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A Reencarnação na Bíblia e na Ciência

A História como o Espiritualismo gostaria que fosse. Gostaria.

Autor: José Reis Chaves, ebm editora, 7ª ed.

Fiquei na dúvida se classificaria este livro como de “Ciência e Religião” ou de “História”. Optei por esta última porque vou apenas me deter ao capítulo VI e VIII da obra, que têm um cunho mais histórico. Bem, aqui vai uma relação de “problemas” encontrados:

São Justino, mártir, autor de Apologia da Religião Cristã, também faz parte da lista de santos reencarnacionistas e sábios do cristianismo primitivo. Segundo ele, “a alma habita corpos sucessivos, perdendo a memória das vidas passadas” (16)

Cap VI. p.203

e em nota de rodapé:

(16)A Reencarnação e a Lei do Carma, pág. 46, William Walker Atkinson, Editora Pensamento, São Paulo, SP.

É uma citação de citação e quem buscar a obra de Atkinson não encontrará referência alguma. Puxa-se o fio para descobrir que não há nada na outra ponta. Por meio de citações análogas feitas por outros espiritualistas, chega-se ao livro Diálogos com Trifão, cap. IV. Quando se lê esse texto, constata-se que Justino ainda era pagão e foi convencido de estar errado por seu interlocutor. Se o leitor ainda acha que ele continuou reencarnacionista ainda cristão, tudo bem. Mas lembre-se: o ônus da prova passa a ser teu, i.e., diga a todos onde ele escreveu isso!

Ademais, São Clemente de Alexandria era liga à corrente gnóstica cristã, e os gnósticos eram contrários à entrega espontânea ao martírio por parte de muitos cristãos da época dele. E, assim, sempre que lhes fosse possível, eles protegiam sua vida contra as perseguições dos inimigos do cristianismo (…)
Fócio, um patriarca de Constantinopla no século IX, era político ambicioso e sem escrúpulos, como diz a História, e responsável pelo Cisma dos Gregos, em 863, foi, no entanto, escritor de talento.

Sempre houve uma certa rivalidade entre os sábios de Constantinopla e os de Alexandria, sendo que os desta cidade sempre levavam vantagem sobre os daquela. E essa rivalidade atingiu os próprios patriarcas das duas cidades.

Não se sabe muito bem por que, pois Fócio viveu cerca de seiscentos anos depois de São Clemente de Alexandria, mas o fato é que Fócio escreveu um trabalho em que desprestigiava muito o célebre sábio de Alexandria, de cuja universidade São Clemente foi reitor. Teria Fócio escrito esse livro por causa da citada rivalidade intelectual que havia entre os sábios de Constantinopla e Alexandria?

O certo é que o Papa Benedito (Bento) XIV, em meados de século XVIII, após ter lido a referida obra do patriarca de Constantinopla, Fócio, decidiu-se pela cassação do título de santo de São Clemente, cujo nome foi tirado do calendário de santos da Igreja.

Se Fócio, como vimos, era um político ambicioso e de poucos escrúpulos, além de ter sido responsável pelo Cisma Grego (863) já mencionado, é estranho que o Papa Benedito (Bento) XIV tenha se deixado influenciar pela citada obra de Fócio. Por isso, nos arriscamos a dizer que o fato dessa cassação do título de santo de São Clemente de Alexandria, por parte de Benedito (Bento) XIV, poderia ter sido, na verdade, a crença de São Clemente na reencarnação, fato esse que passou a se destacar muito, justamente na época de Benedito (Bento) XIV.

cap. VI, pp. 200-1.

Em primeiro lugar, situemos qual obra de Fócio deve ser pesquisada: Biblioteca (Myriobiblon). Ao contrário do que se alega, não foi escrita no intuito de denegrir Clemente de Alexandria por ele ser de uma escola teológica rival, que, por sinal, àquela época já estava sob domínio muçulmano e fora das maquinações da corte bizantina. Biblioteca é, na verdade, um grande conjunto de resenhas de mais de 200 livros de diversos teólogos lidos e comentados por Fócio. No bojo dessa “biblioteca”, Fócio comenta três obras de Clemente de Alexandria e o que talvez seja de interesse dos autores reencarnacionistas seja a entrada 109 acerca da obra Esboços. A questão é que esse livro está perdido atualmente e não dá para saber até que ponto a resenha dele é justa ou não. As outras duas (Miscelâneas e Tutor) receberam comentários bem mais simpáticos. Em Miscelâneas, por sinal, fica claro que o conceito dele de gnose é bem diferente das seitas gnósticas, às quais ele combate no livro.

Orígenes é conhecido como um dos maiores sábios cristãos de todos os tempos. Foi praticamente o criador de nossa teologia cristã. E, como apenas 17 anos, foi reitor da Universidade de Alexandria, em substituição a São Clemente de Alexandria. E diga-se, de passagem, que Alexandria foi o maior centro intelectual do mundo, na época de Orígenes, século 3º.

cap. VI, p. 203.

Eusébio de Cesaréia – o principal biógrafo de Orígenes -, em seu “História Eclesiástica”, Livro VI, cap. III, item 3, informa que Orígenes dirigiu a Escola Catequética da cidade. Um cargo importante para a comunidade cristã, de fato, mas irrelevante para o mundo pagão a sua volta.

São Jerônimo (…) também aceitava a reencarnação. Aliás talvez seja por isso que a Igreja pouco fale de São Jerônimo.

Ele afirma que a transmigração das almas foi ensinada durante um longo tempo na Igreja. (9)

Muito do que escreveu São Jerônimo escreveu está em forma de cartas. Em suas Cartas a Avitus, imperador romano, Jerônimo fala sobre a reencarnação (transmigração das almas) (10).

E eis o que escreveu São Jerônimo: “A transmigração das almas é ensinada secretamente a poucos, desde os mais remotos tempos, como uma verdade não divulgável”.(11)

Cap. VI, p. 210-211

As notas de rodapé são:

(9) Evangelho Esotérico de São João, pág. 68, Paulo le Cour, São Paulo, 1993.

(10) Vidas Passadas – Vidas Futuras, pág. 237, Dr. Bruce Goldberg, Editorial Nórdica Ltda. Rio de Janeiro, 1993.

(11) O Mistério do Eterno Retorno, pág. 123, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, SP.

Não existiu nenhum imperador romano de nome Ávitus durante o tempo de vida de Jerônimo. Apenas trinta anos após sua morte houve um que governou por cerca de um ano. Pouco se sabe a respeito do destinatário dessa carta. Ademais, ela não tem referência elogiosa alguma para a reencarnação, muito pelo contrário: é a carta em que Jerônimo expõe uma sinopse de sua tradução de De Principiis e o critica o tempo todo.

São Gregório de Nissa era reencarnacionista e fazia parte dos teólogos cabalistas que afirmavam que o maior argumento a favor da reencarnação era a justiça de Deus.(14)

Um texto dele: ”Há necessidade de natureza para a alma imortal ser curada e purificada, e se ela não o for na sua vida terrestre, a cura se dará através de vidas futuras e subsequentes.”(15)

Cap VI; p. 212

notas de rodapé:

(14) A Reencarnação e a Lei do Carma, pág 47, William Walker Atkinson, São Paulo, SP.

(15) Reencarnação, pág. 153, John Van Auken, Editora Record, Rio de Janeiro, RJ, 1989; e O Mistério do Eterno Retorno, pág. 123, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, SP.

Bem, estamos diante de mais uma “citação de citação” patrística sem referência exata da fonte. Diz-se o nome do autor, mas nada sobre a obra de onde ela saiu. Chaves até acerta ao afirmar (um pouco antes) que Gregório de Nissa não cria na “eternidade do inferno” e, junto a Orígenes, foi um dos poucos universalistas da patrística. Entretanto, como fica patente em suas obras Sobre a alma e a Ressurreição e Sobre a Construção do Homem (cap. XXVIII), Gregório de Nissa acreditava que a alma se formava junto com o corpo (traducianismo).

Santo Agostinho morreu em 430, ou seja, 123 anos antes de V Concílio Ecumênico de Constantinopla II (553), o qual, supostamente, teria condenado a reencarnação.

Cap. VI, p.209-10

Agostinho de Hipona, mais de 123 antes de 553, já condenava o origenismo com seu sistema inter eras (Dos Processos de Pelágio, cap. IX e X.) e as ideias universalista ao estilo de Gregório de Nissa (Cidade de Deus, XXI, 17), afinal fora contemporâneo à primeira crise origenista. Podes até achar cruéis as palavras de Agostinho – também acho – mas era o que ele realmente pensava. Apesar de sugerir certo tipo de preexistência em Confissões, recusava-se a fazer qualquer afirmação categórica quanto a origem da alma (Da Alma e Sua Origem, Livro I, cap. III) adota a vida única em estado mortal. Uma combinação sui generis. Ironicamente, um autor usado por Chaves – William Walker Atkinson, em A Reencarnação e a Lei do Carma, p. 47; uma página após falar de Justino – já falava da oposição de Agostinho ao origenismo.

A Igreja teve alguns concílios tumultuados. Mas parece que o V Concílio de Constantinopla II (553) bateu o recorde em matéria de desordem e mesmo de desrespeito aos bispos e ao próprio Papa Virgílio, papa da época.

O imperador Justiniano tem seus méritos, inclusive o de ter construído, em 552, a famosa Igreja de Santa Sofia, obra-prima da arte bizantina, hoje uma mesquita muçulmana.

Era um teólogo que queria saber mais que teologia do que o papa. Sua mulher, a imperatriz Teodora, foi uma cortesã e se imiscuía nos assuntos do governo do seu marido, e até nos de teologia.

Contam alguns autores que, por ter sido ela uma prostituta, isso era motivo de muito orgulho por parte das suas ex-colegas. Ela sentia, por sua vez, uma grande revolta contra o fato de suas ex-colegas ficarem decantando tal honra, que, para Teodora, se constituía em desonra.

Para acabar com esta história, mandou eliminar todas as prostitutas da região de Constantinopla – cerca de quinhentas.

Como o povo naquela época era reencarnacionista, apesar de ser em sua maioria cristão, passou a chamá-la de assassina, e a dizer que deveria ser assassinada, em vidas futuras, quinhentas vezes; que era seu carma por ter mandado assassinar as suas ex-colegas prostitutas.

O certo é que Teodora passou a odiar a doutrina da reencarnação. Como mandava e desmandava em meio mundo através de seu marido, resolveu partir para uma perseguição, sem tréguas contra essa doutrina e contra o seu maior defensor entre os cristãos, Orígenes, cuja fama de sábio era motivo de orgulho dos seguidores do cristianismo, apesar de ele ter vivido quase três séculos antes.

Como a doutrina da reencarnação pressupõe a da preexistência do espírito, Justiniano e Teodora partiram, primeiro, para desestruturar a da preexistência, com o que estariam, automaticamente, desestruturando a da reencarnação.

Cap. VIII, p. 231-2

Não há evidência histórica alguma quanto a essas alegações e nem referência que se preze é fornecida. Seria um boato espalhado? O único cronista da época (Procópio: Dos Edifícios, Livro I, cap. IX, e História Secreta, cap. XVII) que comenta sobre Teodora e as 500 prostitutas, não assevera nenhuma chacina e não relaciona isso com o V Concílio. Os cronistas que efetivamente falaram do V Concílio ou do sínodo de 543 (Cirilo de Citópolis: Vida de Saba; Liberato de Cartago: Breviarium…, cap. XXIII e XXIV; Evágrio Escolástico: História Eclesiástica, Livro IV, cap. XXXVIII) mostram que o estopim para a sua convocação partiu de baixo para cima, mais especificamente através da solicitação de monges ortodoxos da Palestina. Nenhum dá importância à Teodora no desenrolar dos acontecimentos e, inclusive, Liberato (cap. XXIV) a expõe como favorecedora de um origenista. Ademais, não há explanação alguma quanto à Primeira Crise Origenista ocorrida 150 anos antes e que praticamente definiu os dogmas da ortodoxia quanto à origem e o destino da alma.

* * *

Bem, o panorama é esse: em pouco espaço de texto, uma quantidade alta de erros históricos. Livros com erros são coisas da vida e compra quem quiser. As edições mais antigas do mesmo livro tinham o título A Reencarnação Segundo a Bíblia e Ciência e, conforme entrevista dada pelo autor, ele teria sido usado para trabalho na PUC-RS. De posse das informações acima, será que ainda seria usado?

O problema desses capítulos é que não se fez uma verdadeira pesquisa a respeito do cristianismo primitivo, em especial, da ortodoxia. Caso estivéssemos falando de seitas gnósticas, seria menos complicado para ele, pois muitas eram realmente reencarnacionistas, apesar de não crerem que estar encarnado fosse algo bom… Onde o livro “peca” é em atribuir à própria ortodoxia um pensamento reencarnacionista moderno. Uma simples leitura das obras da patrística desfaria muito dos equívocos aqui mostrados, mas o que se vê é um apanhado de informações de segunda mão, muitas duvidosas. Não que fazer “citações de citações” seja algo proibitivo, até porque muitas vezes o original pode não estar tão acessível assim, porém até para isso há convenções a que convém seguir. Primeiramente, a referência deve encadear até que se chegue à fonte primária. Quanto mais distante estiver a citação presente da ponta da cadeia, pior; já que aumentam as chances de ter ocorrido alguma prática de misquotation ou cherry picking. Outro pormenor importante é saber de quem você está pegando a informação. É um trabalho acadêmico ou algo de caráter mais jornalístico, voltado à divulgação e ao lucro? As fontes dos capítulos em questão encontram-se majoritariamente neste segundo e bem mais fraco grupo ou, no caso de Teodora, não há uma referência sequer. Isso viola o princípio da verificabilidade: uma fonte bem indicada para que outros possam lê-la e, se for o caso, refutá-la. Até a mal afamada Wikipedia procura seguir isso. E, em terceiro, é preciso ter em mente que fontes primárias são sempre filtradas pelas secundárias. O ideal é sempre ler as primárias e, então, partir para uma gama de secundárias para se inteirar do que os pesquisadores antes de ti já pensaram, porque eles descartaram ou relativizaram esse ou aquele testemunho, e só daí tecer o seu juízo. Afinal você também será uma fonte secundária para outros e deve se embasar em argumentos e evidências de melhor qualidade, e não meramente pinçar esse ou aquele autor que lhe aprouver. Quando isso não é plenamente possível, prefira os autores que fornecem generosos extratos dos originais em que se basearam e os discutem, também mostrando opiniões contrárias as sustentadas, ainda que para mostrar que estão erradas logo depois. As chances de má fé são menores, mas não impossíveis.

No caso da patrística, boa parte dos originais já está disponível ao público. Temos as séries Nicene and Ante-Nice Fathers – já de domínio público – em vários portais como o Sacred Texts ou a Christian Classics Ethereal Libary (em inglês), várias obras de autores cristãos primitivos em Documenta Catholica Omnia (vários idiomas, principalmente grego e latim), e finalmente o Google Books nos oferta digitalizações da Patrologia Graeca e da Patrologia Latina, de Migne. Estas duas últimas são, sem dúvida, as coletâneas mais completas de obras da Patrística atualmente em domínio público. Como a Patrologia Graeca é bilíngue, o conhecimento de latim é suficiente para ambas. Se você é monoglota, existe a coleção Patrística, da editora Paulus. Só que ela não é tão exaustiva como as anteriores e juntar todos os seus volumes pode doer no bolso, além de existir certo preconceito no meio espiritualista contra editoras católicas. Mas cá entre nós: se tens alguma pretensão em ser estudioso (em qualquer coisa), vais ter que aprender alguma língua estrangeira. Viva, morta ou moribunda. Portanto, não há desculpa para deixar de ler os originais neste assunto.

Avaliação: Sem nota. Não avaliei o livro inteiro porque o resto não me atrai tanto, então me abstenho. Mas a porção analisada merece séria revisão.

Recomendado para: quem ainda quer arriscar quanto ao que é dito sobre reencarnação na ciência nesse livro, por sua própria conta e risco. Mas, sinceramente, sugiro que se leia o portal Existem Espíritos. É gratuito, tem vasto estoque de artigos quanto ao estado da arte e, o melhor de tudo, não subordina as pesquisas científicas às crenças religiosas espiritualistas (use a codificação UTF-8 em seu navegador). Para quem souber inglês e desejar saber mais sobre a compatibilidade entre cristianismo e reencarnação, recomendo Reincarnation in Christianity, de Geddes MacGregor. Não que eu assine embaixo de tudo que ele diz, mas ele respeita muito mais a história do cristianismo que a maioria dos autores espiritualistas.

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