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Pastorino, o Santo Graal e os Dinossauros Venusianos (Em Construção, 25/04/21)

18 de abril de 2021 Comentários desligados

Com este artigo, pretendo iniciar uma série sobre algumas técnicas, digamos, “criativas” do ex-padre, escritor de autoajuda e tradutor espírita Carlos Torres Pastorino, nacionalmente conhecido como o autor do best seller chamado Minutos de Sabedoria. Entretanto, não é sobre essa obra que eu pretendo falar, e, sim, sobre outra mais técnica deles: a coleção Sabedoria do Evangelho.

De certa forma, já falei dela no artigo Palingenesia: colocando o carro na frente dos bois, em que trato dessa palavra grega, referida por Pastorino no capítulo inicial do segundo volume de Sabedoria. Não pretendo me focar especificamente no preciosismo de palavras aqui, mas usar um ou outro caso sobre atitudes recorrentes em suas traduções.

Alego, também, que não vou entrar no mérito das interpretações sucessivamente mais livres de passagens da Bíblia, pois são como testes de “figuras de Rorschach”: podem ser o que você quiser. No caso de Sabedoria do Evangelho, as interpretações progressivamente alegóricas e místicas visam sustentar o ponto de vista kardecista. O foco deste portal é buscar qual seria a interpretação dos primeiros leitores, baseando-se no contexto em que viviam. Por exemplo, o Livro do Apocalipse: em cada geração há os intérpretes ávidos em relacionar suas alegorias com supostos “sinais” de sua própria época, em vez de buscar o que um leitor do começo do século II suporia ao ler o texto.

Comecemos apresentando um extrato contaminado -suponho inadvertidamente- por uma falácia lógica chamada: “exclusão do termo médio”.

Levanta-te!

O caso em estudo corresponde à seguinte passagem:

OPINIÃO DE HERODES

Mat. 14:1-2 Marc. 6:14-16 Luc. 9:7-9
1. Nessa época, ouviu o tetrarca Herodes a fama de Jesus 14. E Herodes o rei ouviu (porque o nome dele se tornava conhecido) e disse: “João o Batista despertou dentre os mortos, e por isso os poderes operam nele”. 7. Ora, o tetrarca Herodes ouviu tudo o que foi feito por ele (Jesus), e admirou-se, porque era dito por alguns:
2. e disse a seus cortesãos: “esse é João o Batista; ele despertou dentre mortos, e por isso os poderes operam nele”. 15. Outros diziam: “É Elias”; outros ainda: “É profeta, como um dos profetas” 8. “João despertou dentre os mortos”, por outros: “Elias apareceu”, e outros: “reencarnou um dos antigos profetas”.
16. Mas, ouvindo isso, Herodes dizia: “É João, que eu degolei, que despertou dentre os mortos”. 9. Disse, porém, Herodes: “Eu degolei João, mas quem é este de quem ouço tais coisas”. E procurava vê-lo.

Além da ação pessoal de Jesus a pregar as Boas-Novas, houve um recrudescimento de fatos extraordinários, que se multiplicaram com a saída dos Emissários Dele, por diversas aldeias concomitantemente. A fama de Jesus, em nome de Quem todos agiam, cresceu muito, estendendo-se tanto que chegou aos ouvidos do tetrarca daquela região.

As palavras de Herodes dão a perfeita impressão de que ele se convenceu da ressurreição de João Batista, “ressurreição” no sentido atual do termo, isto é, que o “morto” voltara a viver no mesmo corpo.Herodes não se refere à reencarnação, conforme o notara já Jerônimo (Patrol. Lat. vol. 26, col. 96)com razão: Jesus tinha mais de trinta anos, quando João desencarnou.

* * *

Para fins de estudo, observemos o emprego dos verbos gregos nesses textos, e para isso analisemos antes os próprios verbos.

Aparecem dois; egeírô e anístêmi, ambos traduzidos correntemente com a mesma palavra portuguesa:”ressuscitar”. Mas o sentido difere bastante de um para outro.

EGEÍRÔ, composto de GER com o prefixo reforçativo E (cfr. o sânscrito ajardi, que significa “estar acordado”) tem exatamente o sentido de “despertar do sono, acordar”, ou seja, passar do estado de sono ao de vigília. Era empregado correntemente com o sentido de ressuscitar, isto é, sair do estado de sono da morte, para o da vigília da vida. Para não haver confusão, acrescentava-se ao verbo o esclarecimento indispensável: egeíró ek (ou apó) nekrôn, “despertar de entre os mortos”.

ANÍSTÊMI, composto de ANÁ (com três sentidos: “para cima”, ou “de novo” ou “para trás”) e ÍSTÊMI (“estar de pé”). De acordo com as três vozes, teríamos os seguintes sentidos:

  1. voz ativa (transitivo) – “levantar alguém”, “elevá-lo”; ou “tornar a levantar”, ou então “fazer alguém voltar”;
  2. voz média – “levantar-se” (do lugar em que se estava sentado ou deitado, sem se cogitar se se estava desperto ou adormecido), ou “tornar a ficar de pé”, ou “regressar” ao lugar de onde se viera;
  3. voz passiva – “ser levantado por alguém”, ou “ser posto de novo em pé”, ou “ser mandado embora de volta”.

Esse verbo, portanto, apresenta maior elasticidade de sentido que o anterior, podendo, inclusive, ser interpretado como “ressuscitar”; com efeito, não só a ressurreição pode ser compreendida um “despertar do sono da morte” (egeírô, que é o mais exato tecnicamente), como também pode ser entendida como um “levantar-se” de onde se estava deitado (o caixão); ou como um “tornar a ficar de pé”; ou como um “regressar ao lugar de onde se veio”. No sentido de ressuscitar foi usado por Homero (“Ilíada”, 24, 551), por Ésquiles de Elêusis (“Agamemnon”, 1361), por Sófocles (“Electra”, 139), etc.

No entanto, esse verbo anístêmi apresenta outro sentido muito importante, e que geralmente é desprezado pelos hermeneutas, que procuram esconder as ideias originais dos autores, quando não estão de acordo com a sua, e isso até em obras “cientificamente” organizadas (Não estamos fazendo acusações levianas. Para só citar um exemplo moderno, tomemos a obra “Lexique de Platon, publicada em dois volumes (1964) pelas edições “Les Belles lettres” (portanto editora crítica, da qual se espera fidelidade absoluta ao original). Pois bem, nessa obra, preparada pelo padre Édouard des Places, jesuíta, não figuram anístêmi, nem egeírô, nem o substantivo anástasis, nem qualquer outra palavra que signifique “reencarnação” …), e é o sentido de “reencarnar”. Realmente, a reencarnação é um “levantar-se” para reaparecer na Terra; é um “tornar a ficar de pé”, e é sobretudo um “regressar ao lugar de sua vida anterior”. Nesse sentido foi bastante empregado pelos autores gregos. Anotemos, todavia, que esse não era um verbo especializado nesse sentido, como o é, por exemplo, ensómatóô ou o substantivo paliggenesía. Numerosas vezes é usado, mesmo nos Evangelhos, com a simples acepção de “levantar-se” do lugar em que se estava sentado (cfr. Marc. 3:26; Luc. 10:25; At. 6:9, etc.).

Daí a necessidade de interpretar, pelo contexto, qual o sentido exato em que foi empregado.

Ora, nos textos em estudo, os três sinópticos referem-se à opinião de Herodes com o mesmo verbo egeírô (que sistematicamente traduzimos por “despertar”, seu significado real e etimológico). No entanto, o próprio Lucas que empregou egeírô para exprimir a ideia de “ressurreição”, nesse mesmo versículo 8, para exprimir o “regresso à Terra” de algum dos antigos profetas, muda o verbo, e usa anístêmi … Então, não era a mesma coisa: João “ressuscitara”, despertara do sono da morte; mas o antigo profeta “regressara à Terra”, ou seja, em linguagem moderna, “reencarnara”. E assim traduzimos, acreditando haver agora justificado nossa tradução afoita.

Para antecipadamente responder à objeção de que não havia esse rigor “literário” nos evangelistas, queremos chamar a atenção para o verbo usado com referência a Elias. Era crença geral que Elias não desencarnara, mas fora raptado num carro de fogo (cfr. 2.º Reis, 2:11). Ora, nesse caso especial, não podia ser empregado egeírô (despertar dentre os mortos), nem anistêmi (reencarnar); e de fato, nenhum dos dois foi usado por Lucas, e sim um terceiro verbo: epháne, isto é “apareceu”.

Bem, meditem sobre essas observações e, quando estiverem quase convencidos, se distraiam com o grupo humorístico inglês Monty Python!

O Julgamento da Bruxa

Na cena do julgamento da bruxa, do filme Monty Python e o Cálice Sagrado, a quantidade falácias contidas é tamanha, que é fácil se perder no meio do “raciocínio”. Melhor ir por partes:

Alegação Problema
Essa mulher é uma bruxa porque se parece com uma. Não passava de uma jovem mal disfarçada pelos aldeões para parecer com uma bruxa.
Ela transformou alguém em verme. O sujeito não mudou tanto assim (engordou um pouco).
Bruxas queimam, madeira queima. Logo bruxas queimam porque são feitas de madeira. Vários outros materiais também queimam. Os aldeões citam alguns exemplos.
Pontes são feitas de madeira, contudo outros materiais, como pedras, também podem ser usados na construção de pontes. Aqui está certo: fazer uma ponte com bruxas não ajudaria a elucidar.
Madeira flutua na água. Patos também flutuam na água, logo uma bruxa deve pesar o mesmo que um pato. Vários outros materiais também flutuam, novamente elencados pelos aldeões. Ademais, o que faz um corpo flutuar não é seu peso, mas o fato de possuir uma densidade menor que a da água.
Se ela pesar o mesmo que um pato, a será feita de madeira. E assim será um bruxa! Faz sentido.

Das diversas falácias inclusas nesse exemplo de humor inglês, uma se destaca: a do termo médio não distribuído.

Creio que muitos já devem ter ouvido falar na expressão silogismo categórico, isto é, um raciocínio dedutivo básico em que, a partir de duas premissas, chega-se a uma conclusão. Um dos exemplos mais “clássicos” e simples é:

Todo homem é mortal.
Sócrates é homem.
Logo, Sócrates é mortal.
Que utiliza apenas afirmações universais. Sua estrutura pode ser definida assim:
Todo A é B.
(Todo) C é A.
Logo, (todo) C é B.

Neste caso, A representa o termo médio, ao estar presente nas duas premissa, conectando-as. Diz-se que um termo está distribuído quando um predicado que lhe é feito abarca a todos de sua classe. Uma das regras para a validade de um silogismo estabelece que o termo médio deve estar distribuído em ao menos uma das premissas. No exemplo acima “homem” está distribuído na primeira premissa.

Uma falácia surge quando essa distribuição não ocorre em nenhuma delas, como neste exemplo:

Todos os cearenses são brasileiros.
Todos os baianos são brasileiros.
Logo, todos os baianos são cearenses.

A conclusão é, evidentemente, falsa. Neste caso, o termo médio é “brasileiros” e nem cearenses, nem baianos abarcam sua totalidade.