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A Preposição da Discórdia

10 de fevereiro de 2012 Deixe um comentário Go to comments

Preposição hebraica `al

Índice

Apresentação


Uma das principais controvérsias trazidas por Severino Celestino da Silva em seu livro Analisando as Traduções Bíblicas (cap. VIII) é com relação à tradução correta de Êxodo 20:5, que em hebraico (transliterado) é:


lo'-thishtachveh lâhem velo' thâ`âbhdhêm kiy 'ânokhiy Adonay'eloheykha 'êl qannâ' poqêdh `avon 'âbhoth `al-bâniym `al-shillêshiymve`al-ribbê`iym lesone'ây

Que pode ser traduzido como:

Não te prosternarás diante delas e não as servirás. Sim, eu mesmo, Iahveh, teu Deus, sou um Deus ciumento(*), sanciono o erro dos pais sobre os filhos, sobre a terceira e sobre a quarta geração dos que me odeiam.

(*) ciumento – sem tradução precisa em nossa língua. Outros tem como “zeloso”, ou “de paixão ardente”

Vale transcrever alguns comentários a respeito de certas palavras, expostos em “Analisando …”, de Severino Celestino da Silva:

`al – sobre, em
`avon – erro, falta
'abhoth – pais
bâniym – os filhos
shillêshiymve – terceira geração, netos
ribbê`iym – quarta geração, bisnetos.

Toda a querela gira em torno da preposição `al (עלַ). Espiritualistas criticam a tradução do trecho final do versículo como: “erro dos pais sobre os filhos ATÉ a terceira e quarta geração”. Defendem que o sentido correto, pelo vocabulário exposto acima, seria: “erro dos pais sobre os filhos, NA terceira e na quarta geração”. Em Analisando …, considera-se apenas a preposição `ad como passível de ser traduzida por “até” e é aí que está o problema. A preposição `al admite, diferentemente do alegado, mais do que os dois sentidos apresentados (em, sobre).

fac-símile do dicionário de Rifka Berezin

Reprodução do verbete `al de um dos dicionários de hebraico constantes na bibliografia de Analisando… (Berezin, p. 501). A palavra em hebraico seguinte informa que se trata de uma preposição.

Para os que, porventura, não conseguirem visualizar a imagem acima, o Dicionário Hebraico-Português, de Rifka Berezin, – que consta na bibliografia de Analisando … – em seu verbete para `al (pág. 501) traz os seguinte significados:

sobre, em cima; perto, junto; até, por, para

A própria “orientação geral para o uso do dicionário”, contida na introdução, informa: “vocábulos homógrafos pertencentes à mesma categoria gramatical foram geralmente apresentados num único verbete, e, as respectivas traduções separadas por ponto-e-vírgula”. A quem se interessar por uma mais aprofundada análise ou desconfiar de obras novas, deixo abaixo parte da entrada do verbete `al constante no clássico Léxico Hebraico-Caldeu do hebraísta alemão Wilhelm Gesenius (clique para ampliar).

Preposição el, segundo o dicionário de Gesenius

Preposições 'el (esq.) e `al conforme o léxico de Wilhelm Gesenius. Repare que a primeira pode ser utilizada para demarcar um término e a segunda tem acepções que se aproximam daquelas da primeira.

Em caso de dificuldade com a língua inglesa, sugiro a breve discussão acerca dos múltiplos significados de `al contida em [Ross, lição 53.3].

Significados de `al, conforme Ross. Significados de `al, conforme Ross (continuação).

Vejamos, agora, alguns exemplos bíblicos de como isso funcionava pelos lábios dos antigos (e originais) falantes do idioma:

Gn 18:8 Tomou também coalhada e leite e o novilho que mandara preparar e pôs tudo diante deles; e permaneceu de pé junto a eles debaixo da árvore; e eles comeram. (vayyiqqach chem'âh vechâlâbhubhen-habbâqâr 'asher `âsâh vayyittên liphnêyhem vehu'-`omêdh`alêyhem tachath hâ`êts vayyo'khêlu)

Ex 18:23 Se isto fizeres, e Deus to mandar, poderás então subsistir; assim também todo este povo em paz irá ao seu lugar. ('im 'eth-haddâbhâr hazzeh ta`asehvetsivvekha 'elohiym veyâkhâltâ `amodh vegham kol-hâ`âm hazzeh `al-meqomo yâbho' bheshâlom)

Js 2:8 Antes que os espiões se deitassem, foi ela ter com eles [até eles] no eirado. (vehêmmâh therem yishkâbhun vehiy' `âlethâh `alêyhem `al-haggâgh)

I Sm 1:10 levantou-se Ana, e, com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou abundantemente (vehiy' mârath nâpheshvattithpallêl `al-Adonay ubhâkhoh thibhkeh)

Jr 18:11 Ora, pois, fala agora aos homens de Judá e aos moradores de Jerusalém(…) (ve`attâh'emâr-nâ' 'el-'iysh-yehudhâh ve`al-yoshebhêy yerushâlaim (…))

Jr 23:35 Antes, direis, cada um ao seu companheiro e cada um ao seu irmão: Que respondeu o SENHOR? Que falou o SENHOR? ( koh tho'mru 'iysh `al-rê`êhu ve'iysh'el-'âchiyv meh-`ânâh Adonay umah-dibber Adonay )

Portanto, não se tratou de nenhuma fraude premeditada, como se sugere (1). Existe, na verdade, mais de uma preposição com a mesma grafia (ou mais de um uso para a mesma preposição)! Note que nos dois últimos exemplos `al e outra preposição ('el) são usadas lado a lado com o mesmo sentido. A explicação a seguir pode esclarecer como `al se tornou “eclética” a partir de uma mudança fonética na evolução do hebraico bíblico, que pode ter dado origem à homografia:

Algumas consoantes hebraicas representam sons não conhecidos no português, como é o caso do 'alep ('), oclusão glotal surda, e do `ayin (`), fricativo glotal sonoro, e algumas cinco sibilantes conhecidas no hebreu. Nos Manuscritos do Mar Morto e até na tradição massorética é frequente a confusão destas guturais (p.ex.: `l, sobre e 'l , até). As variantes dialetais e as modificações linguísticas de uma a outra época originaram numerosas confusões. Exemplo típico é o da diferente pronúncia de xibbolet na montanha de Efraim ou sibbolet na Transjordânia, que deu origem ao famoso episódio relatado em Jz 12:5-6

-Barrera, Julio Trebolle – A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã, Vozes, 2ª ed., parte I, cap. I p. 69

Note que Barrera não dá vogais a estas preposições – `al e 'el (אֶל), pois o registro de vogais no texto hebraico se deu ao longo da Idade Média, sendo possível uma proximidade maior da pronúncia destas palavras num período anterior. Tal como nos exemplos já citados desta confusão no massorético (Jr 18:11 e Jr 23:35). Só para a ciência dos leitores, esse J. T Barrera aqui utilizado consta na bibliografia de Analisando as Traduções Bíblicas. O porquê de suas informações não terem sido levadas em consideração permanece obscuro.

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Qumran: Antigas Trocas Preposicionais

Na antiga biblioteca da comunidade essênia de Qumran foi encontrada uma multitude de manuscritos de liturgia comunal, comentários, literatura apocalíptica e a mais antiga coletânea de texto hebraicos da Bíblia, antecedendo em cerca de um milênio os melhores manuscritos massoréticos. Essa descoberta (1947) revelou uma pluralidade de textos no período intertestamentário que já era suspeitada antes de sua descoberta. Nessa antiga comunidade do Mar Morto, tradições textuais distintas coexistiam lado a lado, evidenciando uma época em que padronização do Texto Massorético (TM) – o texto padrão do judaísmo desde a Idade Média – ainda não havia se imposto.

Por isso os manuscritos de Qumran (ou Manuscritos do Mar Morto), mais especificamente 4QSama, trazem informações esclarecedoras sobre até que que ponto ia a flexibilidade do hebraico antigo. Em 2 Sm 3:27, tem-se:

Texto massorético (TM)

(…) hasha`ar ledabbêr 'itto basheliy vayyakkêhushâm hachomesh vayyâmâth bedham `asâh-'êl 'âchiyv

4QSama

(…)[h]asha`ar ledabbêr 'itto basheliy [vayyakkêhush]âm `ad hachomesh [vayyâ]mâ(v)th [bedham] `asâh-'êl 'âchiyv

Notas:

1)Os colchetes são lacunas no manuscrito reconstituídas. Os parênteses, uma diferença ortográfica.

2)4QSama, na verdade, não é vocalizado. Foram copiadas as vogais do massorético, para fins de comparação.

Em Discoveries in the Judean Desert, vol XVII, pág. 114, há a seguinte explicação quanto a estes trocas preposicionais:

Vários textos gregos leem εις (para, a) ou επι (sobre) onde 4QSama tem (`ad) e o TM, uma lacuna. A sintaxe requer uma preposição nesta posição. Em qualquer outra parte do TM [de 1 e 2 Sm], a preposição empregada é 'el, como na frase (yo'âbh … 'el-hachomesh) (*), que é encontrado em 2 Sm 2:23, 4:6 e 20:10. O texto de 4QSama não possui 2 Sm 2:23 e 4:6, mas em 20:10 se lê (yo'âbh vayyakkêhu bhâh `al-hachomesh) com a preposição `al. Consequentemente, três preposições são usadas pelos textos hebreus nesta expressão. Contudo, 'el e `al adquiriram a mesma pronúncia neste período e eles são frequentemente confundidos em 4QSama .

(*)Joabe … no abdômen (ao pé da letra: na quinta [costela]).

Outra troca entre 'el e `al ocorre apenas dois versículos abaixo, no início de (2 Sm 3:29) “Caia [este sangue] sobre a cabeça de Joabe e sobre/para/a toda a casa de seu pai(…)”:

TM:

yâchulu `al-ro'shyo'âbh ve'el kol-bêyth (…)

4QSama

[y]âchulu `al-[r]o'shyo'âbh ve`al k[ol-]bêyth (…)

Bem, agora o leitor pode estar se perguntando o que tem a ver estas variantes textuais com a crítica de Severino Celestino da Silva quanto à tradução de Ex 20:5? Uma crucial falha de seu trabalho: o apego quase dogmático à primazia do Texto Massorético (TM) sobre as demais versões. Não que o TM seja ruim, muito pelo contrário: é o ponto de partida dos estudantes da bíblia hebraica, foi mantido com grande estabilidade ao longo de 1.800 anos por esmeradas técnicas de cópia e verificação e possui grandes corroborações nos textos qumrânicos. Mas ele não é o que se possa chamar de uma “edição crítica”: foi pego “ao todo” e não por meio de uma seleção dos manuscritos de melhor qualidade. Ele possui uma parcela de erros que foi transmitida de forma inalterada ao longo de séculos pelos sábios massoretas. Antes da estabilização do texto consonântico, nos primeiros séculos da era cristã, houve uma flutuação e evolução textual dos livros da bíblia. Os manuscritos do Mar Morto refletem essa pluralidade original e traduções feitas nesse período e antes (como a Septuaginta) podem resultar em textos discordantes do TM, sem que isto signifique má tradução, apenas uma matéria-prima distinta. Só para chamar atenção, tanto Qumran e a LXX trazem uma versão do livro de Jeremias que é 13% menor que a da versão hebraica moderna. Nem a Vulgata foi uma tradução deste três, pois Jerônimo pegou a maior parte do AT em recensões hebraicas mais recentes do texto grego.

A crítica textual do AT foi extremamente dificultada pelo hábito entre as comunidades judias de destruir ou enterrar seus livros religiosos velhos quando novas edições vinham em substituição. Por causa disto, faltam originais da antiguidade de grande porte. Dessa maneira, o TM tornou-se dominante simplesmente porque se impôs como único texto autoritativo nos meios acadêmicos. As teses de Severino Celestino da Silva de autoridade massorética seriam aceitáveis até década de 60 do século XX; mas após a descoberta, restauração e publicação dos manuscritos do Mar Morto elas não se sustentam mais. Como se comenta na introdução aos livros de Samuel em The Dead Sea Scrolls Bible:

Estes manuscritos [4QSama, 4QSamb] também têm ajudado a realinhar as assertivas dos acadêmicos quanto ao valor da antiga tradução da Septuaginta. Tradicionalmente, quando a Septuaginta diferia do Texto Massorético (que vinha sendo considerado o original hebraico), ela era rotineiramente considerada como sendo uma tradução livre (ou mesmo uma paráfrase ou puro erro). O texto hebraico de Samuel encontrado em Qumran, contudo, concorda frequentemente com a Septuaginta quando difere do Massorético. Isto demonstra que a Septuaginta foi traduzida de uma forma textual hebraica similar a dos manuscritos qumrânicos. O problema no trato com a Septuaginta, assim como muitos outros documentos históricos, estivera nas visões e critérios dos acadêmicos, não com os dados. É claro que a Septuaginta – tal como o Texto Massorético, os manuscritos do Mar Morto e qualquer outra tradição antiga de manuscritos – tem sua parcela de erros. Mas a importante lição aqui é que a Septuaginta não é uma tradução livre ou falsa, mas sim, no geral, uma tradução fidedigna de sua fonte hebraica.

Logo, ao insinuar a má-fé dos tradutores de outras religiões para (Ex 20:5) ele está sendo, no mínimo, apressado e equivocado. Vale a pena uma lida na crítica a sua postura perante outras versões de texto relatada em Traduções bíblicas: escolha uma!.

Fragmento de 2 Samuel

Fragmento de 4QSama contendo parte do o capítulo 3 de II Sm, versículos 23 a 30. Em (1) e (2) estão assinaladas duas trocas preposicionais em relação ao texto massorético, ambas discutidas acima. São Fragmentos do passado a elucidar equívocos perpetrados pelo presente. Esta figura foi elaborada de [ Cross et al.], sendo feita do emparelhamento lado a lado do esquemático da página 112 à foto do manuscrito na prancha XV, ao fim do livro.

O interessante, também, é que nem sempre o TM joga a favor de interpretações reencarnacionistas. O rolo 4QDeutn possui um versículo de Deuteronômio (Dt 5:9) muito semelhante a Ex 20:5. Lá, Qumran está de acordo com textos samaritanos e a LXX, estando qual ao de Êxodo. Por sua vez, o TM traz:


lo'-thishtachveh lâhem velo' thâ`âbhdhêm kiy 'ânokhiy Adonay'eloheykha 'êl qannâ' poqêdh `avon 'âbhoth `al-bâniym ve`al-shillêshiymve`al-ribbê`iym lesone'ây

“(…)o erro dos pais nos filhos e até/na terceira e quarta geração(…)”. Surge a conjunção coordenada (ve), que pode significar “e” (o significado mais comum), “mas”, “ora”, “pois”. Como não há uma ideia adversativa, nem uma mudança de tema, fica “e” de melhor tradução. Muitas vezes este “e” não aparece, suponho, por algum emparelhamento do tradutor com (Ex 20:5) ou porque os que optam em traduzir `al por “até” considerem a conjunção redundante. O que importa é que fica que o castigo não seria dado apenas “na terceira e quarta geração”, quando os faltantes já estivessem reencarnados, mas também já na própria geração deles e de seus filhos.
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André Chouraqui: Esclarecendo Dúvidas

Outra citação controversa aparece em Êxodo 34:7.


notsêr chesedh lâ'alâphiym nosê' `âvon vâphesha` vechathâ'âhvenaqqêh lo' yenaqqeh poqêdh `avon 'âbhoth `al-bâniym ve`al-benêybhâniym `al-shillêshiym ve`al-ribbê`iym

André Chouraqui – hebraísta e tradutor francês usado por Severino Celestino da Silva como referência – traduziu por:

detentor do bem-querer para os milhares, carregador do agravo, da carência, da falta, ele não inocenta, não inocenta, mas sanciona o agravo dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos, sobre os terceiros e sobre os quartos.

Mantendo uma tradução uniforme para `al. A Septuaginta, aqui, usa a preposição επι (sobre) também repetidamente e citando explicitamente as quatro gerações em sequência. Severino Celestino da Silva verteu por “dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, sobre as terceiras e quartas gerações”, ora considerando `al como “sobre”, ora como “em”. Uma diferença sutil, mas que dá uma variação de sentido mais ampla em português: pode passar uma ideia de salto entre gerações. Será que foi essa a intenção? Por sua vez, a Bíblia de Jerusalém, impressão de 1995, manteve a tradução por “até”, destoando tanto do texto hebraico como da Septuaginta. Por outro lado, ela concorda com a Vulgata:

qui custodis misericordiam in milia qui aufers iniquitatem et scelera atque peccata nullusque apud te per se innocens est qui reddis iniquitatem patrum in filiis ac nepotibus in tertiam et quartam progeniem.

Ué, mas não aparece a preposição in antes de “terceira e quarta”? Não foi ela que deu origem a portuguesa “em”? Sim, ela deu origem a nossa preposição “em”. Para ser mais preciso, ela deu origem a nossas duas preposições “em”: uma reconhecida pela gramática normativa (por exemplo, “estive em Paris”) e outra rejeitada por ela (“fui em Paris”). Essa é uma herança do fato de ter havido duas diferentes formas de emprego da preposição latina, uma delas que podia ser vertida por “até” em português. Isso será tratado mais adiante. Por ora, a ignorância desse fato em “Analisando…” propiciou falas um tanto comprometedoras:

Não sei como encontraram este sentido para a língua portuguesa, nem de onde o tiraram, pois, no hebraico, bem como, no grego e no latim, ele não existe.

É interessante notar que as traduções da Bíblia de Jerusalém, de João Ferreira de Almeida, da Bíblia do Centro Bíblico Católico, Editora Ave Maria e da Bíblia Tradução Ecumênica, todas em português, apresentem-se, esses textos, com a colocação da preposição ATÉ, antes das palavras terceira e quarta geração

[Cap VIII, p. 135]

Isso é, na melhor hipótese, quase atestado de falta de domínio da língua latina. Mas o pior que é o autor às vezes aparenta não ler sua própria bibliografia:

A excelente tradução de André Chouraqui também apresenta o texto correto sem o uso do ATÉ, além de não apresentar nenhum preconceito religioso.

Idem.

Pois então vale assinalar que Chouraqui traduziu Ex 20:5 usando a famigerada ATÉ, que, como será visto, foi a preposição utilizada na LXX. Ambos esses fatos foram aparentemente desconsiderados em Analisando… pelo autor. O mais interessante vem em livros-traduções como A Torá Viva, do Rabino Aryeh Kaplan, Ed. Maayanot, que também traduz por ATÉ em Ex 20:5. Será que um judeu citado por em Analisando … (2) acabou tendo preconceito religioso contra a própria crença? É bom que se explique isto…

Chouraqui, por sua vez, sem querer ou ser explícito deu uma explicação para sua tradução “flexível” dois versículos acima de Ex 20:5.

Ex. 20:3 – não haverá para ti outros Elohîms contra minhas faces.

3. outros Elohîms contra minhas faces: Notemos que a palavra face, “panîms” , é sempre empregada no plural. Encontramos aqui grande variedade de traduções: “Além de mim, em detrimento a mim, contra mim”. A preposição hebraica tem um emprego tão vasto que praticamente qualquer tradução pode encontrar um apoio nos textos bíblicos. Mesmo a de Rashi, “desde o tempo em que existo”, pode se justificar a partir de Números 3, 4. (…)

Chouraqui não diz qual preposição é explicitamente, mas isso é fácil de saber:

Ex 20:3 – lo' yihyeh-lekha 'elohiym 'achêriym`al-pânâya

Olha aí senhores a boa e velha `al dando mostras de sua versatilidade. Coisa que o mestre reconhecia, mas um de seus discípulos parece que não. Um outro trecho do Velho Testamento muito ilustrativo das múltiplas traduções viáveis para ela é Sl 48:15:

  • É ele quem nos conduz sobre (contra) a morte. (Bíblia de Jerusalém, ed. 1995, nota de rodapé “a”)

  • Ele será nosso guia até a morte. (tradução de João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada)

  • Ele mesmo nos conduz para além da morte. (Louvores I, André Chouraqui, ed. Imago)

Interessante ver como Chouraqui comenta sua tradução: “para além da morte: IHWH é o verdadeiro vencedor da morte. Ele nos dá a força para escapar à sua fatalidade.” Por outro lado, a tradução de João Ferreira de Almeida não está errada, apenas adota interpretação teológica que Iahweh nos acompanharia até o fim da vida. Como o Sheol do judaísmo pré-exílio não pode ser considerado um verdadeiro “pós morte”, pode ser que a intenção do salmista tenha sido realmente esta. Nisso comento do que considero outra grande falha na obra de Severino Celestino da Silva:

O interessante, nisto tudo, é que são encontradas muitas diferenças de tradução entre elas [as traduções bíblicas]. E por quê? O texto que as originou não foi o mesmo? Por que falta unanimidade em suas traduções? E a única resposta é esta: a questão pessoal de cada corrente religiosa coloca em sua tradução.

Analisando as Traduções Bíblicas, Introdução, 4ª ed.

Primeiramente, a origem das diversas traduções não é a mesma, como explanado mais acima. Nem mesmo o massorético pode ser chamado de “original”. Segundo, mesmo que ainda tivéssemos o autógrafo de cada livro bíblico disponível e nos livrássemos da má-fé de certos grupos católicos e protestantes – coisa que critica com razão já na introdução de seu livro – ainda haveria um problema sério: certos versículos permitem mais de uma leitura! Muitas vezes uma tradução não é algo fixo, isento de interpretação, por causa de flexibilidades semântica e gramaticais. Por exemplo, a LXX é usada em estudos comparativos entre os credos da Judeia e o judaísmo helenístico da diáspora. Outro equívoco de Severino Celestino Severino da Silva é querer dar sentidos únicos para palavras (como nefesh dos salmos 19 e 23) ou um uso rígido da preposições (como a hebraica `al ou a latina in.), uma rigidez gramatical que os antigos falantes dos idiomas originais desconheciam. Quer um exemplo próximo de nós (e similar a outro já citado)? “Fulano foi à cidade/ Fulano foi na cidade”. As gramáticas normativas “clássicas” dão apenas a primeira frase como correta, apesar de a segunda construção ser a mais comum no Brasil.

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O Testemunho Versional

Visto que as traduções primitivas do Antigo Testamento podem preservantes variantes textuais dele agora perdidas, vejamos o que elas têm a dizer. Mas antes, alguns pormenores técnicos

Outras formas de pensar

Como boa Ciência Natural, a Linguística subdivide seu objeto de estudo em diversas categorias, conforme a similaridade de características. Uma delas é a seguinte (3):

  • Línguas analíticas (ou isolantes): as palavras são invariáveis e seu valor sintático está diretamente relacionado à posição que ocupam numa oração. Um exemplo famoso de uma língua que tem o predomínio dessa característica é o inglês moderno, quase sem desinências e com uma separação difusa entre substantivos, adjetivos e verbos. Outros exemplos de língua que se aproximam desse ideal são o chinês, o vietnamita e samoano;
  • Sintéticas (também chamadas flexivas ou fusionantes): as palavras mudam por meio de afixos (flexões), conforme o papel que representam na oração. O lituano é um exemplar moderno desse grupo;
  • Aglutinantes: as palavras são compostas pela justaposição de diversas unidades menores, cada uma representando um aspecto gramatical em particular. Exemplos: turco e finlandês;
  • Polissintéticas (ou incorporantes): as palavras são geralmente muito longas e complexas, contendo uma mistura de aspectos aglutinantes e flexionantes, como no esquimó e em línguas aborígenes da Austrália.

O grupo das sintéticas, particularmente, merece um pouco de atenção aqui, pois o latim e grego se enquadram nele. Ambas, assim como todas as línguas da família Indo-europeia, descendem de suposta língua falada há cerca de 6.000 anos chamada protoindo-europeu, cuja gramática foi estimada pela comparação entre os seus descendentes mais antigos a terem registro escrito (sânscrito, avesta, eslavônico e, claro, latim e grego). Crê-se que ele possuía um sistema de flexões com oito “casos” distintos de funções sintáticas que uma palavra poderia assumir, a saber:

  • nominativo: é o agente de uma alguma ação. Em gramatiquês seria o sujeito da oração ou o predicativo do sujeito;
  • acusativo: é o paciente de alguma ação. Representa, comumente, o que seria o objeto direto da oração;
  • dativo: representa a quem uma ação se direciona, equivalendo ao objeto indireto;
  • genitivo: indica o possuidor de alguma coisa (4);
  • vocativo: indica o chamamento (5);
  • locativo: designa o lugar em que a ação ocorre;
  • instrumental: indica o meio pelo qual uma ação é realizada;
  • ablativo: indica a origem de alguma ação de movimento.

Estas são as chamadas flexões nominais, que os gramáticos costumam agrupar em classes com afixos similares, conhecidas como declinações. Ao lado delas, estão as flexões verbais, que assinalam o tempo verbal e a pessoa utilizada (primeira, segunda, terceira. Singular/plural).

Nem todas as relações entre as palavras de uma oração conseguem ser abarcadas por esse sistema de casos, aí entra o papel das preposições: pequenas palavras a especificar ou modificar o significado original de algum dos casos. É intuitivo que quanto mais rico for o sistema flexional, mais dispensáveis são as preposições no correr da comunicação. Outra característica das línguas flexionantes é a menor importância da posição das palavras para o entendimento correto do significado. Por exemplo, seja a frase simples:

A água rega a terra.

Se ela for reescrita para:

A terra rega a água.

O significado muda totalmente (6), se é que ainda faz sentido. Porém se estivesse escrita em latim:

Aqua rigat terram.

Ela poderia muito bem ser alterada para:

Terram rigat aqua.

Aqua terram rigat.

Rigat terram aqua.

e tudo bem! O sentindo não se alteraria, pois a terminação (7) em a para aqua indica que ela está no nominativo, sendo o sujeito da oração, ao passo que terra está no acusativo – terminação em am – sendo o objeto do verbo não importa em que posição esteja.

Em maior ou menor grau, o sistema flexional se deteriorou nos descendentes do proto-indo-europeu. O sânscrito é a língua documentada em que ele aparece em todo seu ecletismo. No grego clássico, os casos já haviam se reduzido a cinco; no latim, a seis, e quase desapareceram as flexões nominais em suas filhas e boa parte das verbais (8). Mais radical ainda foi o que aconteceu com o inglês, hoje um idioma analítico e quase sem flexão alguma, mas que em tempos medievais possuíra um sistema rico.

Feitas essas explanações, vejamos como o sistema flexional, em especial o do latim, afeta o entendimento de Ex 20:5 e 34:7.

A versão dos primeiros cristãos

Tudo bem, os primeiríssimos cristãos falavam aramaico, não o grego, mas desde que Paulo pregou aos gentios, culminando com a hegemonia do cristianismo helênico, ela se tornou seu Antigo Testamento e foi nela que se baseou quase toda a patrística.

Septuaginta - Edição crítica de Rahlfs

Septuaginta da Deutsche Bibelgesellschaft, de Stuttgart, Alemanha. Severino Celestino da Silva tem uma. Eu também.

A língua grega nos tempos bíblicos possuía um sistema de cinco casos (inflexões): nominativo, genitivo, dativo, acusativo e vocativo. Em sua evolução do proto-indoeuropeu, o dativo absorveu, com o auxílio de preposições, as funções de locativo e instrumental; o genitivo assumiu o ablativo. Cientes dessas particularidades, vejamos que o texto grego legado faz das preposições em Ex 20:5 e correlatos.

A Edição crítica da Septuaginta (LXX) feita por Alfred Rahlfs (9) adota os seguintes textos:

Ex 20:5

(…)αμαρτιας πατερων επι τεκνα εως τριτης και τεταρτης γενεας τοις μισουσιν με
“(…) pecado dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam.”

Nm 14:18

(…)αμαρτιας πατερων επι τεκνα εως τριτης και τεταρτης
“(…) pecado dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração.”

Dt 5:9

(…)αμαρτιας πατερων επι τεκνα επι τριτην και τεταρτην γενεαν τοις μισουσιν με
“(…) pecado dos pais sobre os filhos sobre a terceira e quarta geração dos que me odeiam.”

Ex 20:6

και ποιων ελεος εις χιλιαδας τοις αγαπωσιν με και τοις φυλασσουσιν τα προσταγματα μου
“e faço misericórdia por milhares dos que me amam e os que guardam meus mandamentos.”

Ex 34:7

(…) ανομιας πατερων επι τεκνα και επι τεκνα τεκνων επι τριτην και τεταρτην γενεαν

“(…) pecados dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos sobre a terceira e quarta geração.”

Aqui somos apresentados a três preposições gregas importantes para o entendimento da questão:

  • 'εως: funciona como preposição ou conjunção com o sentido básico de “até (que)”, regendo o caso genitivo. Exemplos:
    • Gn 3:19 εως του αποστρεψαι σε εις την γην

      até que volte à terra.”

    • Gn 50:23 και ειδεν Ιωσηφ Εφραιμ παιδια εως τριτης γενεας

      “e José viu os filhos de Efraim até a terceira geração”

    • Ex 12:24 και φυλαξεσθε το ρημα τουτο νομιμον σεαυτωι και τοις υιοις σου εως αιωνος

      “e observarás isso como um mandamento para ti e teus filhos até a era [das eras].”

    • Lv 22:6 ψυχη ητις αν αψηται αυτων ακαθαρτος εσται εως εσπερας

      “a pessoa que tocar qualquer um deles estará impura até a tarde”

  • επι: pode assumir a forma επ diante de uma palavra que comece por vogal não aspirada ou εφ diante de aspirada. Possui o significado básico de “sobre”, com contato físico, mas pode assumir extrapolações desse sentido nos três casos que rege:
    • dativo:
      1. repouso em algum local, fazendo as vezes de um locativo.
        • Gn 21:33 και εφυτευσεν Αβρααμ αρουραν επι τωι φρεατι του ορκου”e Abraão plantou um arvoredo no poço do juramento [Bersebá].”
      2. um período específico no tempo:
        • Dt 4:30 και ευρησουσιν σε παντες οι λογοι ουτοι επ' εσχατωι των ημερων

          “E todas essas coisas virão sobre ti nos últimos dias.”

      3. a fundamentação (base) usada para um ato:
        • Ex 20:7 ου λημψηι το ονομα κυριου του θεου σου επι ματαιωι

          “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão.”

    • genitivo: em geral, compartilha os usos do dativo (10) . Exemplos:
      • Gn: 10:8 Χους δε εγεννησεν τον Νεβρωδ ουτος ηρξατο ειναι γιγας επι της γης

        “E Cuxe gerou a Nebrode: ele começou a ser um gigante sobre a terra.”

      • Ex 29:13 και λημψηι παν το στεαρ το επι της κοιλιας

        “e retirarás toda a gordura sobre o ventre”

    • acusativo: aqui há alguma ideia de dinamismo envolvida e a preposição assinala o local de repouso final:
      1. “sobre” com verbos de indiquem movimento, assinalando onde se desenrola ou termina:
        • Lv 4:7 και επιθησει ο ιερευς απο του αιματος του μοσχου επι τα κερατα του θυσιαστηριου του θυμιαματος της συνθεσεως του εναντιον κυριου

          “e o sacerdote colocará o sangue do novilho sobre os chifres [cantos] do altar do incenso, perante o Senhor”

      2. “em direção a” (rumar sobre algo):
        • Gn 18:6 και εσπευσεν Αβρααμ επι την σκηνην προς Σαρραν

          “E Abraão correu para a tenda atrás de Sara”

        • Ex 20:26 ουκ αναβησηι εν αναβαθμισιν επι το θυσιαστηριον μου

          “não subirás por degraus ao meu altar”

      3. “contra” (sobre um alvo):
        • Ex 15:24 και διεγογγυζεν ο λαος επι Μωυσην λεγοντες τι πιομεθα

          “E o povo murmurou contra Moisés, dizendo: ‘que vamos beber?'”

      4. “por” indicando extensão espacial ou temporal:
        • Ex 10:14 και ανηγαγεν αυτην επι πασαν γην Αιγυπτου

          “e os levou por toda a terra do Egito.”

        • Jz 14:14 και ουκ ηδυνασθησαν απαγγειλαι το προβλημα επι τρεις ημερας

          “e não puderam decifrar o enigma por três dias”

    O versículo Gn 22:19 dá um interessante contraste entre esses dois usos de επι:

    απεστραφη δε Αβρααμ προς τους παιδας αυτου και ανασταντες επορευθησαν αμα επι το φρεαρ του ορκου και κατωι κησεν Αβρααμ επι τωι φρεατι του ορκου

    “E Abraão voltou aos seus servos, e se levantaram e foram juntos para o Poço do Juramento [Bersebá]; e Abraão residiu no Poço do Juramento.”

  • εις: preposição que rege exclusivamente o acusativo e passa as ideias básicas de “na direção de“, “para dentro de“, derivando daí outros significados:
    • “para”:
      • Gn 19:17 εις το ορος σωιζου

        “Fuja para o monte”

    • “a/até”:
      • Lv 4:16 και εισοισει ο ιερευς ο χριστος απο του αιματος του μοσχου εις την σκηνην του αρτυριου

        “e o sacerdote ungido trará o sangue do novilho ao tabernáculo do testemunho.”

    • “por/através (espacial)”
      • Ex 13:18 και εκυκλωσεν ο θεος τον λαον οδον την εις την ερημον εις την ερυθραν θαλασσαν

        “e Deus fez o povo dar a volta pelo o deserto até o Mar Vermelho”

    • “por/até” (temporal): o próprio versículo Ex 20:6 visto acima. Nesse, a preposição εἰς é um equivalente bem próximo para a hebraica le, possibilitando a tradução que Severino Celestino da Silva gostaria: “por milhares”

Em Ex 20:5 temos 'εως precedendo as “terceira e quarta gerações”, επι em Dt.5:9 e novamente 'εως em Nm 14:18. Como o Pentateuco foi traduzido “todo para o grego num período curto de tempo, no século III a.C.(11), fica sugerido que as trocas preposicionais já ocorriam desde aquela época. Infelizmente, as passagens do êxodo e suas similares estão perdidas em Qumran. Por outro lado, há uma uma informação importante que os exemplos acima – em especial Gn 22:19 e Lv 4:16 – nos dão: existia uma certa sobreposição semântica entre εἰς e επι de acusativo. Isso dever ter repercutido nas versões latinas.

Epi, segundo o dicionario Grego-português de Isidro Pereira

Verbete para επι no Dicionário Grego-Português e Português-Grego de Isidro Pereira, constante na bibligrafia de Analisando…

Tal fato está acessível no próprio dicionário grego/português contido na bibliografia de Analisando… (cf. [Pereira, p. 207]), que traz a multiplicidade de sentidos para επι, conforme o caso regido.

Na Língua de Jesus

Edição dos Targumim Nefiti e Pseudo-Jonatas

O volume dois da coleção The Aramaic Bible (The Liturgical Press) contém o livro de Êxodo dos targumim Nefiti e Pseudo-Jonatas. Esse eu não sei se ele tem.

Com o Cativeiro de Babilônia (590 – 538 a.C.) , os israelitas remanescentes foram expostos ao, ou melhor, imersos no idioma do conquistador: o aramaico, que era um parente próximo do hebraico na família das línguas semíticas. Mesmo com a queda do Império Babilônico ante os persas e o retorno de parcela do povo a Israel, ele continuou a ser a língua oficial da parte ocidental do novo império. Com seu uso constante no contato com outros povos, quer na diplomacia ou no comércio, e com os que permaneceram na Babilônia fez o aramaico suplantar o hebraico como língua materna dos judeus, deixando ao segundo apenas o uso litúrgico. O livro de Neemias (v. 13:24) dá um registro dessa mudança linguística ao relatar que metade dos filhos de casamentos mistos “não sabia mais o hebraico”. Acredita-se que ao tempo de Jesus, esse processo já estivesse quase completo na Palestina romana. As poucas falas de Jesus registradas no vernáculo local estão em aramaico.

Um passo natural seria traduzir as Escrituras para o novo idioma, daí surgiram os targumin (“traduções”), que não são apenas versões para o aramaico, mas deixam-se, também, infiltrar com alguma interpretação. Seriam uma espécie de intermediário entre o literal e os comentários midrashim.

Os targumim, portanto, não apenas ajudam a entender as mudanças textuais, mas também como era sua interpretação. O Targum “Pseudo-Jônatas” (12), escrito na Palestina, assim trata Ex 20:5:

Eu, o Senhor teu Deus, sou um Deus ciumento e vingador, punindo com vingança, gravando a culpa dos pai iníquos sobre os filhos rebeldes até a terceira e quarta geração dos que me odeiam.

“Filhos rebeldes”. Esse targum deixa transparecer a necessidade de os filhos também se desviarem para merecerem a culpa. Isso é bem mais explícito no Targum Onkelos, cuja tradição situa sua origem na diáspora babilônica (13):

(..)aflijo os pecados dos pais sobre os filhos rebeldes, até a terceira e quarta geração dos que Me odeiam; quando os filhos derem completude ao pecado após seus pais; mas faço o bem a milhares de gerações dos que Me amam e guardam Meus mandamento

Vejamos, então, o que dizem nos outros versículos afins (14):

Ex 34:7

Onkelos
Visitando os pecados dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos dos rebeldes, sobre a terceira e quarta geração

Pseudo-Jonatas
Visitando os pecados dos pais sobre os filhos rebeldes, sobre a terceira e sobre a quarta geração.

Nm 14:18

Onkelos

visitando os pecados dos iníquos pais sobre os filhos rebeldes até a terceira e quarta geração

Pseudo-Jonatas
mas visitará os pecados dos iníquos pais sobre os filhos rebeldes até a terceira e quarta geração

Dt 5:9

Onkelos
visitando os pecados dos pais sobre os filhos rebeldes, até a terceira geração e sobre a quarta dos que Me odeiam, quando os filhos derem completude ao pecado após seus pais.

Pseudo-Jonatas
relembrando os pecados dos iníquos pais sobre os filhos rebeldes até a terceira geração e a quarta dos que Me odeiam, quando os filhos derem completude ao pecado após seus pais

Em todos os versículos acima, a preposição usada antes de “terceira geração” foi `al, que também existe em aramaico com a mesma versatilidade. Ela foi traduzida como “sobre” ou “até” conforme a existência ou não de um salto de gerações. Repare que, em Êxodo e Deuteronômio, ocorre uma “suavização” das punições hereditárias, ao só prosseguirem quando os filhos fossem “rebeldes” e persistissem nos erros dos antepassados. Estimando a origem dos targumim, essa interpretação pode remontar ao fim da Antiguidade (15).

* * *

Posteriormente, os cristãos do Levante também criaram sua versão em aramaico das Escrituras. A Peshitta (“Simples” ou “Comum”) foi escrita no dialeto siríaco, que era o aramaico literário da região da cidade de Edessa, ao Sul da atual Turquia. Seu texto para o Antigo Testamento é bem próximo ao Massorético e Ex 20:5 está como `al, mas Dt 5:9 oferece uma outra variante que também pode ser vertida para “até”: le (“a/para/por” são sentidos mais imediatos). Uma outra surpresa guardada na Peshitta é Nm 14:18: aqui o texto é mais longo e idêntico a Ex 34:7.

Para o vulgo, sem ser vulgar

Edição da Vulgata da Deutsch Biblegesellschft

Vulgata da Deutsche Bibelgesellschaft, de Stuttgart, Alemanha. Severino Celestino da Silva tem uma. Eu também.

Uma preposição, dois usos
Traduções latinas podem sugerir o oposto, à primeira vista: in terciam et quartam gerationem. A preposição latina “in” deu origem ao nosso “em”, só que ela tinha um uso mais sofisticado em nossa língua-mãe.

No latim, os casos locativo e instrumental foram absorvidos pelo ablativo, que ganhou funções de adjunto adverbial. O acusativo, além do tradicional objeto direto, também passou a assumir funções adverbiais sinalizando o ponto final de um movimento ou do tempo como duração (16). Ainda assim, o latim se valia de preposições para especificar que tipo de adjunto era. Nesse idioma, a maioria das preposições regia justamente esses dois casos, sendo que o grosso delas se associava a apenas um deles. Entretanto, um pequeno grupo – super, subter, sub e in – regia ambos e com profundas mudanças de significado. Centremo-nos na preposição in.

Se ela fosse utilizada no caso ablativo, equivalia ao “em” e era usado com verbos de permanência, movimento circunscrito ou períodos limitados de tempo; se no caso acusativo, podia também ser “a”, “até” (onde há noção de tempo), “contra”, “para”, “em” (estes dois com verbos de movimento, em geral).
Eis alguns exemplos do uso dessa preposição:

Ablativo:

Sum in urbe (“estou na cidade”)
Ambulare in agris (“passear nos campos”)

Acusativo:

Eo in urbem (“vou para a cidade”)
In urbem ingressus est (“entrou na cidade”)
Incedere in hostes (“avançar contra os inimigos”)
Amor in patriam (“amor à pátria”, cf. Cic. Flac. 1.2)
Dormiet in lucem (“dormirá até o amanhecer”, cf. Hor. Ep. 1.18)
In multam noctem (“até alta noite”)

Fontes:

-Almeida, Napoleão Mendes de; Gramática Latina, Ed. Saraiva, 26ª ed., lições 35 e 101

-Encliclopedia Labor, El Linguaje e las Matemáticas, Vol. VI, Gramática latina, pag. 176, Editorial Labor, 1958

Esta última expressão se encontra, por exemplo, no texto Somnium Scipionis (“O Sonho de Cipião”), de Cícero: Sermonem in multam noctem proxidimus: “estendemos a conversa até alta noite”. É(um exemplo típico em que o verbo não é de movimento e in faz parte de um advérbio. O humanista Erasmo de Rotterdam, em seu Colloquia Familiaria, traz ao fim de uma fala do personagem Berthulphus, na “conversa” dedicada às estalagens: atque illic desidendum est volenti nolenti usque ad multam noctem. “E lá deves ficar sentado, ainda que a contragosto, direto até alta noite”. Estes dois exemplos mostram um caso de intercambialidade entre in e outra preposição – ad – tradicionalmente tida como (a/até). Na verdade, pode haver uma sutil diferença nos usos de in e ad. Isto fica patente em texto em que as duas preposições são postas em oposição, como na Epístola Moral nº 73 de Sêneca: “Deus ad homines venit, immo quod est propius, in homines venit: nulla sine deo mens bona est.” Em tradução livre: “Deus vai até os homens, aliás, mais precisamente, adentra os homens: não há mente sã sem Deus”. Ambas indicam a direção que se segue, mas ad dá ideia de aproximação e in remete à noção de um percurso até o interior. Por isso a in de acusativo em vez de ad no versículo Ex 20:5 – para garantir a inclusão da terceira e quarta geração no cômputo.

E mais, o uso de nossa preposição em no sentido de “direção” deve ter sido um de seus usos originais e uma reminiscência da latina in de acusativo. Dizem-nos isso os clássicos portugueses:

Os cabelos na barba e os que decem
Da cabeça nos ombros. (Luís de Camões, Lusíadas, canto VI, 17)

Ou será melhor “da cabeça até os ombros/ aos ombros”? A língua evoluiu e o uso de em no sentido de direção regrediu e até quase sumir no português europeu, mas permanece ainda vivo na vertente falada no Brasil em frases como: “Vou no cinema esta noite”. Para saber desse assunto sugiro: [Coutinho], item 643, p. 339

Verbete in do dicionário latim-português de António G. Ferreira – o mesmo adotado em Analisando … – exibindo múltiplos significados, conforme o caso regido pela preposição.

A Vulgata

Do século III ao IV, desenvolveu-se no ocidente romano um conjunto de traduções que ficaria conhecido como Vetus Latina (Antiga Latina): textos vertidos para o latim principalmente da Septuaginta e do texto grego do tipo “ocidental” para o Novo Testamento. Dentro dessa tradição, havia duas subdivisões chamadas Vetus Itala e Vetus Africana (ou Afra), nomeadas conforme o local em seus textos mais circulavam. Na verdade, porém, talvez fosse mais correto dizer que havia tantas subversões quantos eram os manuscritos disponíveis, dado o fato de muitos dos letrados romanos também serem capazes de ler o grego e se julgarem aptos para corrigir, por conta própria, o texto latino baseados nas cópias gregas que dispunham (17).

Esse estado de confusão de textos, levou o papa Dâmaso a solicitar ao erudito Jerônimo de Aquileia, por volta de 382 d.C., uma revisão profunda do texto latino, ao menos dos evangelhos, cujo trabalho se baseou em texto alexandrinos do Novo Testamento. De 385 até o fim da vida (420 d.C.), Jerônimo residiu em Cesareia da Palestina, onde teve acesso a importante biblioteca cristã local, que continha a famosa Hexapla de Orígenes. Jerônimo chegou a fazer uma primeira versão latina dos salmos (baseada na Vetus), atualmente perdida. A partir de 392 d.C., Após revisar o livro de Gênesis, Jerônimo se dedicou a traduzir o restante do Antigo Testamento baseando-se no que chamava de veritas hebraica, uma “verdade” que não incluía apenas o texto protomassorético de então, mas também as traduções gregas feitas por judeus como Símaco, Áquila e Teodocião. Esse trabalho foi concluído por volta de 405 de nossa Era.

O termo Vulgata já existia existia à época de Jerônimo, como uma abreviação de versio vulgata – “versão para divulgação (ao povo)” -, mas era atribuído geralmente à LXX e à Vetus Latina. Assim, por exemplo, falou Agostinho de Hipona:

Fiunt itaque anni a diluvio usque ad Abraham mille septuaginta et duo secundum vulgatam editionem, hoc est interpretum Septuaginta.

Portanto foram mil e setenta e dois anos desde o dilúvio até Abraão, segundo a edição vulgata, isto é, a dos setenta intérpretes.

Cidade de Deus, livro XVI, cap. VIII.

Foi na Idade Média, a partir da época carolíngea, que ele passou a se referir também ao trabalho de Jerônimo e apenas no Concílio de Trento (1545–1563) é que esse tornou a versão autoritativa da Igreja Católica [Barrera, II, cap. VI, p.422]. Durante a Antiguidade tardia e a Idade Média, seu trabalho não possuía sanção oficial e teve de competir com edições da Vetus Latina, cuja popularidade a ajudou a resistir, chegando até mesmo a contaminar alguns textos de sua rival em certas cópia desta. A qualidade e regularidade do texto de Jerônimo, porém, fez, aos poucos, com que seu trabalho de tradução e revisão se impusesse.

É preciso, também, separar a Vulgata da “tradução jeronimiana”. A primeira recolhe os textos traduzidos da veritas hebraica (inclusive a tradução Iuxta Hebraeos dos Salmos), os livros de Tobias e Judite, a revisão dos evangelhos e sua tradução do texto hexaplar dos salmos (Iuxta Septuaginta). Os demais livros deuterocanônicos, assim como o restante do Novo Testamento, são revisões da Vetus Latina.

A “língua” de Jerônimo
Aquilo que os estudantes estudam é o chamado latim clássico que, digamos, teve suas práticas registradas na literatura do primeiro século antes de Cristo ao primeiro da Era Comum. Sua versão oral – o sermus urbanus – era a língua das classes aristocráticas, que podiam pagar uma educação esmerada para seus filhos com mestres do idioma. Como toda e boa “norma culta”, ela não deixava de ser uma construção artificial, que rejeitava variantes existentes. Essas continuaram vivas e ativas na fala do povo pouco letrado e foram às mais diversas partes do império pelas legiões que o defendiam, pelos colonos que o romanizavam e pelos comerciantes que o interligavam. O sermus vulgaris não era uma corrupção da língua culta, mas um filho legítimo do latim dos princípios da república, cujos falares ficaram de fora da “era de ouro” da literatura latina. Sem controle e numa época de analfabetismo generalizado, continuou a mudar e se ramificar, mas permaneceu vivo, transmutado nas diversas línguas neolatinas.

Latim - esquemático de sua evolução

Esquemático da evolução do latim. Fonte: [Ilari, cap. IV, p. 64] (18)

O “latim vulgar”, para a infelicidade dos romanistas, é de difícil delimitação, pois os que dominavam a escrita, muitas vezes procuravam imitar a forma clássica. Contudo, algumas obras sem pretensões estilísticas sofriam às vezes uma “invasão” de expressões populares. Que o diga a Vetus Latina:

Versículo Vetus Latina Vulgata Comentário
Gn 1:4 Et vidit Deus lucem quia bona est. Et vidit Deus lucem quod esset bona. A norma clássica pede o subjuntivo com orações subordinadas do discurso indireto.
Gn 11:3 Et dixit homo proximo suo Dixitque alter ad proximum suum Uso de homo (homem) como partícula indefinida (19).
Nm 14:13 eduxisti populum hunc deinter illos (20) de quorum medio eduxisti populum istum Uso de preposição composta de + inter.
Sl 132:18 Super ipsum autem floriet sanctificatio mea Super ipsum autem florebit sanctificatio mea Confusão entre conjugações. Redução do total de conjugações de quatro para três em línguas neolatinas
Lc 6:2 quidam autem de Farisaeis
dicebant ei (Codex Bezae)
Quidam autem pharisæorum, dicebant illis Diferenças ortográficas (ph/f), uso do de + ablativo no lugar do genitivo (21).
Jo 14:26 Paraclitus autem ille Spiritus Sanctus Paraclitus autem Spiritus Sanctus Uso de pronomes demonstrativos como artigo definido.
I Tm 2:15 Salva autem fiet per filiorum creationem Salvabitur autem per filiorum creationem Estrutura analítica para a voz passiva em lugar da sintética.

E como se enquadraria a Vulgata de Jerônimo, ou melhor, a tradução/revisão jeronimiana no esquema de seu mundo? Ao contrário da Vetus, que foi, de certa forma, um trabalho coletivo, temos a pena de um só autor, que nos leva indagar que decisões teria tomado como filosofia de tradução. Parte da resposta pode ser encontrada na própria Vulgata, num conjunto peculiar de características (22):

  1. Cópia da sintaxe hebraica (hebraísmos) (23);
  2. Retenção da ordem hebraica de palavras em um oração (viável em uma língua sintética);
  3. Introdução de palavras hebraicas e aramaicas (amen, mamona – Lc 16:13);
  4. Cópia da sintaxe grega (helenismos);
  5. Inclusão de algumas formas “errôneas” (orais?) de latim.

Como bem já assinalaram, a Vulgata “tem uma estrutura morfológica irrepreensível do ponto de vista do latim literário” (24), suas divergências com ele vêm da sintaxe, até como uma forma de conciliar todas essas características. Por exemplo:

  • Muitos nomes próprios hebraicos não são flexionados, como Golias, Davi, Saul. Quando o são, frequentemente vêm na forma grega;
  • Em latim clássico, relatos indiretos (após verbos de fala, pensamento, descoberta, etc.) eram expressos em construções da forma acusativo + verbo infinitivo, ao passo o latim vulgar preferia usar as conjunções quod/quia/quoniam, como em Gn 39:3 na Vulgata
    … noverat Dominum esse cum eo …compare com a Vetus:Vidit autem dominus eius quod esset Dominus cum eo …Jerônimo, por outro lado, também usa várias vezes conjunções em relatos. É possível que optasse por elas para uma tradução mais direta do grego, cujo discurso indireto é comumente introduzido pela partícula ὅτι mais um verbo finito, numa particular convergência entre um vulgarismo e um helenismo;
  • O latim clássico não possuía artigos, sendo a definição dada pelo contexto, por possessivos ou demonstrativos. No latim vulgar, tornou-se crescente o uso de demonstrativos diversos como artigos definidos. Em outra convergência entre vulgarismo e helenismo, Jerônimo emula muitas vezes o artigo grego com os demonstrativos ille e hic (ex. Jo 9:30 respondit ille hommo). O grego koiné de então carecia de artigo indefinido, mas sua versão popular adotou muitas vezes a palavra τις (“algum”), que Jerônimo emulou com outro empréstimo popular: o numeral unus (“um”). Cf. Lc 9:8: οτι προφητης τις των αρχαιων ανεστη /quia propheta unus de antiquis surrexit.
  • Jerônimo opta por construções que não eram desconhecidas nas obras clássicas, mas que ficaram mais frequentes na língua vulgar, como o comparativo analítico com magis (cf. Sb 8:20) ou plus (cf. Eclo 23:28) (25);
  • Utilizava a construção preposição + ablativo, em circunstâncias que o clássico usaria apenas o ablativo simples, pois o hebraico, de poucas flexões, usava-as. Por exemplo, o ablativo de meio ou instrumento em I Sm (I Regnum) 17:47: non in gladio nec in hasta (“não pela espada, nem pela lança”). Isso também ia ao encontro da linguagem oral, pois, àquela altura, os casos já se confundiam nela (26);
  • Comumente usava ad + acusativo como objeto indireto em vez do dativo (27).

Com essas características mistas de inovação, conservadorismo e empréstimos; a Vulgata constituiu uma linguagem sui generis, distinta de tudo que veio antes em língua latina, mas nem tanto do que viria depois (28). Sua adoção como texto bíblico pela renascença carolíngia dos séculos VIII e IX consagrou muitos de seus falares e expressões. Tornou-se referência do que hoje se chama latim medieval: o herdeiro do clássico tardio – que lhe legou a base – com alguns desvios de morfologia, uma sintaxe sujeita influências externas (29) e um vocabulário em constante expansão. Linguisticamente, não teve vida à parte, pois nunca foi a língua materna de ninguém, mas o idioma franco da intelectualidade cristã e pós-romana.

A Vulgata e as Preposições Gregas

Se alguém tentasse fazer uma “Gramática do Latim Medieval”, fracassaria sumariamente. Em seu milênio de existência, abarcou um grande de literatos dispersos geograficamente, recebendo influências das diversas e às vezes até elevando à sofisticação e purismo do clássico. O que muitos livros intitulados com algo do tema fazem é dar uma introdução com a apresentação de fenômenos linguísticos comuns do período e daí partir para a análise de textos. Todos partem do princípio de que o leitor já sabe algo a respeito das normas clássicas, pois as comparações são feitas em cima delas. Se você achou o apanhado acima entediante, saiba que ele foi bem simplório.

Assim, se alguém quiser alguma assertiva a respeito do latim da Vulgata, não há outro jeito senão debruçar-se sobre ela (30). Ao contrário da Septuaginta ou do Massorético, ela tem a vantagem de ter passado pelo crivo de uma única pessoa que, mesmo onde apenas revisou, aparou arestas.

A questão é saber se Jerônimo fazia um uso consistente dos casos para permitir uma análise com as normas clássicas. Para fins de análise, vamos nos limitar ao Novo Testamento, por termos acesso pleno ao tipo de texto do qual ele foi traduzido (alexandrino).

De fato, Jerônimo às vezes traduzia por in + ablativo passagens que em grego usavam a preposição εις (a, para, por), principalmente no que se referia ao batismo:

Mt 28:19

in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti
εις το ονομα του πατρος και του υιου και του αγιου πνευματος
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”

No caso, uma destinação tornou-se um instrumental. Tal leitura concorda com a Vetus Latina e, provavelmente, por ser uma fórmula litúrgica trintária “consagrada pelo uso”, Jerônimo não a revisou. Ver At 19:3 como outro caso de “ablativo de meio” aplicado ao batismo.

At 2:27

Quoniam non derelinques animam meam in inferno
οτι ουκ εγκαταλειψεις την ψυχην μου εις αδην.
“Pois não deixarás minha alma ao/no inferno

No caso, uma destinação por ablativo-locativo. Também concorda com a Vetus, porém há manuscritos com a leitura in infernum (“ao inferno”) (31).

Hb 9:24

Em alguns manuscritos da Vulgata (como o Codex Amiatinus), lê-se

Non enim in manufactis sanctis Iesus introi[v]it exemplaria verorum sed in ipsum caelum

ου γαρ εις χειροποιητα εισηλθεν αγια χριστος αντιτυπα των αληθινων αλλ εις αυτον τον ουρανον
“Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, imagem do verdadeiro, porém no mesmo céu

Essa leitura concorda com a Vetus Latina no primeiro in, mas discorda dela no segundo, em conformidade com o grego. As edições Sixto-Clementina e a Neovulgata (o atual texto oficial litúrgico do Vaticano) trazem in manufacta santa.

Por outro lado, quando in + acusativo é utilizada, consistentemente se denota um movimento para/em direção ou mesmo contra alguma coisa, dependendo do contexto.

Mt 2:13

accipe puerum et matrem eius et fuge in Aegyptum
παραλαβε το παιδιον και την μητερα αυτου και φευγε εις αιγυπτον
“tome a criança e sua mãe e fuja para o Egito

Lc 6:20

Et ipse elevatis oculis in discipulos
και αυτος επαρας τους οφθαλμους αυτου εις τους μαθητας
“e erguendo seus olhos em direção aos discípulos

Ef 1:5

praedestinavit nos in adoptionem
προορισας ημας εις υιοθεσιαν
“nos predestinou para a adoção

At 8:26

viam quae descendit ab Hierusalem in Gazam
την οδον την καταβαινουσαν απο ιερουσαλημ εις γαζαν
“o caminho que desce de Jerusalém a Gaza

Lc 12:10

Et omnis qui dicit verbum in Filium hominis remittetur illi ei autem qui in Spiritum Sanctum blasphemaverit non remittetur.
και πας ος ερει εις τον υιον του ανθρωπου αφεθησεται αυτω τω δε εις το αγιον πνευμα βλασφημησαντι ουκ αφεθησεται
“E todo o que disser uma palavra contra o Filho do homem será perdoado, mas quem tiver blasfemado contra o Espírito Santo não será perdoado.”

Também no sentido temporal

Fl 1:10

ut probetis potiora ut sitis sincere et sine offensa in diem Christi
εις το δοκιμαζειν υμας τα διαφεροντα ινα ητε ειλικρινεις και απροσκοποι εις ημεραν χριστου και απροσκοποι εις ημεραν χριστου
“para que proveis as melhores coisas para que sejais sinceros e sem ofensa até o dia de Cristo.”

I Te 4:15

quia nos qui vivimus qui residui sumus in adventum Domini non praeveniemus eos qui dormierunt.
οτι ημεις οι ζωντες οι περιλειπομενοι εις την παρουσιαν του κυριου ου μη φθασωμεν τους κοιμηθεντας
que nós, os que ficarmos vivos até/para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormiram.

II Tm 1:2

et certus sum quia potens est depositum meum servare in illum diem.
και πεπεισμαι οτι δυνατος εστιν την παραθηκην μου φυλαξαι εις εκεινην την ημεραν
e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia.

Ap 9:15

et soluti sunt quattuor angeli qui parati erant in horam et diem et mensem et annum
και ελυθησαν οι τεσσαρες αγγελοι οι ητοιμασμενοι εις την ωραν και ημεραν και μηνα και ενιαυτον

“E foram soltos os quatro anjos, que foram preparados para a hora, e dia, e mês, e ano

* * *

A preposição grega εως (até) é traduzida de forma bem variada. Quando seguida por oração, costuma ser vertida por donec ou dum + subjuntivo

Mt 2:13

et esto ibi usque dum dicam tibi
και ισθι εκει εως αν ειπω σοι
“e fica lá até que eu te diga

Mt 5:18

Amen quippe dico vobis donec transeat caelum et terra
αμην γαρ λεγω υμιν εως αν παρελθη ο ουρανος και η γη
“Pois em verdade vos digo: até passarem o céu e a terra …”

Precedendo substantivos ou orações substantivadas, é comumente traduzida pelos compostos usque in (32) ou usque ad (33), seguidos por acusativo. A palavra usque funciona como advérbio de modo, que passa a ideia de contínuo, sem interrupção, e o objeto da preposição lhe serve de limite.

Mt 2:15

et erat ibi usque ad obitum Herodis
και ην εκει εως της τελευτης ηρωδου
“e ali esteve até a morte de Herodes

Mt 27:64

iube ergo custodiri sepulchrum usque in diem tertium
κελευσον ουν ασφαλισθηναι τον ταφον εως της τριτης ημερας
“mande que o sepulcro seja guardado até o terceiro dia

Lc 23:44 – aqui há uma oposição entre os tipos de in

et tenebrae factae sunt in universa terra [abl.] usque in nonam horam [ac.]
και σκοτος εγενετο εφ ολην την γην εως ωρας ενατης
“e houve trevas sobre toda a terra até a nona hora

I Co 16:8

permanecebo autem Ephesi usque ad pentecosten
επιμενω δε εν εφεσω εως της πεντηκοστης
“permanecerei, porém, em Éfeso até o Pentecostes

* * *

A preposição επι de dativo (34), por sua vez, é constantemente traduzida por in + ablativo:

Mt 1:11

Iosias autem genuit Iechoniam et frates eijus in transmigratione Babylonis.
ιωσιας δε εγεννησεν τον ιεχονιαν και τους αδελφους αυτου επι της μετοικεσιας βαβυλωνος
“e Josias gerou Jeconias e seus irmãos durante a deportação da Babilônia

Mt 14:8

da mihi inquit hic in disco caput Iohannis Baptistae
δος μοι φησιν ωδε επι πινακι την κεφαλην ιωαννου του βαπτιστου
“‘dá-me’, disse, ‘aqui sobre um prato a cabeça de João Batista'”

Mc 6:55

et percurrentes universam regionem illam coeperunt in grabattis eos qui se male habebant
περιεδραμον ολην την χωραν εκεινην και ηρξαντο επι τοις κραβαττοις τους κακως
“Percorrendo toda aquela região, começaram a levar, em leitos, os que tinham algum mal”

A preposição super também é usada para se referir a locais e suas proximidades, com ablativo ou acusativo.

Jo 5:2

est autem Hierosolymis super Probatica piscina…
εστιν δε εν τοις ιεροσολυμοις επι τη προβατικη κολυμβηθρα…
“Ora, existe em Jerusalém, junto à Probática [portão dos ovinos], um tanque… “

Contudo, se a noção de movimento está envolvida, uma preposição de acusativo acaba sendo usada, por similaridade de ideias.

At 3:11

concurrit omnis populus ad eos ad porticum qui appellatur Salomonis stupentes.
πας ο λαος προς αυτους επι τη στοα τη καλουμενη σολομωντος εκθαμβοι
“todo o povo correu até eles ao chamado Pórtico de Salomão maravilhado”

Com o acusativo, επι costuma ser vertida para outra preposição latina de acusativo:
Mt 14:28 (35)

Respondens autem Petrus dixit Domine si tu es iube me venire ad te super aquas
ο πετρος ειπεν αυτω κυριε ει συ ει κελευσον με ελθειν προς σε επι τα υδατα
Ao responder, Pedro disse: Senhor, se és tu, manda-me ir até ti sobre as águas

Mc 16:2

et valde mane una sabbatorum viniunt ad monumentum orto iam sole
και λιαν πρωι μια των σαββατων ερχονται επι το μνημειον ανατειλαντος του ηλιου
“E bem cedo, no primeiro dia da semana (36), foram ao sepulcro com o sol já levantado.”

Jo 13:25

itaque cum recubuisset ille supra pectus Iesu
αναπεσων εκεινος ουτως επι το στηθος του ιησου
“e então reclinando-se ele sobre o peito de Jesus”

At 8:26

ad Philippum dicens surge et vade contra meridianum ad viam (…)
φιλιππον λεγων αναστηθι και πορευου κατα μεσημβριαν επι την οδον (…)
“a Filipe e disse: levanta-te e vai para o sul, rumo ao caminho” (…)

II Cor 1:23

ego autem testem Deum invoco in animam meam
εγω δε μαρτυρα τον θεον επικαλουμαι επι την εμην ψυχην
“mas invoco Deus o testemunho de Deus por minha alma“.

Como a επι de genitivo, em geral, também denota repouso, usa-se uma preposição de ablativo

Mt 9:2

et ecce offerebant ei paralyticam iacentem in lecto
και ιδου προσεφερον αυτω παραλυτικον επι κλινης βεβλημενον
“Eis que lhe apresentaram um paralítico jazendo num leito

At 5:30

quem vos interemistis suspendentes in ligno
ον υμεις διεχειρισασθε κρεμασαντες επι ξυλου
“que vós matastes, suspendendo-o num madeiro

Por outro lado, επι de genitivo às vezes pode remeter ao deslocamento para algum lugar, levando a uma tradução latina com acusativo:
Jo 6:21

et statim fuit navis ad terram quam ibant
και ευθεως εγενετο το πλοιον επι της γης εις ην υπηγον
“e prontamente a embarcação foi para a terra que eles iam”

At 10:11

et descendens vas quoddam velut linteum magnun quattour initiis submitti [de caelo] in terram
και καταβαινον σκευος τι ως οθονην μεγαλην τεσσαρσιν αρχαις καθιεμενον επι της γης
“e descendo um certo tipo de vaso, feito um grande lençol preso pelas quatro pontas, [do céu] à terra

* * *

Em suma, a preposição επι, devido a sua variedade de usos, pode ser vertida por várias preposições diferentes em latim. Em linhas gerais:

  • Se há repouso ou circunscrição:; in (ablativo) ou supra (acusativo) ou super (acusativo ou ablativo);
  • Se algum direcionamento rumo ou por algo: ad (acusativo), in (acusativo), supra (acusativo) ou super (acusativo).

Cientes desses pormenores, voltemos à análise das versões latinas de Êxodo 20:5 e 34:7.

A Prova dos Noves

Jerônimo de Aquileia e Agostinho de Hipona

“Desculpe senhor apologista espírita, mas temos uma opinião diferente da sua.”

Diversos autores espíritas alegam que versão latina de Ex 20:5 (e correlatos) foi traduzida erroneamente:

  • Andrade, Jayme; O Espiritismo e as Igrejas Reformadas, cap III, pp. 43-4;
  • Chaves, José Reis;A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, Ebm, 7ª ed., cap III, p. 105;
  • Silva, Severino Celestino da; Analisando as Traduções Bíblicas, cap VIII, 4ª ed.

Nenhum deles, contudo, faz alusão aos dois usos que a preposição latina in possui, muito menos aos múltiplos sentidos que a preposição hebraica `al pode assumir, às trocas preposicionais ocorridas nos textos hebraicos – inclusive o massorético -, ou às variantes de leitura gregas. Convenhamos que apenas o último deles se aventura pelos três idiomas nessa questão.
Vejamos, então, o que texto latino de Êxodo diz:

  • 20:5- non adorabis ea neque coles ego sum Dominus Deus tuus fortis zelotes visitans iniquitatem patrum in filiis in tertiam et quartam generationem eorum qui oderunt me
    (não as adorarás, nem as servirás: eu sou o Senhor teu Deus, forte, ciumento que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos até a terceira e a quarta geração dos que me odeiam
  • 20:6 – et faciens misericordiam in milia his qui diligunt me et custodiunt praecepta mea
    (e faz misericórdia por/até mil [gerações] daqueles que me amam e guardam meus mandamentos)
  • 34:7 – qui custodis misericordiam in milia qui aufers iniquitatem et scelera atque peccata nullusque apud te per se innocens est qui reddis iniquitatem patrum in filiis ac nepotibus in tertiam et quartam progeniem
    (que guarda misericórdia por/até mil [gerações]: que retira a iniquidade, e a transgressão, além do pecado, e ninguém é inocente por si mesmo perante ti, que retribui a iniquidade dos pais sobre os filhos e netos até a terceira e quarta descendência)

Se fôssemos usar a lógica desses autores, deveríamos traduzir a parte comum entre Ex 20:5 e 34:7 por “iniquidade dos pais nos filhos (…), na terceira e na quarta geração”. O problema é que somente filiis está no ablativo, sendo apenas o in que o antecede traduzido por em. A segunda aparição desta preposição latina rege o acusativo (tertiam, e não tertia, com o último “a” longo), numa situação temporal, cabendo-lhe muito bem uma tradução por “até”.

Nenhum deles analisa a versão latina de Ex 20:6 ou o versículo completo de 34:7 e, caso o fizessem, teriam de admitir outros significados para in. Veja como Severino Celestino da Silva traduz Ex 20:6 do hebraico:

mas que também ajo, com benevolência ou misericórdia por milhares (infinitas) de gerações, sobre os que me amam e guardam os meus mandamentos.

Tanto a hebraica le, a grega εις e a latina in + acusativo (afinal está escrito milia, e não milibus) podem resultar no “por” que ele propõe. Daí para “até” é um passo.

Tanto as traduções bíblicas de Chouraqui e Jerusalém utilizam a tradução por “até” para Ex 20:5. Se isto ainda parece um tanto misterioso, veja, caro leitor, como foi escrita a passagem análoga Nm 14:18

(…) qui visitas peccata patrum in filios in tertiam et quartam generationem.

Por que teria Jerônimo mudado o ablativo filiis para o acusativo filios, aqui? Para a tese das equivalências preposicionais no hebraico, isto é fácil de explicar. Os que pregam a adoção de regras gramaticais rígidas no hebraico e latim – com significados restritos para `al e in – podem ter um pouco mais de dificuldade…

Mesmo assim, há quem apele alegando que Jerônimo tomou ablativo por acusativo, por redigir em linguagem vulgar, numa espécie de confusão de casos. Possível? Sim. Provável? Não, por certas razões:

  • Há bem menos vulgarismos na Vulgata do que em sua irmã mais velha – a Vetus Latina – ainda mais nos livros que Jerônimo retraduziu, como Êxodo. Lembrando que o termo Vulgata só foi bem mais tardiamente aplicado ao conjunto de traduções e revisões de Jerônimo;
  • Teria de se explicar uma considerável irregularidade no uso dos casos, pois teria usado corretamente o ablativo em in filiis, erroneamente o acusativo em in tertiam … e, logo em seguida, corretamente o acusativo em in milia;
  • A troca de casos pode muito bem ter ocorrido em in filiis, dando a entender que Jerônimo, na verdade, queria dizer “contra os filhos”, como Nm 14:18 sugere. Ou será necessária uma boa explicação de por que a confusão entre ablativo e acusativo só ocorreria no sentido desejado;
  • É válido afirmar que não se deve analisar exclusivamente a Vulgata por gramáticas normativas (o que concordo), porém o apologista espírita que assim proceder também deve admitir que se possa fazer o mesmo para o hebraico. É no mínimo incoerente exigir significados fixos para preposições hebraicas – baseando-se em normas um tanto artificiais para os leitores originais da Torá – e, ao mesmo tempo, exigir um ecletismo linguístico para o uso dos casos com a in latina.

Há ainda uma última cartada que merece um tratamento à parte: alegar que Jerônimo quis mencionar um salto de gerações, mas não se expressou conforme a norma clássica. Aí se está tentando adivinhar o que se passava na mente alheia sem uma fundamentação que não seja a própria conveniência. Um procedimento mais abalizado seria buscar mais fundamentos nos próprios escritos dele, onde estariam explanadas. Uma dica parece estar na própria Vulgata, mais especificamente no livro de Tobias, que traduziu de uma versão aramaica (37):

Et dixit benedicat te Dominus Deus Israhel quia filius es viri optimi et iusti et timentis Deum et elemosynas facientis. Et dicatur benedictio super uxorem tuam et super parentes vestros et videatis filios vestros et filios filiorum vestrorum usque in tertiam et quartam generationem et sit semen vestrum benedictum a Deo Israhel qui regnat in saecula saeculorum

E disse: o Senhor Deus de Israel te abençoa porque és o filho de um homem muito bom, e justo, e temente a Deus, e que pratica as boas obras. E que a benção venha sobre tua esposa e vossos pais e que vejas teus filhos e os filhos dos vossos filhos até a terceira e quarta geração, e que vossa semente seja abençoada pelo Deus de Israel, que reina pelas eras das eras.

Tb 9:9-11

Certo que isso foi uma “bênção hereditária”, não uma maldição, mas a estrutura da fórmula é similar e Tobias conheceria sua própria descendência até a quarta geração. Não há razão para achar que Jerônimo se equivocou no usou dos casos, ou você acha que Tobias morreria para renascer como o próprio tetraneto e admirar-se no espelho, lembrando de quem foi?

Jerônimo não apenas era um tradutor, mas também um comentarista bíblico. Em seu Comentário sobre Ezequiel, escrito entre os anos de 410 e 414 (após a Vulgata, portanto), lemos:

Monet autem divina Scriptura illud quod in Exodo dictum est: Ego sum Dominus Deus tuus. Deus aemulator, qui reddo peccata patrum super filios, usque ad tertiam et quartam generationem his qui oderunt me, et facio misericordiam in millia his qui diligunt me, et custodiunt praecepta mea. Et iterum: Descendit Dominus in nube et astitit iuxta Moysen, et invocavit Moyses nomen Domini, et transiit Dominus ante faciem eius, et invocavit eum, dicens: Domine Deus miserator et misericors, patiens et multae misericordiae, et verax, et iustitiam servans, et misericordiam in millia, auferens iniquitates, et iniustitias, et peccata: et non emundabit iniquitates patrum super filios et super filios filiorum, in tertiam et quartam generationem, sic accipi debere, quasi proverbium, et parabolam, ut aliud in verbis sonet, aliud in sensu teneat; quod in parabola quoque duarum aquilarum supra diximus.

Livro 6, cap. XVIII, parágrafo 2.

Que, em tradução livre, significa:

Alerta-se, no entanto, que quando a divina Escritura em Êxodo diz: “Eu sou o Senhor teu Deus. Um Deus ciumento, que retribui o pecado dos pais sobre os filhos, até a terceira e quarta geração do que me odeiam, e faço misericórdia a milhares dos que amam e guardam meus mandamentos“. E outra vez: “O Senhor desceu da nuvem e se pôs junto a Moisés, e Moisés invocou o nome do Senhor, e o Senhor passou diante de sua face, e ele o invocou, dizendo: ‘Senhor Deus de misericórdia e misericordioso, paciente e rico em misericórdia, e fiel, e guardando justiça e misericórdia por milhares, retirando iniquidades, e injustiças, e pecados: e não purificará as iniquidades dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até a terceira e quarta geração’“, assim deve ser tomada como se fosse um provérbio e parábola, a fim de que em palavras soe uma coisa, outra coisa tenha em sentido; o que também dissemos acima na parábola das duas águias [cf Ez 17].

O segundo e o terceiro destaques são os mesmíssimo versículos de Êxodo 20:5 e 34:7 redigidos de forma alternativa, talvez refletindo uma leitura da LXX e da Vetus, respectivamente (38). Qualquer língua que possua um conjunto rico de preposições (simples e compostas) consegue exprimir a mesma ideia de várias maneiras, vide o exemplo do português moderno com a grande intercambialidade entre “a”/”para” ou “sobre”/”em cima de”. No caso em questão, o in de ablativo foi substituído por super e a in de acusativo por usque ad, que é traduzida sem equívoco por “até”. Com essa pequena variante, Jerônimo exprimiu com clareza o que pensava do assunto e não era o que os reencarnacionistas bíblicos gostariam.

E por isso o Senhor no septuagésimo sétimo salmo diz [ou 78º, v. 2]: “Abrirei minha boca em parábola: proferirei enigmas do princípio dos tempos“. Dessa forma expõe no Evangelho a parábola do semeador, e a do joio, e a do grão de mostarda [Mateus 13] – que embora seja a menor de todas as sementes, dela brota grande árvore – para mostrar uma coisa em palavras, mas tendo outra em sentido.

E nós, até o presente dia, valorizávamos os dois testemunhos de Êxodo, que anteriormente [Is 29] não consideramos como parábola, mas que explicavam um simples juízo. E ainda que não nos atrevêssemos a dizer qualquer coisa, nem o vaso de barro falar contra o oleiro, “por que razão me fizeste desta forma ou de outra” (cf. Rm 9:21), entretanto sofríamos um escândalo oculto, na medida que fosse vista a injustiça de Deus: um pecava e outro pagava pelos pecados.

Se de fato Ele retribui os pecados dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração [peccata patrum super filios in tertiam et quartam generationem] é tido por injusto, do mesmo modo é visto que um peque e outro seja punido. Mas é depois disso que vem: o escândalo da ameaça ou ensinamento é liberado pelos “que me odeiam“. Logo, não são por essa razão punidos na terceira e na quarta geração [in tertia et quarta generatione (ablativo)] – porque os pais deles pecaram – já que é preferível os pais, que foram pecadores, deverem ser punidos; mas porque despontaram como imitadores dos pais, e odiaram Deus por mal hereditário e também pela impiedade que cresce em ramos a partir da raiz.

Nesse ponto estão acostumados os heréticos, que não aceitam o antigo Instrumento, a dizer contra o Criador: “Quão bom e justo o Deus da Lei e dos Profetas, que se abstém e silencia para os pecados dos pais, retribui aos que não pecaram, muito pelo contrário: quanta crueldade nele há de modo que estende sua ira até a terceira e quarta geração!“[usque ad tertiam et quartam]. A eles responderemos que nessa parte a clemência do Deus Criador é demonstrada.

Logo, não é truculência ou severidade que a ira permaneça até a terceira e quarta geração [usque ad tertiam et quartam], mas um sinal de misericórdia que a pena do pecado seja adiada. De fato, quando diz “Senhor Deus de misericórdia e misericordioso, paciente e rico em misericórdia” e dispõe “retribuindo o pecado dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos“, aí indica, o que de tanta misericórdia é, para que não se puna de imediato, mas que se postergue o juízo do condenado.

Mas se a punição dos pecadores é postergada para até a terceira e quarta geração [in tertiam et in quartam generationem], o que, com santidade e justiça, faz Ele de mais distinto? O seguinte: E distribui justiça e misericórdia por muitos milhares aos que guardam seus mandamentos e praticam os ensinamentos dEle. Está escrito em Provérbios: “Como uva amarga é danosa aos dentes e a fumaça aos olhos: assim é a iniquidade aos que fazem uso dela” [Pr 10:26, LXX]. Disso é evidente: não é são os dentes alheios que doem e estragam, mas os dos que tenham comido uvas amargas.

No entanto, é nesse lugar que está este entendimento, como se alguém quisesse dizer:o pais comeram uvas amargas e os destes dos filhos estragaram. Isso é ridículo e não tem nexo: desse jeito é iníquo e injusto que os pais pequem e filhos e netos sejam castigados. Há os que pelo fato de que em Êxodo está escrito: “Retribui a iniquidades dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração” [super filios in tertiam et quartam generationem, Ex 20:5], desta maneira explanam, a fim de redirecionarem o juízo para a alma humana, dizendo que conosco o pai é uma leve picada dos sentidos e um incentivo aos vícios; o filho, uma vez que o pense, concebe o pecado; por ocasião dos netos, se se houver pensado e concebido, perpetrar-se-á, pela obra; no entanto, por ocasião do bisneto, que é a quarta geração, já não se terá feito apenas o que é mal e iníquo, mas também pela glória de suas iniquidades, conforme está escrito: “O ímpio, quando vai às profundezas do Mal, despreza” [Pr 18:3, LXX]. Deus, então, de forma alguma pune as primeiras e segundas pontadas de pensamento, que os gregos chamam de προπαθεια (39), sem as quais nenhum homem pode estar, mas se alguém decidir fazer o cogitado, ou ele mesmo que o fizer, não há de querer ser corrigido pela penitência.

Por isso está escrito: “Ninguém está sem o pecado do homem. Ainda mais se nenhum dia de sua vida terá sido. No entanto, contados são os anos de sua vida” [cf. Jó 14:4-5, LXX/Vetus]. E em outro lugar: “Quem há de vangloriar que tem um coração puro” [Pr. 20:9, Vetus]. E ainda: “também os astros não são limpos em sua presença: e até contra anjos seus algo destruidor preparou.” [Jó 25:5, versão de Jerônimo]. Mas se, por sua vez, a sublime natureza não carece do pecado, o que se deve dizer sobre os homens, que envoltos pela frágil carne, devem se valer do apóstolo: “Miserável homem sou! quem me livrará do corpo desta morte?” [Rm 7:24]. E isso, mesmo quando tivermos feito tudo, devemos dizer: “Servos inúteis somos, o que devíamos fazer, fizemos.” [Lc 17]. E também: “A não ser que o senhor tenha construído a casa, em vão trabalharam os que a constroem, a não ser que o senhor tenha guardado a cidade, por nada vigia o que a guarda.“[Sl 126:1,2]. Por outro lado, para a avaliação dessa condição – que de modo algum é punido por Deus o primeiro impulso de pensamento, muito menos o pequeno instinto da mente, mas somente se o que mente conceber, pela obra se consumar -, é isso se deve mostrar de Gênesis: Cam pecou, ridicularizando a nudez do pai, e o juízo não foi para ele próprio que riu, mas para seu filho Canaã: “Maldito seja Canaã! Serás um servo de seus irmãos!“[cf. Gn 9]. Será realmente justiça que pai peque e a sentença seja proferida ao filho? E também porque o Apóstolo [I Tm 2:15], expõe algo em contrário: a mulher é salva se seus filhos permanecerem na fé, na santidade e na pudicícia, vê-se que o juízo não tem justiça, de modo que se os filhos e netos forem bons, os pais são salvos (40).

Quantos pais são santos e têm filhos maus e, do contrário, quantos pais pecadores geram filhos justos? Portanto, conforme esse entendimento, deve-se aceitar a totalidade do que dissemos acima: que os pecados dos pais asssim como os dos descendentes são punidos nos ramos, não na raiz. Por enquanto, desse provérbio ou parábola diz-se o suficiente: que a Lei e os Profetas, i.e., Êxodo e Ezequiel, mais precisamente o próprio Deus que fala em um e no outro, de forma alguma estão em discrepância nos sentidos, ou melhor, um corrige o que o outro expressa mal.

No entanto, se alguém puder elaborar um entendimento alternativo ou melhor, que retire o escândalo da contradição mútua entre os testemunhos, ele é dos que deve ser submetido a juízo.

Idem

Em sua ampla e documentada correspondência, Jerônimo, em pelo menos duas ocasiões, expôs o raciocínio acima, ainda que não com o mesmo desenvolvimento:

Em vez disso, massacre as seduções ao vício, enquanto elas ainda são apenas pensamentos; e esmague as crias da filha de Babilônia contra as pedras, onde a serpente não pode deixar rastro algum. Seja cauteloso e faça um voto ao Senhor: “não deixeis que tenham não domínio sobre mim: então me colocarei ereto e serei inocente da grande transgressão.” Pois em outra parte, também a Escritura testifica: “Afligirei a iniquidade dos pais contra os filhos até a terceira e quarta geração [Peccata patrum reddam in filios in tertiam et in quartam generationem](Nm 14:18).” Ou seja, Deus não nos punirá de imediato por nossos pensamentos e resoluções, mas enviará retribuição sobre sua prole, isto é, sobre as más ações e hábitos do pecado que se originam deles. Como diz Ele, pela boca de Amós: “Por três transgressões de certa cidade e por quatro, não retirarei o castigo (Am 1:3 ou 2:4).”

Carta CXXX, a Demétrias.

Mas se, mesmo assim, ele se mostra indisposto a se arrepender, e se, depois que sofreu naufrágio, recusa-se a agarrar a única prancha que pode salvá-lo, sou finalmente obrigado a dizer: “Assim diz o Senhor: ‘Por três transgressões e por quatro, não devo eu me afastar dele?’“. Por esse “afastamento”, Deus justifica uma punição Deus, na medida em que o pecador é deixado aos seus próprios planos. É assim que retribui os pecados dos pais até a terceira e quarta geração; [peccata patrum in terriam et quartam generationem restituit] (Ex 20: 5), não punindo imediatamente os que pecam, mas perdoando suas primeiras ofensas e condenando as últimas. Pois, se de outra forma, Deus atuasse prontamente como um vingador de crimes, muitos outros [santos] da Igreja e, certamente, o apóstolo Paulo, não teriam existido.

Carta CXLVII, a Sabiniano.

Um contemporâneo de Jerônimo, cuja língua materna também era o latim e posteriormente, segundo os espíritas, teve participação ativa na codificação kardecista como um dos guias espirituais, tinha uma linha de raciocío com alguns pontos em comum com ele e uma curiosa numerologia:

Os pais não devem morrer pelos pecados dos filhos, nem os filhos morrer pelos pecados dos pais; cada um morrerá pelo seu próprio pecado“. Essa afirmação não é apenas os Profetas (Ez 18:18-20), mas também da Lei, que diz que cada um deverá ser apartado por causa de sua própria culpa, não a de seu pai ou de seu filho. Que significa, então, o que é dito em outra passagem: “Deus retribui os pecados dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração (Ex 20:5 – in tertiam et quartam progeniem)”? Talvez se refira às crianças ainda não nascida, em razão do pecado original, que a humanidade contraiu por hereditariedade de Adão; ao passo que a outra frase, faz distinção em relação à criança já nascida de modo que cada uma morra por causa de seu pecado? Visto que nada contraiu do pai, pois já havia nascido quando ele pecou. Mas aqui também se diz: “aos que me odeiam” (id.), está claro que esta condição pode ser mudada se as crianças não imitarem as ações de seus pais. Certamente por um tempo é retribuído o [pecado] de Adão, pois todos morrem por causa disso, mas não o será para sempre com aqueles que foram regenerados espiritualmente pela graça e perseveraram nela até o fim. Contudo, há mérito em perguntar, se são retribuídos os pecados dos pais sobre os filhos aos que odeiam a Deus até a terceira e quarta geração, por que razão nada é dito sobre a primeira e segunda, ou também não se prossegue a outras gerações que permaneçam a imitar a impiedade e má conduta de seus pais? Talvez por meio deste número, pois é entendido como sendo o setenário, pretenda-se denotar a totalidade: e por essa razão não colocou exatamente o setenário, dizendo “até a sétima geração” ( in septimam generationem), e ainda assim será todo compreendido, pois essa forma melhor ressalta a causa pela qual este numero tem sua perfeição? Na verdade, por isso ele é considerado perfeito, uma vez que consiste destes dois números, o três, que é evidentemente o primeiro inteiro ímpar, e o quatro, que é o primeiro inteiro par. A partir disso acredito que se origina a fala do Profeta, continuamente repetida: “Por três e por quatro transgressões não retirarei [o castigo]” (Am 1:3, 6, 9, 11, 13), com a qual ele queria mostrar toda transgressão em vez de apenas três ou quatro.

Agostinho de Hipona, Questões sobre o Heptateuco, livro V.

Palavra de quem falava em latim com doutos e iletrados.

[topo]

Fazendo as Contas

Três mais um igual a ...

Uma das alegações dadas por apologistas espíritas fanáticos parece até razoável:

Por que “até a terceira e quarta geração“, quando bastaria dizer até a quarta geração“, com a terceira geração já incluída? Portanto “na terceira e na quarta geração” parece ser mais lógico.

Se a questão fosse só matemática, dar-se-ia plena razão a esse raciocínio analítico. Acontece que, ao se lidar com a Bíblia, não se deve pensar como um cartesiano ocidental moderno, mas como um simbolista hebreu antigo. A chave está na associação que Jerônimo e Agostinho identificaram logo acima:

Assim diz o Senhor: [`al-sheloshâh / επι ο τρεις] Por três transgressões de Damasco, [ve`al-'arbâ / και επι ο τεσσαρες] e por quatro, não retirarei o castigo, porque trilharam a Gileade com trilhos de ferro.

Am 1:3

Esse é o chamado padrão “três mais um“, em que algo se repete quatro vezes, porém a última marca um ponto de virada. Como:

  • A fábula da Oliveira, contada por Jotão em (Jz 9:7-15);
  • As quatro tentações de Dalila sobre Sansão (Jz 16:4-21), quando cede o segredo de sua força na última;
  • No terceiro capítulo de I Samuel, o jovem Samuel é chamado três vezes por Deus e não entende o que acontecia. Após um aconselhamento de seu pai, Eli, na quarta vez ele recebe a mensagem de Deus;
  • Às vésperas de sua ascensão (II Re 2), Elias é enviado por Deus a três lugares (Gigal, Betel e Jordão) e diz para Eliseu não o seguir, porém este insiste e ambos vão. Ao quarto lugar (Céu), apenas Elias vai;
  • A fórmula “por três transgressões … e por quatro” recorrente em Amós (1:3, 6, 9, 11, 13; 2:1, 4, 6);
  • A fórmula “três coisas … e quatro” recorrente em Provérbios 30 (18,9; 20-3 e 29-31);
  • Os “quatro reinos” de Daniel (cap 2 e 7), em que o fim do último marca o advento do Filho do Homem.

Assim, a “quarta geração” marca o fim das punições hereditárias em Ex 20:5 e afins. Note que no versículo seguinte está a ordem de grandeza das benesses, sem um limite claro.

[topo]

Apelando para a Piedade


Uma das grandes discussões entre espiritualistas e cristãos ortodoxos é questão da “inerrância bíblica”. Para os últimos, embora a Bíblia tenha sido escrita por homens, isso ocorreu sob a inspiração de Deus, logo ela seria perfeita, isenta de contradições ou ensinos duvidosos. O espiritualistas, até por uma questão de estratégia ou “boa vizinhança”, não deixam (o mais das vezes) de prestar sua reverência à Bíblia. Por exemplo:

Repetimos que jamais nos passaria pela ideia o intuito de amesquinhar o papel da Bíblia como regra de fé da Cristandade, e nem seriam pigmeus como nós que ousariam tão inexequível tarefa. Sabemos e proclamamos que ela é o fanal de todos os povos cristãos, e que os preciosos ensinamentos morais nela contidos brilharam e continuarão a brilhar por muitos e muitos séculos concorrendo para dissipar as trevas da ignorância dos homens sempre que eles estiverem à altura de os assimilar.

Andrade, Jayme; O Espiritismo e as Igrejas Reformadas, cap. III, p. 41

Contudo

Aquilo que unicamente contestamos é a tese da “inerrância”, a ideia de que ela encerra toda a Verdade e de que tudo quanto contém é a Verdade e de que tudo quanto contém é a palavra saída dos lábios do próprio Deus. O que afirmamos é que a Bíblia foi escrita por homens e por isso mesmo está referta de falhas resultantes da imperfeição humana. Pretender que ali esteja a Verdade como um bloco monolítico, é semear confusão na mente de homens que já aprenderam, ou pelo menos, deviam ter aprendido a raciocinar.

Como cético, concordo em boa parte desse raciocínio, porém, como não espírita, vejo que essa mesma postura coloca em xeque boa parte do que se fala em reencarnação para o versículo Ex 20:5 e, de certa forma, para todo o Antigo Testamento. Do contrário, teremos de assumir que todas as passagens passíveis de interpretação reencarnacionista são inspirada e as que não, humanas. Arbitrariedade pura e simples.

Em diversas passagens divinamente inspiradas se diz que “os filhos não pagarão pelos pecados dos pais” (Deut. 24:16, Jer. 31:29-30), Eseq. 18:20), o que é uma noção de elementar justiça, imanente à consciência de qualquer pessoa de bom senso. Em nenhum ordenamento jurídico do mundo se prescreve que a pena passará da pessoa do criminoso. Mas então, por que os nossos primeiros pais tiveram o seu pecado transmitido, por estranha hereditariedade, a todos os seus descendentes? (Rom. 5:10)

Id. p. 43

Vejamos mais de perto Jr 31:29,30:

Nesses dias já não se dirá: Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram. Mas cada um morrerá por sua própria falta. Todo homem que tenha comido uvas verdes terá seus dentes embotados.

Só que esta passagem é de tempo futuro, quando a casa de Israel e Judá fossem restauradas. Só um pouco depois, com tempo no presente:

Tu fazes misericórdia a milhares, mas punes a falta dos pais, em plena medida, em seus filhos. Deus grande e forte, cujo nome é Iahweh dos Exércitos.

Jr 32-18

Há algo errado aí… Por ora, continuemos com Jayme Andrade:

Note-se também que há passagens em franca contradição com as acima citadas, e são aquelas onde Deus diz que “visitará a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração” (Ex 34:7; Num 14:18; Deut. 5:9), mas nestas é fácil observar que a tradução foi ajeitada para acomodar o sentido às ideias vigentes, pois no texto original de São Jerônimo, ou seja, a “Vulgata Latina”, em vez de “até a 3a. e 4a. geração”, lê-se “na 3a. e 4a. geração”, como menciona PAULO FINOTTI em seu livro “Ressurreição” [Editora Edigraf, 1972, pg. 45]. Aí tem lógica, pois é evidente que na terceira e quarta geração o espírito pode já ter voltado para resgatar suas faltas.

Id. pp. 43-4

Além de discordar da tradução que esse e outros autores dão para para os versículos em questão, pelos motivos expostos anteriormente, creio que todos incorrem na falácia conhecida como cherry picking (“coleta de cereja”), que consiste, basicamente, em escolher o que que é favorável e desconsiderar o que contradiz. Façamos um inventário do que o Antigo Testamento diz sobre castigos hereditários:

Com punições hereditárias Sem punições hereditárias
Gn 9:24-25 – Quando Noé acordou de sua embriaguez, soube o que lhe fizera seu filho mais jovem (Cam). E disse: “Maltido seja Canaã (filho de Cam)! Que ele seja, para seus irmãos, o último dos escravos!”

Dt 23:2 – (..)Nenhum bastardo entrará na assembléia de Iahweh; e seus descendentes não poderão entrar na assembléia de Iahweh até a décima geração

Dt 28:18 – Maldito será o fruto do teu ventre(…)

2 Sm 12:13-14 – Então Natã disse a Davi: “Por sua parte, Iahweh perdoa a tua falta: não morrerás. Mas, por teres ultrajado a Iahweh com teu procedimento, o filho que tiveste morrerá.

2 Sm 21:6 – Que nos sejam entregues sete dos seus filhos, e nós os desmembraremos perante Iahweh em Gabaon, na montanha de Iahweh.

1 Rs 2:33 – Recaia, pois, o sangue deles sobre a cabeça de Joab e sua descendência para sempre, mas que Davi e a sua descendência, sua casa e seu trono gozem para sempre de paz da parte de Iahweh.

1 Rs 11:11-12 – Então Iahweh disse a Salomão:” Já que procedeste assim e não guardaste minha aliança e as prescrições que te dei, vou tirar-te teu reino e dá-lo a um de teus servos. Todavia, não o farei durante tua vida, por consideração para com teu pai Davi; é da mão de teu filho que o arrebatarei.

1 Rs 21:29 – Viste como Acab se humilhou diante de mim? Por ter se humilhado diante de mim, não mandarei durante sua vida; é nos dias de seu filho que enviarei a desgraça sobre sua casa.

2 Rs 5:27 – Mas a lepra de Naamã se apegará a ti a à tua posteridade para sempre.(…)

Jó 8:8-9 – Pois, eu te peço, pergunta agora às gerações passadas; e prepara-te para a inquirição de seus pais. Porque nós somos de ontem, e nada sabemos; porquanto nossos dias sobre a terra são como a sombra.

Is 14:21 – Por causa da maldade dos pais promovei a matança dos filhos.

Jr 16:10-11 – (…)Por que anunciou Iahweh, contra nós, toda essa grande desgraça? (…)Porque vossos pais me abandonaram, disse Iahweh(…)

Jr 29:21 – por isso assim disse Iahweh: Eis que vou castigar Semeias Naalam e à sua descendência.

Jr 32:18 – Tu fazes misericórdia a milhares, mas punes a falta dos pais, em plena medida, em seus filhos. (..)

Sl 109 (108):14 -Que Iahweh se lembre da culpa de seus pais, e o pecado de sua mãe nunca seja apagado!

Sl 136 (137):8-9 – Ah! filha de Babilônia, que vais ser assolada; feliz aquele que te retribuir o pago que tu nos pagaste a nós. Feliz aquele que pegar em teus filhos e der com eles nas pedras.

Dt 24:16 – Os pais não serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos no lugar dos pais. Cada um será executado por seu próprio crime.

Jr 31:29-30 – Nesses dias já não se dirá: Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram.

Ez 18:20 – Sim, a pessoa que peca é a que morre! O filho não sofre o castigo da iniqüidade do pai, como o pai não sofre o castigo da iniqüidade do filho: a justiça do justo será imputada a ele, exatamente como a impiedade do ímpio será imputada a ele.

Jó 34:11 – Ele retribui ao homem segundo suas obras, e dá a cada um conforme o seu proceder

Sl 28 (27):4 – Dá-lhes, Iahweh, conforme suas obras, segundo a malícia de seus atos.

Is 3:11 – Mas ai do ímpio, do homem mau! Porque será tratado de acordo com suas obras.

Lm 3:64 – Retribui-lhes, Iahweh, segundo a obra de suas mãos

Não esquecendo, claro, de notáveis passagens do Novo Testamento, como a já citada Carta aos Romanos (Rm 5:10), a “maldição do sangue” (Mt 27:25) e o famosíssimo episódio do “cego de nascença” (Jo 9:1-2). Curioso nesse último que os discípulos também perguntam se o pecado cometido teria sido obra dos pais e não apenas dele; sugerindo, assim, que a ideia de punição hereditária ainda persistia, apesar das críticas de Ezequiel. Os mesmos que usam esta passagem são os que criticam Ex 20:5, só que eles não se atentam à contradição dessa atitude. Para saber mais, clique aqui.

Cerejas

“Se você não pode debater com seus oponentes no âmago da questão, esmague-os nos pequenos detalhes.”

Mas, como disse um poeta: “e agora, José?” Afinal, paga-se pelo próprio pecado apenas ou pelo dos outros, também? Analisando… citas os versículos da coluna da direita (e mais alguns) como garantia de sua interpretação reencarnacionista de Ex 20:5 e Ex 34:7, mas desconsidera o que está na coluna da esquerda. Este tipo de incoerência é que não pode ocorrer. Do mesmo modo, não se deveria defender essa ou aquela interpretação em prol de uma uniformidade em um grupo seleto de mensagens e depois, quando convém, retirar a autoridade do discurso de um debatedor salvacionista mostrando-lhe as disparidades do texto bíblico. Se deve haver coerência de algum tipo, que comece pelas atitudes.

A resposta para essas discrepâncias, de certa forma, pode ter sido dada por autores espíritas:

O exame do Velho Testamento nos leva a duas alternativas: Ou era o próprio legislador quem, com o propósito de infundir respeito, atribuía à Divindade todos aqueles rompantes de ferocidade de que o Antigo Testamento está repleto, ou Deus se fazia representar ante o povo por uma deidade tribal, talvez até mais de uma, como se infere de Gên. 3:22: “Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal.” E a prova de se tratar de Espírito ainda um tanto materializado é que habitava no tebernáculo (2a Sam. 7:6), ou “de tenda em tenda” 11″ (jôn. 17:5) e “se comprazia com o cheiro dos animais imolados em holocausto” (Números 29:36). Para os gnósticos do 2o Século, segundo o teólogo WALKER,

“O Deus do Antigo Testamento, criador do mundo visível, não pode ser o Deus Supremo revelado por Cristo, mas sim um demiurgo inferior.” (“História da Igreja Cristã”, 2a edição, pg. 80).

Id. 30

O leitor que desejar fazer um estudo mais aprofundado sobre as incongruências e incorreções contidas nesse livro poderá encontrar valiosos subsídios na importante obra do escritor MÁRIO CAVALCANTI DE MELLO, intitulada “Da Bíblia aos Nossos Dias”, ed. FEP, Curitiba, onde ele disseca magistralmente o Velho Testamento. Eis algumas da interessantes indagações do referido autor (Pgs. 363/ 371), aliás em alguns casos transcrevendo perguntas formuladas por DOMÊNICO ZAPATA, professor de Teologia na Universidade de Salamanca, no século XVII:

(…)
13 — Por que a lei judaica não menciona em lugar algum as penas e recompensas após a morte? E por que nem Moisés nem os outros profetas falaram na imortalidade da alma, se isso já era conhecido dos antigos caldeus, dos persas, dos egípcios e dos gregos?
(…)

Id. p.36

Bem, se o Javé o Antigo não era tão moralmente elevado assim e nem havia o conceito de punições após a morte no Pentateuco, então por que acreditar que ele seria justo em Ex 20:5 usando a reencarnação? E quanto ao versículo seguinte? Afinal, pela própria tradução de Analisando… milhares de gerações receberiam bênçãos imerecidas, o que não deixa de ser uma injustiça, também!

Então, retomo o primeiro princípio de crítica textual bíblica que apresentei em outra parte: a Bíblia não foi feita para você. Afinal, muitos desses nós podem ser desatados caso se leve em conta o ambiente em que os livros mais antigos da literatura hebraica foram redigidos:

  • Ausência de um pós-morte claramente definido: Para um judeu do Primeiro Templo, a morte era o retornou ao pó ou um existência vazia no Xeol. Conceitos de ressurreição surgiram apenas após exílio de Babilônia e os de reencarnação são medievais. O indivíduo se imortalizava pela descendência e, nesse contexto, as punições (e bênçãos) hereditárias faziam sentido;

  • antropomorfismo divino: um ponto assinalado por Jayme Andrade, em sua crítica à Inerrância Bíblica, foi a presença de emoções, digamos, “humanas demais” no Javé do Antigo Testamento, como seus rompantes de ira ou a possibilidade de até se arrepender (cf. op. cit. pp. 32-3). Se assim o é, certas teses usadas nas traduções encontradas em Analisando… perdem a razão ser, como esta feita, também, para Ex 20:5:

    Gostaríamos de chamar a atenção para o fato de que muitos tradutores colocam, em suas traduções, adjetivos que não condizem com a realidade divina. O termo hebraico (él kaná significa, entre outros atributos, Deus Zeloso. No entanto, muitos traduzem estas palavras como Deus Ciumento, como se Deus fosse possuidor de uma qualidade puramente humana e de caráter inferior. É devido a fatos como este que a Bíblia é tão incompreendida em suas traduções.

    Analisando…, cap. VIII, p. 125

    Dado que Javé “pede permissão a Moisés para destruir o povo (Ex. 32:10), porém este o repreende (Ex. 32:12) e Ele se arrepende (Ex. 32:14)” (Andrade, p. 33), concluo que Severino Celestino da Silva devia estar falando de outra divindade. Se você acha que estou interpretando literalmente o que não deveria ser, então comece a dar razão à tese da Inerrância.

  • A queda de Israel (mas não de Javé): em caso de uma conquista estrangeira, um padrão comum entre os povos politeístas da Antiguidade era adoção dos deus do conquistador; se não total, ao menos junto aos seu tradicionais. E se o conquistado fosse monoteísta? Uma hipótese mais imediata seria que o dito deus único era falso e inferior aos do conquistador ou julga que ele abandonara seu povo. A abordagem registrada nos livros proféticos de Israel (41), contudo, foi distinta: Javé não abandonara seu povo, foi esse que o deixou ao se desviar de sua Lei. O sofrimento dos exilados, em razão faltas de seus pais, cessaria tão logo eles retornassem a ela. Bem, essa é mensagem de Jeremias: as punições hereditárias são o presente de um povo desviado da Lei. As punições, neste caso, constituíam uma forma inocentar a Deus pela calamidade que assolaria Jerusalém e seu fim seria para o futuro, com a renovação do pacto com Deus.

    De certa forma, o livro de Deuteronômio já possui essa noção em sua teologia: o pacto de Javé com os hebreus estava condicionado à obediência do povo eleito: sua infidelidade resultaria numa série de desgraças. Muitas das quais os hebreus devem ter enfrentado por ocasião da queda de Israel e, posteriormente, de Judá ante potências estrangeiras. Estaria seu autor já intuindo o que iria acontecer? Para os devotos, sim; mas um observador externo poderia cogitar que tudo isso já tivesse acontecido e Deuteronômio foi redigido em torno de um código de leis para servir de base interpretativa à trajetória da nação (42);

  • Um noção de justiça simples e crua: Jayme Andrade critica a incoerências de atitudes de Moisés, pois ele

    que “era o mais manso de todos os homens que havia sobre a terra” (Num. 12:3), desce do Sinai com as “Tábuas da Lei”, onde constava o mandamento “não matarás” e logo, para passar da teoria à prática, manda matar 3 mil dos seus compatriotas e ainda por cima pede a bênção de Deus para os assassinos (Ex. 32:28/29).

    (Id, p. 32)

    Se o leitor reparar bem, várias sentenças contidas no Pentateuco são de morte – p.e., não guardar o sábado (Ex31:14/Nm 15:32-6) -, inclusive a adoração de ídolos (Dt 17:2-6), justamente o crime cometido no capítulo 32 de Êxodo (o bezerro de ouro). Isso, por incrível que pareça, não está em contradição com o quinto mandamento, levando-se em conta que sua tradução mais precisa seria “Não assassinarás”. Bem, ao menos essa é a opinião de André Chouraqui, tão elogiado em Analisando…. Portanto, para os antigos hebreus, era a pena capital para os que matassem um inocente, mas não era errado matar por determinação de Justiça. Em geral, por apedrejamento. Para os crimes não religiosos e que não atentassem contra a vida, as penas eram mais amenas, como multa, desterro, mutilação, servidão e encarceramento, aplicadas segundo o preceito de reparação equivalente estabelecido em Dt 19:21: “vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé”, vulgo lei de talião. Esse princípio tinha o bom aspecto não permitir que o castigo extrapolasse a falta, mas não havia tanta preocupação assim com a recuperação do faltoso. Também havia o pressuposto de a punição não dever ultrapassar a figura do faltoso, como explicitado em Dt 24:16. Curiosamente, esse versículo não está em contradição com Dt 5:9 ou Dt 28:18, ao contrário do que a sensibilidade moderna pode achar, pois os capítulos V e XXVIII desse livro tratam principalmente do relacionamento entre entre Deus e os homens, por meio dos mandamentos, ao passo que o XXIV regula as relações entre os mortais. São escopos diferentes;

  • Tribalismo: Embora seja apresentado como o Criador, Javé se comporta muitas vezes ao estilo de um deus tribal, posteriormente elevado à categoria de divindade nacional única. Assim, teríamos originalmente uma monolatria (adoração a só um deus, embora se reconheça a existência de outros) em vez de um monoteísmo genuíno (só há um deus, todos os demais são engodos). Nesse contexto, a tradução por “ciumento” em Ex 20:5 faz bem mais sentido que “zeloso”, a maldição sobre Canaã ganha ar de profecia da conquista de Josué e o amargor de um exilado na Babilônia fica compreensível;

  • Desconsideração pura e simples do todo: muitos dos versículos estão fora do seu contexto, o que coloca algumas ressalvas. Por exemplo: Jó 34:11, do jeito que está, não leva em conta que o sofrimento de Jó não era um castigo pela infração de outrem, muito menos algo merecido pelos próprios atos desse personagem; mas o resultado de uma aposta entre Deus e Satanás pela integridade de Jó. Severino Celestino da Silva passa por cima desse detalhe quando cita o versículo no cap. VIII de seu livro.

Diante desse panorama, a hereditariedade das penas pode, sim, ter sido a intenção dos autores do Pentateuco e, por mais que os apologistas espíritas bradem apelos emotivos, as evidências históricas (e bíblicas!) pendem a favor desse entendimento. Óbvio que os tempos mudam e leis começam a ficar desatualizadas. Os judeus da diáspora não podiam aplicar leis antigas que se chocassem com as de suas pátrias adotivas, além travarem contato com sofisticados sistemas filosóficos, às vezes contrastantes com a rudez do épico nacional contido na Escritura. Os cristãos ortodoxos, por sua vez, tinham de responder ao desafio que gnósticos e marcionitas lhes impuseram de conciliar os rompantes de brutalidade de Javé com a bondade do Pai do Novo Testamento.

Foram elaboradas, então, técnicas de exegese para extrair do texto significados que antes não possuíam, permitindo a suavização arestas, harmonia entre discrepâncias e até a sistematização de doutrinas. Evidente que o êxito depende da aceitação pelo interlocutor das premissas usadas. No caso de Ex 20:5 e 34:7, um dos argumentos mais simples consta no próprio Pentateuco: “Mas somente se eles seguirem os caminhos de seus pais (Dt 24:16)”. É isso que os targumim utilizaram e, recente, foi o que o supracitado Rabino Aryen Kaplan colocou no rodapé do livro de Êxodo em sua edição bilíngue A Torá Viva (p. 352). O louvado Chouraqui também fez uma abordagem bem singela nesse versículo, relacionando-o com o seguinte a ele:

5. (…)
quarto ciclo ou “geração”: A cólera de IHVH contra um povo infiel foi comparada por Hoshéa (Oseias) à de um esposo que expulsa uma esposa adúltera com seus filhos (Os 1-2). Ficamos sabendo aqui que ela é limitada, estando fundada no amor criador.

6. milésimo: O amor de IHVH pelos que lhe são fieis é eterno e sem limites.

A reencarnação é apenas outra interpretação para desatar o nó das punições hereditárias. Não é a única – ao contrário do alegado por espiritualistas -, nem a mais simples; além de ser a mais anacrônica com a Escritura: as evidências de reencarnação no judaísmo são medievais.

[topo]

Massorético X Massorético


Bem, algum hebraísta roxo pode ainda alegar: “Esses exemplos de trocas preposicionais só ocorreram em textos marginais ou traduções, ambos passíveis de serem feitos de forma descuidada. Nenhum deles é páreo para o esmero da transmissão textual feita pelos mestres massoretas”. Tudo bem, então vai um xeque-mate nessa teimosia:

1 Sm 14:1

vayhiy hayyom vayyo'mer yonâthân ben-shâ'ul 'el-hanna`ar nosê' khêlâyv lekhâh vena`berâh 'el-matsabh pelishtiym

“Um dia, Jônatas, filho de Saul, disse ao seu escudeiro: ‘Vamos, atravessemos até o posto avançado dos filisteus…”

1 Sm 14:4

ubhêyn hamma`beroth 'asher biqqêshyonâthân la`abhor `al-matsabh pelishtiym…

“No deslifadeiro que Jônatas procurava atravessar para atingir o posto avançado filisteu…”

Hum…

2 Sm 23:23

min-hasheloshiym nikhbâdh ve'el-hasheloshâh lo'-bhâ' vaysimêhu dhâvidh 'el-mishma`tos

1 Cr 11:25

min-hasheloshiym hinno nikhbâdh hu' ve'el-hasheloshâh lo'-bhâ' vaysiymêhu dhâviydh `al-mishma`tos

Era mais nobre do que os trinta, porém aos três primeiros não chegou, e Davi o pôs sobre a sua guarda pessoal. (i.e. no comando da guarda)

E outro

2 Sm 22:16

koh 'âmarAdonay hineniy mêbhiy' râ`âh 'el-hammâqom …

2 Cr 34:24…

koh 'âmar Adonay hineniymêbhiy' râ`âh `al-hammâqom…

Assim diz o Senhor: Eis que trarei males sobre/a este lugar…

E mais outro! (há muitos se quiser saber…)

2 Cr 34:15

vayya`an chilqiyyâhu vayyo'mer 'el-shâphân hassophêr

2 Re 22:8

vayyo'mer chilqiyyâhu hakkohên haggâdhol `al-shâphânhassophêr

Então, disse (o sumo sacerdote) Hilquias ao escrivão Safã.

Por mais que se esperneie, por mais que se negue, o massorético traz dentro de si o testemunho se sua própria evolução. De uma época em que o hebraico bíblico era língua viva e, como tal, sujeita a flutuações. Quando se extinguiu, fossilizou-se. Um fóssil extremamente bem conservado, ao ponto de poder ser ressuscitado com êxito no séc. XX e voltar a evoluir. Nesse ínterim, o que se transmitiu foi um conjunto de normas gramaticais mais rígido do que se estivesse ainda viva como língua. Isto se refletiu nas análises críticas da Bíblia, que privilegiaram o tradicional, o recebido, em detrimento do aspecto diacrônico dos tempos bíblicos.

Emanuel Tov, em seu Textual Criticism of the Hebrew Bible, cap. VIII, cita como tais questões contaminaram edições bíblicas da era moderna:

Ao longo dos anos, muitas correções gramaticais têm sido propostas, geralmente para formas incomuns que eram corrigidas nas bases de um modelo gramatical formal. Como uma vasta coletânea de exemplos, Sperber ataca diretamente as correções gramaticas desse tipo, argumentando que eles eram comumente baseadas em “gramática escolar”. A maioria das correções mencionadas por ele são encontradas na Bíblia Hebraica (BH) e em muitos dos comentários, e vale mencionar que a maioria delas não foram repetidas na Biblia Hebraica Stuttgartensia (BHS).

(…)

Ez 2:6 ve'el-`aqrabbiym 'attha yoshebh

e estás sentado com/sobre escorpiões

Correção: ve`al-…

Os editores da BH tinham uma concepção petrificada do uso das preposições 'el e `al (tomadas respectivamente como “a/com” e “sobre”) e geralmente corrigiam os textos de acordo. Estas correções não são necessárias (ver A. Sperber, A Historical Grammar of Biblical hebrew – A Presentation of Problems com Suggestions to Their Solution, Leiden -1966, pags. 59-63).

Nas próprias palavras de Sperber:

Gramáticas bem como dicionários nos ensinam a diferenciar entre 'el e `al. A própria Bíblia é obviamente ignorante de qualquer diferença entre 'el e `al e as usa indiscriminadamente (…) Especialmente os livros de Jeremias e Ezequiel abundam em tais “irregularidades”: encontramos `al onde, de acordo com a gramática e dicionário, esperaríamos 'el e vice-versa. (…)

p. 58

As partículas `al e 'el são usadas indiscriminadamente. Qualquer diferença em seus significados é sem qualquer fundamentação na Bíblia e deve ser considerada arbitrária.

p. 633

Portanto, é provável que toda a crítica feita por Severino Celestino da Silva, não passe de um desses casos de “gramática escolar”. Por Sperber:

A prática adotada pelos comentadores de corrigir o texto da Bíblia – mesmo sobre evidências de manuscritos – para determinar que 'el deva significar “em direção” e `al “sobre” ou “contra”, trabalha com o pressuposto [grifo do autor] que estes são os reais significados destas palavras. Um exame objetivo revelará que todo e qualquer manuscrito as usa promiscuamente, apesar de eles poderem diferir em suas leituras em qualquer passagem dada.

p. 633

[topo]

Tentando uma Engenharia Reversa

Pois é: também comprei um exemplar.

“Sanciona o agravo dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos, sobre os terceiros e sobre os quartos.”

Essa é minha proposta para qual seria a estrutura original de Ex 20:5, Ex 34:7, Dt 5:9 e Nm 14:18. Isso não quer dizer que assim estivesse escrito em todos os autógrafos desses livros, mas deve ter sido uma fórmula que já circulava oralmente entre os antigos hebreus antes de ser grafada. E digo isso porque, se alguém reparou, os mandamentos apresentados no capítulo XX de Êxodo e, de novo, no XXXIV são diferentes, indicando que tais passagens foram compostas em épocas distintas e reunidas posteriormente em uma única obra. Escolho a forma de Ex 34:7 por ser ela a mais extensa – com quatro gerações explicitamente citadas (filhos, filhos dos filhos, terceiros e quartos) -, por dar um uso regular à preposição `al e por não possuir suavização alguma: o sentido mais duro e injusto tem mais chances de ser o original. Este último é um princípio da crítica textual: “A leitura mais difícil é preferível a mais fácil(43).

A seguir, lanço uma série de hipóteses de como as demais leituras surgiram a partir dessa.

diagrama hipotético de evolução

Clique para ampliar.

  1. Num primeiro momento, pode ter ocorrido uma espécie haplografia, i.e., o olho de algum copista (ou de quem lhe ditava um texto) teria “escorregado” em razão da repetição da palavra “filhos”. Pode até haver ocorrido mais de uma vez, dado que Dt 5:9, no Texto Massorético (TM), ainda preserva a conjunção “e” perdida em Ex 20:5 e Nm 14:18 dessa família de manuscritos. É plausível, pois, como já informado, antes que a tradição metódica de cópias dos sábios massoretas se firmasse, os textos hebraicos possuíram pelo menos uns 500 anos de flutuação mais livre;

  2. Essa perda de palavras não deve ter causado estranheza, pois, com a similaridade entre `al e 'el, a primeira passou não apenas a indicar uma posição pontual, mas toda uma sobreposição por uma extensão. O sentido de “até”, “em direção a” advém quando o foco cai sobre o término dessa extensão (cf. Ex 18:23);

  3. Numa particular coincidência linguística, a preposição grega επι abarcou boa parte dos usos da hebraica `al, especialmente os novos, ao reger o acusativo (cf. Gn 22:19). Um ecletismo que gerou dúvidas, em certos casos, se a melhor tradução para `al seria ela ou 'εως;

  4. Ao se transpor a língua para o latim, quer pela pena de Jerônimo (44) ou dos anônimos tradutores da Vetus, defrontou-se com mais de uma possibilidade para verter a επι de acusativo. Em alguns casos ela foi interpretada ora como “contra” ou “a” (utilizando-se in filios, no acusativo), ora como indicativo de posição (in de ablativo ou super) e, por fim, como indicativo de extensão (in de acusativo). O resultado foram versões distintas com significado similar:
    Êxodo 34:7
    Vetus reddens iniquitates patrum super filios et super filios filiorum, in tertiam et quartam generationem
    Vulgata qui reddis iniquitatem patrum in filiis ac nepotibus in tertiam et quartam progeniem.

    Nesse versículo, ambos os tradutores entenderam as duas primeiras επι de acusativo como a posição onde a retribuição divina incidiria inicialmente, e a última επι de acusativo como sendo a extensão dessa retribuição (“até a terceira e quarta geração“).


De certa forma, a gama de significados que `al pode repercutir até hoje na forma como a Bíblia é traduzida para nosso idioma, ainda que passe por mãos judaicas. Trago dois exemplos ainda disponíveis nas prateleiras:

Aryeh Kaplan
A Torá Viva
Meir M. Melamed
Torá – A Lei de Moisés
Ex 20:5 Eu tenho em mente o pecado dos pais por (seus) descendentes, até a terceira e quarta (geração). (…) visito a iniquidade dos pais nos filhos, sobre as terceiras e quartas gerações
Nm 14:8 (…) mas guarda o pecado dos pais por seus filhos, netos e bisnetos. (…) visita o delito dos pais nos filhos, sobre terceiras e quartas gerações.
Dt 5:9 Eu lembro o pecado dos pais para (seus) descendentes por três e quatro (gerações). (…) visito a iniquidade dos pais nos filhos, sobre terceiras e sobre quartas gerações.
Ex 34:7 (…) mas guarda em mente os pecados dos pais para seus filhos e netos, para a terceira e quarta gerações. (…) visita a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, sobre terceiras e quartas gerações.

Os tradutores de “Torá: A Lei de Moisés” preferiram se ater aos significados mais básicos de `al, no caso “sobre/em”, ao passo que Aryeh Kaplan preferiu explorar as demais conotações. Embora a forma esteja distinta, o entendimento das duas obras é semelhante, como atestam os comentários que fazem:

A Torá Viva Torá – A Lei de Moisés
Ex 20:5 Mas somente se seguirem os caminhos de seus pais (Dt 24:16, Berachot 7a). Quando os filhos continuam praticando a iniquidade de seus pais, pois os filhos não devem seguir o mau exemplo dos pais, depois de conhecer suas consequências.
Ex 34:7 Ver 20:5. Quando os filhos seguem o mau caminho dos pais, o Eterno os castiga também pelos pecados dos pais.

Observe-se que o uso de “sobre” ou “em” dado em “Torá – A Lei de Moisés“, Ex 20:5, está invertido em relação ao que consta no livro de Severino Celestino da Silva:

Ex 20:5 – (…) visito a culpa dos pais sobre os filhos, na terceira e na quarta geração.

Ex 34:7 – (…) visita a iniquidade dos pais nos filhos, e nos filhos dos filhos, sobre terceiras e quartas gerações ou sobre netos e bisnetos.

Analisando …, cap. VIII, p. 124 e 127.

Essa sutil mudança pode dar efeitos fortes no idioma português. Em Ex 20:5, alguém pode entender que apenas a terceira e a quarta gerações seriam punidas, deixando os filhos de fora. Em Ex 34:7, por sua vez, a situação é mais gritante em razão do complemento adicionado: “ou sobre netos e bisnetos“, equiparando a terceira geração aos netos. Se fosse esse o versículo Ex 20:5 e se considerasse os pais como a primeira geração, tudo bem. O problema é que os netos já aparecem em “filhos dos filhos”. Em Ex 34:7, temos – além de pais, filhos e netos -, os bistenos e trinetos. Está se forçando um salto de gerações que não existe (45)!

Caso se mantivesse um uso uniforme de `al como “sobre”, obter-se-ia a frase que abre esta seção, que é idêntica à tradução de André Chouraqui para Ex 34:7, por ele elogiada em [cap. VIII, p. 135] e já mencionada acima, com quatro (ou cinco) gerações em sequência para receber a sanção. Isso não significa prova absoluta da crueldade de Javé ou dos tradutores que assim prefiram, pois a fixação em preciosismos dos reencarnacionistas não lhes permite ver interpretações e comentários mais amenos (que não sejam os deles), nem se focar que a benevolência do Eterno é muito maior que Sua ira (cf. Ex 20:6), o cerne dessa passagem.

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Um Panorama da Questão


Fazendo um sumário que discutido aqui:

  • Apesar de a preposição (`al) possuir como significado mais comum “em/sobre”, ela também pode assumir outros valores, entre eles “até”;
  • Em Qumran, há casos de intercambialidade entre as preposições (`al), ('el) e (`ad);
  • Em tempos antigos, houve casos de homofonia entre (`al) e ('el), o que permitiu que a primeira assumisse funções de partícula dativa (i.e. preposição de objeto indireto) e outros significados de ('el), como “até” (e vice-versa);
  • A LXX e a Vulgata nem sempre utilizaram a mesma base textual do que viria a ser o Texto Massorético. Logo é precipitado chamar discordâncias do texto de propositais;
  • Trocas entre (`al), ('el) também podem ter ocorrido na matriz hebraica LXX e a troca de (`al) por (le) ocorreu na Peshitta;
  • As traduções de (Ex 20:5) e (Ex 34:7) feitas a partir da Vulgata estão corretas, ao contrário do que é alegado;
  • Há vários casos de castigos hereditários no AT e ao menos um no NT, mas isto não significa que eles fossem irrevogáveis ou que se tenha que apelar para interpretações reencarnacionistas (Targum Onkelos e R. Kaplan, em tempos modernos).

Isso já é material bastante para considerar a tese de tradução errônea, no mínimo, equivocada. Para alguns, talvez, não passem de subterfúgios de “detratores”. Paciência. A bem da verdade, um subterfúgio muitíssimo mais grave foi querer impor aos há muito falecidos redatores, tradutores e copistas da Bíblia regras gramaticais que eles mesmos ignoravam em suas línguas maternas. Quando, ao final do capítulo VIII, o autor diz:

Não sei como encontraram este sentido para a língua portuguesa, nem de onde o tiraram, pois, no hebraico, bem como, no grego e no latim, ele não existe.

p. 135

eu torço um pouco o nariz, pois sua própria bibliografia (Barrera, Chouraqui) e os dicionários usados (Berezin, Perreira) lançariam muita luz em sua dúvida. Quanto à questão da injustiça das “penas hereditárias”, outra obra bem cotada por ele – Torá: a Lei de Moisés – traz uma explicação alternativa à reencarnação em Ex 20:5 e 34:7, e que mantém a responsabilidade individual dos descendentes do faltoso.

Ainda há uma hipótese a considerar: a de que as penas hereditárias tenham sido realmente a intenção original que se passar aos leitores. Isso pode parecer cruel e injusto para você, cidadão do Ocidente moderno. Contudo, faria bastante sentido para um hebreu exilado na Babilônia, tentado a julgar que Javé o abandonara (Cf. nota 42). Afinal, a Bíblia não foi feita para você!

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Notas

(1) Óbvio que se pode achar dicionários e gramáticas que possuem apenas o sentido de “sobre/em” para `al, mas, como explanei em outro artigo, sair dizendo que outros significados não existem é “colocar o carro na frente dos bois”. Os verdadeiros donos de uma palavra são os que a usam, ou, no caso, os que a usaram e deixaram registrando na Bíblia. Os dicionários, na melhor das hipóteses, correm atrás dos significados que as palavras têm ou tiveram. Se um dicionário (ou gramática) não deixou registrado os usos que demonstrei com exemplos tirados da própria Bíblia, então ele(a) é que está deixando a desejar, ao menos nesse verbete. [voltar]

(2) Curiosamente, o autor traz no capítulo XI, p. 159, a seguinte frase atribuída a Arieh Kaplan: “Não é possível entender a Cabalá sem acreditar na eternidade da alma e suas reencarnações“. Não há referência alguma, contudo. Seja como for, Kaplan não enxergou a reencarnação em Ex. 20:5, nem o traduziu como os reencarnacionistas bíblicos gostariam.[voltar]

(3) Cf. [Störig, cap. XII] [voltar]

(4) O inglês ainda possui vestígios desse caso, por exemplo the Richard’s car (“o carro de Richard”). [voltar]

(5) Por exemplo “ô Fulano”, só que sem se valer de interjeições. Cogito se as expressões infantis “paiê”, “manhê” não são uma reinvenção do vocativo no português falado. [voltar]

(6) Ainda é possível alguma mudança de ordem no português se o objeto for marcado por uma mudança de entonação. Tomando o exemplo dado: “A teRRA, a água rega”. [voltar]

(7) O exemplo dado abarca apenas palavras da primeira declinação latina. [voltar]

(8) O romeno ainda possui vestígios do vocativo latino. As seis flexões verbais continuam bem nítidas no italiano, reduzidas a quatro ou cinco no português falado e a três no francês. Esse último é curioso, pois, na escrita, tem-se a impressão de que as seis pessoas estão ainda presentes, mas, na fala, muitas vezes as três pessoas do singular e a terceira do plural são indistintas, pois suas desinências não são pronunciadas, sendo obrigatório o uso do pronome pessoal reto para distingui-las. [voltar]

(9) Severino Celestino da Silva tem a edição de 1979 em sua bibliografia. Se verificarmos aparato crítico para Ex. 20:5, podemos constatar uma leitura variante no Codex Alexandrinus que usa επι em vez do 'εως. Tendo-se em mente a complexa evolução da tradução dos LXX, isso não invalida nosso raciocínio. Pelo contrário, sugere que sucessivas revisões feitas na Antiguidade acompanharam as trocas preposicionais do texto hebraico. De qualquer forma, o Codex Alexandrinus ainda traz 'εως para Nm 14:18. Aposto que haverá alguém que, ao encontrar um texto baseado no Alexandrinus, comece a bradar que maioria dos livros, portais e fóruns usam versões adulteradas da LXX e só a que ele encontrou esta acima de qualquer suspeita. Bem, ferramentas são tão boas quanto as pessoas que as manipulam…

Para constar: o Codex Vaticanus, outro peso-pesado entre os códices mais antigos da Bíblia, segue a leitura com 'εως para Ex. 20:5. O Codex Sinaiticus, infelizmente, está fragmentário no Pentateuco e não dispõe dos versículos aqui analisados. [voltar]

(10)[Freire, cap. IX, pp. 210-1] (grego clássico, usada por Severino Celestino da Silva) traz uma listagem de significados para επι, conforme a regência, no melhor estilo “decoreba”.

[Murochco, pp. 572-9](clássico) sugere um pouco da lógica subjacente:

  • επι + dativo -> “locativo”: ponto no espaço ou no tempo em que a predicação ocorre;
  • επι + genitivo -> “genitivo partitivo”: parte de uma superfície ou período temporal em que a predicação ocorre;
  • επι + acusativo -> “lativo” (cf n. 14): associado a ideia de movimento em direção a, finalidade.

Pode-se reparar que entre o dativo e genitivo, a diferença é bem sutil. Um dos exemplos que Murochco e Freire têm em comum para o genitivo – επι Σαμου πλειν – é traduzido bem mais literalmente no primeiro (“navegar sobre Samos”) que no segundo (“navegar rumo a Samos”).

A listagem de significados em [Wallace, p. 376] (grego koiné) é quase idêntica entre o dativo e genitivo, sendo a única diferença que o primeiro poderia dar a επι o sentido de “contra”.

A mais sofisticada análise das sutilezas semânticas de επι está [Robertson, cap. XIII, pp. 600-5](koiné), mas extrapola muito o escopo deste artigo. Por ora, segue a linha geral (p. 602) “O genitivo com επι tem, de maneira similar, uma ampla variedade de usos. Geralmente o sentido de ‘em cima de’ satisfaz todos os requerimentos”. [voltar]

(11) Cf. [Jobes, Parte I, cap II]. [voltar]

(12) “Pseudo” por ser erroneamente atribuído a Jônatas ben Izzel, que é o tradutor de outro targum, porém sobre os profetas. [voltar]

(13) A mais antiga referência ao Targum Onkelos se encontra no Talmude Babilônico (Meg. 3a), fazendo menção à tradução feita por “Onkelos, o prosélito”. Acontece que, no Talmude da Palestina, há um paralelo (Meg. 1, 9, 71c) a dizer que “Akylos, o prosélito” fez a tradução da Torá. No caso, a pessoa em questão seria Áquila, cuja tradução da Torá para o grego é bem conhecida. Teria seria sido “Onkelos” a versão hebraica do nome “Áquila” e o Targum atribuído a ele um caso de pseudonímia, como o de Jônatas? Talvez. Por outro lado, não se discute o conhecimento do hebraico de Áquila e, por extensão, poderia ele ter sido capaz traduzir, também, para outra língua aparentada. Além disso, as interpretações presentes no texto desse targum se aproximam das utilizadas pelo Rabbi Akiba, do qual Áquila foi discípulo. Enquanto a autoria do targum permanece incerta, análises linguísticas indicam que a linguagem de Onkelos se aproxima mais do aramaico literário praticado na Palestina que o vernáculo da Babilônia, embora fosse mais utilizado lá. É provável, então, que o atual “Targum Onkelos” seja uma babilônica edição final de um targum originário da Palestina. Para mais pormenores cf. [McNamara (2010), cap. XVII, pp 255-9] e [Barrera, parte III, cap. IV, pp 389-90]. [voltar]

(14) Se alguém quiser ler o texto inglês constante em Pentateuchal Targumim, informo que harmonizei as traduções inglesas entre os targumim. Nada para se assustar, pois que eles tiveram tradutores separados. Por exemplo, em Ex 34:7 de PsJo um palavra foi traduzida por “pecados”, enquanto em Onkelos o tradutor preferiu “culpa” para a mesma palavra. [voltar]

(15) A datação dos targumim pode ser um tanto problemática, em especial no caso do Pseudo-Jônatas, pois foi alvo de sucessivas interpolações. A mais tardia (Gn 21:21) dá às esposas de Ismael o nome de uma das filhas (Fátima) e uma das esposas (Adisha/Khadija) de Maomé, situando a redação final após a expansão islâmica. A que faz referência ao personagem mais antigo (Dt 33:11) é uma oração a Johanan, o Sumo Sacerdote, que pode ser João Hircano, do primeiro século antes de Cristo, o que não impede que seja um registro posterior. Assim, as datações mais tardias o colocam no século VIII da Era Cristã e a mais antiga o situa durante o reinado do imperador romano Juliano, o Apóstata, (361-3), quando houve uma breve esperança de reconstrução do Templo (cf. [MacNamara (2010), cap. XVII, pp. 265-6]). O Targum Onkelos é bem mais enxuto em termos de interpolações que o Pseudo-Jônatas, o que dificulta o rastreamento por evidências internas. Seu livro de Gênesis encontra paralelos no Gênesis Apócrifo de Qumran (cf. [Barrera, parte III, cap. IV, p. 389]) e a análise de sua linguagem o situa no começo do segundo século (cf. [McNamara (2010), cap. XVII, p. 258).[voltar]

(16) Isso seria o lativo existente em línguas ural-altaicas, como o finlandês. Para uma descrição resumida dos casos em latim, cf. [Ilari, cap. VII, p. 89]. [voltar]

(17) Cf. [Barrera, parte III, cap. VI, pp. 417s]. [voltar]

(18) Linguistica Românica é uma obra bem didática, mas às vezes derrapa quando sai de seu tema fim. Ao avaliar as diferenças entre a linguagem da tradução dos Evangelhos frente ao Antigo Testamento, o autor diz:

Como iniciativa de aproximação entre a língua vulgar e o latim culto, pode-se citar a decisão da Igreja, no tempo de São Jerônimo, de redigir em um latim tanto quanto possível popular os textos do Novo Testamento. Essa tentativa remonta ao tempo em que São Jerônimo (século IV a.C.) (sic), a pedido do papa São Dámaso, cuidou da versão da Bíblia conhecida como “Vulgata”. O Antigo Testamento havia sido traduzido por Jerônimo diretamente do hebraico, num latim literário impecável, sem levar em conta as versões anteriores (conhecidas pelo nome de Itala Vetus), feitas a partir do grego e eivadas de expressões e construções populares. Conta-se que quando São Jerônimo se preparava para traduzir o Novo Testamento, lhe apareceu um anjo, que o censurava por ser mais ciceroniano do que cristão (“ciceronianus es, non cristiano”). Segundo a tradição, foi esse o motivo pelo qual o texto do Novo Testamento foi decalcado mais diretamente da Itala Vetus, apresentando linguagem de caráter bem mais popular.

Tal anedota, de fato, existe, foi registrada em uma carta de Jerônimo endereçada a Eustóquio (Carta 22 na numeração da Nicene and Post-Nicene Fathers) e ela data realmente à época de sua tradução dos evangelhos. Entretanto:

  1. A reclamação do anjo não era com o trabalho de tradução, mas com o hábito de Jerônimo de ainda ler muito as obras clássicas e pouco as cristãs;
  2. Jerônimo não traduziu, revisando apenas levemente, os Atos, as Cartas e o Apocalipse. Eles ainda são em grande parte herança da Vetus;
  3. Ainda que Jerônimo tenha tentado preservar o que seus leitores já estavam acostumados a ler, não deixou de lapidar o texto dos Evangelhos aqui e ali;
  4. A tradução do Antigo Testamento foi posterior à revisão dos Evangelhos.

Não vou crucificar Rodolfo Ilari por ter cometido um erro histórico se sua obra trata de Linguística, da mesma forma que não criticaria um livro de Matemática por conter erros de português. Também não critico Analisando … por seu autor ser espírita ou crer na reencarnação, mas por conter erros históricos e linguísticos, estando a História e a Linguística no seu cerne.

[voltar]

(19) Essa é a origem da partícula indefinida on do francês, via corruptela de hom(me). [voltar]

(20) O texto de [Sabatier] não tem esse versículo, Cf. [Harrington, p. 29]. Uma outra variante, a preposição composta de + intro, deu origem a nossa palavra “dentro”. Note que a Vulgata usa o “que enclítico” como conjunção (=et). [voltar]

(21) E foi a preposição latina de ablativo de que, com o desaparecimento dos casos, assumiu o genitivo nas neolatinas. Curiosamente, essa construção não era desconhecida no latim clássico. Que o diga o poeta Virgílio:”Et viridi in campo templum de marmore ponam (Geórgicas 3.13). [voltar]

(22) Cf. [Sidwell, cap. III, p. 30]. [voltar]

(23) Por exemplo, a frase genitiva in saecula saeculorum (“pelas eras das eras”) é uma latinização de uma expressão grega que reflete um jeito hebraico de fazer o superlativo. Cf. [Sidwell, Grammar 10.a]. [voltar]

(24) [Ilari, cap. V, p. 70]. [voltar]

(25) Magis deu origem ao nosso “mais” e ao “más” espanhol, ao passo que plus deu origem ao “plus” francês e ao “più” italiano. [voltar]

(26) Repare em At 2:28 (Vetus Latina) …replebis me laetitia cum facie tua. Mesmo a literatura preservando todo o sistema de casos clássico, ainda havia risco de confusões. Na palavra do exemplo acima, seu nominativo singular (facies) era idêntico ao acusativo plural e o significado era deduzido do contexto. Assim, mesmo não tendo mais latim como língua materna, escritores medievais continuaram a usar preposições gramaticalmente dispensáveis para fins de clareza. [voltar]

(27) O que talvez fosse a preservação de um falar antigo que não foi adotado pelos clássicos. O teatrólogo Tito Plauto, no segundo século a.C., escreveu em sua peça “Os Prisioneiros” (Captivi) a frase Ego hunc ad carnuficem dabo (“Darei este ao executor”). [voltar]

(28) Uma pequena licença poética de [Sidwell, cap. III, p. 30]: “[Vulgate] is unlike anything else in Latin“. [voltar]

(29) Hebraica e grega para Jerônimo, do vernáculo para os escritores mais tardios. [voltar]

(30) Sugestão de leitura [Plater & White]. [voltar]

(31) Codex Cavenensis (C); um manuscrito da Biblioteca Vallicelliana, Roma, B.25II, s. VIII-IX in Latio vel Romae (I); e o Codex Legionensis (Λ). [voltar]

(32)É possível encontrar construções do tipo usque in + ablativo, como em At 7:45 “expulit Deus a facie patrum nostrorum usque in diebus David“. Nesses casos, in se refere a uma época passada específica, o que seria, de certa forma, o equivalente temporal do repouso. O advérbio usque assume sozinho o sentido de “até” (cf. II Cr 12:4). Compare com At 7:41 “et vitulum feccerunt in illis diebus” e Eclo 47:1 “post hoc surrexit Nathan propheta in diebus David“. [voltar]

(33) A preposição composta de + usque + ad deu origem ao jusqu'à francês. [voltar]

(34) Cf. [Plater & White, cap. VI, p. 102]. [voltar]

(35) A preposição super é comumente traduzida por “sobre”, “acima de”. Em ideias de movimento ela sempre rege o acusativo. Em repouso ou circunscrição, pode reger tanto o acusativo como o ablativo. Por exemplo
Lc 23:38

Erat autem et superscriptio inscripta super illum [ac.](…) hic est rex Iudaeorum.
ην δε και επιγραφη επ αυτω [dat.] ο βασιλευς των ιουδαιων ουτος

[voltar]

(36) Literalmente, “uma dos sábados” ou “primeira dos sábados”, traduzido do grego “μια [ημερα] των σαββατων”. O numeral é feminino porque “dia” em grego é uma palavra feminina (ημερα) e, dependendo do contexto, também o é em latim. A expressão como um todo aparece no Antigo Testamento encabeçando o salmo 23 da LXX e é, possivelmente, um hebraísmo vindo do fato de hebraico nomear apenas o dia de sábado (“Shabbat”). Todos os demais são referenciados por numerais. A palavra “sábado”, além do dia da semana, também é algumas vezes utilizada como equivalente para “semana”, na forma singular ou plural (cf. Mt 28:1 e Lc 18:12). Os tradutores da LXX preferiram, provavelmente, essa construção porque traduzir para os nomes semanais gregos obrigaria o leitor dizer nomes de divindades pagãs. [voltar]

(37)No prólogo ao livro de Tobias, Jerônimo informa que traduzira o livro do “caldeu” (i.e., do aramaico) em apenas um dia, com o auxílio de uma pessoa fluente tanto nesse idioma quanto em hebraico, que são bastante próximos, como ele reconheceu. Jerônimo, em seguida, traduziu do hebraico para o latim. Não temos mais o documento sobre o qual a dupla trabalhou, mas supõe-se que fosse bem distinto dos remanescentes, pois resultado final possui um texto consideravelmente maior. A tradição da Septuaginta contempla duas versões, ambas constam na edição de Rahlfs, mas nenhuma contém os versículos finais do texto latino no capítulo IX. As edições Sixto-Clementina e a Neovulgata preferiram um dos texto gregos ao legado por Jerônimo. Feita essa preleção, deixamos claro que não há interesse aqui em fazer análise crítica do texto latino de Tobias, mas na redação que Jerônimo deu a uma frase muito similar ao versículo Ex 20:5, tendo ela sido original ou não. [voltar]

(38) Para o primeiro caso, vale lembrar que usque ad/in é a tradução imediata de εως, encontrada em Ex 20:5 da LXX. Quanto ao segundo, cf. Sabatier, tomo I, p. 205, Ex 34:7, Versio antiqua. Como será visto mais adiante no texto, Jerônimo retoma a redação que está em sua Vulgata nas correspondências pessoais. Uma hipótese é que conviria ao comentário, por ser destinado a um público mais amplo, receber uma redação com a qual a maioria dos leitores (e ouvintes) já estivesse acostumada. [voltar]

(39) Propatheia é um conceito importado da escola estoica de filosofia por teólogos gregos como Orígenes e Dídimo, o Cego, que se refere às impressões preliminares ou pré-emoções que, caso persistam, levam ao desenvolvimento de uma paixão (pathos). [voltar]

(40) A argumentação de Jerônimo não seria válida caso se utilizasse o texto da Vulgata Sixto-Clementina. Tanto a Vetus quanto os mais antigos exemplares da Vulgata e os manuscritos gregos trazem a leitura: “ Será salva, porém, através da geração de filhos, se permanecerem [perseveraverint (Vetus)/permanserint] com modéstia na fé (…)“, dando a entender que os filhos salvam a mãe pela virtude deles, já a Sixto-Clementina traz o último verbo no singular “(…) se permanecer [permanserit] (…)“, deixando a salvação exclusivamente nas mãos da mulher. Alguns códices medievais da Vulgata, contudo, sustentam essa leitura e podem ter sido utilizados na revisão da Contrarreforma. As Bíblias protestantes em língua portuguesa, em especial as calcadas na tradução de João Ferreira de Almeida, costumam trazer essa leitura, também. Por outro lado, já no século XX, a Nova Vulgata retornou à leitura original, mais criticamente embasada. [voltar]

(41) Traduzo a seguir um quadro de informações constante no capítulo XVI de [Ehrman (2008)]

* * *

Box 16.1 Profecia ou Apocalipticismo?

A maioria dos historiadores do antigo judaísmo concorda que as opiniões apocalípticas encontradas em livros como Daniel e nas obras não canônicas de I Enoque e 4 Esra estão vinculadas bem de perto com as opiniões proféticas encontradas nos profetas clássicos, incluindo Isaías, Jeremias, Amós e Miqueias. Tanto profetas e apocalipticistas acreditavam que Deus estava por intervir em nome do povo israelita para aliviar seu sofrimento. Mas discordavam quanto ao porquê de o sofrimento ocorrer, sobre quem era o culpado e como ela seria removida.

Opinião Profética Opinião Apocalíptica
Por que o povo de Deus sofre? Pecou contra Deus e ele o está punindo por isso. Existem forças cósmicas malignas que se opõem a Deus e estão fazendo estragos entre seu povo justo.
Quem causa o sofrimento? O próprio Deus. Ele está punindo seu povo a fim de que ele se arrependa. As forças malignas. Elas são propensas a machucar o povo de Deus.
De quem é a culpa? Do povo de Deus, porque vive em pecado. As forças cósmicas no mundo, que se opõem aos justos de Deus.
O que deve acontecer para haver um fim no sofrimento? O povo de Deus deve ser arrepender e voltar para Ele. Deus deve intervir em nome de seu povo justo e destruir as forças malignas.
O que o povo de Deus deve fazer? Abandonar seu pecado e voltar para Deus. Permanecer fiel e esperar pela intervenção de Deus.

* * *

[voltar]

(42) Chama-se de “História Deuteronomista” a narração bíblica contida entre os livros de Deuteronômio e 1-2 Reis (excetuando Rute), que é interpretada principalmente à luz da teologia contida em seu primeiro livro: uma alternância entre períodos de salvação e redenção conforme o comportamento do povo hebreu, culminando com o desastre da destruição do Templo. Acredita-se que houve duas redações para essa história: original a terminar com queda do “idólatra” Reino de Israel no final do sétimo século a.C., que teria servido de propaganda ao supostamente virtuoso Reino de Judá, e uma posterior revisão feita após a conquista desse último pelos babilônicos. Para mais informações, vide [Lamadrid, cap. I].
[voltar]

(43) Cf. [Ehrman (2006), cap. IV, p. 121]. Bart D. Ehrman se tornou querido por certos apologistas espíritas após a publicação de O que Jesus disse? O que Jesus não disse? (Misquoting Jesus no original). Esse autor é bom, de fato, só gostaria de saber como os espíritas se sairiam se eu o usasse contra eles. Afinal, ele está mais alinhado comigo do que com eles. De qualquer forma, esse princípio é amplamente aceito como ferramenta de crítica textual.

Contudo, algumas ressalvas devo fazer:

  • Quando se fala em “leitura mais difícil“, entenda-se “mais difícil para o escriba.“. É possível que a fórmula original não possuísse “e sobre os filhos dos filhos” e o escriba não estranhasse por já entender `al como “por, até” ou ele até estranhasse e por isso expandiu o texto. No primeiro primeiro caso, o texto ganhou cadência e no segundo uma suposta correção;
  • Há uma tendência dos textos a crescer, o que seria um ponto favorável ao texto mais curto de Ex 20:5. Porém;
  • Essa tendência se reverte, caso haja uma repetição de palavras que possibilite o olho escriba (ou a memória do narrador) “escorregar” – um fenômeno conhecido na crítica textual como parablepse – e ter pulado algumas palavras. A versão longa de Ex 34:7 preenche esse requisito.
  • Assim, devo admitir que outras possibilidades de reconstrução são possíveis. Preferi esta, também, por haver outro fator em prol do texto longo: a discrepância entre Dt 5:9 (TM) e Ex 20:5 (TM), com a presença de uma conjunção “e” no primeiro caso, sugerindo duas parablepses distintas para um mesmo original.

    Para uma exposição sucinta dos critérios de crítica textual, ver [Metzger, Introdução]. Quem desejar um estudo acadêmico que também aventa a hipótese de omissão de palavras em Ex 20:5, ver [Freedman & Overton, pp. 104-5].

[voltar]

(44) Lembrando que Jerônimo também se valeu de recensões do texto grego feitas por judeus constantes na Hexapla, como as de Áquila, Teódicio e Símaco. [voltar]

(45) O estranho é que, na página anterior, o autor traduz corretamente shilesh como “neto” ou “terceira geração”. Parece que se enxerga o que se quer ver.[voltar]

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Para Saber Mais


– Abegg Jr., Martin; Flint, Peter & Ulrich Eugene; The Dead Sea Scrolls Bible, Harper San Francisco, 1ª ed.

– Barrera, Julio Trebolle; A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã, Vozes, 2ª ed.

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– Chouraqui, André;A Bíblia: Nomes (Êxodo), Imago, 1996.

– Coutinho, Ismael de Lima; Gramática Histórica, Ao Livro Técnico.

– Cross, Frank Moore et al; Discoveries in the Judean Desert, XVII – Qumran Cave 4, XII (1-2 Samuel); Claredon Press – Oxford, 2005.

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– Ehrman, Bart D.; The New Testament, Oxford University Press, 4a. ed., 2008.

_______________; O que Jesus disse? O que Jesus não disse?, Prestígio, 1a. ed., 2006.

– Ferreira, António Gomes; Dicionário Latim – Português, Porto, 1985.

– Freire, Antônio; Gramatica Grega, Martins Fontes, 1997.

– Freedman, D.N. & Overton, S. Dolansky; Omitting the Omission: The Case for Haplography in the Transmission of the Biblical Texts, publicado em ‘Imagining’ Biblical Worlds: Studies in Spatial, Social and Historical Constructs in Honor of James W. Flanagan, editado por David M. Gunn & Paula M. McNutt, JSOT Supplement (Book 359), Sheffield Academic Press, 2002.

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– Melamed, Meir Matzliah; Torá – A Lei de Moisés, Sêfer, 2001.

– Metzger, Bruce M.;A Textual Commentary on the Greek New Testament, 2ª ed, 4ª rev., Deutsche Bibelgesellschaft/United Bible Societes, 2005.

– Murachco Henrique, Língua Grega, Vozes, 2a. ed., 2003.

– Pereira, S.J. Isidro; Dicionário Grego-Português e Português-Grego, Livraria Apostolado da Imprensa, 8ª ed.

– Plater, W.E. & White, H.J.; A Grammar of the Vulgate, Oxford, 1926.

– Rahlfs, Alfred; Septuaginta, Sociedade Bíblica do Brasil, 2006. Sob licença da Deutsche Bibelgesellschaft, Stuttgart , Alemanha.

– Robertson, A.T.; A Grammar of the Greek New Testament in the Light of Historical Research, Broadman Press, 1934.

– Ross, Allen P.; Gramática do Hebraico Bíblico, Vida.

– Sabatier, D. Petri; Bibliorum Sacrorum Latinae Versiones Antiquae, Remis, 1743.

– Sidwell, Keith; Reading Medieval Latin, Cambridge, 2005.

– Sperber, A.; A Historical Grammar of Biblical Hebrew – A Presentation of Problems with Suggestions to Their Solution, Leiden, 1966. Algumas páginas escaneadas desse livro: pp. 58-59, pp.288-289, pp. 630-631, pp. 632-633.

– Störig Hans Joachim, A Aventura das Línguas, Melhoramentos, 3ª ed., 1990.

– Tov, Emanuel; Textual Criticism of the Hebrew Bible, Fortress Press, 2ª ed., 2001.

– Wallace, Daniel B.; Greek Grammar beyond the Basics, Zondervan, 1996.

– Weber, Robert; Biblia Sacra Vulgata, revisão de Roger Gryson, 5ª ed., Sociedade Bíblica do Brasil, 2007. Sob licença da Deutsche Bibelgesellschaft, Stuttgart, Alemanha.

Para Acessar

Aramaic Targum Search é mecanismo de busca de versículos de targumim, com análise léxica embutida, criado pelo Comprehensive Aramaic Lexicon Project do Hebrew Union College-Jewish Institute of Religion. Acessado em 04/02/2014.

Hebrew Lexicon contém a entrada completa para (`al) do léxico hebraico-caldeu de Genesius. Acessado em 10/07/2015.

Common Man’s Prospective, The traz uma tradução da Septuaginta para o inglês. Acessado em 04/02/2014.

Latin Vulgate traz a Vulgata de Jerônimo. Acessado em 04/02/2014.

Nova Vulgata é o atual texto litúrgico do Vaticano. Acessado em 04/02/204.

Pentateuchal Targumim traz traduções inglesas de alguns targumim do Pentateuco. Acessado em 04/02/2014.

[topo]

  1. 29 de março de 2017 às 21:44

    …”Portanto, o inferno não existe por Deus ser inteiramente bom, não deixaria filho algum sofrer eternamente, todo sofrimento tem um fim, todos um dia vão se melhorar.”

    Concordo com você irmão.

    Mas foi bom para mim ler a crítica feita ao ilustre Severino Celestino. Me fez refletir que não devemos aceitar como verdades o que nos dizem sem analisar direito e buscar outras fontes.

    Paz profunda.

  2. DIEGO MODENA
    1 de setembro de 2013 às 21:34

    GRAÇAS A DEUS, QUE ELE ME FIZ SIMPLES E IGNORANTE. NEM PROPENSO AO BEM, NEM AO MAL.
    DEU-ME O LIVRE-ARBÍTRIO. ME FEZ ENTENDER NAS PALAVRAS DE CRISTO, QUANDO DIZ: “… AMAR A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS; E AO PRÓXIMO COMO A TI MESMO…”
    QUANTA INTELECTUALIDADE, PARA PROVAR QUE UM OUTRO CRISTÃO ESTÁ ERRADO. A IGREJA CATÓLICA JÁ FEZ ISSO NA ERA DA INQUISIÇÃO. HOJE SÃO OS “SÁBIOS”, QUE DISPUTAM SEU PEDAÇO DO CÉU, USANDO SUA SABEDORIA.
    NO TEMPO QUE PERDEU EM ESCREVER TUDO ISSO, E EU EM LER. QUANTO BEM DEIXAMOS DE FAZER AO NOSSO PRÓXIMO.
    É NELE QUE ESTÁ NOSSA SALVAÇÃO. NÃO NO NOSSO SABER.
    DEUS ABENÇOE NOSSA IGNORÂNCIA. POIS TÁ ESCRITO, “… DE QUE VALE O HOMEM POSSUIR O MUNDO E PERDER A SI MESMO”.

  3. 3 de julho de 2013 às 13:56

    “Ou não, vai saber!”. Esse benefício da dúvida os apologistas espíritas não deram aos católicos e protestantes na passagem de Ex 20:5. Para eles foi tudo fraude pura e simples e, como mostrei, não foi bem assim…

    Quanto às “inquisições e outras mazelas”, sim, elas ocorreram. Mas o erro deles no trato com os “hereges” não vai deixar a exegese espírita de Ex 20:5 mais correta.

  4. Marcos Duarte
    2 de julho de 2013 às 14:49

    Não houve intenção de critiscismo sobre a preposição, mas de uma constatação. A substituição de que se valeu os copistas anteriores foram mascarada ou utilizada intencionalmente (ou não, vai saber!). Contudo, a história das mais variadas igrejas revelam por si: inquisições e outras mazelas ratificadas por uma vontade, digamos, nada Divina.

  5. guilherme
    27 de março de 2013 às 7:06

    A reencarnação é necessária para o aperfeiçoamento do espirito. Para que Deus faria uma alma para viver 50-70 anos neste planeta e depois não ter mais utilidade para ela? Seria possível aprender tudo o que Deus quer nos ensinar em apenas 70 anos?
    Para os que julgam a Deus como um ser vingativo ou com sentimentos humanos, deveriam pensar um pouco. Deus é eterno, imutável, imaterial, único, todo poderoso, soberanamente justo e bom, não poderia ser mais claro sobre Deus por falta de entendimento e por pobreza de linguagem dos homens que é insulficiente para definir as coisas que estão acima da sua inteligencia. Portanto, o inferno não existe por Deus ser inteiramente bom, não deixaria filho algum sofrer eternamente, todo sofrimento tem um fim, todos um dia vão se melhorar.

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