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Virgindade de Maria

29 de novembro de 2011
Para ver a história da concepção de Jesus num contexto mais amplo, é necessário contrastá-la com outras lendas de nascimento correntes no judaísmo intertestamental. Os autores do Velho Testamento acreditavam que a esterilidade de uma mulher era causada por Deus, que lhe fechava o útero, mas ele podia igualmente reabri-lo e assim torná-la fértil. Muitos dos heróis bíblicos, inclusive os patriarcas Isaac, Jacó e José, assim como o profeta Samuel, nasceram de mulheres consideradas infecundas – e no caso de Sara, a mulher de noventa anos de Abraão, depois de toda uma vida de esterilidade, Na antiga sociedade e cultura judaicas, esses nascimentos foram considerados milagrosos.

Em seguida, não devemos deixar de observar em nossa avaliação dos evangelhos da infância que o termo “virgem” era suscetível de várias interpretações entre os judeus. É claro, a ausência de experiência sexual era uma delas, mas o grego parthénos também podia significar que a moça era jovem e/ou não casada. Na verdade, na tradução septuaginta do Velho Testamento, parthénos foi usado para traduzir três palavras hebraicas diferentes, “virgem”, “menina” e “jovem mulher”. Já os rabinos da era tanaítica (do século I ao II d.C.) sancionaram ainda outras nuanças, e não há razões para pensar que todas tenham sido inventadas por eles. Mesmo a palavra bethulah, que normalmente significa virgem intacta, quando usada por eles podia transmitir um sentido lateral de imaturidade corporal, com a consequente incapacidade de conceber. Na terminologia rabínica, esse tipo de virgindade numa mulher cessava com o início da puberdade física. A Mixná, o mais velho dos códigos rabínicos, define a virgem como uma mulher que “nunca viu sangue, mesmo sendo casada” (mNiddah 1:4). A Tosefa, outro antigo código legal judeu, afirma, em nome do rabino Eliezer ben Hircanos (final do primeiro século d.C.), que a mulher continuaria a contar como virgem mesmo depois de ter concebido e dado filhos à luz sem menstruação anterior! (tNiddah 1:6)

Para entendermos essas afirmações, devemos nos lembrar que o casamento pré-púbere era geralmente permitido no início da era intertestamental rabínica (7). A bem da verdade, rabinos debatiam seriamente se as manchas de sangue encontradas após a noite de núpcias no leito nupcial de uma menor, isto é, de uma “virgem quanto à menstruação”, marcavam a primeira menstruação ou a consumação do casamento. Assim a ideia de conceber na primeira oportunidade física e tornar-se destarte mãe virgem não foi apenas um arroubo fantasioso da mente rabínica excessivamente imaginativa.

Contudo, outro aspecto da antiga representação judaica da virgindade nos é dado pelo famoso filósofo Filo de Alexandria, contemporâneo de Jesus. Ele descreveu a esposa pós-menopáusica de Abraão como uma mulher que se tornara virgem pela segunda vez (De posteritate Caini 134). Em seu modo de pensamento alegórico usual, ele caracterizou Isaac, a criança nascida milagrosamente de Sara e Abraão, como o “filho de Deus” (De mutatione nominum 131). Citando as palavras de Sara em Gênesis 21:6, “Deus me deu motivo de riso” (Isaac quer dizer “Ele ri”), Filo comentou: “Abre os teus ouvidos e aceita os mais sagrados ensinamentos: o riso é ‘alegria’, e fez iguais ‘procriarem’. De modo que o que é dito é semelhante a : ‘O Senhor gerou Isaac’.” (De allegoria legum iii 129). Ou então, optando por um simbolismo ainda mais surpreendente, Filo atribuiu a gravidez de Sara ao seu encontro com Deus: “Pois Moisés nos mostra Sara concebendo no momento em que Deus a visitou em sua solidão; mas quando ela gera, não é para o autor da sua visita, mas para Abraão.” (De cherubim 45) A única conclusão que precisamos tirar de tudo isso é que as noções de virgindade e de parir sendo virgem eram muito mais elásticas na antiguidade judaica do que a tradição cristã admite.

Nota

(7) – A mulher podia casar-se ao atingir a maioridade, que era fixada por ficção legal aos doze anos e um dia, independentemente de ter atingido ou não a puberdade. Os casamentos da seita essênia proibiam a coabitação até que a jovem tivesse provado, por três períodos consecutivos, que estava fisicamente madura (Josefo, Jewish War [Guerra Judaica] ii.161). É provável que o ato de “fornicação com a esposa”, mencionado num dos manuscritos de Documento de Damasco de Qumrã (4Q270), fosse cometido ao desobedecer-se a esta regra.

Fonte:

-Vermes, Geza; As Várias Faces de Jesus, Record,1ª ed., 2006, cap. VI, p. 252-254

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