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O Cego de Nascença – A Vida antes da Vida no Judaísmo Intertestamentário

27 de janeiro de 2012 2 comentários

Índice

Jesus curando o cego

Jesus curando o cego, de El Greco, 1570.

* * *

O Cego de Nascença

E, passando Jesus, viu um homem cego de nascença.

E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: “Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?”

Jesus respondeu: “Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus.

Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar.

Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.”

Tendo dito isto, cuspiu na terra, e com a saliva fez lodo, e untou com o lodo os olhos do cego.

E disse-lhe: “Vai, lava-te no tanque de Siloé” (que significa o Enviado). Foi, pois, e lavou-se, e voltou vendo.

João 9:1-7

A meu ver essa é a única passagem da Bíblia que efetivamente pode sugerir reencarnação. Até mesmo identidade Elias/João Batista já teve respostas ortodoxas razoáveis, como as de (quem diria) Orígenes, em seu Comentário sobre João, ou Agostinho de Hipona, em seus estudos sobre o Evangelho de João. Um ponto comum a ambas é o entendimento de “espírito” (pneuma, em grego e spiritus, em latim) distinto de “alma” (psyché/anima). Bem, isso é assunto para outro artigo…

O que chama atenção no episódio desse milagre é a pouca atenção dada a ele pela ortodoxia atual. Não é incomum explicações que envolvam a crença em “pecado original”, mas esse conceito é tardio, só ganhando plena forma com o já citado Agostinho de Hipona (séculos IV e V). Qualquer explicação acadêmica deve-se limitar a conceitos existentes entre os judeus da época. Mas mesmo entre os acadêmicos, esse episódio não tem muito tratamento. John P. Meier, por exemplo, escreveu um livro inteiro dedicado aos milagres de Jesus (Um Judeu Marginal, vol. II, tomo 3) e foi superficial demais nessa questão, lembrando apenas que Jesus descartou a hipótese de a culpa ser do próprio cego…

Por que não cogitar uma espécie de karma contraído em uma encarnação passada? De certo essa é a explicação mais simples, direta e preferida pelos reencarnacionistas, contudo esbarra em um problema: existe alguma evidência robusta para a crença em reencarnação entres os judeus daquela época?

Muitos espiritualistas diriam que sim, baseados em pérolas como:

  • Os judeus de hoje creem em reencarnação, logo os de antigamente também deviam crer: primeiramente, o certo seria dizer que parte (1) dos judeus atuais creem em reencarnação e outra não. O segundo e principal furo é que, se esse raciocínio fosse válido, então os primeiros cristão adoravam santos e imagens porque parte dos cristãos atuais também o faz. Note que não estou dizendo a reencarnação ou a adoração de santos sejam crenças errôneas, apenas ressaltando que elas tiveram uma aceitação mais tardia.

  • Passagens bíblicas como a “conversa com Nicodemos” ou “Ezequiel no vale dos ossos secos” aludem a reencarnação: São passagens que de tão alegóricas ou mesmo crípticas podem ter várias interpretações. Em vez de ter uma ideia preconcebida (a reencarnação está na Bíblia) e fazer um monte de livre associações para justificá-la, por que não tentam descobrir que teria sido a ideia original do autor, baseados no contexto?

  • Flávio Josefo registrou essa crença entre os fariseus: Não, não a registrou. O linguajar das descrições de Josefo quanto às crenças deles até chega a ser um pouco ambíguo, mas uma análise pormenorizada revela uma exposição da crença na ressurreição.

  • A reencarnação era doutrina secreta e por isso deve ser extraída das entrelinhas: Melhor provar essa tese antes de usá-la. O próprio Orígenes alegou ausência dela nas doutrinas esotéricas dos judeus de seu tempo (Com Jo, Livro VI, cap. VII). Infelizmente, o estado fragmentário de seu Comentário sobre João não nos legou a análise do “cego de nascença”.

Quando falo de “evidência sólida”, refiro-me a comentários dos judeus da época a respeito do que eles mesmos criam. Josefo é um tiro n’água e o Talmude é silente quanto à reencarnação, que só começou a deixar registros em tempos medievais.

Então como o cego poderia ter pecado antes de nascer? A resposta deve jazer em outra crença judaica, essa sim bem documentada no período: a preexistência da alma.
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A Preexistência da Alma no Judaísmo Intertestamentário

O Céu estrelado

No início do livro de Jó, temos uma espécie de reunião de seres celestiais (Jó 1:6), na qual os membros do séquito divino são chamados de “filhos de Deus”, estando, curiosamente, Satanás entre eles. No Salmo 82 (81) há um curioso discurso a respeito de alguns desses que teriam se desviado:

Deus está na congregação dos poderosos; julga no meio dos deuses.

Até quando julgareis injustamente, e aceitareis as pessoas dos ímpios? (Selá.)

Fazei justiça ao pobre e ao órfão; justificai o aflito e o necessitado.

Livrai o pobre e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.

Eles não conhecem, nem entendem; andam em trevas; todos os fundamentos da terra vacilam.

Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo.

Todavia morrereis como homens, e caireis como qualquer dos príncipes.

Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois tu possuis todas as nações.

Sl 82:1-8

Ou seja, Deus os puniu os membros displicentes de sua corte transformando-os em humanos que, como todos nós, terminarão no pó. É uma espécie de queda semelhante a que Adão e Eva teveram e, como essa foi, constitui um caso particular, não uma regra geral. Fora o primeiro casal de Gêneses e o seres desse salmo, não há na literatura hebraica clássica (i.e., o Antigo Testamento) outra menção a uma existência pré-mortal de humanos. Há indícios vagos de alguma residual sobrevivência post mortem no Xeol. Bênçãos e castigos são concretizados neste mundo, seja com o próprio indivíduo, seja com sua descendência, pois só por meio dela seria possível uma “imortalidade sanguínea”. assim, mente e corpo ganham importâncias similares. A situação começou a mudar na literatura intertestamentária – juntando aqui os deuterocanônicos e pseudoepígrafos -, quando surgiram as primeiras alusões à uma existência antes do nascimento, a recompensas no além túmulo e à ressurreição do corpo.

Sabedoria de Salomão

Amei a sabedoria, busquei-a desde a minha juventude e procurei tomá-la por esposa, pois fiquei enamorado da sua formosura.
(…)
Assim sendo, eu ia por toda a parte procurando o modo de a conquistar para mim.
Eu era um jovem de boas qualidades e tive a sorte de ter uma boa alma,
Ou melhor, sendo bom, entrei num corpo sem mancha.
Sabendo que jamais teria conquistado a sabedoria, se Deus não ma tivesse concedido (…)

Sabedoria de Salomão 8:2, 8:18-21

Os protestantes podem muito bem desconsiderar os versículos acima, pois não constam em suas Bíblias. Os espiritualistas se deliciam com eles, pois, alegam, significam reencarnação, além de preexistências. Os católicos é que possuem um nó para desatar. Uma nota de rodapé na edição de 1995 da Bíblia de Jerusalém explica a passagem assim:

Este texto [v. 20] não ensina a preexistência da alma como se poderia crer, se fosse isolado do contexto. Ele corrige a expressão do v. 19, que parecia dar prioridade ao corpo como sujeito pessoal, e sublinha a proeminência da alma.

Talvez, mas o capítulo também pode passar a ideia de a encarnação como um estágio de aprendizado, principalmente se cruzarmos essa passagem com outras do mesmo livro:

As almas dos justos, pelo contrário, estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá.
Aos olhos dos insensatos pareciam ter morrido, e o seu fim foi considerado uma desgraça.
Os insensatos pensavam que a morte dos justos fosse um aniquilamento, mas agora estão em paz.
As pessoas pensavam que os justos estavam a cumprir uma pena, mas esperavam a imortalidade.
Por uma breve pena receberão grandes benefícios, porque Deus os provou e os encontrou dignos de Si.
Deus examinou-os como ouro no crisol, e aceitou-os como holocausto perfeito.
No dia do julgamento, eles resplandecerão, correndo como fagulhas no meio da palha.
Eles governarão as nações, submeterão os povos, e o Senhor reinará para sempre sobre eles.

Sb 3:1-8

Os pensamentos dos mortais são tímidos e os nossos raciocínios são falíveis,
porque um corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime a mente pensativa.

Sb 9:14-15

Vale notar que o tempo é linear, sem indicação de punições e/ou renascimentos cíclicos. Se isso não foi o bastante para convencer a equipe de A Bíblia de Jerusalém, há vários outros livros contemporâneos ao surgimento do cristianismo que atestam uma vida celestial antes de uma única vida terrena:

II Esdras

“As entradas para este mundo foram feitas estreitas, dolorosas e árduas, poucas e de aspereza triturante. Mas as entradas para o mundo maior são largas e seguras, e levam à imortalidade. Todos os homens, portanto, adentram esta existência curta e fútil; do contrário nunca poderão atingir as bênçãos guardadas. Por que então, Esdras, estás tão profundamente perturbado com a ideia de que és mortal e deves morrer? Por que não voltaste tua mente para o futuro em lugar do presente?”

“Meu senhor, meu mestre”, respondi, “é em Vossa lei que deixastes que os justos virão a gozar dessas bênçãos, mas o ímpios se perderão. Os justos, assim, podem suportar esta vida curta e aspirar à ampla vida futura; mas os que viveram uma vida iníqua terão ido por entre os estreitos sem nunca atingir os espaços abertos.”

Disse-me ele: “Não és melhor juiz que Deus, nem mais sábio que o Altíssimo. Melhor que muitos do que agora vivem se percam do que a lei que Deus pôs diante deles seja desprezada! Deus deu claras instruções a todos os homens quando vieram a este mundo, dizendo-lhes como alcançar a vida e como escapar da punição. Mas os ímpios se recusaram a obedecer-Lhe; adotaram suas próprias ideias vazias e planejaram fraude e iniquidade; até mesmo negaram a existência do Altíssimo e não reconheceram Seus caminhos. Ele rejeitaram Sua lei e recusaram Suas promessas, nem puseram fé em Seus decretos nem fizeram o que ordena. Assim, Esdras, o vazio para os vazios, a plenitude para os plenos”.

(…)
Eu respondi e disse: “Eu sei, ó Senhor, que o Altíssimo agora se chama piedoso, porque tem piedade dos que ainda não vieram a este mundo; e é afável, porque é afável aos que se voltam em arrependimento para Sua lei; é paciente, porque demonstra paciência para com os que têm pecado, já que são suas próprias criaturas; é recompensador, porque prefere dar a tomar; é abundante em compaixão, porque faz Sua compaixão abundar mais e mais aos que agora vivem e aos que já se foram e aos que ainda estão por vir”.

2 Esdras 7:13-25 e 132-137
Fonte: 2 Esdras

O texto acima foi extraído do Apocalipse Judaico de Esdras. Não é uma história, mas um conjunto de sete visões atribuídas a esse profeta e as explicações dadas pelo anjo Uriel, sendo que a terceira visão possui clara referência à preexistência. A nomenclatura desse livro é um pouco complicada, correspondendo aos capítulos 3-14 do livro 2 Esdras das edições de pseudoepígrafos feitas por protestantes, 3 Esdras nas igreja eslavas e a 4 Esdras na Vulgata de Jerônimo. Datado do final do I século, esse livro corrobora outro apocalipse do mesmo período quanto à existência prévia das almas:

Apocalipse de Abraão

E disse eu:” Eterno, Todo Poderoso! O que é essa imagem da criação?” E disse-me ele: “… O que quer que eu tenha determinado a existir já fora delineado nessa e em todas as [coisas] previamente criadas que viste perante mim”. E disse eu: “Ó Soberano, poderoso e eterno! Por que estão as pessoas dessa imagem deste lado e do outro?” E disse para mim: “Estes que estão à esquerda são uma multidão de tribos que existia previamente … Os da direita da imagem são as pessoas que separei para mim das pessoas com Azazel; esses são os que tenho preparado para nascer de ti e serem chamados de meu povo”

Apocalipse de Abraão 21:7 -22:5

Poderia dar mais exemplos (2), mas, por enquanto, basta saber que a própria ideia de um envio de almas previamente constituídas chegou a adentrar alguns círculos cristãos, como relatou Jerônimo – “Ou são as almas mantidas em um divino Tesouro onde foram armazenada há muito tempo, como alguns eclesiásticos, tolamente enganados, creem?” (epístola 126.1)- ao listar as hipóteses correntes ao final do século IV para a origem delas.

Então, seria possível as almas pecarem antes de vir a este mundo e receberem um “corpo maculado”, como poderia sugerir a lógica de Sabedoria de Salomão? Talvez, mas antes seria útil analisar uma outra e surpreendente hipótese para o pecado do cego de nascença, a ser tratada a seguir.
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John Lightfoot – uma Abordagem Inusitada

Retrato de John Lightfoot

Reclamei no início deste artigo sobre o baixo interesse dos cristãos ortodoxos atuais sobre a passagem do “cego de nascença” em João. Justiça seja feita, houve comentaristas que realmente abordaram a questão a fundo e, de certa forma, fazem escola até hoje. Um nome deve ser ressaltado: John Lightfoot (1602-1675), teólogo e hebraísta inglês e um dos primeiros a analisar os evangelhos à luz de informação colhidas de documentos hebraicos fora do Antigo Testamento.

Em edições antigas deste portal, já havia colocado links para seu comentário ao nono capítulo de João, mas, como estava perdido no corpo de artigos um tanto longos e – suspeito – muitos dos autoproclamados pesquisadores que sonham em me refutar são monoglotas, acho que pouquíssimos o leram. Portanto, faço a tradução do inglês para o texto original disponível neste portal. Como o texto é um tanto longo, vamos passo a passo.

João 9

2. E seus discípulos lhe perguntaram, dizendo, “Mestre quem pecou, este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego?”

[Quem pecou, este homem ou seus pais?]

  1. Era uma doutrina aceita nas escolas judias que as crianças, em razão de alguma iniquidade de seus pais, nasciam coxas, ou tortas, ou mutiladas ou deficientes em alguma de suas parte, etc.; através da qual elas mantinham os pais em temor, a fim de que não ficassem desleixados e negligentes na realização de alguns rituais relacionados a seu estado de limpeza, tais como lavagens e purificações, etc. Demos exemplos em outro lugar.
  2. Mas que a criança deva nascer coxa, ou cega, ou em alguma parte por algum pecado ou falta sua própria aparenta ser um enigma, de fato.
    1. Nem resolvem o problema os quem partem para o princípio da transmigração das almas, com o qual teriam pintado os judeus; ao menos se admitirmos Josefo como um intérprete justo e juiz desse princípio. Pois segundo ele:

      É a crença dos fariseus que “as almas de todos são imortais e passam para outro corpo; isto é, apenas os do Bem [observe isso]; mas os da iniquidade são punidos com tormentos eternos.” De modo que, a não ser que diga que a alma de algum bom homem passou para o corpo ser a causa de sua cegueira de nascença (uma suposição que qualquer um deveria se envergonhar), não dirás nada quanto ao caso em mãos. Se a crença da transmigração das almas entre os judeus prevalecia apenas até esse ponto, que supunham ‘apenas as almas dos homens de bem’ passariam para outros corpos, esse mesmo assunto está fora da presente questão; e toda suspeita de punição ou defeito ocorrendo à criança em razão da transmigração desaparece completamente, a não ser que digas que isso poderia ocorrer a uma boa alma vinda do corpo de um bom homem.
      (…)

É interessantíssima essa observação de Lightfoot, válida para os que ainda insistem em utilizar Flávio Josefo para alegar crença na reencarnação entre os judeus intertestamentários. Para Josefo, o retorno a um novo corpo é prêmio e não uma punição. Os maus sofreriam a danação eterna. Um estudo pormenorizado do linguajar de Josefo feito por Steve Mason demonstrou que Josefo utilizava um palavreado grego para explicar a seu público helênico a crença na ressurreição à moda paulina.

Prosseguindo com Lightfoot:

  1. (cont.)

    1. Há uma solução tentada por alguns a partir da preexistência da alma; da qual, imaginariam eles, os judeus tinham alguns traços, a partir do que dizem sobre aquelas almas que estão na Goph ou Guph.

      “R. José disse, O Filho de Davi não virá até que todas as almas que estão na Goph sejam consumadas.” A mesma passagem é recitada também em Niddah e Jevamoth, onde é atribuída a R. Asi.

      “Há um repositório (diz R. Salomão), cujo nome é Goph: e desde a criação, todas as almas que já estiveram para nascer foram formadas juntas e lá colocadas.”

      Mas há outro rabino, trazido por outro comentarista, que supôs uma Goph dupla e que as almas dos israelistas e dos gentios não estão na mesma e única Goph. Além disso, ele concebe que, nos dias do Messias, haverá uma terceira Goph e uma nova raça de almas criada.

      R. José deduziu sua opinião de Isaías 57;16, torcendo miseravelmente as palavras do profeta para este sentido, “Minha vontade se retardará para as almas que criei.” Pois assim Aruch e os comentaristas explicam seu pensamento.

      Considerando, agora, que o que citei possa ser suficiente confirmação de que os judeus realmente partilhavam a crença na preexistência da alma, embora eu confesse não ter nem uma apreensão rápida, nem uma forma de imaginar o que considerar a preexistência de almas tenha a ver com essa questão.

De fato, não basta a simples crença na preexistência da alma para explicar o episódio de “o cego de nascença”. Se as almas ficarem meramente estocadas, inertes enquanto aguardam sua vez, o problema persiste. É preciso que elas, antes de nascerem, tenham algum grau de consciência e livre-arbítrio. Sabedoria de Salomão sugeriu que, de algum modo, isso ocorre, Lightfoot, por sua vez, resolve essa questão de uma forma surpreendente para a maioria dos leitores:

  1. Eu, portanto, procuraria desatar esse nó de alguma outra forma .
    1. Teria observado a passagem que temos em Vajicra Rabba:”E estão próximos os dia em que não dirás ‘Neles tenho prazer'” (Ecl 12:1). “Esses
      são os dias do Messias, nos quais não haverá mérito nem demérito
      “: isto é, se não me engano, em que nem os bons merecimentos dos pais serão imputados aos filhos para seu benefício, nem seus merecimentos por sua falta e castigo. Essas são palavras de R. Akibah in locum, e elas sua aplicação dessa passagem de Eclesiastes e certamente de sua invenção: mas a própria crença de que não haverá mérito nem demérito nos dias do Messias é que é comumente aceita entre os judeus. Sendo assim, então deixe-me aumentar um pouco a pergunta dos discípulos de nosso Salvador, por meio de paráfrase, para este propósito: “Mestre, sabemos que sois o Messias, e que estes são os dias do Messias; também aprendemos de nossas escolhas que não há imputação de mérito ou demérito dos pais nos dias do Messias; qual a razão, então para que este homem nascesse cego? Para que nestes dias do Messias ele devesse vir ao mundo com alguma marca e imputação de falta em algum parte? Por acaso foi alguma falta de seus pais? Isso parece contra a crença aceita. Parece, portanto, que carrega alguns sinais de sua própria falta: é isso ou não?”

    2. Era um preceito entre os judeus que a criança, quando já formada e a chutar dentro do ventre, poderia se comportar de forma anormal e fazer algo não pudesse ser de todo sem falta.

      No último tratado mencionado, traz-se uma mulher perante o juiz em seríssima reclamação sobre seu filho, que a chutava irracionalmente dentro do ventre. Em Midas Coheleth e Midras Ruth, cap. III. 13, há uma história que fala de Elisha Ben Abujah, que se afastou da fé e se tornou um horrível apóstata e, entre outras razões de sua apostasia, ela é devida a:

      “Há os que dizem que sua mãe, quando já estava grande na gestação dele, ao passar por um templo dos gentios, cheirou algo muito forte, e eles deram a ela do que cheirou, e o comeu; e a criança em seu ventre ficou quente, e inchou em bolha, como no ventre de uma serpente.”

        Em tal história, sua apostasia é supostas como sendo originariamente enraizada e fundada nele dentro do ventre, em razão da falta de sua mãe ao comer do que fora oferecido aos ídolos. Também é igualmente presumido que uma criança possa chutar e socar de forma irracional e anormal no ventre de sua mãe além da frequência de crianças comuns. Sejam como exemplo as crianças no ventre de Rebeca; onde os judeus certamente absolvem Jacó de falta, apesar de ter puxado Esaú pelo calcanhar; mas dificilmente perdoarão Esaú por se voltar com seu irmão Jacó.

        “Antonino perguntou a R. Judá, ‘Em qual época as afeições malignas começam prevalecer no homem? Será assim que se forma o feto no ventre ou por ocasião de sua chegada?‘ Disse-lhe o Rabi, ‘A partir da época de sua chegada.’ ‘Então,’ disse Antonino, ‘chutará ele de dentro do ventre de sua mãe e apressar-se-á em sair.’ Disse o Rabi, ‘Isso aprendi de Antonino; e a escritura parece tornar a isso quando diz: o pecado jaz à porta.'”

        Dessa disputa, seja verdadeira ou fictícia, aparenta que a antiga crença dos judeus era que a criança, desde seus primeiros chutes, tinha alguma mancha de pecado sobre ela. E esse grande doutor, R. Judá, o Santo, era ele mesmo originalmente dessa crença, mas mudara ligeiramente sua opinião em tão insignificante discussão. De fato, eles iriam um pouco mais longe: não apenas a criança poderia ter alguma mancha de pecado no ventre, mas ela poderia, em alguma medida, realmente pecar e fazer o que poderia torná-la criminosa. Para tal propósito essa passagem dos discípulos parece ter alguma relação; “Esse homem pecou para que nascesse cego?” Isto é, fez ele, quando sua mãe o carregava no ventre, alguma insensatez ou coisa enorme para que merecesse essa severa deficiência nele, para que trouxesse essa cegueira consigo ao mundo?

Pecados pré-natais. Impressionante, não? É preciso alertar o leitor de que o cerne do judaísmo rabínico é aperfeiçoar a prática da Lei e não a teologia dogmática, como viria a ser no cristianismo. Excetuando alguns assuntos chaves como o monoteísmo estrito, a ressurreição no fim dos tempos e a vinda do Messias, existe uma ampla variedade de opiniões quanto ao funcionamento da Criação e outros assuntos não relacionados com a Lei, de modo que dificilmente um grupo conseguiria acusar outro de heresia (3). Lightfoot trouxe uma opinião para explicar a origem do sofrimentos dos recém-nascidos. Explicações de cunho “kármico” surgiram na Idade Média, às quais o rabino Saadia Gaon contrapôs a tese de compensações futuras no pós-morte.

Talvez algum apologista espírita esteja achando a solução aqui trazida uma apelação. Talvez ignore ele que um nome bem conhecido entre os espiritualistas concordaria com isso, embora discordasse em vários outros pontos meus. Esse é o próximo assunto.
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Uma Inesperada Corroboração

A jornalista Elizabeth Clare Prophet produziu um livro muito falado entre os espiritualistas de nome Reencarnação: o Elo Perdido do Cristianismo. Comparada com outras obras sobre o tema, esse livro apresenta vários pontos positivos: uma pormenorizada descrição das crises origenistas, ao contrário da simplificação exagerada feita por outros autores, e não cai na tentação fácil de explicar tudo numa teoria conspiratória centrada na figura da imperatriz Teodora. Também devo comentar que Prophet fez a gentileza de colocar muitas vezes referências diretas às obras de Orígenes, o que facilita muito o trabalho de revisão e crítica, embora ainda se valha demais de citações não verificadas. Já comentei em outro artigo certos vícios de pesquisa da autora, que não vou repetir aqui. O que interessa agora é uma valiosa informação que ela traz no capítulo XVI do livro (“Os Diferentes Destinos dos Gêmeos”).

Os rabinos chegaram a uma conclusão incomum. Como as escrituras diziam que os destinos dos gêmeos [Esaú e Jacó] eram diferentes desde o nascimento, e uma vez que Deus era justo, acharam que a única resposta possível era que Esaú havia pecado enquanto estava no ventre de sua mãe. Por mais estranho que pareça, é exatamente esta especulação que encontramos num comentário do Gêneses escrito por volta de 400 a.C.. Os rabinos conjeturavam que, quando Rebeca passava por “casas de idolatria”, Esaú indicava a sua preferência dando pontapés, mas “quando ela passava por sinagogas e casas de estudo, era Jacó quem dava pontapés, tentando sair” (n. 4). Por estas ações os rabinos concluíram que Deus preferia Jacó e sua semente a Esaú e sua semente, por gerações.

Prophet afirma que essa história consta no comentário rabínico Genesis Rabbah 63.6.3 (4) e, conforme ela explica em sua nota nº4 para esse capítulo ao fim do livro, foi retirada de um livro do escritor judeu Jacob Neusner. Bom, como estamos falando de citações de citações surge uma questão a respeito da datação de Gêneses Rabbah. Tenho outro livro desse mesmo autor (Introdução ao Judaísmo, ed. Imago ) cujo glossário traz a datação para Genesis Rabbah para 450 E.C. (Era Comum, isto é, d.C), portanto quando Prophet situa o livro em 400 a.C. devo indagar se o correto não seria 400 d.C. De fato, há um erro aí, mas não da autora e sim da tradução da edição brasileira. Consultando o original em inglês, encontra-se:

Edição em língua inglesa de Prophet

A expressão usada é “A.D. 400” (Anno Domini 400), que significa literalmente “400º ano do Senhor“, ou, em bom português, “ano 400 depois de Cristo“. Por algum motivo, confundiram a sigla A.D., comum entre os anglófonos, com o nosso tradicional a.C. Esse lapso não é tão inofensivo assim, pois, ao datar Genesis Rabbah 400 anos antes de Cristo, haveria tempo para sua proposta para o caso de Esaú e Jacó ter sido substituída por uma doutrina reencarnacionista que, supostamente, teria se difundido no seio do judaísmo intertestamentário. Com a datação correta, fica menos provável que a reencarnação já fosse moeda corrente no mainstream do judaísmo ao tempo de Jesus. Prophet, sem querer, confirma a mesma ideia trazida por John Lightfoot em seu comentário de João.

Bem, muitos podem estar se perguntando por que estou usando uma autora cujo trabalho tanto critiquei. A resposta é que aqui ela está agindo contra os seus interesses, portanto não há motivo para que fraudasse isso. Vale lembrar que Prophet também abordou a passagem do “Cego de Nascença” no capítulo IX de seu livro e óbvio que sua análise está ao gosto espiritualista. Ela não percebeu que sua alusão a Genesis Rabbah, bem mais à frente, deixaria a obra inconsistente. Isso também deve ter passado despercebido por vários apologistas que fazem uso dessa autora, mas não por este portal.
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A Finitude da Criação

ampulheta

A crença na existência alguma forma de Juízo Final ou Fim dos Tempos torna imperioso que, em algum dado instante, novas almas deixem de ser criadas. Num modelo traducianista (alma e corpo são gerados juntos) ou com criação contínua de almas, bastaria que novas concepções não ocorressem. O que aconteceria, porém, se todas as almas já estivessem prontas e contadas desde o princípio? É esse o caso que nos traz o apocalipse judaico II Baruque, que defende o começo da era messiânica para quando a última alma em espera vier a nascer:

XXIII – A Proximidade da Salvação
(…)
Então ele falou-me: “Por que te preocupas, pois, com aquilo que não sabes? Por que te angustias com o que não conheces? Se tu tens conhecimento dos homens de hoje, e dos que já se foram, eu conheço os que hão de vir. Quando Adão pecou, atraindo a morte sobre os seus descendentes, foi então contada a grande massa daqueles que haveriam de nascer; e foi preparado um lugar para aquela multidão, tanto para morada dos vivos como para a guarda dos mortos. Enquanto aquele número predeterminado não for preenchido, as criaturas que morreram não reviverão. O meu Espírito é o de Criador da vida; e o mundo inferior continuará a receber os mortos.
“Porém, mais coisas ainda ser-te-á permitido ouvir sobre o que irá acontecer após esses tempos. Em verdade, a Salvação que vos preparei está próxima, e já não mais tão distante como anteriormente.”

Fonte [Tricca, p. 314]

O interessante que esse apócrifo nos revela é o fato de a preexistência, embora seja uma condição necessária para a reencarnação, de forma alguma é uma condição suficiente para ela. É perfeitamente possível conceber um sistema – e foi concebido – em que as almas encarnem apenas uma vez e, depois, permaneçam numa espécie de limbo até a ressurreição do Mundo Vindouro, algo do qual o próprio livro de II Baruque apresenta sua versão em outra parte.

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Uma Análise Histórica de João, capítulo IX

Tudo que foi escrito acima partiu de dois pressupostos:

  1. Os ensinos de Jesus estavam dentro de seu contexto histórico-cultural;
  2. A passagem do “cego de nascença” foi histórica.

Nenhum dos dois, porém, me parece válido, ou melhor, válido do modo como os espiritualistas alegam. Com relação ao primeiro, pode-se conceber uma racionalização para a discrepância assinalada ao final do tópico anterior: Prophet consideraria a reencarnação como um ensino de Jesus, ao passo que os pecados pré-natais pertenceriam aos de outros rabinos. A brecha que ela e outros escritores esotéricos dispõem são os “anos perdidos”: o período dos 13 aos 30 anos de Jesus em que a literatura cristã é silente. Jesus poderia ter absorvido a reencarnação pelo contato com a cultura grega ou viajado à Índia pegando carona com a “Rota da Seda” (cap. VIII do citado livro de Prophet). É um tanto questionável a primeira hipótese porque o ambiente em que Jesus viveu era fortemente nacionalista e apocalíptico, ou seja, não eram seus conterrâneos tão propícios a aceitar ideias alienígenas e acreditavam numa mudança iminente (e cataclísmica) da realidade que conheciam. Quanto ao suposto contato de Jesus com monges budistas na Índia, isso não é levado muito a sério no meio acadêmico (5). Em outras palavras, “Jesus em contexto” aqui assumido não é o mesmo deles.

Resta ainda saber se Jo 9:2 tem alguma probabilidade relevante de ter sido verídico. Em suas palavras após a pergunta dos discípulos são: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isto aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele“; Jesus vai contra o tecido social da época, um ponto favorável a sua autenticidade. Por outro lado, como contexto é uma hierarquia, há fatos no capítulo IX de João que não condizem com o esperado durante a vida de Jesus:

Responderam os pais: Sabemos que ele é nosso filho e que nasceu cego. Mas não sabemos como ele pode ver agora ou quem lhe abriu os olhos. Perguntem a ele. Idade ele tem; falará por si mesmo. Seus pais disseram isso porque tinham medo dos judeus, pois estes já haviam decidido que, se alguém confessasse que Jesus era o Cristo, seria expulso da sinagoga.

Jo 9:20-22

Nem nos sinópticos, nem em Atos há relatos de expulsão dos cristãos das sinagogas durante a vida de Jesus ou bem no início da pregação do apóstolos. Os registros judaicos de expulsão de quem apontasse Jesus como Messias (ou qualquer outro) também são mais tardios. Então, o autor de João está narrando uma experiência vivida por sua comunidade, não por Jesus e seus discípulos. A resposta de Jesus é feita de palavras desse desconhecido autor, embora façam o estilo do Messias cristão.

João é o mais tardio dos canônicos, tendo sido escrito após a destruição do Segundo Templo em 70 d.C., quando a maioria das seitas judaicas foi extinta e o judaísmo rabínico emergiu como força distinta do cristianismo. O “cego de nascença” reflete o começo das tensões que levaram declaração de que judeus-cristãos não eram mais filhos de Abraão nesse novo judaísmo centrado na sinagoga. Note-se o teor antissemita das palavras ao final do capítulo precedente ao nono:

Vós [os judeus] tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira.

Mas, porque vos digo a verdade, não me credes.

Quem dentre vós me convence de pecado? E se vos digo a verdade, por que não credes? Quem é de Deus escuta as palavras de Deus; por isso vós [os judeus] não as escutais, porque não sois de Deus.

Jo 8:44-47

Assim, pode-se cogitar que a cura do cego de nascença seja uma metáfora para como a comunidade joanina encarava sua antiga matriz religiosa: todo judeu nasceria cego e apenas Jesus Cristo lhe “abriria os olhos”, especialmente se fosse fariseu (cf. Jo 9:39-41).

É possível, também, que essa passagem reflita um estágio em que a comunidade joanina já contasse com um bom número cristãos gentios entre eles e a pergunta dos apóstolos refletisse uma antiga crença pagã deles (6). Ou era mesmo parte de uma herança rabínica ainda recente, como alegado acima. Embora não seja possível decidir quanto a isso, o certo é que quando foi abraçado pela ortodoxia cristã, notadamente por Irineu de Lião (7), a reencarnação não fazia parte de sua doutrina.
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Notas

(1) Acesse o portal Ser Judio – Vida y muerte ou leia O Judaísmo Vivo, de Michael Asheri, cap. XLI, pp. 251-2 , para verificar que a aceitação da reencarnação ou gigul neshamot não é universal entre os judeus modernos. Leia Jewish View of the Afterlife, de S.P. Raphael, cap. VIII, pp. 314-20 para uma análise histórica e mais aprofundada. Curiosamente, esses dois autores também tocam na possibilidade, em alguns círculos kabalísticos, de reencarnação em corpos de animais. Será que os espiritualistas modernos compram essa ideia?

(2) Cf. [Givens], cap.III. e – [Chamberlin]

(3) O historiador Paul Johson fez uma interessante observação:

[Na Idade Média] Havia uma tal variedade de opiniões sobre o Messias no judaísmo que era quase impossível ser herético nesse assunto. O judaísmo dizia respeito à Lei e sua observância. O cristianismo dizia respeito à teologia dogmática. Um judeu podia atrapalhar-se quanto a um ponto delicado da observância do sábado que a um cristão pareceria ridículo. Por outro lado, um cristão podia ser queimado vivo por sustentar uma ideia sobre Deus que a todos os judeus pareceria um assunto de opinião legítima e de controversa.

Johson, Paul; A História dos Judeus, Imago, 1995, parte III, p. 228.

O comentário rabínico Genesis Rabbah 34:10 (a conversa entre Antonino Pio e Rabi Judá ha-Nasi, trazida por Lightfoot), mostra uma opinião oposta à possibilidade de um feto pecar. Porém, conforme a nota seguinte, dentro do mesmo comentário há uma opinião a favor disso. Uma alternativa para Jo 9:2 é a de que os discípulos de Jesus quisessem justamente sanar essa dúvida.

(4) Da própria transcrição de Genesis Rabbah 63:6 feita por Jacob Neusner (p. 180):

When she sent by houses of idolatry, Esau would kick, trying to get out: “The wicked are estranged from the womb” (Ps. 58:4). When she passed by synagogues and study-houses, Jacob would try to kick, trying to get out: “Before I formed you in the womb, I know you” (Jer 1:5)

Tradução

Quando ela [Rebeca] cruzasse com casas de adoração dos ídolos, Esaú se contorceria querendo sair, como se diz, “os ímpios são desviados desde o ventre materno” (Sl 58:4). Quando ela passasse por sinagogas ou casas de estudo, Jacó se contorceria querendo sair, como se diz, “antes que eu te formasse no ventre, eu te conheci” (Jr 1:5).

Óbvio que aqui houve uma “rabinização” da história de Gêneses, pois não havia sinagogas ou casas de estudo à época da narrativa sobre Esaú e Jacó.

Observação: Uma edição completa e bilíngue (hebraico/inglês) do livro pode ser encontrada no portal www.seferia.org. O portal “Sacred Texts” possui apenas uma seleta deste livro e carece desta passagem. A Bíblia Ecumênica Barsa (1979) comenta a passagem Jo 9:2 de forma parecida com a de John Lightfoot, mas não faz nenhuma referência bibliográfica.

(5) Essa história de que “Jesus viveu na Índia” teria começado quando um russo – Nicolai Notovitch -, no final do século XIX, teria viajado ao Tibete e se abrigado no mosteiro budista de Hemis enquanto convalescia de uma fratura. Lá teria conseguido acessar um manuscrito chamado A Vida de São Issa, que lhe era recitado, e ficou pasmo com similaridades entre essa personagem e Jesus Cristo, com o diferencial de ela conter informações sobre os “anos perdidos de Jesus”, i.e., o período que vai dos doze aos trinta anos que supostamente foram passados na fronteira entre a atual Índia e o Tibete, e dedicados ao aprendizado do budismo. Já de volta ao ocidente, publicou em francês suas memórias no livro A Vida Desconhecida de Jesus Cristo. Um dos apologistas desse “Jesus indiano” – Holger Kersten (de Jesus Viveu na Índia) – não ignora as críticas surgidas e adota a postura de que “a melhor defesa é o ataque”: acusa um dos críticos da tese – Max Müller, hindulogista de Oxford – de ser fanático cristão e de nunca ter estado na Índia. Isso é de uma extrema esperteza e covardia, pois assinalar as fraquezas do adversário de forma alguma torna alguém mais forte. Pelo contrário, afinal fica claro que não se tem resposta às críticas do oponente. E um dos ataques de Müller era o fato de tão notável documento não constar em grandes cânones do budismo tibetano, como o Kanjur e o Tanjur. Notovitch acabou mudando sua história em novas edições: a biografia de Issa não era mais uma obra em dois volumes e, sim, um apanhado de contos espalhados em diversas outras. Além disso, existe outra acusação de fraude feita à mesma época pelo acadêmico inglês J. Archibald, que foi ao mosteiro de Himes e não encontrou nada e ninguém sabia de tal manuscrito. A história foi encerrada por um tempo até que outros alegaram ter visto o documento, inclusive entrando em contradição com Notovitch, só que ninguém o trouxe ou fotografou. Como se não bastasse, o documento, posteriormente, foi dado como “perdido”, apesar de a história original de Notovitch não tratar os textos de Himes como exclusivos…

A quem quiser saber mais, sugiro a leitura de Jesus in Tibet – A Modern Myth, de Robert M. Price, e a das publicações originais de Müller e Archibald. O recentemente aclamado Bart Ehrman chega a fazer um breve comentário a respeito das teses do “Jesus indiano”:

Outras falsificações têm sido perpetradas nos tempos modernos, de relevância direta para nosso corrente estudo de apócrifos cristãos antigos. Pode-se pensar que, em nossos dias e época, ninguém seria tão ardiloso para assegurar quaisquer relatos de primeira mão de Jesus como autênticos. Mas nada poderia estar mais longe da verdade. Estranhos evangelhos aparecem regularmente, se você souber onde procurá-los. Muitas vezes esses registram incidentes dos “anos perdidos” de Jesus, por exemplo, relatos de Cristo ainda criança ou jovem anteriores a seu ministério público, um gênero que retrocede até o segundo século. Esses relatos algumas vezes descrevem viagens de Jesus à Índia para aprender a sabedoria dos brâmanes (como de outra forma ele seria tão sábio?) ou seus feitos no deserto, juntando-se com monges judaicos para aprender o caminho da santidade.

– Ehrman, Bart D.; Lost Christianities, Oxford University Press, 2003, cap. IV, p. 68:

Ehrman não chega a citar Notovitch, nem a desenvolver o tema do Jesus budista/hindu. Mas esse parágrafo deixa transparecer que a tese não é levada muito a sério nos meios acadêmicos.

(6) Para mais pormenores da evolução social da comunidade joanina, ver Ehrman, Bart; The New Testament, Oxford University Press, 2008, cap. XI. O Jesus Seminar, no livro The Five Gospels, também não considerou essa passagem como genuína, mas por razões estilísticas: serve de abertura a um discurso um tanto longo, improvável de ser relembrando com tanto precisão, e como mais uma brecha para os característicos “Eu sou” desse evangelho.

(7) Contra as Heresias, livro III, 11
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Para Saber Mais

– Asheri, Michael; O Judaísmo Vivo; Imago,1995;

– Chamberlin, Frank; Pre-Existence of the Soul in the Book of Wisdom and in the Rabbinical Writings, The American Journal of Theology, Vol. 12, No. 1, (Jan., 1908), pp. 53-115, The University of Chicago Press.

– Givens, Terry L.; When the Souls had Wings – Pre-Mortal Existence in Western Thought, Oxford, 2010.

– Johson, Paul; A História dos Judeus, Imago, 1995

– Raphael, Simcha, Paull; Jewish Views of the Afterlife, Aronson, 2004.

– Neusner, Jacob; Introdução ao Judaísmo, Imago, 2004.

– Tricca, Maria Helena de Oliveira (compiladora); Apócrifos – Os proscritos da Bíblia, tradução do alemão de Ivo Martinazzo, vol. I e III, Ed. Mercuryo, 2003.

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Misquoting Origens: Elizabeth Clare Prophet

19 de janeiro de 2012 Deixe um comentário

“Estatísticas são como biquínis: mostram o que é sugestivo, mas escondem o que é vital”

(anônimo)

A jornalista e escritora de ficção Elizabeth Clare Prophet produziu um livro muito falado de nome Reencarnação: o elo perdido do cristianismo. Devo admitir que quando comparado com as limitações hitoriográficas das obras de Severino Celestino da Silva, José Reis Chaves e José Carlos Leal, esta obra é em muito superior. As querelas origenistas são descritas com uma quantidade maior de pormenores, ao contrário da simplificação exagerada feita pelos demais (ainda que a imparcialidade…), e não cai na tentação fácil de explicar tudo numa teoria conspiratória centrada na figura da imperatriz Teodora. Também devo comentar que Prophet fez a gentileza de colocar muitas vezes referências diretas às obras de Orígenes, o que facilita muito o trabalho de revisão e crítica, embora ainda se valha demais de citações não verificadas. O que mais chama atenção, porém, não é exatamente o que ela diz (também o é), e sim o que ela deixa de dizer. Procedamos a uma análise do capítulo XVI do livro (“Os Diferentes Destinos dos Gêmeos”).

Os rabinos chegaram a uma conclusão incomum. Como as escrituras diziam que os destinos dos gêmeos [Esaú e Jacó] eram diferentes desde o nascimento, e uma vez que Deus era justo, acharam que a única resposta possível era que Esaú havia pecado enquanto estava no ventre de sua mãe. Por mais estranho que pareça, é exatamente esta especulação que encontramos num comentário do Gêneses escrito por volta de 400 a.C.. Os rabinos conjeturavam que, quando Rebeca passava por “casas de idolatria”, Esaú indicava a sua preferência dando pontapés, mas “quando ela passava por sinagogas e casas de estudo, era Jacó quem dava pontapés, tentando sair”(4). Por estas ações os rabinos concluíram que Deus preferia Jacó e sua semente a Esaú e sua semente, por gerações.

Pouco depois disso, Prophet compara a explicação acima com a proposta de pré-existência dos gêmeos dada por Orígenes, em De Pricipiis, livro II, cap. IX, com esta contida no comentário rabínico Genesis Rabbah 63.6.3. Este, conforme ela explica em sua nota (4) para este capítulo ao fim do livro, foi retirado de um livro do escritor judeu Jacob Neusner. Bom, como estamos falando de citações de citações surge uma questão a respeito da datação de Gêneses Rabbah. Tenho outro livro desse mesmo autor ( Introdução ao Judaísmo, ed. Imago ) cujo glossário traz a datação para Genesis Rabbah para 450 E.C. (Era Comum, isto é, d.C), portanto quando Prophet situa o livro em 400 a.C. devo indagar se o correto não seria 400 d.C. De fato, há um erro aí, mas não da autora e sim da tradução da edição brasileira. Consultando o original em inglês, encontra-se:

Edição em língua inglesa de Prophet

A expressão usada é “A.D. 400” (Anno Domini 400), que significa literalmente “400º ano do Senhor“, ou, em bom português, “ano 400 depois de Cristo“. Por algum motivo, confundiram a sigla A.D., comum entre os anglófonos, com o nosso tradicional a.C. Esse lapso não é tão inofensivo assim, pois, ao datar Genesis Rabbah 400 anos antes de Cristo, haveria tempo para sua proposta para o caso de Esaú e Jacó ter sido substituída por uma doutrina reencarnacionista que, supostamente, teria se difundido no seio do judaísmo intertestamentário. Com a datação correta, fica menos provável que a reencarnação já fosse moeda corrente no mainstream do judaísmo ao tempo de Jesus. Isso tem um efeito grande na interpretação de passagens como O “cego de nascença” (Jo 9:2), pois mostra que a crença em pecados pré-natais já podia estar presente no período intertestamentário; aliás, essa é a tese defendida por John Lightfoot em seu comentário de João. A quanto engano autores espiritualistas brasileiros (e demais lusófonos) podem ter sido induzidos por essa falha de tradução!

Continuando:

– Orígenes conhecia bem as tradições judaicas sobre a reencarnação e a divinização e, às vezes, parecia fazer eco à palavras de Filon, que escreveu sobre a reencarnação. Orígenes acreditava que os judeus ensinavam a reencarnação. (15)

Vejamos como Prophet desenvolve a questão em sua nota (15):

(…)Orígenes pode ter tido algo a acrescentar sobre a questão de se os judeus acreditavam ou não em reencarnação. Em seu comentário sobre as passagens de João/Elias em seu Comentário sobre João, ele afirma que a pergunta a João: “És tu Elias?” que eles acreditavam na metensomatose [transmigração], como uma doutrina herdada de seus ancestrais e que, por isso, não se chocava com o ensinamento secreto de seus mestres. Ele afirma também que uma tradição judaica diz que Fineias, filho de Eleazar, “foi Elias”. Talvez Orígenes tenha tido acesso a ensinamentos secretos judaicos além dos evangelhos. O Comentário de João 6.7, citado por Jean Daniélou em “Gospel Message and Hellenistic Cuture” (A Mensagem do Evangelho e a Cultura Helenica), trad. John Austin Baker, vol. 2 de “A History of Early Christian Doctrine before the Coucil of Nicaea” (A História da Doutrina do Cristianismo Primitivo antes do Concílio de Niceia) (Londres: Darton, Longman and Todd, 1973), pp. 493-494.

Bem, vejamos excertos maiores do capítulo VII do sexto livro de Comentários de João, edição de Ante-Nicene Fathers, a mesma de usada por ela:


Nosso primeiro erudito, cuja visão da transcorporação vimos ser baseada em nossa passagem, pode prosseguir com um exame mais detalhado do texto e argumentar contra seu antagonista que se João foi o filho de um homem como o sacerdote Zacarias e se nasceu quando seu pais já eram ambos idosos, contrariando todas as expectativas humanas, não é provável que tanto judeus em Jerusalém o desconhecessem, ou os sacerdotes e levitas por eles enviados não estariam a par dos fatos de seu nascimento. Não declara Lucas que “o temor veio sobre todos os que viviam por perto” (Lc 1:65), – claramente nas proximidades ao redor de Zacarias e Isabel – e que “todas essas coisas foram divulgadas por toda terra montanhosa da Judeia“?
E se o nascimento de João a partir de Zacarias foi matéria de comum conhecimento e os judeus de Jerusalém já enviaram sacerdotes e levitas para perguntar, “És tu Elias?” então está claro em dizer que eles consideravam a doutrina da transcorporação com verdadeira e que ela era uma doutrina corrente de seu país, e não estranha aos seus ensinos secretos. João, portanto, diz, “Eu não sou Elias, porque não sabe sobre sua vida prévia. Estes pensadores, assim, cogitam uma opinião que não deve de forma alguma ser desprezada. Nosso membro da Igreja, contudo, pode replicar à alegação e perguntar se é digno de um profeta, que é iluminado pelo Espírito Santo, que foi previsto por Isaías, e cujo nascimento por pressagiado antes que sucedesse por tão grande anjo, que recebeu da plenitude de Cristo, que partilha de tal graça, que sabe que a verdade vem por meio de Jesus Cristo e ensinou coisas tão profundas a respeito de Deus e do unigênito, que está no seio do Pai, é digno de tal indivíduo mentir ou mesmo hesitar, em razão da ignorância do que era. Pois com relação ao que estava obscuro, ele deveria ter se abstido de confessar, e não ter nem afirmado, nem negado a proposição que foi posta. Se a doutrina [da transcorporação] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias? E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença. Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento.

Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

Em negrito as informações desconsideradas por Prophet

Senhores, está claro que, quando Orígenes fala de um ensino “secreto dos hebreus”, ele o coloca na boca de filósofos antagonistas. Depois ele diz com todas as letras que, àquela altura, a transmigração ainda não entrara no judaísmo místico. Quanto ao caso de Fineias, Orígenes fala ao fim do capítulo:

Eu não sei como os hebreus começaram a falar que Fineias, filho de Eleazar, que admitidamente prolongou sua vida ao tempo de muitos dos juízes, como lemos no Livro de Juízes (Jz 20:28), para dizer o que agora menciono. Dizem que ele foi Elias porque Deus lhe prometera imortalidade, devido à aliança concedida a ele (Nm 25:12-13) (…) .

Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

Aqui fica claro que não se tratava de reencarnação, mas de uma imortalidade. Os judeus teriam confundido o “sacerdócio eterno” de Fineias e sua descendência com uma espécie de imortalidade para o próprio. Por todo o exposto acima, fica-se com a impressão de que Prophet não leu nada do texto original de Orígenes e, além disso, ou mal citou suas fontes ou confiou demais nelas. Uma falha grave de pesquisa. Prossigamos:

– Clemente de Alexandria, um professor cristão que dirigiu a escola de catequese antes de Orígenes – Diz-se que ensinava a reencarnação (16)

Deem uma lida no artigo sobre Clemente de Alexandria para esclarecimentos reais sobre o que ele defendia.

– O Gnosticismo – Orígenes absorveu este conceito através de um professor chamado Paulo de Antioquia (…) Existe ainda uma possível sexta fonte para a crença de Orígenes na reencarnação. Ele pode tê-la aceito por ter-se convencido – através do estudo do Gnosticismo, dos escritos de Clemente ou de outras escrituras que se perderam – de que a reencarnação fazia parte dos ensinamentos secretos de Jesus.

Sinceramente, quem escreve uma coisa dessas quase passa um atestado de jamais ter lido sequer um parágrafo de De Principiis nem que fosse apenas por passatempo. A carreira de Orígenes teve por adversários e antagonistas grupos gnósticos:

(…) agora, quanto àquelas expressões que ocorrem no antigo Testamento, quando se diz que Deus ficou raivoso ou arrependido, ou quando um sentimento ou paixão humana é descrito, (nossos oponentes) pensam que estão abastecidos de subsídios para nos refutar, alegando que Deus é impassível ao todo e é considerado totalmente livre de sentimentos de qualquer tipo, nós temos de mostrar a eles que declarações similares são encontradas mesmo nas parábolas do Evangelho.

De Principiis, livro II, cap. IV

Fora dito nos profetas, “Eu sou Deus e além de Mim não há outro Deus”. Pois se o Salvador, sabendo que Ele que está escrito na lei é o Deus de Abraão e que é o mesmo que diz, “Eu sou Deus e além de Mim não há outro Deus”, reconhece que o mesmíssimo que é Seu Pai é ignorante quanto a existência de qualquer outro Deus acima dEle mesmo, como os heréticos supõem, Ele absurdamente O declara ser Seu Pai que não conhece um Deus superior. Mas se não é da ignorância, mas do engodo, que diz não haver outro Deus além de Si mesmo, então é um absurdo muito maior confessar que Seu Pai é culpado de falsidade. De tudo, a conclusão a que se chega é que Ele desconhece outro Pai além de Deus, Fundador e Criador de todas as coisas.

Idem

Aqui é claro o combate de Orígenes ao dualismo gnóstico, que asseverava ser um demiurgo inferior o deus do Antigo Testamento e criador do mundo material, aprisionando centelhas divinas em corpo de carne. O mundo material seria mal em si mesmo. Jesus teria sido enviado pelo verdadeiro deus superior e bom para libertar as almas das mãos do demiurgo. Boa parte do texto de De Principiis é gasto em justificar a unidade entre o Deus do Antigo e do Novo Testamentos e buscar uma justificativa para a encarnação das almas que estivesse de acordo com parâmetros de “bondade divina”, daí a teoria de uma beatitude primordial, as quedas, necessidade de corpos para individualizar almas decaídas, regeneração pela submissão a Cristo. Ao contrário do que alguns escritores reencarnacionistas afirmam, Orígenes não foi influenciado pelo gnosticismo, muito pelo contrário, era antignóstico. Se isto ainda não te convence, veja Orígenes citando com todas as letras expoentes gnósticos:

Agora, quando dizemos que este mundo foi estabelecido na diversidade na qual acima explicamos que foi criada por Deus e quando dizemos que este Deus é bom e reto, e mais justo, há numerosos indivíduos, especialmente aqueles que, oriundos da escola de Marcião, e Valentino, e Basílides, ouviram que há almas de diferentes naturezas, que nos objetam, que isto não pode consistir com a justiça de Deus em criar o mundos para designar a algumas de Suas criaturas uma morada nos céus, e não apenas para dar uma melhor habitação, mas também uma mais alta e honrável posição (…) [grifos do portal]

De Principiis, II, IX

Muitos autores não têm Marcião como gnóstico, apesar de possuir pontos em comum com eles, mas Valentino e Basílides eram sem dúvida gnósticos.

– Ele responde à sua própria pergunta: “É claro que alguns pecados existem [isto é, foram cometidos] antes de as almas [terem corpos] e, como resultado, cada alma recebe a recompensa de acordo com seu mérito” (19)

Em sua nota (19), Prophet dá sua fonte para esta frase: Orígenes On the First Principles (Sobre os Primeiros Princípios) 1.8.1, Butterworth, p. 67.

Prophet situa tal citação no livro I, capítulo VIII, parágrafo primeiro; porém tal trecho não aparece na tradução de De Principiis feita por Frederick Crombie na série Ante-Nicene Fathers (1866-1872). Há uma explicação simples para o fato, segundo John S. Uebersax, G. W. Butterworth (1936/1966) baseou sua popular tradução inglesa não numa tradução direta do texto latino de Rufino. Ele a extraiu de uma tradução alemã feita por Paul Koetschau, que tentara uma magnus opus visando reconstruir o original De Principiis como existia antes da editada tradução de Rufino, a forma em que a maior parte do trabalho chegou até nós. “Tem-se sugerido que Koetschau fez um uso extremamente liberal de fontes secundárias, i.e., citações ou paráfrases meramente atribuídas a Orígenes“. De fato, quem se dispuser a adquirir um exemplar da edição de Butterworth/Koetschau verá que sua versão grega para De Principiis 1.8.1 é uma montagem feita a partir de extratos de Antípater de Bostra, Leôncio de Bizâncio e Epifânio. Apesar de a frase não ser demasiadamente estranha ao sistema origenista, fica revelado aspecto temerário da obra da autora ao não se basear em uma fonte confiável, caso Uebersax esteja certo. Os texto disponíveis on-line de Ante-Nicene Fathers não tentam fazer uma reconstrução crítica de forma tão atrapalhada. Eles simplesmente expõem como base o texto de Rufino e, ao fim de cada tomo, colocam extratos da carta de Jerônimo a Ávito e de Philocalia. Fica a cargo dos leitores a comparação. O texto disponível on-line de Ante-Nicene Fathers não tentam fazer uma reconstrução crítica de forma tão atrapalhada. Eles simplesmente expõem como base o texto de Rufino e, ao fim de cada tomo, colocam extratos da carta de Jerônimo a Avitus e de Philocalia. Fica a cargo dos leitores a comparação.

– Ao dizer que o nosso destino resulta de nossas ações passadas, Orígenes dá a entender que tivemos alguma forma de existência anterior que precedeu o nosso corpo atual. Para Orígenes a conclusão óbvia é que a esta existência anterior também foi vivida sob a forma humana.

Na verdade, o estado humano foi devido a um grau de queda maior que o dos anjos e os astros celestes. Antes das quedas, todas as alma tinham um estado primordial incorpóreo, sem contar que, entre uma era e outra, um humano poderia ascender a um desses dois ou decair para um demônio. Note a (errônea) citação que Prophet faz de Orígenes (digo, de Butterworth) logo acima. Parece que ela leu uma coisa e entendeu outra.

– Em seu Comentário sobre João, trata da questão da reencarnação, mas não chega a oferecer uma resposta dizendo: “O assunto da alma é muito amplo e difícil de ser esclarecido… Exige, por isso, tratamento diferenciado.” (21)

A nota (21) informa que a citação foi extraída de Comentário de João 6.7. Para começo de conversa, como se viu acima, nesse livro e capítulo se discute, sim, a reencarnação. Ele afirma que não era doutrina entre os judeus contemporâneos seus e que seus pares:

Entretanto, um membro da Igreja, que rejeita a doutrina da transcorporação como falsa e não admite que a alma de João fosse a de Elias, pode se referir às palavras do anjo supracitadas e assinalar que não é a alma de Elias que é dita ao nascimento de João, mas o espírito e poder de Elias.

Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

e segue com uma longa argumentação de que João Batista não era uma reencarnação de Elias, muito similar, por sinal, a que os apologistas cristãos fazem hoje:

Quanto aos espíritos dos profetas, estes são dados por Deus e são considerados como sendo, de certo modo, propriedades deles, como “Os espíritos dos profetas estão submissos aos profetas” (I Cor 14:32) e o Espírito de Elias repousou sobre Eliseu (2 Reis 2:15). Assim, diz-se, não há nada de absurdo supor que João, “no espírito e poder de Elias”, voltou o coração dos pais para os filhos e foi por causa deste espírito que foi chamado de “o Elias que deve vir”.

Idem

O trecho que Prophet exibe se encontra ao fim do capítulo referido do Comentário de João e merece uma contextualização maior:

Não admira, então, se aqueles que conceberam Fineias e Elias como a mesma pessoa; caso tenham julgado ajuizadamente ou não, não é a questão agora, considerariam João e Jesus como também sendo so mesmo. Isto, então, eles duvidaram e desejaram saber se João e Elias eram os mesmos. Em outra ocasião que nem esta, a questão [identificação entre Jesus e João] certamente exigiria uma análise detalhada e o argumento teria de ser bem ponderado quanto à essência da alma, ao princípio de sua composição e quanto a sua entrada neste corpo terreno. Também deveremos ter de inquirir quanto às distribuições da vida de cada alma, e quanto a sua partida desta vida, e se é possível para ela entrar numa segunda vida em um corpo ou não, e se tal ocorre no mesmo período e após o mesmo arranjo em cada caso, ou não, e se entra no mesmo corpo ou em outro distinto, e se o mesmo, se o sujeito permanece o mesmo ao passo que as qualidades mudam ou se tanto o sujeito quanto as qualidades permanecem, e se a alma sempre fará uso do mesmo corpo ou o trocará. Junto com estas questões, seria também necessário perguntar o que é transcorporação e como ela se difere da incorporação e ele que sustém a transcorporação deve necessariamente que o mundo seja eterno. A noções desses pensadores também devem ser consideradas; quem considera que, segundo as Escrituras, a alma é semeada junto com o corpo e as consequências de tal noção também deve ser levada em conta. De fato, o assunto da alma é muito amplo e difícil de ser esclarecido e tem de ser compreendido de expressões dispersas da Escritura. Exige, por isso, tratamento diferenciado. A breve consideração que fomos levados a dar ao problema em relação a Elias e João pode bastar por enquanto; prossigamos ao que se segue no Evangelho.

Idem

Orígenes não estava falando de nenhum ensinamento secreto a respeito da alma, mas enumerando os pontos a serem levantados com pensadores pagãos ou influenciados por doutrinas tidas por heréticas. Ele dá uma “receita de bolo” sobre a mesma técnica de argumentação que ele usou contra aqueles que associavam Elias a João e que poderia novamente ser útil no caso de lançarem a hipótese de Jesus e Elias serem os mesmos.

Prophet faz uma única admissão de um texto anti-reencarnacionista de Orígenes no Comentário sobre Mateus. Ela dá essa passagem como uma atitude defensiva de Orígenes contra perseguidores, pois ele:

(…) escreveu quando já estava com mais de 60 anos (por volta de 246-248), o seu contexto leva-nos a questionar se não a estaria negando como uma tentativa de despistar seus inimigos (22). Pois Orígenes, assim como todos os iniciados nos mistérios gregos e gnósticos, praticava o sigilo.

Bem, vamos à nota 22:

Orígenes nega a reencarnação quando se discute se João Batista era ou não Elias que voltara. Nessa discussão dirige-se claramente aos bispos. Eis a sua negação:”’Aqui não me parece que por Elias se expressa a alma, ou cairei no dogma da transmigração, que é contrário à Igreja de Deus, que não foi transmitido pelos apóstolos nem é encontrado nas Escrituras” (ênfase da autora).

Aqui, Orígenes rejeita a reencarnação porque ela não se coaduna com a ideia cristã do julgamento final. Como poderia haver um fim, ele pergunta, se as almas estão continuamente cometendo atos que as obrigarão a retornar à terra para redimi-los? Ele conclui que o conceito de um final deveria “abolir a doutrina da transmigração”. Commentary on Mathew (Comentário Sobre Mateus) 13.1, em The Ante-Nicene Fathers (Os Patriarcas Ante Niceia) 10:474, 475.

Orígenes, entretanto, procurou conciliar a ideia de um final com a ideia de oportunidade contínua através da reencarnação. Mesmo afirmando que haveria um final quando o mundo for ‘tudo em todos’ (1 Cor 15:28), ele também previu que “depois da dissolução deste mundo haveria um outro”. On First Principles (Sobre Primeiros Princícios) 3.5.3 Butterworth, p.239(…)

Aqui no caso há uma meia-verdade. Orígenes cria num tipo de reencarnação “entre eras”, mas em instante algum em De Principiis ou qualquer outra obra que chegou até nós ele defendeu alguma reencarnação “na mesma era”. Do jeito que Prophet coloca tal aspecto de Orígenes ao fim do livro, em uma nota, e como uma saída alternativa em vez de ser o principal; um leitor desavisado pode ter uma impressão errônea de que Orígenes estava escondendo algo que ele nunca defendeu. Se não tiver lido a nota 22, pior será a ideia. Orígenes cria, também, em ressurreição e julgamento final ao fim de cada era e dedica até um capítulo de De Principiis a isso. Além disso, há mais passagens em Comentários sobre Mateus contra a reencarnação (Livro X, cap. XX), além de os trechos que ela tem como pró reencarnação do Comentário sobre João na verdade, como vimos, serem anti. O Comentário de João, por sinal, precede o de Mateus e na própria introdução do capítulo VI (o utilizado por Prophet), Orígenes fala que tal fora originalmente escrito em Alexandria antes de seu exílio em Cesareia (231), embora tenha sido extraviado e reescrito já na Palestina. Orígenes era mais jovem, enfraquecendo o peso do fator idade que Prophet para descartar o Comentário sobre Mateus. Também não se deve esquecer de Contra Celso IV, XVII. Prophet ainda tenta associar Orígenes ao gnosticismo e um errinho menor ao citar I Cor 15:28: “quando Deus for tudo em todos”.

O ponto que Prophet considera xeque-mate para uma crença de Orígenes na reencarnação (ao estilo ocidental) é o relato de Jerônimo:

Se ainda restam dúvidas sobre o fato de Orígenes ter se referido ou não à reencarnação, podemos confiar no Patriarca da Igreja do século IV, Jerônimo, que o acusou de fazê-lo. Jerônimo teve acesso aos textos originais em grego, e disse que uma das passagens de Primeiros Princípios prova que Orígenes “acreditava na transmigração das almas”. (26)

A nota (26) informa a passagem: Ad Avitum, 14. Na verdade, o texto de Jerônimo também foi passível de alteração e, mesmo que não tivesse sido, Jerônimo dá uma citação textual do que dissera Orígenes, não apenas afirmando da boca para fora:

O Fogo do Inferno, além disso, e os tormentos com os quais a sagrada escritura ameaça os pecadores são explicados por ele não como punições externas, mas como aflições de consciências pesadas quando, pelo poder de Deus, a memória de nossas transgressões é posta perante nossos olhos. “Toda colheita de nossos pecados cresce de novo das sementes que permanecem na alma e todos os atos desonrosos e indignos são outra vez retratados diante de nossas vistas. Assim é o fogo da consciência e os espinhos do remorso que torturam a mente a medida que ela relembra na referida autoindulgência”. E de novo: “mas talvez este grosseiro e terreno corpo deva ser descrito como névoa e escuridão; pois ao fim deste mundo e quando for necessário passar ao outro, o similar à escuridão levará ao similar nascimento físico [ou fisicamente nascido]”. Falando assim ele claramente pleiteia claramente pela transmigração das almas como ensinado por Pitágoras e Platão.

Jerônimo de Aquileia, Carta 124 (a Ávito).

Ao fim deste mundo e quando for necessário passar ao outro … ” Mesmo na versão mais heterodoxa possuída por Jerônimo, o relato é de uma reencarnação entre eras e talvez com continuidade de corpo, não do conceito comum no ocidente moderno.

Resumindo Prophet: a maior parte do tempo, ela insinua que Orígenes defendia a reencarnação ao estilo ocidental, com vários reencarnes num mesmo mundo. Passagens que rejeitam a reencarnação tradicional são minoradas (Comentário sobre Mateus), distorcidas para se tornarem pró reencarnacionistas (Comentário sobre João) ou esquecidas (Contra Celso). As passagens onde Orígenes adota o modelo entre eras são relatadas de forma marginal (De Principiis) ou explanadas por alto sem citação explícita (Carta a Ávito, de Jerônimo). Apesar de tudo, Prophet é “menos mal” que muitos outros autores espiritualistas analisados neste portal, mas ainda deixa muito a desejar.

Clemente de Alexandria

6 de novembro de 2011 1 comentário
Bem, já foi exposto que Justino não acreditava coisíssima nenhuma nisto. O que o professor de Orígenes, Clemente de Alexandria, achava da ideia de sua pupilo quanto à pré-existência? Primeiro a bancada espiritualista:

(…)Temos existido desde o princípio, pois no princípio era o Logos (…) Não pela primeira vez [o Logos] mostra piedade de nossas perambulações; ele se apiedou de nós desde o princípio.

Clemente de Alexandria, Stromata, citado por :
MacGregor, Geddes; Reincarnation in Christianity, Quest Book, cap. V

Clemente de Alexandria, um professor cristão que dirigiu a escola de catequese antes de Orígenes. – Diz-se que ele ensinava a reencarnação. (16)

Prophet, Elizabeth C.; Reencarnação: O elo perdido do Cristianismo, Nova Era, cap. XVI.

Consultando a nota 16 a esse capítulo:

Clemente de Alexandria não questiona a preexistência da alma, que é a base da reencarnação. Ele confirma o conceito de preexistência do Cristo e do homem em sua obra “Exhortation to the Greeks” * (Exortação aos Gregos). Em “Stromateis”, aborda a reencarnação, mas não faz nenhuma declaração explícita a seu favor. Entretanto, o estudioso da Igreja do século IX, Photius, diz que Clemente ensinou sobre a reencarnação. (…)

(*)Nota do Portal: também conhecido como “Exhortation to the Heathen” (Exortação aos pagãos).

Outro autor espiritualista:

Ademais, São Clemente de Alexandria era ligado à corrente gnóstica cristã, e os gnósticos eram contrários à entrega espontânea ao martírio por parte de muitos cristãos da época dele. E, assim, sempre que lhes fosse possível, eles protegiam sua vida contra as perseguições dos inimigos do cristianismo (…)
Fócio, um patriarca de Constantinopla no século IX, era político ambicioso e sem escrúpulos, como diz a História, e responsável pelo Cisma dos Gregos, em 863, foi, no entanto, escritor de talento.

Sempre houve uma certa rivalidade entre os sábios de Constantinopla e os de Alexandria, sendo que os desta cidade sempre levavam vantagem sobre os daquela. E essa rivalidade atingiu os próprios patriarcas das duas cidades.

Não se sabe muito bem por que, pois Fócio viveu cerca de seiscentos anos depois de São Clemente de Alexandria, mas o fato é que Fócio escreveu um trabalho em que desprestigiava muito o célebre sábio de Alexandria, de cuja universidade São Clemente foi reitor. Teria Fócio escrito esse livro por causa da citada rivalidade intelectual que havia entre os sábios de Constantinopla e Alexandria?

O certo é que o Papa Benedito (Bento) XIV, em meados de século XVIII, após ter lido a referida obra do patriarca de Constantinopla, Fócio, decidiu-se pela cassação do título de santo de São Clemente, cujo nome foi tirado do calendário de santos da Igreja.

Se Fócio, como vimos, era um político ambicioso e de poucos escrúpulos, além de ter sido responsável pelo Cisma Grego (863) já mencionado, é estranho que o Papa Benedito (Bento) XIV tenha se deixado influenciar pela citada obra de Fócio. Por isso, nos arriscamos a dizer que o fato dessa cassação do título de santo de São Clemente de Alexandria, por parte de Benedito (Bento) XIV, poderia ter sido, na verdade, a crença de São Clemente na reencarnação, fato esse que passou a se destacar muito, justamente na época de Benedito (Bento) XIV.

José Reis Chaves, A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, cap. VI, 7ª ed., p. 200-1.

Bem, vamos por partes. A citação de Clemente apresentada aqui, feita por MacGregor como pertencente a Stromateis (Miscelâneas), na verdade é a referência feita por Prophet a Exortação aos Gregos, mais especificamente no capítulo primeiro desse tratado. Vejamos uma amostra panorâmica do que realmente é dito no contexto:

Mas antes da fundação do mundo éramos nós, que, por sermos destinados a estar nele, pré-existimos antes no olho de Deus, – nós as criaturas racionais do Verbo [Logos] de Deus, em cujo cômputo datamos do início; pois “no princípio era o Verbo”. Bem, visto que Ele agora assumiu o nome de Cristo, consagrado de antigo e merecedor de poder, eu o tenho chamado de a Nova Canção. Este Verbo, então, o Cristo, [é] a causa tanto de nossa existência, em primeiro lugar, (pois Ele estava em Deus) e de nosso bem-estar, este mesmo verbo agora apareceu como homem, sendo sozinho ambos, tanto Deus e homem – o Autor de todas as graças a nós; por quem nós, sendo ensinados ao bem viver, somos enviados em nosso caminho para a vida eterna. (…)

Clemente de Alexandria, Exortação aos Gregos, cap. I

A declaração “pré-existimos (…) no olho de Deus” mostra que essa “pré-existência” ainda está associada termos sido conjunto de “ideias” dentro de uma mente onisciente divina, não como criaturas individuais. Tanto Prophet quanto MacGregor fizeram uma extrapolação indevida e a primeira alega não haver nenhuma menção negativa à reencarnação em Stromateis. Não sei se isto aqui é algo que se possa chamar “exatamente” de uma afirmação “neutra”:

Pois os sacrifícios da Lei expressam figurativamente a piedade que praticamos, como a rola e o pombo oferecidos em troca de pecados assinalam que a limpeza da parte irracional da alma é aceitável a Deus. Mas se qualquer um dos justos não oprime sua alma em comer carne, ele tem a vantagem de um motivo racional, não como o sonho de Pitágoras e seus seguidores da transmigração da alma.

Clemente de Alexandria, Stromateis (Miscelâneas), Livro VII, cap. VI.

Parece que ao menos as versões pitagóricas de reencarnação são taxadas de “sonhos” e não seriam algo “racional”. Voltarei a este tópico mais abaixo. Quanto a Fócio (Photius), nem Prophet, nem J.R. Chaves leram suas obras para terem uma ideia realmente completa do que ele estava falando acerca de Clemente de Alexandria. Em primeiro lugar, situemos qual obra de Fócio deve ser pesquisada: Biblioteca (Myriobiblon). Ao contrário do que J.R. Chaves alega, não foi escrita no intuito de denegrir Clemente de Alexandria por ele ser de uma escola teológica rival, que, por sinal, àquela época já estava sob domínio muçulmano e fora das maquinações da corte bizantina. Biblioteca é, na verdade, um grande conjunto de resenhas de mais de 200 livros de diversos teólogos lidos e comentados por Fócio. No bojo dessa “biblioteca”, Fócio comenta três obras de Clemente de Alexandria e o que talvez seja de interesse dos autores reencarnacionistas seja a entrada 109:

109. [Clemente de Alexandria, Esboços.]

Lidos três volumes de trabalhos de Clemente, presbítero de Alexandria, intitulados Esboços, As Miscelâneas e O Tutor.

Os Esboços (Hypotyposes) contém uma breve explanação e interpretação de certas passagens no Antigo e Novo Testamentos. Apesar de em alguns casos o que ele diz parecer ortodoxo, em outros ele se entrega a fábulas ímpias e lendárias. Visto que é da opinião de que a matéria é eterna e que ideias são introduzidas por certas condições fixas; também reduz o Filho a algo criado. Fala absurdos prodígios acerca da transmigração das almas e a existência de numerosos mundos antes de Adão. Empenha-se em mostrar que Eva veio de Adão, não como a Sagrada Escritura nos diz, mas de uma forma iníqua e vergonhosa, imagina negligentemente que anjos têm relações com mulheres e geram filhos; que o Verbo não encarnou, mas apenas o aparentou. Ele é depois o culpado de monstruosas declarações acerca dos dois Verbos do Pai, o menor que apareceu aos mortais, ou antes nem isso, pois escreve : “O Filho é chamado de Verbo, do mesmo nome de ‘Verbo do Pai’, mas não é o Verbo que se tornou carne, nem mesmo o Verbo do Pai, mais um certo poder de de Deus, como se fosse um eflúvio do próprio Verbo, tendo se tornado mente, penetrado nos corações dos homens”. Tudo isso ele tenta suster com passagens da Escritura. Fala muitas outros absurdos blasfemos, seja ele ou outrem sob seu nome. Estas monstruosas blasfêmias estão contidas em oito livros, nos quais ele frequentemente discute os mesmos pontos e cita passagens da Escritura de forma promíscua e confusa, como um possesso. Toda a obra inclui notas sobre Gêneses, Êxodo, os Salmos, epístolas de São Paulo, epístolas Católicas e Eclesiástico. Clemente foi discípulo de Pantaenus, como ele mesmo declara. Que isto baste para Esboços.

Esboços foi perdido. Talvez durante a IV Cruzada, que saqueou Constantinopla, ou durante conquista da cidade pelos turcos otomanos. Além dessa breve resenha de Fócio (que realmente o lera), restam algumas citações feitas por outros membros da patrística. Não dá para saber que “tipo” de “transmigração das almas” era discutido no livro, apesar de os “numerosos mundos antes de Adão” apontarem na direção versão “entre eras” da coisa, que teria sido herdada (?) por Orígenes, porém, como será visto adiante, a obra Miscelâneas (Stromateis) deixa isso muito em dúvida. De resto, sobram aspectos bem heterodoxos que vão muito além da simples reencarnação. Fócio, inclusive, levanta a hipótese de esse trabalho não ter sido de punho de Clemente. Na falta de algum exemplar mais completo, só nos resta especular. O que nem Prophet ou J.R. Chaves informam é da existência de aspectos bem mais, digamos, “ortodoxos” na obra de Clemente. Bastaria dar prosseguimento à leitura de Biblioteca para constatar isso:

110. [Clemente de Alexandria, O Tutor]

O Tutor é uma obra elaborada em três livros, contendo regras de comportamento e conduta. Foi precedida e compilada com outro trabalho, no qual refuta a iniquidade dos pagãos. Estas falas nada têm em comum com “Esboços”, visto que são inteiramente livres de opiniões infundadas e blasfemas. O estilo é florido, subindo às vezes a uma agradável e moderada altivez, ao passo que a exposição do aprendizado não é desaconselhável. No último livro, algo é dito sobre as imagens.

Olha só que interessante: Fócio foi capaz de atribuir boas qualidades a Clemente. Aqui vai por terra a teoria conspiratória citada por J.R. Chaves de que Fócio teria perseguido Clemente em seus escritos. No item 110, Fócio faz uma rápida menção à existência de “Exortação aos Gregos”, cujo extrato mostrado mais acima demonstra que Clemente já exibia um opinião quanto cristológica bem mais próxima do que seria o homoousios niceno. Quanto a retirada dele do calendário martirológico do catolicismo, a Catholic Encyclopedia relata fatos sob um ângulo mais ameno:

Mas quando a martirologia foi revisada pelo Papa Clemente VIII seu nome saiu do calendário, sob sugestão do Cardeal Barônio. Bento XIV manteve essa decisão de seu predecessor como base que a vida de Clemente era pouco conhecida ao ponto que ele nunca obtivera cultos públicos na Igreja e que algumas de suas doutrinas eram, se não errôneas, ao menos suspeitas. Em tempos mais recentes, a simpatia por Clemente tem crescido em favor de seu elegante toque literário, sua atrativa franqueza, o bravo espírito que o tornou um pioneiro na teologia e sua inclinação aos clamores da filosofia.

Bento XIV apenas manteve uma decisão anterior a ele, quais aspectos ele julgou “suspeitas” não está claro aqui. Esboços já estava perdido, mas outra obra comentada em Biblioteca pode ter pesado na decisão, ainda que bem mais “ortodoxa” que Esboços:

111. [Clemente de Alexandria, As Miscelâneas]

As Miscelâneas (*), em oito livros, contém um ataque às heresias e aos pagãos. O material é disposto promiscuamente e os capítulos não estão em ordem, razão pela qual o próprio dá ao final do sétimo livro, nas seguintes palavras: “Visto que estes pontos foram meticulosamente discutidos e nossa formulação ética foi esboçada sumária e fragmentadamente, como prometemos, sendo espalhados aqui e ali ensinamentos calculados para acender a chama do verdadeiro conhecimento, de modo que a descoberta dos mistérios sacros pode não ser fácil para nenhum dos não-iniciados, e assim por diante. Essa, diz o próprio, é a razão pela qual o tema está tão desorganizadamente arranjado. Em uma cópia antiga, descobri que o título do trabalho é dado não apenas como Miscelâneas, mas na forma ampla seguinte: “Miscelânea de Comentários Gnósticos de acordo com a Verdadeira Filosofia”, livros 1-8. Os primeiros sete livros têm o mesmo título e são idênticos em todas as cópias. O título do oitavo livro,contudo, varia, assim como o tema. Em algumas cópias é chamado “Quem é o Rico que está salvo?” e começa, “ Os que … falas de louvor,” etc.; em outras é chamado de “As Miscelânea, livro oitavo”, como os outros sete e começa, “Mas nem mesmo o mais antigo dos filósofos,” etc. A obra é em algumas partes infundada, mas não como Esboços, de cujo alguns argumentos ela refuta.

Diz-se que Clemente escreveu diversas outras obras, das quais as seguintes são mencionadas por outros escritores: “Sobre a Páscoa“; “Sobre o Jejum“; “Sobre o Discurso do Mal“; “Sobre os Cânones Eclesiásticos” e “Contra Aqueles que seguem as Errôneas Doutrinas dos Judeus“, dedicada a Alexandre, bispo de Jerusalém. Ele produziu durante o reinado de Severo e seu filho Antonino em Roma.

(*)Stromateis: literalmente, sacos de viagem onde roupas de cama e miudezas são guardadas.

Miscelâneas é uma obra engraçada, pois uma simples espiada em seu texto refuta que Clemente teria sido gnóstico, fugira ao martírio (por ser gnóstico) e advogava reencarnação aos moldes ocidentais. Ou pelo menos, numa versão bem tacanha de karma. O segundo livro de Miscelânea, por exemplo, dedica o capítulo oitavo para refutar teses gnósticos como Basílides e Valentino. No livro quarto, o capítulo VII é denominado: “A Santidade do Mártir” e assim começa:

Então aquele que mentiu e mostrou-se infiel e sublevado para o exército do diabo, em que mal pensamos estar ele? Ele calunia, portanto, o Senhor, ou melhor mentiu quanto a sua própria esperança que crê não em Deus; e crê não no que Ele ordenou. E então? Não está ele, que renega ao Senhor, negando a si mesmo? Pois não rouba seu Mestre de Sua autoridade, o que priva si mesmo de sua relação com Ele? Ele, então, que nega o Salvador, nega vida;” pois a luz era vida” (Jo 1:4). Ele não os chama de homens de pouca fé, mas de incréus e hipócritas (Mt 4:30), que tem o nome escrito neles, mas nega que sejam legítimos crentes. Mas o fiel é chamado de servo e amigo. De forma que se alguém se ama, ama o Senhor e professa a salvação de que ele pode salvar sua alma. Embora de morras por seu próximo por amor e consideres o Salvador nosso próximo(pois diz-se que o Deus que salva está próximo em respeito ao que é salvo); fazes assim, escolhendo a morte por causa da vida e sofrendo por teu próprio bem em vez do dele. E não é por isto que ele é chamado irmão? Aquele que, sofrendo por amor a Deus, sofreu por sua própria salvação, enquanto ele, por outro lado, que morre por sua própria salvação, persevera no amor ao Senhor. Pois sendo vida, no que sofreu desejou sofrer para que pudéssemos viver por seu sofrimento.

Clemente fala de forma quase poética que os optam pela vida (negando a Cristo) escolhem, na verdade, a morte; ao passo que os que morrem pela salvação vivem e espalham vida entre os que permanecem. Pode estar agora se perguntando por que Clemente fugiu de Alexandria durante a perseguição? Ele mesmo dá a resposta dá a resposta no capítulo Xdo livro IV:

Quando, novamente, diz Ele, “Quando vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra, (Mt 10:23)” não aconselha uma fuga, como se a perseguição fosse algo ruim, nem os ordena fugir, como que em pavor dela, mas deseja que não sejamos nem autores nem cúmplices de nenhum mal a ninguém, seja a nós mesmos ou ao perseguidor e assassino. Pois ele, de certa forma, nos proclama a tomarmos conta de nós mesmos. Mas o que desobedece é precipitado e incauto. Se aquele que mata um homem peca contra Deus, o que se apresenta por conta própria perante o assento do tribunal se torna culpado de sua morte. E assim também é quem não evita a perseguição, mas por ousadia amostra-se para a captura. Tal, até onde se encontra, torna-se um cúmplice no crime do perseguidor. E se usa a provocação, ele é totalmente culpado, provocando uma fera selvagem.

Em outras palavras: se fores capturado não negue a Cristandade, mas não fique “dando mole” por aí. Palavras de moderação. Ainda no livro IV, Clemente volta a criticar Basílides no capítulo XII (o seguinte é dedicado a Valentino), apontando uma postura bem bitolada dele quanto ao sofrimento e ao martírio:

Mas a hipótese de Basílides diz que a alma, tendo pecado previamente em outra vida, enfrenta castigo nesta – a alma eleita com honra pelo martírio, a outra purgada pela punição adequada. Como pode isso ser verdade, quando abraçar e sofrer a punição ou não depende de nós mesmos? Pois no caso do homem que negará [ser cristão], a Providência, como sustenta Basílides, deixa de ter relação. Perguntá-lo-ei, então, no caso de um fiel que foi preso, se ele confessará e será punido em virtude da Providência ou não? Pois se caso negar, ele não será punido. Mas se, com propósito de escapar e se evitar a necessidade de punir tal sujeito, disser que a destruição de todos aqueles que negam é da Providência, ele será um mártir contra a sua vontade. Como seria esse o caso, já que há guardada no céu a mui gloriosa recompensa a ele que testemunhou, por seu testemunho? Se a Providência não permitiu o pecador sentir as consequências de pecar, é injusta em ambos os casos; tanto não resgatando quem está fadado à punição pelo bem da justiça e tendo resgatado quem desejava o mal fazer, tendo ele o feito até onde lhe dizia a vontade, todavia [a Providência] tendo evitado o ato [de execução] e injustamente favorecido o pecador. E quão ímpio é ao deificar o diabo e se atrever achamar o Senhor de homem pecaminoso!(…)

A última fase é interessante, pois uma consequência imediata da lógica simplista de Basílides seria concluir que o próprio Cristo teve “culpa no cartório”. Bem, como a lógica espírita é um pouco mais flexível, alguém dirá que ele sofreu por necessidade da missão por ele abraçada. Tudo bem, então por que João Batista teve de morrer decapitado (supostamente expiando a ordem de Elias de matar 400 sacerdotes de Baal) e não por um cumprimento de missão? Por que as coisas assim melhor aparentam se encaixar? Irritar crentes e católicos? Defender-se deles? Não importa a teologia, sempre há um pouco de arbitrariedade e livre associação…. e mais embaixo, Clemente prossegue:

Se, então, um deles vier dizer, em resposta, que o mártir é punido por pecados cometidos antes desta incorporação e irá novamente colher o fruto de sua conduta nesta vida, pois tais são os desígnios da [divina administração], perguntar-lhe-emos se a retribuição ocorre pela Providência. Mas se não for da divina administração, o planejamento de expiações se foi e sua hipótese caiu por terra; mas se as expiações ocorrem devido à Providência, punições são devido à Providência, também. Mas a Providência, embora comece, por assim dizer, a agir com o Soberano, ainda assim é implantada nas substâncias junto com a origem delas pelo Deus do universo. Tal sendo o caso, devem confessar ou que a punição não é justa e aqueles que condenam e perseguem os mártires [não] fazem o certo, ou que as próprias perseguições são elaboradas pelo arbítrio de Deus. Labuta e medo não são, então, como dizem eles, incidentes às coisas como ferrugem é ao ferro, mas chegam à alma pelo próprio arbítrio dela. E sobre estas questões há muito o que falar, o que será reservado para futura consideração, tomando-as no seu devido curso.

Em outras passagens de Miscelâneas e outras obras, Clemente é francamente contra noções de pré-existência, tais como:

Os filósofos a quem temos mencionado, dos quais os marcionitas blasfemamente derivaram sua doutrina de que o nascimento é um mal, à qual eles então se ufanam como se fosse sua própria ideia, não sustêm que ele seja mal por natureza, mas apenas para a alma que se apercebeu da verdade. Pois pensam que a alma é divina e desceu cá a este mundo como um lugar de punição. Em seu ponto de vista as almas que ficaram incorporadas precisam se purificadas. Mas esta doutrina não é a dos marcionitas, a dos que acreditam que as almas forma aprisionadas em corpo em se mudam desta prisão e se submetem à transmigração. Haverá uma oportunidade de responder a estes quando viermos a falar da alma.

Miscelâneas, III, 3

E se esforçando ainda mais longe para suster sua opinião ímpia, ele [Júlio Cassiano,a.k.a. Cassia, criador do docetismo] acrescenta: “Não se poderia justamente descobrir uma falha no Salvador se ele fosse responsável por nossa formação e então nos libertou do erro e deste uso de órgãos gerativos?” Quanto a seu ensino, é o mesmo de Ticiano. Mas ele divergiu da escola de Valentino. Por conta disto, diz: “Quando Salomé perguntou quando saberia a resposta a suas questões, o Senhor disse, Quando esmagares aos pés o manto da vergonha e quando dois forem um, e o macho com a fêmea, e não houver nem macho, nem fêmea

Em primeiro lugar, não temos tal dito nos quatro Evangelhos que nos foram legados, mas no Evangelho dos Egípcios. Em segundo, Cassia me parece não saber referir-se à ira e ao desejo quando fala da fêmea. Quando estes atuam, aí se segue arrependimento e vergonha. Mas quando um homem não cede nem à ira, nem ao desejo, ambos crescem em consequência do mal hábito ou criação de modo a enevoar e obscurecer o raciocínio, mas tira dele a escuridão que causam com a penitência e a vergonha, unindo espírito e alma em obediência ao Verbo, então, como também disse Paulo, “não há entre vós nem macho, nem fêmea“. Pois a alma deixa esta forma em que macho e fêmea são distinguíveis e não sendo nem uma nem outra, muda para a unidade. Mas este digno companheiro pensa à moda de Platão que a alma é de origem divina e , tendo-se tornado fêmea por desejo, desce para cá das altura para o nascimento e corrupção.

Miscelâneas, III, 13

Era um costume dos judeus lavarem-se frequentemente depois de estarem acamados.Então, bem diziam: “Sê puro, não por banhar-se pela água, mas em mente“. Por santidade, como eu a concebo, é a perfeita pureza de mente, e atos, e pensamento, e palavras também, e, num último degrau, pureza de sonhos. E a suficiente purificação a um homem, presumo eu, é o total e sincero arrependimento. Sendo assim, condenando a nós mesmos por nossos atos passados, vamos adiante depois destas coisas se estabelecerem nos pensamentos e libertarem nossa mente tanto do que nos agrada aos sentidos como das nossas transgressões passadas.

Miscelâneas, IV, 22

O justo Jó diz: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu para lá retornarei” (Jó 1:21); não despido de posses, visto ser uma coisa comum e trivial, mas, como um homem justo, ele parte despido de mal e pecado e da repugnante forma que acompanha aqueles levaram vidas más. Por isso foi o que foi dito: “Se não converterdes e não vos tornarem como crianças” (Mt 18:3), puros em carne, santos em alma pela abstinência de maus atos; mostrando que Ele nos teria sendo tais quais nos gerou de nossa mãe – a água. Pois o objetivo de uma geração suceder à outra é imortalizar pelo progresso. “Mas a lâmpada do ímpio será extinta” (Jó 18:5 – Pr 13:9). A pureza do corpo e da alma da qual o gnóstico compartilha, o todo-sábio Moisés indicou, ao empregar a repetição ao descrever a incorruptibilidade do corpo e da alma de Rebeca, desta forma: “Agora a virgem era bela e nenhum homem a conhecera“(Gn 24:16). E [o nome] Rebeca, interpretado, significa “glória de Deus”, a glória de Deus é a imortalidade. Isto é, na verdade, virtude, não desejar outras coisas, mas ser inteiramente consagrado ao templo do Senhor. Virtude é paz devida e um estado de bem-estar ao qual o Senhor a mandou quando disse: “vá em paz” (Mc 5:34). Pois Salém é, por interpretação, paz; da qual nosso Salvador é entronado Rei, como Moisés diz, Melquisedeque rei de Salém, sacerdote do Deus altíssimo, que deu pão e vinho, suprimento consagrado de comida para um tipo de Eucaristia. E Melquisedeque é interpretado como “rei justo”, e o nome é sinônimo para virtude e paz. Basílides, porém, supõe que a Virtude e sua filha Paz residem estacionárias na oitava esfera.

Miscelâneas, IV, 25

A alma não é enviada dos céus para o que é pior. Visto que Deus cria todas as coisas para o que é de melhor. Mas a alma que escolheu a melhor vida – a vida que vem de Deus e da virtude – troca a terra pelo céu. Com razão, portanto, Jó, que atingira o conhecimento, disse: “Agora reconheço que tudo podes; e nada é impossível a Ti. Pois quem me fala do que eu sabia, coisas grandes e maravilhosas com as quais não estava familiarizado? Sinto-me vil, considerando-me ser pó e cinzas” (Jo 42:2,3,6). Pois aquele que, se encontrando em estado de ignorância, é pecador, “é pó e cinzas;” enquanto o que está em estado de saber, sendo assimilado o tanto quanto possível a Deus, já é espiritual e, portanto, eleito.

Miscelâneas, IV, 26

Deus nos criou quando não pré-existíamos. Deveríamos também saber onde estávamos, se pré-existíssemos, e como e por que fomos ajuntados aqui. Mas se não pré-existimos, somente Deus é o autor do nascimento. Como ele nos fez quando não existíamos, portanto, traz-nos à existência, salva-nos por sua própria graça, se nos tornamos dignos e idôneos; de outra forma, dar-nos-á um fim apropriado, porque “é senhor dos vivos e dos mortos“.

Eclogae propheticae (Extratos Proféticos) 17:1,2.

É provável que os autores citados no começo deste item jamais tenham lido tais passagens de Clemente ou de qualquer obra dele. Clemente claramente rejeita a ideia de estado original de graça que foi seguido por uma queda em corpos humanos – o que o distingue totalmente de seu discípulo Orígenes; dá como condição necessária para a purificação apenas o arrependimento “puro e sincero”, sem a necessidade de expiações; ataca pre-existencialistas como Júlio Cassiano e Basílides – sendo este último um adepto da transmigração, rotula essa doutrina como algo “à moda de Platão”; interpreta alegoricamente Jó 1:21 num sistema de vida única, um versículo que hoje tem alegorias reencarnacionistas. O autor de Miscelâneas, Extratos Proféticos, Pedagogo, etc., se revela muito diferente do de Esboços. O que exatamente havia nessa última e o que era exagero de Fócio jamais saberemos até que se encontre novo exemplar. Até lá, é pura especulação.

Isso põe em xeque a alegação de Clemente como reencarnacionista. Quanto à postura mística de Clemente é preciso ressaltar que uso ele dá para ao termo gnose. Clemente criticava muito os gnósticos clássicos por desejaram uma fé exclusivamente racional, bem como devotos comuns com sua crença exclusiva em êxtases. Num resumo feito por Philip Schaff, tradutor do livro para o inglês na coleção Ante Nicene Fathers:

O título completo de “Stromata“, segundo Eusébio e Fócio, era (…) “Coleções de Miscelâneas de notas especulativas (gnósticas) em acordo com a Verdadeira Filosofia de Titus Flavius Clemens“. O objetivo da obra, em concordância com este título, é, em oposição ao gnosticismo, fornecer os materiais para a construção de uma verdadeira gnose, uma filosofia cristã, nas bases da fé, e conduzir a este mais elevado conhecimento aqueles que, pela disciplina do Tutor, tinham treinado para isso. O trabalho consistia originalmente de oito livros. O oitavo está perdido; o que aparece sob este nome claramente não tem conexão com o resto de Stromata. Várias considerações tem sido dadas quanto a significado da palavra distintiva do título (Στρωµατεις); mas todas concordam em considerá-la como indicativas do caráter miscelânico de seus conteúdos. E são muito miscelânicos. Consistem de especulações de filósofos gregos, de heréticos e daqueles que cultivavam a verdadeira gnose cristã e citações da sagrada Escritura. Essa última ele afirma ser a fonte da qual o mais alto conhecimento cristão é extraído; como ela foi de onde os germes da verdade em Platão e na filosofia helênica foram extraídos. Descreve a filosofia dos gregos como uma preparação divinamente ordenada dos gregos para a fé em Cristo, como foi a leis dos hebreus; e mostra a necessidade e valor da literatura e cultura filosófica para a obtenção do verdadeiro conhecimento cristão, em contraposição ao numeroso corpo entre os cristãos daqueles que julgavam o aprendizado como inútil e perigoso. Ele se autoproclama um eclético, acreditando na existência de fragmentos de verdade em todos os sistemas, que devem ser separados do erro; mas declarando que a verdade pode ser encontrada em unidade e completude apenas em Cristo, como foi dEle de onde todos os seus germes espalhados originalmente procederam. A “Stromata” foi escrita de maneira descuidada e até mesmo confusa; mas o trabalho é um de prodigiosa instrução e supre com material de grande valor para o entendimento de vários sistemas conflitantes que a cristandade teve de combater.

Trocando miúdos, Clemente teve seu verdadeiro conhecimento (gnose) oriundo da aplicação da filosofia helênica aos princípios de fé do cristianismo. Uma revelação de viés mais “ortodoxo” distinta dos gnósticos, a quem combatia e refutava. Boa parte do método alegórico criado em Alexandria visava criar interpretações capazes de tornar “palatáveis” passagens pesadas do Antigo Testamento, usadas por gnósticos para justificar ser o Iahweh dos hebreus inferior ao Pai do Novo Testamento, o que levaria à rejeição de quase toda herança judaica do cristianismo. Como resultado desse apanágio de Clemente, estamos diante de um escritor de estilo difícil, com forte herança helênica e cuja obra não pode ser reduzida a um todo coerente. O que dele chegou até nós é de caráter predominantemente “ortodoxo”, estando sob uma névoa a perdida obra Esboços: o que teria realmente saído da pena do próprio (“ou outrem sob seu nome”), o que seria exagero de Fócio ou o quanto ela representaria de um estágio do pensamento clementino, que evoluíra posteriormente? De qualquer forma, posso afirmar com grande certeza que Clemente de Alexandria foi um escritor complexo e que, tal como seu pupilo Orígenes, vem sendo excessivamente simplificado para fins polemistas no embate pró e contra a reencarnação.

PS: Clemente presidiu a escola catequética de Alexandria, não a universidade local (segundo J. R. Chaves), pelo que sei.