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Jerônimo de Estridão

19 de novembro de 2011 Deixe um comentário Go to comments
Quanto ao elaborador da Vulgata, Léon Denis diz em Cristianismo e Espiritismo que ele “afirma que a transmissão das almas fazia parte dos ensinos revelados a um certo número de iniciados”, porém não faz nenhuma alusão à fonte. O livro O Espiritismo e as Igreja Reformadas (de Jayme Andrade, editora EME, quarta edição) dedica o capítulo VII, parte 3 ao estudo da reencarnação na história e lá preenche tal lacuna:

São Jerônimo afirmou (Hyeron, Epistola ad Demeter) que a “doutrina das transmigrações era ensinada secretamente a um pequeno número, desde os tempos antigos, como um verdade tradicional que não devia ser divulgada”. Esse mesmo Pai se mostra crente na preexistência, em sua 94ª Carta a Ávitus.

José Reis Chaves, em A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, 7ª ed., ebm, cap VI; faz coro com Andrade :

São Jerônimo (…) também aceitava a reencarnação. Aliás talvez seja por isso que a Igreja pouco fale de São Jerônimo.

Ele afirma que a transmigração das almas foi ensinada durante um longo tempo na Igreja. (9)

Muito do que escreveu São Jerônimo escreveu está em forma de cartas. Em suas Cartas a Avitus, imperador romano, Jerônimo fala sobre a reencarnação (transmigração das almas) (10).

E eis o que escreveu São Jerônimo: “A transmigração das almas é ensinada secretamente a poucos, desde os mais remotos tempos, como uma verdade não divulgável”.(11)

As notas de rodapé são:

(9) Evangelho Esotérico de São João, pág. 68, Paulo le Cour, São Paulo, 1993.

(10) Vidas Passadas – Vidas Futuras, pág. 237, Dr. Bruce Goldberg, Editorial Nórdica Ltda. Rio de Janeiro, 1993.

(11) O Mistério do Eterno Retorno,pág. 123, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, SP.

Sinceramente, estranhei quando foi atribuído a Jerônimo um perfil pró reencarnação. Ao contrário dos citados acima, Jerônimo já é um Pai pós-nicêno e, portanto, viveu numa época em que a fluidez teológica já diminuíra bastante. Bem, começando com a carta a Demetrius, pode-se constatar, procurando diretamente na tal carta, que NÃO existe tal referência elogiosa à doutrina da transmigração na carta a Demetrius. Pelo contrário, o que se encontra é:

Este ensinamento perverso e ímpio foi anteriormente amadurecido no Egito e no Oriente e agora que embosca secretamente como uma víbora em sua toca muitas pessoas daquela região, corrompendo a pureza da fé e gradualmente tocando conta de forma silenciosa como um mal hereditário, até atacar um grande número.

Isto é, Jerônimo está fazendo alusão à disseminação do origenismo no meio sírio-egípcio, um dos ingredientes da primeira crise origenista. Continuando: a Carta a Ávitus é de número 124 (desconheço outra sequência que a enquadre na 94ª posição), bom… são detalhes. O que começa a chamar atenção seria é o título de imperador desse tal de Ávitus. Jerônimo nasceu em 340, no ano da morte de Constantino II (imperador do ocidente) e subida ao trono de Constante (340-350). O oriente era governado pelo irmão de ambos Constâncio II. Em 350, Magnêncio toma o trono do ocidente, mas no ano seguinte Constâncio II o derrota e governa o império todo até 360 (ano de batismo de Jerônimo) quando é derrubado por Juliano (360-363). Seguem Valentiano I (364-375), tendo como co-imperador Valente (364-378) e Teodósio – o último a governar um império indiviso (378-395). Seu filho Honório ficou com o ocidente (395-423) e Arcádio com o oriente (395-408). Este foi substituído por Teodósio II (408-450). Jerônimo morreu em 420, não conhecendo nenhum imperador de nome Avitus. O cidadão a que ele faz menção deve ter sido o mesmo que o apresentou a uma mulher de nome Salvina na carta 79ª, datada em 400 d.C. A carta a Avitus é datada em 409-10. De fato, existiu um imperador romano de nome Avitus (Marcus Maecilius Flavius Eparchius Avitus) que reinou em 455-6 no ocidente, mais de trinta anos após a morte de Jerônimo. Ele nasceu em 395, logo era muito novo quando Jerônimo conheceu Salvina por intermédio do outro Avitus e um rapazola quando a carta em questão foi escrita. Voltando ao que interessa, J.R. Chaves acerta quando diz que que Jerônimo escreveu sobre a “transmigração das almas” para Avitus. Só esqueceu de dizer que ele desceu o sarrafo em tal doutrina a carta inteira! Isso parece um típico caso de informação que se corrompeu ao passar de mão em mão. Na verdade, Jerônimo faz uma sinopse ácida para Avitus de sua tradução latina de De Principiis, a mais polêmica obra de Orígenes, em contraposição à versão feita por Rufino, e acusa (erroneamente) Orígenes de ser crente na transmigração e não se mostra nem um pouco a favor da preexistência como diz Andrade. Maiores comentários em dessa briga no artigo sobre o Concílio de Constantinopla.

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