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Abrindo a Boceta de Pandora: Pastorino e a Falácia Etimológica (22/06/22)

15 de maio de 2022 1 comentário

Confessa: Pensou naquilo, hein?

Índice

Em Busca das Origens


“Concluo que não se devem abolir as loterias. Nenhum premiado as acusou ainda de imorais, como ninguém tachou de má a boceta de Pandora, por lhe ter ficado a esperança no fundo; em alguma parte há de ela ficar. “


Que diria o “Bruxo do Cosme Velho”, se soubesse que esse trecho do sétimo capítulo de Dom Casmurro soaria tão estranho cem anos depois do lançamento? Se meu leitor de hoje consegue depreender o que ocorreu com a antes inocente palavra “boceta”, não terá dificuldade em entender a minha crítica a seguinte passagem de Sabedoria do Evangelho”, por Carlos Torres Pastorino. E sem maldade alguma.

INSTRUÇÕES AOS EMISSÁRIOS – PARTE I

(Ano 30 A. D. ou 783 A. U . C. – Janeiro – Fevereiro)

Mat. 10:5-15 Marc. 6:7 -11 Luc. 9:1-5
5. A estes doze (veja vol. 2) enviou Jesus, dando-lhes estas instruções: ‘Não ireis pelas estradas dos gentios, nem entrareis nas cidades dos samaritanos,

6. mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel.

7. Pondo-vos a caminho, pregai dizendo “está próximo o reino dos céus”.

8. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expeli os espíritos desencarnados; de graça recebestes, de graça dai 9. Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de bronze em vossas cinturas;

10. nem de alforge para a jornada, nem de duas túnicas, nem de sandálias, nem de bordão, pois é digno o operário de seu sustento.

11. Em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, indagai quem nela é digno; e aí ficai até vos retirardes.

12. Ao entrardes na casa, saudai-a

13. e se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; mas se o não for, torne para vós vossa paz.

14. E se alguém vos não receber nem ouvir vossas palavras ao sairdes daquela casa ou daquela cidade, sacudi o pó de vossos pés.

15. Em verdade vos digo, que no dia do carma haverá menor rigor para a terra de Sodoma e de Gomorta, do que para aquela cidade”
7. E chamou a si os doze e começou a enviá-los dois a dois e deu-lhes autoridade sobre os espíritos atrasados,

8. e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, exceto um só bordão; nem alforge, nem pão, nem dinheiro na cintura;

9. mas que fossem calçados de sandálias e que não vestissem duas túnicas.

10. Disse mais a eles: “Em qualquer casa onde entrardes, permanecei ali até que vos retireis do lugar.

11. E se algum (lugar) não vos receber, nem vos ouvir saindo dali sacudi o pó da sola de vossos pés em testemunho contra eles”.

1. Convocando a si os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os espíritos desencarnados e para curarem doenças,

2. e enviou-os a pregar o reino de Deus e a curar.

3. E disse-lhes: “Nada leveis para o caminho, nem bordão, nem alforge, nem pão, nem prata, nem tenhais duas túnicas.

4. Em qualquer casa em que entrardes, nela ficai e dali partireis.

5. E qualquer (local) que vos não receber, ao sair da cidade, sacudi o pó de vossos pés, em testemunho contra eles.
(…)

A memória do cataclismo de Sodoma e Gomorra permanecia viva, e era julgado como o mais terrível castigo da impiedade. Pois menos rigor haveria para essas cidades, que para aquela que não recebesse os enviados do Mestre.

No entanto, a permanência em cada localidade devia ser curta. A tradição da época, registrada da Didachê (11:1) prescreve um dia ou, no máximo, dois, acrescentando que “aquele que permanecer três dias é falso profeta”.

O “dia do carma” (krisis) não se refere ao “juízo final”, mas à colheita do resultado das ações feita por meio da frequência vibratória de cada um: de acordo com as ondas básicas (tônica) de cada ser, será ele atraído para este ou para aquele local, tal como as ondas hertzianas que penetram no aparelho de rádio-receptor de acordo com a sintonia em que este se encontra.

Se as ações forem na linha do bem (na direção do Espírito) a colheita será alegria e paz; se forem no sentido do mal (matéria ou satanás) o resultado colhido (carma) será dores e sofrimentos. Essa triagem, essa “separação” (Krísis) é exatamente o carma automático, pois a Lei já estabeleceu tudo de antemão, e não é necessário que ninguém faça julgamentos. A humanidade de hoje não precisa mais dessas figurações infantis: já está madura para receber a verdade sem distorções. Então, de acordo com o carma será o estado de espírito dos seres, vibratoriamente separados segundo suas tônicas.

JULGAMENTO

Há um verbo grego (krínó) que é sistematicamente traduzido nas edições correntes por JULGAR; e seu substantivo (krísis) é sempre transladado por JULGAMENTO ou JUÍZO.

Estudemos esses termos, que são de capital importância na compreensão do ensino de Jesus.

O verbo KRÍNÔ apresenta os sentidos básicos de: separar, fazer triagem, escolher, decidir, resolver e, por analogia e extensão, julgar.

O substantivo KRÍSIS exprime fundamentalmente: ação, separação, triagero, escolha, o resultado da ação de escolher, decisão, donde, por analogia e extensão, julgamento, ou juízo.

Analisemos, agora o sentido etimológico, que também importa. Foram consultados: “Émile Boisacq, Dictionnaire Étimologique de Ia Langue Grecque, 4.ª edição, Heidelberg, 1950″; Liddell & Scott, Greek-English Dictionary“, Oxford, 1897”; e “Sir Monier Monier-Williams, A Sanskrit-English Dictionary , Oxford, 1960”, pág. 258 e 300.

KRÍNÔ e KRÍSIS (assim como o latim CERNO) vêm da raiz sânscrita KRI, que significa: agir, fazer, causar, elaborar, construir, escolher, etc.

Dessa mesma raiz KRI deriva o substantivo sânscrito KARMA, que exprime: ação, realização, efeito, resultado da ação escolhida, escolha, e cujo sentido é perfeitamente compreendido pelos estudiosos do espiritualismo, ou seja: CARMA é a consequência (boa ou má) de uma ação (boa ou má) que a criatura tenha realizado por sua livre escolha.

Verificamos, pois, que traduzir sistematicamente KRÍNÔ e KRÍSIS por “julgar” e “julgamento” (sentidos analógicos e extensivos) é, em muitos casos, forçar o sentido e até desvirtuá-lo totalmente.

EXEMPLOS – “O Pai a ninguém julga, mas deu todo julgamento ao Filho” (João, 5:22) só formaria sentido se aceitássemos um deus pessoal, sentado num trono (como Salomão) a proferir sentenças, embora de grande sabedoria. Aliás, muita gente imagina exatamente uma cena assim … Sabemos, porém, que isso jamais pode dar-se com o Ser Absoluto e Impessoal que é O Pensamento Criador e Sustentador dos universos, transcendente a tudo e a todos, mas imanente em todos e em tudo, pois que constitui a essência última de todos os seres e de todas as coisas.

Apliquemos a tradução lógica (não a “analógica”) e vejamos: “O Pai a ninguém escolhe, mas deixa toda escolha ao filho”. Aí o sentido procede: justamente por ser imanente em todos, o Pai Impessoal a ninguém escolhe, porque a todos, “bons e maus, justos e injustos” (cfr. Mat. 5:45), santos e criminosos, dá as mesmas oportunidades, a mesma quantidade de amor e, liberdade absoluta do livre-arbítrio. Mas “toda escolha é dada ao filho”, isto é, ao ser humano, “filho de Deus” que, com seu livre-arbítrio, escolhe o caminho que quer, arcando depois com as consequências, na “época do carma” (no “dia do juízo”, que pretende traduzir exatamente a palavra krisis). No caso de Jesus, Ele podia afirmar, em continuação: “e minha escolha é justa, porque não busco a minha vontade, mas a vontade de quem me enviou” (João, 5:30), isto é, o Pai que é representado em nós pelo Cristo Interno, pelo Logos em nós .

Se nesse trecho traduzíramos KRÍNÔ por “julgar”, haveria frontal contradição com os seguintes textos:

  1. João, 8:15-16: “vós julgais segundo a carne (as aparências); eu a ninguém julgo. Mas se eu julgo alguém, é verdadeiro meu julgamento, por que não estou só, mas eu, e o Pai que me enviou”. Afinal, é o Pai que julga? ou deu o julgamento ao filho? E como o filho não julga ninguém? Não seria possível compreender-se. Substitua-se, porém, nesse passo, a tradução analógica pela lógica, e o sentido se torna claro, óbvio, compreensível: “vós escolheis segundo a carne (as aparências); eu não escolho ninguém; mas, se escolho alguém, é verdadeira minha escolha, porque não estou só, mas eu, e o Pai que me enviou”.

  2. João, 12: 47: “Se alguém me ouve as palavras e não confia, eu não o julgo, pois não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo”. Afinal o julgamento é do filho ou do Pai? Se “todo o julgamento foi dado ao filho”, como diz o filho que “não veio para julgar”? Então, compreendemos que realmente, há uma diferença entre os dois textos, e que, neste último passo, krínô tem, de fato, o sentido analógico de “julgar”. Aqui é mesmo JULGAR como naquele outro passo de Lucas (5:37): “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados”.

No trecho que aqui comentamos, compreendemos perfeitamente que não pode haver um “dia do juízo”, interpretação que deu margem à invenção de um “juízo particular” e de um “juízo universal”, quando “o mundo terminaria”. Esses absurdos anticientíficos e antilógicos não mais podem ser aceitos hoje. Não haverá “fim do mundo”, pois no máximo poderá ocorrer um “fim de ciclo”, que coincide com o movimento pendular do eixo do planeta, cada 26.000 ou 28.000 anos. No entanto, há comprovadamente a época da “colheita de resultado de nossas ações” a cada término de existência terrena, ou seja, “o dia do carma”, assim como, a cada fim de ciclo, haverá uma triagem (separação) de acordo com as vibrações de cada um. Portanto, a melhor tradução do trecho, em termos atuais, para compreendermos o que Jesus ensinou, é exatamente “o dia do carma”, isto é, “o dia da colheita (krísis) dos resultados de nossas ações, boas ou más”.

Isto porque, a cada pessoa ou coletividade, “será dado segundo suas obras” (cfr. Mat. 16:27; Rom. 2:6; 2 Cor. 5:10 e 11:15; 1 Pe. 1:17: Apoc. 2:23 e 22:12; e outros semelhantes).

Pastorino, Sabedoria do Evangelho, Vol. III, 1964.

* * *

Deixe-me ver se captei: se, em sua origem, a raiz de uma palavra for afim de um sentido reencarnacionista, então ela deve ser traduzida com esse viés, pouco importando séculos de evolução linguística.

Ok, só que não.

Quando o Passado NÃO condena: a Falácia Genética e uma de suas Filhas

Primeiros colonizadores britânicos da Austrália rumam esperançosos à nova pátria.

“O Brasil fracassou porque foi colonizado pelos portugueses e não pelos ingleses.”

“Somos uma mistura de índios indolentes com brancos degredados e negros escravizados. Não tem como dar certo.”

Aposto que algum dos leitores já ouviu alguma das frases acima (ou algo do mesmo quilate) e, o pior, inconscientemente aquiesceu com a cabeça. Mas será que há mesmo uma verdade autoevidente nesses dois lugares-comuns? Será teria sido melhor que o governo de Maurício de Nassau perdurasse ou a França Antártica de Villegaignon tivesse prosperado? Ucronia pode ser um exercício interessante, até divertido, diria eu; mas há boas chances de o resultado dessa linha alternativa da História não ser animador: poderíamos ter sido um grande Suriname ao norte e um mega Senegal ao Sul. O fato de termos nos tornado uma colônia de exploração tem mais a ver com a geografia do que a metrópole em questão. Vide a diferenças entre as colônias do Norte e do Sul dos EUA, que levariam esse país à Guerra Civil menos de um século após a independência delas.

(Em Construção)