Prezado Hater

23 de junho de 2017 2 comentários

O Coronel, personagem de War for the Planet of the Apes

Enquanto redigia minhas memórias em “Prezado Fred“, recebi um e-mail de alguém meio desesperado:

Assunto: Alerta
Xxxxxx Xxxxxx Xxxxxxx <xxxxxxx@yahoo.com.br> <Nome completo do cidadão e e-mai>
Para Falhas Do Espiritismo
02/13/16 às 10:21 AM
Xxxxxxxx Xxxxxxx, <Meu nome>

Muito cuidado ao revelar assuntos referentes a minha vida particular, pois poderá se decepcionar com a verdade. Você pode estar sendo usando por pessoas que há muito tempo tentam me caluniar e difamar com objetivos escusos. Embora não saiba do conteúdo de muita coisa, informo que existem eventos que ainda não posso revelar, pois colocará pessoas próximas a mim em situações bem desconfortáveis. A história de minha vida já dá por si só um livro, mas existem ainda páginas em branco que precisam ser vividas, bem como eventos que aconteceram que somente quando eu aposentar, poderei revelar. Esta atitude sua poderá arranhar sua credibilidade na internet! Outrossim, a partir do ano que vem colocaremos seus argumentos à prova através do XXXXX <sigla de grupo apologético>, mas pouparemos sua identidade, visando somente seu conteúdo publicado. Este é o trato de nossa trilogia em resposta ao Falhas do Espiritismo!

Até breve!

Atenciosamente,

Xxxxxx <Primeiro nome do cidadão>

“A invencibilidade repousa na defesa, a vulnerabilidade revela-se no ataque”.
(Sun Tzu).

Visite: http://www.xxxxxx.org/

Bem, não intencionando tirar o leite das crianças, vou poupar sua identidade também, porém deixarei uma quantidade de dicas grande o suficiente para que seu “grupo” saiba com quem estão lidando, se é que por lá não há mais gente capaz de atitude semelhante. Acho que nenhum deles paga suas contas, não?

A Conspiração

Muito cuidado ao revelar assuntos referentes a minha vida particular, pois poderá se decepcionar com a verdade. Você pode estar sendo usando por pessoas que há muito tempo tentam me caluniar e difamar com objetivos escusos.

Sem nenhum dado tangível que valide sua alegação, sou tentado a pensar que os illuminati se aliaram aos reptilianos em seus planos de dominação mundial e você é a última barreira no caminho deles. Zoeiras à parte, tenho bons motivos para não acreditar em ti, afinal já te peguei distorcendo o conteúdo do material deste portal quando lhe convinha. Se você age assim com o que tenho pleno conhecimento, o que não faria com o que me é ignorado.

“Uma charada embrulhada num mistério dentro de um enigma”

Embora não saiba do conteúdo de muita coisa, informo que existem eventos que ainda não posso revelar, pois colocará pessoas próximas a mim em situações bem desconfortáveis.

Então seus segredos podem ser qualquer coisa, inclusive coisa nenhuma. Sei que não tem muitos motivos para confiar em mim, porém se quiser obter algo extra de mim terá de arriscar.

Algo (quase) em comum

A história de minha vida já dá por si só um livro, (…)

Sou cético de que esteja com essa bola toda.

(…)mas existem ainda páginas em branco que precisam ser vividas, bem como eventos que aconteceram que somente quando eu aposentar, poderei revelar.

Acho que você talvez agora entenda porque usei um pseudônimo. Você usou seu nome verdadeiro desde o início, às vezes o nome completo. Se tudo fosse bem, ganharia muitos bônus por sua iniciativa, porém me parece que não esteve preparado para algum ônus quando as coisas desandassem.

Apelando para meu Ego

Esta atitude sua poderá arranhar sua credibilidade na internet!

Que credibilidade, diga-me? Você tem RG e CPF, mas Cyrix nunca existiu, caso não tenha percebido. Posso me reinventar em outro pseudônimo quantas vezes quiser enquanto existir a Internet. Será uma “reencarnação sem morte”. De certa forma, fiz isso uma vez, apenas não troquei de nome artístico. Por outro lado, “Falhas do Espiritismo” nunca estará em meu Curriculum Vitae. Ele é satisfação (ou obsessão) pessoal, apenas isso. Minha verdadeira carreira passa léguas daqui.

Uma falsa modéstia

Outrossim, a partir do ano que vem colocaremos seus argumentos à prova através do XXXXX <sigla de grupo apologético>, mas pouparemos sua identidade, visando somente seu conteúdo publicado.

A primeira pessoa do plural foi empregada, portanto, pergunto: você e mais quem? Ou tudo não passa de um “plural de modéstia”, sendo uma questão de honra só sua me refutar? Isso me é importante, pois eu gostaria de saber se você é a única maçã (até agora) podre do seu grupo de apologistas ou se há mais. Digo podre porque agora sei…

… do que você é capaz

mas pouparemos sua identidade, visando somente seu conteúdo publicado. Este é o trato de nossa trilogia em resposta ao Falhas do Espiritismo!

“Chantagem” agora tem outro nome? Não existe trato com chantagistas. Cedo ou tarde eles farão outra demanda com a mesma moeda de troca. Então, meu caro, faça o que você quiser! Ainda que me constranja de início, vai me libertar no longo prazo, pois poderei finalmente sair das sombras e tonar o portal útil para mim. Quem sabe até profissionalizar-me.

Mau discípulo

Até breve!

Atenciosamente,

Xxxxxx <Primeiro nome do cidadão>

“A invencibilidade repousa na defesa, a vulnerabilidade revela-se no ataque”.
(Sun Tzu).

Visite: http://www.xxxxxx.org/

Por favor, não macule a memória de Sun Tzu com uma citação pinçada para fazer uma frase de efeito e fingir que é o tal. Em vez disso, faça uma citação longa, generosa e verdadeiramente instrutiva:

Capítulo IV – Disposições
Sun Tzu disse:

  1. Antigamente os guerreiros bem adestrados primeiro se faziam invencíveis para depois esperar o momento de vulnerabilidade do inimigo.

  2. A invencibilidade depende de nós mesmo; a vulnerabilidade do inimigo, dele;

  3. Segue-se que os homens conspícuos na guerra podem fazer-se invencíveis, mas não ter a certeza de provocar a vulnerabilidade do inimigo.

    Mei Yao-ch’en: Aquilo que depende de mim, eu o faço; aquilo que depende do inimigo, disso não estou certo.

  4. Por isso se disse que é possível saber vencer, mas não necessariamente conseguir vencer.

  5. A invencibilidade reside na defesa; a possibilidade de vitória no ataque.

  6. Defendemo-nos quando nossa força é insuficiente; atacamos quando ela é sobeja.

  7. Os peritos em defesa como que se escondem sob as nove camadas da terra; os versados no ataque movem-se como que acima das nove camadas do céu. Dessa forma mostram-se capazes de proteger-se e de obter uma vitória completa.

    Tu Yu: Os peritos na preparação de defesas acham fundamental contar com a força de obstáculos tais como montanhas, rios e encostas. Eles tornam impossível ao inimigo saber onde atacar. Como que se ocultam sob as nove camadas do solo.

    Os peritos na arte de desfechar ataques acham fundamental contar com as estações e as vantagens do terreno; provocam inundações e incêndios conforme a situação. Tornam impossível ao inimigo saber onde se entrincheirar. Lançam o ataque como se fora o raio vibrado do mais alto das nove camadas do céu.

    (. . .)

Sun Tzu, A Arte da Guerra, Paz e Terra, 1999, pp 45-6.

Com essa mensagem, demonstraste sua vulnerabilidade de forma lastimável. Já o fizeras antes numa pretensa refutação.

Diga “Cyrix” se for capaz!

Já que prontamente agiu ao me enviar a mensagem antes que eu adentrasse nas Flame Wars dos fóruns virtuais, presumo que estivesse me acompanhando de perto ou alguém te mantivesse a par. Isso demonstra, de alguma forma sou importante para ti, nem que seja como o detrator que ama odiar. É o que os anglófonos chamam de hate-watching. Calma, também procuro saber o que falam de mim por aí, e um belo dia encontrei um artigo seu longo e prolixo em que se gabava de suas “artes como debatedor”. Após um começo piegas em que o livro Torá: a Lei de Moisés é apresentado como ofertante prova da reencarnação na Bíblia nos versículos Ex 20:5 e 34:7 numa fatídica livraria, começo a ler parágrafos que aparentam ser respostas a argumentos meus contra Severino Celestino da Silva. Até aí tudo bem, estavas fazendo teu papel. O estranho, porém, residia numa particularidade: em instante algum houve uma alusão a este portal era feita, muito menos o apelido Cyrix era mencionado. Quem de fora do seu grupo lesse o artigo perceberia que esse autor era defendido de críticas, porém não saberia exatamente quais eram elas, nem quem as fez. Senti-me como uma espécie Lorde Voldemort, “aquele que não deve ser nomeado” ou “Você sabe quem”, tamanho é o medo que sentem dele. Como a carapuça aparentava ser do meu tamanho, resolvi prová-la.

Para ser sincero, aquilo sequer poderia ser chamado de uma verdadeira resposta, pois você fez uma jogada muito malandra: não respondeu a crítica alguma explicitamente; em vez disso, recontou os pontos do Dr. Severino com outros “fundamentos”. Dessa forma, esquivou-se de responder aos pontos mais indefensáveis, forneceu explicações sobre alguns pormenores e, de quebra, pregou para o coral. Para terminar, encheu linguiça com um extrato imenso do livro Analisando as Tradução Bíblicas. Nessa arte do debate, você fez um longo monólogo com o que julgou serem seus melhores momentos e os piores dos outros. Assim fica fácil.

Como se não bastasse, você cometeu erros crassos como, por exemplo, ignorar que trabalho com a mesma edição crítica da Septuaginta que o Dr. Severino e insinuou que minha versão era tendenciosa. Eu poderia ter feito uma refutação avassaladora, mas concluí que não valia a pena gastar meu escasso tempo livre com articulistas desonestos. Fiz algo melhor: elevei o nível do artigo original para “além do nono céu”, seguindo o conselho de Sun Tzu e explicitando ainda mais todas as fraquezas de Analisando…. Não deu outra: você retirou seu texto do ar e só voltou com ele depois de lapidá-lo um pouco, fazendo menções bem en passant às fragilidades que tentara esconder. Acho que ainda pensava que estou no nível de argumentação do pessoal do CACP.

Quer me refutar? Eu te ajudo!

Baseado nesse malfadado artigo, darei algumas dicas que te farão do um articulista melhor. Se bem que seu ponto de partida é tão ruim que não será preciso muito. Vamos lá:

  1. Deixe claro quem você está refutando: caso sua refutação seja realmente boa, não há por que temer que seus leitores leiam o original. Do contrário, corre-se sério risco de começar refutar a uma caricatura do original, que será mais fácil de trabalhar e muito ilusória quanto ao seu potencial;

  2. Faça citações grandes: já disseram que “texto fora de contexto é pretexto”. Clichês à parte, isso é uma grande verdade (e por isso que virou clichê). Siga o exemplo de Orígenes em sua obra Contra Celso. Por ela sabemos que a obra refutada se chamava “O Verdadeiro Discurso” ou “A Verdadeira Razão” e, embora não tenha sobrado exemplar algum do texto anticristão desse filósofo, pode-se ter uma boa noção dele devido às fartas citações que Orígenes fazia;

  3. Aprenda inglês: em certa altura você se esquiva de analisar certo trecho do Talmude Babilônico (tratado Sanhedrim) por ainda esperar uma tradução em português. Curiosamente, é o mesmo tratado que utilizei em Quanto pesa a alma?, que peguei de uma tradução inglesa, online, gratuita. Sinceramente, tire um ano sabático e aprenda inglês. Não estou falando para você se tornar superfluente, capaz de assistir filmes sem dublagem, nem legenda, ou discutir filosofia com um nativo ao telefone. Você precisaria apenas ler. Você e todos os outros monoglotas do seu grupo não têm a mínima condição de autointitular “pesquisadores” sem essa ferramenta. Isso já bastaria para ver que não adulterei nada em minha tradução. Para vocês fazerem suas próprias traduções, um bom dicionário e prática lhes ajudariam. Agora, se seu inglês, digamos, já “dava pro gasto”, então você tirou o corpo fora para ganhar tempo. Outra esperteza;

  4. Arrume uma bibliografia decente: que muito provavelmente estará em inglês, afinal a maior parte da produção científica da atualidade é nesse idioma. Preste atenção: científica, ou seja, textos que procuram embasar seus argumentos em fontes primárias e submeterem-se ao contraditório. Cansei de ler textos espíritas que só trazem (quando trazem) referência a outros textos espíritas/espiritualistas. Vejo dentistas, auditores fiscais, juízes, jornalistas, etc. se arvorando de autoridade para falar do passado, já historiador que se preze, nada. E, principalmente ao lidar com ciências humanas, é bom saber o quanto a tese proposta é controversa ou não, do contrário você clamará como certa uma publicação pelo simples fato de ter sido publicada;

  5. Tire o escorpião do bolso: não vai encontrar a maioria desses livros em sebos nacionais. Foi durante meus estudos sobre o II Concílio de Constantinopla que mais maltratei meu cartão de crédito na Amazon e em outras livrarias virtuais estrangeiras. Foram três anos de muito bons investimentos. Não sei como anda seu bolso no momento, mas lembre-se que sou apenas um, ao passo que você tem seus confrades. Alguns, julgo eu, bem de vida, financeiramente falando. Fazer uma vaquinha será uma boa forma de testar sua coesão interna e verificar se são realmente um grupo organizado ou mero bando;

  6. Cuidado com as autoridades: a escolha de uma boa bibliografia requer cuidado, porém. Primeiramente, alguns escrevem livros aventurando-se em temas sobre os quais não têm expertise alguma. Incluiria nesse rol José Reis Chaves, Elizabeth Prophet e, sim, Severino Celestino da Silva. Boa parte dos membros desse grupo já tem a conclusão de seus estudos pronta antes de sequer começar; apenas catam e organizam dados corroboradores e fingem inexistirem controvérsias. Por outro lado, há um grande número de autoridades cuja formação realmente segue seus estudos, mas lembre-se: não possuem divina infalibilidade. Autoridades antigas podem já estar defasadas em diversos pontos; por exemplo, eu adoro Edward Gibbon e seu Declínio e Queda do Império Romano, mas sou comedido em seu uso, pois sei que muita coisa sobre o tema foi revista de duzentos anos para cá. Além disso, atenção às envoltas em grande controvérsia, como esotérico Champlin. Existem, também, o temas que são controversos por sua própria natureza – como o perfil do Jesus Histórico – e nesses você pode encontrar autores igualmente competentes falando coisas díspares, por pertencerem a escolas diferentes. Por fim, mas não menos importante, peço que não envergonhe suas fontes se escondendo atrás delas. Não use autoridades como “carteirada intelectual”. Elas, em si, são apenas humanos como nós; seus argumentos e provas é que são fundamentais. Não faça como certo cidadão que fica clamando que Bart Ehrman é o “maior biblista do mundo” e ainda confunde “variações” com “alterações” (da Bíblia), demonstrando não entender muito bem do que Ehrman escrevera;

  7. Prefira o acadêmico ao de divulgação: Por falar em Bart Ehrman, ele é, de fato, bom, mas não é “o maior biblista do mundo” e nem ele se rotula assim. Creio que foi uma jogada de marketing da Prestígio, a editora no Brasil de O que Jesus disse? O que Jesus não disse? – Quem mudou a Bíblia e por quê. É um grande divulgador, devo concordar, e competente em sua área. Mas se quer realmente ler um livro dele, comece por The New Testament: A Historical Introduction to the Early Christian Writings, que é seu livro escrito para estudantes de seminários protestantes. É outro nível de discussão e, ao fim de cada capítulo, há dicas para continuar seu estudos sobre o tema em questão. Seus livros para o grande público são bem escritos e desenvolvem alguns tópicos que neste livro, ficaram limitados a um capítulo; porém nenhum deles dará uma visão abrangente. Ah! Já ia me esquecendo: está em inglês;

  8. Se possível, leia os originais: já que o Pentateuco espírita é o ponto de partida para os novatos do movimento, porque você se furtaria de ler os textos originais de autores antigos? Sim, essa é uma pergunta capciosa. De fato, é possível aprender sobre determinado autor e época sem ler todos os originais ou apenas extratos. A questão real é qual pedra de toque usarias para saber quem está sendo fidedigno ao objeto de estudo e quem o distorce fazendo uma releitura muito pessoal? Estaria um antagonista exagerando na crítica, um simpatizante nos elogios e um pretenso isento na falta de substância de sua análise? É possível enxergar “fora da caixa”? Para responder essas perguntas, terá você mesmo de ler algo de fontes em primeira mão sobre determinado assunto e tecer seu próprio juízo separando estudiosos de impostores. Mas para isso, você tem que ter…;

  9. Fontes, diga quais são elas é bizarro, mas você faz alusão a certos “eruditos” que nunca são especificados ou nomeados. Será que eles existem, ou será algum deles já foi chamado de “detrator” por você ou pelos seus?

  10. Não diga apenas a verdade, mas toda a verdade: quando citar os versículos que contradizem a ideia de maldições hereditárias, cite, também os que a corroboram (que, aliás, estão em maior número). Em outras palavras, não faça “cherry picking“. Depois, tente explicar essa contradição sem aparentar dar uma de “ensaboado” para quem está de fora;

  11. Não dê tiro no pé: Não capítulo VIII, p. 135 da 4ª edição de Analisando as Traduções Bíblicas, Dr. Severino diz:

    Não sei como encontraram este sentido para a língua portuguesa, nem de onde o tiraram, pois, no hebraico, bem como, no grego e no latim, ele não existe.

    No caso, ele se refere ao uso da preposição “até” em Ex 20: e 34:7, no trecho “até a terceira e quarta geração“. Você tacitamente admitiu a possibilidade, na língua latina, de uma tradução da preposição in como “até”, caso se seguisse a norma clássica da regência dessa preposição no caso acusativo. De certa forma, ao elevar o nível da discussão, você soube de onde “tiraram isso” e, por vias tortas, demonstrou o quão rasa foi a análise da tradução feita por Severino, ao menos da versão latina. A questão é que você não aceitou a norma clássica nesse caso, o que te levou a…

  12. Apelar – sem isso, por favor: por não aceitar a tradução latina convencional, você elaborou uma elucubrada tese de que Jerônimo – o tradutor da Vulgata – teria usado a regência do acusativo da preposição in objetivando um sentido que, na norma clássica, corresponderia à regência dela no ablativo: “em”. Era um parágrafo particularmente confuso em que você fez uma série de considerações especiais para convencer seu leitor de que a tradução do Dr. Severino seria válida. Desculpe, mas esse bizarro contorcionismo foi infeliz:
    1. Não se baseia em nenhuma análise da gramática da Vulgata propriamente dita, a não ser o alegado por “estudiosos” e “eruditos” que nunca são nomeados;

    2. Até acerta ao sugerir que o latim da Vulgata não corresponde exatamente ao clássico, mas erra no grau: se quer um texto latino cheio de vulgarismos, deveria ter optado pela Vetus;

    3. Acha que por se chamar Vulgata (i.e., para o vulgo), ela deveria estar escrita em linguagem popular. Isso é um anacronismo, pois esse termo originalmente se referia à Vetus (cf. Agostinho de Hipona, Cidade de Deus, livro XVI, cap. VIII), apenas sendo usado para designar a tradução/revisão de Jerônimo a partir da Idade Média;

    4. Sequer a Vetus te confirmaria: Jerônimo, quando faz uso da Vetus, revela que seu exemplar não trazia a tradução que você gostaria;

    5. Tampouco Jerônimo (e Agostinho) interpretava(m) esses versículo do jeito que você gostaria. Como sei disso? Fui ler o que esse(s) cidadão(s) escreveu(ram) a respeito, em vez de inventar outro(s) que me aprouvesse(m);

    6. Outra vez: seu tecnicismo mostrou o quão raso ou, melhor, inexistente foi o tratamento dado no livro do Dr. Severino à regência da preposição in. Tem certeza que vale a pena defendê-lo só por ter sido escrito por um confrade?

    Tudo bem que se queira fazer uma alegação contundente, porém, para tanto, é mister alguma solidez nos fundamentos. E você fincou seus alicerces na areia dos “achismos”;

  13. Seja coerente: e lembre-se que isso não significa estar certo, mas, sim, não se contradizer, seja por palavras ou atitudes. Pode-se estar tremendamente equivocado e ainda assim em conformidade com seus princípios. A incoerência, no seu caso, deu-se ao tratar o texto hebraico usando regras normativas de gramática e o latino por uma (errônea) abordagem descritiva do que teria sido o latim vulgar. Ou seja, a língua hebraica não teria evoluído nada durante a transmissão do texto massorético, ao passo que a latina não só evoluía, como seguiu para uma direção muito conveniente para ti. Poderia até haver uma razão para tanto, porém, no balanço geral, o único fundamento dessa tese foi sua própria conveniência. Ah! Não se esqueça: “em” com o sentido de “a/até” ainda é usada até hoje na linguagem coloquial do português brasileiro;

  14. Reconheça que Deus também evolui: ao menos na cabeça de seus adoradores. Você comete uma série de wishful thinkings ao recusar a admitir a ideia de maldições hereditárias entre os antigos hebreus. Era uma doutrina injusta? Sim, e daí? Aquele era o deus que eles precisavam para um contexto pré-exílio, quando não havia, ainda, crença em vida após a morte. As concepções acerca do deus único e seu relacionamento com os mortais mudou após a passagem por Babilônia e continuaram a mudar (e se diversificar) ao longo da sucessão de invasores estrangeiros. Se você, antolhado por sua fé cega, acha que a reencarnação é a única forma de salvar Ex 20:5 e 34:7, então você (1) é pouco criativo e (2) tem um baita narcisismo teológico. Uma terceira opção é você saber que as alternativas existem e não julgá-las tão elegantes como considera a reencarnação. Mais um motivo porque seu “debate” não passa de um monólogo;

  15. Não tape o Sol com peneira: na primeira versão, você se valeu de um exemplar interlinear (inglês/grego) da LXX, cuja leitura de Ex 20:5 lhe era conveniente e chegou ao ponto de cogitar que alguns portais com uma edição virtual da LXX haviam adulterado o versículo grego para conciliá-lo com a leitura “até a terceira…” do texto inglês. Pena que você não leu Nm 14:18 do seu próprio exemplar para encontrar justamente essa leitura. Tudo bem, talvez não tenha se tocado. Por isso mesmo esfreguei na sua cara que a edição crítica usada pelo Dr. Severino – a de Alfred Rahlfs – traz “até a terceira…” como leitura principal e “na terceira…” como uma leitura variante encontrada no Códice Alexandrino. Ela ainda trazia “na terceira…” em Dt 5:9 e “até a terceira…” em Nm 14:18. Estava aí a explicação para as diferenças entre as leituras: códices distintos. Você até passou a fazer menção a Rahlphs na revisão que fez, mas desviou do ponto mais nevrágico: o Dr. Severino tinha pelo acesso à leitura “até a terceira e quarta geração” em Ex 20:5 na LXX, porém omitiu esse fato em seu livro Analisando as Traduções Bíblicas, exibindo apenas Ex 34:7. Muito conveniente (e grave), não acha? Sequer se aferrar à leitura alexandrina (como você fez) ele tentou. Aliás, exatamente essa oscilação entre “até” e “em” diversos versículo paralelos da LXX sugere que a confusão de significados nas preposições hebraicas já estava ocorrendo nos últimos séculos antes da Era Cristã. E com quem será que aprendeste a respeito das trocas preposicionais, hein?

  16. Dê créditos a quem faz jus: na segunda versão você passou a mencionar a edição crítica da LXX feita por Rahlphs e a usar expressões como “trocas preposicionais em códices”. Isso já me era familiar, porém gritante mesmo foi isto:

    Havia uma certa sobreposição semântica nas duas versões pesquisadas, sendo estas entre εως e επι de acusativo. Isso dever ter repercutido nas versões latinas.

    p. 16

    Substituindo-se a preposição εως por εις fica praticamente igual a uma frase que eu disse neste portal. Pois é, meu hater de estimação: você aprendeu algo comigo e recusou-se a admitir que se “apoiou em meus ombros” também! Você pode até jurar ajoelhado que não foi nada disso, alegando que chegou à conclusão por via independente – usando outra gramática grega -, e até enganar meio mundo. Só me pergunto se já conseguiu enganar a si mesmo, tornando-se o mais perfeito tipo de mentiroso: o que acredita nas próprias lorotas. Como escrevi isso antes e sei que você me lê, não caio nesse papo. Um confrade seu escreveu um e-book sobre a questão da reencarnação e o II Concílio de Constantinopla e, apesar de nossas inúmeras diferenças, ele me reconheceu meu artigo como o motivo da revisão de sua postura anterior. O coroamento da ironia é que você prefaciou justamente esse e-book. Não que eu me ressinta pela falta de reconhecimento, o que me preocupa é o que ela revelou de sua personalidade e me pergunto até onde irá teu cinismo;

  17. Por último, mas não menos importante: transcenda sua condição de espírita: ao menos a de ortodoxo. Do contrário, não passará de um mero revisor da obra kardecista: todas as conclusões já estarão no Pentateuco (espírita), na Revista e em O que é Espiritismo?. Seu único trabalho será catar evidências que corroborem tais “conclusões” e fazer vista grossa para as discrepâncias. Exatamente o que você fez no seu infeliz artigo, algo não muito diferente do que os criacionistas bíblicos (e védicos, também) fazem. Em outras palavras, toda vez que a Ciência corroborar sua ortodoxia, você dirá: “viram só, o Espiritismo já antecipava isso há 150 anos”; porém, quando ela discordar, papo será: “a Ciência é falível por ser feita por homens”, “tudo nela é provisório”. Ainda que haja certa verdade nisso, essa atitude continuará sendo uma cortina de fumaça para auxiliar sua fuga ante qualquer tentativa de refutação.
    Como você pode fazer isso? Bem, uma possibilidade é chutar o balde, como eu, e se tornar um detrator antagonista. Algo menos radical é caminhar entre o espiritualismo e o livre pensamento, como fez Vitor Moura. Nesse caso, as pesquisas nos campos psi e “hipótese sobrevivência” deixam de ser ameaças e geram insumos para elaboração de novas hipóteses sobre a relação mente x cérebro. Um terceiro caminho é compartimentar o espírita em uma parte de seu ser e o pesquisador em outra. Um exemplo disso seria o historiador Lair Amaro, que impressionante análise crítica fez do romance Há Dois Mil Anos, de Chico Xavier/Emmanuel. Não importa qual desses caminhos você escolha, mexerá com “vacas sagradas” do movimento espírita e, portanto, há de desagradar alguém. Pelo menos pode escolher a quem importunar e como.
    Caso opte em bater de boa com todos os “confrades”, ótimo. Para mim, claro, afinal terá alguns “graus de liberdade” intelectual a menos para se locomover e terei uma vantagem da qual usarei e abusarei. De certa forma, ficará com u’a mão amarrada tal qual os fanáticos cristãos de que tanto gosta. Pode até não falar em Adão e Eva ou cobra falante, porém outras posturas anticientíficas surgem sem falta.

    O Coronel sucumbe à infecção pelo vírus

    Pode até rir dos católicos e evangélicos por suas doutrinas engessadas, não será mais do um pássaro de um viveiro amplo rindo de seu irmão aprisionado numa gaiola, esquecendo-se da vastidão do céu que lhe é inatingível. Estará numa caixa maior, porém ainda incapaz de pensar fora dela. Com o tempo, perderá aquilo de que tanto se vangloria com relação aos demais cristãos: a faculdade da razão. Deixará de criar para meramente copiar, contará histórias que leu ou ouviu em vez de viver as suas próprias. Tornar-se-á mais digno de pena que de raiva.

* * *

Bem, agora que já te mordi um bocado, vou assoprar um pouco: parabéns! Sim, verdade, você está de parabéns por, ao menos, ter tentado me refutar. Bem ao contrário de certo confrade teu que esbravejou as mágoas num jornal de circulação regional e deixou por isso mesmo. Você não, muito pelo contrário, parece obcecado por mim. Pergunto-me, um pouco, pelo porquê.

Conta uma anedota que o alpinista George Mallory (1886 – 1924), quando perguntado sobre a razão de seu desejo em escalar o Monte Evereste, simplesmente respondia: “Porque ele está lá”. Creio que seu caso seja um tanto análogo a isso. Você e seu grupo apologético já digladiaram com quevedianos, o Centro Apologético Cristão de Pesquisas (CACP), o Instituto Cristãos de Pesquisas (ICP), o Fórum Evangélico, o Adventista, etc., sobrando apenas eu a ser devidamente atacado. Não, talvez seja muita pretensão minha. Não posso esquecer do Criticando Kardec e do Obras Psicografadas que, embora contenham muito material que lhes seria útil, são bem pesquisados desde seus respectivos começos, volta e meia importunando “vacas sagradas” do Movimento Espírita. Meu portal, assim, seria apenas o próximo da fila por possuir tanto um pé no aspecto religioso e outro no científico. Por meio do primeiro pretendiam começar o ataque com a farta discussão que tiveram com os religiosos.

Parece-me que esqueceu de um pormenor crucial: o paradigma aqui é outro, pois eu não tento provar a Bíblia com ela mesma. Meu universo de pesquisa é muito maior que o deles. Maior que o seu, também. Ademais, como não religioso, dispenso qualquer obrigação de aceitar juízos de valor ao tratar de alguma divindade antiga. Se o Javé do Antigo Testamento te desagrada, sinto muito, pois era o deus que os antigos hebreus precisavam, o resto é releitura posterior. Com isso, boa parte do arsenal que acumulou simplesmente deixou de ter serventia. Não desanime, você continuará, em sua teimosia, autoiludindo-se e carregando outros consigo. E podes até ser bem exitoso nisso, afinal é possível tecer raciocínios perfeitamente lógicos com premissas erradas. Criacionistas da Terra Jovem fazem assim. Quer saber de uma coisa: vocês, o CACP e o ICP se merecem.

Pergunto-me, às vezes, qual a razão por essa obsessão. Deve ter sido aquele “debate” que eu unilateralmente larguei no agora moribundo fórum do “Portal de Espírito” acho que discutíamos algo a respeito da natureza de Deus ou coisa do gênero. Acho que ficaste estimulado pela possibilidade de ter um adversário de maior quilate que a média do pessoal da seção “Do Contra” (lembras do Erivelton?) e injuriado por não conseguires atenção dele (i.e., de mim). Estou sendo vaidoso? Sem dúvida! Outra opção é que eu seja perigoso de mais para ser deixado solto impunemente por aí, o que afagaria meu ego do mesmo jeito. Um mero exercício para a atividade cerebral de um entediado? Pode ser, mas não está funcionando pelos motivos apontados acima. Estou aberto a sugestões.

Sabe, aqui do alto é muito solitário, frio e com ar rarefeito. Adoraria ter uma companhia para admirar a paisagem. Você pode ser um dos felizardos caso aceite o desafio de chegar até o cume. O lado bom é que, quando tiver vencido o desafio, terei eu vencido também, pois não será mais a mesma pessoa que começou a escalada. Apenas lembro que deves respeitar o desafio, do contrário o desafio se fará respeitar. O cadáver de George Mallory até pouco tempo repousava no Evereste sob camadas e camadas de neve.

Um abraço e veja se toma tenência. Caso não tome, tudo bem: hatters gonna hate, e caravana continuará a passar enquanto eles ladram.

Ele chegou

11 de julho de 2017 6 comentários

Bem vindo

Bem, a imagem acima vale mais que mil palavras para explicar o que me aconteceu recentemente.

Não, não vou abandonar este portal, mas seu ritmo diminuirá muito.

A meu garoto, antes de mais nada, seja bem vindo! Sei que não pediu para existir, mas desde já obrigado existir em minha vida. Eu, que me considero uma ironia do destino ambulante, me pergunto o que será que você irá aprontar? Embora a promessa que fiz a tua mãe te coloque num caminho quase oposto ao que teu avô paterno imaginou para o futuro da família, sei bem que a capacidade dos pais em moldar os filhos é limitada. Do fundo do meu coração, espero que daqui a quinze anos, quem sabe até um pouco antes, você tenha uma baita de uma crise existencial. Brigue com o mundo, comigo e até com Deus, também. Só não magoe sua mãe, por favor. Depois, uma década ou duas mais à frente, vá se reconciliando, porém nos seus termos. Se voltar para mim, será sinal que não posso mais falar contigo como filho, e sim como igual. Quando não precisar mais de mim, então saberei que continua ao meu lado pelo prazer da companhia. Caso desenvolva novamente algum tipo de espiritualidade, tenho certeza de que ela não será mais a que as crianças aprendem nas aulas de catequese, escolas dominicais ou evangelizações. Não envolverá nenhuma das diversas divindades que a humanidade inventou, nem se apresentará de forma ininteligível no intuito de não ser questionada. Caso ela ainda contenha um deus pessoal, que seja um que não precise ser defendido, pois você poderá amá-lo sem temê-lo. Jamais acredite na sinceridade da fé de alguém que nunca tenha blasfemado.

Por que digo essas coisas? Simples: para que siga seu próprio caminho. O amadurecimento é um processo edipiano, i.e., é preciso que você me mate (simbolicamente, por favor) para que possa seguir em frente. E em sua “paternidade” estará tudo aquilo que receber pronto: a educação escolar, sua cultura, seus valores e seus medos. Quando se libertar disso, não recomeçará do zero: pegará nossos destroços e com eles pavimentará a estrada de seu destino. Não pense que não encontrará resistência do status quo, pois no calor da discussão, serei capaz de te deserdar; outros te prometerão o inferno na Terra ou no outro mundo. Mantenha-se firme, afinal sempre foram os hereges os responsáveis pela evolução cultural da humanidade.

Adaptando certa inscrição feita em famoso templo religioso da Espanha, reúna tudo o que veio antes de você para que venha a inspirar os que vierem depois.

PS: Ele tem seus olhos, meu velho!

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A Fonte da Vida (Rascunho)

16 de abril de 2017 Deixe um comentário

Pingo d'água

    Índice

    Além de fundamental para a existência orgânica, a água comumente esteve associada à ideia pureza. Na dualidade Imundície x limpeza recorrente no antigo judaísmo, a água teve papel fundamental como elemento purificador, o que também foi mais um legado da antiga religião ao cristianismo.

    Lavar-se: mais que um Dever, um Ritual

    Lavagem das mãos

    Lavar as mãos antes da oração: um serviço a Iahweh.

    Para o povo judeu, pureza do corpo é fundamental desde a época do Primeiro Templo. Atesta isso o livro de Levítico, o único do Pentateuco a ser praticamente desprovido de narrativa histórica, centrando-se quase exclusivamente na legislação da vida religiosa, civil, dietética e diária. Diversas são suas instruções de como lidar com os que estão doentes, envolvendo diversas práticas que hoje seriam consideradas de higiene e assepsia:

    E todo o animal que anda sobre as suas patas, todo o animal que anda a quatro pés, vos será por imundo; qualquer que tocar nos seus cadáveres será imundo até à tarde.

    E o que levar os seus cadáveres lavará as suas vestes, e será imundo até à tarde; eles vos serão por imundos.

    Lv 11:27,28

    Esta aparenta ser razoável, e surpreende ao estender o entendimento de “fluxo” para emissões naturais da fisiologia do corpo humano.

    Falai aos filhos de Israel, e dizei-lhes: Qualquer homem que tiver fluxo da sua carne, será imundo por causa do seu fluxo.

    Esta, pois, será a sua imundícia, por causa do seu fluxo; se a sua carne vasa o seu fluxo ou se a sua carne estanca o seu fluxo, esta é a sua imundícia.

    Toda a cama, em que se deitar o que tiver fluxo, será imunda; e toda a coisa, sobre o que se assentar, será imunda.

    E qualquer que tocar a sua cama, lavará as suas roupas, e se banhará em água, e será imundo até à tarde.

    E aquele que se assentar sobre aquilo em que se assentou o que tem o fluxo, lavará as suas roupas, e se banhará em água, e será imundo até à tarde.

    E aquele que tocar a carne do que tem o fluxo, lavará as suas roupas, e se banhará em água, e será imundo até à tarde.

    Quando também o que tem o fluxo cuspir sobre um limpo, então lavará este as suas roupas, e se banhará em água, e será imundo até à tarde.

    Lv 15:2-8

    Também o homem, quando sair dele o sêmen da cópula, toda a sua carne banhará com água, e será imundo até à tarde.

    Também toda a roupa, e toda a pele em que houver sêmen da cópula se lavará com água, e será imundo até à tarde.

    E também se um homem se deitar com a mulher e tiver emissão de sêmen, ambos se banharão com água, e serão imundos até à tarde.

    Lv 15:16-18

    O capítulo XIII é dedicado à distinção da lepra de feridas comuns. Caso alguém fosse diagnosticado com ela pelo sacerdote, era declarado “imundo” e tinha de viver apartado sociedade. O capítulo seguinte trata de sua reintegração em caso de remissão da doença, não sem antes passar por algumas limpezas finais:

    Esta será a lei do leproso no dia da sua purificação: será levado ao sacerdote,

    E o sacerdote sairá fora do arraial, e o examinará, e eis que, se a praga da lepra do leproso for sarada,

    Então o sacerdote ordenará que por aquele que se houver de purificar se tomem duas aves vivas e limpas, e pau de cedro, e carmesim, e hissopo.

    Mandará também o sacerdote que se degole uma ave num vaso de barro sobre águas vivas,

    E tomará a ave viva, e o pau de cedro, e o carmesim, e o hissopo, e os molhará, com a ave viva, no sangue da ave que foi degolada sobre as águas correntes.

    E sobre aquele que há de purificar-se da lepra espargirá sete vezes; então o declarará por limpo, e soltará a ave viva sobre a face do campo.

    E aquele que tem de purificar-se lavará as suas vestes, e rapará todo o seu pelo, e se lavará com água; assim será limpo; e depois entrará no arraial, porém, ficará fora da sua tenda por sete dias;

    E será que ao sétimo dia rapará todo o seu pelo, a sua cabeça, e a sua barba, e as sobrancelhas; sim, rapará todo o pelo, e lavará as suas vestes, e lavará a sua carne com água, e será limpo,

    E ao oitavo dia tomará dois cordeiros sem defeito, e uma cordeira sem defeito, de um ano, e três dízimas de flor de farinha para oferta de alimentos, amassada com azeite, e um logue de azeite;

    E o sacerdote que faz a purificação apresentará o homem que houver de purificar-se, com aquelas coisas, perante o Senhor, à porta da tenda da congregação.

    Lv 14:2-11

    De fato, cadáveres, conforme de degradam, tornam-se criadouros de germes e focos de doenças; sangue e sêmen podem ser infectantes caso seu emissor esteja doente. Faz sentido isolar o portador de uma doença (tida por) contagiosa antes que ela se torne uma praga. Contudo, Levítico traz uma série de restrições que são irrelevantes do ponto de vista medicinal:

    • Não usar um tecido feito com dois tipos de fios (19:19);

    • Não cortar o cabelo em redondo e aparar a barba dos lados (19:27);

    • Não comer carne de porco, camarão, mariscos, coelho, etc (11:1-12);

    • Não comer os frutos dos três primeiros anos de colheita (19:23).

    Por outro lado, tudo faz sentido se observarmos estes versículos:

    Não fareis segundo as obras da terra do Egito, em que habitastes, nem fareis segundo as obras da terra de Canaã, para a qual vos levo, nem andareis nos seus estatutos.

    Fareis conforme os meus juízos, e os meus estatutos guardareis, para andardes neles. Eu sou o Senhor vosso Deus.

    Lv 18:3,4

    Ou seja, as diversas regras que Levíticos estipula existem para realçar a distinção entre os hebreus e os povos que os circundavam e, claro, garantir que pouco misturassem. Ao tornar tabu os pratos prediletos dos vizinhos, participar de uma confraternização com pagãos fica impraticável. Não adotar suas indumentárias torna hebreus e gentios distinguíveis de longe, já a constante higiene torna a proximidade com esses últimos desagradável aos primeiros, caso não a seguissem tão à risca. Não misturar tipos diferentes de fios num tecido, de animais num mesmo pasto ou de plantas no campo reforça ainda mais a ideia de segregação entre o Povo Eleito e restante. Em suma, as deliberações de Levíticos – a pureza material entre elas – estava a serviço da criação de uma identidade nacional israelita (1).

    Nos antigos textos hebraicos, três são as formas de purificação pela água: espargimento (aspersão), lavagem (ablução) e imersão. Algum ritual de limpeza tinha de ser aplicado àquele que se encontra-se me estado “imundo”. O fato de ter sido contaminado por alguma impureza não faria alguém automaticamente um pecador, podia-se simples ser algo que lhe aconteceu por estar no lugar errado, na hora errada:

    Esta é a lei, quando morrer algum homem em alguma tenda, todo aquele que entrar naquela tenda, e todo aquele que nela estiver, será imundo sete dias.

    Também todo o vaso aberto, sobre o qual não houver pano atado, será imundo.

    E todo aquele que sobre a face do campo tocar em alguém que for morto pela espada, ou em outro morto ou nos ossos de algum homem, ou numa sepultura, será imundo sete dias.

    Para um imundo, pois, tomarão da cinza da queima da expiação, e sobre ela colocarão água corrente num vaso.

    E um homem limpo tomará hissopo, e o molhará naquela água, e a espargirá sobre aquela tenda, e sobre todos os móveis, e sobre as pessoas que ali estiverem, como também sobre aquele que tocar os ossos, ou em alguém que foi morto, ou que faleceu, ou numa sepultura.

    E o limpo ao terceiro e sétimo dia espargirá sobre o imundo; e ao sétimo dia o purificará; e lavará as suas vestes, e se banhará na água, e à tarde será limpo.

    Nm 19:14-19

    O que deixaria alguém realmente em apuros seria não ter praticado a purificação sabendo de seu dever:

    Porém o que for imundo, e se não purificar, do meio da congregação será ele extirpado; porquanto contaminou o santuário do Senhor; água de separação sobre ele não foi espargida; imundo é.

    Nm 19:20

    [topo]

    A Mediadora de Deus

    Piscina encontrada na comunidade de Qumran

    Piscina de duas saídas, localizada em Qumran [Lawrence, p. 210].

    Se em Levíticos elas aparecem como parte de um conjunto de instruções para a vida cotidiana, outros livros apresentam a purificação como uma preparação simbólica a algo superior. Em Êxodo, Aarão e seus filhos lavaram pés e mãos antes de iniciar seus serviços na tenda do tabernáculo:

    E falou o Senhor a Moisés, dizendo:

    Farás também uma pia de cobre com a sua base de cobre, para lavar; e a porás entre a tenda da congregação e o altar; e nela deitarás água.

    E Aarão e seus filhos nela lavarão as suas mãos e os seus pés.

    Quando entrarem na tenda da congregação, lavar-se-ão com água, para que não morram, ou quando se chegarem ao altar para ministrar, para acender a oferta queimada ao Senhor.

    Lavarão, pois, as suas mãos e os seus pés, para que não morram; e isto lhes será por estatuto perpétuo a ele e à sua descendência nas suas gerações.

    Ex 30:17-21

    O salmista (Sl 26:5-7) deixou transparecer que esse procedimento era adotado também no Templo de Jerusalém ao tempo de Davi e o historiador Flávio Josefo também escreveu nesse sentido (2). No contexto cotidiano, o ato de lavar das mãos chegou a ser ritualizado já no período intertestamentário pela seita dos fariseus, como sugere Mc 7:3, já a lavagem dos pés permaneceu como parte de um ritual de hospitalidade (3).

    Em Números, os levitas precisam ser purificados antes da execução de seu ofício:

    E falou o Senhor a Moisés, dizendo: Toma os levitas do meio dos filhos de Israel e purifica-os;

    E assim lhes farás, para os purificar: Esparge sobre eles a água da expiação; e sobre toda a sua carne farão passar a navalha, e lavarão as suas vestes, e se purificarão.

    Então tomarão um novilho, com a sua oferta de alimentos de flor de farinha amassada com azeite; e tomarás tu outro novilho, para expiação do pecado.

    Nm 8:5-8

    Fora do Pentateuco, uma nova dinâmica de purificação surge: o próprio Deus procedendo a limpeza física por meio da ritual. O Segundo Livro de Reis, por exemplo, traz um caso interessante de cura mediante ritual de purificação:

    E Naamã, capitão do exército do rei da Síria, era um grande homem diante do seu Senhor, e de muito respeito; porque por ele o Senhor dera livramento aos sírios; e era este homem herói valoroso, porém leproso.

    E saíram tropas da Síria, da terra de Israel, e levaram presa uma menina que ficou ao serviço da mulher de Naamã.

    E disse esta à sua senhora: Antes o meu senhor estivesse diante do profeta que está em Samaria; ele o restauraria da sua lepra.
    (. . .)

    Veio, pois, Naamã com os seus cavalos, e com o seu carro, e parou à porta da casa de Eliseu.

    Então Eliseu lhe mandou um mensageiro, dizendo: Vai, e lava-te sete vezes no Jordão, e a tua carne será curada e ficarás purificado.

    (. . .)

    Então desceu, e mergulhou no Jordão sete vezes, conforme a palavra do homem de Deus; e a sua carne tornou-se como a carne de um menino, e ficou purificado.

    Então voltou ao homem de Deus, ele e toda a sua comitiva, e chegando, pôs-se diante dele, e disse: Eis que agora sei que em toda a terra não há Deus senão em Israel; agora, pois, peço-te que aceites uma bênção do teu servo.

    II Re 5:1-3, 9,10, 14,15

    Embora fosse sírio, Naamã era um homem de valor e serviria ao propósito de propaganda de Eliseu (II Re 5:8). Outras duas passagens chamam atenção: uma é um salmo de Davi a clamar por sua purificação:

    Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e mais branco do que a neve serei. (…) Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto.
    Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo.

    Sl 51(50):7,10-1

    A segunda, a promessa de restauração da Nação após o jugo estrangeiro:

    Pois eu os tirarei das nações, os ajuntarei do meio de todas as terras e os trarei de volta para a sua própria terra. Aspergirei água pura sobre vocês, e vocês ficarão puros; eu os purificarei de todas as suas impurezas e de todos os seus ídolos. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis.

    Ez 36:24-7

    Todas apresentam em comum uma limpeza ritual, representada pela ação da água, acompanhada por outra de cunho moral, propiciada pelo Espírito do próprio Deus, como uma permanente presença sua junto ao purificado. Esse padrão aparece repetidas vezes nos Manuscritos do Mar Morto, preservados nas cavernas de Qumran, com ocasiões em que a purificação é feita pelo próprio Espírito divino:

    Impuro, impuro ele será todos os dias que rejeitar as ordenações de Deus (…). Mas pelo espírito do verdadeiro conselho para os hábitos do homem, todas as iniquidades serão expiadas, de modo que ele olhará a luz da vida, e pelo espírito da santidade que o unirá em sua verdade ele será purificado de todas as suas iniquidades; e pelo espírito da probidade e da brandura seu pecado será expiado, e pela submissão de sua alma a todos os estatutos de Deus sua carne será purificada, para que ele possa ser aspergido com água para a impureza e santificar-se com a água da purificação.

    (1QS – III, 5-9)

    Não os deixes entrar na água para tocar a pureza dos homens da Santidade, pois eles não serão purificados a menos que tenham se arrependido de sua maldade.

    (1QS – V, 13-14)

    E então Deus selecionará os feitos do homem, e purificará por Si o corpo do homem consumindo cada espírito do mal nos tecidos de sua carne e purificando-o com o Espírito Santo de todos os seus feitos maus. E lançará sobre ele o Espírito da Verdade, como água para impureza, por causa de todas as abominações de falsidade e por chafurdar no espírito da impureza.

    (1QS – IV, 20-22)

    Agradeço a ti, ó Senhor, por me apoiares com Tua força. Derramaste Teu Espírito Santo sobre mim para que eu não tropece.

    (1QH -VII, 7)

    E sei que o homem não é reto a não ser através de Ti, e por isso Te imploro, pelo espírito que Tu me deste, que aumentes Tuas [benevolências] para com Teu servo [para sempre], purificando-me pelo Teu Espírito Santo, e aproximando-me de Ti pela Tua graça conforme a abundância de Tuas benesses (…)

    (1QH XVI)

    Fonte: [Vermes]

    Um princípio permeia os textos da comunidade do deserto: a pureza moral deve preceder a ritual, i.e., a limpeza da alma pelo Espírito Santo (ou alguma variante) deve ser feita antes da lavagem em água. Isso nos remete a certa personagem dos princípios do cristianismo e contemporânea da seita essênia de Qumran (4).

    [topo]

    A Voz que clama do Deserto

    A Pregação de João Batista

    A Pregação de João Batista, por Domenico Ghirlandaio

    Nas literaturas deuterocanônicas, intertestamentária e pseudoepígrafa continuaram a existir relatos de práticas de pureza ritual para os leitores de épocas mais próximas a de Jesus ou até contemporâneas:

    Aí entrando, Judite pediu que lhe fosse permitido sair à noite e antes do amanhecer, para fazer suas devoções e orar ao Senhor. Holofernes ordenou aos seus escravos que a deixassem sair e entrar como quisesse, durante três dias, para adorar o seu Deus. Cada noite ela saía ao vale de Betúlia e fazia as suas abluções numa fonte. Ao voltar, rogava ao Senhor Deus de Israel que lhe dirigisse os passos para a libertação do seu povo. Entrava em seguida na sua tenda, e ali permanecia pura até que tomava a sua refeição pela tarde.
    Jt 12:5-9

    Quando havia reunido seu exército, Judas alcançou a cidade de Odolão e, chegando o sétimo dia da semana, purificaram-se segundo o costume e celebraram ali o sábado (5).
    II Mac 12:38

    Tudo que eles [os 72 sábios] queriam era fornecido para eles numa escala pródiga (6). Além disso, Doroteu fazia os mesmos preparativos para eles diariamente, tal como era feito para o próprio rei – pois assim ele fora ordenado pelo rei. De manhã cedo, eles apareciam diariamente na corte, e depois de saudar o rei, voltaram a seus próprios lugares. E como é costume de todos os judeus, lavavam as mãos no mar e oraram a Deus, e então se dedicavam a ler e traduzir a passagem em particular sobre a qual estavam encarregados, e eu lhes fiz a pergunta: “Por que foi que lavaram as mãos antes de orar?” E eles explicaram que era um sinal de que eles não haviam feito mal (pois toda forma de atividade é executada por meio das mãos), pois em seu modo nobre e santo consideram tudo como um símbolo de justiça e verdade.
    Carta de Aristeias.

    Quando tinha eu cerca de dezesseis anos, tive a ideia de provar das diversas seitas que existiam entre nós. Havia três delas, a dos fariseus, os saduceus e a dos essências, como frequentemente lhes disse. Pensava que me familiarizando com todas elas, poderia escolher a melhor. Então me entreguei às asperezas, e me submeti a grandes dificuldades, e passei por todas elas. Nem mesmo me contentei em experimentar apenas dessas três, pois quando tomei ciência daquele cujo nome era Bano, que vivia no deserto, e não usava outra vestimenta senão o que crescia sobre as árvores, e não tinha outro alimento senão o que crescesse por conta própria, e se banhava em água fria frequentemente, tanto de dia como de noite, a fim de se purificar. Eu o imitei nessas coisas e fiquei com ele três anos.

    Flávio Josefo, Autobiografia, segundo parágrafo

    Uma novidade, porém, que se afigurou nesse período foi o uso da lavagem não apenas como um ritual de purificação, mas também iniciático. Em Qumran, banhos purificadores estariam destinados aos que abraçassem os preceitos da comunidade durante um longo estágio probatório:

    O homem, ao recusar-se unir-se à [Aliança de] Deus para caminhar na obstinação de seu coração [não permanecerá na] Comunidade de Sua verdade, pois sua alma despreza o ensinamento sábio das leis justas. Ele não será considerado entre os justos por não ter persistido na conversão de sua vida. Seu conhecimento, seus poderes e suas propriedades não serão recebidos no Conselho da Comunidade, pois quem vai arar a lama da iniquidade volta impuro (?). Não será absolvido pelo que seu coração obstinado reconhece como dentro da lei, pois ao buscar os caminhos da luz ele olha para as trevas. Não será considerado entre os perfeitos; não será purificado pela expiação, nem limpado pelas águas purificadoras, nem santificado pelos mares ou rios, nem lavado com nenhuma ablução. Sendo impuro, impuro permanecerá. Pois enquanto desprezar os preceitos de Deus, não receberá nenhum ensinamento na Comunidade do conselho divino.

    (1QS III)

    Mas então, se alguém tem a intenção de ingressar a sua seita, ele não é imediatamente admitido, mas lhe é prescrito o mesmo método de vida que eles usam por um ano, enquanto ele continua excluído; E dar-lhe-ão também uma pequena pá, e o cinturão supramencionado, e a veste branca. E quando ele tiver dado evidência, durante esse tempo, de que pode observar sua continência, aproxima-se mais de seu modo de viver, e se torna participante das águas da purificação; contudo, não se admite ainda que viva com eles; pois após essa demonstração de sua fortaleza, seu temperamento é provado por mais dois anos; e se aparenta ser digno, então eles o admitem em sua sociedade.

    Josefo, Guerras dos Judeus, livro II, cap. VIII

    Numa singela história de amor contada por um livro pseudoepígrafo, é apresentado o ritual executado pela jovem egípcia Asenath quando Deus aceitou sua conversão ao judaísmo, com a qual poderia se casar com José, “o intérprete de sonhos” (7). Ele possuía semelhanças com a liturgia essênia no que diz respeito ao uso da água, veste branca e certos paramentos:

    Encorajada, Asenath ergueu-se e colocou-se em posição ereta. Então o Anjo falou-lhe assim: “Vai agora mesmo ao teu segundo quarto, desveste a roupa de luto como que te cobriste e tira dos teus quadris a veste de penitência! Remove as cinzas de tua cabeça! Lava as mãos e o rosto com água pura e veste uma roupa branca inata! Cinge os teus rins com o cinto puro e duplo e duplo da virgindade! Depois volta para junto de mim, para que eu possa transmitir-te a mensagem pela qual o Senhor me enviou a ti!

    Asenath dirigiu-se a toda pressa ao seu segundo quarto, repositório dos seus adornos, abriu a arca, retirou dela um vestido branco, fino e imaculado, e vestiu-o, depois de se desfazer da vestimenta preta e arrancar a corda e os andrajos de penitência que lhe envolviam os flancos. Depois colocou seu cinto duplo da virgindade, um nos quadris, outro no peito.

    Isso feito, sacudiu as cinzas da cabeça, lavou as mãos e o rosto com água limpa, tomou também um véu fino e belíssimo e cobriu com ele a cabeça.

    José e Asenath. Fonte: [Tricca, p. 117]

    Pela cronologia bíblica, essa história se passa mais de 400 anos antes da narrativa do Êxodo e, por conseguinte, da entrega da Lei. Para os homens, a única regra de conversão explícita é a circuncisão (Gn. 17:9 – 14), inexistindo uma norma para as mulheres. É provável que o autor desse livro tenha transposto práticas já vigentes em sua época (ca. séc. I a.C. – II d.C.), quando o judaísmo contava com simpatizantes e prosélitos na diáspora (cf. At 6:5). Ainda hoje, os convertidos ao judaísmo concluem um longo processo de admissão com um banho de imersão ritual, após, no caso dos homens, submeterem-se à circuncisão (8).

    O que viria a ser o mais famoso ritual de purificação da cultura ocidental ficou registrado pelo historiador judeu Flávio Josefo e, notadamente, pelos evangelhos. Começando pelo primeiro, uma fonte não religiosa e, supostamente, independente (9):

    Alguns judeus pensavam que a destruição do exército de Herodes veio de Deus, de forma justa, como punição pelo que ele havia feito contra João, chamado Batista: pois Herodes o matara, ele que era um homem bom e pregava para que os judeus praticassem a virtude, tanto pela justiça de uns para com os outros, como pela reverência a Deus, para isso vindo ao batismo. Esta lavagem era aceita por ele, não se fosse para terem alguns pecados perdoados, mas para a purificação do corpo. A alma devia estar purificada antes pela retidão. Quando muitos vieram em multidão até João, movidos por suas palavras, Herodes, que temia a grande influência de João sobre o povo, o que permitiria que estimulasse uma revolta (pois pareciam prontos a fazer o que ele dissesse), pensou ser melhor matá-lo. Isto impediria qualquer ação contrária causada por João e não traria dificuldades para o rei, que poderia arrepender-se muito tarde de tê-lo deixado vivo. Assim, foi aprisionado em Maqueronte, castelo que mencionei antes, e morto. Os judeus consideraram que a destruição do exército de Herodes foi uma punição, para mostrar o desagrado de Deus

    Antiguidades Judaicas, Livro XVIII, cap. V

    Josefo atribui a João um codinome que indica a prática de uma lavagem por imersão (de βαπτιστης, “imersor”), e o retrata como um mestre de sabedoria. Os evangelhos – os sinópticos em particular – acrescentaram um caráter apocalíptico a sua mensagem, um conceito desconhecido no universo greco-romanos do público-alvo de Josefo e bem difundido no judaísmo intertestamentário, inclusive na seita de Qumran. Ao contrário das práticas dela, porém, sua imersão não era um ritual a ser executado recorrentemente, nem após uma longa iniciação. Afinal, o juízo já lhe era iminente.

    Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados.
    E toda a província da Judeia e os de Jerusalém iam ter com ele; e todos eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.

    Mc 1:4-5

    E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura?
    Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento;
    E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão.
    E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo.

    Mt 3:7-10

    Dizia, pois, João à multidão que saía para ser batizada por ele: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir?
    Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento, e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque eu vos digo que até destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão.
    E também já está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não dá bom fruto, corta-se e lança-se no fogo.
    E a multidão o interrogava, dizendo: Que faremos, pois?
    E, respondendo ele, disse-lhes: Quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem, e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira.
    E chegaram também uns publicanos, para serem batizados, e disseram-lhe: Mestre, que devemos fazer?
    E ele lhes disse: Não peçais mais do que o que vos está ordenado.
    E uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo.

    Lc 3:7-14

    Portanto, tal como os essênios, João Batista advogava que a pureza moral proporcionada pelo arrependimento e conduta reta deveria preceder a ritual. Outra similaridade chamativa com a seita era a crença de que o Espírito Santo proporcionaria uma purificação mais completa do ser.

    E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas alparcas. Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.
    Mc 1:7,8

    E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo.

    Mt 3:11 (cf. Lc 3:16)

    Descontando-se a considerável cristianização que a figura de João Batista sofreu ao longo do tempo, é provável que, como apocalipsista de sua época, aguardasse a chegada do Filho do Homem (10), descrito em Daniel 7:1-7, I Enoque (cap. 58 e 69) e com paralelos em Qumran (4QFlor e 11QMelch). Diante de tantas semelhanças, há de se perguntar se João Batista teria sido um essênio que largou a clausura? É uma possibilidade, por outro lado, como a literatura intertestamentária atesta, esses elementos já estavam disseminados no ambiente cultural do judaísmo do Segundo Templo. A seita pode apenas tê-los levado para dentro de sua comunidade quando decidiu se apartar do restante da população. Num caso ou no outro, o Batista serviu de elo (10) entre as antigas práticas de purificação dos judeus e a iniciação dos seguidores de seu mais famoso imerso: Jesus de Nazaré.

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    Nos Sinópticos, um Começo de Magistério

    Cena do batismo de Jesus em O Filho de Deus (2014)

    Com pequenas diferenças, o batismo de Jesus é retratado de maneira similar nos três sinópticos. Apresentando a de Marcos:

    E aconteceu naqueles dias que Jesus, tendo ido de Nazaré da Galiléia, foi batizado por João, no Jordão. E, logo que saiu da água, viu os céus abertos, e o Espírito, que como pomba descia sobre ele. E ouviu-se uma voz dos céus, que dizia: Tu és o meu Filho amado em quem me comprazo.

    Mc 1:9-11

    Nos sinópticos, o batismo de Jesus marca o início de seu ministério público. Independentemente de uma “voz dos céus” realmente ter sido ouvida ou uma pomba repousado sobre Jesus, seus signos remetem a ideia de uma nova vida, quer por uma nova filiação ou pelo início de uma nova era; afinal uma pomba trouxe a Noé um ramo de oliveira assinalando o fim o dilúvio (8:11) e, em Cantares, a voz das rolas anunciava o fim do inverno (Ct 2:12). Por outro lado, também podem representar dor e provação: a Abraão foi dada a ordem para sacrificar seu filho Isaque (Gn 22) e a pomba era a oferta de sacrifício no Templo mais usada pelos pobres.

    Marcos dista uns trinta da morte de Jesus, teria havia tempo suficiente para seus continuadores e novos seguidores desenvolverem uma identificação com esse “renascer”? Pouca informação o primeiro dos evangelhos redigidos nos dá quanto a isso. Em um diálogo entre Jesus e seus discípulos em, há uma confirmação de que eles receberiam o mesmo “batismo que ele recebeu”, embora isso não aparente ser a preocupação central de Jesus quanto à conduta deles:

    Então, se aproximaram dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo-lhe: Mestre, queremos que nos concedas o que te vamos pedir. E ele lhes perguntou: Que quereis que vos faça? Responderam-lhe: Permite-nos que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda. Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu bebo ou receber o batismo com que eu sou batizado? Disseram-lhe: Podemos. Tornou-lhes Jesus: Bebereis o cálice que eu bebo e recebereis o batismo com que eu sou batizado; quanto, porém, ao assentar-se à minha direita ou à minha esquerda, não me compete concedê-lo; porque é para aqueles a quem está preparado. Ouvindo isto, indignaram-se os dez contra Tiago e João. Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos. Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.

    Mc 10:35-45

    O tempo futuro usado na resposta de Jesus em Mc 10:39 indica que os apóstolos ainda não passaram pelo tal “batismo” nem provaram do cálice. Como Marcos já deveria ter conhecimento da morte de Tiago pelas mãos de Herodes Agripa (At 12:1,2), esta passagem é uma antecipação feita pelo evangelista da Última Ceia (cálice) e da morte de Jesus (batismo de sangue). Ou seja, ela serve para a justificação de um passado recente, mas não ao estabelecimento de um rito de iniciação. Alguns podem alegar que Mc 16:16 diz com todas as letras que é preciso “crer e ser batizado” para ser salvo, o que eu concordaria se não fosse um porém: os mais antigos manuscritos deste evangelho encerram o capítulo abruptamente no versículo 8, ou seja, tudo do versículo 9 em diante é espúrio (11).

    Ao copiar Mc 10:35-45, Mateus removeu a referência ao batismo de sangue (cf. Mt 20:20-8); quanto ao batismo convencional, as adições são poucas: uma é armadilha preparada pelos sacerdotes e anciãos indagando sobre a natureza do batismo de João (Mt 21:23-7) – que ficou em aberta pela evasiva de Jesus -, a outra é a crucial ordem dada no último capítulo, em polêmico versículo:

    Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;

    Mt 20:19

    Como a baixa cristologia de Mateus não nos oferece nada como “eu e o Pai somos um” ou “Eu sou“, é tentador pensar que houve uma adulteração. Há, inclusive, uma variante a este versículo sem fórmula trinitária ou alusão ao batismo, que se assemelha a Lc 24:47:

    Ide e fazei discípulos de todas as nações em Meu Nome, ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado.

    Eusébio de Cesareia, Demonstratio Evangelica, III, 6

    O problema é que todos os manuscritos conhecidos até agora de Mateus, e que possuem seus últimos versículos, trazem a fórmula trinitária bem como a ordem para batizar. Eusébio, por sua vez, também é suspeito por ter sido simpatias pela causa ariana e proposto um credo de conciliação. Por ora essa questão permanece em aberto, cabendo-nos cogitar como a comunidade de Mateus poderia ter entendido essa fórmula de modo a manter uma baixa cristologia (12).

    Lucas também não acrescenta muito em relação a Marcos, possuindo também sua versão da pergunta dos sacerdotes a respeito do batismo de João (Lc 20:1-8) e, de forma sucinta, uma alusão ao batismo de sangue de Jesus (Lc 12:50). Em suma, baseando-se exclusivamente no material dos sinópticos, temos o ritual do batismo como uma preparação do povo para a chegada do Messias (Jesus) e o marco inicial de seu ministério, restando apenas uma dúbia ordem para sua prática aos novos conversos após a ressurreição.

    Entretanto falta um pormenor: Lucas possui um segundo volume: Atos dos Apóstolos.

    Já no segundo capítulo, na fala de Pedro à multidão cosmopolita estupefata diante do comportamento dos apóstolos após receberem as “línguas de fogo”, é dito:

    “Portanto, que todo o Israel fique certo disto: Este Jesus, a quem vocês crucificaram, Deus o fez Senhor e Cristo”.

    Quando ouviram isso, ficaram aflitos em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos outros apóstolos: “Irmãos, que faremos?”

    Pedro respondeu: Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo.

    Pois a promessa é para vocês, para os seus filhos e para todos os que estão longe, para todos quantos o Senhor, o nosso Deus, chamar.

    At 2:36-9

    Uma ordem que foi executada em diversas passagens do livro (At 8:12-7; 9:17,8; 10:44-8; 11:15-7; 19:5,6) em que o batismo de água e o do Espírito andam juntos, demonstrando que, para comunidade lucana, era importante uma pessoa se submeter a ambos para se tornar membro dela. De certa forma, Lucas trabalhou fazendo um paralelo (13) com o próprio batismo de Jesus: alguém, ao ser batizado, faria pregações similares e com resultados parecidos, faria milagres semelhantes e também teria visões. Enfim, o batismo seria o início de uma nova vida que espelhava (em menor escala) a de Jesus e dava continuidade a sua obra, podendo até levar a sofrer o mesmo destino. Assim, pela datação desse evangelho e de Atos, o ritual do batismo da água e do Espírito já estava estabelecido entre os cristãos da virada do primeiro século para o segundo. Será que há indícios dele um pouco antes?

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    Paulo: partilhando da Vitória de Cristo

    Mosaico do batismo de Paulo de Tarso

    O Batismo de São Paulo Mosaico do século XII da Capela Palatina, em Palermo (Sicília)

    O “apóstolo dos gentios” descreveu em sua carta escrita aos cristãos de Roma sua própria visão religiosa. Como única carta remanescente de Paulo direcionada a uma comunidade que não fora criada por ele, Romanos possui a característica ímpar de ser onde ele desenvolve em profundidade temas de sua mensagem que apenas comenta ou relembra a seus prosélitos nas demais, afinal teve de explicar tudo do zero a quem não conhecera pessoalmente. Por esse motivo, um nome mais adequado para esta carta seria “Evangelho segundo Paulo”, pois é aqui que descreve em pormenores sua fé e a “boa nova” que tinha a repassar. Em sua apresentação, Paulo expõe um pequeno catecismo cristão, testemunho de uma tradição que antecederia a própria redação do Novo Testamento:

    Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus, que ele antes havia prometido pelos seus profetas nas santas Escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, e que com poder foi declarado Filho de Deus segundo o espírito de santidade [κατα πνευμα αγιωσυνης], pela ressurreição dentre os mortos – Jesus Cristo nosso Senhor -, pelo qual recebemos a graça e o apostolado, por amor do seu nome, para a obediência da fé entre todos os gentios, entre os quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo; a todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados para serdes santos: Graça a vós, e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.

    Rm 1:1-7

    Nesse “cartão de visitas” em forma de credo condensado, Paulo usa um hebraísmo – “espírito de santidade” – em vez do simples adjetivo grego talvez por ser uma forma mais familiar aos fundadores daquela comunidade, além de reforçar sua apresentação como um cristão genuíno, não falso apóstolo a propagandear ideias alienígenas. Uma maneira de preparar terreno para expor sua própria visão a respeito da fé em Jesus: o papel central do martírio de Jesus e sua subsequente ressurreição na salvação da humanidade. Ou melhor, de todos aqueles que reconhecessem esse sacrifício e acreditassem em sua vitória sobre a morte.

    Há diferentes linhas de argumentação utilizadas por Paulo ao longo da carta (14). Uma das principais é o modelo judicial (cf. cap. 3 a 5): Deus seria uma espécie de legislador a regular como os humanos (judeus e gentios Rm 2:9-10) deveriam se portar. O problema é que ninguém, mas ninguém, consegue seguir suas leis, “porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23). Como Deus também é juiz (3:9), a humanidade toda está condenada. A solução, segundo esse argumento, estaria em outra pessoa cumprir a punição por nós, aí que entra o valor do sacrifício de Jesus na cruz (3:24) como forma de cumprimento alternativo da pena, cuja aprovação divina estaria no fato de ele ter sido ressuscitado em seguida (4:24-5). Aos humanos caberia aceitar de bom grado esse sacrifício ofertado em seu lugar (3:27-8).

    Outro argumento importante utilizado por Paulo foi o modelo participacionista. Enquanto o modelo visto acima explica a salvação por meios de termos “jurídicos”, este explica a salvação por meio de uma espécie de união com Jesus Cristo, que livra a humanidade das forças malignas. Bem que forças seriam essas?

    Como apocalipcista, Paulo acreditava num tipo de “dualismo brando”, em que haviam forças antagônicas a Deus regiam a Terra momentaneamente, até que Deus resolvesse intervir. Duas dessas formas cósmicas são de particular relevância: o Pecado e a Morte. Nisso as coisas começam a soar um tanto estranhas ao leitor moderno, para o qual “pecado” é algo ruim que alguém faz e “morte” é o cessar das funções vitais. No entanto, no primeiro século, tanto o ato quanto o fato eram produtos de entidades autônomas, que a todos controlavam. Começando pelo Pecado:

    • O pecado está no mundo (5:13);
    • O pecado governa as pessoas (5:21, 6:12);
    • As pessoas podem servir ao pecado (6:6);
    • Elas podem ser escravizadas pelo pecado (6:17);
    • Elas podem morrer ao pecar (6:11);
    • Elas podem ser libertas do pecado (6:18).

    O pecado, para Paulo, não é meramente algo que as pessoas fazem, mas sim um poder que as compele à prática do mal. Associado a ele, está outro poder maligno: a morte (6:21-3), que definitivamente afasta alguém de Deus. Ao ressuscitar, Jesus teria quebrado o jugo da morte e, por conseguinte, dos poderes com ela associados (6:9-10). Por meio do batismo, tomaríamos parte dessa vitória sobre a morte e nos reconciliaríamos com Deus. Para Paulo, o batismo não seria apenas uma simbólica limpeza de uma alma arrependida ou um rito de passagem para uma nova vida, mas uma experiência de união com Jesus Cristo de modo a participar de sua vitória com a morte:

    Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; porquanto quem morreu está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos, sabedores de que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus.

    Rm 1-11

    Valer reparar que, por esse modelo, embora os fiéis batizados já estivessem mortos em Cristo, i.e., partilhavam de sua vitória contra a morte e o pecado, isso não significava que não fossem mais morrer fisicamente. A salvação só estaria completa no fim dos tempos, quando seriam ressuscitados à semelhança dele. Até lá, deveriam viver “em novidade de vida”, pois já estariam livres da sujeição ao poder do pecado.

    * * *

    Apesar de Romanos já ser suficiente para atestar o valor que Paulo dava ao ritual do batismo, não será improvável encontrar apologistas que tentem rebater com o seguinte versículo:

    Porque Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho; não em sabedoria de palavras, para não se tornar vã a cruz de Cristo.

    I Cor 1:17

    Esse é mais um clássico caso de texto fora do contexto se fazendo de pretexto. Vejamos mais:

    Pois a vosso respeito, meus irmãos, fui informado, pelos da casa de Cloe, de que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo. Acaso, Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vós ou fostes, porventura, batizados em nome de Paulo? Dou graças [a Deus] porque a nenhum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. Batizei também a casa de Estéfanas; além destes, não me lembro se batizei algum outro. Porque Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho; não em sabedoria de palavras, para não se tornar vã a cruz de Cristo.

    I Cor 1:12-7

    A comunidade de Coríntio enfrentava uma série de problemas, dentre eles rixas internas. Paulo não estava menosprezando o ritual do batismo, apenas relatando seu alívio por não ter se tornado mais um elemento desagregador por ter se abstido de praticar o batismo entre eles e, assim, vincular sua imagem ao ritual. Embora essa tarefa pudesse ser delegada, não significa que considerasse o batismo como opcional, pelo contrário:

    Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito.

    I Cor 12:13

    Assim, pela datação de I Coríntios, pode-se dizer que a associação entre o batismo e a ação do Espírito já estava estabelecida entre os cristãos por volta de 60 da era cristã.

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    Um Passo além: o Batismo no período Subapostólico

    Jesus como o bom pastaor

    Bom Pastor. Pintura mural das catacumbas de Priscilla, em Roma (século II)

    Quando os apóstolos já havia partido, mas uma estrutura bem organizada ainda não surgira, as comunidades cristãs lidavam como podiam com suas questões cotidianas. Uma tentativa de criar um conjunto mínimo de referências, foi redigida entre o final do primeiro século e o começo do segundo a Didaqué, também conhecida como “o Ensino dos doze Apóstolos”. Com seus conselhos, diretrizes e exortações, ela procurava amparar as nascentes comunidades numa época em que ainda existiam “profetas itinerantes” um tanto duvidosos e não caíssem em suas arapucas. No que tange ao batismo, ela nos oferece um pequeno manual de “como fazer”:

    Quanto ao batismo, procedam assim: Depois de ditas todas essas coisas [uma instrução quanto aos “dois caminhos”: o da vida (o Bem) e o da morte (o Mal)], batizem em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

    Se você não tem água corrente, batize em outra água; se não puder batizar em água fria, faça-o em água quente.

    Na falta de uma e outra, derrame três vezes água sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

    Antes do batismo, tanto aquele que batiza como aquele que vai ser batizado, e se outros puderem também, observem o jejum. Àquele que vai ser batizado, você deverá ordenar jejum de um ou dois dias.

    Didaqué, cap. VII, tradução de Padres Apostólicos, pp.351-2

    A Didaqué reapresenta a fórmula trinitária utilizada por Mateus, da mesma forma como sua versão do Pai Nosso (cap. VIII) se assemelha mais à dele que à de Lucas, indicando que talvez tenham bebido da mesma tradição, além de ser um ponto a favor de Mt 28:19. Outro aspecto interessante que ela traz é a necessidade de lidar com questões de ordem prática na execução do ritual: embora recomendada, a imersão não era mais obrigatória.

    Enquanto a Didaqué já apresentava uma versão do batismo que viria a se tornar dominante posteriormente, outros textos contemporâneos seus exploravam concepções mais radicais quanto ao caráter e potencialidades do ritual, porém que seriam rejeitadas. Gostaria de comentar dois deles que constituem o que alguns chamam de “cânon falido”: textos de grande circulação nos primeiros séculos do cristianismo, mas que terminaram por ficar fora do Novo Testamento. Datado do começo do século II, o primeiro se chama Epístola de Barnabé, um verdadeiro tratado antissemita obcecado em provar que o judaísmo seria uma religião falsa e o cristianismo a verdadeira interpretação de suas Escrituras, usando e abusando de alegorias. No que diz respeito ao batismo, interpreta o Antigo Testamento alegoricamente a fim de deixar todo Israel de fora do ritual:

    Pesquisemos se o Senhor teve intenção de falar antecipadamente sobre a água e sobre a cruz.

    Quanto à água, está escrito que Israel não teria recebido o batismo que leva à remissão dos pecados, mas que eles próprios teriam construído um. Com efeito, diz o profeta [Jr 2:12,3 e Is 16:1-2]: “Pasma, ó céu, e que a terra trema ainda mais! Pois este povo cometeu um mal duplo: eles me abandonaram, a mim que sou a fonte viva da água, e cavaram para si mesmos uma cisterna da morte. Por acaso, o Sinai, minha montanha santa, é rocha deserta? Vós sereis como os passarinhos que voam, quando se lhes tira o ninho.” E o profeta diz ainda [Is 45:2,3 e Is 33:16–8]: “Eu marcharei à tua frente, aplainarei as montanhas, quebrarei as portas de bronze, despedaçarei as trancas de ferro, e te darei tesouros secretos, escondidos, invisíveis, a fim de que saibam que eu sou o Senhor Deus. Tu habitarás numa caverna alta de rocha sólida, onde a água não falta nunca. Vereis o rei em sua glória e vossa alma meditará no temor do Senhor.

    Epístola de Barnabé, 11:1-5

    No que diz respeito ao ritual em si, Barnabé inova ao dizer que o batismo leva à regeneração moral, em vez de esta ser requisito para ele:

    E outro profeta diz ainda (15): “E a terra de Jacó era celebrada mais do que qualquer outra terra“. Isso quer dizer que ele glorifica o vaso do seu Espírito. O que diz (16) ele a seguir? “Havia um rio que corria, vinda da direita, e árvores esplêndidas hauriam dele seu crescimento. Qualquer pessoa que delas comer, viverá eternamente.” Isso significa que descemos para a água carregados de pecados e poluição, mas subimos dela para dar frutos em nosso coração, tendo no Espírito o tempo e a esperança em Jesus. “Quem comer deles viverá eternamente“, quer dizer: quem escutar, quando tais palavras são ditas, e crer nelas, viverá eternamente.

    Idem, 11:9-11

    Algumas décadas depois, em meados do segundo século, com bem menos ódio e mais teor pio, um escritor cristão denominado Hermas redigiu um documento que viria a ser conhecido como A Carta do Pastor, ou, simplesmente, O Pastor. Teve boa aceitação entre os antigos cristãos (17) e, tal como a Epístola Barnabé, chegou até a ser incluído no Códice Sinaítico – um dos mais antigos manuscritos completos do Novo Testamento (18). Narrado em primeira pessoa, Hermas descreve os encontros que travou com um mediador que lhe apareceu na forma de um pastor, além de outras figuras angélicas. Esses diversos personagens lhe transmitem visões, mandamentos e parábolas; cujo significado ele sempre indaga, recebendo, então, uma explanação de seu mensageiro da ocasião, às vezes a contragosto do explanador. Durante o “Quarto Mandamento”, toca-se na questão do pecado e do batismo:

    Eu disse: “Senhor, ainda quero te fazer outra pergunta.” Ele respondeu: “Pergunta.” Continuei: “Ouvi alguns doutores dizerem que não há outra conversão além daquela do dia em que descemos à água e recebemos o perdão dos pecados anteriores.” Ele me respondeu: “Ouviste bem. E assim mesmo. Aquele que recebeu o perdão de seus pecados não deveria mais pecar, e sim permanecer na pureza. Entretanto, como queres saber tudo com pormenores, eu te explicarei também isso, sem dar pretexto para pecar aos que hão de crer ou aos que começaram agora a crer no Senhor, pois tanto uns como outros não têm necessidade de fazer penitência de seus pecados, pois seus pecados passados já foram abolidos. Para os que foram chamados antes destes dias, o Senhor estabeleceu uma penitência, pois o Senhor conhece os corações. E sabendo tudo de antemão, ele conheceu a fraqueza dos homens e a esperteza do diabo em fazer o mal aos servos de Deus e exercer sua malícia contra eles. Sendo misericordioso, o Senhor teve compaixão de sua criatura e estabeleceu a penitência, e deu-me o poder sobre ela. Todavia, eu te digo: se, depois desse chamado importante e solene, alguém, seduzido pelo diabo, cometer pecado, ele dispõe de uma só penitência; contudo, se peca repetidamente, ainda que se arrependa, a penitência será inútil para tal homem, pois dificilmente viverá.” Então eu lhe disse: “Senhor, sinto-me reviver depois de ouvir essas coisas tão pormenorizadamente, pois sei que serei salvo, se eu não continuar a pecar.” Ele me disse: “Serás salvo, tu e todos os que fizerem essas coisas.

    Carta do Pastor, cap. XXXI

    Hermas retorna a opinião original de que o batismo complementa um arrependimento prévio, mas não seria capaz de evitar recaídas no mal. Mas adiante, na Nona Parábola, ele compara o batismo a um “selo divino” (19) capaz de transformar os (espiritualmente) mortos em vivos:

    Eu pedi: “Senhor, explica-me mais ainda.” Ele respondeu: “O que procuras mais?” Eu continuei: “Senhor, por que as pedras tiveram que subir do fundo, para ser colocadas na construção da torre, embora tivessem esses espíritos?” Ele respondeu: “Era preciso que saíssem da água, para receber a vida. Elas não podiam entrar no Reino de Deus, senão deixando a mortalidade da vida anterior. Tais mortos receberam o selo do Filho de Deus e entraram no Reino de Deus. De fato, antes de levar o nome do Filho de Deus o homem está morto. Quando recebe o selo, deixa a morte e retoma a vida. O selo é a água: eles descem à água e daí saem vivos. Também a eles foi anunciado esse selo, e eles o usaram para entrar no Reino de Deus.” Eu perguntei: “Senhor, por que as quarenta pedras também sobem com eles do abismo, visto que estas já haviam recebido o selo?” Ele respondeu. “Porque esses apóstolos e doutores que anunciaram o nome do Filho de Deus, adormecidos no poder e na fé do Filho de Deus, o anunciaram também àqueles que tinham morrido antes deles, e lhes deram o selo do anúncio. Desceram com eles à água e novamente subiram. Contudo, desceram vivos e subiram vivos, enquanto os que estavam mortos antes deles desceram mortos e subiram vivos. E graças a eles que estes últimos receberam o nome do Filho de Deus. Por isso, subiram com eles, foram ajustados à construção da torre, e colocados sem ser lavrados, porque morreram na justiça e na pureza. Apenas não tinham o selo. Agora tens a explicação dessas coisas.” Eu respondi: “Sim, senhor.

    Idem, cap. XCIII

    Ao lado de Hermas e Barnabé, por pouco não ficou a Carta aos Hebreus, vista com desconfiança por sua autoria desconhecida e cuja tentativa de atribuição a Paulo já era questionada nos primeiros séculos. Em seu capítulo sexto, ela estabelece o batismo como doutrina fundamental e dá um alerta para os que fraquejam na fé:

    Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito, não lançando, de novo, a base do arrependimento de obras mortas e da fé em Deus, o ensino de batismos e da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno. Isso faremos, se Deus permitir. É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia.

    Hb 6:1-6

    Ou seja, para o anônimo autor de Hebreus, os que recaíssem em pecado não teriam uma segunda chance de arrependimento, uma exceção aberta por Hermas. Uma fórmula ritualística à moda das antigas purificações judaicas é usada por ele em Hb 10:22: “Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado com água limpa“. O autor da Epístola deve ter feito uso dessa fórmula porque ela era tradicional, embora ele fosse oposto às “várias abluções“(Hb 9:9-10) dos judeus que, segundo ele, pertencem à categoria das “justificações da carne” e “não podem aperfeiçoar aquele que faz o serviço” (idem).

    Outras cartas canônicas – agora com autoria reconhecida pela tradição apesar de serem pseudonímias – trazem um entendimento multifacetado do batismo como ritual. Em Efésios (5:25-26), temos a lavagem mais como um simbolismo para a purificação, do que ela em si: “E vós, maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela Palavra(…)”, ao passo que I Pedro (I Pe 3:20,1) fala do batismo em termos semelhantes a Hebreus 10:22, aceitando-o como a confirmação de uma consciência purificada, mas rejeitando com toda a ênfase a ideia de um corpo purificado: “agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundície da carne, mas da indagação de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo.

    * * *

    Se, numa época quando a proto-ortodoxia ainda se organizava, eram de se esperar divergências em diversas questões doutrinárias. Então, o que pensariam acerca do batismo os grupos dissidentes?

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    Um Toque Esotérico

    Os códices de manuscritos gnósticos descobertos em Nag Hammadi.

    Não é incomum encontrar quem pense terem constituído os gnósticos um grupo à parte da proto-ortodoxia, com seus próprios locais de cultos. Na verdade, eles foram um movimento secretista dentro da própria Igreja nascente. Eles estavam disseminados entre os fiéis comuns, partilhavam de suas atividades e cultos. Apartavam-se apenas quando o assunto era o “conhecimento” especial que julgavam ter, e, inclusive, admitiam que seus irmãos ignorantes – embora bons cristãos – também teriam direito a serem salvos, ainda que não recebessem uma salvação tão plena quanto a deles (20). Assim, os gnósticos também se batizavam; a questão é: o que o ritual significava para eles? Nas palavras de uma estudiosa do cristianismo gnóstico:

    (…) Felipe [no Evangelho Gnóstico de Felipe] pergunta O que acontece – ou não acontece – quando uma pessoa recebe o batismo? É o mesmo para todos? Felipe sugere que não. Há muita gente, diz ele, para quem o batismo simplesmente assinala a iniciação. Um indivíduo desses “entra na água e sai sem ter recebido nada e diz ‘Sou cristão'”(li). Às vezes, porém, prossegue Felipe, a pessoa batizada “recebe o Espírito Santo (…) que é o que acontece quando se experimenta um mistério”(lii). O que faz a diferença envolve não só a dádiva misteriosa da graça divina, mas também a capacidade de compreensão espiritual do iniciado.

    Assim, escreve Felipe, repetindo a carta de Paulo aos gálatas, muitos crentes se veem mais como escravos do que como filhos de Deus; mais os batizados, qual bebês recém-nascidos, destinam-se a crescer na fé rumo à esperança, ao amor e à compreensão (gnose):

    “A fé é a nossa terra, na qual criamos raízes; a esperança é a água que nos nutre; o amor é o ar com que crescemos; a gnose é a luz com que nos tornamos plenamente desenvolvidos” (liii).

    Quem inicialmente professa a fé no nascimento virgem pode, mais tarde, atingir uma compreensão diferente do que isso significa, explica ele. Muitos crentes continuam a interpretá-lo literalmente, como se Maria tivesse concebido sem José; “alguns dizem que Maria concebeu através do Espírito Santo”, mas “estão errados”(liv), diz Felipe. Pois o “nascimento virgem” não é algo que aconteceu uma vez a Jesus; refere-se ao que pode acontecer a qualquer um que seja batizado e “renascido” por meio de uma “virgem que desce”, ou seja, do Espírito Santo(lv). Assim como Jesus nasceu “espiritualmente” quando o Espírito Santo desceu sobre ele em seu batismo, também nós, que primeiro nascemos fisicamente, podemos “renascer por meio do Espírito Santo” no batismo, de modo que “ao nos tornarmos cristãos, passamos a ter um pai e uma mãe”, (lvi) ou seja, o Pai celestial e o Espírito Santo.

    Cf. [Pagels, cap IV, p.138-9].

    Notas da autora:
    (li)Evangelho de Felipe, 64.22-26
    (lii)Ibidem, 64.29-31
    (liii)Ibidem 79.25-31
    (liv)Ibidem 55.23-24
    (lv)Ibidem 71.3-15
    (lv)Ibidem 52.21-24

    Ou seja, ao menos para um grupo específico de gnósticos, o batismo, para alguns iluminados, propiciaria uma experiência de “renascimento” através do Espírito, que desvelaria o conhecimento (gnose) mais profundo. É um linguajar que guarda semelhança ao de uma passagem encontrada em outro evangelho de grande sucesso entre os gnósticos – embora tenha se originado fora de seus círculos -, a Boa Nova de João.

    [topo]

    O Novo Nascimento

    Jesus e Nicodemos

    Jesus e Nicodemos, por Crijn Hendricksz.

    Ora, havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus. Este foi ter com Jesus, de noite, e disse-lhe: Rabi, sabemos que és Mestre, vindo de Deus; pois ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele.

    Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.

    Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?

    Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te admires de eu te haver dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.

    Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode ser isto?

    Respondeu-lhe Jesus: Tu és mestre em Israel, e não entendes estas coisas? Em verdade, em verdade te digo que nós dizemos o que sabemos e testemunhamos o que temos visto; e não aceitais o nosso testemunho! Se vos falei de coisas terrestres, e não credes, como crereis, se vos falar das celestiais? Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem. E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna.

    Jo 3:1-15

    Único entre os evangelhos canônicos, João refaz elementos dos sinópticos de um jeito alternativo: a expulsão dos vendilhões do Templo se dá no começo de seu ministério, tendo ele de criar outra causa imediata (21) para a decisão do Sinédrio de entregar Jesus aos romanos; a instituição da eucaristia – o clímax da Última Ceia – é substituída por um (na verdade, dois) longo discurso de despedida; e o encontro de Jesus e João Batista nas águas do Jordão é narrado de forma indireta por este último (Jo 1:30-4). Embora haja uma série de sinais e prodígios, não há exorcismo algum; apesar de ressaltar uma regra de ouro – “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 13:34) -, nenhuma parábola ao estilo dos sinópticos é contada (22).

    A diferença mais brutal, sem dúvida, é falta de qualquer pormenor quanto à mensagem de Jesus: o tema central deste evangelho é o próprio Jesus! Haveria razões para uma abordagem tão diferente? Pela dinâmica social que transparece nas linhas deste evangelho, pode-se intuir que sua comunidade estaria em crise: seus membros eram expulsos da sinagoga, desenvolviam, por conta disso, sentimentos antijudaicos (Jo 8:37:47), eram perseguidos pelos pagãos (Jo 17:14), e, como indica a Primeira Carta de João, enfrentavam uma rixa interna que terminou em cisma. Como se não bastasse, quiçá ainda enfrentasse a rivalidade com outras comunidades cristãs, como a que redigiu o evangelho gnóstico de Tomé, o Dídimo, dado o pouco apreço que essa figura recebeu durante o episódio da ressurreição, sendo retratado como incréu (Jo 20:24-9).

    Nesse contexto turbulento, a questão dos sacramentos também parece ser matéria de discussão. Embora não haja uma instituição da eucaristia na Última Ceia, ela aparece de forma poética num discurso dado no primeiro terço do livro:

    Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim. Não que alguém visse ao Pai, a não ser aquele que é de Deus; este tem visto ao Pai. Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer não morra. Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo. Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como nos pode dar este a sua carne a comer? Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu; não é o caso de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre.

    Jo 6:44-58

    Se isso foi uma adição posterior à redação original ou não, fica em aberto. Como em Jo 6:59 somos informados que Jesus “disse estas coisas na sinagoga, ensinando em Cafarnaum”, isso pode ser indício de uma justificação do ritual ante uma comunidade judaica que não o entendia e o desprezava. Neste caso, e em muitos aspectos, este evangelho aparenta não ter sido escrito como uma instrução a novatos – como foi o de Lucas – mas para a justificação da fé de uma comunidade que perigava colapsar. Quando Jesus deu um novo mandamento em Jo 13:34 – “amai-vos uns aos outros” – está implícito que outros mandamentos já eram de conhecimento de seus primeiros leitores/ouvintes.

    De forma similar, caso não existisse a conversa com Nicodemos pouca informação haveria quanto ao significado do batismo para aquela comunidade. O batismo do próprio Jesus aparece apenas nas entrelinha da fala de João Batista:

    E eu não o conhecia; mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água.
    E João testificou, dizendo: Eu vi o Espírito descer do céu como pomba, e repousar sobre ele.
    E eu não o conhecia, mas o que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo.

    Jo 1:31-33

    A partir dos sinópticos, é possível saber a que esse episódio se refere, mas com o material exclusivo do próprio João, isso fica apenas sugerido. Seu público já o deveria saber por outros meios.
    Também chega a ser chamativa uma certa contradição que salta de seus versículos:

    Depois disto foi Jesus com os seus discípulos para a terra da Judeia; e estava ali com eles, e batizava (3:22)

    E quando o Senhor entendeu que os fariseus tinham ouvido que Jesus fazia e batizava mais discípulos do que João (ainda que Jesus mesmo não batizava, mas os seus discípulos), deixou a Judeia, e foi outra vez para a Galileia. (4:1-3)

    O versículo Jo 4:2 tem forte cheiro de enxerto, deixando dúvida se essa comunidade acreditava que Jesus batizara em vida ou não. De qualquer forma, por esse material ele ao menos não reprovou a prática de seus discípulos.

    No enfoque de sanar contendas da comunidade e validar crenças, a conversa entre Jesus e Nicodemos vinha a resolver outro problema: o batismo deveria ser pela água ou pelo Espírito? Se lembramos a fala de João Batista (Jo 1:33): “o que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo.” ficamos com a impressão de que Jesus não batizaria mais com água, o que pode ter gerado o arremedo que Jo 4:2. Lembrando a tradição de Atos, em algumas passagens o recebimento do Espírito se dá por imposição das mãos em pessoas previamente batizadas (At 8:17-8 e 19:6). Já em At 10:44-8, temos o padrão oposto: gente que primeiro recebeu o Espírito Santo (mesmo sem imposição de mãos) e só depois foi batizada. Isso sugere que, na Igreja primitiva, houvesse quem tomasse o batismo de água e o de Espírito por dois sacramentos separados (ou separáveis), uma ideia radicalizada entre a comunidade joanina, levando ao risco de o segundo preterir o primeiro. Assim, a conversa de Nicodemos vem a reafirmar a necessidade da sagração por ambos o meios para que se “nasça de novo”. No caso em particular dessa comunidade, o novo nascimento pressupunha a morte como judeu, afinal já haviam sido “mortos” ao serem expulsos da sinagoga (23).

    Um possível complemento a essa análise surge ao se reparar que a palavra grega anothen (Jo 3:3) pode significar tanto “de novo” como “do alto”, provocando um interessante jogo de palavras: Nicodemos teria compreendido o primeiro sentido, enquanto Jesus teria em mente o primeiro. O entendimento quanto a esse nascimento celestial (Cf. [Ehrman (2008), cap. XI, p.167]) só poderia ser explicado por aquele que tivesse vindo do céu: o Filho do Homem (Jo 3:13), que já é um circunlóquio para figura de Jesus nesse evangelho. Há um reforço ao sentido “do alto” por ocasião da fala de João Batista nesse mesmo capítulo

    Aquele que vem de cima [ανωθεν] é sobre todos; aquele que vem da terra é da terra e fala da terra. Aquele que vem do céu é sobre todos.

    Jo 3:31

    Contudo, a análise do tecido social do Quarto Evangelho passou longe do tratamento espírita a essa conversa e a análise linguística repete equívocos dos fanáticos religiosos que tanto eles criticam.

    [topo]

    A Releitura de Kardec

    Retrato de Allan Kardec

    Do Evangelho segundo o Espiritismo (ESE), cap. IV

    5 – E havia um homem dentre os fariseus, por nome Nicodemos, senador dos judeus. Este, uma noite, veio buscar a Jesus, e disse-lhe: Rabi, sabemos que és mestre, vindo da parte de Deus, porque ninguém pode fazer estes milagres, que tu fazes, se Deus não estiver com ele. Jesus respondeu e lhe disse: Na verdade, na verdade te digo que não pode ver o Reino de Deus senão aquele que renascer de novo. Nicodemos lhe disse: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode entrar no ventre de sua mãe e nascer outra vez? Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus, o que é nascido de carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito. Não te maravilhes de eu te dizer que vos importa nascer de novo. O Espírito sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde ele vem, nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do Espírito. Perguntou Nicodemos: Como se pode fazer isto? Respondeu Jesus: Tu és mestre em Israel, e não sabes estas coisas? Em verdade, em verdade te digo: que nós dizemos o que sabemos, e damos testemunho do que vimos, e vós, com tudo isso, não recebeis o nosso testemunho. Se quando eu vos tenho falado das coisas terrenas, ainda assim me credes, como creríeis, se eu vos falasse das celestiais? (João, III: 1-12)

    6 – A ideia de que João Batista era Elias, e de que os profetas podiam reviver na Terra, encontra-se em muitas passagens dos Evangelhos, notadamente nas acima reproduzidas (nº 1 a 3). Se essa crença fosse um erro, Jesus não deixaria de combatê-la, como fez com tantas outras. Longe disso, porém, ele a sancionou com toda a sua autoridade, e a transformou num princípio, fazendo-a condição necessária, quando disse: Ninguém pode ver o Reino dos Céus, se não nascer de novo. E insistiu, acrescentando: Não te maravilhes de eu ter dito que é necessário nascer de novo.

    7 – Estas palavras: “Se não renascer da água e do Espírito”, foram interpretadas no sentido da regeneração pela água do batismo. Mas o texto primitivo diz simplesmente: Não renascer da água e do Espírito, enquanto que, em algumas traduções, a expressão do Espírito foi substituída por do Espírito Santo, o que não corresponde ao mesmo pensamento. Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários feitos sobre o Evangelho, assim como um dia será constatado sem equívoco possível.(1)

    8 – Para compreender o verdadeiro sentido dessas palavras, é necessário reportar à significação da palavra, que não foi empregada no seu sentido específico. Os antigos tinham conhecimentos imperfeitos sobre as ciências físicas, e acreditavam que a Terra havia saído das águas. Por isso, consideravam a água como o elemento gerador absoluto. É assim que encontramos no Gênesis: “O Espírito de Deus era levado sobre as águas”, “flutuava sobre as águas”, “que o firmamento seja no meio das águas”, que as águas que estão sob o céu se reúnam num só lugar, e que o elemento árido apareça”, “que as águas produzam animais viventes, que nadem na água, e pássaros que voem sobre a terra e debaixo do firmamento”.

    Conforme essa crença, a água se transformara no símbolo da natureza material, como o Espírito o era da natureza inteligente. Estas palavras: “Se o homem renascer da água e do Espírito”, ou “na água e no Espírito”, significam pois: “Se o homem não renascer com o corpo e a alma”. Neste sentido é que foram compreendidas no princípio.

    Esta interpretação se justifica, aliás, por estas outras palavras: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito”. Jesus faz aqui uma distinção positiva entre o Espírito e o corpo. “O que é nascido da carne é carne”, indica claramente que o corpo procede apenas do corpo, e que o Espírito é independente dele.

    9 – “O Espírito sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai”, é uma passagem que se pode entender pelo Espírito de Deus que dá a vida a quem quer, ou pela alma do homem. Nesta última acepção, a sequência: “mas não sabes de onde vem nem para onde vai”, significa que não se sabe o que foi nem o que será o Espírito. Se, pelo contrário, o Espírito, ou alma, fosse criado com o corpo, saberíamos de onde ele vem, pois conheceríamos o seu começo. Em todo caso, esta passagem é a consagração do principio da preexistência da alma, e por conseguinte da pluralidade das existências.

    (…)

    (1) A tradução de Osterwald está conforme o texto primitivo, e traz: não renascer da água e do Espírito. A de Sacy diz do Espírito Santo. A de Lamennais também diz: Espírito Santo.

    Essa interpretação que Allan Kardec dá aos versículos de Jo 3:1-15 é menos apelativa que a dada no capítulo anterior do ESE, quando Jo 14:1-3 (“Há muitas moradas na casa de meu pai“) é utilizado como justificativa da vida em outros planetas (espiritual ou carnal). Eu também creio na possibilidade de que haja outros planetas habitados neste vasto universo, porém sou cético de que os antigos hebreus criam nisso. Tal interpretação soa mais como uma espécie de anacronismo: a transposição de ideias, conceitos, costumes, etc. de uma época para outra, a qual eles são alienígenas. O tratamento dado à conversa com Nicodemos padece do mesmo problema.

    Um adepto ou simpatizante pode não perceber isso, pois Kardec faz uma seleção de versículos auxiliares que lhe são úteis. A questão é que há, como vimos, toda uma massa de textos do Antigo Testamento, pseudoepígrafos, essênios, neotestamentários e da literatura cristã primitiva apontando para o uso de “água” e “Espírito” vinculados explicitamente à purificação e à iniciação, e não à reencarnação. Já essa última, quando indicada por espiritualistas, tem de ser extraída das entrelinhas. O sentido mais provável em que essas palavras “foram compreendidas no princípio” não foi o apregoado por Kardec.

    Um espírita tem todo o direito de assim interpretar, porém os demais religiosos não tem a menor obrigação de comprar esse peixe. Contudo o que é ruim ainda pôde ficar pior…

    [topo]

    Se hay Bautismo, soy Contra

    Emergindo das águas

    Pode não.

    Em Analisando as Traduções Bíblicas, cap. XVII, Severino Celestino da Silva sintetiza várias das objeções espíritas ao entendimento da conversa com Nicodemos como uma alusão ao batismo, além de acrescentar algumas de própria autoria:

    Perguntou-lhe Nicodemos: Como isso pode acontecer? Respondeu-lhe Jesus: És mestre em Israel e ignoras essas coisas? Em verdade, em verdade, te digo: falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, porém não aceitais o nosso testemunho. Se não credes quando vos falo das coisas da terra, como ireis crer quando vos falar das coisas do céu?”

    Este é o texto que tem dado mais trabalho aos exegetas que querem negar a Reencarnação. No entanto, é o mais claro e contundente de todos, por isso, existe um verdadeiro malabarismo por parte destes, no sentido de obscurecer o verdadeiro e claro sentido desta passagem. Iniciamos pelo vocábulo “anóten” que em grego pode significar “de novo” e “do alto”.

    Nesta passagem, esse vocábulo significa realmente “de novo”, porém a maioria dos exegetas emprega o termo “do alto” para justificar a sua descrença na Reencarnação. Este malabarismo envolve também a questão gramatical na tradução do texto, como veremos mais adiante. Colocaremos, aqui, muitas observações e conceitos empregados, sobre este texto, feitos por Torres Pastorino na sua obra “Sabedoria do Evangelho”, com relação ao texto grego. Concordamos plenamente com todos os seus conceitos, razão por que o usaremos para reforçar nossa exegese. A análise do texto hebraico é de autoria e responsabilidade nossa.

    p. 238, 4a. ed.

    Vejamos, então, cada parte dessa análise:

    Muitos começam com a afirmação de que Jesus teria dito: “AQUELE QUE NÃO NASCER “DO ALTO”. Observe, no entanto, que a pergunta feita por Nicodemos, em seguida, denota que ele entendeu que Jesus falava realmente em nascer “de novo” e não “do alto”: Como pode “o homem, depois de velho, entrar pela segunda vez (deuteron) no ventre materno?”

    Esta ambiguidade de entendimento só acontece na língua grega, porque no hebraico, que foi realmente a língua em que Jesus dialogou com Nicodemos, este problema não existe. O texto é bem claro e jamais pode significar “do alto”. Diz o seguinte: (“im Iô iualed ish mimkôr ’ai lô-iukal lirôt et-malkut haelohim”) im=se, =nâo, iualed=incompleto do grau qal do verbo “nolad”=nascer, ish=um homem, mimekôr= palavra composta, formada por mi=de + makôr=fonte de água viva, origem. Existe a expressão hebraica “Mekôr chaim” que quer dizer “fonte da vida”. Observe que não existe nada referente “ao alto”, no texto grego, como muitos querem se fazer entender. Assim, o Cristo fala que aquele que não nascer em origem, no sentido de se voltar à fonte original da vida, ou seja, nascer novamente, “não poderá” (lô-iuchal=incompleto do verbo iachôl =poder) ver o reino de Deus (lirôt et-malkut haelohim).

    Assim, no diálogo, a palavra grega “anóten” tem o sentido e significado de “de novo”, portanto, Jesus falava de retorno, ou seja, de Reencarnação mesmo, como foi visto no texto hebraico.

    Lembramos, ainda, que Nicodemos já era um cidadão de idade avançada e o Cristo lhe fala de Reencarnação (Nascer de Novo), como uma esperança e reconforto para ele, mostrando-lhe que a vida não termina com a morte, nem os velhos devem temer a morte, pois podem renascer e começar tudo novamente.

    p. 239 [grifos do autor do livro]

    Eu não teria tanta certeza assim. Concordo que o texto é controverso: Na impressão de 1995 de A Bíblia de Jerusalém, optou-se pelo termo “do alto”, sem nenhuma alusão a duplo sentido (apenas fala “melhor do que ‘de novo’”). Já a impressão de 1998 substituiu anothen por “de novo” e criticou a tese do jogo de palavras. Segundo André Chouraqui, autor bem cotado pelo Dr. Severino, o anônimo redator do texto deixou transparecer que dominava tanto o idioma grego quanto os do ramo semítico (Chouraqui, A Bíblia – Johanam), podendo ter expresso seu raciocínio no primeiro idioma. Como não sou exegeta e, sim, alguém buscando mais um enfoque histórico, repito duas objeções implicitamente levantadas por Bart Ehrman [(2008), cap. XIV, p. 237] à historicidade do episódio:

    1. Tal diálogo ocorreu realmente?
    2. Se ocorreu, foi do jeito que consta no Evangelho de João?

    Sim, ainda hoje há adeptos da “fé racionada” achando que alguém gravou a conversa entre Jesus e Nicodemos, ao estilo do livro Operação Cavalo de Troia, ou, de forma menos apelativa, registrou taquigraficamente a conversa em uma tábua de cera. Se tal registro um dia existiu, encontra-se perdido. O que temos é o Evangelho de João, cuja língua original é tida como sendo a grega, pela maioria dos pesquisadores. O jogo de palavras feito pode ter sido a intenção de seu anônimo autor. “Peraí, o Dr. Severino postou o texto em hebraico“. Sim, fiquei tão surpreso que gostaria de saber de onde esse texto saiu. Nenhuma informação é dada em sua bibliografia e, ao que eu saiba, a primeira tradução para esse idioma foi feita nos tempos do Renascimento. Ou seja, até que se esclareça a fonte utilizada por ele, há um forte cheiro de uma tradução de outra tradução.

    Isso me lembra o episódio de Teodora e as 500 prostitutas assassinadas: ninguém soube indicar a fonte, embora propalassem o boato. Acho que a fonte hebraica para evangelho de João vai pelo mesmo caminho: quando um apologista espírita for cobrado, vai declarar frases como: “tenho que ir, pois vai chover!”, “Alá um disco voador!” ou “não tenho de dar fonte alguma pois você não refutou tais e tais pontos“… Haja paciência.

    [topo]

    Um Artigo (Nada) em Falta


    Os artigos gregos do nominativo singular

    Na sequência, Cristo confirma que era isso que Ele queria dizer: “Quem não nascer de água (materialmente, com o corpo denso, dado que o nascimento físico é feito através da bolsa d’água do líquido amniótico), (…) e de espírito (pneumatos), (ou seja, que adquirira nova personalidade no mundo terreno, em cada nova existência, a fim de progredir). Se Nicodemos entendeu ao pé da letra as palavras de Jesus, o Mestre confirma ao pé da letra e reforça o seu ensino. Com efeito, o espírito ao reentrar na vida física, pode ser considerado o mesmo espírito que inicia suas experiências, esquecido de todo o passado.”

    A questão gramatical: No texto em grego não há artigo diante das palavras “água” (ek ydatos = de água) e “espírito” (kai pneumatos), portanto, o texto fala em nascer “de água e de espírito”. Não é portanto, nascer da água do batismo, nem do espírito, mas de água (por meio da reencarnação) e de espírito (pela Reencarnação do espírito).

    p. 239-40 [grifos do autor do livro]

    Agora será muito estranho o que vou dizer: a tradução em português que usa do artigo (“da água e do espírito”) é a mais correta! Bem, acho que o leitor deve estar se perguntando por quê? Para entender, vamos ter de entrar em certas particularidades do grego. Coisa que Severino da Silva não realçou é que a preposição εκ/εξ (e sua equivalente latina “ex”) não tem o sentido simples de nosso “de”. O mais preciso seria: de dentro para fora ( no espaço e no tempo), a partir de, de, origem, ponto de partida, de iniciativa.

    Exemplos retirados de [Murachco, pp. 563-565]:

    εκ θαλαττης – do mar. [a partir do mar]
    εκ παιδων – desde a infância. [a partir da infância]
    εκ χρυσων πινομεν φιαλων – Nós bebemos de taças de ouro.
    οι εξ εκεινων γεγονοτες – os que nasceram deles

    Note que em alguns dos exemplos, o artigo inexiste em grego, mas se faz necessário em português para dar a ideia de origem, como se fez em “da água” e “do espírito”, e não o uso deles como um veículo. Vale lembrar que várias palavras e, principalmente, sentenças de sentido geral não costumam levar artigo em grego: mar, cidade, céu, dia, sol e uma das gramáticas usadas pelo Dr. Severino informa isso (24). Não houve nenhuma garantia que um uso sem artigo (anartro) da palavra “água” foi feito, que teria causado uma ausência também em “espírito”. Para corroborar sua tese de que não se falou de batismo em tal versículo, Dr. Severino faz uma interpretação sui generis do livro de Gênesis:

    O primeiro versículo do Gênesis (1:1) fala que no princípio criou Deus os Céus e a terra. A palavra “céus” em hebraico “Shamaim” (…) significa: “Carrega água”, “Ali existe água”; “fogo e água” que, misturados um ao outro, formaram os Céus.

    Como podemos observar, tudo começou com as águas. Água é vida e essa era a crença geral naquela época. É lógico que o Cristo não falava de batismo e sim de retorno através da água. Lembramos ainda que 99% da constituição das células reprodutoras são água.

    p. 240 [grifos do autor do livro]

    A crença da época apontava a água como instrumento de purificação. Como já foi dito aqui anteriormente, há toda uma massa de textos do Antigo Testamento, pseudoepígrafos, essênios, neotestamentários e da literatura cristã primitiva apontando para o uso de “água” e “Espírito” vinculados explicitamente à purificação e à iniciação, em vez da reencarnação. E não será um versículo que mudará isso. Ademais, como o conceito de “célula” era desconhecido pelos antigos hebreus, a analogia com as células reprodutoras não passou de um forte anacronismo por parte do autor.

    Uma ironia é que logo no parágrafo seguinte, a palavra grega para “espírito” aparece precedida de artigo; um pormenor pelo qual Severino Celestino da Silva passou tangencialmente:

    Daí a explicação que segue “o que nasce da carne (ek tês sarkos) com artigo (tês) em grego, é carne”, isto é com corpo físico, com toda a hereditariedade física herdada do corpo dos pais; “e o que nasce do espírito (ek tou pneumatos) é espírito”, ou seja, o espírito que reencarna provém do espírito da última reencarnação com toda a hereditariedade pessoal (cármica) que traz do passado.

    p. 240 [grifos do autor do livro]

    Ou seja, nem ele explica que a tradução mais ao pé da letra de pneuma é “sopro” e ela não tinha o sentido de “alma” que ganhou com o tempo. Tanto que em textos de Justino Mártir (Diálogos…, IV) e Orígenes (Comentário sobre o Evangelho de João, livro VI, cap VII) é clara a distinção entre alma (psyché, em grego) e espírito (pneuma).

    E no próprio Novo Testamento há exemplos de expressões preposicionadas (com εκ e outras), de sentido definido, que não levam artigo em grego:

    εν αρχη – no princípio (Jo 1:1)
    απ’αρωχης – desde o princípio (Mt 19:4)
    εκ δεξιων – à direita (Mc 10:37)
    εκ αριοτερων – à esquerda (Mc 10:37)
    εκ νεκρων – dentre os mortos (Mt 17:9)
    εν πνευπατι – no espírito (Ef 6:18)

    Em resumo: em grego antigo, existia apenas o artigo defino. Sua presença delimitava o substantivo ao qual se referia, porém sua ausência não o tornava necessariamente indefinido. Clique neste link para acessar um estudo pormenorizado sobre o tema.

    [topo]

    Uns dizem um espírito, outros dizem o Espírito. Eles escreviam ΠΝΑ

    Jo 3:6 em P66
    foto de P66
    Papiro P66 em Jo 3:6

    Detalhe do papiro P66 em Jo 3:6, exibindo o nomem sacrum para pneuma em apenas uma das aparições dessa palavra no versículo. Extraído de Early Bible.

    Recapitulando as observações feitas por Kardec quanto às traduções que dispunha do Evangelhos João, em relação ao versículo 3:5:

    7 – Estas palavras: “Se não renascer da água e do Espírito”, foram interpretadas no sentido da regeneração pela água do batismo. Mas o texto primitivo diz simplesmente: Não renascer da água e do Espírito, enquanto que, em algumas traduções, a expressão do Espírito foi substituída por do Espírito Santo, o que não corresponde ao mesmo pensamento. Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários feitos sobre o Evangelho, assim como um dia será constatado sem equívoco possível.(1)

    (. . .)

    Nota (1): A tradução de Osterwald está conforme o texto primitivo, e traz: não renascer da água e do Espírito. A de Sacy diz do Espírito Santo. A de Lamennais também diz: Espírito Santo.

    A tradução da Bíblia para o francês feita por Louis-Isaac Lemaistre de Sacy (1613 – 1684) se valeu da Vulgata, segundo informa a aprovação clerical recebida por ela. A tradução dos Evangelhos de Félicité Robert de Lamennais, em meados do século XIX, faz referências às leitura do texto grego e da Vulgata, embora em Jo 3:5 traga a leitura Esprit-Saint sem maiores explicações. Já o pastor protestante suíço Jean-Frédéric Osterwald (1663 – 1747) revisou a Bible de Genève com base no texto grego e redigiu apenas esprit, com letra minúscula. Tanto Kardec quanto Dr. Severino advogam que “espírito” em Jo 3:5 não deve ser entendido como “Espírito Santo” com base na autoridade do texto “mais antigo”.

    Inicialmente, vejamos o que entendiam os tradutores acima por “Vulgata” e “Texto Grego”. A primeira é a Vulgata Sixto-Clementina, uma recensão feita nos tempos da Contrarreforma da tradução de Jerônimo de Estridão. Alguns manuscritos da Vulgata – como o Códice Covensis – trazem a leitura ex aqua et Spiritu Sancto, enquanto o Códice Amiatinus – o mais antigo exemplar completo da Vulgata (ca. séc. VIII) – traz apenas ex … Spiritu. Já o mais tardio Códice Cavense (séc. IX) traz a leitura mais longa, assim como diversos outros códices cujas leituras refletem a Vetus Latina, além de ser citada por autores latinos tão separados no tempo como Tertuliano (séc. II e III, em De Baptismo, cap. XIII) e Tomás de Aquino (séc. XIII, em Suma Teológica, parte III, questão 66, art 2º). Essa leitura pode até não ser a original, porém é mais antiga do que sugere Kardec. Quanto a “texto grego”, entenda-se que seria o Textus Receptus (“Texto Recebido”), a edição do Novo Testamento em grego feita pelo erudito Erasmo de Roterdã (1466 – 1536). Apesar de todas as críticas justificadas feitas ao texto de Erasmo, não há em Jo 3:5 discrepância com relação aos manuscritos de melhor qualidade: apenas “εξ … πνευματος” aparece na fala de Jesus a Nicodemos. Teria, então, algum tradutor latino inserido no texto da Vetus uma interpretação em vez da tradução mais literal? É provável que sim, embora ele ainda seja inocente ou, pelo menos, digno de um atenuante, pois é possível rastrear essa associação de “espírito” como “Espírito Santo” em Jo 3:5 desde o século III. Como sabemos disso? Os antigos copistas deixaram indicações.

    Uma linha argumentativa recorrente entre pretensiosos “biblistas” espiritualistas é a de que, nos evangelhos, sempre se deveria escrever “espírito” em vez de “Espírito”, pois na antiguidade inexistiam a diferenciação entre letras maiúsculas e minúsculas, afinal essas últimas só foram inventadas na Idade Média. Portanto, qualquer um que traduza ΠΝEYMA por “Espírito” terá inserido uma interpretação teológica tardia, após a consolidação da doutrina da Trindade. Quem dera que os fatos fossem tão simples assim. De fato, os antigos copistas escreviam apenas em maiúsculas e, para economizar tempo e aproveitar ao máximo as caríssimas folhas de pergaminho, nãoseparavamumapalavradaoutra (scripta continua) recorriam muitas vezes a abreviaturas. Como essas eram feitas para as palavras mais frequentes, nada mais natural que as de cunho religioso fossem escolhidas e dessem origem ao que, em tempos modernos, seria designado como uma classe especial de abreviaturas: os nomina sacra (“nomes sagrados”).

    Uma particularidade interessante dos nomina sacra é que todos os manuscritos antigos possuem um conjunto mínimo deles, dando a entender que, se já não surgiram junto com os originais dos livros, começaram a ser utilizados bem cedo. Quatro nomes aparecem universalmente em todos os unciais na forma abreviada: “Senhor” (Κυριος), “Deus” (Θεος), “Jesus” (Ιησους) e “Cristo” (Χριστος). Conforme a datação dos manuscritos avança, outras palavras se juntam ao grupo, como “Pai” (Πατηρ), “Filho” (Υιος), “Cruz” (Cταυρος), “Israel” (Ισραηλ), “Céu” (Ουρανος), etc. Não havia uma regra única para as abreviaturas, mas, em geral, os copistas tomavam a primeira ou as duas primeiras letras, a última, e as sobrescreviam com um traço horizontal. Como a terminação de uma palavra variava conforme o caso em que se encontrasse, os nomina sacra também mudavam em concordância.

    Uncial Nominativo Genitivo
    Senhor ΚΥΡΙΟC ΚC ΚΥ
    Deus ΘΕΟC ΘC ΘΥ
    Jesus ΙΗCΟΥC ΙC ΙΥ
    Cristo ΧΡΙCΤΟC ΧC ΧΥ
    Espírito ΠΝΕΥΜΑ ΠΝΑ ΠΝC
    Pai ΠΑΤΗΡ ΠΗΡ ΠΡC
    Filho ΥΙΟC ΥC ΥΥ
    Cruz CΤΑΥΡΟC CΤC CΤΥ
    Israel ΙCΡΑΗΛ ΙΗΛ indeclinável
    Céu ΟΥΡΑΝΟC ΟΥΝΟC ΟΥΝΟΥ

    Lista não exaustiva de nomina sacra comuns em manuscritos do Novo Testamento. Não foram incluídas variantes como IHC para Jesus. Mais pormenores em [Comfort, cap. IV]

    Como se enquadra Pneuma no histórico do emprego dos nomina sacra? Seu nomen sacrum ΠΝΑ se encontra presente nos mais antigos manuscritos que chegaram até nós contendo a palavra “espírito” denotando uma origem divina, dando a entender que seria tão antigo quanto os quatro primários e seria tranquilamente aceito como um quinto membro desse grupo se não fosse por duas anomalias [Comfort, cap. IV, pp. 231-41]:

    • O papiro P46 (c. 175-225, contém epístolas paulinas) deixa de aplicar o nomen sacrum para o espírito divino em dez circunstâncias que seriam comumente aceitas depois;
    • O Códice Vaticano, contemporâneo do igualmente famoso Sinaítico (séc. IV), não possui nomen sacrum para Pneuma.

    Uma conciliação proposta é que P46 teria sido redigido numa época de transição, quando as abreviaturas para Pneuma ainda estavam se desenvolvendo e o Códice Vaticano seria uma reprodução de um manuscrito ainda mais antigo que P46. Com o material disponível atualmente, isso é apenas conjectura, não estando descartada a hipótese de o copista de P46 ter se descuidado. Por ora, pode-se afirmar que, se ΠΝΑ não for um nomen sacrum primário, ao menos é quase tão antigo quanto os desse grupo.

    O impacto desse registro paleográfico é deixar claro que a personalização do Espírito Santo – representando um ente específico e não uma classe – se encontra presente desde o II século de nossa Era e duzentos anos antes do I Concílio de Constantinopla. E, embora o registro escrito fosse bem mais precário, os antigos tinham, sim, seus meios para destacar o que lhes era relevante. Os nomina sacra constituíam um deles. Não revelam apenas vislumbres de como “Espírito” era compreendido, mas também aspectos um pouco mais profundos de exegese. Por exemplo, relembrando o diálogo entre Jesus e Nicodemus, mais especificamente este versículo:

    Jo 3:6
    P66
    (Fonte)
    Papiro P66 em Jo 3:6
    P75
    (Fonte)
    Papiro P75 em Jo 3:6

    A última oração do versículo – και το γεγεννημενον εκ του πνευματος πνευμα εστιν (“e o que é nascido do espírito é espírito”) – é interpretada de forma diferente pelos copistas. O de P66 distinguiu o Espírito divino do humano, dando a entender que “o Espírito divino gera o espírito humano”. Essa é a interpretação da maioria das traduções modernas. Já o de P75, por sua vez, tratou os dois como divinos, sugerindo que “o que é gerado pelo Espírito também é divino”. A passagem, sem dúvida, permite mais de um entendimento, não havendo razão alguma para se considerar o viés reencarnacionista como o único possível, como fazem certos apologistas espíritas. Bem antes de Niceia, as opiniões eram outras…
    [topo]

    Várias Línguas, Poucos Poliglotas

    Jesus perante Pilatos

    – Quid est veritas?
    – Por favor, Pilatos, você deveria falar:
    Τι εστιν αληθεια;
    Aliás, cadê o intérprete nesta cena do filme?

    Na encruzilhada de diversos impérios ao longo de sua história, a região do antigo reino de Herodes recebeu diversas influências, que deixaram suas marcas linguística nas culturas locais. Quatro são os idiomas em questão: hebraico, aramaico, grego e latim; cada um com um papel diferente em sua sociedade no primeiro século da Era Comum.

    1. Latim: Do grupo, este idioma era o “recém-chegado”, tendo sido apresentado às terras da Judeia pelas tropas do general Pompeu em 63 a.C., passando a marcar um pouco mais de presença quando ela passou para a administração de direta de Roma no sexto ano da Era Comum. Com certeza era ouvida na capital administrativa, Cesareia Marítima, entre os soldados e altos funcionários civis do império, contudo era a língua do conquistador. Para um romano, aprender um idioma local seria uma habilidade a mais, já um nativo poderia ser visto como traidor se fizesse o contrário. Inscrições monumentais encontradas nos vestígios arqueológicos das construções romanas da época de forma alguma significam que seus autores desejavam ser lidos por outros que não fossem os seus. Os romanos se congratulavam entre si e, para os que estavam de fora, a mensagem de uma inscrição latina era sempre a mesma: “Roma manda aqui“;

    2. Grego: difundido no Levante pelas tropas de Alexandre da Macedônia, o dialeto koiné desse idioma era a língua internacional da helenizada orla oriental do Mediterrâneo no primeiro século da Era Comum e só perderia esse posto após a expansão do Islã, a partir do século VII. Na divisão do império macedônio, a Judeia ficou inicialmente com o Egito dos Ptolomeus e, em seguida, passou para o domínio dos Selêucidas da Síria. Esse último tentou impor uma helenização forçada e acelerada que resultou na vitoriosa revolta dos Macabeus e na instauração da dinastia Hasmoneia. Entretanto, isso não foi o fim da influência grega na região, afinal já estavam estabelecidas grandes comunidades judaicas pelo mundo helênico, cujo idioma materno não era mais o hebraico ou o aramaico e, sim, o grego. Em suas peregrinações ao Templo, esses judeus da diáspora faziam garantir que a língua de Platão fosse escutada pelos nativos Jerusalém e arredores. Com a conquista romana e o reinado de Herodes, uma nova fase de aculturação começou e voltaram a florescer colônias gregas nas bordas de seu reino. Um desses centros cosmopolitas foi a cidade de Séforis, localizada a apenas 7 km de Nazaré, onde um certo jovem galileu chamado Jesus deve ter trabalhado. Sim, Jesus Histórico com certeza travou contato com a cultura greco-romana e em algum grau deveria compreender a língua franca de sua região – o grego koiné, a questão é qual era seu provável grau de intimidade com o idioma? Ou, em outras palavras, até onde era difundido o bilinguismo na Galileia/Judeia do primeiro século?

      De fato, mesmo uma pessoa pouco instruída pode dominar várias línguas caso tenha sido exposta a elas desde cedo ao interagir com falantes nativos de outros idiomas. Contudo, ser capaz de realizar transações comerciais, fornecer instruções objetivas, ou dar explicações de como chegar a algum lugar, requer bem menos vocabulário e domínio da gramática que sermões religiosos ou expressões de afeto. Via de regra, gentios e judeus viviam perto uns dos outros o suficiente para estabelecer um contato superficial, mas dificilmente seriam entrosados o bastante para precisar de uma comunicação profunda. O fato de alguns discípulos de Jesus – como Felipe e André – e o próprio Nicodemos possuírem nomes de origem helênica atesta uma elevada influência da cultura grega na região, mas pouco garante algo sobre o bilinguismo de seus habitantes. Um paralelo moderno pode ser a profusão de nomes próprios de origem inglesa na Brasil, mesmo nas camadas populares (às vezes grosseiramente aportuguesados), embora o grosso da população continue monoglota.

      Alguns relatos fora dos evangelhos reforçam a ideia de que a maioria dos judeus locais não possuía o grego como primeira língua:

      • Em Atos, capítulos VI a VIII, é relatada uma rixa entre os “judeus de fala hebraica” e os de “fala grega”. Bem, esses dois grupos deveriam se comunicar utilizando alguma língua em comum, mas qual? No capítulo XXI, vv. 37-40, Paulo comunica-se com os soldados que o prendem em grego, mas fala à multidão em aramaico. Ainda que tal passagem não tenha sido 100% verídica, a Lucas deve ter tentado dar plausibilidade à narrativa, lembrando que a maioria dos os ouvintes não dominava o grego muito bem. Assim, os bilíngues eram os judeus de fala grega, como Paulo o era;

      • No livro V, capítulo IX de A Guerra dos Judeus, Flávio Josefo informa que serviu de intérprete para o general romano Tito:

        Mas então Tito, sabendo que a cidade [Jerusalém] seria ou salva ou destruída por ele mesmo, não apenas procedeu prontamente ao cerco, mas não deixou de exortar os judeus ao arrependimento; de modo que uniu um bom aconselhamento com seus trabalhos de cerco. E tendo o senso de que exortações são frequentemente mais efetivas que braços, persuadiu-os a entregar a cidade, que já estava tomada de certa forma, e assim se salvarem, e enviou Josefo para falar com eles em sua própria língua; pois imaginou que poderiam ceder à persuasão de um conterrâneo deles.

      Assim, é provável que Jesus (o Histórico) conhecesse e até entendesse um pouco de grego, mas com certeza não era sua língua materna, nem o idioma com que pregava às massas.

    3. Hebraico: Com o Cativeiro de Babilônia (590 – 538 a.C.) , os israelitas remanescentes foram expostos ao, ou melhor, imersos no idioma do conquistador: o aramaico, que era um parente próximo do hebraico na família das línguas semíticas. Mesmo com a queda do Império Babilônico ante os persas e o retorno de parcela do povo a Israel, ele continuou a ser a língua oficial da parte ocidental do novo império. Com seu uso constante no contato com outros povos, quer na diplomacia ou no comércio, e com os que permaneceram na Babilônia fez o aramaico suplantar o hebraico como língua materna dos judeus, deixando ao segundo apenas o uso litúrgico. O livro de Neemias (v. 13:24) dá um registro dessa mudança linguística ao relatar que metade dos filhos de casamentos mistos “não sabia mais o hebraico”. Acredita-se que ao tempo de Jesus, esse processo já estivesse quase completo na Palestina romana.

      Estaria o hebraico ainda vivo o bastante para ter sido usado como veículo para a pregação de Jesus? Nem todos os judeus foram exilados na Babilônia e, com certeza, ele ainda era usado nas Sinagogas, mas e fora delas? As regiões rurais poderiam ser isoladas o bastante ter ficado imunes a exílio, num primeiro momento, e ao cosmopolitismo posterior; além do que, bem longe de Jerusalém, a comunidade de Qumran escreveu todos os seus textos doutrinários em hebraico, indicando que deveria ser ao menos a língua litúrgica local. Entretanto, já não era o hebraico dos livros bíblicos, mas um intermediário entre ele o hebraico mishinaico utilizado pelos rabinos após a revolta de Bar Kochba, o que seria sinal de que o hebraico continuava a evoluir como língua justamente por ainda estar bem vivo.

      Esses indícios, contudo, não são conclusivos: quinze porcento dos textos bíblicos em Qumran estão em aramaico, indicando que boa parte dos membros da comunidade (os novatos, talvez) não conseguia ler diretamente em hebraico, além do fato de línguas puramente escritas também evoluírem, embora mais devagar, por causa da evolução do meio ambiente em que seus redatores vivem e da língua que falam (25). O hebraico pode, sim, ter sobrevivido nas isoladas colinas ao sul da Judeia (26), mas para as maiores aglomerações, evidências apontam para uma quarta opção de língua vernacular.

    4. Aramaico: Ao contrário do latim e o grego, o aramaico contava para os falantes de hebraico com a vantagem de pertencer à mesma família de línguas – a semítico-ocidental -, e a similaridade entre esses dois era comparável com a que existe entre as atuais línguas neolatinas. Isso, sem dúvida, ajudou o aramaico a suplantar o hebraico, fincando sua presença, inclusive, nos mais tardios livros que viriam a constituir o Antigo Testamento: metade do livro de Daniel está escrito nessa língua (Dn 2:4b–7:28) e trechos longos Esdras, também (4:8–6:18 e 7:12–26). Por fim, sua escrita “quadrada” substituiu a variante do alfabeto fenício usada antes do Exílio.

      Fora dos textos bíblicos, a evidência das inscrições monumentais, lapidares (ossários) e de correspondências aponta para uma predominância do aramaico sobre o hebraico em antigas áreas de preponderância semita na Judeia do primeiro século e adjacências (27). O aramaico, portanto, deve ter sido o idioma de uso mais corrente entre o povo de Jerusalém e ainda mais no da Galileia. Se Jesus desejou que sua mensagem alcançasse o maior número de pessoas, então deve ter se valido deste idioma. Nos evangelhos, várias palavras de origem aramaica – como Abba (Mc 14:26, “Pai”) ou Rabôni (“Mestre”, Jo 20:16) – aparecem com uma explanação de sentido para seus leitores gregos, além do grito de Jesus (Mt 27:46) na crucificação – “Eli, Eli, lema sabachthani?” (28), cuja última palavra está indiscutivelmente em aramaico (29). Embora não se possa garantir historicidade nas falas em que ocorrem esses aramaísmos, ao menos os evangelistas procuraram apresentar Jesus como um falante de aramaico.

    Ainda que o aramaico fosse a primeira opção de Jesus, teria sido possível que ele pregasse em outras línguas? Bem, tudo dependeria de seus interlocutores e do quanto ele dominava o idioma deles. Dentro das sinagogas, o uso do hebraico poderia ser válido, supondo um Jesus instruído formalmente na Torá. A conversação em alguns episódios das narrativas evangélicas – como a cura do servo de um centurião (Mt 8:5-13 e Lc 7:1-10) e o diálogo com Pilatos -, caso verídicos, teriam sido em grego pelo fato de um dos interlocutores ser totalmente alienígena à cultura local. Entretanto, que não se descarte a hipótese de que tenha havido um intérprete no meio, suprimido pela tradição que chegou aos evangelistas (30). No caso da conversa com Nicodemos, temos dois semitas falando ambiente indeterminado. Nada indica que essa conversa se deu em grego ou algum nicho em que a adoção do hebraico fosse presumida. Assim, o duplo sentido de novo/do alto seria inválido por não ser possível de ser reproduzido em aramaico, certo? Talvez se esteja procurando a resposta nos locais errados.
    [topo]

    Buscando-se apenas onde há luz

    Vela na escuridão

    – Estou procurando por minha moeda de 25 centavos que deixei cair.
    – Você a deixou cair aqui?
    – Não, deixei cair duas quadras rua abaixo.
    – Então por que está procurando por ela aqui?
    – Porque aqui a luz é melhor.

    (Mutt and Jeff, 1942)

    Na questão dos manuscritos originais dos evangelhos (autógrafos), temos, ao menos provisoriamente, uma certeza e uma grande dúvida: todas as cópias mais antigas disponíveis estão em grego e não se sabe se seriam, na verdade, reproduções de traduções feitas a partir de originais em aramaico. É possível, também, que os evangelhos tenham sido redigidos já em grego, porém baseados em fontes aramaicas. Eusébio de Cesareia, em A História Eclesiástica (livro V, XXXIX, 16), cita uma observação feita pelo um antigo escritor cristão e bispo de Hierápolis, Papias (31), acerca da redação de Mateus: “Mateus ordenou as sentenças em língua hebraica, mas cada um as traduzia como melhor podia.” Teriam sido essas sentenças uma primeira redação dos ditos de Q e depois algum anônimo juntou com a narrativa de Marcos que, segundo o próprio Papias (idem, XXXIX, 15) “foi intérprete de Pedro, pôs por escrito, ainda que não com ordem, o quanto recordava do que o Senhor havia dito e feito“, dando origem ao atual evangelho de Mateus? Possivelmente, conforme a hipótese quádrula da origem dos sinópticos, mas como Marcos teria sido bilíngue e já se tentavam traduzir as “sentenças de Mateus”, essa junção já poderia ter ocorrido diretamente em grego. A dobradinha Lucas/Atos, com sua dedicatória a Teófilo e um enfoque da migração do cristianismo dos judeus para o mundo, certamente foi escrita em grego. Quanto ao Evangelho de João, as dúvidas são ainda maiores a respeito de um possível original semita seu ou de parte dele. A tensão retratada entre cristãos e judeus aliada à virtual ausência dos saduceus e dos zelotas em seu texto sugerem uma redação após 70 d.C., quando fariseus e nazarenos entraram em rota de colisão e diáspora se acelerou. Seu mais antigo exemplar – o diminuto papiro P52 – é datado em cerca de 125 d.C., já com um texto em grego. Pela análise de seu texto, cogita-se a existência de certas fontes empregadas por seu anônimo redator (o hino do prólogo, um evangelho de sinais, uma coletânea de discursos e uma narrativa da paixão), mas não há como lhes garantir uma origem aramaica. Entretanto, há quem aposte nessa tese.

    James David Audlin é um de seus principais advogados e, embora seja algo ainda bem controverso, ele teve uma interessante sacada quanto à inviabilidade de uma palavra aramaica como o mesmo duplo sentido da grega anothen: na verdade, o duplo sentido existente em aramaico era outro – similar, mas não idêntico – e anothen foi a tentativa de um tradutor grego de simulá-lo. Para saber qual seria essa palavra, Audlin se vale da Peshitta, a versão da Bíblia escrita em siríaco (o dialeto aramaico da Síria), que fornece em Jo 3:3 a palavra ܪܝܫ (riysh), que pode significar “cabeça”, “princípio”, “principal”. Eis alguns usos seus no Novo Testamento siríaco:

    • Cabeça (1 Cor 12:21)
    • Pedra angular (lit. “cabeça da esquina” ou “principal da esquina”, Mc 12:10, Lc 20:17, At 4:11, I Pd 2:6 e Ef 2:20)
    • Princípio, começo (Mc 1:1 e Jo 1:1)
    • Primeiro (Col 2:16 – referindo-se à primeira lua nova do mês)
    • Ponta (Lc 16:24)
    • Extremidade (Mc 13:27)
    • Chefe, líder (Mt 9:34, Lc 8:41, Ef 2:2)

    Do jeito que riysh está preposicionada e prefixada no diálogo com Nicodemos (men d’riysh, literalmente, “(a partir )do começo”), ela forma uma expressão muito similar à italiana da capo, podendo significar realmente “de novo” – como indiscutivelmente ela aparece em Gl 4:9,19 ou II Cor 3:1 -, porém também poderia ser entendida como “(a partir) do topo”, i.e, “de Deus”. É um raciocínio interessante e mataria a questão se não fosse por um pormenor: em nenhum outro lugar do Novo Testamento men d’riysh é usada indubitavelmente para indicar um lugar superior. Portanto, Audlin pode estar “forçando a barra” e impondo a um idiomático um significado que nunca teve. Como já expliquei em outro lugar, não basta um dicionário para validar uma tradução, pois quem define o significado de uma palavra é quem a usa. Dicionários apenas correm atrás.

    Por outro lado, um dos livros do Novo Testamento em que a Peshitta traz esse idiomático duas vezes no mesmo capítulo, com um contexto bem revelador:

    Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,
    I Pedro 1:3

    (…)

    Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro;
    Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre.
    I Pedro 1:22-3

    O anônimo autor de I Pedro advogava uma regeneração moral por meio do Espírito e, provavelmente o tradutor da Peshitta identificou isso em Jo 3:3. De fato, não é preciso um jogo de palavras para produzir um duplo sentido que confundisse Nicodemos. Ele não estava sozinho.

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    Notas

    (1) Segundo [Finkelstein & Slberman, IV, p. 169]:

    Hoje, como no passado, as pessoas demonstram sua etnia de muitas maneiras diferentes: na língua que falam, na religião, no modo de vestir, nas práticas funerárias e nos elaborados tabus dietéticos. A simples cultura material deixada pelos pastores e fazendeiros das montanhas, que se tornaram os primeiros israelitas, não oferece nenhuma indicação precisa de seu dialeto, de seus rituais religiosos, de seus costumes ou de suas práticas fúnebres. Mas descobriu-se detalhe muito importante sobre seus hábitos dietéticos; os ossos recuperados nas escavações de pequenas vilas israelitas antigas nas regiões montanhosas diferem daqueles dos assentamentos em outras partes do país num aspecto significativo: não foram encontrados ossos de porcos. Os conjuntos de ossos de antigos assentamentos nas regiões montanhosas continham remanescentes de porcos, e condição idêntica ocorre para os assentamentos posteriores da mesma região, na pós-Idade do Ferro. No entanto, ao longo da Idade do Ferro – a era das monarquias israelitas – os porcos não eram cozidos e comidos, ou mesmo criados, nas regiões montanhosas. A informação comparativa de assentamentos do mesmo período – a Idade do Ferro I – na costa filisteia mostra número surpreendentemente grande de ossos de porcos entre ossos de animais que foram recuperados. Embora os antigos israelitas não comessem porcos, sabe-se que os filisteus comiam (pelo que podemos dizer de informações pouco detalhadas), do mesmo modo que os amonitas e moabitas a leste do Jordão.

    A proibição ao porco não pode ser explicada apenas por razões ambientais ou econômicas. De fato, pode ser a única pista disponível para uma identidade específica, partilhada entre os aldeões das regiões montanhosas a oeste do Jordão. Talvez os proto-israelitas tenham parado de comer porco só porque as pessoas que os cercavam – seus adversários – assim o faziam e eles tenham começado a se perceber diferentes. Práticas culinárias e costumes dietéticos distintos são duas maneiras pelas quais são formadas fronteiras étnicas. O monoteísmo e as tradições do Êxodo e da Aliança parece que vieram mais tarde. Na metade do milênio antes de o texto bíblico ser composto, os israelistas, com suas leis detalhadas e regras dietéticas, escolheram – por razões que não estão absolutamente claras – não comer porco. Fazendo o mesmo, os judeus modernos estão dando continuidade à prática arqueológica documentada mais antiga do povo de Israel.

    Tal como a língua, as práticas de higiene também não deixaram vestígios arqueológicos, embora também pudessem facilmente constituir mais uma “fronteira étnica”.

    (2) Em Antiguidades Judaicas, livro VIII, cap. III.

    Ele [Salomão] também fez dez grandes tanques redondos de latão, que eram os próprios lavatórios, cada qual contendo quarenta batos [1 bato ~ 32 litros], pois tinham quatro côvados de altura e suas bordas distavam o mesmo tanto uma da outra. Também dispôs esses lavatórios sobre dez bases chamadas “Mechnoth”, e colocou cinco dos lavatórios no lado esquerdo do templo, que é o lado em direção ao vento setentrional, e igual número no lado direito, na direção sul, porém voltados em direção ao leste; na mesma direção [leste] ele também colocou o mar, então, designou o mar para a lavagem das mãos e pés dos sacerdotes, quando eles adentravam o templo e tinham de subir ao altar, mas os lavatórios para a limpeza das entranhas dos animais a serem queimadas em oferendas, junto com as patas deles.

    O texto é muito parecido com II Cr 4:2-8, mas na Bíblia somos informados apenas que os sacerdotes se lavavam e não especificamente “pés e mãos” como informa Josefo.

    (3) Exemplos:

    Que se traga já um pouco de água, e lavai os vossos pés, e recostai-vos debaixo desta árvore;
    Gn 18:4

    E disse: Eis agora, meus senhores, entrai, peço-vos, em casa de vosso servo, e passai nela a noite, e lavai os vossos pés; e de madrugada vos levantareis e ireis vosso caminho. E eles disseram: Não, antes na rua passaremos a noite.
    Gn 19:2

    Então veio aquele homem à casa, e desataram os camelos, e deram palha e pasto aos camelos, e água para lavar os pés dele, e os pés dos homens que estavam com ele.
    Gn 24:32

    Depois levou os homens à casa de José, e deu-lhes água, e lavaram os seus pés; também deu pasto aos seus jumentos.
    Gn 43:24

    E levou-o à sua casa, e deu pasto aos jumentos; e, lavando-se os pés, comeram e beberam.
    Jz 9:21

    Então ela se levantou, e se inclinou com o rosto em terra, e disse: Eis que a tua serva servirá de criada para lavar os pés dos criados de meu senhor.
    I Sm 25:41

    Vale lembrar a passagem dos evangelhos (Lc 7:36-50; Mt 11:28-30) em que Jesus é convidado para jantar por um fariseu e tem os pés ungidos pelas lágrimas de uma pecadora e secos por seus cabelos, enquanto o dono da casa sequer lhe ofereceu água para a lavagem.

    (4) Cf. [Lawrence, cap. IV, p. 153] e [Flusser, cap. III, pp. 69-71].

    (5) Pelo texto de II Macabeus não é possível saber em que consistia tal purificação “segundo o costume”. Para uma discussão sobre hipóteses, ver [Lawrence, cap. III, pp. 62-4].

    (6) A Carta de Aristeias traz a lendária história da origem da Septuaginta, ou melhor, da tradução do Pentateuco para o idioma grego. O faraó Ptolomeu Filadelfo (285- 247 a.C.) teria solicitado a 72 sábios judeus de Alexandria a tradução da Torá para o grego koiné, a fim de incluí-la em sua famosa biblioteca. O trabalho, curiosamente, teria sido concluído em exatos 72 dias.

    (7) Nome também transliterado por Azenate e, ainda, Asenate. Pouca informação sobre ela há no cânon bíblico (cf. Gn 41:45,50-2), o que abriu espaço para amplo trabalho criativo extrabíblico.

    (8) Cf. [Asheri, cap. XLV, pp. 267-9]. O livro de Judite relata o ato de conversão de Aquior apenas como sendo a circuncisão (Jd 14:6), talvez evidenciando uma diversidade de culto entre os judeus da diáspora ou omitindo a lavagem ritual por considerá-la, para os homens, apenas como uma prévia da circuncisão. No século II da Era Comum, o Talmude babilônico já equiparava ambos os rituais em importância:

    [Mas] todos concordam que ablução ritual sem circuncisão é efetiva, mas discordam apenas quanto a circuncisão sem ablução.

    Yevamot 49a

    (9) Nos manuscritos de Josefo que chegaram até nós, teria sido feita uma referência a Jesus nesse mesmo livro XVIII de Antiguidades…:

    Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, se na verdade se pode chamá-lo de homem. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como entre muitos de origem grega. Ele era o Messias. E quando Pilatos, por causa de uma acusação feita pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-o à cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de amá-lo. Pois ele lhes apareceu no terceiro dia, novamente vivo, exatamente como os profetas divinos haviam falado deste e de incontáveis outros fatos assombrosos sobre ele. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve este nome a ele, não desapareceu.

    Antiguidades Judaicas, livro XVIII, cap. III

    Também conhecido como Testimonium Flavianum, essa passagem é polêmica por possuir forte cheiro de fraude: como poderia um judeu alinhado com os fariseus chamar Jesus de “Cristo”, considerá-lo “mais do que um homem” e crer em sua ressurreição? Para não descartar totalmente essa passagem, há propostas de que ela seria genuína, porém sofreu enxertos cristãos [Meier, cap. III, pp67-77]. Uma tentativa de reconstituição seria “descristianizá-la” para algo como:

    Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como entre muitos de origem grega. E quando Pilatos, por causa de uma acusação feita pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-o à cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de amá-lo. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve este nome a ele, não desapareceu.

    Já a passagem de João Batista é mais crível justamente por não ser “cristã demais”.

    (10) Apesar da possibilidade de o “João Batista Histórico” realmente aguardar alguém maior que ele, como dito em Mc 1:7 e no meio de Mt 3:11/Lc 3:16, não está muito claro que ele esperasse um batismo diferente, como os evangelistas escreverem em Mc 1:8 e ao fim de Mt 3:11/Lc 3:16. À primeira vista, texto aparenta ser extraído apenas de Marcos e copiado nos outros dois sinópticos, conforme a hipótese da origem quádrupla, contudo podemos estar diante de um caso de múltipla atestação de Marcos e Q. Repare a diferença:

    (…) ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo (Mc 1:8)

    (…) ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo. (Mt 3:11/Lc 3:16)

    É possível que os redatores de Lucas e Mateus tenham se deparado com a seguinte leitura em Q: “ele vos batizará com fogo” e daí feito independentemente uma harmonização com Marcos gerando um versículo híbrido em seus respectivos evangelhos (cf. [Tatum, cap. XIII, pp. 128-31]).

    A Fonte Q é uma hipótese poderosa e explicativa, mas sofre de um problema sério: não temos nenhum exemplar de Q disponível e – caso ela tenha sido uma tradição oral – talvez nunca venhamos a ter um. Portanto, é possível (embora improvável) que ele contivesse a forma mais longa da passagem. O que a hipótese pode indicar com alguma certeza é existência dessa fala atribuída a João Batista já no período pré-literário, i.e., após a morte de Jesus e antes da redação dos evangelhos.

    (11) Nos dois principais manuscritos antigos de Marcos – os códices Sinaítico e Vaticano -, os doze últimos versículos estão ausentes. Além disso, há uma mudança abrupta no estilo e palavreado (em grego) que dão praticamente certeza de eles foram um acréscimo posterior. As dúvidas estão entre determinar seu o final original foi perdido, ou se o encerramento abrupto em Mc 16:8 foi o pretendido. Há argumentos fortes para uma e outra opção. Para a hipótese do “final perdido”, vide [Metzger, cap. VIII, pp. 226-9] e, depois, contraste-a com a defesa de um de seus alunos do “final abrupto” em [Ehrman (2006), cap. II, pp. 75-8].

    (12) Cf. [Willker, pp.636-8] para pormenores dessa passagem difícil.

    (13) Sobre outros paralelos que Lucas fez, ver [Ehrman (2008), cap. X, p. 148, box 10.4].

    (14) Sobre os modelos de salvação usados por Paulo de Tarso em Romanos, ver [Ehrman (2008), cap. XXII, pp. 361-7].

    (15) A edição brasileira da Paulus não dá referência alguma sobre a origem da citação. A edição em língua inglesa de Philip Schaff referencia a passagem a Sf 3:19. Como qualquer um pode conferir, a semelhança é vaga, sugerindo uma paráfrase bem grande feita pelo autor da carta ao recorrer à memória.

    (16) Vale o mesmo que a nota anterior, porém em relação ao versículo Ez 47:12.

    (17) Eusébio de Cesareia, em seu História Eclesiástica, assim defende a adoção de O Pastor:

    Mas, como ocorre que o mesmo apóstolo, nas despedidas finais da carta aos Romanos [Rm 16:14], menciona, junto com outros, a Hermas – de quem se diz que é o livro O Pastor -, deve-se saber que alguns também rechaçam este livro e que por causa deles não se pode contá-lo entre os admitidos; por outro lado, outros julgam-no muito necessário, especialmente para os que precisam de uma introdução elementar. Por esta razão sabemos que foi lido publicamente nas igrejas e comprovamos que alguns escritores dos mais antigos fizeram uso dele.

    H.E., livro III, cap. III, parágrafo 6

    Atualmente, considera-se a redação de O Pastor como sendo por volta de 150 d.C., portanto, pertencente a algum outro Hermas bem posterior. O outro documento – o Cânon Muratori diz este Hermas ter sido um irmão do papa Pio, cujo pontificado foi de 142 d.C. a 155.

    (18) Barnabé e Hermas aparecem, respectivamente, após o Apocalipse, sugerindo que estariam como uma espécie de “apêndice”.

    (19) A Segunda Epístola de Clemente aos Coríntios, outro documento de meados do segundo século, também se refere ao batismo como “selo”, algo que pode ser estabelecido pelo cruzamento de duas de suas passagens:

    Pois assim também diz a Escritura em Ezequiel [Ez 14:14]: “Se Noé, Jó e Daniel ressuscitassem, não salvariam seus filhos em cativeiro.” Então, se homens tão eminentemente justos não são capazes, por sua justiça, de salvar filhos, como podemos esperar entrar na residência real de Deus a menos que mantenhamos nosso batismo santo e imaculado? Ou quem será nosso advogado, a menos que nos encontremos possuidores de obras de santidade e justiça?
    Cap. VI

    Pois eu digo a você que aquele que é fiel no que é mínimo é fiel também no muito. Isto é, então, o que Ele quer dizer: “Mantenha a carne santificada e o selo imaculado, para que recebam a vida eterna.
    Cap. VIII

    (20) Cf. [Ehrman (2008), cap. XII, p. 197, box 12.6].

    (21) No caso, a ressuscitação de Lázaro.

    (22) Em Jo 10:6 diz-se que Jesus contou uma parábola, mas os versículo antecedentes desse capítulo se parecem mais com um aforismo seguido de sua explicação.

    (23) Ideia proposta por [Cullmann, cap. VII, pp. 119-22]. Tenho minhas ressalvas quanto a esse autor – especialmente sua visão do (judeo-)cristianismo esotérico como sendo o original credo cristão, em vez de uma elaboração posterior -, mas devo admitir que achei a tese “dois sacramentos distintos para o batismo” como uma interessante sacada.

    (24) Lista retirada de [Freire, parte III, cap III].

    (25) Um exemplo disto seria o latim medieval, que passou progressivamente a adotar a estrutura sujeito-verbo-objeto, que é a comum nas línguas românicas originárias do latim vulgar. Não que essa estrutura fosse proibida na forma clássica, porém a antiga prosa latina preferia o modelo sujeito-objeto-verbo, tal como o japonês e o coreano modernos fazem.

    (26) Cf. [Poirier, p.66].

    (27) Cf. [Porier, pp. 57-64] e [Meier, cap. IX, pp. 262-6].

    (28) Ou “Eloi, Eloi, lama sabachthani?”, na vocalização feita em Mc 15:34

    (29) Compare com o verbo utilizado em Sl 22:1 `azabhtâniy.

    (30) Nas palavras de [Meier, cap. IX, p. 266], “Numa região quadrilíngue, Jesus pode até ter sido um judeu trilíngue, mas provavelmente não seria um mestre trinlíngue“.

    (31) Tecnicamente, ele teria pertencido à terceira geração de cristãos: ouviu relatos dos que tiveram contato direto com os apóstolos.

    [topo]

    Para saber mais

    – Asheri, Michael; O Judaísmo Vivo, Imago, 1995.

    – Comfort, Philip; Encountering the Manuscripts, Broadman & Holdman Publishers, 2005.

    – Cullmann, Oscar; Das Orignes do Evangelho à Formação da Teologia Cristã, Fonte Editorial, 2ª ed., 2004.

    – Ehrman, Bart D.; O que Jesus disse? o que Jesus não disse? – Quem mudou a Bíblia e por quê, Prestígio, 2006

    _________________; The New Testament – A Historical Introduction to the Early Christian Writings, Oxford University Press, 4ª ed, 2008.

    – Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Novo Século, 1999.

    – Finkelstein, Israel & Silberman, Neil Asher; A Bíblia não tinha Razão, A Girafa, 2003.

    – Flusser, David; O Judaísmo e as Origens do Cristianismo, vol. I, Imago, 2000.

    – Freire, Antônio; Gramática grega, Ed. Martin Fontes, 1997.

    – Josefo, Flávio; The Works of Flavius Josephus, tradução inglesa de William Whiston acessado em 01/03/2017.

    – Lawrence, Jonathan David; Washing in Water: Trajectories of Ritual Bathing in the Hebrew Bible and Second Temple Literature, Brill, 2006.

    – Meier, John P.; Um Judeu Marginal – Repensando o Jesus Histórico, vol. I, Imago, 1993.

    – Metzger, Bruce M.; The Text of the New Testament – Its transmission, Corruption and Restoration, Oxford University Press, 3ª ed., 1992.

    – Murachco, Henrique ; Língua Grega, Ed. Vozes, 2ª ed., 2003.

    – Pagels, Elaine; Além de toda crença: o Evangelho Desconhecido de Tomé, ed. Objetiva, 2004.

    – Patrística, Padres Apostólicos, vol I, Paulus, 1995.

    Poirier, John C.; The Linguistic Situation in Jewish Palestine in Late Antiquity, Journal of Greco-Roman Christianity and Judaism, ed. 4 (2007), pp. 55-134.

    – Tatum, W. Barnes; John the Baptist and Jesus – A Report of the Jesus Seminar, Polebridge Press, 1992

    – Tricca, Maria Helena & Bárány, Júlia; Apócrifos – Os Proscritos da Bíblia, Vol. IV, Mercuryo, 2001.

    – Vermes, Geza; Os Manuscritos do Mar Morto, Mercúryo, 2004.

    – Willker, Wieland; A Textual Commentary on The Greek Gospels, vol. I – Matthew, 8ª ed., 2011.

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José Albo – Das Recompensas e dos Castigos

18 de março de 2017 Deixe um comentário

Índice

Vista da cidade de Tortosa

Tortosa, Espanha

Apresentação

Com a vitória na batalha de Las Navas de Tolosa (1212), os reinos cristãos assumiram a hegemonia militar na península ibérica e decretaram um agonizante declínio para al-Andalus – a civilização árabe da Europa continental. A preponderância do elemento cristão também marcou um progressivo cerceamento de Sefarad – a Espanha judaica que se desenvolveu ao fundo do domínio islâmico. Não que as coisas sempre estivessem às mil maravilhas para os judeus com os antigos senhores. Após um grande florescimento econômico e cultural sob a dinastia Omíada, seguida pelos fragmentados regentes taifas, sua comunidade sofreu um primeiro baque com a chegada dos místicos Almorávidas. Oriundos do Magreb, impuseram mão firme sob os taifas, detiveram o ímpeto do rei castelhano, porém trouxeram consigo uma intolerância até então desconhecida. A comunidade de Lucena, por exemplo, foi ameaçada com conversão forçada, o que conseguiu impedir mediante o pagamento de vultosa soma (1). Com diplomacia e serviços, os judeus voltaram a ser tolerados, ao menos até o poder passar às mãos dos Almôadas, uma nova e muito fundamentalista dinastia berbere. Com eles só havia um acordo: conversão ou morte. Muitos, junto com cristãos, emigraram atrás de algum reino mais tolerante, e outros tantos fingiram conversão. Dentre esses últimos estava a família do grande Maimônides, que reassumiu o judaísmo após sentir-se em segurança no Egito (2).

Em um mundo islâmico cada vez mais hostil, os católicos reinos do norte pareciam ser mais aprazíveis. E, de fato, foram-no por algum tempo, até que o Islã deixou de ser uma ameaça séria na segunda metade do século XIII, limitando-se ao Reino de Granada, no extremo sul da península. Na falta de um adversário externo, a sociedade da reconquista se voltou paulatinamente contra os inimigos do “lado de dentro”, ou seja, os muçulmanos remanescentes e os judeus. Em Sevilha, por exemplo, as pregações do cônego Ferrand Martinez inflaram a população cristã local ao ponto de eclodir um pogrom em 1391, que se alastrou por outras cidades. Outras autoridades eclesiásticas tentaram conter os ânimos populares não por compaixão aos judeus, mas para extinguir as comunidades judaicas de uma forma mais sofisticada, buscando a apostasia de seus membros, como o dominicano Vicente Ferrer. Embora sua própria pregação acirrasse os ânimos dos populares contra os judeus, reprovava iniciativas individuais contra eles, pois sua linha de ação envolvia o aparato estatal. De início, atuou como eminência parda para que em, 1412, o rei João II de Castela lançasse o Edito de Valladolid, restringindo os judeus a guetos, determinando suas vestimentas e interditando-lhe diversos ofícios. Após tornar o cotidiano dos judeus um fardo, Ferrer se esmerou para que se envergonhassem de sua fé, tendo uma atuação relevante por ocasião do longo debate organizado pelo antipapa de Avignon (3) Bento XIII, na cidade de aragonesa de Tortosa, de fevereiro de 1413 a novembro de 1414. Foram convocados diversos rabinos, eruditos e clérigos a fim de debater questões teológicas, tais como: a possibilidade de provar o caráter messiânico de Jesus por meio do Talmude, o Pecado Original e as causas do Exílio.

A Disputa de Tortosa pode ter sido tudo, menos um debate genuíno e, sim, um circo armado para depreciar o judaísmo. As lideranças judaicas estavam em menor número e não tinham ampla liberdade para expor suas ideais, além de terem sido deslocadas de suas comunidades e não contarem mais com o apoio logístico delas para uma prolongada estadia. Enquanto isso, Ferrer e outros frades arrebanhavam prosélitos nas comunidades judias deixadas ao léu e expuseram alguns de seus convertidos durante sessões do “debate” (4).

Do lado judeu, merece um destaque especial o nome de José Albo, discípulo do importante filósofo Hasdai Crescas (ca. 1340 – 1410) e talvez último representante da filosofia racionalista judaica medieval; um gênero que contou com nomes do quilate de Saadia Gaon e Maimônides. A experiência em Tortosa deve tê-lo motivado a criar sua própria síntese racional da fé judaica, exposta em seu famoso livro Sefer ha-‘Ikkarim (“O Livro dos Princípios”). Lançando mão de argumentos filosóficos e citações rabínicas, Albo definiu a essência do judaísmo em três princípios (5):

  1. A existência de Deus;
  2. A revelação da Torá;
  3. Recompensa e castigo.

Ele dedicou grande parte de sua obra a questões acerca do pós-morte e, em um particular capítulo, ele expõe sua opinião quanto à crença cabalista da gilgul, a versão judaica da doutrina reencarnação surgida na Idade Média. Afinal, qual era ela?

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José Albo e o Destino da Alma


Poderia ter citado apenas o penúltimo parágrafo, mas preferi colocar todo o capítulo. Embora fique um pouco maçante, é uma oportunidade para acompanhar uma mente filosófica em ação.

* * *

Trataremos, agora, de recompensa e castigo, que constituem o terceiro dos princípios gerais da lei divina. Ele preenche o propósito pretendido por todas as leis. É verdade que aquele que serve por amor não se preocupa em nada com recompensas e castigos, não tendo outro propósito que seja o de cumprir o objeto de seu amor, como dizem os Rabis: “Não seja como os servos que servem seu mestre a fim de receberem compensações …“. Mas proíba o Céu que isso signifique não haver recompensa e castigo! A declaração acima simplesmente significa que aquele que serve Deus por amor não deve prontificar seu serviço pelo desejo de recompensa ou medo de castigo, embora creia que haja uma recompensa guardada para os que creem e temem Deus e pensam em Seu nome. Toda essa recompensa nada é para sua vista quando comparada com o propósito de cumprir a vontade do objeto de seu amor. Um serviço desse tipo conduz a recompensa e castigo máximos pretendidos em todas as leis.

Então, na medida que o propósito de uma lei divina é diferente daqueles das leis convencionais, como dissemos antes, estabelecemo-lo como um princípio da lei divina. Analisamos as possibilidades como se seguem: ou há recompensa e castigo ou não há. Se houver, ou são todos corporais e neste mundo, ou são todos espirituais e no outro mundo; ou existe tanto recompensa corporal neste mundo e espiritual no próximo mundo.

Consideramos que a opinião na questão da recompensa e do castigo esteja divida em quatro classes conforme as quatro possibilidades as quais a situação admite. Alguns creem não haver recompensa e castigo, seja corporal ou espiritual. Alguns creem haver tanto recompensa corporal e espiritual. Alguns creem haver recompensa corporal, mas nenhuma espiritual, e alguns creem haver recompensa espiritual, mas nenhuma corporal.

Esta diferença de opinião é baseada na divisão de opinião entre homens quanto à natureza da alma. Uns dizem que a alma humana não é superior a dos animais salvo que o homem tem mais astúcia que os outros animais em conceber meios e inventar artes necessários para organizar sua vida de forma completa, assim como no mundo animal alguns são superiores a outros neste respeito. Por essa razão, os que alegam essa opinião acham que não há recompensa ou castigo algum, seja corporal ou espiritual. Eles alegam que o homem é governado pelo acaso como os outros animais, dizendo respeito ao propósito divino meramente a preservação das espécies. Essa opinião recebeu seu “sopro da morte” dos filósofos, que dizem que a alma humana não pode ser comparada às dos animais. As últimas têm apenas conhecimento de particularidades, enquanto o homem tem conhecimento de universais. Além disso, o homem pode perceber algo quando ele não está mais presente aos sentidos, enquanto um animal não o pode. O homem, além disso, distingue entre sustância e acidente, e assim por diante, tudo isso mostra a grande diferença entre a alma humana e a alma animal. Por isso deve haver um propósito especial que é peculiar à alma humana, como explicamos anteriormente. Por isso, embora não haja perfeição espiritual alguma em animais, tal deve estar no homem. Os sábios judaicos também se opuseram a essa opinião e sustentaram que deve haver recompensa e castigo para o homem, seja espiritual no mundo vindouro, ou neste mundo por meio da divina providência, como explicamos quando tratamos da Providência.

A segunda opinião é que há recompensa e castigo, mas que é corporal e neste mundo. Alguns creem que a alma humana é superior a dos animais em razão de ter um poder racional por meio do qual o divino espírito é repartido ao homem e provê a ele conforme a superioridade de seu intelecto. Mas visto que essa superioridade é meramente uma capacidade ou preparação, ela sempre requer, dizem eles, um sujeito; e quando a união entre alma e corpo é rompida, a alma desaparece. Uma certa escola de filósofos erroneamente adota essa visão, dizendo que não podemos conceber qualquer perfeição da alma sem o corpo. Os zadoquitas (6) e os betusianos (7) adotavam essa visão. Acreditavam na Torá de Moisés e na Providência, mas alegavam, ao mesmo tempo, que recompensa e castigo eram apenas corporais e neste mundo, como é mencionado em Abot de-Rabbi Natan (8), e negavam qualquer recompensa espiritual após a morte. Eles aduzem como prova de sua opinião o fato de que na Lei de Moisés não há menção alguma de recompensa espiritual, mas apenas de prosperidade física. Adotaram essa opinião errônea porque pensavam que a alma humana fosse composta de várias faculdades, tais como nutrição, crescimento, sensação e razão. E como vimos que os demais poderes desaparecem quando a união entre a alma e o corpo é rompida, dizem eles que o poder de compreensão que ela tem irá também desaparecer junto com as concepções que já tiver; e, portanto, a alma humana cessa de existir como as almas dos animais, e morrerá como a outra.

Os grandes filósofos, contudo, refutaram essa opinião, dizendo que a variedade de atividades emanado de um agente não necessariamente prova multiplicidade na essência do agente, como explicamos acima. Nem o cessar da vida do corpo necessariamente prova o cessar da alma racional, não mais que o cessar do poder de crescimento, após os quarenta, torna necessário o cessar da alma. O corpo é um instrumento pelo qual algumas das atividades da alma se tornam visíveis. Por isso, quando o instrumento é destruído, apenas essas funções desaparecem, como a nutrição, o crescimento, a sensação. Mas não segue disso que a essência da alma deva desaparecer. Pois a existência da razão não é dependente do corpo como os outros poderes corporais. Pelo contrário, a razão se fortalece após a idade de quarenta, quando os poderes corporais enfraquecem. Além disso, a razão não é como os poderes corporais, pois ela pode se perceber bem como a seus instrumentos, o que não é o caso com os poderes corporais. Eles aduziram também outros argumentos fortes e irrefutáveis para mostrar que a alma humana não pode ser comparada com a alma de animais, mas não necessidade de discorrer sobre essa questão.

Como uma indicação do caráter errôneo dessa opinião, Maimônides disse, na introdução a seu comentário sobre Abot, que o termo “alma” em sua aplicação à alma do homem e a do animal é um homônimo. E apesar de vermos que as funções emanentes de uma são similares às da outra, não se segue disso que os respectivos agentes sejam similares em essência. A luz do Sol e a luz de uma lâmpada são similares no fato de que iluminam os lugares escuros, mas isso não significa que suas agências sejam similares. A luz do Sol é permanente e não se extingue, ela ilumina também onde o Sol não brilha; enquanto a lâmpada se extingue, não é permanente e ilumina apenas onde o raio atinge. Não procede, portanto, que em razão de a alma animal ser destruída, a alma humana também seja destruída e cesse de existir quando é separada do corpo, visto que admitem ser ela superior à alma animal. Quanto ao argumento com que os zadoquitas e betusianos aduzem em favor de sua visão a partir do fato de nenhuma menção ser feita na Lei de Moisés de recompensa espiritual, mas apenas de corporal, os fatos não são como dizem. A recompensa corporal é mencionada somente nos casos em que não há lugar para recompensa espiritual, e a recompensa espiritual é mencionada por alusão, por um motivo que explicaremos mais tarde, com a ajuda de Deus.

A terceira opinião é o inverso da segunda, e é adotada por alguns de nossos rabis, que dizem: não há recompensa para bons feitos neste mundo. Aduzem um argumento a partir da experiência. Um pai diz a seu filho: “Suba na torre e traga-me alguns pombos“. O filho sobre a torre, espanta a mamãe pombo e pega os filhotes e, em seu retorno, cai e morre. Onde está sua bondade e onde está a duração de seus dias? A resposta é a que está na promessa das Escrituras: “Que o bem te suceda” (Dt 12:28), e faz referência àquele mundo que é completamente bom; e a promessa, “para que prolongues os teus dias” (Dt 22:7) refere-se ao mundo que é totalmente longo (eterno). O mundo que é completamente bom e totalmente longo não é outro senão o mundo por vir após a morte, e a promessa faz referência à recompensa espiritual.

Esta opinião é também adotada por uma grande escola de filósofos e alguns doutos homens da Torá os seguem. Sua opinião é que o homem não possui nenhuma perfeição exceto após a morte, quando o intelecto é separado das coisas materiais e corporais. Isso se deve ao fato de que as coisas racionais serem escalonadas conforme seu grau de compreensão, o que compreende mais é superior ao que compreende menos. Portanto, visto que a superioridade do homem aos animais consiste em sua razão, sua perfeição deve ser um grau de excelência baseado apenas na inteligência. Pois se consistisse em uma coisa corporal que é comum entre ele e os animais, a perfeição e superioridade racional que lhe são dadas acima dos animais seria um castigo atormentador em vez de um grau de perfeição. Pois os animais, sendo vazios de razão e inteligência, não são perturbados pelo pensamento sobre o infortúnio que está destinado a vir sobre eles e não lastimam pelo conhecimento de que devem morrer, como faz o homem, nem antecipam na imaginação a dor que virá sobre eles, e não se preocupam com nada; ao passo que o homem sente tudo isso; fica preocupado e pesaroso por causa do mal que está destinado a vir sobre ele e vive em tristeza. De fato, quanto maior seu poder de compreensão, mais ele se lamenta pelo mal que está destinado a vir sobre ele. Por essa razão, dizem que não é provável que a perfeição a ser alcançada pela razão seja algo corporal em comum ao mais baixo dos animais, mas que deva ser algo que distinga o homem do animal – i.e., o intelecto – e não uma coisa corporal. Esta é a opinião do Filósofo (9) sobre o assunto. Embora ele negue a Providência, mesmo assim acredita que a alma do homem tenha uma perfeição após a morte, quando é separada do corpo. E muitos sábios da Torá seguem sua opinião.

Mas há uma dificuldade nesta explanação. Pois, apesar de esses argumentos serem uma sonora réplica à segunda opinião, eles ainda não provam que a perfeição do homem é após a morte. Pois, já que a perfeição e a permanência podem pertencer apenas a uma coisa racional, segundo alegam, e o poder racional no homem é meramente uma preparação ou capacidade, como podemos nós conceber sua sobrevivência ao corpo, já que a capacidade não pode existir por si mesma? A declaração em resposta a isso, i.e., o intelecto adquirido se torna uma substância por meio das abstrações, de modo que o intelecto e as abstrações se tornam idênticos, é ininteligível. Pois se a faculdade racional no homem é um poder hílico (material) cuja natureza é cessar de existir exceto por meio da atividade da compreensão, como pode tal atividade existir por si mesma? E como podemos concebê-la identificando a si mesma com o Intelecto Ativo? Tudo isso é muito improvável, como explicamos antes. Logo, alguns estudiosos dizem que a alma é uma substância espiritual, tendo existência independente e capacidade de compreensão. Ela não pode, por essa razão, deixar de existir, já que é uma substância independente e sente prazer de acordo com sua atividade de cognição. Mas isso também não está correto. Pois, mesmo embora a alma seja uma substância independente, ainda assim, visto que tem a capacidade de cognição, a perfeição dessa capacidade seria em vão se a alma não devesse alcançar essa cognição, e nem uma em mil atingiria a perfeição da alma e, possivelmente, nenhuma sequer, como explicamos acima; a não ser que digamos que a perfeição da cognição consiste em uma compreensão de axiomas. Mas, se assim for, o justo e o ímpio se nivelariam sobre o mesmo plano, uma ideia que nunca ocorreu a ninguém antes.

Parece-nos, portanto, que a opinião adequada e correta da Torá é que a alma é uma substância espiritual, tendo a capacidade para compreender o serviço de Deus e não meramente compreensão. Logo, quando uma pessoa atinge algum grau de compreensão do serviço de Deus, em razão de alcançar alguma ideia ou noção de Deus, seja ela grande ou pequena, ela imediatamente alcança algum grau de vida no mundo vindouro. Também dizem os rabis, ao comentar o versículo: “Uma semente o servirá” (Sl 22:30), a partir de quando as criancinhas merecem a vida futura? Dizem no nome de Rabi Meir: tão logo sejam capazes de dizer Amém, como está escrito: “Abri os portões, que a nação justa que mantém fidelidade (emunim) entre neles” (Is 26:2). Não se leia (10): “que mantém (shomer) fidelidade (emunim)“, mas: “que diga (she-omer) Améns (amenim)“. O significado disso se torna claro a partir de nossa explanação acima, i.e, que a perfeição da alma consiste em compreender o serviço de Deus, qualquer que seja ele; de modo que quando uma criança alcança a compreensão do serviço menos importante, a saber, dizer Amém a qualquer bênção, ela merece algum grau da vida futura. Isso está de acordo com o que escrevemos antes, i.e., que um homem pode alcançar um certo grau da vida futura pelo cumprimento de um preceito.

Da mesma forma que a alma é uma substância espiritual independente também é claro, do testemunho dos Rabis, que o mundo é mantido apenas pelo sopro da boca dos estudantes infantis. Disse Rab Papa a Abaie: “E quanto ao teu sopro e o meu?” Disse o último: “Você não pode comparar o sopro que está sem pecado ao que está com pecado.” Então, se a alma não é uma substância independente, como podem os estudantes infantis, que atingiram um grau muito pequeno de cognição, serem superiores a Abaie e Raba, que atingiram um grau muito alto, sem dúvida? A verdade é que um grau muito pequeno no serviço de Deus da parte de alguém que não esteja maculado por pecado vale muito mais que um alto grau de quem esteja maculado por pecado; pois a alma, sendo uma substância espiritual independente, depende desse grau de merecimento sobre a medida de sua pureza e sua adoração a Deus por cumprir os mandamentos. Esta é a razão porque Moisés ficou pesaroso por não poder entrar na terra [prometida] e efetivamente realizar os mandamentos. Ele não ficou pesaroso quanto a lograr ideias, pois não há dúvida que Moisés atingiu o grau em que poderia compreender por meio da compreensão, mas estava desejoso por executar os mandamentos na prática, i.e, o serviço divino com compreensão, o que dá à alma a perfeição e permanência, como explicamos antes.

Os Rabis discutem a questão de se a alma é em sua essência um poder hílico (material) ou uma substância independente. Por dois anos e meio, dizem-nos, as escolas de Shamai e Hilel (11) disputaram a questão de se era digno ao homem ter sido criado. Dizia uma: teria sido melhor para o homem não ter sido criado. A outra dizia: foi melhor para o homem ter sido criado do que não ter sido criado. Fizeram uma votação e decidiram que teria sido melhor se o homem não tivesse sido criado, mas já que foi criado, ele deve ser cuidadoso em sua conduta.

Então, parece-nos que o disse que foi melhor para o homem ter sido criado sustentava que a alma do homem é um poder hílico, como pensa o Filósofo. Logo, disse que foi melhor para ele ter sido criado, porque a existência é sempre melhor que a não existência, e pode-se subir a um grau de existência permanente pela atividade racional. Por outro lado, o que disse que teria sido melhor para o homem não ter sido criado, acreditava que a alma é uma substância espiritual independente. Logo, como um resultado da criação, a alma pode ser destruída ou severamente punida. Logo, disse ele, teria sido melhor se o homem não tivesse sido criado, i.e., que a alma não tivesse sido posta dentro do corpo humano. Salomão também disse: “Porém melhor que ambos é aquele que ainda não é” (Ecl 4:3). Então, se a alma fosse um poder hílico (material), como poderia ele falar sobre uma coisa não existente que é melhor que ambos [os viventes e os mortos]? Como pode a não existência ser melhor que a existência, visto que toda existência é boa, como a Bíblia testifica: “E Deus viu tudo que havia feito, e eis que era muito bom” (Gn 1:31)? Sem dúvida, portanto, sua opinião é que a alma é uma substância espiritual e não um poder material. E como esta é a opinião correta e a que está em concordância com a Torá, eles votaram e decidiram que seria melhor para o homem se ele não tivesse sido criado, e acrescentaram que ele deve ser cuidadoso em sua conduta, de modo que a alma não seja destruída ou punida.

Disso os Cabalistas derivaram a doutrina da transmigração. Visto que a opinião verdadeira é, conforme a Torá, – assim argumentam – que a alma não é um poder material, mas uma substância independente, como dissemos antes, então do mesmo modo que a substância espiritual entrou no corpo humano quando ele foi criado, é possível que, após ter funcionado em um corpo humano, retorne e viva em outro. Mas isso não é correto. A Sabedoria divina pôde, de fato, decretar que a substância espiritual, que por sua natureza não é um agente livre, devesse residir no corpo a fim de que se tornasse um agente livre no corpo, porque essa é sem dúvida uma valiosa qualidade que há nele. Tanto que, como foi dito pelos Rabis, os anjos cometeram um erro e quando Deus criou o homem, eles quiseram adorá-lo … Tudo porque ele era um agente livre e eles, não. Mesmo assim, por que deveria uma alma que já funcionou em um corpo humano e se tornou um agente livre retornar ao corpo outra vez? E por que deveria a gota seminal ter a capacidade de receber uma alma que já funcionou em um corpo, em vez de receber uma alma que ainda não funcionou em um corpo e não é um agente livre? Uma visão ainda menos provável é a dos que dizem que almas humanas são transmigradas para dentro de corpos de animais. Deus sabe.

A quarta opinião é a que alguma recompensa corporal neste mundo e alguma é espiritual no próximo mundo, após a morte. Esta é a opinião de nossa sagrada Torá, que faz promessas materiais específicas para os justos, como os patriarcas e outros, e também promessas espirituais apenas para a alma, castigo ou recompensa, como explicaremos com a ajuda de Deus. Essa também é a opinião de nossos Rabis em muitos lugares, e particularmente em Sifra (12), onde comentando a respeito do versículo em Deuteronômio, dizem: “Que teus dias sejam multiplicados” – neste mundo; “E os dias de teus filhos – nos tempos do Messias; “Como os dias dos céus acima da terra” – no mundo vindouro. É nítido disto que a Bíblia promete, para o cumprimento dos mandamentos, recompensa neste mundo e no próximo. Esta é uma declaração geral da opinião humana acerca da recompensa e do castigo a da opinião de nossa Torá sobre o assunto.

Fonte: O Livro dos Princípios, livro IV, cap. XXIX.
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Você está fazendo Isso Errado

Se você, mal lendo o texto acima, já se pôs a refutar José Albo, então sugiro que deixe de perder seu tempo, afinal quem disse que assino embaixo do que ele escreveu? Caso tenha saído em busca de algum figurão do judaísmo medieval que aceitasse a reencarnação, eu até te ajudo: Rabi Moshe ben Nachman – vulgo Ramban (13) ou Nachmânides -, um conterrâneo de Albo que vivera cerca de um século e meio antes dele. Contudo, ficar opondo uma autoridade a outra não passa de “carteirada intelectual”, algo muito útil em guerras ideológicas, mas contraproducente quando se busca a verdade dos fatos. Se aparecer com rabinos modernos, pior ainda, visto que os “fatos” em questão são históricos, não matéria da fé judaica atual.

Agora, se você tem alguma perspicácia, há de perceber uma mudança de postura entre o relato de Saadia Gaon (séc. X), em seu Livro das Crenças e Opiniões, tratado VI, quanto à infiltração de ideias reencarnacionistas no judaísmo e o comentário acima de Albo, escrito mais de quatro séculos depois. Enquanto o primeiro tem uma reação um tanto irada contra uma ideia que julga uma superstição de certas pessoas “que chamam a si mesmas de judias“, o segundo continua a considerar um grupo de adeptos dessa crença – os cabalistas – tão judeus quanto ele, embora equivocados.

Sugere-se, pois, uma progressiva difusão da noção judaica da reencarnação – a gilgul neshamot – partindo de uma crendice de populares para uma doutrina mais elaborada de sofisticados grupos místicos. O próximo passo seria sua difusão credenciada para outros nichos. Em suma, mais uma evidência da entrada tardia da reencarnação no judaísmo (14), algo não muito bem aceito pelos que supõem um judaísmo doutrinariamente estático desde os tempos de Jesus, de modo a lançarem mão de anacronismos para utilizarem a gilgul séculos antes de sua concepção.

(Em Construção)
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Notas

(1) Cf. [Johson, parte III, p. 186]. [voltar]

(2) Cf. [Lewis, cap. XVI, p. 396]. [voltar]

(3) De 1378 a 1417 vigorou na cristandade latina o “Grande Cisma do Ocidente”, quando dois papas – um na cidade francesa de Avignon e outro em Roma – disputavam a primazia, cada qual sendo reconhecido por reinos diferentes. A confusão aumentou em 1409, quando um concílio na cidade de Pisa quis revogar os dois e elegeu seu próprio papa. A unidade só foi restaurada com o Concílio Constança (1414) e a deposição de Bento XIII (1417). [voltar]

(4) Cf. [Johson, parte III, p. 231], [Attali, parte III, cap. V, pp. 254-7] e O Livro dos Princípios, introdução do editor. [voltar]

(5) Cf. [Bronner, cap. V, pp. 123-4]. [voltar]

(6) Outro nome para a seita intertestamentária dos saduceus. [voltar]

(7) Grupo afim dos saduceus, senão uma evolução ou cisma deles. [voltar]

(8) Os Pais segundo Rabi Natan, um dos “tratados menores” do Talmude. [voltar]

(9) Uma referência a Aristóteles, chamado na Idade Média de Ille Philosophus. [voltar]

(10) José Aldo vocaliza o texto hebraico consonantal de uma forma alternativa para obter o efeito que deseja. [voltar]

(11) As duas principais escolas farisaicas à época de Jesus. [voltar]

(12) Um midrashim, i.e., um conjunto de comentários sobre a Lei e o Velho testamento, no caso sobre Números e Deuteronômio. [voltar]

(13) Não confundir com Rambam, que é o acrônimo de Maimônides. [voltar]

(14) Segundo a Doutora Leila L. Bronner:

Reencarnação

A Reencarnação é conhecida em hebraico como gilgul, que significa “circularidade”. Pois a tradição do termo tem um significado especial: o de metempsicose, a transmigração da alma após a morte para outro corpo. A ideia de reencarnação, que é encontrada em tradições religiosas por todo mundo, não é original aos judeus. A tradição mística judaica, entretanto, reconfigurou e remodelou-a para se adequar ao judaísmo. A reencarnação foi um aporte muito tardio ao cenário de ideias judaicas. Nem a Bíblia – ou o Talmude, ou o Midrash – diz um mínimo sobre o assunto. Saadia rejeitou a doutrina como “loucura e confusão”. Nem um pouco falou Maimônides sobre ela. Mesmo assim, a reencarnação é frequentemente discutida na literatura judaica da Idade Média. Como observado antes, o conceito é primeiramente mencionado no Sefer ha-Bahir [O Livro da Iluminação], embora o termo gilgul não seja ainda usado para descrever o fenômeno.

[Bronner, cap. VI]

Vale ressaltar que, apesar de não haver menção à reencarnação na Bíblia e na literatura rabínica, nada impede que seus textos sofram uma releitura reencarnacionista, como apontou um irritado Saadia Gaon. [voltar]

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Para saber mais

– Attali, Jacques; Os Judeus, o Dinheiro e o Mundo, Futura, 6ª ed., 2006.

– Bronner, Leila Leah; Journey to Heaven – Exploring Jewish Views of the Afterlife, Urim Publications, 2015.

– Johnson, Paul; História dos Judeus. 2ª ed., Imago, 1995.

– Lewis, David Levering; O Islã e a Formação da Europa – De 570 a 1215, Amarilys, 2010.

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14 de outubro de 2016 Deixe um comentário

Publicado um adendo à resenha do livro Analisando as Traduções Bíblicas visando sanar as dúvidas de certo leitor.

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Como Discordar

22 de agosto de 2016 2 comentários

Hierarquia de desacordo

Por Paul Graham

Índice

Introdução


A web está transformando o ato de escrever em uma conversa. Vinte anos atrás, os escritores escreviam e os leitores liam. A web permite que os leitores respondam, e eles o fazem cada vez mais – em tópicos de comentários, em fóruns, e em suas mensagens de blog.

Muitos que respondem a algo, discordam. Isso é de se esperar. Concordar tende a motivar as pessoas menos do que discordar. E quando você concorda, há menos a dizer. Você poderia expandir algo que o autor disse, mas ele provavelmente já explorou os pontos mais interessantes. Quando você discorda, está entrando em um território que ele pode não ter explorado.

O resultado é que há muito mais discordâncias, especialmente medidas pelas palavras. Isso não significa que as pessoas estão ficando mais irritadas. A mudança estrutural na forma como nos comunicamos é suficiente para explicá-la. Mas, ainda que não seja a raiva que esteja a dirigir o aumento de desacordos, há um perigo de que ela deixe as pessoas mais irritadas. Particularmente online, onde é fácil dizer coisas que você nunca diria cara a cara.

Se estamos todos em um caminho de maior discordância, devemos ter o cuidado de fazê-lo bem. O que significa discordar bem? A maioria dos leitores pode dizer a diferença entre meros xingamentos e uma refutação cuidadosamente fundamentada. Mas eu acho que iria ajudar, colocar nomes nas etapas intermediárias. Então aqui vai uma tentativa de uma hierarquia do desacordo (DH – Disagree Hierarchy):

DH0. Xingamentos.


Esta é a forma mais baixa de desacordo e provavelmente também a mais comum. Nós todos vimos comentários como este

Você é uma bicha!!!!

Mas é importante perceber que até mesmo o mais articulado xingamento, tem pouco peso. Um comentário como:

O autor é um diletante presunçoso.

Nada mais é do que uma versão pretensiosa de “Você é uma bicha”.

DH1. Ad hominem.


Um ataque ad hominem não é tão fraco como um mero xingamento. Ele pode realmente ter algum peso. Por exemplo, se um senador escreveu um artigo dizendo que o salário dos senadores deve ser aumentado, pode-se responder:

É claro que ele diria isso. Ele é um senador.

Isso não refuta o argumento do autor, mas pode pelo menos ser relevante para o caso. Mas ainda é uma forma muito fraca de desacordo. Se há algo de errado com o argumento do senador, você deve dizer o que é, e se não houver, que diferença faz se ele é um senador?

Dizer que um autor não tem autoridade para escrever sobre um tema é uma variante de ad hominem e particularmente inútil, porque as boas ideias muitas vezes vêm de fora. A questão é saber se o autor está correto ou não. Se sua falta de autoridade levou a cometer erros, aponte-os. E se não o fez, não é um problema.

DH2. Respondendo ao tom.


No próximo nível começamos a ver respostas para o que foi escrito, em vez do escritor. A forma mais baixa delas é a de não concordar com o tom do autor. Por exemplo:

Eu não posso acreditar que o autor rejeita o design inteligente de uma forma tão arrogante.

Embora melhor do que atacar o autor, esta é ainda uma forma fraca de desacordo. É muito mais importante se o autor está certo ou errado do que como o seu tom é. Especialmente porque o tom é difícil de se julgar. Alguém que tenha afeição sobre algum tópico, pode ser ofendido por um tom que parecia, a outros leitores, neutro.

Portanto, se a pior coisa que você pode dizer sobre algo é criticar seu tom, você não está dizendo muito. O autor é irreverente, mas correto? Melhor do que sério e errado. E, se o autor está incorreto em algum lugar, diga onde.

DH3. Contradição.


Nesta fase, finalmente, obtemos respostas para o que foi dito, em vez de “como” ou “por quem”. A menor forma de resposta a um argumento é simplesmente afirmar o caso oposto, com pouca ou nenhuma evidência de apoio.

Isso é muitas vezes combinado com declarações do tipo DH2, como em:

Eu não posso acreditar que o autor rejeita o design inteligente de uma forma tão arrogante. O design inteligente é uma teoria científica legítima.

A contradição, às vezes, pode ter algum peso. Outras vezes, apenas ver o caso oposto explicitamente é o suficiente para constatar que ele está certo. Mas geralmente uma evidência vai ajudar.

DH4. Contra-argumento

No nível 4, chegamos à primeira forma de desacordo convincente: contra-argumento. As formas até este ponto podem ser normalmente ignoradas, como podem não provar nada. Um contra-argumento pode provar alguma coisa. O problema é que é difícil dizer exatamente o quê.

Um contra-argumento é “contradição” mais “raciocínio” e/ou “provas”. Quando refuta diretamente o argumento principal, pode ser convincente. Mas, infelizmente, é comum que os contra-argumentos se destinem a algo um pouco diferente. Com boa frequência, duas pessoas discutem fervorosamente sobre algo, mas estão realmente discutindo sobre duas coisas diferentes. Às vezes elas até concordam uma com a outra, mas estão tão envolvidas em sua disputa que não percebem isso.

Pode haver uma razão legítima para argumentar contra alguma coisa ligeiramente diferente do que o autor original disse: quando se sente que ele perdeu o cerne da questão. Mas quando se faz isso, deve-se dizer explicitamente que o está fazendo.

DH5. Refutação


A forma mais convincente de desacordo é refutação. É também a mais rara, porque é mais trabalhosa. Na verdade, a hierarquia do desacordo forma uma espécie de pirâmide, no sentido de que no mais alto estão as instâncias que se vão menos encontrar.

Para refutar alguém, você provavelmente terá de citá-los. Você tem que encontrar um ponto falho, uma passagem em que você possa discordar com o que você sente que é errado e, então, explicar por que ele está enganado. Se você não consegue encontrar uma citação real para discordar, pode estar discutindo com um espantalho.

Enquanto uma refutação geralmente implica em citar, citar não implica necessariamente numa refutação. Alguns escritores citam partes de coisas que eles discordam para dar a aparência de refutação legítima, então seguem com uma resposta tão baixa como DH3 ou mesmo DH0.

DH6. Refutando o ponto central


A força de uma refutação depende do que você refutar. A forma mais poderosa de desacordo é refutar ponto central de alguém.

Mesmo na DH5, ainda vemos algumas vezes uma desonestidade deliberada, quando, por exemplo, alguém escolhe pontos sem importância de um argumento e os refuta. Às vezes, o modo como isso é feito faz com que seja mais uma forma sofisticada do ad hominen do que uma verdadeira refutação. Por exemplo, corrigir a gramática de alguém, ou insistir em pequenos erros em nomes ou números. A menos que o argumento contrário realmente precise de tais coisas, a única finalidade de corrigi-los é desacreditar o adversário.

Refutar verdadeiramente algo requer refutar o seu ponto central, ou pelo menos um deles. E isso significa que tem de se expor explicitamente qual é o ponto central. Então, uma refutação verdadeiramente eficaz seria algo como:

O ponto principal do autor parece ser x. Como ele diz:

<citação>

Mas isso é errado pelas seguintes razões …

A citação que você apontar como equivocada não precisa ser realmente o ponto principal do autor. Basta refutar algo do qual ele dependa.

O que isso significa


Agora, temos uma maneira de classificar formas de desacordo. E o que há de bom? Uma coisa que a hierarquia desacordo não nos dá é uma maneira de escolher um vencedor. Os níveis DH apenas descrevem a forma de uma declaração, não se ela está correta. Uma resposta DH6 ainda poderia estar completamente enganada.

Embora os níveis de DH não definam um limite inferior no convencimento de uma resposta, eles definem um limite superior. Uma resposta DH6 pode ser convincente, enquanto uma resposta DH2 ou inferior é sempre inconvincente.

A vantagem mais óbvia de classificar as formas de desacordo é que elas vão ajudar as pessoas a avaliar o que leem. Em particular, elas irão ajudá-los a ver através de argumentos intelectualmente desonestos. Um orador eloquente ou escritor pode dar a impressão de derrotar um oponente apenas usando palavras fortes. Na verdade essa é provavelmente a qualidade de um demagogo. Ao dar nomes para as diferentes formas de desacordo, damos aos leitores críticos um alfinete para estourar esses balões.

Esses rótulos podem ajudar os escritores também. A maior parte da desonestidade intelectual não é intencional. Alguém argumentando contra o tom de algo que ele discorda pode acreditar que está realmente dizendo algo. Diminuir o zoom e ver sua posição atual na hierarquia de desacordo pode inspirá-lo a tentar mover-se para contra-argumento ou a refutação.

Mas o maior benefício de discordar bem não é apenas que vai fazer conversas melhores, mas fará as pessoas mais felizes. Se estudar as conversas, você achará muito mais maldades baixas em DH1 do que em DH6. Você não tem que ser mau quando tem um verdadeiro ponto a defender. E na verdade não quer. Se você tiver algo real a dizer, bancar o malvado apenas atrapalha.

Se subir na hierarquia do desacordo torna as pessoas menos malévolas, isso fará a maioria delas mais feliz. A maioria das pessoas realmente não gosta de ser má, elas o são porque não conseguem evitar.

Agradecimentos a Trevor Blackwell e Jessica Livingston por lerem os rascunhos disto.

* * *

Baseado na tradução de Song Fuê constante em Destinatário Théo

Link para o texto original de Paul Graham.

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“Tá Serto!”

21 de fevereiro de 2016 3 comentários

    Face Palm

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    No meio de uma Flame War


    Em meio a pesquisas que fiz pela internet a respeito deste mesmo portal, encontrei as seguintes pérolas em certo fórum de debates.

    Um print do Fórum

    Que foi respondido por um apologista espírita com:

    Um print do Fórum: a resposta

    E segue-se um artigo de seu grupo apologista falando de Flávio Josefo e outro sobre Hebreus 9:27.

    Bem, de qual deles vou tomar partido? Nenhum, em princípio. Ambos estão errados a respeito o que realmente trata este portal.
    [topo]

    Ser Judeu: Ontem e Hoje

    Em se tratando do apologista evangélico, eu jamais disse que os cabalistas não pertencem à “comunidade rabínica organizada”, que são menos judeus por isso ou são reles “feiticeiros”. Para ser sincero, qualquer religião, em sua pior forma, pode ser reduzida a um amontoado de superstições. Que o diga a Cabala, em seu fabrico de amuletos, os evangélicos, em suas quase circenses manifestações “do Espírito Santo” e “os espiritões”. Por outro lado, em sua melhor forma, a maioria das religiões pode se tornar filosofia de qualidade. Não que eu concorde com as premissas delas.

    O fato é: há judeus modernos que creem na reencarnação e outros não. Quem quiser, acesse o portal Ser Judio – Vida y muerte ou leia O Judaísmo Vivo, de Michael Asheri, cap. XLI, pp. 251-2 , para verificar que a aceitação da reencarnação ou gilgul neshamot não é universal entre os judeus atuais. Leia Jewish View of the Afterlife, de S.P. Raphael, cap. VIII, pp. 314-20 para uma análise histórica e mais aprofundada. Curiosamente, esses dois autores também tocam na possibilidade, em alguns círculos cabalísticos, de reencarnação em corpos de animais. Duvido que os espíritas comprem essa ideia ou digam que ela está na Bíblia.

    Essa diversidade de opiniões pode soar estranha a cristãos (ou neocristãos, como os espíritas), pois, historicamente, seus embates são travados em torno de dogmas da fé. Óbvio que o judaísmo também possui um “núcleo duro”, só que é muito mais eclético em todo o resto. O historiador Paul Johson assinalou que:

    [Na Idade Média] Havia uma tal variedade de opiniões sobre o Messias no judaísmo que era quase impossível ser herético nesse assunto. O judaísmo dizia respeito à Lei e sua observância. O cristianismo dizia respeito à teologia dogmática. Um judeu podia atrapalhar-se quanto a um ponto delicado da observância do sábado que a um cristão pareceria ridículo. Por outro lado, um cristão podia ser queimado vivo por sustentar uma ideia sobre Deus que a todos os judeus pareceria um assunto de opinião legítima e de controversa.

    Johson, Paul; A História dos Judeus, Imago, 1995, parte III, p. 228.

    O que ressalto no artigo sobre Saadia Gaon é que a crença na gilgul foi uma inovação medieval. Esse rabino foi testemunha ocular de sua chegada e difusão na região onde viveu (o atual Iraque), mesmo antes da codificação da Cabala. Por isso, também discordo do forista evangélico quanto à exigência de uma opinião judaica “tradicional”, visto que a crença a gilgul não é exclusiva de “místicos”, como outros na discussão lembraram. Aliás, muito do que ele chama de misticismo só o é para quem está de fora. Por outro lado, também é totalmente sem sentido usar a opinião de judeus modernos para abalizar teses espíritas, já que há não razão alguma para acreditar que algum grupo judaico tenha permanecido estático desde a época de Jesus. Muito pelo contrário: mesmo o dito conservador “judaísmo ortodoxo” é o produto de quase dois milênios de evolução.

    O procedimento correto seria buscar a opinião de judeus do século I, quem sabe antes ou um pouco depois. Para isso existe a literatura intertestamentária e o Antigo Testamento, que são silentes sobre o assunto. A não ser, claro, que você lance mão de alegorias (o que Gaon tanto repudiou) ou de preciosismos gramaticais duvidosos.

    É errado alegorizar? Falando como cético, o problema das alegorias é que elas podem tornar qualquer discussão num verdadeiro “vale tudo”. Judeus reclamam do uso cristão de suas Escrituras para justificar Jesus como o Messias (como Isaías 53). Depois cristãos ortodoxos se irritaram quando gnósticos começaram a elucubrar com os evangelhos (João em especial) para explanar seus “segredos”. Os espíritas são apenas os recém-chegados da especulação teológica.

    O que se pode pesquisar é o que determinado grupo cria sobre certo assunto. Deixar o “texto explicar o texto” pode ser contraproducente, porque a Bíblia não é intérprete de si mesma. Em compensação, pode-se pesquisar a palavra de intérpretes antigos sobre o assunto. Um nome que veio à baila foi ninguém menos que Orígenes.
    [topo]

    Sabendo mais que Eu …

    … a respeito de meu próprio portal.

    Vejamos o forista espírita:

    Os apóstolos criam no retorno dos profetas, tais como Elias, Jeremias e outros mais. Nem preciso citar passagens aqui para provar-lhe algo, você já sabe onde encontrá-las. O caso de Jesus afirmar que João Batista era Elias e o diálogo entre Jesus e Nicodemos, fora os exemplos do cego de nascença e do homem coxo. Saiba que a sua fonte do site Falhas do Espiritismo do Cyrix atesta que os judeus primitivos creem na pré-existência da alma, Orígenes defendia Elias ser João Batista, se é que você percebeu isso e nem se dá conta que o Cyrix nem aborda o fato de João Batista e Elias, portanto, não poderá afirmar que não há reencarnação na Bíblia, por ser sua análise parcial. Acaba que “o tiro sai pela culatra”, sem falar de Flávio Josefo do século I. Ademais, sobre ele, tem o artigo abaixo para apreciação.

    Bem, em instante algum se questionou o valor histórico do relato de Gaon. Ele foi, simplesmente, desconsiderado. Outras coisas que me chamaram atenção:

    1. Eu atesto que os judeus primitivos creem na preexistência da alma: Tudo bem, e daí? Isso só será problema se todos os evangélicos forem traducianistas, i.e., acreditarem que a alma é gerada junto com o corpo. Qualquer grau de criação prévia já é um tipo de preexistência. A questão é que em nenhum instante a ela implica em reencarnação, digo, múltiplas existências terrenas. No portal já havia textos remetendo ao pseudoepígrafo II Baruque (I século), que combina preexistência, vida única, apocalipse, ressurreição e redenção (ou danação) eterna. Só faltou Jesus como Messias para ser um texto evangélico/católico.
    2. O Cego de nascença: Um dos textos que disserto sobre a preexistência é justamente o desse episódio. E ainda há outra explicação possível.
    3. Eu digo que Orígenes defendia que João Batista era Elias: É? Onde? Alguém me indique, por favor!
      O que eu falo realmente é como uma certa escritora espiritualista pinçou um texto de Orígenes para dar justamente esse efeito. Vejamos o que o alexandrino tinha a dizer sobre o assunto:

      Nosso primeiro erudito, cuja visão da transcorporação vimos ser baseada em nossa passagem, pode prosseguir com um exame mais detalhado do texto e argumentar contra seu antagonista que se João foi o filho de um homem como o sacerdote Zacarias e se nasceu quando seu pais já eram ambos idosos, contrariando todas as expectativas humanas, não é provável que tanto judeus em Jerusalém o desconhecessem, ou os sacerdotes e levitas por eles enviados não estariam a par dos fatos de seu nascimento. Não declara Lucas que “o temor veio sobre todos os que viviam por perto” (Lc 1:65), – claramente nas proximidades ao redor de Zacarias e Isabel – e que “todas essas coisas foram divulgadas por toda terra montanhosa da Judeia”? E se o nascimento de João a partir de Zacarias foi matéria de comum conhecimento e os judeus de Jerusalém já enviaram sacerdotes e levitas para perguntar, “És tu Elias?” então está claro em dizer que eles consideravam a doutrina da transcorporação com verdadeira e que ela era uma doutrina corrente de seu país, e não estranha aos seus ensinos secretos. João, portanto, diz, “Eu não sou Elias”, porque não sabe sobre sua vida prévia. Estes pensadores, assim, cogitam uma opinião que não deve de forma alguma ser desprezada. Nosso membro da Igreja, contudo, pode replicar à alegação e perguntar se é digno de um profeta, que é iluminado pelo Espírito Santo, que foi previsto por Isaías, e cujo nascimento por pressagiado antes que sucedesse por tão grande anjo, que recebeu da plenitude de Cristo, que partilha de tal graça, que sabe que a verdade vem por meio de Jesus Cristo e ensinou coisas tão profundas a respeito de Deus e do unigênito, que está no seio do Pai, é digno de tal indivíduo mentir ou mesmo hesitar, em razão da ignorância do que era. Pois com relação ao que estava obscuro, ele deveria ter se abstido de confessar, e não ter nem afirmado, nem negado a proposição que foi posta. Se a doutrina [da transcorporação] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias? E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença. Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento (grifo meu).

      Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

      E Orígenes sustenta, sem querer, a tese da entrada tardia da reencarnação no judaísmo. E ele viveu em Alexandria – onde havia uma numerosa comunicada de judia -, e em Cesareia, na Palestina, portanto contato com judeus não lhe faltou. Eis outro texto dele:

      Alguém pode dizer, porém, que Herodes e parte da população mantinham o falso dogma da transmigração de almas para os corpos, com a consequência de que eles pensassem que o antigo João apareceu outra vez devido a um novo nascimento e tinha vindo da morte para a vida como Jesus. Mas o tempo entre o nascimento de João e o de Jesus, que não foi mais que seis meses, não permite se dar crédito a esta falsa opinião. E talvez fosse melhor que outra ideia estivesse na mente de Herodes – os poderes que operaram com João tivessem passado para Jesus – fazendo que ele fosse visto pelo povo como João Batista. E pode-se usar a seguinte linha de raciocínio: apenas por causa do espírito e poder de Elias, não pela alma dele, que se diz de João: “Este é o Elias que deve vir“.

      Comentário sobre Mateus, livro X, cap XX

      Aí entra uma sutileza da língua grega usada por Orígenes, que é a distinção entre “espírito” (pneuma) e “alma” (psyché). Para ele, só haveria sentido em falar de “transcorporação” se fosse essa última, que seria a portadora da individualidade. Em hebraico, também existe, grosso modo, essa mesma separação entre rouach e nephesh. Dependendo do contexto, rouach pode, contudo, assumir significados distintos (sopro, vento, espírito). Mesmo quando ele é traduzido por espírito não significa que seja exatamente a consciência sempre, mas o princípio que nos anima (Sl 146:4) e retorna a Iahweh após a morte (Ecl 12:7), o ânimo (Jz 15:19), “coragem” (Js 2:11), “raiva, exaltação” (Jz 8:3), ação sobre a mente (Ez 11:5), Iahweh e suas manifestações (Is 63:10). Em se tratando de Elias:

      Sucedeu que, havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito [rouach] sobre mim.
      2 Re 2:9

      Vendo-o, pois, os filhos dos profetas que estavam defronte em Jericó, disseram: O espírito [rouach] de Elias repousa sobre Eliseu. E vieram-lhe ao encontro, e se prostraram diante dele em terra.
      2 Re 2:15

      Observando-se isoladamente 2 Re 2:15, poder-se-ia até pensar em incorporação mediúnica, porém, juntado 2 Re 2:9, fica difícil achar que se trata do significado espiritualista da coisa e só forçando a barra é que é possível ver reencarnação nisso.

      Todo esse ecletismo viria a irritar Saadia Gaon (século X) pelo jogos de palavras que seus respectivos oponentes faziam. Já na época de Orígenes (século III), uma capacidade similar na língua grega foi usada para confundir, como ele insinua em suas refutações a pagãos e gnósticos. Seus Comentários apologéticos, em particular, mostram que a associação de João Batista com uma reencarnação de Elias é bem antiga, assim como as respostas (proto-)ortodoxas para ela. E os flame warriors ainda não se fartaram disso.

    4. Flávio Josefo descreveu a reencarnação entres os judeus do século I: Vejamos o artigo ofertado:

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      Desde os tempos do finado GeoCities, já havia um artigo aqui falando de Flávio Josefo e a crença dos fariseus, que foi totalmente desconsiderado. Juntando isso com a deturpação das ideias de Orígenes, fico com a séria impressão de que o forista espírita, na melhor hipótese, apenas passou os olhos por este portal. Recomendo a leitura desse artigo, mas, caso não tenha tempo, fica este aperitivo: por que o retorno à vida é para os bons e não para os maus que, pela lógica espírita, precisariam mais?

    5. Jesus disse que João Batista era Elias e eu não falo nada do assunto: E se eu falasse, que diferença faria? Falei a opinião de Orígenes sobre o assunto e ela foi distorcida. Falei de Josefo e fui desconsiderado. Poderia acontecer uma dessas opções com o que eu dissesse sobre João Batista ou … uma nova exigência ser feita! Agora, vem cá: Jesus realmente disse isso? “Sim, lá em Mt 11:14 …” Não. Isso é o que foi registrado por Mateus. Por acaso você me garante que o Jesus Histórico – o ser de carne e osso que andou entre nós – disse algo próximo a tal?

      Essa é uma das razões por que não considero pesquisa séria boa parte da apologia espírita: ela praticamente trata os evangelhos como documentos históricos, sem o menor critério para distinguir o que pode ter um fundo de verdade do que é puro mito. Convenhamos que isso é útil no debate contra os “fundamentalistas”, a fim de prendê-los em nós difíceis de desatar, embora não condiga com um credo com pretensões racionalistas. O efeito colateral é produzir um Jesus à própria imagem e semelhança.

    Distorção de fatos, falácias e grande má vontade em simplesmente ler as informações que tenho a oferecer. Às vezes tenho a impressão que muitos dos que se propõe a me combater, refutam outro portal. Um portal mais fácil em que eles podem escolher o que responder e se responder. Afinal, jogaram fogos diversivos e nada se falou a respeito de Saadia Gaon. Perda de tempo.

    Atendendo a pedidos, será feita uma breve preleção sobre o tema Elias/João Batista, que, obviamente, não será tudo o que gostaria de dizer.

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