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Atlântida: Extraterrestres Reencarnados na Terra.

15 de abril de 2012 11 comentários

Índice

  • Edgard Armond e os Continentes Perdidos
  • Placas Tectônicas: o Fim de Atlântida e Lemúria
  • Atlântida: A Lenda segundo Platão
  • Um Passado enterrado no Gelo
  • Com Raça Adâmica, sem Raça Adâmica e apesar dela
  • Notas
  • Para Saber mais
    • * * *

      Edgard Armond e os Continentes Perdidos

      Em Os Exilados da Capela, Edgard Armond desenvolveu uma ideia já presente em A Gênese: a Raça Adâmica. Legiões de espíritos oriundos de mundos avançados teriam perdido o direito de lá reencarnarem por serem retardatários em seu progresso moral. Como forma de “regeneração”, foram degredados em mundos que ensaiavam os primeiros passos da vida inteligente, onde teriam uma encarnação bem mais áspera e também a oportunidade de acelerar o progresso de seus habitantes. Um desses foi a Terra.

      Armond advogava (baseado em “relatos mediúnicos”) que tal migração ocorrera a partir de um planeta do sistema solar da estrela Capela, situada na constelação de Cocheiro, “uma estrela inúmeras vezes maior que o nosso Sol e, se este fosse colocado em seu lugar, mal seria percebido por nós, à vista desarmada” (cap. I). Bem tirando o fato de uma estrela grande demais consumir seu combustível de forma extremamente rápida, tornando o aparecimento da vida complexa em seu sistema um tanto improvável (quanto mais a inteligente), continuemos.

      A migração dos capelinos teria se iniciado já nas últimas eras glaciais, num período por ele denominado “1º ciclo”. Abaixo, um mapa de como seria o mundo àquela época:

      O mundo do primeiro ciclo.

      O mundo do “primeiro ciclo”, por Edgard Armond.

      Parte dos capelinos teria se tornado os constituintes da terceira e quarta raça de “atlantes”. Seres mais avançados em relação aos demais habitantes do planeta e dotados de poderes psíquicos. Fizeram mal uso destes dons para fins de conquista e dominação. Sua corrupção e abuso de poder provocaram cataclismos que arrasaram o continente e levaram à dispersão dos sobreviventes de três sub-raças atlantes: toltecas, acádios e semitas.

      Afinal, há alguma coisa de verdade no mito de Atlântida? Antes da teoria da deriva continental, estipulada em sua forma moderna por Alfred Wegener em 1912, os paleontólogos tinham tremendo abacaxi para descascar: fósseis da mesma espécie eram encontrados em sítios de continentes distintos, separados por vastos oceanos. Como eles cruzaram tais distâncias? A primeira resposta dada foi a hipótese das “pontes continentais”: grandes massas de terra, agora submersas, que ligariam os continentes, permitindo um fluxo de populações. Um dos primeiros “grandes continentes perdidos” propostos foi Lemúria, sugerido em 1864 pelo zoólogo Philip Sclater num artigo ao Quarterly Journal of Science, [vol. I. p. 215]. Seu objetivo era explicar disparidade entre a ampla distribuição dos fósseis de antigas populações de lêmures (daí Lemúria) – encontrados pela orla do oceano Índico – e os exemplares atuais desses primatas, que estão restritos à ilha africana de Madagascar.

      A hipótese das pontes continentais sofreu refinamentos conforme outros registros fósseis eram descobertos e, em meados do século passado, a seguinte configuração para os continentes antigos era aceita:

      O mundo no carbonífero, segundo as pontes continentais.

      Distribuição de terras durante o carbonífero, segundo a antiga hipótese das pontes continentais. Fonte: Enciclopedia Labor, vol I, cap. V

      Tem-se uma ilustração relativamente semelhante à de “Exilados..”, mas esta semelhança é ilusória, pois figura representa a Terra do período geológico conhecido como carbonífero (de 360 a 286 milhões de anos atrás) e a de Armond já data do pleistioceno (1,8 milhão de anos a 11.000). A hipótese das pontes, por sinal, supunha uma distribuição geológica próxima à atual já no Terciário superior (paleoceno e eoceno – 65 a 35 milhões de anos) já mostram uma distribuição próxima à atual.

      O mundo no terciário, segundo as pontes continentais.

      Distribuição de terras durante o terciário inferior, segundo a antiga hipótese das pontes continentais. Fonte: Enciclopedia Labor, vol I, cap. V

      Embora Armond não tenha dado bibliografia clara, pode-se cogitar que bebera água de alguma fonte relacionada à teosofia. Madame Blavatsky, a fundadora dessa seita ocultista, expôs sua versão de antropogênese no segundo volume de obra Doutrina Secreta, em que não só toma emprestado o continente de Lemúria, mas também a usa a mítica Atlântica e o suposto continente Hiperbóreo. Ela também apresenta parte do vocabulário usado por Armond como “Raças-Mães” (Root Races ou “Raças-Raizes” ) e suas respectivas sub-raças.

      Esses continentes perdidos ganharam um maior desenvolvimento em The Lost Lemuria (“A Lemúria Perdida”, 1904) e The Story of Atlantis (“A História de Atlântida”, 1896), ambos de autoria do também teósofo William Scott-Elliot. Além de informações geológicas, esses livros fornecem dados sobre a suposta história e costumes dos antigos habitantes, bem algumas evidências para esses continentes, que eram baseadas pressupostos científicos da época. O conteúdo antropológico, porém, ficou apenas assentado em alegados poderes de clarividência:

      Na verdade, não há limite aos recursos da clarividência astral na investigação a respeito da história passada da Terra, seja o caso de estivermos envolvidos com os eventos que ocorreram à humanidade nas épocas pré-históricas ou com o próprio desenvolvimento do planeta ao longo dos períodos geológicos anteriores ao advento do homem, ou com eventos mais recentes, narrativas atuais que têm sido distorcidas por historiadores descuidados ou perversos. A memória da Natureza é infalivelmente acurada e não exaustivamente precisa. Tão certo como a precessão dos equinócios, chegará um tempo quando o método literário de pesquisa histórica será posto de lado como ultrapassado, no caso de toda obra original.(…)

      The Story of Atlantis, prefácio à primeira edição.

      Scott-Elliot talvez tenha se deixado levar por um excesso de otimismo, pois o tempo seria cruel para a credibilidade de Lemúria e Atlântida.

      [topo]

      Mapas Lemurianos de Scott-Elliot
      Lemuria 1 Lemuria 2

      Em vermelho, terras lemurianas. Azul, antigas terras Hiperbóreas (Ártica, Báltica e Sibéria).

      Mapas Atlantes de Scott-Elliot
      Atlântida 1

      Entre 1 milhão e 800 mil anos atrás.

      Atlântida 2

      Entre 800 mil e 200 mil anos atrás.

      Atlântida 3

      Entre 200 mil e 80 mil anos atrás.

      Atlântida 4

      Entre 80 mil e 11 mil anos atrás.

      Em vermelho, territórios de formação temporal idêntica a atlante. Em verde, territórios de outras eras (hiperbóreas e lemurianas).

      Placas Tectônicas: o Fim de Atlântida e Lemúria

      As figuras sobre as Pontes Continentais que foram extraídas da Enciclopedia Labor pertencem a uma edição de 1957, portanto são contemporâneas à primeira edição de “Exilados” (1951) e bem anteriores à morte de Armond (1982). As figuras estão lá mais como uma curiosidade, pois essa enciclopédia dá realmente mais ênfase na teoria de Wegener da deriva continental. Todos os continentes estiveram uma vez unidos num só (Pangeia), que teria se fragmentado inicialmente em dois (Laurásia, ao norte, e Gondwana, aos sul) e depois nas massas continentais modernas. Tal ideia conseguia não só explicar a distribuição dos achados fósseis, como a formação geológica contínua entre os blocos separados e o impressionante ajuste do litoral dos continentes modernos.

      Pangeia - O supercontinente.

      Pangeia e a distribuição de fósseis no triássico (200 milhões de anos).

      No entanto, por ocasião da morte de Wegener (1930), sua teoria possuía uma grande lacuna: não explicava que forças realmente moviam os continentes de forma satisfatória. A resposta definitiva só veio em 1962, com a descoberta da “tectônica de placas”. A crosta terrestre não é inteiriça, mas dividida em seis “placas” geológicas principais e outras menores que flutuam sobre o magma do manto. Suas fronteiras são delimitadas pelas dorsais e fossas oceânicas. No manto, surgem correntes de convecção provocadas pelo calor mais intenso no núcleo terrestre, que produziria correntes ascendentes parcialmente afloradas em ambos os lados das dorsais oceânicas e descendentes nas fossas oceânicas. Tanto o é que as rochas mais recentes se encontram junto às dorsais e a idade delas aumenta à medida que se afastam em direção às fossas. O assoalho oceânico se expande junto às dorsais e é reabsorvido pelo manto nas fossas. Os continentes são arrastados como pratos deslizantes durante o ciclo convectivo.

      Placas tectônicas.

      Distribuição das placas tectônicas.

      Esquemático da tectônica de placas.

      Tectônica de Placas.

      Agora vamos a uma análise pormenorizada dos argumentos “armondianos” em prol de Atlântida (cap. XIV de Exilados…).

      • No fundo do Atlântico foram encontradas lavas vulcânicas cristalinas, cuja congelação era própria de agentes atmosféricos, dando a entender que o vulcão que as expeliu era terrestre e o esfriamento de lava se deu em terra e não no mar.
        Resposta: Isto é perfeitamente factível durante a cisão de uma placa, antes que a água do mar invada a parte nova do assoalho oceânico. Mas não é por isso que as antigas terras desabam.

        Cisão de uma placa e a origem de uma dorsal.

        Formação de uma dorsal oceânica.

        Falha de San Andreas

        Falha de San Andreas, na Califórnia. Tectônica de placas a olhos vista.

      • Estudos realizados no fundo desse oceano revelam a existência de uma grande cordilheira, começando na Irlanda e terminando mais ou menos à altura da foz do rio Amazonas no Brasil, cuja elevação é quase três mil metros acima do nível médio do fundo do oceano.
        Resposta: Na verdade, ele está se referindo à cadeia de montanhas submarinas conhecida como “Dorsal Meso-Atlântica”, que vai da Islândia ao fim do continente sul-americano! Muito além do ele gostaria que fosse.

        Fundo Oceânico.

        O fundo oceânico. Ao centro, a Dorsal Meso-Atlântica.

        Ela foi formada na junção de placas por material que vem sendo expelido há milhões de anos. Eu disse EXPELIDO, não sugado. O veredicto da geologia é claro: não houve nenhum continente Atlântico, nem civilização chamada Atlântida (1).

      • Os homens de Cro-Magnon eram do tipo atlante, muito diferentes de todos os demais, e só existiram na Europa ocidental na face fronteira ao continente desaparecido mostrando que é dali que vieram.
        Resposta: É crescente a admissão da tese que os primeiros Humanos anatomicamente modernos vieram da África. Os Cro-Magnons chegaram à Europa vindos do lado oriental.

      • Os crânios dos Cro-Magnons são semelhantes aos crânios pré-históricos encontrados em Lagoa Santa, Minas Gerais (Brasil).
        Resposta: A reconstituição do crânio de uma representante típica do “povo da Lagoa Santa” revelou algo impressionante: ela tinha traços negroides! Os índios não foram os primeiros habitantes do lugar, muito menos o europeus Cro-Magnons. Esta representante foi chamada de Luzia, em homenagem a um famoso achado fóssil: Lucy, o esqueleto mais completo da espécie Autralopithecus Aferensis.

        Luzia

        Luzia, a primeira brasileira.

      • O idioma dos bascos não tem afinidade com nenhum outro da Europa ou do Ocidente e muito se aproxima dos idiomas dos americanos aborígines.
        Resposta: Segure-se na poltrona com o que vou falar: o inglês é parecido com chinês! Sim, são duas línguas em que a separação entre as classes gramaticais é bastante fluida, podendo uma mesma palavra ser utilizada ora como substantivo, ora como adjetivo ou verbo. Agora, volte à calma, pois eu esqueci de falar as diferenças: o chinês é uma língua tonal, com predominância absoluta de monossílabos; características que o inglês não possui. Sem contar que a história das línguas é radicalmente diferente. Em suma, isso é um exemplo de comparação descabida em que se ressalta apenas o que interessa e se esconde o destoante. O idioma basco, de fato, é um “corpo estanho” no meio das línguas indo-europeias que o circundam. Ele deve ser o sobrevivente de idiomas falados na península ibérica antes da chegada de celtas e romanos, mas sua origem ainda permanece um mistério. Muitas comparações entre o basco e línguas ameríndias são feitas apenas por palavras que soam parecido, mas têm escritas e significados diferentes. Como por exemplo, umiak, que em esquimó significa “canoa para toda a família”, e umeak, que em basco é usado para designar crianças (2). Um exemplo fora do basco, foi a afirmação pelo Mesoamericanista Pedro Armillas que a palavras latina ocelli (olhinhos) lembra pequenas manchas e em nahuatl, a língua dos Astecas, um gato malhado é um ocelot [Feder, cap.VI, p. 122]. Tais comparações palavra a palavra podem forçar similaridades em línguas que não têm nenhuma conexão histórica!

      • Há pirâmides semelhantes no Egito e no México, e a mumificação de cadáveres praticada no Antigo Egito também o era no México e no Peru.
        Resposta: Mais um exemplo de mostrar semelhanças e esconder disparidades. Há grandes diferenças entre as pirâmides egípcias e as americanas. As pirâmides do Novo Mundo são truncadas com topos achatados, ao passo que as egípcias são “pontudas”. Pirâmides americanas possuem escadas ascendentes em suas faces; as egípcias, não. As americanas serviam de plataformas para templos e muitas também eram câmaras funerárias para seus líderes; as egípcias não possuíam templos e eram apenas sepulturas para o faraó e suas esposas. Os métodos de construção também eram diferentes; as egípcias eram feitas em etapa única, ao passo que as americanas tinham várias etapas, em geral, representando construções justapostas uma sobre as outras. Finalmente, se as pirâmides americanas e egípcias tivessem a mesma origem em Atlântida (ou qualquer ou buraco), era de se esperar que datassem do mesmo período. Entretanto, as egípcias datam sua entre 5.000 e 4.000 anos atrás; já as americanas não são a 1.500 anos. Ambas são bem mais recentes que o desaparecimento de Atlântida (há 11.000 anos, pela datação Platão). É possível traçar um desenvolvimento autóctone da tecnologia egípcia para a construção de pirâmides. Agora, uma pergunta: a técnica de mumificação era a mesma?

      • Também se verificou que o fundo do Atlântico está lentamente se erguendo: a sondagem feita em 1923 revelou um erguimento de quatro quilômetros em 25 anos, o que concorda com as profecias que dizem que a Atlântida se reerguerá do mar para substituir continentes que serão, por sua vez, afundados, nos dias em que estamos vivendo.
        Resposta: Estamos esperando.

      Gondwana reversa

      Animação monstrando, de trás para a frente, a trajetória do antigo continente de Gondwana, a parte sul de Pageia.

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      Atlântida: A Lenda segundo Platão

      A primeira menção à Atlântida aparece no diálogo filosófico “Timeus” de Platão. Ela é descrita por Crítias, avô materno de autor (que provavelmente não estava vivo, sendo o diálogo fictício). A história teria sido repassada pelo avô de Crítias (de mesmo nome), que teria ouvido do pai dele, Drópides. Este a recebera do sábio grego Sólon, que por sua vez ouvira sacerdotes egípcios. Um relato em primeira mão, sem dúvida!

      A história contada pelos sacerdotes seria a do maior feito dos antigos atenienses. Nove mil anos antes de sua época, uma força poderosíssima vinda de além das “Colunas de Hércules” (estreito de Gibraltar) avançou sobre a Europa e a Ásia, eles possuíam uma armada de 12.000 navios e um exército de 10.000 carruagens. Os sacerdotes disseram a Sólon o nome desse poder do oceano Atlântico: a nação de Atlântida. Os atlantes eram descendentes dos dez filhos do deus Poseidon com uma mortal. Construíram formidável civilização, mas a medida que seu sangue divino foi se diluindo, tornaram-se cruéis e sedentos de dominação. Os únicos que fizeram frente aos atlantes foram aos antigos atenienses. Após os invasores terem varrido todo o norte da África até o Egito, foram derrotados em batalha por uma força menor, mas cheia de patriotismo e virtude. Após este fracasso, toda a Atlântida foi destruída numa série de terremotos e enchentes que, infelizmente, também destruiu os antigos atenienses.

      Agora considere a história que Platão conta pela boca de Crítias: um império longínquo, tecnologicamente sofisticado, mas moralmente arruinado e perverso – Atlântida – tenta a dominação mundial pela força. A única coisa a ficar no seu caminho é um relativamente pequeno grupo de pessoas espiritualmente puras, com princípios morais e incorruptíveis – os antigos atenienses. Superando a desvantagem tecnológica e numérica, os atenienses são capazes de derrotar um adversário muito mais poderoso simplesmente através da força de seus espíritos.

      Isso te lembra de algo?

      “Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante…”

      Sim, Atlântida é uma fonte de inspiração para a série Guerra nas Estrelas de George Lucas. Platão situou os fatos 9.000 antes de sua época numa região quase desconhecida (o oceano Atlântico). A sofisticada e dominadora Atlântida remete ao Império Galáctico, com sua Estrela da Morte. Os atenienses lembram a Rebelião liderada por Lea e Luke Skywalker. Ambos são vitoriosos não por uma superior capacidade militar, mas porque a “Força” (Virtude) estava com eles. Mas as narrativas são mitos: servem para entreter e dar lições morais e são igualmente fantásticas. A partir das características dos primeiros atenienses, Platão exemplifica sua sociedade ideal.

      Pois é, os atrasados nativos, sem nenhum parentesco divino (ou alma extraterrena) se provaram mais valorosos. É impressionante como a história de Atlântida foi distorcida para servir aos propósitos de místicos. Ainda bem que Edgard Armond não é muito levado a sério por centros espíritas, digamos, mais ortodoxos. Mas sua voz se faz sentir nos afins da “Aliança Espírita Evangélica” fundada por ele. O problema maior, porém, é que Armond também teve por base testemunhos espirituais mais tradicionais. Em Exilados… se encontram alusões a Emmanuel. Ele, antes de Armond, falou em exilados da Capela e em Atlântida:

      ORIGEM DAS RAÇAS BRANCAS

      Aquelas almas aflitas e atormentadas reencarnaram, proporcionalmente, nas regiões mais importantes, onde se haviam localizado as tribos e famílias primitivas, descendentes dos “primatas”, a que nos referimos ainda há pouco. Com a sua reencarnação no mundo terreno, estabeleciam-se fatores definitivos na história etnológica dos seres.

      Um grande acontecimento se verificara no planeta. É que, com essas entidades, nasceram no orbe os ascendentes das raças brancas.

      Em sua maioria, estabeleceram-se na Ásia, de onde atravessaram o istmo de Suez para a África, na região do Egito, encaminhando-se igualmente para a longínqua Atlântida, de que várias regiões da América guardam assinalados vestígios.

      Não obstante as lições recebidas da palavra sábia e mansa do Cristo, os homens brancos olvidaram os seus sagrados compromissos.

      Grande percentagem daqueles Espíritos rebeldes, com muitas exceções, só puderam voltar ao país da luz e da verdade depois de muitos séculos de sofrimentos expiatórios; outros, porém, infelizes e retrógrados, permanecem ainda na Terra, nos dias que correm, contrariando a regra geral, em virtude do seu elevado passivo de débitos clamorosos.

      QUATRO GRANDES POVOS

      As raças adâmicas guardavam vaga lembrança da sua situação pregressa, tecendo o hino sagrado das reminiscências.

      As tradições do paraíso perdido passaram de gerações a gerações, até que ficassem arquivadas nas páginas da Bíblia.

      Aqueles seres decaídos e degradados, a maneira de suas vidas passadas no mundo distante da Capela, com o transcurso dos anos reuniram-se em quatro grandes grupos que se fixaram depois nos povos mais antigos, obedecendo às afinidades sentimentais e linguísticas que os associavam na constelação do Cocheiro. Unidos, novamente, na esteira do Tempo, formaram desse modo o grupo dos árias, a civilização do Egito, o povo de Israel e as castas da Índia.

      Dos árias descende a maioria dos povos brancos da família indo-europeia nessa descendência, porém, é necessário incluir os latinos, os celtas e os gregos, além dos germanos e dos eslavos.

      As quatro grandes massas de degredados formaram os pródromos de toda a organização das civilizações futuras, introduzindo os mais largos benefícios no seio da raça amarela e da raça negra, que já existiam.

      É de grande interesse o estudo de sua movimentação no curso da História. Através dessa análise, é possível examinarem-se os defeitos e virtudes que trouxeram do seu paraíso longínquo, bem como os antagonismos e idiossincrasias peculiares a cada qual.

      Xavier, Francisco Cândido; A Caminho da Luz, FEB, ditada por Emmanuel, cap. III

      Um tanto comprometedor, pois a origem da raça branca tem sensível viés racista. Será que Emmanuel se esqueceu dos núbios que invadiram o Egito e promoveram uma dinastia de faraós negros? Com isso, não será tão fácil assim se livrar de Armond chamando-o de dissidente: Emmanuel também aparenta ser um pseudossábio, a começar pela perfumaria do linguajar: “As raças adâmicas guardavam vaga lembrança da sua situação pregressa, tecendo o hino sagrado das reminiscências.” Talvez merecesse um lugar ao lado de Ramatis.

      Mas ainda vale comentar que por volta do lançamento do livro (1939) e até um pouco depois da descoberta da tectônica de placas ainda estava disseminada a hipótese da Atlântida no meio do oceano que lhe herdou o nome, como um resquício da obra de acadêmicos difusionistas (3) como Ignatius Donelly. Isto pode explicar porque tais disparates não causaram espanto na época de publicação, mas hoje não se justificam mais. Antes que alguém diga que Emmanuel só seguiu os conhecimentos se sua época, vale reparar que ele teve acesso a supostas informações privilegiadas (a imigração capelina), então porque não o estado do fundo do mar?

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      Um Passado enterrado no Gelo

      Os seres humanos anatomicamente modernos surgiram entre 200 mil e 160 mil anos atrás. Como o que chamamos de “civilização” começou há apenas 10 mil anos, com o advento da agricultura, uma pergunta natural é por que a humanidade permaneceu tanto tempo estacionada? A tese de uma “raça adâmica” (ou capelina, se preferir) até que poderia explicar bem essa longa estase ao alegar que só após um empurrão inicial dado pelos espíritos imigrantes é que nossos ancestrais saíram da letargia. O problema é que ela gera uma nova pergunta: por que essa imigração demorou tanto? Outra alternativa é procurar uma resposta por aqui mesmo.

      Ossos são capazes de contar algo sobre nossos hábitos ou o que vivenciamos, mas não revelam tanto sobre como pensamos, afinal o cérebro não se fossiliza. Ainda assim ele deixa um “rastro” de seu funcionamento por meio dos pertences que sobrevivem a nós. Não somos a única espécie animal a se valer de ferramentas: elefantes usam galhos para se coçar, macacos de valem de pedras para quebrar cascas e de talos para capturar cupins, mas só a linhagem de hominídeos que nos deu origem foi capaz de usar ferramentas para fabricar outras mais sofisticadas. Artefatos especializados de pedra lascada existem desde os tempos do Homo Habilis, há cerca dois milhões de anos, e cada nova espécie do gênero homo aumentava a complexidade delas. Ao que o registro paleoantropológico fornece, esse desenvolvimento não foi contínuo, mas acelerado nos estágios iniciais de um novo tipo, para depois estagnar-se. De certa forma, nossos ancestrais eram conservadores.

      Por volta de 40 a 50 mil atrás (ou, quem sabe, 100 mil anos), embora anatomicamente a espécie homo sapiens permanecesse a mesma, alguma coisa mudou em sua fisiologia, no modo como seu cérebro funcionava. As ferramentas de pedra continuaram a ser fabricadas, só que agora eram produzidas ao lado de inusitados artefatos como:

      Virgem

      A Virgem de Willendorf

      Estatueta de Mamute

      O Mamute de Vogelherd

      Lascaux

      Caverna de Lascaux: Salão dos Búfalos

      Ao contrário das ferramentas produzidas até então, esses objetos não tinham, sob um olhar bem estrito, nenhuma aplicação prática sequer. Contudo, esses primórdios da arte se revelam ser a exteriorização que chegou até nós de uma aquisição mais profunda e extremamente útil de nossos antepassados diretos: o raciocínio simbólico. A erupção da arte pré-histórica indica quando o cérebro humano atingiu a capacidade de não apenas reagir ao mundo exterior, mas também produzir uma própria realidade, um mundo interior.

      Não foi a arte que levou a um salto evolutivo, pois suas vantagens na luta pela sobrevivência não são tão imediatas quanto a das ferramentas. Na verdade, a ela deve ter sido um subproduto do raciocínio simbólico. Graças a ele é possível se desenvolver estratégias de longo prazo, níveis sofisticados de linguagem e a religiosidade, que daria suporte nas vicissitudes.

      O que teria desencadeado tal mudança? Aqui se entra no território das conjecturas, onde hipóteses plausíveis podem ser dadas embora uma validação completa só fosse possível com a invenção de uma máquina do tempo (ou que permitisse ver o passado). Um leitor espiritualista poderia alegar que foi a suposta migração espiritual interplanetária que deu origem aos humanos fisiologicamente modernos, mas de que adiantaria colocar espíritos mais avançados em corpos que não estariam preparados para eles? Cogitemos uma engenharia genética “em outro plano”, então porque a espécie escolhida foi a de nossos ancestrais e não a de seus primos neandertais, com quem conviveram por um bom tempo? Sem contar que a capacidade craniana deles era 10% maior que a nossa e, mesmo com todo esse tamanho, suas manifestações culturais foram bem mais modestas.

      A razão pode estar bem aqui neste planeta, não grafada em livros – eram tempos ágrafos, lembre-se – nem em pinturas de cavernas, pois o horizonte de nossos ancestrais era limitado à memória dos anciãos, mas registrada na própria natureza. Nesse caso falo do gelo preservado na Groenlândia, um genuíno sobrevivente das era glaciais mais recentes deste planeta. A análise das camadas que o compõe revelam que o (sub)período geológico conhecido como Holoceno (de 10 mil anos atrás até hoje) foi consideravelmente quente se comparado com o anterior – o Eemiano (120 mil a 10 mil anos atrás), época em que se desenrolou a maior parte da existência de nossa espécie. E quando postos lado a lado os gráficos de Temperatura Média por Tempo de ambos os períodos, o que chama mais atenção é a amplitude das oscilações do Eemiano, mesmo se levando em conta sua duração maior. Esses extremos de rigor ficaram gravados na (relativamente) pequena variabilidade genética atual da espécie humana quando comparada a outras muito mais diversificadas: originamo-nos de poucos e quase fomos extintos nesse período. Os que sobreviveram o conseguiram, provavelmente, por causa dessa mutação na fisiologia cerebral e a repassaram adiante. Foi a velha seleção natural em ação.

      Eemiano

      Dados do núcleo de gelo da Groenlândia Fonte: [Cook, cap. I, p. 22]

      Holoceno

      Dados do núcleo de gelo da Groenlândia Fonte: [Cook p. 23]

      As mesmas mudanças abruptas que, indiretamente, nos moldaram foram as mesmas que impediram que nossos ancestrais dessem um passo adiante. Quando se está submetido a um ambiente demasiadamente hostil, pouco há o que fazer além de sobreviver, como atestam os povos ainda no estágio de caçadores-coletores vivendo nos desertos, selvas e no Ártico. Foi preciso a chegada do Holoceno com seu clima suficiente ameno, estável e longo para existir uma janela de tempo em que a humanidade criou a agricultura, a domesticação, dando origem à civilização. Já estávamos prontos bem antes, apenas aguardando um ambiente mais propício para nosso potencial.
      [topo]

      Com Raça Adâmica, sem Raça Adâmica e apesar dela

      Que também se ressalte a necessidade de “dar tempo ao tempo” para que as coisas aconteçam. Isso parece um truísmo, mas para as gerações recentes, que já vivenciaram mudanças rápidas ao longo de sua vida, isso não parece tão óbvio assim. Sempre foi necessário que a humanidade crescesse numericamente (“muitas cabeças pensam melhor que uma”), acumulasse descobertas, preservasse-as e, principalmente, disseminasse-as entre si até atingir “massa crítica” para passar de uma etapa para outra. Por exemplo, os romanos foram habilidosos engenheiros, legando-nos notáveis realizações, geralmente ignoradas pelos místicos, que só têm olhos para os Egípcios e os Astecas. Então por que não foram capazes de inventar a bomba atômica? A resposta é que, embora tivessem plena capacidade intelectual para isso, careciam de conhecimentos de Física, Química e Matemática que só viriam a ser desenvolvidos muito depois e nem sempre com fins bélicos. Certo que esse exemplo foi um tanto exagerado, pois os romanos jamais inventariam algo que sequer conjecturavam, mas já na Grécia antiga existia a lenda de Dédalo e Ícaro, então por que o sonho de voar só se concretizou no começo do século XX? Por mais alto que voasse a imaginação helênica, nada poderiam fazer sem os conhecimentos de aerodinâmica, metalurgia, um motor de combustão interna e várias, várias tentativas mal sucedidas (quando não fatais) de voo em aparelhos mais pesados que o ar. Esses e todos os demais fracassos na busca por inovações deixam a lição de que nenhum progresso é a ponta de uma sequência ininterrupta de êxitos, mas o remanescente de inúmeros ensaios, malogros, pistas falsas, hipóteses frustradas e recomeços. Perdemos grande parte do “sentimento” quanto a essa dificuldade em razão, ironicamente, de nossa instrução escolar, que muitas vezes passa a visão romântica e linear de uma história científica capitaneada por ilustres sábios (4). Afinal de contas, por acaso haveria Física Clássica sem Isaac Newton, Relatividade sem Albert Einstein, Teoria da Evolução sem Charles Darwin, máquina a vapor sem James Watt, etc? A realidade não é tão simples assim:

      • Isaac Newton: Ele deveu muito a Kepler e Galileu. Robert Hook, contemporâneo seu, acusou-o de plagiar parte da gravitação universal. Ele entrou em choque com Leibniz pela primazia da invenção do Cálculo Diferencial e Integral, porém ambos devem a predecessores como Arquimedes, Wallis, Cavalieri, Pascal, Fermat;

      • Albert Einstein: A primeira versão de sua teoria – a Relatividade Restrita – deve muito aos trabalhos de Henri Poincaré e Hendrik Lorentz. Aliás, as equações para tempo e massa relativísticos recebem o nome de “transformações de Lorentz”. O conceito de espaço-tempo, utilizado na Relatividade Geral, foi proposto por Hermann Minkowski;

      • Charles Darwin: Correu para publicar seu estudo sobre a evolução das espécies ao saber que outro naturalista – Russel Wallace – chegara a conclusões muito próximas. A publicação foi conjunta e hoje ambos são considerados os descobridores do mecanismo da “seleção natural”, embora o lançamento por Darwin do livro “A Origem das Espécies” o tenha deixado mais conhecido junto ao público. O problema aqui é ele não deu o devido crédito a uma pessoa que identificou esse mecanismo muito tempo antes: seu próprio avô paterno Erasmus Darwin;

      • James Watt: Sua máquina a vapor é, essencialmente, um aperfeiçoamento do motor projetado por Thomas Newcomen.

      A ideia de que missionários são cruciais para o avanço da humanidade não se sustenta, pois um avanço científico-tecnológico é, em linhas gerais, o trabalho de levar um passo adiante o conhecimento que outros obtiveram, e não algum tipo de reminiscência de outro planeta. A Ciência é uma criação coletiva em que várias mentes trabalham equipe ou trocando informações entre si. Um exemplo notável disso foi o nascimento da Mecânica Quântica no começo do século XX, que, de Plank a Bohm, colecionou vários “pais”. Um avanço pode ser fruto do próprio ambiente do descobridor, pois quando a matéria-prima e o ferramental já estão todos à disposição, aumentam as chances de mais de um grupo de pessoa reuni-los. Que digam as disputas por primazias e reconhecimento:

      Que isso [uso de anagramas para atestar autoria] não funcionou muito bem como meio de estabelecer anterioridade ficou demonstrado pelos estudos do sociólogo Robert K. Merton, que verificou que 92% dos casos de descobertas simultâneas no século XVII terminaram em disputas. É, provavelmente, ao desenvolvimento do artigo científico que devemos uma diminuição do questionamento das precedências nos séculos posteriores. Merton cita os números de 72% no século XVIII, 59% por volta da segunda metade do século XIX, e 33% na primeira metade do século XX. Talvez se tenha percebido melhor, à medida que passava o tempo, que a descoberta simultânea é um fato bastante usual.

      Fontee: [Hellman, cap. III].

      * * *

      Os livros de História costumam lembrar mais dos generais que dos soldados, até por razões práticas. Mas sempre chega a hora que é preciso lembrar que não se ganha guerra sozinho e dar voz aos desconhecidos pés e mãos dos campos de batalha. Da mesma maneira, não tiremos o mérito de quem chegou lá, só não esqueçamos daqueles que indicaram o caminho, dos que alertaram, por experiência própria, sobre os becos sem saída e de quem forneceu calçados e mantimentos para a jornada rumo ao progresso (5). Esses bem terrenos anônimos e ilustres desconhecidos são invisíveis aos místicos, espiritualistas e “ascencionados” justamente por terem sido o que somos: humanos (terrenos e encarnados), encantadoramente humanos.
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      Notas

      (1) [Feder, cap. VIII, p. 202]

      (2) Extraído de Os Grandes Mistérios da Ciência, encarte de Superinteressante, outubro de 2003, pág. 13, De onde vem o idioma basco?.

      (3) Escola que desacreditava a possibilidade de grandes avanços tecnológicos e culturais poderem se repetir em regiões distintas do globo. Poucos locais seriam núcleos de ideias originais e as repassariam às sua áreas de influência. Atlântida caiu como uma luva para eles na explicação de, por exemplo, existirem pirâmides tanto na Meso-América como no Egito. Só esqueceram ressaltar, como já foi dito, as inúmeras diferenças entre elas.

      (4) Cf. [Diammond]

      (5) Sugestão de Leitura: [Rothman]

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      Para Saber mais

      Sobre o Mito de Atlântida

      – Felder, Kenneth L.; Frauds, Myths and Mysteries – Science and Pseudoscience in Archaeology, McGraw Hill, 4 ª ed.

      – Vidal-Naquet, Pierre; Atlântida – Pequena História de um Mito Platônico, tradução de Lygia Araújo Watanabe, Unesp, 2008.

      Sobre a Antiga Hipótese das Pontes Continentais

      Enciclopedia Labor, Tomo I, “Geologia General”, cap. V, Editorial Labor, Madri, 1957.

      – Sclater, Philip L., Some Dificulties in Zoological Distribution, 1878, acessado em 14/04/2012. Traz uma referência a seu artigo original sobre Lemúria.

      Sobre a Deriva Continental e as Placas Tectônicas

      Enciclopedia Labor, Tomo I, “Geologia General”, cap. V, Editorial Labor, Madri, 1957

      Placas tectônicas – Movimento de placas muda relevo, UOL Educação, acessado em 14/04/2012.

      – Uyeda, Seiya; La Nueva Concepcíón de la Tierra – Continentes y Océanos en Movimiento, Blume Ecología, Barcelona, 1980.

      Sobre os Primeiros Passos da Humanidade Moderna

      Journey of Mankind – Um conjunto de infográficos virtuais do portal de Arqueologia da Bradshaw Foundation. Em inglês.

      – Cook, Michael; Uma Breve História do Homem, Jorge Zahar Editor, 2003.

      = Diamond, Jared; O Terceiro Chimpanzé – A Evolução e o Futuro do Ser Humano, Record, 2011.

      – Mithen, Steven; Depois do Gelo – Uma História Humana Global 20.000 – 5.000 a.C., Imago, 2007.

      Sobre a Dinâmica da Ciência

      – Hellman, Hal; Grandes Debates da Ciência – Dez das maiores contendas de todos os tempos, UNESP.

      – Rothman, Tony; Tudo é Relativo, Bertrand Brasil, 2005.

      Obras Esotéricas Citadas

      – Blavatsky, H.P. The Secret Doctrine, 1888, acessado em 14/04/2012 em Sacred Texts.

      – Scott-Elliot, William; The Story of Atlantis, 1896, acessado em 14/04/2012 em Sacred Texts.

      _________________; The Lost Lemuria, 1904, acessado em 14/04/2012 em Sacred Texts.

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