Orígenes

8 de novembro de 2011 Deixe um comentário Go to comments

A Igreja Católica aceitava a reencarnação até o ano 553 da nossa era (…) Orígenes afirmava ser a doutrina do Carma e do renascimento uma doutrina cristã.

– Severino Celestino da Silva, Analisando as traduções bíblicas, cap. IX

Com estas palavras, Severino Celestino da Silva abre o tópico Os Cristãos daquele capítulo. Note que é a “Igreja Católica” a que ele se refere, não se está fazendo nenhuma menção grupos gnósticos, seitas sincréticas, heresias, etc. Bem, se a “ortodoxia” que daria origem ao catolicismo moderno já defendera a reencarnação até aquela data, nada mais natural que encontrássemos referências simpáticas a ela nos escritos de seus primeiros teólogos. Mas será?

O teólogo cristão do século III Orígenes, mencionado acima, não desconhecia tal doutrina, nem a metempsicose professadas por seitas orientais, mas não as aprovava. Dou aqui algumas pinceladas em obras de Orígenes que rejeitam a transmigração das almas em moldes pitagóricos e até modernos. Orígenes terá um tratamento à parte posteriormente, pois poucos Padres da Igreja têm sido tão mal citados como ele.

[As escrituras dizem] Eles então lhe perguntaram: “Quem és, então? Elias?” e ele disse: “Não sou” (Jo, 1:21). Não se pode deixar de lembrar a conexão disso com o que Jesus disse a respeito de Elias: “Se quiserdes dar crédito, ele é o Elias que deve vir“. (Mt 11:14). Como então João replica aos que lhe perguntaram: “És tu Elias?“Não sou“. (… ) Pode-se dizer que João não sabia que era Elias. Esta será a explicação para aqueles que encontraram nessa passagem sustentação para sua doutrina de transmigração, como se a alma fosse revestida em novo corpo e também não lembrasse das vidas anteriores (…) Entretanto, um membro da Igreja, que rejeita a doutrina da transmigração como falsa e não admite que a alma de João fosse a de Elias, pode se referir às palavras do anjo supracitadas e assinalar que não é a alma de Elias que é dita ao nascimento de João, mas o espírito e poder de Elias.

Comentário sobre o Evangelho de João, livro VI, cap VII

Quanto aos espíritos dos profetas, esses são dados por Deus e são considerados como, de certo modo, propriedades deles, como “Os espíritos dos profetas estão submissos aos profetas” (I Cor 14:32) e o “Espírito de Elias repousou sobre Eliseu” (2 Reis 2:15). Assim, diz-se, não há nada de absurdo supor que João, “no espírito e poder de Elias“, converteu o coração dos pais para os filhos (Lc 1:17) e foi por causa desse espírito que foi chamado de “o Elias que deve vir“.

Idem.

Se a doutrina [da transmigração] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias? E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença. Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento.

Idem.

Alguém pode dizer, porém, que Herodes e parte da população mantinham o falso dogma da transmigração de almas para os corpos, com a consequência de que eles pensassem que o antigo João apareceu outra vez devido a um novo nascimento e tinha vindo da morte para a vida como Jesus. Mas o tempo entre o nascimento de João e o de Jesus, que não foi mais que seis meses, não permite se dar crédito a esta falsa opinião. E talvez fosse melhor que outra ideia estivesse na mente de Herodes – os poderes que operaram com João tivessem passado para Jesus – fazendo que ele fosse visto pelo povo como João Batista. E pode-se usar a seguinte linha de raciocínio: apenas por causa do espírito e poder de Elias, não pela alma dele, que se diz de João: “Este é o Elias que deve vir“.

Comentário sobre Mateus, livro X, cap XX

Nesse ponto [a dentificação de João Batista com Elias em Mt 17:10-13], não me parece que se falava da alma de Elias, para que eu não caia na doutrina da transmigração, que é estranha à Igreja de Deus, não sendo ensinada pelos apóstolos, nem encontrada nas escrituras.

Comentário sobre Mateus Livro XIII, cap I

Mas se necessariamente os gregos, que introduziram a doutrina da transmigração, ajustando as coisas em harmonia com ela, não reconhecem que o mundo está se corrompendo; é adequado, que quando eles encararem diretamente a escritura, que declara de modo franco que o mundo perecerá, devem ou desacreditá-las ou inventar uma série de argumentos a respeito da interpretação das coisas referentes à consumação; que mesmo que desejem, não serão capazes de fazer.

Idem

Celso, portanto, não viu de modo algum a intenção de nossas Escrituras. Se tivesse compreendido o destino da alma na vida eterna futura, e o que sua essência e origem implicam, não teria criticado dessa forma a vida do ser imortal num corpo moral, explicada não segundo a teoria platônica da metensomatose, mas numa perspectiva mais elevada. Teria visto, ao contrário, uma descida extraordinária devido a um excesso de amor aos homens, visando reconduzir, conforme a expressão misteriosa da divina Escritura, “as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15:24), que desceram das montanhas, e para as quais o pastor de certas parábolas “desceu”, deixando nas montanhas as que não se tinham perdido (Mt 18:12-13, Lc 15:4s).

Contra Celsus, IV, 17

Entretanto, não admitimos, de modo algum, a metensomatose da alma nem sua queda em animais irracionais, e se por vezes nos abstemos de carne de animais, evidentemente não é pelo mesmo motivo de Pitágoras que nos privaremos dela. Pois sabemos honrar somente a alma racional e confiar com honra seu órgãos a uma sepultura honrada conforme os costumes estabelecidos.

Contra Celsus, VIII, 30

O assunto encerra uma profunda doutrina mística à qual se aplicam as palavras: “É bom manter o oculto o segredo do rei” (Tb 12, 7). Não devemos expor aos ouvidos profanos a doutrina sobre a entrada das almas no corpo que não se dá por metensomatose; não devemos dar aos cães as coisas sagradas, nem lançar as pérolas aos porcos (cf. Mt 7,6).

Contra Celsus, V, 29 – Note que ele rejeita a mudança da alma de um corpo para outro (metensomatose), mas sugere admitir sua pré-existência (entrada no corpo).

O desconhecimento das citadas obras de Orígenes tem levado a uma série de equívocos facilmente evitáveis por parte de apologistas espiritualistas. Léon Denis expõe nas notas num. 4 de seu “Cristianismo e Espiritismo” apenas a parte que lhe interessava de Orígenes, ele poderia ter dado o exemplo e não ter escondido fatos: Cita um resumo do abade Bérault-Bereastel sobre Orígenes que, de cara, erra ao afirmar que “as almas foram criadas simples, livres, ingênuas e inocentes por sua própria ignorância”, de estilo semelhante ao proposto pelos espíritas, em vez de racionais. Também não inclui as explanações do livro III de De Principiis, que privilegiam a pré-existência das almas em vez de reencarnação, nem faz menção a obras posteriores do teólogo alexandrino (Comentários sobre Mateus, João, Contra Celsus) que rejeitam a interpretação que ele quer. Já no século XX, certo autor fez uma curiosa citação:

Ele [Orígenes] chegou a tecer judiciosas ponderações sobre certos trechos da Escritura (…) que não teriam sentido sem admitir a preexistência da alma: “Se o nosso destino atual não era determinado pelas obras de nossas existências passadas, o que dizer de um Deus justo permitindo que o primogênito servisse ao mais jovem e fosse odiado, antes de haver cometido atos que merecessem a servidão e o ódio? Só as nossas vidas anteriores podem explicar a luta de Jacó e Esaú antes do seu nascimento, a eleição de Jeremias quando ainda estava no seio da mãe … e tantos outros fatos que atirarão o descrédito sobre a Justiça Divina, se não forem justificados ou praticados pelos atos bons ou maus cometidos em existências passadas” (Contra Celso, I, III, cit. por Mário C. Mello, em Como os Teólogos Refutam, pg. 153).

Andrade, Jayme; O Espiritismo e as Igreja Reformadas, editora EME, 4ª ed., cap. VII, parte 3

Tal citação não existe em Contra Celso, livro I, cap. III. Uma menção à superioridade de Jacó em relação a Esaú ainda no útero é encontrada em De Pricipiis, livro II, cap. IX. O texto real de Contra Celsus é:

Depois disto, Celsus prosseguindo a falar dos cristãos ensinando e praticando suas doutrinas favoritas em segredo e dizendo que eles fazem isto para, com alguma intenção, ver se escapam de uma pena de morte que é iminente; ele compara seus perigos com aqueles encontrados por homens tais como Sócrates pelo amor à filosofia; e aqui ele poderia ter citado Pitágoras também e outros filósofos. Mas nossa resposta com relação a isto é que, no caso de Sócrates, os atenienses se arrependeram imediatamente depois e nenhum sentimento de amargor permaneceu em suas mentes com relação a ele, bem como ocorreu na história de Pitágoras. Os seguidores do último, de fato, estabeleceram por um tempo considerável suas escolas numa parte da Itália chamada Magna Grécia; mas no caso dos cristãos, o Senado Romano, e o príncipe do momento, e a soldadesca, e o povo, e os parentes dos que se tornaram conversos à fé fazem guerra contra sua doutrina e teriam impedido seu (progresso), sobrepujando-a com uma aliança de natureza tão poderosa que, não fosse pela ajuda de Deus, não teria escapado do perigo e se erguido acima dele, a fim de (finalmente) derrotar o mundo em sua conspiração contra ela.

Orígenes, Contra Celsus, I,III

É um capítulo curto e não há nenhuma referência a Esaú e Jacó nele. A questão destes filhos de Rebeca é recorrente nas discussões entre ortodoxos e reencarnacionistas, porém a chave dela pode estar além de qualquer teologia. Numa visão laica, a diferença de tratamento entre estes dois gêmeos pode ser, na verdade, parte do mito nacional da criação de Israel e seus vizinhos, contidos na Gênese:

Deus diz a Rebeca, então grávida: “Duas nações estão em teu útero, e dos dois povos, nascidos de ti, serão divididos; um será mais forte que o outro, o mais velho deverá servir ao mais moço.” (Gen 25:23). Como os eventos se desenrolaram, aprendemos que Esaú é o mais velho e Jacó, o mais moço. Portanto a descrição dos dois irmãos fundadores de Edom e Israel, serve como legitimação para uma relação política entre duas nações nos tempos posteriores da monarquia. Jacó-Israel é sensível e educado, enquanto Esaú-Edom é bem primitivo, um caçador e um homem ao ar livre. Mas Edom não existe como entidade política até um período relativamente tardio.(…) A evidência arqueológica também é clara: a primeira onda de assentamento em larga escala em Edom, acompanhada pelo estabelecimento de grandes povoações e fortalezas, pode ter começado no final do século VIII a.C., mas alcançou o ápice apenas no século VII e no início do século VI a.C. Antes, portanto, a área era pouco povoada. (…) Assim, aqui também as histórias de Jacó e Esaú – filho delicado e poderoso caçador – são habilmente construídas como lendas arcaizantes, para refletir as rivalidades dos tempos monárquicos posteriores.

Finkelstein, Israel & Silberman, Neil Aser; A Bíblia não tinha razão, Ed. A Girafa, cap. I

Este “erro de citação” é até uma falha “menor”, digamos assim. Porém demonstra claramente que nem Andrade, nem sua fonte (Mello) se deram ao trabalho de ler Orígenes diretamente.

Agora, só para constar:

Orígenes é conhecido como um dos maiores sábios cristãos de todos os tempos. Foi praticamente o criador de nossa teologia cristã. E, como apenas 17 anos, foi reitor da Universidade de Alexandria, em substituição a São Clemente de Alexandria. E diga-se, de passagem, que Alexandria foi o maior centro intelectual do mundo, na época de Orígenes, século 3º.

José Reis Chaves, A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, cap. VI, 7ª ed., p. 203.

Se formos conferir o que nos diz o principal biógrafo de Orígenes, leremos algo um tanto diferente:

Orígenes ia completar dezoito anos quando foi posto à frete da escola catequética, momento em que, sob a perseguição do governador de Alexandria Aquila, realizava grandes progressos. Foi então também que seu nome se fez famoso entre todos a quem movia a fé, pela acolhida e solicitude que mostrava para com todos os santos mártires conhecidos e desconhecidos. [grifo meu]

Eusébio de Cesareia, A História Eclesiástica, VI, cap. 3, item 3

Não é demérito nenhum um garoto ser posto no comando de um cargo importante na comunidade cristã de então – a escola catequética. Indica que era reconhecido como um mestre pelos seus. Mas convenhamos que é uma posição bem mais modesta do que ser o reitor da pagã Universidade de Alexandria, que cobria uma gama bem maior de interesses e gente.

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