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Agostinho de Hipona

24 de novembro de 2011 Deixe um comentário Go to comments
Do livro “O Espiritismo e as Igreja Reformadas” (de Jayme Andrade, editora EME, quarta edição) capítulo VII, parte 3:

Santo Agostinho escreveu: “Não teria eu vivido em outro corpo, ou em outra parte qualquer, antes de entrar no ventre de minha mãe?” (‘Confissões’, I, cap. VI).

Já em traduções diretas do latim, encontra-se: “E antes deste tempo, que era eu, minha doçura, meu Deus? Existi, porventura, em qualquer parte, ou era acaso alguém. Não tenho quem me responda, nem meu pai, nem minha mãe, nem a experiência dos outros, nem minha memória. (…)[não há nenhuma alusão à entrada no ventre]”? (Confissões, da coleção “Os Pensadores”, vol. 6, Abril Cultural, 1973). Provavelmente houve algum conflito com versões inglesas onde se lê: “Was I, indeed, anywhere, or anybody? ” [fuine alicubi aut aliquis?, em latim], daí uma má tradução errada do termo anybody. Estas duas versões têm sutis e cruciais diferenças: a primeira é claramente reencarnacionista, ao passo que a segunda não o é necessariamente, podendo ser um questionamento apenas quanto a preexistência. O trecho imediatamente antes esclarece a dúvida: “dizei se a minha infância sucedeu a outra idade já morta ou se tal idade foi a que levei no seio da minha mãe?”. Esta dúvida sempre acompanhou Agostinho, que nunca se definiu como a favor ou contra a existência antes do nascimento, preferindo assumir sua ignorância quanto à origem da alma:

Pois você [Vincêncio Vítor] não apenas caluniou com sua censura os que são afligidos com a mesma ignorância sob a qual eu próprio estou penando, quero dizer, no que diz respeito à origem da alma humana (apesar de eu não ser absolutamente ignorante mesmo quanto a esse ponto, pois sei que Deus soprou a face do primeiro homem, e tal “homem então se tornou alma vivente” (Gn 2:7) – uma verdade, porém, que eu nunca soube por conta própria, exceto o que lera na Escritura); mas você perguntou tão sucintamente. “Qual diferença há entre um homem e uma fera selvagem, se ele não sabe como discutir e determinar sua própria qualidade e natureza?” E você parece nutrir sua opinião tão distintamente, como tendo pensado que um homem deva ser capaz de discutir e determinar completamente os fatos de própria qualidade e natureza tão distintamente, de modo que nada acerca de si mesmo deva escapar de sua observação. Agora, se isto é realmente a verdade da questão, devo, então, compará-lo “ao gado” se não puder me dizer o número preciso de fios de cabelo da sua cabeça. Mas se, apesar do quanto possamos avançar nesta vida, você nos permitir sermos ignorantes de diversos fatos pertencentes a nossa natureza, então eu quero sabe o quão longe sua concessão se estende, que, porventura, pode incluir o mesmo ponto que estamos tratando agora, que de qualquer maneira não sabemos a origem de nossa alma, apesar de sabermos – algo que pertence à fé – além de qualquer dúvida, que a alma é um presente de Deus ao homem, e ainda que ela não é da mesma natureza do próprio Deus.

Da Alma e Sua Origem, Livro IV, cap. III

Ao contrário de Orígenes, ele não considerava a união da alma com o corpo como uma punição. Os problemas viriam com o pecado, que imporia um domínio da matéria sobre alma. A discordância entre Orígenes fica patente numa carta de Agostinho a Optatus:

Mas como afirmas que as almas não se propagam, deves explicar a partir de quê Deus as faz. É a partir de algum material pré-existente ou do nada? Pois é impossível que sustentes a opinião de Orígenes, Prisciliano e outros hereges que, por causa dos atos cometido numa vida anterior, as almas são confinadas em corpos mortais e terrenos. Esta opinião é, na verdade, categoricamente contradita pelo o que o apóstolo de Jacó e Esaú que, antes de terem nascido, não cometeram nem o bem, nem o mal (Rom 9:11).

Nota: Esta carta aparece como sendo a 144ª da coletânea de Jerônimo, que teria, na verdade, uma versão simplificada dela.

J.R. Chaves em seu Reencarnação na Bíblia e na Ciência, cap. VI até traz uma versão correta do texto de “Confissões”, que sugere pré-existência, mas não ainda reencarnação. O texto que Chaves realmente traz de novo é o de “Contra Acadêmicos”:

A mensagem de Platão, a mais pura e luminosa de toda a Filosofia, pelo menos tornou difusa a escuridão do erro e agora brilha em Plotino, discípulo de Platão, tão semelhante ao mestre, que se pensaria que viveram juntos, ou melhor – uma vez que separados por tão longo período de tempo-, que Platão nasceu de novo em Plotino. (8)

Na nota de rodapé (8) : Vidas passadas – Vidas Futuras, pág. 35, Dr. Bruce Goldberg, Editorial Nórdica Ltda, Rio de Janeiro, 1993.

Ora, mais uma citação de citação. Mas, felizmente, tal texto realmente existe e está no capítulo XVIII de Contra Acadêmicos. O texto da tradução inglesa de John J. O’Meara (Paulist Press) traz : “that one should rather think that Plato had come to life again in Plotinus”. Isto é: “voltara à vida novamente em Plotino”. Isto pode até significar “nascer de novo”, mas pode ter, também, sentido puramente metafórico. Digo isso porque, quando questões doutrinárias estavam realmente em jogo, Agostinho tinha uma posição bem nítida:

Devo agora, vejo eu, entrar na arena de afável controvérsia com aqueles cristãos compassivos que renegam em acreditar que qualquer, ou todos os que o infalivelmente justo Juiz possa declarar merecedor do castigo do inferno, sofrerá eternamente e quem supõe que eles serão enviados a um período fixo de castigo, maior ou menor de acordo com a quantidade de pecado de cada homem. Quanto a esta questão, Orígenes foi ainda mais indulgente; pois acreditava que mesmo o próprio diabo e seus anjos, depois de sofrerem das mais severas e prolongadas dores a que seus pecados estão reservados, devam ser libertados de seus tormentos e associados com os santos anjos. Mas a Igreja, não sem razão, condenou-o por este e outros erros, especialmente por sua teoria de alternâncias incessantes entre felicidade e miséria e uma interminável transição de um estado a outro em períodos de eras fixas; pois nesta teoria ele perde mesmo o crédito por ser misericordioso, ao distribuir aos santos misérias verdadeiras misérias para a expiação de seus pecados e falsa felicidade, que não lhes traz nenhuma alegria verdadeira e segura, isto é, uma destemida certeza da eterna redenção. Muito diferente, porém, é o erro de que falamos, que é ditado pela compaixão destes cristãos que supõem que os sofrimentos dos que forem condenados no julgamento será temporário, ao passo que a redenção de todos que serão cedo ou tarde libertos será eterna.

Cidade de Deus, XXI, 17

De Chaves:

Santo Agostinho morreu em 430, ou seja, 123 anos antes de V Concílio Ecumênico de Constantinopla II (553), o qual, supostamente, teria condenado a reencarnação.

Agostinho de Hipona, mais de 123 antes de 553, já condenava o origenismo com seu sistema entre-eras e as ideias ao estilo de Gregório de Nissa, afinal fora contemporâneo à primeira crise origenista. Podes até achar cruéis as palavras de Agostinho – também acho – mas era o que ele realmente pensava. Apesar de crente em certo tipo de pré-existência, adota a vida única em estado mortal. Uma combinação sui generis. Ironicamente, Chaves deveria saber disso, pois um autor usado por ele – William Walker Atkinson, em A Reencarnação e a Lei do Carma, p. 47; uma página após falar de Justino – já falava da oposição de Agostinho ao origenismo.

Latino, pelo fim do terceiro século opinava que a ideia de imortalidade da alma implicava sua pré-existência. S. Agostinho, em suas “Confissões”, usa as seguintes notáveis palavras: ‘Não vivi eu em outro corpo [erro aqui, como visto acima] antes de entrar no ventre de minha mãe?’ Esta expressão é tanto mais notável, porque Agostinho se opunha a Orígenes em muitos pontos da doutrina, e porque foram escritas no ano de 415.

A quem quiser saber mais sobre as ida e vindas de Agostinho quanto à origem das almas, do sofrimento humano e a gestação de sua doutrina do “pecado original”, sugiro a leitura de The Origenist Controversy, de Elzabeth A. Clark, cap. V, p. 227-244.

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