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Urano: O Caso do Planeta Deitado

23 de julho de 2013 2 comentários

urano

Representação artística de Urano.

Índice

Agradecimentos a Carlos Bella pelas figuras e explicações técnicas sobre Urano e as luas de Marte.

* * *

O Relato de uma Descoberta Espiritual

Eis ainda outro fato que parece triunfar de todas as objeções: ele foi comunicado ao Light (1884, página 499) pelo General-major A .W. Drayson e publicado sob este título: The Solution of Scientific Problems by Spirits (Solução de Problemas Científicos pelos Espíritos). Eis aqui a tradução:

“Tendo recebido do Sr. George Stock uma carta em que me perguntava se eu podia citar, ao menos um exemplo, em que um Espírito, ou um que o pretendesse ser, tivesse resolvido, durante uma sessão, um desses problemas científicos que preocupam os sábios do século passado, tenho a honra de comunicar-lhe o fato seguinte, do qual fui testemunha ocular.

“Em 1781, William Herschel descobriu o planeta Urano e seus satélites. Observou que esses satélites, ao contrário de todos os outros satélites do sistema solar, percorrem suas órbitas de oriente para ocidente. J. F. Herschel diz em seus “Esboços Astronômicos”: “As órbitas desses satélites apresentam particularidades completamente inesperadas e excepcionais, contrária às leis gerais que regem os corpos do sistema solar. Os planos de suas órbitas são quase perpendiculares à eclíptica, fazendo um ângulo de 70º 58, e eles os percorrem com movimento retrógrado, isto é, sua revolução em roda do centro do planeta efetua-se de este para oeste, ao invés de seguir o sentindo inverso.”

“Quando Laplace emitiu a teoria de que o Sol e todos os planetas se formaram à custa de uma matéria nebulosa, esses satélites eram um enigma para ele.

“O Almirante Smyth menciona em seu “Ciclo Celeste” que o movimento desses satélites, com surpresa de todos os astrônomos, é retrógrado, ao contrário do movimento de todos os outros corpos observados até então.

“Na “Gallery of Nature”, diz-se do mesmo modo que os satélites de Urano descrevem sua órbita de este a oeste, anomalia estranha que faz exceção no sistema solar.

“Todas as obras sobre a Astronomia, publicadas anteriores de 1860, contêm o mesmo raciocínio a respeito dos satélites de Urano.

“Por meu lado, não encontrei explicação alguma a essa particularidade; para mim, era um mistério do mesmo modo para os escritores que citei.

“Em 1858, eu tinha como hóspede, em minha casa, uma senhora que era médium, e organizamos sessões quotidianas. Certa noite ela me disse que via a meu lado uma pessoa que pretendia ser astrônomo durante sua vida terrestre. Perguntei a essa personagem se estava mais adiantada presentemente do que durante sua vida terrestre. ‘Muito mais’ – respondeu ela.

‘”Tive a lembrança de apresentar a esse pretendido Espírito uma pergunta a fim de experimentar seus conhecimentos: – Podes dizer-me, perguntei-lhe, porque os satélites de Urano fazem sua revolução de este para oeste e não de oeste para este?

“Recebi imediatamente a resposta seguinte: – Os satélites de Urano não percorrem sua órbita de oriente para ocidente; eles giram em roda de seu planeta, de ocidente para oriente, no mesmo sentido em que a Lua gira em roda da Terra. O erro provém de que o polo sul de Urano estava voltado para a Terra no momento da descoberta desse planeta; do mesmo modo que o Sol, visto do hemisfério austral, parece fazer o seu percurso quotidiano da direita para a esquerda e não da esquerda para a direita, os satélites de Urano moviam-se da esquerda para a direita, o que não quer dizer que eles percorrem sua órbita de oriente para ocidente.

“Em resposta a outra pergunta que apresentei, meu interlocutor acrescentou: – Enquanto o polo sul de Urano estava voltado para a Terra, para um observador terrestre parecia que os satélites se deslocavam da esquerda para a direita, e conclui-se daí, por erro, que eles se dirigiam do oriente para o Ocidente; esse estado de coisas durou cerca de 42 anos. Quando o polo norte de Urano está voltado para a Terra, seus satélites percorrem o trajeto da direita para a esquerda, e sempre do ocidente para o oriente.

“Em seguida perguntei como tinha sucedido não se ter reconhecido o erro 42 anos depois da descoberta do planeta Urano por W. Herschel?

“Responderam-me: – É porque, em regra, os homens não fazem mais do que repetir o que disseram as autoridades que os precederam; deslumbrados pelos resultados obtidos por seus predecessores, não se dão ao trabalho de refletir.

“Guiado por essa informação comecei a resolver o problema geometricamente, e apercebi-me de que a explicação respectiva era exatíssima, e a solução muito simples. Por conseguinte, escrevi sobre essa questão um tratado que foi publicado nas Memórias do Ensino Real de Artilharia, em 1859.

“Em 1862, dei essa mesma explicação do pretendido enigma em uma pequena obra sobre a Astronomia: “Common Sights in the Heavens” (olhar pelos Céus); mas a influência da “opinião autorizada” é tão funesta, que só em nossos dias os escritores que se ocupam de Astronomia começam a reconhecer que o mistério dos satélites de urano deve ser atribuído à posição do eixo desse planeta.

“Na primavera do ano de 1859, tive ainda por uma vez oportunidade de, por intervenção da mesma médium, conversar com a personalidade que se apresentava como o mesmo espírito; perguntei-lhe se podia esclarecer-me acerca de um outro fato astronômico ainda desconhecido.

“Naquele tempo eu possuía um telescópio com uma objetiva de 4 polegadas e de uma distância focal de 5 pés. Fui informado de que o planeta Marte tinha dois satélites que ninguém tinha visto ainda e que eu poderia descobrir em condições favoráveis. Aproveitei-me da primeira ocasião que se apresentou para fazer observações nesse sentido, mas não descobri coisa alguma. Participei essa comunicação a três ou quatro amigos com os quais eu fazia experiências espiríticas, e ficou decidido que guardaríamos segredo acerca do que se tinha passado, pois que não possuíamos prova alguma em apoio às alegações de meu interlocutor, e corríamos o risco de expor-nos à risada geral.

“Durante minha estada nas Índias, falei nessas revelações ao Sr. Sinnett, não posso dizer com exatidão em que época. Dezoito anos mais tarde, em 1877, esses satélites foram descobertos por um astrônomo, em Washington.”

Alexandre Aksakof, Animismo e Espiritismo, vol. II, FEB, p. 88-91, 3ªed., 1978.

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Olhares sobre Urano


Já em 1781 Herschel facilmente teria observado que Titânia e Oberon ( com um período orbital aproximado de 8 e 13 dias respectivamente ) apresentavam uma estranha órbita que parecia circular os polos do planeta. Isso porque na época de Herschel Urano apresentava justamente seu polo Sul para Terra e Herschel tinha visão total das órbitas dos satélites, como pode ser visto na imagem abaixo:

Urano e seus satélites visto da Terra em 1781

  • Posição de Urano em sua órbita:
    O eixo de Urano é a linha reta que o atravessa e que quase aponta para o Sol,o sentido de rotação de urano está representado por uma linha perpendicular a linha do eixo, o pequeno circulo azul próximo ao Sol é a órbita da Terra:

    Posição relativa entre o Sol, a Terra e Urano em 1781

    O que Herschel viu foi isto ( a órbita dos dois satélites esta marcada bem como o sentido de sua órbita ao redor de Urano, Oberon é o mais externo):

O que deve ter incomodado Herschel logo de cara não foi o fato de os satélites parecerem orbitar de forma horária, mas de que eles aparentemente orbitavam os polos de Urano ! Nenhum satélite do sistema solar possui uma órbita polar, todas são aproximadamente equatoriais, órbitas polares (apesar de possíveis) não são estáveis. (1)

Como a órbita de Urano praticamente coincide com a eclíptica (o que elimina a possibilidade de que tivéssemos observando um planeta pelos seus polos muito acima de nosso plano orbital) era perfeitamente possível a Herschel concluir que estivéssemos observando um planeta cujo eixo era tão inclinado que ele nos mostrava seus polos.

E isto apenas seria reforçado pela observação continua do planeta em movimento de sua órbita. O livro Animismo e Espiritismo foi lançado em 1890, Aksakof se tornou espírita por volta de 1850. Nesta época os astrônomos já havia observado Urano tempo suficiente para verificar as seguintes situações:

  • Urano no Periélio ( 1798):

    Urano e seus satélites visto da Terra em 1798

    Posição relativa entre o Sol, a Terra e Urano em 1798

  • Urano mostra seu pólo norte a Terra, os satélites parecem se movimentar no sentido anti-horário (1820):

    Urano e seus satélites visto da Terra em 1820

    Posição relativa entre o Sol, a Terra e Urano em 1820

  • Urano no Afélio (1841):

    Urano e seus satélites visto da Terra em 1841

    Posição relativa entre o Sol, a Terra e Urano em 1841

Portanto essa estranha mudança no sentido de rotação dos satélites tanto não era novidade alguma para astronomia da época quanto esclareceu que o eixo de Urano era muito inclinado fazendo com que víssemos os polos dele.

Veja que Aksakof, quando em seu livro fala da previsão como verdadeira, ele só poderia considerá-la como tal se ninguém tivesse a informação em mãos de que realmente essa mudança do ponto de vista dos movimentos orbitais dos satélites ocorria. O problema é que, àquela altura, a Ciência já tinha condições de saber que o eixo de Urano era 90% inclinado e que essa mudança de sentido de rotação ocorria. Considerando que pouco tempo após o ano do periélio de Urano (1798) já se podia notar que os satélites do planeta estavam mostrando um movimento de “ocidente para oriente” como pode ser visto abaixo (em 1800).

Urano e seus satélites visto da Terra em 1800

Como esses fatos já deveriam ser de conhecimento da comunidade astronômica quase 50 anos antes de Aksakof tornar-se espírita e ter obtido seu primeiro contato com a narrativa de George Stock (o que deve ter acontecido entre 1850 e 1890), poder-se-ia cogitar ser um daqueles casos em que “viram, mas não enxergaram”. Será que realmente TODAS as obras de astronomia antes de 1860 ignoravam este fenômeno e só por volta da virada daquele século o pessoal começou a se tocar? Há uma importante exceção: a obra do escritor inglês Robert Chambers.

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Com a Palavra, Mr. Chambers

Foto de Chambers

Robert Chambers (1802 – 1871) não foi um cientista, mas um editor de periódicos populares que pode ser visto como o antecessor dos modernos “divulgadores da ciência”. Em 1844 lançou anonimamente o best-seller Vestiges of The Natural History of Creation. Ele fez um apanhado de toda a evolução cósmica, da colisão dos planetas, passando pela geração eletroquímica da vida, até as séries de fósseis – os “vestígios” de que fala o título – e o surgimento do homem. Apesar de ainda não contar com o conceito de “seleção natural” darwiniano, expôs de forma didática as ideias de evolucionismo já existentes e despertou a ira do clero inglês por sua versão exclusivamente naturalista da criação. Apesar de vários erros explicáveis pela falta de conhecimento formal do autor, as edições que se sucederam os corrigiram. Os críticos agradeciam a Deus pelo fato de o autor ter começado em “ignorância e presunção”. Nas palavras do professor episcopal de Edimburgo – James D. Forbes-, se tivesse começado pela versão revista “ele teria sido bem mais perigoso” (3). De certa forma, Chambers preparou o terreno para Darwin, que também o lera.

Uma das críticas levantadas foi a adoção da hipótese elaborada independentemente pelo filósofo Immanuel Kant (em 1755) e pelo matemático Pierre-Simon Laplace (em 1796) para a origem do sistema solar a partir de uma nebulosa em rotação. Um ponto positivo para essa hipótese era o de explicar por que todos os planetas orbitam na mesmo sentido em torno do Sol, entretanto o mesmo era esperado para seus satélites e os de Urano constituíam uma discrepância. Para responder a essa e outras críticas, Chambers lançou em 1845 Explanations: A Sequel to the “Vestiges”, em que já trazia ideias bem avançadas na questão de Urano.

A exceção apresentada pelos satélites de Urano ao senão uniforme movimento orbital dos corpos planetários é mostrada como uma surpreendente dificuldade(*). É, na verdade, apenas uma objeção superficial, vendo que tantos outros movimentos seguem uma regra e podemos algum dia arrumar uma causa para esta exceção, perfeitamente em harmonia com todos os fatos associados. Havia dificuldade similar na geologia, com os estratos mais elevados onde se esperava que estivessem mais abaixo; mais isto foi esclarecido a tempo. Os geólogos descobriram que ocorrera um dobramento entre as camadas, de forma a inverter suas posições originais e apropriadas. Não poderíamos assentar a esperança de que uma similar exceção em astronomia possa achar solução similar?

Dei a sugestão de uma possível anomalia (2)de todo o sistema planetário: tem-se zombado disto, mas é apenas a suposição de um grau maior de obliquidade na inclinação do eixo do planeta ao plano de sua órbita do que a que encontramos em vários outros. As mesmas causas que fizeram a inclinação do eixo de Vênus para sua órbita de 75 graus podem ter virado a de Urano um pouco além, e assim invertido seus polos. A inclinação admitida do eixo de Urano para a sua órbita é de 79 graus, sendo a maior entre qualquer dos planetas. Isto implica apenas na necessidade de um aumento de 22 graus, ou cerca de um quarto de quadrante, a fim de dar razão ao suposto arranjo reverso. Nem são as causas de tais fenômenos difíceis de procurar. Na rotação da presumida massa nebular, haveria grandes ondulações, como eu arriscaria em dizer que seriam encontradas em qualquer corpo que possamos colocar em movimento rotatório. Tal eu estimo como as causas da saída de Urano de seu eixo vertical. Uma curvatura na porção mais externa, juntando com o encrespamento redobrado de uma onda de alta frequência causaria a anomalia de Urano, e a consequente (aparente) retrogressão de seus satélites.

Explanations…, pp. 21-3

(*)Edinburgh Review, No. 165, p. 24 (Nota de Chambers, cf. nota 4)

Note que o valor de inclinação de 79 graus está mais próximo do atualmente conhecido (82º ou 98º, dependendo do que se considera polo norte e sul) do que o apresentado na citação de Herschel (70º58′), sendo que este se referia aos satélites, não ao eixo exatamente. Ainda pode-se alegar por um conhecimento “acima da capacidade do médium”, porém isto é uma pretensão bem mais modesta que “Solução de Problemas Científicos pelos Espíritos“. Pergunto: seria o caso dos satélites de Marte outro exemplo de “pós-fecia”? (5)
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Os Filhos de Marte


Sobre os satélites de Marte, vale a pena mencionar o caso dos anagramas de Galileu. Por curioso que seja, a ideia de Marte Marte possuir duas luas já existia desde 1610, oriunda de um equívoco do astrônomo Johannes Kepler. Sim, o mesmo daquelas três famosas leis.

Kepler, em uma memória que ele publicou em 1610, interpretou erroneamente um anagrama criado por seu contemporâneo Galileu para anunciar secretamente uma nova descoberta aos seus correspondentes (o que também incluía os padres jesuítas do Collegio Romano).

O que Galileu havia descoberto em suas observações iniciais eram duas pequenas estruturas aparentemente conectadas de cada lado do planeta Saturno, como visto em seu desenho abaixo:

Luas de Marte em desenho de Galileu

Hoje sabemos que se tratava dos anéis de Saturno mas os primeiros equipamentos de Galileu não possuíam resolução suficiente para defini-lo como tal.

O anagrama de Galileu era:

s m a i s m r m i l m e p o e t a l e u m i b u n e n u g t t a u i r a s

a solução correta do anagrama era:

Altissimum planetam tergeminum observavi.

Que significa: “Eu observei que o planeta mais distante [Saturno] tem uma forma tripla.” Porém, Kepler interpretou de forma errada o anagrama e entendeu que:

Salue umbistineum geminatum Martia proles

seria: “Saúde, companhia gêmea, crianças de Marte.” Então assumiu que Galileu havia descoberto duas luas marcianas. Para reforçar esta ideia Kepler ainda apelou para um argumento “matemático”, ele supôs que se a Terra possuía uma lua e Júpiter quatro ( as luas descobertas por Galileu ) logo o planeta intermediário deveria possuir duas luas !

Embora o verdadeiro significado do anagrama ficou conhecido depois de meio século, o erro de tradução de Kepler perdurou. É possível que os escritor irlandês que Jonatham Swift tenha tido contato com o erro de interpretação de Kepler. Na terceira parte de famosa obra Viagens de Gulliver, quando descreve a técnica e a ciência da ilha flutuante de Laputa (6), capítulo três, é narrado:

Fizeram um catálogo com dez mil estrelas fixas, enquanto o maior dos nossos catálogos não contém mais do que um terço disso. Eles também descobriram duas estrelas menores, ou satélites, que giram ao redor de Marte, e verificaram que a mais interna fica distante do planeta exatos três diâmetros, enquanto a mais externa está a cinco diâmetros; a primeira faz seu movimento de revolução no espaço em dez horas e a segunda, em vinte e uma horas e meia. De forma que o quadrado de seus tempos periódicos está muito próximo da mesma proporção com o cubo de suas distâncias do centro de Marte; o que evidentemente mostra que são governadas pela mesma lei da gravidade que influencia os outros corpos celestes.

Curiosamente, Swift dá valores numéricos dentro da ordem de grandeza dos que seriam descobertos depois. É possível, mesmo por exercício criativo razoavelmente embasados, escritores antecederem descobertas. No século XX, por exemplo, o escritor Arthur Clark escreveu sobre uma lua que orbitava o (então considerado) planeta Plutão em seu livro “Rendezvous com Rama” (publicado em 1973), cap. 38. O satélite Caronte, por sua vez, só foi descoberto em 1978.

Ao contrário do que se popularizou, “As viagens de Gulliver” não é um livro infantil, nem Guilliver viajou apenas para Liliput (a terra das pessoas em miniatura). É um livro para adultos com críticas pesadas e sarcásticas à sociedade da época e a humanidade como um todo. Com o tempo, foi mutilado de suas passagens pesadas até virar conto da Carochinha. Na terceira parte, o autor zomba da ciência de sua época – em especial à Royal Society londrina -, que considerava tremendamente dissociada da realidade cotidiana e incapaz de fazer algo produtivo. Por exemplo: tudo em Laputa, das roupas às edificações, é feito de forma grosseira embora seus habitantes adorem as perfeições da matemática e da música. Uma crítica um tanto injusta de Swift ao não separar o caráter de longo prazo da “Ciência Básica” das questões imediatas da “Técnica Aplicada”. Seriam necessários ainda 100 anos para que a segunda fase de Revolução Industrial começasse a transformar aquelas abstrações em grandes obras de engenharia, iluminação pública e vacinas, mas os engenheiros e biólogos vitorianos nada fariam se os cientistas do iluminismo não tivessem criado antes o ferramental.
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Com a Palavra, M. Flammarion

Retrato de Camille Flammarion

Agradecimentos a Vitor Moura pela referência.

Camille Flammarion – médium, espírita de primeira hora e colaborador de Kardec – lançou em 1907 o livro Forças Psíquicas Misteriosas e ao final do segundo capítulo (pp. 50-6 da edição inglesa de 1909) analisou essa mesma alegação de Aksakof. Sua opinião, contudo, foi bem distinta:

O raciocínio do “espírito” é falso. O sistema de Urano é quase perpendicular ao plano de sua órbita. É o oposto direto dos satélites de Júpiter, que giram quase no plano de sua órbita. A inclinação do plano dos satélites com a eclíptica é que 98º e o planeta se encontra quase no plano da eclíptica. Essa é uma consideração fundamental no imagem que devemos nos fazer do aspecto desse sistema visto da Terra.

p.52

E Flammarion traçou um esquemático muito similar ao apresentado aqui para chegar a uma opinião oposta a de Chambers? Como é possível? A chave para tal diferença está mais adiante:

O erro da médium do General Drayson vem do fato de que ela alegou que o polo sul de Urano estava voltado para nós à data de sua descoberta. Então, em 1781, o sistema de Urano com relação a nós a mesma situação que em 1862, já que o tempo de sua revolução é de 82 anos. É evidente a partir da figura que, naquele momento, o planeta apresentava para nós o polo mais elevado acima da eclíptica; isto é, o polo norte.
p.53

Ou seja, o critério que ele adota para diferenciar os polos é outro! Na verdade existem dois critérios (Wikipedia, sorry) para se diferenciar o polo norte do polo sul. O primeiro foi esse apresentado por Flamarion, considerando como polo norte de um planeta o que se encontrar acima do plano da eclíptica. O segundo, considerado por Chambers, é uma espécie de “regra da mão direita”, conforme a figura abaixo:

Regra da mão direita para a inclinação do eixo planetário.

Qual sistema é melhor? São equivalentes na prática, sendo puramente arbitrária a preferência por um ou outro.

Flammarion também teceu comentários às duas luas marcianas:

Aksakof cita, no mesmo capítulo (p. 343), a descoberta de dois satélites de Marte, também feita por Drayson por meio de um médium, em 1859; ou seja, 18 anos antes da descoberta delas em 1877. Tal descoberta, não tendo sido publicada na época, permanece duvidosa. Além disso, após Kepler ter assinalado sua possibilidade, essa questão dos dois satélites de Marte foi várias vezes discutida, notoriamente por Swift e Voltaire (vide minha Astronomia Popular, p. 501). Isso, portanto, não deve ser considerado como um exemplo inegável de descoberta feita por espíritos.

p. 55

Bons tempos quando os maiores críticos do Espiritismo eram os próprios espíritas.

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Com a palavra, o Sr. Tempo


A hipótese nebular tão defendida por Chambers já estava desacreditada pelo começo do século XX. Além da questão da rotação retrógrada de Urano (e Vênus), cuja solução ad hoc não foi bem aceita, a hipótese continha uma dificuldade mais séria para explicar por que o Sol, com 99% da massa do sistema solar, possui apenas 1% do seu momento angular. Isso era o oposto do esperado, pois, ao contrair a maior parte de sua massa para o centro, o interior do disco gasoso rotativo deveria ter preservado o grosso do momento angular da nebulosa original, ou seja, a rotação do futuro Sol deveria ser mais rápida (7). Outras propostas foram feitas ao longo do século XX, cada qual com suas próprias fraquezas e pontos obscuros, até a reabilitação da hipótese nebular nos anos 70, com um nova roupagem e sugestões de como o momento angular poderia ter sido transferido para as partes mais externas de nosso sistema.

O entendimento sobre a inclinação dos eixos de rotação planetários também evoluiu, sendo melhor compreendido como efeito da interação gravitacional entre planetas suas luas e o Sol. Marte, por exemplo, sofre oscilações consideráveis em seu eixo ao sabor dos campos gravitacionais do Sol, de Júpiter e de suas duas pequenas luas, provocando comportamento aparentemente caótico. A Terra teve a bênção uma única lua próxima e relativamente grande. Sua influência prepondera sobre as do Sol e de Júpiter, além de não competir com nenhum outro satélite, sendo assim o “estabilizador” do eixo de nosso planeta. Caso ela desaparecesse num passe de mágica, a Terra começaria lentamente a sofrer grandes amplitudes na posição de seu eixo, podendo ocasionalmente chegar a “deitar” como Urano (8).

A compreensão sobre a origem dos modernos seres vivos teve um grande salto quinze anos após o lançamento de Vestiges, com a publicação conjunta da descoberta do processo de “seleção natural” das espécies pelo meio ambiente, feita por Charles Darwin e Russel Wallace. No mesmo ano, Darwin publicou A Origem das Espécies, que popularizou suas descobertas. Não que inexistissem propostas anteriores quanto à possibilidade de modificações anatômicas e fisiológicas em seres vivos ao longo do tempo, mas foram os trabalhos de Darwin e Wallace os primeiros a conseguir evidências de isso acontece e como (9). Ainda assim, sua aceitação foi uma batalha “morro acima”, tendo seus partidários de enfrentar clérigos de um lado e biólogos fixistas do outro, ambos se valendo de pontos ainda obscuros da nova teoria (10) em seus ataques. A prova do tempo deu vitória aos evolucionista, que reformularam as ideias de Darwin e Wallace à luz das descobertas de um novo campo da biologia – a genética – e agora contam com amplo testemunho fóssil das transições entre os grandes grupo taxionômicos. Continuam a haver divergências quanto aos pormenores do processo evolutivo (11) e talvez seja mais correto dizer que hoje há “teorias da evolução”, mas há consenso quanto a evolução como um fato: ela ocorre, ainda que precisemos esclarecer as minúcias desse processo.

Nosso conhecimento sobre Urano pouco avançara até meados do século XX, destacando-se a descoberta de algumas outras luas, até que em 1986 ele foi visitado pela sonda Voyager 2, que nos angariou muito do que sabemos hoje a respeito do planeta, como a relativa complexidade, ao estilo de Saturno, de um sistema de anéis que fora avistado nove anos antes, a descoberta de mais dez luas e informações sobre sua atmosfera e campo magnético. Posteriormente, observações feitas pelo telescópio espacial Hubble elevaram o total de satélites para 27. Alguns, por sinal, giram em torno do planeta no sentido direto, mas suas órbitas muito excêntricas sugerem que sejam asteroides capturados pelo campo gravitacional de Urano. Até agora nenhuma outra missão não tripulada foi enviada ao planeta.

Robert Chambers foi praticamente esquecido pelo grande público, sendo agora só encontrado em literatura sobre a Ciência da época vitoriana, mais como um amador que preparou o terreno para Darwin. Entretanto o tempo lhe fez jus e, ainda que muitas de suas premissas estivessem erradas, ele sorriu por último.

Quanto ao episódio contado por Aksakof, não foi dessa vez…
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Notas

(1) Primeiro porque os planetas, luas e outros grandes corpos do sistema solar se formaram dentro de um “plano” que correspondia ao plano do Disco Planetário, a famosa eclíptica, e tendem a manter sua posição devido a conservação de momento Angular. O segundo ponto é que as órbitas polares exigem maior energia para serem mantidas já que a maior massa de um corpo celeste esferoide está localizado em sua região equatorial , assim o centro de massa está deslocado preferencialmente acompanhando a região equatorial do planeta. No Universo, os sistemas tendem a estabilidade nos estados de menor energia. Apenas satélites artificiais são conhecidos por manterem órbitas polares já que é possível recorrer a correções em sua órbita de tempos em tempos conforme perdem energia.

(2) Chambers usa a palavra francesa bouleversement: ruína e confusão; desordem, transtorno.

(3) Para mais informações sobre as repercussões da obra de Chambers, cf. [Adrian & Jamres, cap. XXI].

(4) Provavelmente, cometeu um engano na edição do texto. O artigo a que se referiu deveria ser o da edição nº 24 de Edinburgh Review, iniciando-se na página 164. Sua autoria é de Sir John Herschel, filho do descobridor de Urano.

(5) Embora engenhosa, a proposta de Chambers não foi bem aceita de imediato. Em uma crítica a Explanations publicada em The North British Review, Volume 4, nº VIII, 1845, pp 487-506, lê-se:

Sem dar atenção à realmente ridícula explicação que nosso autor persiste em dar ao movimento retrógrado dos satélites de Urano, vamos agora discutir a importantíssima questão da existência de animais vertebrados – de peixes nos mais antigos estratos fossilíferos (…)
p. 497

O que não chega nem de longe a ser uma refutação.

(6)Dado que Jonatham Swift conhecia o idioma espanhol, o nome da ilha flutuante pode significar exatamente isso que você está pensando.

(7)O momento angular funciona quase igual ao momento linear. Se um objeto está girando em torno de um eixo, diz-se que possui alguma quantidade de momento angular, que é baseado em seu momento de inércia (I) e sua velocidade angular (ω), de modo similar à massa e à velocidade linear para o momento linear.

O momento angular (L) é definido por:

L = Iω

E a conservação do momento angular, na ausência de forças externas, é matematicamente expressa por:

L = I1ω1 = I2ω2

Ou seja, um aumento no momento de inércia de um corpo (i.e., o grau de dificuldade em alterar sua rotação) será compensado por uma redução na velocidade angular e vice-versa.

Bailarinos, patinadores e dançarinos se valem empiricamente da conservação do momento angular de um sistema que, no caso, são seus próprios corpos. Ao realizarem uma pirueta, podem controlar a velocidade de rotação estendendo ou contraindo os membros.

patinadora no gelo

(8) Cf. [Ward & Brownlee], cap. X, pp. 248-51.

(9) Darwin abre A Origem das Espécies com uma explanação sobre o processo de “seleção artificial” induzido pelo homem nos diversos animais e vegetais domesticados por ele, por meio de cruzamentos entre espécimes selecionados. A indagação que adveio disso era: “seria possível a Natureza fazer um tipo de ‘seleção’ por conta própria?” A chave para questão foi o estudo dele sobre os pássaros tentilhões das Galápagos, no oceano Pacífico, por onde passou como naturalista de uma expedição científica. Darwin observou que o padrão dos bicos das diversas populações daqueles pássaros variava conforme o habitat que residiam e o tipo de alimentação que ele poderia fornecer. Cogitou que deveria ter existido um tipo original de tentilhão que se espalhou pelos diversos ambientes. Em cada local, essas novas populações foram submetidas a um tipo de “pressão seletiva” diferente (uma seca por exemplo), que fez vingar apenas os tentilhões cujo o bico fosse mais adequado para capturas os alimentos disponíveis (insetos, sementes, etc.). Com o tempo, os indivíduos sobreviventes de cada nicho passaram a se reproduzir exclusivamente entre si, constituindo espécies distintas. De uma tacada só, estavam elaborados os conceitos de “seleção natural”, “irradiação adaptativa” e “isolamento geográfico”, tendo Wallace chegado a conclusões semelhantes em suas pesquisas sobre a fauna da Malásia e da Indonésia.

Imagem de alguns tentilhões

Algumas espécies de tentilhões de Galápagos

(10) Basicamente eram duas as dificuldades que primeiros darwinistas tiveram de lidar. A primeira era saber quanto tempo um punhado de seres vivos originais demoraria para se diversificar nas diversas espécies que hoje conhecemos. Isso era nevrálgico pois, por aquela época, começaram as tentativas de datação da idade da Terra e os valores estimados com base na velocidade de resfriamento das rochas sugeriam cerca de 100 milhões anos, total posteriormente revisto apenas 20 milhões. Era muito pouco. A segunda dificuldade era explicar como as novas variedades em uma espécies surgiriam. Para desatar esses dois nós, Darwin retomou, a partir da quinta edição de A Origem…, as antigas leis do “uso e do desuso” e “herança de caracteres adquiridos” propostas por Lamarck no começo do século XIX, a fim de possibilitar um surgimento rápido de novas variedades. Caberia à seleção natural determinar quais delas vingariam.

A solução real para essas fraquezas só viria no século XX, quando se descobriu que a desintegração de isótopos radioativos contribuía para manter o planeta aquecido e a idade da Terra foi recalculada para 4,5 bilhões de anos. Os resquícios de lamarckismo foram abandonados com a (re)descoberta dos genes e das mutações genéticas.

(11) O próprio Darwin percebeu que a “seleção natural” poderia não ser suficiente para explicar certas estruturas anatômicas particulares, por exemplo, por que os pavões machos desenvolveram uma cauda vistosa que lhes é um verdadeiro fardo? Propôs então a existência de uma “seleção sexual” por parte de ao menos um dos gêneros como grande responsável pelo dimorfismo sexual encontrado entre diversas espécies de animais complexos. Ela, ainda assim, presta contas com a “seleção natural”: a partir de algum limite o tamanho da cauda do pavão o tornaria presa fácil.

Por falar em “presa”, continua-se discutindo se o verdadeiro “motor” por trás da seleção natural é a competição de um ser vivo contra outro, entre os seres vivos e o meio ambiente ou, num reducionismo extremo, tudo não passa de uma tentativa dos genes para se perpetuarem (O Gene Egoísta, de Richard Dawkins). O ritmo em que as mudanças ocorrem também é algo em debate tendo os neodarwinistas de um lado – defendendo mudanças graduais e contínuas – e do outro os adeptos do “equilíbrio pontuado” – alegando que espécies permanecem estáveis por longo períodos, seguidos por uma relativamente rápida mudança (em termos geológicos).

Em suma, a Teoria da Evolução “evoluiu” e continuar a se refinar conforme novos fatos surgem. Do contrário, caso se engessasse, o evolucionismo seria uma religião, como o criacionismo bíblico ou a ortodoxia espírita.

[topo]

Para saber mais

– Chambers, Robert; Explanations: A Sequel to the “Vestiges” , scan da segunda edição (1846) no Google Books.

– Desmond, Adrian & Jamres, Moore; Darwin: a vida de um evolucionista atormentado, Geração editorial, 3ª ed.

– Lynch, John M.; “Vestiges” and the Debate Before Darwin – Volume 1, Thoemmes Press, 2000

Robert Chambers – pequena biografia feita pelo University of California Museum of Paleontology.

– Ward, Peter D. & Brownlee, Donald; Sós no Universo?, Campus, 2000.

Vitalismo, Princípio Vital e Alma

3 de maio de 2013 3 comentários

Feijão brotando

Índice

* * *

Na Codificação

De O Livro dos Espíritos:

60. É a mesma a força que une os elementos da matéria nos corpos orgânicos e nos inorgânicos?

“Sim, a lei de atração é a mesma para todos.”

61. Há diferença entre a matéria dos corpos orgânicos e a dos inorgânicos?

“A matéria é sempre a mesma, porém nos corpos orgânicos está animalizada.”

62. Qual a causa da animalização da matéria?

“Sua união com o princípio vital.”

63. O princípio vital reside nalgum agente particular, ou é simplesmente uma propriedade da matéria organizada? Numa palavra, é efeito, ou causa?

“Uma e outra coisa. A vida é um efeito devido à ação de um agente sobre a matéria. Esse agente, sem a matéria, não é vida, do mesmo modo que a matéria não pode viver sem esse agente. Ele dá a vida a todos os seres que o absorvem e assimilam.”

64. Vimos que o Espírito e a matéria são dois elementos constitutivos do Universo. O princípio vital será um terceiro?

“É, sem dúvida, um dos elementos necessários à constituição do Universo, mas que também tem sua origem na matéria universal modificada. É, para vós, um elemento, como o oxigênio e o hidrogênio, que, entretanto, não são elementos primitivos, pois que tudo isso deriva de um só princípio.”

a) – Parece resultar daí que a vitalidade não tem seu princípio num agente primitivo distinto e sim numa propriedade especial da matéria universal, devida a certas modificações.

“Isto é consequência do que dissemos.”

65. O princípio vital reside em alguns dos corpos que conhecemos?

“Ele tem por fonte o fluido universal. É o que chamais fluido magnético, ou fluido elétrico animalizado. É o intermediário, o elo existente entre o Espírito e a matéria.”

66. O princípio vital é um só para todos os seres orgânicos?

“Sim, modificado segundo as espécies. É ele que lhes dá movimento e atividade e os distingue da matéria inerte, porquanto o movimento da matéria não é a vida. Esse movimento ela o recebe, não o dá.”

67. A vitalidade é atributo permanente do agente vital, ou se desenvolve tão-só pelo funcionamento dos órgãos?

“Ela não se desenvolve senão com o corpo. Não dissemos que esse agente sem a matéria não é a vida? A união dos dois é necessária para produzir a vida.”

a) – Poder-se-á dizer que a vitalidade se acha em estado latente, quando o agente vital não está unido ao corpo?

“Sim, é isso.”

O conjunto dos órgãos constitui uma espécie de mecanismo que recebe impulsão da atividade íntima ou princípio vital que entre eles existe. Ao mesmo tempo que o agente vital dá impulsão aos órgãos, a ação destes entretém e desenvolve a atividade daquele agente, quase como sucede com o atrito, que desenvolve o calor.

A Gênese, cap X:

Princípio vital

16. – Dizendo que as plantas e os animais são formados dos mesmos princípios constituintes dos minerais, falamos em sentido exclusivamente material, pois que aqui apenas do corpo se trata. Sem falar do princípio inteligente, que é questão à parte, há, na matéria orgânica, um princípio especial, inapreensível e que ainda não pode ser definido: o princípio vital. Ativo no ser vivente, esse princípio se acha extinto no ser morto; mas, nem por isso deixa de dar à substância propriedades que a distinguem das substâncias inorgânicas. A Química, que decompõe e recompõe a maior parte dos corpos inorgânicos, também conseguiu decompor os corpos orgânicos, porém jamais chegou a reconstituir, sequer, uma folha morta, prova evidente de que há nestes últimos o que quer que seja, inexistente nos outros.

17. – Será o princípio vital alguma coisa particular, que tenha existência própria? Ou, integrado no sistema da unidade do elemento gerador, apenas será um estado especial, uma das modificações do fluído cósmico, pela qual este se torne princípio de vida, como se torna luz, fogo, calor, eletricidade? É neste último sentido que as comunicações acima reproduzidas resolvem a questão. (Cap. VI, Uranografia geral.) Seja, porém, qual for a opinião que se tenha sobre a natureza do princípio vital, o certo é que ele existe, pois que se lhe apreciam os efeitos. Pode-se, portanto, logicamente, admitir que, ao se formarem, os seres orgânicos assimilaram o princípio vital, por ser necessário à destinação deles; ou, se o preferirem, que esse princípio se desenvolveu em cada indivíduo, por efeito mesmo da combinação dos elementos, tal como se desenvolvem, dadas certas circunstâncias, o calor, a luz e a eletricidade.

18. – Combinando-se sem o princípio vital, o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono unicamente teriam formado um mineral ou corpo inorgânico; o princípio vital, modificando a constituição molecular desse corpo, dá-lhe propriedades especiais. Em lugar de uma molécula mineral, tem-se uma molécula de matéria orgânica. A atividade do princípio vital é alimentada durante a vida pela ação do funcionamento dos órgãos, do mesmo modo que o calor, pelo movimento de rotação de uma roda. Cessada aquela ação, por motivo da morte, o princípio vital se extingue, como o calor, quando a roda deixa de girar. Mas, o efeito produzido por esse princípio sobre o estado molecular do corpo subsiste,mesmo depois dele extinto, como a carbonização da madeira subsiste à extinção do calor. Na análise dos corpos orgânicos, a Química encontra os elementos que os constituem: oxigênio, hidrogênio, azoto e carbono; mas, não pode reconstituir aqueles corpos, porque, já não existindo a causa, não lhe é possível reproduzir o efeito, ao passo que possível lhe é reconstituir uma pedra.

19. – Tomamos para termo de comparação o calor que se desenvolve pelo movimento de uma roda, por ser um efeito vulgar, que todo mundo conhece, e mais fácil de compreender-se. Mais exato, no entanto, houvéramos sido, dizendo que, na combinação dos elementos para formarem os corpos orgânicos, desenvolve-se eletricidade. Os corpos orgânicos seriam, então, verdadeiras pilhas elétricas, que funcionam enquanto os elementos dessas pilhas se acham em condições de produzir eletricidade: é a vida; que deixam de funcionar, quando tais condições desaparecem: é a morte. Segundo essa maneira de ver, o princípio vital não seria mais do que uma espécie particular de eletricidade, denominada eletricidade animal, que durante a vida se desprende pela ação dos órgãos e cuja produção cessa, quando da morte, por se extinguir tal ação.

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O Conceito e sua Origem

Os três conceitos que dão nome a este artigo andam muitas das vezes juntos a ponto de ser muitas vezes serem confundidos, tidos por sinônimos, etc. O uso e o significado deles variaram no tempo e foram sujeitos a interpretações diferentes dadas por diversos autores de uma dada era.

O fio da meada é dado, basicamente, pela doutrina do vitalismo, a hipótese de que a vida e seus fenômenos não poderiam ser explicados pelas mesmas leis físicas e químicas que regem a matéria bruta. Haveria um “algo mais” externo aos seres vivos que lhes daria suas funções vitais, ou um princípio interno residente em alguma propriedade ou organização particular da matéria orgânica.

Já na Grécia antiga, os filósofos se indagavam sobre “o que é a vida?” sem ter que apelar para mitos da criação. Uma resposta cuja influência perdurou até os tempos modernos foi a Aristóteles. Em Metafísica, ele estabeleceu a diferença entre dynamis e entelechia. A primeira significaria a matéria propensa a ser formada, a segunda seria o principio modelador que daria atuaria sobre o primeiro. Em seu tratado “Sobre a alma”, Aristóteles desenvolve esta ideia com relação ao ser humano. Alma seria o primeiro entelechia do corpo natural, que seria vivente por meio de dynamis. Este princípio da vida foi divido em três: a alma vegetativa e de nutrição (psyche threptike), a animal e de percepção (psyche aisthetike) e a humana e da razão (psyche noetike).
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Versões Modernas

Retrato de Ernst Stahl

Georg Ernst Stahl.

Agora um salto no tempo. No século XVII teve o início do desenvolvimento das primeiras doutrinas mecanicistas da natureza, notadamente representada por Descartes, Boyle e Boerhaave. Não que eles negassem a existência de uma alma nos seres vivos, mas estabeleciam uma distinção profunda entre ela e corpo, que permitiria o estudo deste através da análise de suas partes. A primeira “encarnação” do vitalismo moderno veio como uma reação ao modelo cartesiano. Georg Ernst Stahl (1660 – 1734) fez uma das primeiras críticas ao mecanicismo com um sistema que misturava filosofia natural com fé. Em suas próprias palavras:

Todo o movimento do corpo humano segue a um determinado propósito. Todos os processos vitais, animalísticos e racionais causados pela mais perfeita harmonia e sua indecifrável conexão com uma força especial. Acertadamente se conclui que ela é a alma, que produz todos esses movimentos (processos) diretamente. Eles podem ser bem ordenados ou não, ter características vitais ou animalistas, preservar o corpo ou destruí-lo, ser corretamente guiadas ou não.

Fonte: [Stollberg, p.3]

Uma concepção que lembra um pouco a alma aristotélica, apesar de sua visão ser cristã. Para Stahl, ser humano e alma se equivaleriam. A alma lhe dá a vida, é vida me si mesma e é responsável por toda a atividade viva do corpo. A matéria corporal é distinta daquela pertencente ao ambiente, sendo que os seres vivos transformam o alimento que adquirem (inclusive de outros viventes) numa matéria própria a sua natureza. Tudo presidido pela alma. Além disto, substâncias orgânicas diferem das inorgânicas de maneira que apenas as últimas podem ser reconstituídas a forma original após alguma manipulação química. Uma separada da organização do corpo, uma amostra orgânica está fadada a destruição e se decompõe irreversivelmente. O episódio da morte seria um exemplo claro disto.

O “princípio vital” foi desenvolvido como um meio termo entre o mecanicismo e vitalismo radical de Stahl. Diversas versões dele foram especuladas ao longo do século XVIII. Três importantes exemplos seriam:

  • Friedrich Casimir Medicus (1736 – 1808): primeiro a usar o termo “força vital”. A alma não seria responsável por todos os movimentos como advogava Stahl e Aristóteles, tendo sido reduzida apenas a seus efeitos espirituais de pensamentos e vontade, sendo a “força vital” a responsável pelas ações inconscientes sobre o corpo.
  • Johann Christian Reil (1758 – 1813): estabeleceu um vitalismo “de baixo para cima”. A força vital emergiria da especial organização da matéria viva.
  • Samuel Hahnemann (1755 – 1843): o pai da homeopatia deu uma visão mais espiritualizada da força vital, em oposição a Reil, e sem tentar conciliar mecanicismo com vitalismo, como Medicus.

As diversas concepções do princípio ou força vital foram bem mais complexas que isto, com diversos outros personagens e extrapolam o interesse aqui. Deixo, ao fim, um bibliografia a quem se interessar pela ciência desse período. O mostrado até agora trata mais do vitalismo voltado à explicação da fisiologia dos seres vivos. O aspecto químico dessa corrente se desenvolveu no princípio do século XIX.

O químico sueco Jöns Berzelius – um dos mais renomados de sua época – foi um dos primeiros a estudar o fenômeno da eletrólise. Seus estudos com soluções de diversos compostos sob a passagem de uma corrente elétrica resultavam na quebra da substância em unidades menos, sendo uma parte atraída pelo anodo (terminal positivo) e outra pelo catodo (terminal negativo). Estimulado por diversos resultados similares, Berzelius achou ter descoberto a chave a reação química em uma teoria mais ampla: todos os compostos eram duais, consistindo em um elemento positivo e outro negativo, mantidos juntos pelas cargas elétricas opostas.

Infelizmente, nem tudo na natureza é simples assim, e casos anômalos volta e meia aparecem. Ao fim da segunda década do século XIX, certos compostos desafiavam o dualismo de Berzelius pela aparente falta de uma natureza positiva/ negativa. Tal era a situação dos compostos orgânicos. Longe de abandonar sua própria teoria, Berzelius utilizou o conceito já existente de “força vital” como resposta ad hoc ao problema: o compostos orgânicos, por serem vivos, estariam sujeitos a tal forças, que operaria sobre as leis da química orgânica. O que remete a idéia contida na questão 63 de O Livro dos Espíritos, quando Kardec fala sobre a “matéria organizada”, i.e., a orgânica.
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Primeiras Rachaduras.

Pelo menos até pouco tempo era possível ver livros didáticos, ao fazerem uma breve introdução à química orgânica, relatarem que Friedrich Wöhler, ironicamente discípulo de Berzelius, teria derrubado a tese vitalista com sua famosa síntese da ureia a partir do cianato de amônia, em 1828. Por mais difundido que seja, modernamente isso tem sido apontado como um mito cujas origens remontam uma série de livros publicados entre 1843-47 por um entusiasta antivitalista (Hermann Kopp, Geschichte der Chemie – “A História da Química”), que serviu de base para escritores posteriores. Não que a experiência tenha sido uma fraude, muito pelo contrário, ela ocorreu sim; porém ela não chegou a ser uma “refutação” do vitalismo como um todo (que possuía diversas variantes), mas um primeiro arranhão na vertente de nível molecular dele. Muitos ainda poderiam duvidar (e duvidaram) que a ureia fosse uma realmente substância orgânica, sendo na verdade apenas um resíduo; ou o cianato de amônia poderia ser uma substância orgânica. Sem falar na relativa simplicidade dessa molécula quando comparada com outros compostos orgânicos.

Selo de homenagem a Wöhlmer

Selo postal alemão em memória ao centenário do falecimento Friedrich Wöhler. Em destaque, esquemático da molécula da ureia.

Mito ou não, a possibilidade de síntese artificial de substâncias tidas como exclusivas de seres vivos estimulou o recrudescimento de um movimento antivitalista da década de 1850, que teve Hermann Kolbe (que sintetizou o ácido acético em 1845) e Marcelin Berthelot (acetileno, 1862) como principais protagonistas na busca por processos artificiais. Foi um período de grande avanço no conhecimento de compostos orgânicos, que saltaram de 720 em 1844 para 10.700 substâncias conhecidas (sintéticas ou não) em 1870! Apesar de todo o êxito, o esforço ainda não foi suficiente para refutar de vez o vitalismo químico, cujos defensores utilizaram a falta de síntese para compostos assimétricos como defesa da necessidade de uma “força vital”, pelo menos até o começo do século XX.

No campo da fisiologia, o vitalismo começou a enfrentar oposição mais séria também em meados dos século XIX. O fisiologista e físico Hermann Helmholtz chegou ao princípio da conservação da energia pela observação de que os processos vitais a retiravam toda da oxidação dos alimentos e que o calor animal e a atividade muscular era gerada por mudanças químicas dentro destes. Junto a outros nomes como Emil du Bois-Reymond, Ernst Brücke e Karl Ludwig, fez-se um coro de uma geração de fisiologistas que se opunham a explicações baseadas na força vital. Nas palavras de Bois-Reymond, ela não dava nenhuma explicação e era

Apenas um lugar confortável de descanso … onde a razão encontra paz na almofada das qualidades obscuras… Se alguém observar o desenvolvimento de nossa ciência, não falhará em notar que a força vital a cada dia se reduz a uma gama mais confirmada de fenômenos, como novas áreas estão crescendo trazidas para o domínio de forças físicas e químicas … É certo que a fisiologia, abandonando seus interesses particulares, será um dia absorvida numa grande unidade das ciências físicas; [a fisiologia] será de fato dissolvida em física e químicas orgânica.”

Fonte: [Friedmann, p. 98] (nota 1).

Trocando miúdos: a força vital era apenas uma máscara para a ignorância sobre o funcionamento da matéria viva, além de ter feito uma antevisão da ainda distante bioquímica.

Estas oposições não representaram a extinção do vitalismo em si, mas levaram a uma reavaliação de seu alcance. Por volta de 1860 começou a ocorrer um retorno às ideias de Reil. Emergiu um “neo” vitalismo que não se chocava diretamente com as visões mecanicistas. As propriedades especiais da matéria viva não emergiriam de uma causa externa, seriam fruto de uma organização especial da mesma; aproximadamente como está expresso em A Gênese X, 17. Theodor Schwann, criador da moderna teoria celular, retirou a visão holística do vitalismo de organismo inteiro para a célula. Esta, como unidade viva, seria a responsável pela emergência da vida na totalidade do ser. A diferença entre o orgânico e o inorgânico estaria na estruturação de suas partes:

Um corpo organizado não é produzido por um poder guiado em suas operações por uma ideia, mas é desenvolvido, de acordo com as leis cegas da necessidade, por poderes que, como aqueles da natureza inorgânica, são estabelecidos pela própria existência da matéria.

Fonte: [Schwann].

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Fim e Legado

A síntese de compostos orgânicos prosseguiu ao longo da segunda metade do século XIX e confinou o vitalismo à célula viva, sem eliminá-lo. A reprodução de material biológico da maneira como eles eram feitos em seres vivos não recebeu a mesma atenção. Somente setenta anos após a síntese da ureia de Wöhler, o químico Eduard Buchner fez o primeiro passo na reprodução in vitro de processos celulares, conseguindo a fermentação alcoólica a partir das enzimas de levedos. Foi laureado com o Nobel em 1907 por esta descoberta. Mal comparando, Buchner está para a bioquímica, assim como Wöhler, ainda que involuntariamente, está para a química orgânica. Essa se tornou algo como “a ciência do carbono”, tendo um sem número de substâncias que jamais pertenceram a um ser vivo. A primeira é que herdou a tarefa de destrinchar o funcionamento da vida, algo bem mais difícil e cujos desafios foram responsáveis por seu desenvolvimento mais lento. Só em 1932, mais de um século após a experiência de Wöhler, foi explicada a formação da ureia nos tecidos, e em 1953 a molécula do DNA teve sua forma desvendada, sendo o código que ela contém para a fabricação de proteínas decifrado em 1961.

No balanço geral, pode-se dizer que a codificação toma partido de uma das correntes científicas da época. Não tem o atraso de uma geração que certos críticos fazem ao situar a crise do vitalismo em 1828 (experiência de Wöhler), porém sua opinião já não era tão consensual como muitos seguidores gostariam de crer. De fato, o período da codificação foi concomitante com um programa de pesquisa que, ao menos, colocou em xeque a vertente química do vitalismo. Talvez seja possível, em defesa de Kardec, alegar desconhecimento das pesquisas de ponta contemporâneas a ele. Contudo, mudanças nos conceitos do vitalismo fisiológico e noções de evolução biológica – essa ausente em O Livro dos Espíritos – estão presentes na Gênese, sinal de que ele estava relativamente “antenado” com os acontecimentos científicos. Uma referência às então recentes sínteses de substâncias orgânica seria cabível, ainda que ele pudesse alegar a falta de compostos assimétricos ou que esses processo in vitro eram por demais diferentes dos in vivo.

Pode-se cogitar que ele considerasse os progressos de então tímidos quando comparados com a vastidão do que ainda falta por descobrir, um entusiasmo de materialistas que não era digno de nota. Se bem que neste caso o mecanicismo venceu, mostrando que nem todo fenômeno sem explicação calcada em leis conhecidas nunca terá um dia. Bem, talvez a última palavra não tenha sido dada ainda. Variantes de inteligent design e neolamarckismo não deixam, de certa forma, de serem encarnações recentes do vitalismo, evidenciando a existência de discussões nessa área. Só que bem diferente daquelas no século XIX.

A história do vitalismo nos traz mais para pensar. Ao lado do flogístico e do éter luminífero, ele foi um dos conceitos mais caros à ciência que depois foi descartado. Os dois primeiros tiveram uma defesa ferrenha feitas ao custo de ad hocs cada vez mais apelativos quantos às suas propriedades. O vitalismo, por sua vez, teve uma escola que se opôs sistematicamente a ele. Seus alicerces não sofreram nenhum golpe mortal, foram roídos pelas bordas, através do esvaziamento de suas funções. Nenhum desses princípios foi detectado diretamente alguma vez. Surgiram como artifícios úteis para tapar lacunas dos conhecimentos de suas épocas.

Será que todos os “fantasmas” do passado científico hoje soam como imaginação pueril? Não. Há uma exceção importante: o átomo. Até o começo do século XX, havia cientistas que não consideravam os átomos como entidades reais, mas como se fosse outro artifício usado para dar sentido às leis químicas(3). Só em 1905, um artigo de Albert Einstein sobre o movimento browniano(3) mostrou a primeira evidência indireta que eles são “concretos”.

Vale lembrar que há teorias muito em voga hoje em dia, tais como supercordas, a memética e, por que não, algumas propriedades atribuídas à alma consciência; que dão explicações fantásticas em seus campos de atuação, só que elas ainda são tão passíveis de comprovação quanto o átomo vitoriano. É possível que virem novos paradigmas ou entrem naquele gigantesco cemitério que chamamos de “Ciência”. Isso apenas o tempo dirá.
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Notas

(1) Segundo o autor, extraído de Trusted, Jennifer; Beliefs and Biology, Theories of Life and Living, Macmillan, 1996, pp. 118, 151.

(2) Duas leis químicas serviram de base para a teoria atômica de Dalton (1766 — 1844):

  • Conservação da matéria (ou Lei de Lavoisier): a massa de um composto é a soma das massas de seus elementos;
  • Proporções definidas (ou Lei de Proust): um composto é formado pela união de átomos em proporções determinadas. Consequentemente, a proporção, em peso, dos dois elementos é sempre a mesma em qualquer amostra do composto.

Conceber a existência de uma unidade indivisível e indestrutível da matéria – o átomo – seria forma de explicar ambas de de uma só vez. O problema é que a Lei de Proust nem sempre é válida. Por exemplo, água e álcool são solúveis um no outro em qualquer proporção. Anomalias como essa e a falta de uma comprovação empírica levaram alguns cientistas de calibre, como Ernst Mach, a rejeitá-la.

(3)Nem só de Relatividade vive um gênio. Mil novecentos e cinco foi, digamos, seu annus mirabilis quando publicou três notórios artigos: um que definia as equações da “relatividade restrita” (embora não usasse esse nome), esse sobre o movimento browniano, e mais um sobre fotoeletricidade. Curiosamente, Einstein recebeu o Nobel de Física de 1921 por esse último e não pelo o que deixaria mais famoso. A Teoria da Relatividade ainda era muito polêmica e, talvez, a Academia Sueca tenha preferido não arriscar premiar uma teoria ainda não consolidada. Mas o prêmio não deixou de ser bem merecido, pois Einstein propusera a existência uma partícula para a energia eletromagnética – o fóton – que foi de fundamental importância no desenvolvimento da Mecânica Quântica.

Para saber mais

– Friedmann, Herbert; From Wöhler’s urine to Buchner’s alcohol, acessado em 30/04/2013.

Hermann Helmholtz, acessado em 30/04/2013.

– Prestes, Maria Elice Brzezinski; Teoria celular: de Hooke a Schwann, Ed. Scipione

– Schwann, Theodor; Microscopical Researches into the Accordance in the Structure and Growth of Animals and Plants, acessado em 02/05/2013.

– Schummer, Joachim; The notion of nature in chemistry,acessado em 30/04/2013.

– Stolberg, Gunnar; Vitalism and vital force in life sciences – The demise and life of a scientific conception, acessado em 30/04/2013.

– Strathern, Paul; O sonho de Mendeleiev – A verdadeira história da química, Jorge Zahar Editor