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Alô, Alô Marciano!

19 de maio de 2012 18 comentários

Marvin Marciano

Índice

* * *

Os Marcianos Trogloditas da Codificação

O planeta Marte é, sem dúvida, uma fonte de controvérsias entre diversas comunicações mediúnicas. Sua primeira aparição na literatura espírita ocorre na Revista Espírita de março de 1858, Júpiter e alguns outros mundos:

(…)Passemos, agora, para uma outra esfera, onde se encontrem Espíritos de todas as classes da terceira ordem: Espíritos impuros, Espíritos levianos, Espíritos pseudossábios, Espíritos neutros. Sabemos que, em todas as classes dessa ordem, o mal domina; mas, sem terem o pensamento do bem, o do mal decresce à medida que se afastam da última classe, O egoísmo é sempre o móvel principal das ações, mas os costumes são mais brandos, a inteligência mais desenvolvida; o mal, aí, estará um pouco disfarçado, enfeitado e dissimulado. Essas próprias qualidades, engendram um outro defeito, que é o orgulho; porque as classes mais elevadas são bastante esclarecidas para terem consciência da sua superioridade, mas não o bastante para compreenderem o que lhes falta; daí a sua tendência à escravização das classes inferiores, e de raças mais fracas, que tenham sob o seu jugo. Não tendo o sentimento do bem, não têm senão o instinto do eu e acionam a sua inteligência para satisfazerem as suas paixões. Numa tal sociedade, se o elemento impuro domina, esmagará o outro; no caso contrário, os menos maus procurarão destruir os seus adversários; em todos os casos, haverá luta, luta sangrenta, luta de extermínio, porque são dois elementos que têm interesses opostos. Para proteger os bens e as pessoas, serão necessárias leis; mas essas leis serão ditadas pelo interesse pessoal e não pela justiça; o forte as fará, em detrimento do fraco. (…)

(…)O que dá aqui, um certo peso ao dizer dos Espíritos, é a correlação que existe entre eles, pelo menos nos pontos principais. Para nós, que fomos cem vezes testemunhas dessas comunicações, que pudemos apreciá-las em seus menores detalhes, que nelas escrutamos o forte e o fraco, observamos as semelhanças e as contradições, encontramos todos os caracteres da probabilidade; todavia, não lhes damos senão sob benefício de inventário, a título de notícias, aos quais cada um está livre para ligar a importância que julga adequada. Segundo os Espíritos, o planeta Marte seria ainda menos avançado do que a Terra; os Espíritos que nele estão encarnados pareceriam pertencer, quase exclusivamente, à nona classe, a dos Espíritos impuros, de sorte que o primeiro quadro, que demos acima, seria a imagem desse mundo.(…)

Falando especificamente dos marcianos, um artigo da Revista Espírita de outubro de 1860:

Marte é um planeta inferior à Terra da qual é um esboço grosseiro; não é necessário habitá-lo. Marte é a primeira encarnação dos demônios mais grosseiros; os seres que o habitam são rudimentares; têm a forma humana, mas sem nenhuma beleza; têm todos os instintos do homem sem o enobrecimento da bondade.

Entregues às necessidades materiais, eles bebem, comem, lutam, se unem carnalmente. Mas como Deus não abandona nenhuma de suas criaturas, no fundo das trevas de sua inteligência jaz, latente, o vago conhecimento de si mesmo, mais ou menos desenvolvido. Esse instinto basta para torná-los superiores uns aos outros, e preparar a sua eclosão para uma vida mais completa. A sua é curta, como a dos efêmeros. Os homens, que não são senão matéria, desaparecem depois de uma curta duração. Deus tem horror ao mal, e não o tolera senão como servindo de princípio ao bem; abrevia o seu reino e a ressurreição triunfa dele.

(…)

Eles não são canibais; suas contínuas batalhas não têm por objetivo senão a posse de um terreno mais ou menos abundante em caça. Caçam em planícies intermináveis. Inquietos e móveis como os seres desprovidos de inteligência, se deslocam sem cessar. A igualdade de sua estação, por toda a parte a mesma, comporta por conseqüência as mesmas necessidades e as mesmas ocupações; há pouca diferença entre os habitantes de um hemisfério a outro.

(…)

No Livro dos Espíritos (LE, 1862, 2ª ed.) parte II, cap. IV, q. 188, é repetida a classificação de Marte.

Segundo os espíritos, de todos os mundos que compõem o nosso sistema planetário, a Terra é dos de habitantes menos adiantados, física e moralmente. Marte lhe estaria ainda baixo, sendo-lhe Júpiter superior de muito, a todos os respeitos (…)

O curioso é que os espíritos de terceira ordem não são, pelo LE, seres irracionais. Segundo o LE, parte II, cap. I, 101:

A inteligência pode achar-se neles aliada à maldade ou à malícia; seja, porém, qual for o grau que tenham alcançado de desenvolvimento intelectual, suas idéias são pouco elevadas e mais ou menos abjetos seus sentimentos.

Ainda que brutais, portanto, os marcianos teriam algum grau de inteligência, no mínimo; sendo, com certeza, formas de vida complexas. Hoje se sabe que o ambiente de Marte é desolado, hostil, com rala atmosfera e alta incidência de radiação solar. Talvez o planeta tenha tido um passado mais hospitaleiro, tendo inclusive considerável quantidade de água na superfície. Se alguma forma de vida surgiu e sobreviveu, deve estar no subsolo e calotas polares (onde ainda há água congelada). Não se espera mais do que micróbios.

Flammarion e o Marte Avançado

Curiosamente, um dos companheiros e auxiliares de Kardec, Camille Flammarion, publicou em 1888 o livro Uranie (Urânia, na versão em português da FEB), que traz, logo no começo, uma chamativa discrepância com a Codificação:

-A vida universal! disse eu. Os planetas do nosso sistema solar serão todos habitados? … São habitados os milhares de mundos que povoam o infinito?… Essas Humanidades assemelham-se à nossa? … Conhecê-las-emos algum dia?…

– A época em que vives na Terra, a própria duração da Humanidade terrestre não é mais do que um momento na eternidade.

Não compreendi essa resposta às minhas perguntas.

– Nenhuma razão há, acrescentou Urânia [musa da Astronomia, se comunicando por meio de sonhos com um jovem] para que todos os mundos sejam habitados agora. A época presente não tem mais importância do que as precedente ou as que se hão-de seguir.

“A duração da existência da Terra será muito mais longa – talvez dez vezes mais longa – do que a do seu período vital humano. Em uma dezena de mundos, tomados ao acaso na imensidade, poderíamos, por exemplo, conforme os casos, achar apenas um atualmente habitado por uma raça inteligente. Uns o foram outrora; outros sê-lo-ão no futuro; estes se acham em via de preparação, aqueles têm percorrido todas as suas fases; aqui berços, além, túmulos; e depois, uma variedade infinita se revela nas manifestações das forças da Natureza, não sendo a vida terrestre de modo algum o tipo de vida extraterrestre. Seres podem viver, em organizações inteiramente diversas das conhecidas no vosso planeta. Os habitantes dos outros não têm a vossa forma, nem os vossos sentidos. São outros.

Parte I, cap IV, pp. 32-3

Flammarion entre em choque com a Codificação aqui: nem todos os mundos seriam habitados. Não ao mesmo tempo. Outra surpresa surge logo adiante:

[Fala de Urânia]
“Dia virá, e mui proximamente, pois que estás chamado a vê-lo, em que o estudo das condições da vida nas diversas províncias do Universo será o objeto essencial – e o grande encanto – da Astronomia. Bem depressa, em vez de se ocuparem simplesmente com a distância, com o movimento e com a massa material dos vossos planetas vizinhos, os astrônomos descobrir-lhe-ão a constituição física, os aspectos geográficos, a climatologia, a meteorologia; penetrarão o mistério da sua organização vital e discutirão a respeito dos respectivos habitantes. Afirmarão que Marte e Vênus se acham atualmente povoados de seres pensantes; que Júpiter está ainda no seu período primário de preparação orgânica; que Saturno plana em condições inteiramente diferentes das que presidiram ao estabelecimento da vida terrena e, sem jamais passar por estado análogo ao da Terra, será habitado por seres incompatíveis com os organismos terrestres. Novos métodos farão conhecer a constituição física e química dos astros, a natureza das atmosferas. Instrumentos aperfeiçoados permitirão mesmo descobrir os testemunhos diretos da existência dessas Humanidades planetárias e pensar em estabelecer comunicação com elas. Eis a transformação científica que há de assinalar o fim do décimo-nono século e que há de inaugurar o vigésimo.”

Parte I, cap IV, p. 33

Aqui, Júpiter está em posição invertida na hierarquia de mundos do sistema solar, ainda engatinhando na constituição da vida. Marte e Vênus até parecem conferir com o relatado na Revista Espírita (RE), a questão é seres pensantes de que jeito? Civilizações avançadas ou brutucus? Aí que Marte ganhou um nova face:

Os habitantes de Marte são muito superiores aos da Terra, pela sua organização, pelo número e pela delicadeza de seus sentidos, e pelas faculdades intelectuais. O fato de ser a densidade muito fraca na superfície daquele mundo, e as substâncias constitutivas dos corpos menos pesadas lá do que aqui, permitiu a formação de seres incomparavelmente menos pesados, mais aéreos, mais sutis, mais sensíveis. O fato de ser nutritiva a atmosfera, libertou os organismos marcianos das grosserias das necessidades terrestres. É totalmente outro estado. A luz ali é menos viva, estando o planeta mais afastado do Sol do que a Terra; o nervo óptico é mais sensível. Sendo ali intensíssimas as influências elétricas e magnéticas, os habitantes possuem sentidos ignorados das organizações terrestres, sentidos que os põem em comunicação com essas influências. Tudo se contém na Natureza. Os seres, em toda parte, são apropriados aos meios em que habitam e em cujo seio nasceram. Os organismos podem mais ser terrestres em Marte, de igual modo que não podem ser aéreos no fundo do mar.

De mais, o estado de superioridade consequente dessa ordem de coisas evoluiu por si mesmo, pela facilidade da realização de todo o trabalho intelectual. A Natureza parece obedecer ao pensamento. O arquiteto que quer levantar um edifício; o engenheiro que deseja modificar a superfície do solo, quer se trate de levantar ou de cavar, de cortar montanhas ou de aterrar vales, não se esbarram, qual acontece na Terra, com o peso dos materiais e nas dificuldades da execução. Assim, têm a Arte feito, desde a origem, os mais rápidos progressos.

Além disso ainda, sendo a Humanidade marciana várias dezenas de milhares de séculos anterior à terrestre, tem percorrido anteriormente a esta todas as fases do seu desenvolvimento. Os mais transcendentes progressos científicos atuais da Terra não passam de pueris brinquedos de criança, comparados à Ciência dos habitantes daquele planeta.

Parte III, cap III, pp. 145-6

De toscos homens do paleolítico, Marte passou a ter seres sutis e bem mais adiantados que nós. Ignoro como Flammarion lidou com as disparidades entre esse relato -dado por um marciano desdobrado durante o sono do corpo – e o da Codificação. Nesse mesmo capítulo de Urânia, surgem informações que sugerem estarmos diante de “comunicações” que, na verdade, apenas refletiam crenças e expectativas fora fora do meio espírita:

A maior parte das nossas plagas são praias, planícies iguais. Poucas montanhas possuímos, e os mares não são fundos. Os habitantes aproveitam esses transbordamentos para irrigação das vastas campinas. Têm retificado, alargado, canalizado os cursos de água e construído nos continentes uma rede inteira de imensos canais. Esses continentes mesmos não são, qual os do globo terrestre, eriçados de elevações alpestres ou himalaicas, mas planícies imensas, atravessadas em todos os sentidos pelos rios canalizados e pelos canais que põem em comunicação todos os mares uns com os outros.

Outrora havia, relativamente ao volume do planeta, quase tanta água em Marte quanto na Terra. Insensivelmente, de século em século, uma parte da água das chuvas atravessou as profundas camadas do solo e não tornou à superfície. Combinou-se quimicamente com as rochas e foi excluída do curso da circulação atmosférica. De século em século, também, as chuvas, as neves, os ventos, os gelos do inverno, as secas do verão, têm desagregado as montanhas e os cursos de água, trazendo esses destroços para a bacia do mar, cujo leito têm gradualmente levantado. Não mais possuímos grandes oceanos, nem mares profundos, mas unicamente mediterrâneos. Muitos estreitos, golfos, mares análogos à Mancha, ao mar Vermelho, ao Adriático, ao Báltico, ao Cáspio. Praias lindíssimas, enseadas mansas, lagos e espaçosos rios, frotas antes aéreas do que aquáticas, céu quase sempre puro, principalmente pela manhã. A Terra não tem manhãs tão luminosas quanto as nossas.

Parte III, cap III, pp. 152-3

Marte, de fato, pode ter tido um passado marinho e parte de sua água pode se encontrar no subsolo e calotas polares, mas a maior parte deve ter evaporado e se perdido com grande quantidade da atmosfera, que o planeta não reteve por causa de baixa gravidade. Marte não é plano e nele se encontra o maior vulcão conhecido do sistema solar: o monte Olympus, com 24 km de altitude; além disso Marte não possui campo magnético dipolar como a Terra ou Mercúrio, apesar de já ter possuído. Os “marcianos” estão menos sujeitos a influências magnéticas que os terráqueos. Apesar disso, o que na verdade chama atenção é que um contemporâneo de Flammarion, o italiano Giovanni Schiaparelli, relatara um pouco antes a observação de grandes canais cruzando a superfície de Marte. Por volta de meados da década de 1880, a ideia dos canais já havia se disseminado por diversos observadores profissionais e amadores. Flammarion aceitou a ideia de Schiaparelli de as regiões escuras eram mares rasos e as claras, continentes; mas, ao contrário dele, creditava a existência de canais a construções feitas por uma civilização marciana, no intuito de levar água a todo o planeta. No livro Le Planète Mars (1892), sustentou seu ponto de vista no fato de os canais serem muito longos e retos.

Canais Marcianos

Desenhos dos supostos canais marcianos (E) e foto de Marte feita pelo telescópio espacial Huble (D). Canais até foram encontrados, ou melhor, vales fluviais – indícios de um passado aquoso.

A hipótese de uma “civilização marciana” encontrou eco do outro lado do Atlântico. O rico americano Percival Lowell foi o maior representante da “martemania” nos EUA. Fez desenhos extremamente detalhados de um grande complexo de canais de irrigação, que levavam água do derretimento das calotas polares para as regiões equatoriais. Os marcianos seriam uma avançada e sedenta civilização lutando contra uma catástrofe ecológica.

Ironicamente, fortes críticas às teses de Lowell (e, por tabela, Flammarion) vieram de alguém inesperado: o biólogo, codescobridor da seleção natural (junto a Darwin) e espiritualista Russel Wallace. Ele demonstrou que o ar em Marte era muito mais fino e rarefeito para permitir a existência de água líquida. Assim declarou: “Somente uma raça de loucos construiria canais em tais condições” [cf. Cosmos].

Ao contrário de Flammarion e demais espíritas, Wallace advogava uma visão antropocêntrica e geocêntrica do papel da humanidade no universo. Em seu Man’s Place in the Universe, sustenta seus argumentos com a ciência da época:

Agora, se nós considerarmos estas cinco condições distintas [previamente citadas] ou conjuntos de condições, muitas delas dependentes de um delicado equilíbrio de forças atuando na origem de nosso planeta, parecem ser absolutamente necessárias para a existência de formas orgânicas de vida elevadas, veremos de uma vez como são peculiares nosso lugar e condição dentro do sistema solar, desde que saibamos que elas não podem todas coexistir em nenhum outro planeta. E quando considerarmos mais além disto, mesmo se eles de fato existirem agora, não seria nada ao propósito [de abrigar vida] a menos que tivéssemos razão para acreditar que elas tivessem também existido, como [foi] conosco, numa inquebrada continuidade por muitos e talvez milhões de anos. Toda a evidência em nosso controle assegura-nos que apenas nossa Terra no sistema solar esteve desde de sua origem adaptada para ser o teatro para o desenvolvimento de vida organizada e inteligente. Nossa posição dentro do sistema é, desta forma, central e única, assim com a de nosso sol em todo o universo estelar

E Wallace deixa claro no mesmo artigo que o status privilegiado da humanidade seria uma forma de combater o materialismo. Wallace e Flammarion se equiparam num ponto: ambos usaram o que se sabia então para justificar crenças pessoais.

Flammarion e Wallace

Flammarion (E) e Wallace (D). Dois espíritas, duas visões opostas quanto ao papel da humanidade no Universo.

A melhoria dos instrumentos de observação derrubou a crença nos canais marcianos. Observações feitas já em 1909 indicavam a ausência de canais. Hoje, sabe-se que Schiaparelli, Lowell e outros viram uma ilusão de óptica provocada pela baixa resolução suas aparelhagens.

Século XX – Da Queda Marte aos Marcianos Superdimensionais Quânticos

Embora haja sofrido um baque com o fim do frenesi dos canais, a expectativa de um planeta Marte com vida não só complexa como também inteligente continuou a permear o imaginário popular, impulsionada por clássicos como “A Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells, ou criações mais populares e prosaicas, como o personagem de desenho animado “Marvin, o Marciano” – que ilustra o topo deste artigo. As comunicações mediúnicas, de certa forma, acompanharam a tendência em prol de um Marte desenvolvido. Chico Xavier no livro Novas Mensagens do Espírito de Humberto de Campos( FEB, 1940, pp. 57-68) recebeu a revelação de que em Marte é povoado por seres em “adiantadíssima evolução”. Hercílio Maes psicografou de Ramatis o livro A Vida no Planeta Marte onde diz serem os marciano avançados tecnologicamente mil anos em relação à Terra e 500 no aspecto moral. Total contradição com os fatos e com o Marte selvagem. Em Emmanuel – Dissertações Mediúnicas, Introdução, psicografado por Chico Xavier, mais uma vez Marte fica desenvolvido:

A Terra é, pois, componente da sociedade dos mundos. Assim como Marte ou Saturno já atingiram um estado mais avançado em conhecimentos, melhorando as condições de suas coletividades, o vosso orbe tem, igualmente, o dever de melhorar-se, avançando, pelo aperfeiçoamento das suas leis, para um estágio superior no quadro universal.

Cena do filme A Guerra dos Mundos (1953), baseado no romance de H.G. Wells. Quando Marte preenchia a imaginação (e o temor) dos terráqueos.

Um banho de água fria ocorreu quando as primeiras missões não-tripuladas a Marte foram bem sucedidas, notadamente Mariner 4 (1965), a Viking 1 (1976) e a Mars Pathfinder (1997). A sonda Mariner 4 fotografou o planeta de perto e revelou uma superfície árida e esburacada como a de nossa Lua, além de ter uma atmosfera de gás carbônico extremamente rarefeita. A missão Viking 1 foi a primeira a aterrissar um laboratório-robô na superfície e os dados de seus experimentos apontaram um planeta biologicamente morto. Essa análise, todavia, é até hoje considerada inconclusiva e talvez a questão só seja resolvida com a obtenção de uma amostra para estudo na Terra. A Mars Pathfinder foi munida de um robô-explorador, que enviou por mais de um mês imagens da desolada superfície do planeta. Houve diversas outras expedições a Marte, mas nenhuma delas objetivava a busca por civilizações avançadas ou seres sub-humanos. No máximo queriam micróbios. Nenhum sinal dos dois primeiros sequer apareceu. Com exceção das comédias, Marte praticamente sumiu das produções de ficção-científica mais “sérias”, que passaram a buscar alienígenas inteligentes em outros sistemas solares (Star Trek, Avatar) ou numa “galáxia muito, muito distante”. Tal qual os cientistas.

Quanto ao espiritualismo, já existia o problema das comunicações pró “Marte atrasado, porém com seres complexos” em conflito com os relatos do “planeta evoluído”. Agora os fatos contradizem as duas teses. Em vez de aceitar um erro e admitir as limitações do “Consenso Universal dos Espíritos”, as saídas adotadas pelo movimento espírita têm sido um tanto problemáticas. Há quem diga que os robôs pousaram em regiões desérticas (onde deveriam ter pousado, então?) ou que os marcianos, por serem espíritos mais evoluídos, têm um envoltório mais sutil e invisível para nossos olhos e instrumentos. Há ainda apelações para conceitos de ponta da Física moderna, como as dimensões extras do universo previstas na Teoria das Supercordas(2). Todas essas explicações, contudo, destoam de uma passagem de Urânia, que demonstra o que realmente se pensava nas comunicações do século XIX:

A forma das criaturas é, em cada mundo, o resultado dos elementos especiais de cada globo, substância, calor, luz, eletricidade, densidade, peso. As formas, os órgãos, o número dos sentidos – vós outros tendes apenas cinco, e esses mesmos bastante pobres – dependem das condições vitais de cada esfera. A vida terrestre é da Terra; marciana em Marte; saturniana em Saturno; netuniana em Netuno – isto é, apropriada a cada mansão, ou, para melhor dizer, mais rigorosamente ainda, produzida e desenvolvida por esse mundo em particular, conforme o seu estado orgânico, e seguindo uma lei primordial a que obedece a Natureza inteira: a lei do Progresso.

Parte I, cap. II, p. 20

Se é assim, por que seres tão etéreos precisariam de um planeta materialmente grosseiro para viver? Um “astro espiritual”, como uma grande colônia de desencarnados não seria o ideal? Todas as explicações dadas até agora não passam de remendos que ignoram o que os antigos espiritualistas queriam dizer a respeito dos supostos alienígenas e o que Ciência moderna diz a sobre seus próprios conceitos. É duro dizer isso, mas essa é uma atitude tão esquiva e ilusória quanto a dos criacionistas adeptos da “Terra Jovem” na hora de justificar uma idade de 6.000 anos para nosso planeta. E ainda permanece a contradição entre o Marte avançado de Flammarion, Chico Xavier e Ramatis contra o atrasado das comunicações recebidas por Kardec. Sendo que no último caso os marcianos deveriam estar encarnados em corpos tão ou mais “grosseiros” que os nossos, logo a saída de que possuem “um corpo sutil” e “invisível” não se aplica. Note que são duas situações mutuamente excludentes: uma delas tem que estar errada ou as duas! De fato, quem realmente interpreta a questão dos habitantes do Planeta Vermelho é o lado religioso do Espiritismo, mas de uma religiosidade que nada tem de racional e se aproxima daquela que tanto desdenha: a cega. E se os marcianos derem o ar da graça? Bem, aí eu peço desculpas genuflecto. Mas até lá…

Paisagem Marciana

A realidade árida de Marte. Será que há alguém brincando de pique-esconde? Ou será tão difícil assim admitir que nos pregaram uma peça?

* * *

Para dar um jeito nesta crise que rola na Terra, com vocês, Rita Lee:

Alô! Alô Marciano!
Composição: Rita Lee e Roberto de Carvalho

Alô, alô marciano
Aqui quem fala é da Terra
Pra variar, estamos em guerra
Você não imagina a loucura
O ser humano tá na maior fissura porque
Tá cada vez mais down no high society !

Alô, alô marciano
A crise tá virando zona
Cada um por si, todo mundo na lona
E lá se foi a mordomia
Tem muito rei aí pedindo alforria porque
Tá cada vez mais down no high society !

Alô, alô marciano
A coisa tá ficando ruça
Muita patrulha, muita bagunça
O muro começou a pichar
Tem sempre um aiatolá prá atolá , Alá !
Tá cada vez mais down no high society

Notas

(1)Que o digam os alienígenas pirados de Marte Ataca! (1996).

(2)Vide Revista Universo Espírita – Nº 50 / Ano 5, 2008. A Teoria das Supercordas é (mais) uma tentativa de unir todas as força físicas da natureza (gravitacional, nucleares e eletromagnética) em um único arcabouço teórico. Em seu modelo, ela estipula que o universo teria originalmente dez dimensões (uma temporal e nove espaciais) e, por ocasião do Big Bang, seis delas teriam ficado “enroscadas” (aspas, por favor) de forma diminuta no tecido do espaço-tempo originado pelas quatro restantes. Será que os marcianos vivem num aperto?

Para Saber Mais

Antonio Luiz M. C. da Costa, Marte do passado, da lenda à realidade, acessado em 15/05/2012.

Carl Sagan, Cosmos, Parte V, Blues for a Red Planet

Camille Flammarion – Urânia, FEB, 10a. ed., 2007

Projeto Ockham – Canais de Marte , acessado em 10/05/2012.

Russel Wallace – Man’s Place in the Universe , acessado em 15/05/2012

Júpiter: O Ápice (!?) do Sistema Solar

5 de dezembro de 2011 6 comentários

Representação artística do planeta Júpiter

Na Revista Espírita de março de 1858, há um descrição detalhada de nossa família solar, culminando com Júpiter:

Segundo os Espíritos, o planeta Marte seria ainda menos avançado do que a Terra; os Espíritos que nele estão encarnados pareceriam pertencer, quase exclusivamente, à nona classe, a dos Espíritos impuros, de sorte que o primeiro quadro, que demos acima, seria a imagem desse mundo. Vários outros pequenos globos estão, com algumas nuanças, na mesma categoria. A Terra viria em seguida; a maioria de seus habitantes pertence, incontestavelmente, a todas as classes da terceira ordem, e a parte menor às últimas classes da segunda ordem. Os Espíritos superiores, os da segunda e da terceira classe, nela cumprem, algumas vezes, uma missão de civilização e progresso, e são exceções. Mercúrio e Saturno vêm depois da Terra. A superioridade numérica de bons Espíritos lhes dá a preponderância sobre os Espíritos inferiores, do que resulta uma ordem social mais perfeita, relações menos egoístas, e, por consequência, uma condição de existência mais feliz. A Lua e Vênus estão quase no mesmo grau e, sob todos os aspectos, mais avançados do que Mercúrio e Saturno. Juno e Urano seriam ainda superiores a esses últimos. Pode-se supor que os elementos morais, desses dois planetas, são formados das primeiras classes da terceira ordem e, na grande maioria, de Espíritos da segunda ordem. Os homens, neles, são infinitamente mais felizes do que sobre a Terra, pela razão de que não têm nem as mesmas lutas a sustentar, nem as mesmas tribulações a suportar, e não estão expostos às mesmas vicissitudes físicas e morais.

De todos os planetas, o mais avançado, sob todos os aspectos, é Júpiter. Ali, é o reino exclusivo do bem e da justiça, porque não há senão bons Espíritos. Pode-se fazer uma ideia do feliz estado dos seus habitantes pelo quadro que demos do mundo habitado sem a participação dos Espíritos da segunda ordem.

A superioridade de Júpiter não está somente no estado moral dos seus habitantes; está, também, na sua constituição física. Eis a descrição que nos foi dada, desse mundo privilegiado, onde encontramos a maioria dos homens de bem que honraram nossa Terra pelas suas virtudes e seus talentos.

A conformação dos corpos é quase a mesma desse mundo, mas é menos material, menos denso e de uma maior leveza específica. Ao passo que rastejamos penosamente na Terra, o habitante de Júpiter se transporta, de um lugar para outro, roçando a superfície do solo,quase sem fadiga, como o pássaro no ar ou o peixe na água.

Júpiter é o maior dos quatro “gigantes gasosos” do sistema solar. É possível que até tenha um núcleo rochoso debaixo de sua grossa e turbulenta atmosfera, seguida de camadas de hidrogênio líquido e metálico. Júpiter pode ser tudo, menos idílico. Se os supostos jupterianos da Revista Espírita utilizam matéria-prima do próprio planeta, então de forma alguma seriam menos densos, porque, para suportar a colossal pressão do ambiente de Júpiter, teriam de igualar sua pressão interna. Uma alternativa seria viver nas camadas mais altas da atmosfera, como já houve quem cogitasse, porém seus corpos em nada se assemelhariam aos nossos.

Flutuadores Jupiterianos

Hipotéticos seres flutuadores da atmosfera de Júpiter exibidos na clássica série televisiva Cosmos, de Carl Sagan, e hoje encarados com ceticismo. A exobiologia (estudo de possíveis formas de vida extraterrenas) ainda está mais para um grande exercício especulativo.

Continuando:

Sendo mais depurada a matéria de que é formado o
corpo, dispersa-se após a morte sem ser submetida à decomposição pútrida. Ali não se conhece a maioria das moléstias que nos afligem, sobretudo as que se originam dos excessos de todo gênero e da devastação das paixões. A alimentação está em relação com essa organização etérea; não seria suficientemente substancial para os nossos estômagos grosseiros, sendo a nossa por demais pesada para eles; compõe-se de frutos e plantas; de alguma sorte, aliás, a maior parte eles a haurem no meio ambiente, cujas emanações nutritivas aspiram. A duração da vida é, proporcionalmente, muito maior que na Terra; a média equivale a cerca de cinco dos nossos séculos; o desenvolvimento é também muito mais rápido e a infância dura apenas alguns de nossos meses.

Como Kardec gosta de fazer analogias, farei uma contra-analogia: essa duração curta da infância vai num caminho oposto àquele que deu a inteligência a nossa espécie, que consistiu na dilatação da infância e a permanência de aspectos infantis até a fase adulta (neotenia). Externamente, isso se manifesta na pouca mudança que nosso crânio sofre com o passar do tempo. Compare com a radical transformação sofrida por nosso primo mais próximo, o chimpanzé.

neotenia

Foto de um bebê chimpanzé (Esq.) emparelhada com a de um adulto de sua espécie. Humanos não sofrem transformação tão radical assim, maturam mais lentamente e preservam boa parte da capacidade de aprendizado juvenil.

Fisiologicamente, nossa “imaturidade” está em termos boa capacidade de criar novas conexões neuronais por mais tempo (devido à longa infância) e a preservarmos em certo grau na idade adulta.

Pergunta-se, então, que tipo de evolução biológica os jupterianos teriam sofrido para adquirir inteligência com uma estratégia oposta. Kardec não se fez essa pergunta provavelmente por dois motivos: primeiro, àquela altura (1858) ele não acreditava na evolução biológica (cf. LE 59), embora pregasse a espiritual, e, segundo, cria na geração espontânea de seres complexos (LE 44-49). Assim, os jupterianos poderiam ter sido criados “prontos” para ter uma infância curta. Alguém, hoje em dia, poderia até alegar que os jupterianos encurtaram sua fase juvenil por meio de manipulação genética. Seria ético fazermos isso no futuro?

Os animais não estão excluídos desse estado progressivo, sem se aproximarem, contudo, daquele do homem; seu corpo, mais material, prende-se à terra, como os nossos. Sua inteligência é mais desenvolvida que a dos nossos animais; a estrutura de seus membros presta-se a todas as exigências do trabalho; são encarregados da execução de obras manuais: são os serviçais e os operários; as ocupações dos homens são puramente intelectuais. Para os animais o homem é uma divindade tutelar que jamais abusa do poder para os oprimir.

Seria correta essa depreciação do trabalho braçal? Não seriam os jupterianos capazes de criar robôs para liberar seus “animais” para viverem de sua própria forma em reservas?

Quanto aos jupterianos ilustres:

Quando se comunicam conosco, os Espíritos que habitam Júpiter geralmente sentem prazer em descrever o seu planeta; ao se lhes pedir a razão, respondem que o fazem com o fito de nos inspirarem o amor do bem, com a esperança de lá chegarmos um dia. Foi com essa intenção que um deles, que viveu na Terra com o nome de Bernard Palissy, célebre oleiro do século XVI, ofereceu-se espontaneamente, sem que ninguém lho pedisse, para elaborar uma série de desenhos, tão notáveis por sua singularidade quanto pelo talento de execução, destinados a dar-nos a conhecer, até nos menores detalhes, esse mundo tão estranho e tão novo para nós.

Palissy, fez a bondade de desenhar por comunicação mediúnica a casa de outro jupiteriano que já passou pela Terra – Mozart – reproduzida na edição de agosto da Revista Espírita, naquele mesmo ano. Ei-la:

Casa de Mozart

Fachada sul da casa de Mozart em Júpiter. Acredite se quiser…

Somos também informados que Cervantes seria vizinho de Mozart e que por aquelas bandas também viveria Zoroastro.

As comunicações sobre Júpiter prosseguiram após Karde. Léon Denis, em seu Catecismo Espírita, cap. VI

P: Todos os planetas têm Lua?

R: Nem todos; porém, Urano tem quatro luas ou satélites; Saturno oito, além de dois imensos anéis que o circundam; e Júpiter, quatro. Esse mundo colossal, Júpiter, não está, como a Terra, sujeito às vicissitudes das estações nem às bruscas alternativas da temperatura: “é favorecido com uma primavera constante”.

Bem, a temperatura média em Júpiter é de -148ºC. Talvez os jupterianos tenham uma noção distinta de frio e calor, mas não parece que Léon Denis deu a entender isso. De fato, são muitas coisas risíveis ao se tratar de Júpiter. Kardec mesmo já admitia isso:

Se há um fato que gera perplexidade entre certas pessoas convencidas da existência dos Espíritos – não nos ocuparemos aqui das outras – é seguramente a existência de habitações em suas cidades, tal como ocorre entre nós. Não me pouparam de críticas: “Casas de Espíritos em Júpiter!… Que gozação!…” – Que seja, nada tenho a ver com isso. Se o leitor aqui não encontra, na verossimilhança das explicações, uma prova suficiente de sua veracidade; se, como nós, não se surpreende com a perfeita concordância das revelações espíritas com os dados mais positivos da ciência astronômica; numa palavra, se não vê senão uma hábil mistificação nos detalhes que se seguem e no desenho que os acompanha, eu o convido a pedir explicação aos Espíritos, de quem sou apenas o instrumento e o eco fiel. Que ele evoque Palissy ou Mozart, ou outro habitante desse mundo bem-aventurado; que sejam interrogados, que minhas afirmações sejam controladas pelas suas; que, enfim, discutam com eles. Quanto a mim, apenas apresento o que me foi dado, repetindo somente o que me foi dito. E, por esse papel absolutamente passivo, creio-me ao abrigo tanto da censura quanto do elogio.

Revista Espírita, agosto 1858, “Habitações do Planeta Júpiter”

Parece que esse gozadores estavam certos, talvez não pelos motivos que alegassem. Foi o tempo que se encarregou de tirar a verossimilhança das mensagens e colocá-las em desacordo com a astronomia. Revelou, também, que Kardec foi confiante demais em seu critério para separar o “joio do trigo” baseado no teor edificantes das mensagens e polidez das palavras.