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Armas, Germes e Aço – O destino das sociedades humanas

9 de dezembro de 2011 Deixe um comentário Go to comments

Por Jared Diamond, Ed. Record.

Capa de Armas, Germes e Aço

Uma breve história da humanidade.

Este livro descreve uma das mais longas e gratificantes respostas a uma (não tão) simples pergunta. Quando certa vez esteve numa Nova Guiné prestes a conquistar a independência, o biólogo Jared Diamond foi interpelado por um político local – Yali – que lhe indagou com olhos brilhantes:

Por que vocês, brancos, produziram tanto “cargo” [machados de aço, fósforos, remédios, roupas, etc.] e trouxeram tudo para a Nova Guiné, mas nós, negros, produzimos tão pouco “cargo”?

Diamond não deu uma resposta satisfatória naquele instante. Foram necessários 25 anos para o término desta obra-prima, mas provavelmente algumas respostas fáceis (e insatisfatórias) o leitor já deve ter tido acesso. Uma foi a disparidade tecnológica entre os europeus e os povos recém “descobertos” da América e Oceania, o que facilitou a rápida conquista de um pelo outro. Outra resposta oferecida está no LE, cap. V:

(6) Por que há selvagens e homens civilizados? (…) Segundo ela [a doutrina espírita], não há muitas espécies de homens, há tão somente homens cujos espíritos estão mais ou menos atrasados, porém todos suscetíveis de progredir.

A primeira “resposta” peca por contar a história a partir do meio – dos grandes descobrimentos para cá – não deixando claro por que não foram os polinésios que conquistaram a Europa. A “solução” kardecista faz sentido dentro da obra à luz da questão 53:

O homem surgiu em muitos pontos do globo?
R:”Sim e em épocas variadas, o que constitui a causa da diversidade de raças” (…).

Sobre esse pressuposto, os “selvagens” seriam raças mais recentes, cujos corpos seriam habitados por espíritos mais jovens que os dos europeus. Kardec nunca deve ter realmente convivido com “selvagens”, tal como o bem viajado biólogo e espiritualista inglês Russel Wallace que se impressionou com a sofisticação cultural de muitos nativos, ou o próprio Diamond, que comenta no prólogo: “Nós dois [ele e Yali] sabíamos perfeitamente bem que os cidadãos de Nova Guiné são, em geral, tão espertos quanto os europeus.” Mesmo sem ter de apelar para uma “correção política” para refutar a proposta kardecista, ela esbarra no fato de ter se baseado em pressupostos falsos. Primeiro, não importa que se adote a visão da escola monogenista (predominante no momento) ou poligenista, as raças humanas se desenvolveram concomitantemente, sendo igualmente velhas. Segundo e principal: há quinze mil anos, após o término da última glaciação e o começo de um longo período de estabilidade climática, todas as comunidades humanas se encontravam no estágio de caçadores-coletores. Pode-se dizer que no ponto de vista tecnológico, cultural e de organização social, toda a humanidade teve um ponto de partida relativamente semelhante.

A resposta de Diamond está longe de qualquer reducionismo: é sofisticada e multidisciplinar. Lança mão da história, geografia, linguística, antropologia, ecologia e política para mostrar a quantidade de fatores que convergiram para o casual sucesso europeu em relação ao resto do mundo. Porém, em meio a esse banho de cultura, há uma linha mestra: geografia foi destino. Não, não. Pode ficar calmo que não se trata de uma reedição de teorias de que o “homem é produto do meio” da antiga “escola determinista” (nem Ratzel, seu fundador, era tão simplório assim). Ao contrário dos antigos deterministas, Diamond não prega que um ambiente hostil estimule a operosidade de seus habitantes (por exemplo, a presença de uma estação fria) ou elimine os indolentes, muito pelo contrário: se o ambiente é extremamente parco de recursos, não há muito o que fazer além de sobreviver, como fizeram os ancestrais dos atuais beduínos e esquimós. Diamond segue pista oposta: uma avaliação de como o meio pode limitar plena manifestação de todo potencial humano e, principalmente, evitar que uns se beneficiem dos avanços de outros.

Para tanto, o autor se vale de um “experimento social”, suas cobaias foram as ilhas da Oceania. É feito todo um retrospecto do processo de colonização dessa parte do globo a partir da Ásia, o que cada recém-chegado trazia consigo de bagagem técnico-cultural, que plantas e animais encontrava (ou levava) em condições de ser domesticado, aspectos naturais hostis encontrados, a influência de tamanho de cada ilha na capacidade de sustentar populações maiores e de organização mais complexa e, principalmente, o quanto o isolamento geográfico de cada ilha determinou fluxo de inovações entre eles. Então, à época das grandes navegações, surge um mosaico antropológico, com toda uma gama de sociedades mais ou menos complexas espalhadas pelo Pacífico.

É dessa conjunção entre geografia e ecologia que autor dá o pontapé inicial em sua tese. Há dez mil anos ocorreu o principal marco que definiria a separação entre “civilização” e os antigos caçadores-coletores: o advento da agricultura, sendo que ela surgiria primeiro onde era mais propícia, ou seja, nos grandes vales fluviais da Eurásia (Europa + Ásia) – o Crescente Fértil, no Oriente Médio, os rios Indo e Ganges, na Índia, e os vales chineses do rios Azul e Amarelo. O que determinou a permanência da vantagem desses centros foram particularidades do continente eurasiático: a maioria de seus rios e caminhos terrestres o cortam em sua dimensão principal, permitindo um alto fluxo de povos, mercadorias e inovações. A Europa, inicialmente, estava bem atrás dos seus parceiros asiáticos, mas conseguiu “queimar etapas” por se beneficiar da grande herança que outros povos lhe forneciam. Poucas inovações da Antiguidade foram genuinamente europeias, até mesmo o alfabeto – que registrou a orgulhosa literatura greco-latina – é herdeira de longo desenvolvimento iniciado com os primeiros pictogramas do Crescente Fértil. A África tinha duas grandes barreiras para difusão dessa prosperidade para o sul do continente: o Saara ao norte e uma densa floresta tropical ao centro. A maioria de seus rios a corta na direção leste-oeste e não norte-sul. Da mesma forma a América tinha um panorama pouco propício a um rápido intercâmbio entre povos. Desenvolvimentos autóctones rumo a processo civilizatório pleno estavam bem adiantados em ambos os continentes (que o diga os Impérios Inca e Asteca, na América, e o reino Zulu, na África), porém eles foram mais tardios e abortados pela invasão europeia. Uma outra conjuntura natural dos eurasiáticos lhes deu vantagem crucial contra americanos e africanos: a presença de uma boa gama de animais domesticáveis. Além de útil fonte proteica, de roupas e de força; houve mais um subproduto não muito desejável da domesticação: doenças, ou melhor, enfermidades originalmente próprias de determinados animais passaram ao homem quando aumentou a intimidade dos contatos dos nossos ancestrais com eles. Isto explica a grande disparidade de doenças que europeu levaram à Américas e as que trouxeram de lá. Fora o lhama, não houve outra espécie animal de grande porte americano domesticado. A maioria da megafauna americana fora extinta ainda na pré-história. Mais do que a pólvora (passada a surpresa inicial, os arcabuzes de um tiro só não eram páreos para flechas), foram os germes e cavalos que permitiram a um punhado de espanhóis conquistar as capitais de impérios.

Isto diz a vantagem da Eurásia sobre a América, mas ainda está em aberto por que a Europa suplantou a Ásia nas grandes navegações. Cem anos antes de Colombo e Vasco da Gama, chineses se lançavam pelo Índico e Pacífico em embarcações que fariam as caravelas parecerem cascas de noz perto delas. Até que uma facção rival ascendeu ao poder e eliminou sistematicamente tudo o que lembrasse o governo anterior, incluindo os grandes barcos e seus estaleiros. Por um capricho palaciano, a China ficou quatrocentos anos marcando passo. Por pouco, que sabe, não teríamos um “Lun yu segundo o espiritismo”, Confúcio como o espírito mais evoluído que já encarnou no planeta e governador espiritual do mesmo, e um tal de “Ká dé-ki” teria, em sua compilação, situado os europeus entre os chineses e negros na escala das raças… Quando os europeus lá chegaram com seus navios e cheios de exigências, eram os nativos que se assustavam com a potência de seus canhões (a pólvora foi invenção chinesa, ironicamente) e o tamanho das embarcações com relação a seus juncos. A China tinha virado um “gigante de pés de barro”, meio lerda para reagir. Mas reagiu! Como assinala Diamond, a geografia voltou a ter um dedo aqui. O compacto território da China permitiu que ela passasse a maior parte de sua história com um bloco monolítico, sem grandes adversários internos ou externos. Era viável um regente fraco fazer uma grande cagada e ficar por isso mesmo, ou só afetar seu povo. O panorama entrecortado da Europa, por sua vez, fez com que fosse dificílimo que alguém a unificasse. Mesmo Roma em seu apogeu não dominava nem metade dela. Com isso, uma cabeça coroada fraca de reino podia se compensada com a de outro. Colombo tomou vários “nãos” antes de conseguir patrocínio da Espanha. Quando o ouro começou a chegar aos borbotões, os demais monarcas correram atrás do prejuízo antes que fosse tarde. Eles possuíam rivais imediatos, mas a China, não.

No outro extremo do progresso, estariam os aborígines da Tasmânia, ao sul da Austrália. Os tasmanianos foram o povo mais tecnologicamente primitivo que a história já registrou. Diferentemente dos aborígines do continente australiano, os tasmanianos não sabiam acender fogo, não tinham bumerangues, atiradores de lança, utensílios de pedra especializados, machados com cabo, canoas, agulhas de coser nem habilidade para pescar. o registro arqueológico mostra que seus ancestrais haviam chegado do continente australiano com essas tecnologias 10 mil anos antes. Mas a faixa de terra que ligava a Tasmânia ao continente submergiu, e a ilha ficou isolada do resto do mundo. Diamond imagina que qualquer tecnologia pode ser perdida em uma cultura em algum momento de sua história. Quem sabe a matéria-prima tenha escasseado e as pessoas tenham parado de fazer os artigos que dependiam dela. Ou talvez todos os artesãos especializados em uma geração tenham sido mortos por uma tempestade anormal. Talvez o capricho de algum sacerdote ou chefe retrógrado tenham imposto um tabu sobre a prática por uma razão fútil. Sempre que isso acontece com uma cultura que tem contato com outras, a tecnologia perdida pode ser readquirida quando as pessoas demandam o padrão de vida mais elevado que seus vizinhos desfrutam. Mas na isolada Tasmânia, o povo teria precisado reinventar a proverbial roda toda vez que ela fosse perdida, por isso seu padrão de vida gradualmente se deteriorou. Mesmo na Eurásia, as culturas que eram isoladas por terrenos montanhosos – por exemplo, nos Bálcãs e nas highlands escocesas – permaneciam atrasadas por séculos em comparação com a vasta rede de pessoas à sua volta.

Diamond não cai nas armadilhas de considerar a epopeia humana apenas uma sucessão de fatos tomados por líderes, como era nos tempos da antiga historiografia, nem a considera um instrumento regido por inexoráveis forças, no qual os indivíduos são meras peças sem o saber, tal como sempre fizeram os religiosos e, posteriormente, os marxistas. Há um meio termo entre os dois no qual o que ocorre a indivíduos pode fazer toda uma diferença, como um acidente automobilístico ocorrido na Alemanha entre guerras que, se tivesse matado certo passageiro, talvez evitasse uma guerra e poupasse inúmeras vidas; por outro lado, houve grandes contingências com as quais nossos longínquos ancestrais pouco podiam fazer. Veja só: o cavalo teve todo o seu desenvolvimento evolutivo em solo norte-americano. Por ocasião das glaciações, com o soerguimento do isto do Panamá e o breve estabelecimento de uma “ponte” entre o Alasca e a Rússia, migrou para a Eurásia e América do Sul. Por razões ainda muito discutidas, extingui-se nas Américas, sobrevivendo apenas em seu lar adotivo de outro hemisfério. Numa hipótese plausível, o cavalo poderia ter sobrevivido no “Novo Mundo”, sido domesticado pelos indígenas, que passariam a contar com um grande animal de carga e corrida, venceriam melhor cordilheiras e distâncias, difundindo mais rápido os conhecimentos das grandes civilizações ameríndias. Quando chegassem aqui (se os índios não chegassem à Europa antes), os espanhóis não teriam a vantagem das cargas de cavalaria sobre os exércitos de infantes incas e teriam perdido a guerra. Possível? Sim. Os índios norte-americanos domesticaram por conta própria os cavalos que retornam ao continente trazido pelos colonizadores e voltavam ao estado selvagem caso escapassem. Graças a isso, a conquista do oeste norte-americano deu mais trabalho aos “ianques” do que a conquista da América Latina. E poderia ter sido pior que se os revólveres e rifles de repetição não fossem bem mais eficientes que os velhos arcabuzes. Por uma particularidade ecológica, a Europa teve uma vantagem determinante num instante crítico. Enfim, os europeus não foram vitoriosos na conquista do mundo por serem melhores por genética ou espírito. Simplesmente porque tinham condições de aproveitar melhor o princípio de que “muitas cabeças pensam melhor que uma”. Hoje, a tecnologia nos liberou das amarras da natureza em grande parte. As culturas modernas ainda têm forte peso do que aconteceu no passado, contudo são fatores que podem ser identificados e transformados.

Avaliação: 10,0. Sem dúvida, fez todo o jus ao prêmio Pulitzer que recebeu na categoria “não-ficção geral”, 1998. “Armas, Germes e Aço” vale mais pelo transcurso da viagem a que te convida, que pelo seu destino final. Tudo o que foi escrito acima é uma super-simplificação da narrativa.

Recomendado para: quem quer ser “politicamente correto” sem ser falso ou forçado.

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