Início > II Concílio de Constantinopla > Cirilo de Citópolis – A Vida de Ciríaco

Cirilo de Citópolis – A Vida de Ciríaco

28 de dezembro de 2011
Agora será apresentado um capítulo (ou melhor, quatro em um) da vida deste monge em que ele dialoga com o futuro autor de sua hagiografia e dá informações a respeito do estágio em que se encontrava o origenismo de sua época.

Entre colchetes [ ] do corpo de texto, os códigos das folhas e linhas adotados na edição do texto grego feita por Eduard Schwartz em 1939, seguidos, às vezes, pelo ano correspondente à narrativa.

* * *

11-15 O primeiro encontro do autor com Ciríaco

11.Nesta época, tendo partido do mosteiro do grande Eutímio para o Grande Laura do abençoado Saba a fim de visitar Abba João, bispo e eremita, fui [229, 10] enviado por ele até Abba Ciríaco com cartas narrando a recente guerra civil na cidade santa e lhe implorando para agora lutar em intercessão com Deus para aplacar a fúria de Nono e Leôncio e seus partidários no Nova Laura, que faziam campanha contra Cristo por meio das doutrinas de Orígenes. [229, 15] Então, quando eu tinha chegado à Souka e ido visitá-lo na caverna de São Caritão com seus discípulos Zózimo e João, fiz reverência e lhe dei a carta, junto com uma mensagem verbal da boca do inspirado Abba João, o eremita. Abba Ciríaco respondeu com [229, 20] lágrimas: ‘Diga ao que lhe enviou: Não desanime, padre, pois nós logo veremos a derrocada de Nono e Leôncio pela morte e a expulsão do resto deles do Nova Laura, para que os genuínos discípulos do abençoado Saba possam habitar o Nova Laura, uma vez que os falsos tenham sido enxotados.’

12. [229, 25] Perguntei-lhe, ‘Padre, quais as concepções que eles advogam? Os próprios afirmam que as doutrinas da pré-existência e da restauração são indiferentes e inofensivas, citando as palavras de São Gregório. “Filosofar sobre o mundo, a matéria, a alma, as naturezas racionais boas e más, a Ressurreição [229, 30] e a Paixão de Cristo; pois nessas questões não se atinge a verdade sem lucro e o erro é inofensivo”(9). O ancião respondeu nas seguintes palavras: ‘As doutrinas da pré-existência e restauração não são [230.] indiferentes e inofensivas, mas perigosas, danosas e blasfemas. A fim de te convencer, tentarei expor sua variada iniquidade em poucas palavras. Eles negam que Cristo pertença à Trindade. Dizem que nossos corpos ressuscitados passarão por uma destruição total e [230, 5] o de Cristo primeiro que todos. Dizem que a santa Trindade não criou o mundo e que na restauração todos os seres racionais, mesmo os demônios, serão capazes de criar éons. Dizem que nossos corpos serão erguidos etéreos e esféricos, e afirmam que o corpo do Senhor foi erguido nessa forma. [230, 10] Dizem que todos serão iguais a Cristo na restauração (10)’.

13.’ Mas que diabo espalhou essas doutrinas? Eles não as aprenderam de Deus que falou por meio dos profetas e apóstolos -sem chances- mas reviveram essas abomináveis e iníquas doutrinas de Pitágoras e Platão, de Orígenes, Evágrio e Dídimo. Fico surpreso com quantos esforços vãos e fúteis eles gastaram em tais bobagens danosas e estafantes, e como desse jeito muniram suas línguas contra a piedade. Não seria melhor que tivessem louvado e glorificado o amor fraterno, a hospitalidade, a dedicação aos pobres, a salmodia, as noites inteiras de vigília e as lágrimas de compunção? Não deveriam disciplinar o corpo pelos jejuns, ascender a Deus pela oração, fazer da vida um ensaio para a morte, em vez de ficar meditando sobre tais sofismas? Mas (acrescentou o ancião) não desejaram seguir o humilde caminho de Cristo, mas no lugar disso “tornaram-se fúteis em seus pensamentos e o coração insensato deles obscureceu; achando-se sábios, tornaram-se tolos (Rm 1:21-22)“. O semeador de todas essas ervas daninhas e causa desses males foi Nono, que, tomando vantagem da morte de nosso abençoado Saba, começou a fazer seus companheiros beberem de preparado vil (cf. Hab 2:15), tendo Leôncio de Bizâncio como seu assistente, campeão e companheiro de combate.’

14. ‘De início, ele seduziu para a sua abominável heresia o mais cultos, ou melhor os mais incultos, no Nova Laura. Não ficou satisfeito com esses monges, e se empenhou em dar aos outros mosteiros do deserto uma parte de sua própria praga. Quais estratagemas ele não usou para também seduzir eu mesmo, pobre e humilde? Mas Deus me mostrou por revelação a imundície de sua heresia. Quais esquemas não empregou para comunicar seu ensinamento maligno à comunidade de Souka? Mas ele falhou, já que eu, pela graça de Cristo, avisei e exortei cada um a não se afastar da verdadeira fé. Quando se empenhava em fazer um partidário de sua heresia – isto é: Pedro, o Alexandrino (11) – superior de nossa laura e, assim, escravizar toda a comunidade, não foi bem sucedido: pelo contrário, a comunidade se afanou e expulsou Pedro do cargo de superior. Mais uma vez Nono desavergonhadamente se afanou para fazer de outro Pedro, o Grego (12), um partidário da praga de Orígenes, nosso superior, mas a comunidade mais uma vez foi movida por zelo espiritual para expulsar Pedro do cargo de superior; indo para a laura do abençoado Saba, ela escolheu para si mesma o atual superior, Abba Cassiano, que é de Citópolis, ortodoxo e agraciado tanto em sua vida como em seu ensino (13). Foi então que conseguimos, com dificuldade, ser bem sucedidos em repelir os partidários de Orígenes.’

15. Assim que tinha me dito isso, o servo de Deus, Ciríaco, encheu-se de alegria ao saber que eu sou do grande mosteiro do abençoado Eutímio, disse a mim: ‘Veja que você é do mesmo cenóbio que eu.’ E prosseguiu iniciando um relato para mim de muitos fatos a respeito dos Santos Eutímio e Saba que coloquei em duas obras que já escrevi sobre eles. E então, tendo acalentado minha alma com estes relatos, deixou-me seguir em paz.

Alguns tinham começado a importuná-lo na caverna do santificado Caritão. Então, por ocasião da morte de Nono, o líder dos origenistas, eles ficaram sem controle e a campanha contra os ortodoxos ficou desorganizada, enquanto os heréticos estavam agora ocupados em lutar uns contra os outros, o ancião se sentiu livre de receio e mais uma vez se retirou, no nonagésimo ano de sua vida, da caverna do santificado Caritão para Sousakim, onde viveu como eremita por oito anos. Eu, por um desejo de lhe expressar a minha devida consideração, fui para a laura de Souka e, acompanhado por seu discípulo João, parti para Sousakim; este lugar se encontra a cerca de noventa estádios da laura de Souka. Quando estávamos chegando perto do local, topamos com um imenso e aterrorizante leão. Eu estava petrificado de medo, mas Abba João me disse: ‘Não tema.’ E quando o leão viu que estávamos indo até o ancião, deixou-nos passar.

Notas da tradução inglesa de R.M. Price:

(9) – Para esta passagem de Gregório Nazianzeno, ver Ad Eunomium 10 (Patrologia Graeca 36:25). Parece que Cirilo era, naquela época, simpático às estimulantes especulações dos origenistas.

(10) – Estas concepções lembram as atacadas pelos anátemas emitido no segundo Concílio de Constantinopla, excetuando que acrescentam um pormenor não encontrado nos anátemas, que as almas na ressurreição serão capazes criar éons ou ‘entes espirituais’. As concepções sob ataque são as dos evagrianos isocristas. Ver Vida de Saba, nota 132

(11) – Para Pedro, o Alexandrino, ver 193, 16.

(12) – Pedro, o Grego, não é citado em nenhum outro lugar.

(13) – Cassiano se tornou superior em Souka em 538, e então se mudou para o Grande Laura em 546. Ver 196, 10-18.

Para saber mais:

Scytholopolis, Cyril of; The Lives of the Monks of Palestine, tradução inglessa de Price, R.M; Cistercian Publications, 1991.

%d blogueiros gostam disto: