O Sistema Origenista

Há alegações pra lá de forçadas, em geral feitas por seitas Nova Era, de que Orígenes teria pregado a reencarnação. São feitas muitas especulações a partir da leitura parcial deste filósofo cristão, que fazem vista grossa aos pontos críticos de sua doutrina (que não lhes interessam, óbvio). Ele crê na preexistência da alma antes do nascimento e que elas se encontravam primordialmente num estado de igualdade. Só que, ao contrário do espiritismo, as almas não começavam simples e ignorantes, mas numa espécie de situação angelical; afinal:

Quando no começo Ele criou aqueles seres que desejava criar, i.e, de natureza racional, Ele não tinha motivo algum para criá-las de maneira diferente que a em nome de Si mesmo, i.e., Sua divindade. Como então Ele foi a causa das criaturas que viriam a ser criadas, nas quais não havia nenhuma variação, nem mudança, nem ânsia por poder, Ele criou todas das quais fez iguais e similares, porque não havia nEle nenhuma razão para produzir variedade ou diversidade. Mas como essas criaturas racionais por si só (…) estavam dotadas de livre-arbítrio, esta liberdade de escolha incitou cada uma a progredir a Deus por imitação, ou reduzir-se ao erro pela negligência.

De Principiis, livro II, cap IX, VI

Pelo uso do livre arbítrio, elas se cansavam de sua felicidade e se rebelavam, daí a queda delas. Haveria diferentes níveis de queda, seguindo uma gradação: anjos, estrelas (supondo que elas tivessem pensamento), homens e demônios. Tais posições poderiam ser desfeitas, visto que o livre-arbítrio dado poderia permutá-las. Aqui entra o cerne da pregação origenista: o conceito de “aeon” – era – cada mundo corresponderia a uma delas e nossas era atual seria especial no sentido nela ter ocorrido o sacrifício de Cristo, o que acelerou a restauração de todas as coisas. Isto introduz o conceito de “salvação” no sistema origenista.

Mas quanto a este mundo, que é o próprio considerado uma era, diz-se ser a conclusão de muitas eras. Agora que o santo apóstolo ensina que na era que precedeu esta, Cristo não sofreu, nem mesmo ainda na era que precedeu aquela, e não sei se sou capaz de enumerar o número de eras passadas que Ele não sofreu. Mostrarei, porém, de quais palavras de Paulo eu cheguei a este entendimento. Diz ele: “Mas agora na consumação das eras [tempos], Ele se manifestou para tirar o pecado pelo sacrifício de Si mesmo”. Visto que Ele diz ter sido feito vítima e na consumação das eras manifestou-se para tirar o pecado. Agora após esta era, que é formada pela consumação de outras eras, haverá outras eras por seguir, aprendemos claramente do próprio Paulo, que diz: “nas eras [tempos] vindouras Ele deve mostrar a extraordinária riqueza de Sua graça na Sua bondade para conosco” (Ef. 2.7). Ele não disse “na era vindoura”, nem “nas duas eras vindouras”, daí infiro que, por esta linguagem, muitas eras são indicadas. Agora, se há algo maior que eras, de forma que certas eras devam ser compreendidas entre os seres criados, mas entre outros seres que excedem e ultrapassam as criaturas visíveis, (eras ainda maiores) (que talvez seja o caso na restituição de todas as coisas, quando o universo inteiro virá a um término perfeito), talvez o período em que a consumação de todas as coisas ocorrerá deva ser entendido como algo mais que uma era. Mas aqui a autoridade da sagrada Escritura me persuade ao dizer “Por uma era e mais” (In sæculum et adhuc ). Agora esta palavra “mais” indubitavelmente significa algo maior que uma era; e veja se aquela expressão do Salvador “Estarei onde estou, que estes também estejam comigo e assim como Eu e Tu somos um, que estes sejam um em Nós” (cf. Jo 17:20-22), pode não parece significar algo mais que uma era ou eras, talvez mesmo mais que eras de eras – isto é, aquela época quando todas as coisa que agora são não estiverem mais em uma era, mas quando Deus estiver em todos.

De principiis, Livro II, III. 5.

Ao fim de cada era, haveria uma ressurreição e um julgamento final.

Nosso entendimento dessa passagem é que, na verdade, o apóstolo, desejando descrever a grande diferença entre os que reerguem em glória, i.e., dos santos, tomou emprestado a comparação dos corpos celestes, dizendo “Uma é a glória do sol, outra a glória da lua, outra a glória das estrelas”. E de novo desejando nos ensinar a diferença entre os que virão à ressurreição sem ter se depurado nesta vida, i.e., os pecadores, tomou emprestado uma explanação das coisas terrestres, dizendo, “há uma carne dos pássaros, outra dos peixes”. Pois coisas celestes são merecidamente comparadas aos santos e as terrenas aos pecadores. Estas declarações são feitas em resposta aos que negam a ressurreição dos mortos, i.e., a ressurreição dos corpos.

De principiis, Livro II, cap. X.

Aos pecadores, ainda haveria uma chance de redenção. O “fogo do inferno” não seria um castigo físico, mas um fogo moral e purificador:

O Fogo do Inferno, além disso, e os tormentos com os quais a sagrada escritura ameaça os pecadores são explicados por ele não como punições externas, mas como aflições de consciências pesadas quando, pelo poder de Deus, a memória de nossas transgressões é posta perante nossos olhos. “Toda colheita de nossos pecados cresce de novo das sementes que permanecem na alma e todos os atos desonrosos e indignos são outra vez retratados diante de nossas vistas. Assim é o fogo da consciência e os espinhos do remorso que torturam a mente a medida que ela relembra na referida autoindulgência”. E de novo: “mas talvez este grosseiro e terreno corpo deva ser descrito como névoa e escuridão; pois ao fim deste mundo e quando for necessário passar ao outro, o similar à escuridão levará ao similar nascimento físico [ou fisicamente nascido]”. Falando assim ele claramente pleiteia pela transmigração das almas como ensinado por Pitágoras e Platão.

Jerônimo, Carta a Ávito, 124

Pode ser sugerido acima que na passagem de uma era a outra ocorreria o “reencarne”. Na verdade, há indícios de que a “reencarnação” origenista se daria por alguma forma de continuidade entre um corpo físico e outro, ao menos para a primeira geração da era que se iniciasse (opinião que corroboro de Origen of Alexandria – The Internet Encyclopedia of Philosophy). Talvez o choque de Jerônimo possa ser explicado por passagens de outras obras de Orígenes em que ele fala de transformações, não trocas de corpo:

De acordo com a lei de Moisés está escrito sobre certas coisas que “deitá-las-ei aos cães” [Ex. 22, 31] e foi uma questão referente ao Espírito Santo dar instrução sobre certos alimentos que deveriam ser deixados aos cães. Quantos outros, então, que são estranhos à doutrina da Igreja, assumem que almas passam de corpos de homens para corpos de cães, segundo seu variável grau de iniquidade; mas nós, que não achamos isto na divina Escritura, dizemos que uma condição mais racional muda para uma mais irracional, sofrendo esta modificação como consequência de grande indolência e negligência. Mas também, da mesma forma, um arbítrio que foi mais irracional, por causa de sua negligência da razão, algumas vezes se transforma e se torna racional, de modo que aquele que foi um cão, adorando comer as migalhas que caem da mesa de seus senhor, vai para a condição de filho. Pois virtude contribui enormemente para fazer de alguém um filho de Deus, mas maldade, e fúria enlouquecida em falas licenciosas e descaramento contribuem para a atribuição de um homem do nome de cão, conforme as palavras da Escritura [2 Sm 16:9].

Orígenes, Comentário ao Evangelho de Mateus, cap. XI, 17

Desta forma, Orígenes concilia sua crença em mundos sucessivos com um viés “ortodoxo”. Ele não cria em uma “reencarnação” dentro de nossa era e negou em outras obras a existência disto na Bíblia, o que é perfeitamente coerente com sua ideia de “reencarnação entre eras” (com possível continuidade entre corpos). A medida que seres purificados iam aumentando em número seria chegada a hora da “consumação de todas as coisas”, onde todos os seres racionais seriam restaurados a sua pureza original (apocatástase) e Deus seria “tudo em todos”. O universo chegaria a um fim e os seres racionais dispensariam seus corpos.

Então o fim do mundo e a consumação final ocorrerão quando cada um se sujeitar à punição por seus pecados, uma ocasião que só Deus sabe, quando Ele dará a cada um o que merece. Pensamos, na verdade, que a divindade de Deus, por meio de Seu Cristo, chamará todas as Suas criaturas para um fim, até mesmo Seus inimigos sendo conquistados e subjugados. Pois assim diz a sagrada Escrituras, “E o Senhor dirá ao meu Senhor, ‘Senta-te a minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés’ “(Sl 110:1). E se o sentido da linguagem do profeta aqui for menos clara, podemos nos certificar do apóstolo Paulo, que fala mais abertamente assim: “Pois é preciso que Cristo reine até Que Ele ponha todos os inimigos debaixo de Seus pés”(I Cor 15:25). Mas mesmo se tal explícita declaração do apóstolo não nos informa suficientemente quanto ao significado de “inimigos sendo postos debaixo de seus pés”, escute o que ele diz nas seguintes palavras, “Pois todas as coisas devem ser postas sob Ele”. O que então é este “colocando debaixo” pelo qual todas as criaturas devem estar sujeitas a Cristo? Sou da opinião que é esta a mesma sujeição pela qual todos nós também desejamos nos sujeitar a ele, pela qual os apóstolos também foram sujeitos e todos os santos que têm sido seguidores de Cristo. Pois o nome “sujeição”, pela qual estão sujeitos a Cristo, indica que a salvação que procede dele pertence a seus submissos, em concordância com a declaração de Davi, “Não deverá minha alma estar sujeita a Deus? Dele vem minha salvação”.(Sl 62:2)

De principiis, I, VI, 1

Mas este não seria o fim da história. Como não conseguia conceber uma divindade ociosa e seres estáticos, cedo ou tarde o processo recomeçaria com novas quedas:

Então, se essas conclusões parecem válidas, segue que devemos acreditar que nossa condição em algum tempo futuro será incorpórea e se isto for admitido e todos estiverem submetidos a Cristo, essa (incorporeidade) também deve necessariamente concedida a todos a que a sujeição a Cristo se estenda; desde que todos que estão sujeitos a Cristo estarão no final sujeitos a Deus, o Pai, a quem se diz que Cristo envia o reino; e assim parece que, então, também a necessidade de corpos cessará. E se ela cessar, a matéria retornará ao nada, como ela anteriormente inexistia.

Então vejamos o que pode ser dito em resposta àqueles que fazem estas assertivas. Visto que parecerá ser uma necessária consequência que, se a natureza corporal for aniquilada, ela deve ser outra vez restaurada e criada; já que parece algo possível que as criaturas racionais, das quais a faculdade do livre-arbítrio nunca é retirada, possam novamente estar sujeitas a movimentos de alguma forma, por meio de um ato especial do próprio Senhor, talvez a fim de evitar que, se elas estivessem sempre a ocupar uma posição que fosse imutável, devessem ser ignorantes de ter sido pela graça de Deus e não por seu próprio mérito que foram postas naquele estado final de felicidade; e estes movimentos serão indubitavelmente outra vez seguidos por uma variedade e diversidade de corpos, pelos quais o mundo está sempre ornado; nem será composto (de nada) além de variedade e diversidade, – um efeito que não pode ser produzido sem uma matéria corporal.

De Principiis, II, III.3

Resumindo: Orígenes concebeu um sistema de criações sucessivas de mundos antes e posteriores a este. O estado original de todos os seres racionais seria o de uma felicidade plena e incorpórea, mas por descuido ou insubmissão (no caso dos demônios), se afastaram as almas do estado original de graça e Deus teria criado o mundo material e seus corpos físicos para que pudessem se regenerar. Em ordem crescente a queda seria anjos, estrelas, humanos e demônios. Ao fim de cada mundo criado, haveria uma ressurreição e Julgamento Final com a redenção dos “santos” e o fogo do inferno para os pecadores. Tal fogo seria algo moral, uma revisão pela consciência de todos os pecados cometidos a fim de purificar o indivíduos. Os que ainda precisassem de purificação ao fim do processo, passariam ao próximo mundo (semelhante a este ou não), criado em uma nova era (aeon). Devido ao livre-arbítrio, virtuosos de uma era poderiam ser pecadores em outras e vice-versa, para o processo não ser errático, nossa era conheceu o sacrifício de Cristo, que teria um efeito catalisador para as almas escolhessem e optassem pelo caminho do bem. Quando todos estivessem submissos a Cristo, a natureza corporal teria um término e a beatitude original seria restaurada (“o princípio e fim são os mesmo”). Embora cedo ou tarde tudo se reiniciaria mais uma vez, com novas quedas, etc. Uma espécie de tentativa de conciliar o tempo cíclico de algumas correntes do pensamento grego com o tempo linear judaico-cristão.

Há outros textos de Orígenes que contradizem suas teses mais polêmicas, como a caridade dos eleitos no céu não ser devida a uma escolha ou mérito, mas a uma suspensão do livre arbítrio “para tornar o pecado impossível” (Comentário aos Romanos, V, 10). Há estudiosos que alegam não ter sido Orígenes um pensador metódico: o conjunto de sua obra não permite formar um sistema teológico coerente.

  1. angela
    12 de maio de 2015 às 17:06

    Quem é o homem para colocar sua opiniao como verdade? A verdade é clara, límpida como os ceus nos dias de verão….esta em nos …em nossa historia e caminho …..a mesquinhez do pensamento humano conduz o homem a erros….anatema….é simplismente tolo…..os anatemas…..insignificante frente ao universo

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