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Uma Resposta a José Reis Chaves

29 de maio de 2013 Deixe um comentário

Índice

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O Artigo em Questão

A Bíblia e o Espiritismo

José Reis Chaves, escritor espírita e ex-seminarista, lançou em 2009 o livro O Espiritismo e a Bíblia (Espaço Literarium Editora), uma compilação de artigos que escreve às segundas-feiras no jornal O Tempo, de Belo Horizonte – MG. Logo no início, há um artigo a respeito do trabalho deste portal:

Precisaríamos do espaço de um volumoso livro para abordar o site http://br.geocities.com/falhasespiritismo/index_int_2.html Mas fá-lo-emos assim mesmo. Ele cita Flávio Josefo, Procópio, são Clemente de Alexandria, Orígenes, são Gregório de Nissa, são Jerônimo, Kardec, Léon Denis, Elizabeth C. Prophet, N. Langley, H. Kersten, dom Estêvão Bitencourt, S. Celestino, este colunista e outros.

E já que os espíritas gostam de estudar, vale a pena ver o site, apesar das falhas. São simplistas algumas de suas questões, que se apoiam em teses também simplistas. Kardec disse que se houver divergência entre um ensino espírita e a ciência, que se seguisse a ciência. De fato, o espiritismo não se considera infalível. Aliás, nem Jesus sabia tudo! Céptico, o site critica os Evangelhos. E desfaz-se do inconsciente coletivo de Jung, dos campos morfogenéticos, do adamantino Pastorino e do renomado cientista Ian Stevenson, diretor do Dtº de Psiquiatria da U. de Virgínia, o qual pesquisa o fenômeno da reencarnação, há mais de 50 anos e em mais de 40 países, autor duma obra de 2.300 páginas (2 volumes) sobre a reencarnação, e admirado por todo o mundo científico.

São de autoria de Procópio (morto em 562) “Histórias das Guerras de Justiniano” e “História Secreta”. Ele registra, de modo diferente, o episódio de 500 prostitutas, que, segundo vários autores, foram assassinadas a mando da imperatriz Teodora, esposa de Justiniano, que era mesmo sanguinário, pois mandou matar cerca de um milhão de pessoas adeptas da reencarnação no Oriente Médio, após a condenação dela pelo Concílio de Constantinopla, em 553 (Paul Brunton, “Ideias em Perspectivas”, pág. 118, Ed. Pensamento).

Não teria Procópio contado essa história de modo diferente, justamente porque era amigo do casal imperial? E porque o site desconhece outras fontes que registram essa história das prostitutas assassinadas, ele tenta depreciar o meu livro “A Reencarnação na Bíblia e na Ciência”, EBM Ed., SP, e outras obras que falam do assunto. E é insustentável a sua tese de que só se conhece um autor, lendo suas obras, pois Jesus, Sócrates e outros grandes vultos da História não escreveram nada. Aliás, o próprio site se contradiz nisso, ao defender ideias de certos autores tiradas de obras de outros autores.

Realmente, as críticas desse site não persuadem ninguém!

Será feita uma análise passo a passo dessas declarações.
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Sobre o Portal

Precisaríamos do espaço de um volumoso livro para abordar o site http://br.geocities.com/falhasespiritismo/index_int_2.html Mas fá-lo-emos assim mesmo. Ele cita Flávio Josefo, Procópio, são Clemente de Alexandria, Orígenes, são Gregório de Nissa, são Jerônimo, Kardec, Léon Denis, Elizabeth C. Prophet, N. Langley, H. Kersten, dom Estêvão Bitencourt, S. Celestino, este colunista e outros.

Pois então abordem todo o portal em uma obra ampla ou parceladamente, o que pode ser feito até via internet. Mesmo tendo se limitado a um único assunto – o suposto assassinato de 500 prostitutas a mando de uma imperatriz bizantina como estopim para a supressão do reencarnação na Igreja – continua sendo imprudente comentá-lo no espaço exíguo de uma coluna semanal. O resultado saiu mais como um espécie de desabafo do que uma dissecação do tema, o que seria de se esperar de uma verdadeira refutação. Listar os autores citados no portal pode até impressionar seus leitores com a tarefa hercúlea a que está se propondo, embora seja algo um tanto nebuloso, pois não diz exatamente a intenção com que os cito: aprovar, discordar, usar como testemunha histórica, como referência, discordar de interpretações de terceiros, etc. Um último comentário a esse parágrafo, em forma de sugestão, seria a utilidade em colocar o nome deste portal junto ao endereço virtual, pois esse pode mudar (e já mudou), ao passo que a “marca” do portal permanece. [topo]

Espiritismo e Ciência

E já que os espíritas gostam de estudar, vale a pena ver o site, apesar das falhas. São simplistas algumas de suas questões, que se apoiam em teses também simplistas. Kardec disse que se houver divergência entre um ensino espírita e a ciência, que se seguisse a ciência. De fato, o espiritismo não se considera infalível. Aliás, nem Jesus sabia tudo!

Concordo que certas partes de meu portal são sofríveis. Sério! Ele se desenvolveu de forma desigual. Nas partes bem incrementadas, como a da reencarnação bíblica, o texto cresceu muitas vezes por “sedimentação”. Apesar de me agradar o conteúdo, a forma não estava boa e por isso o estou reescrevendo. Agora, justiça me seja feita: por ocasião da publicação do artigo original (27/08/2007) já havia material suficiente no portal para ao menos fazer os espíritas suspeitarem que havia algo errado na história repassada em seus centros e, posteriormente, fiz um estudo exaustivo sobre a questão que, quando comparado com a literatura espiritualista disponível, nem apelando pode ser chamado de “simplista”.

Quanto ao dito de Kardec, já o conheço e considero utópico. Nem a ciência “tradicional” avança desse jeito, descartando teorias a cada novo fato contrário. Muito pelo contrário, sempre são levantadas hipóteses ad hoc para conciliar dados discrepantes com um arcabouço teórico já bem estabelecido. Muitas vezes isso é bem sucedido ou o é por algum tempo. Quando a quantidade de anomalias se avoluma ou as hipóteses auxiliares começam a ficar fracas, impassíveis de qualquer verificação, podemos estar diante uma iminente mudança nos paradigmas científicos. Enfim, a ciência é resistente à mudança e é bom que seja assim, do contrário ela seria um caos (1). Com o espiritismo, não é diferente e, mesmo quando a ciência o contradiz, é capaz de lançar uma “carta na manga”. Vide as supostas civilizações marcianas que seriam invisíveis aos nossos olhos e aos instrumentos de nossas sondas. Isto não deixa de ser uma hipótese auxiliar. Das mais fracas.

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O Peso da Autoridade

Céptico, o site critica os Evangelhos. E desfaz-se do inconsciente coletivo de Jung, dos campos morfogenéticos, do adamantino Pastorino e do renomado cientista Ian Stevenson, diretor do Dtº de Psiquiatria da U. de Virgínia, o qual pesquisa o fenômeno da reencarnação, há mais de 50 anos e em mais de 40 países, autor duma obra de 2.300 páginas (2 volumes) sobre a reencarnação, e admirado por todo o mundo científico.

A primeira e curta frase pode dar a impressão de que desdenho de um conjunto de livros que lhe é prezado, então retruco: critico os evangelhos de que jeito? Digo que são um amontoado de disparates ou material que contém coisas boas para os dia de hoje, mas que deve ser analisado tendo em mente seus primeiros leitores – os judeus do primeiro século? Lógico que eu, jogando no time dos céticos, não darei a eles a mesma análise tua ou a dos cristãos “tradicionais”, a quem tanto critica. Digamos que eu seja adepto da tese de Jesus como Profeta Apocalíptico, defendida também por outro descrente e “céptico” chamado Bart D. Ehrman (2). Ele foi, por sinal, considerado “o maior biblista do mundo” em sua coluna de 24/03/2008.

Também não estou muito interessado na reencarnação como fato, atendo-me mais ao revisionismo histórico perpetrado por alguns espiritualistas para conceber um cristianismo antigo “à própria imagem e semelhança“. Muitos repassam essa moeda falsa de total boa fé, mas ainda assim erram por um excesso de confiança não condizente com a “fé racionada”. Um pouco de ceticismo lhes faria bem e foi a isso que me propus.

Quanto ao Dr. Ian Stevenson, nem de longe me atrevi a questionar seu gabarito acadêmico e, principalmente, sua disposição em fazer “trabalho de campo” e sua postura crítica. Só não entendo por que espíritas extraem de seu trabalho mais do que pode oferecer e fazem vista grossa para as discrepâncias. A grande pergunta que ele tentou responder foi se “há reencarnação”, porém ele achava um passo grande demais querer dizer “como ela é” ou afirmar que sua ocorrência fosse universal. Também vale lembrar que muitos dos casos de “recordação espontânea” com que trabalhou foram considerados fracos por ele mesmo, sendo divulgada ao grande público justamente uma seleção dos mais fortes.

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Procópio: Esse Desconhecido (Parte I)

São de autoria de Procópio (morto em 562) “Histórias das Guerras de Justiniano” e “História Secreta”. Ele registra, de modo diferente, o episódio de 500 prostitutas, que, segundo vários autores, foram assassinadas a mando da imperatriz Teodora, esposa de Justiniano (…)

Faltou uma importante obra de Procópio no trecho acima: Das Construções, um registro dos principais feitos arquitetônicos do reinado de Justiniano. Além da afamada Catedral de Santa Sofia, Procópio relata a construção do convento Metanoia (Arrependimento):

(…)Havia uma multidão de mulheres em Bizâncio que realizava em bordéis uma atividade de libertinagem, não por escolha própria, mas sob a força da luxúria. Visto que isto era mantido por cafetões, e as mulheres de tais casas eram obrigadas a toda e qualquer hora a praticar obscenidade e copular de imediato com desconhecidos à medida que apareciam, elas se submetiam aos seus abraços. Já que houvera um numeroso corpo de alcoviteiros na cidade desde os tempos antigos, conduzindo seu tráfico em licenciosidade nos bordéis e vendendo a juventude alheia no mercado público, reduzindo pessoas virtuosas à escravidão. Mas o imperador Justiniano e a Imperatriz Teodora, que sempre compartilhavam uma comum piedade em tudo que faziam, arquitetaram o seguinte plano. Limparam o estado de poluição dos bordéis, banindo o próprio nome dos cafetões e libertaram de uma licenciosidade adequada apenas a escravas as mulheres que estavam lutando com imensa pobreza, provendo-as com sustendo independente e liberando virtude. Isso ele conseguiram da seguinte forma. Próximo à margem do estreito que está à direita dos que navegam em direção ao mar chamado Euxino, eles transformaram o que fora anteriormente um palácio em um imponente mosteiro projetado para servir de refúgio a mulheres que se arrependessem de suas vidas anteriores, de forma que lá, através da ocupação que suas mentes teriam com Deus e com a religião, poderiam ser capazes de limpar os pecados de suas vidas no prostíbulo. Portanto, denominaram o domicílio de tais mulheres de ‘Arrependimento’, em adequação com seu propósito. E estes soberanos dotaram este convento com ampla soma em dinheiro e adicionaram várias construções, a maioria notável por sua beleza e suntuosidade, para servirem de consolo às mulheres, a fim de que nunca se sintam compelidas a se afastar da prática da virtude de uma forma ou de outra.(..)

Procópio, Das Construções (De Aedificiis), livro I, cap. IX.

Na verdade, existem dois relatos feitos por Procópio para o episódio. Como Das Construções é propaganda estatal, essa é versão idílica dos fatos. O outro se encontra em História Secreta:

Teodora também devotou considerável atenção ao castigo de mulheres flagradas em pecado carnal. Ela apanhou quinhentas prostitutas no Fórum, que lá auferiam uma vida miserável se vendendo por três óboles (3), e as enviou para a margem oposta [do Bósforo], onde foram trancadas no mosteiro chamado Arrependimento, para forçá-las a reformar seu estilo de vida. Algumas delas, porém, atiravam-se à noite dos parapeitos e assim se livravam de uma salvação indesejada.

Procópio, A História Secreta, (Anekdota), cap XVII, “Como Teodora salvou quinhentas prostitutas de uma vida de pecado.”

Essa versão mostra que aquela obra social não era tão perfeita assim, com um certo número de internas que não queriam estar lá e chegando ao ponto de tentar uma fuga suicida. Existe um outro cronista de época que também relata a relação entre Teodora e as prostitutas.

Naquela época, a piedosa Teodora acrescentou o seguinte a suas outras boas ações. Certos conhecidos cafetões percorriam cada distrito em busca que homens pobres que tivessem filhas e dando-lhes, dizia-se, sua palavra e alguns nomismata, levavam as garotas como se fosse um contrato; transformavam-nas em prostitutas públicas, vestindo-as como sua desventurada sorte exigia e recebendo delas, e miserável preço de seus corpos, forçavam-nas a ingressar na prostituição. Ela ordenou que todos os cafetões deveriam ser presos com urgência. Quando foram apresentados junto com as garotas, ordenou que cada um deles declarasse sob juramento o quanto haviam pagado aos pais das garotas. Disseram que deram a cada um cinco nomismata. Quando todos deram a informação sob juramento, a piedosa imperatriz devolveu o dinheiro e libertou as garotas do jugo de sua desgraçada escravidão, ordenando que a partir daí não houvesse cafetões. Presenteou as garotas com um conjunto de roupas e dispensou-as com um nomismata para cada.

João Malala; Crônicas, Livro XVIII, seção 24

Uma possível conciliação entre esses dois episódios(4) seria a hipótese de tentativa de acabar com a prostituição “por bem” ter fracassado: a relativamente pequena indenização paga não bastou para que recomeçassem a vida, muito menos para se livrarem do estigma. Já o dinheiro mais polpudo dados aos cafetões prestou para realimentar o tráfico de seres humanos. Teodora, então, teria resolvido agir “na marra”, isolando as prostitutas e endurecendo o cerco à caftinagem. Alguém poderia alegar “oh, mas as garotas estavam querendo fugir, algo de horrível devia estar acontecendo lá dentro!” Não necessariamente: a vida daquele internato forçado simplesmente poderia ser espartana demais para algumas que preferissem as incertezas do meretrício à perda da liberdade. Guardada as devidas proporções, uma atitude análoga aos pacientes que fogem das clínicas de reabilitação modernas, após uma internação compulsória. Há, pelo menos, três fatos de depõem contra a tese de que Teodora criou um matadouro:

  1. Metanoia era obra de propaganda estatal e ficaria estranho realizar vultosos investimentos em instalações luxuosas no que seria um mero campo de concentração.
  2. Esse convento transcendeu Teodora em pelo menos cinco séculos (5). Ele foi feito para durar e não para “um serviço sujo de dois déspotas”. Seu princípio não seria essencialmente diferente de conventos similares surgidos no ocidente posteriormente, como os patrocinados pela corte papal de Avignon (6). Um exemplo próximo a nós desse tipo de instituição seriam os “Asilos Madalena” presentes na Irlanda até os anos 90 do século passado e que foram causticamente retratados no filme “Em Nome de Deus” (The Magdalene Sisters, 2002, lançado em 2004 no Brasil).
  3. O Código de Justiniano – o maior legado jurídico de seu reinado – é simpático às vítimas da prostituição, mas contra a caftinagem (Novella XIV, artigo primeiro)

Ainda que isso não tenha convencido a ti ou a algum leitor, continua a questão sobre qual a relação desse episódio com a condenação o II Concílio de Constantinopla, que supostamente baniu a reencarnação do cristianismo. Procópio nem de longe os relaciona e podem muito bem ser independentes. Será que algum outro historiador o fez?

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Um Milhão de Mortos(?)

Uma piadinha para aliviar a tensão:

Em uma fábrica, o Presidente envia uma mensagem clara e precisa para seu Gerente:

De: Diretor Presidente
Para: Gerente

“Na próxima sexta-feira, aproximadamente às 17 horas, o Cometa Halley estará nesta área. Trata-se de um evento que ocorre somente a cada 78 anos. Assim, por favor, reúnam os funcionários no pátio da fábrica, todos usando capacetes de segurança, quando explicarei o fenômeno a eles. Se estiver chovendo, não poderemos ver o raro espetáculo a olho nu, sendo assim, todos deverão se dirigir ao refeitório onde será exibido um filme documentário sobre o Cometa Halley”.

De: Gerente
Para: Supervisor

“Por ordem do Diretor Presidente, na sexta-feira, às 17 horas, o Cometa Halley vai aparecer sobre a fábrica, se chover, por favor, reúna os funcionários, todos com capacete de segurança e os encaminhe ao refeitório, onde o raro fenômeno terá lugar, o que acontece a cada 78 anos a olho nu”.

De: Supervisor
Para: Chefe de Produção

“A convite de nosso querido Diretor, o Cientista Halley, 78 anos, vai aparecer nu no refeitório da fábrica, usando capacete, pois vai ser apresentado um filme sobre o problema da chuva na segurança. O Diretor levará a demonstração para o pátio da fábrica”.

De: Chefe da Produção
Para: Mestre

“Na sexta-feira, às 17 horas, o Diretor pela primeira vez em 78 anos, vai aparecer no refeitório da fábrica, para filmar o Halley nu, o cientista famoso e sua equipe. Todo mundo deve estar lá, e de capacete, pois será apresentado um show sobre a segurança na chuva. O Diretor levará a banda para o pátio da fábrica”.

De: Mestre
Para: Funcionários

Todo mundo nu, sem exceção, deve estar com segurança no pátio da fábrica, na próxima sexta-feira, às 17 horas, pois o mandachuva (Diretor), e o Sr. Halley, guitarrista famoso, estarão lá para mostrar o raro filme “Dançando na Chuva”. Caso comece a chover mesmo é para ir para o refeitório de capacete na mesma hora. O show será lá, o que ocorre a cada 78 anos.

Aviso para Todos
Na sexta-feira, o chefe da diretoria vai fazer 78 anos e liberou geral para a festa, às 17 horas, no refeitório. Vai estar lá, pago pelo mandachuva, Bill Halley e seus Cometas. Todo mundo deve estar nu e de capacete, porque a banda é muito louca e o rock vai rolar solto até no pátio, mesmo com chuva”.

Talvez alguém esteja se perguntando por que resolvida resgatar essa piada antiga do limbo. É que não pude deixar de lembrar dela quando analisei melhor isto aqui:

[Justiniano],que era mesmo sanguinário, pois mandou matar cerca de um milhão de pessoas adeptas da reencarnação no Oriente Médio, após a condenação dela pelo Concílio de Constantinopla, em 553 (Paul Brunton, “Ideias em Perspectivas”, pág. 118, Ed. Pensamento).

O passo lógico foi verificar em in loco a referência repassada:

O vigor com que o imperador Justiniano proscreveu e destruiu livros e documentos heréticos deixou poucos registros que permitissem às gerações subsequentes saber o que outros cristãos haviam ensinado e acreditado a respeito da doutrina da reencarnação. Só no Oriente Próximo, Justiniano mandou matar mais de um milhão de hereges.

[Brunton, p. 118]

Não há menção alguma no referido livro de algo que vincule essa matança especificamente ao II Concílio de Constantinopla, não passando, provavelmente, de uma livre associação feita por ti. Os que estudaram algo a respeito do reinado de Justiniano sabem que ele se caracterizou por profunda intolerância religiosa, tendo dedicado grande esforço na supressão dos remanescentes pagãos, no extermínios dos maniqueus e repressão aos dissidentes e aos judeus. Isso foi uma política imperial (7) iniciada bem antes do Concílio, fossem os hereges reencarnacionistas (como os maniqueus) ou não. Quanto a Paulo Brunton, convém mencionar que ele não foi especialista em história bizantina, mas um jornalista inglês que, após uma estadia na Índia, tornou-se uma espécie de “guru ocidental”. A obra Ideias em Perspectiva não é exatamente algo que se possa chamar de livro, mas um apanhado póstumo de anotações feito por admiradores e discípulos em seus cadernos. Sendo assim, não há nenhuma bibliografia ou referência nela. Entretanto, foi viável encontrar uma possível origem do “fato” relatado:

Os drusos (8) são os únicos representantes modernos dos assassinos exterminados. Como eles, são ismaelitas, seu declarado fundador é Hakim, um califa fatímida do Cairo (9), que se considerava a nova encarnação da Mente de Deus. Sua noção de que o local atual de seu sempre ausente Grão Mestre é a Europa corresponde com bastante curiosidade à teoria de Von Hammer sobre o relacionamento que existiu entre os Templários e o real progenitor dos drusos. Esses mesmos drusos talvez também representem os “politeístas e Samaritanos” que floresceram tão vigorosamente no Líbano até tão tardiamente quanto os tempos de Justiniano, a cuja perseguição Procópio atribui o extermínio de um milhão de habitantes somente daquele distrito. De seu atual credo, preservado com segredo inviolado, jamais algo autêntico veio à luz; a crendice popular entre seus vizinhos faz deles adoradores de um ídolo em forma de bezerro e, para celebrar suas reuniões noturnas, [fazem] orgias como aquelas atribuídas aos ofitas (10) em Roma, aos templários (11) nos tempos medievais e aos maçons (continentais) (12) nos modernos.

King, Charles William, The Gnostics and their Remains , parte V, p. 413

Ou seja, por vias tortas, retorna-se ao famigerado Procópio! Agora, pelas mãos de C.W. King, um joalheiro da Inglaterra vitoriana que procurou em The Gnostics and their Remains (“Os Gnósticos e seus Vestígios”) reunir tudo que havia sobrado de informações sobre o antigo gnosticismo. A obra se encontra ultrapassada hoje, pois, além não ter podido contar com o material da biblioteca de Nag Hammad (descoberto em 1945), King se vale de teses hoje um tanto duvidosas ou imprecisas. A origem mais provável do relato de King atribuído a Procópio deve ter sido o capítulo XI de História Secreta, onde uma mais detalhada descrição é feita sobre uma luta ocorrida numa região próxima ao atual Líbano – a revolta samaritana de 529 d.C.:

E quando uma lei similar [obrigando conversão à ortodoxia] foi imediatamente emitida, afetando também os samaritanos, uma confusão indiscriminada varreu a Palestina. Então, todos os residentes de minha própria Cesareia e de todas as outras cidades, considerando-a como uma tolice para submeter a qualquer sofrimento em defesa de um dogma sem sentido, adotaram a denominação de cristãos no lugar da que então seguiam e, por meio desse disfarce conseguiram se safar do perigo oriundo da lei. E todos entre eles que eram pessoas de alguma prudência e racionalidade não demonstraram nenhuma relutância em aderir lealmente a essa fé, mas a maioria, sentindo ressentimento que, não por sua própria escolha, mas sob coação da lei, tiveram de abandonar a crença de seus pais, instantaneamente foram favoráveis aos maniqueus e politeístas, como eram chamados. E todos os agricultores, tendo se reunido em grande número, decidiram se rebelar contra o imperador, lançando como seu imperador um certo bandoleiro de nome Juliano, filho de Savaro. E travando combate com os soldados, suportaram por algum tempo, mas finalmente foram derrotados na batalha e pereceram junto com seu líder. E diz-se que cem mil pereceram nessa luta e a terra, que era a melhor no mundo, tornou-se, em consequência, destituída de agricultores. E para os donos de terra que era cristãos, isso deixou consequências muito sérias. Pois lhes foi incumbida, como um tipo de coerção, pagar para sempre ao imperador, ainda que não estivesse auferindo nenhuma renda da terra, a imensa taxa anual, já que não se mostrou nenhuma piedade na administração dessa atividade.

Assim, o total de cem mil mortos (dez miríades, no original) pode ter sido corrompido para um milhão ao passar para o livro de King (13). Caso se continuasse um encadeamento, Brunton colocou todos os mortos como reencarnacionistas e, depois, outros espiritualistas intuíram que deveriam ser origenistas. Óbvio que isso é uma especulação de como a informação teria se deteriorado. É plausível e o melhor que pôde ser feito com o material fornecido, pois o simples fato de que nenhum autor de King a Chaves ser capaz de dizer de onde a informação saiu torna impossível a eliminação de qualquer dúvida.

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Procópio: Esse Desconhecido (Parte II)

Não teria Procópio contado essa história de modo diferente, justamente porque era amigo do casal imperial?

Depende de qual Procópio vocês está falando. Ele é reconhecido como o autor das três obras supracitadas, mas ele mudava seu estilo conforme cada. Das Construções foi feita por encomenda e, aí sim, bajula o casal imperial. Em Guerras, tenta manter um certo distanciamento, mas não deixar de alfinetar as obsessões de Justiniano em reconquistar o ocidente e se envolver em questões teológicas, ao passo que a segurança das províncias orientais era negligenciada. Foi em A História Secreta que Procópio realmente extravasou seus ressentimentos contra o casal de monarcas. Para ele:

  1. Justiniano era um demônio: Isso não era uma figura de linguagem, nem queria dizer que ele vendeu sua alma por meio de um pacto. Ele seria, mesmo, um demônio sob uma casca humana. Vários “causos” são contados no capítulo XII: a mãe de dele foi fecundada por um demônio, viram-no andando pelo palácio sem a cabeça, seu rosto poderia se transformar numa massa disforme de carne, um monge do deserto se recusou a adentrar o salão do trono porque vira o Rei dos Demônios sentado sobre o mesmo. A imperatriz – ainda em seus dias de palco – recebia a visita de demônios em seu quarto, que expulsavam os amantes da ocasião para ficar com ela. Em um sonho ela soube que dividiria o leito com o Rei dos Demônios. Até os hábitos frugais de alimentação de Justiniano e sua pouca necessidade de sono eram indicativos de uma natureza satânica!
  2. Seria obra dos governantes tudo o que fosse fatídico: Uma consequência direta do item acima. Nas próprias palavras de Procópio (cap. XII): “Pois foi por meio de terremotos, pestilências e enchentes das águas dos rio que veio posteriormente a ruína, como presentemente demonstrarei. Não por meios humanos, mas por algum outro tipo de poder eles alcançaram seus terríveis desígnios”. E, realmente, Procópio coloca na conta de Justiniano (cap. XVIII) os mortos do terremoto de Antioquia.
  3. A imperatriz seria a mais pervertida das criaturas: a falta de “virtude” da jovem Teodora teria se refletido em sua crueldade quando no poder. Não bastava para ele ressaltar a sua origem de uma profissão socialmente desprestigiada. Era preciso deixar clara que ela foi a maior de todas as prostitutas de seu tempo. Para isso vale, como relatado acima, dizer que ela se deitava com demônios, descrever suas performances no palco (cap. IX) e assombrar o leitor com a incrível disposição sexual de Teodora, capaz de dar conta de dez marmanjos mais a criadagem deles, totalizando cerca de quarenta indivíduos em pleno vigor numa noite só(id.)! É difícil dizer se o que movia Procópio era uma espécie de machismo contra mulheres que gozavam de influência nos círculos do governo (como Teodora e a esposa de Belisário, Antonina) ou um ódio de classe. Ele não se conformava por Justiniano ter desposado uma cortesã quando poderia ter escolhido a mais nobre e educada de todas as donzelas do império (cap. X). A nova imperatriz seria apenas uma alpinista social, que fazia questão de mostrar seu novo status humilhando homens da elite com um cada vez mais estrito cerimonial da corte (cap. XV).

Mencionados tantos “atributos” assim, fica difícil chamar o autor de História Secreta de “amigo”. O que mais impressiona é que, com toda sua virulência, Procópio não disse taxativamente que estaria havendo um massacre dentro dos muros de Metanoia, nem vinculou sua inauguração ao II Concílio de Constantinopla. Afinal, de onde veio essa ideia? Nenhum espiritualista até agora soube responder.
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“Vaidade de Vaidades! Tudo é Vaidade…”

E porque o site desconhece outras fontes que registram essa história das prostitutas assassinadas, ele tenta depreciar o meu livro “A Reencarnação na Bíblia e na Ciência”, EBM Ed., SP, (…)

O que eu desconheço são fontes primárias que atestem tal assassinato. Já rastreei Procópio, Evágrio Escolástico, João Lídio, João Malalas e outros. Não encontrei absolutamente nada. Se nenhuma pessoa da Idade Média fez o favor de registrar esse episódio e vinculá-lo ao II Concílio de Constantinopla, surge a hipótese de tudo não passar de um boato criado por espiritualistas modernos. Quanto à desmoralização, eu jamais faria uma análise crítica por tão pouco. Somente comparei inúmeras citações feitas com os textos que lhes eram atribuídas. Muita coisa não bateu. Sinceramente, Chaves, acho que levou a coisa demais para o pessoal ou entendeu tudo errado. Consegui te chamar a atenção, mas o resto está sendo mais complicado. O exemplar que possuo de seu livro traz na capa “sétima oitava ed. Revisada”. Simplesmente, talvez tenha de fazer outra revisão. Caso não tenha problemas com o inglês, poderá ler boa parte de minha bibliografia e avaliar se há realmente pontos nebulosos ou não. Terá acesso a muitas coisas em primeira mão e será capaz de se aperfeiçoar largamente. Pode me ver como um mero detrator a mais (intuo que, para a maioria, eu faça o papel de vilão) ou encarar isto como uma oportunidade. Oportunidade de ir bem a fundo em cada pesquisa, avaliar todos os ângulos, montar panoramas, buscar o contraditório. Não fará apenas cópia desse ou daquele autor, mas superará muitos deles. Fará pesquisa historiográfica de qualidade.

Pode adotar em uma atitude defensiva e se encastelar em bibliografia que julga “segura”. É um direito seu. Entretanto duvido que em todo o portal não haja algo que lhe acrescente “substância”. Se baixar um pouco a guarda, talvez aprenda coisas com este antagonista que jamais aprenderia em um meio que só te congratula. E quem sabe, eu também aprenda algo…

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Ninguém sabe, Ninguém viu

Capa do Livro The Lives of the Monks of Palestine

Uma fonte primária, para quem se interessar.

(…) e outras obras que falam do assunto.

Quais são elas, por favor? Como só com absurda boa vontade seria possível relacionar o texto de Brunton com o assunto, então você ainda não trouxe nenhuma. Já que está usando o plural (“obras”), presumo que conheça ao menos outra fonte. De preferência uma feita por um historiador, que me permita rastrear a origem do relato. Agora, se você só me trouxer obras de espiritualistas que apenas citam (se citarem) outros espiritualistas, então nada mudará. De conhecimento meu, sei de Holger Kersten (14), mas você aparentemente não o utiliza e, mesmo que o tivesse usado, de pouco valor seria por ele não dar referência alguma para autoria do relato. Conheço, também, Cajazeiras (15) e Severino Celestino da Silva (16), mas eles não contam por serem dependentes de você nesse episódio. Esse último, por sinal, tem em sua bibliografia G. Alberigo (17), que traz em seu trabalho uma versão bem mais embasada dos fatos:

Claro, o origenismo não chamava tanto a atenção dos ortodoxos, pois não questionava o concílio de Calcedônia. Mas depois do decreto de 533 e do sínodo de 536, os ortodoxos perceberam que por trás das decisões imperiais havia sempre um origenista. Roma, sobretudo, não tinha motivo para tolerar o origenismo, pois este não compartilhava as ideias romanas a propósito dos “três capítulos” (cf. Liberatus, Breviarium, ACO II V, 98-141). Os ortodoxos do Oriente começaram a se preocupar com os origenistas, pois estes fortaleciam suas fileiras com padres ortodoxos como Gregório de Nissa, Dídimo, o Cego, e outros. Sobretudo na Síria, os origenistas apareciam demais, por causa de seu grande número. Por isso o patriarca Efrém de Antioquia convocou em 542 um sínodo que condenou o origenismo. Os origenistas da Palestina recorreram, então a Pedro de Jerusalém, pedindo-lhe que não mencionasse mais Efrém nos dísticos de Jerusalém. Pedro, apertado entre as próprias opiniões ortodoxas e as pressões dos origenistas, apelou para Justiniano, com o apoio também do patriarca Mena e do representante de Roma, Pelágio. Justiniano publicou um “Edito” em 543 (Mansi, 9, col. 125-128; ACO III, 189-214) contra o origenismo. Mena aproveitou a ocasião e no mesmo ano convocou um sínodo, que deu à decisão imperial autoridade sinodal. O papa Vigílio, os patriarcas orientais, e também os origenistas de Constantinopla Ascida e Domiciano assinaram a decisão. Isso, porém, não eliminou o origenismo, que continuou a existir e predominar na Palestina. A condenação sinodal conseguiu radicalizar as posições dos origenistas, que assumiram então atitude hostil à ortodoxia.

[Alberigo, pp. 130-1]

O gatilho para a segunda crise origenista foi um conflito local entre monges ortodoxos e origenistas na Palestina do século VI, que foi relativamente bem registrado por cronistas da época como Liberato de Cartago, Facundo de Hermiano e, principalmente, Cirilo de Citópolis. Teodora mal entra na história e, quando aparece, intercede por Ascida (origenista) ou leva um pito do monge Saba (ortodoxo). Ainda que nossas fontes careçam de uma versão origenista dos fatos, fica ao menos patente que a ortodoxia do século VI (aliás, desde o século IV) estava longe de morrer de amores pelos voos mais altos da mente de Orígenes.

Voltando ao artigo:

E é insustentável a sua tese de que só se conhece um autor, lendo suas obras, (…)

Então, por que centros espíritas sempre recomendam o Pentateuco a todos os que querem aprender a doutrina? Uma obra do Frei Boaventura Kloppenbourg seria recomendável aos iniciantes em espiritismo? Você pode até entender algo de um autor por vias indiretas, contanto que você se garanta de não estar aprendendo por um intermediário “duvidoso”. Do contrário, pode estar brincando de “telefone sem fio” como na piada do “cometa Halley” sem o saber. Na primeira vez que li Gibbon, notei que havia algo de diferente no relato dele de Teodora com o que era repetido no meio espírita. Declínio e Queda do Império Romano é um clássico. Não está imune a imprecisões, equívocos na metodologia e a uma inevitável defasagem, mas Gibbon ganhou fama, entre outras coisas, pela esmerada busca por fontes primárias que fazia. A partir das notas de rodapé presentes em versões on-line, cheguei às duas obras de Procópio que cito. Gibbon tem todo o caminho das pedras disponível a seus leitores. Repetir seus passos é simples caso se tenha as mesmas fontes primárias disponíveis. Já as obras espiritualistas apresentadas, ninguém sabe, ninguém viu …

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Em Nome dos Grandes

(…) pois Jesus, Sócrates e outros grandes vultos da História não escreveram nada.

Imagino que sua intenção era se apoiar “em ombros de gigantes”, mas lamento informar que fincou seus alicerces na areia. Não poderia ter escolhido exemplos piores que esses para usar em defesa da qualidade de fontes indiretas.

Comecemos por Sócrates. Chegaram até nós três grandes fontes a respeito dessa personagem histórica:

  1. Platão: Discípulo mais famoso de Sócrates, fez do mestre o personagem principal na maioria de seus diálogos filosóficos. Escreveu também Apologia, em que relata os argumentos usados por ele em seu julgamento;

  2. Xenofonte: Também discípulo e autor de Ditos e Feitos Memoriáveis de Sócrates. Não teve, contudo, a mesma envergadura intelectual que Platão;

  3. Aristófanes: Teatrólogo cuja comédia As Nuvens retrata Sócrates como um charlatão a enganar desde escravos a homens da elite e, de quebra, corrompe um jovem tornando-o um tremendo sofista.

Temos as opiniões de discípulos e a de um oponente. As primeiras, provavelmente, exageram nos elogios, ao passo que a última pode ter carregado demais nas críticas. Como As Nuvens foi lançada uns trinta anos antes do julgamento de Sócrates, há quem cogite ela retratar um filósofo ainda imaturo, um “Sócrates pré-socrático”, além de lembrar que Aristófanes criou uma caricatura em sua peça, distinta do filósofo real. Por outro lado, ele não poderia distorcer Sócrates a ponto de deixá-lo irreconhecível para o público e, tirando os apelos, o estilo elucubrativo ridicularizado na peça tem ecos em diálogos platônicos. Talvez haja, de fato, um fundo de verdade em As Nuvens no modo como o filósofo era visto por não socráticos ou, pelo menos, pelo “povão”. Dos perfis legados pelos discípulos, outros problemas emergem. O filósofo de Platão é muito mais intelectualizado que o de Xenofonte. Não que seja inviável ver na obra desse último o estilo de ensinar em perguntas para induzir o instruendo ao conhecimento por conta própria (maiêutica), muito pelo contrário, mas falta-lhe a elaboração de sistemas filosóficos mais sofisticados. De certa forma, sempre haverá a suspeita de que Platão colocou na boca de seu mestre ideias que, na verdade, seriam suas (19).

E no caso de Jesus Cristo a situação piora, pois nem sequer temos um registro de contemporâneos dele. A aparente similaridade entre os evangelhos sinópticos é ilusória, pois Lucas e Mateus são, muito provavelmente, dependentes do fio narrativo de Marcos. Quando lidos em paralelo, as discrepâncias aparecem, não apenas em pormenores narrativos, mas até mesmo na teologia. Por exemplo: as bem-aventuranças em Mateus buscam mais aplacar o sofrimento moral, ao passo que Lucas enfoca mais a questão social. Como se isso já não bastasse para criar certo desconforto aos cristãos ortodoxos, eles resolveram adotar João, que traz um perfil com diferenças ainda mais gritantes:

Sinópticos João
  • Começa com João Batista ou histórias da natividade e infância.
  • Jesus é batizado por João.
  • Jesus fala em parábolas e aforismos.
  • Jesus é um sábio.
  • Jesus é um exorcista.
  • O Reino de Deus é o tema de seus ensinos.
  • Jesus fala pouco de si mesmo.
  • Jesus toma partido dos pobres e oprimidos.
  • O Ministério público de Jesus dura um ano.
  • O incidente do Templo é tardio.
  • Jesus toma a Última Ceia com seus discípulos
  • Viés apocalíptico forte ou mediano.
  • Baixa cristologia (Jesus humano).
  • Começa com a criação. Nenhum registro sobre nascimento ou infância.
  • O batismo de Jesus é pressuposto.
  • Jesus fala em longos e elaborados discursos.
  • Jesus é um místico.
  • Jesus não faz exorcismos.
  • O próprio Jesus é o tema de seus ensinamentos.
  • Jesus reflete extensamente sobre si e sua missão
  • Jesus tem pouco a dizer sobre os pobres e oprimidos.
  • O ministério público dura dois anos.
  • O incidente do Templo ocorre cedo.
  • Lavagem dos pés e “Discurso de Despedida” no lugar da Última Ceia.
  • Ausência de escatologia.
  • Baixa e alta cristologia (Jesus divino).

E posso complicar ainda mais: basta lembrar que há um “Jesus folclórico” permeando vários textos apócrifos, com direito a emoções, digamos, “humanas demais” e atitudes que lembram mais um feiticeiro que um messias. Ah! Não esqueçamos do exotérico Cristo dos evangelhos gnósticos, claro.

Não creio que todas essas visões de Jesus Cristo (ou Sócrates) sejam ao mesmo tempo verdadeiras, como naquela historinha dos três cegos tateando um elefante (18). As personagens dessa história poderiam pesquisar o animal mais demoradamente, dar-se conta que tomavam partes dele como o todo, trocar ideias e daí imaginar o animal completo. Mas esses hipotéticos “pesquisadores do elefante” tinham duas vantagens em relação aos historiadores do Jesus e do Sócrates históricos: possuíam seu objeto de análise completo à disposição e, em princípio, ninguém havia enxertado algum pedaço alienígena ao animal. Assim, o desafio que os historiadores enfrentam é muito mais difícil e, justamente por isso, instigante.

Se isso não te convenceu, então vou me valer de outra figura famosa: Paulo de Tarso. Ao contrário desses dois exemplos, chegaram até nós cartas que são tidas como de autoria genuína dele e um relato em segunda mão de seu trabalho missionário contido em boa parte de Atos dos Apóstolos. Acontece que nem tudo é harmonioso entre essas partes. Compare:

Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça,

Revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue,

Nem tornei a Jerusalém, a ter com os que já antes de mim eram apóstolos, mas parti para a Arábia, e voltei outra vez a Damasco.

Gálatas 1:15-17

Com isto:

E, quando Saulo chegou a Jerusalém, procurava ajuntar-se aos discípulos, mas todos o temiam, não crendo que fosse discípulo.

Atos 9:26

Afinal, após a experiência com a visão de Jesus, o gatilho para a transformação de Saulo em Paulo, o futuro apóstolo foi (levado) direto para Damasco ou passou um tempo na Arábia antes (20)? Se acha isso um pormenor sem significância, há outras questões bem cruciais em jogo, por exemplo, será que o “Concílio de Jerusalém” (At 15 e, talvez, Gl 2) conseguiu convencer a todos os judeus cristão que os seus irmãos gentios estavam dispensados da Lei Mosaica? Se assim o fosse, qual o porquê das Epístolas Pseudoclementinas com sua crítica velada a Paulo e defesa da primazia de Pedro? Lucas tenta passar em Atos que qualquer disenção entre os primeiros cristãos era resolvida por algum consenso entre as lideranças. Talvez a concórdia não fosse tão plena assim (21). É possível que haja tanta diferença entre o “Paulo histórico” e o “Paulo segundo Lucas” quanto entre o “Jesus histórico” e o “Salvador do Mundo” contido em seu evangelho.

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“E Tu Também!”

Aliás, o próprio site se contradiz nisso, ao defender ideias de certos autores tiradas de obras de outros autores.

Simplesmente porque é impossível, para mim, ter todas as fontes primária que gostaria. E olhe que muito de minha biografia envolve livros caros, raros, importados e há muito não impressos. Muita coisa coisa até já está gratuita na Internet, mas é preciso que já esteja em domínio público e alguma alma caridosa a tenha digitalizado. No caso o II Concílio de Constantinopla, creio que já rastreei os cronistas de época mais importantes, cujos nomes já estão supracitados.

Quanto a consultar outros autores, sim, deve-se fazê-lo mesmo que se tenha a fonte primária, para que se inteire do que outros já pensaram sobre o tema, cruze informações e, então, crie um juízo próprio. A questão é quem você consulta: historiadores profissionais e/ou renomados ou leigos, no caso “leigos espiritualistas”. É impressionante que historiadores que escreveram longas páginas sobre a querela arianista e, mais tarde, sobre o movimento monofisita passem quase que de raspão na Segunda Crise Origenista. Ela sem dúvida tem importância no estudo do origenismo, mas será que teve tanta relevância na política imperial? Na história do cristianismo? Provavelmente, não:

A condenação do origenismo em 553 não teve o eco de alcance mundial que a disputa dos Três Capítulos criaria. A disputa foi bem sucedidamente decidida em particular com os monges afetados antes e, dentro desse grupo, especialmente os monges da Palestina. Mesmo lá, ele afetou predominantemente, conforme os princípios do evagrianismo ascético, apenas uma classe, na verdade um exótico grupo de monges, que após uma dura praktike estavam treinados para a theoria e, após essa preparação, confessavam a extrema cristologia evagrianista. Contudo, é adequado notar a explosiva natureza dessa posição. Foi apenas no século sexto que ela teve efeito, como os cânones de 553 e, posteriormente, nossas exposições sobre o patriarcado de Jerusalém mostrarão.

[Grillmeier, parte III, cap. III, p. 408]

Se quer ter ideia do que esses monges palestinos elucubravam, busque saber sobre O Livro de Hierotheos, outra fonte primária – dessa vez dos origenistas. Duvido, contudo, que você ou qualquer outro espírita compre o pacote inteiro.

Como só encontro material espiritualista falando de tal “catástrofe histórica”, fico com a impressão que boa parte do movimento padece de uma “síndrome de paraíso perdido”: a ideia de que o cristianismo antes do século VI era uma espécie de protoespiritualismo. Não vejo fundamento algum para tal crença. Os primeiríssimos cristãos foram apocalipsistas – uma característica ausente nos espiritualistas modernos -, os traços gerais da ortodoxia nicena já estavam delineados no século III, Orígenes nunca foi consenso e o reencarnacionismo dele era incompatível com o seu (22). A Segunda Crise Origenista (sabiam que houve outra?) foi, de certa forma, fim de feira.

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Uma Incoerência ao Final

Realmente, as críticas desse site não persuadem ninguém!

Se não convencem a ninguém, então por que dedicar um artigo a elas? E mais: por que selecionar esse artigo para uma coletânea e, ainda por cima, encabeçando-a? Estranho. De certa forma, mereceram alguma atenção justamente por significarem algo. O que foi é que não está claro. Talvez tenha sido grande o incômodo que ser lhe apontadas fraquezas argumentativas que antes julgasse exclusivas da ortodoxia cristã que tanto critica. Porém também sei que quando os critica não os quer mal, mas que evoluam para o que julga ser mais condizente com a mensagem cristã. Da mesma forma, não gostaria que levasse para o lado pessoal, mas como um apelo e convite para que qualidade da argumentação espiritualista melhore.

Tenho ciência que boa parte de seus confrades jamais admitirá que o movimento foi vítima de um hoax, seja por convicção, para não ferir o orgulho ou credulidade em teorias conspiratórias. Por incrível que pareça, a simples tentativa de desmentir boatos pode acabar por reforçá-los, embora ainda tenha eu alguns fios de esperança a que me agarro, como a considerável mudança de opinião de um conhecido seu e também profícuo articulista.

Após ter feito esta pequena propaganda de um livro seu, gostaria de fazer outra, só que agora do livro
Reincarnation in Christianity, escrito por seu confrade teósofo Geddes MacGregor. Não que eu morra de amores pelo livro ou o considere isento de pontos duvidosos, mas seu entendimento sobre o começo do cristianismo como credo profético e apocalítico, sobre as crises origenistas e de como se poderia conceber a atual ortodoxia aceitando a reencarnação é muito mais produtivo do que o que tenho visto por aí. Ele tenta conceber uma delicada adaptação entre o conceito de salvação e o de reencarnação, de futura aceitação um tanto incerta, mas que respeita a História do Cristianismo, em vez de sugerir que ela é uma fraude.

Um outro Olhar

Tudo de bom e que possamos um dia nos falar em termos mais amenos.

Notas

(1) Sugestões de leitura:

  • What Is This Thing Called Science?, de A.F. Chalmer, Hackett Publishing Company; 3ª ed. (1999)
  • A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn, editado em português pela Perspectiva

(2) Sugestões de leitura para o autor Ehrman sobre o Jesus apocalipsista: [Ehrman (1999)] e [Ehrman (2004)]. Sobre a descrença de Ehrman, ver O Problema com Deus, 2008, Agir.

(3)Fração da moeda grega dracma. Lembra da parábola “Óbolo da viúva”.

(4) [Cesaretti, cap. XIII, p. 228-230]

(5) Cf. Janin, Raymond; Constantinople Byzantine. Développement urbain et répertoire topographique. 2ª ed., Paris, 1964, p. 151

(6) Cf. [Rollo-Koster].

(7) Cf. Código de Justiniano 1.5.12.

(8) Seita muçulmana, presente em partes da Síria e do Líbano, que acredita num sistema reencarnacionista sem karma: ao longo dos tempos cada alma é submetida a inúmeras experiências diferentes, não havendo relação de “causa e efeito” entre elas. Na consumação final, é feito um balanço das ações feitas em sua existência total, o que decidirá se o destino dela será o paraíso ou o inferno.

(9) A principal diferença entre as duas maiores correntes do islamismo – sunitas e xiitas – é sobre como deveria ser a liderança da comunidade após a morte do profeta Maomé. Os primeiros defendiam a escolha de líderes entre os membros da comunidade, ao passo que os últimos defendem que sucessão sempre pertença aos descendentes da união entre Ali e a filha de Maomé chamada Fátima. Perseguidos desde o princípio pela maioria sunita, o movimento xiita ganhou um perfil radical e uma de suas mais extremadas facções era a dos ismaelitas, crentes na figura do imã, um infalível e inspirado descendente de Ali e Fátima, por intermédio de Ismael, a ser obedecido sem objeção. No século X, o poder no Egito foi tomado por uma dinastia que alegava esse parentesco e estabeleceu o califado fatímida (de Fátima) do Cairo, para rivalizar com o califado sunita de Bagdá.

No tempo das cruzadas, o império fatímida entrou em declínio e foi finalmente tomado por lideranças sunitas oriundas da Síria. Pela mesma época, um grupo de ismaelitas da Pérsia, sob o comando de Hasan Ibn al-Sabbah, estabeleceu-se nas montanhas da Síria e do Líbano, onde montou um complexo de fortalezas que serviu de base para suas campanhas de conversão e ataques aos sunitas, visando restaurar o reinado fatímida. Seu principal método era o terrorismo político: membros da seita se infiltravam entre a população próxima ao alvo e, quando sua comitiva passava, tentavam matá-lo e também todos os que estivessem ao redor. O nome de “assassino” (do árabe hashshashîn), atribuído a um fiel da seita, vem de seu hábito de tomar haxixe (hashish) para praticar um atentado em estado alterado e, assim, mais imune ao medo. A seita foi extinta no século XIII, com a ascensão de uma casta de guerreiros-escravos que tomou o poder do Egito à Síria – os mamelucos – e também destruiu os últimos redutos cruzados.

Uma curiosidade: a palavra “assassino” chegou ao ocidente por via italiana e, até hoje, no idioma inglês (assassin) se refere a quem atenta contra a vida de pessoas importantes.

(10)Seita gnóstica que atribuía à serpente (do grego ophis) a missão de ter revelado o conhecimento para Adão e Eva, coisa que o demiurgo queria ocultar.

(11)Antiga ordem monástico-militar da Igreja Católica. Sua principal missão era guardar os lugares santos nas terras cruzadas e zelar pelo bem-estar dos peregrinos. Também foram usados como exército regular no combate a tropas muçulmanas. Por desenvolver sofisticada rede de abastecimento para suas tropas no Levante, a Ordem dos Cavaleiros Templários despertou a cobiça do rei francês Felipe IV e, principalmente após a perda de prestígio com o fim do ciclo das cruzadas, foi alvo de uma campanha difamatória promovida por ele, envolvendo acusações de sodomia, feitiçaria e prática secreta do islamismo. A ordem foi extinta, seu líderes queimados e seus bens confiscados. Em tempos modernos, desenvolveu- se toda uma mística em torno do destino dos templários, com direito a teorias especulativas alegando a existência de remanescentes, responsáveis por guardar o Santo Graal ou o tesouro de Salomão.

Por outro lado, sua ordem irmã – os Hospitalários – sobreviveu à Idade Média, em parte por ter uma base segura em na ilha de Rodes e, depois, em Malta, onde poderiam se refugiar. Além disso, a própria sorte dos templários os convenceu da importância de manterem um corpo de advogados profissionais para defender seus interesses, coisa com que seus rústicos irmãos não puderam contar. Com o tempo, o Hospital perdeu seu caráter militar e essa transição suave fez com ela praticamente não tivesse mítica alguma junto ao grande público leigo.

(12) “Continentais” no sentido de “pertencentes à Europa continental”, para diferenciar da maçonaria do arquipélago britânico.

(13) Não está claro se esse número (cem mil mortos) se refere somente aos rebeldes ou também aos não combatentes mortos por ambos os lados. Malala, no livro XVIII de sua Crônica, falha em vinte mil mortos em combate e número igual vendidos como escravos, crianças entre esses. Há, também, uma quantidade indeterminada de refugiados nas montanhas que foram mortos posteriormente. São mencionadas chacinas de cristãos pelos samaritanos, tanto por Malala quanto por Cirilo de Citópolis (A Vida de Saba, cap.LXX), mas seu total de vítimas também é desconhecido.

(14) Cf. Jesus Viveu na Índia, Ed. Best Seller, 7ª ed., cap. VI – “Considerações Finais”.

Bart Ehrman chega a fazer um breve comentário a respeito das teses do “Jesus Indiano” em [Ehrman (2003), cap. IV, p. 68]:

Outras falsificações têm sido perpetradas nos tempos modernos, de relevância direta para nosso corrente estudo de apócrifos cristãos antigos. Pode-se pensar que, em nossos dias e época, ninguém seria tão ardiloso para assegurar quaisquer relatos de primeira mão de Jesus como autênticos. Mas nada poderia estar mais longe da verdade. Estranhos evangelhos aparecem regularmente, se você souber onde procurá-los. Muitas vezes esses registram incidentes dos “anos perdidos” de Jesus, por exemplo, relatos de Cristo ainda criança ou jovem anteriores a seu ministério público, um gênero que retrocede até o segundo século. Esses relatos
algumas vezes descrevem viagens de Jesus à Índia para aprender a sabedoria dos brâmanes (como de outra forma ele seria tão sábio?) ou seus feitos no deserto, juntando-se com monges judaicos para aprender o caminho da santidade.

Esse parágrafo deixa transparecer que a tese não é levada muito a sério nos meios acadêmicos.

(15) Elementos de Teologia Espírita, EME.

(16) Analisando as Traduções Bíblicas

(17) História dos Concílios Ecumênicos, Paulus, 1995.

(18) Em determinada aldeia, chega um caravana transportando diversos animais tidos como exóticos para seus isolados habitantes. Três residentes cegos, que nunca haviam travado contato com um elefante, põem-se a tateá-lo. O que apalpava a orelha diz: “este animal se parece com um tapete”. O que apalpava a perna declara: “este animal se parece com uma coluna”. O terceiro, abrindo os braços sobre a lateral, é categórico: “Nada disso, este animal se parece é com uma parede.”

(19) Para um discussão pormenorizada a respeito do Sócrates histórico, cf. [Pensadores, vol. LIII, cap. II, pp. 33-5].

(20) E há quem tente harmonizar isso.

(21) Cf. [Ehrman (2003), cap. V, pp. 95 – 103; cap. IX, pp. 181-5]

(22) A concepção da reencarnação para Orígenes, como elaborada em sua obra De Principiis era “inter eras”. Teria havido várias eras antes desta em que vivemos e haveria outras após. A Bíblia falaria explicitamente de apenas três: a paradisíaca no começo de Gênesis, a atual e uma futura em Apocalipse, deixando as demais nas entrelinhas. Cada uma teria seu própria criação envolvendo uma região celeste, um firmamento, uma Terra e uma região infernal, que seriam habitadas respectivamente por anjos, corpos celestes (portadores de alma, segundo Orígenes), humanos e demônios. Originalmente, todas as almas teriam sido criadas perfeitas e puras, mas pelo mau uso do livre-arbítrio, se afastaram da graça e Deus criou essas quatro regiões para que pudessem se regenerar e distribuiu as almas conforme o grau de queda que tiveram. O destino de cada alma numa era futura estava condicionado às suas atitudes na anterior, podendo até mesmo haver quedas para níveis mais baixo. Ao final de cada era, ocorreria uma ressurreição e um julgamento final, seguido por um estado purgatório (fogo moral) a fim de preparar a alma para a próxima era. O diferencial da nossa seria a encarnação do Verbo coeterno do Pai, que se associou à única alma que não caíra para constituir a natureza humano-divina de Jesus Cristo. Seu sacrifício na cruz teve o poder de catalizar a retorno das almas à beatitude original. Por fim, o último inimigo – a Morte – se tornaria submisso a Deus por meio de Jesus. É bom ressaltar que Orígenes era contra a ideia de múltiplas vidas dentro de uma mesma era, como deixou claro em outras obras.

Se atentarmos que Bíblia identifica claramente a existência de pelo menos três eras (a primeira antes da queda de Adão, a atual e o pós-apocalipse) e que, de certa forma, a ressurreição cristã também é um tipo de reencarnação, então o origenismo guarda mais similaridades com a ortodoxia cristã do que com o kardecismo.

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Para Saber Mais:

– Alberigo, Giuseppe; História dos Concílios Ecumênicos, Ed. Paulus, 1995.

– Cesaretti, Paolo; Theodora – Empress of Byzantium, tradução inglesa de Rosanna M. Giammanco Frongia, Vendome Press, 2001.

– Ehrman, Bart D.; Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millennium, Oxford University Press, 1999.

_______________; Lost Christianities, Oxford University Press, 2003

_______________; The New Testament: A Historical Introduction to the Early Christian Writings , Oxford Press, 2004

– Grillmeier, Aloys & Hainthaler, Theresia; Christ in Christian Tradition, tradução inglesa Pauline Allen e John Caste, vol. II, parte II, Mowbray/ Westminster John Knox Press, 1995.

Os Pensadores, vol. LIII – Biografias I, Abril Cultural, 1972

– Rollo-Koster, Joëlle; From Prostitutes to Brides of Christ: The Avignonese Repenties in the Late Middle Ages, publicado em Journal of Medieval and Early Modern Studies – Volume 32, nº 1, Inverno 2002, pp. 109-144.

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Contendas do Deserto – As Crises Origenistas vistas de seus Epicentros

5 de setembro de 2012 4 comentários
Converti para PDF um longo estudo estudo em que reuni (quase) tudo que pude encontrar a respeito do tema. Espero que não tenha se tornado um daqueles textos que no afã de esgotar o assunto terminam por esgotar o leitor, mas não há caminho fácil. A questão origenista atravessou séculos, envolveu uma série de adversários e simpatizantes de Orígenes, foi de uma ponta a outra do mundo greco-romano e teve a consolidação da atual ortodoxia cristã como pano de fundo. Foi extremamente difícil um assunto não puxar outro e a maior dificuldade foi decidir o que ter de deixar de fora sem que algo mais adiante ficasse nebuloso. Podar demais poderia acarretar em similares às simplificações espiritualistas que ainda gracejam e ou omitir os documentos históricos que tanto cobrei. De certa forma, aqui está o trabalho que deveria ter sido dos espiritualistas, embora você talvez ainda encontre algum deles por este mundo virtual perguntando por fonte fidedigna para o “assassinato de 500 prostitutas a mando da imperatriz Teodora”, como se tudo tivesse sido acionado por esse episódio. Não foi e, mesmo que tivesse ocorrido, a condenação do teólogo Orígenes no II Concílio de Constantinopla teve outras causas bem mais profundas. E como se isso já não fosse surpreendente a muitos, se tal Concílio nunca ocorresse, o verdadeiro Orígenes jamais corroboraria o espiritualismo moderno e nem os espiritualistas aceitariam vários dos anátemas de 553.

Bem, eis o link para baixar:

Contendas do Deserto (pdf)

Para os que talvez se sintam intimidados pelo tamanho, informo que muito do conteúdo é composto por anexos ou de citações que podem ser lidos conforme a disponibilidade de tempo. Poderia ter dado apenas referências, mas preferi deixar tudo ao alcance de suas mãos para pudessem ter certeza de que tudo foi dito com conhecimento de causa. Expressões como “dizem” ou “sabe-se que” estão longe de ser praxe neste portal.

Termino colocando nesta postagem o último capítulo em sua totalidade. É um agradecimento singelo por tudo que aprendi.

* * *

Capítulo 21- Palavras Finais

Este artigo cresceu muito além do esperado. De início, almejava apenas traduzir as partes de A Vida de Saba correspondentes à segunda crise origenista e dar um breve complemento a ela. Esse complemento, porém, ganhou cada vez mais corpo até ficar praticamente mais importante que o texto de abertura. Não houve outro jeito, pois o tema Origenismo revelou-se tão complexo que qualquer tentativa de explanação sucinta corria o risco de cair em erros similares aos que tanto critiquei e, além disso, não é possível entender a própria evolução que a memória de Orígenes teve sem descrever o pano de fundo: as idas e vindas na consolidação da ortodoxia cristã.

Nos três anos em que me dediquei a este texto, vi ao longe mudanças em duas personagens que me motivaram a começar a tarefa, ainda que involuntariamente. No primeiro caso, José Reis Chaves lançou no final de 2009 o livro A Bíblia e o Espiritismo, que é uma coletânea de artigos seus no jornal mineiro O Tempo relacionados de alguma forma ao tema-título. Sinceramente, fiquei honrado em saber que o artigo Críticas sem Persuasão – justamente a maior propaganda gratuita que já me deram – é logo o primeiro. Vale assinalar que não é o artigo original postado na época, mas uma versão com as correções de uma errata, que, por sinal, piorou as coisas. Não foi à toa que fiquei contente: se Chaves concluiu dizendo que “as críticas desse site não persuadem ninguém” e ao mesmo tempo me deu esse destaque, então, de algum jeito, eu tive importância, ainda que não da forma mais producente.

Uma postura distinta, mas não exatamente oposta, foi tomada por Paulo da Silva Neto Sobrinho. Também profícuo articulista, Paulo Neto dedicara um artigo à questão origenista “Reencarnação no Concílio de Constantinopla – Orígenes x Império Bizantino”. Bem, na verdade, há três versões desse artigo circulando pelo veio virtual. A primeira, de 2005, transcreve textos de autores que defendem uma teoria conspiratória no século VI e não os questiona praticamente. A versão de 2007 se deu após o autor tomar ciência do pouco embasamento de alguns dos autores que utilizara. Uma sirene de alarme foi acionada e artigo ganhou mais extratos de autores espiritualistas, perdeu alguns trechos dúbios, e Paulo Neto se dedicou um pouco mais à análise de evidências, em particular, à História Secreta, de Procópio. Foi essa a versão destrinchada dois capítulos antes. A última mudança foi em 2010, e o estado atual do artigo pode ser resumido a duas palavras: concessão e cautela. Algo da primeira e um bocado da última. A historicidade do episódio de Teodora e as 500 prostitutas é vista com ressalvas, finalmente se reconhece que o “Orígenes histórico” não corresponde ao “Orígenes idealizado” por muitos espíritas/espiritualistas – embora o perfil do alexandrino apresentado ainda deixe a desejar – e admite-se que há pouca evidência para a uma alegada multidão de teólogos ortodoxos reencarnacionistas até o século VI. Sem dúvida, foi mudança e tanto de postura, mas o autor ainda é um apologista espírita e tem de cumprir esse papel. Talvez por isso não tenha esmiuçado os textos de outros autores que traz, evitando, apenas, comprometer-se com eles. Botar para valer o dedo em feridas seria pedir muito. O que mais chamou atenção, porém, foi ainda ter se detido em A História Secreta, nem mesmo outras obras de Procópio foram analisadas. De 2007 para cá, traduzi praticamente todos os principais cronistas do período e, se alguém não confiar em mim, deixei referências para acessar suas obras no idioma original. Por que não usar todo esse material novo? Talvez por demandar muito mais tempo refazer o artigo do zero tenha decido fazer referência a mim (a que sou grato) e deixar ao leitor a tarefa de estudar-me.

Ambos os autores acima possuem seus méritos intelectuais e arriscaria dizer que isso se estenderia a outros membros do grupo apologético a que pertencem. Contudo, justamente pelo seu compromisso assumido e, em parte, por reputações estarem jogo, suas capacidades não são usadas plenamente. Um exemplo interessante de situação similar foi dado pelo próprio Orígenes.

Numa das poucas trocas de correspondências que chegaram até nós, preservada em Filocalia, Orígenes discutiu com Júlio Africano, um erudito cristão romano que lhe escrevera questionando a autenticidade da história de Susana e os Anciãos, no livro de Daniel, que fora objeto de um dos trabalhos de Orígenes. Júlio observa que, além de não pertencer ao texto hebraico adotado pelos judeus do século III, a história possuía um estilo que destoava do restante do livro, sendo provavelmente espúria. Orígenes não só lançou uma defesa apaixonada da canonicidade da passagem, mas também de outras como Bel e o Dragão, a Oração de Azarias e o Cântico dos Três Judeus, que existem somente na versão dos LXX. Essa carta, ainda que involuntariamente, acabou por se tornar o exemplo de quando Orígenes enfrentou uma mente tão eclética quanto a sua, ao ponto de não ter sido capaz de refutar os argumentos literários de Júlio Africano e preferir calcar sua defesa num apelo à tradição da Igreja. O irônico é que Gregório de Nissa e Gregório Nazianzeno – os compiladores de Filocalia – preservaram a carta justamente por considerarem que foi bom o desempenho de Orígenes.

Guardada as devidas proporções, diria que a situação de muitos apologistas espíritas é análoga: são capazes de agir com destreza contra padres e pastores – gente mais comprometida ainda e seguidores de doutrinas bem engessadas – mas têm muita dificuldade com quem não encara a Bíblia como matéria de fé e que muito menos está presa ao Sola Scriptura ou à infalibilidade papal. Muitos de seus argumentos, infelizmente, não vão além de um conhecimento emprestado e que lhes dá uma rasteira quando descobrem esse autor não é a última palavra em gramática de uma língua antiga ou aquele outro é incapaz de fundamentar sua pesquisa histórica em documentos de época, ou pelo menos em outros pesquisadores realmente embasados. Os membros desses grupos muitas vezes se exercitam com pesos de isopor por não colocar a si mesmos à prova. Falta-lhes alguém que lhes dê o contraditório, um “advogado do diabo”. Algo que só detratores (como gostam desse rótulo!) com mais musculatura e menos amarras podem oferecer.

Por falar em diabo, antes que me recomendem para uma longa estadia no pior lugar do umbral, lembrem-se que Satanás originalmente não era o “diabo” que hoje conhecemos e, sim, um anjo que gozava de intimidade com seu deus, cumprindo apenas seu papel de promotor. Talvez por fazê-lo tão bem, tornou-se tão detestado. Assim vejo a mim e a vocês, meus caros espiritualistas: promotor e defensor, as duas faces de uma mesma moeda e, de certa forma, a razão de ser um do outro. Nossa relação conduz ao progresso mútuo, não por simbiose, mas por pura corrida armamentista. Talvez possamos tomar uma cerveja após cada sessão, porém, diante do júri, devemos fazer o que esperam de nós.

Outra limitação que vi aqui foi a maneira como lidam com o tema “Orígenes” que, em vez de ser algo merecedor de atenção por si só, tornou-se apenas um artifício, uma carta na manga para ser usada em debates. Não há nada que mais deprecie um objeto de estudo que isso. Portanto, não perca seu tempo perguntando por aí afora se alguém conhece a origem para a história das 500 prostitutas assassinadas. Se tal episódio tivesse o mínimo de embasamento, alguma biografia de Teodora já deveria tê-lo mencionado, não acha? Não fique matutando entre versões conflitantes a respeito do que Orígenes realmente acreditava. Leia Orígenes primeiro e descubra quais autores fazem análises mais fundamentadas e, a partir dessa comparação, verifique qual mais se aproxima. Por fim, acima de tudo, deixe o teólogo do século III falar mais alto. Fuja da tentação de elaborar um Orígenes a sua imagem e semelhança. Se ele acreditava em abobrinhas, como a vida das estrelas e planetas, era a opinião dele e cabe a você documentá-la e entender suas motivações; nunca ridicularizá-las Se a ideia de “queda” das almas de uma beatitude original para você não condiz com o que é de se esperar de um reecarnacionista, que pregaria um começo “simples e ignorante” para todos os espíritos, lembre-se que era isso o alegado por Orígenes. Tanto defensores como opositores dele não lhe negaram essa tese e tal entendimento é ponto pacífico entre os historiadores.

Confesso que inicialmente também buscava em Orígenes e Teodora apenas material que me fosse útil no portal. Foi a prazerosa leitura da biografia de Evans que realmente me despertou interesse pela figura de Teodora. Não queria mais saber apenas se ela mandara 500 prostitutas para o carrasco ou não e, sim, responder a mesma indagação (ou lamento) que Procópio fez: como pôde Justiniano escolher uma atriz/meretriz quando ele tinha ao seu dispor as mais casadouras donzelas da nobreza? A resposta só pode ser uma: era uma mulher extraordinária, em todos os sentidos que essa palavra possa assumir. O fato de vir da ralé social de sua época acabou se convertendo em uma vantagem, pois Teodora aprendeu na escola da vida muitas coisas que a vasta educação formal do futuro imperador nunca ofereceria e muito menos teriam a oferecer as ricas herdeiras preparadas para a submissão. Deve ter sido uma forte atração entre opostos que, em vez de enfraquecer passada a impressão inicial, evoluiu para uma estreita simbiose.

Chamo-a de extraordinária, sim, porque minha admiração não é pela devassa de A História Secreta, mas pela mulher de fibra que liderou a reação contra a revolta de Nika e que também segurou as rédeas do governo quando Justiniano quase morreu da peste, pela devota monofisita tida por santa pelos seus confrades, pela mão amiga estendida à desamparada Preiecta, por aquela que financiava a liberdade de prostitutas, pela provável inspiradora das leis em prol das mulheres no Código de Justiniano e pela esposa dedicada cuja morte abalou profundamente seu marido. Enfim, Teodora vai além de uma simples obra de Procópio e os livros espiritualistas com quem me deparei não conseguiram buscá-la nas demais obras dele e muito menos em outros autores do período. Não sei se por ignorância, comodismo ou conveniência, para eles existe apenas uma “prostituta” para suas teses conspiratórias.

O despertar de meu interesse por Orígenes foi um pouco diferente, mas também partiu de uma pergunta capciosa: “quem foi esse indivíduo que provocava tão intensas emoções de amor e ódio, às vezes na mesma pessoa?” Foi algo estupidamente mais difícil de responder. O alcance de Teodora, bem ou mal, não foi muito além de sua vida e seu protegido movimento monofisita já estava revitalizado o bastante para continuar pelas próprias pernas. Já com Orígenes, temos o oposto:seu poder foi maior APÓS sua morte. E não era por menos, pois, ao contrário de Teodora, ele deixou vários escritos que foram lidos e relidos por gerações. Portanto, não é exagero dizer que existiram diversos “Orígenes” do século IV ao VI, ou melhor, cada grupo de teólogos relembrava Orígenes de um jeito. Estudá-lo acabou por ser algo como lidar com aquelas bonequinhas russas chamadas matrioskas: quando se abre uma, aparece outra dentro. Da mesma forma, um pequeno pormenor das crises origenistas encaminhava a análise para outro assunto. Orígenes se tornou tão instigante e desafiador por sua complexidade que, se você reler a cada cinco anos sobre os temas que o envolvem, vai sempre revisar esse ou aquele ponto sobre sua obra e de seus seguidores e detratores.

Então, apaixonei-me por meus objetos de estudo e maltratei muito meu cartão de crédito comprando livros que me fornecessem o máximo possível da vida, obra e época dos dois. Isso significou investir em literatura estrangeira, importada, especializada e, às vezes, esgotada das prateleiras. Mas assevero que valeu cada centavo. Lamento não ter tido desde início à minha disposição livros como When the Souls had Wings (“Quando as Almas tinham Asas”, de Terryl L.Givens) ou The Rise of Monophisite Movement “ (“A Ascensão do Movimento Monofisita, de William H.C. Frend), que fornecem informações valiosas sobre esse período turbulento da consolidação do cristianismo e,infelizmente, decidi não inserir para não ter que reorganizar a estrutura do artigo demasiadamente. Afinal, já levara três anos para uma tarefa que julgava não consumir mais que seis meses. Durante esse tempo, amadureci muito minha prosa e hoje já me considero capaz de conversar com meus leitores sobre as análises que tenho em mente, em vez de ser um mero catador de “falhas” ou compilador de citações como no início deste portal. Devo tudo isso a vocês e venho aqui deixar meu agradecimento pessoal e que possamos um dia “jogar conversa fora” em um território neutro e ameno.

Até mais e obrigado por tudo!!!