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Prezado Hater

23 de junho de 2017 2 comentários

O Coronel, personagem de War for the Planet of the Apes

Enquanto redigia minhas memórias em “Prezado Fred“, recebi um e-mail de alguém meio desesperado:

Assunto: Alerta
Xxxxxx Xxxxxx Xxxxxxx <xxxxxxx@yahoo.com.br> <Nome completo do cidadão e e-mai>
Para Falhas Do Espiritismo
02/13/16 às 10:21 AM
Xxxxxxxx Xxxxxxx, <Meu nome>

Muito cuidado ao revelar assuntos referentes a minha vida particular, pois poderá se decepcionar com a verdade. Você pode estar sendo usando por pessoas que há muito tempo tentam me caluniar e difamar com objetivos escusos. Embora não saiba do conteúdo de muita coisa, informo que existem eventos que ainda não posso revelar, pois colocará pessoas próximas a mim em situações bem desconfortáveis. A história de minha vida já dá por si só um livro, mas existem ainda páginas em branco que precisam ser vividas, bem como eventos que aconteceram que somente quando eu aposentar, poderei revelar. Esta atitude sua poderá arranhar sua credibilidade na internet! Outrossim, a partir do ano que vem colocaremos seus argumentos à prova através do XXXXX <sigla de grupo apologético>, mas pouparemos sua identidade, visando somente seu conteúdo publicado. Este é o trato de nossa trilogia em resposta ao Falhas do Espiritismo!

Até breve!

Atenciosamente,

Xxxxxx <Primeiro nome do cidadão>

“A invencibilidade repousa na defesa, a vulnerabilidade revela-se no ataque”.
(Sun Tzu).

Visite: http://www.xxxxxx.org/

Bem, não intencionando tirar o leite das crianças, vou poupar sua identidade também, porém deixarei uma quantidade de dicas grande o suficiente para que seu “grupo” saiba com quem estão lidando, se é que por lá não há mais gente capaz de atitude semelhante. Acho que nenhum deles paga suas contas, não?

A Conspiração

Muito cuidado ao revelar assuntos referentes a minha vida particular, pois poderá se decepcionar com a verdade. Você pode estar sendo usando por pessoas que há muito tempo tentam me caluniar e difamar com objetivos escusos.

Sem nenhum dado tangível que valide sua alegação, sou tentado a pensar que os illuminati se aliaram aos reptilianos em seus planos de dominação mundial e você é a última barreira no caminho deles. Zoeiras à parte, tenho bons motivos para não acreditar em ti, afinal já te peguei distorcendo o conteúdo do material deste portal quando lhe convinha. Se você age assim com o que tenho pleno conhecimento, o que não faria com o que me é ignorado.

“Uma charada embrulhada num mistério dentro de um enigma”

Embora não saiba do conteúdo de muita coisa, informo que existem eventos que ainda não posso revelar, pois colocará pessoas próximas a mim em situações bem desconfortáveis.

Então seus segredos podem ser qualquer coisa, inclusive coisa nenhuma. Sei que não tem muitos motivos para confiar em mim, porém se quiser obter algo extra de mim terá de arriscar.

Algo (quase) em comum

A história de minha vida já dá por si só um livro, (…)

Sou cético de que esteja com essa bola toda.

(…)mas existem ainda páginas em branco que precisam ser vividas, bem como eventos que aconteceram que somente quando eu aposentar, poderei revelar.

Acho que você talvez agora entenda porque usei um pseudônimo. Você usou seu nome verdadeiro desde o início, às vezes o nome completo. Se tudo fosse bem, ganharia muitos bônus por sua iniciativa, porém me parece que não esteve preparado para algum ônus quando as coisas desandassem.

Apelando para meu Ego

Esta atitude sua poderá arranhar sua credibilidade na internet!

Que credibilidade, diga-me? Você tem RG e CPF, mas Cyrix nunca existiu, caso não tenha percebido. Posso me reinventar em outro pseudônimo quantas vezes quiser enquanto existir a Internet. Será uma “reencarnação sem morte”. De certa forma, fiz isso uma vez, apenas não troquei de nome artístico. Por outro lado, “Falhas do Espiritismo” nunca estará em meu Curriculum Vitae. Ele é satisfação (ou obsessão) pessoal, apenas isso. Minha verdadeira carreira passa léguas daqui.

Uma falsa modéstia

Outrossim, a partir do ano que vem colocaremos seus argumentos à prova através do XXXXX <sigla de grupo apologético>, mas pouparemos sua identidade, visando somente seu conteúdo publicado.

A primeira pessoa do plural foi empregada, portanto, pergunto: você e mais quem? Ou tudo não passa de um “plural de modéstia”, sendo uma questão de honra só sua me refutar? Isso me é importante, pois eu gostaria de saber se você é a única maçã (até agora) podre do seu grupo de apologistas ou se há mais. Digo podre porque agora sei…

… do que você é capaz

mas pouparemos sua identidade, visando somente seu conteúdo publicado. Este é o trato de nossa trilogia em resposta ao Falhas do Espiritismo!

“Chantagem” agora tem outro nome? Não existe trato com chantagistas. Cedo ou tarde eles farão outra demanda com a mesma moeda de troca. Então, meu caro, faça o que você quiser! Ainda que me constranja de início, vai me libertar no longo prazo, pois poderei finalmente sair das sombras e tonar o portal útil para mim. Quem sabe até profissionalizar-me.

Mau discípulo

Até breve!

Atenciosamente,

Xxxxxx <Primeiro nome do cidadão>

“A invencibilidade repousa na defesa, a vulnerabilidade revela-se no ataque”.
(Sun Tzu).

Visite: http://www.xxxxxx.org/

Por favor, não macule a memória de Sun Tzu com uma citação pinçada para fazer uma frase de efeito e fingir que é o tal. Em vez disso, faça uma citação longa, generosa e verdadeiramente instrutiva:

Capítulo IV – Disposições
Sun Tzu disse:

  1. Antigamente os guerreiros bem adestrados primeiro se faziam invencíveis para depois esperar o momento de vulnerabilidade do inimigo.

  2. A invencibilidade depende de nós mesmo; a vulnerabilidade do inimigo, dele;

  3. Segue-se que os homens conspícuos na guerra podem fazer-se invencíveis, mas não ter a certeza de provocar a vulnerabilidade do inimigo.

    Mei Yao-ch’en: Aquilo que depende de mim, eu o faço; aquilo que depende do inimigo, disso não estou certo.

  4. Por isso se disse que é possível saber vencer, mas não necessariamente conseguir vencer.

  5. A invencibilidade reside na defesa; a possibilidade de vitória no ataque.

  6. Defendemo-nos quando nossa força é insuficiente; atacamos quando ela é sobeja.

  7. Os peritos em defesa como que se escondem sob as nove camadas da terra; os versados no ataque movem-se como que acima das nove camadas do céu. Dessa forma mostram-se capazes de proteger-se e de obter uma vitória completa.

    Tu Yu: Os peritos na preparação de defesas acham fundamental contar com a força de obstáculos tais como montanhas, rios e encostas. Eles tornam impossível ao inimigo saber onde atacar. Como que se ocultam sob as nove camadas do solo.

    Os peritos na arte de desfechar ataques acham fundamental contar com as estações e as vantagens do terreno; provocam inundações e incêndios conforme a situação. Tornam impossível ao inimigo saber onde se entrincheirar. Lançam o ataque como se fora o raio vibrado do mais alto das nove camadas do céu.

    (. . .)

Sun Tzu, A Arte da Guerra, Paz e Terra, 1999, pp 45-6.

Com essa mensagem, demonstraste sua vulnerabilidade de forma lastimável. Já o fizeras antes numa pretensa refutação.

Diga “Cyrix” se for capaz!

Já que prontamente agiu ao me enviar a mensagem antes que eu adentrasse nas Flame Wars dos fóruns virtuais, presumo que estivesse me acompanhando de perto ou alguém te mantivesse a par. Isso demonstra, de alguma forma sou importante para ti, nem que seja como o detrator que ama odiar. É o que os anglófonos chamam de hate-watching. Calma, também procuro saber o que falam de mim por aí, e um belo dia encontrei um artigo seu longo e prolixo em que se gabava de suas “artes como debatedor”. Após um começo piegas em que o livro Torá: a Lei de Moisés é apresentado como ofertante prova da reencarnação na Bíblia nos versículos Ex 20:5 e 34:7 numa fatídica livraria, começo a ler parágrafos que aparentam ser respostas a argumentos meus contra Severino Celestino da Silva. Até aí tudo bem, estavas fazendo teu papel. O estranho, porém, residia numa particularidade: em instante algum houve uma alusão a este portal era feita, muito menos o apelido Cyrix era mencionado. Quem de fora do seu grupo lesse o artigo perceberia que esse autor era defendido de críticas, porém não saberia exatamente quais eram elas, nem quem as fez. Senti-me como uma espécie Lorde Voldemort, “aquele que não deve ser nomeado” ou “Você sabe quem”, tamanho é o medo que sentem dele. Como a carapuça aparentava ser do meu tamanho, resolvi prová-la.

Para ser sincero, aquilo sequer poderia ser chamado de uma verdadeira resposta, pois você fez uma jogada muito malandra: não respondeu a crítica alguma explicitamente; em vez disso, recontou os pontos do Dr. Severino com outros “fundamentos”. Dessa forma, esquivou-se de responder aos pontos mais indefensáveis, forneceu explicações sobre alguns pormenores e, de quebra, pregou para o coral. Para terminar, encheu linguiça com um extrato imenso do livro Analisando as Tradução Bíblicas. Nessa arte do debate, você fez um longo monólogo com o que julgou serem seus melhores momentos e os piores dos outros. Assim fica fácil.

Como se não bastasse, você cometeu erros crassos como, por exemplo, ignorar que trabalho com a mesma edição crítica da Septuaginta que o Dr. Severino e insinuou que minha versão era tendenciosa. Eu poderia ter feito uma refutação avassaladora, mas concluí que não valia a pena gastar meu escasso tempo livre com articulistas desonestos. Fiz algo melhor: elevei o nível do artigo original para “além do nono céu”, seguindo o conselho de Sun Tzu e explicitando ainda mais todas as fraquezas de Analisando…. Não deu outra: você retirou seu texto do ar e só voltou com ele depois de lapidá-lo um pouco, fazendo menções bem en passant às fragilidades que tentara esconder. Acho que ainda pensava que estou no nível de argumentação do pessoal do CACP.

Quer me refutar? Eu te ajudo!

Baseado nesse malfadado artigo, darei algumas dicas que te farão do um articulista melhor. Se bem que seu ponto de partida é tão ruim que não será preciso muito. Vamos lá:

  1. Deixe claro quem você está refutando: caso sua refutação seja realmente boa, não há por que temer que seus leitores leiam o original. Do contrário, corre-se sério risco de começar refutar a uma caricatura do original, que será mais fácil de trabalhar e muito ilusória quanto ao seu potencial;

  2. Faça citações grandes: já disseram que “texto fora de contexto é pretexto”. Clichês à parte, isso é uma grande verdade (e por isso que virou clichê). Siga o exemplo de Orígenes em sua obra Contra Celso. Por ela sabemos que a obra refutada se chamava “O Verdadeiro Discurso” ou “A Verdadeira Razão” e, embora não tenha sobrado exemplar algum do texto anticristão desse filósofo, pode-se ter uma boa noção dele devido às fartas citações que Orígenes fazia;

  3. Aprenda inglês: em certa altura você se esquiva de analisar certo trecho do Talmude Babilônico (tratado Sanhedrim) por ainda esperar uma tradução em português. Curiosamente, é o mesmo tratado que utilizei em Quanto pesa a alma?, que peguei de uma tradução inglesa, online, gratuita. Sinceramente, tire um ano sabático e aprenda inglês. Não estou falando para você se tornar superfluente, capaz de assistir filmes sem dublagem, nem legenda, ou discutir filosofia com um nativo ao telefone. Você precisaria apenas ler. Você e todos os outros monoglotas do seu grupo não têm a mínima condição de autointitular “pesquisadores” sem essa ferramenta. Isso já bastaria para ver que não adulterei nada em minha tradução. Para vocês fazerem suas próprias traduções, um bom dicionário e prática lhes ajudariam. Agora, se seu inglês, digamos, já “dava pro gasto”, então você tirou o corpo fora para ganhar tempo. Outra esperteza;

  4. Arrume uma bibliografia decente: que muito provavelmente estará em inglês, afinal a maior parte da produção científica da atualidade é nesse idioma. Preste atenção: científica, ou seja, textos que procuram embasar seus argumentos em fontes primárias e submeterem-se ao contraditório. Cansei de ler textos espíritas que só trazem (quando trazem) referência a outros textos espíritas/espiritualistas. Vejo dentistas, auditores fiscais, juízes, jornalistas, etc. se arvorando de autoridade para falar do passado, já historiador que se preze, nada. E, principalmente ao lidar com ciências humanas, é bom saber o quanto a tese proposta é controversa ou não, do contrário você clamará como certa uma publicação pelo simples fato de ter sido publicada;

  5. Tire o escorpião do bolso: não vai encontrar a maioria desses livros em sebos nacionais. Foi durante meus estudos sobre o II Concílio de Constantinopla que mais maltratei meu cartão de crédito na Amazon e em outras livrarias virtuais estrangeiras. Foram três anos de muito bons investimentos. Não sei como anda seu bolso no momento, mas lembre-se que sou apenas um, ao passo que você tem seus confrades. Alguns, julgo eu, bem de vida, financeiramente falando. Fazer uma vaquinha será uma boa forma de testar sua coesão interna e verificar se são realmente um grupo organizado ou mero bando;

  6. Cuidado com as autoridades: a escolha de uma boa bibliografia requer cuidado, porém. Primeiramente, alguns escrevem livros aventurando-se em temas sobre os quais não têm expertise alguma. Incluiria nesse rol José Reis Chaves, Elizabeth Prophet e, sim, Severino Celestino da Silva. Boa parte dos membros desse grupo já tem a conclusão de seus estudos pronta antes de sequer começar; apenas catam e organizam dados corroboradores e fingem inexistirem controvérsias. Por outro lado, há um grande número de autoridades cuja formação realmente segue seus estudos, mas lembre-se: não possuem divina infalibilidade. Autoridades antigas podem já estar defasadas em diversos pontos; por exemplo, eu adoro Edward Gibbon e seu Declínio e Queda do Império Romano, mas sou comedido em seu uso, pois sei que muita coisa sobre o tema foi revista de duzentos anos para cá. Além disso, atenção às envoltas em grande controvérsia, como esotérico Champlin. Existem, também, o temas que são controversos por sua própria natureza – como o perfil do Jesus Histórico – e nesses você pode encontrar autores igualmente competentes falando coisas díspares, por pertencerem a escolas diferentes. Por fim, mas não menos importante, peço que não envergonhe suas fontes se escondendo atrás delas. Não use autoridades como “carteirada intelectual”. Elas, em si, são apenas humanos como nós; seus argumentos e provas é que são fundamentais. Não faça como certo cidadão que fica clamando que Bart Ehrman é o “maior biblista do mundo” e ainda confunde “variações” com “alterações” (da Bíblia), demonstrando não entender muito bem do que Ehrman escrevera;

  7. Prefira o acadêmico ao de divulgação: Por falar em Bart Ehrman, ele é, de fato, bom, mas não é “o maior biblista do mundo” e nem ele se rotula assim. Creio que foi uma jogada de marketing da Prestígio, a editora no Brasil de O que Jesus disse? O que Jesus não disse? – Quem mudou a Bíblia e por quê. É um grande divulgador, devo concordar, e competente em sua área. Mas se quer realmente ler um livro dele, comece por The New Testament: A Historical Introduction to the Early Christian Writings, que é seu livro escrito para estudantes de seminários protestantes. É outro nível de discussão e, ao fim de cada capítulo, há dicas para continuar seu estudos sobre o tema em questão. Seus livros para o grande público são bem escritos e desenvolvem alguns tópicos que neste livro, ficaram limitados a um capítulo; porém nenhum deles dará uma visão abrangente. Ah! Já ia me esquecendo: está em inglês;

  8. Se possível, leia os originais: já que o Pentateuco espírita é o ponto de partida para os novatos do movimento, porque você se furtaria de ler os textos originais de autores antigos? Sim, essa é uma pergunta capciosa. De fato, é possível aprender sobre determinado autor e época sem ler todos os originais ou apenas extratos. A questão real é qual pedra de toque usarias para saber quem está sendo fidedigno ao objeto de estudo e quem o distorce fazendo uma releitura muito pessoal? Estaria um antagonista exagerando na crítica, um simpatizante nos elogios e um pretenso isento na falta de substância de sua análise? É possível enxergar “fora da caixa”? Para responder essas perguntas, terá você mesmo de ler algo de fontes em primeira mão sobre determinado assunto e tecer seu próprio juízo separando estudiosos de impostores. Mas para isso, você tem que ter…;

  9. Fontes, diga quais são elas é bizarro, mas você faz alusão a certos “eruditos” que nunca são especificados ou nomeados. Será que eles existem, ou será algum deles já foi chamado de “detrator” por você ou pelos seus?

  10. Não diga apenas a verdade, mas toda a verdade: quando citar os versículos que contradizem a ideia de maldições hereditárias, cite, também os que a corroboram (que, aliás, estão em maior número). Em outras palavras, não faça “cherry picking“. Depois, tente explicar essa contradição sem aparentar dar uma de “ensaboado” para quem está de fora;

  11. Não dê tiro no pé: Não capítulo VIII, p. 135 da 4ª edição de Analisando as Traduções Bíblicas, Dr. Severino diz:

    Não sei como encontraram este sentido para a língua portuguesa, nem de onde o tiraram, pois, no hebraico, bem como, no grego e no latim, ele não existe.

    No caso, ele se refere ao uso da preposição “até” em Ex 20: e 34:7, no trecho “até a terceira e quarta geração“. Você tacitamente admitiu a possibilidade, na língua latina, de uma tradução da preposição in como “até”, caso se seguisse a norma clássica da regência dessa preposição no caso acusativo. De certa forma, ao elevar o nível da discussão, você soube de onde “tiraram isso” e, por vias tortas, demonstrou o quão rasa foi a análise da tradução feita por Severino, ao menos da versão latina. A questão é que você não aceitou a norma clássica nesse caso, o que te levou a…

  12. Apelar – sem isso, por favor: por não aceitar a tradução latina convencional, você elaborou uma elucubrada tese de que Jerônimo – o tradutor da Vulgata – teria usado a regência do acusativo da preposição in objetivando um sentido que, na norma clássica, corresponderia à regência dela no ablativo: “em”. Era um parágrafo particularmente confuso em que você fez uma série de considerações especiais para convencer seu leitor de que a tradução do Dr. Severino seria válida. Desculpe, mas esse bizarro contorcionismo foi infeliz:
    1. Não se baseia em nenhuma análise da gramática da Vulgata propriamente dita, a não ser o alegado por “estudiosos” e “eruditos” que nunca são nomeados;

    2. Até acerta ao sugerir que o latim da Vulgata não corresponde exatamente ao clássico, mas erra no grau: se quer um texto latino cheio de vulgarismos, deveria ter optado pela Vetus;

    3. Acha que por se chamar Vulgata (i.e., para o vulgo), ela deveria estar escrita em linguagem popular. Isso é um anacronismo, pois esse termo originalmente se referia à Vetus (cf. Agostinho de Hipona, Cidade de Deus, livro XVI, cap. VIII), apenas sendo usado para designar a tradução/revisão de Jerônimo a partir da Idade Média;

    4. Sequer a Vetus te confirmaria: Jerônimo, quando faz uso da Vetus, revela que seu exemplar não trazia a tradução que você gostaria;

    5. Tampouco Jerônimo (e Agostinho) interpretava(m) esses versículo do jeito que você gostaria. Como sei disso? Fui ler o que esse(s) cidadão(s) escreveu(ram) a respeito, em vez de inventar outro(s) que me aprouvesse(m);

    6. Outra vez: seu tecnicismo mostrou o quão raso ou, melhor, inexistente foi o tratamento dado no livro do Dr. Severino à regência da preposição in. Tem certeza que vale a pena defendê-lo só por ter sido escrito por um confrade?

    Tudo bem que se queira fazer uma alegação contundente, porém, para tanto, é mister alguma solidez nos fundamentos. E você fincou seus alicerces na areia dos “achismos”;

  13. Seja coerente: e lembre-se que isso não significa estar certo, mas, sim, não se contradizer, seja por palavras ou atitudes. Pode-se estar tremendamente equivocado e ainda assim em conformidade com seus princípios. A incoerência, no seu caso, deu-se ao tratar o texto hebraico usando regras normativas de gramática e o latino por uma (errônea) abordagem descritiva do que teria sido o latim vulgar. Ou seja, a língua hebraica não teria evoluído nada durante a transmissão do texto massorético, ao passo que a latina não só evoluía, como seguiu para uma direção muito conveniente para ti. Poderia até haver uma razão para tanto, porém, no balanço geral, o único fundamento dessa tese foi sua própria conveniência. Ah! Não se esqueça: “em” com o sentido de “a/até” ainda é usada até hoje na linguagem coloquial do português brasileiro;

  14. Reconheça que Deus também evolui: ao menos na cabeça de seus adoradores. Você comete uma série de wishful thinkings ao recusar a admitir a ideia de maldições hereditárias entre os antigos hebreus. Era uma doutrina injusta? Sim, e daí? Aquele era o deus que eles precisavam para um contexto pré-exílio, quando não havia, ainda, crença em vida após a morte. As concepções acerca do deus único e seu relacionamento com os mortais mudou após a passagem por Babilônia e continuaram a mudar (e se diversificar) ao longo da sucessão de invasores estrangeiros. Se você, antolhado por sua fé cega, acha que a reencarnação é a única forma de salvar Ex 20:5 e 34:7, então você (1) é pouco criativo e (2) tem um baita narcisismo teológico. Uma terceira opção é você saber que as alternativas existem e não julgá-las tão elegantes como considera a reencarnação. Mais um motivo porque seu “debate” não passa de um monólogo;

  15. Não tape o Sol com peneira: na primeira versão, você se valeu de um exemplar interlinear (inglês/grego) da LXX, cuja leitura de Ex 20:5 lhe era conveniente e chegou ao ponto de cogitar que alguns portais com uma edição virtual da LXX haviam adulterado o versículo grego para conciliá-lo com a leitura “até a terceira…” do texto inglês. Pena que você não leu Nm 14:18 do seu próprio exemplar para encontrar justamente essa leitura. Tudo bem, talvez não tenha se tocado. Por isso mesmo esfreguei na sua cara que a edição crítica usada pelo Dr. Severino – a de Alfred Rahlfs – traz “até a terceira…” como leitura principal e “na terceira…” como uma leitura variante encontrada no Códice Alexandrino. Ela ainda trazia “na terceira…” em Dt 5:9 e “até a terceira…” em Nm 14:18. Estava aí a explicação para as diferenças entre as leituras: códices distintos. Você até passou a fazer menção a Rahlphs na revisão que fez, mas desviou do ponto mais nevrágico: o Dr. Severino tinha pelo acesso à leitura “até a terceira e quarta geração” em Ex 20:5 na LXX, porém omitiu esse fato em seu livro Analisando as Traduções Bíblicas, exibindo apenas Ex 34:7. Muito conveniente (e grave), não acha? Sequer se aferrar à leitura alexandrina (como você fez) ele tentou. Aliás, exatamente essa oscilação entre “até” e “em” diversos versículo paralelos da LXX sugere que a confusão de significados nas preposições hebraicas já estava ocorrendo nos últimos séculos antes da Era Cristã. E com quem será que aprendeste a respeito das trocas preposicionais, hein?

  16. Dê créditos a quem faz jus: na segunda versão você passou a mencionar a edição crítica da LXX feita por Rahlphs e a usar expressões como “trocas preposicionais em códices”. Isso já me era familiar, porém gritante mesmo foi isto:

    Havia uma certa sobreposição semântica nas duas versões pesquisadas, sendo estas entre εως e επι de acusativo. Isso dever ter repercutido nas versões latinas.

    p. 16

    Substituindo-se a preposição εως por εις fica praticamente igual a uma frase que eu disse neste portal. Pois é, meu hater de estimação: você aprendeu algo comigo e recusou-se a admitir que se “apoiou em meus ombros” também! Você pode até jurar ajoelhado que não foi nada disso, alegando que chegou à conclusão por via independente – usando outra gramática grega -, e até enganar meio mundo. Só me pergunto se já conseguiu enganar a si mesmo, tornando-se o mais perfeito tipo de mentiroso: o que acredita nas próprias lorotas. Como escrevi isso antes e sei que você me lê, não caio nesse papo. Um confrade seu escreveu um e-book sobre a questão da reencarnação e o II Concílio de Constantinopla e, apesar de nossas inúmeras diferenças, ele me reconheceu meu artigo como o motivo da revisão de sua postura anterior. O coroamento da ironia é que você prefaciou justamente esse e-book. Não que eu me ressinta pela falta de reconhecimento, o que me preocupa é o que ela revelou de sua personalidade e me pergunto até onde irá teu cinismo;

  17. Por último, mas não menos importante: transcenda sua condição de espírita: ao menos a de ortodoxo. Do contrário, não passará de um mero revisor da obra kardecista: todas as conclusões já estarão no Pentateuco (espírita), na Revista e em O que é Espiritismo?. Seu único trabalho será catar evidências que corroborem tais “conclusões” e fazer vista grossa para as discrepâncias. Exatamente o que você fez no seu infeliz artigo, algo não muito diferente do que os criacionistas bíblicos (e védicos, também) fazem. Em outras palavras, toda vez que a Ciência corroborar sua ortodoxia, você dirá: “viram só, o Espiritismo já antecipava isso há 150 anos”; porém, quando ela discordar, papo será: “a Ciência é falível por ser feita por homens”, “tudo nela é provisório”. Ainda que haja certa verdade nisso, essa atitude continuará sendo uma cortina de fumaça para auxiliar sua fuga ante qualquer tentativa de refutação.
    Como você pode fazer isso? Bem, uma possibilidade é chutar o balde, como eu, e se tornar um detrator antagonista. Algo menos radical é caminhar entre o espiritualismo e o livre pensamento, como fez Vitor Moura. Nesse caso, as pesquisas nos campos psi e “hipótese sobrevivência” deixam de ser ameaças e geram insumos para elaboração de novas hipóteses sobre a relação mente x cérebro. Um terceiro caminho é compartimentar o espírita em uma parte de seu ser e o pesquisador em outra. Um exemplo disso seria o historiador Lair Amaro, que impressionante análise crítica fez do romance Há Dois Mil Anos, de Chico Xavier/Emmanuel. Não importa qual desses caminhos você escolha, mexerá com “vacas sagradas” do movimento espírita e, portanto, há de desagradar alguém. Pelo menos pode escolher a quem importunar e como.
    Caso opte em bater de boa com todos os “confrades”, ótimo. Para mim, claro, afinal terá alguns “graus de liberdade” intelectual a menos para se locomover e terei uma vantagem da qual usarei e abusarei. De certa forma, ficará com u’a mão amarrada tal qual os fanáticos cristãos de que tanto gosta. Pode até não falar em Adão e Eva ou cobra falante, porém outras posturas anticientíficas surgem sem falta.

    O Coronel sucumbe à infecção pelo vírus

    Pode até rir dos católicos e evangélicos por suas doutrinas engessadas, não será mais do um pássaro de um viveiro amplo rindo de seu irmão aprisionado numa gaiola, esquecendo-se da vastidão do céu que lhe é inatingível. Estará numa caixa maior, porém ainda incapaz de pensar fora dela. Com o tempo, perderá aquilo de que tanto se vangloria com relação aos demais cristãos: a faculdade da razão. Deixará de criar para meramente copiar, contará histórias que leu ou ouviu em vez de viver as suas próprias. Tornar-se-á mais digno de pena que de raiva.

* * *

Bem, agora que já te mordi um bocado, vou assoprar um pouco: parabéns! Sim, verdade, você está de parabéns por, ao menos, ter tentado me refutar. Bem ao contrário de certo confrade teu que esbravejou as mágoas num jornal de circulação regional e deixou por isso mesmo. Você não, muito pelo contrário, parece obcecado por mim. Pergunto-me, um pouco, pelo porquê.

Conta uma anedota que o alpinista George Mallory (1886 – 1924), quando perguntado sobre a razão de seu desejo em escalar o Monte Evereste, simplesmente respondia: “Porque ele está lá”. Creio que seu caso seja um tanto análogo a isso. Você e seu grupo apologético já digladiaram com quevedianos, o Centro Apologético Cristão de Pesquisas (CACP), o Instituto Cristãos de Pesquisas (ICP), o Fórum Evangélico, o Adventista, etc., sobrando apenas eu a ser devidamente atacado. Não, talvez seja muita pretensão minha. Não posso esquecer do Criticando Kardec e do Obras Psicografadas que, embora contenham muito material que lhes seria útil, são bem pesquisados desde seus respectivos começos, volta e meia importunando “vacas sagradas” do Movimento Espírita. Meu portal, assim, seria apenas o próximo da fila por possuir tanto um pé no aspecto religioso e outro no científico. Por meio do primeiro pretendiam começar o ataque com a farta discussão que tiveram com os religiosos.

Parece-me que esqueceu de um pormenor crucial: o paradigma aqui é outro, pois eu não tento provar a Bíblia com ela mesma. Meu universo de pesquisa é muito maior que o deles. Maior que o seu, também. Ademais, como não religioso, dispenso qualquer obrigação de aceitar juízos de valor ao tratar de alguma divindade antiga. Se o Javé do Antigo Testamento te desagrada, sinto muito, pois era o deus que os antigos hebreus precisavam, o resto é releitura posterior. Com isso, boa parte do arsenal que acumulou simplesmente deixou de ter serventia. Não desanime, você continuará, em sua teimosia, autoiludindo-se e carregando outros consigo. E podes até ser bem exitoso nisso, afinal é possível tecer raciocínios perfeitamente lógicos com premissas erradas. Criacionistas da Terra Jovem fazem assim. Quer saber de uma coisa: vocês, o CACP e o ICP se merecem.

Pergunto-me, às vezes, qual a razão por essa obsessão. Deve ter sido aquele “debate” que eu unilateralmente larguei no agora moribundo fórum do “Portal de Espírito” acho que discutíamos algo a respeito da natureza de Deus ou coisa do gênero. Acho que ficaste estimulado pela possibilidade de ter um adversário de maior quilate que a média do pessoal da seção “Do Contra” (lembras do Erivelton?) e injuriado por não conseguires atenção dele (i.e., de mim). Estou sendo vaidoso? Sem dúvida! Outra opção é que eu seja perigoso de mais para ser deixado solto impunemente por aí, o que afagaria meu ego do mesmo jeito. Um mero exercício para a atividade cerebral de um entediado? Pode ser, mas não está funcionando pelos motivos apontados acima. Estou aberto a sugestões.

Sabe, aqui do alto é muito solitário, frio e com ar rarefeito. Adoraria ter uma companhia para admirar a paisagem. Você pode ser um dos felizardos caso aceite o desafio de chegar até o cume. O lado bom é que, quando tiver vencido o desafio, terei eu vencido também, pois não será mais a mesma pessoa que começou a escalada. Apenas lembro que deves respeitar o desafio, do contrário o desafio se fará respeitar. O cadáver de George Mallory até pouco tempo repousava no Evereste sob camadas e camadas de neve.

Um abraço e veja se toma tenência. Caso não tome, tudo bem: hatters gonna hate, e caravana continuará a passar enquanto eles ladram.

A Fonte da Vida (Rascunho)

16 de abril de 2017 Deixe um comentário

Pingo d'água

    Índice

    Além de fundamental para a existência orgânica, a água comumente esteve associada à ideia pureza. Na dualidade Imundície x limpeza recorrente no antigo judaísmo, a água teve papel fundamental como elemento purificador, o que também foi mais um legado da antiga religião ao cristianismo.

    Lavar-se: mais que um Dever, um Ritual

    Lavagem das mãos

    Lavar as mãos antes da oração: um serviço a Iahweh.

    Para o povo judeu, pureza do corpo é fundamental desde a época do Primeiro Templo. Atesta isso o livro de Levítico, o único do Pentateuco a ser praticamente desprovido de narrativa histórica, centrando-se quase exclusivamente na legislação da vida religiosa, civil, dietética e diária. Diversas são suas instruções de como lidar com os que estão doentes, envolvendo diversas práticas que hoje seriam consideradas de higiene e assepsia:

    E todo o animal que anda sobre as suas patas, todo o animal que anda a quatro pés, vos será por imundo; qualquer que tocar nos seus cadáveres será imundo até à tarde.

    E o que levar os seus cadáveres lavará as suas vestes, e será imundo até à tarde; eles vos serão por imundos.

    Lv 11:27,28

    Esta aparenta ser razoável, e surpreende ao estender o entendimento de “fluxo” para emissões naturais da fisiologia do corpo humano.

    Falai aos filhos de Israel, e dizei-lhes: Qualquer homem que tiver fluxo da sua carne, será imundo por causa do seu fluxo.

    Esta, pois, será a sua imundícia, por causa do seu fluxo; se a sua carne vasa o seu fluxo ou se a sua carne estanca o seu fluxo, esta é a sua imundícia.

    Toda a cama, em que se deitar o que tiver fluxo, será imunda; e toda a coisa, sobre o que se assentar, será imunda.

    E qualquer que tocar a sua cama, lavará as suas roupas, e se banhará em água, e será imundo até à tarde.

    E aquele que se assentar sobre aquilo em que se assentou o que tem o fluxo, lavará as suas roupas, e se banhará em água, e será imundo até à tarde.

    E aquele que tocar a carne do que tem o fluxo, lavará as suas roupas, e se banhará em água, e será imundo até à tarde.

    Quando também o que tem o fluxo cuspir sobre um limpo, então lavará este as suas roupas, e se banhará em água, e será imundo até à tarde.

    Lv 15:2-8

    Também o homem, quando sair dele o sêmen da cópula, toda a sua carne banhará com água, e será imundo até à tarde.

    Também toda a roupa, e toda a pele em que houver sêmen da cópula se lavará com água, e será imundo até à tarde.

    E também se um homem se deitar com a mulher e tiver emissão de sêmen, ambos se banharão com água, e serão imundos até à tarde.

    Lv 15:16-18

    O capítulo XIII é dedicado à distinção da lepra de feridas comuns. Caso alguém fosse diagnosticado com ela pelo sacerdote, era declarado “imundo” e tinha de viver apartado sociedade. O capítulo seguinte trata de sua reintegração em caso de remissão da doença, não sem antes passar por algumas limpezas finais:

    Esta será a lei do leproso no dia da sua purificação: será levado ao sacerdote,

    E o sacerdote sairá fora do arraial, e o examinará, e eis que, se a praga da lepra do leproso for sarada,

    Então o sacerdote ordenará que por aquele que se houver de purificar se tomem duas aves vivas e limpas, e pau de cedro, e carmesim, e hissopo.

    Mandará também o sacerdote que se degole uma ave num vaso de barro sobre águas vivas,

    E tomará a ave viva, e o pau de cedro, e o carmesim, e o hissopo, e os molhará, com a ave viva, no sangue da ave que foi degolada sobre as águas correntes.

    E sobre aquele que há de purificar-se da lepra espargirá sete vezes; então o declarará por limpo, e soltará a ave viva sobre a face do campo.

    E aquele que tem de purificar-se lavará as suas vestes, e rapará todo o seu pelo, e se lavará com água; assim será limpo; e depois entrará no arraial, porém, ficará fora da sua tenda por sete dias;

    E será que ao sétimo dia rapará todo o seu pelo, a sua cabeça, e a sua barba, e as sobrancelhas; sim, rapará todo o pelo, e lavará as suas vestes, e lavará a sua carne com água, e será limpo,

    E ao oitavo dia tomará dois cordeiros sem defeito, e uma cordeira sem defeito, de um ano, e três dízimas de flor de farinha para oferta de alimentos, amassada com azeite, e um logue de azeite;

    E o sacerdote que faz a purificação apresentará o homem que houver de purificar-se, com aquelas coisas, perante o Senhor, à porta da tenda da congregação.

    Lv 14:2-11

    De fato, cadáveres, conforme de degradam, tornam-se criadouros de germes e focos de doenças; sangue e sêmen podem ser infectantes caso seu emissor esteja doente. Faz sentido isolar o portador de uma doença (tida por) contagiosa antes que ela se torne uma praga. Contudo, Levítico traz uma série de restrições que são irrelevantes do ponto de vista medicinal:

    • Não usar um tecido feito com dois tipos de fios (19:19);

    • Não cortar o cabelo em redondo e aparar a barba dos lados (19:27);

    • Não comer carne de porco, camarão, mariscos, coelho, etc (11:1-12);

    • Não comer os frutos dos três primeiros anos de colheita (19:23).

    Por outro lado, tudo faz sentido se observarmos estes versículos:

    Não fareis segundo as obras da terra do Egito, em que habitastes, nem fareis segundo as obras da terra de Canaã, para a qual vos levo, nem andareis nos seus estatutos.

    Fareis conforme os meus juízos, e os meus estatutos guardareis, para andardes neles. Eu sou o Senhor vosso Deus.

    Lv 18:3,4

    Ou seja, as diversas regras que Levíticos estipula existem para realçar a distinção entre os hebreus e os povos que os circundavam e, claro, garantir que pouco misturassem. Ao tornar tabu os pratos prediletos dos vizinhos, participar de uma confraternização com pagãos fica impraticável. Não adotar suas indumentárias torna hebreus e gentios distinguíveis de longe, já a constante higiene torna a proximidade com esses últimos desagradável aos primeiros, caso não a seguissem tão à risca. Não misturar tipos diferentes de fios num tecido, de animais num mesmo pasto ou de plantas no campo reforça ainda mais a ideia de segregação entre o Povo Eleito e restante. Em suma, as deliberações de Levíticos – a pureza material entre elas – estava a serviço da criação de uma identidade nacional israelita (1).

    Nos antigos textos hebraicos, três são as formas de purificação pela água: espargimento (aspersão), lavagem (ablução) e imersão. Algum ritual de limpeza tinha de ser aplicado àquele que se encontra-se me estado “imundo”. O fato de ter sido contaminado por alguma impureza não faria alguém automaticamente um pecador, podia-se simples ser algo que lhe aconteceu por estar no lugar errado, na hora errada:

    Esta é a lei, quando morrer algum homem em alguma tenda, todo aquele que entrar naquela tenda, e todo aquele que nela estiver, será imundo sete dias.

    Também todo o vaso aberto, sobre o qual não houver pano atado, será imundo.

    E todo aquele que sobre a face do campo tocar em alguém que for morto pela espada, ou em outro morto ou nos ossos de algum homem, ou numa sepultura, será imundo sete dias.

    Para um imundo, pois, tomarão da cinza da queima da expiação, e sobre ela colocarão água corrente num vaso.

    E um homem limpo tomará hissopo, e o molhará naquela água, e a espargirá sobre aquela tenda, e sobre todos os móveis, e sobre as pessoas que ali estiverem, como também sobre aquele que tocar os ossos, ou em alguém que foi morto, ou que faleceu, ou numa sepultura.

    E o limpo ao terceiro e sétimo dia espargirá sobre o imundo; e ao sétimo dia o purificará; e lavará as suas vestes, e se banhará na água, e à tarde será limpo.

    Nm 19:14-19

    O que deixaria alguém realmente em apuros seria não ter praticado a purificação sabendo de seu dever:

    Porém o que for imundo, e se não purificar, do meio da congregação será ele extirpado; porquanto contaminou o santuário do Senhor; água de separação sobre ele não foi espargida; imundo é.

    Nm 19:20

    [topo]

    A Mediadora de Deus

    Piscina encontrada na comunidade de Qumran

    Piscina de duas saídas, localizada em Qumran [Lawrence, p. 210].

    Se em Levíticos elas aparecem como parte de um conjunto de instruções para a vida cotidiana, outros livros apresentam a purificação como uma preparação simbólica a algo superior. Em Êxodo, Aarão e seus filhos lavaram pés e mãos antes de iniciar seus serviços na tenda do tabernáculo:

    E falou o Senhor a Moisés, dizendo:

    Farás também uma pia de cobre com a sua base de cobre, para lavar; e a porás entre a tenda da congregação e o altar; e nela deitarás água.

    E Aarão e seus filhos nela lavarão as suas mãos e os seus pés.

    Quando entrarem na tenda da congregação, lavar-se-ão com água, para que não morram, ou quando se chegarem ao altar para ministrar, para acender a oferta queimada ao Senhor.

    Lavarão, pois, as suas mãos e os seus pés, para que não morram; e isto lhes será por estatuto perpétuo a ele e à sua descendência nas suas gerações.

    Ex 30:17-21

    O salmista (Sl 26:5-7) deixou transparecer que esse procedimento era adotado também no Templo de Jerusalém ao tempo de Davi e o historiador Flávio Josefo também escreveu nesse sentido (2). No contexto cotidiano, o ato de lavar das mãos chegou a ser ritualizado já no período intertestamentário pela seita dos fariseus, como sugere Mc 7:3, já a lavagem dos pés permaneceu como parte de um ritual de hospitalidade (3).

    Em Números, os levitas precisam ser purificados antes da execução de seu ofício:

    E falou o Senhor a Moisés, dizendo: Toma os levitas do meio dos filhos de Israel e purifica-os;

    E assim lhes farás, para os purificar: Esparge sobre eles a água da expiação; e sobre toda a sua carne farão passar a navalha, e lavarão as suas vestes, e se purificarão.

    Então tomarão um novilho, com a sua oferta de alimentos de flor de farinha amassada com azeite; e tomarás tu outro novilho, para expiação do pecado.

    Nm 8:5-8

    Fora do Pentateuco, uma nova dinâmica de purificação surge: o próprio Deus procedendo a limpeza física por meio da ritual. O Segundo Livro de Reis, por exemplo, traz um caso interessante de cura mediante ritual de purificação:

    E Naamã, capitão do exército do rei da Síria, era um grande homem diante do seu Senhor, e de muito respeito; porque por ele o Senhor dera livramento aos sírios; e era este homem herói valoroso, porém leproso.

    E saíram tropas da Síria, da terra de Israel, e levaram presa uma menina que ficou ao serviço da mulher de Naamã.

    E disse esta à sua senhora: Antes o meu senhor estivesse diante do profeta que está em Samaria; ele o restauraria da sua lepra.
    (. . .)

    Veio, pois, Naamã com os seus cavalos, e com o seu carro, e parou à porta da casa de Eliseu.

    Então Eliseu lhe mandou um mensageiro, dizendo: Vai, e lava-te sete vezes no Jordão, e a tua carne será curada e ficarás purificado.

    (. . .)

    Então desceu, e mergulhou no Jordão sete vezes, conforme a palavra do homem de Deus; e a sua carne tornou-se como a carne de um menino, e ficou purificado.

    Então voltou ao homem de Deus, ele e toda a sua comitiva, e chegando, pôs-se diante dele, e disse: Eis que agora sei que em toda a terra não há Deus senão em Israel; agora, pois, peço-te que aceites uma bênção do teu servo.

    II Re 5:1-3, 9,10, 14,15

    Embora fosse sírio, Naamã era um homem de valor e serviria ao propósito de propaganda de Eliseu (II Re 5:8). Outras duas passagens chamam atenção: uma é um salmo de Davi a clamar por sua purificação:

    Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e mais branco do que a neve serei. (…) Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto.
    Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo.

    Sl 51(50):7,10-1

    A segunda, a promessa de restauração da Nação após o jugo estrangeiro:

    Pois eu os tirarei das nações, os ajuntarei do meio de todas as terras e os trarei de volta para a sua própria terra. Aspergirei água pura sobre vocês, e vocês ficarão puros; eu os purificarei de todas as suas impurezas e de todos os seus ídolos. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis.

    Ez 36:24-7

    Todas apresentam em comum uma limpeza ritual, representada pela ação da água, acompanhada por outra de cunho moral, propiciada pelo Espírito do próprio Deus, como uma permanente presença sua junto ao purificado. Esse padrão aparece repetidas vezes nos Manuscritos do Mar Morto, preservados nas cavernas de Qumran, com ocasiões em que a purificação é feita pelo próprio Espírito divino:

    Impuro, impuro ele será todos os dias que rejeitar as ordenações de Deus (…). Mas pelo espírito do verdadeiro conselho para os hábitos do homem, todas as iniquidades serão expiadas, de modo que ele olhará a luz da vida, e pelo espírito da santidade que o unirá em sua verdade ele será purificado de todas as suas iniquidades; e pelo espírito da probidade e da brandura seu pecado será expiado, e pela submissão de sua alma a todos os estatutos de Deus sua carne será purificada, para que ele possa ser aspergido com água para a impureza e santificar-se com a água da purificação.

    (1QS – III, 5-9)

    Não os deixes entrar na água para tocar a pureza dos homens da Santidade, pois eles não serão purificados a menos que tenham se arrependido de sua maldade.

    (1QS – V, 13-14)

    E então Deus selecionará os feitos do homem, e purificará por Si o corpo do homem consumindo cada espírito do mal nos tecidos de sua carne e purificando-o com o Espírito Santo de todos os seus feitos maus. E lançará sobre ele o Espírito da Verdade, como água para impureza, por causa de todas as abominações de falsidade e por chafurdar no espírito da impureza.

    (1QS – IV, 20-22)

    Agradeço a ti, ó Senhor, por me apoiares com Tua força. Derramaste Teu Espírito Santo sobre mim para que eu não tropece.

    (1QH -VII, 7)

    E sei que o homem não é reto a não ser através de Ti, e por isso Te imploro, pelo espírito que Tu me deste, que aumentes Tuas [benevolências] para com Teu servo [para sempre], purificando-me pelo Teu Espírito Santo, e aproximando-me de Ti pela Tua graça conforme a abundância de Tuas benesses (…)

    (1QH XVI)

    Fonte: [Vermes]

    Um princípio permeia os textos da comunidade do deserto: a pureza moral deve preceder a ritual, i.e., a limpeza da alma pelo Espírito Santo (ou alguma variante) deve ser feita antes da lavagem em água. Isso nos remete a certa personagem dos princípios do cristianismo e contemporânea da seita essênia de Qumran (4).

    [topo]

    A Voz que clama do Deserto

    A Pregação de João Batista

    A Pregação de João Batista, por Domenico Ghirlandaio

    Nas literaturas deuterocanônicas, intertestamentária e pseudoepígrafa continuaram a existir relatos de práticas de pureza ritual para os leitores de épocas mais próximas a de Jesus ou até contemporâneas:

    Aí entrando, Judite pediu que lhe fosse permitido sair à noite e antes do amanhecer, para fazer suas devoções e orar ao Senhor. Holofernes ordenou aos seus escravos que a deixassem sair e entrar como quisesse, durante três dias, para adorar o seu Deus. Cada noite ela saía ao vale de Betúlia e fazia as suas abluções numa fonte. Ao voltar, rogava ao Senhor Deus de Israel que lhe dirigisse os passos para a libertação do seu povo. Entrava em seguida na sua tenda, e ali permanecia pura até que tomava a sua refeição pela tarde.
    Jt 12:5-9

    Quando havia reunido seu exército, Judas alcançou a cidade de Odolão e, chegando o sétimo dia da semana, purificaram-se segundo o costume e celebraram ali o sábado (5).
    II Mac 12:38

    Tudo que eles [os 72 sábios] queriam era fornecido para eles numa escala pródiga (6). Além disso, Doroteu fazia os mesmos preparativos para eles diariamente, tal como era feito para o próprio rei – pois assim ele fora ordenado pelo rei. De manhã cedo, eles apareciam diariamente na corte, e depois de saudar o rei, voltaram a seus próprios lugares. E como é costume de todos os judeus, lavavam as mãos no mar e oraram a Deus, e então se dedicavam a ler e traduzir a passagem em particular sobre a qual estavam encarregados, e eu lhes fiz a pergunta: “Por que foi que lavaram as mãos antes de orar?” E eles explicaram que era um sinal de que eles não haviam feito mal (pois toda forma de atividade é executada por meio das mãos), pois em seu modo nobre e santo consideram tudo como um símbolo de justiça e verdade.
    Carta de Aristeias.

    Quando tinha eu cerca de dezesseis anos, tive a ideia de provar das diversas seitas que existiam entre nós. Havia três delas, a dos fariseus, os saduceus e a dos essências, como frequentemente lhes disse. Pensava que me familiarizando com todas elas, poderia escolher a melhor. Então me entreguei às asperezas, e me submeti a grandes dificuldades, e passei por todas elas. Nem mesmo me contentei em experimentar apenas dessas três, pois quando tomei ciência daquele cujo nome era Bano, que vivia no deserto, e não usava outra vestimenta senão o que crescia sobre as árvores, e não tinha outro alimento senão o que crescesse por conta própria, e se banhava em água fria frequentemente, tanto de dia como de noite, a fim de se purificar. Eu o imitei nessas coisas e fiquei com ele três anos.

    Flávio Josefo, Autobiografia, segundo parágrafo

    Uma novidade, porém, que se afigurou nesse período foi o uso da lavagem não apenas como um ritual de purificação, mas também iniciático. Em Qumran, banhos purificadores estariam destinados aos que abraçassem os preceitos da comunidade durante um longo estágio probatório:

    O homem, ao recusar-se unir-se à [Aliança de] Deus para caminhar na obstinação de seu coração [não permanecerá na] Comunidade de Sua verdade, pois sua alma despreza o ensinamento sábio das leis justas. Ele não será considerado entre os justos por não ter persistido na conversão de sua vida. Seu conhecimento, seus poderes e suas propriedades não serão recebidos no Conselho da Comunidade, pois quem vai arar a lama da iniquidade volta impuro (?). Não será absolvido pelo que seu coração obstinado reconhece como dentro da lei, pois ao buscar os caminhos da luz ele olha para as trevas. Não será considerado entre os perfeitos; não será purificado pela expiação, nem limpado pelas águas purificadoras, nem santificado pelos mares ou rios, nem lavado com nenhuma ablução. Sendo impuro, impuro permanecerá. Pois enquanto desprezar os preceitos de Deus, não receberá nenhum ensinamento na Comunidade do conselho divino.

    (1QS III)

    Mas então, se alguém tem a intenção de ingressar a sua seita, ele não é imediatamente admitido, mas lhe é prescrito o mesmo método de vida que eles usam por um ano, enquanto ele continua excluído; E dar-lhe-ão também uma pequena pá, e o cinturão supramencionado, e a veste branca. E quando ele tiver dado evidência, durante esse tempo, de que pode observar sua continência, aproxima-se mais de seu modo de viver, e se torna participante das águas da purificação; contudo, não se admite ainda que viva com eles; pois após essa demonstração de sua fortaleza, seu temperamento é provado por mais dois anos; e se aparenta ser digno, então eles o admitem em sua sociedade.

    Josefo, Guerras dos Judeus, livro II, cap. VIII

    Numa singela história de amor contada por um livro pseudoepígrafo, é apresentado o ritual executado pela jovem egípcia Asenath quando Deus aceitou sua conversão ao judaísmo, com a qual poderia se casar com José, “o intérprete de sonhos” (7). Ele possuía semelhanças com a liturgia essênia no que diz respeito ao uso da água, veste branca e certos paramentos:

    Encorajada, Asenath ergueu-se e colocou-se em posição ereta. Então o Anjo falou-lhe assim: “Vai agora mesmo ao teu segundo quarto, desveste a roupa de luto como que te cobriste e tira dos teus quadris a veste de penitência! Remove as cinzas de tua cabeça! Lava as mãos e o rosto com água pura e veste uma roupa branca inata! Cinge os teus rins com o cinto puro e duplo e duplo da virgindade! Depois volta para junto de mim, para que eu possa transmitir-te a mensagem pela qual o Senhor me enviou a ti!

    Asenath dirigiu-se a toda pressa ao seu segundo quarto, repositório dos seus adornos, abriu a arca, retirou dela um vestido branco, fino e imaculado, e vestiu-o, depois de se desfazer da vestimenta preta e arrancar a corda e os andrajos de penitência que lhe envolviam os flancos. Depois colocou seu cinto duplo da virgindade, um nos quadris, outro no peito.

    Isso feito, sacudiu as cinzas da cabeça, lavou as mãos e o rosto com água limpa, tomou também um véu fino e belíssimo e cobriu com ele a cabeça.

    José e Asenath. Fonte: [Tricca, p. 117]

    Pela cronologia bíblica, essa história se passa mais de 400 anos antes da narrativa do Êxodo e, por conseguinte, da entrega da Lei. Para os homens, a única regra de conversão explícita é a circuncisão (Gn. 17:9 – 14), inexistindo uma norma para as mulheres. É provável que o autor desse livro tenha transposto práticas já vigentes em sua época (ca. séc. I a.C. – II d.C.), quando o judaísmo contava com simpatizantes e prosélitos na diáspora (cf. At 6:5). Ainda hoje, os convertidos ao judaísmo concluem um longo processo de admissão com um banho de imersão ritual, após, no caso dos homens, submeterem-se à circuncisão (8).

    O que viria a ser o mais famoso ritual de purificação da cultura ocidental ficou registrado pelo historiador judeu Flávio Josefo e, notadamente, pelos evangelhos. Começando pelo primeiro, uma fonte não religiosa e, supostamente, independente (9):

    Alguns judeus pensavam que a destruição do exército de Herodes veio de Deus, de forma justa, como punição pelo que ele havia feito contra João, chamado Batista: pois Herodes o matara, ele que era um homem bom e pregava para que os judeus praticassem a virtude, tanto pela justiça de uns para com os outros, como pela reverência a Deus, para isso vindo ao batismo. Esta lavagem era aceita por ele, não se fosse para terem alguns pecados perdoados, mas para a purificação do corpo. A alma devia estar purificada antes pela retidão. Quando muitos vieram em multidão até João, movidos por suas palavras, Herodes, que temia a grande influência de João sobre o povo, o que permitiria que estimulasse uma revolta (pois pareciam prontos a fazer o que ele dissesse), pensou ser melhor matá-lo. Isto impediria qualquer ação contrária causada por João e não traria dificuldades para o rei, que poderia arrepender-se muito tarde de tê-lo deixado vivo. Assim, foi aprisionado em Maqueronte, castelo que mencionei antes, e morto. Os judeus consideraram que a destruição do exército de Herodes foi uma punição, para mostrar o desagrado de Deus

    Antiguidades Judaicas, Livro XVIII, cap. V

    Josefo atribui a João um codinome que indica a prática de uma lavagem por imersão (de βαπτιστης, “imersor”), e o retrata como um mestre de sabedoria. Os evangelhos – os sinópticos em particular – acrescentaram um caráter apocalíptico a sua mensagem, um conceito desconhecido no universo greco-romanos do público-alvo de Josefo e bem difundido no judaísmo intertestamentário, inclusive na seita de Qumran. Ao contrário das práticas dela, porém, sua imersão não era um ritual a ser executado recorrentemente, nem após uma longa iniciação. Afinal, o juízo já lhe era iminente.

    Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados.
    E toda a província da Judeia e os de Jerusalém iam ter com ele; e todos eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.

    Mc 1:4-5

    E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura?
    Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento;
    E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão.
    E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo.

    Mt 3:7-10

    Dizia, pois, João à multidão que saía para ser batizada por ele: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir?
    Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento, e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque eu vos digo que até destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão.
    E também já está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não dá bom fruto, corta-se e lança-se no fogo.
    E a multidão o interrogava, dizendo: Que faremos, pois?
    E, respondendo ele, disse-lhes: Quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem, e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira.
    E chegaram também uns publicanos, para serem batizados, e disseram-lhe: Mestre, que devemos fazer?
    E ele lhes disse: Não peçais mais do que o que vos está ordenado.
    E uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo.

    Lc 3:7-14

    Portanto, tal como os essênios, João Batista advogava que a pureza moral proporcionada pelo arrependimento e conduta reta deveria preceder a ritual. Outra similaridade chamativa com a seita era a crença de que o Espírito Santo proporcionaria uma purificação mais completa do ser.

    E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas alparcas. Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.
    Mc 1:7,8

    E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo.

    Mt 3:11 (cf. Lc 3:16)

    Descontando-se a considerável cristianização que a figura de João Batista sofreu ao longo do tempo, é provável que, como apocalipsista de sua época, aguardasse a chegada do Filho do Homem (10), descrito em Daniel 7:1-7, I Enoque (cap. 58 e 69) e com paralelos em Qumran (4QFlor e 11QMelch). Diante de tantas semelhanças, há de se perguntar se João Batista teria sido um essênio que largou a clausura? É uma possibilidade, por outro lado, como a literatura intertestamentária atesta, esses elementos já estavam disseminados no ambiente cultural do judaísmo do Segundo Templo. A seita pode apenas tê-los levado para dentro de sua comunidade quando decidiu se apartar do restante da população. Num caso ou no outro, o Batista serviu de elo (10) entre as antigas práticas de purificação dos judeus e a iniciação dos seguidores de seu mais famoso imerso: Jesus de Nazaré.

    [topo]

    Nos Sinópticos, um Começo de Magistério

    Cena do batismo de Jesus em O Filho de Deus (2014)

    Com pequenas diferenças, o batismo de Jesus é retratado de maneira similar nos três sinópticos. Apresentando a de Marcos:

    E aconteceu naqueles dias que Jesus, tendo ido de Nazaré da Galiléia, foi batizado por João, no Jordão. E, logo que saiu da água, viu os céus abertos, e o Espírito, que como pomba descia sobre ele. E ouviu-se uma voz dos céus, que dizia: Tu és o meu Filho amado em quem me comprazo.

    Mc 1:9-11

    Nos sinópticos, o batismo de Jesus marca o início de seu ministério público. Independentemente de uma “voz dos céus” realmente ter sido ouvida ou uma pomba repousado sobre Jesus, seus signos remetem a ideia de uma nova vida, quer por uma nova filiação ou pelo início de uma nova era; afinal uma pomba trouxe a Noé um ramo de oliveira assinalando o fim o dilúvio (8:11) e, em Cantares, a voz das rolas anunciava o fim do inverno (Ct 2:12). Por outro lado, também podem representar dor e provação: a Abraão foi dada a ordem para sacrificar seu filho Isaque (Gn 22) e a pomba era a oferta de sacrifício no Templo mais usada pelos pobres.

    Marcos dista uns trinta da morte de Jesus, teria havia tempo suficiente para seus continuadores e novos seguidores desenvolverem uma identificação com esse “renascer”? Pouca informação o primeiro dos evangelhos redigidos nos dá quanto a isso. Em um diálogo entre Jesus e seus discípulos em, há uma confirmação de que eles receberiam o mesmo “batismo que ele recebeu”, embora isso não aparente ser a preocupação central de Jesus quanto à conduta deles:

    Então, se aproximaram dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo-lhe: Mestre, queremos que nos concedas o que te vamos pedir. E ele lhes perguntou: Que quereis que vos faça? Responderam-lhe: Permite-nos que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda. Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu bebo ou receber o batismo com que eu sou batizado? Disseram-lhe: Podemos. Tornou-lhes Jesus: Bebereis o cálice que eu bebo e recebereis o batismo com que eu sou batizado; quanto, porém, ao assentar-se à minha direita ou à minha esquerda, não me compete concedê-lo; porque é para aqueles a quem está preparado. Ouvindo isto, indignaram-se os dez contra Tiago e João. Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos. Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.

    Mc 10:35-45

    O tempo futuro usado na resposta de Jesus em Mc 10:39 indica que os apóstolos ainda não passaram pelo tal “batismo” nem provaram do cálice. Como Marcos já deveria ter conhecimento da morte de Tiago pelas mãos de Herodes Agripa (At 12:1,2), esta passagem é uma antecipação feita pelo evangelista da Última Ceia (cálice) e da morte de Jesus (batismo de sangue). Ou seja, ela serve para a justificação de um passado recente, mas não ao estabelecimento de um rito de iniciação. Alguns podem alegar que Mc 16:16 diz com todas as letras que é preciso “crer e ser batizado” para ser salvo, o que eu concordaria se não fosse um porém: os mais antigos manuscritos deste evangelho encerram o capítulo abruptamente no versículo 8, ou seja, tudo do versículo 9 em diante é espúrio (11).

    Ao copiar Mc 10:35-45, Mateus removeu a referência ao batismo de sangue (cf. Mt 20:20-8); quanto ao batismo convencional, as adições são poucas: uma é armadilha preparada pelos sacerdotes e anciãos indagando sobre a natureza do batismo de João (Mt 21:23-7) – que ficou em aberta pela evasiva de Jesus -, a outra é a crucial ordem dada no último capítulo, em polêmico versículo:

    Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;

    Mt 20:19

    Como a baixa cristologia de Mateus não nos oferece nada como “eu e o Pai somos um” ou “Eu sou“, é tentador pensar que houve uma adulteração. Há, inclusive, uma variante a este versículo sem fórmula trinitária ou alusão ao batismo, que se assemelha a Lc 24:47:

    Ide e fazei discípulos de todas as nações em Meu Nome, ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado.

    Eusébio de Cesareia, Demonstratio Evangelica, III, 6

    O problema é que todos os manuscritos conhecidos até agora de Mateus, e que possuem seus últimos versículos, trazem a fórmula trinitária bem como a ordem para batizar. Eusébio, por sua vez, também é suspeito por ter sido simpatias pela causa ariana e proposto um credo de conciliação. Por ora essa questão permanece em aberto, cabendo-nos cogitar como a comunidade de Mateus poderia ter entendido essa fórmula de modo a manter uma baixa cristologia (12).

    Lucas também não acrescenta muito em relação a Marcos, possuindo também sua versão da pergunta dos sacerdotes a respeito do batismo de João (Lc 20:1-8) e, de forma sucinta, uma alusão ao batismo de sangue de Jesus (Lc 12:50). Em suma, baseando-se exclusivamente no material dos sinópticos, temos o ritual do batismo como uma preparação do povo para a chegada do Messias (Jesus) e o marco inicial de seu ministério, restando apenas uma dúbia ordem para sua prática aos novos conversos após a ressurreição.

    Entretanto falta um pormenor: Lucas possui um segundo volume: Atos dos Apóstolos.

    Já no segundo capítulo, na fala de Pedro à multidão cosmopolita estupefata diante do comportamento dos apóstolos após receberem as “línguas de fogo”, é dito:

    “Portanto, que todo o Israel fique certo disto: Este Jesus, a quem vocês crucificaram, Deus o fez Senhor e Cristo”.

    Quando ouviram isso, ficaram aflitos em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos outros apóstolos: “Irmãos, que faremos?”

    Pedro respondeu: Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo.

    Pois a promessa é para vocês, para os seus filhos e para todos os que estão longe, para todos quantos o Senhor, o nosso Deus, chamar.

    At 2:36-9

    Uma ordem que foi executada em diversas passagens do livro (At 8:12-7; 9:17,8; 10:44-8; 11:15-7; 19:5,6) em que o batismo de água e o do Espírito andam juntos, demonstrando que, para comunidade lucana, era importante uma pessoa se submeter a ambos para se tornar membro dela. De certa forma, Lucas trabalhou fazendo um paralelo (13) com o próprio batismo de Jesus: alguém, ao ser batizado, faria pregações similares e com resultados parecidos, faria milagres semelhantes e também teria visões. Enfim, o batismo seria o início de uma nova vida que espelhava (em menor escala) a de Jesus e dava continuidade a sua obra, podendo até levar a sofrer o mesmo destino. Assim, pela datação desse evangelho e de Atos, o ritual do batismo da água e do Espírito já estava estabelecido entre os cristãos da virada do primeiro século para o segundo. Será que há indícios dele um pouco antes?

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    Paulo: partilhando da Vitória de Cristo

    Mosaico do batismo de Paulo de Tarso

    O Batismo de São Paulo Mosaico do século XII da Capela Palatina, em Palermo (Sicília)

    O “apóstolo dos gentios” descreveu em sua carta escrita aos cristãos de Roma sua própria visão religiosa. Como única carta remanescente de Paulo direcionada a uma comunidade que não fora criada por ele, Romanos possui a característica ímpar de ser onde ele desenvolve em profundidade temas de sua mensagem que apenas comenta ou relembra a seus prosélitos nas demais, afinal teve de explicar tudo do zero a quem não conhecera pessoalmente. Por esse motivo, um nome mais adequado para esta carta seria “Evangelho segundo Paulo”, pois é aqui que descreve em pormenores sua fé e a “boa nova” que tinha a repassar. Em sua apresentação, Paulo expõe um pequeno catecismo cristão, testemunho de uma tradição que antecederia a própria redação do Novo Testamento:

    Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus, que ele antes havia prometido pelos seus profetas nas santas Escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, e que com poder foi declarado Filho de Deus segundo o espírito de santidade [κατα πνευμα αγιωσυνης], pela ressurreição dentre os mortos – Jesus Cristo nosso Senhor -, pelo qual recebemos a graça e o apostolado, por amor do seu nome, para a obediência da fé entre todos os gentios, entre os quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo; a todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados para serdes santos: Graça a vós, e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.

    Rm 1:1-7

    Nesse “cartão de visitas” em forma de credo condensado, Paulo usa um hebraísmo – “espírito de santidade” – em vez do simples adjetivo grego talvez por ser uma forma mais familiar aos fundadores daquela comunidade, além de reforçar sua apresentação como um cristão genuíno, não falso apóstolo a propagandear ideias alienígenas. Uma maneira de preparar terreno para expor sua própria visão a respeito da fé em Jesus: o papel central do martírio de Jesus e sua subsequente ressurreição na salvação da humanidade. Ou melhor, de todos aqueles que reconhecessem esse sacrifício e acreditassem em sua vitória sobre a morte.

    Há diferentes linhas de argumentação utilizadas por Paulo ao longo da carta (14). Uma das principais é o modelo judicial (cf. cap. 3 a 5): Deus seria uma espécie de legislador a regular como os humanos (judeus e gentios Rm 2:9-10) deveriam se portar. O problema é que ninguém, mas ninguém, consegue seguir suas leis, “porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23). Como Deus também é juiz (3:9), a humanidade toda está condenada. A solução, segundo esse argumento, estaria em outra pessoa cumprir a punição por nós, aí que entra o valor do sacrifício de Jesus na cruz (3:24) como forma de cumprimento alternativo da pena, cuja aprovação divina estaria no fato de ele ter sido ressuscitado em seguida (4:24-5). Aos humanos caberia aceitar de bom grado esse sacrifício ofertado em seu lugar (3:27-8).

    Outro argumento importante utilizado por Paulo foi o modelo participacionista. Enquanto o modelo visto acima explica a salvação por meios de termos “jurídicos”, este explica a salvação por meio de uma espécie de união com Jesus Cristo, que livra a humanidade das forças malignas. Bem que forças seriam essas?

    Como apocalipcista, Paulo acreditava num tipo de “dualismo brando”, em que haviam forças antagônicas a Deus regiam a Terra momentaneamente, até que Deus resolvesse intervir. Duas dessas formas cósmicas são de particular relevância: o Pecado e a Morte. Nisso as coisas começam a soar um tanto estranhas ao leitor moderno, para o qual “pecado” é algo ruim que alguém faz e “morte” é o cessar das funções vitais. No entanto, no primeiro século, tanto o ato quanto o fato eram produtos de entidades autônomas, que a todos controlavam. Começando pelo Pecado:

    • O pecado está no mundo (5:13);
    • O pecado governa as pessoas (5:21, 6:12);
    • As pessoas podem servir ao pecado (6:6);
    • Elas podem ser escravizadas pelo pecado (6:17);
    • Elas podem morrer ao pecar (6:11);
    • Elas podem ser libertas do pecado (6:18).

    O pecado, para Paulo, não é meramente algo que as pessoas fazem, mas sim um poder que as compele à prática do mal. Associado a ele, está outro poder maligno: a morte (6:21-3), que definitivamente afasta alguém de Deus. Ao ressuscitar, Jesus teria quebrado o jugo da morte e, por conseguinte, dos poderes com ela associados (6:9-10). Por meio do batismo, tomaríamos parte dessa vitória sobre a morte e nos reconciliaríamos com Deus. Para Paulo, o batismo não seria apenas uma simbólica limpeza de uma alma arrependida ou um rito de passagem para uma nova vida, mas uma experiência de união com Jesus Cristo de modo a participar de sua vitória com a morte:

    Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; porquanto quem morreu está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos, sabedores de que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus.

    Rm 1-11

    Valer reparar que, por esse modelo, embora os fiéis batizados já estivessem mortos em Cristo, i.e., partilhavam de sua vitória contra a morte e o pecado, isso não significava que não fossem mais morrer fisicamente. A salvação só estaria completa no fim dos tempos, quando seriam ressuscitados à semelhança dele. Até lá, deveriam viver “em novidade de vida”, pois já estariam livres da sujeição ao poder do pecado.

    * * *

    Apesar de Romanos já ser suficiente para atestar o valor que Paulo dava ao ritual do batismo, não será improvável encontrar apologistas que tentem rebater com o seguinte versículo:

    Porque Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho; não em sabedoria de palavras, para não se tornar vã a cruz de Cristo.

    I Cor 1:17

    Esse é mais um clássico caso de texto fora do contexto se fazendo de pretexto. Vejamos mais:

    Pois a vosso respeito, meus irmãos, fui informado, pelos da casa de Cloe, de que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo. Acaso, Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vós ou fostes, porventura, batizados em nome de Paulo? Dou graças [a Deus] porque a nenhum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. Batizei também a casa de Estéfanas; além destes, não me lembro se batizei algum outro. Porque Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho; não em sabedoria de palavras, para não se tornar vã a cruz de Cristo.

    I Cor 1:12-7

    A comunidade de Coríntio enfrentava uma série de problemas, dentre eles rixas internas. Paulo não estava menosprezando o ritual do batismo, apenas relatando seu alívio por não ter se tornado mais um elemento desagregador por ter se abstido de praticar o batismo entre eles e, assim, vincular sua imagem ao ritual. Embora essa tarefa pudesse ser delegada, não significa que considerasse o batismo como opcional, pelo contrário:

    Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito.

    I Cor 12:13

    Assim, pela datação de I Coríntios, pode-se dizer que a associação entre o batismo e a ação do Espírito já estava estabelecida entre os cristãos por volta de 60 da era cristã.

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    Um Passo além: o Batismo no período Subapostólico

    Jesus como o bom pastaor

    Bom Pastor. Pintura mural das catacumbas de Priscilla, em Roma (século II)

    Quando os apóstolos já havia partido, mas uma estrutura bem organizada ainda não surgira, as comunidades cristãs lidavam como podiam com suas questões cotidianas. Uma tentativa de criar um conjunto mínimo de referências, foi redigida entre o final do primeiro século e o começo do segundo a Didaqué, também conhecida como “o Ensino dos doze Apóstolos”. Com seus conselhos, diretrizes e exortações, ela procurava amparar as nascentes comunidades numa época em que ainda existiam “profetas itinerantes” um tanto duvidosos e não caíssem em suas arapucas. No que tange ao batismo, ela nos oferece um pequeno manual de “como fazer”:

    Quanto ao batismo, procedam assim: Depois de ditas todas essas coisas [uma instrução quanto aos “dois caminhos”: o da vida (o Bem) e o da morte (o Mal)], batizem em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

    Se você não tem água corrente, batize em outra água; se não puder batizar em água fria, faça-o em água quente.

    Na falta de uma e outra, derrame três vezes água sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

    Antes do batismo, tanto aquele que batiza como aquele que vai ser batizado, e se outros puderem também, observem o jejum. Àquele que vai ser batizado, você deverá ordenar jejum de um ou dois dias.

    Didaqué, cap. VII, tradução de Padres Apostólicos, pp.351-2

    A Didaqué reapresenta a fórmula trinitária utilizada por Mateus, da mesma forma como sua versão do Pai Nosso (cap. VIII) se assemelha mais à dele que à de Lucas, indicando que talvez tenham bebido da mesma tradição, além de ser um ponto a favor de Mt 28:19. Outro aspecto interessante que ela traz é a necessidade de lidar com questões de ordem prática na execução do ritual: embora recomendada, a imersão não era mais obrigatória.

    Enquanto a Didaqué já apresentava uma versão do batismo que viria a se tornar dominante posteriormente, outros textos contemporâneos seus exploravam concepções mais radicais quanto ao caráter e potencialidades do ritual, porém que seriam rejeitadas. Gostaria de comentar dois deles que constituem o que alguns chamam de “cânon falido”: textos de grande circulação nos primeiros séculos do cristianismo, mas que terminaram por ficar fora do Novo Testamento. Datado do começo do século II, o primeiro se chama Epístola de Barnabé, um verdadeiro tratado antissemita obcecado em provar que o judaísmo seria uma religião falsa e o cristianismo a verdadeira interpretação de suas Escrituras, usando e abusando de alegorias. No que diz respeito ao batismo, interpreta o Antigo Testamento alegoricamente a fim de deixar todo Israel de fora do ritual:

    Pesquisemos se o Senhor teve intenção de falar antecipadamente sobre a água e sobre a cruz.

    Quanto à água, está escrito que Israel não teria recebido o batismo que leva à remissão dos pecados, mas que eles próprios teriam construído um. Com efeito, diz o profeta [Jr 2:12,3 e Is 16:1-2]: “Pasma, ó céu, e que a terra trema ainda mais! Pois este povo cometeu um mal duplo: eles me abandonaram, a mim que sou a fonte viva da água, e cavaram para si mesmos uma cisterna da morte. Por acaso, o Sinai, minha montanha santa, é rocha deserta? Vós sereis como os passarinhos que voam, quando se lhes tira o ninho.” E o profeta diz ainda [Is 45:2,3 e Is 33:16–8]: “Eu marcharei à tua frente, aplainarei as montanhas, quebrarei as portas de bronze, despedaçarei as trancas de ferro, e te darei tesouros secretos, escondidos, invisíveis, a fim de que saibam que eu sou o Senhor Deus. Tu habitarás numa caverna alta de rocha sólida, onde a água não falta nunca. Vereis o rei em sua glória e vossa alma meditará no temor do Senhor.

    Epístola de Barnabé, 11:1-5

    No que diz respeito ao ritual em si, Barnabé inova ao dizer que o batismo leva à regeneração moral, em vez de esta ser requisito para ele:

    E outro profeta diz ainda (15): “E a terra de Jacó era celebrada mais do que qualquer outra terra“. Isso quer dizer que ele glorifica o vaso do seu Espírito. O que diz (16) ele a seguir? “Havia um rio que corria, vinda da direita, e árvores esplêndidas hauriam dele seu crescimento. Qualquer pessoa que delas comer, viverá eternamente.” Isso significa que descemos para a água carregados de pecados e poluição, mas subimos dela para dar frutos em nosso coração, tendo no Espírito o tempo e a esperança em Jesus. “Quem comer deles viverá eternamente“, quer dizer: quem escutar, quando tais palavras são ditas, e crer nelas, viverá eternamente.

    Idem, 11:9-11

    Algumas décadas depois, em meados do segundo século, com bem menos ódio e mais teor pio, um escritor cristão denominado Hermas redigiu um documento que viria a ser conhecido como A Carta do Pastor, ou, simplesmente, O Pastor. Teve boa aceitação entre os antigos cristãos (17) e, tal como a Epístola Barnabé, chegou até a ser incluído no Códice Sinaítico – um dos mais antigos manuscritos completos do Novo Testamento (18). Narrado em primeira pessoa, Hermas descreve os encontros que travou com um mediador que lhe apareceu na forma de um pastor, além de outras figuras angélicas. Esses diversos personagens lhe transmitem visões, mandamentos e parábolas; cujo significado ele sempre indaga, recebendo, então, uma explanação de seu mensageiro da ocasião, às vezes a contragosto do explanador. Durante o “Quarto Mandamento”, toca-se na questão do pecado e do batismo:

    Eu disse: “Senhor, ainda quero te fazer outra pergunta.” Ele respondeu: “Pergunta.” Continuei: “Ouvi alguns doutores dizerem que não há outra conversão além daquela do dia em que descemos à água e recebemos o perdão dos pecados anteriores.” Ele me respondeu: “Ouviste bem. E assim mesmo. Aquele que recebeu o perdão de seus pecados não deveria mais pecar, e sim permanecer na pureza. Entretanto, como queres saber tudo com pormenores, eu te explicarei também isso, sem dar pretexto para pecar aos que hão de crer ou aos que começaram agora a crer no Senhor, pois tanto uns como outros não têm necessidade de fazer penitência de seus pecados, pois seus pecados passados já foram abolidos. Para os que foram chamados antes destes dias, o Senhor estabeleceu uma penitência, pois o Senhor conhece os corações. E sabendo tudo de antemão, ele conheceu a fraqueza dos homens e a esperteza do diabo em fazer o mal aos servos de Deus e exercer sua malícia contra eles. Sendo misericordioso, o Senhor teve compaixão de sua criatura e estabeleceu a penitência, e deu-me o poder sobre ela. Todavia, eu te digo: se, depois desse chamado importante e solene, alguém, seduzido pelo diabo, cometer pecado, ele dispõe de uma só penitência; contudo, se peca repetidamente, ainda que se arrependa, a penitência será inútil para tal homem, pois dificilmente viverá.” Então eu lhe disse: “Senhor, sinto-me reviver depois de ouvir essas coisas tão pormenorizadamente, pois sei que serei salvo, se eu não continuar a pecar.” Ele me disse: “Serás salvo, tu e todos os que fizerem essas coisas.

    Carta do Pastor, cap. XXXI

    Hermas retorna a opinião original de que o batismo complementa um arrependimento prévio, mas não seria capaz de evitar recaídas no mal. Mas adiante, na Nona Parábola, ele compara o batismo a um “selo divino” (19) capaz de transformar os (espiritualmente) mortos em vivos:

    Eu pedi: “Senhor, explica-me mais ainda.” Ele respondeu: “O que procuras mais?” Eu continuei: “Senhor, por que as pedras tiveram que subir do fundo, para ser colocadas na construção da torre, embora tivessem esses espíritos?” Ele respondeu: “Era preciso que saíssem da água, para receber a vida. Elas não podiam entrar no Reino de Deus, senão deixando a mortalidade da vida anterior. Tais mortos receberam o selo do Filho de Deus e entraram no Reino de Deus. De fato, antes de levar o nome do Filho de Deus o homem está morto. Quando recebe o selo, deixa a morte e retoma a vida. O selo é a água: eles descem à água e daí saem vivos. Também a eles foi anunciado esse selo, e eles o usaram para entrar no Reino de Deus.” Eu perguntei: “Senhor, por que as quarenta pedras também sobem com eles do abismo, visto que estas já haviam recebido o selo?” Ele respondeu. “Porque esses apóstolos e doutores que anunciaram o nome do Filho de Deus, adormecidos no poder e na fé do Filho de Deus, o anunciaram também àqueles que tinham morrido antes deles, e lhes deram o selo do anúncio. Desceram com eles à água e novamente subiram. Contudo, desceram vivos e subiram vivos, enquanto os que estavam mortos antes deles desceram mortos e subiram vivos. E graças a eles que estes últimos receberam o nome do Filho de Deus. Por isso, subiram com eles, foram ajustados à construção da torre, e colocados sem ser lavrados, porque morreram na justiça e na pureza. Apenas não tinham o selo. Agora tens a explicação dessas coisas.” Eu respondi: “Sim, senhor.

    Idem, cap. XCIII

    Ao lado de Hermas e Barnabé, por pouco não ficou a Carta aos Hebreus, vista com desconfiança por sua autoria desconhecida e cuja tentativa de atribuição a Paulo já era questionada nos primeiros séculos. Em seu capítulo sexto, ela estabelece o batismo como doutrina fundamental e dá um alerta para os que fraquejam na fé:

    Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito, não lançando, de novo, a base do arrependimento de obras mortas e da fé em Deus, o ensino de batismos e da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno. Isso faremos, se Deus permitir. É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia.

    Hb 6:1-6

    Ou seja, para o anônimo autor de Hebreus, os que recaíssem em pecado não teriam uma segunda chance de arrependimento, uma exceção aberta por Hermas. Uma fórmula ritualística à moda das antigas purificações judaicas é usada por ele em Hb 10:22: “Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado com água limpa“. O autor da Epístola deve ter feito uso dessa fórmula porque ela era tradicional, embora ele fosse oposto às “várias abluções“(Hb 9:9-10) dos judeus que, segundo ele, pertencem à categoria das “justificações da carne” e “não podem aperfeiçoar aquele que faz o serviço” (idem).

    Outras cartas canônicas – agora com autoria reconhecida pela tradição apesar de serem pseudonímias – trazem um entendimento multifacetado do batismo como ritual. Em Efésios (5:25-26), temos a lavagem mais como um simbolismo para a purificação, do que ela em si: “E vós, maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela Palavra(…)”, ao passo que I Pedro (I Pe 3:20,1) fala do batismo em termos semelhantes a Hebreus 10:22, aceitando-o como a confirmação de uma consciência purificada, mas rejeitando com toda a ênfase a ideia de um corpo purificado: “agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundície da carne, mas da indagação de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo.

    * * *

    Se, numa época quando a proto-ortodoxia ainda se organizava, eram de se esperar divergências em diversas questões doutrinárias. Então, o que pensariam acerca do batismo os grupos dissidentes?

    [topo]

    Um Toque Esotérico

    Os códices de manuscritos gnósticos descobertos em Nag Hammadi.

    Não é incomum encontrar quem pense terem constituído os gnósticos um grupo à parte da proto-ortodoxia, com seus próprios locais de cultos. Na verdade, eles foram um movimento secretista dentro da própria Igreja nascente. Eles estavam disseminados entre os fiéis comuns, partilhavam de suas atividades e cultos. Apartavam-se apenas quando o assunto era o “conhecimento” especial que julgavam ter, e, inclusive, admitiam que seus irmãos ignorantes – embora bons cristãos – também teriam direito a serem salvos, ainda que não recebessem uma salvação tão plena quanto a deles (20). Assim, os gnósticos também se batizavam; a questão é: o que o ritual significava para eles? Nas palavras de uma estudiosa do cristianismo gnóstico:

    (…) Felipe [no Evangelho Gnóstico de Felipe] pergunta O que acontece – ou não acontece – quando uma pessoa recebe o batismo? É o mesmo para todos? Felipe sugere que não. Há muita gente, diz ele, para quem o batismo simplesmente assinala a iniciação. Um indivíduo desses “entra na água e sai sem ter recebido nada e diz ‘Sou cristão'”(li). Às vezes, porém, prossegue Felipe, a pessoa batizada “recebe o Espírito Santo (…) que é o que acontece quando se experimenta um mistério”(lii). O que faz a diferença envolve não só a dádiva misteriosa da graça divina, mas também a capacidade de compreensão espiritual do iniciado.

    Assim, escreve Felipe, repetindo a carta de Paulo aos gálatas, muitos crentes se veem mais como escravos do que como filhos de Deus; mais os batizados, qual bebês recém-nascidos, destinam-se a crescer na fé rumo à esperança, ao amor e à compreensão (gnose):

    “A fé é a nossa terra, na qual criamos raízes; a esperança é a água que nos nutre; o amor é o ar com que crescemos; a gnose é a luz com que nos tornamos plenamente desenvolvidos” (liii).

    Quem inicialmente professa a fé no nascimento virgem pode, mais tarde, atingir uma compreensão diferente do que isso significa, explica ele. Muitos crentes continuam a interpretá-lo literalmente, como se Maria tivesse concebido sem José; “alguns dizem que Maria concebeu através do Espírito Santo”, mas “estão errados”(liv), diz Felipe. Pois o “nascimento virgem” não é algo que aconteceu uma vez a Jesus; refere-se ao que pode acontecer a qualquer um que seja batizado e “renascido” por meio de uma “virgem que desce”, ou seja, do Espírito Santo(lv). Assim como Jesus nasceu “espiritualmente” quando o Espírito Santo desceu sobre ele em seu batismo, também nós, que primeiro nascemos fisicamente, podemos “renascer por meio do Espírito Santo” no batismo, de modo que “ao nos tornarmos cristãos, passamos a ter um pai e uma mãe”, (lvi) ou seja, o Pai celestial e o Espírito Santo.

    Cf. [Pagels, cap IV, p.138-9].

    Notas da autora:
    (li)Evangelho de Felipe, 64.22-26
    (lii)Ibidem, 64.29-31
    (liii)Ibidem 79.25-31
    (liv)Ibidem 55.23-24
    (lv)Ibidem 71.3-15
    (lv)Ibidem 52.21-24

    Ou seja, ao menos para um grupo específico de gnósticos, o batismo, para alguns iluminados, propiciaria uma experiência de “renascimento” através do Espírito, que desvelaria o conhecimento (gnose) mais profundo. É um linguajar que guarda semelhança ao de uma passagem encontrada em outro evangelho de grande sucesso entre os gnósticos – embora tenha se originado fora de seus círculos -, a Boa Nova de João.

    [topo]

    O Novo Nascimento

    Jesus e Nicodemos

    Jesus e Nicodemos, por Crijn Hendricksz.

    Ora, havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus. Este foi ter com Jesus, de noite, e disse-lhe: Rabi, sabemos que és Mestre, vindo de Deus; pois ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele.

    Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.

    Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?

    Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te admires de eu te haver dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.

    Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode ser isto?

    Respondeu-lhe Jesus: Tu és mestre em Israel, e não entendes estas coisas? Em verdade, em verdade te digo que nós dizemos o que sabemos e testemunhamos o que temos visto; e não aceitais o nosso testemunho! Se vos falei de coisas terrestres, e não credes, como crereis, se vos falar das celestiais? Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem. E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna.

    Jo 3:1-15

    Único entre os evangelhos canônicos, João refaz elementos dos sinópticos de um jeito alternativo: a expulsão dos vendilhões do Templo se dá no começo de seu ministério, tendo ele de criar outra causa imediata (21) para a decisão do Sinédrio de entregar Jesus aos romanos; a instituição da eucaristia – o clímax da Última Ceia – é substituída por um (na verdade, dois) longo discurso de despedida; e o encontro de Jesus e João Batista nas águas do Jordão é narrado de forma indireta por este último (Jo 1:30-4). Embora haja uma série de sinais e prodígios, não há exorcismo algum; apesar de ressaltar uma regra de ouro – “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 13:34) -, nenhuma parábola ao estilo dos sinópticos é contada (22).

    A diferença mais brutal, sem dúvida, é falta de qualquer pormenor quanto à mensagem de Jesus: o tema central deste evangelho é o próprio Jesus! Haveria razões para uma abordagem tão diferente? Pela dinâmica social que transparece nas linhas deste evangelho, pode-se intuir que sua comunidade estaria em crise: seus membros eram expulsos da sinagoga, desenvolviam, por conta disso, sentimentos antijudaicos (Jo 8:37:47), eram perseguidos pelos pagãos (Jo 17:14), e, como indica a Primeira Carta de João, enfrentavam uma rixa interna que terminou em cisma. Como se não bastasse, quiçá ainda enfrentasse a rivalidade com outras comunidades cristãs, como a que redigiu o evangelho gnóstico de Tomé, o Dídimo, dado o pouco apreço que essa figura recebeu durante o episódio da ressurreição, sendo retratado como incréu (Jo 20:24-9).

    Nesse contexto turbulento, a questão dos sacramentos também parece ser matéria de discussão. Embora não haja uma instituição da eucaristia na Última Ceia, ela aparece de forma poética num discurso dado no primeiro terço do livro:

    Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim. Não que alguém visse ao Pai, a não ser aquele que é de Deus; este tem visto ao Pai. Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer não morra. Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo. Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como nos pode dar este a sua carne a comer? Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu; não é o caso de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre.

    Jo 6:44-58

    Se isso foi uma adição posterior à redação original ou não, fica em aberto. Como em Jo 6:59 somos informados que Jesus “disse estas coisas na sinagoga, ensinando em Cafarnaum”, isso pode ser indício de uma justificação do ritual ante uma comunidade judaica que não o entendia e o desprezava. Neste caso, e em muitos aspectos, este evangelho aparenta não ter sido escrito como uma instrução a novatos – como foi o de Lucas – mas para a justificação da fé de uma comunidade que perigava colapsar. Quando Jesus deu um novo mandamento em Jo 13:34 – “amai-vos uns aos outros” – está implícito que outros mandamentos já eram de conhecimento de seus primeiros leitores/ouvintes.

    De forma similar, caso não existisse a conversa com Nicodemos pouca informação haveria quanto ao significado do batismo para aquela comunidade. O batismo do próprio Jesus aparece apenas nas entrelinha da fala de João Batista:

    E eu não o conhecia; mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água.
    E João testificou, dizendo: Eu vi o Espírito descer do céu como pomba, e repousar sobre ele.
    E eu não o conhecia, mas o que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo.

    Jo 1:31-33

    A partir dos sinópticos, é possível saber a que esse episódio se refere, mas com o material exclusivo do próprio João, isso fica apenas sugerido. Seu público já o deveria saber por outros meios.
    Também chega a ser chamativa uma certa contradição que salta de seus versículos:

    Depois disto foi Jesus com os seus discípulos para a terra da Judeia; e estava ali com eles, e batizava (3:22)

    E quando o Senhor entendeu que os fariseus tinham ouvido que Jesus fazia e batizava mais discípulos do que João (ainda que Jesus mesmo não batizava, mas os seus discípulos), deixou a Judeia, e foi outra vez para a Galileia. (4:1-3)

    O versículo Jo 4:2 tem forte cheiro de enxerto, deixando dúvida se essa comunidade acreditava que Jesus batizara em vida ou não. De qualquer forma, por esse material ele ao menos não reprovou a prática de seus discípulos.

    No enfoque de sanar contendas da comunidade e validar crenças, a conversa entre Jesus e Nicodemos vinha a resolver outro problema: o batismo deveria ser pela água ou pelo Espírito? Se lembramos a fala de João Batista (Jo 1:33): “o que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo.” ficamos com a impressão de que Jesus não batizaria mais com água, o que pode ter gerado o arremedo que Jo 4:2. Lembrando a tradição de Atos, em algumas passagens o recebimento do Espírito se dá por imposição das mãos em pessoas previamente batizadas (At 8:17-8 e 19:6). Já em At 10:44-8, temos o padrão oposto: gente que primeiro recebeu o Espírito Santo (mesmo sem imposição de mãos) e só depois foi batizada. Isso sugere que, na Igreja primitiva, houvesse quem tomasse o batismo de água e o de Espírito por dois sacramentos separados (ou separáveis), uma ideia radicalizada entre a comunidade joanina, levando ao risco de o segundo preterir o primeiro. Assim, a conversa de Nicodemos vem a reafirmar a necessidade da sagração por ambos o meios para que se “nasça de novo”. No caso em particular dessa comunidade, o novo nascimento pressupunha a morte como judeu, afinal já haviam sido “mortos” ao serem expulsos da sinagoga (23).

    Um possível complemento a essa análise surge ao se reparar que a palavra grega anothen (Jo 3:3) pode significar tanto “de novo” como “do alto”, provocando um interessante jogo de palavras: Nicodemos teria compreendido o primeiro sentido, enquanto Jesus teria em mente o primeiro. O entendimento quanto a esse nascimento celestial (Cf. [Ehrman (2008), cap. XI, p.167]) só poderia ser explicado por aquele que tivesse vindo do céu: o Filho do Homem (Jo 3:13), que já é um circunlóquio para figura de Jesus nesse evangelho. Há um reforço ao sentido “do alto” por ocasião da fala de João Batista nesse mesmo capítulo

    Aquele que vem de cima [ανωθεν] é sobre todos; aquele que vem da terra é da terra e fala da terra. Aquele que vem do céu é sobre todos.

    Jo 3:31

    Contudo, a análise do tecido social do Quarto Evangelho passou longe do tratamento espírita a essa conversa e a análise linguística repete equívocos dos fanáticos religiosos que tanto eles criticam.

    [topo]

    A Releitura de Kardec

    Retrato de Allan Kardec

    Do Evangelho segundo o Espiritismo (ESE), cap. IV

    5 – E havia um homem dentre os fariseus, por nome Nicodemos, senador dos judeus. Este, uma noite, veio buscar a Jesus, e disse-lhe: Rabi, sabemos que és mestre, vindo da parte de Deus, porque ninguém pode fazer estes milagres, que tu fazes, se Deus não estiver com ele. Jesus respondeu e lhe disse: Na verdade, na verdade te digo que não pode ver o Reino de Deus senão aquele que renascer de novo. Nicodemos lhe disse: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode entrar no ventre de sua mãe e nascer outra vez? Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus, o que é nascido de carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito. Não te maravilhes de eu te dizer que vos importa nascer de novo. O Espírito sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde ele vem, nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do Espírito. Perguntou Nicodemos: Como se pode fazer isto? Respondeu Jesus: Tu és mestre em Israel, e não sabes estas coisas? Em verdade, em verdade te digo: que nós dizemos o que sabemos, e damos testemunho do que vimos, e vós, com tudo isso, não recebeis o nosso testemunho. Se quando eu vos tenho falado das coisas terrenas, ainda assim me credes, como creríeis, se eu vos falasse das celestiais? (João, III: 1-12)

    6 – A ideia de que João Batista era Elias, e de que os profetas podiam reviver na Terra, encontra-se em muitas passagens dos Evangelhos, notadamente nas acima reproduzidas (nº 1 a 3). Se essa crença fosse um erro, Jesus não deixaria de combatê-la, como fez com tantas outras. Longe disso, porém, ele a sancionou com toda a sua autoridade, e a transformou num princípio, fazendo-a condição necessária, quando disse: Ninguém pode ver o Reino dos Céus, se não nascer de novo. E insistiu, acrescentando: Não te maravilhes de eu ter dito que é necessário nascer de novo.

    7 – Estas palavras: “Se não renascer da água e do Espírito”, foram interpretadas no sentido da regeneração pela água do batismo. Mas o texto primitivo diz simplesmente: Não renascer da água e do Espírito, enquanto que, em algumas traduções, a expressão do Espírito foi substituída por do Espírito Santo, o que não corresponde ao mesmo pensamento. Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários feitos sobre o Evangelho, assim como um dia será constatado sem equívoco possível.(1)

    8 – Para compreender o verdadeiro sentido dessas palavras, é necessário reportar à significação da palavra, que não foi empregada no seu sentido específico. Os antigos tinham conhecimentos imperfeitos sobre as ciências físicas, e acreditavam que a Terra havia saído das águas. Por isso, consideravam a água como o elemento gerador absoluto. É assim que encontramos no Gênesis: “O Espírito de Deus era levado sobre as águas”, “flutuava sobre as águas”, “que o firmamento seja no meio das águas”, que as águas que estão sob o céu se reúnam num só lugar, e que o elemento árido apareça”, “que as águas produzam animais viventes, que nadem na água, e pássaros que voem sobre a terra e debaixo do firmamento”.

    Conforme essa crença, a água se transformara no símbolo da natureza material, como o Espírito o era da natureza inteligente. Estas palavras: “Se o homem renascer da água e do Espírito”, ou “na água e no Espírito”, significam pois: “Se o homem não renascer com o corpo e a alma”. Neste sentido é que foram compreendidas no princípio.

    Esta interpretação se justifica, aliás, por estas outras palavras: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito”. Jesus faz aqui uma distinção positiva entre o Espírito e o corpo. “O que é nascido da carne é carne”, indica claramente que o corpo procede apenas do corpo, e que o Espírito é independente dele.

    9 – “O Espírito sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai”, é uma passagem que se pode entender pelo Espírito de Deus que dá a vida a quem quer, ou pela alma do homem. Nesta última acepção, a sequência: “mas não sabes de onde vem nem para onde vai”, significa que não se sabe o que foi nem o que será o Espírito. Se, pelo contrário, o Espírito, ou alma, fosse criado com o corpo, saberíamos de onde ele vem, pois conheceríamos o seu começo. Em todo caso, esta passagem é a consagração do principio da preexistência da alma, e por conseguinte da pluralidade das existências.

    (…)

    (1) A tradução de Osterwald está conforme o texto primitivo, e traz: não renascer da água e do Espírito. A de Sacy diz do Espírito Santo. A de Lamennais também diz: Espírito Santo.

    Essa interpretação que Allan Kardec dá aos versículos de Jo 3:1-15 é menos apelativa que a dada no capítulo anterior do ESE, quando Jo 14:1-3 (“Há muitas moradas na casa de meu pai“) é utilizado como justificativa da vida em outros planetas (espiritual ou carnal). Eu também creio na possibilidade de que haja outros planetas habitados neste vasto universo, porém sou cético de que os antigos hebreus criam nisso. Tal interpretação soa mais como uma espécie de anacronismo: a transposição de ideias, conceitos, costumes, etc. de uma época para outra, a qual eles são alienígenas. O tratamento dado à conversa com Nicodemos padece do mesmo problema.

    Um adepto ou simpatizante pode não perceber isso, pois Kardec faz uma seleção de versículos auxiliares que lhe são úteis. A questão é que há, como vimos, toda uma massa de textos do Antigo Testamento, pseudoepígrafos, essênios, neotestamentários e da literatura cristã primitiva apontando para o uso de “água” e “Espírito” vinculados explicitamente à purificação e à iniciação, e não à reencarnação. Já essa última, quando indicada por espiritualistas, tem de ser extraída das entrelinhas. O sentido mais provável em que essas palavras “foram compreendidas no princípio” não foi o apregoado por Kardec.

    Um espírita tem todo o direito de assim interpretar, porém os demais religiosos não tem a menor obrigação de comprar esse peixe. Contudo o que é ruim ainda pôde ficar pior…

    [topo]

    Se hay Bautismo, soy Contra

    Emergindo das águas

    Pode não.

    Em Analisando as Traduções Bíblicas, cap. XVII, Severino Celestino da Silva sintetiza várias das objeções espíritas ao entendimento da conversa com Nicodemos como uma alusão ao batismo, além de acrescentar algumas de própria autoria:

    Perguntou-lhe Nicodemos: Como isso pode acontecer? Respondeu-lhe Jesus: És mestre em Israel e ignoras essas coisas? Em verdade, em verdade, te digo: falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, porém não aceitais o nosso testemunho. Se não credes quando vos falo das coisas da terra, como ireis crer quando vos falar das coisas do céu?”

    Este é o texto que tem dado mais trabalho aos exegetas que querem negar a Reencarnação. No entanto, é o mais claro e contundente de todos, por isso, existe um verdadeiro malabarismo por parte destes, no sentido de obscurecer o verdadeiro e claro sentido desta passagem. Iniciamos pelo vocábulo “anóten” que em grego pode significar “de novo” e “do alto”.

    Nesta passagem, esse vocábulo significa realmente “de novo”, porém a maioria dos exegetas emprega o termo “do alto” para justificar a sua descrença na Reencarnação. Este malabarismo envolve também a questão gramatical na tradução do texto, como veremos mais adiante. Colocaremos, aqui, muitas observações e conceitos empregados, sobre este texto, feitos por Torres Pastorino na sua obra “Sabedoria do Evangelho”, com relação ao texto grego. Concordamos plenamente com todos os seus conceitos, razão por que o usaremos para reforçar nossa exegese. A análise do texto hebraico é de autoria e responsabilidade nossa.

    p. 238, 4a. ed.

    Vejamos, então, cada parte dessa análise:

    Muitos começam com a afirmação de que Jesus teria dito: “AQUELE QUE NÃO NASCER “DO ALTO”. Observe, no entanto, que a pergunta feita por Nicodemos, em seguida, denota que ele entendeu que Jesus falava realmente em nascer “de novo” e não “do alto”: Como pode “o homem, depois de velho, entrar pela segunda vez (deuteron) no ventre materno?”

    Esta ambiguidade de entendimento só acontece na língua grega, porque no hebraico, que foi realmente a língua em que Jesus dialogou com Nicodemos, este problema não existe. O texto é bem claro e jamais pode significar “do alto”. Diz o seguinte: (“im Iô iualed ish mimkôr ’ai lô-iukal lirôt et-malkut haelohim”) im=se, =nâo, iualed=incompleto do grau qal do verbo “nolad”=nascer, ish=um homem, mimekôr= palavra composta, formada por mi=de + makôr=fonte de água viva, origem. Existe a expressão hebraica “Mekôr chaim” que quer dizer “fonte da vida”. Observe que não existe nada referente “ao alto”, no texto grego, como muitos querem se fazer entender. Assim, o Cristo fala que aquele que não nascer em origem, no sentido de se voltar à fonte original da vida, ou seja, nascer novamente, “não poderá” (lô-iuchal=incompleto do verbo iachôl =poder) ver o reino de Deus (lirôt et-malkut haelohim).

    Assim, no diálogo, a palavra grega “anóten” tem o sentido e significado de “de novo”, portanto, Jesus falava de retorno, ou seja, de Reencarnação mesmo, como foi visto no texto hebraico.

    Lembramos, ainda, que Nicodemos já era um cidadão de idade avançada e o Cristo lhe fala de Reencarnação (Nascer de Novo), como uma esperança e reconforto para ele, mostrando-lhe que a vida não termina com a morte, nem os velhos devem temer a morte, pois podem renascer e começar tudo novamente.

    p. 239 [grifos do autor do livro]

    Eu não teria tanta certeza assim. Concordo que o texto é controverso: Na impressão de 1995 de A Bíblia de Jerusalém, optou-se pelo termo “do alto”, sem nenhuma alusão a duplo sentido (apenas fala “melhor do que ‘de novo’”). Já a impressão de 1998 substituiu anothen por “de novo” e criticou a tese do jogo de palavras. Segundo André Chouraqui, autor bem cotado pelo Dr. Severino, o anônimo redator do texto deixou transparecer que dominava tanto o idioma grego quanto os do ramo semítico (Chouraqui, A Bíblia – Johanam), podendo ter expresso seu raciocínio no primeiro idioma. Como não sou exegeta e, sim, alguém buscando mais um enfoque histórico, repito duas objeções implicitamente levantadas por Bart Ehrman [(2008), cap. XIV, p. 237] à historicidade do episódio:

    1. Tal diálogo ocorreu realmente?
    2. Se ocorreu, foi do jeito que consta no Evangelho de João?

    Sim, ainda hoje há adeptos da “fé racionada” achando que alguém gravou a conversa entre Jesus e Nicodemos, ao estilo do livro Operação Cavalo de Troia, ou, de forma menos apelativa, registrou taquigraficamente a conversa em uma tábua de cera. Se tal registro um dia existiu, encontra-se perdido. O que temos é o Evangelho de João, cuja língua original é tida como sendo a grega, pela maioria dos pesquisadores. O jogo de palavras feito pode ter sido a intenção de seu anônimo autor. “Peraí, o Dr. Severino postou o texto em hebraico“. Sim, fiquei tão surpreso que gostaria de saber de onde esse texto saiu. Nenhuma informação é dada em sua bibliografia e, ao que eu saiba, a primeira tradução para esse idioma foi feita nos tempos do Renascimento. Ou seja, até que se esclareça a fonte utilizada por ele, há um forte cheiro de uma tradução de outra tradução.

    Isso me lembra o episódio de Teodora e as 500 prostitutas assassinadas: ninguém soube indicar a fonte, embora propalassem o boato. Acho que a fonte hebraica para evangelho de João vai pelo mesmo caminho: quando um apologista espírita for cobrado, vai declarar frases como: “tenho que ir, pois vai chover!”, “Alá um disco voador!” ou “não tenho de dar fonte alguma pois você não refutou tais e tais pontos“… Haja paciência.

    [topo]

    Um Artigo (Nada) em Falta


    Os artigos gregos do nominativo singular

    Na sequência, Cristo confirma que era isso que Ele queria dizer: “Quem não nascer de água (materialmente, com o corpo denso, dado que o nascimento físico é feito através da bolsa d’água do líquido amniótico), (…) e de espírito (pneumatos), (ou seja, que adquirira nova personalidade no mundo terreno, em cada nova existência, a fim de progredir). Se Nicodemos entendeu ao pé da letra as palavras de Jesus, o Mestre confirma ao pé da letra e reforça o seu ensino. Com efeito, o espírito ao reentrar na vida física, pode ser considerado o mesmo espírito que inicia suas experiências, esquecido de todo o passado.”

    A questão gramatical: No texto em grego não há artigo diante das palavras “água” (ek ydatos = de água) e “espírito” (kai pneumatos), portanto, o texto fala em nascer “de água e de espírito”. Não é portanto, nascer da água do batismo, nem do espírito, mas de água (por meio da reencarnação) e de espírito (pela Reencarnação do espírito).

    p. 239-40 [grifos do autor do livro]

    Agora será muito estranho o que vou dizer: a tradução em português que usa do artigo (“da água e do espírito”) é a mais correta! Bem, acho que o leitor deve estar se perguntando por quê? Para entender, vamos ter de entrar em certas particularidades do grego. Coisa que Severino da Silva não realçou é que a preposição εκ/εξ (e sua equivalente latina “ex”) não tem o sentido simples de nosso “de”. O mais preciso seria: de dentro para fora ( no espaço e no tempo), a partir de, de, origem, ponto de partida, de iniciativa.

    Exemplos retirados de [Murachco, pp. 563-565]:

    εκ θαλαττης – do mar. [a partir do mar]
    εκ παιδων – desde a infância. [a partir da infância]
    εκ χρυσων πινομεν φιαλων – Nós bebemos de taças de ouro.
    οι εξ εκεινων γεγονοτες – os que nasceram deles

    Note que em alguns dos exemplos, o artigo inexiste em grego, mas se faz necessário em português para dar a ideia de origem, como se fez em “da água” e “do espírito”, e não o uso deles como um veículo. Vale lembrar que várias palavras e, principalmente, sentenças de sentido geral não costumam levar artigo em grego: mar, cidade, céu, dia, sol e uma das gramáticas usadas pelo Dr. Severino informa isso (24). Não houve nenhuma garantia que um uso sem artigo (anartro) da palavra “água” foi feito, que teria causado uma ausência também em “espírito”. Para corroborar sua tese de que não se falou de batismo em tal versículo, Dr. Severino faz uma interpretação sui generis do livro de Gênesis:

    O primeiro versículo do Gênesis (1:1) fala que no princípio criou Deus os Céus e a terra. A palavra “céus” em hebraico “Shamaim” (…) significa: “Carrega água”, “Ali existe água”; “fogo e água” que, misturados um ao outro, formaram os Céus.

    Como podemos observar, tudo começou com as águas. Água é vida e essa era a crença geral naquela época. É lógico que o Cristo não falava de batismo e sim de retorno através da água. Lembramos ainda que 99% da constituição das células reprodutoras são água.

    p. 240 [grifos do autor do livro]

    A crença da época apontava a água como instrumento de purificação. Como já foi dito aqui anteriormente, há toda uma massa de textos do Antigo Testamento, pseudoepígrafos, essênios, neotestamentários e da literatura cristã primitiva apontando para o uso de “água” e “Espírito” vinculados explicitamente à purificação e à iniciação, em vez da reencarnação. E não será um versículo que mudará isso. Ademais, como o conceito de “célula” era desconhecido pelos antigos hebreus, a analogia com as células reprodutoras não passou de um forte anacronismo por parte do autor.

    Uma ironia é que logo no parágrafo seguinte, a palavra grega para “espírito” aparece precedida de artigo; um pormenor pelo qual Severino Celestino da Silva passou tangencialmente:

    Daí a explicação que segue “o que nasce da carne (ek tês sarkos) com artigo (tês) em grego, é carne”, isto é com corpo físico, com toda a hereditariedade física herdada do corpo dos pais; “e o que nasce do espírito (ek tou pneumatos) é espírito”, ou seja, o espírito que reencarna provém do espírito da última reencarnação com toda a hereditariedade pessoal (cármica) que traz do passado.

    p. 240 [grifos do autor do livro]

    Ou seja, nem ele explica que a tradução mais ao pé da letra de pneuma é “sopro” e ela não tinha o sentido de “alma” que ganhou com o tempo. Tanto que em textos de Justino Mártir (Diálogos…, IV) e Orígenes (Comentário sobre o Evangelho de João, livro VI, cap VII) é clara a distinção entre alma (psyché, em grego) e espírito (pneuma).

    E no próprio Novo Testamento há exemplos de expressões preposicionadas (com εκ e outras), de sentido definido, que não levam artigo em grego:

    εν αρχη – no princípio (Jo 1:1)
    απ’αρωχης – desde o princípio (Mt 19:4)
    εκ δεξιων – à direita (Mc 10:37)
    εκ αριοτερων – à esquerda (Mc 10:37)
    εκ νεκρων – dentre os mortos (Mt 17:9)
    εν πνευπατι – no espírito (Ef 6:18)

    Em resumo: em grego antigo, existia apenas o artigo defino. Sua presença delimitava o substantivo ao qual se referia, porém sua ausência não o tornava necessariamente indefinido. Clique neste link para acessar um estudo pormenorizado sobre o tema.

    [topo]

    Uns dizem um espírito, outros dizem o Espírito. Eles escreviam ΠΝΑ

    Jo 3:6 em P66
    foto de P66
    Papiro P66 em Jo 3:6

    Detalhe do papiro P66 em Jo 3:6, exibindo o nomem sacrum para pneuma em apenas uma das aparições dessa palavra no versículo. Extraído de Early Bible.

    Recapitulando as observações feitas por Kardec quanto às traduções que dispunha do Evangelhos João, em relação ao versículo 3:5:

    7 – Estas palavras: “Se não renascer da água e do Espírito”, foram interpretadas no sentido da regeneração pela água do batismo. Mas o texto primitivo diz simplesmente: Não renascer da água e do Espírito, enquanto que, em algumas traduções, a expressão do Espírito foi substituída por do Espírito Santo, o que não corresponde ao mesmo pensamento. Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários feitos sobre o Evangelho, assim como um dia será constatado sem equívoco possível.(1)

    (. . .)

    Nota (1): A tradução de Osterwald está conforme o texto primitivo, e traz: não renascer da água e do Espírito. A de Sacy diz do Espírito Santo. A de Lamennais também diz: Espírito Santo.

    A tradução da Bíblia para o francês feita por Louis-Isaac Lemaistre de Sacy (1613 – 1684) se valeu da Vulgata, segundo informa a aprovação clerical recebida por ela. A tradução dos Evangelhos de Félicité Robert de Lamennais, em meados do século XIX, faz referências às leitura do texto grego e da Vulgata, embora em Jo 3:5 traga a leitura Esprit-Saint sem maiores explicações. Já o pastor protestante suíço Jean-Frédéric Osterwald (1663 – 1747) revisou a Bible de Genève com base no texto grego e redigiu apenas esprit, com letra minúscula. Tanto Kardec quanto Dr. Severino advogam que “espírito” em Jo 3:5 não deve ser entendido como “Espírito Santo” com base na autoridade do texto “mais antigo”.

    Inicialmente, vejamos o que entendiam os tradutores acima por “Vulgata” e “Texto Grego”. A primeira é a Vulgata Sixto-Clementina, uma recensão feita nos tempos da Contrarreforma da tradução de Jerônimo de Estridão. Alguns manuscritos da Vulgata – como o Códice Covensis – trazem a leitura ex aqua et Spiritu Sancto, enquanto o Códice Amiatinus – o mais antigo exemplar completo da Vulgata (ca. séc. VIII) – traz apenas ex … Spiritu. Já o mais tardio Códice Cavense (séc. IX) traz a leitura mais longa, assim como diversos outros códices cujas leituras refletem a Vetus Latina, além de ser citada por autores latinos tão separados no tempo como Tertuliano (séc. II e III, em De Baptismo, cap. XIII) e Tomás de Aquino (séc. XIII, em Suma Teológica, parte III, questão 66, art 2º). Essa leitura pode até não ser a original, porém é mais antiga do que sugere Kardec. Quanto a “texto grego”, entenda-se que seria o Textus Receptus (“Texto Recebido”), a edição do Novo Testamento em grego feita pelo erudito Erasmo de Roterdã (1466 – 1536). Apesar de todas as críticas justificadas feitas ao texto de Erasmo, não há em Jo 3:5 discrepância com relação aos manuscritos de melhor qualidade: apenas “εξ … πνευματος” aparece na fala de Jesus a Nicodemos. Teria, então, algum tradutor latino inserido no texto da Vetus uma interpretação em vez da tradução mais literal? É provável que sim, embora ele ainda seja inocente ou, pelo menos, digno de um atenuante, pois é possível rastrear essa associação de “espírito” como “Espírito Santo” em Jo 3:5 desde o século III. Como sabemos disso? Os antigos copistas deixaram indicações.

    Uma linha argumentativa recorrente entre pretensiosos “biblistas” espiritualistas é a de que, nos evangelhos, sempre se deveria escrever “espírito” em vez de “Espírito”, pois na antiguidade inexistiam a diferenciação entre letras maiúsculas e minúsculas, afinal essas últimas só foram inventadas na Idade Média. Portanto, qualquer um que traduza ΠΝEYMA por “Espírito” terá inserido uma interpretação teológica tardia, após a consolidação da doutrina da Trindade. Quem dera que os fatos fossem tão simples assim. De fato, os antigos copistas escreviam apenas em maiúsculas e, para economizar tempo e aproveitar ao máximo as caríssimas folhas de pergaminho, nãoseparavamumapalavradaoutra (scripta continua) recorriam muitas vezes a abreviaturas. Como essas eram feitas para as palavras mais frequentes, nada mais natural que as de cunho religioso fossem escolhidas e dessem origem ao que, em tempos modernos, seria designado como uma classe especial de abreviaturas: os nomina sacra (“nomes sagrados”).

    Uma particularidade interessante dos nomina sacra é que todos os manuscritos antigos possuem um conjunto mínimo deles, dando a entender que, se já não surgiram junto com os originais dos livros, começaram a ser utilizados bem cedo. Quatro nomes aparecem universalmente em todos os unciais na forma abreviada: “Senhor” (Κυριος), “Deus” (Θεος), “Jesus” (Ιησους) e “Cristo” (Χριστος). Conforme a datação dos manuscritos avança, outras palavras se juntam ao grupo, como “Pai” (Πατηρ), “Filho” (Υιος), “Cruz” (Cταυρος), “Israel” (Ισραηλ), “Céu” (Ουρανος), etc. Não havia uma regra única para as abreviaturas, mas, em geral, os copistas tomavam a primeira ou as duas primeiras letras, a última, e as sobrescreviam com um traço horizontal. Como a terminação de uma palavra variava conforme o caso em que se encontrasse, os nomina sacra também mudavam em concordância.

    Uncial Nominativo Genitivo
    Senhor ΚΥΡΙΟC ΚC ΚΥ
    Deus ΘΕΟC ΘC ΘΥ
    Jesus ΙΗCΟΥC ΙC ΙΥ
    Cristo ΧΡΙCΤΟC ΧC ΧΥ
    Espírito ΠΝΕΥΜΑ ΠΝΑ ΠΝC
    Pai ΠΑΤΗΡ ΠΗΡ ΠΡC
    Filho ΥΙΟC ΥC ΥΥ
    Cruz CΤΑΥΡΟC CΤC CΤΥ
    Israel ΙCΡΑΗΛ ΙΗΛ indeclinável
    Céu ΟΥΡΑΝΟC ΟΥΝΟC ΟΥΝΟΥ

    Lista não exaustiva de nomina sacra comuns em manuscritos do Novo Testamento. Não foram incluídas variantes como IHC para Jesus. Mais pormenores em [Comfort, cap. IV]

    Como se enquadra Pneuma no histórico do emprego dos nomina sacra? Seu nomen sacrum ΠΝΑ se encontra presente nos mais antigos manuscritos que chegaram até nós contendo a palavra “espírito” denotando uma origem divina, dando a entender que seria tão antigo quanto os quatro primários e seria tranquilamente aceito como um quinto membro desse grupo se não fosse por duas anomalias [Comfort, cap. IV, pp. 231-41]:

    • O papiro P46 (c. 175-225, contém epístolas paulinas) deixa de aplicar o nomen sacrum para o espírito divino em dez circunstâncias que seriam comumente aceitas depois;
    • O Códice Vaticano, contemporâneo do igualmente famoso Sinaítico (séc. IV), não possui nomen sacrum para Pneuma.

    Uma conciliação proposta é que P46 teria sido redigido numa época de transição, quando as abreviaturas para Pneuma ainda estavam se desenvolvendo e o Códice Vaticano seria uma reprodução de um manuscrito ainda mais antigo que P46. Com o material disponível atualmente, isso é apenas conjectura, não estando descartada a hipótese de o copista de P46 ter se descuidado. Por ora, pode-se afirmar que, se ΠΝΑ não for um nomen sacrum primário, ao menos é quase tão antigo quanto os desse grupo.

    O impacto desse registro paleográfico é deixar claro que a personalização do Espírito Santo – representando um ente específico e não uma classe – se encontra presente desde o II século de nossa Era e duzentos anos antes do I Concílio de Constantinopla. E, embora o registro escrito fosse bem mais precário, os antigos tinham, sim, seus meios para destacar o que lhes era relevante. Os nomina sacra constituíam um deles. Não revelam apenas vislumbres de como “Espírito” era compreendido, mas também aspectos um pouco mais profundos de exegese. Por exemplo, relembrando o diálogo entre Jesus e Nicodemus, mais especificamente este versículo:

    Jo 3:6
    P66
    (Fonte)
    Papiro P66 em Jo 3:6
    P75
    (Fonte)
    Papiro P75 em Jo 3:6

    A última oração do versículo – και το γεγεννημενον εκ του πνευματος πνευμα εστιν (“e o que é nascido do espírito é espírito”) – é interpretada de forma diferente pelos copistas. O de P66 distinguiu o Espírito divino do humano, dando a entender que “o Espírito divino gera o espírito humano”. Essa é a interpretação da maioria das traduções modernas. Já o de P75, por sua vez, tratou os dois como divinos, sugerindo que “o que é gerado pelo Espírito também é divino”. A passagem, sem dúvida, permite mais de um entendimento, não havendo razão alguma para se considerar o viés reencarnacionista como o único possível, como fazem certos apologistas espíritas. Bem antes de Niceia, as opiniões eram outras…
    [topo]

    Várias Línguas, Poucos Poliglotas

    Jesus perante Pilatos

    – Quid est veritas?
    – Por favor, Pilatos, você deveria falar:
    Τι εστιν αληθεια;
    Aliás, cadê o intérprete nesta cena do filme?

    Na encruzilhada de diversos impérios ao longo de sua história, a região do antigo reino de Herodes recebeu diversas influências, que deixaram suas marcas linguística nas culturas locais. Quatro são os idiomas em questão: hebraico, aramaico, grego e latim; cada um com um papel diferente em sua sociedade no primeiro século da Era Comum.

    1. Latim: Do grupo, este idioma era o “recém-chegado”, tendo sido apresentado às terras da Judeia pelas tropas do general Pompeu em 63 a.C., passando a marcar um pouco mais de presença quando ela passou para a administração de direta de Roma no sexto ano da Era Comum. Com certeza era ouvida na capital administrativa, Cesareia Marítima, entre os soldados e altos funcionários civis do império, contudo era a língua do conquistador. Para um romano, aprender um idioma local seria uma habilidade a mais, já um nativo poderia ser visto como traidor se fizesse o contrário. Inscrições monumentais encontradas nos vestígios arqueológicos das construções romanas da época de forma alguma significam que seus autores desejavam ser lidos por outros que não fossem os seus. Os romanos se congratulavam entre si e, para os que estavam de fora, a mensagem de uma inscrição latina era sempre a mesma: “Roma manda aqui“;

    2. Grego: difundido no Levante pelas tropas de Alexandre da Macedônia, o dialeto koiné desse idioma era a língua internacional da helenizada orla oriental do Mediterrâneo no primeiro século da Era Comum e só perderia esse posto após a expansão do Islã, a partir do século VII. Na divisão do império macedônio, a Judeia ficou inicialmente com o Egito dos Ptolomeus e, em seguida, passou para o domínio dos Selêucidas da Síria. Esse último tentou impor uma helenização forçada e acelerada que resultou na vitoriosa revolta dos Macabeus e na instauração da dinastia Hasmoneia. Entretanto, isso não foi o fim da influência grega na região, afinal já estavam estabelecidas grandes comunidades judaicas pelo mundo helênico, cujo idioma materno não era mais o hebraico ou o aramaico e, sim, o grego. Em suas peregrinações ao Templo, esses judeus da diáspora faziam garantir que a língua de Platão fosse escutada pelos nativos Jerusalém e arredores. Com a conquista romana e o reinado de Herodes, uma nova fase de aculturação começou e voltaram a florescer colônias gregas nas bordas de seu reino. Um desses centros cosmopolitas foi a cidade de Séforis, localizada a apenas 7 km de Nazaré, onde um certo jovem galileu chamado Jesus deve ter trabalhado. Sim, Jesus Histórico com certeza travou contato com a cultura greco-romana e em algum grau deveria compreender a língua franca de sua região – o grego koiné, a questão é qual era seu provável grau de intimidade com o idioma? Ou, em outras palavras, até onde era difundido o bilinguismo na Galileia/Judeia do primeiro século?

      De fato, mesmo uma pessoa pouco instruída pode dominar várias línguas caso tenha sido exposta a elas desde cedo ao interagir com falantes nativos de outros idiomas. Contudo, ser capaz de realizar transações comerciais, fornecer instruções objetivas, ou dar explicações de como chegar a algum lugar, requer bem menos vocabulário e domínio da gramática que sermões religiosos ou expressões de afeto. Via de regra, gentios e judeus viviam perto uns dos outros o suficiente para estabelecer um contato superficial, mas dificilmente seriam entrosados o bastante para precisar de uma comunicação profunda. O fato de alguns discípulos de Jesus – como Felipe e André – e o próprio Nicodemos possuírem nomes de origem helênica atesta uma elevada influência da cultura grega na região, mas pouco garante algo sobre o bilinguismo de seus habitantes. Um paralelo moderno pode ser a profusão de nomes próprios de origem inglesa na Brasil, mesmo nas camadas populares (às vezes grosseiramente aportuguesados), embora o grosso da população continue monoglota.

      Alguns relatos fora dos evangelhos reforçam a ideia de que a maioria dos judeus locais não possuía o grego como primeira língua:

      • Em Atos, capítulos VI a VIII, é relatada uma rixa entre os “judeus de fala hebraica” e os de “fala grega”. Bem, esses dois grupos deveriam se comunicar utilizando alguma língua em comum, mas qual? No capítulo XXI, vv. 37-40, Paulo comunica-se com os soldados que o prendem em grego, mas fala à multidão em aramaico. Ainda que tal passagem não tenha sido 100% verídica, a Lucas deve ter tentado dar plausibilidade à narrativa, lembrando que a maioria dos os ouvintes não dominava o grego muito bem. Assim, os bilíngues eram os judeus de fala grega, como Paulo o era;

      • No livro V, capítulo IX de A Guerra dos Judeus, Flávio Josefo informa que serviu de intérprete para o general romano Tito:

        Mas então Tito, sabendo que a cidade [Jerusalém] seria ou salva ou destruída por ele mesmo, não apenas procedeu prontamente ao cerco, mas não deixou de exortar os judeus ao arrependimento; de modo que uniu um bom aconselhamento com seus trabalhos de cerco. E tendo o senso de que exortações são frequentemente mais efetivas que braços, persuadiu-os a entregar a cidade, que já estava tomada de certa forma, e assim se salvarem, e enviou Josefo para falar com eles em sua própria língua; pois imaginou que poderiam ceder à persuasão de um conterrâneo deles.

      Assim, é provável que Jesus (o Histórico) conhecesse e até entendesse um pouco de grego, mas com certeza não era sua língua materna, nem o idioma com que pregava às massas.

    3. Hebraico: Com o Cativeiro de Babilônia (590 – 538 a.C.) , os israelitas remanescentes foram expostos ao, ou melhor, imersos no idioma do conquistador: o aramaico, que era um parente próximo do hebraico na família das línguas semíticas. Mesmo com a queda do Império Babilônico ante os persas e o retorno de parcela do povo a Israel, ele continuou a ser a língua oficial da parte ocidental do novo império. Com seu uso constante no contato com outros povos, quer na diplomacia ou no comércio, e com os que permaneceram na Babilônia fez o aramaico suplantar o hebraico como língua materna dos judeus, deixando ao segundo apenas o uso litúrgico. O livro de Neemias (v. 13:24) dá um registro dessa mudança linguística ao relatar que metade dos filhos de casamentos mistos “não sabia mais o hebraico”. Acredita-se que ao tempo de Jesus, esse processo já estivesse quase completo na Palestina romana.

      Estaria o hebraico ainda vivo o bastante para ter sido usado como veículo para a pregação de Jesus? Nem todos os judeus foram exilados na Babilônia e, com certeza, ele ainda era usado nas Sinagogas, mas e fora delas? As regiões rurais poderiam ser isoladas o bastante ter ficado imunes a exílio, num primeiro momento, e ao cosmopolitismo posterior; além do que, bem longe de Jerusalém, a comunidade de Qumran escreveu todos os seus textos doutrinários em hebraico, indicando que deveria ser ao menos a língua litúrgica local. Entretanto, já não era o hebraico dos livros bíblicos, mas um intermediário entre ele o hebraico mishinaico utilizado pelos rabinos após a revolta de Bar Kochba, o que seria sinal de que o hebraico continuava a evoluir como língua justamente por ainda estar bem vivo.

      Esses indícios, contudo, não são conclusivos: quinze porcento dos textos bíblicos em Qumran estão em aramaico, indicando que boa parte dos membros da comunidade (os novatos, talvez) não conseguia ler diretamente em hebraico, além do fato de línguas puramente escritas também evoluírem, embora mais devagar, por causa da evolução do meio ambiente em que seus redatores vivem e da língua que falam. O hebraico pode, sim, ter sobrevivido nas isoladas colinas ao sul da Judeia (25), mas para as maiores aglomerações, evidências apontam para uma quarta opção de língua vernacular.

    4. Aramaico: Ao contrário do latim e o grego, o aramaico contava para os falantes de hebraico com a vantagem de pertencer à mesma família de línguas – a semítico-ocidental -, e a similaridade entre esses dois era comparável com a que existe entre as atuais línguas neolatinas. Isso, sem dúvida, ajudou o aramaico a suplantar o hebraico, fincando sua presença, inclusive, nos mais tardios livros que viriam a constituir o Antigo Testamento: metade do livro de Daniel está escrito nessa língua (Dn 2:4b–7:28) e trechos longos Esdras, também (4:8–6:18 e 7:12–26). Por fim, sua escrita “quadrada” substituiu a variante do alfabeto fenício usada antes do Exílio.

      Fora dos textos bíblicos, a evidência das inscrições monumentais, lapidares (ossários) e de correspondências aponta para uma predominância do aramaico sobre o hebraico em antigas áreas de preponderância semita na Judeia do primeiro século e adjacências (26). O aramaico, portanto, deve ter sido o idioma de uso mais corrente entre o povo de Jerusalém e ainda mais no da Galileia. Se Jesus desejou que sua mensagem alcançasse o maior número de pessoas, então deve ter se valido deste idioma. Nos evangelhos, várias palavras de origem aramaica – como Abba (Mc 14:26, “Pai”) ou Rabôni (“Mestre”, Jo 20:16) – aparecem com uma explanação de sentido para seus leitores gregos, além do grito de Jesus (Mt 27:46) na crucificação – “Eli, Eli, lema sabachthani?” (ou “Eloi, Eloi, lama sabachthani?”, em Mc 15:34), cuja última palavra está indiscutivelmente em aramaico. Embora não se possa garantir historicidade nas falas em que ocorrem esses aramaicismos, ao menos os evangelistas procuraram apresentar Jesus como um falante de aramaico.

    Ainda que o aramaico fosse a primeira opção de Jesus, teria sido possível que ele pregasse em outras línguas? Bem, tudo dependeria de seus interlocutores e do quanto ele dominava o idioma deles. Dentro das sinagogas, o uso do hebraico poderia ser válido, supondo um Jesus instruído formalmente na Torá. A conversação em alguns episódios das narrativas evangélicas – como a cura do servo de um centurião (Mt 8:5-13 e Lc 7:1-10) e o diálogo com Pilatos -, caso verídicos, teriam sido em grego pelo fato de um dos interlocutores ser totalmente alienígena à cultura local. Entretanto, que não se descarte a hipótese de que tenha havido um intérprete no meio, suprimido pela tradição que chegou aos evangelistas (27). No caso da conversa com Nicodemos, temos dois semitas falando ambiente indeterminado. Nada indica que essa conversa se deu em grego ou algum nicho em que a adoção do hebraico fosse presumida. Assim, o duplo sentido de novo/do alto seria inválido por não ser possível de ser reproduzido em aramaico, certo? Talvez se esteja procurando a resposta nos locais errados.
    [topo]

    Buscando-se apenas onde há luz

    Vela na escuridão

    – Estou procurando por minha moeda de 25 centavos que deixei cair.
    – Você a deixou cair aqui?
    – Não, deixei cair duas quadras rua abaixo.
    – Então por que está procurando por ela aqui?
    – Porque aqui a luz é melhor.

    (Mutt and Jeff, 1942)

    (Em construção)
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    Notas

    (1) Segundo [Finkelstein & Slberman, IV, p. 169]:

    Hoje, como no passado, as pessoas demonstram sua etnia de muitas maneiras diferentes: na língua que falam, na religião, no modo de vestir, nas práticas funerárias e nos elaborados tabus dietéticos. A simples cultura material deixada pelos pastores e fazendeiros das montanhas, que se tornaram os primeiros israelitas, não oferece nenhuma indicação precisa de seu dialeto, de seus rituais religiosos, de seus costumes ou de suas práticas fúnebres. Mas descobriu-se detalhe muito importante sobre seus hábitos dietéticos; os ossos recuperados nas escavações de pequenas vilas israelitas antigas nas regiões montanhosas diferem daqueles dos assentamentos em outras partes do país num aspecto significativo: não foram encontrados ossos de porcos. Os conjuntos de ossos de antigos assentamentos nas regiões montanhosas continham remanescentes de porcos, e condição idêntica ocorre para os assentamentos posteriores da mesma região, na pós-Idade do Ferro. No entanto, ao longo da Idade do Ferro – a era das monarquias israelitas – os porcos não eram cozidos e comidos, ou mesmo criados, nas regiões montanhosas. A informação comparativa de assentamentos do mesmo período – a Idade do Ferro I – na costa filisteia mostra número surpreendentemente grande de ossos de porcos entre ossos de animais que foram recuperados. Embora os antigos israelitas não comessem porcos, sabe-se que os filisteus comiam (pelo que podemos dizer de informações pouco detalhadas), do mesmo modo que os amonitas e moabitas a leste do Jordão.

    A proibição ao porco não pode ser explicada apenas por razões ambientais ou econômicas. De fato, pode ser a única pista disponível para uma identidade específica, partilhada entre os aldeões das regiões montanhosas a oeste do Jordão. Talvez os proto-israelitas tenham parado de comer porco só porque as pessoas que os cercavam – seus adversários – assim o faziam e eles tenham começado a se perceber diferentes. Práticas culinárias e costumes dietéticos distintos são duas maneiras pelas quais são formadas fronteiras étnicas. O monoteísmo e as tradições do Êxodo e da Aliança parece que vieram mais tarde. Na metade do milênio antes de o texto bíblico ser composto, os israelistas, com suas leis detalhadas e regras dietéticas, escolheram – por razões que não estão absolutamente claras – não comer porco. Fazendo o mesmo, os judeus modernos estão dando continuidade à prática arqueológica documentada mais antiga do povo de Israel.

    Tal como a língua, as práticas de higiene também não deixaram vestígios arqueológicos, embora também pudessem facilmente constituir mais uma “fronteira étnica”.

    (2) Em Antiguidades Judaicas, livro VIII, cap. III.

    Ele [Salomão] também fez dez grandes tanques redondos de latão, que eram os próprios lavatórios, cada qual contendo quarenta batos [1 bato ~ 32 litros], pois tinham quatro côvados de altura e suas bordas distavam o mesmo tanto uma da outra. Também dispôs esses lavatórios sobre dez bases chamadas “Mechnoth”, e colocou cinco dos lavatórios no lado esquerdo do templo, que é o lado em direção ao vento setentrional, e igual número no lado direito, na direção sul, porém voltados em direção ao leste; na mesma direção [leste] ele também colocou o mar, então, designou o mar para a lavagem das mãos e pés dos sacerdotes, quando eles adentravam o templo e tinham de subir ao altar, mas os lavatórios para a limpeza das entranhas dos animais a serem queimadas em oferendas, junto com as patas deles.

    O texto é muito parecido com II Cr 4:2-8, mas na Bíblia somos informados apenas que os sacerdotes se lavavam e não especificamente “pés e mãos” como informa Josefo.

    (3) Exemplos:

    Que se traga já um pouco de água, e lavai os vossos pés, e recostai-vos debaixo desta árvore;
    Gn 18:4

    E disse: Eis agora, meus senhores, entrai, peço-vos, em casa de vosso servo, e passai nela a noite, e lavai os vossos pés; e de madrugada vos levantareis e ireis vosso caminho. E eles disseram: Não, antes na rua passaremos a noite.
    Gn 19:2

    Então veio aquele homem à casa, e desataram os camelos, e deram palha e pasto aos camelos, e água para lavar os pés dele, e os pés dos homens que estavam com ele.
    Gn 24:32

    Depois levou os homens à casa de José, e deu-lhes água, e lavaram os seus pés; também deu pasto aos seus jumentos.
    Gn 43:24

    E levou-o à sua casa, e deu pasto aos jumentos; e, lavando-se os pés, comeram e beberam.
    Jz 9:21

    Então ela se levantou, e se inclinou com o rosto em terra, e disse: Eis que a tua serva servirá de criada para lavar os pés dos criados de meu senhor.
    I Sm 25:41

    Vale lembrar a passagem dos evangelhos (Lc 7:36-50; Mt 11:28-30) em que Jesus é convidado para jantar por um fariseu e tem os pés ungidos pelas lágrimas de uma pecadora e secos por seus cabelos, enquanto o dono da casa sequer lhe ofereceu água para a lavagem.

    (4) Cf. [Lawrence, cap. IV, p. 153] e [Flusser, cap. III, pp. 69-71].

    (5) Pelo texto de II Macabeus não é possível saber em que consistia tal purificação “segundo o costume”. Para uma discussão sobre hipóteses, ver [Lawrence, cap. III, pp. 62-4].

    (6) A Carta de Aristeias traz a lendária história da origem da Septuaginta, ou melhor, da tradução do Pentateuco para o idioma grego. O faraó Ptolomeu Filadelfo (285- 247 a.C.) teria solicitado a 72 sábios judeus de Alexandria a tradução da Torá para o grego koiné, a fim de incluí-la em sua famosa biblioteca. O trabalho, curiosamente, teria sido concluído em exatos 72 dias.

    (7) Nome também transliterado por Azenate e, ainda, Asenate. Pouca informação sobre ela há no cânon bíblico (cf. Gn 41:45,50-2), o que abriu espaço para amplo trabalho criativo extrabíblico.

    (8) Cf. [Asheri, cap. XLV, pp. 267-9]. O livro de Judite relata o ato de conversão de Aquior apenas como sendo a circuncisão (Jd 14:6), talvez evidenciando uma diversidade de culto entre os judeus da diáspora ou omitindo a lavagem ritual por considerá-la, para os homens, apenas como uma prévia da circuncisão. No século II da Era Comum, o Talmude babilônico já equiparava ambos os rituais em importância:

    [Mas] todos concordam que ablução ritual sem circuncisão é efetiva, mas discordam apenas quanto a circuncisão sem ablução.

    Yevamot 49a

    (9) Nos manuscritos de Josefo que chegaram até nós, teria sido feita uma referência a Jesus nesse mesmo livro XVIII de Antiguidades…:

    Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, se na verdade se pode chamá-lo de homem. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como entre muitos de origem grega. Ele era o Messias. E quando Pilatos, por causa de uma acusação feita pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-o à cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de amá-lo. Pois ele lhes apareceu no terceiro dia, novamente vivo, exatamente como os profetas divinos haviam falado deste e de incontáveis outros fatos assombrosos sobre ele. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve este nome a ele, não desapareceu.

    Antiguidades Judaicas, livro XVIII, cap. III

    Também conhecido como Testimonium Flavianum, essa passagem é polêmica por possuir forte cheiro de fraude: como poderia um judeu alinhado com os fariseus chamar Jesus de “Cristo”, considerá-lo “mais do que um homem” e crer em sua ressurreição? Para não descartar totalmente essa passagem, há propostas de que ela seria genuína, porém sofreu enxertos cristãos [Meier, cap. III, pp67-77]. Uma tentativa de reconstituição seria “descristianizá-la” para algo como:

    Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como entre muitos de origem grega. E quando Pilatos, por causa de uma acusação feita pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-o à cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de amá-lo. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve este nome a ele, não desapareceu.

    Já a passagem de João Batista é mais crível justamente por não ser “cristã demais”.

    (10) Apesar da possibilidade de o “João Batista Histórico” realmente aguardar alguém maior que ele, como dito em Mc 1:7 e no meio de Mt 3:11/Lc 3:16, não está muito claro que ele esperasse um batismo diferente, como os evangelistas escreverem em Mc 1:8 e ao fim de Mt 3:11/Lc 3:16. À primeira vista, texto aparenta ser extraído apenas de Marcos e copiado nos outros dois sinópticos, conforme a hipótese da origem quádrupla, contudo podemos estar diante de um caso de múltipla atestação de Marcos e Q. Repare a diferença:

    (…) ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo (Mc 1:8)

    (…) ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo. (Mt 3:11/Lc 3:16)

    É possível que os redatores de Lucas e Mateus tenham se deparado com a seguinte leitura em Q: “ele vos batizará com fogo” e daí feito independentemente uma harmonização com Marcos gerando um versículo híbrido em seus respectivos evangelhos (cf. [Tatum, cap. XIII, pp. 128-31]).

    A Fonte Q é uma hipótese poderosa e explicativa, mas sofre de um problema sério: não temos nenhum exemplar de Q disponível e – caso ela tenha sido uma tradição oral – talvez nunca venhamos a ter um. Portanto, é possível (embora improvável) que ele contivesse a forma mais longa da passagem. O que a hipótese pode indicar com alguma certeza é existência dessa fala atribuída a João Batista já no período pré-literário, i.e., após a morte de Jesus e antes da redação dos evangelhos.

    (11) Nos dois principais manuscritos antigos de Marcos – os códices Sinaítico e Vaticano -, os doze últimos versículos estão ausentes. Além disso, há uma mudança abrupta no estilo e palavreado (em grego) que dão praticamente certeza de eles foram um acréscimo posterior. As dúvidas estão entre determinar seu o final original foi perdido, ou se o encerramento abrupto em Mc 16:8 foi o pretendido. Há argumentos fortes para uma e outra opção. Para a hipótese do “final perdido”, vide [Metzger, cap. VIII, pp. 226-9] e, depois, contraste-a com a defesa de um de seus alunos do “final abrupto” em [Ehrman (2006), cap. II, pp. 75-8].

    (12) Cf. [Willker, pp.636-8] para pormenores dessa passagem difícil.

    (13) Sobre outros paralelos que Lucas fez, ver [Ehrman (2008), cap. X, p. 148, box 10.4].

    (14) Sobre os modelos de salvação usados por Paulo de Tarso em Romanos, ver [Ehrman (2008), cap. XXII, pp. 361-7].

    (15) A edição brasileira da Paulus não dá referência alguma sobre a origem da citação. A edição em língua inglesa de Philip Schaff referencia a passagem a Sf 3:19. Como qualquer um pode conferir, a semelhança é vaga, sugerindo uma paráfrase bem grande feita pelo autor da carta ao recorrer à memória.

    (16) Vale o mesmo que a nota anterior, porém em relação ao versículo Ez 47:12.

    (17) Eusébio de Cesareia, em seu História Eclesiástica, assim defende a adoção de O Pastor:

    Mas, como ocorre que o mesmo apóstolo, nas despedidas finais da carta aos Romanos [Rm 16:14], menciona, junto com outros, a Hermas – de quem se diz que é o livro O Pastor -, deve-se saber que alguns também rechaçam este livro e que por causa deles não se pode contá-lo entre os admitidos; por outro lado, outros julgam-no muito necessário, especialmente para os que precisam de uma introdução elementar. Por esta razão sabemos que foi lido publicamente nas igrejas e comprovamos que alguns escritores dos mais antigos fizeram uso dele.

    H.E., livro III, cap. III, parágrafo 6

    Atualmente, considera-se a redação de O Pastor como sendo por volta de 150 d.C., portanto, pertencente a algum outro Hermas bem posterior. O outro documento – o Cânon Muratori diz este Hermas ter sido um irmão do papa Pio, cujo pontificado foi de 142 d.C. a 155.

    (18) Barnabé e Hermas aparecem, respectivamente, após o Apocalipse, sugerindo que estariam como uma espécie de “apêndice”.

    (19) A Segunda Epístola de Clemente aos Coríntios, outro documento de meados do segundo século, também se refere ao batismo como “selo”, algo que pode ser estabelecido pelo cruzamento de duas de suas passagens:

    Pois assim também diz a Escritura em Ezequiel [Ez 14:14]: “Se Noé, Jó e Daniel ressuscitassem, não salvariam seus filhos em cativeiro.” Então, se homens tão eminentemente justos não são capazes, por sua justiça, de salvar filhos, como podemos esperar entrar na residência real de Deus a menos que mantenhamos nosso batismo santo e imaculado? Ou quem será nosso advogado, a menos que nos encontremos possuidores de obras de santidade e justiça?
    Cap. VI

    Pois eu digo a você que aquele que é fiel no que é mínimo é fiel também no muito. Isto é, então, o que Ele quer dizer: “Mantenha a carne santificada e o selo imaculado, para que recebam a vida eterna.
    Cap. VIII

    (20) Cf. [Ehrman (2008), cap. XII, p. 197, box 12.6].

    (21) No caso, a ressuscitação de Lázaro.

    (22) Em Jo 10:6 diz-se que Jesus contou uma parábola, mas os versículo antecedentes desse capítulo se parecem mais com um aforismo seguido de sua explicação.

    (23) Ideia proposta por [Cullmann, cap. VII, pp. 119-22]. Tenho minhas ressalvas quanto a esse autor – especialmente sua visão do (judeo-)cristianismo esotérico como sendo o original credo cristão, em vez de uma elaboração posterior -, mas devo admitir que achei a tese “dois sacramentos distintos para o batismo” como uma interessante sacada.

    (24) lista retirada de [Freire, parte III, cap III].

    (25) Cf. [Poirier, p.66].

    (26) Cf. [Porier, pp. 57-64] e [Meier, cap. IX, pp. 262-6].

    (27) Nas palavras de [Meier, cap. IX, p. 266], “Numa região quadrilíngue, Jesus pode até ter sido um judeu trilíngue, mas provavelmente não seria um mestre trinlíngue“.

    [topo]

    Para saber mais

    – Asheri, Michael; O Judaísmo Vivo, Imago, 1995.

    – Comfort, Philip; Encountering the Manuscripts, Broadman & Holdman Publishers, 2005.

    – Cullmann, Oscar; Das Orignes do Evangelho à Formação da Teologia Cristã, Fonte Editorial, 2ª ed., 2004.

    – Ehrman, Bart D.; O que Jesus disse? o que Jesus não disse? – Quem mudou a Bíblia e por quê, Prestígio, 2006

    _________________; The New Testament – A Historical Introduction to the Early Christian Writings, Oxford University Press, 4ª ed, 2008.

    – Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Novo Século, 1999.

    – Finkelstein, Israel & Silberman, Neil Asher; A Bíblia não tinha Razão, A Girafa, 2003.

    – Flusser, David; O Judaísmo e as Origens do Cristianismo, vol. I, Imago, 2000.

    – Freire, Antônio; Gramática grega, Ed. Martin Fontes, 1997.

    – Josefo, Flávio; The Works of Flavius Josephus, tradução inglesa de William Whiston acessado em 01/03/2017.

    – Lawrence, Jonathan David; Washing in Water: Trajectories of Ritual Bathing in the Hebrew Bible and Second Temple Literature, Brill, 2006.

    – Meier, John P.; Um Judeu Marginal – Repensando o Jesus Histórico, vol. I, Imago, 1993.

    – Metzger, Bruce M.; The Text of the New Testament – Its transmission, Corruption and Restoration, Oxford University Press, 3ª ed., 1992.

    – Murachco, Henrique ; Língua Grega, Ed. Vozes, 2ª ed., 2003.

    – Pagels, Elaine; Além de toda crença: o Evangelho Desconhecido de Tomé, ed. Objetiva, 2004.

    – Patrística, Padres Apostólicos, vol I, Paulus, 1995.

    Poirier, John C.; The Linguistic Situation in Jewish Palestine in Late Antiquity, Journal of Greco-Roman Christianity and Judaism, ed. 4 (2007), pp. 55-134.

    – Tatum, W. Barnes; John the Baptist and Jesus – A Report of the Jesus Seminar, Polebridge Press, 1992

    – Tricca, Maria Helena & Bárány, Júlia; Apócrifos – Os Proscritos da Bíblia, Vol. IV, Mercuryo, 2001.

    – Vermes, Geza; Os Manuscritos do Mar Morto, Mercúryo, 2004.

    – Willker, Wieland; A Textual Commentary on The Greek Gospels, vol. I – Matthew, 8ª ed., 2011.

    [topo]

Vinde Espírito Santo! – Um Artigo sobre o Artigo Grego (Rascunho)

28 de julho de 2014 6 comentários

Pomba

Índice

O Consolador Prometido Redux

 

Retomando um trecho do Evangelho Segundo o espiritismo, tratado em outro artigo, com as seguintes palavras de Kardec:

3 – Se me amais, guardai os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro consolador, para que fique eternamente convosco, o Espírito da Verdade, a quem o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece. Mas vós o conhecereis, porque ele ficará convosco e estará em vós. – Mas o Consolador, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito. (João, XIV: 15 a 17 e 26)

4 – Jesus promete outro consolador: é o Espírito da Verdade, que o mundo ainda não conhece, pois que não está suficientemente maduro para compreendê-lo, e que o Pai enviará para ensinar todas as coisas e para fazer lembrar o que Cristo disse. Se, pois, o Espírito da Verdade deve vir mais tarde, ensinar todas as coisas, é que o Cristo não pode dizer tudo. Se ele vem fazer lembrar o que o Cristo disse, é que o seu ensino foi esquecido ou mal compreendido.

O Espiritismo vem, no tempo assinalado, cumprir a promessa do Cristo: o Espírito da Verdade preside ao seu estabelecimento. Ele chama os homens à observância da lei; ensina todas as coisas, fazendo compreender o que o Cristo só disse em parábolas. O Cristo disse: “que ouçam os que têm ouvidos para ouvir”. O Espiritismo vem abrir os olhos e os ouvidos, porque ele fala sem figuras e alegorias. Levanta o véu propositalmente lançado sobre certos mistérios, e vem, por fim, trazer uma suprema consolação aos deserdados da Terra e a todos os que sofrem, ao dar uma causa justa e um objetivo útil a todas as dores.

(…)

Assim realiza o Espiritismo o que Jesus disse do consolador prometido: conhecimento das coisas, que faz o homem saber de onde vem, para onde vai e porque está na Terra, lembrança dos verdadeiros princípios da lei de Deus, e consolação pela fé e pela esperança.

O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. VI.

A ideia básica acima, calcada em Jo 14:26, pode ser (e foi) utilizada por qualquer grupo que alegue ter com o consolador prometido. Três coisas eles possuem em comum:

  1. Mais de cem anos de distância da morte de Jesus (dando tempo para o “esquecer”);
  2. Ideias alienígenas (afinal, “toda as coisas” pode ser qualquer coisa);
  3. Uma boa dose de pretensão (afinal, eu que sou a terceira revelação, não os outros).

O corolário óbvio dessa postura é a rejeição da tradição cristã ortodoxa de considerar a descida do Espírito Santo em forma de “línguas de fogo” sobre apóstolos, no dia de Pentecostes (At 2), como cumprimento da profecia de João. No caso espírita, em particular, dois outros artifícios são usados:

  1. Jogos semânticos com a palavra “espírito”: consiste em equipará-la com o sentido espiritualista moderno de “alma” ou, mais tecnicamente, espírito + perispírito. Com isso, o episódio se aproxima de um manifestação mediúnica. Para se tornar uma de vez, falta a…
  2. Indeterminação do “espírito santo”: com letra minúscula, mesmo. Baseados em certa norma gramatical grega, apologistas espíritas alegam que se não houver um artigo (definido) antes de um substantivo, esse deve ser traduzido sem artigo ou com um artigo indefinido. Assim, os apóstolos teriam recebido “um espírito santo” qualquer em At 2:4 (και επλησθησαν απαντες πνευματος αγιου).

Ambas fazem parte de um não declarado programa para apresentar o cristianismo primevo como protoespiritualismo. Caso o entendimento que os judeus intertestamentários e dos primeiros cristão não coincidir com o proposto, então terá sido apenas mais um caso de anacronismo disseminado no movimento. Para tirar a prova real, será preciso mergulhar nos testemunhos do passado e, para tanto, o texto bíblico não será o bastante.

[topo]

De Onde sopra o Espírito

 

Vegeta quebrando o kiômetro

– Vegeta, qual o nível de “espírito” desse cara ?!
– Mais de 9.000

Os fãs do anime Dragon Ball Z identificarão imediatamente a cena clássica mostrada acima, com a diferença de que, no original, a palavra usada para expressar o “poder vital” que os personagens extravasavam em suas pancadarias era o termo chinês ki, cujo sentido, grosso modo, corresponde também ao prana dos hindus. Para os ouvidos ocidentais modernos, acostumados a associar tratar a palavra “espírito” como um sinônimo para “alma”, esse trocadilho, além de sem graça, pode ter soado forçado, estranho. Contudo, um antigo hebreu não o acharia tão apelativo assim, pois, deixando de lado os socos e chutes, foi aproximadamente esse o significado na última conversa entre Elias e Eliseu:

Sucedeu que, havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito sobre mim.
2 Re 2:9

A palavra “espírito” (pneuma em grego e rouach) literalmente significa “sopro”, “vento” e não necessariamente denota a consciência individual, mas o princípio que nos anima (Gn 7:22, Sl 146:4) e retorna a Iahweh após a morte (Ecl 12:7, o que não é panteísmo), o ânimo (Jz 15:19), “coragem” (Js 2:11), “raiva, exaltação” (Jz 8:3), ação sobre a mente (Ez 11:5), Iahweh e suas manifestações (Is 63:10). Já a expressão “Espírito Santo”, no Antigo Testamento, aparece apenas em três ocasiões:

  1. Sl 50(51 Heb.):11: “Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo”;
  2. e no já mencionado Is 63:10: “Mas eles foram rebeldes, e contristaram o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles.” e
  3. no versículo seguinte: “Todavia se lembrou dos dias da antiguidade, de Moisés, e do seu povo, dizendo: Onde está agora o que os fez subir do mar com os pastores do seu rebanho? Onde está o que pôs no meio deles o seu Espírito Santo?”

E em todas ela é apenas outra maneira de referir ao próprio Javé. A tradição dos LXX traduziu a expressão como το πνευμα το αγιον, porém as paráfrases dos Targumim ora mudaram a expressão para “espírito de profecia“, usando-a recorrentemente em outros versículos, ora usaram “espírito santo” onde o massorético traz apenas “espírito” ou nem isso:

Êxodo (pseudo-Jônatas)

  • Ex 33:16 “Pois como se saberá que encontrei misericórdia perante ti, eu e teu povo, a não ser que sua Shekinah fale conosco e maravilhas sejam realizadas por nós quando retirares o espírito de profecia das nações e falar no Espírito Santo a mim e a teu povo, de modo que nos tornamos diferentes de todos os povos que estão sobre a face da Terra?”

Salmos:

  • 22:27 “O humilde comerá e se saciará; os que buscam o Senhor cantarão louvores em Sua presença; o espírito de profecia residirá nos pensamentos de seus corações para sempre.”
  • 45:3 “Vossa beleza, ó Rei Messias, é maior que a dos filhos dos homens; o espírito de profecia foi posto nos vossos lábios, porque o Senhor vos abençoou para sempre.”
  • 46:1 “Para louvar pelos filhos de Coré (cf. Nm 16), quando seu pai lhes foi oculto por meio do espírito de profecia, mas ele se salvaram e recitaram este cântico.”
  • 49:16 “Davi disse no espírito de profecia: ‘Na verdade, Deus redimirá minha alma do julgamento de Geema, pois me ensinará sua Torá para sempre’.”
  • 51:11 “Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu espírito santo de profecia.”
  • 51:14 “Traga de volta vossa Torá para mim, para exultar em sua redenção; e que o espírito de profecia me ampare.”
  • 68:34 Ao que senta em seu trono no céu dos céus; no princípio ele, por seu comando, deu através de sua voz o espírito de profecia aos profetas.

Isaías

  • 40:13 “Quem direcionou o Espírito Santo na boca de todos os profetas? Não e o Senhor? Ele faz conhecer as palavras de Sua vontade aos justos, aos servos de Seu Verbo.”
  • 42:1 “Eis meu servo, a quem trago, meu escolhido em quem se compraz, quanto a meu Verbo, porei meu Espírito Santo sobre ele; Ele revelará meu julgamento às nações.”
  • 44:3 “Assim como as águas são despejadas sobre a terra sedenta e são postas a fluir sobre a terra seca, assim darei meu Espírito Santo aos seus filhos, e minhas bênçãos aos filhos dos filhos.”
  • 59:21 “Quanto a mim, esta é minha aliança com eles, diz o Senhor, meu Espírito Santo, que esta sobre você e as palavras de minha profecia que pus em tua boca, e não deixaram tua boca, nem as de teus filhos, nem as dos filhos dos filhos, diz o Senhor, desde agora para todo os sempre.”
  • 63:10 “Mas eles foram rebeldes contra o verbo de seus profetas e blasfemaram, e Seu Verbo se tornou inimigo deles, e travou guerra contra eles.”
  • 63:11 “E teve compaixão pela glória de seu nome, por causa da lembrança de Sua bondade de outrora, dos poderosos feitos que fez pelas mãos de de Moisés por seu povo; para que os gentios não dissessem: “Onde está agora o que os fez subir do mar? Onde está O que os guiou pelo deserto, como um pastor e seu rebanho? Onde está o que fez o verbo de Seus santos profetas residir entre eles?”

Em várias passagens das tradições targúmicas, o Espírito Santo (rouach haqqodesh) é tido como Javé comunicando-se diretamente sua vontade ao homem. É um dom concedido exclusivamente à Israel, após a entrega da Torá, e, em outras tantas, é semanticamente afim de “espírito de profecia” num sentido de um poder a guiar os homens a Deus, ao louvor e à profecia. Uma e outra expressão costumam vir acompanhadas de “Shekinah” (presença divina), “Dibbera” e “Memra” (ambas comparáveis a “Verbo”, “Palavra”), ressaltando o aspecto de interação comunicativa (Cf. [McNamara, cap. XI, 1]). Às vezes, “Espírito Santo” parece personificado, mas não cabe que aqui a enxergá-lo como a terceira hipóstase da Trindade, que nunca teve lugar no judaísmo.

Não é apenas nos targumim que se encontra um incremento no uso de “Espírito Santo”. Nos manuscritos deixados pela seita essênia nas cavernas de Qumran, ele não está apenas inspirando, mas também confortando:

  • Preceito de Damasco II:12 “Ele sabia dos acontecimentos que lhes adviriam por todos os anos infinitos. E em todos, Ele criou para Si homens que tinham um nome, para que um remanescente pudesse permanecer na terra, e para que a face da terra pudesse ser preenchida com sua descendência. E Ele lhes revelou Seu Espírito Santo por intermédio de Seus consagrados, e proclamou (lhes) a verdade. Mas aqueles a quem odiava, Ele os descaminhou.”
  • Hino de Ação de Graças (1QH): VII Agradeço a Ti, ó Senhor, por me apoiares com Tua força.

    Derramaste Teu Espírito Santo sobre mim para que eu não tropece.

  • Hino de Ação de Graças (1QH) IX: Tu me alimentaste com a verdade infalível;

    Tu me deliciaste com Teu Espírito Santo

    e [abriste meu coração] até o dia de hoje.

  • Hino de Ação de Graças (1QH) XIII: Eu, o Mestre, conheço-Te, ó meu Deus, pelo espírito que tu me deste,

    e pelo Teu Espírito Santo eu obedeci fielmente Teu conselho maravilhoso.

    No mistério da Tua sabedoria Tu me abriste o conhecimento, e em Tua misericórdia

    [Tu me descerraste] a fonte de Teu poder.

  • Hino de Ação de Graças (1QH) XIV E eu sei pelo entendimento que vem de Ti

    que em Tua bondade para com [as cinzas,

    Tu derramaste] teu Espírito Santo[sobre mim]

    para que eu chegasse mais perto de entender-Te.

  • Preceito da Comunidade (1QS) IV: Deus então purificará cada ato do homem com Sua verdade; Ele irá sutilizar a estrutura humana, desarraigando todo o espírito de falsidade dos grilhões da carne. Ele irá limpá-lo de todos os atos iníquos, com o espírito de santidade; qual água purificadora, irá derramar sobre ele o espírito da verdade (para limpá-lo) de toda a abominação e falsidade.
  • Preceito da Comunidade (1QS) IX: Quando estes se tornam membros da Comunidade de Israel de acordo com estes preceitos, deverão estabelecer o espírito de santidade em consonância com a verdade eterna. Deverão expiar a culpa pela rebelião e pelos pecados de infidelidade, para que possam obter a bondade para a Terra, sem a carne dos holocaustos e a gordura do sacrifício. E a oração oferecida da forma certa será como uma aceitável fragrância de retidão, e a conduta perfeita, como uma prazerosa oferenda de boa vontade.

Assinale-se a presença na seita essênia de um forte dualismo entre luz e trevas, limpeza e impureza, verdade e falsidade. Tais oposições não eram desconhecidas entre os primeiros cristãos, como o conceito dos “Dois Caminhos” encontrado em Barnabé e, notadamente, na Didaquê. Dos canônicos, chegou-nos uma pequena amostra disso na carta I João, quando seu autor alertou sobre os ensinos de um certo grupo de dissidentes daquela comunidade:

Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus;(…) Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus ouve-nos; aquele que não é de Deus não nos ouve. Nisto conhecemos nós o espírito da verdade e o espírito do erro.
I Jo 4:2,6

Isso não quer dizer que os autores de João, Barnabé e da Didaquê tenham sido essênios. O mais provável é que beberam água da mesma fonte: a cultura judaica intertestamentária, na qual o dualismo e conceitos de “espírito”, “santidade” e “verdade” estavam em voga [cf. Bauckham]. E embora João contenha passagens que hoje seriam tidas simplesmente como antijudaicas, como será discutido mais adiante, sua origem ainda é mais judaica que helênica. E, para tanto, não é preciso apelar para o canônico bíblico ou o esotérico de essênio, pois a literatura deuterocanônica e pseudoepígrafa dá sua cota de usos para esses termos que, curiosamente, está mais perto do que hoje chamaríamos de pentecostalismo que do espiritualismo:

  • Sb 7:21-6 “Tudo sei, oculto ou manifesto, pois a Sabedoria, artífice do mundo, mo ensinou! Nela, há um espírito inteligentes, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, imaculado, amigo do bem, agudo, incoercível, benfazejo, amigo dos homens, firme, sereno, tudo podendo, tudo abrangendo, que penetra todos os espíritos inteligentes, puros, os mais sutis. A Sabedoria é mais móvel que qualquer movimento e, por sua pureza, tudo atravessa e penetra. Ela é um eflúvio do poder de Deus, uma emanação puríssima da glória do Onipotente, pelo que nada de impuro nela se introduz. Pois ela é um reflexo da luz eterna, um espelho nítido da atividade de Deus e uma imagem de sua bondade.”
  • Sb 9:17 “Quem conhecerá tua vontade, se não lhe dás Sabedoria enviando dos céus teu santo espírito?”
  • Salmos de Salomão 17:37 “E ele [o rei] não enfraquecerá naqueles dias, graças a seu Deus, pois Deus o fará poderoso pelo Espírito Santo e sábio pelo conselho do entendimento, com poder e justiça.”
  • José e Azenate 19:11 “Então José estendeu suas mãos e abraçou a Azenate, e Azenate a José, e se beijaram por um longo tempo, e ambos viveram de novo no espírito de ambos. E José beijou Azenate e lhe deu o espírito da vida, então, na segunda vez, lhe deu o espírito de sabedoria, e na terceira vez beijou a suavemente e lhe deu o espírito de verdade.”
  • Livro dos Jubileus 25:12-5 “E [Rebeca] disse: “Bem dito seja o Senhor Deus, e que Seu nome santo seja bem dito para todo o sempre, que me deu Jacó como um filho puro e descendência santa; porque ele é Teu, e Tua será sua descendência continuamente e por todas as gerações para sempre. Abençoe-o, oh Senhor, e coloque em minha boca as bênçãos de justiça [verdadeira bênção], para que eu possa abençoá-lo.”E naquela hora, quando o espírito de justiça [espírito de verdade] desceu na boca dela, ela colocou ambas as mãos sobre a cabeça de Jacó e disse:”Bendito sejas tu, Senhor da justiça e Deus das eras. Que Ele te abençoe (Jacó) além de todas as gerações dos homens.
    Que Ele te de, meu filho, o caminho da justiça, e revele justiça a tua descendência. E que Ele faça de teus filhos muitos durante tua vida, e que eles surjam de acordo com os meses do ano. E que os filhos deles se tornem muitos e muito além das estrelas do céu, e que seu número seja maior que o da areia do mar.”
  • Daniel 13:45 (A História de Susana) “ao ser [Susana] conduzida para a morte, o Senhor despertou o espírito santo de um jovem de nome Daniel.”

A importância desses paralelos encontrados em textos religiosos já do fim da Antiguidade é eles tapam parte do fosso existente entre os canônicos do Antigo e do Novo Testamentos, a começar pelo grande incremento de aparições da expressão Espíritos Santo nos dois livros atribuídos a Lucas, em especial Atos. Nesse, após Pentecostes, Pedro faz menção à profecia de Joel ao notar que o Espírito Santo recebido não foi exclusivo dos apóstolos, nem dos judeus:

E Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus. E todos se maravilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer? E outros, zombando, diziam: Estão cheios de mosto.

Pedro, porém, pondo-se em pé com os onze, levantou a sua voz, e disse-lhes: “Homens judeus, e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório, e escutai as minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, sendo a terceira hora do dia. Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel [Jl 2:28-32]:
‘E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, Que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; E os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, Os vossos jovens terão visões, E os vossos velhos sonharão sonhos; e também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e as minhas servas naqueles dias, e profetizarão; e farei aparecer prodígios em cima, no céu; E sinais em baixo na terra, Sangue, fogo e vapor de fumo. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes de chegar o grande e glorioso dia do Senhor; e acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.'”

Atos 2:10-21

Seria a graça divina se espalhando para todas as nações a partir dos judeus, bem conforme a proposta de Lucas em suas duas obras. Três aspectos, contudo, diferem o “Espírito Santo” do nascente cristianismo de seus correspondentes judaicos: o primeiro é crença que a era messiânica, de certa forma, já começara e, segundo, o Espírito estaria fortemente vinculado à pessoa de Jesus. Por último, o ele seria uma espécie de promessa para a glória da consumação final [cf. Bruce, p. 55].
[topo]

Se é qualquer Espírito, então não é Espírito Santo Algum

 

Matemática absurda

Com um “zero infinito”, tudo é possível

Primeiramente, melhor se inteirar da opinião de dois autores espíritas, recorrentemente repassadas:

Como cada pessoa tinha e tem um Espírito Santo ou alma, no original grego do Novo Testamento, sempre que aparece essa expressão “Espírito Santo”, não se encontra o artigo definido grego “ho” (“o”), pois quando esse original foi escrito, os teólogos ainda não tinham instituído o Espírito Santo e a Santíssima Trindade, à qual Ele pertence. Por isso, não se dizia “o Espírito Santo”, referindo-se àquele definido e único da Santíssima Trindade, já que Ele não existia naquela época. Como vimos, só mais tarde o Espírito Santo e a Santíssima Trindade foram criados.

Destarte, quando na Bíblia, em Português, temos essa expressão Espírito Santo, o artigo Dele deve ser o indefinido “um” e não o definido “o”, para que a tradução seja fiel ao original grego: “um Espírito Santo de alguém”. Mas, infelizmente, todas as traduções foram adaptadas à nova doutrina do Espírito Santo da Santíssima Trindade, e passaram a usar, erroneamente, a expressão “o Espírito Santo”, quando o certo é “um Espírito Santo”, a que a Bíblia se referia antes da instituição do Espírito Santo da Santíssima Trindade, e como está no original grego.

Fui repetitivo na explicação desse assunto, propositalmente, para que as pessoas de menos instrução possam também entendê-lo bem. E procurei ser também simples e claro o mais possível na exposição do assunto. E é por isso que deixei também para explicar, somente agora, uma outra faceta desse assunto.

No Grego não há o artigo indefinido “um”. Já o artigo definido “o” (“ho”) existe, e ele aparece normalmente. E, destarte, se no texto original grego se dissesse “o Espírito Santo”, essa expressão ficaria assim: “ho Pneuma Hagion” ou “ho Hagion Pneuma” (o Espírito Santo ou o Santo Espírito”). Acontece que os textos originais gregos vêm sempre sem o artigo definido “ho”, a saber: Pneuma Hagion, pelo que nunca podemos colocar nas traduções para o Português o artigo definido “o”, mas o indefinido “um”, que não aparece em Grego porque, como dissemos, ele não existe em Grego. Mas, como no Português, ele existe, temos que colocá-lo quando aparece a expressão Espírito Santo, ficando, pois, assim: “um Espírito Santo”, e não “o Espírito Santo”.

Para complicar ainda mais as coisas, o Latim já não tem nem o artigo definido “o” nem o indefinido “um”. Por isso, na Vulgata, só aparece a expressão Espírito Santo assim: Sanctus Spiritus ou Spiritus Sanctus, mas no Português eles existem, e, portanto, temos que colocá-los, quando for o caso.

Sintetizando essa questão, dizemos que a expressão em Grego Pneuma Hagion deve ser traduzida corretamente para o Português assim: “um Espírito Santo”, e não “o Espírito Santo”, tradução que só estaria certa, se nos textos gregos originais bíblicos ela fosse assim: “ho Pneuma Hagion”. E a Vulgata complicou mais as coisas, pois, como foi dito, o Latim não tem nenhum tipo de artigo, nem o definido nem o indefinido. Mas em Português eles existem. E temos que ser fiéis ao original grego, cujo sentido “um Espírito Santo” e não “o Espírito Santo”.

E sobre o João Batista, temos um texto do anjo anunciador do seu nascimento: “…já desde o ventre de sua mãe, será cheio de um Espírito Santo”(Lucas 1,15). Esse Espírito Santo é o próprio espírito de João Batista. Portanto a tradução “do Espírito Santo” está errada. Aliás, como já vimos, segundo uma corrente de teólogos europeus, quando a Bíblia fala em anjo, ela se refere a espíritos iluminados de pessoas falecidas (padre François Brune, “Os Mortos nos Falam”).

E sobre Zacarias, pai de João Batista, lê-se: “Zacarias ficou cheio de um ou dum Espírito Santo” (e não do Espírito Santo), pois o original grego não tem o artigo indefinido, mas, como ele existe em Português, temos que usá-lo. Se no texto original grego houvesse o artigo definido “ho” (“o”), estaria certa a tradução: “cheio do Espírito Santo” (Lucas 1,67). Mas como não há, está errada.

E, na verdade, quer se refira à expressão “o Espírito Santo da Trindade”, ao “um Espírito Santo de alguém” ou ao “o Espírito Santo de determinada pessoa definida, por exemplo:“o Espírito Santo de Daniel”, a expressão “Espírito Santo” representa o conjunto de todos os espíritos, estejam eles no Mundo Espiritual ou no Mundo Físico.

Mais um exemplo: “Onde está o que pôs nele o seu Espírito Santo?” (Isaias 63,11). Aqui está certo o artigo definido “o”, porque está definindo uma pessoa, isto é, Moisés. Mas, como se vê, não se trata também do Espírito Santo da Trindade.

Chaves, José Reis; A Face Oculta das Religiões, ebm, 2a. ed., 2006, cap. VII, pp. 142-4.

Parece que os exemplos foram escolhidos a dedo, até de Is 63:11 só foi citado o essencial. O resultado final é a diversificação o “espírito santo” de modo a deixar de ser um canal direto em Javé e os homens para uma multitude de intermediários ou enviados. Há outros questionamentos a se fazer, mas, antes, será apresentado outro autor:

Em João aparece uma só vez [a expressão to pneuma to hagion], e assim mesmo em apenas alguns códices tardios, havendo forte suspeição de haver sido acrescentado posteriormente (em 14:26).

– Pastorino, Carlos Torres; Sabedoria do Evangelho, vol. V, 1964 p. 97,

Mais adiante (vers. 26) o Espírito verdadeiro, ou evocado, é dito “o Espírito, o Santo”, expressão que levou os teólogos a confundi-lo com a terceira “pessoa” da santíssima Trindade.

– Idem, vol. VIII, 1971 p. 9.

No movimento espírita, Pastorino está para língua grega assim como Severino Celestino da Silva está para o hebraico: são as fontes mais utilizadas para argumentos, digamos, de “autoridade” para calar qualquer debatedor. O problema é quando a destreza intelectual dos espíritas não consegue ir além do que suas fontes “clássicas” têm a oferecer e mesmo quando são indivíduos treinados – como foi o caso de Pastorino – isso não os impede de ver o que gostariam com o ferramental auferido nos bancos acadêmicos, nem os autoriza a ser a última palavra em seus campos de estudo.

Por ora, teço duas críticas:

  • Pastorino refuta J.R. Chaves: O próprio Pastorino catalogou 30 ocasiões em que pneuma hagion aparece com o artigo somente nos evangelhos, além de outras 29 para apenas pneuma (Idem, vol. V, p. 98). Assim, a principal premissa de J.R. Chaves – “no original grego do Novo Testamento, sempre que aparece essa expressão ‘Espírito Santo’, não se encontra o artigo definido grego” – é falsa. Justiça seja feita, ele reconheceu o erro publicamente em um artigo de sua coluna do jornal O Tempo, fazendo menção a Pastorino. Só não ficou claro se o autor folheara alguma Bíblia em grego antes disso;
  • Pastorino demonstra pouco rigor: ao sugerir que “o Espírito Santo” em Jo 14:26 possa ter sido um enxerto (tanto que não o computou), esqueceu de dizer quais os códices de qualidade que não o possuíam. No primeiro volume de Sabedoria… (p. 5), ele já fizera uma pequena relação dos códices mais antigos e, passando-a limpo, pode-se constatar que:
    1. Sinaítico: contém “o Espírito Santo” (το πνευμα το αγιον), muito bem, obrigado;
    2. Alexandrino: idem;
    3. Vaticano: idem;
    4. Beza: idem, tanto para o texto em grego quanto para o latino;
    5. Efrém: não contém! Contudo, não se empolgue porque ele não possui, por danos ao documento, nada de Jo 14:8 a 16:21 e diversas outras lacunas ao longo Novo Testamento;
    6. Claromontano: não contém, afinal só possui as epístolas paulinas.

    Sendo assim, os principais documentos por ele apontados não o corroboram. Alguém poderá alegar que os documentos foram adulterados por escribas. Tudo bem, mas será dele o ônus da prova. Se quer saber, detectou-se, sim, uma alteração no códice Sinaítico quanto a disposição entre “o Espírito Santo” e o verbo “enviará”, mas a expressão sempre esteve lá. Outros dirão que esses códices, embora antigos, ainda assim são dos século IV e V, contemporâneos, portanto, à questão ariana e aos primeiros Concílios Ecumênicos. Haveria, ao menos teoricamente, uma motivação para que fosse alterados para consolidar a doutrina da Trindade… Ok, só não se esqueça dos papiros P66 e P75, ambos datados do começo do século III, bem antes dessas disputas, e “cheios d’O Espírito Santo” em Jo 14:26.

Vamos destrinchar isso melhor?

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Artigo Grego: a Sofisticação da Simplicidade

 

Os artigos gregos do nominativo singular

O artigo integra as dez classes gramaticais que conhecemos, definindo-se como o termo que antepõe o substantivo para determiná-lo ou indeterminá-lo, indicando, também, o gênero (masculino/feminino) e o número (singular/plural).

Fonte: Brasil Escola.

De tão corriqueiro é provável que um falante do português não imagine sua comunicação diárias sem usar artigos. Muitos outros seres humanos, por outro lado, viveram muito bem sem eles – como os antigos romanos – e outros ainda vivem, como os russos e outros povos eslavos. “Ora, mas como eles conseguem evitar ambiguidade?”. Simples: o artigo é um marcador da definição ou indefinição de um substantivo, mas não é o único instrumento para se conseguir isso. Pronomes demonstrativos e possessivos também delimitam elementos, assim como pronomes indefinidos e numerais cardinais podem indeterminá-los. O latim, por exemplo, não tinha “oficialmente” artigos, mas as principais línguas neolatinas criaram os definidos a partir dos demonstrativos ille, illa e illud, e os indefinidos dos numerais unus, una e unum. Não houve, contudo, esse desenvolvimento no russo. Há, também, outro importante marcador da (in)definição de um substantivo: o contexto. Se os interlocutores já sabem a que estão se referindo ou se estão falando de forma genérica, então artigos são dispensáveis. Portanto, vamos ressaltar o primeiro ponto:

I – Artigos são úteis para a clareza da comunicação, mas não são indispensáveis a ela.

Como outros pesos-pesados da família de línguas indo-europeia não possuíam ou possuem artigos (como o sânscrito), cogita-se que o proto indo-europeu – a hipotética “mãe” dos idiomas dessa família – também não os possuía. Não obstante, diversas de suas descendentes desenvolveram artigos de forma independente, numa espécie de “evolução convergente” linguística. O antigo anglo-saxão (ca. 400 d.C), à moda de seus contemporâneos dialetos românicos usava demonstrativos como artigos definidos. De um deles veio o moderno artigo inglês the, que é invariável (i.e., sem gênero ou número). Apesar das similaridades quanto à origem e de sua simplicidade, quem já teve contato com esse idioma a um nível intermediário sabe que o artigo definido inglês esconde algumas armadilhas para os lusófonos. Por exemplo, é comum o inglês omitir o artigo quando a palavra é plural (ou um coletivo) e de sentido genérico, que o diga a American Standard Version em I Co 1:22 “Seeing that Jews ask for signs, and Greeks seek after wisdom“, ou substantivos abstratos como em Rm 6:23 “For the wages of sin is death“. Anglófonos também não usam artigo definido antes de nomes de pessoas – o que é corrente em português-, nem de pronomes possessivos (opcional para nós).

Embora a língua inglesa não seja o assunto aqui, por ela ser um pouco familiar a um potencial número de leitores, tomei-a como amostra para o segundo ponto:

II – O fato de um língua também possuir determinada classe gramatical, de forma alguma significa que ela é usada exatamente da mesma maneira que na sua.

Por sua origem, muitas vezes, de demonstrativos, nem sempre a função do artigo definido é meramente “individualizar”, pois há várias formas de isso ser feito (cf. [Wallace, pp. 216-25]). Assim, o artigo definido pode ser uma combinação de:

  • Identificador: destaca um elemento dos demais do conjunto. Ex: “Onde está a chave que te dei ontem?”
  • Anafórico: Faz referência a algo previamente dito. É possível, que quando ocorra pela primeira vez, a palavra esteja sem artigo ou com artigo indefinido para depois ser referenciada pelo artigo definido. Ex: “Às quatro horas, um sujeito alto de terno claro chegou às dependências da sede. Duas horas depois, o sujeito caminhava pelos corredores do quinto andar.”
  • Catafórico: quase o oposto do anafórico. Neste caso, o substantivo leva o artigo para indicar que alguma coisa extra sobre ele será dita. Ex: “Eis a principal meta: baixar os índices de violência.”
  • Dêitico: indica alguém ou alguma coisa próximo aos interlocutores no momento. Ex.: “A carta que está segurando”.
  • Par Excellence: expressão francesa que ressalta a identificação do substantivo articulado como o melhor de sua classe. Na Idade Média, por exemplo, Aristóteles era chamado de “O Filósofo” (Ille Philosophus) pelos eruditos.
  • Monádico: ressalta o substantivo que o segue como único de sua classe. Ex.: “o Sol”, “o salvador do mundo”.
  • De conhecimento: similar ao par excellence, mas usado com personagens não tão famosos assim, mas facilmente identificáveis aos público presente. Ex.: “Atenção turma, chegou o professor.”

Em sentido contrário, é possível, sim, que o artigo definido generalize em vez de individualizar. Isso se dá quando o substantivo associado a ele passa a representar toda uma classe de seres, como na clássica frase atribuída a Protágoras: “O homem é a medida de todas as coisas”. Ainda existe uma outra capacidade do artigo definido: a personalizar substantivos abstratos. Com eles, pode-se tratar conceitos como se fosse, digamos, entes quase palpáveis. Ex. “a justiça tarda, mas não falha.”

Pode-se reparar, pelos exemplos, que muitas dessas propriedades não precisariam imperiosamente de artigos definidos. Demonstrativos poderiam agir como dêiticos, catafóricos e anafóricos. Monádicos poderiam dispensar complementos, por serem únicos, e o contexto já poderia indicar a quem ou o quê nos referimos. Plurais podem simbolizar classes inteiras, como o inglês faz opcionalmente. Portanto:

III – Compreender os usos e funções do artigo permite vislumbrar como poderiam ser dispensados.

O artigo definido grego também descende de demonstrativos e já podia ser rastreado nas obras de Homero, no VIII século a.C. (cf. [Robertson, XVI, pp. 754-5]), já tendo atingido pleno desenvolvimento, no dialeto ático, já obras de Platão. Não perdeu, contudo, um certo “quê” de demonstrativo, ainda que não fosse mais capaz de estabelecer, como esses, as relações de proximidade entre o substantivo a ele associado e os interlocutores. Sua função seria a de um “indicador” a apontar para atenção do ouvinte deveria se voltar (id., p. 756 e [Wallace, p. 208]).

IV – A principal força do artigo definido grego está em assinalar coisas, chamando atenção para elas

O leitor já deve ter reparado, nos diferentes exemplos e citações acima, em formas diferente para o artigo definido grego usado antes “Espírito Santo”. Já que a palavra não muda nem de gênero, nem de número, por que, então, existem formas discrepantes como ‘ο e το? A resposta é que, para a língua grego, será necessário fazer um pequeno adendo à definição de artigo dada no início deste tópico: o artigo não apenas indica o gênero e o número de um substantivos, mas também a função que ele desempenha na oração. Ainda que o artigo não esteja presente, no grego – assim como no latim, no sânscrito e no moderno alemão -, substantivos (e adjetivos) recebem afixos que assinalam o seu caso, i.e, sua função sintática. Estima-se que o proto indo-europeu possuía um sistema de oito casos (todos registrados no sânscrito), dos quais o grego antigo preservou cinco:

  • Nominativo: quando representa o papel de sujeito da oração ou de predicativo, em caso de verbos de ligação;
  • Acusativo: objeto direto;
  • Dativo: objeto indireto;
  • Vocativo: chamamento;
  • Genitivo: indica posse de um ente por outro.
Singular Plural Tradução
Nom. ἄνθρωπος ἄνθρωποι homem(ns)
Gen. ἀνθρώπου ἀνθρώπων de homem(ns)
Dat. ἀνθρώπῳ ἀνθρώποις a homem(ns)
Acus. ἄνθρωπον ἀνθρώπους homem(ns)
Voc. ἄνθρωπε ἄνθρωποι ó homem(ns)

Quadro de inflexões para anthropos (homem, humano), da primeira declinação.

O genitivo, auxiliado por preposições, absorveu as função original do caso ablativo de indicar a origem de um movimento ou um destacamento, ou, como no ablativo latino, fazer as vezes de uma adjunto adverbial. O dativo, também associado a preposições, assumiu o papel dos casos locativo (indicando local ou época em que uma ação de desenrola) e o instrumental (o “como” uma ação foi feita). Os grupos de palavras com um padrão flexional similar são chamados de declinações e o grego possui três, com diversos subtipos.

O artigo definido acompanha o substantivo a ele associado em gênero, número e caso, conforme o esquema a seguir:

Singular Plural
Caso \ Gênero Masculino Feminino Neutro Masculino Feminino Neutro
Nom. τό οἱ αἱ τά
Gen. τοῦ τῆς τοῦ τῶν τῶν τῶν
Dat. τῷ τῇ τῷ τοῖς ταῖς τοῖς
Acus. τόν τήν τό τούς τάς τά

Façam-se algumas observações: primeiramente, o artigo definido não é utilizado com o vocativo. Em segundo, tanto na tabela imediatamente acima como na anterior, foi utilizado um sistema de escrita desenvolvido ao longo da Idade Média. Nos tempos bíblicos não havia letras minúsculas, sinais diacríticos (vulgo “acentos”) e nem o “iota subscrito”, sendo que esses dois últimos, por praticidade, serão por vezes omitidos a partir daqui. Por último, ressalte-se que pneuma é um substantivo neutro – gênero desconhecido em nossa língua -, logo, no nominativo, pede “το” como artigo, em vez de “ὁ” (transliterado para ho), como aparece em alguns autores (espiritualistas ou não). Portanto,

V – O artigo definido grego concorda com as palavras a ele associadas, levando em conta alguns critérios inexistentes no idioma português.

Como substantivos geralmente vêm acompanhados de adjetivos, cada língua desenvolveu sua própria forma de lidar com a relação entre eles (e com os artigos associado, por extensão). Em inglês, os adjetivos são invariáveis e vêm antes do substantivo. Em português, eles concordam com o substantivo e, via de regra, vão após ele. Em grego, eles podem vir tanto antes como, porém com mudanças de significados, conforme o artigo definido se posicione entre eles. Há duas formas classificadas desse relacionamento: a posição atributiva do adjetivo e a predicativa, descritas abaixo:

Forma Exemplo Tradução
Atributiva ὁ ἁγαθὸς λόγος a boa palavra
ὁ λόγος ὁ ἁγαθὸς
Predicativa ὁ λόγος ἁγαθὸς a palavra é boa
ἁγαθὸς ὁ λόγος

Em relação às formas atributivas, é comum em gramáticas gregas ressaltar-se que a primeira coloca a ênfase no adjetivo, ao passo que a segunda passaria a ideia de um aposto como “a palavra, a boa” em oposição a outras “palavras não tão boas”. Entretanto, às vezes os redatores duas construções de forma intercambiável, como na expressão “ao terceiro dia” encontrada na segunda forma em Lc 18:33 (τη ημερα τη τριτη) e na primeira em Lc 24:7 (τη τριτη ημερα). De qualquer modo, ambas são traduzidas do mesmo modo, afinal a segunda forma não tem equivalente em português. Já as predicativas se caracterizam estruturalmente pela ausência de um artigo definido antes do adjetivo e semanticamente pela existência implícita de um verbo de ligação, que deve ser acrescentado na tradução. Se há implicações na disposição do adjetivo para “espírito santo”, é algo a se avaliar mais adiante, por ora:

VI – A disposição entre o adjetivo e o substantivo (além do artigo) em grego se dá comumente em estruturas sintáticas desconhecidas no português. As devidas adaptações são necessárias durante a tradução.

Talvez algum leitor esteja se perguntando “essas regras também valem para o artigo indefinido, não?”. A língua grega também desenvolveu o artigo indefinido a partir de numerais, como a nossa, porém isso ainda não estava claro ao século I d.C., na koiné popular do Novo Testamento. Tecnicamente, ainda não havia o artigo indefinido, portanto αγαθος λογος e λογος αγαθος podem significar tanto “uma boa palavra” (atributivo) quanto “uma palavra é boa” (predicativo), ficando a cargo do contexto a distinção do melhor sentido. Entretanto, por vezes, os autores do Novo Testamento usavam os numerais εις (“um”, ex.: Mt 8:19 και προσελθων εις γραμματευς), μια (“uma”) e εν (“um”, neutro) ou o pronome indefinido τις (“um certo”, ex.: Lc 10:25 και ιδου νομικος τις ανεστη) como artigos indefinidos, mas ainda não constituíam uma classe gramatical separada.

VII – O grego bíblico não possuía o artigo indefinido como classe gramatical plena, o que não significa que não possuísse alternativas. Doravante, ao se mencionar o “artigo grego”, subentenda-se o definido.

Então alguém deve estar pensando (ou já tem a resposta pronta) “Ah! Se há artigo, a palavra é definida. Se não há, então ela é indefinida, devendo ser traduzida sem artigo ou com o artigo indefinido português“. Se tudo fosse tão simples assim – como gostariam espiritualistas e testemunhas de Jeová – até não haveria o que discutir. Só que não. Se você realmente entendeu tudo o que está escrito acima, chegará à seguinte conclusão:

VIII – Em grego bíblico, se uma palavra é precedida de artigo, então a ideia envolvida é definida. Do contrário, ela pode ser definida ou não!

Melhor dar uma explicação pormenorizada, com exemplos da própria Escritura.
[topo]

A Presença dos Ausentes


 

Um coração feito de artigos

O grego só tem o artigo definido, que é um antigo demonstrativo, anafórico, e se usa sempre que há necessidade de definir um nome, isto é, de articular, que é função anafórica.

Na medida em que o artigo é um αρθρον, juntura, articulação, a ausência dele exprime a ausência da articulação e por isso exprime a indefinição.

Coloca-se o artigo sempre antes do nome, de quem assume o gênero,o número e o caso, porque, na verdade, ele é um adjunto adnominal.

[Murachco, p. 19]

Tudo o que a elogiada gramática grega de Murachco traz sobre o artigo cabe em uma única página, colocada no segundo volume, que é dedicado a exercícios. A parte teórica, constante no primeiro volume, sequer toca nele. A gramática de Antônio Freire, veterana entre os estudantes lusófonos, trata um pouco mais do tema, porém não muito. Caso tudo sobre o artigo grego se restringisse ao que trazem, seria necessário dar crédito às teses dos eruditos espiritualistas (e da Watch Tower).

Surpreso fiquei ao deparar com o colossal The Doctrine of the Greek Article, de Middleton, uma obra oitocentista um bocado confessional como as dos autores de critico, mas com o mérito de demonstrar quanto “pano para manga” o assunto poderia render. Gramáticos no Novo Testamento posteriores, e de ênfase mais técnica, dedicaram capítulos inteiros ao artigo (Robertson), quando não dois (Wallace). Recentemente, Ronald Peters tentou reunir tudo que já foi dito sobre o assunto num arcabouço teórico coerente. Ainda é cedo, contudo, para avaliar o impacto de sua proposta.

De fato, caso se fosse levar a ferro e fogo essa simplista regra gramatical, no melhor estilo one size fits all, efeitos estranhos surgiriam durante a tradução. Tome o exemplo do prólogo de João (Jo 1:1):

Eν αρχη ην ο λογος και ο λογος ην προς τον θεον και θεος ην ο λογος

O que, literalmente, seria:

Em (um) princípio era o Verbo, e o Verbo estava com o Deus, e o Verbo era Deus.

Sinceramente, não deve ter sido essa a intenção do evangelista.

Quando estão lá, mas não aqui


Como dito antes, o artigo marca a definição do substantivo a ele associado, o que não significa que haja uma correspondência biunívoca com o seu equivalente da língua portuguesa. Muitas vezes, uma estrutura articular (i.e, com artigo) aparece em circunstâncias que nosso idioma dispensaria, carecendo, então, de uma explicação. Eis um apanhado que algumas situações:

  1. A segunda posição atributiva: não é difícil encontrar quem faça um bicho de sete cabeças dela, alegando que το πνευμα το αγιον deveria sempre vir como “o espírito, o santo”, mas a maioria das vezes ela pouco significa em termos teológicos, como:

    οταν ελθη εν τη δοξη του πατρος αυτου μετα των αγγελων των αγιων

    quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos.

    Mc 8:38

  2. Junto a possessivos: uma estrutura desconhecida no inglês e no espanhol, frequente no português, é praticamente obrigatória no grego:

    εκτεινας την χειρα ηψατο αυτου
    estendeu (a) sua mão

    Mc 1:41

  3. Com genitivos: quando o substantivo principal é seguido por outro no genitivo, ou ambos possuem ou carecem de artigo

    ειδεν το πνευμα του θεου καταβαινον ωσει περιστεραν
    viu o Espírito de Deus descendo como pomba

    Mt 3:16

    por outro lado:

    ει δε εγω εν πνευματι θεου εκβαλλω τα δαιμονια
    Mas, se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus,

    Mateus 12:28

    Caberia “por (um) espírito de (um) deus”? Se o couber, II Co 6:7 ficaria um tanto estranho: “numa palavra duma verdade, num poder de (um) deus…”

  4. Com demonstrativos: o uso de pronomes demonstrativos na segunda posição predicativa cria um estrutura desconhecida me português e, diria, até estranha para seus falantes e os de línguas que também dispensam o artigo nesse caso (espanhol, inglês, etc.):

    και επι ταυτη τη πετρα
    e sobre esta pedra

    Mt 16:18

  5. Com indeclináveis: os tradutores gregos e latinos da Escritura tiveram um problema sério ao lidar com nomes próprio hebraicos, pois eles, via de regra, não se encaixavam em nenhuma das classes de declinação que conheciam. Uma opção era transliterá-los para algo mais familiar, já o mais famoso tradutor latino,Jerônimo, tomou uma decisão radical: não os declinava e deixava ao leitor a tarefa de identificar seu caso do contexto. Por vezes os autores do Novo Testamento não declinavam nomes próprios, mas, para facilitar a vida do leitor, deixavam um artigo marcando o caso em que a palavra se encontrava.

    ει δε υμεις χριστου αρα του αβρααμ σπερμα εστε

    se sois de Cristo, então sois semente de Abraão.

    Gl 3:29

    O testemunho dos manuscritos traz um caso interessante:

    πλησιον του χωριου ο εδωκεν ιακωβ [τω] ιωσηφ τω υιω αυτου
    junto da herdade que Jacó tinha dado a seu filho José.

    Jo 4:5

    O papiro P66 e os códices Vaticano e Sinaítico trazem o artigo de dativo τω antes do nome de José (Iωσηφ), porém o códice Alexandrino e a maioria dos demais manuscritos, não. Mesmo sem o artigo é possível, sim, identificar o caso em que o nome “José” se encontra pelas palavras que seguem a ele (claramente no dativo), porém a presença do artigo antes dele facilita a leitura. E não tem implicação semântica ou teológica alguma.

  6. Como um relativo em orações com função de genitivo ou preposicionadas, o artigo acaba por fazer as vezes do que seria um pronome relativo no português:

    πατερ ημων ο εν τοις ουρανοις
    Pai nosso que estás nos céus

    Mt 6:9

    Mas se preferir “Pai nosso, o nos céus”, seja feliz (paciência)!

  7. Discernindo o sujeito de seu predicativo: tanto um como outro acabam sendo assinalados pelo mesmo caso, o que pode gerar ambiguidade às vezes. Para sanar isso, o artigo era posto junto ao sujeito da oração:

    πατερα ιδιον ελεγεν τον θεον
    dizia que Deus era seu próprio Pai

    Jo 5:18

    κυριος γαρ εστιν και του σαββατου ο υιος του ανθρωπου
    Porque o Filho do homem até do sábado é Senhor

    Mt 12:8

Esta lista não exaustiva oferece uma amostra de situações em que o modo de pensar de nossa língua não corresponde exatamente ao do grego bíblico. Entretanto, a problemática principal se dá quando o substantivo não possui artigo. Poderia ele ainda assim transmitir uma ideia ou conceito definido, delimitado?

Quando não estão lá, mas podem estar aqui


Caso a regra simplista quanto ao uso (e desuso) do artigo grego fosse absoluta, então seria trivial indicar o uso dele em substantivos cuja identidade é sabidamente determinada. Contudo, não é difícil achar contraexemplos para tal pressuposto:

GÁLATAS 3:21-6

Grego Tradução (João F. de Almeida Revisada)
21. ο ουν νομος κατα των επαγγελιων του θεου μη γενοιτο ει γαρ εδοθη νομος ο δυναμενος ζωοποιησαι οντως αν εκ νομου ην η δικαιοσυνη
22. αλλα συνεκλεισεν η γραφη τα παντα υπο αμαρτιαν ινα η επαγγελια εκ πιστεως ιησου χριστου δοθη τοις πιστευουσιν
23. προ του δε ελθειν την πιστιν υπο νομον εφρουρουμεθα συγκεκλεισμενοι εις την μελλουσαν πιστιν αποκαλυφθηναι
24. ωστε ο νομος παιδαγωγος ημων γεγονεν εις χριστον ινα εκ πιστεως δικαιωθωμεν
25. ελθουσης δε της πιστεως ουκετι υπο παιδαγωγον εσμεν
26. παντες γαρ υιοι θεου εστε δια της πιστεως εν χριστω ιησου
21. Logo, a lei é contra as promessas de Deus? De nenhuma sorte; porque, se fosse dada uma lei que pudesse vivificar, a justiça, na verdade, teria sido pela lei.
22. Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes.
23. Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar.
24. De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados.
25. Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio.
26. Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus.

As palavras πιστις (“fé”) e νομος (“lei”) aparecem várias vezes em estruturas articulares e anartras (i.e., sem artigo) quase adjacentes. Conhecendo-se o tema de Gálatas é fácil identificar que se referem à fé em Jesus e à lei mosaica e apenas uma das instâncias anartras de νομος sugere indefinição (uma lei qualquer). Talvez, como já foi sugerido por gramáticos, o artigo grego “pegue” e ressalte a definição de um substantivo ao invés dar-lhe uma. Assim, ao se defrontar com um substantivo anartro, há de se perguntar não se ele é indefinido ou não, mas se a ideia que porta o é.

Basicamente, um substantivo anartro três tipos distintos de “caráter”: indefinido, qualitativo e definido. Não são estanques, mas formam um contínuo do mais genérico ao mais específico. Em algumas circunstâncias o caráter qualitativo pode estar mais perto do indefinido, em outras, do definido.

Gradações do caráter de um nome anartro

O carácter de um substantivo anartro.

  • Indefinido: o substantivo representa um elemento de uma classe sem especificar qual é. Traduz-se, em geral, com o artigo indefinido português.

    Caráter Indefinido

    O esquema do caráter indefinido.

    Por exemplo:

    ερχεται γυνη εκ της σαμαρειας αντλησαι υδωρ
    Veio uma mulher de Samaria tirar água.

    Jo 4:7

  • Qualitativo: indica a pertinência a uma determinada classe, implicando na posse das qualidades inerentes a ela, sem realçar sua individualidade. Traduz-se, em português, sem artigo ou com um artigo indicador de classe (como em “o homem é um animal racional”).

    Caráter qualitativo

    Esquema do caráter qualitativo.

    Exemplos:

    οτι ο θεος αγαπη εστιν
    Porque Deus é amor.

    I Jo 4:8

    ει εξεστιν ανδρι γυναικα απολυσαι
    se é lícito a[o] homem repudiar [sua] mulher.

    Mc 10:2

    Em I Jo 4:8, o substantivo Deus não é “um amor”, no sentido que existam outros, nem “o amor”, como se fosse um sentimento, mas se enfatiza que “amar” é uma qualidade que lhe é inerente. Já Mc 10:2 carrega mais no aspeto de pertinência a um conjunto ou classe. A Sociedade Bíblia Britânica traduz o versículo por “um homem repudiar sua mulher”, o que tem sentido análogo, pois não se faz referência a determinada pessoa não identificada (como no caso da mulher samaritana de Jo 4:7), mas a qualquer membro do gênero masculino.

  • Definido: permite que um elemento específico de uma classe seja identificado, quer seja pelo contexto ou alguma particularidade gramatical. Não há uma regra sistemática para isso, porém algumas linhas gerais podem ser traçadas:

    Caráter qualitativo

    Esquema do caráter definido.

    1. Substantivos próprios: são definidos por natureza. É comum serem anartros na primeira aparição na narrativa, mas receberem um artigo anafórico nas seguintes.

      παυλον διελθοντα τα ανωτερικα μερη ελθειν εις εφεσον
      Paulo, tendo passado por todas as regiões superiores, chegou a Éfeso

      At 19:1

      Mais adiante

      και επιθεντος αυτοις του παυλου τας χειρας ηλθεν το πνευμα το αγιον επ αυτους
      E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo

      At 19:6

    2. regido por preposição: é comum anartros substantivos após uma preposição terem sentido definido.

      ερχομενον απ’ αγρου
      vindo do campo

      Mc 15:21 (compare com Lc 17:7 εκ του αγρου)

      διελθων δια μεσου αυτων
      passando pelo meio deles

      Lc 4:30

      εν σαρκι γαρ περιπατουντες ου κατα σαρκα στρατευομεθα
      Porque, andando na carne, não militamos segundo a carne.

      2 Cor 10:3

      οτι ουκ εγκαταλειψεις την ψυχην μου εις αδου
      Pois não deixarás a minha alma no inferno [Hades]

      At 2:27

      Vale ressaltar que um substantivo anartro preposicionado não tem necessariamente de ser definido, como em Jo 4:27

      οτι μετα γυναικος ελαλει
      que estivesse falando com uma mulher

    3. Com palavras no genitivo: Já foi mencionado anteriormente que, em construções genitivas, tanto o nome que a encabeça quanto o que está no caso genitivo virão com ou sem o artigo, um postulado conhecido desde a Antiguidade como Regra de Apolônio . Um corolário dessa regra, proposto já nos tempos recentes, afirma que, geralmente, quando as palavras dessas construções são anartras, ambas possuem o mesmo caráter semântico. Assim, haveriam majoritariamente pares definido-definido, qualitativo-qualitativo e indefinido-indefinido. Em seguida, viriam pares que elas se distanciam por um grau (ex., D-Q) e mais raramente aquelas que se distanciam por dois (D-I e I-D). Eis alguns exemplos que pares anartros D-D que obedecem ao corolário:

      και πυλαι αδου ου κατισχυσουσιν αυτης
      e as portas do Hades [inferno] não prevalecerão contra ela

      Mt 16:18

      ου δυνασθε ποτηριον κυριου πινειν και ποτηριον δαιμονιων ου δυνασθε τραπεζης κυριου μετεχειν και τραπεζης δαιμονιων
      Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor e da mesa dos demônios.

      I Co 10:21

      και εδωκεν αυτω διαθηκην περιτομης
      E deu-lhe a aliança da circuncisão.

      At 7:8

    4. construções genitivas preposicionadas: juntam-se as forças dos dois casos anteriores:

      το δε καθισαι εκ δεξιων μου και εξ ευωνυμων μου ουκ εστιν εμον δουναι
      mas o assentar-se à minha direita e à minha esquerda não me pertence dá-lo

      Mt 20:23

      περι ελπιδος και αναστασεως νεκρων εγω κρινομαι
      no tocante à esperança e ressurreição dos mortos sou julgado.

      At 23:6

      κλητος αποστολος αφωρισμενος εις ευαγγελιον θεου
      chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus

      Rm 1:1

      και παρα καιρον ηλικιας
      mesmo além do tempo da idade

      Hb 11:11

    5. Começo de livros e seções: podem vir sem artigo, por já serem definidos o bastante:

      Ευαγγελιον κατα Μαρκον
      O Evangelho segundo Marcos

      βιβλος γενεσεως ιησου χριστου
      Livro da geração de Jesus Cristo

      Mt 1:1

      Fato curioso ocorre na abertura da Primeira Epístola de Pedro, pois não há um artigo sequer.

      I Pe 1:1,2

      Grego Tradução (João F. de Almeida Revisada)
      1. πετρος αποστολος ιησου χριστου εκλεκτοις παρεπιδημοις διασπορας ποντου γαλατιας καππαδοκιας ασιας και βιθυνιας

      2. κατα προγνωσιν θεου πατρος εν αγιασμω πνευματος εις υπακοην και ραντισμον αιματος ιησου χριστου χαρις υμιν και ειρηνη πληθυνθειη

      1. Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia;

      2. Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas.

    6. palavras aos pares ou em sequências: Muitas vezes, palavras de sentido definido ou qualitativo aparecerem anartras quando mencionadas em duplas.

      και αναπαυσιν ουκ εχουσιν ημερας και νυκτος
      e não descansam nem de dia nem de noite

      Ap 4:8

      Ou “não descansam dia e noite”, mais literalmente. Um idiomático anartro também é viável em português. Outros exemplo:

      και γαρ ειπερ εισιν λεγομενοι θεοι ειτε εν ουρανω ειτε επι [της] γης
      Pois ainda que há os que se chamam deuses, quer no céu quer na terra

      (O artigo de γης – “terra” – aparece ou não dependendo da variante textual)

      1 Cor 8:5

      τω ετοιμως εχοντι κριναι ζωντας και νεκρους
      o que está pronto para julgar os vivos e os mortos

      1 Pe 4:5

      Agora, exemplos de longas listagens:

      ειτε παυλος ειτε απολλως ειτε κηφας ειτε κοσμος ειτε ζωη ειτε θανατος ειτε ενεστωτα ειτε μελλοντα
      Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente e o futuro.

      1 Cor 3:22

      πανηγυρει και εκκλησια πρωτοτοκων εν ουρανοις απογεγραμμενων και κριτη θεω παντων και πνευμασιν δικαιων τετελειωμενων
      À universal assembléia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados;

      Hb 12:23

      É comum em pares ou sequências de palavras de mesma classe e caso unidas pelo conectivo και (“e”), quando a primeira delas recebe artigo, as demais o dispensarem. Um exemplo clássico:

      τοις δε δειλοις και απιστοις και εβδελυγμενοις και φονευσιν και πορνοις και φαρμακοις και ειδωλολατραις και πασιν τοις ψευδεσιν το μερος αυτων εν τη λιμνη τη καιομενη πυρι και θειω
      Mas quanto aos medrosos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos fornicários, e aos feiticeiros, e aos idólatras, e a todos os mentirosos, sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre

      Ap 21:8

    7. numerais ordinais: Em grego, o ordinal já era considerado definido o bastante por si só muitas vezes. Ressalte-se que, nos tempos antigos, usavam-se ordinais para expressões de tempo.

      αυτη [η] απογραφη πρωτη εγενετο ηγεμονευοντος της συριας κυρηνιου
      Este foi o primeiro recenseamento que se fez no tempo em que Quirino era governador da Síria.

      Lc 2:2 (nota: textos bizantinos trazem απογραφη (“censo”) articular.)

      ην δε ωρα τριτη και εσταυρωσαν αυτον
      Era a hora terceira, quando o crucificaram.

      Mc 15:25

      ητις εστιν εντολη πρωτη εν επαγγελια
      que é o primeiro mandamento com promessa

      Ef 6:2

    8. predicativo do sujeito: já foi dito anteriormente que o artigo grego é usado como um marcador para o sujeito de um verbo de ligação. Uma consequência é a omissão, muitas vezes, do artigo para o predicativo, que pode ter um caráter definido, qualitativo ou indefinido. Em 1931, Ernest Cadman Colwell defendeu sua tese de doutorado – “O Caráter do Grego do Evangelhos de João” – e, em sua pesquisa, descobriu uma regra para o uso do artigo que de foi publicada à parte em 1933 e ficaria conhecida posteriormente como “Regra de Colwell”:

      “Os substantivos de predicado definido que precedem o verbo geralmente carecem de artigo (…) um predicativo nominativo que preceda o verbo não pode ser traduzido como um substantivo indefinido ou ‘qualitativo’ unicamente por causa da ausência do artigo; se o contexto sugere que o predicado é definido, ele deve ser traduzido como um substantivo definido.”

      Uma posterior análise de Philip B. Harner que apenas em 20% dos casos, o predicado pré-verbal é definido e quase sempre nos demais 80% ele é qualitativo. Exemplos do primeiro caso:

      [ει] βασιλευς ισραηλ εστιν καταβατω νυν απο του σταυρου
      [Se] é o Rei de Israel, desça agora da cruz

      Mt 27:42

      ου γαρ επαισχυνομαι το ευαγγελιον δυναμις γαρ θεου εστιν εις σωτηριαν παντι τω πιστευοντι
      Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê

      Rm 1:16

      ο λογος γαρ ο του σταυρου τοις μεν απολλυμενοις μωρια εστιν τοις δε σωζομενοις ημιν δυναμις θεου εστιν
      Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.

      I Co 1:18 (no caso, um predicativo qualitativo e outro definido pré verbais num mesmo versículo)

      και αυτος ιλασμος εστιν περι των αμαρτιων ημων
      Ele é a propiciação pelos nossos pecados

      I Jo 2:2

    9. com substantivos monádicos: substantivos únicos de sua espécie em muitas ocasiões recebem um artigo que lhes ressalta a exclusividade (ex: “cordeiro de Deus” em Jo 1:29). Por outro lado, em outras o dispensam, muito bem, obrigado:

      ηλιου δε ανατειλαντος εκαυματισθη
      mas, vindo o Sol, queimou-se

      Mt 13:6

      αλλη δοξα ηλιου και αλλη δοξα σεληνης και αλλη δοξα αστερων αστηρ γαρ αστερος διαφερει εν δοξη
      Uma é a glória do Sol, e outra a glória da Lua, e outra a glória das estrelas; porque uma estrela difere em glória de outra estrela.

      I Co 15:41

      ουρανοι ησαν εκπαλαι και γη εξ υδατος και δι υδατος συνεστωσα
      já desde a antiguidade existiram os céus, e a terra, que foi tirada da água e no meio da água subsiste.

      II Pe 3:5 (compare com Mt 5:18)

    10. monádicos preposicionados: combinação de dois dos casos anteriores:

      ο δε υπομεινας εις τελος ουτος σωθησεται
      mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo.

      Mt 24:13 (afinal, só existe um “final”)

      εν αρχη ην ο λογος
      no princípio era o Verbo.

      Jo 1:1 (porque, “em princípio”, existe apenas um “princípio”)

      εξ ου πασα πατρια εν ουρανοις και επι γης ονομαζεται
      Do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome

      Ef 3:15 (aqui também poderia ser o caso de palavras em par)

    11. substantivos genéricos: estando na fronteira entre o qualitativo e o definido, os substantivos que representam classes não precisam necessariamente de artigo. Quando traduzidos levam um artigo definido ou até mesmo um indefinido, conforme o caso.

      κριτης τις ην (…) ανθρωπον μη εντρεπομενος
      Havia um certo juiz (…) que não respeitava o homem

      Lc 18:2

      που σοφος; που γραμματευς;
      onde está o sábio? onde o erudito?

      I Co 1:20

      η γυνη δε δοξα ανδρος εστιν
      mas a mulher é a glória do marido

      I Co 11:7 (aqui tem-se um substantivo genérico articular ao lado de outro anartro)

* * *

Por ora, esta lista não exaustiva basta para deixar claro que a simples ausência do artigo grego não implica que as traduções para o português devam ser anartras também ou com o artigo indefinido. Se alguém vier a clamar essa regra fajuta, na melhor das hipóteses será um desinformado e, na pior, agirá por má fé, tendo a própria Escritura que se apropria louva por contraprova.

[topo]

As Faces do Espírito

Os Dons do Espírito

3. (…) Os arianos, tendo mal entendido a presença encarnada do Verbo e as coisas que foram ditas em consequência disso, tomaram delas uma desculpa para sua heresia e foram condenados como inimigos de Deus e por falar coisas que são, na verdade, improdutivas e terrenas (cf Jo 3:12,31). Mas de onde foste enganado? De quem ouviste tal erro? De que modo caíste nisso: “Lemos”, dizem eles, “no profeta Amós (Am 4:13, LXX), onde Deus diz: ‘Eu sou o que faz trovão e cria espírito e declara ao homem seu Cristo, que faz aurora e escuridão, que ascende aos altos lugares da Terra. O Senhor Deus onipotente é seu nome.’ Por isso cremos nos arianos quando disseram que o Espírito Santo é uma criatura.” Assim lês a passagem em Amós. (…) Simplesmente por ouvir a palavra “espírito” supuseste que o Espírito Santos fosse chamado de criatura. (…) Mas o texto não dá indicação alguma do Espírito Santo; apenas fala de espírito. Por que, então, embora haja na Escritura uma grande diferença no uso da palavra e o texto possa ser interpretado num sentido ortodoxo, tu – quer pelo amor à disputa ou por ter sido envenenado pela presa da serpente ariana – supões que o Espírito Santo seja referenciado em Amós? Só que não pode esquecer de considerá-lo como um criatura.

4. Diz-nos, então, se há alguma passagem na divina Escritura onde o Espírito Santo é encontrado simplesmente referenciado como “espírito” sem o acréscimo de “de Deus”, ou “do Pai”, ou “meu”, ou “de Cristo” ele próprio, e “do Filho”, ou “de mim” (i.e., de Deus), ou com o artigo, de modo que é chamado não meramente de “espírito”, mas de “o Espírito”, ou o mesmíssimo termo “Espírito Santo” ou Parácleto, ou “da Verdade” (i.e., do Filho que diz: “Eu sou a Verdade”), que, justamente porque ouviu a palavra “espírito”, toma-la como se fosse o Espírito Santo? Deixe de fora, por enquanto, os caso em que pessoas que já receberam o Espírito Santo são mencionadas novamente e os lugares onde os leitores, tendo previamente sabido dele, não são ignorantes sobre quem estão ouvindo quando ele é mencionado outra vez, pela forma de repetição ou lembrete, meramente como “o Espírito”, nesses casos também é geralmente usado com o artigo. Sumarizando, a não ser que o artigo esteja presente ou o supracitado acréscimo, isso não pode se referir ao Espírito Santo.

Atanásio, Carta ao bispo Serapion. Fonte: [Shapland, epístola I.3-4, pp. 66-70]

Assim falou Atanásio, bispo de Alexandria e campeão do partido Trintário durante o auge da controvérsia ariana, numa correspondência cuja datação estimada se situa entre 356 e 361 d.C., o que seria o período seu terceiro exílio [Shapland, p. 16]. Esse talvez seja o mais antigo relato sobre a importância do artigo (e do contexto) sobre as questões da pneumatologia, i.e., a doutrina teológica do Espírito Santo. Note que Atanásio, no trecho acima, fala da distinção entre “(um) espírito”/”o Espírito”, embora também considere como a favor de seu ponto de vista construções anartras de “espírito santo” (ex. Jo 20:22 na epístola I. 6) ou articulares que autores espiritualistas já usaram em tempos recentes (Dn 13:45, ep. I.5, p.71). De qualquer maneira, o entendimento de Atanásio já está próximo ao da corrente ortodoxia cristã e seria corroborado no I Concílio de Constantinopla em 381 d.C., cerca de oito anos após sua morte. Será, portanto, necessário analisar criteriosamente a literatura cristã pré-nicena e a intertestamentária para identificar como esse entendimento surgiu e evoluiu.

No Novo Testamento, basicamente, estas são as formas em que pneuma (“espírito”) aparece:

  • Pneuma
  • To Pneuma
  • Pneuma Hagion
  • To Pneuma to Hagion
  • To Hagion Pneuma

Vejamos as circunstâncias em que cada uma aparece, especialmente em Lucas, Atos e João: os livros em que esse conceito é crucial.

Pneuma x To Pneuma


Não há nenhuma “bala de prata” para se discernir se pneuma significa um espírito qualquer ou o “Espírito de Deus” ou o “Santo”. De certo, a ausência de artigo abre espaço para a generalização (cf. Lc 24:37), mas sua presença não basta para definir de quem espírito é, caso o artigo seja anafórico ou de classe (como até Atanásio admitiu). A solução é extrair mais informações do contexto.

Por exemplo, no texto de Amós posto acima, intui-se que seu autor falava de fenômenos da natureza, devendo a melhor tradução para pneuma ser “vento”, algo talvez desprovido de qualquer divindade ou espiritualidade, aliás, na literatura greco-romana, essa palavra poderia ter significados ainda mais mundanos:

Algumas vezes ambos são removidos pelos mesmos [remédios] – por exemplo, sempre que a dor ocorre devido ao pneuma flatulento e ao espessamento da parte. Sob essas circunstâncias, o uso dos agentes que são moderadamente aquecedores é adequado; i.e., os que também chamamos de relaxante, e que simultaneamente rarefazem o que ficara denso no corpo, afinam o pneuma flatulento, e dispersam o que já ocorreu de inflamação.

Fonte: Galeno, Method of Medicine, Vol III, XIII.6, Loeb Classical Library, p.349

Quem diria pneuma associado a gases pútridos em um manual de medicina da Antiguidade…

Na verdade, como qualquer pessoa que já trabalhou em traduções (e não simplesmente transcreveu as alheias) sabe, não importa a língua, nem a palavra escolhida: não existirá nenhum equivalente completo para a dada palavra em sua língua materna. Haverá, sim, um conjunto de palavras cujo emprego se sobrepõe ao dela. Quanto mais, digamos, “concreta” ela for, menor esse conjunto e maior a sobreposição serão e o inverso se dá com as mais abstratas. Como é o caso de pneuma:

Vários significados de pneuma

Lista não exaustiva dos diversos significados de pneuma, do mais concreto ao mais abstrato, em sentido anti-horário.

Boa parte dos embates teológicos surge quando um grupo centra-se em um significado e desconsidera ou invalida a possibilidade de outros que são adotados por rivais. Quanto mais simbólica a mensagem, pior:

O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.

Jo 3:6-8

Uma dúvida que se pode levantar é se esse artigo utilizado é definidor de um indivíduo ou de uma classe. O Evangelho segundo o Espiritismo (cap. IV) adotou o segundo entendimento ao considerar o conjunto de versículos acima como uma das provas de reencarnação na Bíblia, fazendo de “o espírito” um genérico para o “espírito humano”. Nas palavras do próprio Allan Kardec:

“O Espírito sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai”, é uma passagem que se pode entender pelo Espírito de Deus que dá a vida a quem quer, ou pela alma do homem. Nesta última acepção, a seqüência: “mas não sabes de onde vem nem para onde vai”, significa que não se sabe o que foi nem o que será o Espírito. Se, pelo contrário, o Espírito, ou alma, fosse criado com o corpo, saberíamos de onde ele vem, pois conheceríamos o seu começo. Em todo caso, esta passagem é a consagração do principio da preexistência da alma, e por conseguinte da pluralidade das existências.

ESE IV.9

Há um pormenor que ficou de fora – “e ouves a sua voz” – o espírito não necessariamente existe exclusivamente para dar vida. A inspiração profética e de adoração também era tida como uma de suas capacidades, como visto acima, caso sua origem fosse divina. Assim, esse renascimento teria outro significado e poderia ser obtido numa mesma existência humana. Qual seria o sentido do evangelista ou, ao menos, de seus primeiros leitores? Há de se retornar a essa questão mais adiante.

Quando o contexto é menos simbólico, é mais fácil identificar a quem pneuma se refere:

Este [Apolo] era instruído no caminho do Senhor e, fervoroso de espírito [ζεων τω πνευματι], falava e ensinava diligentemente as coisas do Senhor, conhecendo somente o batismo de João.

At 18:25

Somos informados que Apolo ainda não recebera um batismo cristão (i.e., pelo Espírito Santo), o que só ocorreria em At 19:6, quando experimentou fenômenos semelhantes aos vivenciados pelos apóstolos em Pentecostes. Assim, provavelmente o fervor era do espírito dele mesmo. As traduções portuguesas, inclusive, tornam anartra uma expressão articular em grego, o que até se adequa melhor a esse entendimento.

Quanto a pneuma que vem de fora:

E logo o Espírito o impeliu para o deserto.

Mc 1:12

Essa é uma referência ao pneuma recebido por Jesus em forma de pomba dois versículos antes, também em forma articular. Pode ser Espírito Santo (como Lucas faz em Lc 3:22) ou o “Espírito de Deus”, mas com certeza não é o espírito de Jesus, uma assombração ou um coletivo.

A adição de algum complemento a pneuma – como “de Deus” ou “imundo” – pode esclarecer quanto à origem dele, por outro lado é ainda insuficiente quanto a sua individualidade. Nisso, o adjetivo hagion (“santo”), quando associado a pneuma, merece atenção especial.

Pneuma Hagion x To Pneuma to Hagion


Uma regra muito difundida entre os meios mais, digamos, confessionais alega que:

Quanto ao uso do artigo junto a Pneuma Hagion, quando se trata da individualidade pessoal do Espírito Santo como tal, é articulado; quando se focaliza a operação, os dons e manifestações, é anartro.

Que ficou conhecida com “Regra de Middleton”, em homenagem ao autor de The Doctrine of Article e o primeiro a propor essa regra (cf. pp. 125-6). Eis alguns exemplos em que ela se encaixa bem:

  • Espírito Santo como indivíduo (articular):
    • Mt 12:32 (…) mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado(…)
    • Lc 3:22 E o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como pomba(…)
    • Jo 14:26 Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome(…)
  • Espírito Santo como manifestação ou dom (anartro):
    • Mc 1:8 Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.
    • Lc 1:67 E Zacarias, seu pai, foi cheio do Espírito Santo, e profetizou, dizendo:
    • II Tm 1:14 Guarda o bom depósito pelo Espírito Santo que habita em nós.

Como quase toda regra, essa também está também está sujeita a exceções e “senões”. Primeiramente, há várias construções articulares no Novo Testamento em que Pneuma Hagion, na verdade, leva um artigo anafórico referente a uma primeira menção anartra, como Lc 2:25 e o subsequente versículo. Em situação oposta, há casos em que Pneuma Hagion é anartro, mas a ideia que porta sugere referência a um indivíduo, como em Rm 15:13: “para que abundeis em esperança pela virtude do Espírito Santo” (εις το περισσευειν υμας εν τη ελπιδι εν δυναμει πνευματος αγιου), que pode muito bem se enquadrar no caso de uma supracitado de uma construção genitiva preposicionada.

O argumento utilizado por Middleton para essa separação foi bem simples: “embora o próprio Espírito seja apenas um, suas influências e operações podem ser muitas” (p. 126). Esse relacionamento “um para muitos” se ajusta bem àquele entendimento de Pneuma Hagion com uma espécie de poder, substância ou canal de comunicação de origem única (divina, no caso) que, por sua vez, ramifica-se por diversos humanos. Expressões anartras em grego como “cheio do Espírito Santo”, “batizar com o Espírito Santo (e com fogo)” ou “ter/estar com o Espírito Santo sobre si” remetem a essa noção. Às vezes, contudo, a dicotomia poder-substância X indivíduo fica um tanto pastosa. É o que acontece no livro de Atos, quando “dar o Espírito Santo” – por uma postura ativa de Deus – é articular (cf. At 5:32 e 15:8), por outro lado “receber o Espírito Santo” – em atitude passiva dos homens – é anartro (cf. At 8:15, 17, 19). O versículo At 5:32 chama atenção:

E nós somos testemunhas acerca destas palavras, nós e também o Espírito Santo, que Deus deu àqueles que lhe obedecem.

O Espírito Santo é dado/recebido como uma substância ou poder, mas testemunha como se um indivíduo fosse. Juntando-se esse versículo com aquele em que Pneuma Hagion aparece como passível de sofrer blasfêmia (Lc 12:10), fica difícil cogitar que a comunidade lucana tomasse Pneuma Hagion como uma alma desencarnada qualquer, uma falange de espíritos ou alma de cada membro.

To Hagion Pneuma


A articulação de Pneuma Hagion na primeira forma atributiva é uma característica marcante dos livros cuja autoria é tradicionalmente dada a Lucas, que possui a maioria de suas ocorrências. A saber:

  • mas ao que blasfemar contra o Espírito Santo não lhe será perdoado (Lc 12:10)
  • Porque na mesma hora vos ensinará o Espírito Santo o que vos convenha falar. (Lc 12:12)
  • Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós;(…) (At 1:8)
  • e recebereis o dom do Espírito Santo; (At 2:38)
  • e todos foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com ousadia a palavra de Deus. (At 4:31)
  • andando no temor do Senhor e consolação do Espírito Santo. (At 9:31)
  • maravilharam-se de que o dom do Espírito Santo se derramasse também sobre os gentios. (At 10:45)
  • E assim estes, enviados pelo Espírito Santo,(…) (At 13:4)
  • foram impedidos pelo Espírito Santo de anunciar a palavra na Ásia (At 16:6)

Outras ocorrências

  • batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; (Mt 28:19)
  • Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós,(…) (I Co 6:19)

Embora o quadro seja mais nebuloso, é possível cogitar um fundo comum a esses: esse pequeno punhado de versículos tem em comum a presença de uma relação entre Espírito Santo e os humanos. A inversão propiciada por To Hagion Pneuma realçaria o caráter de santidade do Espírito, por ser oriundo de Deus, em sua interação com os mortais, quer seja diretamente (blasfêmia, instrução, impedimento) ou concedendo-lhes dádivas (dom, virtude, consolação) ou recebendo-as deles (templo). A única exceção talvez seja At 4:31, que traz Pneuma Hagion anartro na maioria dos códices bizantinos. Uma hipótese mencionada por [Read-Heimerdinge, cap.V, p. 1666, nota] sugere um uso anafórico do artigo (Pneuma Hagion já fora citado em At 4:8), mas o redator, por questão estilística, teria preferido a primeira forma atributiva para poupar um artigo numa sentença em que já são muito usados junto a outros substantivos.

* * *

Em resumo: grosso modo, Pneuma Hagion se centra no aspecto, digamos, substancial do Espírito Santo, To Pneuma to Hagion no individual e To Hagion Pneuma no relacional. Há exceções e imprecisões, sim, que poderiam muitas vezes ser sanadas casos os antigos houvessem deixado alguma pista de como enxergavam o “espírito”.

E eles deixaram.

[topo]

Uns dizem um espírito, outros dizem o Espírito. Eles escreviam ΠΝΑ

PNA HAGION

Nomen Sacrum de To Pneuma to Hagion em Jo 14:26 no Códice Sinaítico.

MANUSCRITOS
Os primeiros exemplares do Novo Testamento eram copiados em papiros (espécie de papel) , material frágil e facilmente deteriorável. Mais tarde passaram a ser escritos em pergaminho (pele de carneiro) , tornando-se mais resistentes e duradouros.

Os manuscritos eram grafados em letras “capitais” ou “unciais” (ou seja, maiúsculas). Só a partir do 8º século passaram a ser escritos em “cursivo”, ou letras minúsculas.

Fonte: Pastorino, Carlos, Torres; Sabedoria do Evangelho, vol. I, p 3.

COPISTAS
Os encarregados de copiar os manuscritos chamavam-se “copistas” ou “escribas”. Mas nem sempre conheciam bem a língua, sendo apenas bons desenhistas das letras. Pior ainda se tinham conhecimento da língua, porque então se arvoravam a “emendar” o texto, para conformá-lo a seus conhecimentos. Não havia sinais gráficos para separação de orações, e as próprias palavras eram copiadas de seguida, sem intervalo, para poupar o pergaminho que era muito caro. Dai os recursos empregados, como:

ABREVIATURAS
ou reunião de várias letras numa SIGLA, por exemplo: pq, para exprimir porque. Algumas abreviaturas eram perigosas, como: OC, que significa “aquele que”. Mas se houvesse um pequenino sinal no meio do O, fazendo dele um “theta”, passaria a significar “Deus”, (cfr. I Tim. 3:16).

Fonte: Idem, p. 4.

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ESPÍRITO
Vamos aproveitar para esclarecer a distinção que fazemos das diversas acepções da palavra ESPÍRITO. Ora o escrevemos entre aspas e com inicial minúscula: o “espírito”, e queremos então referir-nos ao termo comum de espírito desencarnado, isto é, ao espírito da criatura que ainda está preso à personalidade, com um rótulo, ou seja, um NOME: por exemplo, o “espírito” de João, o “espírito” de Antônio, etc . Doutras vezes escrevemos a palavra com inicial maiúscula: o Espírito, e com isso significamos a individualidade, ou seja, o trio superior composto de Centelha Divina, Mente e Espírito, mas sem nome, não sujeito a tempo e espaço. Então, quando o Espírito se prende à personalidade, passa a ser o “espírito” de uma criatura humana, encarnada ou desencarnada. O Espírito é o que está em contato com o Eu Profundo, enquanto o “espírito” está em contato com o “eu” pequeno, que tem um nome. Somos forçados a fazer estas distinções para que as ideias fiquem bem claras. Além desses, temos o “Espírito” de Deus, ou o “Espírito” Santo, que é a manifestação cósmica da Divindade, também chamado o Cristo Cósmico, de que todos somos uma partícula, um reflexo; em nós, o Cristo é denominado “Cristo Interno” ou Centelha Divina, e é a manifestação divina em cada um de nós. Não se pense, entretanto, que a reunião de todas as Centelhas divinas ou “mônadas” das criaturas forme o Cristo Cósmico. Não! Ele está imanente (dentro de todos nós), mas é INFINITO e, portanto, é transcendente a todos, porque existe ALÉM de todos infinitamente. O mergulho de que falamos exprime, em primeiro lugar, o ENCONTRO do “espírito” (personalístico) com o seu próprio Espírito (individualidade), e depois disso, em segundo lugar, a absorção do Espírito no mais recôndito de seu EU profundo, ou seja, a UNIFICAÇÃO do Espírito com o Cristo Interno, com sua consequente INTEGRAÇÃO com o Cristo Cósmico.

Fonte: Idem, pp. 114-5

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O Espírito Santo, do jeito que é, só foi instituído pela Igreja, oficialmente, no Concílio de Constantinopla (381). Paulo não O conheceu. E sua doutrina virou dogma justamente porque já era polêmica desde sua instituição. Ele, com os artigos definidos “ho” ou “tó” nos originais gregos bíblicos, pode significar Deus transcendente: o Santo Espírito, o santo dos santos, mas pode também ser uma referência à centelha divina ou Cristo interno, imanente, que habita em cada um de nós, a qual é classificada por Pietro Ubaldi, em “Grande Síntese”, como sendo o espírito hominal evoluído, já individualizado. E quando se trata do próprio Deus transcendente, santo Tomás de Aquino discorda de santo Agostinho, dizendo que o Espírito Santo deveria vir em primeiro lugar e não no terceiro, na ordem da Santíssima Trindade. Mas o Espírito Santo bíblico que mais aparece é geralmente o que se refere a um espírito humano desencarnado, não tendo, pois, o artigo definido no original grego nem o adjetivo “santo”, sendo, pois, a tradução correta para o português “um espírito”, como vimos acima.

– Chaves, J.R.; A confusão entre o espírito santo e os outros espíritos, em O Tempo, Belo Horizonte – MG, 16/03/09

Apresento duas versões de articulistas espíritas a respeito da natureza de Pneuma Hagion: ambas com um entendimento quase neognóstico do Espírito Santo (e emprestado da teosofia) que, de certa forma, espiritualiza o humano para humanizar o Espírito. Algum comentário a se fazer sobre elas? Nenhum além da identificação de seu pano de fundo filosófico. Não há como refutá-las, pois são perfeitamente coerentes com a teologia de seus crentes. Por outro lado, alguém de fora não tem a menor razão para acatá-las. Seus autores têm seus próprios critérios para decidir quando um espírito não é o Espírito e o que cada caso significa. Não trazem evidências de que seus critérios seriam os mesmos dos antigos cristãos, parecendo mais interpretações pesher, ou seja, releituras. Certo que a Trindade foi um desenvolvimento tardio, mas a sofisticada especulação que trazem não deve ter sido concebida por ou para uma massa iletrada e humilde. Pode-se ter a vontade criar um “túnel do tempo” e perguntar diretamente o que se pensava nas igrejas, digamos, do começo do século II de nossa Era, quando o evangelhos canônicos já estavam escritos. Embora isso não seja possível, algumas pistas eles deixaram para nós.

O próprio Pastorino já mencionara brevemente o uso de abreviaturas nos antigos manuscritos, até citando um caso de fraude. Como as abreviaturas eram feitas para as palavras mais frequentes, nada mais natural que as de cunho religioso fossem escolhidas e dessem origem ao que, em tempos modernos, seria designado como uma classe especial de abreviaturas: os nomina sacra (“nomes sagrados”).

Uma particularidade interessentante dos nomina sacra é que todos os manuscritos antigos possuem um conjunto mínimo deles, dando a entender que, se já não surgiram junto com os originais dos livros, começaram a ser utilizados bem cedo. Quatro nomes aparecem universalmente em todos os unciais na forma abreviada: “Senhor” (Κυριος), “Deus” (Θεος), “Jesus” (Ιησους) e “Cristo” (Χριστος). Conforme a datação dos manuscritos avança, outras palavras se juntam ao grupo, como “Pai” (Πατηρ), “Filho” (Υιος), “Cruz” (Cταυρος), “Israel” (Ισραηλ), “Céu” (Ουρανος), etc. Não havia uma regra única para as abreviaturas, mas, em geral, os copistas tomavam a primeira ou as duas primeiras letras, a última, e as sobrescreviam com um traço horizontal. Como a terminação de uma palavra variava conforme o caso em que se encontrasse, os nomina sacra também mudavam em concordância.

Uncial Nominativo Genitivo
Senhor ΚΥΡΙΟC ΚC ΚΥ
Deus ΘΕΟC ΘC ΘΥ
Jesus ΙΗCΟΥC ΙC ΙΥ
Cristo ΧΡΙCΤΟC ΧC ΧΥ
Espírito ΠΝΕΥΜΑ ΠΝΑ ΠΝC
Pai ΠΑΤΗΡ ΠΗΡ ΠΡC
Filho ΥΙΟC ΥC ΥΥ
Cruz CΤΑΥΡΟC CΤC CΤΥ
Israel ΙCΡΑΗΛ ΙΗΛ indeclinável
Céu ΟΥΡΑΝΟC ΟΥΝΟC ΟΥΝΟΥ

Lista não exaustiva de nomina sacra comuns em manuscritos do Novo Testamento. Não foram incluídas variantes como IHC para Jesus. Mais pormenores em [Comfort, cap. IV]

Como se enquadra Pneuma no histórico do emprego dos nomina sacra? Seu nomen sacrum ΠΝΑ se encontra presente nos mais antigos manuscritos que chegaram até nós contendo a palavra “espírito” denotando uma origem divina, dando a entender que seria tão antigo quanto os quatro primários e seria tranquilamente aceito como um quinto membro desse grupo se não fosse por duas anomalias [Comfort, cap. IV, pp. 231-41]:

  • O papiro P46 (c. 175-225, contém epístolas paulinas) deixa de aplicar o nomen sacrum para o espírito divino em dez circunstâncias que seriam comumente aceitas depois;
  • O Códice Vaticano, contemporâneo do igualmente famoso Sinaítico (séc. IV), não possui nomen sacrum para Pneuma.

Uma conciliação proposta é que P46 teria sido redigido numa época de transição, quando as abreviaturas para Pneuma ainda estavam se desenvolvendo e o Códice Vaticano seria uma reprodução de um manuscrito ainda mais antigo que P46. Com o material disponível atualmente, isso é apenas conjectura, não estando descartada a hipótese de o copista de P46 ter se descuidado. Por ora, pode-se afirmar que, se ΠΝΑ não for um nomen sacrum primário, ao menos é quase tão antigo quanto os desse grupo.

O impacto desse registro paleográfico é deixar claro que a personalização do Espírito Santo – representando um ente específico e não uma classe – se encontra presente desde o II século de nossa Era e duzentos anos antes do I Concílio de Constantinopla. Nos tempos modernos, esse caráter é assinalado pelas iniciais maiúsculas de “Espírito Santo”, o que levou autores espiritualistas a acusarem tal grafia de ser errônea e maliciosa por induzir à crença na Trindade. Uma alegação para isso era o fato de os antigos manuscritos unciais possuírem apenas letras maiúsculas, em geral em scripta continua, tendo sido as minúsculas adotadas pelos escribas já em tempos medievais, bem depois da vitória da ortodoxia. Isso é verdade, mas não toda a verdade: embora o registro escrito fosse bem mais precário, o antigos tinham, sim, seus meios para destacar o que lhes era relevante. Os nomina sacra constituíam um deles.

Em consequência, é possível estimar nuances interpretativas que os antigos copistas em relação aos textos que transcreviam e desfazer distorções, como esta:

J.R. Chaves, A Face…, p.144 E sobre Zacarias, pai de João Batista, lê-se: “Zacarias ficou cheio de um ou dum Espírito Santo” (e não do Espírito Santo), pois o original grego não tem o artigo indefinido, mas, como ele existe em Português, temos que usá-lo. Se no texto original grego houvesse o artigo definido “ho” (“o”), estaria certa a tradução: “cheio do Espírito Santo” (Lucas 1,67). Mas como não há, está errada.
Transcrição do papiro P4 (Fonte) Papiro P4 em Lc 1:67

O escritor ignora o fato de Pneuma Hagion ser, aqui, uma construção genitiva e ter o caráter de um “poder” ou “substância” com que Zacarias é infundido. Isso poderia possibilitar um sentido definido mesmo como uma estrutura anartra. Já o nomen sacrum para pneuma encontrado em P4 – o mais antigo manuscrito atualmente conhecido de Lucas (ca. 175 – 225 d.C.) – assinala que seu copista entendia “Espírito Santo” como um nome próprio, garantindo para ele um sentindo definido.

Não são revelados apenas vislumbres de como “Espírito” era compreendido, mas também aspectos um pouco mais profundos de exegese. Por exemplo, relembrando o diálogo entre Jesus e Nicodemus, mais especificamente este versículo:

Jo 3:6
P66
(Fonte)
Papiro P66 em Jo 3:6
P75
(Fonte)
Papiro P75 em Jo 3:6

A última oração do versículo – και το γεγεννημενον εκ του πνευματος πνευμα εστιν (“e o que é nascido do espírito é espírito”) – é interpretada de forma diferente pelos copistas. O de P66 distinguiu o Espírito divino do humano, dando a entender que “o Espírito divino gera o espírito humano”. Essa é a interpretação da maioria das traduções modernas. Já o de P75, por sua vez, tratou os dois como divinos, sugerindo que “o que é gerado pelo Espírito também é divino”. A passagem, sem dúvida, permite mais de um entendimento, não havendo razão alguma para se considerar o viés reencarnacionista como o único possível, como fazem certos apologistas espíritas. Bem antes de Niceia, as opiniões eram outras…

foto de P66

Detalhe do papiro P66 em Jo 3:6, exibindo o nomem sacrum para pneuma em apenas uma das aparições dessa palavra no versículo. Extraído de Early Bible.

Há quem possa rejeitar o testemunho dos manuscritos alegando que foram copiados por devotos da proto-ortodoxia cristã, com uma linha de pensamento mais próxima da teologia vencedora. Afinal de contas, os evangelhos canônicos foram os que esse grupo abraçou. Isso é uma meia-verdade, pois há uma exceção entre eles: João. Com sua linguagem alegórica, a apresentação de Jesus como o Verbo divino encarnado como a missão fornecer um “conhecimento” (gnose, em grego) especial (cf. Jo 8:32) necessário à salvação, esse evangelho caiu nas graças das seitas gnósticas. Inclusive, sabe-se que o primeiro comentário feito a esse evangelho foi elaborado por um escritor gnóstico valentiano chamado Heracleão (ca. 175 d.C.). Infelizmente, essa obra está perdida, mas alguns extratos dela permanecem nos textos patrísticos. Orígenes – um proto-ortodoxo querido entre os espiritualistas – o menciona em um de seus próprios comentários, como a intenção de refutá-lo, de onde retiro as seguintes passagens:

E ele [Heracleão] expõe de seu próprio modo particular o fato de que o chicote foi feito de cordas por Jesus (Jo 2:15), que não o recebeu de outrem, quando diz que o chicote é uma imagem do poder e atividade do Espírito Santo [της δυναμεως και ενεργειας του αγιον πνευματος] que expulsa os iníquos. E acrescenta que o chicote, a corda, o linho e todas essas tais coisas são uma imagem do poder e atividade do Espírito Santo.

Comentário sobre o Evangelho de João, livro X, parágrafo 213. Cf. PG XIV, col. 368

Mas Heracleão supõe que a água do cântaro (cf. Jo 4:28) “é a disposição capaz de receber a vida e o pensamento de poder que é do Salvador. Ela o deixa com ele”, diz, “ou seja, ela tem um vaso desse com o Salvador, com o qual recebera a água vivente, e retornou ao mundo para anunciar a vinda do Cristo aos eleitos (cf. Jo 4:29), pois a alma é trazida ao Salvador por meio do Espírito e pelo Espírito [σια γαρ του πνευματος και υπο του πνευματος προσαγεται η ψυχη τω Σοτηρι].
(…)
Heracleão também interpretou a sentença “e saíram da cidade” (cf. Jo 4:30) como o abandono de seu antigo modo de vida, que era físico. E “vieram“, diz, “ao Salvador por meio da fé“.

Comentário sobre o Evangelho de João, livro XIII, parágrafos 187 e 191. Cf. PG XIV, cols. 452-3

É bom atentar que cada extrato fala de um “espírito” diferente. Como bom valentiano, Heracleão deveria considerar do Espírito Santo um “aeon” – uma emanação da divindade primordial – a fazer par com outro, Jesus Cristo, na transmissão do conhecimento (gnose) a outros aeons. Esse mensageiro duplo teria se unido à parte humana de Jesus por ocasião de seu batismo, descendo em forma de pomba. Já o segundo “espírito” seria composto de uma substância própria do pleroma (domínio divino) encontrada no mundo material e comporia a “parte superior” de uma distinta classe de mortais chamada de “pneumáticos”: os únicos aptos a receber a plenitude da salvação, cujo espírito retornaria ao pleroma após a morte. Um grupo maior – os psíquicos – possuiria uma parte chama de “alma” (psyché), composta por uma substância intermediária entre o espírito e a matéria, também presente nos pneumáticos e que fora insuflada pelo Demiurgo criador do mundo material. Seus membros constituíam a parte não gnóstica da Igreja e teriam uma salvação mais modesta caso seguissem os mandamentos cristãos, permanecem suas almas nas regiões celestes mais externas. Por fim, viriam os hílicos (de hylé, “matéria”), onde estariam os pagãos, completamente materiais e desprovidos de salvação.

Qualquer semelhança entre essa sucinta descrição da soteriologia gnóstica e as ideias de Pastorino e Ubaldi sobre o Espírito Santo não deve ser mera coincidência, mas um afluxo de uma teologia antiga via a moderna teosofia. Tudo bem que pensassem assim, só se deveria alertar os leitores que elas descendem de um sistema que julgava o Espírito Santo divino – ainda que uma divindade secundária – e, como todos os sistemas gnósticos, era fruto de desenvolvimentos posteriores.

Tanto a personificação dos nomina sacra quanto a divinização gnóstica pertencem ao século II, para identificar o papel do Espírito Santo no cristianismo primevo, será preciso recorrer às fontes mais antigas da literatura cristãs.

[topo]

No Princípio era o Espírito

Luz estelar

Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus; porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza, como bem sabeis quais fomos entre vós, por amor de vós. E vós fostes feitos nossos imitadores, e do Senhor, recebendo a palavra em muita tribulação, com gozo do Espírito Santo.

I Ts 1:4-6

Essa é a mais antiga menção ao Espírito Santo no Novo Testamento. Ué, mas não se deveria começar pelos evangelhos? Aí que está uma problemática questão no estudo no Novo Testamento. Pela lógica, a mensagem vem antes de sua pregação, mas, na realidade, a segunda foi registrada antes da primeira! Afinal, Paulo de Tarso – o mais prolífico autor da Bíblia – redigiu I Tessalonicenses por volta de 49 d.C., enquanto que Marcos tem sua mais antiga datação estimada em 60 d.C. e João já no fim do primeiro século!

Portanto, convém começar a análise do Espírito Santo cristão por Paulo, ressaltando que isso gera seu próprio punhado de problemas: Paulo nunca conheceu Jesus em vida, sua cartas distam pelo menos vinte anos da crucifixão, seu ministério começou apenas três anos após sua conversão, depois de uma temporada de três anos na Arábia e em Damasco, voltou à Jerusalém e lá foi ter com os apóstolos Pedro e Tiago por breves 15 dias (Gl 1:11-18). A visão que teve de Jesus foi muito forte, segundo ele mesmo, a ponto de converter um perseguidor em pregador. Por outro lado, nada indica que tenha sido uma experiência longa o bastante para transmissão de um tratado teológico completo. Paulo também não ficou um longo tempo com os apóstolos para se servir de seu testemunho em primeira mão. Não sabemos também o que ele fez no ínterim de três anos, mas pode-se cogitar que esse tempo seria o bastante para se inteirar das tradições de Jesus que já circulavam, como implícito em I Co 15:3-8. Assim, Paulo traz os ensinamentos de uma cristandade que já não contava com a presença física de de Jesus, mas que podia se valer da ação de um ente especial – o Espírito – em sua ausência, enquanto aguardava esperançosamente um “fim dos tempos” tido como próximo. Embora cronologicamente arranhem o Jesus histórico, as cartas paulinas pouco falam de Jesus, pois elas foram escritas na urgência de problemas que afetavam as comunidades fundadas por ele. Por não serem o foco, os ensinamentos cristãos são mencionados, mas não detalhados, estando incluído neles a natureza do Espírito. Em lugar disso, aparecem instruções quanto à relação das comunidades para com ele, que servem de janela para a pneumatologia paulina.

Os evangelhos são mais tardios que Paulo e, embora repletos de ditos “atribuídos” ao próprio Jesus, estão longe de ser biografias do Nazareno. Na verdade, cada evangelista pertenceu a uma comunidade cristã diferente, com vivências e experiências distintas em relação à “boa nova”. Cada um tinha uma imagem de Jesus a passar voltada para as expectativas de sua comunidade e em muitos pontos inconciliáveis com as demais: não é possível adequar a mensagem pró-judaica de Mateus com o quase antissemitismo de João. Da mesma forma, não há de se esperar que cada grupo mantivesse a mesma relação com o Espírito, principalmente em seu papel após a morte de Jesus. De todos os quatro, apenas Lucas foi escrito por um membro de uma comunidade paulina e esse mesmo evangelho traz uma grata peculiaridade para entendimento do que representava o Espírito Santo para esse antigos grupo de cristãos.

Paulo: O Crescer do Espírito

Conversão de Paulo

A Conversão de São Paulo a Caminho de Damasco, por Caravaggio

Ao longo de suas viagens (ca. 46 – 60 d.C.), Paulo percorreu boa parte do mundo grego-romano, em especial os territórios da Grécia e da Ásia Menor (atual Turquia), por onde fundou comunidades cristãs nos centros urbanos de maior porte. Quando sentia que já formara um grupo minimamente consolidado, partia para outra cidade. O contato era mantido por cartas, pelas quais Paulo passava instruções, explanações e exortações no intuito de solucionar as crises que surgiam. Foi essa troca de correspondência que fez de Paulo o autor mais prolífico do Novo Testamento, senão da própria Bíblia, e o material que chegou até nós pode ser apenas uma “ponta de iceberg” dado que nele mesmo se encontram referências a outras cartas que não sobreviveram. Quando colocadas numa ordem mais cronológica (ainda que com boa margem de erro), em vez da em que tradicionalmente aparecem nos códices antigos e nas edições modernas, pode-se, grosso modo, notar uma progressiva elaboração do conceito do Espírito Santo e sua relação com as igrejas.

  • I Tessalonicenses: tida por alguns autores como a mais antiga carta (ca. 50 d.C.), ela mostra o Espírito Santo como um agente fundamental para “santificação” da comunidade, i.e., sua ação manteria os fiéis no caminho reto enquanto aguardavam o retorno de Jesus e a ressurreição de seus membros já falecidos:

    Finalmente, irmãos, vos rogamos e exortamos no Senhor Jesus, que assim como recebestes de nós, de que maneira convém andar e agradar a Deus, assim andai, para que possais progredir cada vez mais. Porque vós bem sabeis que mandamentos vos temos dado pelo Senhor Jesus. Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação; que vos abstenhais da fornicação; que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santificação e honra; não na paixão da concupiscência, como os gentios, que não conhecem a Deus. Ninguém oprima ou engane a seu irmão em negócio algum, porque o Senhor é vingador de todas estas coisas, como também antes vo-lo dissemos e testificamos. Porque não nos chamou Deus para a imundícia, mas para a santificação. Portanto, quem despreza isto não despreza ao homem, mas sim a Deus, que nos deu também o seu Espírito Santo [το πνευμα αυτου το αγιον].

    I Ts 4:1-8

    De certa forma, o papel desse Espírito Santo de “santificação” se assemelha ao da pneumatologia de Qumran, ou até mesmo o do salmo 51. Paulo ainda não expõe uma perspectiva mais elabora quer por ela não existir ou pelo ensinamento relativamente enxuto repassado aos tessalonicenses (1 Ts 4:1 – 5:11). Há diferenças, contudo: sua ação confirma a pregação apostólica (cf. I Ts 1:5) e faz profecias jorrarem em um nível desconhecido na era pré-cristã, como sugerido numa exortação final:

    Não extingais o Espírito. Não desprezeis as profecias. Examinai tudo. Retende o bem.

    I Ts 5:19-21

    De fato, é possível interpretar esse “espírito” como sendo como sendo o ânimo da própria da comunidade e as profecias como as contidas no Antigo Testamento a respeito da vinda de Jesus (pelo menos no modo entendido pelos cristãos), mas a forma como Paulo descreveu o uso e abuso do “Espírito” em outra e muito problemática comunidade sugere que não.

  • I Coríntios: se os tessalonicenses só davam alegrias a Paulo, o mesmo já não pode ser dito em relação aos membros da igreja de Corinto: a refeição eucarística era desorganizada, com alguns chegando mais cedo, fartando-se e nada deixando aos retardatários, havia rixas internas que ameaçavam parar no tribunal; uns provocavam escândalo por não ver nada de mais em consumir a carne oferecida a ídolos pagãos, outros por sua conduta sexual; no outro extremo, certos membros competiam em exibir grau mais elevado de santidade e espiritualidade ao ponto de atrapalhar as cerimônias quando começavam a “falar em línguas”. Enfim, uma considerável dose de caos. Por que, então, ele não orientou o responsável por essa igreja a restabelecer a ordem? É que não havia ainda tal figura, ao menos com o poder equiparável ao de um padre ou pastor moderno. Paulo fundara e organizara suas igrejas como comunidades carismáticas, do grego χαρισμα (“dom”), que continuariam a ser guiadas por intermédio do Espírito:

    E a minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder; para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus. Todavia falamos sabedoria entre os perfeitos; não, porém, a sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste mundo, que se aniquilam; mas falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória; A qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória. Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo (seu) Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus [ει μη το πνευμα του θεου]. Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus. As quais também falamos, não com palavras que a sabedoria humana ensina, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais. Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido. Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo.

    I Co 2:4-16

    Aqui, Paulo faz uma distinção entre o Espírito Divino e o espírito humano e, embora use a mesma palavra para ambos, a conotação é diferente: o primeiro é uma espécie de poder a conectar os homens com a vontade divina adentrando no segundo, que pode ser um sinônimo para mente (nous) ou alma (psykhe). Com eles, o apóstolo alfineta os coríntios deixando nas entrelinhas que não seriam tão espiritualizados quanto pensavam, do contrário teriam sido corretamente instruídos pelo Espírito Santo e se comportariam de outra forma.

    E tal ação do Espírito não se daria da forma individualista de que uns se gabavam ser os escolhidos, muito pelo contrário: ela englobaria todos o fiéis e ai daquele que a perturbasse:

    Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo.

    I Co 3:16-17

    Aqui, ele se dirige aos inimigos internos, os que causam dissenção entre fiéis. Um pouco mais adiante, retorna a falar em “templo” , mas num sentido individual, referindo-se aos pecados carnais cometidos por alguns dos “santos de Corinto”:

    Fugi da fornicação. Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo. Ou não sabeis que o vosso corpo é (o/um) templo do Espírito Santo, que habita em vós,[ναος του εν υμιν αγιου πνευματος] proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.

    I Co 6:18-20

    A questão do templo como um coletivo ou como uma individualidade é sanada com o entendimento dos membros da Igreja como constituintes do “Corpo de Cristo”: uma estrutura social guiada pelo Espírito Santo capaz de manter a harmonia entre os fiéis até parúsia, quando os conflitos deixariam de existir. Paulo fala en passant nessa ideia em I Co 6:15 (“Vocês não sabem que os seus corpos são membros de Cristo?“), desenvolvendo-a plenamente em no capítulo XII, quando trata da questão dos “dons do Espírito”, assunto em que alguns coríntios se julgavam mais afortunados que outros. Ele lhes lembra que todos receberam, por ocasião do batismo, diferentes dons “pelo mesmo Espírito” (12:8) [κατα το αυτο πνευμα], alguns eram mais chamativo – como o a capacidade de falar em línguas ou de curar -, outros mais discretos – como a capacidade de ajudar ou administrar -, mas todos, tal como os órgãos do corpo, tinham sua importância e o “corpo” não funcionaria direito na falta de um deles. Em vez de invejar o dom alheio, cada um deveria se esmerar naquele que recebera e … amar! Não é à toa que o Hino ao Amor sucede esse capítulo, explicitando a inutilidade dos dons se desprovidos desse sentimento.

    Pode parecer estranho a um leitor moderno, ainda mais a um espiritualista, a preocupação com o corpo. Afinal, ele já não está , de antemão, fadado a perecer e apenas o espírito (humano) importa para o outro mundo? Ao contrário da noção popular comum de hoje – que apenas a alma é salva para uma existência desencorpada – Paulo, como ex-fariseu e um dos primeiros cristão, também cria que o corpo seria resgatado e sublimado. No penúltimo capítulo de I Coríntios, é descrito seu entendimento quanto à crença na ressurreição no fim dos tempos:

    Assim também a ressurreição dentre os mortos. Semeia-se o corpo em corrupção; ressuscitará em incorrupção. Semeia-se em ignomínia, ressuscitará em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscitará com vigor. Semeia-se corpo natural, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual. Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o natural; depois o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu.
    Qual o terreno, tais são também os terrestres; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial. E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção. Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade. E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória.

    I Co 15:42-54

    Esse trecho é muito utilizado por apologistas como prova de inexistência da ressurreição física, no contexto bíblico, interpretando como se fosse uma menção à humanidade desencarnada. Contudo, “o diabo está nos detalhes” nesse caso. Relendo esse trecho, constata-se que em nada ele é contra a ressurreição física. Na verdade, o que ele é contra é a ressurreição carnal. Isso não significa o descarte do corpo natural, como se alega entre autores espiritualistas, mas a transformação dele em corpo espiritual. Os versículos 15:51-54, geralmente omitidos por eles, deixam nítida a crença de Paulo num fim dos tempos próximo e, portanto, alguns dos fiéis sofreriam essa transformação ainda em vida. Ademais, há um anacronismo no modo de pensar espiritualista: nos tempos bíblicos não havia o fosso entre “matéria” e “espírito” como há, hoje, nas conotações em que essas palavras são usadas. Para os antigos, “espírito” podia ser um tipo de matéria tênue, talvez quintessênciada, mas ainda material. A transformação de carne em espírito não era tão absurda para eles. A ressurreição paulina também encontra paralelos em outras obras da literatura intertestamentária como I Enoque e II Baruque, que também narram a transformação dos corpos carnais dos eleitos em novos de natureza gloriosa, por ocasião da consumação final.

    Em suma, em I Coríntios Paulo explana a superação das diferenças entre “espírito” e “corpo”, estando o Espírito a serviço do Corpo por meio da inspiração e dos dons carismáticos. Isso remete ao papel dos Espíritos divinos em Qumran, com a diferença que, agora, todos os dons provêm de apenas um.

  • II Coríntios: Na verdade, II Coríntios não é uma carta, mas uma composição de duas ou mais cartas escritas por Paulo, editadas mais tardiamente por algum membro dessa comunidade. Pelo que sugere, Paulo visitou Corinto após o envio da primeira epístola e já encontrara certa animosidade (cf. 2:5-11, 13:2), mas os problemas não acabaram por aí: pouco antes de sua partida dessa visita (ou logo após), teriam chegado à comunidade outro grupo de pregadores cristãos, a quem Paulo deprecia chamando de “superalpótolos” (των υπερλιαν αποστολων – cf. 11:5), cuja mensagem alegava que os cristãos já gozariam de glória antes do fim dos tempos, o que era justamente um dos pontos combatidos por Paulo em I Coríntios. Os capítulos de 10 a 13 seriam de uma carta combatendo os “superapóstolos”. A comunidade deve ter mudado de opinião e acatado de novo as teses de Paulo, que teria escrito uma nova carta em tom congratulatório que corresponderia, salvo alguns trechos destoantes, à boa parte da redação entre o primeiro e o nono capítulo. Assim, cronologicamente, II Coríntios começaria pelo fim.

    No geral, Paulo mantém os mesmo pontos de sua pregação apocalíptica apresentada em I Coríntio. As principais alusões ao Espírito se encontram na primeira parte (cap. 1 a 9), com alguns desenvolvimentos interessantes em relação à epístola anterior.

    Porventura começamos outra vez a louvar-nos a nós mesmos? Ou necessitamos, como alguns, de cartas de recomendação para vós, ou de recomendação de vós? Vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens. Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo [αλλα πνευματι θεου ζωντος], não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração.E é por Cristo que temos tal confiança em Deus. Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus, o qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento [aliança/pacto], não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.
    II Cor 3:1-6

    Aqui Paulo alfineta os “superapóstolos” que apresentavam suas credenciais como sendo a pertinência a Cristo (10:7, 11:23), sua origem judaica (11:22) e, principalmente, seus feitos espirituais, que comprovariam sua autoridade (5:12-4, 11:4 e 12:11-3). Paulo de nada disso precisava, pois sua prova de autoridade seria a própria existência dos cristão de Corinto, comunidade por ele fundada com o intermédio do Espírito de Deus. Numa alusão ao recebimento do decálogo (tábuas de pedra), a “boa nova” superaria a antiga Lei por estar gravada no coração, o que desenvolve mais adiante:

    E, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, veio em glória, de maneira que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos na face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, a qual era transitória,
    Como não será de maior glória o ministério do Espírito? Porque, se o ministério da condenação foi glorioso, muito mais excederá em glória o ministério da justiça. Porque também o que foi glorificado nesta parte não foi glorificado, por causa desta excelente glória. Porque, se o que era transitório foi para glória, muito mais é em glória o que permanece. Tendo, pois, tal esperança, usamos de muita ousadia no falar. E não somos como Moisés, que punha um véu sobre a sua face, para que os filhos de Israel não olhassem firmemente para o fim daquilo que era transitório. Mas os seus sentidos foram endurecidos; porque até hoje o mesmo véu está por levantar na lição do velho testamento, o qual foi por Cristo abolido; e até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. Mas, quando se converterem ao Senhor, então o véu se tirará. Ora, o Senhor é o Espírito [ο δε κυριος το πνευμα εστιν]; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.
    II Co 3:7-18

    De certa forma, Paulo antecipa uma ideia que viria a desenvolver em outras epístolas: a transitividade da Lei Mosaica. Em alusão ao episódio descrito em Ex 34:28-35 – quando Moisés, após passar quarenta dias na presença de Deus e entalhando as tábuas, desceu do monte Sinai com o rosto radiante -, Paulo assevera que aquela glória era passageira: embora o motivo mais aparente e imediato de Moisés cobrir o rosto seria para não ofuscar os olhos de seu povo, Paulo interpreta que seria para que ninguém visse seu esplendor esvanecer, até que o reavivasse estando outra vez na presença de Deus. Analogamente, a validade da Lei seria passageira, ao contrário da perene do evangelho. E é justamente ao enaltecer esse novo tipo de glória que Paulo dá um passo ousado: equipara o Espírito a Deus. Ele faz algo similar ao que fez um anônimo judeu helênico com a Sabedoria Divina (Sb 8:22-35) ou que o Prólogo de João faria com o Verbo, estabelecendo que algo proveniente de Deus também seria divino, de algum modo. Não é a terceira Hipóstase Trinitária ainda, mas parte do fosso a separar uma substância especial do Divino foi tapado.

  • Gálatas: Algum tempo após a saída de Paulo dessa comunidade por ele criada, lá chegaram pregadores cristãos com uma mensagem da repassada pelo fundador. Segundo eles, para ser cristão era também preciso antes ser judeu, o implicava em adotar práticas como a circuncisão masculina. Isso despertou uma reação irada de Paulo que redigiu essa carta condenando veementemente a atuação desses mestres judaizantes entre os gentios. Por outro lado, no capítulo XVII de Gênesis, Javé estabeleceu a circuncisão como símbolo da aliança eterna entre Ele e Abraão e sua descendência. Se era “eterna” não deveria continuar a valer em sua época (e até o fim dos tempos)? Ciente desse embaraço, Paulo se justificou num dos versículos mais curtos e paradoxais da Bíblia: “Pois eu, mediante a lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus.” (Gl 2:19). Uma possibilidade para desmembrar esse raciocínio sintético seria que “pelo entendimento correto e pleno da lei, compreende-se sua falta de necessidade hoje em dia”. Na opinião de Paulo, simplesmente adotar a Lei seria algo problemático pois:

    Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las.
    Gl 3:10

    Adotar um ou outro mandamento da Lei implicaria na necessidade de praticar todos e um deslize deixaria o fiel em erro perante Deus, levando à necessidade de um reparo mediante um sacrifício no Templo. Mas daí vem outra pergunta: se a Lei era cruel assim, porque o bondoso Deus a teria dado ao homens, aos hebreus mais especificamente?

    Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos anjos na mão de um medianeiro. Ora, o medianeiro não o é de um só, mas Deus é um. Logo, a lei é contra as promessas de Deus? De nenhuma sorte; porque, se fosse dada uma lei que pudesse vivificar, a justiça, na verdade, teria sido pela lei. Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes.
    Gl 3:19-22

    A Lei seria algo provisório, digamos, para manter o povo “na linha”. O curioso é que dá a entender que um dos motivos de sua temporalidade seria o fato de ter sido transmitida por anjos (“medianeiros”), em vez de provir diretamente de Deus. Isso não está de acordo com o relato de Êxodo, nem com a tradição judaica posterior. Se Paulo falava de uma interpretação antiga e atualmente perdida ou de uma visão pessoal, está em aberto. De concreto, existe a postura de Paulo em encarar o judaísmo como uma crisálida de onde emergiria o cristianismo, mas que deveria ser descartada após cumprir seu papel.

    A justificação perante Deus não se daria pelas obras da Lei, mas por uma fé tal qual a de Abraão. No capítulo III, Paulo remete ao episódio relatado em Gn 22, quando Javé ordena a Abraão que sacrifique seu próprio filho Isaque em holocausto. Abraão cumpriria a ordem sem hesitar não fosse uma intervenção, no último instante, de um anjo, que trouxe a nova ordem para trocar o menino por um carneiro. Por ter passado com louvor nesse “teste de fidelidade”, declarou Deus a Abrão que “em tua descendência serão benditas todas as nações da terra” (Gn 22:18, cf. Gl 3:8). A fé em Jesus, com o mesmo grau de fervor que a de Abraão, livraria da maldição da Lei, pois a morte de Jesus na cruz foi o sacrifício último capaz de redimir qualquer infração (Gl 3:13, cf. Dt 21:22). Os que cressem nesse sacrifício fariam, pois, uma oferta análoga a de Abraão. Daí Paulo faz outra inovação teológica: a descendência seria determinada não mais pela consanguinidade, mas pela fé em Cristo. Os gentios e judeus que aceitassem a fé em Jesus seriam os legítimos herdeiros de Abraão, continuadores, de fato, da linhagem de Isaque (Gl 3:26-9). Por outro lado, os judeus que se ativessem à Lei seriam os continuadores de Ismael, o filho bastardo com a escrava Agar (cf. Gl 4), e seriam “lançados fora” (cf. Gn 21) porque “de modo algum o filho da escrava herdará com o filho da livre (Gl 4:30).”

    No tributo que a Nova Aliança em Jesus faz à antiga, o Espírito viria como prova de filiação adotiva, tal como Javé adotara os antigos hebreus:

    Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho [το πνευμα του υιου], que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo.

    Gl 4:5-7

    Se isolada, essa passagem pode dar a entender que não há uma identificação entre o “Espírito de seu Filho” e o “Espírito Santo”. Entretanto, no capítulo precedente:

    Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito [το πνευμα] pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito [πνευματι], acabeis agora pela carne? Será em vão que tenhais padecido tanto? Se é que isso também foi em vão. Aquele, pois, que vos dá o Espírito [το πνευμα], e que opera maravilhas entre vós, o faz pelas obras da lei, ou pela pregação da fé?
    Gl 3:2-5

    Que é o mesmo espírito carismático a conceder dons aos fiéis em outras cartas. Embora Paulo nunca descreva o batismo de Jesus, é provável que conhecesse a tradição da descida do Espírito Santo em Jesus e sua aclamação como Filho de Deus nesse episódio, dado que Lucas – que lhe é teologicamente afim – a preserva. Nesse caso, os crentes receberiam uma filiação de empréstimo do referido espírito. A associação entre o Espírito Santo e o Messias não era desconhecida no judaísmo (cf. Is 42:2), mas não fora antes usada como prova de filiação.

    Outra característica marcante do Espírito em Paulo é sua capacidade de também libertar da Lei por tornar desnecessário o temor às maldições para garantir a retidão dos crentes, pois lograria o mesmo de outro modo:

    Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor. Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros. Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne. Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que não façais o que quereis. Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais debaixo da lei. Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, fornicação, impureza, lascívia, Idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, Invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança.

    Gl 5:13-22

    Se no judaísmo espíritos divinos já eram capazes de auxiliar no cumprimento da antiga Lei (cf. Sl 51, Qumran), aos cristãos o Espírito tornava-se fundamental para o mandamento básico do amor. Daí vem a questão: um homem faz o bem porque tem fé ou tem fé porque faz o bem? No entender de Paulo, o poder do Espírito, auferido pela fé, é que reformaria o caráter. A prática do bem seria um desdobramento natural em demonstração disso. Isso não significa que Paulo desprezasse o exercício do amor fraterno (cf. I Co 13), mas o condicionava o estabelecimento de um relacionamento de fé com Deus antes de sua prática sincera.

    A primazia da fé para a salvação é recorrente em Paulo e as questões que ela suscita até hoje geram polêmicas entre católicos, protestantes e espíritas.

  • Filipenses: Carta escrita por Paulo, durante uma estadia numa prisão, à comunidade por ele fundada na cidade de Filipos (cf. Atos 16), na Macedônia. Assim como II Coríntios, Filipenses também possui questões quanto à unicidade de seu conteúdo, bem como ordenação interna. A hipótese mais simples sugere que ela seja composta de duas cartas: a primeira, em ordem cronológica começaria a partir do capítulo III e teria um tom de alerta contra outros professores de viés judaizante – como os encontrados em Gálatas – e pela paz interna da comunidade, a começar pelas crentes Evódia e Síntique (Fp 4:2); a segunda carta, compreendida nos dois capítulos iniciais, tem um tom mais amenos, com agradecimentos e incentivos.

    Relativamente curta, a carta recapitula alguns pontos do apocalipticismo paulino: embora derroca do Mal tenha começado com o sacrifício de Jesus, a vitória definitiva ainda estava por vir. Até lá, os cristão ainda estariam sujeitos à ação das malignas, sempre a tentar prejudicá-los e/ou desviá-los da fé. As próprias prisões sofridas por Paulo seriam evidências disso. Cabiam às comunidades cristãs perseverança e solidariedade ante as adversidades.

    Há apenas uma menção importante quanto ao papel do Espírito na carta:

    Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei ainda. Porque sei que disto me resultará salvação, pela vossa oração e pelo socorro do Espírito de Jesus Cristo,

    Fp 1:18,19

    Ao contrário de Gálatas, não há possibilidade, usando-se apenas o conteúdo da carta, de se relacionar o “Espírito de Jesus” com alguma outra entidade separada. Aparenta ser a certeza de uma presença simbólica de Jesus como instrumento a auxiliar no consolo e na perseverança.

    Por outro lado, Filipenses apresenta em seu texto dois hinos (ou um só em duas partes) provavelmente entoados nessa comunidade:

    Hino de Descida
    (Fp 2:6-9)
    Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus,
    Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;
    E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.
    Hino de Ascensão
    (Fp 2:9-11)
    Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome;
    Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra,
    E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

    Uma visão cristológica sofisticada, já em vias da divinização de Jesus. Seu Espírito e o de Deus, portanto, aproximavam-se em excelência.

  • Romanos: como única carta remanescente de Paulo direcionada a uma comunidade que não fora criada por ele, Romanos possui a característica ímpar de ser onde ele desenvolve em profundidade temas de sua mensagem que apenas comenta ou relembra a seus prosélitos nas demais, afinal teve de explicar tudo do zero a quem não conhecera pessoalmente. Por esse motivo, um nome mais adequado para esta carta seria “Evangelho segundo Paulo”, pois é aqui que descreve em pormenores sua fé e a “boa nova” que tinha a repassar. Em sua apresentação, Paulo expõe um pequeno catecismo cristão, testemunho de uma tradição que antecederia a própria redação do Novo Testamento:

    Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus, que ele antes havia prometido pelos seus profetas nas santas Escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, e que com poder foi declarado Filho de Deus segundo o espírito de santidade [κατα πνευμα αγιωσυνης], pela ressurreição dentre os mortos – Jesus Cristo nosso Senhor -, pelo qual recebemos a graça e o apostolado, por amor do seu nome, para a obediência da fé entre todos os gentios, entre os quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo; a todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados para serdes santos: Graça a vós, e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.

    Rm 1:1-7

    Nesse “cartão de visitas” em forma de credo condensado, Paulo usa um hebraísmo – “espírito de santidade” – em vez do simples adjetivo grego talvez por ser uma forma mais familiar aos fundadores daquela comunidade, além de reforçar sua apresentação como um cristão genuíno, não falso apóstolo a propagandear ideias alienígenas. Uma maneira de preparar terreno para expor sua própria visão a respeito da fé em Jesus: o papel central do martírio de Jesus e sua subsequente ressurreição na salvação da humanidade. Ou melhor, de todos aqueles que reconhecessem esse sacrifício e acreditassem em sua vitória sobre a morte.

    Há diferentes linhas de argumentação utilizadas por Paulo ao longo da carta. Uma das principais é o modelo judicial (cf. cap. 3 a 5): Deus seria uma espécie de legislador a regular como os humanos (judeus e gentios Rm 2:9-10) deveriam se portar. O problema é que ninguém, mas ninguém, consegue seguir suas leis, “porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23). Como Deus também é juiz (3:9), a humanidade toda está condenada. A solução, segundo esse argumento, estaria em outra pessoa cumprir a punição por nós, aí que entra o valor do sacrifício de Jesus na cruz (3:24) como forma de cumprimento alternativo da pena, cuja aprovação divina estaria no fato de ele ter sido ressuscitado em seguida (4:24-5). Aos humanos caberia aceitar de bom grado esse sacrifício ofertado em seu lugar (3:27-8). Ao fim desse argumento, Paulo menciona o Espírito Santo como uma expressão do amor de Deus sobre a humanidade:

    Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, e a paciência a experiência, e a experiência a esperança. E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus [η αγαπη του θεου] está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado [δια πνευματος αγιου του δοθεντος ημιν]. Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Porque apenas alguém morrerá por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém ouse morrer. Mas Deus prova o seu amor [αγαπην] para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida.

    Rm 5:1-10

    A expressão pneuma hagion aparece em uma construção genitiva com a preposição δια e sua particular articulação remete ao caso em que o artigo serve, também, de pronome relativo. Nesta passagem, o Espírito Santo serve de veículo para o amor Deus chegar aos justificados pela fé. Não é a atração sensual de eros, nem a amizade de philia, mas o amor puro e desinteressado de agape mencionado em I Cor 13. Para a teologia paulina o ser humano não tem fé porque faz o bem, e sim faz o bem porque tem fé, uma fé em Jesus que o reconcilia com Deus.

    Outro argumento importante utilizado por Paulo foi o modelo participacionista. Enquanto o modelo visto acima explica a salvação por meios de termos “jurídicos”, este explica a salvação por meio de uma espécie de união com Jesus Cristo, que livra a humanidade das forças malignas. Bem que forças seriam essas?

    Como apocalipcista, Paulo acreditava num tipo de “dualismo brando”, em que haviam forças antagônicas a Deus regiam a Terra momentaneamente, até que Deus resolvesse intervir. Duas dessas formas cósmicas são de particular relevância: o Pecado e a Morte. Nisso as coisas começam a soar um tanto estranhas ao leitor moderno, para o qual “pecado” é algo ruim que alguém faz e “morte” é o cessar das funções vitais. No entanto, no primeiro século, tanto o ato quanto o fato eram produtos de entidades autônomas, que a todos controlavam. Começando pelo Pecado:

    • O pecado está no mundo (5:13);
    • O pecado governa as pessoas (5:21, 6:12);
    • As pessoas podem servir ao pecado (6:6);
    • Elas podem ser escravizadas pelo pecado (6:17);
    • Elas podem morrer ao pecar (6:11);
    • Elas podem ser libertas do pecado (6:18).

    O pecado, para Paulo, não é meramente algo que as pessoas fazem, mas sim um poder que as compele à prática do mal. Associado a ele, está outro poder maligno: a morte (6:21-3), que definitivamente afasta alguém de Deus. Ao ressuscitar, Jesus teria quebrado o jugo da morte e, por conseguinte, dos poderes com ela associados (6:9-10). Por meio do batismo, tomaríamos parte dessa vitória sobre a morte e nos reconciliaríamos com Deus (6:3-4).

    Então, qual seria o papel da Lei Judaica durante todos esses séculos? Não seria ela um instrumento para a salvação? Retomando uma ideia já apresentada em Gálatas com o auxílio, novamente, um modo de raciocínio judicial, Paulo crê a Lei era boa ao definir o que é certo ou errado, porém gerava um problema: crimes só existem se são tipificados e era isso que a Lei fazia:

    Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim toda a concupiscência; porquanto sem a lei estava morto o pecado. E eu, nalgum tempo, vivia sem lei, mas, vindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri.

    Rm 7:7-9

    Ou seja, a Lei conduziria à danação ao invés da salvação. Como a Lei só possuía vigência enquanto se estivesse vivo (Rm 7:1) era preciso morrer para Lei e renascer para outra coisa. Se carne, a parte do ser humano sujeita a pecado morrer em Cristo, a pessoa não estará mais sujeita aos desejos deles e a violar a Lei. Na oposição à carne, o Espírito teria um papel fundamental:

    Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte. Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne; para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito. Porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz. Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele. E, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça. E, se o Espírito [το πνευμα] daquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo também vivificará os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita.

    Rm 8:1-11

    Principalmente ao fim dessa passagem, o “Espírito de Deus”, o “Espírito de Cristo” e “Cristo” são utilizados de forma intercambiável (o que não significa, exatamente, “identidade”). A humanidade, segundo Paulo, é salva por Cristo e em Cristo, sendo impossível não o ser caso não seja também pelo Espírito e no Espírito de Deus. Dado que “Deus” e “Jesus” receberam os primeiros nomina sacra é provável que a associação teológica entre os dois com o “Espírito” levou a criação de um nominum sacrum para ele, também. Afinal, passara a ter atributos sagrados, tidos como dignos de adoração, como o de ser o doador da vida, o agente principal da ressurreição dos mortos.

    Ambas ideias remetem a II Cor 3:1-18, quando os conceitos de “Espírito” e “Deus” se misturam e o primeiro é apresentado como “vivificador”. Nos versículos seguinte, Paulo nos apresenta mais uma ideia presente em outra carta:

    De maneira que, irmãos, somos devedores, não à carne para viver segundo a carne. Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis. Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus esses são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados.

    Rm 8:12-17

    Paulo expõe uma versão embrionária da doutrina dos “Dois Caminhos” ao opor carne e espírito, morte e vida; estando o caminho correto balizado pela capacidade do Espírito de conceder um status de filiação com Deus, tal como defendera em Gl 4:5-7. É uma filiação “adotiva”, no sentido de que originalmente não seríamos filhos de Deus (apenas suas criaturas), mas auferiríamos essa condição por intermédio do Espírito, que preveniria uma vida sem a Lei da queda na iniquidade (cf. I Co 2:4-16). É bom ressaltar que, embora o a salvação tenha se iniciado com a ressurreição, de forma alguma seu processo está concluído: asperezas nesta vida ainda são esperadas antes do Fim dos Tempos, mas os “filhos de Deus” já não estariam mais sozinhos:

    Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada. Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora. E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo. Porque em esperança fomos salvos. Ora a esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê como o esperará? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o esperamos. E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos.

    Rm 8:18-27

    Paulo faz novo uso do modo participativo ao declarar que alguma força externa à humanidade que a sujeitou “à vaidade” e outra força maior ainda a libertaria dessa escravidão. Acontece que tal processo ainda estaria inconcluso e o tempo das “primícias do Espírito” (i.e., o da ressurreição de Jesus), ainda seria de dores. Aí que entra uma impressionante inovação: o Espírito a interceder diretamente pela humanidade. No Antigo Testamento, o Rouach divino não tinha esse atributo personificado, sendo antes um instrumento que um agente autônomo. Tal tarefa cabia aos profetas, como Moisés ao afastar a iminente ira de Javé sobre os hebreus, após o episódio do bezerro de ouro (Ex 32:7-14, antropomorfismos à parte). Outros exemplos desse caso estão em Am 7:2, Jr 15:1, 18:20, etc. Já nos últimos livros da literatura bíblica, anjos começam a assumir esse papel, quer levando as orações dos fiéis a Deus (Tb 12:12), quer intercedendo eles mesmos (Zc 1:12). Agora, em Romanos, Paulo dá a responsabilidade de interceder e consolar ao Espírito, dando-lhe, assim, atributos pessoais. Isso não chega a ser exatamente uma surpresa, visto que se forças malignas – como o pecado e morte – são personificadas em Romanos, por que as benévolas não o poderiam, também? Vale assinalar que Jesus também aparece com a função de intercessor em Rm 8:34, o que poderia ser um reflexo da similitude entre os dois em 8:10-1, contudo há uma importante diferença: enquanto Jesus já “está à direita de Deus“, o outro intercessor atua na Terra. Assim, o Espírito Santo paulino se tornou uma espécie de prévia do Paracleto de João.

    Outra forma de atuação do Espírito junto ao homens se encontra na concessão dos chamados dons, que são relatados mais para a parte final da carta:

    Porque assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma operação, assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros. De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino; ou o que exorta, use esse dom em exortar; o que reparte, faça-o com liberalidade; o que preside, com cuidado; o que exercita misericórdia, com alegria. O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem.

    Rm 12:4-9

    Embora nenhuma menção explícita seja feita ao Espírito Santo aqui, sabe-se da importância que Paulo dava a ele em I Cor 12, para a concessão dos referidos dons. Por fim:

    Ora o Deus de esperança vos encha de todo o gozo e paz em crença, para que abundeis em esperança pela virtude do Espírito Santo [εν δυναμει πνευματος αγιου].

    Rm 15:13

    Que seja ministro de Jesus Cristo para os gentios, ministrando o evangelho de Deus, para que seja agradável a oferta dos gentios, santificada pelo Espírito Santo [εν πνευματι αγιω].

    v. 16

    Pelo poder dos sinais e prodígios, e pela virtude do Espírito [εν δυναμει πνευματος] de Deus; de maneira que desde Jerusalém, e arredores, até ao Ilírico, tenho pregado o evangelho de Jesus Cristo.

    v. 19

    E rogo-vos, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo [δια του κυριου ημων ιησου χριστου] e pelo amor do Espírito [και δια της αγαπης του πνευματος], que combatais comigo nas vossas orações por mim a Deus;

    v.30

    No penúltimo capítulo da carta (e último com algum conteúdo doutrinário), o Espírito aparece como um agente do tempo corrente (o ministério dos gentios) e do que está ainda por vir (daí a “esperança”), enquanto Jesus Cristo foi o principal personagem do ministério da circuncisão (v.8). Por fim, um apelo a ambos é feito, indicando que possuem importância similar, ainda que atuem em domínios diferentes.

* * *

Com Carta aos Romanos, chegamos à síntese da mensagem de Paulo, quando a “fé de Jesus” passa a se ladeada pela “fé em Cristo”. O abandono da Lei para a salvação foi, sem dúvida, um passo decisivo na separação entre judaísmo e cristianismo, mantendo o último as profecias apocalípticas do primeior. Curiosamente, Paulo é o grande ausente no Evangelho segundo o Espiritismo. Salvo a transcrição de “O Hino à Caridade” de I Coríntios 13 (cap XV do ESE) e mais alguns versículos do capítulo seguinte dessa carta – o que não permite de forma algum um panorama geral da mensagem de Paulo – nada mais é relacionado desse apóstolo. Em vez disso, centrou-se no lema “Fora da caridade não há salvação“, que retoma a moral dos sinópticos, mas rejeita a parte profética deles e a de Paulo (o fim dos tempos, a ressurreição da carne e a parúsia) para criar a sua própria (a Terceira Revelação). A consumação desse processo se deu com Léon Denis:

Com o seu sacrifício, dizem outros teólogos, Jesus “venceu o pecado e a morte, porque a morte é o salário do pecado e uma tremenda desordem na Criação(72) .

Entretanto, morre-se depois da vinda de Jesus, como antes dele se morria. A morte, considerada por certos
cristãos como consequência do pecado e punição do ser, é, todavia, uma lei natural e uma transformação necessária ao progresso e elevação da alma. Não pode ser elemento de desordem no Universo. Julgá-la por esse modo, não é insurgir-se contra a divina sabedoria?

É assim que, partindo de um ponto de vista errôneo, os homens da Igreja chegam às mais estranhas concepções. Quando afirmam que, por sua morte, Jesus se ofereceu a Deus em holocausto, para o resgate da Humanidade, não equivale isso a dizer, na opinião dos que creem na divindade do Cristo, que se ofereceu a si mesmo? E do que terá ele resgatado os homens? Não é das penas do inferno, pois que todos os dias nos repetem que os indivíduos que morrem em estado de pecado mortal são condenados às penas eternas.

A palavra pecado não exprime, em si mesma, senão uma ideia confusa. A violação da lei acarreta a cada ser um amesquinhamento moral, uma reação da consciência, que é uma causa de sofrimento íntimo e uma diminuição das percepções animais. Assim, o ser pune-se a si mesmo. Deus não intervém, porque Deus é infinito; nenhum ser seria capaz de lhe produzir o menor mal.

Se o sacrifício de Jesus resgatou os homens do pecado, porque, então, ainda os batizam? Essa redenção, em todo caso, não se pode estender senão unicamente aos cristãos, aos que têm conhecido e aceitado a doutrina do Nazareno. Teria ela, pois, excluído da sua esfera de ação a maior parte da Humanidade? Existem ainda hoje na Terra milhares, milhões de homens que vivem fora das igrejas cristãs, na ignorância das suas leis, privados desse ensino, sem cuja observância, dizem, “não há salvação”. Que pensar de opiniões tão opostas aos verdadeiros princípios de amor e justiça que regem os mundos?

Não, a missão do Cristo não era resgatar com o seu sangue os crimes da Humanidade. O sangue, mesmo de um Deus, não seria capaz de resgatar ninguém. Cada qual deve resgatar-se a si mesmo, resgatar-se da ignorância e do mal. Nada de exterior a nós poderia fazê-lo.
É o que os Espíritos, aos milhares, afirmam em todos os pontos do mundo. Das esferas de luz, onde tudo é serenidade e paz, desceu o Cristo às nossas obscuras e tormentosas regiões, para mostrar-nos o caminho que conduz a Deus: tal o seu sacrifício. A efusão de amor em que envolve os homens, sua identificação com eles, nas alegrias como nos sofrimentos, constituem a redenção que nos oferece e que somos livres de aceitar. Outros, antes dele, haviam induzido os povos ao caminho do bem e da verdade. Nenhum o fizera com a singular doçura, com a ternura penetrante que caracteriza o ensino de Jesus. Nenhum soube, como ele, ensinar a amar as virtudes modestas e escondidas. Nisso reside o poder, a grandeza moral do Evangelho, o elemento vital do Cristianismo, que sucumbe ao peso dos estranhos
dogmas de que o cumularam.

(72) De Pressensé, “Jesus Cristo, seu tempo, sua vida, sua obra”, pág. 654. Encontra-se essa opinião em muitos autores católicos.

Denis, Leon; Cristianismo e espiritismo, cap. VII

Não faço juízo juízo de valor quanto às palavras do “apóstolo do Espiritismo”, apenas constato, por sua rejeição explícita do cerne da mensagem paulina, que seu ministério foi um divisor de águas, marcando a separação definitiva entre o Espiritismo e a ortodoxia cristã.

Excetuando Filemom – que nada traz sobre o assunto – aqui se encerra a análise do papel do Espírito Santo nas cartas tidas por unanimidade como de autoria de Paulo. Nelas podemos constatar a passagem de uma “baixa pneumatologia” – com o Espírito Santo mais como uma ferramenta do poder divino – para uma “média/alta”, quando ele assume características pessoais e uma importância próxima a de Jesus. As peças seguintes da literatura cristã primitiva a serem redigidas, trariam o enfoque tanto de seus seguidores, como de seus rivais.

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A Disparidade Sinóptica

Vitral com os evangelistas dos sinópticos

Pela hipótese da origem quádrupla dos sinópticos, Marcos forneceu o fio narrativo para Mateus e Lucas. Estes, independentemente, acrescentaram ditos da Fonte Q e algum material próprio de cada um. Assim, o cerne do entendimento dos sinópticos quanto ao papel do Espírito Santo parte de Marcos e termina na forma como Luca e Mateus – a cada um a sua maneira – alteraram a visão inicial.

  • Marcos: o poder do Espírito: a primeira menção ao Espírito Santo ocorre logo na abertura deste evangelho, durante a pregação de João Batista:

    E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas alparcas. Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.

    Mc 1:7,8

    À primeira vista, esse texto viria a ser copiado nos outros dois sinópticos, conforme a hipótese da origem quádrupla, contudo podemos estar diante de um caso de múltipla atestação de Marcos e Q. Repare a diferença:

    (…) ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo (Mc 1:8)

    (…) ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo. (Mt 3:11/Lc 3:16)

    É possível que os redatores de Lucas e Mateus tenham se deparado com a seguinte leitura em Q: “ele vos batizará com fogo” e daí feito independentemente uma harmonização com Marcos gerando um versículo híbrido em seus respectivos evangelhos (cf. [Tatum, cap. XIII, pp. 128-31]).

(Em construção)
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Onde o Espírito fez a Curva

Árvore curvada

Será analisado, agora, um artigo de José Reis Chaves publica no jornal O Tempo (MG, 24/03/14). O tema é recorrente em sua coluna semanal e os equívocos neles contidos se repetem em outros artigos (cf.colunas de 10/11/14 e 14/12/15). Nada contra a pessoa desse autor, apenas um alerta aos incautos que um tema tão complexo não pode ser tratado de forma tão superficial. Eis o artigo:

Ainda falando do Espírito Santo verdadeiro conforme a Bíblia

Os dogmas cristãos, que respeito, são doutrinas polêmicas justamente porque não têm fundamento bíblico. E o trinitário é um dos mais complicados. Ele foi criado a partir do Concílio Ecumênico de Niceia (325), quando os teólogos divinizaram Jesus. Daí que eles mesmos acrescentaram-lhe que se trata de um mistério de Deus. Mas, na verdade, esse mistério é dos teólogos, e não de Deus!

E os dogmas mais antigos foram introduzidos no Credo (profissão de fé) denominado Símbolo da Fé Cristã niceno-constantinopolitano. É niceno porque tem sua origem no citado concílio de Niceia (325), e constantinopolitano porque ele teve continuação no de Constantinopla (381).

E eis, na Bíblia, os vários significados do Espírito Santo. O espírito de Moisés é um Espírito Santo.

Eles (o povo) contristaram o Espírito Santo de Moisés. “Onde está o que pôs nele seu Espírito Santo?” (Isaías 63: 10 e 11). Nela, realmente, nós somos o Espírito Santo. E mesmo quando ele aparece com o artigo definido “o”, individualizando o espírito, ele é humano. O espírito de Daniel é um Espírito Santo (Daniel 13: 45, da Bíblia Católica). Mas, nos originais bíblicos, o Espírito Santo aparece mesmo é com o artigo indefinido “um” designando um espírito humano. Nosso corpo é santuário do Espírito Santo. (Nos originais, não se diz “do”, mas “dum” Espírito Santo) (1 Coríntios 6: 19). Como se vê, nós somos, de fato, o Espírito Santo. Também Jesus, um espírito humano, é um Espírito Santo (Atos 20: 28). O Consolador, o Espírito de Verdade, o Paracleto prometido por Jesus são também o Espírito Santo. Nos meios cristãos, ele é tido também como sendo o próprio Deus. Mas os teólogos sempre ensinaram erroneamente que o Espírito Santo é só aquele da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. E, por isso, adaptaram os textos bíblicos a esse dogma.

Eu estou com os originais bíblicos e o espiritismo, que nos ensinam que “o Espírito Santo”, na verdade, é “um espírito santo”. E, também, com a Vulgata Latina de são Jerônimo, em que se lê “espírito bom” (“spiritus bônus”), e não o Espírito Santo. Os teólogos trocaram o adjetivo “bom” pelo “Santo”, e com a inicial maiúscula, para se entender que é o trinitário.

Para esclarecimento melhor desse assunto, examinemos outros exemplos bíblicos: “Irmãos, não deem crédito a qualquer espírito, antes, provai os espíritos se procedem de Deus, pois muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora” (1 João 4: 1). Realmente, se fosse o Espírito Santo trinitário que se manifestasse, não haveria sentido nenhum para esse ensino do evangelista João.

E atentemos para o fato de que as profecias são feitas por espíritos através dos profetas (hoje chamados de médiuns). Veja-se também que Heldade e Medade recebiam espíritos e profetizavam (Números 11: 24 a 30). “Para que o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda um espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele” (Efésios 1: 17).
Teólogos e autoridades religiosas cristãs, o povo do século XXI já não é mais tão simples.

Reformem, pois, enquanto é tempo, as doutrinas cristãs, responsáveis pela crise de pouca fé da maioria dos cristãos e de muita expansão do materialismo!
Com Celina Sobral e este colunista, o “Presença Espírita na Bíblia”, na TV Mundo Maior, por parabólica e internet, nas quintas-feiras, às 20h, e outros horários (grade da programação). Perguntas e sugestões: presenca@tvmundo maior.com.br.

Agora, algumas observações

Os dogmas cristãos, que respeito, são doutrinas polêmicas justamente porque não têm fundamento bíblico. E o trinitário é um dos mais complicados. Ele foi criado a partir do Concílio Ecumênico de Niceia (325), quando os teólogos divinizaram Jesus. Daí que eles mesmos acrescentaram-lhe que se trata de um mistério de Deus. Mas, na verdade, esse mistério é dos teólogos, e não de Deus!

Jesus não foi divinizado em Niceia, porque ela já havia sido divinizado muito antes! Pelo menos desde o Evangelho de João, com seu Verbo encarnado e o “Eu sou” (Jo 8:58), Jesus já era divino de alguma forma. O que Niceia discutiu era de que jeito era a divindade de Jesus. Mesmo a facção derrotada nesse concílio – os arianos – davam a Jesus status similar ao Pai e, embora não fosse coeterno com Ele, sua origem antecedia a criação. De maneira alguma o Cristo ariano se enquadraria na ideia de “espírito altamente evoluído” do kardecismo.

E os dogmas mais antigos foram introduzidos no Credo (profissão de fé) denominado Símbolo da Fé Cristã niceno-constantinopolitano. É niceno porque tem sua origem no citado concílio de Niceia (325), e constantinopolitano porque ele teve continuação no de Constantinopla (381).

Tanto o Verbo enunciado no prólogo de João, quanto a Sabedoria cantada por Salomão provinham de Deus, partilhando, assim, de sua divindade de algum modo. O mesmo se deu com o Espírito Santo, o que o diferenciava dos demais espíritos. Ao longo de três século houve um processo de personificação e, depois, de equiparação entre ele, o Pai e Jesus. Vale, então, a mesma observação feita antes: os concílios não inventaram a Trindade, apenas deram chancela oficial a ideias que já existiam antes no cristianismo ortodoxo.

E eis, na Bíblia, os vários significados do Espírito Santo. O espírito de Moisés é um Espírito Santo.

Eles (o povo) contristaram o Espírito Santo de Moisés. “Onde está o que pôs nele seu Espírito Santo?” (Isaías 63: 10 e 11). Nela, realmente, nós somos o Espírito Santo.

Lendo os versículos no contexto (versão católica):

Mas revoltaram-se, ofenderam seu santo espírito, desde então tornou-se inimigo deles, e lhes fez guerra. Então se lembraram dos dias de outrora, de Moisés, seu servo.
Onde está aquele que tirou dos céus o pastor de seu rebanho? Onde está aquele que pôs nele seu santo espírito?
Aquele que à direita de Moisés atuou com o seu braço glorioso, e dividiu as águas diante dos seus para assegurar-se um renome eterno;
Is 63:10-12

“Aquele”, no caso, se refere ao próprio Deus, cujo o espírito santo foi ofendido pelos ímpios, o mesmo espírito que, anteriormente, fora posto em Moisés. Aqui não há o benefício da ambiguidade que aparece no exemplo seguinte:

E mesmo quando ele aparece com o artigo definido “o”, individualizando o espírito, ele é humano. O espírito de Daniel é um Espírito Santo (Daniel 13: 45, da Bíblia Católica).

Vejamos o que diz esse versículo: “ao ser [Susana] conduzida para a morte, o Senhor despertou o espírito santo de um jovem de nome Daniel”. “História de Susana” é encontrada apenas na Septuaginta, e a alusão ao “espírito santo de Daniel”, mais especificamente na versão de Teodócio. A história descreve a chantagem sofrida pela jovem e casada Susana feita por dois anciãos que a viram se banhar no jardim. Como se recusou a ceder, foi por eles falsamente acusada de adultério e condenada à morte. No último instante, Deus agiu sobre Daniel, fazendo-o intervir para que os anciãos fossem interrogados em separado, foi quando se contradisseram nos pormenores. Após esse resumo, fica questão: o que foi despertado em Daniel foi o espírito santo dele mesmo ou o que estava nele (proveniente de Deus)? As duas leituras são possíveis. Ambrósio, bispo de Milão e contemporâneo de Jerônimo e Agostinho, optou pelo segunda alternativa:

Também Daniel, a menos que tivesse recebido o Espírito de Deus, nunca teria sido capaz de descobrir aquele adultério luxurioso, aquela mentira fraudulenta. Pois quando Susana, atingida pela conspiração dos anciãos, viu que a mente do povo estava conduzida pela consideração aos idosos, e destituída de toda ajuda, sozinha entre os homens, consciente de sua castidade ela orou a Deus para julgar; está escrito:”O Senhor ouviu a voz dela, quando era conduzida para a morte, e o o Senhor despertou o espírito santo de um jovem, cujo nome era Daniel”. E então, conforme a graça do Espírito Santo recebido por ele, descobriu a inconsistente evidência dos pérfidos, pois não foi por outra coisa senão a agência do poder divino que sua voz faria com que eles, cujos sentimentos íntimos eram ocultos, fossem conhecidos.

Ambrósio, Sobre o Espírito Santo, livro III, cap. VI

Que não se desconsidere essa possibilidade, também. Prosseguindo

Mas, nos originais bíblicos, o Espírito Santo aparece mesmo é com o artigo indefinido “um” designando um espírito humano.

É uma afirmação praticamente tautológica: com ou sem artigo definido, “Espírito Santo” sempre será um espírito qualquer, pois seria um circunlóquio para os seguidores de Deus e do Bem. Tal entendimento não contempla os casos em que a expressão parece designar uma pessoa (uma personificação do espírito divino) que não é nenhum dos presentes ou uma substância (o espírito divino sem personificação). O caráter substancial parece estar ausente da lógica do autor porque ele passa o entendimento equivocado que deve sempre haver um artigo (definido ou não), esquecendo a possibilidade de “Espírito Santo” ser anartro tanto em grego como em português.

O pior são os exemplos dados:

Nosso corpo é santuário do Espírito Santo. (Nos originais, não se diz “do”, mas “dum” Espírito Santo) (1 Coríntios 6: 19). Como se vê, nós somos, de fato, o Espírito Santo.

Então, vejamos o original:

η ουκ οιδατε οτι το σωμα υμων ναος του εν υμιν αγιου πνευματος εστιν

O expressão “Espírito Santo” aparece articular na primeira forma atributiva, com o artigo concordando em gênero, número e caso. O que pode causar certa estranheza ao leitor de língua portuguesa é que entre os dois aparece εν υμιν (“em vós”), mas se deve lembrar que o grego, como língua sintética, não precisa seguir uma ordem fixa para os termos de uma oração.

Também Jesus, um espírito humano, é um Espírito Santo (Atos 20: 28).

Em At 20:28, “Espírito Santo” aparece articular e, sem ser um uso anafórico do artigo, representa uma personificação. Logo, não é uma substância ou poder, nem um espírito genérico. Contudo, a leitura desse único versículo isoladamente pode dar a sensação de identidade entre Jesus e o Espírito Santo, porém isso não passa de observar a árvore e ignorar a floresta

E agora, eis que, ligado eu pelo espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que lá me há de acontecer, senão o que o Espírito Santo [το πνευμα το αγιον] de cidade em cidade me revela, dizendo que me esperam prisões e tribulações. Mas de nada faço questão, nem tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus.
(…)
Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo [το πνευμα το αγιον] vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue.
At 20:22-4,28

Pela história de Atos, Saulo – um fariseu perseguidor de cristãos – teve uma visão de Jesus durante seu trajeto para Damasco, e a partir daí mudou seu nome para Paulo, um incansável missionário cristão. Nesse mesmo livro, são várias as manifestações do Espírito Santo, seja com os cristãos que conheceram Jesus em vida (At 2:4-8) ou com prosélitos posteriores (At 19:1-7) e nenhuma delas é equiparada a uma manifestação de Jesus (que também apareceu a Ananias). Pelo contrário, o autor de Atos também deixa claro que Jesus e o Espírito Santo são distintos:

E Ananias foi, e entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou, para que tornes a ver e sejas cheio do Espírito Santo [πνευματος αγιου].
At 9:17

Estando “Espírito Santo” com a forma anartra, pois é tratado como um espécie de substância ou poder a ser infundido. No caso de At 20:28, o Espírito Santo foi investido aos anciãos supervisores (bispos) da Igreja de Éfeso, parte de uma comunidade mais ampla e auferida pelo sacrifício do sangue de Jesus. Ou teria sido pelo de Deus? De fato, há mais de uma ambiguidade nesse versículo.

O Consolador, o Espírito de Verdade, o Paracleto prometido por Jesus são também o Espírito Santo.

Essa é uma alusão à fala de Jesus em seu (primeiro) discurso de despedida (Jo 14:26). Como há até hoje uma grande dúvida no movimento se Jesus é ou não o Espírito de Verdade, isso pode ter reforçado a confusão feita em At 20:28.

Nos meios cristãos, ele é tido também como sendo o próprio Deus. Mas os teólogos sempre ensinaram erroneamente que o Espírito Santo é só aquele da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. E, por isso, adaptaram os textos bíblicos a esse dogma.

Meia-Verdade. Desde o século I, pelo menos, já havia a noção de o Espírito Santo possuir origem divina e partilhar de sua divindade, de algum modo. A plena equiparação do Espírito Santo ao Pai (e ao Filho) é que foi mais tardia. Houve falsificações trinitárias, sim, como o Parêntese Joanino, mas essa ideia de um Espírito Santo divino já existia antes de Niceia.

Eu estou com os originais bíblicos e o espiritismo, que nos ensinam que “o Espírito Santo”, na verdade, é “um espírito santo”.

Não sei quais os “originais” em questão que foram lidos. Existem edições críticas do Novo Testamento disponíveis ao público como o Nestle-Aland Novum Testamentum Graece e outras mais simples. Nenhuma delas sustenta “um espírito santo” para At 20:28 ou I Cor 6:19. Se o original é o Sabedoria do Evangelho de Pastorino, então fez-se uma leitura muito sui generis desse tradutor espírita, pois ele, como vimos, enumera onde “o Espírito Santo” aparece nos evangelhos.

E, também, com a Vulgata Latina de são Jerônimo, em que se lê “espírito bom” (“spiritus bônus”), e não o Espírito Santo.

Essa besteira, em particular, vem desde os tempos de Léon Denis, repassada por gerações de espíritas. Eis sua versão original:

Essa palavra pneuma, traduziu-a S. Jerônimo como spiritus, reconhecendo, com os evangelistas, que há bons e maus Espíritos. A ideia de divinizar o Espírito não surgiu senão no século II. Foi somente depois da Vulgata que a palavra sanctus foi constantemente ligada à palavra spiritus, não conseguindo essa junção, na maioria dos casos, senão tornar o sentido mais obscuro e mesmo, às vezes, ininteligível. Os tradutores franceses dos livros canônicos foram ainda mais longe a esse respeito e contribuíram para desnaturar o sentido primitivo. Eis aqui um exemplo, entre outros muitos: lê-se em Lucas (cap. XI, texto grego)

10 – “Aquele que pede, recebe; o que procura acha; ao que bate se abrirá.” – 13. “Portanto, se bem que sejais maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, com muito mais forte razão vosso Pai enviará do céu “um bom espírito” àqueles que lho pedirem.”

As traduções francesas trazem o Espírito Santo. É um contra-senso. Na Vulgata, tradução latina do grego, está escrito Spiritum bonum, palavra por palavra, espírito bom. A Vulgata não fala absolutamente do Espírito Santo. O primitivo texto grego ainda é mais frisante, e nem douto modo poderia ser, pois que o Espírito Santo, como terceira pessoa da Trindade, não foi imaginado senão no fim do século II.

Léon Denis, Cristianismo e Espiritismo, Notas Complementares, nota n. 6

Agora, os fatos: Jerônimo sistematicamente usa Spiritus Sanctus ao longo de sua Vulgata. Em um versículo, ele utiliza Spiritus Bonus (Lc 11:13). Na maioria dos códices e papiros gregos – p75, Alexandrino, Sinaítico, Beza, etc. -, encontra-se a leitura “Espírito Santo”. Em alguns – P45 e códice Regius (L), por exemplo -, lê-se αγαθον (“bom”) nesse versículo e deve ter vindo daí a tradução de Jerônimo. Uma tradução francesa feita dos manuscritos gregos corretos nesse versículo explicaria a discrepância apontada pelo “apóstolo do espiritismo”. Até o infame Textus Receptus de Erasmo acerta nessa leitura.

Os teólogos trocaram o adjetivo “bom” pelo “Santo”, e com a inicial maiúscula, para se entender que é o trinitário.

Como visto logo acima, não há fundamento algum para essa teoria conspiratória da troca de “bom” por “santo”. É surpreendente que ela tenha durado tanto, quando ela poderia ser facilmente rechaçada por uma simples leitura da Vulgata, principalmente por aqueles que foram seminaristas. Quanto ao uso de maiúsculas, eles são apenas uma transposição para a grafia moderna dos antigos Nomina Sacra, que são anteriores aos Concílios.

Para esclarecimento melhor desse assunto, examinemos outros exemplos bíblicos: “Irmãos, não deem crédito a qualquer espírito, antes, provai os espíritos se procedem de Deus, pois muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora” (1 João 4: 1). Realmente, se fosse o Espírito Santo trinitário que se manifestasse, não haveria sentido nenhum para esse ensino do evangelista João.

Também consta na Escritura que um dos dons do Espírito Santo é o de discernir espíritos (cf. I Cor 12:10)! É perfeitamente possível, portanto, a existência de vários espíritos e apenas um deles ser o “Espírito Santo”, afinal “espírito” pode ter conotações diferentes para cada caso. Em vez de ficar no achismo de teologias modernas, vejamos o que documentos antigos falavam sobre o tema em pormenores:

“Agora escute”, disse ele, “sobre a fé. Existem dois mensageiros com o homem, o da justiça e o da maldade”.

“Então”, disse eu, “como posso reconhecer seus trabalhos, sendo que os dois anjos vivem comigo?”

“Escute”, disse ele, “e os entenda. O mensageiro da justiça é sensível, modesto, gentil e tranquilo. Quando este entrar em teu coração, ele imediatamente fala contigo sobre a justiça, a pureza, a santidade, sobre o contentamento, sobre cada ato justo e sobre cada virtude gloriosa. quando tudo isso entrar em teu coração, saberás que o mensageiro da justiça está contigo. Estes, então, são os trabalhos do anjo da justiça. Portanto, confie nele e em seus trabalhos. Agora observe os trabalhos do anjo da maldade. Primeiro de tudo, ele é irritado, maligno e frenético, e seus trabalhos são o mal, despedaçando os servidores de Deus. assim, quando este entrar em teu coração, o reconheça pelos seus trabalhos.”

“Mas Senhor”, disse eu, “eu não sei como reconhecê-lo”.

“Escute”, respondeu, “quando alguma explosão de algum nervosismo temperamental tomar posse de ti, reconheça que ele se encontra em ti. Então vêm o desejo do trabalho excessivo, bebidas e comidas extravagantes, muita bebedeira, e vários tipos de luxúrias desnecessárias, o desejo de mulheres, a ganância, a arrogâncias e a pretensiosidade, o que quer que lembre ou se assimile a estas coisas. Assim, quando estas coisas entrarem em teu coração, saberás que o anjo da maldade estará contigo. Reconhecendo, portanto, seus trabalhos, evite-o e não confie nele em nenhuma circunstância, pois seus trabalhos são malignos e prejudiciais aos servidores de Deus. Agora tens, então, o funcionamento dos dois mensageiros; entenda-os e confie no anjo da justiça. mas mantenha-se longe do anjo da iniquidade, porque seu ensinamento é o mal em todas perspectivas. Pois mesmo se houver uma pessoa de fé, e um pensamento deste anjo penetrar em seu coração, é inevitável que aquele homem ou mulher cometerá algum pecado. Todavia, temos uma pessoa extremamente pecadora, homem ou mulher, será necessário que este faça algo bom. Vês assim que é bom seguir o anjo da justiça e evitar o anjo da maldade. Este mandamento explica coisas sobre a fé para que possas confiar nos trabalhos do mensageiro da justiça, e para que, fazendo estes trabalhos, possas viver para Deus. Mas acredite que os trabalhos do mensageiro do mal são perigosos, para que não os fazendo, possas viver para Deus.”

Hermas, Carta do Pastor, VI Mandamento

A Carta (ou Evangelho) do Pastor foi escrita por volta de meados do II século e traz em seus primeiros capítulos a questão dos “Dois Caminhos” (cf. Mt 7:13,14 e Lc 12:23-5), um tema recorrente em obras do período, como a Didaqué e Epístola de Barnabé. No caso, explana como a influência angélica ou demoníaca poderia desviar os cristãos da retidão. Vale lembrar que essa obra trata o Espírito Santo como algo distinto desses dois tipos de seres espirituais, afinal ele era pré-existente e gerara “toda a criação” ([Hermas, Quinta Parábola]). A identificação dessas influências era crucial para o autor de I João, pois, conforme o conteúdo da epístola dá a entender, sua comunidade enfrentava um cisma, com alguns de seus membros a abandonando após adotarem uma espécie visão docetista quanto à natureza de Jesus.

E atentemos para o fato de que as profecias são feitas por espíritos através dos profetas (hoje chamados de médiuns). Veja-se também que Heldade e Medade recebiam espíritos e profetizavam (Números 11: 24 a 30). “Para que o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda um espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele” (Efésios 1: 17).
Teólogos e autoridades religiosas cristãs, o povo do século XXI já não é mais tão simples

Vejamos o que realmente o livro de Números tem a dizer :

E disse o Senhor a Moisés: Ajunta-me setenta homens dos anciãos de Israel, que sabes serem anciãos do povo e seus oficiais; e os trarás perante a tenda da congregação, e ali estejam contigo. Então eu descerei e ali falarei contigo, e tirarei do espírito que está sobre ti, e o porei sobre eles; e contigo levarão a carga do povo, para que tu não a leves sozinho.

(…)

E saiu Moisés, e falou as palavras do Senhor ao povo, e ajuntou setenta homens dos anciãos do povo e os pôs ao redor da tenda.
Então o Senhor desceu na nuvem, e lhe falou; e, tirando do espírito, que estava sobre ele, o pôs sobre aqueles setenta anciãos; e aconteceu que, quando o espírito repousou sobre eles, profetizaram; mas depois nunca mais.

Porém no arraial ficaram dois homens; o nome de um era Eldade, e do outro Medade; e repousou sobre eles o espírito (porquanto estavam entre os inscritos, ainda que não saíram à tenda), e profetizavam no arraial.
Então correu um moço e anunciou a Moisés e disse: Eldade e Medade profetizam no arraial.
E Josué, filho de Num, servidor de Moisés, um dos seus jovens escolhidos, respondeu e disse: Moisés, meu senhor, proíbe-lho.
Porém, Moisés lhe disse: Tens tu ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do Senhor fosse profeta, e que o Senhor pusesse o seu espírito sobre ele!

Nm 11:16-7, 24-9

Assim está escrito: “e tirarei do espírito que está sobre ti, e o porei sobre eles”. Isso está muito mais próximo da ideia de espírito como uma “forma de poder” que foi, no episódio descrito, partilhada, do que consciências do além incorporando em mortais. Chamar Eldade, Medade ou os demais anciãos de “médiuns”, no sentido moderno da palavra, é focar-se na semelhanças do efeito produzido com o das incorporações mediúnicas e esquecer-se das diferenças entre as causas. A passagem de Efésios vai pelo mesmo caminho.

Por fim:

Reformem, pois, enquanto é tempo, as doutrinas cristãs, responsáveis pela crise de pouca fé da maioria dos cristãos e de muita expansão do materialismo!

Que se reforme urgentemente a Intelligentsia espírita, pois a que está aí tem uma terrível tendência para olhar o passado com os olhos do (seu) presente e, assim, enxergar aquilo que quer ver. Que ao menos um dia ela abra algum exemplar da Septuaginta ou da Vulgata para conferir se as informações bombásticas que repassam se elevam ao menos um pouco acima do quilate de um boato.

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O Julgamento Final

O Juízo Final

Marten de Vos: O Juízo Final

Embora o assunto deste não tenha exatamente a ver com o Espírito Santo, gostaria de comentá-lo por envolver o uso do artigo grego. Trata-se de um recorrente versículo utilizado pelos cristãos tradicionais contra os argumentos em prol da reencarnação na Bíblia:

E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo. Assim também Cristo foi oferecido em sacrifício uma única vez, para tirar os pecados de muitos; e aparecerá segunda vez, não para tirar o pecado, mas para trazer salvação aos que o aguardam.

Hb 9:27-8

De tão batida, essa passagem já ganhou várias análises e tentativas de refutação por parte de apologistas. Eis uma tanto abrangente em seus comentários:

Esta passagem é a mais citada pelos opositores como prova de que a Reencarnação não existe.

No entanto, esta afirmativa de modo algum nega ou invalida o princípio da Reencarnação, pois realmente o nosso corpo (este que o nosso espírito anima agora) só morre uma vez. O corpo muda a cada Reencarnação, o espírito, no entanto, permanece o mesmo em vários corpos, que morrem a cada nova existência, até atingirem a perfeição.

Ressaltamos, ainda, que Paulo não disse que o “homem deve viver uma só vez”. Ele não poderia se opor ao nascer de novo já decretado por Cristo no seu diálogo com Nicodemos em João Capítulo 3. E também não se oporia ao Apocalipse, capítulo 2:11 e 20:6 (Veja capítulo XVII), onde Ele fala na “segunda morte”, o que nos obriga, automaticamente, a concluir sobre a necessidade de um “segundo nascimento”. Lembre ainda que Paulo diz que depois da morte vem “um julgamento” e não “o julgamento”, que seria único e para todos de uma vez. Conclui-se que Paulo fala de um julgamento após cada morte.

Na verdade, neste planeta quem só encarnou uma vez e necessitou morrer também uma só vez foi o Cristo que já não possuía débitos e tinha sua evolução espiritual totalmente atingida e é a quem Paulo se refere, realmente, nesta passagem. Nós, no entanto, devido aos nossos débitos e defeitos, necessitamos reencarnar e passar pela morte física muitas vezes. O Cristo neste planeta só encarnou uma vez e consequentemente só morreu uma vez.

Observe, ainda, no texto, Paulo afirmando que, depois da morte, vem um julgamento, estando de pleno acordo com o princípio da Reencarnação, como nos mostra a Doutrina Espírita. Após a desencarnação, vem o balanço do emprego que fizemos de nossa existência na última encarnação. Após este julgamento, vem a necessidade ou não de volta à vida material.

Veja no Evangelho de João 5:28-30, onde Jesus nos informa que há realmente um julgamento, após a morte, e que indica a necessidade de escolha de uma nova etapa.

Há ainda os que afirmam ser a morte física uma consequência do pecado, (I Cor. 15:56) o que acaba sendo uma incoerência, pois o Cristo não tinha pecado e no entanto morreu fisicamente.

É realmente muito mal compreendido, para muitos, o sentido de “morrer uma só vez”, no entanto, para nós, o seu significado está muito claro. Faça você a sua análise pessoal, verifique, pesquise e veja que ele não nega a Reencarnação, como mostramos acima na análise dos textos.

Na verdade, a condição de morrer uma só vez é aplicada muito bem ao Cristo que não tinha erros e faltas a expiar, pois era um espírito com plenitude evolutiva. Quanto a nós, pobres criaturas em busca de um reencontro com Deus, temos, na verdade, que morrer e renascer muitas vezes.

Severino Celestino da Silva, Analisando as Traduções Bíblicas, 4ªed., cap. XXIII, pp. 315-6 (grifos no original).

Bem, primeiramente, vamos destrinchar o que é o livro Hebreus do Novo Testamento, qual sua mensagem, para daí entender qual era visão teológica de seu autor quanto a morte, em vez de ficar lhe imputando opiniões de outros livros bíblicos ou, pior, de religiões modernas. Embora seja comumente chamado de “Carta” ou “Epístola aos Hebreus”, ele carece da estrutura de uma carta a dar instruções sobre questões que aflijam a comunidade ou tecer agradecimentos. Em linhas gerais, ele começa como um tratado, evolui para uma sermão e só mais perto o fim se assemelha a uma carta. A autoria, é bom que se saiba, é desconhecida. A tradição cristã a atribui a Paulo, mas isso é posto em dúvida desde a Antiguidade e hoje há consenso de que ele não a escreveu. Assim, Hebreus é uma peça ímpar dentro no Novo Testamento, não cabendo a priori relacioná-la com as cartas de Paulo ou supostos livros que ele tenha lido.

O público para o qual Hebreus se destina se constituía de cristãos a sofrer algum tipo de perseguição (Hb 10:34-6) e, em razão disso, alguns estavam tentados a se converter (ou voltar) ao judaísmo, que gozava de proteção legal. Assim, seu anônimo autor admoesta seu público a permanecer firme na fé, pois o cristianismo seria o ápice de todas as realizações e promessas do judaísmo. Ameaças à parte, é feita uma série de comparações para justificar tal superioridade:

  • Cristo é superior aos profetas (Hb 1:1-3);

  • Cristo é superior aos anjos (Hb 1:4-11, 2:5-18);

  • Cristo é superior a Moisés (Hb 3:1-6);

  • Cristo é superior a Josué (Hb 4:1-11);

  • Cristo é superior ao sacerdócio judaico (Hb 4:14-5:10; 7:1-29);

  • Cristo é ministro de uma Aliança superior (Hb 8:1-13);

  • Cristo é ministro em um Tabernáculo superior (Hb 9:1-28);

  • Cristo constitui por si mesmo um sacrifício superior (Hb 10:1-18).

A passagem em questão se situa bem na fronteira entre os dois últimos itens. O tabernáculo em que Jesus ministrou era superior por estar no céu, em vez de sua contraparte terrena, feita por homens. Além disso, o sacrifício não foi feito com coisas terrenas, como o sangue de animais, mas com algo celestial: o próprio Jesus Cristo. A consequência dessa superioridade era que o sacrifício de Jesus foi único e redentor de uma vez por todas, ao passo que os dos sacerdotes precisam ser repetidos periodicamente. Nesse contraste entre ministérios é que a unicidade do sacrifício de Jesus foi comparada à da morte de cada indivíduo.

O questionamento principal do apologista é que, a rigor, o texto grego de Hb 9:27 não consta o artigo – μετα δε τουτο κρισις -, que seria literalmente traduzido por “e, após isto, (um) juízo”. Como já explanado, a presença do artigo estabelece a definição; em sua ausência, o substantivo pode ser definido ou não, e só contexto pode sanar a dúvida. Versões inglesas, como a American Standard Version, mantêm a palavra judgment anartra, indicando um caráter qualitativo para seus tradutores. Em português isso soaria um tanto estranho, pendido algum tipo de artigo. Qual empregar em “juízo” (κρισις) dependerá de como o autor de hebreus o quantificava. Uma pista foi dada alguns capítulos antes:

Por isso, deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até à perfeição, não lançando de novo o fundamento do arrependimento de obras mortas e de fé em Deus, e da doutrina dos batismos, e da imposição das mãos, e da ressurreição dos mortos, e do juízo eterno [κριματος αιωνιου].

Hb 6:1,2

Embora aqui se use uma palavra diferente (κριμα), em ambos os versículos vale a tradução “julgamento”, “juízo” ou “condenação”. O chamativo, aqui, é o adjetivo que a acompanha – αιωνιος – que pode significar “eterno”, “para sempre”, “sem fim” ou “duradouro por uma era [αιων]”. O único significado que talvez permitisse um novo julgamento seria o último, ainda que numa era distinta. Vejamos, então, qual uso o anônimo autor de Hebreus lhe deu em outros versículos:

E, sendo ele consumado, veio a ser a causa da eterna [αιωνιου] salvação para todos os que lhe obedecem; (5:9)

Nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna [αιωνιαν] redenção. (9:12)

E por isso é Mediador de um novo testamento, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia debaixo do primeiro testamento, os chamados recebam a promessa da herança eterna [αιωνιου]. (9:15)

Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna [αιωνιου] tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas, (13:20)

Dada a determinação do autor em mostrar a superioridade do cristianismo, fica difícil conceber a oferta de uma salvação/herança/aliança limitada no tempo; portanto, “eterno” é a melhor tradução para αιωνιος e, por conseguinte, ele também cria na danação eterna. O juízo seria único.

Outro apologista espírita, ao contrário de seu confradre, percebeu que as coisas não eram tão simples assim, em razão da vinculação o sacrifício de Jesus com a morte única:

A outra parte do homem morto é a do seu espírito imortal, que apenas se separa do seu corpo que morre, e vai para o mundo espiritual, onde descansa da vida do corpo terrena, enquanto que aguarda a volta a um novo corpo, formando, assim, um novo homem que está predestinado a, um dia, morrer novamente, mas como sempre, somente uma vez só. Depois da morte de cada homem, seu espírito passa por um julgamento para que vá colhendo temporariamente o que semeou. Mas esse julgamento não é definitivo, pois, no fim dos tempos, os espíritos terão o juízo final de suas faltas, nas várias reencarnações, com a simbólica separação do joio do trigo.

“E como todo homem está destinado a morrer uma só vez, depois do que haverá o julgamento, assim também Cristo se ofereceu uma só vez para tirar os pecados de muitos homens. Ele aparecerá uma segunda vez, sem relação alguma com o pecado aos que o esperam, para lhes dar a salvação” (Hebreus 9: 27). O que o autor, muito ligado às ideias de sacrifícios do Velho Testamento, quer acentuar é que a única morte de Jesus na cruz, como a de todo homem, que é também uma só, foi tão importante como sacrifício de morte, que não há mais necessidade de outros sacrifícios de morte de mais nenhum outro ser para resgatar pecados como pensavam os judeus. O texto, como se vê, não tem mesmo nenhuma relação com a reencarnação, mas tão somente com a eficácia da morte única de Jesus para o resgate dos pecados.

J.R. Chaves; Hebreus 9:27 é um abuso de interpretação contra a reencarnação, Jornal O Tempo, Belo Horizonte – MG, 16/09/2013.

A memória do Segundo Templo e seus sacrifícios ainda estava fresca, portanto não há o que estranhar quanto aos paralelos. Deve-se concordar, contudo, que o texto bíblico não traga uma relação direta com a reencarnação, nem aparente que isso passasse pela cabeça de seu autor. Até porque não haveria tempo para reencarnar:

Se assim fosse, Cristo precisaria sofrer muitas vezes, desde o começo do mundo. Mas agora ele apareceu uma vez por todas no fim dos tempos [συντελεια των αιωνων], para aniquilar o pecado mediante o sacrifício de si mesmo.

Hb 9:26

Bem no versículo anterior ao famigerado hb 9:27, nosso desconhecido autor demonstra que acreditava viver já no fim dos tempos. A reencarnação não fazia parte de sua soteriologia. A constatação disso me obriga a revisar o apelo feito por Celestino:

É realmente muito mal compreendido, para muitos, o sentido de “morrer uma só vez”, no entanto, para nós, o seu significado está muito claro. Faça você a sua análise pessoal, verifique, pesquise e veja que ele não nega a Reencarnação, como mostramos acima na análise dos textos.

Não dá para fazer uma análise pessoal, a menos que se queira produzir uma interpretação pesher, exatamente o que os dois apologistas fizeram. Caso se agisse de modo menos apologético e mais científico, pesquisariam a estrutura literária de Hebreus, quem era o público do autor, qual mensagem queria passar, de quais temas tratou, etc. Enfim, trariam de volta um pouco da pessoa do final do primeiro século da Era Comum, imersa numa expectativa apocalipsista, em vez de alguém que lhes é a própria imagem e semelhança.

Bem, se você está lendo isto aqui, então o mundo – tal como o conhecemos – não acabou ainda, e a ortodoxia cristã teve de lidar com o pós-morte até lá. Nesse aspecto, o cânon que se formou nos séculos II e III não está coerente. Cada seita produz a harmonização necessária para sua doutrina, que vai desde a desde o gozo ou sofrimento logo após a morte ou, conforme outras, uma hibernação até o Dia do Juízo, e até mesmo a aniquilação (“retorno ao pó”) enquanto não é chegada a hora da ressurreição. Tudo depende de um maior ou menor dualismo entre corpo e alma, embora em todas o veredicto já esteja dado após a morte. Apologistas espíritas lidam com tais discrepâncias para desconsiderar os que se valem de Hb 9:27. Por sua vez, a comunidade da Epístola ao Hebreus desconhecia esse cânon, tampouco tinha necessidade de harmonizações: para ela o tempo era curto.

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Notas


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Para Saber Mais



– Bauckham, Richard; The Qumran Community and the Gospel of John, em The Dead Sea Scrolls: The Dead Sea Scrolls Fifty Years After Their Discovery, ed. Lawrence H. Schiffman, Emanuel Tov and James C. VanderKam, Israel Exploration Society, Jerusalem 2000, p.105-115.

– Bruce, F. F; Holy Spirit in the Qumran Texts, Annual of Leeds University Oriental Society 6 (1966/68): 49-55.

– Comfort, Philip; Encountering the Manuscripts, Broadman & Holdman Publishers, 2005.

– McNamara, Martin; Targum and Testament Revisited, William B. Eerdmans Publishing Company, 2a. ediçfão, 2010.

– Murachco, Henrique;Língua Grega, II Volumes, Vozes, 2a. ed, 2002.

– Jewish Encyclopedia, Holy Espirit, acessado em 10/07/2014

– Porter, Stanley E.; Idioms of the Greek New Testament, Bloomsbury T&T Clark; 2a. ed., 1992

– Read-Heimerdinger, Jenny; The Bezan Text of Acts: A Contribution of Discourse Analysis to Textual Criticism, T & T Clark, 2002.

– Robertson, A.T.; A Grammar of the Greek New Testament – In the Light of Historical Research, Broadman Press, 1934.

– Shapland, C.R.B; As Cartas de Santo Atanásio acerca do Espírito Santo, The Epworth Press, 1951.

– Tatum, W. Barnes; John the Baptist and Jesus – A Report of the Jesus Seminar, Polebridge Press, 1992

– Wallace, Daniel B.; Greek Grammar beyond the Basics, Zondervan, 4a. edição, 1995.