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No mundo da Lua

12 de dezembro de 2011 Deixe um comentário Go to comments

Índice

A Lua sobre o mar.

Apresentação


Em Gen, cap VI, 25 se encontra uma declaração estranha sobre a Lua, feitas pelo espírito de Galileu, através da mediunidade de Camille Flammarion:

As condições em que se efetuou a desagregação da Lua pouco lhe permitiram afastar-se da Terra e a constrangeram a conservar-se perpetuamente suspensa no seu firmamento como uma figura ovoide cujas partes mais pesadas formaram a face inferior voltada para a Terra e cujas partes menos densas lhe constituíram o vértice se com esta palavra se designar a face que, do lado oposta à Terra , se eleva para o céu. É o que faz que esse astro nos apresente sempre a mesma face. Para melhor compreender-se o seu estado geológico, pode ele ser comparado a um globo de cortiça, tendo formada de chumbo a face voltada para a Terra.

Daí, duas naturezas essencialmente distintas na superfície do mundo lunar: uma, sem qualquer analogia com o nosso, porquanto lhe são desconhecidos os corpos fluídicos e etéreos; a outra, leve, relativamente à Terra pois que todas as substâncias menos densas se encaminharam para esse hemisfério. A primeira, perpetuamente sem águas e sem atmosfera, a não ser, aqui e ali, nos limites desse hemisfério subterrâneo; a outra, rica em fluidos, perpetuamente oposta ao nosso mundo.

As viagens espaciais comprovaram que a face oculta da Lua não se difere em natureza da que fica voltada para nós, sendo igualmente inóspita. A aparente imobilidade da Lua se deve ao fato de sua órbita ser síncrona: rotação em torno do eixo e translação em volta da Terra têm a mesma duração (28 dias)

Sistema Terra Lua, segundo A Gênese.

Sistema Terra-Lua, segundo “Galileu”: Lua ovoide, com materiais menos densos na face oculta

Na hora de julgar a comunicação, Kardec foi ao mesmo tempo prudente e descuidado, como relatado na nota de rodapé:

Por muito racional e científica que seja essa teoria, como ainda não foi confirmada por nenhuma observação direta, somente a título de hipótese pode ser aceita e como ideia capaz de servir de baliza à Ciência. Não se pode, porém, deixar de convir em que é a única, até ao presente, que dá uma explicação satisfatória das particularidades que apresenta o globo lunar.

Seria isso mesmo?
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Tão Perto e tão Misteriosa


Na verdade, o entendimento a respeito da rotação lunar (ou aparente falta dela) já contava com amplo histórico. Issac Newton, em seu Principia Mathematica produziu uma das primeiras tentativas de explicar o fenômeno:

Se o corpo da Lua fosse fluido como nosso mar, a força da Terra para levantar este fluido nas partes mais próximas e mais remotas estaria para a força da Lua através da qual nosso mar é levantado nos lugares sob e opostos à Lua da mesma forma que a gravidade aceleradora da Lua em direção à Terra para a gravidade aceleradora da Terra em direção à Lua, e o diâmetro da Lua para o diâmetro da Terra conjuntamente; ou seja, da mesma forma que 39,788 para 1, e 100 para 365 conjuntamente, ou da mesma forma que 1081 para 100. Por conseguinte, já que nosso mar, pela força da Lua, é levantado até 8 1/3 pés, o fluido lunar seria levantado pela força da Terra até 93 pés; e por causa disto a forma da Lua seria um esferoide, cujo maior diâmetro produzido passaria através do centro da Terra, e excederia os diâmetros perpendiculares em 186 pés. Tal é a forma, portanto, para qual a Lua tenderia, e deve ter desde o início. C.Q.E.

COROLÁRIO. Por conseguinte, ocorre que a mesma face da Lua está sempre voltada para a Terra; nem poderia o corpo da Lua possivelmente repousar em qualquer outra posição, mas sempre retornaria através de um movimento de libração para esta situação; mas estas librações, no entanto, devem ser excessivamente vagarosas, por causa da fraqueza das forças que as excitam; de forma que a face da Lua, que deveria estar sempre voltada para a Terra, pode, pelo mesmo motivo designado na proposição XVII se voltar em direção ao outro foco da órbita da Lua, sem ser imediatamente puxada de volta, e convertida novamente em direção à Terra.

O Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, proposição XXXVIII, problema XIX

Sistema Terra-Lua, segundo Newton.

Sistema Terra-Lua segundo Newton: no passado com uma Lua líquida (Esq) e, no presente, solidificada numa forma oblonga (Dir).

Apesar do gênio de Newton, sua tese é passível de sérios questionamentos. Primeiro, supôs aprioristicamente uma falta de rotação na Lua desde o princípio, algo difícil em um universo em que os corpos de grande porte frequentemente giram; e, segundo, desconsiderou a atração do Sol, que desalinharia a maré lunar.

Foi um contemporâneo de Newton, o ítalo-francês Cassini I, que, em 1693, fez a primeira descrição correta da rotação lunar, por meio do enunciado de três leis. A primeira, que é a que nos interessa, diz:

A Lua tem rotação uniforme em torno de um eixo fixo seu, sendo o período de rotação igual ao sideral.

Acontece que as leis de Cassini I são empíricas, dizem o como, não o porquê. Assim como a Gravitação Universal tinha dado um embasamento teórico às leis (também empíricas) de Kepler, era necessária uma teoria para os fatos descritos por ele. A primeira concepção correta a respeito da origem deste sincronismo remonta 1754/1755, em um trabalho de início de carreira do filósofo Immanuel Kant:

Mas se o desenvolvimento de um corpo produz por si mesmo produz a rotação axial, então todas as esferas da estrutura cósmica devem tê-la. Por que, então, a Lua não a tem? Algumas pessoas erroneamente pensam que a Lua tem um tipo de rotação pela qual ela sempre tem o mesmo lado voltado para a Terra muito mais devido ao desbalanceamento de um hemisfério que de um verdadeiro impulso rotacional. Deve a Lua realmente ter girado em seu eixo em um período anterior mais rápido e através de alguma causa desconhecido gradualmente ter reduzido seu movimento até que ele se tornou este leve e ponderado resíduo? Precisamos responder esta questão somente em conexão com um dos planetas. Então a aplicação para todos os planetas se seguirá de si mesma. Estou protelando esta solução para outra ocasião, visto que ele tem uma imperiosa conexão ao tema o qual a Real Academia de Ciências de Berlim estabeleceu para o prêmio no ano de 1754.

Kant, História Natural Universal e Teoria do Céu, 1755.

Kant faz uma alusão (bem) indireta a outro artigo publicado por ele em 1754, em que explica o desenvolvimento de um lado oculto da Lua pela ação das marés. Interessante notar a revelação de Kant que da hipótese da “Lua desbalanceada” era mais antiga do que supunha Kardec.

Sistema Terra-Lua, segundo Kant.

Sistema Terra-Lua segundo Kant (visão atual).

Inicialmente a Lua deveria girar mais rápido, estar mais perto da Terra e sua translação deveria ser mais lenta. A ação das marés sobre cada astro (mais especificamente nos oceanos terrestres e na superfície de uma Lua ainda plástica) não seria equilibrada. F4 e F1 seriam mais intensos que F3 e F1, respectivamente, devido a maior proximidade com o centro de gravidade com o astro oposto. O atrito entre as partes mais “fluidas” com as menos plásticas de cada astro “freia” a rotação de cada um. Na Lua, esta frenagem teria praticamente cessado quando ela atingiu a situação de órbita síncrona, mais permanece na Terra (lado direito da figura acima). Além da diminuição da rotação terrestre, o desequilíbrio da atividade das marés provoca o afastamento progressivo da Lua.

Infelizmente, o artigo de Kant (1754) foi publicado em um jornal sem expressão e caiu no esquecimento. O matemático francês Pierre Simon Laplace elaborou nos fins do século XVIII uma teoria alternativa do movimento lunar condizente com as observações da época. Seu prestígio praticamente eclipsou a importância da fricção das marés. Revisões das equações de Laplace revelaram falhas na teoria, que levaram o físico alemão Helmholtz, quase cem anos após o artigo de Kant, a novamente cogitar a frenagem das marés. O artigo de Kant foi redescoberto em 1867, sendo-lhe os créditos dados como precursor. Foi no começo da década de 80 do séc. XIX é que a interação das marés entre dois corpos recebeu um tratamento matemático amplo por George Darwin (filho de Charles Darwin), mas ainda assim ela não é considerada um tema esgotado até o momento.

É imperioso observar que ao longo do século XIX ainda existiam pesquisadores que defendiam a hipótese da Lua estática. Augustus de Morgan, em sua obra Budget of Paradoxes, analisa diversos panfletos do século XIX que atacam a noção de que a Lua gira. Por exemplo, Henry Perigal, astrônomo amador de Londres, foi infatigável nessa argumentação. Segundo um obituário, “o principal objetivo astronômico de sua vida” consistiu em convencer seus contemporâneos de que a Lua não girava. Assim, escreveu brochuras, construiu modelos, chegou a compor poemas para provar sua tese, “suportando com heroica jovialidade o contínuo desapontamento de ver como era vã tal tarefa”.

Mais tarde, Flammarion declarou:

Nesses encontros da Sociedade Parisiense de Estudos Espiritualísticos, escrevi de minha conta algumas páginas sobre assuntos astronômicos assinadas como “Galileu”. As comunicações permaneceram em posse da sociedade e, em 1867, Allan Kardec os publicou sob o título de Uranografia Geral, em sua obra intitulada Gênesis (preservei uma dessas cópias, com sua dedicatória). Essas páginas astronômicas nada me ensinaram. Portanto, não demorei a concluir que elas eram apenas o eco do que eu já sabia e que Galileu não teve nenhuma mão nelas. Quando escrevi as páginas, estava numa espécie de sonho acordado. Ademais, minhas mãos paravam de escrever quando pensava em outro assunto.

Forças Psíquicas Misteriosas, cap. II, p. 27.

Assim, teria tudo sido uma fraude inconsciente. Em O Mundo Invisível e a Guerra, de Léon Denis, cap XVI, atesta esta descrença de Flammarion já no fim da vida:

Também Camille Flammarion teve suas horas de vacilação e alguém nos fez notar que na última edição de seu livro As Forças Naturais Desconhecidas (*), aparecida em 1917, mostra uma tendência em explicar todos os fenômenos apenas pela exteriorização dos médiuns.

(*)Talvez o que Denis chame de “última edição de As Forças Naturais Desconhecidas” seja, na verdade, Forças Psíquicas Misteriosas, lançado em 1906. Flammarion, na introdução, informa que o primeiro livro jamais fora reeditado.

Ainda o espírito “Galileu”, no mesmo capítulo de Gênese, é a afirmação de que Marte não possui satélites. Em 1877, foram descobertas as duas luas marcianas, menos de uma década após a morte de Kardec. Edições mais recentes da Gênese possuem notas de rodapé corrigindo o erro, mas as mudanças partiram de “baixo para cima” e, pelo menos até a décima edição em português (de 1944, antes das viagens espaciais e bem depois da primeira edição francesa), não existiam tais notas.

Curiosamente, uma quantidade grande de artigos on-line dá o baricentro lunar como estando um pouco afastado do centro, em direção à face oculta. Por outro lado, a crosta da face oculta seria mais espessa. A frenagem das marés teria cessado na situação de maior estabilidade, como intuitivamente esperado. De qualquer forma, não há “fluidos” na face oculta da Lua, que continua tão inóspita como sempre, e a Lua realmente gira, coisa que não ocorreria segundo A Gênese.
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Para saber mais

– Autor desconhecido Physical Conditions Govern Appearances of Spectra, World Wide School.

– Brosche, Peter; Understanding Tidal Friction: A History of Science in a Nutshell

– Campbell, William Wallace; The Evolution of the Stars and the Formation of the Earth World Wide School, cap. V

– Danby, J.M.A; Fundamentals of Celestial Mechanics, Willmann-Bell Inc., 2ª ed., págs 382-385, 401

– Flammarion, Camille; Mysterious Psychic Forces, acessado em 17/08/2015

– Gardner, Martin; Ah, Apanhei-te! – Coleção O Prazer da Matemática, Gradiva (Portugal), 1ª ed., vol. XII, págs. 89-93.

– Hawking, Stephen; Os Gênios da Ciência – Sobre os Ombros de Gigantes[contém todo o Principia Mathematica], Ed. Campus/Elsevier.

– Kant, Immanuel; Universal History and Theory of Heaven, 1755, tradução inglesa de Ian C. Johnston.

– Williams, Henry Smith; History of Science, World Wide School, vol. III, cap. XII,

Why doesn’t the Moon Rotate?

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  1. Emanoel T. Costa
    21 de março de 2017 às 13:28

    Kardec sempre recomendava, a todos, que as comunicações devem ser submetidas ao crivo da razão. Nunca as abalizava sem, antes, fazê-lo. Quanto às informações atribuídas a Galileu pela psicografia de C.F. (teria sido mesmo Camille Flamarion?), em a nota aposta após a comunicação, fez a ressalva de que, por mais racional se apresentasse a hipótese levantada, carecia de comprovação. Quanto às luas de Marte, como se viu posteriormente, a informação mediúnica carecia de ser verdadeira. Ou o médium interferiu na comunicação, sobrepondo seu ponto de vista ao do espírito comunicante, ou este, por mais sábio que então fosse, não tinha um conhecimento real dessa situação. É como penso a respeito.

  2. 8 de janeiro de 2015 às 13:18

    Mais um que não lê os artigos que comenta.

  3. Anônimo
    7 de janeiro de 2015 às 23:49

    Tem de ler as notas de rodapé das obras de Kardec, sobre tal assunto ele escreve:
    “(1) Esta teoria da Lua, nova inteiramente, explica, pela lei da gravitação, o motivo por que esse astro apresenta sempre a mesma
    face para a Terra. Tendo o centro de gravidade num dos pontos de sua superfície, em vez de estar no centro da esfera, e sendo,
    em conseqüência, atraído para a Terra por uma força maior do que a que atrai as partes mais leves, a Lua pode ser tida como uma
    dessas figuras chamadas vulgarmente João-paulino, que se levantam constantemente sobre a sua base, ao passo que os planetas,
    cujo centro de gravidade está a distâncias iguais da superfície, giram regularmente sobre o próprio eixo. Os fluidos vivificantes,
    gasosos ou líquidos, por virtude da sua leveza especifica, se encontrariam acumulados no hemisfério superior, perenemente oposto
    à Terra. O hemisfério inferior, o único que vemos, seria desprovido de tais fluidos e, por isso, impróprio à vida que, entretanto,
    reinaria no outro. Se, pois, o hemisfério superior é habitado, seus habitantes jamais viram a Terra, a menos que excursionem pelo
    outro, o que lhes seria impossível, desde que este carece das condições indispensáveis à vitalidade.

    Por muito racional e científica que seja essa teoria, como ainda não foi confirmada por nenhuma observação direta, somente a título
    de hipótese pode ser aceita e como idéia capaz de servir de baliza à Ciência. Não se pode, porém, deixar de convir em que é a única,
    até ao presente, que dá uma explicação satisfatória das particularidades que apresenta o globo lunar. (Nota do Autor)”

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