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Noel Langley: Eliminando Fontes Históricas

14 de janeiro de 2012 Deixe um comentário Go to comments
Outros autores espiritualistas já abordaram a questão origenista de formas “alternativas”. Em 1968, Noel Langley publicou o livro Edgar Cayce on Reincarnation (1), em que dedicou o capítulo XI ao estudo da condenação a Orígenes. O curioso é que Langley deu relatos largamente distintos para a convocação do V Concílio. O capítulo abre assim:

Nossas versões ortodoxas do Antigo e Novo Testamento não datam de antes do século VI, quando o Imperador bizantino Justiniano convocou o V Congresso Ecumênico de Constantinopla em 553 d.C. para condenar os platonicamente inspirados escritos de Orígenes.

Contrariando a crença das modernas Igrejas, este não foi um congresso sem influência secular. O papa Vigílio foi proibido de comparecer e sua denúncia disto foi escarnecida. Ele [o congresso] foi instigado pelo mesmo substrato de bárbaros abestalhados que tinham sido “convertidos” à cristandade sob Constantino.

Caso o leitor deva achar singular que seja dada tanta atenção a esse congresso nas páginas seguintes, é por causa de os eventos que levaram ao Quinto Congresso representarem praticamente a única evidência sobrevivente de por que a reencarnação desapareceu da Bíblia.

Sinceramente, a leitura desse texto poderia ser encerrada por aqui: “Nossas versões ortodoxas do Antigo e Novo Testamento não datam de antes do século VI”. Para o conhecimento dele, existem inúmeros códices como o Vaticanus (325-350 d.C), Sinaiticus (350), Alexandrino (400), Efremi (400), Beza (450), Washingtonense (450) e Claromontano (séc. V) que precedem essa data, além disso há várias porções menores contendo só o NT como o papiro Chester Beatty (200 d.C.) e o AT das comunidades hebraicas, que tinham escolas importantes na Babilônia do Reino dos Partas e, portanto, livres de qualquer intervenção bizantina. Também já havia Bíblias etíopes fora do domínio bizantino. Como são ferramentas inestimáveis na crítica textual, pergunto onde, confrontando esses documentos com as Bíblias modernas, são reveladas mudanças visando à eliminação da reencarnação? Quais eram os versículos originais? Aliás, os que advogam esta outra teoria conspiratória deveriam explicar por que um suposto censor bizantino da Bíblia teria deixado passagens como o “cego de nascença” e a identificação entre Elias e João Batista? Lembrando que a primeira já foi apontada por Jerônimo como ferramenta dos origenistas de sua época ( Epístola a Demetrias) e que a última foi até refutada por Orígenes (Comentário sobre João, livro 6, cap. VII). Que censura fajuta foi feita então, hein? Ademais, o capítulo anterior desse livro trata justamente dessas supostas reminiscências.

Além de se basear numa premissa errônea, Langley “inova” ao dar uma justificativa inusitada para o ódio de Teodora ao trabalho de Orígenes:

Infelizmente, sob a influência de Eutiques, Teodora tornou-se uma conversa a este dogma monofisista [que dava a Cristo uma natureza exclusivamente divina]. A principal reivindicação dele para com os sentimentos dela era a sua total rejeição àqueles ensinamentos de Orígenes que tinham tão profundamente influenciado os primeiros Padres da Igreja. Orígenes não apenas acreditava na metempsicose, como argumentava que Cristo o Logos, ou a Palavra, habitou o corpo humano de Jesus, santificando-o, assim.

Ou seja, para Langley, o detonador da perseguição a Orígenes pela imperatriz foram questões cristológicas e a reencarnação foi rejeitada por estar no bojo dos ensinamentos origenistas. Em nenhum instante Langley fala do assassinato de 500 prostitutas. Lembro-me, agora, de uma citação que Severino Celestino da Silva faz de Jerônimo no começo de Analisando as Traduções Bíblicas: “A verdade não poderia existir em coisas que divergem” [grifo do autor]. Apesar de eu ter minhas ressalvas quanto a validade plena desta frase – afinal, é possível que versões um pouco destoantes possuam fragmentos da verdade distintos – uma coisa devo admitir: ela cai como uma luva para a confrontação dele com Langley (2).

Cayce e Langley podem até ser ilustres desconhecidos entre muitos dos espiritualistas tupiniquins, mas as ideias dele chegaram a estas terras por um nome bem mais conhecido aqui: José Carlos Leal, que na primeira parte de seu seu livro Reencarnação: Coisas que devemos saber sobre as vidas sucessivas repassa a tese de Langley quanto à motivação do V Concílio (3).

Notas:

(1) Edgar Cayce foi famoso vidente e médium norte-americano da primeira metade do século XX.

(2) William Walker Atkinson, em A Reencarnação e a Lei do Carma, p. 47, situa o começo dos episódios em 538. Mais confusão.

(3)Consta nas páginas 58 a 60 da primeira edição da Léon Denis, 2009. Leal não fez nenhuma referência explícita a Langley, mas a obra dele aqui comentada consta na bibliografia de Leal e a identificação entre ideias que cada autor sobre o V Concílio é nítida.

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