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José Albo – Das Recompensas e dos Castigos

Índice

Vista da cidade de Tortosa

Tortosa, Espanha

Apresentação

Com a vitória na batalha de Las Navas de Tolosa (1212), os reinos cristãos assumiram a hegemonia militar na península ibérica e decretaram um agonizante declínio para al-Andalus – a civilização árabe da Europa continental. A preponderância do elemento cristão também marcou um progressivo cerceamento de Sefarad – a Espanha judaica que se desenvolveu ao fundo do domínio islâmico. Não que as coisas sempre estivessem às mil maravilhas para os judeus com os antigos senhores. Após um grande florescimento econômico e cultural sob a dinastia Omíada, seguida pelos fragmentados regentes taifas, sua comunidade sofreu um primeiro baque com a chegada dos místicos Almorávidas. Oriundos do Magreb, impuseram mão firme sob os taifas, detiveram o ímpeto do rei castelhano, porém trouxeram consigo uma intolerância até então desconhecida. A comunidade de Lucena, por exemplo, foi ameaçada com conversão forçada, o que conseguiu impedir mediante o pagamento de vultosa soma (1). Com diplomacia e serviços, os judeus voltaram a ser tolerados, ao menos até o poder passar às mãos dos Almôadas, uma nova e muito fundamentalista dinastia berbere. Com eles só havia um acordo: conversão ou morte. Muitos, junto com cristãos, emigraram atrás de algum reino mais tolerante, e outros tantos fingiram conversão. Dentre esses últimos estava a família do grande Maimônides, que reassumiu o judaísmo após sentir-se em segurança no Egito (2).

Em um mundo islâmico cada vez mais hostil, os católicos reinos do norte pareciam ser mais aprazíveis. E, de fato, foram-no por algum tempo, até que o Islã deixou de ser uma ameaça séria na segunda metade do século XIII, limitando-se ao Reino de Granada, no extremo sul da península. Na falta de um adversário externo, a sociedade da reconquista se voltou paulatinamente contra os inimigos do “lado de dentro”, ou seja, os muçulmanos remanescentes e os judeus. Em Sevilha, por exemplo, as pregações do cônego Ferrand Martinez inflaram a população cristã local ao ponto de eclodir um pogrom em 1391, que se alastrou por outras cidades. Outras autoridades eclesiásticas tentaram conter os ânimos populares não por compaixão aos judeus, mas para extinguir as comunidades judaicas de uma forma mais sofisticada, buscando a apostasia de seus membros, como o dominicano Vicente Ferrer. Embora sua própria pregação acirrasse os ânimos dos populares contra os judeus, reprovava iniciativas individuais contra eles, pois sua linha de ação envolvia o aparato estatal. De início, atuou como eminência parda para que em, 1412, o rei João II de Castela lançasse o Edito de Valladolid, restringindo os judeus a guetos, determinando suas vestimentas e interditando-lhe diversos ofícios. Após tornar o cotidiano dos judeus um fardo, Ferrer se esmerou para que se envergonhassem de sua fé, tendo uma atuação relevante por ocasião do longo debate organizado pelo antipapa de Avignon (3) Bento XIII, na cidade de aragonesa de Tortosa, de fevereiro de 1413 a novembro de 1414. Foram convocados diversos rabinos, eruditos e clérigos a fim de debater questões teológicas, tais como: a possibilidade de provar o caráter messiânico de Jesus por meio do Talmude, o Pecado Original e as causas do Exílio.

A Disputa de Tortosa pode ter sido tudo, menos um debate genuíno e, sim, um circo armado para depreciar o judaísmo. As lideranças judaicas estavam em menor número e não tinham ampla liberdade para expor suas ideais, além de terem sido deslocadas de suas comunidades e não contarem mais com o apoio logístico delas para uma prolongada estadia. Enquanto isso, Ferrer e outros frades arrebanhavam prosélitos nas comunidades judias deixadas ao léu e expuseram alguns de seus convertidos durante sessões do “debate” (4).

Do lado judeu, merece um destaque especial o nome de José Albo, discípulo do importante filósofo Hasdai Crescas (ca. 1340 – 1410) e talvez último representante da filosofia racionalista judaica medieval; um gênero que contou com nomes do quilate de Saadia Gaon e Maimônides. A experiência em Tortosa deve tê-lo motivado a criar sua própria síntese racional da fé judaica, exposta em seu famoso livro Sefer ha-‘Ikkarim (“O Livro dos Princípios”). Lançando mão de argumentos filosóficos e citações rabínicas, Albo definiu a essência do judaísmo em três princípios (5):

  1. A existência de Deus;
  2. A revelação da Torá;
  3. Recompensa e castigo.

Ele dedicou grande parte de sua obra a questões acerca do pós-morte e, em um particular capítulo, ele expõe sua opinião quanto à crença cabalista da gilgul, a versão judaica da doutrina reencarnação surgida na Idade Média. Afinal, qual era ela?

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José Albo e o Destino da Alma


Poderia ter citado apenas o penúltimo parágrafo, mas preferi colocar todo o capítulo. Embora fique um pouco maçante, é uma oportunidade para acompanhar uma mente filosófica em ação.

* * *

Trataremos, agora, de recompensa e castigo, que constituem o terceiro dos princípios gerais da lei divina. Ele preenche o propósito pretendido por todas as leis. É verdade que aquele que serve por amor não se preocupa em nada com recompensas e castigos, não tendo outro propósito que seja o de cumprir o objeto de seu amor, como dizem os Rabis: “Não seja como os servos que servem seu mestre a fim de receberem compensações …“. Mas proíba o Céu que isso signifique não haver recompensa e castigo! A declaração acima simplesmente significa que aquele que serve Deus por amor não deve prontificar seu serviço pelo desejo de recompensa ou medo de castigo, embora creia que haja uma recompensa guardada para os que creem e temem Deus e pensam em Seu nome. Toda essa recompensa nada é para sua vista quando comparada com o propósito de cumprir a vontade do objeto de seu amor. Um serviço desse tipo conduz a recompensa e castigo máximos pretendidos em todas as leis.

Então, na medida que o propósito de uma lei divina é diferente daqueles das leis convencionais, como dissemos antes, estabelecemo-lo como um princípio da lei divina. Analisamos as possibilidades como se seguem: ou há recompensa e castigo ou não há. Se houver, ou são todos corporais e neste mundo, ou são todos espirituais e no outro mundo; ou existe tanto recompensa corporal neste mundo e espiritual no próximo mundo.

Consideramos que a opinião na questão da recompensa e do castigo esteja divida em quatro classes conforme as quatro possibilidades as quais a situação admite. Alguns creem não haver recompensa e castigo, seja corporal ou espiritual. Alguns creem haver tanto recompensa corporal e espiritual. Alguns creem haver recompensa corporal, mas nenhuma espiritual, e alguns creem haver recompensa espiritual, mas nenhuma corporal.

Esta diferença de opinião é baseada na divisão de opinião entre homens quanto à natureza da alma. Uns dizem que a alma humana não é superior a dos animais salvo que o homem tem mais astúcia que os outros animais em conceber meios e inventar artes necessários para organizar sua vida de forma completa, assim como no mundo animal alguns são superiores a outros neste respeito. Por essa razão, os que alegam essa opinião acham que não há recompensa ou castigo algum, seja corporal ou espiritual. Eles alegam que o homem é governado pelo acaso como os outros animais, dizendo respeito ao propósito divino meramente a preservação das espécies. Essa opinião recebeu seu “sopro da morte” dos filósofos, que dizem que a alma humana não pode ser comparada às dos animais. As últimas têm apenas conhecimento de particularidades, enquanto o homem tem conhecimento de universais. Além disso, o homem pode perceber algo quando ele não está mais presente aos sentidos, enquanto um animal não o pode. O homem, além disso, distingue entre sustância e acidente, e assim por diante, tudo isso mostra a grande diferença entre a alma humana e a alma animal. Por isso deve haver um propósito especial que é peculiar à alma humana, como explicamos anteriormente. Por isso, embora não haja perfeição espiritual alguma em animais, tal deve estar no homem. Os sábios judaicos também se opuseram a essa opinião e sustentaram que deve haver recompensa e castigo para o homem, seja espiritual no mundo vindouro, ou neste mundo por meio da divina providência, como explicamos quando tratamos da Providência.

A segunda opinião é que há recompensa e castigo, mas que é corporal e neste mundo. Alguns creem que a alma humana é superior a dos animais em razão de ter um poder racional por meio do qual o divino espírito é repartido ao homem e provê a ele conforme a superioridade de seu intelecto. Mas visto que essa superioridade é meramente uma capacidade ou preparação, ela sempre requer, dizem eles, um sujeito; e quando a união entre alma e corpo é rompida, a alma desaparece. Uma certa escola de filósofos erroneamente adota essa visão, dizendo que não podemos conceber qualquer perfeição da alma sem o corpo. Os zadoquitas (6) e os betusianos (7) adotavam essa visão. Acreditavam na Torá de Moisés e na Providência, mas alegavam, ao mesmo tempo, que recompensa e castigo eram apenas corporais e neste mundo, como é mencionado em Abot de-Rabbi Natan (8), e negavam qualquer recompensa espiritual após a morte. Eles aduzem como prova de sua opinião o fato de que na Lei de Moisés não há menção alguma de recompensa espiritual, mas apenas de prosperidade física. Adotaram essa opinião errônea porque pensavam que a alma humana fosse composta de várias faculdades, tais como nutrição, crescimento, sensação e razão. E como vimos que os demais poderes desaparecem quando a união entre a alma e o corpo é rompida, dizem eles que o poder de compreensão que ela tem irá também desaparecer junto com as concepções que já tiver; e, portanto, a alma humana cessa de existir como as almas dos animais, e morrerá como a outra.

Os grandes filósofos, contudo, refutaram essa opinião, dizendo que a variedade de atividades emanado de um agente não necessariamente prova multiplicidade na essência do agente, como explicamos acima. Nem o cessar da vida do corpo necessariamente prova o cessar da alma racional, não mais que o cessar do poder de crescimento, após os quarenta, torna necessário o cessar da alma. O corpo é um instrumento pelo qual algumas das atividades da alma se tornam visíveis. Por isso, quando o instrumento é destruído, apenas essas funções desaparecem, como a nutrição, o crescimento, a sensação. Mas não segue disso que a essência da alma deva desaparecer. Pois a existência da razão não é dependente do corpo como os outros poderes corporais. Pelo contrário, a razão se fortalece após a idade de quarenta, quando os poderes corporais enfraquecem. Além disso, a razão não é como os poderes corporais, pois ela pode se perceber bem como a seus instrumentos, o que não é o caso com os poderes corporais. Eles aduziram também outros argumentos fortes e irrefutáveis para mostrar que a alma humana não pode ser comparada com a alma de animais, mas não necessidade de discorrer sobre essa questão.

Como uma indicação do caráter errôneo dessa opinião, Maimônides disse, na introdução a seu comentário sobre Abot, que o termo “alma” em sua aplicação à alma do homem e a do animal é um homônimo. E apesar de vermos que as funções emanentes de uma são similares às da outra, não se segue disso que os respectivos agentes sejam similares em essência. A luz do Sol e a luz de uma lâmpada são similares no fato de que iluminam os lugares escuros, mas isso não significa que suas agências sejam similares. A luz do Sol é permanente e não se extingue, ela ilumina também onde o Sol não brilha; enquanto a lâmpada se extingue, não é permanente e ilumina apenas onde o raio atinge. Não procede, portanto, que em razão de a alma animal ser destruída, a alma humana também seja destruída e cesse de existir quando é separada do corpo, visto que admitem ser ela superior à alma animal. Quanto ao argumento com que os zadoquitas e betusianos aduzem em favor de sua visão a partir do fato de nenhuma menção ser feita na Lei de Moisés de recompensa espiritual, mas apenas de corporal, os fatos não são como dizem. A recompensa corporal é mencionada somente nos casos em que não há lugar para recompensa espiritual, e a recompensa espiritual é mencionada por alusão, por um motivo que explicaremos mais tarde, com a ajuda de Deus.

A terceira opinião é o inverso da segunda, e é adotada por alguns de nossos rabis, que dizem: não há recompensa para bons feitos neste mundo. Aduzem um argumento a partir da experiência. Um pai diz a seu filho: “Suba na torre e traga-me alguns pombos“. O filho sobre a torre, espanta a mamãe pombo e pega os filhotes e, em seu retorno, cai e morre. Onde está sua bondade e onde está a duração de seus dias? A resposta é a que está na promessa das Escrituras: “Que o bem te suceda” (Dt 12:28), e faz referência àquele mundo que é completamente bom; e a promessa, “para que prolongues os teus dias” (Dt 22:7) refere-se ao mundo que é totalmente longo (eterno). O mundo que é completamente bom e totalmente longo não é outro senão o mundo por vir após a morte, e a promessa faz referência à recompensa espiritual.

Esta opinião é também adotada por uma grande escola de filósofos e alguns doutos homens da Torá os seguem. Sua opinião é que o homem não possui nenhuma perfeição exceto após a morte, quando o intelecto é separado das coisas materiais e corporais. Isso se deve ao fato de que as coisas racionais serem escalonadas conforme seu grau de compreensão, o que compreende mais é superior ao que compreende menos. Portanto, visto que a superioridade do homem aos animais consiste em sua razão, sua perfeição deve ser um grau de excelência baseado apenas na inteligência. Pois se consistisse em uma coisa corporal que é comum entre ele e os animais, a perfeição e superioridade racional que lhe são dadas acima dos animais seria um castigo atormentador em vez de um grau de perfeição. Pois os animais, sendo vazios de razão e inteligência, não são perturbados pelo pensamento sobre o infortúnio que está destinado a vir sobre eles e não lastimam pelo conhecimento de que devem morrer, como faz o homem, nem antecipam na imaginação a dor que virá sobre eles, e não se preocupam com nada; ao passo que o homem sente tudo isso; fica preocupado e pesaroso por causa do mal que está destinado a vir sobre ele e vive em tristeza. De fato, quanto maior seu poder de compreensão, mais ele se lamenta pelo mal que está destinado a vir sobre ele. Por essa razão, dizem que não é provável que a perfeição a ser alcançada pela razão seja algo corporal em comum ao mais baixo dos animais, mas que deva ser algo que distinga o homem do animal – i.e., o intelecto – e não uma coisa corporal. Esta é a opinião do Filósofo (9) sobre o assunto. Embora ele negue a Providência, mesmo assim acredita que a alma do homem tenha uma perfeição após a morte, quando é separada do corpo. E muitos sábios da Torá seguem sua opinião.

Mas há uma dificuldade nesta explanação. Pois, apesar de esses argumentos serem uma sonora réplica à segunda opinião, eles ainda não provam que a perfeição do homem é após a morte. Pois, já que a perfeição e a permanência podem pertencer apenas a uma coisa racional, segundo alegam, e o poder racional no homem é meramente uma preparação ou capacidade, como podemos nós conceber sua sobrevivência ao corpo, já que a capacidade não pode existir por si mesma? A declaração em resposta a isso, i.e., o intelecto adquirido se torna uma substância por meio das abstrações, de modo que o intelecto e as abstrações se tornam idênticos, é ininteligível. Pois se a faculdade racional no homem é um poder hílico (material) cuja natureza é cessar de existir exceto por meio da atividade da compreensão, como pode tal atividade existir por si mesma? E como podemos concebê-la identificando a si mesma com o Intelecto Ativo? Tudo isso é muito improvável, como explicamos antes. Logo, alguns estudiosos dizem que a alma é uma substância espiritual, tendo existência independente e capacidade de compreensão. Ela não pode, por essa razão, deixar de existir, já que é uma substância independente e sente prazer de acordo com sua atividade de cognição. Mas isso também não está correto. Pois, mesmo embora a alma seja uma substância independente, ainda assim, visto que tem a capacidade de cognição, a perfeição dessa capacidade seria em vão se a alma não devesse alcançar essa cognição, e nem uma em mil atingiria a perfeição da alma e, possivelmente, nenhuma sequer, como explicamos acima; a não ser que digamos que a perfeição da cognição consiste em uma compreensão de axiomas. Mas, se assim for, o justo e o ímpio se nivelariam sobre o mesmo plano, uma ideia que nunca ocorreu a ninguém antes.

Parece-nos, portanto, que a opinião adequada e correta da Torá é que a alma é uma substância espiritual, tendo a capacidade para compreender o serviço de Deus e não meramente compreensão. Logo, quando uma pessoa atinge algum grau de compreensão do serviço de Deus, em razão de alcançar alguma ideia ou noção de Deus, seja ela grande ou pequena, ela imediatamente alcança algum grau de vida no mundo vindouro. Também dizem os rabis, ao comentar o versículo: “Uma semente o servirá” (Sl 22:30), a partir de quando as criancinhas merecem a vida futura? Dizem no nome de Rabi Meir: tão logo sejam capazes de dizer Amém, como está escrito: “Abri os portões, que a nação justa que mantém fidelidade (emunim) entre neles” (Is 26:2). Não se leia (10): “que mantém (shomer) fidelidade (emunim)“, mas: “que diga (she-omer) Améns (amenim)“. O significado disso se torna claro a partir de nossa explanação acima, i.e, que a perfeição da alma consiste em compreender o serviço de Deus, qualquer que seja ele; de modo que quando uma criança alcança a compreensão do serviço menos importante, a saber, dizer Amém a qualquer bênção, ela merece algum grau da vida futura. Isso está de acordo com o que escrevemos antes, i.e., que um homem pode alcançar um certo grau da vida futura pelo cumprimento de um preceito.

Da mesma forma que a alma é uma substância espiritual independente também é claro, do testemunho dos Rabis, que o mundo é mantido apenas pelo sopro da boca dos estudantes infantis. Disse Rab Papa a Abaie: “E quanto ao teu sopro e o meu?” Disse o último: “Você não pode comparar o sopro que está sem pecado ao que está com pecado.” Então, se a alma não é uma substância independente, como podem os estudantes infantis, que atingiram um grau muito pequeno de cognição, serem superiores a Abaie e Raba, que atingiram um grau muito alto, sem dúvida? A verdade é que um grau muito pequeno no serviço de Deus da parte de alguém que não esteja maculado por pecado vale muito mais que um alto grau de quem esteja maculado por pecado; pois a alma, sendo uma substância espiritual independente, depende desse grau de merecimento sobre a medida de sua pureza e sua adoração a Deus por cumprir os mandamentos. Esta é a razão porque Moisés ficou pesaroso por não poder entrar na terra [prometida] e efetivamente realizar os mandamentos. Ele não ficou pesaroso quanto a lograr ideias, pois não há dúvida que Moisés atingiu o grau em que poderia compreender por meio da compreensão, mas estava desejoso por executar os mandamentos na prática, i.e, o serviço divino com compreensão, o que dá à alma a perfeição e permanência, como explicamos antes.

Os Rabis discutem a questão de se a alma é em sua essência um poder hílico (material) ou uma substância independente. Por dois anos e meio, dizem-nos, as escolas de Shamai e Hilel (11) disputaram a questão de se era digno ao homem ter sido criado. Dizia uma: teria sido melhor para o homem não ter sido criado. A outra dizia: foi melhor para o homem ter sido criado do que não ter sido criado. Fizeram uma votação e decidiram que teria sido melhor se o homem não tivesse sido criado, mas já que foi criado, ele deve ser cuidadoso em sua conduta.

Então, parece-nos que o disse que foi melhor para o homem ter sido criado sustentava que a alma do homem é um poder hílico, como pensa o Filósofo. Logo, disse que foi melhor para ele ter sido criado, porque a existência é sempre melhor que a não existência, e pode-se subir a um grau de existência permanente pela atividade racional. Por outro lado, o que disse que teria sido melhor para o homem não ter sido criado, acreditava que a alma é uma substância espiritual independente. Logo, como um resultado da criação, a alma pode ser destruída ou severamente punida. Logo, disse ele, teria sido melhor se o homem não tivesse sido criado, i.e., que a alma não tivesse sido posta dentro do corpo humano. Salomão também disse: “Porém melhor que ambos é aquele que ainda não é” (Ecl 4:3). Então, se a alma fosse um poder hílico (material), como poderia ele falar sobre uma coisa não existente que é melhor que ambos [os viventes e os mortos]? Como pode a não existência ser melhor que a existência, visto que toda existência é boa, como a Bíblia testifica: “E Deus viu tudo que havia feito, e eis que era muito bom” (Gn 1:31)? Sem dúvida, portanto, sua opinião é que a alma é uma substância espiritual e não um poder material. E como esta é a opinião correta e a que está em concordância com a Torá, eles votaram e decidiram que seria melhor para o homem se ele não tivesse sido criado, e acrescentaram que ele deve ser cuidadoso em sua conduta, de modo que a alma não seja destruída ou punida.

Disso os Cabalistas derivaram a doutrina da transmigração. Visto que a opinião verdadeira é, conforme a Torá, – assim argumentam – que a alma não é um poder material, mas uma substância independente, como dissemos antes, então do mesmo modo que a substância espiritual entrou no corpo humano quando ele foi criado, é possível que, após ter funcionado em um corpo humano, retorne e viva em outro. Mas isso não é correto. A Sabedoria divina pôde, de fato, decretar que a substância espiritual, que por sua natureza não é um agente livre, devesse residir no corpo a fim de que se tornasse um agente livre no corpo, porque essa é sem dúvida uma valiosa qualidade que há nele. Tanto que, como foi dito pelos Rabis, os anjos cometeram um erro e quando Deus criou o homem, eles quiseram adorá-lo … Tudo porque ele era um agente livre e eles, não. Mesmo assim, por que deveria uma alma que já funcionou em um corpo humano e se tornou um agente livre retornar ao corpo outra vez? E por que deveria a gota seminal ter a capacidade de receber uma alma que já funcionou em um corpo, em vez de receber uma alma que ainda não funcionou em um corpo e não é um agente livre? Uma visão ainda menos provável é a dos que dizem que almas humanas são transmigradas para dentro de corpos de animais. Deus sabe.

A quarta opinião é a que alguma recompensa corporal neste mundo e alguma é espiritual no próximo mundo, após a morte. Esta é a opinião de nossa sagrada Torá, que faz promessas materiais específicas para os justos, como os patriarcas e outros, e também promessas espirituais apenas para a alma, castigo ou recompensa, como explicaremos com a ajuda de Deus. Essa também é a opinião de nossos Rabis em muitos lugares, e particularmente em Sifra (12), onde comentando a respeito do versículo em Deuteronômio, dizem: “Que teus dias sejam multiplicados” – neste mundo; “E os dias de teus filhos – nos tempos do Messias; “Como os dias dos céus acima da terra” – no mundo vindouro. É nítido disto que a Bíblia promete, para o cumprimento dos mandamentos, recompensa neste mundo e no próximo. Esta é uma declaração geral da opinião humana acerca da recompensa e do castigo a da opinião de nossa Torá sobre o assunto.

Fonte: O Livro dos Princípios, livro IV, cap. XXIX.
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Você está fazendo Isso Errado

Se você, mal lendo o texto acima, já se pôs a refutar José Albo, então sugiro que deixe de perder seu tempo, afinal quem disse que assino embaixo do que ele escreveu? Caso tenha saído em busca de algum figurão do judaísmo medieval que aceitasse a reencarnação, eu até te ajudo: Rabi Moshe ben Nachman – vulgo Ramban (13) ou Nachmânides -, um conterrâneo de Albo que vivera cerca de um século e meio antes dele. Contudo, ficar opondo uma autoridade a outra não passa de “carteirada intelectual”, algo muito útil em guerras ideológicas, mas contraproducente quando se busca a verdade dos fatos. Se aparecer com rabinos modernos, pior ainda, visto que os “fatos” em questão são históricos, não matéria da fé judaica atual.

Agora, se você tem alguma perspicácia, há de perceber uma mudança de postura entre o relato de Saadia Gaon (séc. X), em seu Livro das Crenças e Opiniões, tratado VI, quanto à infiltração de ideias reencarnacionistas no judaísmo e o comentário acima de Albo, escrito mais de quatro séculos depois. Enquanto o primeiro tem uma reação um tanto irada contra uma ideia que julga uma superstição de certas pessoas “que chamam a si mesmas de judias“, o segundo continua a considerar um grupo de adeptos dessa crença – os cabalistas – tão judeus quanto ele, embora equivocados.

Sugere-se, pois, uma progressiva difusão da noção judaica da reencarnação – a gilgul neshamot – partindo de uma crendice de populares para uma doutrina mais elaborada de sofisticados grupos místicos. O próximo passo seria sua difusão credenciada para outros nichos. Em suma, mais uma evidência da entrada tardia da reencarnação no judaísmo (14), algo não muito bem aceito pelos que supõem um judaísmo doutrinariamente estático desde os tempos de Jesus, de modo a lançarem mão de anacronismos para utilizarem a gilgul séculos antes de sua concepção.

(Em Construção)
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Notas

(1) Cf. [Johson, parte III, p. 186]. [voltar]

(2) Cf. [Lewis, cap. XVI, p. 396]. [voltar]

(3) De 1378 a 1417 vigorou na cristandade latina o “Grande Cisma do Ocidente”, quando dois papas – um na cidade francesa de Avignon e outro em Roma – disputavam a primazia, cada qual sendo reconhecido por reinos diferentes. A confusão aumentou em 1409, quando um concílio na cidade de Pisa quis revogar os dois e elegeu seu próprio papa. A unidade só foi restaurada com o Concílio Constança (1414) e a deposição de Bento XIII (1417). [voltar]

(4) Cf. [Johson, parte III, p. 231], [Attali, parte III, cap. V, pp. 254-7] e O Livro dos Princípios, introdução do editor. [voltar]

(5) Cf. [Bronner, cap. V, pp. 123-4]. [voltar]

(6) Outro nome para a seita intertestamentária dos saduceus. [voltar]

(7) Grupo afim dos saduceus, senão uma evolução ou cisma deles. [voltar]

(8) Os Pais segundo Rabi Natan, um dos “tratados menores” do Talmude. [voltar]

(9) Uma referência a Aristóteles, chamado na Idade Média de Ille Philosophus. [voltar]

(10) José Aldo vocaliza o texto hebraico consonantal de uma forma alternativa para obter o efeito que deseja. [voltar]

(11) As duas principais escolas farisaicas à época de Jesus. [voltar]

(12) Um midrashim, i.e., um conjunto de comentários sobre a Lei e o Velho testamento, no caso sobre Números e Deuteronômio. [voltar]

(13) Não confundir com Rambam, que é o acrônimo de Maimônides. [voltar]

(14) Segundo a Doutora Leila L. Bronner:

Reencarnação

A Reencarnação é conhecida em hebraico como gilgul, que significa “circularidade”. Pois a tradição do termo tem um significado especial: o de metempsicose, a transmigração da alma após a morte para outro corpo. A ideia de reencarnação, que é encontrada em tradições religiosas por todo mundo, não é original aos judeus. A tradição mística judaica, entretanto, reconfigurou e remodelou-a para se adequar ao judaísmo. A reencarnação foi um aporte muito tardio ao cenário de ideias judaicas. Nem a Bíblia – ou o Talmude, ou o Midrash – diz um mínimo sobre o assunto. Saadia rejeitou a doutrina como “loucura e confusão”. Nem um pouco falou Maimônides sobre ela. Mesmo assim, a reencarnação é frequentemente discutida na literatura judaica da Idade Média. Como observado antes, o conceito é primeiramente mencionado no Sefer ha-Bahir [O Livro da Iluminação], embora o termo gilgul não seja ainda usado para descrever o fenômeno.

[Bronner, cap. VI]

Vale ressaltar que, apesar de não haver menção à reencarnação na Bíblia e na literatura rabínica, nada impede que seus textos sofram uma releitura reencarnacionista, como apontou um irritado Saadia Gaon. [voltar]

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Para saber mais

– Attali, Jacques; Os Judeus, o Dinheiro e o Mundo, Futura, 6ª ed., 2006.

– Bronner, Leila Leah; Journey to Heaven – Exploring Jewish Views of the Afterlife, Urim Publications, 2015.

– Johnson, Paul; História dos Judeus. 2ª ed., Imago, 1995.

– Lewis, David Levering; O Islã e a Formação da Europa – De 570 a 1215, Amarilys, 2010.

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