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Misquoting Origens: Elizabeth Clare Prophet

19 de janeiro de 2012 Deixe um comentário Go to comments

“Estatísticas são como biquínis: mostram o que é sugestivo, mas escondem o que é vital”

(anônimo)

A jornalista e escritora de ficção Elizabeth Clare Prophet produziu um livro muito falado de nome Reencarnação: o elo perdido do cristianismo. Devo admitir que quando comparado com as limitações hitoriográficas das obras de Severino Celestino da Silva, José Reis Chaves e José Carlos Leal, esta obra é em muito superior. As querelas origenistas são descritas com uma quantidade maior de pormenores, ao contrário da simplificação exagerada feita pelos demais (ainda que a imparcialidade…), e não cai na tentação fácil de explicar tudo numa teoria conspiratória centrada na figura da imperatriz Teodora. Também devo comentar que Prophet fez a gentileza de colocar muitas vezes referências diretas às obras de Orígenes, o que facilita muito o trabalho de revisão e crítica, embora ainda se valha demais de citações não verificadas. O que mais chama atenção, porém, não é exatamente o que ela diz (também o é), e sim o que ela deixa de dizer. Procedamos a uma análise do capítulo XVI do livro (“Os Diferentes Destinos dos Gêmeos”).

Os rabinos chegaram a uma conclusão incomum. Como as escrituras diziam que os destinos dos gêmeos [Esaú e Jacó] eram diferentes desde o nascimento, e uma vez que Deus era justo, acharam que a única resposta possível era que Esaú havia pecado enquanto estava no ventre de sua mãe. Por mais estranho que pareça, é exatamente esta especulação que encontramos num comentário do Gêneses escrito por volta de 400 a.C.. Os rabinos conjeturavam que, quando Rebeca passava por “casas de idolatria”, Esaú indicava a sua preferência dando pontapés, mas “quando ela passava por sinagogas e casas de estudo, era Jacó quem dava pontapés, tentando sair”(4). Por estas ações os rabinos concluíram que Deus preferia Jacó e sua semente a Esaú e sua semente, por gerações.

Pouco depois disso, Prophet compara a explicação acima com a proposta de pré-existência dos gêmeos dada por Orígenes, em De Pricipiis, livro II, cap. IX, com esta contida no comentário rabínico Genesis Rabbah 63.6.3. Este, conforme ela explica em sua nota (4) para este capítulo ao fim do livro, foi retirado de um livro do escritor judeu Jacob Neusner. Bom, como estamos falando de citações de citações surge uma questão a respeito da datação de Gêneses Rabbah. Tenho outro livro desse mesmo autor ( Introdução ao Judaísmo, ed. Imago ) cujo glossário traz a datação para Genesis Rabbah para 450 E.C. (Era Comum, isto é, d.C), portanto quando Prophet situa o livro em 400 a.C. devo indagar se o correto não seria 400 d.C. De fato, há um erro aí, mas não da autora e sim da tradução da edição brasileira. Consultando o original em inglês, encontra-se:

Edição em língua inglesa de Prophet

A expressão usada é “A.D. 400” (Anno Domini 400), que significa literalmente “400º ano do Senhor“, ou, em bom português, “ano 400 depois de Cristo“. Por algum motivo, confundiram a sigla A.D., comum entre os anglófonos, com o nosso tradicional a.C. Esse lapso não é tão inofensivo assim, pois, ao datar Genesis Rabbah 400 anos antes de Cristo, haveria tempo para sua proposta para o caso de Esaú e Jacó ter sido substituída por uma doutrina reencarnacionista que, supostamente, teria se difundido no seio do judaísmo intertestamentário. Com a datação correta, fica menos provável que a reencarnação já fosse moeda corrente no mainstream do judaísmo ao tempo de Jesus. Isso tem um efeito grande na interpretação de passagens como O “cego de nascença” (Jo 9:2), pois mostra que a crença em pecados pré-natais já podia estar presente no período intertestamentário; aliás, essa é a tese defendida por John Lightfoot em seu comentário de João. A quanto engano autores espiritualistas brasileiros (e demais lusófonos) podem ter sido induzidos por essa falha de tradução!

Continuando:

– Orígenes conhecia bem as tradições judaicas sobre a reencarnação e a divinização e, às vezes, parecia fazer eco à palavras de Filon, que escreveu sobre a reencarnação. Orígenes acreditava que os judeus ensinavam a reencarnação. (15)

Vejamos como Prophet desenvolve a questão em sua nota (15):

(…)Orígenes pode ter tido algo a acrescentar sobre a questão de se os judeus acreditavam ou não em reencarnação. Em seu comentário sobre as passagens de João/Elias em seu Comentário sobre João, ele afirma que a pergunta a João: “És tu Elias?” que eles acreditavam na metensomatose [transmigração], como uma doutrina herdada de seus ancestrais e que, por isso, não se chocava com o ensinamento secreto de seus mestres. Ele afirma também que uma tradição judaica diz que Fineias, filho de Eleazar, “foi Elias”. Talvez Orígenes tenha tido acesso a ensinamentos secretos judaicos além dos evangelhos. O Comentário de João 6.7, citado por Jean Daniélou em “Gospel Message and Hellenistic Cuture” (A Mensagem do Evangelho e a Cultura Helenica), trad. John Austin Baker, vol. 2 de “A History of Early Christian Doctrine before the Coucil of Nicaea” (A História da Doutrina do Cristianismo Primitivo antes do Concílio de Niceia) (Londres: Darton, Longman and Todd, 1973), pp. 493-494.

Bem, vejamos excertos maiores do capítulo VII do sexto livro de Comentários de João, edição de Ante-Nicene Fathers, a mesma de usada por ela:


Nosso primeiro erudito, cuja visão da transcorporação vimos ser baseada em nossa passagem, pode prosseguir com um exame mais detalhado do texto e argumentar contra seu antagonista que se João foi o filho de um homem como o sacerdote Zacarias e se nasceu quando seu pais já eram ambos idosos, contrariando todas as expectativas humanas, não é provável que tanto judeus em Jerusalém o desconhecessem, ou os sacerdotes e levitas por eles enviados não estariam a par dos fatos de seu nascimento. Não declara Lucas que “o temor veio sobre todos os que viviam por perto” (Lc 1:65), – claramente nas proximidades ao redor de Zacarias e Isabel – e que “todas essas coisas foram divulgadas por toda terra montanhosa da Judeia“?
E se o nascimento de João a partir de Zacarias foi matéria de comum conhecimento e os judeus de Jerusalém já enviaram sacerdotes e levitas para perguntar, “És tu Elias?” então está claro em dizer que eles consideravam a doutrina da transcorporação com verdadeira e que ela era uma doutrina corrente de seu país, e não estranha aos seus ensinos secretos. João, portanto, diz, “Eu não sou Elias, porque não sabe sobre sua vida prévia. Estes pensadores, assim, cogitam uma opinião que não deve de forma alguma ser desprezada. Nosso membro da Igreja, contudo, pode replicar à alegação e perguntar se é digno de um profeta, que é iluminado pelo Espírito Santo, que foi previsto por Isaías, e cujo nascimento por pressagiado antes que sucedesse por tão grande anjo, que recebeu da plenitude de Cristo, que partilha de tal graça, que sabe que a verdade vem por meio de Jesus Cristo e ensinou coisas tão profundas a respeito de Deus e do unigênito, que está no seio do Pai, é digno de tal indivíduo mentir ou mesmo hesitar, em razão da ignorância do que era. Pois com relação ao que estava obscuro, ele deveria ter se abstido de confessar, e não ter nem afirmado, nem negado a proposição que foi posta. Se a doutrina [da transcorporação] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias? E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença. Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento.

Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

Em negrito as informações desconsideradas por Prophet

Senhores, está claro que, quando Orígenes fala de um ensino “secreto dos hebreus”, ele o coloca na boca de filósofos antagonistas. Depois ele diz com todas as letras que, àquela altura, a transmigração ainda não entrara no judaísmo místico. Quanto ao caso de Fineias, Orígenes fala ao fim do capítulo:

Eu não sei como os hebreus começaram a falar que Fineias, filho de Eleazar, que admitidamente prolongou sua vida ao tempo de muitos dos juízes, como lemos no Livro de Juízes (Jz 20:28), para dizer o que agora menciono. Dizem que ele foi Elias porque Deus lhe prometera imortalidade, devido à aliança concedida a ele (Nm 25:12-13) (…) .

Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

Aqui fica claro que não se tratava de reencarnação, mas de uma imortalidade. Os judeus teriam confundido o “sacerdócio eterno” de Fineias e sua descendência com uma espécie de imortalidade para o próprio. Por todo o exposto acima, fica-se com a impressão de que Prophet não leu nada do texto original de Orígenes e, além disso, ou mal citou suas fontes ou confiou demais nelas. Uma falha grave de pesquisa. Prossigamos:

– Clemente de Alexandria, um professor cristão que dirigiu a escola de catequese antes de Orígenes – Diz-se que ensinava a reencarnação (16)

Deem uma lida no artigo sobre Clemente de Alexandria para esclarecimentos reais sobre o que ele defendia.

– O Gnosticismo – Orígenes absorveu este conceito através de um professor chamado Paulo de Antioquia (…) Existe ainda uma possível sexta fonte para a crença de Orígenes na reencarnação. Ele pode tê-la aceito por ter-se convencido – através do estudo do Gnosticismo, dos escritos de Clemente ou de outras escrituras que se perderam – de que a reencarnação fazia parte dos ensinamentos secretos de Jesus.

Sinceramente, quem escreve uma coisa dessas quase passa um atestado de jamais ter lido sequer um parágrafo de De Principiis nem que fosse apenas por passatempo. A carreira de Orígenes teve por adversários e antagonistas grupos gnósticos:

(…) agora, quanto àquelas expressões que ocorrem no antigo Testamento, quando se diz que Deus ficou raivoso ou arrependido, ou quando um sentimento ou paixão humana é descrito, (nossos oponentes) pensam que estão abastecidos de subsídios para nos refutar, alegando que Deus é impassível ao todo e é considerado totalmente livre de sentimentos de qualquer tipo, nós temos de mostrar a eles que declarações similares são encontradas mesmo nas parábolas do Evangelho.

De Principiis, livro II, cap. IV

Fora dito nos profetas, “Eu sou Deus e além de Mim não há outro Deus”. Pois se o Salvador, sabendo que Ele que está escrito na lei é o Deus de Abraão e que é o mesmo que diz, “Eu sou Deus e além de Mim não há outro Deus”, reconhece que o mesmíssimo que é Seu Pai é ignorante quanto a existência de qualquer outro Deus acima dEle mesmo, como os heréticos supõem, Ele absurdamente O declara ser Seu Pai que não conhece um Deus superior. Mas se não é da ignorância, mas do engodo, que diz não haver outro Deus além de Si mesmo, então é um absurdo muito maior confessar que Seu Pai é culpado de falsidade. De tudo, a conclusão a que se chega é que Ele desconhece outro Pai além de Deus, Fundador e Criador de todas as coisas.

Idem

Aqui é claro o combate de Orígenes ao dualismo gnóstico, que asseverava ser um demiurgo inferior o deus do Antigo Testamento e criador do mundo material, aprisionando centelhas divinas em corpo de carne. O mundo material seria mal em si mesmo. Jesus teria sido enviado pelo verdadeiro deus superior e bom para libertar as almas das mãos do demiurgo. Boa parte do texto de De Principiis é gasto em justificar a unidade entre o Deus do Antigo e do Novo Testamentos e buscar uma justificativa para a encarnação das almas que estivesse de acordo com parâmetros de “bondade divina”, daí a teoria de uma beatitude primordial, as quedas, necessidade de corpos para individualizar almas decaídas, regeneração pela submissão a Cristo. Ao contrário do que alguns escritores reencarnacionistas afirmam, Orígenes não foi influenciado pelo gnosticismo, muito pelo contrário, era antignóstico. Se isto ainda não te convence, veja Orígenes citando com todas as letras expoentes gnósticos:

Agora, quando dizemos que este mundo foi estabelecido na diversidade na qual acima explicamos que foi criada por Deus e quando dizemos que este Deus é bom e reto, e mais justo, há numerosos indivíduos, especialmente aqueles que, oriundos da escola de Marcião, e Valentino, e Basílides, ouviram que há almas de diferentes naturezas, que nos objetam, que isto não pode consistir com a justiça de Deus em criar o mundos para designar a algumas de Suas criaturas uma morada nos céus, e não apenas para dar uma melhor habitação, mas também uma mais alta e honrável posição (…) [grifos do portal]

De Principiis, II, IX

Muitos autores não têm Marcião como gnóstico, apesar de possuir pontos em comum com eles, mas Valentino e Basílides eram sem dúvida gnósticos.

– Ele responde à sua própria pergunta: “É claro que alguns pecados existem [isto é, foram cometidos] antes de as almas [terem corpos] e, como resultado, cada alma recebe a recompensa de acordo com seu mérito” (19)

Em sua nota (19), Prophet dá sua fonte para esta frase: Orígenes On the First Principles (Sobre os Primeiros Princípios) 1.8.1, Butterworth, p. 67.

Prophet situa tal citação no livro I, capítulo VIII, parágrafo primeiro; porém tal trecho não aparece na tradução de De Principiis feita por Frederick Crombie na série Ante-Nicene Fathers (1866-1872). Há uma explicação simples para o fato, segundo John S. Uebersax, G. W. Butterworth (1936/1966) baseou sua popular tradução inglesa não numa tradução direta do texto latino de Rufino. Ele a extraiu de uma tradução alemã feita por Paul Koetschau, que tentara uma magnus opus visando reconstruir o original De Principiis como existia antes da editada tradução de Rufino, a forma em que a maior parte do trabalho chegou até nós. “Tem-se sugerido que Koetschau fez um uso extremamente liberal de fontes secundárias, i.e., citações ou paráfrases meramente atribuídas a Orígenes“. De fato, quem se dispuser a adquirir um exemplar da edição de Butterworth/Koetschau verá que sua versão grega para De Principiis 1.8.1 é uma montagem feita a partir de extratos de Antípater de Bostra, Leôncio de Bizâncio e Epifânio. Apesar de a frase não ser demasiadamente estranha ao sistema origenista, fica revelado aspecto temerário da obra da autora ao não se basear em uma fonte confiável, caso Uebersax esteja certo. Os texto disponíveis on-line de Ante-Nicene Fathers não tentam fazer uma reconstrução crítica de forma tão atrapalhada. Eles simplesmente expõem como base o texto de Rufino e, ao fim de cada tomo, colocam extratos da carta de Jerônimo a Ávito e de Philocalia. Fica a cargo dos leitores a comparação. O texto disponível on-line de Ante-Nicene Fathers não tentam fazer uma reconstrução crítica de forma tão atrapalhada. Eles simplesmente expõem como base o texto de Rufino e, ao fim de cada tomo, colocam extratos da carta de Jerônimo a Avitus e de Philocalia. Fica a cargo dos leitores a comparação.

– Ao dizer que o nosso destino resulta de nossas ações passadas, Orígenes dá a entender que tivemos alguma forma de existência anterior que precedeu o nosso corpo atual. Para Orígenes a conclusão óbvia é que a esta existência anterior também foi vivida sob a forma humana.

Na verdade, o estado humano foi devido a um grau de queda maior que o dos anjos e os astros celestes. Antes das quedas, todas as alma tinham um estado primordial incorpóreo, sem contar que, entre uma era e outra, um humano poderia ascender a um desses dois ou decair para um demônio. Note a (errônea) citação que Prophet faz de Orígenes (digo, de Butterworth) logo acima. Parece que ela leu uma coisa e entendeu outra.

– Em seu Comentário sobre João, trata da questão da reencarnação, mas não chega a oferecer uma resposta dizendo: “O assunto da alma é muito amplo e difícil de ser esclarecido… Exige, por isso, tratamento diferenciado.” (21)

A nota (21) informa que a citação foi extraída de Comentário de João 6.7. Para começo de conversa, como se viu acima, nesse livro e capítulo se discute, sim, a reencarnação. Ele afirma que não era doutrina entre os judeus contemporâneos seus e que seus pares:

Entretanto, um membro da Igreja, que rejeita a doutrina da transcorporação como falsa e não admite que a alma de João fosse a de Elias, pode se referir às palavras do anjo supracitadas e assinalar que não é a alma de Elias que é dita ao nascimento de João, mas o espírito e poder de Elias.

Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

e segue com uma longa argumentação de que João Batista não era uma reencarnação de Elias, muito similar, por sinal, a que os apologistas cristãos fazem hoje:

Quanto aos espíritos dos profetas, estes são dados por Deus e são considerados como sendo, de certo modo, propriedades deles, como “Os espíritos dos profetas estão submissos aos profetas” (I Cor 14:32) e o Espírito de Elias repousou sobre Eliseu (2 Reis 2:15). Assim, diz-se, não há nada de absurdo supor que João, “no espírito e poder de Elias”, voltou o coração dos pais para os filhos e foi por causa deste espírito que foi chamado de “o Elias que deve vir”.

Idem

O trecho que Prophet exibe se encontra ao fim do capítulo referido do Comentário de João e merece uma contextualização maior:

Não admira, então, se aqueles que conceberam Fineias e Elias como a mesma pessoa; caso tenham julgado ajuizadamente ou não, não é a questão agora, considerariam João e Jesus como também sendo so mesmo. Isto, então, eles duvidaram e desejaram saber se João e Elias eram os mesmos. Em outra ocasião que nem esta, a questão [identificação entre Jesus e João] certamente exigiria uma análise detalhada e o argumento teria de ser bem ponderado quanto à essência da alma, ao princípio de sua composição e quanto a sua entrada neste corpo terreno. Também deveremos ter de inquirir quanto às distribuições da vida de cada alma, e quanto a sua partida desta vida, e se é possível para ela entrar numa segunda vida em um corpo ou não, e se tal ocorre no mesmo período e após o mesmo arranjo em cada caso, ou não, e se entra no mesmo corpo ou em outro distinto, e se o mesmo, se o sujeito permanece o mesmo ao passo que as qualidades mudam ou se tanto o sujeito quanto as qualidades permanecem, e se a alma sempre fará uso do mesmo corpo ou o trocará. Junto com estas questões, seria também necessário perguntar o que é transcorporação e como ela se difere da incorporação e ele que sustém a transcorporação deve necessariamente que o mundo seja eterno. A noções desses pensadores também devem ser consideradas; quem considera que, segundo as Escrituras, a alma é semeada junto com o corpo e as consequências de tal noção também deve ser levada em conta. De fato, o assunto da alma é muito amplo e difícil de ser esclarecido e tem de ser compreendido de expressões dispersas da Escritura. Exige, por isso, tratamento diferenciado. A breve consideração que fomos levados a dar ao problema em relação a Elias e João pode bastar por enquanto; prossigamos ao que se segue no Evangelho.

Idem

Orígenes não estava falando de nenhum ensinamento secreto a respeito da alma, mas enumerando os pontos a serem levantados com pensadores pagãos ou influenciados por doutrinas tidas por heréticas. Ele dá uma “receita de bolo” sobre a mesma técnica de argumentação que ele usou contra aqueles que associavam Elias a João e que poderia novamente ser útil no caso de lançarem a hipótese de Jesus e Elias serem os mesmos.

Prophet faz uma única admissão de um texto anti-reencarnacionista de Orígenes no Comentário sobre Mateus. Ela dá essa passagem como uma atitude defensiva de Orígenes contra perseguidores, pois ele:

(…) escreveu quando já estava com mais de 60 anos (por volta de 246-248), o seu contexto leva-nos a questionar se não a estaria negando como uma tentativa de despistar seus inimigos (22). Pois Orígenes, assim como todos os iniciados nos mistérios gregos e gnósticos, praticava o sigilo.

Bem, vamos à nota 22:

Orígenes nega a reencarnação quando se discute se João Batista era ou não Elias que voltara. Nessa discussão dirige-se claramente aos bispos. Eis a sua negação:”’Aqui não me parece que por Elias se expressa a alma, ou cairei no dogma da transmigração, que é contrário à Igreja de Deus, que não foi transmitido pelos apóstolos nem é encontrado nas Escrituras” (ênfase da autora).

Aqui, Orígenes rejeita a reencarnação porque ela não se coaduna com a ideia cristã do julgamento final. Como poderia haver um fim, ele pergunta, se as almas estão continuamente cometendo atos que as obrigarão a retornar à terra para redimi-los? Ele conclui que o conceito de um final deveria “abolir a doutrina da transmigração”. Commentary on Mathew (Comentário Sobre Mateus) 13.1, em The Ante-Nicene Fathers (Os Patriarcas Ante Niceia) 10:474, 475.

Orígenes, entretanto, procurou conciliar a ideia de um final com a ideia de oportunidade contínua através da reencarnação. Mesmo afirmando que haveria um final quando o mundo for ‘tudo em todos’ (1 Cor 15:28), ele também previu que “depois da dissolução deste mundo haveria um outro”. On First Principles (Sobre Primeiros Princícios) 3.5.3 Butterworth, p.239(…)

Aqui no caso há uma meia-verdade. Orígenes cria num tipo de reencarnação “entre eras”, mas em instante algum em De Principiis ou qualquer outra obra que chegou até nós ele defendeu alguma reencarnação “na mesma era”. Do jeito que Prophet coloca tal aspecto de Orígenes ao fim do livro, em uma nota, e como uma saída alternativa em vez de ser o principal; um leitor desavisado pode ter uma impressão errônea de que Orígenes estava escondendo algo que ele nunca defendeu. Se não tiver lido a nota 22, pior será a ideia. Orígenes cria, também, em ressurreição e julgamento final ao fim de cada era e dedica até um capítulo de De Principiis a isso. Além disso, há mais passagens em Comentários sobre Mateus contra a reencarnação (Livro X, cap. XX), além de os trechos que ela tem como pró reencarnação do Comentário sobre João na verdade, como vimos, serem anti. O Comentário de João, por sinal, precede o de Mateus e na própria introdução do capítulo VI (o utilizado por Prophet), Orígenes fala que tal fora originalmente escrito em Alexandria antes de seu exílio em Cesareia (231), embora tenha sido extraviado e reescrito já na Palestina. Orígenes era mais jovem, enfraquecendo o peso do fator idade que Prophet para descartar o Comentário sobre Mateus. Também não se deve esquecer de Contra Celso IV, XVII. Prophet ainda tenta associar Orígenes ao gnosticismo e um errinho menor ao citar I Cor 15:28: “quando Deus for tudo em todos”.

O ponto que Prophet considera xeque-mate para uma crença de Orígenes na reencarnação (ao estilo ocidental) é o relato de Jerônimo:

Se ainda restam dúvidas sobre o fato de Orígenes ter se referido ou não à reencarnação, podemos confiar no Patriarca da Igreja do século IV, Jerônimo, que o acusou de fazê-lo. Jerônimo teve acesso aos textos originais em grego, e disse que uma das passagens de Primeiros Princípios prova que Orígenes “acreditava na transmigração das almas”. (26)

A nota (26) informa a passagem: Ad Avitum, 14. Na verdade, o texto de Jerônimo também foi passível de alteração e, mesmo que não tivesse sido, Jerônimo dá uma citação textual do que dissera Orígenes, não apenas afirmando da boca para fora:

O Fogo do Inferno, além disso, e os tormentos com os quais a sagrada escritura ameaça os pecadores são explicados por ele não como punições externas, mas como aflições de consciências pesadas quando, pelo poder de Deus, a memória de nossas transgressões é posta perante nossos olhos. “Toda colheita de nossos pecados cresce de novo das sementes que permanecem na alma e todos os atos desonrosos e indignos são outra vez retratados diante de nossas vistas. Assim é o fogo da consciência e os espinhos do remorso que torturam a mente a medida que ela relembra na referida autoindulgência”. E de novo: “mas talvez este grosseiro e terreno corpo deva ser descrito como névoa e escuridão; pois ao fim deste mundo e quando for necessário passar ao outro, o similar à escuridão levará ao similar nascimento físico [ou fisicamente nascido]”. Falando assim ele claramente pleiteia claramente pela transmigração das almas como ensinado por Pitágoras e Platão.

Jerônimo de Aquileia, Carta 124 (a Ávito).

Ao fim deste mundo e quando for necessário passar ao outro … ” Mesmo na versão mais heterodoxa possuída por Jerônimo, o relato é de uma reencarnação entre eras e talvez com continuidade de corpo, não do conceito comum no ocidente moderno.

Resumindo Prophet: a maior parte do tempo, ela insinua que Orígenes defendia a reencarnação ao estilo ocidental, com vários reencarnes num mesmo mundo. Passagens que rejeitam a reencarnação tradicional são minoradas (Comentário sobre Mateus), distorcidas para se tornarem pró reencarnacionistas (Comentário sobre João) ou esquecidas (Contra Celso). As passagens onde Orígenes adota o modelo entre eras são relatadas de forma marginal (De Principiis) ou explanadas por alto sem citação explícita (Carta a Ávito, de Jerônimo). Apesar de tudo, Prophet é “menos mal” que muitos outros autores espiritualistas analisados neste portal, mas ainda deixa muito a desejar.

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