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Princípios de Crítica Textual Bíblica

20 de outubro de 2011 Deixe um comentário Go to comments
Antes de qualquer um vir a pensar em refutar os argumentos apresentados no portal que tenham a ver com o aspecto religioso, é preciso ter em mente os princípios sobre os quais se baseiam. Qualquer crítica feita aos artigos deve primeiro refutar estes princípios ou provar que não foram bem aplicados. Informa-se aos candidatos que o perfil do portal nada tem de devocional, calcando-se, sim, em consensos para a abordagem histórico-crítica da Bíblia, em particular do Novo Testamento. Como nem todos estavam elaborados ou eram amplamente aceitos em medos do século XIX, muitos espíritas vão rechaçá-los e os cristãos fundamentalistas, então, nem se fala. Pensando bem, como “fundamentalismo” é o pretenso retorno de uma ideologia às suas supostas e puras origens, os “espíritas fundamentalistas” é que não suportam a ideia de que parte da análise kardecista possa estar tremendamente defasada. E há uma razão muito simples para essa atitude: embora alguns dos princípios aqui usados não sejam novidade para os apologistas espíritas (ex., humanidade de Jesus, presença de erros e contradições na Bíblia) eles agora se voltam contra eles. Por mais que digam acompanhar o progresso da Ciência (a ciência em questão é a História) o próprio “espiritismo fundamentalista” se mostra resistente à mudança, pois é muito mais fácil ser cético com a crença alheia que com a sua própria. Acredito serem bem intencionados, mas no zelo de defender a doutrina contra os detratores, mumificaram-na. Eis os princípios:

  1. A Bíblia NÃO é a palavra de Deus
  2. A Bíblia não é o bastante
  3. A patrística será levada em consideração
  4. A Bíblia tem contradições
  5. A Bíblia não foi feita para você
  6. Tudo o que for apropriação será assinalado
  7. Há variações nos exemplares dos livros bíblicos
  8. Gramática rima com Matemática. E só!
  9. Contexto é tudo
  10. A Bíblia NÃO é intérprete de si mesma
  11. Usar alguma metodologia de interpretação
  12. Separar o “Jesus da fé” da “fé de Jesus”
  13. O que Jesus disse é diferente do que escreveram que ele disse
  14. As duas tradições evangélicas
  15. Resolva o quebra-cabeça sinóptico
  16. Parecidos, mas não idênticos:
  17. Outras fontes:
  18. Considerar os “Cânons dentro do Cânon”:

* * *

  1. A Bíblia NÃO é a palavra de Deus: E muito menos uma prévia da Terceira Revelação! O problema dessas duas posturas é que elas só valem dentro de igrejas e centros espíritas, respectivamente. O que temos aqui é “Literatura Hebraica Clássica” e “Literatura Cristã Primitiva”. Com isso deixo bem claro que não há o menor interesse na interpretação contemporânea desses livros, mas em chegar o mais próximo possível do entendimento de seus leitores originais.
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  2. A Bíblia não é o bastante: Como corolário do item anterior, não há razão para excluir a vasta literatura hoje tida como “apócrifa”. Os Manuscritos do Mar Morto, por exemplo, demonstram a popularidade entre os essênios de livros que não eram específicos deles, mas que ficaram fora da Bíblia Hebraica, como Enoque e Jubileus. Deveríamos deixá-los de fora se eles inspiravam a tantos naquela época? Seria aconselhável excluir I e II Macabeus, como fazem os evangélicos, se o pano de fundo deles é genuinamente histórico? Da mesma forma, em relação ao cristianismo, por que se deveria abandonar as epístolas de Barnabé, Clemente, Policarpo e o evangelho do Pastor se todos lançam alguma luz sobre o período de consolidação do cristianismo proto-ortodoxo? Não se está advogando um “vale-tudo”, mas que cada conjunto literário teve seu valor em um ou mais grupos do judaísmo intertestamentário e do cristianismo primitivo. Até mesmo os “Evangelhos da Infância” têm importância ao revelar o Jesus aos olhos populares – o folclore cristão antigo – , embora pouco úteis para o estudo do Jesus Histórico.
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  3. A patrística será levada em consideração: Por “patrística”, entenda-se o conjunto de teólogos cristãos (conhecidos como Pais da Igreja) responsável por moldar a ortodoxia. Não há consenso sobre até quando se processou esse período de formação, mas usarei como limite João Damasceno(675 – 749), embora, na prática, raramente mencione eu como “Pai” teólogos após Agostinho de Hipona. O motivo principal para levar em conta o testemunho deles é que, para boa parte dos apologistas espíritas (a mais teimosa) o cristianismo ortodoxo foi reencarnacionista até o II Concílio de Constantinopla (553 d.C.). Para corroborar isso, muitas citações de obras desses teólogos são dadas como exemplo. O problema é que, ao verificar as palavras originais deles, constato que os autores espíritas:
    • Fazem citações indiretas, evidenciando que não leram os teólogos por eles usados;

    • Citações de citações tornam difícil a verificação posterior por parte dos leitores, quando não impossível;

    • Citações indiretas por si só não são algo ruim, contanto que estejam sendo usadas fontes intermediárias com um mínimo de credencial. A questão justamente é quem teria esse gabarito? Em vez de se basear em fontes de caráter acadêmico, muitos apologistas espíritas optam por outros apologistas, místicos ou qualquer escritor reencarnacionista, como se isso fosse um atestado de qualidade e isenção. Assim, demonstram excessiva confiança e pouco senso crítico ao escolher suas fontes. A leitura do original é a meta a ser perseguida, embora nem sempre possível.

    Para os apologistas que não fizeram uso da patrística, lembro que:

    • Bem sei que muitos dos “Pais da Igreja” defenderam ideias que hoje são consideradas heréticas pelos que vocês chamam de “fundamentalistas”. Por exemplo, Justino foi milenarista e Tertuliano, montanista. Isso é irrelevante, pois o período em que eles viveram, principalmente a patrística pré-nicena (100 – 325 d.C), foi de formação, quando muitos pontos doutrinários ainda estavam em aberto;

    • Sei que essas divergências deixam de ser importantes quando elas lhes convém. O exemplo mais notório é o caso de Orígenes e sua suposta defesa da reencarnação;

    • Farei questão de lembrar de seus confrades que fizeram uso equivocado da patrística, apenas como um lembrete de que a “fé racionada” pode voluntariamente se “cegar” se lhe oferecido um tentador boato. O vício não está na fé, mas nos humanos e, portanto, vocês também podem partilhar de muitos defeitos que atribuem exclusivamente aos “fundamentalistas”;

    • A patrística é um fonte histórica! Por mais enviesados que fossem, eles ainda são um testemunho de como seu próprio grupo via a si mesmo. Desconsiderá-los é, no mínimo, desaconselhável.

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  4. A Bíblia tem contradições: Justamente por ser um cânon feito a partir de diversos outros cânones menores, a Bíblia possui coisas que hoje chamaríamos de “erros de roteiro” e “falhas de edição”, além de mensagens pura e simplesmente díspares. Como são tratadas essas questões aqui? Não são tratadas. Ponto. Não há a menor razão em perder tempo tentando harmonizar incongruências com diversas hipóteses ad hoc ou apelações duras de engolir. As contradições foram uma mera consequência processo não coordenado de redação de cada livro bíblico. São as teologias de cada religião que tentam costurar as pontas soltas numa espécie de “credo de compromisso”. Como não há abordagem devocional aqui, o melhor é desmontar o cânon em suas subunidades e admitir que, no período intertestamentário, havia várias comunidades judaicas e cristãs com doutrinas diferentes umas das outras em algum grau. A propósito, apologistas espíritas se divertem prendendo cristãos fundamentalistas numa camisa de força chamada “inerrância bíblica”. Sinto muito, mas aqui isso não será possível. [topo]

  5. A Bíblia não foi feita para você: Isso não significa que não haja ensinamentos úteis ainda hoje, mas, sim, um lembrete de que muita coisa nela é datada. Os que não levam isso em conta, correm o risco de continuar a errar a data da segunda vinda de Jesus ou ter que explicar por que o movimento montanista, o maniqueísmo ou o Islã não devem ser considerados a Terceira (Quarta, Quinta, etc.) Revelação(ões) no lugar de seu credo.[topo]

  6. Tudo o que for apropriação será assinalado: Mesmo com o aviso acima, as pessoas continuarão a se enxergar no passado. E isso não é de hoje. Nos Manuscritos do Mar Morto, por exemplo, foi encontrado um documento (1QpHab) que explana o livro o profeta Habacuque de uma forma muito curiosa:

    [“Vede entre as nações e olhai, e maravilhai-vos, e admirai-vos; porque realizarei em vossos dias uma obra que vós não acreditareis, quando ] contada [Hab 1:5].

    [Interpretado, isso se refere] aos que foram infiéis junto com o Mentiroso, por não [ouvirem a palavra recebida pelo] mestre da Retidão proveniente boca de Deus. E se refere aos infiéis da Nova [Aliança], pois não terem acreditado na Aliança de Deus [ e profanando] Seu santo nome. E da mesma forma, esse pronunciamento deve ser interpretado [como referência aos que] serão infiéis no fim dos dias. Eles, os homens violentos que romperam a Aliança, não acreditarão quando ouvirem tudo que [está para acontecer] à última geração, relatado pelo Sacerdote [em cujo coração] Deus colocou [discernimento] para que ele interpretasse todas as palavras dos Seus servos, o Profetas, através de quem Ele profetizou tudo o que iria acontecer a Seu povo e [Sua terra].

    “Sim, eis que suscito os caldeus, essa [cruel e impetuosa] nação.”

    [Hab 1:6] Interpretado, isso se refere aos kittim [que são] rápidos e bravos na guerra, levando muitos a perecer. [O mundo inteiro cairá] sob o domínio dos kittim e os [iníquos …] eles não acreditarão nas leis de [Deus …]

    Habacuque se referia os babilônios (a quem chama de “caldeus”) e ao cativeiro por ele imposto aos hebreus. Seu clamor era para o povo desterrado contemporâneo seu, contra um inimigo que eles bem conheciam. O comentarista do deserto, cerca de meio milênio depois, pegou esse texto e, a partir dele, produziu livre-associações para explicar sua própria realidade. No caso, os romanos – chamados nos Manuscritos pelo código de “kittim” – fariam o papel dos babilônios, em terrível associação com o “Mentiroso” – O sumo-sacerdote de Jerusalém, inimigo jurado dos essênios – em oposição ao mestre da Retidão, sua própria liderança. Esse tipo de (re)leitura de textos religiosos tem até um nome técnico pesher (interpretação em hebraico) e permeia boa parte do material não bíblico dos Manuscritos. Aliás, ele está longe de ser exclusividade da seita, diga-se de passagem. No Novo Testamento, mais especificamente em Atos, há um interessante pormenor em um discurso atribuído a Pedro:

    Mas Deus o ressuscitou, rompendo os grilhões da morte, porque não era possível que ela o retivesse em seu poder. Pois dele diz Davi: Eu via sempre o Senhor perto de mim, pois ele está à minha direita, para que eu não seja abalado. Alegrou-se por isso o meu coração e a minha língua exultou. Sim, também a minha carne repousará na esperança, pois não deixarás a minha alma na região dos mortos, nem permitirás que o teu santo conheça a corrupção. Fizeste-me conhecer os caminhos da vida, e me encherás de alegria com a visão de tua face (Sl 16,8-11). Irmãos, seja permitido dizer-vos com franqueza: do patriarca Davi dizemos que morreu e foi sepultado, e o seu sepulcro está entre nós até o dia de hoje. Mas ele era profeta e sabia que Deus lhe havia jurado que um dos seus descendentes seria colocado no seu trono. É, portanto, a ressurreição de Cristo que ele previu e anunciou por estas palavras: Ele não foi abandonado na região dos mortos, e sua carne não conheceu a corrupção.

    Atos 2:25-32

    Aqui, Pedro cita o salmo 16 como uma profecia da ressurreição de Jesus, só que é extremamente duvidoso que o salmista tivesse essa intenção. Acontece que Pedro discursava para uma plateia amiga, que não teve problemas em aceitar essa associação entre dois contextos díspares. Já que um dos temas do Novo Testamento (em especial Mateus, Lucas e Atos) é mostrar que o ministério de Jesus e o próprio cristianismo nascente são o cumprimento das Escrituras Judaicas – escritas séculos antes -, pode-se dizer que os livros cristãos são um tipo de pesher.

    Uma certa religião, cerca 1.800 anos depois, interpretou o seguinte trecho de João:

    Não se turbe o vosso coração. Crede em Deus, crede também em mim. – Há muitas moradas na casa de meu pai. Se assim não fosse, eu vo-lo teria dito; pois vou preparar-vos o lugar. E depois que eu me for, e vos aparelhar o lugar, virei outra vez e tomar-vos-ei para mim, para que lá onde estiver, estejais vós também. (João, XIV:1-3).

    Como um indicativo de duas coisas (ESE, cap III):

    1. Haveria vários tipos de “planos” espirituais, de acordo com o grau de evolução de cada grupo de espíritos na erraticidade (i.e., desencarnados);
    2. Seriam vários os mundos materiais para os espíritos encarnados.

    Decididamente, a comunidade joanina, ao redigir o longo “discurso de despedida” seu evangelho (Jo 13-17), não devia estar pensando nisso. Da mesma forma como a seita dos essênios se apropriou dos antigos documentos judaicos para prever o mundo vindouro em sua época, como os judeus modernos o fazem para ainda aguardar do Messias, como os cristão antigos o fizeram para se justificar e os modernos para aguardar a segunda vinda de Jesus; o espíritas se apropriam do Antigo e do Novo Testamento para justificar seu próprio credo, torná-lo palatável aos cristão modernos menos inflexíveis como genuína continuação do ministério de Jesus. Contudo, é duvidoso que o “consolador prometido” (Jo 14:26, cf. ESE, cap. VI) fosse o “Espírito da Verdade”, apregoado como coordenador da falange que ditou as respostas compiladas com Allan Kardec. Existiram outros grupos religiosos que alegaram (e alegam) ser esse continuador e não há nenhuma razão para crer que esse não seja mais um caso de grupo tardio de apoderando de textos sagrados que não eram seus originalmente. O Evangelho Segundo o Espiritismo é exatamente isto: um pesher espírita e será tratado como tal. [topo]

  7. Há variações nos exemplares dos livros bíblicos: Mas a situação não é caótica como querem alegar certos apologistas espíritas que clamam aos quatro ventos haver 400.000 alterações na Bíblia . Essa mania começou depois da publicação de “O que Jesus disse? O que Jesus não disse?” de Bart D. Ehrman, Ediouro, 2006. O livro é muito bom como obra de divulgação, mas, infelizmente, houve um abuso por parte de alguns leitores aqui. O próprio Ehrman reconhece nesse livro (cap VII, p. 187-8), e mais explicitamente em outras obras, que a maior parte dessas variações se constitui de erros de transcrição acidentais de copistas e não uma conspiração dos primeiros cristãos ortodoxos. Outro livro que vi ser usado e traz cifra de mesma ordem de grandeza faz a seguinte ressalva:

    A maior parte das variantes nos manuscritos do NT [Novo Testamento] referem-se a formas ortográficas ou a questões gramaticais e de estilo. São bastante escassas as que afetam o significado do texto. Muitas constituem mudanças deliberadas, introduzidas pelos copistas. Contudo, inclusive nos casos em que as mudanças introduzidas afetam o sentido do texto, não tocam em geral nas questões substanciais do que mais tarde converteu-se no dogma cristão. Algum caso resulta mais chamativo, como o da variante “filho” ou “Deus” em Jo 1, 18, pois afeta nada menos que a questão da divindade de Cristo (cf. p. 491s).

    Barrera, Julio Trebolle. A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã, parte II, cap. V, p. 397.

    Certo que essas mudanças intencionais, ocorridas principalmente no calor dos debates teológicos dos séculos II e III, merecem atenção. Antes, porém, de sair gritando que certo versículo que lhe é difícil foi adulterado, responda as seguintes perguntas:

    • Qual texto foi alterado? Em minha experiência pessoal, há espíritas que só consideram alterados os textos que lhe são inconvenientes, embora os que lhe são úteis devam ser, para eles, considerados genuínos.

    • Em que se baseia sua suspeita? Você notou alguma mudança brusca de estilo? Existe algum manuscrito com variante? Ou é simplesmente por que não se enquadra em sua teologia?

    • Você é capaz de estimar o texto original? Qual o critério que você usa para preferir uma leitura à outra? Existem contra-argumentos?

    • Qual foi a suposta motivação para o texto ser alterado?

    • Consegue estimar a época que houve a adulteração? Isso pode ser muito elucidativo para a pergunta anterior, pois nos permite saber quais eram as discussões teológicas de então.

    Ehrman e Barrera seguem esse esquema, ainda que não o explicitem. Se alguém quiser uma lista com comentários sobre as principais variantes, pode adquirir Textual Commentary on the Greek New Testament , de Bruce M. Metzger, ex-professor de Ehrman. Informa-se, também, que aqui não se admite a “primazia massorética” no Antigo Testamento. O texto Massorético (TM) continua sendo o ponto de partida de qualquer estudo, sem dúvida, afinal está completo e manteve-se estável por mais de 1.800 anos. Entretanto, sabe-se hoje que, antes de as sofisticadas técnicas de transcrição desenvolvidas pelos sábios massoretas se consolidarem, havia variantes dos textos judaicos. Os massoretas adotaram um grupo específico de variantes e desprezaram as demais. Como consequência disso, o máximo que se pode dizer é que o TM está no idioma do original, mas não se pode precisar o quanto ele tem de original. Desconsiderar isso é o maior erro conceitual presente em Analisando as Traduções Bíblicas, de Severino Celestino da Silva. Aqui, o testemunho dos fragmentos de Qumran, dos targumim, da Septuaginta, da Vulgata e da Peshitta são fundamentais por nos darem acesso, ainda que indireto, a essas variantes perdidas da Bíblia Hebraica.
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  8. Gramática rima com Matemática. E só!: Leia essas duas frases:
    • Fui no cinema hoje.
    • Aquela menino me emprestou um par de tênis.

    As duas contêm erros gramaticais – a primeira na regência verbal e a segunda de concordância de gênero -, mas aposto, com uma probabilidade de 99%, que a primeira delas já saiu alguma vez da boca leitor, por mais grammar nazi que sejas. Mas as duas estão erradas, não? Depende da gramática que você use. Se estiveres usando um livro do Prof. Pasquale, um manual de redação de algum jornal ou uma apostila de pré-vestibular, as duas serão dadas como erradas. Por outro lado, é possível que um livro que ensine português para estrangeiros apresente a primeira como válida, ao menos oralmente, isso porque esses estão mais preocupados em expor a língua como ela é, e não como pensam que ela deveria ser. Para eles, a segunda frase não têm vida própria no idioma e até dói aos ouvidos dos nativos. A primeira, por sua vez, é apenas uma variante desprestigiada na língua escrita, apesar de ser comuníssima. E antiquíssima também, com rastros até a época de Camões. O problema é que, quando resolveram codificar a língua portuguesa, deixaram-na de fora, embora continue ativa e saltitante nas terras de Pindorama.

    Foi feita essa prelação para alertar o leitor que existem gramáticas normativas, que codificam um suposto ideal de língua-padrão, e as descritivas , que tratam os vários matizes de um idioma. Cada uma tem sua utilidade e, no caso de línguas mortas, as gramáticas normativas costumam ser uma apresentação dos estudantes ao grego, ao hebraico ou ao latim. A questão é que não existe um único dialeto no Antigo Testamento e grego do Novo era muito discrepante da norma culta de Atenas ou Alexandria. Para entendê-los são necessárias gramáticas descritivas e que tenham um enfoque mais histórico para abranger as transformações por que passaram esses idiomas.

    Um problema, então, surge quando um devoto deseja impor uma norma gramatical como única variante aceitável para o entendimento de um texto, embora os antigos falantes nativos daquele idioma a tratassem apenas como uma possibilidade entre outras. Três casos são recorrentes nesse mundo apologético:

    • A preposição hebraica `al: segundo os espíritas fundamentalistas ela deveria significar apenas “sobre” ou “em”, para auxiliar sua interpretação reencarnacionista de Ex 20:5. O problema é que são várias as passagens bíblica em que ela é intercambiável com preposições que significam “até” (1 Sm 14:1 / 1 Sm 14:4);

    • O significado da proposição latina in: similar ao caso anterior. O os espíritas fundamentalistas querem impor apenas o significado “em”, esquecendo que, ao reger o caso acusativo, in pode significar “a” ou “até” (At 8:26);

    • O uso do artigo em grego: alegam que na ausência de artigo (definido), deve-se traduzir sem artigo ou com o artigo indefinido português compatível. Se assim fosse, o prólogo de João começaria deste jeito: “Em princípio era o Verbo” ou “Num princípio era o Verbo”. O estudo de construções anartras (sem artigo) de sentido definido não faz parte do programa deles.

    Não que se deva querer saber mais que indivíduos que estudaram idiomas antigos, como Pastorino ou Severino Celestino da Silva, mas duvidar quando alegam saber mais do que os falantes originais deles.

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  9. Contexto é tudo: Ou, pelo menos, quase. Repare o seguinte trecho de Eclesiastes:

    Se o homem gerar cem filhos, e viver muitos anos, de modo que os dias da sua vida sejam muitos, porém se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, Digo que um aborto é melhor do que ele.

    Ec 6:3

    Talvez se impressione em saber disso, mas esse versículo Já foi utilizado por dirigentes da Igreja Universal como autorização para o aborto! Óbvio que a reação contrária foi forte, como visto no link anterior, mas, deixando a polêmica de lado, esse incidente é um pequeno exemplo de como um versículo escolhido a dedo e uma imaginação fértil podem ser usados para justificar qualquer coisa. Ofereço um exemplo mais “das antigas”:

    Agora Basílides, falhando em observar que essas coisas devem compreendidas a partir de lei natural, rebaixa o discurso do Apóstolo para fábulas insensatas e profanas [cf. I Tm 4:7] e tenta produzir a partir dessa fala do Apóstolo a doutrina chamada de mentosomatosis, i.e., que as almas são transferidas para dentro de um corpo após outro. Pois ele diz que Paulo diz: “outrora vivia sem a lei” [Rm 7:8-9], que significa: Antes de vir para dentro deste corpo, vivi numa forma corporal que não estava sob a lei, ou seja, a de uma vaca ou de um pássaro. Mas ele falha em olhar o que se segue, a saber: “Mas quando o mandamento veio, reviveu o pecado” (Rm 7:9). Pois Paulo não diz que ele veio para o mandamento, mas o mandamento lhe veio; e não diz que não que o pecado não existia nele, mas que estava morto e reviveu. Por essas declarações ele está garantidamente mostrando que dizia ambas as coisas a respeito da mesma e única vida sua. Mas que Basílides e os que partilham de suas percepções sejam deixados a sua própria impiedade. Voltemo-nos, porém, para o sentido do Apóstolo em conformidade com pia reverência para doutrina eclesiástica.

    Comentário sobre a Epístola aos Romanos, Livro V, cap. I, parágrafo 27

    E agora? Também está disposto a aceitar a metempsicose (ou metensomatose) como uma doutrina secreta destinada apenas aos iniciados e repassada desde Jesus até os mestres gnósticos do século II e III (como Basílides) ou vai concordar com Orígenes e outros apologistas proto-ortodoxos que eles enxergavam o que queriam e por meio de frutífera imaginação? Talvez a resposta varie se o leitor for hindu ou espírita, mas lendo a Epístola aos Romanos diretamente, fica difícil não dar razão a Orígenes.

    Se consideras as duas ideias expostas acima estapafúrdias, então concordarias que um simples respeito ao contexto evitaria tais equívocos. Afinal, o significa essa palavra “contexto”? Poder-se-ia pegar um dicionário e listar as várias atribuições desse verbete, mas para mim isso é falsa erudição de debatedor de internet. Ser-lhe-á inútil, caro leitor, o que as equipes do Aurélio ou do Houaiss acham para apreender a amplitude do termo “contexto” usado aqui. Grosso modo ele é assim definido:

    Conjunto hierarquizado de significados que definem o significado de um significante abaixo deles.

    E o que seria essa hierarquia? Bem, ordem crescente de generalidade:

    1. A palavra: Tive um professor de inglês que afirmou nunca dizer o significado de uma palavra inglesa a quem lhe perguntava. Em vez disso, sempre perguntava de volta: “Diga-me a frase em que ela aparece”. Um Dicionarista busca catalogar todos os significados de uma palavra, mas cada um deles só tem valor quando usado. Por isso, os bons dicionários vêm com pequenas frases de exemplo. Ainda assim, dicionários não são exaustivos, pois perdem sempre em versatilidade para o verdadeiro “dono” de uma palavra: quem a usa. Do contrário, o sentido delas não se modificaria com o tempo, não ocorreriam empréstimos, nem neologismos. Portanto, os dicionários são um bom ponto de partida, mas nunca de chegada. O passo lógico seguinte é avaliar a palavra na frase para descobrir qual o significado listado mais afim ou até mesmo deduzi-lo a partir do que se está tratando. Caso persistam dúvidas, há o arbítrio último do autor do texto, que pode tê-la usado mais de uma vez, dando outras frases para exemplo; tem um tema a tratar, devendo a palavra se enquadrar nele; ou, simplesmente, é um representante de uma cultura e época que davam um uso distinto para ela. Um dos casos mais ridículos que já vi de desrespeito a esse princípio é quando apologistas espíritas tentam definir a palavra grega “palingenesia” como “reencarnação” quando ela, na verdade, tem vários significados registrados e seus antigos usuários, inclusive os pagãos, podiam estar muito bem desconsiderando o assunto de “transmigração da alma”.

    2. A frase: Uma frase pode ser considerada a unidade básica para a transmissão de uma informação. As mais curtas podem transmitir apenas ideias simples de forma inequívoca e quanto mais sofisticada a informação a se passar, maior tem de ser a frase, por composição de várias orações, ou usam-se várias frases para compor um parágrafo. Quem escreve deve, pois, ter o cuidado para explanar seu raciocínio o mais pormenorizado possível, para não dar margem a ambiguidades, sem chegar a ser maçante. Quem lê deve tomar cuidado para não enxergar no texto ideias que na verdade são suas, como se quisesse dizer ao autor o que ele tem de pensar. Por exemplo, de experiência pessoal, já vi espírita que encarou a citação feita acima sobre Basílides como uma prova de que Paulo cria na reencarnação. Cada um vê o que quer…

      A um problema adicional, porém, está arriscado a surgir quando o leitor recebe um material de segunda mão. Leia o seguinte:

      Esses campos [nazistas], em Sobiór, Belzec e Treblinka, não eram campos de concentração e não tinham equivalentes no Gulag soviético.

      Davies, Norman; Europa na Guerra, 1939-1945: Uma vitória nada simples, Record, 2009, cap. V, “Genocídio”, p. 396.

      Pronto, quem ler isso pode começar a cogitar que o autor, Norman Davies, é um revisionista do Holocausto judaico buscando reduzir o número de vítimas para “livrar a cara” dos nazistas. Agora leia a frase imediatamente seguinte:

      Eram pura e simplesmente estações de extermínio, consistindo em um terminal ferroviário, um complexo de câmaras de gá e crematórios.

      Idem.

      Isso muda tudo, não? As frases, tal como as palavras, também só têm real significado em meio a outras. O que apresentei não passou de um exemplo proposital e didático de uma falácia chamada pelos anglófonos de misquotation, uma palavra sem tradução exata, mas que pode ser entendida como “má citação, proposital ou não, que distorce o sentido original”. Há várias formas de conseguir esse efeito:

      • Citação falsa – o autor simplesmente nunca disse isso;
      • Atribuição errônea – a citação é outra pessoa;
      • Má tradução – intencional ou por imperícia;
      • Omissão de frases antes do texto – elas poderiam demonstrar que a intenção de um autor era expor uma opinião que não era dele ou que falaria de uma opinião antiga;
      • Omissão de frases após o texto – ocorre quando explicariam melhor o que se queria dizer, que se estava apenas num exercício retórico ou demostrariam um mudança de opinião;
      • Uso indevido de elipses – uma elipse “(…)” é um recurso válido para se poupar o leitor de textos demasiado longos, porém o uso mal intencionado dela está em omitir o que não é supérfluo.

      Sem dúvida, misquotation é a falácia mais utilizada por espiritualistas quando lidam a patrística. Não esquecendo que ela ocorre no trato deles com a Bíblia, como o uso de I Cor 15:50 para provar a ressurreição puramente espiritual. Repare só:

      Digo-vos, irmãos: a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorruptibilidade.
      I Cor 15:50

      Mas …

      Digo-vos, irmãos: a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorruptibilidade. Eis que vos dou a conhecer um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num instante, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final; sim a trombeta tocará, e os mortos ressurgirão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Com efeito, é necessário que este ser corruptível revista a incorruptibilidade e que este ser mortal revista a imortalidade.

      I Cor 15:50-53

      E aí, mudou alguma coisa? Será que um teólogo protestante/católico não poderia dizer que arrebatado Elias pôde viver no Céu por ter sido “transformado”? Bem, isso é assunto para outra ocasião.

    3. A obra: Cada autor tem pelo uma mensagem básica a passar. Caso tenha se baseado em mais de um predecessor, pode muito bem ter deixado passar algumas das ideias deles em sua edição. Ao se identificar exatamente quais são as ideias das quais um autor em questão queria convencer sua plateia, fica mais fácil entender como ele interpretava os livros da Escritura que o antecederam. Da mesma forma, qualquer suposição que contrarie a mensagem básica deve ser descartada. Por exemplo, as interpretações do livro de Jó usadas para justificar noções de “ação e reação” ou karma devem ser desconsideradas como originais do autor, pois uma das premissas básicas desse livro era a inocência do personagem Jó.

    4. O autor: O problema principal da autoria … é que ela muitas vezes é desconhecida. Chamam-se de apócrifos (“ocultos” em grego) os livros que se encontram nessa situação e os teólogos tendem a desconsiderá-los como material para suas religiões. A classificação, contudo, é por demais injusta, pois mesmos os evangelhos tidos como canônicos e boa parte das cartas não foram escritos pelas pessoas que lhes dão nome aos títulos. Os autores dos evangelhos nunca nomearam a si mesmos e o estilo de certas cartas atribuídas a Paulo – como Hebreus – é muito diferente das genuinamente paulinas. Sendo assim, nenhum religioso terá autoridade para determinar quem é válido ou não. A necessidade do estudo em questão é quem dirá isso. Por outro lado, continuar-se-á a chamar os anônimos autores dos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, por pura praticidade. Embora desconhecidos, esses autores deixaram rastros com informações importantes sobre si: seu estilo, quais fontes usaram, que experiência de vida tinham suas comunidades. Com isso podemos identificar “anônimas” que tiveram o mesmo autor (Evangelho de Lucas e Atos) e outras que, tendo uma mesma autoria pela tradição, foram redigidas por pessoas diferentes (O Evangelho de João e Apocalipse); ajudando o pesquisador a classificar as obras por afinidade e estudá-las de forma agrupada ou em separado.

    5. A cultura: Cada autor viveu em determinada comunidade, de um específico local, em uma limitada faixa de tempo, possuía um público-alvo definido e partilhava de alguma tradição literária precedente e a de então. Atribuir a ele algo que destoe das circunstâncias que em que viveu é, no mínimo, temerário. Por exemplo, enxergar reencarnação em Ex 20:5 não faz sentido ao se levar em conta que Êxodo foi escrito numa época em que até mesmo o conceito de pós-morte era nebuloso no judaísmo.

    Talvez o leitor possa questionar se não há certa circularidade na busca pelo “contexto”, afinal usamos palavras para definir outras, frases para entender outras e manifestações culturais para situar uma específica. Sim, há sempre algum grau de circularidade, mas é possível escapar disso cruzando dados entre os diversos níveis acima e rejeitando as hipóteses de contexto destoantes. Por exemplo, ainda que se insista em amenizar Ex 20:5 com uma interpretação reencarnacionista, alegando que o justo não deve pagar pelo pecador, há várias outras passagens no Antigo Testamento de punições hereditárias (embora algumas as neguem) e o Pentateuco está cheio de penas capitais e passagens indigestas aos olhos contemporâneos. Como é difícil suavizar tanta coisa, melhor considerar Ex 20:5 como mais uma dessas passagens ásperas.

    Há algum grau de subjetividade na busca pelo contexto? Sem dúvida! Mesmo assim é a melhor maneira de analisar algo que, de outra seria pior. Ou será que preferes criar teu próprio contexto particular e buscar na Escritura só aquilo que o corrobora? Cristãos fizeram isso com o Antigo Testamento, os gnóstico fizeram com o Novo e espíritas o fazem com os dois!

    Curiosamente, é não é incomum em discussões com devotos (católicos, evangélicos e espíritas) que os próprios tomarem a iniciativa de dizer: “isso deve ser contextualizado”. Concordo, lembrando apenas que tal contexto é o de dois mil anos atrás (ou mais). E ele não existe mais.[topo]

  10. A Bíblia NÃO é intérprete de si mesma: Agora muitos dos que fizeram cursos de teologia vão querer me matar, mas estou jogando fora a “regra de ouro” da Hermenêutica (A ciência/arte da interpretação bíblica). Concordo que o princípio de que a Bíblia é capaz de explicar a ela mesma – ou melhor, uma passagem obscura pode ser esclarecida por outra mais fácil e o simples contexto pode explicar muita coisa -, foi estabelecido com as melhores intenções. Entre elas, permitir aos teólogos realizar uma boa “exegese” (aplicação prática das regras da hermenêutica) e evitar a “eixegese” (pinçar na Bíblia passagens que corroboram ideias pré-concebidas). Mas não é assim que a coisa funciona na prática, pois se dermos exclusivamente uma Bíblia para um grupo de pessoas lerem, várias interpretações podem surgir conforme cada leitor. E não é para menos:

    • A Bíblia não é autossuficiente: O Antigo e o Novo Testamentos estão pontilhados de citações e referências a livros que ficaram de fora da Bíblia. Vários livros populares à época de Jesus (Enoque, Jubileus, etc.) também ficaram fora dela, mas o que eles diriam a respeitos dos interesses de seus primeiros leitores?

    • A Bíblia não é um bloco monolítico: A Bíblia abarca uma ampla faixa de tempo da literatura hebraica e a rápida ramificação que ocorreu no cristianismo após a morte de Jesus. São livros que podem ser agrupados por afinidades em “subcânons”. Não é bem provável que uma passagem de um “subcânon” elucide a de outro;

    • Contexto não é simplesmente texto: é preciso levar em conta para quem o autor escreveu e por quê.

    Se você acha que isso é balela e o uso adequado de alegorias resolve tudo, então me responda:

    • Você conseguiria com uma simples leitura de um texto entender qual o cerne da mensagem dele, qual seu ponto de inflexão, clímax, etc?

    • Uma simples passagem pode ser entendida sem levar em conta os temas tratados pelo autor?

    • Pode uma simples leitura identificar o que estaria ocorrendo nos bastidores da realidade em que viviam seus primeiros leitores?

    • Pode uma simples leitura de um texto lhe dizer qual foi o legado doutrinário que um autor recebeu ou em quais fontes ele se baseou?

    • Seria razoável desconsiderar informações auferidas de outras formas de literatura ou da arqueologia?

    Por esses e outros motivos foram elaborados os “métodos de interpretação”, para que pudéssemos descobrir qual era a intenção do autor e evitar que julguemos o passado com nossos olhos. São eles que separam um olhar de historiador daquele de um mero religioso.
    [topo]

  11. Usar alguma metodologia de interpretação: Caso se reúnam dez pessoas para interpretar algum texto relativamente longo, é provável que surjam dez interpretações diferentes, mesmo que a intenção do autor tenha sido uma só. Para balizar a busca por ela, foram desenvolvidos alguns métodos (cf. [Ehrman], cap. XII, p. 192):

    • Método Literário-histórico: busca estabelecer o gênero literário de uma obra (biografia, carta, narrativa histórico, apologia, etc.) e é útil para entender como aquele gênero “funcionava” no contexto histórico em que era usado (ex.: Evangelhos);

    • Método Redacional: analisa como um autor modificou suas fontes a fim de ver quais eram seus interesses ocultos;

    • Método Comparativo: Analisa as similaridades e diferenças entre duas obras, ignorante ao fato de se uma é fonte da outra, a fim de encontrar suas ênfases distintivas;

    • Método Temático: Determinas os principais temas de um livro e examina como esses temas são apresentados ao longo da narrativa ou da argumentação;

    • Método Sócio-histórico: Tenta reconstituir a história social que jaz por trás de um documento, tomando pistas do próprio texto – como o auxílio de outros métodos – e estabelecendo um conjunto plausível de circunstâncias históricas que possa explicá-las;

    • Método Contextual: É o reverso do anterior: usa a reconstruída história social da comunidade que jaz atrás do texto para estabelecer o contexto histórico do qual o autor fala, lançando luz sobre o significado do texto.

    [topo]

  12. Separar o “Jesus da fé” da “fé de Jesus”: Leia atentamente o Credo Apostólico:

    Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso,
    Criador do céu e da terra.
    E em Jesus Cristo,
    seu único Filho
    nosso Senhor.
    Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo,
    nasceu da Virgem Maria,
    padeceu sob Pôncio Pilatos,
    foi crucificado, morto e sepultado,
    desceu à mansão dos mortos,
    ressuscitou ao terceiro dia,
    subiu aos Céus
    está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso,
    donde há de vir julgar os vivos e mortos.
    Creio no Espírito Santo,
    na Santa Igreja Católica,
    na comunhão dos santos,
    na remissão dos pecados,
    na ressurreição da carne,
    na vida eterna.

    Pergunta: tirando Pôncio Pilatos e a crucifixão, o que do Credo pode ser considerado histórico?

    Resposta: Nada.

    O que temos aí é o Jesus paulino, o Jesus da fé, como ele é lembrado por seus seguidores. O que o Jesus de carne e osso realmente quis dizer sobre si e sua mensagem é que são o grande desafio do historiador. A ele, voltamos mais tarde. Por enquanto, informo que o Jesus “Governador do Planeta” é tão da fé quanto o nascimento virginal. Se você me vier com uma defesa envolvendo o suposto “Consenso Universal dos Espíritos”, então vejo-me no direito de exigir os dados estatísticos desse “Consenso” e os cuidados que tomaram para que não fosse um mero “falso positivo”. Como sei que você não os tem, volte quando refizerem a pesquisa de Kardec, de preferência envolvendo médiuns de todo o planeta. Vai que o governador é, na verdade, Buda?
    [topo]

  13. O que Jesus disse é diferente do que escreveram que ele disse: Assim como, existiram alterações nos textos bíblicos após sua redação, nada impede que outras alterações tenham ocorrido antes de ela ser feita. Que digam discrepâncias entre as bem-aventuranças de Mateus e Lucas e suas versões do Pai Nosso. Para ser mais sincero, o quadro pode ser bem desolador: 82% das palavras de Jesus nos evangelhos pode ser considerado material duvidoso ou espúrio, pelo menos segundo os estudiosos do Jesus Seminar em sua obra The Five Gospels (os canônicos e Tomé). Seus critérios para descartar esse ou aquele dito são:
    • Indícios de plágio pelos evangelistas: Por exemplo: o aforismo “Não necessitam de médico os sãos, mas sim os enfermos” (Mt 9:12) é encontrado também na literatura pagã.
    • Linguajar cristão antes do cristianismo: A frase “Se alguém quiser me seguir, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16:24) está mais para uma justificativa para sua crucifixão por parte de Mateus.
    • Falas extremamente longas: É muito duvidoso que uma tradição oral pudesse preservar tão bem exposições complexas.
    • Falas de Jesus a respeito de si mesmo: O evangelista provavelmente colocou na boca de Jesus o que sua comunidade achava que ele era. É o Jesus da fé, não a fé de Jesus.
    • Texto em conformidade com seus tecido social:Não é o discípulo mais do que o seu mestre, nem o servo mais do que o seu senhor” (Mt 10:25, cf. Lc 6:40). Se Jesus histórico fosse tão enquadrado, não teria sido crucificado.
    • Textos destoantes do contexto em que Jesus viveu: Todos os ditos de Tomé com viés gnóstico, pois a inserção do gnosticismo em grupos cristão foi tardia.

    Quem mais sai perdendo nesses critérios é João, com seus longos discursos e seus vários “Eu sou“. Quase nenhuma das falas de Jesus desse evangelho pode ser atribuída à personagem histórica, inclusive o versículo 14:26. Os sinópticos e metade dos ditos de Tomé se saem melhor por seu conteúdo atender mais aos critérios de “declarações de maior probabilidade”:

    • Parábolas e aforismos: Porque, em geral, são curtos e mais fáceis de memorizar.
    • Ditos que apareçam em mais de uma fonte: O famoso critério da “múltipla atestação”. Neste caso, os ditos não-gnósticos de Tomé revelam surpreendente valor, pois são uma fonte independente dos sinópticos.
    • Frases difíceis ou constrangedoras: Ensinos de difícil execução – como “dar a outra face” (Mt 5:39) devem retroceder a Jesus, pois a tendência natural é suavizá-los.
    • Frases que cortem o tecido social e religioso de sua época: Jesus de forma alguma incomodaria o status quo se não o fizesse. Se ajustam nesse critério as parábolas do “bom samaritano” (Lc 10:30-35) e “o fariseu e o coletor de impostos” (Lc 18:10-14), pois nelas indivíduos desprezados fariseus (tidos como a nata da devoção judaica da época) aparecem em melhor condição que eles.
    • Ditos de grande originalidade e alto impacto devem ter sido de Jesus: O famoso “Dai a César o que é de César e dai a Deus o que é de Deus” (mt 22:21) é tido como autêntico de Jesus.

    Há, além disso, a questão dos ditos de Jesus que se repetem entre os evangelhos, mas não de forma igual. Para decidir qual é o preferível, há algumas pedras de toque, como:

    • Os evangelistas tendiam a suavizar passagens difíceis: O aforismo de Marcos “muitos dos primeiros serão os últimos e dos últimos muitos serão os primeiros” (Mc 10:31) é uma versão mais suave do fecho da parábola dos trabalhadores na vinha: “os últimos serão os primeiros e os primeiros, os últimos” (Mt 20:16). O tratamento de Marcos pode deixar o aforismo mais palatável a nossa experiência cotidiana, mas justamente por isso fica menos provável de ter sido original de Jesus, que preferiria chocar o público ao reverter o tratamento esperado.
    • Os evangelistas tendiam a expandir textos para explicá-los e adaptá-los a sua teologia: Por exemplo, veja Mt 11:12-15

      E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele. Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

      Compare com Lc 16:16

      A lei e os profetas duraram até João; desde então é anunciado o reino de Deus, e todo o homem emprega força para entrar nele.

      Ambos falam de João Batista como último profeta antes da chegada do Reino de Deus e da violência usada para se chegar a ele. A ordem de um está invertida em relação outro e, como não há terceira fonte para comparação, não é possível precisar o dito original. A questão é o trecho destacado sobre a identidade de João Batista com Elias, que possui o tremendo cheiro de uma glosa posterior (oral ou escrita) que entrou no texto principal. E é bem provável que tenha sido isso mesmo, pois a ênfase toda de Mateus é apresentar Jesus como o Messias esperado, adequando sua vida às profecias messiânicas. No caso, precursão de Elias dita em Mt 11:10, em referência a Ml 3:1.

    • São preferíveis as variantes com as quais seus primeiros ouvintes mais se identificariam: Na oração do Pai Nosso (Lc 11:2-4/ Mt 6:9-13), Lucas transcreve “perdoai os nossos pecados“, enquanto Mateus pede o perdão de dívidas. Para um povo pobre e oprimido por coletores de impostos, qual versão o leitor acha que eles associariam mais a sua realidade?

    Informa-se que há mais critérios de aceitação ou rejeição em Five Gospels, estando aqui apenas uma amostra. Também se deixa claro que esses critérios dependem de que tipo de Jesus se tenha em mente. O Jesus Seminar rejeita Jesus como profeta apocalíptico e, com isso, todas as passagens com esse viés (Marcos, principalmente) são dadas como pertencentes ao evangelista em questão, não a Jesus. [topo]

  14. As duas tradições evangélicas: Pode-se dividir os evangelhos em dois grandes grupos: os sinópticos, que admitem um resumo (sinopse) comum entre eles, e João. As diferenças na forma como esses dois conjuntos retratam Jesus chegam a ser gritantes:
    Sinópticos João
    • Começa com João Batista ou histórias da natividade e infância.
    • Jesus é batizado por João.
    • Jesus fala em parábolas e aforismos.
    • Jesus é um sábio.
    • Jesus é um exorcista.
    • O Reino de Deus é o tema de seus ensinos.
    • Jesus fala pouco de si mesmo.
    • Jesus toma partido dos pobres e oprimidos.
    • O Ministério público de Jesus dura um ano.
    • O incidente do Templo é tardio.
    • Jesus toma a Última Ceia com seus discípulos
    • Viés apocalíptico forte ou mediano.
    • Baixa cristologia (Jesus humano).
    • Começa com a criação. Nenhum registro sobre nascimento ou infância.
    • O batismo de Jesus é pressuposto.
    • Jesus fala em longos e elaborados discursos.
    • Jesus é um místico.
    • Jesus não faz exorcismos.
    • O próprio Jesus é o tema de seus ensinamentos.
    • Jesus reflete extensamente sobre si e sua missão
    • Jesus tem pouco a dizer sobre os pobres e oprimidos.
    • O ministério público dura dois anos.
    • O incidente do Templo ocorre cedo.
    • Lavagem dos pés e “Discurso de Despedida” no lugar da Última Ceia.
    • Ausência de escatologia.
    • Baixa e alta cristologia (Jesus divino).

    São duas visões de Jesus inconciliáveis do ponto de vista histórico, um impasse que é resolvido ao se lembrar que o valor de João como fonte histórica é consideravelmente menor que o dos sinópticos. A regra geral é algo como “quanto mais místico, menos histórico é o Jesus”. A ortodoxia cristã, porém, quis ambos. O resultado foi uma intrincada teologia capaz de abranger um amplo leque de cristianismos do século II. Mas todo esse ecletismo teve de uma desvantagem o deixar a ortodoxia vulnerável ao ataque de outros grupos cristãos de doutrina mais simples. Uma demonstração moderna disso é encontrada nas discussões acerca da Trindade, quando católicos e evangélicos ressaltam o caráter divino de Jesus contido em João e grupos unitaristas – espíritas e Testemunhas de Jeová – centram-se no aspecto humano contido nos sinópticos. Situação oposta ocorre quando se trata da ressurreição, sendo a vez de os espíritas realçarem a valorização que o evangelho de João faz do “Espírito”, ao passo que a maioria das demais denominações cristãs enfatiza a restauração corporal dos sinópticos e de Paulo.
    De certa maneira, essa atitude consiste em “jogar com os evangelhos”, conforme a conveniência. Para evitar isso, um evangelho, ou melhor, qualquer livro da Bíblia não será usado para o entendimento de outro sem que se verifique se pertencem a tradições similares. [topo]

  15. Resolva o quebra-cabeça sinóptico: Quem quer leia os três primeiros evangelhos na ordem em que são tradicionalmente publicados nas Bíblia, logo de cara poderá ter a impressão que Marcos não passa de uma condensação de Mateus e Lucas parece uma versão editada dele. Como esses três contam essencialmente a mesma história, é possível lê-los de outra forma: em paralelo. Essa nova abordagem revela alguns fatos interessantes:
    • Quase tudo que aparece em Marcos, também aparece em Mateus e Lucas, ainda que não literalmente.
    • Em geral, quando Lucas destoa de Marcos, Mateus concorda.
    • Da mesma forma, quando Mateus destoa de Marcos, Mateus concorda
    • Quando tanto Mateus e Lucas destoam de Marcos, raramente ambos concordam entre si.
    • Há passagens exclusivas de Mateus.
    • Outras são exclusivas de Lucas.
    • Há um grande conjunto de passagens que são comuns tanto a Mateus e Lucas (as bem-aventuranças, o Pai Nosso, etc.), coincidindo, às vezes, palavra a palavra.

    Uma solução proposta para esse intrincado relacionamento e muito aceita entre os acadêmicos é a seguinte:

    • Marcos precedeu Lucas e Mateus, tendo sido usado para construir o fio narrativo deles. A pedra de toque para isso é que quando ambos destoam de Marcos, raramente o fazem igual, mostrando que os evangelistas agiram de forma independente em cima de uma fonte comum (Marcos). Outras vezes apenas um decidia alterar enquanto o outro mantinha a redação original de Marcos. Qualquer outro arranjo entre os três sinópticos não consegue explicar com tanta praticidade esses fatos.
    • Teria existido um documento, tecnicamente de chamado de “Q” (do alemão Quelle, “fonte”), que foi usado por Mateus e Lucas para a redação de seus evangelhos. Q não teria nenhum fio narrativo, mas um apanhado de ditos e feitos atribuídos a Jesus que foram independentemente encaixados dentro da narrativa de Marcos.
    • Existiu uma fonte oral ou escrita para as passagens exclusivas de Mateus (M) e outra para as de exclusivas de Lucas (L)

    Lucas, na introdução de seu evangelho (Lc 1:1-4), já dava a entender que trabalhou em cima de material legado. Aqueles que se debruçaram sobre o relacionamento entre seu evangelho e os outros dois sinópticos identificaram ao menos duas dessas fontes – Marcos e Q – também usadas por Mateus. Isso é crucial, pois permite saber onde e como esses evangelistas modificaram seus predecessores e cogitar o porquê.

    Hipótese das quatro fontes.

    Hipótese das quatro fontes.

    Não se pode deixar de comentar as controvérsias acerca de Q. A principal delas é o fato de ele, até o presente momento, ser apenas hipotético. Sua existência foi pressuposta no século XIX a partir da leitura em paralelo dos sinóptico, mas nenhum documento foi achado até agora. Isso gerou certo ceticismo quanto a existência de um evangelho formado quase todo por fragmentos soltos. Uma reviravolta, porém, ocorreu em 1945 com a descoberta da biblioteca gnóstica de Nag Hammadi, no Egito. Um de seus livros era justamente um evangelho de ditos – Tomé – muitos deles com similares nos sinópticos. Isso aumentou em muito a confiança na hipótese de Q. A seu favor também está a concordância literal em algumas das passagens comuns entre Lucas e Mateus (Mt 6:24/Lc 16:13, Mt 7:7–8/Lc 11:9–10), algo difícil de ocorrer se trabalhassem com tradição oral. Outro problema é saber exatamente o que estava em Q. Será a interseção entre Lucas e Mateus tudo de Q ou algo ficou de fora? Não seriam as fontes M e L partes de Q usadas por apenas um evangelista e descartadas pelo outro? Teria Q tido uma narrativa da Paixão? Essas são perguntas sem resposta enquanto não se encontrar um manuscrito de Q, embora ainda haja quem tente reconstruí-lo com precisão.


    * * *

  16. Parecidos, mas não idênticos:

    Embora tenham uma forte dependência entre si e vários pontos em comum, cada evangelho sinóptico mostra uma face diferente para Jesus, a saber:

    • Marcos: Jesus é apresentado como “Filho de Deus” no sentido judaico da palavra: um humano com uma relação íntima com Deus, capacitado por Ele para pregar sua Palavra e realizar milagres. Contundo, Jesus foi incompreendido por seu povo, que não o identificou prontamente (Mc 8:28) e combatido pelos líderes dele. O ponto de inflexão da narrativa é a cura de um cego em duas etapas (Mc 22-25), inicialmente ele vê as pessoas distorcidas (árvores ambulantes) e só depois de uma segunda intervenção enxerga plenamente. Como uma analogia, é a partir daí que os discípulos começam a ter um entendimento de sua missão (Mc 8:28), mas não com clareza (Mc 8:32-33). Só no último capítulo é que alguém diz exatamente o que ele é e, por sinal, foi um pagão (Mc 15:39), deixando a entender que são os gentios os que realmente compreenderam Jesus. O rasgo do véu do Templo (Mc 15:38) simboliza o fim da separação entre o altar do sacrifício e o mundo exterior, pois Jesus fora a imolação definitiva, como ele mesmo alegara (Mc 8:31) ser necessário. O sofrimento da paixão de Jesus, para esse evangelho, foi o que trouxe a salvação à humanidade.

      Outro aspecto peculiar de Marcos é o famoso “segredo messiânico”: Embora a identificação de Jesus como “Filho de Deus” apareça logo de cara (1:1), ao longo da narrativa Jesus parece se esforçar para manter em segredo sua identidade (1:34, 1;43, 3:12, 5:43): demônios são impedidos de expô-lo, os beneficiados dos milagres devem manter segredo sobre Jesus e até seus discípulos, quando um o identifica, devem guardar a informação consigo (8:30). É um contraste grande com o Jesus de João, que não faz apenas milagres, mas espetáculos. O que teria levado Marcos a retratar Jesus assim? A mais polêmica resposta dada foi feita pelo estudioso alemão William Wrede: O Jesus histórico jamais se proclamou Messias e como essa alegação teria surgido apenas após sua morte, Marcos inventou histórias que justificassem um sigilo em vida. Um explicação mais amena é que Jesus preferiu se ocultar para que não fizessem um juízo errôneo dele, já que não era um grande príncipe ou o guerreiro cósmico esperado pela massa dos judeus. É uma discussão ainda em aberto e com muito “pano para manga”.

    • Mateus: É o mais judaico dos evangelhos e sua ênfase está em (1) mostrar a vinda de Jesus como um fiel cumprimento das profecias messiânicas (um novo “Moisés”, nascido de virgem, precedido por “Elias”) e (2) seus ensinos centram-se em mostrar qual seria a verdadeira aplicação da lei mosaica. Ao contrário do que se pensa, o Jesus de Mateus de forma alguma veio abolir a Lei:

      Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido.
      Mateus 5:17-18 (Sermão da Montanha)

      A diferença básica é que os seguidores de Jesus deveriam cumprir a Lei de uma forma ainda melhor que a preconizada pelos fariseus e outros “doutos” (Mt 5:20). Subjacente a cada mandamento, haveria algo mais profundo e essencial da Lei, Isso fica patente nas chamadas “antíteses” do Sermão da Montanha, por exemplo:

      Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo.

      Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno.
      Mateus 5:21-22

      Se a verdadeira causa do assassínio era o ódio, não se deve apenas se conter para não matar, mas sim combater esse sentimento negativo. De forma análoga:

      Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério.

      Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.
      Mateus 5:27-28

      No caso, deve-se eliminar a cobiça.
      Todos esses princípios podem ser condensados numa única “Regra de Ouro”, estabelecida no mesmo Sermão:

      Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas.
      Mateus 7:12

      Talvez o leitor já esteja pensando: “nada disso é caracteristicamente judaico”. De fato, um gentio pode muito bem concordar com tais princípios de vida, o que não significa que eles seja acréscimo a Marcos feito por um cristão helênico. Na verdade, houve outros rabinos do mesmo período – como Hiliel – que propuseram fórmulas similares à Regra de Ouro. Se Jesus teve correspondentes quanto à parte ética do judaísmo intertestamental, estaria ele também de acordo com seu aspecto ritual, isto é, as práticas que realmente distinguem os judeus de outros povos como a circuncisão masculina, alimentação kosher ou a guarda do sábado? O Jesus de Mateus, sim, parece se preocupar. Principalmente se comparado ao de Marcos. Eis duas “pedras de toque”:

      1. No famoso dito “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem” (Mc 715/Mt 15:11), apenas Marcos coloca como adendo uma explicação de Jesus em que ele afirma que todos os alimentos acabam se “tornando puros” (Mc 7:19);
      2. Em seu “Pequeno Apocalipse”, o Jesus de Marcos lança um alerta: “Orai, pois, para que a vossa fuga não suceda no inverno.“. Mateus acrescenta “nem no sábado” (Mt 24:20).

      Não é possível, contudo, saber se a versão que temos hoje de Marcos foi editada por cristãos helênicos ou se Mateus judaizou Marcos.

      Vale ressaltar que Mateus não era refratário a ideia de gentios também partilharem da salvação e é provável que a comunidade marcana fosse mista, como sugerem as passagens da cura de um servo de um centurião (Mt 8:5-13) e a ordem para fazer discípulos de “todas as nações” (Mt 28:19). O que não se pode decidir é se esses prosélitos gentios deveriam também se tornar judeus ou se estariam dispensados disso, como Lucas deixou claro em Atos (a continuação de seu evangelho) ou ficou implícito em Marcos.

    • Lucas: Não é possível entender a mensagem Lucas sem levar em conta seu “segundo volume”: Atos dos Apóstolos. Ambas são dedicadas ao mesmo patrono(Teófilo), possuem o mesmo estilo e um único objetivo: mostrar como a salvação começou com os judeus e se espalhou para todo o mundo. A ênfase inicial de Lucas está em mostrar o Templo de Jerusalém – o centro da fé judaica – como ponto de partida da salvação. É nele que a narrativa começa e termina, onde Jesus sofre a última das tentações (diferentemente de Mateus) e para lá se dirige por longos dez capítulos (9 ao 19), em vez da rápida viagem de Marcos (apenas o décimo capítulo). Contudo, a salvação vai ao coração do judaísmo apenas para lá ser rejeitada, pois o Jesus de Lucas reproduz muito da trajetória de profetas como Elias, Eliseu, Jeremias, Ezequiel e Amós, que tiveram sua mensagem rejeitadas pelos seus, tendo alguns sido martirizados. Neste evangelho a missão de Jesus consiste em nascer, viver, pregar, curar, sofrer e morrer como muitos desses profetas. Mas toda essa história de rejeição faz parte do “plano” ou “vontade” de Deus (4:43, 13:33, 22:37, 24:7, 26, 44). A certeza dessa tarefa faz com que, durante a paixão, Jesus tenha uma postura confiante ante à execração pública e morte iminente; algo bem diferente do que acontece em Marcos, em que Jesus aparenta estar em “estado de choque” a maior parte do tempo ante um contexto inteiro de desamparo. Para Lucas, a morte de Jesus não é o que traz salvação. Em seu evangelho o véu do Templo não se rasga, nem há frases como “o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (Mc 10:45, Mt 20:28) e centurião proclama “Na verdade, este homem era justo” (23:47) em de “Filho de Deus” (Mc 15:39).
      O verdadeiro motor da salvação só fica explícito em Atos em passagens como o discurso evangelístico de Pedro (At 2:30-41), quando é revelado que o principal pecado foi a assassínio do profeta de Deus. A ciência desse crime seguido pelo arrependimento é o que faz os homens se voltarem a Deus que, pela confissão de suas culpas, retribui com a absolvição dos pecados. Não foi a simples morte de Jesus que trouxe a salvação, mas o arrependimento que ela proporcionou. Óbvio que essa mensagem não foi aceita por todos os judeus, pois o messias esperado era diferente da figura de Jesus. De certa forma, então, os discípulos de Jesus reproduzem sua trajetória: recebem o Espírito Santo, pregam, curam, convertem, são rejeitados e perseguidos; mas a “boa nova” continua a se expandir conforme o mandamento de Lc 24:47 para que “e em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém “. No que diz respeito às “nações” (i.e., os gentios) entra em cena a figura de Paulo de Tarso, ex-perseguidor de cristãos, que converte-se após ter uma visão do próprio Jesus e torna-se um pregador infatigável no mundo helênico. A maior parte de Atos centra-se em sua trajetória e seu maior feito foi o de chegar a um consenso com os apóstolos originais de que os gentios não precisariam se tornar judeus antes de serem cristãos. Essa era uma questão em que Mateus foi omisso e Marcos superficial, mas Lucas, em seu segundo volume, foi categórico e a decisão supostamente tomada permitiu uma expansão muito mais ampla do cristianismo nascente no mundo greco-romano, que considerava estranhos muitos costumes judaicos.

      A necessidade de se pregar o evangelho ao mundo levou à mudança de expectativa quanto à chegada do “Reino de Deus”. Lucas também vê um final cataclísmico para o mundo tal como conheciam (21:7-32), mas sua data começou a ficar incerta. Embora tenha dito que aquela geração não passaria sem a vinda do cósmico Filho do Homem (21:32), não seria um acontecimento tão imediato como em Marcos, que assegurou ao próprio sumo sacerdote que ele veria “o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu ” (Mc 14:62). Em Lucas, a fala de Jesus é simplesmente que “desde agora o Filho do homem se assentará à direita do poder de Deus” (22:69), não há previsão alguma de que os anciãos presenciariam o fim daquela Era. Há de se compreender que o adiamento da Consumação Final é necessário no contexto criado por Lucas, a fim de que houvesse tempo para pregar o evangelho “à todas as nações”. Um corolário dessa foi uma maior preocupação “social” do Jesus de Lucas, enquanto o status quo não mudasse. Por exemplo, compare a maneira como as Bem Aventuranças em Mateus e Lucas:

      Mateus Lucas
      • Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. (5:3)
      • Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; (5:6)
      • Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. (6:20)
      • Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. (6:21)
      • Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. (6:24)
      • Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. (6:25)

      Para Mateus, os sofrimentos são mais morais que físicos e Lucas não se preocupa em apenas consolar os que sofrem: também é preciso punir os que agora vivem na abundância.

    * * *

    Ressalto um pormenor importante: todos os três reconhecem Jesus como judeu, profeta, messias e admitem a possibilidade de salvação para os gentios. O que os diferem é a ênfase que cada um dá.
    [topo]

  17. Outras fontes: Outros dois evangelhos a nos fornecer algum material de relevância sobre o que Jesus fez e/ou disse são os de João e Tomé. De certa forma, eles são complementares: quase nenhuma das falas de João pode ser considerada histórica, embora fatos nele relatados tenham paralelos nos sinópticos. Tomé não possui fio narrativo algum, sendo composto de 114 ditos atribuídos a Jesus. Metade deles aparenta ter cunho gnóstico, enquanto a outra metade possui análogos nos sinópticos, servindo de base para comparação. Não temos acesso explícito a nenhuma das fontes que os compuseram, mas algumas pistas deixadas entranhadas na redação deles poderão fornecer alguns vislumbres à pesquisa moderna. Vejamos cada um desses evangelhos:
    • Tomé: Quanto aos ditos gnósticos de Tomé, pegue o dito nº18 como exemplo:

      Os discípulos disseram a Jesus: “Diz-nos como será o nosso fim”. Jesus lhes disse: “Descobristes então o princípio para que possais perguntar sobre o fim? Bendito aquele que se mantiver no princípio, pois não provará a morte”.

      Ler esse dito sem nenhuma outra referência dá margem a uma miríade de interpretações, cada uma ao gosto do esoterismo que esteja em voga. Para se escapar da armadilhas dos “achismos”, deve-se ter em mente os princípios que norteavam os diversos sistemas gnósticos dos séculos II e III. Um deles é o estado perfeição original que existia antes do cataclismo que levou à queda da centelhas divinas e à criação do maligno mundo material. Escapar deste mundo e retornar “ao princípio” era a meta de um gnóstico. A maioria desse ditos exóticos só ganha um nexo quando enquadrada no gnosticismo.

      Acontece que o gnosticismo foi uma doutrina tardia dentro do cristianismo. Os ditos de Tomé com esse viés não têm valor histórico. Restam aqueles que possuem semelhança com outros dos evangelhos sinópticos, mas daí vem uma dúvida Tomé baseou-se nos canônicos (ou em Q) ou foi uma tradição oral registrada independentemente?

      Tomé chegou quase completo até nós numa tradução copta (a língua popular do Egito na época), descoberta na biblioteca de Nag Hammadi (1947). Antes disso, já se conheciam dezessete ditos dele em grego, a partir de fragmentos de papiro encontrados na cidade egípcia de Bechnesa, antiga Oxyrhynchus. A parte não gnóstica dos “papiros de Oxyrhynchus”, não revela uma correspondência literal com os canônicos, tal como há em Mateus e Lucas nos trechos extraídos de Q. Além disso, os ditos de Q aparentam ser versões mais curtas das passagens sinópticas. Como, em geral, os textos tendem ao crescimento quando passados de mão em mão, isso levanta a indagação: teria o autor de Tomé se baseado numa fonte não só distinta, como também mais antiga que as dos sinópticos?

      Toda dúvida reside na validade do princípio de “o texto mais curto é o melhor”. Há quem critique a aplicação dele com relação a Tomé (John P. Meier, Um Judeu Marginal, vol I, 3ª ed., cap V, pp. 130-5), pois a intenção de seu autor poderia muito bem ter sido mutilar os textos mais amplos para deixá-los enigmáticos, conforme o gosto gnóstico. Pode até ser, mas alguns ditos encontrados em Tomé mereciam certa reflexão. Confira:

      Tomé Sinópticos
      • Os discípulos disseram a Jesus: “Diz-nos com que se parece o Reino dos Céus”. Ele lhes disse: “É como a semente da mostarda, a menor de todas as sementes. Mas quando ela cai na terra arada, produz grandes galhos e se torna abrigo para os pássaros dos céu”. (Dito 20)
      • Ele disse: “O homem é como o pescador sábio que joga sua rede ao mar, e a puxa cheia de pequenos peixes; no meio deles, acha um peixe tão grande e bom que o pescador sábio devolve ao mar todos os pequenos peixes, escolhe o peixe grande sem remorsos. Quem tem ouvidos que ouça”. (Dito 8)
      • Disse Jesus: “Se um cego guia outro cego, ambos caem no abismo”. (Dito 34)
      • E dizia: A que assemelharemos o reino de Deus? ou com que parábola o representaremos? É como um grão de mostarda, que, quando se semeia na terra, é a menor de todas as sementes que há na terra. Mas, tendo sido semeado, cresce; e faz-se a maior de todas as hortaliças, e cria grandes ramos, de tal maneira que as aves do céu podem aninhar-se debaixo da sua sombra. (Mc 4:30-32)
      • Igualmente o reino dos céus é semelhante a uma rede lançada ao mar, e que apanha toda a qualidade de peixes. E, estando cheia, a puxam para a praia; e, assentando-se, apanham para os cestos os bons; os ruins, porém, lançam fora. Assim será na consumação dos séculos: virão os anjos, e separarão os maus de entre os justos, e lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. (Mt 13:47-50)
      • E dizia-lhes uma parábola: Pode porventura o cego guiar o cego? Não cairão ambos na cova? (Lc 6:39; compare com Mt 15:14, que é um pouquinho maior)
    • João:Ao fim do penúltimo capítulo desse evangelho, seu autor avisa:

      Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome. (Jo 20:30-31)

      Ele, implicitamente, assume que fez uma coletânea de material legado. Não é tão direto, como nos sinópticos, identificar quais foram suas fontes, mas variações de estilo ao longo de João permitem, ao menos, catalogar quais foram elas:

      • Um Hino à Jesus: O famoso “prólogo de João” (Jo 1:1-18), quando removido de suas referências a João Batista (vv 6-8, 15), ganha um interessante formato:

        No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

        Ele estava no princípio com Deus.

        Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

        Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.

        E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

        Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo.

        Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu.

        Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.

        Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome;

        Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.

        E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

        E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça.

        Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.

        Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.

        É nítido um padrão poético nessa passagem. Ouvir uma gravação dela em grego, mesmo com as referências ao “batista” quebrando o ritmo, é algo que me enternece. Ela provavelmente foi um antigo hino de louvor que recebeu glosas posteriormente.

      • Uma fonte de Sinais: São sete o total de sinais (entenda-se “milagres públicos”) relatados em João (das bodas de Caná à ressurreição de Lázaro). Pode ser mera coincidência, mas “sete” também é considerado como o “número de Deus” na Bíblia (o dia de descanso, o ano do jubileu, etc.). O que chama atenção é que os dois primeiros sinais são numerados (2:11 e 4:54) e os demais, por algum motivo, não. E por um lapso do autor, há uma indicação de que Jesus realizou mais sinais entre esses dois (2:23). É possível que o autor de João tivesse um livro missionário contendo longa enumeração de feitos miraculosos atribuídos a Jesus e selecionado sete dos mais chamativos.
      • Fontes de discurso Há uma redundância entre os capítulos 13 e 15, pertencentes ao “Discurso de Despedida”: Jesus ordena que os discípulos sem amem uns aos outros (13:34 e 15:9,12). Entre os capítulos 14 e 16 as repetições aumentam: em ambos Jesus diz que partiria deste mundo em pouco tempo, mas que seus discípulos não deveriam se preocupar porque viria o Consolador/Espírito Santo em seu lugar. Seu discípulos seriam odiados pelos mundo, mas também gozariam de instrução e encorajamento desse Espírito entre eles. Poderia ter sido apenas uma questão de ênfase, diriam alguns se não fosse uma senhora discrepância. No capítulo 13, Pedro indagou a Jesus “Senhor, para onde vais?” (13:36) e no capítulo seguinte foi a vez de Tomé dizer ““Senhor, não sabemos para onde vais ” (14:5). Um pouco mais tarde Jesus agiu como se tivesse problemas em fixar memórias recentes: ““E agora vou para aquele que me enviou; e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’“(16:5). A melhor explicação para esse quadro é a existência de duas fontes para o Discurso de Despedida, ambas muito similares nos temas tratados, mas díspares nos pormenores. Durante a edição de João, elas foram unidas sem que as incompatibilidades fossem sanadas. Talvez em respeito ao texto legado.

        Discurso de Despedida.

        As fontes para o Discurso de Despedida.

      • Uma narrativa da Paixão: A descrição feita por João da execução de Jesus é muito similar em vários aspectos a de Marcos. Não se sabe, porém, se ela deriva de uma fonte oral ou escrita.
      • Fontes menores: Além da origem do Prólogo, mencionada acima, o último capítulo de João também parece ter sido criado à parte. O penúltimo capítulo (o vigésimo) já poderia muito bem ser o encerramento do livro, mas se adicionou um capítulo extra como uma espécie de adendo para assinalar dois fatos importantes:
        1. A previsão do martírio de Pedro;
        2. A morte do “discípulo amado”.

        Esse último merece certa atenção. Atente ao diálogo entre o Jesus ressuscitado e Pedro:

        E Pedro, voltando-se, viu que o seguia aquele discípulo a quem Jesus amava, e que na ceia se recostara também sobre o seu peito, e que dissera: Senhor, quem é que te há de trair?

        Vendo Pedro a este, disse a Jesus: Senhor, e deste que será?

        Disse-lhe Jesus: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu.

        Divulgou-se, pois, entre os irmãos este dito, que aquele discípulo não havia de morrer. Jesus, porém, não lhe disse que não morreria, mas: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti?
        João 21:20-23

        Uma hipótese levantada entre os estudiosos é que a comunidade joanina originalmente acreditava que o retorno de Jesus no fim dos tempos se daria antes da morte desse anônimo “discípulo amado”. Como bem o sabem as Testemunhas de Jeová e os Adventistas do Sétimo Dia, uma previsão fracassada pode até não significar o fim de um movimento, mas diminui muito seu crédito. A forma final de João, com os devidos remendos, só ficou quase pronta após o martírio de Pedro e a morte do “discípulo amado”.

        “Quase” porque o episódio relatado em 7:53-8:12 (a “mulher adúltera”) não se encontra nos manuscritos mais antigos e melhores que chegaram até nós. Provavelmente se trata de um episódio que circulara oralmente por muito tempo até que um escriba o anotou marginalmente. Outros colocaram essa nota no texto principal e passaram adiante.

    • Estágios da comunidade Joanina: É preciso também levar em consideração de João é um amálgama de diversos registros de etapas diferentes da própria história de sua comunidade, a saber:
      1. Na Sinagoga: A comunidade joanina começou, evidentemente, como um grupo de judeus fiéis que acreditava ser Jesus o Messias esperado. No próprio evangelho de João, Jesus é chamado de “rabi”, “cordeiro de Deus” e “messias”, termos de ambientação judaica, pois seu público era judeu. Nas palavras de encerramento da chamada “fonte de sinais”:

        Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.

        Jo 20:30-31

        Ao que parece, essa fonte era uma coletânea para fins missionários, cujo o objetivo era convencer os judeus de que Jesus era o que esperavam. Não lhe são dados atributos divinos.

      2. Expulsa da Sinagoga: Há fatos no capítulo IX de João – o famigerado episódio sobre “o cego de nascença” – que não condizem com o esperado durante a vida de Jesus:

        Responderam os pais: Sabemos que ele é nosso filho e que nasceu cego.Mas não sabemos como ele pode ver agora ou quem lhe abriu os olhos. Perguntem a ele. Idade ele tem; falará por si mesmo. Seus pais disseram isso porque tinham medo dos judeus, pois estes já haviam decidido que, se alguém confessasse que Jesus era o Cristo, seria expulso da sinagoga.

        Jo 9:20-22

        Nem nos sinópticos, nem em Atos há relatos de expulsão dos cristãos das sinagogas durante a vida de Jesus ou bem no início da pregação do apóstolos. Os registros judaicos de expulsão de quem apontasse Jesus como Messias (ou qualquer outro) também são mais tardios. Então, o autor de João está narrando uma experiência vivida por sua comunidade, não por Jesus e seus discípulos.

      3. Contra a Sinagoga: Após a cisão do corpo principal do judaísmo, a comunidade joanina começou a desenvolver uma mentalidade de “nós contra eles”, levando a que a maioria das referências aos judeus fosse negativa, quando não francamente antissemita (cf. Jo 8:31-59). Começaram a ver Jesus não apenas como um portador da mensagem de Deus, mas a exclusiva corporificação dela, o Verbo do Pai. Como seu Verbo, ele existia desde o princípio, estando com Deus e sendo Deus, de alguma maneira. O judeus não teriam apenas rejeitado o Messias, mas seu próprio Deus. São nesses estágios tardios da comunidade joanina que aparecem o indícios de divinização de Jesus (o prólogo, 8:58, 10:30, etc).
  18. Considerar os “Cânons dentro do Cânon”:
    Boa parte das discrepâncias encontradas entre os livros bíblicos pode ser compreendida ao se levar em conta que eles foram escritos para públicos distintos. A própria ideia de “Cânon” – um conjunto definido de livros que abrangiam toda uma doutrina – não existia nos tempos de Jesus. Quem adentrasse uma sinagoga de então não encontraria a Tanach – a Bíblia Hebraica – em um lugar de destaque, mas um armário contendo vários rolos, um para cada livro. Quais deles seriam é algo que variava de seita para seita.

    O cristianismo, por sua vez, é herdeiro da Septuaginta, como é chamado um conjunto de traduções gregas de livros hebraicos. Como o mundo helênico já fazia a transição do rolo para o “códice”, a ideia de um cânon começou a se formar quando os componentes desse “texto recebido” (textus receptus) passaram a ser encadernados juntos. A formação cânon para o Novo Testamento é complexa e está fora do escopo aqui, mas pode-se dizer que o grupo que se tornou dominante no cristianismo a partir do século III – a proto-ortodoxia – realizou um grande apanhado das diversas tendências que existiam no cristianismo já no início do século II. Para ter uma noção das diversas ramificações que surgiram após a morte de Jesus, eis este esquemático:

    Evolução dos grupos cristãos.

    Desenvolvimento do cristianismo primitivo
    Adaptado de [Theissen, p.345].

    O entendimento dessas variantes no cristianismo do início do século II ajuda a explicar incompatibilidades como esta:

    E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano,

    E algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?

    Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.

    Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.
    Tg 2:15-18

    * * *

    Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus.

    Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.

    Não vem das obras, para que ninguém se glorie;

    Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.
    Ef 2:7-10

    São duas opiniões praticamente opostas sobre o papel das “boas obras”, reflexo da diversidade de “cristianismos” existente já no começo do século II. A proto-ortodoxia (ou protocatolicismo) rejeitou os extremos de judaísmo e de gnose, ficando ainda assim com muito para conciliar. Sua resposta foi exigir tanto fé como obras para a salvação, adotar uma interpretação alegórica do AT para justificar-se e amenizar passagens obsoletas ou questionáveis e deixar a data do segundo advento de Jesus indefinida, como prega o capítulo terceiro de 2 Pd. Todos os grupos autoproclamados cristãos modernos carregam a ênfase em um ou outro aspecto dos livros do NT. Os protestantes optam por uma religião predominantemente de salvação, subordinando as boas obras à fé. Os espíritas centram-se na ética e nas obras, não fazendo da fé em Jesus uma obrigação e não possuem escatologia alguma. Vale lembrar, também, os que tentam recriar o judeo-cristianismo e os neognósticos.

    Portanto, não é possível aceitar a tese de que “a essência de todas as religiões (cristãs) é a mesma”. Não o foi no passado e fazer isso no presente só é viável caso se pegue as semelhanças (cânon comum) e se desconsidere as imensas diferenças (particularidades de cada subcânon).

[Em construção]

  1. David
    8 de outubro de 2017 às 20:57

    Muito bom suas análises sobre a Bíblia, fui espírita desde minha infância até os 14 anos mais ou menos, quando me revoltei com esse doutrinamento. A verdade é que sempre participei ativamente das reuniões e fazia parte da evangelização infanto-juvenil até mesmo depois de não me considerar mais espírita (fiquei até os 18 anos na contra-mão de meu desejo). O primeiro livro que li da codificação foi o ESE, recomendado pelo dirigente da casa, eu gostava muito desse tipo de narrativa, nunca me dei ao trabalho de ler a Bíblia (não tenho vontade de ler), pois sempre achei que a doutrina tinha toda essa explicação. Desde criança tive contato com esses conceitos, tais como: reencarnação, erraticidade, perispírito, mediunidade, espírito de verdade, causa e efeito, diversos mundos habitados etc. etc. Isso era tão natural que hoje me arrependido por não ter acordado, sempre os acatei sem nunca questionar. O Espiritismo ensina seus adeptos a aceitarem um conjunto de princípios com base em sua “lógica”, a compreensão histórica é ínfima, e quando o tentam estabelecer algo do tipo o fazem com parcialidade notável e quase sempre com uma compreensão incompleta dos fatos. Não precisa nem falar sobre os aspectos científico e filosófico que ela tenta sustentar. Lembro que sempre era difícil para mim encarar a realidade com aquilo que tinha como ideal, nunca consegui entender a frase “eu/você sou/é espírito” que eles ensinavam a gente, quase sempre eu incorria no erro e dizia “eu tenho um espírito”. Não sei se sou um espírito ou um zumbi (será que existe diferença? Para o espiritismo, sim).

  2. Hudson Moraes
    19 de fevereiro de 2017 às 18:32

    De novo considerando o espiritismo como parte do cristianismo? Mas que coisa!

  3. 17 de agosto de 2014 às 19:35

    na antiguidade, ao justificar questões simples como o raio que atinge uma arvore ,criou-se a imagem de Deus, insatisfeito e cruel ,punindo os homens. hoje ainda existe essa imagem do Deus punitivo. pela obra se conhece o criador- essa imagem não pode ser correta frente a perfeição da vida a nossa volta.
    os espiritas tem defendido a existência de uma pureza doutrinaria que entrava o avanço da doutrina ,fazendo aparecer o que eles chamam de espiritualistas -,pessoas que tem a mente aberta a fatos novos.
    acho questionável uma doutrina se colocar na condição de terceira revelação . assumir a posse da razão é passa a ser fanatismo. para mim só existe uma única verdade que rege todo esse universo, cada pensamento é parte desse todo.
    as pessoas que iniciaram o espiritismo não eram espiritas , então existe a influencia de suas origens na doutrina- o bem e o mal .a punição de Deus.

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