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Balanço da Questão Origenista

24 de janeiro de 2012 Deixe um comentário Go to comments

Índice

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Afinal, Orígenes acreditava ou não na reencarnação?

Sim, não, depende. Defina-me reencarnação primeiro e aí, então, discutimos. Quando se tem que definir algo, surge o problema de o quanto a definição deve ser abrangente e, em geral, cada lado tenta impor a definição que mais lhe convier, o que já é meio caminho andado para ganhar (desonestamente) um debate.

De concreto, temos a crença na preexistência das almas e sua queda. Por outro lado, defendeu um modelo de ressurreição bem ortodoxo em De Principiis, II, X

Pois se corpos são erguido outra vez, sem dúvida eles se erguem para nos revestir; e se nos é necessários ser investidos de corpos, como é certamente necessário, não devemos ser investidos com nenhum outro senão o nosso próprio.

O sistema origenista guarda grandes semelhanças também com sistemas platônicos. Algumas diferenças, porém, são chamativas: a volta a algum corpo físico só se daria entre “aeons” (eras) distintos, não no mundo tal como o conhecemos e, sim, em novos; com uma possível continuidade entre o antigo corpo físico e o seguinte, o que permitiria conciliar este sistema cíclico com uma ressurreição ortodoxa (ou uma ressurreição e julgamento final ao fim de cada era, como na versão de Rufino); um ponto final para essa criações sucessivas (apocatástase), quando todas as almas estariam “sujeitas a Cristo” e Deus seria “tudo em todos”; e o valor do mérito no futuro, coisa nem sempre presente em sistemas neoplatônicos e que podia levar tanto a ascensões quanto a quedas momentâneas.

A falta de um texto confiável de De Principiis só piora a questão. Basicamente, as fontes que temos são a tradução corrompida de Rufino, extratos da coletânea Philocalia e uma sinopse de uma tradução “literal” latina de Jerônimo. Rufino, ao menos, foi honesto em assumir as modificações que fez e deu algumas “justificativas” para tanto em um panfleto chamado “A corrupção das palavras de Orígenes”:

  1. Seria impossível um homem inteligente e erudito como Orígenes se contradizer dentro de um mesmo tratado, às vezes quase em sentenças sucessivas;

  2. Outros escritores de inquestionável ortodoxia tiveram suas palavras adulteradas dos “hereges”, como Clemente de Roma, Clemente de Alexandria, Dionísio de Alexandria;

  3. O próprio Orígenes reclaramara, em uma carta ainda existente, que seu trabalho fora corrompido por heréticos. O ponto em questão nessa carta era a possibilidade de salvação do diabo. Orígenes assevera que jamais teria ensinado isso; mas, durante uma discussão com um herético, tomara ciência que uma versão adulterada de seus textos devia estar circulando.

Jerônimo contra-atacou a defesa de Rufino lembrando que escritores anteriores a ele, como Eusébio e Dídimo , já declaravam que Orígenes ensinara coisas indevidas.

Outro complicador ao entendimento é o fato de que – segundo alguns estudiosos [Malaty, p. 125] – Orígenes não foi um pensador sistemático. Não é possível juntar seus tratados de forma que eles formem um todo coerente. Por exemplo, a crença em criações sucessiva por não conceber uma divindade ociosa também entra, de certa forma, em contradição com uma restauração universal final. Além disso, os trabalhos de Orígenes que categoricamente rejeitam a “transmigração de almas” e interpretações reencarnacionistas do Novo Testamento são os do fim de sua vida, como Contra Celsus e os Comentários. Teria ele adquirido um viés mais “tradicional” conforme envelhecia? Possivelmente ou, como uma análise pormenorizada mostra, o universo multi-eras de Orígenes poderia ser conciliado com leituras ortodoxas da Bíblia, ao passo que reencarnações dentro de uma mesma criação não o são e foram vigorosamente rejeitadas por ele. Prophet defende ter Orígenes se tornado “ortodoxo” por conveniência ao fim da vida, para despistar inimigos (no caso do Comentário de Mateus), o que mela esta análise é que uma obra anterior, cuja redação foi concluída no ambiente mais ameno de Cesareia (a salvo de adversários alexandrinos), e tida por Prophet como reencarnacionista, na verdade não o é: Comentário de João. Orígenes, por sinal, nem sempre levava a ferro e fogo muitas de suas especulações e dava ênfase nisso. Os pontos destoantes dele com a ortodoxia algumas vezes são vistos como um exercício intelectual em expor argumentos pró e contra – opinião de Atanásio – ou que não são dogmas antigos, mas opiniões pessoais sujeitas a discussão – segundo de Jerônimo:

Ele [Orígenes] escreve que “(…) suas ações [das almas] e decisões nesta ou naquela direção é que determinaram seus vários futuros; isto é, se anjos virão a ser homens ou demônios e se demônios se tornaram anjos ou homens“. Então, aduzindo vários argumentos para sustentar sua tese e sustentando que, enquanto não incapaz de virtude, o diabo ainda não escolheu ser virtuoso; ele finalmente raciocina de maneira bem difusa que um anjo, uma alma humana, e um demônio – todos de acordo como ele com a mesma natureza, mas diferentes arbítrios – pode, em razão de grande negligência ou insensatez, ser transformada em feras. (…) Então, para que ele não seja acusado de sustentar junto com Pitágoras a transmigração das almas, ele termina o raciocínio ímpio com o qual tem ferido seu leitor ao dizer: “não se deve pensar que faço destas coisas dogmas, elas são apenas conjecturas expostas para mostrar que não se faz vista grossa a elas totalmente“.

Carta 124 a Ávito.

Em suma, tal “reencarnação entre eras” guarda imensas diferenças tanto com os antigos pitagóricos e platônicos quanto às modernas visões ocidentais do fenômeno. A principal delas é que a volta a algum tipo de forma física não seria possível na realidade tal como a conhecemos, o que explica porque não se deve estranhar quando Orígenes ataca os que associam João Batista a uma reencarnação de Elias. Vale lembrar que o leitor deve se desatrelar do modelo reencarnatório espírita (um para um, progresso constante, várias vezes numa mesma era, passagem obrigatória pelo útero materno, causa e efeito, etc.). O Mediterrâneo oriental era um mosaico de religiões e um verdadeiro laboratório de crenças aos séculos II e III, cujos sistemas teológicos eram muito mais amplos que isto. A própria ressurreição judaico-cristã não deixa de ser, de certa forma, – segundo o estudioso de Josefo, Steve Mason – uma espécie de “reencarnação”. Inclusive a crença da escatologia judaico-cristã em um fim dos tempos, começo de uma nova era (o “mundo vindouro”), transformação do antigo corpo físico em outro “glorificado” para os justos, redenção ou danação para os homens de acordo com o que fizeram na era que finda, etc.; também é uma forma de “reencarnação entre eras” muito similar a do polêmico tratado De Principiis da juventude de Orígenes. A ideia de preexistência, ainda que momentânea, não é tão inédita assim: o deuterocanônico “Sabedoria de Salomão” vv 8:19-20 pode ser interpretado nessa óptica e Agostinho de Hipona também cogitou alguma forma de preexistência, embora não partilhasse da teoria das quedas de Orígenes. Sob estes aspectos e levando em conta a importância que dá ao sacrifício de Cristo, ele é mais ortodoxo que a maioria dos anti-reencarnacionistas imagina ou que os reencarnacionistas gostariam de admitir.

O que torna Orígenes peculiar em De Principiis é que ele não especula apenas três estados do ser (preexistente, o desta era e o da próxima), mas situações dele ao longo de uma quantidade enorme de eras antes e após esta. Aí que a maioria dos reencarnacionistas derrapa: confundem isto com o conceito mais em voga atualmente de reencarnação – na cabeça de alguns o único viável – e não enfatizam o caráter especulativo deste tratado de Orígenes (uma espécie filosofia-ficção semelhante a encontrada em muitos filmes modernos), passando a falsa idéia do que ele propusera era dogma para o próprio e foi e que sua especulação foi consenso até o século VI.
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Orígenes foi rejeitado ou não no II Concílio de Constantinopla (V Concílio Ecumênico)?

Orígenes já havia sido rejeitado várias vezes por diversos teólogos do século IV e começo do V, num conjunto de disputas, condenações e tentativas de defesa que ficou conhecido como “Primeira Crise Origenista” ou “Crises Origenistas do Século IV”. O sínodo de 543 fez tão somente reafirmar isso de uma forma “oficial”, devido ao fato de uma contenda local entre monges palestinos ortodoxos e origenistas ter sido enviada ao arbítrio do imperador. Antes do origenismo, outras dissidências tiveram prioridade como o arianismo, monofisismo, donatismo, docetismo, maniqueísmo, nestorianismo, etc. Ao que tudo indica, as especulações origenistas que no começo eram “matéria de discussão” foram realmente tornadas “dogma” por admiradores de Orígenes, em especial, os evagrianistas. Este teria sido, sim, o sistema condenado na segunda crise origenista. Até 543 há consenso entre os historiadores. O que está em dúvida é se houve uma nova rejeição a Orígenes no Concílio de Constantinopla de 553, ou melhor, o quão de oficial e conciliar tem essa rejeição. Léon Denis escreveu em Cristianismo e Espiritismo,cap I, item IV:

(…)reconhecemos que estes concílios [Calcedônica (451) e Constantinopla(553)] repeliram, não a crença na pluralidade de existências, mas simplesmente a preexistência da alma, tal como ensinava Orígenes, sob esta feição particular: que os homens eram anjos decaídos e que o ponto de partida tinha sido para todos a natureza angélica.

Na realidade, a questão da pluralidade das existências da alma jamais foi resolvida pelos concílios. Permaneceu aberta às resoluções da igreja no futuro, e é esse um ponto que se faz preciso estabelecer.

O que Denis não resolve é como existir reencarnação sem preexistência, nem ele faz alusão às obras anti-reencarnacionistas do teólogo alexandrino. Dá a entender que muitos espíritas não leram o próprio comentário do continuador de Kardec. Ainda assim ele está errado: o objetivo principal do primeiro concílio citado certamente foi combater o nestorianismo.

Para os mais aficcionados por pesquisa, nossas principais fontes históricas para a compreensão da segunda questão origenista são:

  1. Resumo das Controvérsias dos Nestorianos e dos Eutiquianos – do bispo africano Liberato de Cartago. Relata em seus dois últimos capítulos uma manobra política feita pelo bispo origenista Teodoro Ascidas. Sabendo que o núncio papal em Constantinopla, Pelágio – um futuro papa e rival seu na corte –, encaminhara monges palestinos ortodoxos a Justiniano, o que resultou no sínodo de 543, resolveu desviar o foco o imperador para três teólogos caros à Igreja latina: Teodoro de Mopsuéstia, Teodoreto de Cirro e Ibas de Edessa. Os três haviam sido inocentados da acusação de nestorianismo (i.e., de separar radicalmente as naturezas humana e divina de Cristo) pelo Concílio de Calcedônia, cuja decisão era apoiada por Roma. Ascidas convencera Justiniano de que, se condenasse de vez esses três teólogos, poderia obter a simpatia de monofisistas (que declaravam uma única natureza em Cristo – a divina). Um edito imperial foi lançado contra os três, gerando uma controvérsia entre o Oriente e o Ocidente conhecida como a questão dos “Três Capítulos”;

  2. Em defesa dos Três Capítulos – do também bispo africano Facundo de Hermiano. Faz coro como Liberato ao acusar os origenistas da corte de maquinar contra esses três teólogos;

  3. A Vida de São Saba – do monge palestino Cirilo de Citópolis. Parte integrante de um conjunto de hagiografias chamado A Vida dos Monges da Palestina, é a mais detalhada descrição da Segunda Crise Origenista que chegou até nós, tendo um ponto de vista a partir da periferia do império. Ao longo da vida de Saba, os origenistas aparecem pouco, embora Cirilo não deixe de mencionar como, aos poucos, eles se infiltraram e instalaram no mosteiro Nova Laura, fundado por Saba. O confronto entre origenistas e ortodoxos estourou apenas após a morte de Saba, por volta de 532, e os origenistas levaram vantagem e colocaram os ortodoxos na defensiva. O gatilho do sínodo de 543 é um pouco diferente do relatado por Liberato, sem nenhuma alusão a Pelágio, mas concordando que foi solicitação local a Justiniano. Entretanto, o efeito prático do sínodo foi nulo e a década de 40 do século VI marcou o ápice do poder origenista na Palestina. A situação só começou a mudar com o rompimento entre origenistas radicais e moderados, tendo esses últimos retornado para o partido ortodoxo. O V Concílio Ecumênico teve por objetivo resolver de vez a briga, que terminou com a expulsão dos origenistas de Nova Laura em 555, por meio de força militar. Como complemento a esse texto e também de Cirilo de Citópolis, sugiro os capítulos de XI a XV de A Vida de Ciríaco, em que são listadas as diferenças em os monges origenistas e os ortodoxos;

  4. A História Eclesiástica – de Evágrio Escolástico. Bispo de Antioquia que escreveu um conjunto de crônicas da política religiosa imperial de 431 (no segundo concílio de Éfeso) até 594. Seu relato da segunda crise origenista (livro IV, cap. 38) começa pelo fim, já no ano de 553, e corresponde aproximadamente ao último capítulo de A Vida de Saba. Há algumas diferenças: a expulsão dos origenistas de Nova Laura precede o concílio e dá a entender que a questão dos “Três Capítulos” foi exposta só naquele ano. Tal como nos relatos anteriores acerca dos eventos de 543, Evágrio dá como gatilho para a ação de Justiniano a requisição de clérigos ortodoxos palestinos e defende a tese da intriga origenista contra os Três Capítulos como uma espécie de ação diversiva. De certa forma, este autor compacta as duas etapas da crise em uma só.

Nas versões latinas das atas de Constantinopla II que chegaram até nós, são praticamente só relatadas as questões dos “Três Capítulos” e quase nenhuma menção é feita a Orígenes ou ao origenismo. Somente no item XI do Cânon aparece uma citação textual de seu nome e de alguns seguidores, seguida por uma condenação deles. Não se sabe se os quinze anátemas de 543 (encontrados apenas no século XVII) tiveram participação nas atas ou se foram as opiniões do teólogo quanto a natureza de Cristo. Esta página de Early Church Fathers apresenta argumentos pró e contra o uso do material do sínodo em 553. De qualquer forma, os sucessores de Vigílio (Pelágio I e II, Gregório), ao tratarem do quinto concílio, falaram apenas dos “Três Capítulos” e agiram como se não soubessem da condenação (segundo a Catholic Encyclopedia). Há a possibilidade de os papas não terem tido nenhum interesse na questão origenista, pois, como relatou [Alberigo] o origenismo era fraco no ocidente. É possível também que Justiniano, como já obtivera dez anos antes a corroboração dos cinco patriarcas (com o papa incluído) para o sínodo local, tenha apenas quisto uma nova confirmação que tivesse mais “status” que a anterior. Se assim foi, estaria explicado por que o origenismo pouco espaço tomou nas atas. Vale lembrar que se Teodora teve alguma coisa a ver com esta confusão toda, deve ter sido apenas na memória do Imperador, pois ela morrera em 548.
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A preexistência das almas foi, então, anatematizada?

Os anátemas contra Orígenes – tanto os do imperador quanto os do sínodo de 543 – revelam que a questão origenista transcendia em muito a simples questão da preexistência. Em geral só é citado o primeiro anátema de 543:

I – Se algum crer na fabulosa preexistência das almas e na monstruosa reabilitação das mesmas, que é associada a ela, seja anátema.

Mas uma análise dos seguintes chama a atenção:

III – Se alguém disser que o sol, a lua e as estrelas pertencem ao conjunto dos seres racionais a que se tornaram o que eles hoje são por se voltarem para o mal, seja anátema.

IV – Se alguém disser que os seres racionais nos quais o amor a Deus se arrefeceu, se ocultaram dentro de corpos grosseiros como são os nossos, e foram em consequência chamados homens, ao passo que aqueles que atingiram o último grau do mal tiveram como partilha corpos frios e tenebrosos, tornando-se o que chamamos demônios e espíritos maus, seja anátema.

Dos anátemas de Justiniano:

V – Se alguém disser ou pensar que, na ressurreição, os corpos humanos ressurgirão numa forma esférica e distinta da atual, seja anátema.(*)

VII – Se alguém disser ou pensar que Cristo, o Senhor, será, em algum tempo futuro, crucificado por demônios assim como foi por homens, seja anátema.

VIII – Se alguém disser ou pensar que o poder de Deus é limitado e que ele criou apenas aquilo que foi capaz de alcançar, seja anátema.

(*)A tese desse anátema não pode ser encontrada nos escritos que sobraram de Orígenes, estando em alguma obra perdida ou foi cunhada por origenistas posteriores.

Apesar de alguma semelhança aparente com a doutrina espírita, as diferenças são imensas. Sou cético se a maioria dos espíritas conhece esta parte mais “heterodoxa” do origenismo – talvez nem saibam do que falam – e duvido muito se os que lamentam o episódio de 543 o aceitariam integralmente.
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Teodora matou 500 prostitutas?

Não há nenhum documento histórico que comprove isto. Mesmo o mais virulento cronista da corte bizantina, Procópio, relata apenas um encarceramento. E ainda que houvesse ocorrido tal chacina, há evidência suficientes para que o verdadeiro gatilho da segunda crise origenista tenha sido as dissensões ocorridas nos mosteiros sírio-palestinos. De toda a sorte de crimes que a imperatriz cometeu, foram logo escolher um forjado. Como o ônus da prova recai sobre quem propõe e Procópio foi o único nome apresentado, cabem aos proponentes arrumar alguma fonte alternativa em outro cronistas bizantino. Se ela existir. [topo]

Afinal, qual o papel de Orígenes nessa história toda?

O de um mito. Ele representa – para os espiritualistas – “aquilo que fomos um dia, nos desviamos e almejamos voltar a ser”. Isto, na verdade se encaixa na definição de qualquer mito. O rei Davi, que unificou as tribos e fez de Israel uma nação imperialista; Solano Lopez, o déspota esclarecido que fez o Paraguai peitar os interesses ingleses e seus lacaios brasileiros; Duque de Caxias, militar modelo e pacificador do Brasil. Todas estas figuras realmente existiram, mas não eram tidos por seus contemporâneos pelas imagens que têm hoje. Escavações comprovam que Davi deve ter sido apenas um monarca local, sem tanta pompa e glória. Francisco Daratioto, em seu livro Maldita Guerra, mostra que Solano Lopez era tido pelos paraguaios como um tiranete que levou sua pátria à uma aventura desastrosa. A construção do “herói nacional” se deu ao longo do século XX, em especial durante a ditadura Stroessnser e, deste lado da fronteira, uma espécie de desforrismo contra a ditadura militar pintou o Brasil como marionete inglesa. Caxias não era tão bem visto assim na República Velha por ter sido monarquista. Ele sempre teve prestígio militar, sem dúvida, mas este não era maior do que o dos demais chefes das campanhas platinas, como Osório. Teve seu valor inflacionado grandemente pela ditadura Vargas.

Nesse aspecto, Orígenes se tornou um mito espiritualista. O prolífico teólogo alexandrino – cujos escritos despertavam igual número de paixões pró e contra – de fato existiu. O mártir intelectual que cria numa reencarnação aos moldes modernos, era uma unanimidade até o século VI e foi perseguido pelos delírios de um casal de monarcas – em especial a esposa -, é uma construção dos tempos atuais. Uma “história” personalista da cristandade que tira o foco do que interessaria: o que realmente os pequenos grupos cristãos originais discutiam entre si? Será que o sacrifício da arena contaria com tantos adeptos caso eles não vissem nisso uma porta da a redenção imediata?
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Não estás fazendo “tempestade em copo d’água”?

Não, por um simples motivo: as táticas usadas na criação de mitos. Seleção de fatos e escritos, aumento da importância de alguns aspectos em detrimento a outros, teorias conspiratórias, erros biográficos, quando não revisionismo puro e simples, são coisas que deveriam preocupar qualquer espiritualista que preze algum respeito. Citei vários autores como Severino Celestino da Silva, Elizabeth Clare Prophet, Noel Langley, José Reis Chaves, Kersten e te pergunto: posso levar a sério alguns desses estudos? Definitivamente, NÃO!!! Devo acusá-los de má-fé? Também não, do contrário o ônus da prova seria meu e poderia incorrer em calúnia. A interpretação mais leve que posso fazer quanto a eles é que não leram em os escritos de Orígenes e pegaram citações de outros autores (ou uns dos outros) sem fazer a devida verificação. Nesse caso, agiram de modo descuidado com seus leitores e seus “trabalhos acadêmicos” não passam de “recorte e cole” feito por estudantes fundamentais. Ao encontrar alguma citação que apoiasse seus pontos de vista, suspenderam todo o senso crítico. É a emoção humana adentrando na “fé racionada”. Simplificações exageradas também ocorrem por parte de anti-reencarnacionistas como D.Estevão Bettencourt, que desconsidera o aspecto de múltiplas eras de Orígenes, e há “tábuas de salvação”, como a História da Filosofia feita por Giovanni Reale e Dario Antiseri, que não apela para teorias conspiratórias e situa corretamente o pensamento de Orígenes no conceito de múltiplas eras.
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