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Dragões e Duendes

30 de dezembro de 2011 1 comentário

O Dragão na Garagem

Suponhamos, por exemplo, que alguém lhe diga que um dragão que cospe fogo pelas ventas mora em sua garagem. Como você reagiria a essa afirmação?

Onde está o dragão? – você pergunta.

– Esqueci de lhe dizer que é um dragão invisível.

-Você propõe espalhar farinha no chão da garagem para tornar visíveis as pegadas do dragão.

– Boa ideia, mas esse dragão flutua no ar.

-Então você quer usar um sensor infravermelho para detectar o fogo invisível.

– Boa ideia, mas o fogo invisível é também desprovido de calor.

-Você quer borrifar o dragão com tinta para torná-lo visível.

– Boa ideia, só que é um dragão incorpóreo e a tinta não vai aderir

Extraído de “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, de Carl Sagan

Quantos dragões aparecem na vida de um indivíduo?

  • Um adepto de feng shui tentando explicar por que certos indivíduos conseguem viver bem em ambientes bagunçados;
  • Um astrólogo se justificando por que não considera o movimento de precessão dos equinócios em seus mapas astrais, apesar de seu colega de profissão da antiguidade, Ptolomeu, ter considerado;
  • Um(a) chefe de família explicando ao filho porque Papai Noel não trouxe aqueles presentes caros para as crianças, no último Natal;
  • Um político culpando misteriosas intrigas da oposição pela crise em seu governo.

Todos casos acima se aproximam cada vez mais de um “dragão na garagem” à medida que justificam seus fracassos com respostas cada vez mais sofisticadas e, pior, difíceis de serem questionadas. Não que sejam argumentos primorosos, mas porque a chave de suas explicações está onde ninguém pode alcançar. Tentam empurrar os que questionam a dilemas no melhor estilo “ou eu ganho, ou você perde”.

A presença de vida interplanetária mais avançada que nós em locais como Júpiter (segundo a codificação) ou Marte (em algumas comunicações posteriores) são alegações bem extraordinárias. Civilizações mais avançadas que nós deveriam emitir tantas ondas de rádio moduladas que já deveriam ter sido detectadas há muito tempo. Daí parte-se para especulações: nossos instrumentos são muito primitivos ainda (apesar dos progressos constantes), eles estariam tão avançados que ondas de rádio se tornaram obsoletas para eles ou sabem como camuflá-las e, por fim, seriam seres feitos de uma matéria sutil invisível para nós, mesmo indiretamente.

Esta (falta de) atitude é lamentável para quem pretende ter um viés científico. Enquanto os alienígenas não resolvem dar o ar de sua graça e não somos capazes de ir lá para xeretar, cacemos os dragões invisíveis, flutuantes, intangíveis e de fogo frio que habitam as mentes dos terráqueos.

Alice, os duendes e o sono do rei

Venha vê-lo”, exclamaram os dois irmãos pegando Alice, cada um por uma mão, para levá-la até onde o Rei dormia.

“Ele não é adorável?”, perguntou Tweedledum.

Com toda a honestidade, Alice não podia dizer que achava que fosse. Ele tinha na cabeça um grande gorro de dormir vermelho enfeitado com uma borla e jazia encolhido numa espécie de monte imundo. Além disso, roncava ruidosamente: “É de estourar os miolos!”, como observou Tweedledum.

“Tenho medo que ele pegue um resfriado, ficando deitado assim no capim úmido”, disse Alice, que era uma menina muito precavida.

“Neste momento, ele está sonhando”, disse Tweedledee; “e com o que você acha que ele sonha?”

“Ninguém pode adivinhar”, respondeu Alice.

“Ora, vamos, ele sonha com você”!, exclamou Tweedledum batendo palmas com um ar de triunfo. “E se ele parasse se sonhar com você, onde você acha que estaria?”

“Onde eu estou agora, claro”, disse Alice.

“Nunca na vida!, replicou Tweedledee com um ar de profundo desprezo. “Você não estaria em lugar nenhum. Você é apenas uma espécie de objeto aparecendo no sonho dele!”

“Se o Rei aqui presente pro acaso acordasse”, acrescentou Tweedledum, “você estaria soprada -puft – exatamente como uma vela!”

“Isso não é verdade!”, exclamou Alice indignada. “Então, se eu sou apenas uma espécie de objeto no sonho dele, eu gostaria de saber vocês, o que são?”

“Idem”, disse Tweedledum.

“Idem, idem”, repetiu Tweedledee.

Ele gritou tão alto que Alice não pode deixar de rir: “Psiu! Tenho medo que você o acorde com tanto barulho”.

“Ora vamos, como você pode falar em acordá-lo”, redarguiu Tweedledum, “se você é apenas um dos objetos aparecendo no sonho dele. Você sabe muito bem que não é real”.

“Claro que sim, claro que sou real!”, protestou Alice começando a chorar.

“Não é chorando que você vai ficar mais real”, observou Tweedledee; “e isso não é motivo para chorar”.

“Se eu não fosse real”, disse Alice – meio rindo por entre as lágrimas, de tanto que aquilo era ridículo – “ eu não seria capaz de chorar”.

“Espero que você não tome isso que cai de seus olhos como lágrimas de verdade?”, disse Tweedledum num tom do mais perfeito desprezo.

Lewis Carrol, Do outro lado do espelho.

Lewis Carrol, ou melhor, Charles Dogson foi um matemático de Oxford na era vitoriana, mas só assinava seu nome verdadeiro nos trabalhos “sérios”. Mesmo assim, seus viés matemático permeia suas famosas obras literárias como Alice no país das maravilhas e Do outro lado do espelho, que estão cheias de raciocínios de lógica simbólica, ocultos em meio às fantasias.

Aqui somos apresentados ao “paradoxo do sonhador”, que não deixa de ser uma variante do “dragão não garagem”. A história tem diversas maneiras de ser contada, como por exemplo:

  • Seria você, leitor, um cérebro armazenado no recipiente de um laboratório, recebendo estímulos por sensores artificiais, a fim de que “pense” ser um humano completo? Ou se preferir:
  • Você está dentro da Matrix? Prove que sim (ou não).

O que torna a situação praticamente impossível de se refutar é você que está dentro do problema, quando a possível resposta é externa a ele. Originalmente, Alice se considerava “do lado de fora”, mas foi puxada para o interior quando se deixou convencer que que tudo girava em torno do sonho do rei. Inclusive o fato de ele acordar.

Um problema mais cabeludo surge quando dois (ou mais) interlocutores estão presos cada um em “sonhos” diferentes. O pior é que cada um tenta dialogar com argumentos que só são válidos para quem também está tendo “o mesmo sonho”. No embate de ideias, mais ainda quando elas envolvem um fundo religioso, isto gera toda sorte de discussão estéril, em que facilmente se perde a educação e se parte para alegações de cunho passional. Afinal, cada um só enxerga o próprio umbigo.

Logo de começo, esquece-se que se está debatendo com alguém que não partilha boa parte dos valores e paradigmas a que estamos acostumados. Aquela argumentação julgada como “irrefutável” entra por um ouvido e sai pelo outro, quando não é feita de piada pelo interlocutor. Isto é algo que pode ser evitado se ao menos se tentar entender um pouco da doutrina alheia e, por que não, estudá-la. Você pode muito bem julgar o dogma católico da “infalibilidade papal” um absurdo total (também acho), porém se, ao debater com um católico, indagar “como pode um homem cheio de erros querer ser infalível em questões de fé?”, dará a impressão ao outro de que não sabe do que fala. Outra parte da tarefa já não depende só de um, e sim de ambos os lados em sua disponibilidade para ceder um pouco e tentar ir juntos a um tipo de terreno neutro, onde os dois estejam “acordados”.

Com certa dose de boa vontade e respeito, é possível manter um tom agradável de uma boa conversa no lugar de um diálogo ácido, evitando desnecessárias hostilidades.

Ou não.

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