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Quanto pesa a Alma?

20 de outubro de 2013 Deixe um comentário Go to comments

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O Sopro da Vida…

Minha alma

O salmo 19:8 é acusado de ter sofrido traduções fraudulentas no livro Analisando as Traduções Bíblicas, de Severino Celestino da Silva. Da versão literal hebraica:

O ensinamento (lei) de Javé é perfeito(a), faz voltar a alma (espírito)

Vamos por partes: A primeira questão seria quanto a palavra alma/espírito:

No entanto, na Bíblia de Jerusalém e na Bíblia Tradução Ecumênica, colocaram a palavra espírito (néfesh), como vida. Isto porque os tradutores se basearam em um dos significados gregos da palavra psyké (alma), que também pode significar “vida“, mas esta adaptação só pode ocorrer no significado grego, porque, no texto original em hebraico, isto não é verdadeiro, pois neshamá e nefésh significam espírito mesmo (Veja 2,7) e não vida (chaim) que, em hebraico, é totalmente diferente de (neshamá) e (néfesh) tanto na grafia quanto em significado. E aqui, especificamente, significa espírito.

Cap VI

Bem, a título de esclarecimento, néfesh, rouach e neshamá são três palavras comumente usadas no Antigo Testamento para designar o que chamamos grosso modo de “alma”. A filosofia medieval judaica concebeu um modelo tripartite para alma humana baseado nelas (cf. [Raphael, cap. VIII, p. 278]), cabendo à primeira as funções vegetativas da alma, à segunda as animais e à terceira as intelectuais; um modelo legado posteriormente às especulações cabalistas.

Embora não haja amarração rígida alguma, essa divisão pode ter se originado dos usos dados a cada uma delas. No caso de néfesh, significados não tão espiritualizados assim surgem, do contrário ficariam muito estranhas tais passagens:

  • Quem o come carrega seu erro: sim, ele profanou o Santuário de Iahweh. Esse/essa * é cortado de seus povos. (Lv 19:8)

  • O rei tornou a mandar um chefe de cinquenta com seus cinquenta comandados, o qual subiu e lhe disse: “Homem de Deus! Que tenham algum valor a teus olhos a minha/meu * e a destes teus cinquenta servos. Caiu fogo e devorou os dois primeiros chefes de cinquenta e seus comandados; mas agora, que minha/meu * tenha algum valor a teus olhos” (2 Re 1:13-14)

  • mas toda a carne tendo em seu/sua *, isto é seu sangue, não comereis. (Gen 9:4)

  • Sê firme, contudo, para não comeres o sangue, porque o sangue é *. Portanto, não comas * com a carne. (Dt 12:23)

  • A fuga será impossível ao ágil, o homem forte não empregará a sua força e o herói não salvará a seu/sua *. Aquele que maneja o arco não ficará de pé, o homem ágil não se salvará com seus pés, e o cavaleiro não salvará sua/seu *. (Am 2:14-15)

  • O Senhor Iahweh jurou por * – oráculo de Iahweh, Deus dos Exércitos- Eu detesto … (Am 6:8)

  • Não torneis * imundos, com todos estes répteis que andam de rasto (…) (Lv 11:43)

  • Quando * apresentar presente como oferenda diante de Iahweh, seu presente será sêmola. Nela se escorre o azeite em troca de olíbano (Lv 2:1)

  • ele não vem sobre qualquer * morto. Ele não se contaminará por seu pai ou sua mãe. (Lv 21:11)

Fontes: livros da série A Bíblia, de André Chouraqui, e A Bíblia de Jerusalém(1995).

Será que substituir todos os (*) por alma/espírito dá certo? Alma é material para estar no sangue (Dt 12:23), ou Iahweh teria uma alma encarnada como nós (Am 6:8)? Não sei se espíritos conseguem fazer oferendas sacrificiais (Lv2:1), se são retiradas por meio de exorcismo/ desobsessão do meio do povo ou de quanta força física precisam para se salvar. Almas morrem (Lv 21:11)? Ou seja, “alma” pode não ser a melhor tradução, ou pelo menos a única, para o termo “néfesh” representado pelos asteriscos. Por que não “indivíduo” (Lv 19:8), “vida” ( 2 Re 1:13-14, Gn 9:4, Dt 12:23 e Am 2:14-15 ), “si mesmo” (Am 6:8), “vós mesmos” (Lv 11:43), “alguém” (Lv 2:1), “corpo” (Lv 21:11).

E a lista poderia ser maior que esta. Portanto, considerar néfesh exclusivamente como sendo “alma/espírito” é esconder um pouco o jogo a respeito da versatilidade desta palavra hebraica. Na lista exposta no parágrafo anterior, falta um sentido que é o centro de gravidade de todos os demais: “ser”. A ideia principal que permeia inúmeras ocorrências de néfesh é a de “unidade de vida” do que exatamente uma posse dela. Humanos e criaturas são “seres”, antes de corpos que possuem um “ser” animando-os. Este sentido de “ser, criatura, pessoa” é o que mais aparece na tradução de Chouraqui (1) como Gen 2:7 (“ser vivente”), sendo que Sl 19:8 é traduzido por: “restaura o ser”. Esta propriedade de referir-se ao indivíduo como um todo permite o uso idiomático de néfesh mais um sufixo como pronome reflexivo (ou seja, referente ao próprio ser). Outras passagens (Dt 12:23) remetem a uma espécie de “energia vital”. Aqui, néfesh seria mais o espírito, o “sopro” que sustenta a existência do ser vivo do que exatamente a alma individual . Sentidos em oposição a “vida” da palavra chaim, como uma qualidade oposta a “morte”.

Vejamos, então, algumas definições dadas a “néfesh”:

[Lambin, lição 37] alma, energia vital; pessoa, criatura, mais o seu uso reflexivo
[Berezin], verbete néfesh espírito, vida, homem, personagem, figura; e ela toma parte em expressões como “com risco de vida
[Barish & Barish, cap. XIII] Nefesh – traduzida algumas vezes com vitalidade, algumas vezes com personalidade. Em Deut. XII-23 ela se refere ao sangue que é o que leva a vida através do corpo. A alma é a condutora da vida na pessoa, aquilo que a torna viva biologicamente
[Asheri, cap XLI, p.253] (2) Nefesh é a centelha que mantém vivos os seres humanos. Quando falamos de “preservação da vida”, para qual quase todos os mandamentos podem ser desprezados, a expressão hebraica é pikuach nefesh. No mesmo sentido, o “perigo à vida” é denominado sakanat n’fashot. Não devemos pensar na nefesh como sendo simplesmente uma força vital mecânica ou animal; ela também contém a personalidade do ser humano, mas parece faltar-lhe qualquer qualidade puramente espiritual. A implicação do acima dito é que ela morre com o corpo.

Assim, “vida” ou “energia vital” podem ser significados possíveis para néfesh, ainda que não o seu sentido imediato e “espírito” não significa bem o “mente + perispírito” do kardecismo, que seria separável do corpo físico. Portanto, a acusação de má tradução feita pelo autor é totalmente leviana. Conscientemente ou não, está foi repassado um embuste ao leitor de Analisando…. O “psyké” grego, a propósito, também admite: sopro de vida (a tal energia vital) e ânimo; o temo latino anima o acompanha em versatilidade: alma, vida, sopro, hálito (que não é o caso, óbvio), pessoa.

Essa situação de “traduttore, traditore” nem sequer é nova. Dissidências judaicas medievais, que já não tinham há muito o hebraico como língua materna, também derraparam no mesmo versículo. O filósofo judaico Saadia Gaon assim refutou aos que, no século X, liam como em Analisando…:

Um adicional engano da parte deles é o aplicado à referência do santo: “Ele restaurará minha alma”. Eles pensaram, a saber, que isto implicava numa permuta de corpo para corpo, não lembrando, ignominiosos que são, que se referia a relaxação, e descanso, e repouso da alma da excitação experimentada por ela, não a uma restauração depois da partida de um corpo.

[Gaon, tratado VI, cap. VIII]

E não estava sozinho, como mostra o comentário de Rabi Shlomo Yitzhaqi (vulgo Rashi, 1040-1105 d.C.) à passagem análoga de Sl 23:3

Meu espírito, que fora enfraquecido pelas dificuldades e a diligência, ele restaurará ao estado prévio.

Bem, estas são opiniões rabínicas, sem o viés protestante/católico de que tanto se reclama e, se assim for, o sentido de Chouraqui cai melhor. Há, como Gaon comenta, uma ideia de relaxamento, repouso, conforto… pois é: confortar também é um significado viável para o verbo relacionado a nefésh: shuv: reanimar, confortar, causar satisfação e também seus sentidos mais literais: fazer voltar, restituir, restaurar, devolver; todos registrados no dicionário Rifka Berezin e implícitos na fala de Gaon. Em suma, não foi uma omissão, estes significados são possíveis e deveriam ter sido expostos por Severino Celestino da Silva na sua relação de significados para shuv, e não como obra de tendenciosos. Além disso, há a possibilidade de ter ocorrido uma harmonização com outra passagem (Pr 25:13), que também é traduzida comumente como “reconforta a alma”, mas cujo contexto transmite esta sensação. Uma outra fonte de erros aqui foi ter se considerado uma relação “um para um” na hora de verter o significado de um termo hebraico para o português. Palavras, ainda mais as abstratas, muitas vezes têm um leque de sentidos num idioma, que nem sempre é mapeado de forma unívoca para outro. A propósito, a versão revista e atualizada de João Ferreira de Almeida já traz um sentido mais próximo ao literal: “restaura a alma”.

Gaon se referia a outra aparição do verbo em Sl 23:3, que em Analisando…, cap. VII, tem seu versículo anterior (“Em verdes pastagens me fará descansar. Para a tranquilidade das águas me conduzirá”) interpretado de forma “mui livre”, como o útero sendo o ambiente tranquilo e as água o líquido amniótico. Bem, se ele se dá ao direito de a fazer livre associações … tudo bem, contanto que outros possam utilizar os significados figurados de shuv, talvez não haja problema. Ou será não vão querer dar pesos e medidas diferentes a cada caso? Neste mesmo capítulo, a palavra chaim (“vida”, chaiâi com sufixo possessivo) é traduzida como plural “minhas vidas”. De fato, chaim é uma palavra palavra plural, mas não de “vida”. Ao pé da letra, ela significa “vivos” (plural de chayy) e é em geral traduzido por “vida”, “duração da vida”, “anos de vida”. Como em Gn. 23:1: “A duração da vida de Sara foi de 123 anos”. O próprio autor traduziu Gn 2:7, no cap. IV, “… um sopro de vida…” (e não “vidas”, vide o extrato que abre este artigo) e reiterou esse sentido no cap. VI. Muda-se misteriosamente de opinião no VII sem dar ao leitor a informação que hebraico emprega muitas vezes o plural sem se referir a um plural numérico (ex. dom, “sangue”; domym, “derramamento de sangue”).

É claro que os conceitos religiosos dos tradutores e suas crenças pessoais, os seus desconhecimentos, bem como, outros motivos aqui não citados, levaram-nos a estas conclusões.

“Analisando…”, cap VI

Sugerimos trocar de dicionário antes de ser tão contundente. Talvez um dicionário “velho” possa auxiliar também, pois Severino Celestino da Silva age de forma um tanto injusta quando trata a tradução da Vulgata para o português de Sl 19:28:

Convertens animas”, no latim, significa: faz a alma voltar, pois o verbo convertere, em latim, significa voltar, fazer voltar, retroceder. No entanto, muitos tradutores da Vulgata colocam esta frase como “converte a alma”, dando a este verbo latino um significado direto para o português que, como vemos, não representa o seu verdadeiro significado.

Analisando… Cap. VI

O Vocabulário Português e Latino (1712-1728) de Rafael Bluteau traz, entre outros significados para converter, a acepção:

Em ortografia moderna aparece “as suas setas se converterão contra eles”, num sentido claro de “voltar”. O padre Antônio Vieira (1608 – 1697), em seus sermões , traz-nos um uso similar:

Desenganemo-nos, que é necessário deixar o mundo antes que ele nos deixe. E que ocasião mais aparelhada, e ainda mais forçosa e mais fidalga, que deixá-lo quando quem o criou e nos criou o deixa? Será bem que se parta Cristo do mundo. Ut transeat ex hoc mundo — e que faça esta jornada só, sem haver quem o acompanhe e o siga? Que coração haverá tão esquecido de Deus e de si, que ouvindo aquele rebate, ou aquele pregão do céu; Sciens Jesus quia venit hora ejus [Sabendo Jesus que era chegada a sua hora – Jo 13:1] — lhe não cause um grande abalo na alma, e diga resolutamente consigo: Esta será também a minha hora? Nenhum cristão há de consciência tão perdida, que não faça conta de se converter e se dar a Deus alguma hora: e se há de ser alguma hora, que hora como esta?”

– Sermão do Segundo Mandato

Ainda que em todos os dias nos podemos converter a Deus, o tempo que sua divina misericórdia nos sinalou particularmente para a penitência dos pecados são os quarenta dias da Quaresma

– Sermão de Dia de Ramos

Obviamente, “converter” não tem o sentido de “mudar de religião, ideia”, pois se parte do princípio que o interlocutor já é cristão. O que o padre queria dizer era algo como: “não faça conta de se voltar e se dar a Deus alguma hora”. Ainda na época seiscentista e setecentista a palavra portuguesa mantinha certa reminiscência do seu significado original latino. Talvez isso tenha influenciado a tradução de Antônio Pereira de Figueiredo, cujo Antigo Testamento foi publicado entre 1782 e 1790. Com a evolução da língua, esse sentido caiu em desuso e nem todos os dicionários o registram hoje (4). Vale lembrar, embora ainda preservando um significado de “voltar/volver”, o sentido de “retorno” pleno já deveria estar esquecido, mesmo em latim, por alguns religiosos. Em seu “Sermão de Quarta-feira de Cinzas”, Vieira não equiparou converteris a reverteris, do famoso versículo de Gn 3:19: “Pulvis es, tu in pulverem reverteris“.

[topo]

… sobre Ossos Secos

Ezequiel e os ossos secos

O termo, por sinal, mais aproximadamente corresponderia a “espírito” é rouach. “Mais”, porque este termo também tem múltiplos significados (sopro, vento, espírito). Mesmo quando ele é traduzido por espírito não significa que seja exatamente a consciência sempre, mas o princípio que nos anima (Sl 146:4) e retorna a Iahweh após a morte (Ecl 12:7, o que não é panteísmo), o ânimo (Jz 15:19), “coragem” (Js 2:11), “raiva, exaltação” (Jz 8:3), ação sobre a mente (Ez 11:5), Iahweh e suas manifestações (Is 63:10).

A passagem Ez 37:1-14 dá um exemplo de “espírito” como manifestação divina:

Veio sobre mim a mão do Senhor; ele me levou pelo Espírito do Senhor e me deixou no meio de um vale que estava cheio de ossos, e me fez andar ao redor deles; eram mui numerosos na superfície do vale e estavam sequíssimos. Então, me perguntou: Filho do homem, acaso, poderão reviver estes ossos? Respondi: Senhor Deus, tu o sabes. Disse-me ele: Profetiza a estes ossos e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor Deus a estes ossos: Eis que farei entrar o espírito em vós, e vivereis. Porei tendões sobre vós, farei crescer carne sobre vós, sobre vós estenderei pele e porei em vós o espírito, e vivereis. E sabereis que eu sou o Senhor. Então, profetizei segundo me fora ordenado; enquanto eu profetizava, houve um ruído, um barulho de ossos que batiam contra ossos e se ajuntavam, cada osso ao seu osso. Olhei, e eis que havia tendões sobre eles, e cresceram as carnes, e se estendeu a pele sobre eles; mas não havia neles o espírito. Então, ele me disse: Profetiza ao espírito, profetiza, ó filho do homem, e dize-lhe: Assim diz o Senhor Deus: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam. Profetizei como ele me ordenara, e o espírito entrou neles, e viveram e se puseram em pé, um exército sobremodo numeroso. Então, me disse: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eis que dizem: Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; estamos de todo exterminados. Portanto, profetiza e dize-lhes: Assim diz o Senhor Deus: Eis que abrirei a vossa sepultura, e vos farei sair dela, ó povo meu, e vos trarei à terra de Israel. Sabereis que eu sou o Senhor, quando eu abrir a vossa sepultura e vos fizer sair dela, ó povo meu. Porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos estabelecerei na vossa própria terra. Então, sabereis que eu, o Senhor, disse isto e o fiz, diz o Senhor.

Nas palavras de Severino Celestino da Silva, Analisando…, cap XV:

O capítulo 37, vv 1 a 14 do livro de Ezequiel fala da reencarnação numa linguagem clara, no entanto, a maioria o traduz e interpreta como ressurreição.(…)Observe que, a partir do versículo 11, Iahweh fecha o sentido de renascimento, mostrando que os ossos simbolizam o povo de Israel e que ele fará reencarnar a todos, retirando-os dos seus túmulos e fazendo-os voltar reencarnados à sua Terra. Ele não fala que os retiraria na ressurreição do último dia mas que os retiraria do túmulo, fazendo-os renascer e fazendo-os voltar à terra de Israel e não aos Céus. Aqui não existe dúvida sobre a Reencarnação e esclarecimento sobre a inexistência de um último dia para a ressurreição.

Não, muitas dúvidas pairam. Não há nenhum sinal de passagem cíclica pelo útero, também. Mas o principal aqui é que se tem o presente olhando o passado sob seu viés. Os antigos leitores enxergavam isto com olhos bem distintos.

(…) Concorda com ele que ao dizer que, na verdade, Ezequiel não restaurou nenhum morto no fim de contas, e a profecia foi apenas uma parábola da nação judia que seria um dia restaurada novamente. E isto está relacionado com o seguinte de Boraita: Os mortos a quem Ezequiel restaurou ergueram-se sobre seus pés, entoaram uma canção e morreram de novo. E que tipo de canção foi? Indaga R[abi]. Eliezer. R. Josué disse: A canção foi de I Sm 2:6: “O Senhor mata, o Senhor faz viver; faz descer à sepultura e dela subir.” R. Judas, entretanto, disse: Na verdade, era apenas uma parábola. R. Neemias a ele: Se verdade, então não é uma parábola; e se uma parábola, não é verdade. Diz, então, na verdade era uma parábola, R. Eliézer b[en]. R. José o Galileu, contudo, disse: Os mortos que foram restaurados por Ezequiel foram para a terra de Israel, casaram-se e tiveram filhos e filhas. E R. Judas b. Batira ficou de pé, dizendo: Eu mesmo sou um descendente deles, e estes são os filactérios que herdei de meu avô, que me relatou que eles foram usados pelos restaurados. Mas quem eram os restaurados em questão? Disse Rab: Eles foram os filhos de Efraim que erraram quanto ao tempo da prometida redenção do Egito. Como se lê[ I cr 7:20-23]: “E os filhos de Efraim: Sutala e Bared, seu filho; e Taat, seu filho; e Elada, seu filho; e Taat, seu filho; e Zabad, seu filho; e Sutala, seu filho; e Ezer e Elada a quem os homens de Deus que nasceram naquela terra mataram (1) … E Efraim, pai deles, pranteou vários dias, e seus irmãos vieram consolá-lo. ” Samuel, porém, disse: Eram os homens que não acreditavam na ressurreição. Como se lê (Ez 37:11): “Então me disse: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel; eis que dizem, Secos estão nossos ossos e nossa esperança está perdida; estamos todos exterminados.” R. Jeremias b. Abas disse: Eram os ossos de homens sem esperança de nenhum ato meritório. Como se lê (Ez 37:4): “Ó ossos secos, ouvi a palavra do Senhor”. E R. Itzaque de Nabar disse: Eram os homens que foram mencionados em (Ez 8:10): Então entrei e vi, eis que havia toda forma de seres rastejantes, e de gado, e de abominações, e todos os ídolos da casa de Israel, pintados nas paredes e em todo o redor.” E como se lê (Ez 37:2): “e me fez andar ao redor deles.

(1)Os efraítas teriam saído do Egito 30 anos antes do êxodo dos demais devido a um erro na contagem do tempo da profecia feita por Deus a Abraão.

Trecho extraído do Talmude Babilônico, Tratado Sanhedrin, cap. XI.

Parece que os talmudistas tinham opiniões “ligeiramente” diferentes das professadas pelo tradutor espírita, apesar de divergirem largamente entre si. Outros filósofos medievais judaicos mais tardios também interpretaram esta passagem como alusão à ressurreição. De Gaon, uma interpretação quase literal:

Além disso, deixe-me dizer que, porque nosso Criador estava ciente dos escrúpulos surgidos em nosso corações pela dificuldade que temos em aceitar a doutrina da ressurreição dos mortos, Ele informou Seu profeta Ezequiel disto antecipadamente, falando a ele: “Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel; eis que dizem: Nossos ossos estão secos e nossa esperança perdida, estamos acabados” (Ez 37:11). Então Ele ordenou-o a trazer nos as boas novas de nossa ressurreição de nossas sepulturas e ressuscitação de todos os nossos mortos, ao dizer-lhe imediatamente depois disso: “… Eis que abrirei a vossa sepultura, e vos farei sair dela, ó Meu povo” (Ez 37:12).

Porém, a fim de que não pensemos que esta promessa foi feita para o mundo vindouro, adicionou ao fim da declaração as palavras: “E vos trarei à terra de Israel” (Ez 37:12), a fim de assegurar-nos que isto se daria neste mundo. Assim, o objetivo a ser logrado é que cada um de nós, quando Deus o tiver trazido de volta à vida, fará menção ao fato de que estava vivo e morreu e foi então ressuscitado. Que é a implicação de Sua declaração: “E sabereis que eu sou o Senhor, quando eu abrir as vossas sepulturas” (Ez 37:13). A menção da ressurreição na terra da Palestina é então repetida por ele uma segunda vez, a fim de confirmar-nos que a tese é de que ela se dará neste mundo, com diz Ele: ”E porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos colocarei na vossa própria terra; e sabereis que eu, o Senhor, disse isto e o fiz, diz o Senhor” (Ez 37:14).

[Gaon, tratado VII (ressurreição), cap III]

O grande Maimônides cria, que no fim dos tempo, haveria uma ressurreição incorpórea, mas quanto a Ez 37:

(…)Entretanto, se nós dissemos, o fizemos baseados no que disseram os sábios de Israel sobre os ossos mortos ressuscitados no Livro de Ezequiel, a respeito do qual há uma diferença de opinião entre os sábios do Talmude. Porque no que diz respeito a tudo onde haja uma diferença de opiniões, a qual não conduza à execução de um preceito Divino relacionado a esse assunto, servindo como prova dele, não é possível decidir com que está a razão e nós mencionamos isto várias vezes no Comentário sobre a Mishná. É evidente para nós, dessas declarações do Talmude, que aqueles indivíduos cujas almas retornam ao corpo depois da morte comerão e beberão e terão relações sexuais e procriarão e morrerão depois de uma vida extremamente longa, como a vida daqueles que existirão nos tempos do Messias.

Além disso, a vida após a qual não há morte, é a vida no Mundo Vindouro porque não há corpos físicos lá. Acreditamos firmemente – e esta é a verdade que toda a pessoa inteligente aceita – que no Mundo Vindouro as almas sem corpo existirão como os anjos. (…)

[Maimônides, IV, 23-24]

Note que Maimônides, assim como os talmudistas mais literalistas, interpreta Ez 37:1-14 como um caso real de ressurreição, ainda que, tal como o de Lázaro no NT, não tenha sido na ocasião do Mundo Vindouro e os ressuscitados tenham vindo a falecer novamente.

Uma opinião já contemporânea resgata a opinião dos talmudistas que viam na passagem uma metáfora sobre a restauração de Israel (5):

(…)A visão de Ezequiel da ressurreição dos ossos secos salta à vista de muitos como referência óbvia ao que sucedeu ao povo judeu depois do Holocausto, com a restauração do Estado de Israel após quase dois mil anos de exílio israelita. Esses são exemplos óbvios dos temas que interessam mais profundamente aos estudioso contemporâneos do texto da Torá. (…)

[Neusner, cap. V].

Para finalizar, uma opinião da Jewish Encyclopedia quanto natureza da alma no judaísmo dos tempos bíblicos.

A narração mosaica da criação do homem de um espírito ou sopro com o qual ele foi dotado por seu criador (Gn. 2:7); mas este espírito foi concebido como inseparavelmente conectado, senão totalmente conectado o sangue-vida (Gn 9:4, Lv 17:11). Apenas através do contato dos judeus com o pensamento persa e grego, a ideia de uma alma desencorporada, tendo sua própria individualidade, se enraizou no judaísmo e encontra sua expressão nos livros bíblicos tardios, como, por exemplo, as seguintes passagens: “O espírito do homem é a lâmpada do Senhor” (Pr 20:27); “Há um espírito no homem” (Jó 32:8); “O espírito retornará a Deus que o concedeu” (Ecl 12:7). A alma é chamada na literatura bíblica de “ruach”, “nefesh” e “neshamah”. O primeiro destes termos denota a espírito em seu estado primitivo; o segundo, em sua associação com o corpo; o terceiro, em sua atividade com o corpo. (…)

Nota: nefesh: Gn 2:7, Gn 9:4, Lv 17:11; neshamah: Pr 20:27; ruach: Ecl 12:7, Jó 32:8

[topo]

Notas

(1) Tradutor francês que vem realizando meticulosas traduções de livros bíblicos para o vernáculo na séria A Bíblia, lançada no Brasil pela Imago. Ele foi usado como exemplo de bom tradutor por Severino Celestino da Silva.

(2) Esse livro consta na bibliografia de “Analisando as Traduções Bíblicas“. Agora, se ele foi lido nessa parte… Um ponto que chama atenção é a afirmação de que a nefesh pereceria com o corpo. Sendo assim, o autor quis reencarnar algo que é mortal. Em sua defesa, convém informar que outros autores [Bronner, cap. VI] apontam que místicos judaicos creem ser essa a parte da alma que reencarna.

(3) “Tradutor, traidor”, em italiano. Uma expressão usada para lembrar que, por mais fiel que seja um tradutor ao sentido do texto original, chega uma hora que é impossível verter um trecho de um idioma para outra sem alguma perda do significado original ou a necessidade explicação à parte. Isso pode envolver trocadilhos, particularidades de um idioma que não existem em outro (por exemplo, a separação clara entre “ser” e “estar” de nossa língua não é encontrada no inglês), uma palavra sem correspondente claro ou que precise de um circunlóquio para descrita em outro idioma, tentativa de manter métrica e rima no caso dos poesias, etc. O caso das palavras portuguesas “alma” e “espírito” é particularmente sensível porque elas possuem uma sobreposição de sentidos que nem sempre ocorria do mesmo modo em hebraico e grego.

(4) Mirador, Michaelis e Aurélio, não. Dicionário Brasileiro Globo, sim.

[topo]

Para saber mais

– Asheri, Michael, O Judaísmo Vivo, Imago, 1995.

– Barish, Louis & Rebecca; Crenças Básicas do Judaísmo, Edigraf, 1967.

– Berezin, Rifka, Dicionário Hebraico-Português, Edusp, 2003.

– Bronner, Leila Leah; Journey to Heaven – Exploring Jewish Views of the Afterlife, Urim Publications, 2015.

– Gaon, Saadia; The Book of Beliefs and Opinions; tradução inglesa de Samuel Rosenblatt, Yale University Press, 1989.

– Lambin, Thomas O.; Gramática do hebraico bíblico, Paulus, 2003.

– Maimônides, Moses, Tratado sobre a Ressurreição, tradução de Alice Frank, Maayanot, 1994.

– Neusner, Jacob, Introdução ao Judaísmo, Ed. Imago, 2004.

– Raphael, Paull Simcha; Jewish Views of the Afterlife, Rowman & Littlefield Publishers, 2004.

[topo]

  1. 26 de agosto de 2016 às 14:56

    Sou espírita, mas não me canso de ler suas postagens. Seria muito interessante que as publicasse em forma de livro. Se gostar da ideia, terá meu apoio, inclusive financeiro. Acho que está na hora de elevar o nível do debate, pois vejo uma ignorância muito grande dentro do espiritismo, com palestrantes ignorando completamente as pesquisas bíblicas por apego ao que Kardec ensinou. O espiritismo precisa avançar, ser mais científico.

  2. 13 de junho de 2014 às 20:28

    O sopro da vida não é definitivamente o soprar, e sim, um núcleo energético depois da encarnação se fazendo feto desta mesma mistura do núcleo com o espermatozoide, ficando como dirigente deste mesmo corpo, até seu nascimento, que ao se desenvolver este corpo matéria se desdobra a dominar o espírito, esta é a rasão da reforma corporal que temos que vivencia-la junto com a reforma plantearia até 2040. Alma é um processo da religiosidade não tem nada haver com o corpo espirito, e o corpo matéria, é um invencionismo dos religiosos, sempre com esta frase, “eu vi uma alma”, alguém se referindo, tendo este o dom da vidência…(Edvaldo).

  3. Anônimo
    12 de junho de 2014 às 23:11

    este assunto é bastante debatido e as pessoas continuam na mesma polêmica conhecimento não se discute as pessoas preferem acreditar na quilo que lhe é conveniente. ou preguiça mesmo é a maior pobreza do mundo.

  4. 26 de maio de 2014 às 13:52

    Alias sopro de vida ao meu entender, pode ser que um espírito criador, entre pelas narinas e der vida ao que se chama corpo feito de barro, assim se procedeu no primeiro planeta no universo que foi preparado para existência humana, dando origem o caminhar da primeira humanidade a proceder uma formação de núcleos de átomos energéticos com proporções de encarnações pela primeira vez dando inicio aos espíritos a iniciar as sucessivas encarnações para desenvolvimentos daquele planeta… (Edvaldo).

  5. Anônimo 2
    12 de dezembro de 2013 às 14:06

    A respeito do post o “Sopro da vida” e a definição de alma,
    Acho que é possivel entender alma como uma unidade que apresenta dualidade, utilizando as idéias de nefesh e neshmá como alma concupiscente mortal e alma essencial ou assencional, talvez não como partes da alma mas como atributos simultâneos ou imiscuídos que refletem a dualidade necessária quando se fala no eixo criacional e ascensional do imanifesto e do manifesto.

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