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Saadia Gaon e a Reencarnação

11 de outubro de 2011 Deixe um comentário Go to comments

A Alma


Tratado VI – capítulo VIII

Concordo que a transmigração de almas (gigul) faz parte da mística moderna de grupos judaicos. Mas quando ela entrou? A ausência de vida após a morte entre os saduceus, a rejeição dela por Flávio Josefo (Discurso aos gregos sobre o Hades) e o relato de Orígenes negativo à presença dela entre os místicos judaicos de sua época (Comentário sobre o Evangelho de João, VI, VII) sugerem que ela não pertencia àquela época ainda. Então quando ela começou a se difundir? Difícil dizer, mas pode-se estipular que foi ao longo da Idade Média. Este texto é, de certa forma, um testemunho desta divulgação ocorrendo no século X, dado por um famoso teólogo e filósofo judeu.

Por Saadia Gaon (ou Saadia Ben Yosef), O Livro das Crenças e Opiniões, tratado VI

* * *

Agora eu considero apropriado a estas observações uma referência ao ponto de desacordo existente entre aqueles que os que discordam quanto a substância da alma e aqueles que expressam-se em referência ao destino dela após a morte. Já que eu descubro que, aqueles que asseveram ser ela de um material etéreo ou substância ígnea e a maioria dos afirmam que ela é uma propriedade, todos sustentam que a alma se decompõe e se desintegra e desaparece. Aqueles, de novo, que são da opinião de que ela é derivada de seres espirituais, ou de seu Criador apenas, ou dEle e algo mais, ou de dois princípios existentes desde a eternidade, sustentam unanimamente que a após a morte a alma retorna para fonte da qual se originou. Entretanto, já demonstrei a insustentabilidade de todas essas teorias e as refutei.

Embora eu deva dizer que tenho encontrado certas pessoas, que chamam a si mesmas de judias, professando a doutrina da metempsicose, que é designada por eles com a teoria da “transmigração” das almas. O que ele querem dizer com isso é que o espírito de Rúben transferiu-se a Simão e depois a Levi e, em seguida a isto, a Judá. Muitos deles iriam tão longe como ao ponto de afirmar que o espírito de um ser humano pode entrar no corpo de uma fera ou que o de uma fera no de uma ser humano e outros tipos de absurdo e estupidez.

Agora eu tenho estudado as considerações que, alegam eles, levaram-nos a aceitar esta doutrina e descobrir que elas se constituem de quatro premissas erradas, que eu considero apropriado listar agora e refutar. A primeira é que eles aderem à teoria dos espiritualistas e a três outras teorias, ou que eles não estão cientes de que o fato que advoga a teoria da transmigração ter derivado da teoria dos dualistas e dos espiritualistas. Entretanto, os argumentos contra todas essas visões já foram descritos e registrados por mim.

A segunda base de suas conclusões é que eles observaram as características de muitos seres humanos e descobriram que elas se assemelham às de feras. [Eles viram, por exemplo, que havia pessoas] que eram dóceis como carneiros, e outros que eram violentos como animais selvagens, e aqueles que eram maliciosos e contemplativos como cães, e outros, ainda, que são volúveis como pássaros, e assim por diante. Estas observações deram suporte para sua visão de que as características supra citadas foram adquiridas pelas pessoas em questão em virtude de elas possuírem almas dos respectivos animais.

Isto por si só, porém, indica o quão tolos eles são. Pois eles consideraram que o corpo humano é capaz de transformar a essência da alma a fim de torná-la uma alma humana depois de ter sido a de uma fera. Eles assumem, além disso, que a alma por si só e capaz de transformar a essência do corpo humano ao ponto de dotá-lo com as características das feras, ainda que sua forma seja a de homens. Não seria suficiente para eles, então, que atribuíssem uma natureza variável a alma não lhe imputando uma essência intrínseca, mas eles se contradizem quando declaram a alma capaz de transformar e mudar o corpo, e o corpo capaz de transformar e mudar a alma. Mas tal raciocínio é um desvio da lógica.

O terceiro [argumento que eles apresentam] está na forma de um argumento lógico. Dizem, a saber: “Visto que o Criador é justo, é inconcebível que Ele deva ocasionar sofrimento a criancinhas, a não se que seja por pecados cometidos por suas almas durante o tempo em que elas alojadas em seus antigos corpos.” Esta visão é, entretanto, passível de numerosas refutações.

A primeira é que eles esqueceram o que mencionamos (tratado V, cap III) quanto à compensação no além-vida pelos infortúnios experimentados neste mundo. Além disso, gostaríamos de perguntar o que eles entendem do status da futura alma – queremos dizer: seu status quando ela é criada. É ela imputada por seu Mestre com alguma obrigação de obedecer a Ele ou não? Se eles alegam que ela não é imputada, então não podem haver punições por isso, já que não foram imbuídas com nenhuma obrigação para começar. Se, por outro lado, eles reconhecessem a imposição de tal encargo, no caso em que obediência e desobediência não se aplicam a alma até então, assim eles admitem que Deus imputa seus servos com obrigações com relação ao futuro e não todas com relação ao passado. Mas então eles retornam a nossa teoria de compensação e são forçados a abandonar sua insistência na visão de que o sofrimento do homem neste mundo é devido somente a sua conduta numa existência anterior.

A quarta [causa de suas conclusões errôneas] é sua dependência em interpretações falhas da Bíblia. Destas eu considero apropriado mencionar alguns exemplos. Como um deles, posso citar a declaração feita por Moisés, que a paz esteja com ele: Mas com aquele que está aqui conosco este dia, perante o Senhor nosso Deus, bem como aquele que não está aqui conosco hoje. (Deut. 29:14). Isto, dizem eles, prova que as almas das últimas gerações são idênticas às das primeiras, portanto os presentes e ausentes foram um e o mesmo. Entretanto, o simples significado daquele verso nega seu ponto de vista, porque ele estabelece explicitamente que quem está presente é alguém diferente do ausente. Sua significação, em suma, é que aqueles a quem a mensagem de Moisés veio pela tradição são tão obrigados a aceitá-la tanto quanto os que estavam presentes para recebê-la.

Outro caso de má interpretação é o do verso: Feliz o homem que não não tenha andado no conselhos dos ímpios (Sl 1:1) [hath not walked, na versão inglesa]. Dizem, a saber, que o fato de a Escritura usar a expressão não tenha andado e não a de não andar nos indica que a punição é imputada pelo mal feito pela alma no passado, enquanto estava em seu primeiro corpo. Mas isto é um grave erro da parte deles, pois a Escritura pode ordenar que a pessoa em questão será feliz somente após não ter andado. Não se pode fazer isto antes de não andar. O sentido explicito do verso, portanto, refuta sua visão.

Além disso, se for como propõem, as recompensas seriam conferidas pelas futuras boas ações, não pelas do passado, por causa do fato de que a expressão usada pela Escritura, em seguida, é e na Sua lei ele meditará (1) (Sl 1:2) e não que ele tem meditado; pelo mesmo motivo eles concluíram que as punições são imputadas pelos pecados passados, e não pelos do futuro, a partir do fato de a fraseologia empregada na Escritura ser: Feliz … é o que não tenha andado e não que não andar.

Outro verso que é mal interpretado por eles: Transforma-se como argila debaixo de um sinete; e tinge-se como um vestido (Jó 38:14). Interpretaram, a saber, a expressão Transforma-se como se referindo a alma, alegando que isto prova que ela alterna continuamente entre homens e animais. Contudo, não perceberam, tolos, que na verdade esta afirmação é feita em relação à terra, visto que a sentença imediatamente anterior é: para agarrar as bordas da terra e sacudir dela os ímpios (Jó 38:13). É com relação à terra que se afirma que ela é transformada pelas desgraças, causadas pelos ímpios, como argila de baixo de um sinete, e que se apegam a ela como se fossem sua vestimenta, incapaz de ser arrancada até os desígnio de Deus referentes a eles ter sido cumprido.

Um adicional engano da parte deles é o aplicado à referência do santo: “Ele restaurará minha alma” (2) (Sl 28:3). Eles pensaram, a saber, que isto implicava numa permuta de corpo para corpo, não lembrando, ignominiosos que são, que se referia a relaxação, e descanso, e repouso da alma da excitação experimentada por ela, não a uma restauração depois da partida de um corpo.

O significado da expressão na língua de nossos primeiros ancestrais é bem claro e evidente(3). Assim falaram de Sansão, quando ele estava sedento e seu Mestre deu lhe água para beber: Seu espírito voltou e ele reviveu. (Jz 15:19), apesar de, na verdade, nunca tê-lo deixado. Similarmente, falaram do egípcio que estava faminto e que foi alimentado por Davi, que a paz esteja com ele, E seu espírito retornou-lhe ( 1 Sm 30:12). De novo a Escritura fala do mensageiro fiel: Então é um mensageiro fiel que lhe é enviado; para restaurar (4)a alma de seu senhor . (Pr 25:13). Também diz da Lei: A lei do Senhor é perfeita, restaurando a alma (Sl 19:8). Eu deveria ter me acautelado de discutir o erro de sua teoria e prevenir-me contra discursar sobre sua inutilidade, não fosse que estivesse receoso da má influência [ deste pensamento sobre os outros].

Finalmente, [devo falar como exemplos de engano da] sua citação [ em suporte a sua teoria] da frase da Escritura: Venha dos quatro ventos, Ó espírito (5), e sopre sobre estes mortos, que eles viverão (Ez 37:9). Porém, pergunto: “O que há nisto afinal que aponta conclusivamente para [a doutrina da] metempsicose?” A única razão pela qual este raciocínio foi expresso da forma que aqui está é que os ventos estão estacionados nas regiões superiores e inferiores. De qualquer lado que eles possam estar, portanto – sempre, mesmo se devessem estar nas suas quatro direções, eles tem de aparecer quando seu Mestre os chamar. Isto também é corroborado pela afirmação do santo: Tu me chamarias e eu responderia; desejarias rever a obra de tuas mãos.(Jó 14:15).

Por meio deste, o sexto tratado foi completado.

(1) A tradução usual é ele medita.

(2) A tradução usual é restaura. [Nota do administrado do portal] O texto inglês dá esta passagem (Sl 28:3), mas o provável seria Sl 23:3, supondo um erro tipográfico.

(3)Este tratado foi escrito originalmente em árabe, não em hebraico.

(4) Outras traduções são refrescar, reconfortar.

(5) Ou sopro.

Versão inglesa:

– Gaon, Saadia; The Book of Beliefs and Opinions; Yale Judaica Series, Yale University Press, tradução de Samuel Rosenblatt.

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