O Fascínio das Autoridades (31/01/23)

Índice

O Fim de um Monopólio

Eis um monopólio difícil de acabar.

Em 2008, a revista História Viva inaugurou sua série “Grandes Temas” com o fascículo “Jesus – O Homem e Seu Tempo”. A última página – Livros sobre Jesus – dedicava-se a pequenas resenhas de leituras complementares ao leitor. Uma delas é esta:
Sabedoria do Evangelho, de Carlos Torres Pastorino (Editora Sabedoria, 8 vol.). Tradução e comentário das recentes edições críticas dos antigos manuscritos. Farta documentação. Orientação espírita.

Desconheço a vida dos autores desse último artigo para checar se há alguma predileção e isso não importa porque, justiça seja feita, há outro autores de diferentes orientações. Não deixo, porém, de matutar o que pode ter levado Pastorino a ser incluído, principalmente por uma obra que é muito mais apologia do que crítica textual. Uma razão pode jazer nas restrições que os autores impuseram a própria lista: livros em português e ainda disponíveis no mercado, mesmo que em sebos.

De fato, Pastorino foi pioneiro em trazer e traduzir textos gregos de qualidade ao público brasileiro. Em 1964, quando o primeiro volume de Sabedoria… foi lançado, o Concílio do Vaticano II ainda estava em andamento, a Neovulgata demoraria uns quinze anos para ficar pronta, e a maioria das Bíblias tupiniquins ainda tinha um Novo Testamento era tributário do infame Textus Receptus, de Erasmo de Rotterdam. Se eu fosse um estudante não dogmático de teologia, o material disponibilizado por Pastorino seria uma mão na roda. Pela mesma época, vale assinalar, era fundada a Ação Missionária Evangélica (1965), como uma dissidência com perfil pentecostal de igrejas da Convenção Batista Brasileira, posteriormente renomeada para Convenção Batista Nacional (1967). No ano em que a humanidade pousou na Lua, entrava em operação a ARPANet, com seus quatro primeiros computadores conseguindo se interconectar a grandes distâncias. Dois processos embrionários que se revelariam mais transformadores do que qualquer uma das “revoluções” daqueles turbulentos anos poderia imagina.

Avançando no tempo… Depois de atingir cerca de 1.000 computadores em 1984, a ARPANet fechou suas atividades em 1990, mas não sem antes deixar sua tecnologia como herança para a rede da US National Science Fundation, criada em 1986. No ano seguinte, esta conseguia ligar 10.000 máquinas, saltando para 100.000 em 1990 e “impressionantes” 6,5 milhões em 1995, quando já se chamava Internet. Nesse mesmo ano, uma pequena “guerra religiosa” se instalou no Brasil, cujo gatilho foi o episódio do “chute na Santa” divulgado em horário nobre pela Rede Globo de televisão em seu embate com a Igreja Universal do Reino de Deus. Alguns de seu templos chegaram a ser apedrejados por papistas mais exaltados, mas uma coisa ficou patente: embora ainda fosse um país majoritariamente católico, essa identidade já não definia mais nosso povo com precisão.

A virada do século parecia promissora para a intelligentsia espírita: o dissidente católico e futuro confrade J.R. Chaves publicava A Reencarnação Segundo a Bíblia e a Ciência (1998), e em 2000 seria a vez de Celestino Severino da Silva lançar seu Analisando as Traduções Bíblicas. Ambas compilaram muito do que já se falava há tempos “na gringa” sobre teorias conspiratórias acerca da reencarnação no cristianismo primitivo e sua suposta supressão no século VI. Foram um prato cheio na curta e intensa Era de Ouro dos fóruns virtuais que se seguiu – tanto nos espíritas quanto nos evangélicos -, porém também foi a época em que os primeiros “ex-píritas” começaram a despontar nesse meio, como Júlio Siqueira, Carlos “ApodMan” Bella e este anjo caído que vos escreve (1).

Por volta de 2004, fui apresentado a Pastorino no saudoso fórum do Portal do Espírito (acho que pelo forista Paulo Neto) e em um debate em meu primeiro portal com Vítor Moura (então, ainda na ortodoxia). Reparei logo de cara ser um terreno novo, ao qual precisava estudar melhor. Tornei-me um costumaz visitante de uma das lojas da Sociedade Bíblica Brasileira em minha cidade, em busca de lançamentos de coubessem no bolso. Aos poucos, construí meu arsenal com edições críticas Bíblia (Vulgata Jeronimiana), ou do Antigo e Novo Testamento (Septuaginta de Rahlphs e Nestle-Aland, respectivamente), minhas primeiras gramáticas gregas e hebraicas, além de uma chave gramatical do NT. Na cada vez mais pujante internet, encontrei as ferramentas do StudyLight.Org, que me permitiram cruzar dados e analisar frequência e emprego de palavras de um modo impensável até a recente época analógica de pesquisa. A Perseus Digital Library ofertava o mesmo dicionário grego usado por Pastorino, com a vantagem de inúmeros hiperlinks para seus exemplos. Conheci, também, o portal alemão (com texto em inglês) New Testament Transcripts Prototype, da Universidade de Münster, que oferta a digitalização e aparato crítico de diversos manuscritos antigos do NT. Graças e a isso, foi possível este humilde leigo descobrir que alegações deste tipo:

Em João aparece uma só vez [a expressão to pneuma to hagion], e assim mesmo em apenas alguns códices tardios, havendo forte suspeição de haver sido acrescentado posteriormente (em 14:26).

– Pastorino, Carlos Torres; Sabedoria do Evangelho, vol. V, 1964 p. 97,

Mais adiante (vers. 26) o Espírito verdadeiro, ou evocado, é dito “o Espírito, o Santo”, expressão que levou os teólogos a confundi-lo com a terceira “pessoa” da santíssima Trindade.

– Idem, vol. VIII, 1971 p. 9.

não se sustentam, pois ao sugerir que “o Espírito Santo” em Jo 14:26 possa ter sido um enxerto – o que é outra discussão (2)-, primeiramente esqueceu de dizer quais os códices de qualidade que não o possuíam. Em segundo lugar, no volume inicial de Sabedoria… (p. 5), ele já fizera uma pequena relação dos códices mais antigos e, passando-a limpo, pode-se constatar que:

  1. Sinaítico: contém “o Espírito Santo” (το πνευμα το αγιον), muito bem, obrigado (3);
  2. Alexandrino: idem;
  3. Vaticano: idem;
  4. Beza: idem, tanto para o texto em grego quanto para o latino;
  5. Efrém: não contém! Contudo, não se empolgue porque ele não possui, por danos ao documento, nada de Jo 14:8 a 16:21 e diversas outras lacunas ao longo Novo Testamento;
  6. Claromontano: não contém, afinal só possui as epístolas paulinas.

Definitivamente, seria impossível checar isso nos anos 60/70 do século XX caso não se fosse membro de um departamento de teologia de uma boa Universidade.

A Internet também trouxe as livrarias virtuais – notadamente a Amazon -, onde consegui livros de crítica textual mais especializados e gramáticas mais aprofundadas para consultas específicas. Na primeira década deste século e a metade da segunda, pude contar com um câmbio mais em conta e uma quantidade menor de responsabilidades pessoais para estudar e adquirir material. Coisas que já não me são mais possíveis. Mas, se você está começando agora, não desanime. O público evangélico cresceu tanto – puxado principalmente pelas denominações pentecostais – que surgiu um mercado para atender suas demandas, e muitos dos livros que tive de importar já têm edições nacionais em português, além de mais livros de domínio público terem sido disponibilizados de lá para cá (4). Hoje, pela própria força dos números, observo que começa a surgir uma elite intelectual evangélica, que daria bem mais trabalho aos apologistas da década de 2000.

O economista Steven Levitt conta em seu livro Freakonomics o interessante “causo” ocorrido nos anos 50 do século XX e protagonizado por um sujeito chamado Stetson Kennedy, que estava determinado a desbaratar a Ku Klux Klan. Ele se infiltrou nela, aprendeu todos os (ridículos) códigos, jargões e ritos da seita, só para vendê-los a emissoras de rádio interessadas em arranjar um novo adversário para ninguém menos que o Superman de sua programação infantil. Quando toda a subcultura da KKK passou a ser alvo de chacotas – feitas até por crianças -, o comparecimento as suas (não mais) secretas reuniões desabou, simplesmente.

Então Levitt faz um paralelo entre esse episódio na luta contra o racismo nos EUA com um fenômeno econômico do começo deste século: a perda do poder de pressão dos corretores de imóveis sobre seus potenciais clientes, graças à ampla disponibilidade de informações sobre casas, apartamentos e terrenos na Internet. Entre ambos, um denominador comum: o poder calcado no controle privilegiado de algum conhecimento.

(Em construção)

A Carteirada Intelectual

Àquela altura do seriado, era só bravata.

(Em Construção)

Notas

(1) Não teria sido tão mais fácil, para os apologistas espíritas se, simplesmente, não existíssemos mais? Se Chico Xavier relatou que Emmanuel estava autorizado a desencarná-lo caso se recusasse a prosseguir psicografando livros para além da quantidade originalmente estipulada (uma atitude digna de mafioso), então nos mandar para o Umbral mais cedo seria fácil, não? Ou será que nossa missão na Terra é justamente ser “do contra”? Tenho uma opinião bem parcimoniosa sobre isso: somos uma “inevitabilidade prática”, i.e., enquanto as contradições do Espiritismo kardecista persistirem sem tratamento, cedo ou tarde algum adepto se dará conta delas, não ouvirá eco em seus questionamentos e pulará fora. Alguns fazendo estrondo. Tanto que vieram outros dissidentes ex-apologistas na esteira, como Vítor Moura – com uma ajudinha nossa – e Felipe Morel, este de forma totalmente independente.

(2) Com já disse em outras partes, há duas versões para o “discurso de despedida” de Jesus no Evangelho de João, que foram entremeadas na redação final. Em uma (Jo 13-14 e 18) a identificação do Paracleto com o Espíritos Santo ocorre (Jo 14:26) e na outra (caps. 15-17), não. Concordo que a forma apositiva como “Espírito Santo” aparece Jo 14:26 pode sugerir um enxerto, porém não encontramos um documento antigo de João em que ela não apareça. Se foi uma interpolação, ela pode ter ocorrido no próprio autógrafo do Evangelho ou na fonte dessa versão do discurso. Assim, novas descobertas no campo da paleografia do NT são necessárias para elucidar a questão. O que se pode dizer, com mais certeza, é que Jo 14:26 é uma “pedra no sapato” dos espíritas que advogam Jesus ser o Espírito da Verdade, o Paracleto prometido. O que os espíritas não se mancam é que, embora as falas do Evangelho de João sejam atribuídas a Jesus, a maioria delas não são consideradas pelos pesquisadores como originárias de seus lábios. Inclusive os longos discursos de despedida (e outros) desse evangelho que, ao contrário das parábolas e aforismos dos seus irmãos sinópticos, dificilmente seriam memorizáveis de cor pelos primeiríssimos cristãos, majoritariamente analfabetos. Pois é, muito arranca-rabo já ocorreu internamente por coisas que sequer uma “fé racionada” deveria considerar como verídicas.

(3) Uma coisa que este portal também oferece são as diversas camadas de “correções” feitas por mãos posteriores. Isso ocorreu com o Códice Sinaítico nesta passagem. Mas calma: em todas as camadas, το πνευμα το αγιον pode ser encontrado.

(4) Poderia citar os dois dicionários (um grego/francês e outro sânscrito/inglês) utilizados por Carlos Torres Pastorino e mencionados no artigo anterior. Menciono, também, o magistral Documenta Catholica Omnia, que tanto usei em minhas análises sobre Orígenes.

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