Arquivo

Archive for the ‘História’ Category

A Reencarnação na Bíblia e na Ciência

28 de maio de 2013 Deixe um comentário

A História como o Espiritualismo gostaria que fosse. Gostaria.

Autor: José Reis Chaves, ebm editora, 7ª ed.

Fiquei na dúvida se classificaria este livro como de “Ciência e Religião” ou de “História”. Optei por esta última porque vou apenas me deter ao capítulo VI e VIII da obra, que têm um cunho mais histórico. Bem, aqui vai uma relação de “problemas” encontrados:

São Justino, mártir, autor de Apologia da Religião Cristã, também faz parte da lista de santos reencarnacionistas e sábios do cristianismo primitivo. Segundo ele, “a alma habita corpos sucessivos, perdendo a memória das vidas passadas” (16)

Cap VI. p.203

e em nota de rodapé:

(16)A Reencarnação e a Lei do Carma, pág. 46, William Walker Atkinson, Editora Pensamento, São Paulo, SP.

É uma citação de citação e quem buscar a obra de Atkinson não encontrará referência alguma. Puxa-se o fio para descobrir que não há nada na outra ponta. Por meio de citações análogas feitas por outros espiritualistas, chega-se ao livro Diálogos com Trifão, cap. IV. Quando se lê esse texto, constata-se que Justino ainda era pagão e foi convencido de estar errado por seu interlocutor. Se o leitor ainda acha que ele continuou reencarnacionista ainda cristão, tudo bem. Mas lembre-se: o ônus da prova passa a ser teu, i.e., diga a todos onde ele escreveu isso!

Ademais, São Clemente de Alexandria era liga à corrente gnóstica cristã, e os gnósticos eram contrários à entrega espontânea ao martírio por parte de muitos cristãos da época dele. E, assim, sempre que lhes fosse possível, eles protegiam sua vida contra as perseguições dos inimigos do cristianismo (…)
Fócio, um patriarca de Constantinopla no século IX, era político ambicioso e sem escrúpulos, como diz a História, e responsável pelo Cisma dos Gregos, em 863, foi, no entanto, escritor de talento.

Sempre houve uma certa rivalidade entre os sábios de Constantinopla e os de Alexandria, sendo que os desta cidade sempre levavam vantagem sobre os daquela. E essa rivalidade atingiu os próprios patriarcas das duas cidades.

Não se sabe muito bem por que, pois Fócio viveu cerca de seiscentos anos depois de São Clemente de Alexandria, mas o fato é que Fócio escreveu um trabalho em que desprestigiava muito o célebre sábio de Alexandria, de cuja universidade São Clemente foi reitor. Teria Fócio escrito esse livro por causa da citada rivalidade intelectual que havia entre os sábios de Constantinopla e Alexandria?

O certo é que o Papa Benedito (Bento) XIV, em meados de século XVIII, após ter lido a referida obra do patriarca de Constantinopla, Fócio, decidiu-se pela cassação do título de santo de São Clemente, cujo nome foi tirado do calendário de santos da Igreja.

Se Fócio, como vimos, era um político ambicioso e de poucos escrúpulos, além de ter sido responsável pelo Cisma Grego (863) já mencionado, é estranho que o Papa Benedito (Bento) XIV tenha se deixado influenciar pela citada obra de Fócio. Por isso, nos arriscamos a dizer que o fato dessa cassação do título de santo de São Clemente de Alexandria, por parte de Benedito (Bento) XIV, poderia ter sido, na verdade, a crença de São Clemente na reencarnação, fato esse que passou a se destacar muito, justamente na época de Benedito (Bento) XIV.

cap. VI, pp. 200-1.

Em primeiro lugar, situemos qual obra de Fócio deve ser pesquisada: Biblioteca (Myriobiblon). Ao contrário do que se alega, não foi escrita no intuito de denegrir Clemente de Alexandria por ele ser de uma escola teológica rival, que, por sinal, àquela época já estava sob domínio muçulmano e fora das maquinações da corte bizantina. Biblioteca é, na verdade, um grande conjunto de resenhas de mais de 200 livros de diversos teólogos lidos e comentados por Fócio. No bojo dessa “biblioteca”, Fócio comenta três obras de Clemente de Alexandria e o que talvez seja de interesse dos autores reencarnacionistas seja a entrada 109 acerca da obra Esboços. A questão é que esse livro está perdido atualmente e não dá para saber até que ponto a resenha dele é justa ou não. As outras duas (Miscelâneas e Tutor) receberam comentários bem mais simpáticos. Em Miscelâneas, por sinal, fica claro que o conceito dele de gnose é bem diferente das seitas gnósticas, às quais ele combate no livro.

Orígenes é conhecido como um dos maiores sábios cristãos de todos os tempos. Foi praticamente o criador de nossa teologia cristã. E, como apenas 17 anos, foi reitor da Universidade de Alexandria, em substituição a São Clemente de Alexandria. E diga-se, de passagem, que Alexandria foi o maior centro intelectual do mundo, na época de Orígenes, século 3º.

cap. VI, p. 203.

Eusébio de Cesaréia – o principal biógrafo de Orígenes -, em seu “História Eclesiástica”, Livro VI, cap. III, item 3, informa que Orígenes dirigiu a Escola Catequética da cidade. Um cargo importante para a comunidade cristã, de fato, mas irrelevante para o mundo pagão a sua volta.

São Jerônimo (…) também aceitava a reencarnação. Aliás talvez seja por isso que a Igreja pouco fale de São Jerônimo.

Ele afirma que a transmigração das almas foi ensinada durante um longo tempo na Igreja. (9)

Muito do que escreveu São Jerônimo escreveu está em forma de cartas. Em suas Cartas a Avitus, imperador romano, Jerônimo fala sobre a reencarnação (transmigração das almas) (10).

E eis o que escreveu São Jerônimo: “A transmigração das almas é ensinada secretamente a poucos, desde os mais remotos tempos, como uma verdade não divulgável”.(11)

Cap. VI, p. 210-211

As notas de rodapé são:

(9) Evangelho Esotérico de São João, pág. 68, Paulo le Cour, São Paulo, 1993.

(10) Vidas Passadas – Vidas Futuras, pág. 237, Dr. Bruce Goldberg, Editorial Nórdica Ltda. Rio de Janeiro, 1993.

(11) O Mistério do Eterno Retorno, pág. 123, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, SP.

Não existiu nenhum imperador romano de nome Ávitus durante o tempo de vida de Jerônimo. Apenas trinta anos após sua morte houve um que governou por cerca de um ano. Pouco se sabe a respeito do destinatário dessa carta. Ademais, ela não tem referência elogiosa alguma para a reencarnação, muito pelo contrário: é a carta em que Jerônimo expõe uma sinopse de sua tradução de De Principiis e o critica o tempo todo.

São Gregório de Nissa era reencarnacionista e fazia parte dos teólogos cabalistas que afirmavam que o maior argumento a favor da reencarnação era a justiça de Deus.(14)

Um texto dele: ”Há necessidade de natureza para a alma imortal ser curada e purificada, e se ela não o for na sua vida terrestre, a cura se dará através de vidas futuras e subsequentes.”(15)

Cap VI; p. 212

notas de rodapé:

(14) A Reencarnação e a Lei do Carma, pág 47, William Walker Atkinson, São Paulo, SP.

(15) Reencarnação, pág. 153, John Van Auken, Editora Record, Rio de Janeiro, RJ, 1989; e O Mistério do Eterno Retorno, pág. 123, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, SP.

Bem, estamos diante de mais uma “citação de citação” patrística sem referência exata da fonte. Diz-se o nome do autor, mas nada sobre a obra de onde ela saiu. Chaves até acerta ao afirmar (um pouco antes) que Gregório de Nissa não cria na “eternidade do inferno” e, junto a Orígenes, foi um dos poucos universalistas da patrística. Entretanto, como fica patente em suas obras Sobre a alma e a Ressurreição e Sobre a Construção do Homem (cap. XXVIII), Gregório de Nissa acreditava que a alma se formava junto com o corpo (traducianismo).

Santo Agostinho morreu em 430, ou seja, 123 anos antes de V Concílio Ecumênico de Constantinopla II (553), o qual, supostamente, teria condenado a reencarnação.

Cap. VI, p.209-10

Agostinho de Hipona, mais de 123 antes de 553, já condenava o origenismo com seu sistema inter eras (Dos Processos de Pelágio, cap. IX e X.) e as ideias universalista ao estilo de Gregório de Nissa (Cidade de Deus, XXI, 17), afinal fora contemporâneo à primeira crise origenista. Podes até achar cruéis as palavras de Agostinho – também acho – mas era o que ele realmente pensava. Apesar de sugerir certo tipo de preexistência em Confissões, recusava-se a fazer qualquer afirmação categórica quanto a origem da alma (Da Alma e Sua Origem, Livro I, cap. III) adota a vida única em estado mortal. Uma combinação sui generis. Ironicamente, um autor usado por Chaves – William Walker Atkinson, em A Reencarnação e a Lei do Carma, p. 47; uma página após falar de Justino – já falava da oposição de Agostinho ao origenismo.

A Igreja teve alguns concílios tumultuados. Mas parece que o V Concílio de Constantinopla II (553) bateu o recorde em matéria de desordem e mesmo de desrespeito aos bispos e ao próprio Papa Virgílio, papa da época.

O imperador Justiniano tem seus méritos, inclusive o de ter construído, em 552, a famosa Igreja de Santa Sofia, obra-prima da arte bizantina, hoje uma mesquita muçulmana.

Era um teólogo que queria saber mais que teologia do que o papa. Sua mulher, a imperatriz Teodora, foi uma cortesã e se imiscuía nos assuntos do governo do seu marido, e até nos de teologia.

Contam alguns autores que, por ter sido ela uma prostituta, isso era motivo de muito orgulho por parte das suas ex-colegas. Ela sentia, por sua vez, uma grande revolta contra o fato de suas ex-colegas ficarem decantando tal honra, que, para Teodora, se constituía em desonra.

Para acabar com esta história, mandou eliminar todas as prostitutas da região de Constantinopla – cerca de quinhentas.

Como o povo naquela época era reencarnacionista, apesar de ser em sua maioria cristão, passou a chamá-la de assassina, e a dizer que deveria ser assassinada, em vidas futuras, quinhentas vezes; que era seu carma por ter mandado assassinar as suas ex-colegas prostitutas.

O certo é que Teodora passou a odiar a doutrina da reencarnação. Como mandava e desmandava em meio mundo através de seu marido, resolveu partir para uma perseguição, sem tréguas contra essa doutrina e contra o seu maior defensor entre os cristãos, Orígenes, cuja fama de sábio era motivo de orgulho dos seguidores do cristianismo, apesar de ele ter vivido quase três séculos antes.

Como a doutrina da reencarnação pressupõe a da preexistência do espírito, Justiniano e Teodora partiram, primeiro, para desestruturar a da preexistência, com o que estariam, automaticamente, desestruturando a da reencarnação.

Cap. VIII, p. 231-2

Não há evidência histórica alguma quanto a essas alegações e nem referência que se preze é fornecida. Seria um boato espalhado? O único cronista da época (Procópio: Dos Edifícios, Livro I, cap. IX, e História Secreta, cap. XVII) que comenta sobre Teodora e as 500 prostitutas, não assevera nenhuma chacina e não relaciona isso com o V Concílio. Os cronistas que efetivamente falaram do V Concílio ou do sínodo de 543 (Cirilo de Citópolis: Vida de Saba; Liberato de Cartago: Breviarium…, cap. XXIII e XXIV; Evágrio Escolástico: História Eclesiástica, Livro IV, cap. XXXVIII) mostram que o estopim para a sua convocação partiu de baixo para cima, mais especificamente através da solicitação de monges ortodoxos da Palestina. Nenhum dá importância à Teodora no desenrolar dos acontecimentos e, inclusive, Liberato (cap. XXIV) a expõe como favorecedora de um origenista. Ademais, não há explanação alguma quanto à Primeira Crise Origenista ocorrida 150 anos antes e que praticamente definiu os dogmas da ortodoxia quanto à origem e o destino da alma.

* * *

Bem, o panorama é esse: em pouco espaço de texto, uma quantidade alta de erros históricos. Livros com erros são coisas da vida e compra quem quiser. As edições mais antigas do mesmo livro tinham o título A Reencarnação Segundo a Bíblia e Ciência e, conforme entrevista dada pelo autor, ele teria sido usado para trabalho na PUC-RS. De posse das informações acima, será que ainda seria usado?

O problema desses capítulos é que não se fez uma verdadeira pesquisa a respeito do cristianismo primitivo, em especial, da ortodoxia. Caso estivéssemos falando de seitas gnósticas, seria menos complicado para ele, pois muitas eram realmente reencarnacionistas, apesar de não crerem que estar encarnado fosse algo bom… Onde o livro “peca” é em atribuir à própria ortodoxia um pensamento reencarnacionista moderno. Uma simples leitura das obras da patrística desfaria muito dos equívocos aqui mostrados, mas o que se vê é um apanhado de informações de segunda mão, muitas duvidosas. Não que fazer “citações de citações” seja algo proibitivo, até porque muitas vezes o original pode não estar tão acessível assim, porém até para isso há convenções a que convém seguir. Primeiramente, a referência deve encadear até que se chegue à fonte primária. Quanto mais distante estiver a citação presente da ponta da cadeia, pior; já que aumentam as chances de ter ocorrido alguma prática de misquotation ou cherry picking. Outro pormenor importante é saber de quem você está pegando a informação. É um trabalho acadêmico ou algo de caráter mais jornalístico, voltado à divulgação e ao lucro? As fontes dos capítulos em questão encontram-se majoritariamente neste segundo e bem mais fraco grupo ou, no caso de Teodora, não há uma referência sequer. Isso viola o princípio da verificabilidade: uma fonte bem indicada para que outros possam lê-la e, se for o caso, refutá-la. Até a mal afamada Wikipedia procura seguir isso. E, em terceiro, é preciso ter em mente que fontes primárias são sempre filtradas pelas secundárias. O ideal é sempre ler as primárias e, então, partir para uma gama de secundárias para se inteirar do que os pesquisadores antes de ti já pensaram, porque eles descartaram ou relativizaram esse ou aquele testemunho, e só daí tecer o seu juízo. Afinal você também será uma fonte secundária para outros e deve se embasar em argumentos e evidências de melhor qualidade, e não meramente pinçar esse ou aquele autor que lhe aprouver. Quando isso não é plenamente possível, prefira os autores que fornecem generosos extratos dos originais em que se basearam e os discutem, também mostrando opiniões contrárias as sustentadas, ainda que para mostrar que estão erradas logo depois. As chances de má fé são menores, mas não impossíveis.

No caso da patrística, boa parte dos originais já está disponível ao público. Temos as séries Nicene and Ante-Nice Fathers – já de domínio público – em vários portais como o Sacred Texts ou a Christian Classics Ethereal Libary (em inglês), várias obras de autores cristãos primitivos em Documenta Catholica Omnia (vários idiomas, principalmente grego e latim), e finalmente o Google Books nos oferta digitalizações da Patrologia Graeca e da Patrologia Latina, de Migne. Estas duas últimas são, sem dúvida, as coletâneas mais completas de obras da Patrística atualmente em domínio público. Como a Patrologia Graeca é bilíngue, o conhecimento de latim é suficiente para ambas. Se você é monoglota, existe a coleção Patrística, da editora Paulus. Só que ela não é tão exaustiva como as anteriores e juntar todos os seus volumes pode doer no bolso, além de existir certo preconceito no meio espiritualista contra editoras católicas. Mas cá entre nós: se tens alguma pretensão em ser estudioso (em qualquer coisa), vais ter que aprender alguma língua estrangeira. Viva, morta ou moribunda. Portanto, não há desculpa para deixar de ler os originais neste assunto.

Avaliação: Sem nota. Não avaliei o livro inteiro porque o resto não me atrai tanto, então me abstenho. Mas a porção analisada merece séria revisão.

Recomendado para: quem ainda quer arriscar quanto ao que é dito sobre reencarnação na ciência nesse livro, por sua própria conta e risco. Mas, sinceramente, sugiro que se leia o portal Existem Espíritos. É gratuito, tem vasto estoque de artigos quanto ao estado da arte e, o melhor de tudo, não subordina as pesquisas científicas às crenças religiosas espiritualistas (use a codificação UTF-8 em seu navegador). Para quem souber inglês e desejar saber mais sobre a compatibilidade entre cristianismo e reencarnação, recomendo Reincarnation in Christianity, de Geddes MacGregor. Não que eu assine embaixo de tudo que ele diz, mas ele respeita muito mais a história do cristianismo que a maioria dos autores espiritualistas.

Armas, Germes e Aço – O destino das sociedades humanas

9 de dezembro de 2011 Deixe um comentário

Por Jared Diamond, Ed. Record.

Capa de Armas, Germes e Aço

Uma breve história da humanidade.

Este livro descreve uma das mais longas e gratificantes respostas a uma (não tão) simples pergunta. Quando certa vez esteve numa Nova Guiné prestes a conquistar a independência, o biólogo Jared Diamond foi interpelado por um político local – Yali – que lhe indagou com olhos brilhantes:

Por que vocês, brancos, produziram tanto “cargo” [machados de aço, fósforos, remédios, roupas, etc.] e trouxeram tudo para a Nova Guiné, mas nós, negros, produzimos tão pouco “cargo”?

Diamond não deu uma resposta satisfatória naquele instante. Foram necessários 25 anos para o término desta obra-prima, mas provavelmente algumas respostas fáceis (e insatisfatórias) o leitor já deve ter tido acesso. Uma foi a disparidade tecnológica entre os europeus e os povos recém “descobertos” da América e Oceania, o que facilitou a rápida conquista de um pelo outro. Outra resposta oferecida está no LE, cap. V:

(6) Por que há selvagens e homens civilizados? (…) Segundo ela [a doutrina espírita], não há muitas espécies de homens, há tão somente homens cujos espíritos estão mais ou menos atrasados, porém todos suscetíveis de progredir.

A primeira “resposta” peca por contar a história a partir do meio – dos grandes descobrimentos para cá – não deixando claro por que não foram os polinésios que conquistaram a Europa. A “solução” kardecista faz sentido dentro da obra à luz da questão 53:

O homem surgiu em muitos pontos do globo?
R:”Sim e em épocas variadas, o que constitui a causa da diversidade de raças” (…).

Sobre esse pressuposto, os “selvagens” seriam raças mais recentes, cujos corpos seriam habitados por espíritos mais jovens que os dos europeus. Kardec nunca deve ter realmente convivido com “selvagens”, tal como o bem viajado biólogo e espiritualista inglês Russel Wallace que se impressionou com a sofisticação cultural de muitos nativos, ou o próprio Diamond, que comenta no prólogo: “Nós dois [ele e Yali] sabíamos perfeitamente bem que os cidadãos de Nova Guiné são, em geral, tão espertos quanto os europeus.” Mesmo sem ter de apelar para uma “correção política” para refutar a proposta kardecista, ela esbarra no fato de ter se baseado em pressupostos falsos. Primeiro, não importa que se adote a visão da escola monogenista (predominante no momento) ou poligenista, as raças humanas se desenvolveram concomitantemente, sendo igualmente velhas. Segundo e principal: há quinze mil anos, após o término da última glaciação e o começo de um longo período de estabilidade climática, todas as comunidades humanas se encontravam no estágio de caçadores-coletores. Pode-se dizer que no ponto de vista tecnológico, cultural e de organização social, toda a humanidade teve um ponto de partida relativamente semelhante.

A resposta de Diamond está longe de qualquer reducionismo: é sofisticada e multidisciplinar. Lança mão da história, geografia, linguística, antropologia, ecologia e política para mostrar a quantidade de fatores que convergiram para o casual sucesso europeu em relação ao resto do mundo. Porém, em meio a esse banho de cultura, há uma linha mestra: geografia foi destino. Não, não. Pode ficar calmo que não se trata de uma reedição de teorias de que o “homem é produto do meio” da antiga “escola determinista” (nem Ratzel, seu fundador, era tão simplório assim). Ao contrário dos antigos deterministas, Diamond não prega que um ambiente hostil estimule a operosidade de seus habitantes (por exemplo, a presença de uma estação fria) ou elimine os indolentes, muito pelo contrário: se o ambiente é extremamente parco de recursos, não há muito o que fazer além de sobreviver, como fizeram os ancestrais dos atuais beduínos e esquimós. Diamond segue pista oposta: uma avaliação de como o meio pode limitar plena manifestação de todo potencial humano e, principalmente, evitar que uns se beneficiem dos avanços de outros.

Para tanto, o autor se vale de um “experimento social”, suas cobaias foram as ilhas da Oceania. É feito todo um retrospecto do processo de colonização dessa parte do globo a partir da Ásia, o que cada recém-chegado trazia consigo de bagagem técnico-cultural, que plantas e animais encontrava (ou levava) em condições de ser domesticado, aspectos naturais hostis encontrados, a influência de tamanho de cada ilha na capacidade de sustentar populações maiores e de organização mais complexa e, principalmente, o quanto o isolamento geográfico de cada ilha determinou fluxo de inovações entre eles. Então, à época das grandes navegações, surge um mosaico antropológico, com toda uma gama de sociedades mais ou menos complexas espalhadas pelo Pacífico.

É dessa conjunção entre geografia e ecologia que autor dá o pontapé inicial em sua tese. Há dez mil anos ocorreu o principal marco que definiria a separação entre “civilização” e os antigos caçadores-coletores: o advento da agricultura, sendo que ela surgiria primeiro onde era mais propícia, ou seja, nos grandes vales fluviais da Eurásia (Europa + Ásia) – o Crescente Fértil, no Oriente Médio, os rios Indo e Ganges, na Índia, e os vales chineses do rios Azul e Amarelo. O que determinou a permanência da vantagem desses centros foram particularidades do continente eurasiático: a maioria de seus rios e caminhos terrestres o cortam em sua dimensão principal, permitindo um alto fluxo de povos, mercadorias e inovações. A Europa, inicialmente, estava bem atrás dos seus parceiros asiáticos, mas conseguiu “queimar etapas” por se beneficiar da grande herança que outros povos lhe forneciam. Poucas inovações da Antiguidade foram genuinamente europeias, até mesmo o alfabeto – que registrou a orgulhosa literatura greco-latina – é herdeira de longo desenvolvimento iniciado com os primeiros pictogramas do Crescente Fértil. A África tinha duas grandes barreiras para difusão dessa prosperidade para o sul do continente: o Saara ao norte e uma densa floresta tropical ao centro. A maioria de seus rios a corta na direção leste-oeste e não norte-sul. Da mesma forma a América tinha um panorama pouco propício a um rápido intercâmbio entre povos. Desenvolvimentos autóctones rumo a processo civilizatório pleno estavam bem adiantados em ambos os continentes (que o diga os Impérios Inca e Asteca, na América, e o reino Zulu, na África), porém eles foram mais tardios e abortados pela invasão europeia. Uma outra conjuntura natural dos eurasiáticos lhes deu vantagem crucial contra americanos e africanos: a presença de uma boa gama de animais domesticáveis. Além de útil fonte proteica, de roupas e de força; houve mais um subproduto não muito desejável da domesticação: doenças, ou melhor, enfermidades originalmente próprias de determinados animais passaram ao homem quando aumentou a intimidade dos contatos dos nossos ancestrais com eles. Isto explica a grande disparidade de doenças que europeu levaram à Américas e as que trouxeram de lá. Fora o lhama, não houve outra espécie animal de grande porte americano domesticado. A maioria da megafauna americana fora extinta ainda na pré-história. Mais do que a pólvora (passada a surpresa inicial, os arcabuzes de um tiro só não eram páreos para flechas), foram os germes e cavalos que permitiram a um punhado de espanhóis conquistar as capitais de impérios.

Isto diz a vantagem da Eurásia sobre a América, mas ainda está em aberto por que a Europa suplantou a Ásia nas grandes navegações. Cem anos antes de Colombo e Vasco da Gama, chineses se lançavam pelo Índico e Pacífico em embarcações que fariam as caravelas parecerem cascas de noz perto delas. Até que uma facção rival ascendeu ao poder e eliminou sistematicamente tudo o que lembrasse o governo anterior, incluindo os grandes barcos e seus estaleiros. Por um capricho palaciano, a China ficou quatrocentos anos marcando passo. Por pouco, que sabe, não teríamos um “Lun yu segundo o espiritismo”, Confúcio como o espírito mais evoluído que já encarnou no planeta e governador espiritual do mesmo, e um tal de “Ká dé-ki” teria, em sua compilação, situado os europeus entre os chineses e negros na escala das raças… Quando os europeus lá chegaram com seus navios e cheios de exigências, eram os nativos que se assustavam com a potência de seus canhões (a pólvora foi invenção chinesa, ironicamente) e o tamanho das embarcações com relação a seus juncos. A China tinha virado um “gigante de pés de barro”, meio lerda para reagir. Mas reagiu! Como assinala Diamond, a geografia voltou a ter um dedo aqui. O compacto território da China permitiu que ela passasse a maior parte de sua história com um bloco monolítico, sem grandes adversários internos ou externos. Era viável um regente fraco fazer uma grande cagada e ficar por isso mesmo, ou só afetar seu povo. O panorama entrecortado da Europa, por sua vez, fez com que fosse dificílimo que alguém a unificasse. Mesmo Roma em seu apogeu não dominava nem metade dela. Com isso, uma cabeça coroada fraca de reino podia se compensada com a de outro. Colombo tomou vários “nãos” antes de conseguir patrocínio da Espanha. Quando o ouro começou a chegar aos borbotões, os demais monarcas correram atrás do prejuízo antes que fosse tarde. Eles possuíam rivais imediatos, mas a China, não.

No outro extremo do progresso, estariam os aborígines da Tasmânia, ao sul da Austrália. Os tasmanianos foram o povo mais tecnologicamente primitivo que a história já registrou. Diferentemente dos aborígines do continente australiano, os tasmanianos não sabiam acender fogo, não tinham bumerangues, atiradores de lança, utensílios de pedra especializados, machados com cabo, canoas, agulhas de coser nem habilidade para pescar. o registro arqueológico mostra que seus ancestrais haviam chegado do continente australiano com essas tecnologias 10 mil anos antes. Mas a faixa de terra que ligava a Tasmânia ao continente submergiu, e a ilha ficou isolada do resto do mundo. Diamond imagina que qualquer tecnologia pode ser perdida em uma cultura em algum momento de sua história. Quem sabe a matéria-prima tenha escasseado e as pessoas tenham parado de fazer os artigos que dependiam dela. Ou talvez todos os artesãos especializados em uma geração tenham sido mortos por uma tempestade anormal. Talvez o capricho de algum sacerdote ou chefe retrógrado tenham imposto um tabu sobre a prática por uma razão fútil. Sempre que isso acontece com uma cultura que tem contato com outras, a tecnologia perdida pode ser readquirida quando as pessoas demandam o padrão de vida mais elevado que seus vizinhos desfrutam. Mas na isolada Tasmânia, o povo teria precisado reinventar a proverbial roda toda vez que ela fosse perdida, por isso seu padrão de vida gradualmente se deteriorou. Mesmo na Eurásia, as culturas que eram isoladas por terrenos montanhosos – por exemplo, nos Bálcãs e nas highlands escocesas – permaneciam atrasadas por séculos em comparação com a vasta rede de pessoas à sua volta.

Diamond não cai nas armadilhas de considerar a epopeia humana apenas uma sucessão de fatos tomados por líderes, como era nos tempos da antiga historiografia, nem a considera um instrumento regido por inexoráveis forças, no qual os indivíduos são meras peças sem o saber, tal como sempre fizeram os religiosos e, posteriormente, os marxistas. Há um meio termo entre os dois no qual o que ocorre a indivíduos pode fazer toda uma diferença, como um acidente automobilístico ocorrido na Alemanha entre guerras que, se tivesse matado certo passageiro, talvez evitasse uma guerra e poupasse inúmeras vidas; por outro lado, houve grandes contingências com as quais nossos longínquos ancestrais pouco podiam fazer. Veja só: o cavalo teve todo o seu desenvolvimento evolutivo em solo norte-americano. Por ocasião das glaciações, com o soerguimento do isto do Panamá e o breve estabelecimento de uma “ponte” entre o Alasca e a Rússia, migrou para a Eurásia e América do Sul. Por razões ainda muito discutidas, extingui-se nas Américas, sobrevivendo apenas em seu lar adotivo de outro hemisfério. Numa hipótese plausível, o cavalo poderia ter sobrevivido no “Novo Mundo”, sido domesticado pelos indígenas, que passariam a contar com um grande animal de carga e corrida, venceriam melhor cordilheiras e distâncias, difundindo mais rápido os conhecimentos das grandes civilizações ameríndias. Quando chegassem aqui (se os índios não chegassem à Europa antes), os espanhóis não teriam a vantagem das cargas de cavalaria sobre os exércitos de infantes incas e teriam perdido a guerra. Possível? Sim. Os índios norte-americanos domesticaram por conta própria os cavalos que retornam ao continente trazido pelos colonizadores e voltavam ao estado selvagem caso escapassem. Graças a isso, a conquista do oeste norte-americano deu mais trabalho aos “ianques” do que a conquista da América Latina. E poderia ter sido pior que se os revólveres e rifles de repetição não fossem bem mais eficientes que os velhos arcabuzes. Por uma particularidade ecológica, a Europa teve uma vantagem determinante num instante crítico. Enfim, os europeus não foram vitoriosos na conquista do mundo por serem melhores por genética ou espírito. Simplesmente porque tinham condições de aproveitar melhor o princípio de que “muitas cabeças pensam melhor que uma”. Hoje, a tecnologia nos liberou das amarras da natureza em grande parte. As culturas modernas ainda têm forte peso do que aconteceu no passado, contudo são fatores que podem ser identificados e transformados.

Avaliação: 10,0. Sem dúvida, fez todo o jus ao prêmio Pulitzer que recebeu na categoria “não-ficção geral”, 1998. “Armas, Germes e Aço” vale mais pelo transcurso da viagem a que te convida, que pelo seu destino final. Tudo o que foi escrito acima é uma super-simplificação da narrativa.

Recomendado para: quem quer ser “politicamente correto” sem ser falso ou forçado.

Categorias:História Tags: