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Palingênese – colocando o carro na frente dos bois!

29 de novembro de 2011 Deixe um comentário Go to comments

Carro na frente do boi

– Se o verbete é este, então vou escolher o sentido que mais me agrada.
– Acho que está fazendo isso errado…

Uma tradução controvertida que Severino da Silva faz de Tito 3:4-5 em seu Analisando as Traduções Bíblicas, cap. XVII:

Paulo, em sua epístola a Tito 3:4-5, interpreta bem esta citação do Cristo: ‘Mas quando apareceu a vontade de Deus, nosso salvador; e seu amor para com os homens, não por obras de justiça que tivéssemos feito, mas segundo sua misericórdia nos salvou pelo lavatório da reencarnação, e pelo renascimento de um espírito santo’.

Aqui, Paulo deixa bem claro que Deus nos salvou não porque o tivéssemos merecido, mas por Sua misericórdia, servindo-se da reencarnação a qual é um ‘lavatório’ (de água) e um ‘renascimento do espírito’. A palavra grega do texto a que se refere Paulo é παλιγγενεσιας ‘Palingenesia’ – isto é, ‘renascimento’, ‘Novo Nascimento’, REENCARNAÇÃO. [grifos do autor]

É um argumento até bem organizado, mas que, visto de perto, revela sérias rachaduras. Em primeiro lugar, se uma das máximas espíritas é “fora da caridade não há salvação”, então como essa passagem afirma que as obras têm pouco valor na misericórdia divina? E, segundo, o mais interessante ainda aparece nos versículos seguintes:

que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador a fim de que, justificados por graça [misericórdia], nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna. Fiel é esta palavra, e quero que, no tocante a estas coisas, faças afirmação, confiadamente, para que os que têm crido em Deus sejam solícitos na prática de boas obras. Estas coisas são excelentes e proveitosas aos homens.

Tito 3:6-8

Ele até diz que devemos ser “solícitos na prática de boas obras”, mas o que salta aos olhos é “somos justificados por graça”. Severino Celestino da Silva forçou a barra da reencarnação em um texto salvacionista! Analisou uma palavra e desviou a atenção do leitor para fora do contexto (1).

E quanto ao sentido de Palingenesia? De fato, há registros dela com o uso de “reencarnação” na filosofia grega(2), mas seria esse o único uso que lhe era dado? Quem define o significado de uma palavra é quem a usa, não os dicionários, que apenas registram suas diversas acepções. O panorama, seja do texto ou social, é o que nos dá noção do real significado, do contrário temos uma inversão de raciocínio: em vez de analisar o texto para determinar se a realidade dos primeiros leitores possibilitava a presença da reencarnação em seu credo e a partir daí traduzir conforme seus conceitos, arbitra-se a existência dela no credo e a tradução é feita conforme tal prejulgamento.

Portanto, passemos à análise dos diversos valores que “palingenesia” pode assumir. Ela só aparece mais uma vez na Bíblia:

E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, quando, na regeneração [εν τη παλιγγενεσια], o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel.

Mt 19:28

O versículo se relaciona diretamente com o sentido escatológico do fim dos tempos. Este sentido escatológico aparece também na literatura pagã, em especial entre os filósofos estoicos. Fazia parte da doutrina dessa corrente, entre outras coisas, a crença em diversos ciclos nos quais o universo seria renovado. Assim escreveu o imperador romano Marco Aurélio em suas Meditações, livro XI, 1

E além disso, ela [a alma racional] percorre todo o universo e o vácuo circundante, e analisa sua forma, e se estende para o infinito de tempo, e abarca e compreende a periódica renovação [περιοδικην παλιγγενεσιαν] do universo, e entende que os que virão após nós não verão nada novo, nem os que vieram antes viram algo mais, mas de certo modo, o quarentão, ainda que não tenha discernimento, viu tudo o que foi e o que será, em virtude da similaridade das coisas.

Sentido escatológico similar é o que deve ser entendido em (Mt. 19:28). Em outras partes não bíblicas da literatura judaico-cristã é possível “palingenesia” significando “regeneração”, “restauração”:

Agora que Zorobadel obtivera estas concessões do rei, ele saiu do palácio e, olhando para o céu, começou a render graças a Deus pela sabedoria que lhe dera e a vitória que tivera com isso, mesmo na presença do próprio Dario; visto que, disse ele,”Eu não tinha me julgado merecedor destas vantagens, ó Senhor, a menos que tivesses sido favorável a mim“. Então, quando já agradecera a Deus pelas presentes circunstâncias em que se achava e orara para que ele lhe proporcionasse como um favor o tempo vindouro, voltou para Babilônia e trouxe as boas novas sobre as concessões que conseguira do rei a seus compatriotas; que, assim que ouviram o mesmo, também deram graças a Deus que mais uma vez restaurou a eles a terra de seus antepassados. Então puseram-se a beber e comer, e por sete dias continuaram festejando, e mantiveram uma celebração pela reconstrução e restauração de seu país [καὶ παλιγγενεσιαν της πατρίδος εορταζοντες].

Extraído de Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas X, cap. III, parágrafo 9. Uma passagem que relata o fim do cativeiro de Babilônia e retorno dos judeus a sua terra, após a tomada deste reino pelos persas de Dario. Fontes grego-latinas disponíveis em Antiquitates Judaicae.

E um exemplo do cristianismo primitivo:

Portanto, vamos render graças a Sua excelsa e gloriosa vontade; e implorando Sua misericórdia e bondade amorosa, enquanto deixamos todas as tarefas infrutíferas, e disputa, e inveja que leva a morte, vamos nos voltar a Sua compaixão e se valer dela. Vamos contemplar continuamente os que ministraram perfeitamente para Sua excelsa glória. Tomemos (por exemplo) Enoque, que, sendo reconhecido virtuoso em obediência, foi arrebatado e nunca foi sua morte registrada. Noé, sendo reconhecido fiel, pregou a regeneração (παλιγγενεσιαν) do mundo através de seu ministério; e o Senhor salvou através dele os animais que, harmoniosamente, entraram na arca.

I Carta de Clemente de Roma aos Coríntios, cap. IX

Não só o universo, o mundo ou nações podem sofrer um processo de “palingenesia”. Pessoas também podem sofrê-lo e ainda em vida. Diz-nos isso o político e orador romano Cícero, em sua coletânea de cartas a seu amigo Ático, mais especificamente na carta 6 do livro VI:

Amicorum litterae me ad triumphum vocant, rem a nobis, ut ego arbitror, propter hanc palingenesian nostram non neglegendam. Qua re tu quoque, mi Attice, incipe id cupere quo nos minus inepti videamur.

As cartas de meus amigos me convidam ao triunfo, uma coisa, em minha opinião, que não devo negligenciar em vista de minha restauração, Por isso, meu [caro] Ático, que tu também comeces a desejá-lo para que eu pareça menos tolo (3).

As circunstâncias da carta representam o fim do proconsulado de Cícero na província da Cilícia, ao sul da atual Turquia. Fora a contragosto devido a um sistema de sorteio entre os magistrados e governou de 51 a 50 a.C., tendo se preparado para possível invasão dos partas (que acabou ocorrendo na Síria, mas foram repelidos) e feito pequena campanha contra tribos ainda hostis [Ferrero]. Aparenta ter feito bom governo, ainda mais quando comparado com a rapinagem praticada pelos demais governadores romanos. Foi-lhe decretado um triunfo por suas vitórias na ocasião de seu retorno à Itália. Cícero considerou seu retorno triunfal uma nova fase de sua vida, adotando a palavra “palingenesia” para defini-la e traduzida por certo erudito inglês como “nova etapa da vida”. Essa “palingenesia” para encarnados é a que melhor define a ideia contida em Tito 3:5, especialmente pela mudança de comportamento apresentada nos versículos que antecedem:

Lembra-lhes que devem ser submissos aos magistrados e às autoridades, que devem ser obedientes e estar sempre prontos para qualquer trabalho honesto, que não devem difamar a ninguém, nem andar brigando, mas sejam cavalheiros e delicados para com todos. Porque também nós antigamente éramos insensatos, desobedientes, extraviados, escravos de toda sorte de paixões e de prazeres, vivendo em malícias e inveja, odiosos e odiando uns aos outros.

Confrontando 3:1-3 com 3:6-8, fica claro que, para o autor de Tito, a mudança foi operada externamente por meio da graça. Se a plateia é composta de um grupo de prosélitos (o mais comum num cristianismo nascente), pouco sentido faz falar em reencarnação, pois experimentaram a mudança em vida. Aqui, o sentido de “palingenesia” está mais para o de Cícero que o de Platão, e mais conforme com a pregação paulina.

Talvez haja um fenômeno que já ocorreu antes, na transição do judaísmo para o cristianismo: a releitura. Passagens de um tipo de exegese estão sendo remodeladas para outra. Quando os tradutores da LXX usaram a palavra “parthenos” em Is 7:14 : “a jovem conceberá um filho”, eles usaram uma palavra que podia abarcar pelo menos três sentidos: “virgem”, “menina” e “mulher jovem”. Com observou Geza Vermes, o judaísmo do Segundo Templo possuía uma grande fluidez em seu conceito de “virgindade”: inexperiência sexual, ser ainda impúbere, ter concebido e dado filhos sem menstruação anterior, e o estado de pós-menopausa de da esposa de Abraão, como uma mulher que se tornara virgem pela segunda vez (segundo Filo de Alexandria). O que o cristianismo fez foi adotar seu sentido estrito e desprezar todas as demais possibilidades. Coisa que os espíritas estão fazendo novamente com “palingenesia”.

Notas

(1) Ficou um tanto ambíguo o uso da palavra “lavatório”. No original grego, lê-se loutron: “lavagem, banho” (λουτρον declinada para λουτρου, em genitivo-ablativo). “Lavatório” pode ter esse sentido em português, embora também possa significar “instrumento com que se lava”, “pia” (λουτηρ). O “local onde se lava” seria λουτρων (cujo gen-abl é λουτρωνος).

(2) Plutarco, em Sobre o Consumo de Carne, faz uma defesa apaixonada do vegetarianismo. Um dos argumentos expostos seria a possibilidade reencarnar em corpos animais, conforme algumas escolas apregoavam (ex.: pitagóricos):

No entanto, se alguém porventura demonstrar que as almas em seus renascimentos [παλιγγενεσιαις] fazem uso de corpos comuns e que o que é agora racional reverte para o irracional , e, de novo, o que é agora selvagem se torna-se doméstico, e que a Natureza muda tudo e atribui novas moradas, não irá isso deter o componente indisciplinado naqueles que adotaram a doutrina em razão da implantação de doenças e da indigestão em nossos corpos e pervertendo as nossas almas a uma ilegalidade ainda vez mais cruel, assim que são alijadas do hábito de não divertir um convidado ou celebrar um casamento ou se reunir a nossos amigos sem derramamento de sangue e assassinato?

Sç 998c

Platão, por sua vez, não utilizou essa palavra em seus escritos. Em vez disso, valeu-se da expressão similar “palin gignesthai”:

Dizem eles pois que a alma do homem é imortal, e que ora chega ao fim e eis aí o que se chama morrer, e ora nasce de novo [παλιν γιγνεσθαι], mas que ela não é jamais aniquilada. É preciso, por causa disso, viver da maneira mais pia possível.

Menão (ou Mênon), Sç 81b

Curiosamente, Platão tem um uso consistente do verbo αναβιοω no sentido de “reanimar”, “ressuscitar”, tal qual o escritor judeu Flávio Josefo.

(3) Na tradução foram desfeitos os plurais de modéstia comuns na pena de Cícero.

Para saber mais

– Ferrero, Guglielmo; Grandeza e Decadência de Roma, vol. II, Globo, 1ª ed., 1963, caps. IX – XI, p. 147-187.

– Liddell, Henry George & Scott, Robert; A Greek-English Lexicon, παλιγγενεσια, versão eletrônica de Perseus Digital Library.

– Vermes, Geza; As Várias Faces de Jesus, Record, 1ª ed., 2006, cap. VI, p. 252-254

  1. 12 de abril de 2014 às 21:18

    Cyrix

  2. vanner
    12 de abril de 2014 às 2:31

    Gostaria de saber o nome do autor desta refuacao. Grato vanner

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