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Analisando as Traduções Bíblicas

11 de outubro de 2011 9 comentários

Tem caroço nesse angu!

Um Adendo

Para saber mais

Ao final de março de 2002 o jornalista Élio Gaspari publicou artigo n’O Globo (“Sinfonia dos Educatecas Doidos”) apontando erros factuais sobre o livro didático “O Brasil Atual e a Mundialização”, de Zilda Iokoi. Parte de sua motivação não estava nos erros em si, mas no fato de o livro ter se tornado a fonte de estudo para mil escolas públicas. Foi um auê na comunidade acadêmica. Gaspari respondeu com outro artigo (“Aos colegas, tudo. Aos fatos e aos alunos, o rigor da lei”) a um professor da USP que saíra em defesa de sua colega. Ele acusava o jornalista de ter “ranço positivista da história das datas, dos nomes e da sucessão dos fatos“. Gaspari deu um troco à altura, mostrando que positivismo nada tem a ver com “datas e nomes”, a historiografia clássica podia, sim, fazer obras-primas como “o 18 de Brumário de Luís Bonaparte” na qual um dos maiores autores da aclamada “ala progressista” – Karl Marx – não se furtou ao uso de pesada bagagem factual. Toda correta. De quebra, jogou mais erros factuais do livro e alguns extratos de conteúdo conceitual, no mínimo, questionável, que indicavam um viés ideológico da autora de “O Brasil…” tão alto a ponto de transformar a história numa sucessão de teorias da conspiração.

Para quem estava de fora, parecia que Gaspari incomodara não por criticar um livro, mas por ser um “estranho no ninho”, furão, bicão. E quem sabe o fosse mesmo, por isso não teve nenhum pudor de meter o bedelho numa situação a qual os profissionais da área se omitiam. E nada de chamá-lo de reacionário, pois quem leu seu livro “Ditadura Escancarada” sabe muito bem de quem ele toma partido. Bem, o que tem a ver a pendenga acima com esta resenha? Muita coisa. Entre as idas e vindas internéticas, recebi um comentário de um apologista: “Não acho nada ético ficar apontando erros de livros. Devemos alertar os autores para que corrijam suas obras”. Curiosamente, ele mesmo confessara não ter tido muito sucesso em fazer Celestino corrigir um erro. Daí pergunto: será que Gaspari conseguiria que uma versão revisada de “O Brasil…” se não tivesse jogado “esterco” no ventilador? A postura que rolou mais entre os historiadores não foi a de ética e, sim, o corporativismo. Por isso achei um tanto ingênua a fala de meu interlocutor. Talvez ele achasse ético um portal com os erros e contradições da Bíblia (há muitos por aí), sobre as Cruzadas, o Santo Ofício ou atacando o padre Quevedo. Isto não é um “tu também”, simplesmente a constatação de uma propriedade intrínseca da natureza humana: muitas vezes só nos aperfeiçoamos sob o atrito com nossos adversários. Assim como muito deste portal evoluiu no melhor estilo “corrida armamentista”, sofisticando-se a medida que as refutações a ele aumentavam, quem sabe esta resenha sirva para um “Analisando…” revisado, ou que simplesmente saia de circulação. De repente o tiro sai pela culatra e o leitor fica curioso demais e sai correndo comprá-lo. Outros podem pensar duas vezes antes de abrir a carteira, uma parcela ínfima – porém agressiva – de paladinos sairá em sua defesa.

Há algo de errado com esta obra, que deveria ser seriamente repensada e revisada. Muito de lá já foi falado em “Reencarnação na Bíblia”. Primeiro e principal erro, que é a causa de muitos outros ao longo da obra, é a crença de que existe disponível um original hebraico (i.e. o texto massorético – TM) a partir do qual toda tradução “fidedigna” deve se calcar. No caso, a dele. O TM, apesar de estar no idioma do original, ter tido grande estabilidade e ser o ponto de partida dos estudantes, está longe do que fora os “autógrafos” de cada um de livros. Mesmo que não existisse nenhuma outra versão, paralelos em textos análogos extraídos de livros distintos denunciam evolução do conteúdo e edição. A consequência direta dessa postura do autor é uma verdadeira depreciação do testemunho versional. No capítulo II, o autor traça uma história das traduções bíblicas simplesmente que distorce a origem das versões gregas e latinas e retira todo o seu valor como aparato crítico para o TM, em especial a Septuaginta (LXX). Isso poderia ser até compreensível antes da restauração e publicação dos manuscritos do Mar Morto, quando se pensava que as discrepâncias do texto grego eram devido a traduções parafrásticas ou puro erro. Hoje, principalmente devido aos manuscritos, sabe-se que havia uma pluralidade textual grande no período intertestamentário e muitos texto encontrados refletiam a tradição grega. Ou seja, a LXX é uma janela para uma versão hebraica hoje perdida. O desprezo da LXX ainda era comum mesmo entre grandes autores até a década de 80, como observou o hebraísta Emanuel Tov, o que poderia ser até um atenuante para Celestino, mas não o é como explicarei depois.

Celestino aparenta realmente entender de hebraico. O que não fica muito claro é o quanto ele entende de uma gramática histórica do hebraico, para uma crítica textual de qualidade. No capítulo VIII, em que analisa a troca das preposições (`al – sobre) em ex. 20:5 e 34:7. O capítulo abre com uma transcrição em hebraico desta preposição e outra (`ad – até) sugerindo nas entrelinhas que uma não poderia ter sido trocada pela outra numa tradução descuidada, ainda que bem intencionada. O que mela a análise do autor é que (`al) pode ter muito mais sentidos, em parte devido a uma evolução linguística do hebraico que a tornou homófona com outra preposição ('el – a, para), o que pôde ter levado a confusões quando um texto era ditado para outros copiarem. O resultado é que se pode achar textos hebraicos (4Qsama) em que essas três preposições foram intercambiadas. Além de faltar uma visão histórica da evolução do hebraico, há coisas que chamam muita atenção nesse capítulo: o texto grego é usado quando confirma a tese do autor (ex. 34:7) e omitido quando discorda (ex. 20:5). E mais: Celestino erra quanto ao uso da preposição latina in, que explica muito do que ocorre nas traduções modernas que se baseiam na Vulgata. Poucas análises do livro são tiradas do latim, não deixando claro o quanto o autor domina desse idioma.

Os erros citados nos parágrafos acima poderiam ter sido facilmente evitados caso uma leitura mais cuidadosa do “Bíblia Judaica e Bíblia Cristã” (J. Barrera) – constante na bibliografia de “Analisando…”- fosse feita pelo autor. O valor da LXX e as trocas (`al/'el) não deveriam ser novidades para Celestino. Outra coisa que surpreende é no capítulo VI – um estudo de Sl 19:8 – ser afirmado que a palavra nefesh (sopro, espírito, alma, vida, ser) jamais poderia ter sido traduzida por “vida” tal como é seu similar grego psiké. Ironicamente, ela pode sim ser vertida para esse sentido como atesta outro livro de sua bibliografia – “O Judaísmo Vivo” (M. Asheri), cap. XLI – ainda que não seja seu sentido mais usual. Vale lembrar que o sentido “restaura a alma” pode ser encontrado em comentários de rabinos medievais como Gaon e Rashi (Sl 23:3). No capítulo VII, em que se dedica à tradução do salmo 23, a palavra chaim (“vida”, com sufixo possessivo chaiâi) é traduzida como plural “minhas vidas”. De fato, chaim é uma palavra palavra plural, mas não de “vida”. Ao pé da letra, ela significa “vivos” (pl. de chayy) e é em geral traduzido por “vida”, “duração da vida”, “anos de vida”. Como em Gn. 23:1: “A duração da vida de Sara foi de 123 anos”. O próprio autor traduziu Gn 2:7, no cap. IV, “… um sopro de vida…” (e não “vidas”) e reiterou esse sentido no cap. VI. Muda misteriosamente de opinião no VII sem dar ao leitor a informação que hebraico emprega muitas vezes o plural sem se referir a um plural numérico (ex. dom, “sangue”; domym, “derramamento de sangue”).

Outras questões de gramática também repercutem na língua grega. A preposição grega (ek/en) é traduzida por um simples “de” no capítulo XVII, ao contrário de seu sentido completo “a partir de”, o justificaria o uso do artigo na tradução para o português da conversa de Jesus com Nicodemos (“da água e do espírito” x “de água e de espírito”). Como se não bastasse, no capítulo VII esse mesmo versículo apareceu como “pela água e pelo espírito”. Além de trocar a preposição por outra bem distinta, pôs um artigo que mais à frente diria não existir. Ainda acerca do mesmo episódio, no que se refere à querela “do alto” x “de novo” (ambos expressos por anothen), Celestino lança mão de um suposto texto hebraico da passagem que… não possui fonte alguma! O evangelho de João só possui textos e fragmentos mais antigos em grego. Ainda se discute se a redação original foi em aramaico, mas ainda falta uma evidência documental disto. Como João foi obra de uma comunidade de cristãos helênicos, é possível que este jogo de palavras (Jesus falou um sentido, Nicodemus entendeu outro) tenha realmente existido. Traduções hebraicas do Novo Testamento datam do século XIX. Ah! E o por ele elogiado Chouraqui (cap. VIII) é um adepto do jogo de palavras. Em Tito 3:4-5, traduz palinggenesias como “reencarnação”, um possível, embora improvável uso, da palavra, principalmente quando confrontada com Mt 19:28 e outros autores cristãos.

No capítulo IX, é apresentada uma teoria da conspiração de que a doutrina da reencarnação teria sido suprimida do cristianismo por ação da imperatriz bizantina Teodora, que teria banido os ensinos do teólogo Orígenes no século VI. A questão é que o suposto estopim para a perseguição dela (o assassinato de 500 prostitutas) nunca ocorreu. Não há nenhum cronista antigo que respalde isso, mesmo o virulento Procópio fala somente de um confinamento de prostitutas em um mosteiro. Apenas caça-níqueis modernos vendem essa moeda falsa. A data da morte de Orígenes está com um erro da ordem de uns três séculos, dando a entender que a Imperatriz nem esperou o cadáver do dito cujo esfriar direito para começar a agir e, quem sabe influenciado por esse erro, o autor passa por cima das controvérsias origenistas que vieram muito antes do II concílio de Constantinopla. O pior de tudo é ele teve acesso a uma versão correta dos fatos através de um item de sua própria bibliografia (Alberigo, G. História dos Concílios Ecumênicos, Ed. Paulus, 1995) e preferiu a tese conspiratória.

Há muitos pormenores desenvolvidos no portal. Por hora fica claro que o livro está longe de ser algo imparcial (ou abusa demais do direito de ser parcial). É um livro direcionado a um público específico e se beneficiou grandemente da ignorância das línguas bíblicas entre seus leitores e, principalmente, do despreparo de católicos e protestantes. Em mais de um trecho, seu trabalho de pesquisa aparenta ser superficial, podendo ser contestado até por simples enciclopédias como a Barsa (esta ao menos acerta a data de falecimento de Orígenes e o sentido de “apocatástase”) e gramáticas. No geral, o livro é um enorme desserviço à inteligentsia espírita, estando mais para pura apologética, do que para uma verdadeira crítica textual. Um dos poucos instantes em que revela valor é quando refuta traduções que associam “agoureiros” e “adivinhos” a “médiuns” e “espíritas”. Olhando as técnicas usadas por seitas cristãs para fazer essas transformações linguísticas, repara-se algo interessante. Por exemplo, em Lv 20:27 a palavra ob tem o significado literal de “vaso”, um recipiente que é preenchido com algo, um médium que é incorporado por algo (demoníaco, na concepção deles). Ou seja, uma senhora livre associação de ideias; não muito diferente da transformação de “renascimento” em “reencarnação” de Tito 3. “Analisando…” até é um bom livro quando defende, mas quando parte para o ataque, se vale das mesmas técnicas de seus adversários. Talvez se mereçam por terem mais em comum (no mal sentido) do que pensam.

Avaliação: 3. A serem pagos em uma única cédula de papel-moeda.

Recomendado para: quem quer bancar o maioral em fóruns de internet, especialmente nos cristãos. Mas cuidado para que a máscara não caia e passes uma tremenda vergonha. Aliás, às vezes eu dou uma forcinha para que isso ocorra mais rápido.

Um Adendo

Em razão das dúvidas e clamores emitidos pelo leitor Fabrício (vide comentários abaixo), venho explicitar alguns pontos sobre por que não considero Analisando as Traduções Bíblicas possuidor de algum valor acadêmico ou científico. Julgava desnecessário fazer isso, visto que meus próprios textos deveriam falar por si mesmos, mas reações como a dele me deram o alerta que nem tudo está tão cristalino assim. Uma autocrítica é que, não afã de me embasar e exaurir assuntos, acabei por exaurir o leitor. O resultado é que muitos devem fazer leituras em diagonal e não entender realmente a gravidade da questão. Podem até terem lido a resenha acima mas não os link onde os assuntos são desenvolvidos. Como suponho que as angústias de Fabrício ante alguém que resolveu tocar numa das “vacas sagradas” do movimento espírita devem ser comuns a outros leitores, venho aqui bater os pontos mais nevrálgicos.

Eis o resumo do resumo: o problema com este livro não é o que ele diz, mas as coisas que poderiam ter sido ditar e não foram. Ou, melhor, as coisas que o autor deveria ter dito, mas, por algum ignoto motivo, omitiu. Como eu sei disso? Simples, usando a própria bibliografia que ele dá. Desculpem-me por ser repetitivo:

  • O autor se mostra um adepto da “primazia massorética”, i.e., a principal fonte hebraica disponível hoje – o Texto Massorético (TM) – seria o original em que toda e qualquer tradução deveria se basear. A questão é que o começo dos trabalhos dos sábios massoretas se deu pelo menos quatrocentos anos após os autógrafos (i.e, os primeiríssimos manuscritos) dos últimos livros do Velho Testamento e mais de um milênio depois dos textos mais antigos. Ou seja, eles preservaram maravilhosamente bem um conjunto de textos que já passara um bom tempo com uma transmissão sem estrito controle e, portanto, passível de flutuações (cf. [Barrera, IV.1, p. 439]). Ademais, o TM foi fixado, grosso modo, a partir de um único conjunto de textos (cf. [Barrera, III.2, p. 325]), e não de uma seleção dos melhores manuscritos de cada livro. Enfim, ainda que ele diga que no começo “a Bíblia possuía uma só língua ([cap. II, p.41]), não existia uma só Bíblia. As variantes que hoje encontramos também são fruto de matrizes hebraicas diversas e não apenas de sucessivas traduções;

  • Um efeito colateral da postura acima é praticamente o menosprezo do testemunho versional em Analisando…, com direito a uma motivação mais religiosa que científica:

    O talmude comenta que “o dia da tradução foi tão doloroso quanto o dia em que o bezerro de Ouro foi construído, pois a Torá não poderia ser acuradamente traduzida’. Alguns rabinos disseram que ‘as trevas cobriram a terra por três dias”, quando a LXX (Setenta ou Septuaginta) foi escrita”[grifos do autor]

    Idem, p.44

    De fato, por muito tempo se considerou a Septuaginta (LXX) como uma tradução no mínimo dúbia, por haver considerável desigualdade entre ela e o massorético em diversas partes. Essa opinião, contudo, ficou obsoleta após a divulgação dos Manuscritos do Mar Morto, pois muitos deles se assemelhavam ao que seria a matriz hebraica (Hebrew Vorlage) da LXX (cf. [Barrera, IV.1, p.448]). Assim, hoje se considera a LXX como uma janela para uma versão hebraica perdida;

  • O autor até aceita o testemunho versional quando esse o corrobora. Por exemplo, em Ex 34:7, a LXX traduz todas as ocorrências da preposição hebraico `al pela grega epi (cujo sentido básico é “sobre”). O autor ressalta isso (cap. VIII, p. 134), porém “esquece” de informar ao leitor que a LXX traduz a tal preposição, em passagens similares como Ex 20:5 e Nm 14:18, também como heos, i.e, “até” (cf. edição crítica de Alfred Rahlfs);

  • Também com traduções modernas é feita a mesma coisa:

    A excelente tradução de André Chouraqui também apresenta o texto correto sem o uso do ATÉ, além de não apresentar nenhum preconceito religioso.

    Cap VIII, 135

    Isso é verdade para Ex 34:7, mas Chouraqui usa ATÉ para Ex 20:5 (cf. [Nomes, p.245]);

  • Outra tradução moderna:

    A tradução da Torá (A lei de Moisés e as Haftarots) do rabino MEIR MATZLIAH MELAMED usa a preposição correta.

    Sim, porém de um jeito diferente daquele encontrado em Analisando…:

    Êxodo 20:5
    Analisando
    as Traduções Bíblicas
    que visito a culpa dos pais sobre os filhos, na terceira e quarta geração dos que me odeiam…
    Torá:
    A Lei de Moisés
    que visito a iniquidade dos pais nos filhos, sobre terceiras e sobre as quartas gerações, aos que me aborrecem…

    E aí? Essa diferença é uma mera questão de gosto estilístico ou a forma como está em Analisando… pode induzir um sentido de salto entre gerações no leitor? De qualquer forma, Torá: a Lei de Moisés traz a seguinte nota para Ex 20:5

    Quando os filhos continuam praticando a iniquidade de seus pais, pois os filhos não devem seguir o mau exemplo dos pais, depois de conhecer suas consequências.

    e existe observação similar em Ex 34:7. Portanto, há uma maneira de interpretar esses dois versículos (e Dt 5:9 e Nm 14:18) sem apelar para a reencarnação e mantendo a responsabilidade individual de cada um. Uma linha de raciocínio que estava acessível ao autor e não foi explorada por ele;

  • Mas afinal, qual a tradução correta para a preposição hebraica `al: “em, sobre” ou “até”? As duas. Originalmente, apenas o primeiro sentido existia, mas uma mudança linguística fez com que ela pudesse assumir o outro também:

    Algumas consoantes hebraicas representam sons não conhecidos no português, como é o caso do 'alep ('), oclusão glotal surda, e do `ayin (`), fricativo glotal sonoro, e algumas cinco sibilantes conhecidas no hebreu. Nos Manuscritos do Mar Morto e até na tradição massorética é frequente a confusão destas guturais (p.ex.: `l, sobre e 'l , até). As variantes dialetais e as modificações linguísticas de uma a outra época originaram numerosas confusões. Exemplo típico é o da diferente pronúncia de xibbolet na montanha de Efraim ou sibbolet na Transjordânia, que deu origem ao famoso episódio relatado em Jz 12:5-6

    [Barrera, parte I.1, p. 69]

    Aliás, O Dicionário Hebraico-Português, de Rifka Berezin – constante na bibliografia de Analisando… – em seu verbete para `al (pág. 501) traz os seguinte significados:

    sobre, em cima; perto, junto; até, por, para

    Os três último, devem ter se originado da confusão entre `al e 'el nos tempos bíblicos. Contudo, apenas o sentido de “sobre” encabeça o capítulo VIII de Analisando…;

  • Seu dicionário grego também informa uma multiplicidade de sentidos para epi:

    Epi - Dicionário de Isidro Pereira

    De particular interesse, são as acepções para quando esta preposição rege o caso acusativo (ac.);

  • No caso das versões latinas, a Vulgata mais especificamente, fiquei em dúvida com relação ao quanto ele domina do idioma. Na questão dos versículos Ex 20:5 e Ex 34:7, ele atribui à preposição latina in unicamente o significado de “em” (cap. VIII, p. 134-5). O próprio dicionário que ele utilizou informa que ela pode assumir diversos significados, conforme o caso (ablativo ou acusativo) que esteja regendo:

    In - Dicionário de António G. Ferreira

  • Ao final do capítulo VIII, o autor diz:

    Não sei como encontraram este sentido para a língua portuguesa, nem de onde o tiraram, pois, no hebraico, bem como, no grego e no latim, ele não existe.

    p. 135

    Ele pode até não saber mesmo, mas teria como.

  • Mudando de assunto:

    No entanto, na Bíblia de Jerusalém e na Bíblia Tradução Ecumênica, colocaram a palavra espírito (néfesh), como vida. Isto porque os tradutores se basearam em um dos significados gregos da palavra psyké (alma), que também pode significar “vida“, mas esta adaptação só pode ocorrer no significado grego, porque, no texto original em hebraico, isto não é verdadeiro, pois neshamá e nefésh significam espírito mesmo (Veja 2,7) e não vida (chaim) que, em hebraico, é totalmente diferente de (neshamá) e (néfesh) tanto na grafia quanto em significado. E aqui, especificamente, significa espírito.

    cap. VI

    Porém, uma das próprias fontes do autor -o livro O Judaísmo Vivo– diz:

    Nefesh é a centelha que mantém vivos os seres humanos. Quando falamos de “preservação da vida”, para qual quase todos os mandamentos podem ser desprezados, a expressão hebraica é pikuach nefesh. No mesmo sentido, o “perigo à vida” é denominado sakanat n'fashot. Não devemos pensar na nefesh como sendo simplesmente uma força vital mecânica ou animal; ela também contém a personalidade do ser humano, mas parece faltar-lhe qualquer qualidade puramente espiritual. A implicação do acima dito é que ela morre com o corpo.

    [Asheri, cap XLI, p. 253]

    Ou seja, em Analisando… tenta-se reencarnar algo perecível.

  • Entremos agora no famigerado II Concílio de Constantinopla ou V Concílio Ecumênico. No capítulo XI de Analisando … é dito:

    A Igreja Católica aceitava a reencarnação até o ano 553 da nossa era (p .157)

    (. . .)

    Orígenes afirmava ser a doutrina do Carma e do renascimento uma doutrina Cristã.

    Devido a esta sua crença, 299 (duzentos e noventa e nove) dias, após sua morte, contra ele a igreja decretou a excomunhão. O segundo Concílio de Constantinopla, no ano 553, decretou: Todo aquele que defender a doutrina mística da preexistência da alma e a consequente assombrosa opinião de que ela retorna, seja anátema.

    Até esta época, a doutrina do renascimento e do carma era aceita pela Igreja Cristã.
    (p. 158)

    (. . .)

    O concílio condenou o Origenismo em termos claros e severos2.
    (p. 159)

    Essa tese de que a Igreja aceita a reencarnação até o século VI foi disseminada por diversos autores espiritualistas como Prophet, Atkinson, J.R. Chaves, etc., que também aparecem na bibliografia de Analisando…. Note que não se fala de algum grupo específico de cristãos, geograficamente determinado e adepto de uma versão muitíssimo particular de reencarnação. Não: toda a Igreja Católica aceitava a reencarnação.

    A terceira citação acima foi deixada propositadamente com o índice (2) que constava no original. Este número nada mais é do que a referência bibliográfica:

    2. Alberigo, G. História dos Concílios Ecumênicos. São Paulo: Paulus, 1995.

    Bem, o que realmente continha o texto da coletânea de Alberigo acerca do origenismo?

    Nesse contexto já complicado, um novo movimento – o origenismo – veio tornar a situação realmente insolúvel. É verdade que Orígenes fora condenado há muito tempo, mas sua irradiação intelectual nunca cessou, e seu misticismo exercia constante atração sobre os monges instruídos do deserto. Na realidade, o origenismo jamais desapareceu das zonas sírio-palestinenses. Era tolerado na medida em que não criava problemas. Ora, na efervescência provocada pelas decisões do concílio de Calcedônia, tudo estava envolto pela suspeita de heresia. Pelo final do séc. V, o origenismo reapareceu sob a forma de contestação contra a ortodoxia, contra o monofisismo e contra o nestorianismo. É claro que essa quarta via não tinha muitas possibilidades em contexto tão carregado como aquele.

    [Alberigo, p. 125 ]

    Ou seja, a única fonte acadêmica sobre o assunto constante em Analisando… afirma que origenismo não só já foi condenado anteriormente, como permanecia apenas entre sectários. Mais à frente:

    Quanto ao origenismo, uma carta de Justiniano, cujo texto se perdeu (Jorge o Monge, ed. ch. De Boor, 1904, 630), servia como documento de trabalho. O decreto de 543 foi praticamente ignorado. É certo que o concílio condenou Orígenes, suas idéias, seus seguidores. São consideradas como heréticas as teorias sobre a apocatástase do universo, sobre a reencarnação das almas e outras menos conhecidas. Infelizmente, perderam-se as atas e não possuímos sequer sua tradução latina, pois a questão não interessava aos ocidentais. Ainda que nossos conhecimentos sejam incompletos nesse campo, o rápido declínio do origenismo depois do concílio indica que ele foi condenado em termos claros e severos.

    [Alberigo, p. 134 ]

    A questão não interessava aos ocidentais“, claro, pois eles – os origenistas – estavam nos mosteiros da Síria e da Palestina. De onde saiu, então, a ideia de que “A Igreja Católica aceitava a reencarnação”? Não foi do livro de Alberigo, com certeza.

    Quanto ao gatilho que levou à convocação do V Concílio, Severino Celestino da Silva opta pela versão trazida por José Reis Chaves:

    O papa, Vigílio, apesar de se encontrar em Constantinopla, recusou-se a participar do concílio convocado pelo imperador e tampouco se fez representar. O Concílio pressionado pelo imperador excomungou o papa. O papa Vigílio acabou reconhecendo o concílio em troca da suspensão de sua excomunhão.

    A esposa de Justiniano chamada Teodora, teve muita influência nos assuntos do marido e até no que se referiu à teologia. Foi ela quem acomodou os monges egípcios e os clérigos siríacos nos vários palácios da capital e sobretudo no palácio Hormisdas, que se tornara o centro da propaganda monofisista.

    Por ter sido uma prostituta, suas ex-colegas se sentiam orgulhosas e decantavam tal honra. Mas esse fato a revoltava e se constituía numa desonra, fazendo com que mandasse matar todas as quinhentas prostitutas de Constantinopla.

    Os cristãos da época passaram a chamá-la de assassina e a dizer que ela deveria ser assassinada, quinhentas vezes, em vidas futuras. Este seria seu carma por ter mandado matar suas quinhentas ex-colegas prostitutas.
    A partir daí, Teodora passou a odiar a doutrina da Reencarnação e como mandava e desmandava em meio-mundo através de seu marido, resolveu partir para a perseguição sem tréguas contra essa doutrina e contra maior defensor que era Orígenes.

    p. 158-9

    O único problema é que Teodora já estava morta em 548, uns cinco anos antes do concílio. Será que ela atuou na primeira condenação em 543? Alberigo explana que:

    Claro, o origenismo não chamava tanto a atenção dos ortodoxos, pois não questionava o concílio de Calcedônia. Mas depois do decreto de 533 e do sínodo de 536, os ortodoxos perceberam que por trás das decisões imperiais havia sempre um origenista. Roma, sobretudo, não tinha motivo para tolerar o origenismo, pois este não compartilhava as ideias romanas a propósito dos “três capítulos” (cf. Liberatus, Breviarium, ACO II V, 98-141). Os ortodoxos do Oriente começaram a se preocupar com os origenistas, pois estes fortaleciam suas fileiras com padres ortodoxos como Gregório de Nissa, Dídimo, o Cego, e outros. Sobretudo na Síria, os origenistas apareciam demais, por causa de seu grande número. Por isso o patriarca Efrém de Antioquia convocou em 542 um sínodo que condenou o origenismo. Os origenistas da Palestina recorreram, então a Pedro de Jerusalém, pedindo-lhe que não mencionasse mais Efrém nos dísticos de Jerusalém. Pedro, apertado entre as próprias opiniões ortodoxas e as pressões dos origenistas, apelou para Justiniano, com o apoio também do patriarca Mena e do representante de Roma, Pelágio. Justiniano publicou um “Edito” em 543 (Mansi, 9, col. 125-128; ACO III, 189-214) contra o origenismo. Mena aproveitou a ocasião e no mesmo ano convocou um sínodo, que deu à decisão imperial autoridade sinodal. O papa Vigílio, os patriarcas orientais, e também os origenistas de Constantinopla Ascida e Domiciano assinaram a decisão. Isso, porém, não eliminou o origenismo, que continuou a existir e predominar na Palestina. A condenação sinodal conseguiu radicalizar as posições dos origenistas, que assumiram então atitude hostil à ortodoxia.

    [Alberigo, pp. 130-131]

    Teodora nada teve a ver com a história (nem houve assassinato de 500 prostitutas). Foi tudo um problema local levado ao arbítrio do imperador e o papa não hesitou em assinar a decisão do sínodo, visto que os ocidentais não davam a mínima por Orígenes. A questão nevrálgica e real motivação para o V Concílio foram os “Três Capítulos”, i.e., a condenação de antigos teólogos cujos escritos estavam sendo utilizados pelos nestorianos (adeptos de uma distinção radical entre as naturezas humana e divina de Cristo). Justiniano esperava angariar com isso a simpatia dos monofisitas – que advogavam a preponderância da parte divina – e trazê-los de volta para a ortodoxia. Embora tais teólogo tivessem realmente sido verdadeiros protonestorianos, eles morreram dentro da ortodoxia e, por isso, o papa e demais bispos ocidentais estavam reticentes. Os ortodoxos da Palestina apenas aproveitaram a discussão dos “Três Capítulos” em Constantinopla para resolver de vez seus problemas com os origenistas;

  • O equívoco dos “299 dias” para o V Concílio contados após a morte de Orígenes deve ter se originado de um “copy/paste” de O Livro Tibetano dos Mortos [(W.Y. Evans-Wentz, Ed. Pensamento, p. 177]. Isso foi apenas, digamos, “a cereja do bolo” de um problema bem maior: parte da bibliografia de Analisando… é ruim, composta de livros de leigos que às vezes se enveredam por temas que não dominam e não se preocupam em pesquisar a fundo. Por outro lado há livros bons como os supracitados A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã, de Barrera, A História dos Concílios Ecumênicos, de Alberigo, e as traduções de André Chouraqui; contudo tenho a impressão que o autor não os leu devidamente ou fez uma leitura muito seletiva. Entre uma opinião acadêmica desfavorável e outra mais confessional que o corrobore, o autor parece preferir a segunda;

  • Há uma falha em particular que não é por uma dele fonte dizer algo em contrário, mas por ela simplesmente inexistir:

    Esta ambiguidade de entendimento só acontece na língua grega, porque no hebraico, que foi realmente a língua em que Jesus dialogou com Nicodemos, este problema não existe. O texto é bem claro e jamais pode significar ”do alto”. Diz o seguinte: (“im Iô iualed ish mimkôr ’ai lô-iukal lirôt et-malkut haelohim”) im=se, =nâo, iualed= incompleto do grau qal do verbo “nolad”= nascer, ish= um homem, mimekôr= palavra composta, formada por mi=de + makôr=fonte de água viva, origem. Existe a expressão hebraica “Mekôr chaim” que quer dizer “fonte da vida”. Observe que não existe nada referente “ao alto”, no texto grego, como muitos querem se fazer entender. Assim, o Cristo fala que aquele que não nascer em origem, no sentido de se voltar à fonte original da vida, ou seja, nascer novamente, “não poderá” (lô-iuchal=incompleto do verbo iachôl=poder) ver o reino de Deus (lirôt et-malkut haelohim).

    Cap. XVII, p. 239.

    Aqui o autor discute se melhor tradução para a palavra grega anothen, falada por Jesus em sua conversa com Nicodemos (Jo 3:3), seria “de novo” ou “do alto”. Ele conclui que o primeiro significado seria o correto, pois tal ambiguidade não existiria na língua original. Bem, ainda estou para encontrar algum teísta (espíritas entre eles) a se perguntar se tal diálogo teria realmente ocorrido e, caso sim, se alguém estava por perto tomando nota. O Evangelho pode ter sido escrito diretamente em grego, língua em que esse jogo de palavras era válido. Outra questão é quanto a língua em que esse diálogo teria se dado: o hebraico não era mais falado na Galileia à época em que Jesus viveu. Ainda era uma língua litúrgica, mas é duvidoso que Nicodemos tenha se dirigido a Jesus em outra língua que não fosse a vernacular, o aramaico. O pior não é isso: de onde saiu esse texto em hebraico que foi analisado? Todas as cópias antigas dos evangelhos chegaram até nós em grego koiné e a versão Peshitta está em siríaco. O autor deve ter se valido de um “retroversão” (como edição hebraica de Franz Delitzsch), porém não achei nenhum Novo Testamento em Hebraico na bibliografia;

  • Por fim, teço uma crítica ao sistema de referência adotado no livro. O autor indica apenas de qual obra foi extraída uma citação, sem menção alguma ao capítulo ou página. Duvido que ele, como um professor universitário, aceite alguma monografia, dissertação ou tese escrita assim. Pode apenas ter sido um desleixo, mas um efeito colateral disso é dificultar a checagem de fontes por outrem, dado que algumas delas são verdadeiros “calhamaços”.

Bem são essas as objeções que encontrei a este livro, baseando-me exclusivamente na própria bibliografia dele. Há outras críticas calcadas em outras fontes, disponíveis nos artigos linkados acima. Para as do primeiro caso, apenas o próprio autor seria capaz de rebatê-las, pois teria de deixar claro os motivos que o levaram a tal manuseio heterodoxo de suas fontes. Por que, então, ele não toma a iniciativa para respondê-las ou corrigi-las? Posso lançar algumas hipóteses:

  1. Ele as desconhece, o que acho difícil. Duvido que ao menos um dos vários apologistas que amam me odiar já não tenha entrado em contato com ele;

  2. São críticas tão infundadas que não merecem o esforço gasto em refutação. Julgo difícil que eu não tenha feito um mínimo, mas ele simplesmente parece ter pensado que não valia a pena;

  3. Seria uma propaganda negativa. Se não estou causando muito burburinho, responder-me apenas colocaria as críticas em evidência. Um outro escritor cometeu esse deslize;

  4. As críticas estão tão bem fundamentadas que respondê-las seria pior, um verdadeiro atestado de falta de solidez nos argumentos.

Seja o for, isso não impede que haja os que partam em sua defesa. Eles simplesmente refazem as traduções com outras fontes que lhes sejam favoráveis, por exemplo, com dicionários hebraicos que não contenham a acepção “até” para preposição `al. Assim, até reconhecem que as críticas existem, mas não te dizem quais são todas elas exatamente, esquivam-se de responder aos pontos mais espinhosos, fornecem explicações sobre alguns pormenores e conseguem “pregar para o coral”. Por coral, entenda como o tipo de gente que já apoiava o autor antes e que também engoliria as respostas evasivas que dão, e ainda se convence de que tudo não passa de intriga de detrator. O curioso é que, ao aprofundar a discussão, tais apologistas acabam por desnudar toda a falta de profundidade com que esses temas foram tratados nesse livro em questão. De certa forma, eles me lembram do personagem Z. Zagalo, do romance póstumo de Eça de Queirós O Conde d’Abranhos. O Sr. Zagalo fora um diligente secretário particular de Alípio Severo Abranhos, o conde que dá nome ao romance. Condoído com o falecimento do antigo patrão, a quem admirava muito, ele se põe a escrever sua biografia. O problema é que sua vida é sempre narrada de uma forma tal, que a impressão passada nem de longe é a pretendida biógrafo.

Longe de mim comparar o autor de Analisando…, cuja pessoa desconheço, com o inepto conde e, sim, seus atrapalhados defensores com o bem intencionado Zagalo. Nisso quero deixar clara a imensa diferença do que seria caluniar a figura de Severino Celestino da Silva e denunciar a pouca solidez dos argumentos usados em seu livro. Pessoas devem ser respeitadas; já suas ideias, não necessariamente. E, no caso dele, é possível perfeitamente separar o autor da obra. Isso que muitos dos comentam em tom demasiadamente emotivo não percebem.

Para saber mais

– Alberigo, G.; História dos Concílios Ecumênicos. São Paulo: Paulus, 1995.

– Asheri, Michael, O Judaísmo Vivo, Imago, 1995.

– Barrera, Julio Trebolle; A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã, Editora Vozes, 2ª ed, 1999.

– Berezin, Rifka; Dicionário Hebraico-Português, Edusp, 1ª ed., 2003,

– Chouraqui, André;A Bíblia: Nomes (Êxodo), Imago, 1996.

– Ferreira, António Gomes; Dicionário Latim-Português, Porto, 1985.

– Melamed, Meir Matzliah; Torá – A Lei de Moisés, Sêfer, 2001.

– Rahlfs, Alfred; Septuaginta, Sociedade Bíblica do Brasil, 2006. Sob licença da Deutsche Bibelgesellschaft, Stuttgart , Alemanha.