenismo. Somente no item XI do Cânon aparece uma citação textual de seu nome e de alguns seguidores, seguida por uma condenação deles. Não se sabe se os quinze anátemas de 543 (encontrados apenas no século XVII) tiveram participação nas atas ou se foram as opiniões do teólogo quanto a natureza de Cristo. Esta página de Early Church Fathers apresenta argumentos pró e contra o uso do material do sínodo em 553. De qualquer forma, os sucessores de Vigílio (Pelágio I e II, Gregório), ao tratarem do quinto concílio, falaram apenas dos “Três Capítulos” e agiram como se não soubessem da condenação (segundo a Catholic Encyclopedia). Há a possibilidade de os papas não terem tido nenhum interesse na questão origenista, pois, como relatou [Alberigo] o origenismo era fraco no ocidente. É possível também que Justiniano, como já obtivera dez anos antes a corroboração dos cinco patriarcas (com o papa incluído) para o sínodo local, tenha apenas quisto uma nova confirmação que tivesse mais “status” que a anterior. Se assim foi, estaria explicado por que o origenismo pouco espaço tomou nas atas. Vale lembrar que se Teodora teve alguma coisa a ver com esta confusão toda, deve ter sido apenas na memória do Imperador, pois ela morrera em 548.
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A preexistência das almas foi, então, anatematizada?

Os anátemas contra Orígenes – tanto os do imperador quanto os do sínodo de 543 – revelam que a questão origenista transcendia em muito a simples questão da preexistência. Em geral só é citado o primeiro anátema de 543:

I – Se algum crer na fabulosa preexistência das almas e na monstruosa reabilitação das mesmas, que é associada a ela, seja anátema.

Mas uma análise dos seguintes chama a atenção:

III – Se alguém disser que o sol, a lua e as estrelas pertencem ao conjunto dos seres racionais a que se tornaram o que eles hoje são por se voltarem para o mal, seja anátema.

IV – Se alguém disser que os seres racionais nos quais o amor a Deus se arrefeceu, se ocultaram dentro de corpos grosseiros como são os nossos, e foram em consequência chamados homens, ao passo que aqueles que atingiram o último grau do mal tiveram como partilha corpos frios e tenebrosos, tornando-se o que chamamos demônios e espíritos maus, seja anátema.

Dos anátemas de Justiniano:

V – Se alguém disser ou pensar que, na ressurreição, os corpos humanos ressurgirão numa forma esférica e distinta da atual, seja anátema.(*)

VII – Se alguém disser ou pensar que Cristo, o Senhor, será, em algum tempo futuro, crucificado por demônios assim como foi por homens, seja anátema.

VIII – Se alguém disser ou pensar que o poder de Deus é limitado e que ele criou apenas aquilo que foi capaz de alcançar, seja anátema.

(*)A tese desse anátema não pode ser encontrada nos escritos que sobraram de Orígenes, estando em alguma obra perdida ou foi cunhada por origenistas posteriores.

Apesar de alguma semelhança aparente com a doutrina espírita, as diferenças são imensas. Sou cético se a maioria dos espíritas conhece esta parte mais “heterodoxa” do origenismo – talvez nem saibam do que falam – e duvido muito se os que lamentam o episódio de 543 o aceitariam integralmente.
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Teodora matou 500 prostitutas?

Não há nenhum documento histórico que comprove isto. Mesmo o mais virulento cronista da corte bizantina, Procópio, relata apenas um encarceramento. E ainda que houvesse ocorrido tal chacina, há evidência suficientes para que o verdadeiro gatilho da segunda crise origenista tenha sido as dissensões ocorridas nos mosteiros sírio-palestinos. De toda a sorte de crimes que a imperatriz cometeu, foram logo escolher um forjado. Como o ônus da prova recai sobre quem propõe e Procópio foi o único nome apresentado, cabem aos proponentes arrumar alguma fonte alternativa em outro cronistas bizantino. Se ela existir. [topo]

Afinal, qual o papel de Orígenes nessa história toda?

O de um mito. Ele representa – para os espiritualistas – “aquilo que fomos um dia, nos desviamos e almejamos voltar a ser”. Isto, na verdade se encaixa na definição de qualquer mito. O rei Davi, que unificou as tribos e fez de Israel uma nação imperialista; Solano Lopez, o déspota esclarecido que fez o Paraguai peitar os interesses ingleses e seus lacaios brasileiros; Duque de Caxias, militar modelo e pacificador do Brasil. Todas estas figuras realmente existiram, mas não eram tidos por seus contemporâneos pelas imagens que têm hoje. Escavações comprovam que Davi deve ter sido apenas um monarca local, sem tanta pompa e glória. Francisco Daratioto, em seu livro Maldita Guerra, mostra que Solano Lopez era tido pelos paraguaios como um tiranete que levou sua pátria à uma aventura desastrosa. A construção do “herói nacional” se deu ao longo do século XX, em especial durante a ditadura Stroessnser e, deste lado da fronteira, uma espécie de desforrismo contra a ditadura militar pintou o Brasil como marionete inglesa. Caxias não era tão bem visto assim na República Velha por ter sido monarquista. Ele sempre teve prestígio militar, sem dúvida, mas este não era maior do que o dos demais chefes das campanhas platinas, como Osório. Teve seu valor inflacionado grandemente pela ditadura Vargas.

Nesse aspecto, Orígenes se tornou um mito espiritualista. O prolífico teólogo alexandrino – cujos escritos despertavam igual número de paixões pró e contra – de fato existiu. O mártir intelectual que cria numa reencarnação aos moldes modernos, era uma unanimidade até o século VI e foi perseguido pelos delírios de um casal de monarcas – em especial a esposa -, é uma construção dos tempos atuais. Uma “história” personalista da cristandade que tira o foco do que interessaria: o que realmente os pequenos grupos cristãos originais discutiam entre si? Será que o sacrifício da arena contaria com tantos adeptos caso eles não vissem nisso uma porta da a redenção imediata?
[topo]

Não estás fazendo “tempestade em copo d’água”?

Não, por um simples motivo: as táticas usadas na criação de mitos. Seleção de fatos e escritos, aumento da importância de alguns aspectos em detrimento a outros, teorias conspiratórias, erros biográficos, quando não revisionismo puro e simples, são coisas que deveriam preocupar qualquer espiritualista que preze algum respeito. Citei vários autores como Severino Celestino da Silva, Elizabeth Clare Prophet, Noel Langley, José Reis Chaves, Kersten e te pergunto: posso levar a sério alguns desses estudos? Definitivamente, NÃO!!! Devo acusá-los de má-fé? Também não, do contrário o ônus da prova seria meu e poderia incorrer em calúnia. A interpretação mais leve que posso fazer quanto a eles é que não leram em os escritos de Orígenes e pegaram citações de outros autores (ou uns dos outros) sem fazer a devida verificação. Nesse caso, agiram de modo descuidado com seus leitores e seus “trabalhos acadêmicos” não passam de “recorte e cole” feito por estudantes fundamentais. Ao encontrar alguma citação que apoiasse seus pontos de vista, suspenderam todo o senso crítico. É a emoção humana adentrando na “fé racionada”. Simplificações exageradas também ocorrem por parte de anti-reencarnacionistas como D.Estevão Bettencourt, que desconsidera o aspecto de múltiplas eras de Orígenes, e há “tábuas de salvação”, como a História da Filosofia feita por Giovanni Reale e Dario Antiseri, que não apela para teorias conspiratórias e situa corretamente o pensamento de Orígenes no conceito de múltiplas eras.
[topo]

Para Saber mais sobre Orígenes e o Origenismo

24 de janeiro de 2012 2 comentários

– Alberigo, Guiseppe; História dos Concílios Ecumênicos, Ed. Paulus, 1995.

– Ballou, Hoseas, The Ancient History of Universalism. Ed. Z. Baker, 2ª ed., 1842.

– Blume, Fred H.; Annotated Justinian Code, University of Wyoming, 2ª ed. Acessado em 05/01/2009.

– Bridge, Antony; Theodora – Portrait in a Byzantine Landscape, Academy Chicago Publishers, 1993.

– Cassiodoro, Flávio; Institutions of Divine and Secular Learning – On the Soul, tradução inglesa de James W. Halporn, Liverpool University Press, 2004.

– Catholic Encyclopedia, Origen and Origenism. Acessado em 05/04/2009.

_________________, Three Chapters. Acessado em 10/04/2009.

_________________, Second Council of Constantinople. Acessado em 10/04/2009.

– Cesaretti, Paolo; Theodora – Empress of Byzantium, tradução inglesa de Rosanna M. Giammanco Frongia, Vendome Press, 2001.

– Clark, Elizabeth Ann, The Origenist Controversy, Princeton University Press, 1992.

– Crouzel, Henri; Origen, tradução inglesa de A.S. Worrall, T & T Clark, Edimburgo, 1998

– Drewery, B,; The Condenation of Origen: Should it be Reversed? [A Condenação de Orígenes: Deve ela ser Revertida?], publicado em Origeniana Tertia, p. 271-277, Edizioni dell’Ateneo, 1981

– Evans, James Allan; The Empress Theodora – Partner of Justinian, University of Texas Press, 2002.

– Frend, W.H.C; The Rise of Monophysite Movement [A Ascensão do Movimento Monofisista], James Clarke & Co. Ltd, 2008.

– Frothingham, Arthur Lincoln; Stephen bar Sudaili, Syrian Mystic, and the Book of Hierotheos, E.J Brill, 1886.

– Gibbon, Edward; The History Of The Decline And Fall Of The Roman Empire, edição eletrônica completa da Christian Classics Ethereal Library. Existe uma edição abreviada em português editada pela Companhia das Letras, mas ela perdeu boa parte das referências do original.

– Grillmeier, Aloys & Hainthaler, Theresia; Christ in Christian Tradition, tradução inglesa Pauline Allen e John Caste, vol. II, parte II, Mowbray/ Westminster John Knox Press, 1995.

– Jerônimo de Aquileia, Apology for Himself against the Books of Rufinus [Apologia própria contra os Livros de Rufino], parte da coleção Nicene and Post-Nicene Fathers, série II, vol. III, Phillip Schaff. Acessado em 18/04/2009 na Christian Classics Ethereal Library.

__________________, Letters and Select Works [Cartas e Obras Seletas], parte da coleção Nicene and Post-Nicene Fathers, série II, vol. VI, Phillip Schaff. Acessado em 16/10/2008 na Christian Classics Ethereal Library.

– João Malala; The Chronicle [A Crônica], tradução inglesa de Elizabeth Jeffreys, Michael Jeffreys e Robert Scott; série Byzantina Australiensia vol. IV, Australian Association for Byzantine Studies, Melbourne, 1986.

– Justiniano, Flávio; The Civil Law, tradução inglesa por S. P. Scott, 1932. Acessado em 05/01/2009.

– MacGregor, Geddes; Reincarnation in Christianity, A Quest Book – The Theosophical Publishing House, 1989.

– Malaty, Tadros Y., The School of Alexandria II – ORIGEN – Acessado em 25/05/2009.

– Meyendorff, John; Christ in Eastern Christian Thought, St. Vladimir’s Seminary Press, 1987.

– Molland, Einar; The Conception of the Gospel in the Alexandrian Theology, I Kommisjon hos Jacob Dybwad, Oslo, 1938.

– Orígenes Adamâncio, Commentary on the Epistle to the Romans [Comentário sobre a Epístola aos Romanos], parte da coleção The Fathers of the Church, vol. CIII e CIV, tradução inglesa de Thomas P. Scheck, The Catholic University of America Press, Washington D.C., 2001

__________________, Commentary on the Gospel of John [Comentário sobre o Evangelho de João], livros I – X, parte da coleção Ante-nicene Fathers, vol. IX, Phillip Schaff. Acessado em 25/10/2008 na Christian Classics Ethereal Library.

__________________, Commentary on the Gospel of John [Comentário sobre o Evangelho de João], livros XIII – XXXII, parte da coleção The Fathers of the Church, vol. LXXXIX, tradução inglesa de Ronald Heine, The Catholic University of America Press, Washington D.C., 2006.

__________________, Commentary on the Gospel of Matthew [Comentário sobre o Evangelho de Mateus], parte da coleção Ante-nicene Fathers, vol. IX, Phillip Schaff. Acessado em 25/10/2008 na Christian Classics Ethereal Library.

__________________, Contra Celso, tradução de Orlando dos Reis, parte da coleção Patrística, vol. XX, Paulus, São Paulo, 2004.

__________________, Contra Celsum, tradução inglesa de Henry Chadwick, Cambridge University Press, Londres, 2003.

__________________, De Principiis [Sobre os Princípios], parte da coleção Ante-nicene Fathers, vol. IV, Phillip Schaff. Acessado em 25/10/2008 na Christian Classics Ethereal Library.

__________________, Dialogue of Origen with Heraclides and his Fellow Bishops on the Father, the Son, and the Soul [Diálogo de Orígenes com Heráclides e seus Companheiros Bispos sobre o Pai, o Filho e a Alma], tradução inglesa de Robert J. Daly, parte da coleção Ancient Christian Writers, The New England Province of The Society of Jesus, 1992.

– Pânfilo de Cesareia, Apologia pro Origene [Apologia por Orígenes], tradução latina de Eusébio de Cesareia em Patrologia Graeca, vol. XVII, cols. 541-614.

– Percival, Henry R.; The Seven Ecumenical Councils, [Os Sete Concílio Ecumênicos] parte da coleção Nicene and Post-Nicene Fathers, série II, vol. XIV, Phillip Schaff. Acessado em 05/06/2010 na Christian Classics Ethereal Library.

– Perrone, Lerenzo; Benardino, P., Marchini, D.; Origeniana Octava: Origen and Alexandrian Tradition, Peeters Publishers, 2003.

– Procópio de Cesareia, parte II, vol. III, Corpus Scriptorum Historiae Byzantinae, ed. Niebuhr, Barthol Georg; Ed. Weber, Bonn, 1838

___________________, History of the Wars, Livros I e II, III e IV, V e VI, tradução inglesa de H. B. Dewing, Projeto Gutemberg, Acessado em 15/01/2009.

___________________, History of the Wars, Livros VI.16 – VII.35, edição bilíngue grego/inglês (tradução de H.B. Dewing), Loeb Classical Library – vol. 173, Harvard University Press, 2006.

___________________, The Secret History [A História Secreta], tradução inglesa de H. B. Dewing, Fordham University, acessado em 20/01/2009.

___________________, On the Buildings [Sobre as Construções], tradução inglesa de H. B. Dewing, LacusCurtius, acessado em 20/01/2009.

– Rombs, Ronnies, J., A Note on the Status of Origen’s De Principiis in English, em Vigiliae Christiane, Brill, Vol. 61, nº 1, 2007 , p. 21-29;.

– Rufino de Aquileia, The Book Concerning the Adulteration of the Works of Origen [O Livro sobre a Adulteração das Oboms de Orígenes] parte da coleção Nicene and Post-Nicene Fathers, série II, vol. III, Phillip Schaff. Acessado em 16/10/2008 na Christian Classics Ethereal Library.

– Scott, Roger D.; Malalas, The Secret History, and Justinian’s Propaganda, publicado em Dumbarton Oaks Papers, vol. 39, 1985, pp. 99-109.

– Scythopolis, Cyril of; The Lives of the Monks of Palestine, tradução inglesa de R.M. Price, Cistercian Publications, 1991.

Misquoting Origens: Elizabeth Clare Prophet

19 de janeiro de 2012 Deixe um comentário

“Estatísticas são como biquínis: mostram o que é sugestivo, mas escondem o que é vital”

(anônimo)

A jornalista e escritora de ficção Elizabeth Clare Prophet produziu um livro muito falado de nome Reencarnação: o elo perdido do cristianismo. Devo admitir que quando comparado com as limitações hitoriográficas das obras de Severino Celestino da Silva, José Reis Chaves e José Carlos Leal, esta obra é em muito superior. As querelas origenistas são descritas com uma quantidade maior de pormenores, ao contrário da simplificação exagerada feita pelos demais (ainda que a imparcialidade…), e não cai na tentação fácil de explicar tudo numa teoria conspiratória centrada na figura da imperatriz Teodora. Também devo comentar que Prophet fez a gentileza de colocar muitas vezes referências diretas às obras de Orígenes, o que facilita muito o trabalho de revisão e crítica, embora ainda se valha demais de citações não verificadas. O que mais chama atenção, porém, não é exatamente o que ela diz (também o é), e sim o que ela deixa de dizer. Procedamos a uma análise do capítulo XVI do livro (“Os Diferentes Destinos dos Gêmeos”).

Os rabinos chegaram a uma conclusão incomum. Como as escrituras diziam que os destinos dos gêmeos [Esaú e Jacó] eram diferentes desde o nascimento, e uma vez que Deus era justo, acharam que a única resposta possível era que Esaú havia pecado enquanto estava no ventre de sua mãe. Por mais estranho que pareça, é exatamente esta especulação que encontramos num comentário do Gêneses escrito por volta de 400 a.C.. Os rabinos conjeturavam que, quando Rebeca passava por “casas de idolatria”, Esaú indicava a sua preferência dando pontapés, mas “quando ela passava por sinagogas e casas de estudo, era Jacó quem dava pontapés, tentando sair”(4). Por estas ações os rabinos concluíram que Deus preferia Jacó e sua semente a Esaú e sua semente, por gerações.

Pouco depois disso, Prophet compara a explicação acima com a proposta de pré-existência dos gêmeos dada por Orígenes, em De Pricipiis, livro II, cap. IX, com esta contida no comentário rabínico Genesis Rabbah 63.6.3. Este, conforme ela explica em sua nota (4) para este capítulo ao fim do livro, foi retirado de um livro do escritor judeu Jacob Neusner. Bom, como estamos falando de citações de citações surge uma questão a respeito da datação de Gêneses Rabbah. Tenho outro livro desse mesmo autor ( Introdução ao Judaísmo, ed. Imago ) cujo glossário traz a datação para Genesis Rabbah para 450 E.C. (Era Comum, isto é, d.C), portanto quando Prophet situa o livro em 400 a.C. devo indagar se o correto não seria 400 d.C. De fato, há um erro aí, mas não da autora e sim da tradução da edição brasileira. Consultando o original em inglês, encontra-se:

Edição em língua inglesa de Prophet

A expressão usada é “A.D. 400” (Anno Domini 400), que significa literalmente “400º ano do Senhor“, ou, em bom português, “ano 400 depois de Cristo“. Por algum motivo, confundiram a sigla A.D., comum entre os anglófonos, com o nosso tradicional a.C. Esse lapso não é tão inofensivo assim, pois, ao datar Genesis Rabbah 400 anos antes de Cristo, haveria tempo para sua proposta para o caso de Esaú e Jacó ter sido substituída por uma doutrina reencarnacionista que, supostamente, teria se difundido no seio do judaísmo intertestamentário. Com a datação correta, fica menos provável que a reencarnação já fosse moeda corrente no mainstream do judaísmo ao tempo de Jesus. Isso tem um efeito grande na interpretação de passagens como O “cego de nascença” (Jo 9:2), pois mostra que a crença em pecados pré-natais já podia estar presente no período intertestamentário; aliás, essa é a tese defendida por John Lightfoot em seu comentário de João. A quanto engano autores espiritualistas brasileiros (e demais lusófonos) podem ter sido induzidos por essa falha de tradução!

Continuando:

– Orígenes conhecia bem as tradições judaicas sobre a reencarnação e a divinização e, às vezes, parecia fazer eco à palavras de Filon, que escreveu sobre a reencarnação. Orígenes acreditava que os judeus ensinavam a reencarnação. (15)

Vejamos como Prophet desenvolve a questão em sua nota (15):

(…)Orígenes pode ter tido algo a acrescentar sobre a questão de se os judeus acreditavam ou não em reencarnação. Em seu comentário sobre as passagens de João/Elias em seu Comentário sobre João, ele afirma que a pergunta a João: “És tu Elias?” que eles acreditavam na metensomatose [transmigração], como uma doutrina herdada de seus ancestrais e que, por isso, não se chocava com o ensinamento secreto de seus mestres. Ele afirma também que uma tradição judaica diz que Fineias, filho de Eleazar, “foi Elias”. Talvez Orígenes tenha tido acesso a ensinamentos secretos judaicos além dos evangelhos. O Comentário de João 6.7, citado por Jean Daniélou em “Gospel Message and Hellenistic Cuture” (A Mensagem do Evangelho e a Cultura Helenica), trad. John Austin Baker, vol. 2 de “A History of Early Christian Doctrine before the Coucil of Nicaea” (A História da Doutrina do Cristianismo Primitivo antes do Concílio de Niceia) (Londres: Darton, Longman and Todd, 1973), pp. 493-494.

Bem, vejamos excertos maiores do capítulo VII do sexto livro de Comentários de João, edição de Ante-Nicene Fathers, a mesma de usada por ela:


Nosso primeiro erudito, cuja visão da transcorporação vimos ser baseada em nossa passagem, pode prosseguir com um exame mais detalhado do texto e argumentar contra seu antagonista que se João foi o filho de um homem como o sacerdote Zacarias e se nasceu quando seu pais já eram ambos idosos, contrariando todas as expectativas humanas, não é provável que tanto judeus em Jerusalém o desconhecessem, ou os sacerdotes e levitas por eles enviados não estariam a par dos fatos de seu nascimento. Não declara Lucas que “o temor veio sobre todos os que viviam por perto” (Lc 1:65), – claramente nas proximidades ao redor de Zacarias e Isabel – e que “todas essas coisas foram divulgadas por toda terra montanhosa da Judeia“?
E se o nascimento de João a partir de Zacarias foi matéria de comum conhecimento e os judeus de Jerusalém já enviaram sacerdotes e levitas para perguntar, “És tu Elias?” então está claro em dizer que eles consideravam a doutrina da transcorporação com verdadeira e que ela era uma doutrina corrente de seu país, e não estranha aos seus ensinos secretos. João, portanto, diz, “Eu não sou Elias, porque não sabe sobre sua vida prévia. Estes pensadores, assim, cogitam uma opinião que não deve de forma alguma ser desprezada. Nosso membro da Igreja, contudo, pode replicar à alegação e perguntar se é digno de um profeta, que é iluminado pelo Espírito Santo, que foi previsto por Isaías, e cujo nascimento por pressagiado antes que sucedesse por tão grande anjo, que recebeu da plenitude de Cristo, que partilha de tal graça, que sabe que a verdade vem por meio de Jesus Cristo e ensinou coisas tão profundas a respeito de Deus e do unigênito, que está no seio do Pai, é digno de tal indivíduo mentir ou mesmo hesitar, em razão da ignorância do que era. Pois com relação ao que estava obscuro, ele deveria ter se abstido de confessar, e não ter nem afirmado, nem negado a proposição que foi posta. Se a doutrina [da transcorporação] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias? E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença. Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento.

Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

Em negrito as informações desconsideradas por Prophet

Senhores, está claro que, quando Orígenes fala de um ensino “secreto dos hebreus”, ele o coloca na boca de filósofos antagonistas. Depois ele diz com todas as letras que, àquela altura, a transmigração ainda não entrara no judaísmo místico. Quanto ao caso de Fineias, Orígenes fala ao fim do capítulo:

Eu não sei como os hebreus começaram a falar que Fineias, filho de Eleazar, que admitidamente prolongou sua vida ao tempo de muitos dos juízes, como lemos no Livro de Juízes (Jz 20:28), para dizer o que agora menciono. Dizem que ele foi Elias porque Deus lhe prometera imortalidade, devido à aliança concedida a ele (Nm 25:12-13) (…) .

Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

Aqui fica claro que não se tratava de reencarnação, mas de uma imortalidade. Os judeus teriam confundido o “sacerdócio eterno” de Fineias e sua descendência com uma espécie de imortalidade para o próprio. Por todo o exposto acima, fica-se com a impressão de que Prophet não leu nada do texto original de Orígenes e, além disso, ou mal citou suas fontes ou confiou demais nelas. Uma falha grave de pesquisa. Prossigamos:

– Clemente de Alexandria, um professor cristão que dirigiu a escola de catequese antes de Orígenes – Diz-se que ensinava a reencarnação (16)

Deem uma lida no artigo sobre Clemente de Alexandria para esclarecimentos reais sobre o que ele defendia.

– O Gnosticismo – Orígenes absorveu este conceito através de um professor chamado Paulo de Antioquia (…) Existe ainda uma possível sexta fonte para a crença de Orígenes na reencarnação. Ele pode tê-la aceito por ter-se convencido – através do estudo do Gnosticismo, dos escritos de Clemente ou de outras escrituras que se perderam – de que a reencarnação fazia parte dos ensinamentos secretos de Jesus.

Sinceramente, quem escreve uma coisa dessas quase passa um atestado de jamais ter lido sequer um parágrafo de De Principiis nem que fosse apenas por passatempo. A carreira de Orígenes teve por adversários e antagonistas grupos gnósticos:

(…) agora, quanto àquelas expressões que ocorrem no antigo Testamento, quando se diz que Deus ficou raivoso ou arrependido, ou quando um sentimento ou paixão humana é descrito, (nossos oponentes) pensam que estão abastecidos de subsídios para nos refutar, alegando que Deus é impassível ao todo e é considerado totalmente livre de sentimentos de qualquer tipo, nós temos de mostrar a eles que declarações similares são encontradas mesmo nas parábolas do Evangelho.

De Principiis, livro II, cap. IV

Fora dito nos profetas, “Eu sou Deus e além de Mim não há outro Deus”. Pois se o Salvador, sabendo que Ele que está escrito na lei é o Deus de Abraão e que é o mesmo que diz, “Eu sou Deus e além de Mim não há outro Deus”, reconhece que o mesmíssimo que é Seu Pai é ignorante quanto a existência de qualquer outro Deus acima dEle mesmo, como os heréticos supõem, Ele absurdamente O declara ser Seu Pai que não conhece um Deus superior. Mas se não é da ignorância, mas do engodo, que diz não haver outro Deus além de Si mesmo, então é um absurdo muito maior confessar que Seu Pai é culpado de falsidade. De tudo, a conclusão a que se chega é que Ele desconhece outro Pai além de Deus, Fundador e Criador de todas as coisas.

Idem

Aqui é claro o combate de Orígenes ao dualismo gnóstico, que asseverava ser um demiurgo inferior o deus do Antigo Testamento e criador do mundo material, aprisionando centelhas divinas em corpo de carne. O mundo material seria mal em si mesmo. Jesus teria sido enviado pelo verdadeiro deus superior e bom para libertar as almas das mãos do demiurgo. Boa parte do texto de De Principiis é gasto em justificar a unidade entre o Deus do Antigo e do Novo Testamentos e buscar uma justificativa para a encarnação das almas que estivesse de acordo com parâmetros de “bondade divina”, daí a teoria de uma beatitude primordial, as quedas, necessidade de corpos para individualizar almas decaídas, regeneração pela submissão a Cristo. Ao contrário do que alguns escritores reencarnacionistas afirmam, Orígenes não foi influenciado pelo gnosticismo, muito pelo contrário, era antignóstico. Se isto ainda não te convence, veja Orígenes citando com todas as letras expoentes gnósticos:

Agora, quando dizemos que este mundo foi estabelecido na diversidade na qual acima explicamos que foi criada por Deus e quando dizemos que este Deus é bom e reto, e mais justo, há numerosos indivíduos, especialmente aqueles que, oriundos da escola de Marcião, e Valentino, e Basílides, ouviram que há almas de diferentes naturezas, que nos objetam, que isto não pode consistir com a justiça de Deus em criar o mundos para designar a algumas de Suas criaturas uma morada nos céus, e não apenas para dar uma melhor habitação, mas também uma mais alta e honrável posição (…) [grifos do portal]

De Principiis, II, IX

Muitos autores não têm Marcião como gnóstico, apesar de possuir pontos em comum com eles, mas Valentino e Basílides eram sem dúvida gnósticos.

– Ele responde à sua própria pergunta: “É claro que alguns pecados existem [isto é, foram cometidos] antes de as almas [terem corpos] e, como resultado, cada alma recebe a recompensa de acordo com seu mérito” (19)

Em sua nota (19), Prophet dá sua fonte para esta frase: Orígenes On the First Principles (Sobre os Primeiros Princípios) 1.8.1, Butterworth, p. 67.

Prophet situa tal citação no livro I, capítulo VIII, parágrafo primeiro; porém tal trecho não aparece na tradução de De Principiis feita por Frederick Crombie na série Ante-Nicene Fathers (1866-1872). Há uma explicação simples para o fato, segundo John S. Uebersax, G. W. Butterworth (1936/1966) baseou sua popular tradução inglesa não numa tradução direta do texto latino de Rufino. Ele a extraiu de uma tradução alemã feita por Paul Koetschau, que tentara uma magnus opus visando reconstruir o original De Principiis como existia antes da editada tradução de Rufino, a forma em que a maior parte do trabalho chegou até nós. “Tem-se sugerido que Koetschau fez um uso extremamente liberal de fontes secundárias, i.e., citações ou paráfrases meramente atribuídas a Orígenes“. De fato, quem se dispuser a adquirir um exemplar da edição de Butterworth/Koetschau verá que sua versão grega para De Principiis 1.8.1 é uma montagem feita a partir de extratos de Antípater de Bostra, Leôncio de Bizâncio e Epifânio. Apesar de a frase não ser demasiadamente estranha ao sistema origenista, fica revelado aspecto temerário da obra da autora ao não se basear em uma fonte confiável, caso Uebersax esteja certo. Os texto disponíveis on-line de Ante-Nicene Fathers não tentam fazer uma reconstrução crítica de forma tão atrapalhada. Eles simplesmente expõem como base o texto de Rufino e, ao fim de cada tomo, colocam extratos da carta de Jerônimo a Ávito e de Philocalia. Fica a cargo dos leitores a comparação. O texto disponível on-line de Ante-Nicene Fathers não tentam fazer uma reconstrução crítica de forma tão atrapalhada. Eles simplesmente expõem como base o texto de Rufino e, ao fim de cada tomo, colocam extratos da carta de Jerônimo a Avitus e de Philocalia. Fica a cargo dos leitores a comparação.

– Ao dizer que o nosso destino resulta de nossas ações passadas, Orígenes dá a entender que tivemos alguma forma de existência anterior que precedeu o nosso corpo atual. Para Orígenes a conclusão óbvia é que a esta existência anterior também foi vivida sob a forma humana.

Na verdade, o estado humano foi devido a um grau de queda maior que o dos anjos e os astros celestes. Antes das quedas, todas as alma tinham um estado primordial incorpóreo, sem contar que, entre uma era e outra, um humano poderia ascender a um desses dois ou decair para um demônio. Note a (errônea) citação que Prophet faz de Orígenes (digo, de Butterworth) logo acima. Parece que ela leu uma coisa e entendeu outra.

– Em seu Comentário sobre João, trata da questão da reencarnação, mas não chega a oferecer uma resposta dizendo: “O assunto da alma é muito amplo e difícil de ser esclarecido… Exige, por isso, tratamento diferenciado.” (21)

A nota (21) informa que a citação foi extraída de Comentário de João 6.7. Para começo de conversa, como se viu acima, nesse livro e capítulo se discute, sim, a reencarnação. Ele afirma que não era doutrina entre os judeus contemporâneos seus e que seus pares:

Entretanto, um membro da Igreja, que rejeita a doutrina da transcorporação como falsa e não admite que a alma de João fosse a de Elias, pode se referir às palavras do anjo supracitadas e assinalar que não é a alma de Elias que é dita ao nascimento de João, mas o espírito e poder de Elias.

Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

e segue com uma longa argumentação de que João Batista não era uma reencarnação de Elias, muito similar, por sinal, a que os apologistas cristãos fazem hoje:

Quanto aos espíritos dos profetas, estes são dados por Deus e são considerados como sendo, de certo modo, propriedades deles, como “Os espíritos dos profetas estão submissos aos profetas” (I Cor 14:32) e o Espírito de Elias repousou sobre Eliseu (2 Reis 2:15). Assim, diz-se, não há nada de absurdo supor que João, “no espírito e poder de Elias”, voltou o coração dos pais para os filhos e foi por causa deste espírito que foi chamado de “o Elias que deve vir”.

Idem

O trecho que Prophet exibe se encontra ao fim do capítulo referido do Comentário de João e merece uma contextualização maior:

Não admira, então, se aqueles que conceberam Fineias e Elias como a mesma pessoa; caso tenham julgado ajuizadamente ou não, não é a questão agora, considerariam João e Jesus como também sendo so mesmo. Isto, então, eles duvidaram e desejaram saber se João e Elias eram os mesmos. Em outra ocasião que nem esta, a questão [identificação entre Jesus e João] certamente exigiria uma análise detalhada e o argumento teria de ser bem ponderado quanto à essência da alma, ao princípio de sua composição e quanto a sua entrada neste corpo terreno. Também deveremos ter de inquirir quanto às distribuições da vida de cada alma, e quanto a sua partida desta vida, e se é possível para ela entrar numa segunda vida em um corpo ou não, e se tal ocorre no mesmo período e após o mesmo arranjo em cada caso, ou não, e se entra no mesmo corpo ou em outro distinto, e se o mesmo, se o sujeito permanece o mesmo ao passo que as qualidades mudam ou se tanto o sujeito quanto as qualidades permanecem, e se a alma sempre fará uso do mesmo corpo ou o trocará. Junto com estas questões, seria também necessário perguntar o que é transcorporação e como ela se difere da incorporação e ele que sustém a transcorporação deve necessariamente que o mundo seja eterno. A noções desses pensadores também devem ser consideradas; quem considera que, segundo as Escrituras, a alma é semeada junto com o corpo e as consequências de tal noção também deve ser levada em conta. De fato, o assunto da alma é muito amplo e difícil de ser esclarecido e tem de ser compreendido de expressões dispersas da Escritura. Exige, por isso, tratamento diferenciado. A breve consideração que fomos levados a dar ao problema em relação a Elias e João pode bastar por enquanto; prossigamos ao que se segue no Evangelho.

Idem

Orígenes não estava falando de nenhum ensinamento secreto a respeito da alma, mas enumerando os pontos a serem levantados com pensadores pagãos ou influenciados por doutrinas tidas por heréticas. Ele dá uma “receita de bolo” sobre a mesma técnica de argumentação que ele usou contra aqueles que associavam Elias a João e que poderia novamente ser útil no caso de lançarem a hipótese de Jesus e Elias serem os mesmos.

Prophet faz uma única admissão de um texto anti-reencarnacionista de Orígenes no Comentário sobre Mateus. Ela dá essa passagem como uma atitude defensiva de Orígenes contra perseguidores, pois ele:

(…) escreveu quando já estava com mais de 60 anos (por volta de 246-248), o seu contexto leva-nos a questionar se não a estaria negando como uma tentativa de despistar seus inimigos (22). Pois Orígenes, assim como todos os iniciados nos mistérios gregos e gnósticos, praticava o sigilo.

Bem, vamos à nota 22:

Orígenes nega a reencarnação quando se discute se João Batista era ou não Elias que voltara. Nessa discussão dirige-se claramente aos bispos. Eis a sua negação:”’Aqui não me parece que por Elias se expressa a alma, ou cairei no dogma da transmigração, que é contrário à Igreja de Deus, que não foi transmitido pelos apóstolos nem é encontrado nas Escrituras” (ênfase da autora).

Aqui, Orígenes rejeita a reencarnação porque ela não se coaduna com a ideia cristã do julgamento final. Como poderia haver um fim, ele pergunta, se as almas estão continuamente cometendo atos que as obrigarão a retornar à terra para redimi-los? Ele conclui que o conceito de um final deveria “abolir a doutrina da transmigração”. Commentary on Mathew (Comentário Sobre Mateus) 13.1, em The Ante-Nicene Fathers (Os Patriarcas Ante Niceia) 10:474, 475.

Orígenes, entretanto, procurou conciliar a ideia de um final com a ideia de oportunidade contínua através da reencarnação. Mesmo afirmando que haveria um final quando o mundo for ‘tudo em todos’ (1 Cor 15:28), ele também previu que “depois da dissolução deste mundo haveria um outro”. On First Principles (Sobre Primeiros Princícios) 3.5.3 Butterworth, p.239(…)

Aqui no caso há uma meia-verdade. Orígenes cria num tipo de reencarnação “entre eras”, mas em instante algum em De Principiis ou qualquer outra obra que chegou até nós ele defendeu alguma reencarnação “na mesma era”. Do jeito que Prophet coloca tal aspecto de Orígenes ao fim do livro, em uma nota, e como uma saída alternativa em vez de ser o principal; um leitor desavisado pode ter uma impressão errônea de que Orígenes estava escondendo algo que ele nunca defendeu. Se não tiver lido a nota 22, pior será a ideia. Orígenes cria, também, em ressurreição e julgamento final ao fim de cada era e dedica até um capítulo de De Principiis a isso. Além disso, há mais passagens em Comentários sobre Mateus contra a reencarnação (Livro X, cap. XX), além de os trechos que ela tem como pró reencarnação do Comentário sobre João na verdade, como vimos, serem anti. O Comentário de João, por sinal, precede o de Mateus e na própria introdução do capítulo VI (o utilizado por Prophet), Orígenes fala que tal fora originalmente escrito em Alexandria antes de seu exílio em Cesareia (231), embora tenha sido extraviado e reescrito já na Palestina. Orígenes era mais jovem, enfraquecendo o peso do fator idade que Prophet para descartar o Comentário sobre Mateus. Também não se deve esquecer de Contra Celso IV, XVII. Prophet ainda tenta associar Orígenes ao gnosticismo e um errinho menor ao citar I Cor 15:28: “quando Deus for tudo em todos”.

O ponto que Prophet considera xeque-mate para uma crença de Orígenes na reencarnação (ao estilo ocidental) é o relato de Jerônimo:

Se ainda restam dúvidas sobre o fato de Orígenes ter se referido ou não à reencarnação, podemos confiar no Patriarca da Igreja do século IV, Jerônimo, que o acusou de fazê-lo. Jerônimo teve acesso aos textos originais em grego, e disse que uma das passagens de Primeiros Princípios prova que Orígenes “acreditava na transmigração das almas”. (26)

A nota (26) informa a passagem: Ad Avitum, 14. Na verdade, o texto de Jerônimo também foi passível de alteração e, mesmo que não tivesse sido, Jerônimo dá uma citação textual do que dissera Orígenes, não apenas afirmando da boca para fora:

O Fogo do Inferno, além disso, e os tormentos com os quais a sagrada escritura ameaça os pecadores são explicados por ele não como punições externas, mas como aflições de consciências pesadas quando, pelo poder de Deus, a memória de nossas transgressões é posta perante nossos olhos. “Toda colheita de nossos pecados cresce de novo das sementes que permanecem na alma e todos os atos desonrosos e indignos são outra vez retratados diante de nossas vistas. Assim é o fogo da consciência e os espinhos do remorso que torturam a mente a medida que ela relembra na referida autoindulgência”. E de novo: “mas talvez este grosseiro e terreno corpo deva ser descrito como névoa e escuridão; pois ao fim deste mundo e quando for necessário passar ao outro, o similar à escuridão levará ao similar nascimento físico [ou fisicamente nascido]”. Falando assim ele claramente pleiteia claramente pela transmigração das almas como ensinado por Pitágoras e Platão.

Jerônimo de Aquileia, Carta 124 (a Ávito).

Ao fim deste mundo e quando for necessário passar ao outro … ” Mesmo na versão mais heterodoxa possuída por Jerônimo, o relato é de uma reencarnação entre eras e talvez com continuidade de corpo, não do conceito comum no ocidente moderno.

Resumindo Prophet: a maior parte do tempo, ela insinua que Orígenes defendia a reencarnação ao estilo ocidental, com vários reencarnes num mesmo mundo. Passagens que rejeitam a reencarnação tradicional são minoradas (Comentário sobre Mateus), distorcidas para se tornarem pró reencarnacionistas (Comentário sobre João) ou esquecidas (Contra Celso). As passagens onde Orígenes adota o modelo entre eras são relatadas de forma marginal (De Principiis) ou explanadas por alto sem citação explícita (Carta a Ávito, de Jerônimo). Apesar de tudo, Prophet é “menos mal” que muitos outros autores espiritualistas analisados neste portal, mas ainda deixa muito a desejar.