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Teorias Conspiratórias a (des)Serviço da História

12 de janeiro de 2012 Deixe um comentário Go to comments
Há muitos boatos e meias-verdades espalhados quanto ao II Concílio de Constantinopla, que teria riscado a reencarnação da Bíblia. Um bem conhecido é:

Até agora, quase todos os historiadores da Igreja acreditaram que a doutrina da reencarnação foi declarada herética durante o Concilio de Constantinopla em 553. No entanto, a condenação da doutrina se deve a uma ferrenha oposição pessoal do imperador Justiniano, que nunca esteve ligado aos protocolos do Concilio. Segundo Procópio, a ambiciosa esposa de Justiniano, que, na realidade, era quem manejava o poder, era filha de um guardador de ursos do anfiteatro de Bizâncio. Ela iniciou sua rápida ascensão ao poder como cortesã. Para se libertar de um passado que a envergonhava, ordenou, mais tarde, a morte de quinhentas antigas “colegas” e, para não sofrer as consequências dessa ordem cruel em uma outra vida como preconizava a lei do Carma, empenhou-se em abolir toda a magnífica doutrina da reencarnação. Estava confiante no sucesso dessa anulação, decretada por “ordem divina”!

Em 543 d.C. o imperador Justiniano, sem levar em conta o ponto de vista papal, declarou guerra frontal aos ensinamentos de Orígenes, condenando-os através de um sínodo especial. Em suas obras De Principiis e Contra Celsum, Orígenes (185-235 d.C), o grande Padre da Igreja, tinha reconhecido, abertamente, a existência da alma antes do nascimento e sua dependência de ações passadas. Ele pensava que certas passagens do Novo Testamento poderiam ser explicadas somente à luz da reencarnação.

– Kersten, Holger; Jesus Viveu na Índia, Ed. Best Seller, 7ª ed., Cp. VI – “Considerações Finais”.

O engraçado é terem encontrado recentemente uma tumba atribuída a Jesus e Maria Madalena em Israel. Será que enterraram a cabeça em Jerusalém e as canelas na Índia? Bem, isto foge ao assunto, vamos a José Reis Chaves:

A Igreja teve alguns concílios tumultuados. Mas parece que o V Concílio de Constantinopla II (553) bateu o recorde em matéria de desordem e mesmo de desrespeito aos bispos e ao próprio Papa Virgílio, papa da época.

O imperador Justiniano tem seus méritos, inclusive o de ter construído a famosa Igreja de Santa Sofia, obra-prima da arte bizantina, hoje uma mesquita muçulmana.

Era um teólogo que queria saber mais que teologia do que o papa. Sua mulher, a imperatriz Teodora, foi uma cortesã e se imiscuía nos assuntos do governo do seu marido, e até nos de teologia.

Contam alguns autores que, por ter sido ela uma prostituta, isso era motivo de muito orgulho por parte das suas ex-colegas. Ela sentia, por sua vez, uma grande revolta contra o fato de suas ex-colegas ficarem decantando tal honra, que, para Teodora, se constituía em desonra.

Para acabar com esta história, mandou eliminar todas as prostitutas da região de Constantinopla – cerca de quinhentas.

Como o povo naquela época era reencarnacionista, apesar de ser em sua maioria cristão, passou a chamá-la de assassina, e a dizer que deveria ser assassinada, em vidas futuras, quinhentas vezes; que era seu carma por ter mandado assassinar as suas ex-colegas prostitutas.

O certo é que Teodora passou a odiar a doutrina da reencarnação. Como mandava e desmandava em meio mundo através de seu marido, resolveu partir para uma perseguição, sem tréguas contra essa doutrina e contra o seu maior defensor entre os cristãos, Orígenes, cuja fama de sábio era motivo de orgulho dos seguidores do cristianismo, apesar de ele ter vivido quase três séculos antes.

Como a doutrina da reencarnação pressupõe a da preexistência do espírito, Justiniano e Teodora partiram, primeiro, para desestruturar a da preexistência, com o que estariam, automaticamente, desestruturando a da reencarnação.

Chaves, J.R.; A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, cap. VIII, 7ªed., Ed. Ebm

Agora, um texto extraído de Analisando as traduções bíblicas, de Severino Celestino da Silva, Editora Idéia, 4ª ed., cap XI:

Orígenes afirmava ser a doutrina do Carma e do renascimento uma doutrina Cristã.
Devido a esta sua crença, 299 (duzentos e noventa e nove) dias, após sua morte, contra ele a igreja decretou a excomunhão. O segundo Concílio de Constantinopla, no ano de 553, decretou: “Todo aquele que defender a doutrina mística da preexistência da alma e a consequente assombrosa opinião de que ela retorna, seja anátema”[grifo do autor].

Até a época, a doutrina do renascimento e do carma era aceita pela Igreja Cristã.

A história do II Concílio de Constantinopla teve marcante acontecimento com a figura do imperador Justiniano, um teólogo, que queria saber mais teologia do que o papa. Justiniano tentou reinserir os monofisistas no meio dos ortodoxos da Igreja, pois temia que os monofisistas, comandados por Severo de Antioquia, se afastassem e voltassem-se para a Pérsia. Organizou no palácio a primeira conferência entre ortodoxos e monofisistas, para a qual convidou seis ortodoxos e seis monofisistas tentando definir diferenças entre as doutrinas.

O papa, Vigílio, apesar de se encontrar em Constantinopla, recusou-se a participar do concílio convocado pelo imperador e tampouco se fez representar. O Concílio pressionado pelo imperador excomungou o papa. O papa Vigílio acabou reconhecendo o concílio em troca da suspensão de sua excomunhão.

A esposa de Justiniano chamada Teodora, teve muita influência nos assuntos do marido e até no que se referiu à teologia. Foi ela quem acomodou os monges egípcios e os clérigos siríacos nos vários palácios da capital e sobretudo no palácio Hormisdas, que se tornara o centro da propaganda monofisista.

Por ter sido uma prostituta, suas ex-colegas se sentiam orgulhosas e decantavam tal honra. Mas esse fato a revoltava e se constituía numa desonra, fazendo com que mandasse matar todas as quinhentas prostitutas de Constantinopla.

Os cristãos da época passaram a chamá-la de assassina e a dizer que ela deveria ser assassinada, quinhentas vezes, em vidas futuras. Este seria seu carma por ter mandado matar suas quinhentas ex-colegas prostitutas.
A partir daí, Teodora passou a odiar a doutrina da Reencarnação e como mandava e desmandava em meio-mundo através de seu marido, resolveu partir para a perseguição sem tréguas contra essa doutrina e contra maior defensor que era Orígenes.

O concílio tratou de duas questões básicas: o Monofisismo e o Origenismo. O Origenismo defendia a apocatástase do universo (revolução de um astro) e a Reencarnação. O concílio condenou o Origenismo em termos claros e severos.

Para começo de conversa, eu adoraria saber quais foram estes historiadores comentados por Kersten, em quais de suas obras está essa tese de reencarnação na igreja primitiva e em quais capítulos. O único historiador citado, Procópio, dá uma versão “ligeiramente” diferente dos fatos:

(…)Havia uma multidão de mulheres em Bizâncio que realizava em bordéis uma atividade de libertinagem, não por escolha própria, mas sob a força da luxúria. Visto que isto era mantido por cafetões, e as mulheres de tais casas eram obrigadas a toda e qualquer hora a praticar obscenidade e copular de imediato com desconhecidos à medida que apareciam, elas se submetiam aos seus abraços. Já que houvera um numeroso corpo de alcoviteiros na cidade desde os tempos antigos, conduzindo seu tráfico em licenciosidade nos bordéis e vendendo a juventude alheia no mercado público, reduzindo pessoas virtuosas à escravidão. Mas o imperador Justiniano e a Imperatriz Teodora, que sempre compartilhavam uma comum piedade em tudo que faziam, arquitetaram o seguinte plano. Limparam o estado de poluição dos bordéis, banindo o próprio nome dos cafetões e libertaram de uma licenciosidade adequada apenas a escravas as mulheres que estavam lutando com imensa pobreza, provendo-as com sustendo independente e liberando virtude. Isso ele conseguiram da seguinte forma. Próximo à margem do estreito que está à direita dos que navegam em direção ao mar chamado Euxino, eles transformaram o que fora anteriormente um palácio em um imponente mosteiro projetado para servir de refúgio a mulheres que se arrependessem de suas vidas anteriores, de forma que lá, através da ocupação que suas mentes teriam com Deus e com a religião, poderiam ser capazes de limpar os pecados de suas vidas no prostíbulo. Portanto, denominaram o domicílio de tais mulheres de ‘Arrependimento’, em adequação com seu propósito. E estes soberanos dotaram este convento com ampla soma em dinheiro e adicionaram várias construções, a maioria notável por sua beleza e suntuosidade, para servirem de consolo às mulheres, a fim de que nunca se sintam compelidas a se afastar da prática da virtude de uma forma ou de outra.(..)

Procópio, Das Construções (De Aedificiis), livro I, cap. IX.

E, agora, uma variação do mesmo tema:

Teodora também devotou considerável atenção ao castigo de mulheres flagradas em pecado carnal. Ela apanhou quinhentas prostitutas no Fórum, que lá auferiam uma vida miserável se vendendo por três óboles, e as enviou para a margem oposta [do Bósforo], onde foram trancadas no mosteiro chamado Arrependimento, para forçá-las a reformar seu estilo de vida. Algumas delas, porém, atiravam-se à noite dos parapeitos e assim se livravam de uma salvação indesejada.

Procópio, A História Secreta, (Anekdota), cap XVII, “Como Teodora salvou quinhentas prostitutas de uma vida de pecado.”

Os dois relatos de Procópio dão um tratamento radicalmente distinto ao casal imperial. Das Construções é uma propaganda estatal, cheia de elogios às realizações urbanísticas e arquitetônicas do governo de Justiniano. A História Secreta, por sua vez, macula a imagem deles o tempo todo, chegando ao ponto de considerar Justiniano, literalmente, um demônio encarnado (cap. XII). Comparando esses dois extratos, consta-se que Procópio muda o tom de um ato piedoso para uma deportação das prostitutas para fora da capital. Ao que parece, o mosteiro ex-palácio fora convertido numa “gaiola de ouro” para uma espécie de noviciado forçado e perpétuo. Algumas (note bem, algumas) preferiam a liberdade com insegurança àquela vida de beatas e morriam tentando escapar (ou se suicidavam, simplesmente). Nada diz que o mosteiro “Arrependimento” era uma usina de morte como o Auschwitz nazista, onde elas iriam esmagadoramente parar morrer. A não ser morrer de velhas.

Um importante historiador do iluminismo inglês – que, ao contrário dos historiógrafos espiritualistas acima, procurava sempre ler os originais – fez interessante fusão dessas duas passagens de Procópio, fornecendo um panorama intermediário do que pode ter ocorrido:

O nome de Teodora figura com igual distinção em todas as iniciativas piedosas e caritativas de Justiniano; as instituições mais benevolentes do seu reinado podem ser atribuídas à simpatia da imperatriz por suas irmãs menos afortunadas que haviam sido seduzidas ou compelidas a dedicar-se ao ramo da prostituição. Um palácio no lado asiático do Bósforo foi convertido num espaçoso e imponente mosteiro, e um generoso sustento, garantido a quinhentas mulheres recolhidas das ruas e bordéis de Constantinopla. Nesse retiro sacro e seguro, elas se devotavam a um perpétuo confinamento, e o desespero de algumas, que se precipitaram ao mar, foi calado pela gratidão das penitentes libertadas do pecado e da miséria por sua generosa benfeitora.

Edward Gibbon, Declínio e queda do Império Romano, Cap. XV, Tradução de José Paulo Paes, Companhia das Letras.

Diga-se de passagem que Teodora não era flor que se cheirasse, sendo que tanto Procópio e Gibbon concordam que ela cometeu inúmeras crueldades. Procópio, porém, exagera demais nos ataques à imperatriz, a ponto descrever o voraz apetite sexual da imperatriz, quando solteira, de maneira pouco verossímil (cap. IX). De qualquer forma, nada indica que ela tenha cometido o crime que seria o pivô da condenação de Orígenes. Justiniano não era tão fantoche assim como foi alegado. Ele e Teodora tinham visões políticas diferentes em alguns pontos, sendo que ela advogava uma tolerância religiosa maior do que de seu fanático e intransigente marido, afinal era monofisista.

Outro cronista bizantino, João Malala, deu um curioso relato de uma tentativa de Teodora de erradicar a prostituição:

Naquela época, a piedosa Teodora acrescentou o seguinte a suas outras boas ações. Certos conhecidos cafetões percorriam cada distrito em busca que homens pobres que tivessem filhas e dando-lhes, dizia-se, sua palavra e alguns nomismata, levavam as garotas como se fosse um contrato; transformavam-nas em prostitutas públicas, vestindo-as como sua desventurada sorte exigia e recebendo delas, e miserável preço de seus corpos, forçavam-nas a ingressar na prostituição. Ela ordenou que todos os cafetões deveriam ser presos com urgência. Quando foram apresentados junto com as garotas, ordenou que cada um deles declarasse sob juramento o quanto haviam pagado aos pais das garotas. Disseram que deram a cada um cinco nomismata. Quando todos deram a informação sob juramento, a piedosa imperatriz devolveu o dinheiro e libertou as garotas do jugo de sua desgraçada escravidão, ordenando que a partir daí não houvesse cafetões. Presenteou as garotas com um conjunto de roupas e dispensou-as com um nomismata para cada.

João Malala; Crônicas, Livro XVIII, seção 24

Malala data seu relato em 532-3 d.C. e a partir de 534 começou a ser publicado um conjunto de leis conhecido como Novellae, cujo artigo primeiro do capítulo XIV traz uma condenação de morte aos que perpetrassem o tráfico humano e a cafetinagem, mas é compassivo com as prostitutas. É provável que a indenização relatada por Malala tenha fracassado, pois o dinheiro concedido à cada garota era pequeno demais para recomeçar a vida e dotação mais farta dos agenciadores deve ter servido para realimentar o tráfico humano (1). Uma hipótese aventada é que a construção de “Arrependimento” tenha sido parte dessa nova política social de acabar com a prostituição à força.

Notas:

(1) Cf. Evans, J. A; The Empress Theodora – Partner of Justinian, University of Texas Press, 2002, cap. III, p. 30-32.

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