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As Várias Terceiras Revelações

Índice

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O Consolador Prometido

3 – Se me amais, guardai os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro consolador, para que fique eternamente convosco, o Espírito da Verdade, a quem o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece. Mas vós o conhecereis, porque ele ficará convosco e estará em vós. – Mas o Consolador, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito. (João, XIV: 15 a 17 e 26)

4 – Jesus promete outro consolador: é o Espírito da Verdade, que o mundo ainda não conhece, pois que não está suficientemente maduro para compreendê-lo, e que o Pai enviará para ensinar todas as coisas e para fazer lembrar o que Cristo disse. Se, pois, o Espírito da Verdade deve vir mais tarde, ensinar todas as coisas, é que o Cristo não pode dizer tudo. Se ele vem fazer lembrar o que o Cristo disse, é que o seu ensino foi esquecido ou mal compreendido.

O Espiritismo vem, no tempo assinalado, cumprir a promessa do Cristo: o Espírito da Verdade preside ao seu estabelecimento. Ele chama os homens à observância da lei; ensina todas as coisas, fazendo compreender o que o Cristo só disse em parábolas. O Cristo disse: “que ouçam os que têm ouvidos para ouvir”. O Espiritismo vem abrir os olhos e os ouvidos, porque ele fala sem figuras e alegorias. Levanta o véu propositalmente lançado sobre certos mistérios, e vem, por fim, trazer uma suprema consolação aos deserdados da Terra e a todos os que sofrem, ao dar uma causa justa e um objetivo útil a todas as dores.

(…)

Assim realiza o Espiritismo o que Jesus disse do consolador prometido: conhecimento das coisas, que faz o homem saber de onde vem, para onde vai e porque está na Terra, lembrança dos verdadeiros princípios da lei de Deus, e consolação pela fé e pela esperança.

O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. VI.

Para os que não sabem, o Espírito de Verdade seria o chefe de uma “falange espiritual” responsável por boa parte das comunicações, digamos, edificantes compiladas por Allan Kardec. Seu advento é tido pelos espíritas kardecistas como o começo da “Terceira Revelação”, a chegada do “Consolador Prometido”, ou Paracleto num linguajar mais helênico. A Primeira Revelação teria sido a Lei Mosaica, a Segunda, os Evangelhos e, então, vinha o espiritismo dar continuidade e cumprimento à profecia. Isso cabe bem como um caso de interpretação pesher porque (1) deu a um texto antigo um significado que seus primeiros leitores dificilmente admitiriam e (2) houve, ao longo da história, várias outras apropriações desses versículos. A atual ortodoxia cristã associa-os com a descida do Espírito Santo em “línguas de fogo” descrita em At 2:1-4, mas talvez a questão seja um pouco mais complexa. Neste artigo, gostaria de começar por essa segunda característica e só depois retornar à discussão sobre “quem é o consolador prometido, o Paracleto?”.

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A Nova Profecia

Por volta do fim do segundo século da era cristã, surgiu na província romana da Frígia (no coração da atual Turquia) um movimento dentro da proto-ortodoxia cristã que se autodenominava “Nova Profecia”, mas seria posteriormente chamado de “montanismo” por seus adversários em alusão a seu fundador: um recém-converso cristão de nome Montano que, um belo dia, passou por uma cartase e manifestou um “dom de profecia” muito similar ao hoje alegado por igrejas pentecostais.

Tudo o que sabemos sobre essa personagem nos veio de forma indireta, principalmente de seus adversários, como Eusébio de Cesareia e Epifânio de Salamina(1). Por outro, lado, uma amostragem mais fanática simpática sobre os preceitos desse movimento chegou-nos através de ninguém menos que Tertuliano de Cartago, um também converso e vigoroso apologista do cristianismo proto-ortodoxo. De tão radical em sua prosa, pode-se cogitar por que Tertuliano foi progressivamente atraído por certos aspectos do montanismo, como sua vigilância moral, ascetismo e proibição de segundas núpcias em caso de viuvez. Até aí, nada muito destoante da teologia proto-ortodoxa se esse rigorismo não fosse um corolário das êxtases proféticas de Montano: o fim estava próximo e o grosso da Igreja não estava moralmente apto para sua chegada.

Montano junto com suas duas consortes em profecia – Priscila (ou Prisca) e Maximila – eram tidos por seus seguidores como “os (profetas) que Senhor havia prometido enviar a seu povo“(3), numa alusão indireta a Jo 14:26. Associações mais explícitas de Montano com o “consolador” permanecem em relatos de outros autores do século IV como Dídimo, o Cego,(4) e mais notoriamente em Epifânio:

O mesmo Montano acrescenta: “Eu sou o Senhor Deus, o Todo Poderoso, residindo num homem“. Felizmente a sagrada escritura e o curso dos ensinamentos do Santo Espírito mantêm-nos a salvo ao nos dar avisos para que saibamos quais são as falsificações do estranho espírito e os opostos da verdade. Ao simplesmente dizer isso, Montano sugeriu que lembremos das palavras do Senhor. Pois o Senhor diz no Evangelho: “vim em nome de meu Pai, e não me recebeis; se outro vier em seu próprio nome, a esse recebereis” (Jo 5:43). Montano está, assim, em total desacordo com as sagradas escrituras, como qualquer leitor atento pode ver. E já que está em desacordo, <ele mesmo> e a seita, que como ele se gaba de ter profetas e dons, são estranhos a santa igreja católica. Ele não recebeu esses dons, afastou-se deles.

Que pessoa racional se atreveria a chamar essas pessoas de profetas em vez de enganadores? Cristo nos ensinou: “Envio-vos o Espírito, o Paracleto“(cf. Jo 16:7), e para dar os sinais do Paracleto, disse: “Ele me glorificará“(Jo 16:14). E na verdade está claro que os santos apóstolos glorificaram o Senhor após receber o Espírito Paracleto, enquanto Montano glorifica si mesmo. O Senhor glorificou seu Pai, e, em seguida, o Senhor glorificou o Espírito ao chamá-lo de Espírito de verdade. Montano, contudo, glorifica apenas a si, e diz ser o Pai Todo Poderoso, e que <o espírito enganoso> que reside nele <é o Paracleto> – prova afirmativa de que ele não é o Pai, não foi enviado pelo Pai, nem recebeu nada do Pai.

Panarion, sç IV, cap. XLVIII, p.16

Entre < > estão reconstruções conjecturais.

Convém lembrar que Epifânio está longe de ser um argumentador moderado. Certo que ninguém está livre de algum viés, mas ele foi o tipo de pessoa que abusou um pouco do direito à parcialidade (5). No entanto, as distorções e exageros que produzia deviam ter algum fundamento aspectos reais e bem mais amenos das seitas que criticava. No caso de Montano, é provável que ele não se julgasse “o Pai”, mas o último canal autoritativo para ele. É possível que ele e Dídimo tivessem se valido de um documento em circulação no século IV chamado de Diálogo entre um Montanista e um Ortodoxo em que se encontra a alegação de que os montanistas davam seu líder como sendo o Paracleto. Jerônimo, em sua carta n. 41, faz alegação semelhante(6) e, como ambos foram contemporâneos, é possível que hajam bebido água da mesma fonte.

O que dá realmente substância ao relato dos heresiólogos do século IV quanto à alegada relação entre Montano e o Paracleto é uma breve menção a esse último feita pelo simpatizante Tertuliano, dois séculos antes:

No curso do tempo, então, o Pai verdadeiramente nasceu, e o Pai sofreu, o próprio Deus, o Senhor Todo Poderoso, a quem em suas orações declaram ser Jesus Cristo. Nós, contudo, como desde o sempre fizemos (ainda mais especialmente depois que viemos sendo melhor instruídos pelo Paracleto, quem realmente levou os homens à verdade total), acreditamos que há um único Deus, mas sob a seguinte dispensação, ou οἰκονομία, como é chamada: esse único Deus também tem um Filho, Seu Verbo, que procedeu dEle mesmo, por meio do qual todas as coisas foram criadas, e sem o qual nada foi feito. (…)

Contra Práxeas (7), cap. II.

Ao contrário dos heresiólogos, as referências aos pontos advogados pela Nova Profecia se encontram dispersos em sua obra, se tornando mais frequentes no fim da vida. Seus adversários é que fariam uma exposição mais sintética e sistemática, pois assim poderiam refutá-la melhor.

Mas talvez Epifânio e os demais já estivessem “chutando cachorro morto” como se diz no popular. As profecias montanistas não se cumpriram no tempo previsto e nada melhor que vaticínios fracassados para abalar a credibilidade de seitas. Que o digam os adventistas e testemunhas de Jeová modernos, que pararam de dar uma data certa para o Juízo Final. Na passagem do século IV para o V, Agostinho de Hipona compôs Sobre as Heresias e no capítulo LXXXVI relata a existência, ainda em seu tempo, de remanescentes de uma “Igreja Tertuliana” em Cartago, na atual Tunísia. Não fica claro se são uma evolução do movimento propagandeado por Tertuliano ou se ele rompera com a “Nova Profecia”. Tal remanescente acabou por se converter à ortodoxia (8).
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Todos em Um

Mani

Ao sul da Mesopotâmia (atual Iraque), no começo do terceiro século da Era Comum, nasceu um menino de nome Mani (9), cujo pai se convertera à seita cristã dos elcesaítas (10) – após ouvir uma voz durante um culto pagão o conclamando à abstinência de carne, vinho e mulheres – e o levou para ser criado na comunidade dela. Aos doze anos teve uma visão de seu “gêmeo celestial” (syzygos, em grego) a lhe instruir sobre uma nova revelação que deveria pregar. Voltou a encontrá-lo aos vinte e quatro anos, um antes de atingir a maioridade religiosa, e decidiu que já era hora de agir. Mani passou a se considerar o último de uma longa cadeia de profetas, que incluía Zoroastro, Jesus e Buda e portador de uma mensagem que reuniria todos os credos fundados por eles e os superaria. Em sua vida, viu a ascensão da dinastia Sassânida na Pérsia e pregou por todo seu império, sob os auspícios do rei Sapor I, fundou comunidades, refinou sua doutrina e, criam seus fiéis, realizou milagres. Na pessoa de Mani, então, reuniam-se o carisma de Jesus, a atividade missionária de Paulo e a capacidade intelectual de Orígenes ou de Agostinho. Tudo correu bem até a morte de Sapor em 272, quando Mani caiu em desgraça, foi perseguido por sacerdotes zoroastristas e morreu pouco depois no cativeiro. Sua mensagem, por sua vez, já havia se espalhado o bastante para ainda resistir por quase um milênio e meio. (11)

Expansão do Maniqueísmo

Etapas do Maniqueísmo. Fonte: Transcultural Studies, nr. 1 (2011).

Sua doutrina lembra as linhas gerais das diversas correntes gnósticas que existiam pelo Oriente Médio e o Mediterrâneo, principalmente no que diz respeito ao dualismo Bem versus Mal, identificado com o conflito entre Espírito e Matéria, Luz e Trevas. Para Mani, originalmente esses dois campos se encontravam separados, mas, após um conflito cósmico, misturam-se dando início ao cárcere das almas no corpo físico. O objetivo mais nobre de uma vida humana, portanto, seria desapegar-se por meio de uma iluminação espiritual através do conhecimento (gnose) da verdade espiritual. Ao morrer o corpo físico, a alma que já estivesse suficientemente liberta da matéria ascenderia ao domínio do espiritual, do contrário renasceria em outro corpo físico. Mas vale atentar que muitas das características que julgamos terem sido comuns em seitas gnósticas – esoterismo, elitismo e o mundo como o produto de um demiurgo inferior – se encontram ausentes nela. Todos eram chamados para a fé, o conhecimento e as boas obras, calcando o maniqueísmo como uma religião para a ação neste mundo material. A encarnação das almas não se deveu a um erro cometido, mas a uma tragédia que afetou a todas indistintamente.

Durante muito tempo nossa principal fonte de informações a respeito dessa religião foram os relatos de antimaniqueus e convém destacar dentre eles o mais famoso ex-maniqueu que o Ocidente teve notícia: Agostinho de Hipona. Em sua obra Confissões (Livros III e IV) somos informados de que fora adepto dela na juventude e o tom não é nem um pouco reverente, mas sem grande explicações doutrinárias, a não ser a acusação de frouxidão moral. Uma descrição mais sistemática é dada por ele em Sobre as Heresias, capítulo XLVI, em que descreve essa religião sincrética como se estivesse mais para uma heresia cristã, tendo inclusive, uma hierarquia sacerdotal assemelhada. É nesse mesmo capítulo que Agostinho atesta que os maniqueus consideravam seu profeta como o Consolador prometido em João.

Contudo, eles de fato atestam que Cristo existiu, alegam ter sido iluminados pela que nossa escritura chama de Serpente, de modo que abriram os olhos do conhecimento (cognitio) e foram capazes de separar o bem do mal, mesmo supondo-se que Cristo teve de vir nos tempos recentes para libertas as almas, não os corpos. Nem se supõe que tenha tido uma verdadeiro corpo, mas ofereceu aos sentidos humanos um aspecto simulado de carne a fim de enganá-los, no qual fingiu não apenas sua morte, mas também sua ressurreição.

O Deus que deu as Leis por meio de Moisés e falou pelos profetas hebreus não é tido como sendo o verdadeiro Deus, mas um dos príncipes das trevas. E leem as próprias escrituras do Novo Testamento como se fossem falsificadas, tomando delas o que lhes agrada e rejeitando o que desgostam e ainda dão prioridade a várias escrituras apócrifas, como se contivessem tudo que é verdadeiro.

Dizem que a promessa de Jesus Cristo do Espírito Santo paracleto foi cumprida em seu heresiarca Mani. Por Conseguinte, em seus escritos, declara-se apóstolo de Jesus Cristo, porque Jesus Cristo prometera que enviaria a si mesmo e nele enviou o Espírito Santo.

E por essa razão, o próprio Mani teve doze apóstolos, numa imitação do número apostólico, que os maniqueus preservam até este dia. Pois, entre seus Escolhidos, possuem doze a quem chamam de mestres e um décimo terceiro a quem têm como seu prior. Há 72 bispos, que são ordenados pelos mestres, e presbíteros, que são ordenados pelos bispos. Também possuem diáconos dos bispos.

Agostinho também faz acusações de “atos imorais” praticados entre maniqueus (12), uma atitude que o deixa, de certa forma, próximo aos métodos de Epifânio. Vale ressaltar que ele teve a vantagem de ter sido efetivamente maniqueu em sua juventude, ainda que isso não lhe garanta respaldo absolutamente. Felizmente, a partir do começo do século XX, uma boa quantidade de documentos de punho maniqueu foram redescobertos, que nos permitem saber como eles viam a si mesmos. Eis um salmo usado na festividade de “bema” (13) que sintetiza um bocado dos conceitos de sua teologia:

Salmo CCXXIIII dos salmos maniqueus coptas

Adoremos o Espírito do Paracleto (Consolador).
Abençoemos nosso Senhor Jesus que nos enviou
o Espírito da Verdade. Ele veio e nos separou do Erro
do mundo, trouxe-nos um espelho, olhamos, vimos o Universo nele.

Quando o Espírito Santo veio, ele nos revelou o caminha da Verdade
e nos ensinou que existem duas Naturezas, a da Luz e a da Escuridão,
separadas uma da outra desde o princípio.

O Reino da Luz, por sua vez, consistia nas cinco Grandezas,
e elas são o Pai e seus doze Éons e os Éons dos Éons,
o Ar Vivente, a Terra da Luz; o grande Espírito a soprar neles
nutrindo-os com sua Luz.

Mas o Reino da Escuridão consiste de cinco câmaras,
que são Fumaça e Fogo e Vento e Água e Escuridão,
com sua Resolução se infiltrando entre eles, movendo-os e incitando-os a
guerrear um com o outro.

Agora que estão guerreando um com o outro, atreveram-se a fazer uma
investida sobre a Terra da Luz, pensando que seriam capazes de conquistá-la.
Mas não sabem que o que pensaram em fazer eles farão cair
sobre suas próprias cabeças.

Mas havia uma multidão de anjos na Terra da Luz tendo poderes para ir
subjugar o inimigo do Pai, a quem agradou que pelo Verbo seu que enviaria,
haveria de subjugar os rebeldes que desejaram se exaltar acima do que era mais
exaltado que eles.

Como um pastor que ao ver um leão vindo destruir seu rebanho,
então ele usa um artifício e pega um cordeiro e coloca-o como uma armadilha para poder capturá-lo
por meio dele: assim com um único cordeiro, salva todo o rebanho. Após isso, ele trata o cordeiro que fora ferido pelo leão.

Dessa maneira também agiu o Pai,
que enviou seu poderoso Filho.
Produziu a partir de si mesmo sua Donzela, proveu com os cinco Poderes
para que ela pudesse lutar contra os cinco Abismos da Escuridão.

Quando o Vigilante (14) se recusou a sair de dentro das fronteiras da Luz
ele mostrou os poderes da Escuridão a sua Donzela, que é sua Alma.
Eles ficam agitados no Abismo e quiseram possuí-la,
abriram suas bocas e tentaram engoli-la.

Ele tomou o poder da Donzela e o espalhou sobre os Poderes da Escuridão,
como uma rede aos peixes, lançou a sobre eles.
Como nuvens purificadas, ela os penetrou como um luminoso e perfurante golpe.
Ela se infiltrou dentro de suas entranhas e selou-os sem que sequer soubessem.

Quando o Primeiro Homem havia terminado sua luta, o Pai enviou seu Segundo Filho.
Ele veio e ajudou seu irmão a sair do Abismo.
Construir este mundo todo a partir da mistura
que se originara da existência de Luz e Escuridão.

Todos os Poderes do Abismo ele espalhou pelos dez Céus e oito Terras,
aprisionou-os neste Mundo e fez dele uma masmorra para todos os Poderes da Escuridão.
Este mundo, contudo, também é um lugar de purificação da alma
que fora tragada pelos Poderes da Escuridão.

O Sol e a Lua foram criados e postos nas alturas para purificar a Alma
Eles levam diariamente a parte refinada acima para as alturas, mas destroem o resíduo.
Intercomunicam-na acima e abaixo.

Este mundo inteiro permanece firme por uma Razão,
já que há um grande Edifício sendo erguido fora deste Mundo.
À Hora quando o Arquiteto o completar, o mundo inteiro será dissolvido.
Por-se-á fogo nele, para que tal fogo o derreta embora.

Toda Vida, os Remanescentes da Luz de todo Lugar,
ele reunirá consigo e dela formará uma Estátua (Eidolon – imagem, similitude).
Mesmo também a Resolução da Morte, a totalidade da Escuridão,
ele reunirá e fará uma imagem de si mesmo junto com o Arconte.

Num instante, o Espírito Vivente virá.
Ele irá amparar a Luz,
mas a Resolução da Morte e da Escuridão
trancará na câmara que foi construída para ela a fim de que jaza em grilhões para sempre.

Não há outro meio exceto esse meio para selar o Inimigo,
pois ele não foi recebido na Luz porque é estranho a ela,
mas também não será deixado em sua Terra de escuridão,
para que não trave uma guerra maior que a primeira.

Um novo Éon será construído no lugar deste Mundo, que será dissolvido,
para que nele os Poderes da Luz possam reinar
já que eles realizaram e cumpriram toda a vontade do pai.
Eles destronaram o odioso, derrotaram-no para sempre.

Este é o conhecimento de Mani,
adoremo-lo e louvemo-lo.
Abençoado é todo homem que confiar nele
pois ele viverá com os Justos.

Honra e Vitória a nosso Senhor Mani, o Espírito da Verdade,
que veio do Pai e nos revelou
o Princípio, o Meio e o Fim.
Vitória à Alma dos Abençoados Maria (15), Theona, Pshai, Jemnoute (16).

Fonte: The Gnostic Society Library

O maniqueísmo, como religião missionária, chegou a rivalizar com o cristianismo na disputa por corações e mentes, mas ficou em séria desvantagem após esse (em sua versão nicena) ter adquirido o status de credo oficial em 380 d.C. e uma combativa contrapropaganda feita por ortodoxos (Agostinho entre eles). Ainda assim, continuaram com alguma expressividade no mundo romano pelo menos até o século VI, quando o imperador Justiniano desfechou violenta repressão contra eles(17). Nas regiões do Oriente Médio além do rio Eufrates, seu declínio se deu a partir da conquista muçulmana, levando o maniqueísmo a se refugiar ainda mais a oste, pela Índia, até chegar às vizinhanças da China, onde chegou a ser a religião oficial do Império Uigur (centrado na atual Mongólia) a partir da conversão de seu primeiro monarca (763 d.C.) até seu desmembramento em 840. Pela patronagem uigur, missionários maniqueus estabeleceram comunidades em cidades chinesas mais ao norte e chegaram a converter alguns locais, mas sua religião foi proibida após a queda de seus protetores. Ela sobreviveu à ilegalidade e reapareceu ao sul da China sob o disfarce de uma seita budista/taoista, que durou até o século XVII (18).

Especula-se que a heresia cátara (ou albigense) na França medieval e bogomila nos Bálcãs teriam sido descendentes de seitas maniqueias, o que ainda é controverso. Os adeptos da primeira foram esmagados na Cruzada Albigense (1209-44) e os da última passarão por uma conversão em massa após a conquista turca e deram origem aos atuais muçulmanos da Bósnia (19).

Origem do catarismo

A difusão do catarismo pela Europa. Fonte:Cathar.Info

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Um dito atribuído a Mani declara que “sabedoria e boas obras têm sido transmitidos em sucessão perfeita de era em era pelos mensageiros de Deus. Vieram em uma era por meio do profeta chamado Buda na região da Índia, em outra por meio de Zoroastro no território da Pérsia e ainda outra por meio de Jesus nas terras do Ocidente” (20). Quando sua doutrina já estava em declínio, um novo profeta estava prestes a receber uma revelação na caverna de uma montanha do grande deserto arábico.

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O Louvado Prometido

A Viagem de Maomé aos Céus

Manuscrito persa de meados do século XVI exibindo iluminura com a viagem de Maomé (representado com o rosto coberto) aos Céus.

Nos instantes finais de uma longa guerra travada contra os bizantinos, O imperador sassânida Cosroe II foi surpreendido com a chegada de um inusitado mensageiro de um desses homens santos que de vez em quando apareciam no deserto ao sul de seus domínios. O conteúdo da mensagem era um convite para que ele se submetesse à religião recém-revelada por aquele profeta da região de Hejaz. Irritado, Cosroe rasgou a carta e ordenou que dois de seus homens acompanhassem aquele mensageiro até o remetente para lhe dar sua resposta. Lá chegando, os dois dignatário o intimaram a ir até a Pérsia, do contrário “seu povo seria destruído e seu país devastado”. O profeta disse-lhes para voltar na manhã seguinte e, quando o fizeram, foi lhes passada a revelação de que seu monarca já fora deposto e morto pelo próprio filho. Estupefatos e descrentes, ameaçaram escrever a Cosroe constando dessa insolência e ouviram uma resposta mais assombrosa ainda: “Sim, digam-lhe a meu respeito e digam-lhe que minha religião e minha soberania alcançarão limites que o reino de Cosroe nunca atingiu” (21). Assim desafiou-lhes Abū al-Qāsim Muḥammad ibn ʿAbd Allāh ibn ʿAbd al-Muṭṭalib ibn Hāshim, vulgo Maomé.

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Quando os Versos desceram à Terra


A partir do capítulo XI da narrativa do livro de Gêneses, somos apresentados à figura de Abraão, homem com um relacionamento muito pessoal com o deus Iahweh, o qual lhe ordenou abandonar sua terra natal (Ur, no atual Iraque) e seguir para Canaã. Como retribuição a sua fidelidade, foi garantida a Abraão a posse daquela terra para ele e a futura vasta descendência que haveria de ter. Contudo, Sara, sua esposa, reconheceu que já era muito velha para ter filhos e, por isso, ofereceu sua serva egípcia – Agar – ao marido, a fim de que pudesse lhe dar descendentes. Da conjunção carnal entre os dois nasceu Ismael, mas os planos divinos eram outros. Mesmo avançada em anos, Sara engravidou e deu à luz a Isaque, o que a pôs em confronto direto com Agar e seu rebento. Pressionado, Abraão se despediu dos dois no deserto de Berseba (cap. XXI), mas Iahweh o consolou garantindo que, embora seu pacto viesse a ser cumprido em Isaque, de Ismael também viria uma grande nação. Repetiu a promessa à desolada Agar e a amparou em sua jornada. Ismael cresceu e casou-se com uma egípcia.

Isso é tudo que a Torá fala a respeito da personagem Ismael. Para as tribos nômades da península arábica do século VI, esse era o único registro escrito (embora emprestado dos judeus) a lhes dar um senso de identidade, a crença de um antepassado comum que, de certa forma, contava com a boa vontade divina. A esse relato, acrescentaram a tradição oral de que Abraão e Ismael construíram um templo no coração do Hejaz (22) – a Caaba (Cubo) – que seria a morada de seu deus – chamado por eles de Alá – na Terra. E Ele não estava sozinho ali, mas partilhando a companhia de diversos outros ídolos de seres sobre-humanos da Arábia pré-islâmica. A cidade de Meca, nascida em torno da Caaba, já era há muito centro de peregrinação religiosa e o ponto de encontro de diversas caravanas de camelos. Era um oásis não só no sentido literal como também sendo um porto seguro onde diversas tribos faziam trégua durante as celebrações religiosas e arbitravam conflitos que normalmente resolviam pelo fio da espada.

Nesse tecido sociocultural frouxo e esgarçado nasceu Maomé em 570 d.C., pertencente à tribo dos coraixitas – a mais forte de Meca e responsável pela coordenação das peregrinações. Ainda assim, não foi exatamente o que se pudesse chamar de um “berço de ouro”: seu clã era um dos mais pobres da tribo e o bebê Maomé já nasceu órfão de pai e viria a perder a mãe ainda criança. Passou aos cuidados do avô e, depois, aos do tio Abu Talib, com quem aprenderia o ofício do comércio em caravanas. Provavelmente, foi pelas caravanas que travou contato com as culturas monoteísta cristã e judaica, adquirindo certo gosto pela religiosidade. E foi também por meio do comércio que teve contato com a rica viúva Cadija, a quem prestou serviços. Impressionada com sua honestidade e tino para negócios, pediu-lhe em casamento. Embora houvesse grande diferença de idade (ela estava 40 anos, quinze a mais que ele), Maomé aceitou e tiveram uma união feliz. Ainda que aceitasse a poligamia, só casou novamente após enviuvar de Cadija.

Um hábito cultivado por Maomé era se retirar para locais ermos, onde pudesse medita e orar a Alá. Certa noite, por volta de 610, numa caverna na encosta de uma montanha nas proximidades de Meca, teve a visão de um ser etéreo – posteriormente identificado como o anjo Gabriel – a lhe ditar mensagens em verso e cobrar que repetisse. Esse primeiro contato direto com o sobrenatural foi um susto. Maomé chegou a pensar estar perdendo o juízo. Foi com o amparo e encorajamento de Cadija e de um primo cristão dela (Waraqah ibn Nawfal) que aceitou sua missão como o último dos profetas prometidos. De seu círculo familiar vieram os primeiros muçulmanos (submissos) à nova religião, o Islã (submissão a Deus). Maomé memorizava as revelações recebidas mais tarde as recitava para eles e, cerca de três anos depois, o fazia publicamente em Meca.

Sua mensagem pregava a solidariedade, a compaixão, bondade para com os escravos, o uso das riquezas para o Bem comum e o fim da usura. Se apenas isso, nada muito de arriscado para ele, pois, de certa forma, estaria dizendo aos árabes para praticarem com todos os valores que já exerciam dentro dos próprios clãs. Um tópico fundamental de suas revelações ainda não dito, contudo, era extremamente delicado para seus contemporâneos: a adoração exclusiva a Alá, o que implicava na rejeição de todos os ídolos da Caaba e um risco para o lucrativo comércio durante as peregrinações. Felizmente, Maomé pôde contar com a diplomacia do tio e com os contatos sociais de sua esposa, mas em 619 ambos faleceram, deixando-o em confronto direto com a elite coraixita.

Foram tempos sombrios: seus seguidores foram perseguidos ou boicotados, os escravos conversos humilhados e o muitos simpatizantes o renegavam. Nem mesmo a visão que teve de ser levado no dorso de um animal fantástico, com a condução do anjo Gabriel, para o Monte do Templo em Jerusalém e de lá ascender pelos sete céus até o trono de Alá aplacou o receio de seus seguidores (23). Maomé até chegou a cogitar uma saída diplomática tratando algumas deidades da Caaba como subordinadas a Alá, o que escandalizou seus seguidores e muniu os adversários da acusação de incoerência. Essas revelações heterodoxas foram, então, atribuídas a Satanás e não a Gabriel, ficando conhecidas como “os versos satânicos“. Percebendo que o cerco, enfim, se fechava quando informado de um plano para assassiná-lo, Maomé se voltou a um grupo de mercadores que conhecera numa das feiras de Meca. Admirados com suas palavras, intuíram que elas poderiam selar a paz entre os clãs de sua terra natal – Iatrib, um oásis localizado a cerca de 300 km ao norte – e transformá-la numa grande ummah (comunidade) do Islã. O profeta e alguns seguidores para lá partiram em meados junho de 622, numa jornada que ficaria conhecida como “Hégira” (migração). Esse seria considerado o marco inicial do calendário muçulmano (25).

Em Iatrib, sua pregação frutificou e uniu as tribos árabes em torno de si, mas ainda havia a resistência das judaicas. São dessa época as revelações com leis dietéticas similares às judaicas, adoção da circuncisão masculina e as orações voltadas para Jerusalém. Como seu discurso não repercutiu tanto entre os judeus – afinal não era descendente de Davi (26) -, as orações passaram a ser feitas em direção a Meca a partir de 624 e o jejum passou a ser realizado no mês de Ramadã, em ver do hebraico Ashuma, dando à nova religião um perfil mais árabe.

Com uma base segura consolidada, iniciaram-se ataques a caravanas com destino a Meca, cuja elite mercantil retaliou em 624 com uma expedição de 800 homens. A vitória contra essa força na batalha de Badr, encheu Maomé de prestígio e poder, permitindo-lhe firmar sua posição política em Iatrib, que fora renomeada para “Madinat al-Nabi” – Cidade do Profeta – ou, simplesmente, Medina.

Os coraixitas de Meca não deixariam tamanha humilhação passar em branco e no ano seguinte retornaram com carga mais pesada contra os muçulmanos no ano seguinte. Em embate truculento travado ao norte de Medina, na cadeia de montanhas de Uhmud, os aliados de Maomé levaram a pior e só não foram massacrados de vez porque o custo da tomado de Medina foi considerado alto demais pelos coraixitas. Com o moral dos crentes abalado, novas revelações garantiam recompensas pós-morte aos que tombassem lutando pelo Islã. Era o embrião do conceito de jihad, palavra que pode significar tanto “luta” como “empenho”: luta contra si e empenho contra os inimigos.

A “prova de fogo” dos muçulmanos de Medina veio em 627, quando Meca reuniu com seus aliados um exército de 10.000 homens, ao passo que as forças de Maomé eram cerca de 3.000. Entendendo ser impossível vencer por um combate aberto, o profeta optou por uma tática defensiva. Como Medina já possuía barreiras naturais de colinas e rochedos em três direções, mandou cavar um largo fosso ao longo da única que estava desprotegida. A estratégia deu certo e, após quase um mês, os sitiantes se retiraram por falta de suprimentos. Esse episódio – a “Batalha da Trincheira” – deu nova mística à figura do líder muçulmano.

A ascensão dos muçulmanos de Medina, porém, teve consequências nefastas para as três tribos judaicas locais. Seu pouco empenho na defesa de Medina e o vínculo comercial entre elas e a elite coraixita sempre deixaram Maomé com uma “pulga atrás da orelha”. Os qaynuqas quase tiveram seu destino selado após Badr, não fosse a tensa diplomacia de um rabino com Maomé, que conseguiu comutar a pena para exílio. Após Uhmud, chegou a vez de os Banu Nadir deixarem Medina e um destino pior aguardava a tribo Qurayzah: embora membros seus tenham ajudado a cavar o fosso usado na “Batalha da Trincheira”, ela foi acusada de maquinar contra Maomé, tendo seus varões executados, suas mulheres e crianças escravizadas. Conforme a oposição do judeus amainou após a consolidação final do Islã, eles foram readmitidos na cidade.

Nem só de armas se fez o jihad do crentes, que também se valeu de muita habilidade diplomática, marcada pelos diversos casamentos que Maomé contraiu (27) para adquirir alianças e pela compra da lealdade dos nômades, que foi financiada pelo controle das rotas de caravanas. Sentindo-se forte o bastante, Maomé lançou um último estratagema ao peregrinar com setecentos seguidores à Caaba.

Imagem da Caaba

A Caaba ao centro da Mesquita de Meca. O local mais sagrado do islamismo.

Embora fossem um alvo fácil, qualquer ataque a peregrinos destruiria a credibilidade de Meca. Por outro lado, sua presença na cidade seria um ultraje. Chegou-se a um acordo em que, por uma trégua de dez anos, os citadinos se comprometiam a evacuar Meca anualmente por três dias para peregrinação dos muçulmanos. O pacto não durou muito, pois em 629 uma briga entre uma tribo muçulmana e outra de Meca deu a Maomé o pretexto que precisava para se pôr em marcha. No Ramadã de 630, ele e dez mil dos seus adentraram sem resistência numa cidade dividida, cujo moral já estava combalido. Destruiu todos os ídolos da Caaba, à exceção da “Pedra Negra” (28), perdoou inimigos e tornou-se a principal força político-militar do Hejaz. O próximo passo foi a submissão dos demais governantes a península e a eliminação de outros grupos de profetas rivais.

Maomé morreu em 632 da Era Comum, de pleurisia, poucos meses após chefiar uma peregrinação de oitenta mil fiéis (29). Com os pés no chão e os olhos no céu, aquele antigo menino órfão conseguira transformar um povo desunido numa única e poderosa ummah. A identidade e o humanismo árabe não residiam mais na lealdade à tribo de nascença, mas na pertinência a uma grande irmandade calcada na submissão a Alá.
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A (Terceira) Revelação do Deserto

Nada do que foi dito acima consta no Alcorão – o livro sagrado dos muçulmanos ( Al Kuran, “A Recitação”). São relatos constantes em biografias posteriores de Maomé, como a Sirat Rasul Allah (“Vida do Mensageiro de Deus) de Ibn Ishaq (30). O Alcorão, por si mesmo, possui pouca informação biográfica. Ele não é um épico nacional como a Tanach dos judeus, nem narrativas proselitistas como os Evangelhos. Para seus crentes ele é a própria palavra de Alá em versos eufônicos com instruções precisas de como um muçulmano deve agir e sua comunidade funcionar. Nele estariam contidas apenas as revelações recebidas por Maomé, divididas em 114 suras (ou suratas), organizadas grosso modo por tamanho, e subdivididas em ayat (“versos”). Nenhuma das suras foi transcrita pelo punho de Maomé, que as repassava oralmente, mas foram registradas por seguidores seus e compilados no governo de seu genro Utman (644-56). Uma sura, em particular, tem relação com o tema aqui tratado:

Sura 61

As Fileiras

4. Olhai: Alah ama esses que batalham pela Sua causa em fileiras, como se fossem uma estrutura sólida!

5. E recordai-vos de quando Moisés disse ao seu povo: – Ó meu povo! Por que é que vós me perseguis quando bem sabeis que sou um mensageiro de Alah para vós? Portanto, quando eles se desencaminharam Alah desencaminhou os seus corações. E Alah não guia o povo que vive no pecado.

6. E quando Jesus, filho de Maria disse: – Ó Filhos de Israel! Olhai: eu sou o mensageiro de Alah para vós; confirmo isso que foi revelado ante mim no Torah (1) e dou as boas novas de um mensageiro que há de vir depois de mim, cujo nome é O que é Louvado! (2) Contudo, quando ele veio para eles, como provas evidentes, disseram: – Isto é simples magia.

Notas do tradutor
(1) Os livros de Moisés
(2) Em arábico: Ahmad, nome do Profeta da Arábia. “O que conforta” – foi tido por muitas comunidades cristãs do Oriente como um profeta que havia ainda de chegar e, muitos deles, aceitaram Muhamad como sendo esse profeta.

Alcorão, tradução de portuguesa de Bento de Castro, Ed. Lourenço Marques, 1964

Não há nenhum versículo nos evangelhos falando desse “Louvado” que estaria por vir depois de Jesus. Ainda assim, A crença na vida de um Ahmad era tida pelos primeiros muçulmanos como intrínseca ao cristianismo. O historiador persa Muhammad ibn Jarir al-Tabari (838–923), por exemplo, registrou relatos (pouco verossímeis) sobre o imperador bizantino Heráclio, após receber um mensageiro de Maomé como Cosroe II, consultando eruditos eclesiásticos, que lhe confirmaram ser o Ahmad aquele profeta “mencionado pelo nome em nossas escrituras” [Guillaume, pp. 654-7]. Óbvio que a opinião cristã era bem diferente:

Quando outra vez perguntamos: “Como é que, quando ele vos determinou nesse vosso livro que não façais ou recebeis nada sem testemunhas, não lhe pedistes: ‘Primeiro, mostre-nos por testemunho que és um profeta e que vieste de Deus e mostre-nos exatamente quais são as Escrituras que testificam sobre ti’ – eles ficam envergonhados e permanecem em silêncio. [Então continuamos:] “Embora não deveis desposar sem testemunhas, ou comprar, ou adquirir propriedade; embora não recebeis nem um asno, nem um animal de carga sem testemunho; e embora somente possuis tanto esposas quanto propriedades, e asnos, e assim por diante por meio de testemunhas, ainda é vossa fé a única que permanece não substanciada por testemunhas. Pois o que vos repassou isso não tem garantia alguma de qualquer fonte, nem há ninguém conhecido que testificou sobre ele antes que viesse. Pelo contrário, recebeu-o enquanto dormia”.

João Damasceno, Das Heresias, cap. CI, “Os ismaelitas” (cf. Writings, p. 155).

De onde, então, veio essa associação entre Maomé e um profeta prometido? Uma hipótese plausível é que alguém tomou a palavra grega παρακλητος (“parakletos”: conformador, advogado) por περικλυτoς (“periklytos”: famoso, renomado, glorioso). Como as escritas de línguas semíticas (hebraico, aramaico, siríaco, árabe, etc.) muitas vezes não grafam as vogais, as transliterações dessas palavras gregas se tornam homógrafas: prklts. Esse é o caso, por exemplo, das Bíblias siríacas:

ܦܪܩܠܛܐ

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Não importa o que aconteceu, os muçulmanos continuarão a se considerar portadores de uma revelação prometida. A última delas. E os espíritas? Como se relacionam com essa religião revelada, colateral às três por eles mencionadas?

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O Olhar de uma Terceira Revelação sobre Outra.

No ano de 1866, Allan Kardec publicou dois artigos na Revista Espírita – um em agosto e outro em novembro – tratando do tema “Maomé e o Islamismo”. O primeiro é um reconhecimento da importância da compressão dessa religião – afinal a França já era senhora da Argélia e o Império Turco Otomano ainda dominava boa parte dos Bálcãs – e, baseado no trabalho de orientalistas contemporâneos seus, traça um esboço da biografia de Maomé até a Hégira, no intuito de desfazer os diversos mitos populares e preconceitos que a Europa cristã fizera ao longo de século sobre o fundador de islamismo:

Há, algumas vezes, sobre os homens e sobre as coisas, opiniões que se acreditam e passam ao estado de ideias recebidas, por errôneas que sejam, porque se acha mais
cômodo aceitá-las inteiramente feitas. Assim o é com Maomé e sua religião, da qual não se conhece quase senão o lado legendário. O antagonismo das crenças, seja por espírito de partido, seja por ignorância, além disso, é mais para fazer ressaltar dela os pontos mais acessíveis à crítica, deixando, frequentemente, de propósito, na sombra as partes favoráveis. Quanto ao público imparcial e desinteressado, é preciso dizer em sua defesa, que faltaram elementos necessários para julgar por si mesmo. As obras que teriam podido esclarecê-lo, escritas numa linguagem apenas conhecida de alguns raros sábios, lhe eram inacessíveis; e como, em definitivo, ali não ia para ele nenhum interesse direto, acreditou sob palavra o que se lhe disse, sem disso perguntar mais. Disso resultou que se fizeram sobre o fundador do Islamismo ideias frequentemente falsas ou ridículas, baseadas sobre os preconceitos que não encontravam nenhum corretivo na discussão.

Os trabalhos perseverantes e conscienciosos de alguns sábios orientalistas modernos, tais como Caussin de Perceval, na França, o doutor W. Muir, na Inglaterra, G. Weil e Sprenger, na Alemanha, permitem hoje encarar a questão sob sua verdadeira luz(1).

(1) Sr. Barthélemy Saint-Hilaire, do Instituto, resumiu esses trabalhos numa interessante obra, intitulada: Maomé e o Corão. 1 vol. i, p -12. – Preço: 3 fr. 50 c. Livraria Didier.

RE, agosto 1866

O segundo artigo, conclui a biografia e passa a uma análise do homem e de sua mensagem. E é francamente positivo sobre os dois!

É preciso julgar Maomé pela história autêntica e imparcial, e não segundo as lendas ridículas que a ignorância e o fanatismo difundiram por sua conta, ou as pinturas que dele fizeram aqueles que tinham interesse em desacreditá-lo, apresentando-o como um ambicioso sanguinário e cruel. Não é necessário, não mais, torná-lo responsável pelos excessos de seus sucessores, que gostariam de conquistar o mundo para a fé muçulmana de sabre à mão. Sem dúvida, houve grandes tarefas no último período de sua vida; pode-se censurá-lo por ter, em algumas circunstâncias, abusado do direito do vencedor, e de não ter agido sempre com toda a moderação desejada. No entanto, ao lado de alguns atos que a nossa civilização reprova, é preciso dizer, para sua defesa, que ele se mostrou muito mais frequentemente humano e clemente para com seus inimigos do que vingativo, e que deu muitas vezes provas de uma verdadeira grandeza de alma. É preciso reconhecer também que, no meio de seu próprio sucesso, e então que chegava ao mais alto ponto de sua glória, até o seu último dia, ele encerrou-se no seu papel de profeta, sem jamais usurpar uma autoridade temporal despótica; não se fez nem rei, nem potentado, e jamais, na vida particular, manchou-se com algum ato de fria barbárie, nem de baixa cupidez; ele sempre viveu simplesmente, sem fausto e sem luxo, mostrando-se bom e benevolente para com todo o mundo. Esta é a história.

Citando o historiador Gustav Weil

“Seríamos injustos e cegos se não reconhecêssemos que seu povo lhe deve ainda outra coisa de verdadeiro e de bem, e lhe reuniu em uma única grande nação, crendo fraternalmente em Deus, as tribos inumeráveis dos Árabes até ali inimigas entre si. No lugar do mais violento arbítrio, do direito da força, e da luta individual, colocou um direito inabalável que, apesar de suas imperfeições, forma sempre a base de todas as leis do Islamismo. Ele limitou a vingança do sangue que, antes dele, se estendia até os parentes mais distantes, e a limitou àquele único que os juízes reconhecessem como assassino. Muito mereceu, sobretudo do belo sexo, não só em protegendo os filhos contra o atroz costume que os fazia, frequentemente, imolar por seus pais, mas, além disto, em protegendo as mulheres contra os parentes de seus maridos, que as herdavam como de uma coisa material, e as defendiam contra os maus tratos dos homens. Ele restringiu a poligamia, não permitindo aos crentes senão quatro mulheres legítimas, em lugar de dez, como era o uso, sobretudo em Medina. Sem haver inteiramente emancipado os escravos, lhes foi bom e útil de muitas maneiras. Para os pobres, não só recomendou sempre a beneficência a seu respeito, mas estabeleceu formalmente um imposto ao seu favor, e lhes fez uma parte especial no espólio e no tributo. Proibindo o jogo, o vinho e todas as bebidas embriagadoras, preveniu muitos vícios, muitos excessos, muitas querelas e muitas desordens.”

Advogando por Maomé:

Ao todo censurando os Cristãos [pela crença na Trindade], Maomé não tinha por eles sentimentos hostis, e no próprio Corão ele recomenda para usar para com eles de comedimento, mas o fanatismo os englobou na prescrição geral dos idolatras e dos infiéis cuja presença não deve sujar os santuários do Islamismo, é porque a entrada nas mesquitas, da Meca e dos lugares santos, lhe é proibida. O mesmo fazem com respeito aos Judeus, e se Maomé os castigou rudemente em Medina, foi porque estavam ligados contra ele. De resto, em nenhuma parte, no Corão, encontra-se o extermínio dos Judeus e dos Cristãos, erigidos em dever, assim como se o crê geralmente. Seria, pois, injusto lhe imputar os males causados pelo zelo ininteligente e os excessos de seus sucessores.

Citando o Alcorão:

Ignorais quantos povos fizemos desaparecer da face da Terra? Nós lhes tínhamos dado um império mais estável do que o vosso. Enviamos as nuvens derramarem a chuva sobre seus campos; ali fazemos correr os rios. Só seus crimes causaram sua ruína. Nós os tínhamos trocado por outras nações. É a Deus que deveis o sono da noite e o despertar da manhã. Ele sabe o que fazeis durante o dia. Ele vos deixa cumprir a carreira da vida. Reaparecereis diante dele, e ele vos mostrará as vossas obras. – Ele domina seus servidores. Dá-vos por guardiães os anjos encarregados de terminar vossos dias no momento prescrito. Eles executam cuidadosamente a ordem do céu. – Retornareis em seguida diante do Deus de verdade. Não é a ele que pertence julgar? Ele é o mais exato dos juízes.-Quem vos livra das tribulações da terra e dos mares, quando, invocando-o em público ou no segredo de vossos corações, exclamais: “Senhor, se afastas de nós esses males nisto seremos reconhecidos?”- É Deus que nos livra deles. É a sua bondade que nos alivia da pena que nos oprime; e em seguida retornais à idolatria. (Sourate VI, v. 60 a 64.)

Todos os segredos são revelados aos seus olhos; e é grande o Altíssimo. -Aquele que fala no secreto, aquele que fala em público, aquele que se envolve nas sombras da noite e aquele que aparece à luz, lhe são igualmente conhecidos. – É ele que faz brilhar o raio aos vossos olhares para vos inspirar o medo e a esperança. É ele que ergue as nuvens carregadas de chuva. -O trovão celebra seus louvores. Os anjos tremem em sua presença. Ele lança o raio, e ele atinge as vítimas marcadas. Os homens disputam com Deus, mas ele é o forte e o poderoso. – Ele é a invocação verdadeira. Aqueles que imploram outros deuses não serão atendidos. Assemelham-se ao viajor que, pressionado pela sede, estende a mão para a água que não pode alcançar. A invocação dos infiéis se perde na noite do erro. (Sourate XIII, v. 10 a 15.)

Não digas jamais: “Eu farei isto amanhã,” sem acrescentar “Se for a vontade de Deus.” Eleva para ele o teu pensamento, quando esqueceste alguma coisa, e dize: “talvez ele me esclareça e me faça conhecer a verdade.” (Sourate XVIII, v. 23.) Se as ondas do mar se transformassem em tinta para descrever os louvores do Senhor, estariam esgotadas antes de terem celebrado todas as suas maravilhas. Um outro oceano semelhante não bastaria ainda. (Sour. XVIII, v. 109.)

Aquele que procura a verdadeira grandeza a encontra em Deus, fonte de todas as perfeições. Os discursos virtuosos sobem para o seu trono. Ele exalta as boas obras; pune rigorosamente o celerado que trama as perfídias. Não, o céu não revoga jamais a sentença que pronunciou. – Não percorreram a terra? não viram qual foi o fim deplorável dos povos que, antes deles, caminharam nos caminhos da iniquidade? Estes povos eram mais fortes e mais poderosos do que não o são. Mas nada nos céus e sobre a Terra pode se oporás vontades do Altíssimo. A ciência e a força são seus atributos. – Se Deus punisse os homens desde o instante em que são culpáveis, não permaneceria sobre a terra ser animado. Difere os castigos até no tempo marcado. -Quando o tempo é chegado, ele distingue as ações de seus servidores. (Sourate XXXV, v. 11,41 a 45.)

Estas citações bastam para mostrar o profundo sentimento de piedade que animava Maomé, e a ideia grande e sublime que se fazia de Deus. O Cristianismo poderia
reivindicar este quadro.

Um ponto que eu questionaria em Kardec seria sua aversão à poligamia islâmica. Kardec, felizmente, não repetiu moralismo quase odium theologicum propagandeado por W. Muir e repassado por Saint-Hilaire:

Chego à falta mais grave já cometida pelo profeta, falarei sua poligamia. Esta desordem fatal e quase inexplicável lançou uma sombra e é como uma mancha indelével sobre toda sua memória; e ele nos aparenta apenas com essa mácula, que rebaixou o seu caráter e desonrou sua moral. Ela é encontrada nas vidas de mais de um patriarca bíblico, sem que isso produzisse deplorável efeito. É que tempo e os personagens mudaram. O que se tolerava no início das eras parece imperdoável seis séculos depois da era cristã, especialmente quando se afirma chamar as pessoas para uma melhor religião, e que aparentemente deve purificar a moral, ao mesmo tempo que ilumina os espíritos.
[Mahomet et le Coran, cap. IV, 170]

Sim, o Corão tem pouco respeito para com a mulher, mas ele tem mais do que tudo o que lhe precedeu. É a poligamia que desonra e arruína quase todas essas sociedades infelizes na Ásia. O Alcorão deveria tê-la abolido, em vez de lhe dar sanção. Mas, novamente, ele tem o mérito de a ter limitado, se não se atreveu a destruí-la.
[idem, cap. V, pp. 205.]

Acertaram bem numa coisa: o judaísmo – que influenciou mais a Maomé que o cristianismo – não possui nenhuma proibição taxativa à poligamia em seus livros sagrados. Muito pelo contrário, o patriarca Jacó tinha duas mulheres, Salomão dispunha de um harém e nunca foram recriminados por isso. Mas ela não era uma prática totalmente abandonada no século VI e só a partir da Baixa Idade Média os rabinos passaram a proibi-la(32). O raciocínio de Kardec, por sua vez, apela mais para demografia e dá um interessante exemplo de como o “bom senso” pode pregar peças:

No entanto, o desregramento dos costumes era tal na época de Maomé, que uma reforma radical era muito difícil entre homens habituados a se entregarem às suas paixões com uma brutalidade bestial; pode-se, pois, dizer que, regulamentando a poligamia, ele colocou limites à desordem e deteve os abusos bem mais graves; mas a poligamia não ficará menos o verme roedor do Islamismo, porque ela é contrária às leis da Natureza. Pela igualdade numérica dos sexos, a própria Natureza traçou o limite das uniões. Permitindo quatro mulheres legítimas, Maomé não pensou que, para que sua lei se tornasse a da universalidade dos homens, seria preciso que o sexo feminino fosse ao menos quatro vezes mais numeroso do que o sexo masculino.

Não é que eu seja um fã incondicional da poligamia, mas é preciso ver que o raciocínio de Kardec possui algumas falhas. Em primeiro lugar, Maomé aceitou, mas não estimulou sistematicamente a poligamia, tal como ainda fazem certas seitas americanas modernas, e impôs regras: o homem deveria ter condições financeiras e a permissão das mulheres com quem já estivesse casado. O segundo e principal motivo é que ele se baseia numa premissa que nem sempre é verdadeira: “igualdade numérica dos sexos”. Isso tende a ocorrer em situações prolongadas de paz, mas em uma sociedade beligerante, essa igualdade se desfaz rapidamente. O próprio Kardec foi contemporâneo de um prolongado conflito – A Guerra Secessão Americana (1861-5) – que levou uma geração ao desequilíbrio demográfico entre sexos (33). Certo que nos tempos de Maomé, os conflitos não eram da magnitude industrial que esse foi, mas eram mais contínuos, o que dificultava o restabelecimento do equilíbrio populacional. Por certo ângulo, tolerar algum grau poligamia faz pleno sentido numa sociedade endogâmica, sem emancipação feminina e com escassez crônica de homens como forma de evitar legiões de viúvas e órfãs solteironas desamparadas.

Kardec também aparenta ter uma compreensão imperfeita de como o islamismo vê a si mesmo como religião profética, até para os padrões da época:

Do ponto de vista histórico, a religião muçulmana admite o Antigo Testamento em sua totalidade até Jesus Cristo inclusive, que ela reconhece como profeta. Segundo Maomé, Moisés e Jesus eram enviados de Deus para ensinarem a verdade aos homens; o Evangelho, do mesmo modo que a lei do Sinai, é a palavra de Deus; mas os Cristãos dele desviaram o sentido. Ele declara, em termos explícitos, que não traz nenhuma crença nova, nem culto novo, mas que vem restabelecer o culto do Deus único professado por Abraão. Não fala senão com respeito dos patriarcas e dos profetas que o precederam: Moisés, Davi, Isaías, Ezequiel e Jesus Cristo; do Pentateuco, dos Salmos e do Evangelho. São os livros que anteciparam e prepararam o Corão. Longe de esconder os empréstimos que lhe fez, disto se gaba, e sua grandeza é o fundamento da sua.

Faltou um pequeno pormenor: Maomé possivelmente se baseou no mesmo versículo bíblico que ele atribui como referência ao “Espírito da Verdade” para se considerar aquele cuja vinda Jesus prometera na Última Ceia. Tal informação não era desconhecida entre os autores citados na abertura do artigo de agosto. Segundo William Muir:

A criança foi chamada MOHAMMED.

Esse nome era raro entre os árabes, mas não desconhecido. Deriva da raiz Hamd e significa “O Louvado.” Outra forma é AHMAD, que tendo sido erroneamente empregada como uma tradução de “Paracleto” em algumas versões árabes do Novo Testamento, tornou-se um termo favorito entre os maometanos, especialmente no trato com judeus e cristãos; pois foi (diziam) o título pelo qual o profeta foi predito em seus livros. Seguindo o uso estabelecido na cristandade, estilizarei Mohammad como MAOMÉ.

The Life of Mahomet, vol. II, cap. I

Gustav Weil, que chegou a ser textualmente citado por Kardec, comenta:

Portanto, como a lenda de Abraão foi valiosa a Maomé, em razão da lição pura e simples que inculcava, além de sua conexão com as coisas sagradas de Meca, então ele valorou a lenda de Cristo, especialmente por sua promessa do Paracleto, que acreditava ser, ou ao menos se proclamava, e à qual o apelo de seu próprio nome era mais, pelo menos, gabaritado com uma melhor alegação que do que alguns dos outros que o arrogaram antes dele. Aqui, outra vez, percebemos que Maomé foi provavelmente mal informado tanto pelos judeus, quanto pelos cristãos, embora, talvez, sem motivos sórdidos. Alguns, por exemplo, como Maccavia já observou, podem ter lhe dito que Cristo falara “peryclete”, – uma palavra que é sinônima de Ahmed (o muito louvado).

Biblische legenden der muselmänner (Lendas Bíblicas dos Muçulmanos), Introdução, 1844.

Lembrando que a obra de Weil realmente utilizada por Kardec foi Mohammet der Prophet, cuja primeira edição foi um ano antes de Biblische…. Se alguém conseguir um texto digital dela (txt, html, rtf, docx, etc), favor entre em contato. A compilação de Saint-Hilaire foi silente quanto ao tema.

A falta dessa dessa informação pode ser considera algo menor quando comparada com um equívoco bem mais sério: para Kardec, o status histórico de que o islamismo gozaria era um tanto secundário. Compare as palavras dele com as de seu conterrâneo e contemporâneo J.B. Saint-Hilaire:

RE nov 1866 Mahomet et le Coran, cap VI, p. 228
O Islamismo tendo suas raízes no antigo e no novo Testamento, deles é uma derivação; pode-se considerá-lo como uma das numerosas seitas das dissidências que surgiram desde a origem do Cristianismo referindo-se à natureza do Cristo, com esta distinção de que, o Islamismo, formado fora do Cristianismo, sobreviveu à maioria dessas seitas, e conta hoje cem milhões de sectários. Deve-se, portanto, reconhecer: por ambas as partes, a concepção geral é quase idêntica, e, basicamente, as três religiões podem ser consideradas os ramos de um único tronco. O cristianismo fez sua glória ao encontrar suas origens no judaísmo e adotou a Bíblia ao lado do Evangelho. Também se poderia reconhecer o Islã por sua prole, porque sem o Evangelho e da Bíblia, o Islã nunca nasceria, e, embora se lamente que haja uma ou outra desnaturação, ele tem, no entanto, manteve características essenciais. Certamente compreendeu o divino com menos majestade e profundidade, mas o sentiu talvez com mais entusiasmo e vivacidade.

Ambos reconhecem que quem veio depois herdou as tradições de seus antecessores, mas Saint-Hilaire trata igualmente as três religiões como “ramos de um mesmo tronco”, ao passo que Kardec considera o Islã como um tipo de “seita”. Uma posição injusta em muitos aspectos e se for para aceitar esse raciocínio, então o cristianismo não passa de uma seita do judaísmo, pois tem suas raízes no antigo testamento. Um dia isso foi verdade, mas não demorou tanto para deixar de sê-lo, com o cristianismo ganhando vida própria. E se os primeiros cristãos ainda se julgavam judeus, os primeiros muçulmanos tinham certeza de que criavam algo diferente em relação a seus antecessores e, por crerem em um planejamento divino, mais autêntico na expressão da vontade de Alá. Maomé seria o último e definitivo profeta, não havendo espaço para novas revelações. Ainda no século VII, o islamismo se tornou (e continua a ser) o grande rival do cristianismo. Reduzi-lo à mera condição de seita é negar-lhe a possibilidade de ser uma genuína “Terceira Revelação”; um posto a que, tendo-se em vista a relevância histórica, o islamismo faz muito mais jus que o espiritismo (34). Essa não foi a única vez que Kardec enxergou o queria ver em um potencial rival (35).

Kardec encerrou seu segundo artigo prometendo mais um em que explicaria “como o islamismo poderá se unir à grande família da Humanidade civilizada“, o que não chegou a concretizar.

* * *

Já no século XX, outras obras espíritas não foram tão positivas com relação ao islamismo.

O ISLAMISMO

Antes da fundação do Papado, em 607, as forças espirituais se viram compelidas a um grande esforço no combate contra as sombras que ameaçavam todas as consciências. Muitos emissários do Alto tomam corpo entre as falanges católicas no intuito de regenerar os costumes da Igreja. Embalde, porém, tentam operar o retorno de Roma aos braços do Cristo, conseguindo apenas desenvolver o máximo de seus esforços no penoso trabalho de arquivar experiências para as gerações vindouras.

Numerosos Espíritos reencarnam com as mais altas delegações do plano invisível. Entre esses missionários, veio aquele que se chamou Maomet, ao nascer em Meca no ano 570. Filho da tribo dos Coraixitas, sua missão era reunir todas as tribos árabes sob a luz dos ensinos cristãos, de modo a organizar-se na Ásia um movimento forte de restauração do Evangelho do Cristo, em oposição aos abusos romanos, nos ambientes da Europa. Maomet, contudo, pobre e humilde no começo de sua vida, que deveria ser de sacrifício e exemplificação, torna-se rico após o casamento com Khadidja e não resiste ao assédio dos Espíritos da Sombra, traindo nobres obrigações espirituais com as suas fraquezas. Dotado de grandes faculdades mediúnicas inerentes ao desempenho dos seus compromissos, muitas vezes foi aconselhado por seus mentores do Alto, nos grandes lances da sua existência, mas não conseguiu triunfar das inferioridades humanas. É por essa razão que o missionário do Islã deixa entrever, nos seus ensinos, flagrantes contradições. A par do perfume cristão que se evola de muitas das suas lições, há um espírito belicoso, de violência e de imposição; junto da doutrina fatalista encerrada no Alcorão, existe a doutrina da responsabilidade individual, divisando-se através de tudo isso uma imaginação superexcitada pelas forças do bem e do mal, num cérebro transviado do seu verdadeiro caminho. Por essa razão o Islamismo, que poderia representar um grande movimento de restauração do ensino de Jesus, corrigindo os desvios do Papado nascente, assinalou mais uma vitória das Trevas contra a Luz e cujas raízes era necessário extirpar.

Xavier, Francisco Cândido; A Caminho da Luz, por Emmanuel, FEB, 22ª ed, 1996, cap. XVII, pp. 149-51

Se assim foi, então a “Providência” – para os que acreditam nela – foi de suma incompetência e talvez não seja tão mágica assim. Emmanuel (ou Chico Xavier) desconsiderou todas as ressalvas feitas pelo “Codificador” e se entregou aos preconceitos tradicionais. Uma miopia que não permitiu a seus leitores descobrirem o quanto o Islã criou uma civilização rica e bela.

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A Civilização Islâmica: a Ponte entre a Antiguidade e a Idade Moderna

A Era dos Rashidun

Três dias antes de sua morte, Maomé reuniu suas últimas energias e se dirigiu para a oração coletiva na Mesquita de Medina (36). Seu grande companheiro, colaborador de primeira hora e sogro (pai de Aisha) Abu Bakr conduzia a oração e, ao vê-lo chegando, cedeu o lugar no púlpito, mas Maomé recusou a oferta e, empurrando-lhe, ordenou que continuasse (Guillaume, p. 682). Esse gesto foi interpretado pela maioria dos fiéis como a escolha do próximo líder. Abu Bakr consolidou o poder do Islã na península, tornando-se o primeiro dos quatro califas (“sucessores”, “representantes”) rashidun (“bem guiados”) e, pouco antes de morrer indicou Omar ibn al-Khattab – outro companheiro de Maomé – como o próximo califa. Foi sob a regência Omar que todo o espírito guerreiro árabe, antes desperdiçado em lutas fratricidas, passou a ser direcionado para fora, levando a uma mudança geopolítica de dimensões e rapidez nunca vistos desde a conquista do Império Macedônico de Alexandre Magno, quase um milênio antes.

Combalidos por décadas de confrontos entre si, os impérios Bizantino e Persa foram pegos de surpresa por essa nova leva de guerreiros. Não que eles fossem numerosos, muito pelo contrário, talvez não passassem de alguns milhares, mas eram munidas com novas técnicas de combate (37), estavam habituadas ao terreno árido e, principalmente, contavam com o extremo fervor religioso a lhes dar uma bravura quase suicida. Em 636, apenas quatro anos após a morte de seu profeta, caíam a Síria bizantina e a Mesopotâmia persa, no ano seguinte era a vez Jerusalém e Omar em pessoa recebeu a rendição das mãos do patriarca local. Respeitou todas igrejas e lugares santos cristãos, mas ficou indignado com o tratamento dado ao antigo Templo judaico, transformado em lixão. Ordenou a limpeza do lugar e construiu uma pequena mesquita, o embrião do futuro e majestoso Domo da Rocha, e convidou os judeus a residir em um bairro da cidade, após séculos de banimento. Em 639, teve início a conquista Egito, concluída em 642, e o fim de seu governo (642-4) foi marcado pela conquista da maior parte da Pérsia.

Omar nomeara uma comissão de antigos companheiros de Maomé para organizar a escolha dos sucessores. A primeira delas caiu sobre Uthman ibn Affan (644–56), membro do clã coraixita Omíada (Umayyad), que consolidou a conquista da Pérsia e expandiu o império pelo norte da África até a atual Tunísia, além das ilhas do Mediterrâneo oriental e resistiu a uma ofensiva naval bizantina no Egito. Apesar do sucesso externo, sua oposição interna foi crescente, alimentada por acusações de enriquecimento indevido e nepotismo para com seu clã. Até o maior legado de Uthman para a fé – a compilação do Alcorão – se tornou um trunfo na mão de seus adversários, pois ele irritou a muitos por deixar leituras variantes de fora. Terminou assassinado. O próximo califa foi Ali ibn Abu Talib (656-61), genro de Maomé (marido de Fátima) e ex-rival de Abu Bakr. Seu governo foi conturbado por conflitos com antigos partidários de seu antecessor – como o governador da Síria Muawiyya (omíada tal qual Uthman) – e com Aisha, filha de Abu Bakr e viúva de Maomé. A situação saiu de controle com a revolta da dissidência islâmica kharidjita, cujos fanáticos acabaram por assassinar Ali, abrindo caminho para a ascensão de Muawiyya. Foi o fim do ciclo de califas eleitos por escolha dos que estiveram próximos a Maomé.

As Dinastias Hereditárias

A dinastia Omíada, inaugurada por Muawiyya, foi o apogeu político-militar do Império Árabe, agora sediado em Damasco, Síria. Sob ela, os domínios islâmicos se estenderam da Espanha (711 d.C.) até o oeste da Índia e chegaram, inclusive, a cercar Constantinopla. Contudo, os custos de manutenção de um império tão vasto e a posterior perda o ímpeto das conquistas (e seus espólios) levaram a aumentos de impostos e à queda de popularidade dos governantes. A situação se deteriorou em uma guerra civil detonada por dissidências religiosas a partir de 740. Em 751, a coligação liderada por Abbas Abd Allah derrotou o último califa omíada, Marwan II, e deu início a nova dinastia, que perduraria por cinco séculos.

Os abássidas, alegados descendentes de Abbas, tio de Maomé, levaram o império ao esplendor cultural máximo, continuando o processo já em andamento desde dos omíadas de aquisição e refinamento do legado dos povos conquistados. Bagdá, sua capital, atingiu a cifra de um milhão de habitantes, tornando-se a maior cidade a oeste da Índia. Sua renomada “Casa do Saber” – fundada no começo do século IX – se tornou famoso centro de estudos, pesquisa e de tradução de manuscritos gregos, persas, siríacos e hindus, além de servir de referência para outros centros regionais do Islã como Cairo, Palermo e Córdoba. É dessa fase de ouro que vieram nomes como matemático al-Khwarizmi (780 – 850, alguém lembrou de “algarismo”?), o historiador e geógrafo al-Masudi (912 – 957), o cartógrafo al-Idrisi (1099 – 1166), o médico e filósofo Ibn Sina (vulgo Avicena, 980 – 1037) e o gênio universal al-Biruni (973 – 1048).

Manuscrito de Geômetra Árabe

Manuscrito de um tratado de geometria árabe.

No trato com os conquistados, a cada guerra de conquista os árabes davam ao adversário a opção de abraçar o Islã voluntariamente, de se colocar sob a proteção dele mediante o pagamento de tributo ou lutar. A maioria dos vencidos escolheu segunda opção que contava com a vantagem da determinação aos muçulmanos de tolerância para com os Povos do Livro (judeus e muçulmanos), que foi estendida aos zoroastristas (38). Salvo episódios esporádicos, não havia pressa para os governantes muçulmanos fazerem conversões em massa, até porque os dhimmi (não muçulmanos sob proteção islâmica) eram uma fonte de renda. Por outro lado, a conversão ao Islã era simples, ele não fazia exigências tão diferentes das de seus rivais e era o credo da elite. Com essas vantagens, o número de conversos foi aumentando de modo gradual até surgir uma expressiva classe de mawali (não árabes islamizados) que, no decorrer do tempo, começou a assumir postos de chefia antes exclusivamente de árabes. Pode-se dizer que o período abássida marcou a transição de um império tributário árabe para um genuíno Mundo Islâmico. Um mundo cujo esplendor chegou à Europa Ocidental por duas janelas: Espanha e Sicília.

Expansão do Império Árabe

A expansão árabe.

Al-Andalus: A Joia do Mundo

AS GUERRAS DO ISLÃ

Maomet, nas recordações do dever que o trazia à Terra, lembrando os trabalhos que lhe competiam na Ásia, a fim de regenerar a Igreja para Jesus, vulgarizou a palavra “infiel”, entre as várias famílias do seu povo, designando assim os árabes que lhe, eram insubmissos, quando a expressão se aplicava, perfeitamente, aos sacerdotes transviados do Cristianismo. Com o seu regresso ao plano espiritual, toda a Arábia estava submetida à sua doutrina, pela força da espada; e todavia os seus continuadores não se deram por satisfeitos com semelhantes conquistas. Iniciaram no exterior as guerras santas”, subjugando toda a África setentrional, no fim do século VII. Nos primeiros anos do século imediato, atravessaram o estreito de Gibraltar, estabelecendo-se na Espanha, em vista da escassa resistência dos visigodos atormentados pela separação, e somente não seguiram caminho além dos Pirineus porque o plano espiritual assinalara um limite às suas operações, encaminhando Carlos Martel para as vitórias de 732.

Xavier, Francisco Cândido; A Caminho da Luz, por Emmanuel, FEB, 22ª ed, 1996, cap. XVII, p.151

E mais uma vez o suposto espírito Emmanuel nos brinda com a propagação de boatos e preconceitos. Mas devo dar-lhe um desconto nesse caso porque é um engano muito comum ainda: a crença de que os exércitos francos, sob a liderança de Carlos Martel, “salvaram” o restante da Europa do feral jugo dos “sarracenos” (39). Para começo de conversa, se você fosse um abade num mosteiro ao sul da atual França por volta dos meados do século VIII, dificilmente iria suspirar aliviado e dizer: “ufa! repelimos os sarracenos de vez!”. A invasão de 732 não fora a primeira e não viria a ser a última. O “mito de Poitiers” – a decisiva batalha entre francos e muçulmanos – ignora episódios como a atuação do Duque Odo da Aquitânia, que repeliu uma invasão em 721 e teve participação em Poitiers, ou as invasões de 735-7 e 739-40. Essa, de tão poderosa, obrigou os francos a se aliarem aos lombardos da Itália, que também estavam ameaçados. Embora a documentação dessa última investida tenha sido mais nebulosa, um cruzamento de registros históricos permite intuir que seu fim fora apressado por uma insurreição em andamento na Espanha, que motivou o retorno dos exércitos muçulmanos.

Não houve mais invasões após 740. De certa forma, a eclosão de um inimigo externo comum teve o efeito colateral de agregar os francos em torno da liderança de Carlos Martel, cujos descendentes formariam a dinastia Carolíngia dos francos. Isso levaria a “Frância” a processo centralizador que faria dela uma breve reedição do Império Romano do Ocidente, se bem que seu perfil era mais germânico que romano. Mesmo quando o Império Carolíngio se esfacelou em meados do século IX, os árabes não retomaram a ofensiva por mudanças internas.

A Espanha muçulmana, ou melhor, al-Andalus para seus antigos cidadãos, tornou-se o último refúgio para dinastia Omíada quando ‘Abd al-Rahman – sobrevivente do massacre da família imperial – reuniu um pequeno exército no Magrebe (onde se escondera sob a proteção de parentes maternos) e foi reclamar o “emirado” (governo) da província. Com seus homens e aliança de antigos beneficiários do Omíadas, al-Rahman depôs o emir abássida e se apossou de forma hereditária do posto. Bagdá tentou reaver a província em 763, mas seu novo “emir oficial” foi derrotado, morto e teve a cabeça embalsada entregue em Meca. Ainda que cronistas tenham registrado a exclamação de horror do califa abássida al-Mansur – “Deus seja louvado por colocar um mar entre nós!” – al-Rahman não podia descartar a hipótese de uma outra tentativa de Bagdá. Por via das dúvida, manteve ao menos os laços formais com a capital e só em 929 seu descendente al-Rahman III assumiu de fato o título de califa. Além da ameaça externa, al-Rahman e seus sucessores ainda tiveram o desafio de manter a coesão de al-Andalus. Volta e meia algum potentado local procurava conquistar mais autonomia do governo de Córdoba, chegando até ao ponto de se aliar aos francos, ou era necessário administrar, à força, a rixa entre árabes e berberes pelas melhores terras e postos de al-Andalus. Enfim, as questões domésticas do emirado omíada de Córdoba e a mudança de foco do califado abássida para para o Oriente foram muito mais responsáveis pelo fim das incursões muçulmanas a partir da Espanha do que a agência sobrenatural sobre um único líder cristão (40).

E não foi apenas nisso que Emmanuel desinforma. É possível que o fracasso da campanha da França tenha sido uma lamentável “chance perdida” para os europeus ocidentais:

Um ou outro estudioso colocou uma questão mais filosófica a respeito de Poitiers que se desvia de considerações relativas à nacionalidade ou religião. Diminuindo os julgamentos de valor ao grau possível, esses acadêmicos iniciaram especulações a respeito do custo-benefício do derramamento de sangue a cerca de cem quilômetros dos Pirineus. Se os homens de ‘Abd al-Rahman [chefe muçulmano em Poitiers, não o príncipe omíada] tivessem prevalecido naquela dia de outubro, o Ocidente pós-romano provavelmente teria sido incorporado a um regnum muçulmano cosmopolita sem a obstrução de fronteiras; de acordo com essa hipótese, um reino desprovido de casta sacerdotal, animado pelo dogma da igualdade dos fiéis e respeitoso a todas as crenças religiosas. Curiosamente, tal especulação tem pedigree francês. Há quarenta anos, dois historiadores, Jean-Henri Roy e Jean Deviosse, enumeraram os benefícios de um triunfo muçulmano em Poitiers: astronomia, trigonometria, numerais arábicos, o corpus da filosofia grega. “Nós [a Europa] teríamos ganhado 267 anos“, conforme seus cálculos. “Poderíamos ter sido poupados das guerras religiosas.” Se formos mais a fundo na lógica dessa análise desconcertante, a vitória de Carlos, o Martelo, [Carlos Martel] deve ser vista como grande contribuição para a criação de uma Europa economicamente atrasada, balcanizada e fratricida que, ao se definir em oposição ao Islã, transformou em virtudes a perseguição religiosa, o particularismo cultural e a aristocracia hereditária.

[Lewis, cap. VII, pp. 184-5]

Centrar-se nas questões da península contando com a disponibilidade de um “mercado comum” islâmico e sem a desvantagem de enviar tributos a Bagdá acabou por render muitos à economia andaluza. Nas palavras dos historiadores Reinhart Dozy e Francis Griffin Stokes (41):

A situação do país harmonizava com a prosperidade do tesouro público. A agricultura, os produtos manufaturados, o comércio, as artes, as ciências, tudo florescia. Os olhos do viajante eram alegrados por todos os lados pelos campos bem cultivados, irrigados com base em princípios científicos, de modo que o que parecia o solo mais estéril era tornado fértil. (…) Córdova, com seu meio milhão de habitantes, suas 3 mil mesquitas, seus esplêndidos palácios, suas 113 mil casas, seus 300 banhos públicos e seus 28 subúrbios, competia em tamanho e magnificência apenas com Bagdá (…) A fama de Córdova penetrou na distante Alemanha: a freira saxã Hroswitha, famosa na segunda metade do século X por seus poemas e dramas em latim, chamou-a de a Joia do Mundo (42).

[Wheatcroft, cap. III, p. 110]
Cf. Spanish Islam: A History of the Muslims in Spain, Kessinger Publishing, 2003 , livro III, cap. IV, p.442(?)-6

Será que foi uma troca vantajosa? Difícil dizer, pois não existe “se” história. Com certeza uma hipotética conquista muçulmana do ocidente mexeria tanto com o tabuleiro político que as consequências ficariam imprevisíveis. Ainda que a “Providência” tenha sido correta em atrasar a Europa em mais de dois séculos e meio, nas bacias dos rios Duero e Ebro – a fronteiras naturais de al-Andalus – estabeleceu-se uma “cultura de contato” que permitiu um fluxo de conhecimento (tanto inovações como cultura clássica) para a Europa Cristã. Quando o califado de Córdoba desmoronou, após uma desastrada tentativa de sucessão dinástica, em vários e fracos minirreinos, os estados cristãos ao norte passaram à ofensiva. O que era apenas um filete de água a verter para o Ocidente se tornou uma torrente. Goste “Emmanuel” ou não, o Islã moldou a Europa, seja preservando, ampliando e transmitindo o saber de vários dos vários povos que conquistou ou servindo de contraponto para a catálise de sua reorganização. Que o Ocidente lhe seja sempre grato.

Arcos da Grande Mesquita

Interior da Grande Mesquita de Córdoba, hoje uma catedral. Um testemunho da glória da Espanha sarracena.

E a Chama se Apaga

Afinal, por que tão grandiosa civilização hoje é vista como um retrato do atraso e do fanatismo. O que deu errado? Talvez responder a isso seja uma discussão tão exaustiva como tentar entender por que o Império Romano decaiu: não deve haver uma causa só, mas dezenas delas que atuaram paralelamente. Trago aqui algumas hipóteses levantadas por alguns autores;

  • Crise Ecológica: Muitos já ouviram falar, em aulas de História, na região conhecida como “Crescente Fértil”: uma meia-lua a descrever um arco do Egito ao sul Iraque. Ele foi o berço de várias civilizações do Oriente Próximo: babilônios, egípcios, sumérios, caldeus, fenícios, hebreus, etc; mas hoje é comumente retratado como uma região predominantemente desértica cortada por grandes rios (Nilo, Tigre e Eufrates). Será que foi sempre assim? A própria Bíblia informa a existência de grandes predadores o Antigo Israel, por exemplo, em I Samuel 17:34 o então jovem pastor Davi informa ao rei Saul que protegia suas ovelha de leões e ursos com sua funda (a mesma arma com que enfrentaria o gigante Golias), em II Reis 2:23-4 duas ursas despedaçam 42 jovens que zombaram do profeta Eliseu. Para sustentar tais animais é preciso um número maior de herbívoros e, por conseguinte, uma flora abundante. Acontece que, ao longo de séculos, a maior parte dela foi derrubada para ceder lugar a lavouras e pastos. Sem poder contar com uma boa pluviosidade e com o pastoreiro excessivo degradando o solo, o processo de desertificação foi de vento em popa. Até quase o começo da I Guerra, por exemplo, encontravam-se florestas nas proximidades do sítio arqueológico de Petra, na Jordânia, mas que foram derrubadas pelos turcos otomanos para a construção de uma ferrovia. Mesmo a fartura de água nos vales irrigáveis da Mesopotâmia não deu conta de séculos de agricultura intensiva em ambiente pouco chuvoso, propensa à salinização do solo(43). Um processo que também ocorreu no subcontinente indiano;

  • Declínio do fervor cívico/religioso:De certa forma, esse fenômeno se repetiu em várias sociedades que acabaram vítimas do próprio sucesso. Satisfeitas e zelosas com sua prosperidade, as elites fundadoras deixam de “dar o exemplo” para abraçar seus próprios interesses, levando o governo instituído a recorrer a setores marginalizados ou estrangeiros na busca por uma lealdade e disciplina militar que encontram mais entre os seus. Com o tempo, os novatos se tornam os reais portadores das virtudes que um dia fizeram grandes os seus senhores. Tal como o Império Romano se viu cada vez mais sob a proteção dos “povos bárbaros” que lhe dariam um golpe de misericórdia, os árabes e seus súditos islamizados passaram a depender de castas guerreiras que eles mesmos criaram. Al-Andalus sofreu com a rixa entre os magrebinos berberes, conquistadores de primeira hora, e os soldados-escravos eslavos comprados posteriormente. Em 1055, turcos seldjúcidas reduziram o califa abássida a uma figura decorativa e o Egito teve o governo tomado pelos mamelucos em meados do século XIII (44);

  • Fragilidade das Instituições: O Império Abássida começou se desmembrar pouco após a ascensão da dinastia. A primeira parte a se separar foi a Espanha (756), seguida por Marrocos (788), Tunísia (801), Egito (868) e Pérsia (872). Não que fragmentação territorial seja em si ruim – um certo grau de rivalidade pode estimular o progresso geral -, a questão foi que muitos desses novos estados falharam em garantir a estabilidade política interna. Muitas vezes, a pior coisa que podia lhes acontecer era a morte de seu governante, que servia como senha para o início de uma guerra civil entre lugares-tenentes, ministros e herdeiros. Em comparação, as passagens de poder na Europa cristã eram bem mais ordeiras(45);

  • Falta de limites aos governantes:Em seu contato com os europeus durante a época das cruzadas, um aspecto da cultura dos “francos” que chocou os locais foi a permanência do costume germânico chamado “julgamento do ordálio” (46) para a solução de disputas legais. Os processos, como previstos no Alcorão, transcorreriam de forma bem mais racional. Por outro lado, havia certas práticas eles entre que embasbacavam os sarracenos positivamente: os reis dos estados latinos do Oriente não podiam tudo, tendo de respeitar deliberações do conselho cavaleiros e eclesiásticas. Até mesmo os mais humildes contavam com algum grau de proteção contra abusos dos mais poderosos contra suas propriedades. Não que já houvesse um conceito de “cidadania” entre os europeus, mas a própria estrutura de “suserania e vassalagem” do feudalismo europeu continha um embrião dessa ideia, ao dar a nobres, servos, burgueses e eclesiásticos noção não apenas de seus direitos em relação aos que lhe estavam abaixo, mas também de seus deveres para com eles. Não existia equivalente disso em muitos estados islâmicos, abrindo portas para arbitrariedade de seus governantes, que tratavam a coisa pública como um bem privado (47). O progresso geral, nessas circunstâncias, se torna bem mais lento;

  • Invasões: Podem-se incluir aqui campanhas tão diversas como a Reconquista na península ibérica, as cruzadas no Levante mediterrânico e as invasões mongóis no Oriente Médio. A primeira teve o efeito duradouro de eliminar o Islã do Ocidente europeu, não sem herdar muito do ele tinha a oferecer. As restantes tiveram efeito materiais temporários, mas levaram a uma espécie militarização da sociedade dos estados sobreviventes justamente para evitar novas invasões, um ambiente por demais hierarquizado e não muito propício a inovações. As cruzadas, em particular, deixaram certo ressentimento contra o Ocidente e a tudo que dele viesse, ainda que útil (48);

  • Baixa separação entre Estado e religião: Não há no Islã um equivalente ao “Dai a César o que é César, dai a Deus o que é de Deus”. O governo terrestre deve sempre se calcar em diretrizes divinas. Qual a real interpretação delas pode ser tanto um problema como solução. Caso os líderes religiosos fossem simpatizantes de inovações ou apenas indiferentes, ótimo. Do contrário, estagnação. Como no Islã não não há o equivalente de um Papa capaz de impor sua opinião a todos os crentes, isso seria apenas uma questão em locais e épocas específicos, se não fosse por outro empecilho que surgiu no mundo islâmico:

  • O domínio de impérios: Após o esfacelamento do Califado Abássida, a reorganização do poder no mundo muçulmano levou, por volta do início do século XVI, à ascensão de três grandes impérios: o turco otomano (Mediterrâneo Oriental, Mesopotâmia e parte da Arábia), o Safávida (Pérsia) e o Mugal (Subcontinente Indiano). O fato de os fiéis dessa religião estarem sob a administração de relativamente poucos estados aumentaram as chances de maus governantes afetarem o destino de muitos, reduzia o grau de competição entre eles e, por conseguinte, o estímulo à inovação. Mesmo tendo importantes inimigos na Europa, o Império Otomano foi incapaz de absorver a experiência deles, por uma boa quantidade de sultões ineptos e vários dos fatores supracitados. Além disso, os impérios tendiam a promover apenas uma determinada vertente do Islã como forma de apoio e justificação do poder, sendo intolerantes com as demais e pouco tolerantes a novas ideias. Religiosas ou não;

  • Posturas pouco producentes ao empreendedorismo: Por incrível que pareça, mandamentos bem intencionados o Islã desestimularam progresso econômico. Por exemplo, a proibição da usura inibe a principal virtude do sistema financeiro: disponibilizar o dinheiro excedente de alguns para os que têm iniciativa empresarial, mas carecem dele. As regras corânicas a repeito da herança estabeleciam que pelo menos dois terços de seu patrimônio deveriam ser divididos igualmente entre sua família estendida. Isso pode ter contribuído para uma sociedade mais igualitária, mas teve um efeito desagradável quando, posteriormente, foi combinada com uma regra comercial que determinava a dissolução de sociedade quando um de seus membros falecesse, com a partilha de sua parte entre os familiares. Além de desestimular a formação de grandes sociedades, inviabilizava as que pudessem durar várias gerações (49).

Alguns desses empecilhos chegaram a afetar países europeus em uma fase ou outra de sua história, então por que seus efeitos foram mais nocivos no mundo islâmico. Uma conjectura plausível foi dado pelo jornalista Alan Beattie, do Financial Times:

A diferença crucial entre as sociedades islâmicas no Oriente Médio e as sociedades cristãs na Europa não era a teologia das respectivas religiões, nem onde se originara a lei comercial nelas baseada. A principal diferença foi que os comerciantes europeus ganharam poder suficiente para conseguir reverter as leis mais inconvenientes, mesmo que, para isso, tenha sido necessário alterar a justificação religiosa dessas leis. Seus equivalentes nos países islâmicos, por razões muito pouco relacionadas à natureza da religião em si, não conseguiram fazer o mesmo.

Por bastante tempo, a fraqueza dessa cristalização dos regimes islâmicos foi mascarada por uma série de campanhas conquista imperial muito bem sucedidas. Como em Roma Antiga, os impérios islâmicos se estenderam enormemente graças a uma excelente organização burocrática e ao seu poderio militar.

O Império Otomano atingiu o ápice de seu poder no século XVI, sob o comando de Solimão (conhecido na Europa como Solimão, o Magnífico), quando este estendeu seu controle pelo Norte da África, tornando-se a entidade política mais poderosa do mundo No entanto, o Império não conseguir avançar até a Europa [Ocidental], tendo sido rechaçado nos portões de Viena em 1529. O Império não se isolou de contatos externos com não muçulmanos. Mas de fato instituiu a sharia, a lei islâmica religiosa, como o código legal de todos os muçulmanos, e o sistema educacional se tornou mais estreito e doutrinário.

A sociedade também permaneceu estática. Como ocorrera anteriormente com o Império Romano, o Império Otomano descobriu que havia um limite natural para os benefícios que poderiam obter apenas por uma melhor organização das tecnologias existentes. A falta de inovação primeiro restringiu a expansão, e posteriormente debilitou os regimes ante as pressões externas. Ao falhar em sua segunda tentativa de conquistar Viena, em 1683, o Império Otomano se tornou mais brando. A disciplina militar enfraqueceu, e a batalha pela receita dos impostos, colhidos em todo o Império e levados ao seu centro, gerou corrupção e disputas internas, como costuma ocorrer. Grupos rebeldes tentaram, às vezes com êxito, estabelecer regimes separatistas nas periferias do Império

[Beattie, cap V, p. 137]

Houve tentativas de modernização em países islâmicos ao longo do século XX, conduzidas por líderes carismáticos como Kemal Atatürk, da Turquia, ou Gamal Abdel Nasser, do Egito. Olhando os problemas atuais dos países da região, pode-se perceber que seu sucesso foi, no mínimo, parcial. Beattie atribui isso ao fato de suas reformas terem sido demasiadamente centralizadoras, ao estilo dos planos quinquenais socialistas ou da política de “substituição de importações” dos regimes latino-americanos, que até promoveram um desenvolvimento rápido, mas de fôlego curto. Em sua opinião, deveriam ter promovido um ambiente mais salutar à iniciativa individual – um choque de capitalismo. Bem, essa discussão econômica foge ao escopo deste portal, mas, pelo menos, há fatos que lançam esperança para os herdeiros de uma outrora rica civilização:

Em outras economias bastante parecidas, o domínio do islamismo em vez de qualquer outra religião raramente parece prever por que um governo dá certo e outro não. A Malásia, por exemplo, apesar de reter uma forte identidade muçulmana, tem sido uma das economias mais bem sucedidas na segunda onda de crescimento de países do Sudeste Asiático. Nas últimas décadas, o país adotou a industrialização e usou o Estado para promover as companhias privadas e atrair investimentos estrangeiros diretos. De fato, o país se saiu muito melhor que, digamos, as Filipinas (cristãs) ou a Tailândia (predominantemente budista).

Portanto, o papel da religião no desenvolvimento econômico provavelmente se deve se deve mais à sua atuação política que à sua tecnologia. A religião talvez não afete o crescimento por embutir seus valores na psicologia de seus seguidores, mas sim pelo modo como explora as instituições de poder. Isso deve explicar por que a Espanha e Portugal se saíram mal nas primeiras décadas após a Segunda Guerra Mundial. Não foi por serem católicos: o problema foi que, até a metade da década de 1970, foram governados por ditadores que ajudaram a manter o país relativamente pobre e atrasado e construíram alianças próximas com grupos poderosos da Igreja Católica para fortalecer sua própria autoridade.

[Idem, pp. 138-9]

* * *

O leitor espírita (ortodoxo) pode muito bem rejeitar todas essas hipóteses e ficar apenas com a questão 786 do Livro dos Espíritos:

786. A História nos mostra uma multidão de povos que, após terem sido convulsionados, recaíram na barbárie. Onde está nesse caso o progresso?

— Quando a tua casa ameaça cair, tu a derrubas para a reconstruir de maneira mais sólida e mais cômoda; mas, até que ela esteja reconstruída, haverá desarranjos e confusões na tua moradia.

Compreende isto também; és pobre e moras num casebre, mas ficas rico e o deixas para morar num palácio. Depois um pobre diabo, como o eras, vem tomar o teu lugar no casebre e se sente muito contente, pois antes não possuía um abrigo. Pois bem, compreende então que os Espíritos encarnados neste povo degenerado não são mais os que o constituíram nos tempos de sues esplendor. Aqueles, logo que se tornaram mais adiantados, mudaram-se para habitações mais perfeitas e progrediram, enquanto outros, menos avançados, tomaram seu lugar, que por sua vez também deixarão.

Se a única ferramenta que tens é um martelo, então tudo que aparecer na tua frente será tratado como prego. Se esse reducionismo te basta, que seja feliz com ele. Particularmente, acho que a história humana é um sistema sensível demais às condições de um dado momento e, portanto, impossível de se predizer a longo prazo. Para sermos capaz de contornar essa limitação, seria necessário um Supremo Intelecto – a própria Onisciência – que ajustasse um número absurdo de variáveis com precisão absoluta. Um “Vasto Intelecto” – uma falange de espíritos avançados a cuidar deste planeta – não teria competência para tanto, ou daria as desculpas esfarrapadas de Emmanuel para as falhas de uma Providência teoricamente capaz de determinar até a queda de um fio de cabelo meu. Muitos não podem gostar do que vou dizer, mas é possível que os povos do Oriente Médio tenham simplesmente tido azar em estar num ambiente ecologicamente frágil e no caminho de vários invasores. Isso não significa que estejam fadados ficar à mercê dele, mas que têm de aprender a não “dar sorte para o azar”. Os europeus conseguiram.

Você pode até rejeitar esta “Terceira Revelação” por, no momento, aparentar ser uma “estrela cadente”. Mas existe uma “estrela em ascensão” que decolou um pouco antes do advento da codificação kardecista. E seu local de nascimento não foi o decadente Império Otomano, mas o dinâmico e promissor Estados Unidos da América.

[topo]

As Placas de Ouro

Retrato de Joseph Smith

Retrato de Joseph Smith (1805 – 1844), por Alvin Gittins.

INTRODUÇÃO

O livro de Mórmon é um volume de escrituras sagradas comparável à Bíblia. É um registro da comunicação de Deus com os antigos habitantes das Américas e contém a plenitude do evangelho eterno.

O livro foi escrito por muitos profetas antigos, pelo espírito de profecia e revelação. Suas palavras, escritas em placas de ouro, foram citadas e resumidas por um profeta-historiador chamado Mórmon. O registro contém um relato de duas grandes civilizações. Uma veio de Jerusalém no ano 600 a.C. e posteriormente se dividiu em duas nações, conhecidas como nefitas e lamanitas. A outra veio muito antes, quando o Senhor confundiu as línguas na Torre de Babel. Este grupo é conhecido como jareditas. Milhares de anos depois, foram todos destruídos, exceto pelos lamanitas, que são os principais antepassados dos índios americanos.

O acontecimento de maior relevância registrado no Livro de Mórmon é o ministério pessoal do Senhor Jesus Cristo entre os nefitas, logo após sua ressurreição. O livro expõe as doutrinas do evangelho, delineia o plano de salvação e explica aos homens o que devem fazer para ganhar a paz nesta vida e salvação eterna no mundo vindouro.

Depois de terminar seus escritos, Mórmon entregou o relato a seu filho Morôni, que acrescentou algumas palavras suas e ocultou as placas no Monte Curoma. A 21 de setembro de 1823, o mesmo Morôni, então um ser ressurreto e glorificado, apareceu ao Profeta Joseph Smith e instruiu-o a respeito do antigo registro e da tradução que seria feita para o inglês.

No devido tempo as placas foram entregues a Joseph Smith, que as traduziu pelo dom e poder de Deus. Hoje o registro se acha publicado em diversas línguas, como testemunho novo e adicional de que Jesus é o Filho do Deus vivente e de que todos os que se achegarem a ele e obedecerem às leis e ordenanças do seu evangelho poderão ser salvos.

Com respeito a este registro o Profeta Joseph Smith declarou: “Eu disse aos irmãos que o Livro de Mórmon era o mais correto de todos os livros da Terra e a pedra fundamental de nossa religião; e que seguindo os seus preceitos o homem se aproximaria mais de Deus do seguindo os de qualquer outro livro.”

O Senhor providenciou para que, além de Joseph Smith, mais onze pessoas vissem as placas de ouro e fossem testemunhas especiais da veracidade e divindade do Livro de Mórmon. Seus testemunhos escritos estão aqui incluídos como “Depoimento de Três Testemunhas” e “Depoimentos de Oito Testemunhas”.

Convidamos todos os homens de toda parte a lerem o Livro de Mórmon, ponderarem no coração a mensagem que ele contém e depois perguntarem a Deus, o Pai Eterno, em nome de Cristo, se o livro é verdadeiro. Os que assim fizerem e perguntarem com fé obterão, pelo poder do Espírito Santo, um testemunho de sua veracidade e divindade. (Vide Morôni 10:3-5)

Os que obtiverem do Santo Espírito esse divino testemunho saberão, pelo mesmo poder, que Jesus Cristo é o Salvador do mundo, que Joseph Smith é o seu revelador e profeta nestes últimos dias e que a A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é o reino do Senhor restabelecido na Terra, em preparação para a segunda vinda do Messias.

Assim consta na edição brasileira de O Livro de Mórmon editado por A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (AIJCSUD), a falar a respeito de sua própria origem. Óbvio que a maioria do novatos no assunto, ao lerem essa introdução, vai se perguntar “afinal, onde estão essas benditas placas de ouro?”. Além de Joseph Smith, apenas as onze ditas testemunhas as teriam visto. No testemunho do profeta constante no início dessa mesma edição, ele informa que:

Logo verifiquei a razão de tão severas recomendações para que os guardasse em segurança e por que o mensageiro [Morôni] dissera que, quando eu tivesse realizado o que me fora ordenado, ele viria buscá-los. Pois tão logo se soube que estavam em meu poder, foram empregados os mais tenazes esforços para tirá-los de mim. Todos os estratagemas possíveis foram usados com esse propósito. A perseguição tornou-se mais amarga e severa que antes e multidões mantinham-se continuamente alertas para tirá-los de mim, se possível. Mas pela sabedoria de Deus eles continuaram seguros em minhas mãos até que cumpri, por meio deles, o que me fora requerido. Quando o mensageiro os reclamou, de acordo com o combinado, entreguei-os a ele, que os tem sob sua guarda até esta data, dois de maio de mil oitocentos e trinta e oito.

Pois é, ninguém mais verá a benditas placas. Note que Smith (ou melhor, a tradução) usa o masculino plural, indicando que havia outros itens além das placas e que também foram devolvidos, a saber:

[Morôni] Disse também que havia duas pedras em aros de prata – essas pedras, presas a um peitoral, constituíam o que é chamado de Urim e Tumim – depositadas com as placas; e que a posse e uso das dessas pedras era o que constituía Os Videntes dos tempos antigos; e que Deus as tinha preparado para serem usadas na tradução do livro.

E foi através desse amuleto-médium que Smith teria traduzido as placas.

Para quem está de fora, se é para comentar, o começo da revelação Mórmon foi extremamente duvidoso. Há de se lhe fazer justiça, porém, lembrando que não temos nenhum exemplar original dos livros bíblicos e a real autoria de muitos é desconhecida. Inclusive a dos Evangelhos. A própria codificação kardecista tem a fragilidade de não ofertar mais o conjunto de comunicações sobre as quais Kardec teria trabalhado. Tem-se o resultado final de suas pesquisas, as linhas gerais de metodologia, mas não sua matéria-prima. Ainda que com todos os esses “poréns”, os mórmons – como serão chamados doravante os diversos herdeiros da mensagem de Joseph Smith – conseguiram criar uma genuína revelação do “Novo Mundo”.
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O Clamor da Fronteira

Morôni e as placas douradas.

Morôni enterra os registros nefitas. Pintura mórmon de Tom Lovell

Joseph Smith Jr. nasceu em 23 de dezembro de 1805, em um roçado arrendado por sua família no estado norte-americano de Vermont. Originalmente membros de uma ascendente classe média rural, os Smith caíram em desgraça após a traição de um sócio e, para saldar as dívidas, venderam suas terras. Tornaram-se agricultores arrendatários, perambulando pelos estados de Vermont, New Hampshire e Connecticut, nunca mais conhecendo algo que pudessem chamar de tranquilidade financeira.

Em 1816, Joseph Smith, o pai, partiu com a esposa e prole numerosa para região dos Grandes Lagos, que entrava em efervescência com a construção de canais os interligando. Não era apena a nova fronteira econômica dos nascentes Estados Unidos, mas, também, uma região de grande experimentação religiosa pipocando com diversos pregadores rústicos, adeptos de um revivalismo evangélico similar aos dos modernos pentecostais.

Nessa atmosfera de devoção efervescente, J. Smith conta, em escritos da década de 1830, seu primeiro contato com o divino na primavera de 1820, em certa ocasião que repousava num bosque por volta do meio-dia, quando teve uma visão na forma de um pilar luminoso descendo do céu e uma voz lhe anunciando o perdão dos pecados e ordem para que não se juntasse a nenhuma igreja, pois “todas os seus credos eram abominações para sua vista”. Já o primeiro encontro com o supracitado Morôni se deu apenas na madrugada 21 de setembro 1823, quando foi informado sobre a existência do “livro das placas de ouro” enterrado no monte Cumora, seu conteúdo do “evangelho eterno” dado próprio Jesus aos antigo habitantes da América e a incumbência de Deus para que o divulgasse, pois a segunda vinda estaria próxima. Após amanhecer, seguindo as orientações dadas, desenterrou uma urna de pedra contendo as referidas placas, gravadas com uma escrita ao estilo hieroglífico, e duas pedras posteriormente identificadas como Urim e Tumim – seus instrumentos para a tradução da mensagem para o inglês. J. Smith não foi autorizado a removê-las do local de imediato, pois Morôni sentiu que ele cobiçara mais o ouro das placas que sua mensagem em si. Como penitência retornaria todo dia 22 setembro àquele local por quatro anos, quando foi finalmente autorizado a levá-las.

Joseph Smith & Morôni.

Joseph Smith desenterra as placas, guiado por um transfigurado Morôni. Autoria ignorada.

J. Smith pôde contar com o amparo de sua família na investidura de sua missão desde suas primeiras visões. De modo algum, deve-se ressaltar que eram mero um bando de supersticiosos roceiros. O fato de que os Estados Unidos eram uma nação nascida sob os auspícios do iluminismo do século anterior não fez deles um lar de antirreligiosos, mas antes uma cultura avessa ao autoritarismo religioso, sem perder sua religiosidade e a busca privada pela transcendência. J. Smith cresceu em meio a um verdadeiro “laboratório da fé”, com suas catarses, místicos e profetas fracassados. Seu próprio pai alegava ter visões em sonhos, o que o levou a não estranhar quando um de seus rebentos começou a ter suas próprias. O futuro profeta americano também trabalhou por algum tempo como rabdomante, uma atividade que não era considerada charlatanice, caso mostrasse resultados.

Esse círculo receptivo, onde a notícia desse dourado “testamento perdido” se espalhava de boca em boca, revelou-se uma genuína “faca de dois gumes” para J. Smith, pois despertou a cobiça de seus ex-colegas de rabdomancia que chegaram ao ponto de emboscá-lo e lutar fisicamente para se apoderar das placas. Como tantas outras vezes viria a ocorrer com os mórmons, J.Smith teve de fugir e se refugiou junto às proximidades do sogro. Além da proteção dele, lá pôde contar, também, com a parceria de Martin Harris – um influente fazendeiro a quem ele e seus irmãos já haviam prestado serviços rurais – que foi seu primeiro escrivão durante a tradução das placas (50) e viria a ser o patrocinador da primeira edição de O Livro de Mórmon.

Quando a tarefa já estava em 116 páginas manuscritas do chamado “Livro de Leí”, Smith e Harris suspenderam os trabalhos para resolver questões particulares: o primeiro precisava cuidar da esposa, Emma, que passava uma gravidez de risco (e cujo bebê morreria pouco depois de nascer), ao passo que o segundo queria apaziguar sua própria esposa, Lucy, cada vez mais irritada com o tempo e dinheiro gastos com um vidente (ainda) obscuro. Por conta disso, Harris solicitou levar o material traduzido até ela, a fim de que conferisse sua seriedade. Após um período de luto, Smith foi atrás de Harris, que tardava em dar sinal de vida. Ao voltar, trouxe a má notícia de que o manuscrito fora perdido.

Esse baque marcou um ponto de virada na trajetória de Joseph Smith. A partir então ele, que se via como um mero tradutor de um registro antigo, passou realmente a atuar como profeta – alguém que recebia diretamente a mensagem de Deus – e passaria a transcrever as revelações que recebia. E uma delas dizia:

Eis que te digo que não deverás tornar a traduzir aquelas palavras que saíram de tuas mãos; pois eis que não levarão a efeito seus desígnios iníquos de mentir sobre aquelas palavras. Pois eis que, se escreveres as mesmas palavras, dirão que mentiste e que fingiste traduzir, mas que te contradisseste. E eis que publicarão isso e Satanás endurecerá o coração das pessoas a fim de enfurecê-las contra ti, para que não creiam em minhas palavras.

Doutrina e Convênios, 10:30-2

Então, as próximas traduções seriam a partir do “Livro de Néfi”, que contaria a mesma história do de Leí, mas sob a perspectiva de outra pessoa (51).

Smith tentou reiniciar a trabalho com o auxílio de sua esposa, nos tempos livres dela, mas a progressão se deu forma lenta e intermitente. Apenas com a chegada do também rabdomante Oliver Cowdery em abril de 1829, apresentado por seu irmão Samuel Smith, é que o trabalho deslanchou e em março do ano seguinte estava à venda a primeira edição de O Livro de Mórmon. Em seis de abril 1830, Joseph agregou seu núcleo familiar e os de seus admiradores na “Igreja de Jesus Cristo”, que oito anos depois seria renomeada como “Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”, ou, vulgarmente, Igreja Mórmon.

* * *

O “Livro de Mórmon” é composto de um total de quinze livros rotulados ao estilo bíblico (“Primeiro e Segundo Livro de Néfi”, “Livro de Jacó”, “Livro de Helamã”, etc) e cobre um período que vai desde as vésperas da queda de Jerusalém (600 a.C.) até cerca de 400 d.C. A narrativa começa com um grupo de israelitas rumando para a costa ante aproximação do exército babilônico. Com a condução de Deus, partem num navio rumo a uma nova “Terra Prometida”, que nunca é nomeada, mas supõe-se ser o continente americano. À bordo estão o profeta Leí, sua esposa e as famílias de seus filhos, desses destacam-se Néfi e Lamã. Já na nova pátria, a união familiar se desfaz e esses dois filhos agregam em torno si duas facções, que evoluem, respectivamente, para civilizações rivais: os virtuosos nefitas e os ímpios lamanitas. Após a apresentação do panorama feita por Néfi, seguem-se alguns desenvolvimentos feitos por membros de sua linhagem. E os justos nefitas não tiveram apenas que lutar contra a agressão externa, pois outro front muito ressaltado é interno: a constante luta deles para manter a integridade moral ante as tentações da prosperidade. O clímax se dá em 3 e 4 Néfi (atribuídos a descendentes homônimos), com a vinda de Jesus Cristo, já ressuscitado, descendo dos Céus. Ele prega e converte tanto nefitas como lamanitas antes de ascender novamente. Durante algum tempo ocorre uma espécie prévia do “Reino de Deus” nas Américas, havendo harmonia e paz em suas civilizações, ambas compartilhando de um contato íntimo com o divino. Um período idílico, mas efêmero, pois cerca de duzentos anos depois, a iniquidade ressurge e, desta vez, o nefitas também se rendem à impiedade. Nesse período de decadência em todos os sentidos, surge a narração de Mórmon – general nefita, profeta e historiador de seu tempo – que recebe os registros sagrados (grafados desde a época de Néfi) e tenta um último apelo aos seus para o retorno à retidão. Um derradeiro esforço em vão e os nefitas são praticamente exterminados pelo lamanitas. Seu filho Morôni, um dos últimos nefitas, adiciona pensamentos seus aos registros e os enterra para serem resgatados quando a Segunda Vinda estiver próxima. Vale lembrar de um pequeno interlúdio entre esses dois autores – O Livro de Éter – em que é apresentado um resumo feito por Morôni das placas contendo a história dos jareditas, um povo também guiado por Deus para a América, só que nos tempos da Torre de Babel. Ele, contudo, teria se extinguido muito antes da chegada de Leí e sua família, em razão de guerras civis.

Jesus ensinando aos nefitas.

Jesus ensinando aos nefitas.

Do ponto de vista literário, o conjunto de O Livro de Mórmon apresenta diferenças no estilo e no palavreado, bem como nas preocupações imediatas que afligem seus autores. Embora aparentem ter redações distintas, isso não impede que sejam oriundos de um mesmo autor escrevendo através de heterônimos. Quanto a sua qualidade como leitura, seu valor depende um tanto do gosto pessoal o avaliador, variando desde a obra-prima de um “gênio da religião”(52) a um soporífero “clorofórmio impresso”(53). A parte realmente problemática é quanto a seu fundamento antropológico. Primeiro, é duvidoso que um ajuntamento familiar, ainda que incluísse “famílias estendidas”, tenha dado origem a duas poderosas civilizações em relativamente pouco tempo. Também não há registro arqueológico algum das civilizações descritas nele, nem mesmo um paralelo aproximado com as civilizações pré-colombianas já conhecidas. Por sinal, se repararem nas ilustrações mórmons expostas aqui, não será difícil notar os traços caucasianos de seus personagens de origem nefita. Já os lamanitas, os principais remanescentes dos povos enviados à América:

E a pele dos lamanitas era escura, por causa do sinal que havia sido posto em seus pais como um anátema pela transgressão e rebeldia deles contra seus irmãos que eram Néfi, Jacó e José e Sam, que foram homens justos e santos.

Livro de Alma 3:6

Bem, hoje não é muito politicamente correto atribuir uma origem “pecaminosa” aos atuais ameríndios, mas convenhamos que dificilmente a América wasp que Joseph Smith conheceu aceitaria uma revelação transmitida por “peles-vermelhas”.

Do ponto de vista teológico, o Livro de Mórmon possui pouco material doutrinário que não pudesse ser aceito por cristão “ortodoxos”, fora, claro, a existência de um testamento perdido. Um ponto curioso é que essa suposta “tribo judia americana” apresenta um comportamento muito mais cristão do que seus congêneres que ficaram em Israel, com uma precoce expectativa pelo Messias e práticas de batismo (2 Né. 31). Os aspectos peculiares da doutrina mórmon, e que mais causam aversão a ela por parte da ortodoxia cristã vieram de “revelações divinas” obtidas por Joseph Smith e seus sucessores, reunidas (junto a outras menos polêmicas) em coletâneas, como o Livro Doutrina e Convênios. A saber:

  • Batismo pelos mortos: Todas as religiões salvacionistas e de vida única têm de enfrentar a questão sobre o destino dos que partiram sem receber sua Palavra. Os católicos elaboraram a tese do “batismo por desejo” para englobar as pessoas seguem uma moral similar à cristã, mas nunca puderam travar contato com o cristianismo (catecismo 1260). Protestantes não veem conflito entre a bondade e a justiça caso bilhões “morram sem Cristo” por puro azar de ter vivido longe de qualquer missionário. Para a ala arminianista, Deus deve ter suas razões, ainda que estejam além da compreensão humana (uma tese que pode justificar até as atrocidades bíblicas), já os calvinistas são mais crus ainda: Deus pode mandar zilhões para danação eterna por predestinação e “dane-se” quem discordar. Ele é Deus, ora. Essa dificuldade do protestantismo em conciliar misericórdia e justiça divinas deve ter abalado profundamente a família Smith por ocasião da morte de Alvin – o mais velho irmão se Joseph -, já que, durante o funeral, o ministrante declarou que o falecido jovem devia estar no inferno por nunca ter se juntado a uma igreja. É muito provável Joseph Smith desejasse que a Palavra lhe alcançasse e aos familiares de todos os que passaram por drama igual. E não foi o primeiro a pensar assim, pois o próprio Paulo de Tarso traz o relato (I Cor 15:29) de cristãos que se batizavam em prol de entes queridos que já haviam partido. Paulo não desenvolve o tema – nem o acata ou repreende – e foi essa brecha que a revelação mórmon aproveitou:

    E também vos falo com relação ao batismo por vossos mortos.

    Em verdade, assim vos diz o Senhor a respeito de vossos mortos: Quando um de vós for batizado por vossos mortos, que haja um registrador e que ele seja testemunha ocular de vossos batismos; que ouça com seus ouvidos para testificar a verdade, diz o Senhor;

    Para que todos os vossos registros sejam registrados no céu; para que tudo o que ligardes na Terra seja ligado no céu; tudo o que desligardes na Terra seja desligado no céu;

    Pois estou prestes a restaurar na Terra muitas coisas relativas ao sacerdócio, diz o Senhor dos Exércitos.

    E também que todos os registros sejam conservados em ordem, para que sejam postos nos arquivos de meu santo templo, a fim de serem conservados na lembrança, de geração em geração, diz o Senhor dos Exércitos.

    Doutrina e Convênios 127:5-9. Cf. D&C 124:29, 128:1, 138:33

    Esse batismo “para a remissão dos pecados” não salva automaticamente o morto, mas dá-lhe a oportunidade de, por ocasião do Juízo Final, abraçar a revelação mórmon. Não é à toa que nos mórmons haja grupos especializados na reconstrução de árvores genealógicas.

    O batismo mórmon também é feito “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Sim, os mórmons são trinitário, mas seu entendimento da relação entre as hipóstases é bem peculiar:

    Na Trindade há três pessoas distintas: Deus, o Pai Eterno; seu Filho, Jesus Cristo e o Espírito Santo. Cremos em cada um deles (Regra de Fé 1). As revelações modernas nos ensinam que o Pai e o Filho têm corpos tangíveis de carne e ossos, e que o Espírito Santo é um personagem de espírito, sem carne nem ossos (D&C 130:22-23). Estas três pessoas são um em perfeita unidade, harmonia de propósito e doutrina (2 Né. 31:21; 3 Né. 11:27, 35; Jo. 17:21-23).

    Guia para Estudo das Escrituras (GEE, um apêndice de O Livro de Mórmon), verbete Trindade.

    Não é exatamente o que estaria em conformidade com o entendimento niceno da Trindade, motivo pelo qual o batismo mórmon não é aceito pela maioria das denominações cristãs.

  • Divinização do Homem: Uma frase atribuída ao quinto presidente e profeta dos mórmons, Lorenzo Snow, declara: “Deus um dia foi como é o homem, assim como Deus é o que o homem pode ser” (As man is God once was, as God is man may be). Na verdade, essa frase é uma síntese de ideias previamente declaradas pelo próprio Joseph Smith em ocasiões como o Discurso de King Follett, pronunciado durante o funeral do ancião mórmon que lhe emprestou o nome (07/04/1844):

    (…)Mas é o simples e primeiro princípio do evangelho ― conhecer com certeza o caráter de Deus, e que nós podemos conversar com Ele como um homem com outro. O próprio Deus, o Pai de nós todos, habitou em uma terra do mesmo modo que o próprio Senhor Jesus Cristo fez e eu lhes mostrarei isto usando a Bíblia.

    Quisera ter a trombeta de um arcanjo; Eu poderia contar a história de tal maneira que a perseguição cessaria pra sempre. O que disse Jesus? (Marque isto, Ancião Rigdon!) Jesus disse, “Como o Pai tem poder em Si mesmo, também o Filho tem poder.” Para fazer o quê? Para fazer o que o Pai fez. A resposta é óbvia ― para perder seu corpo e tomá-lo novamente para si. “Jesus, o que vai você fazer?” “Vou perder minha vida como fez meu Pai, e resgatá-la novamente.” Se vocês não acreditam nisto, vocês não acreditam na Bíblia. As escrituras sagradas dizem isto e eu desafio toda a erudição e sabedoria, todos os poderes combinados da terra e do inferno juntos para refutar isto.

    Aqui, então, está a vida eterna ― conhecer o único sábio e verdadeiro Deus. E vocês tem que aprender a ser Deuses ― a ser reis e sacerdotes para Deus, do mesmo modo que todos os Deuses fizeram ― indo de um grau pequeno para outro, de graça em graça, de exaltação em exaltação, até que vocês possam assentar-se em glória como fazem os que se assentam empossados em poder perpétuo.

    Fonte: Book of Abraham Project

    O discurso não faz parte das escrituras canônicas dos mórmons, mas é tratado como “quase” por sua tradição. Em tempos recentes, tem havido entre os mórmons uma interpretação mais amena da segunda parte da sentença, algo como “tornar-se semelhante a Deus”, em vez de “igual a Deus” no sentido mais literal (54).

  • Poligamia:Sem dúvida uma das maiores polêmicas dos mórmons com os cristão é (ou foi) sua aceitação do casamento plural, conforme registrada em Doutrina e Convênios:

    Deus deu a ordem a Abraão e Sara entregou-lhe Agar como esposa. E por que ela o fez? Porque essa era a lei; e de Agar descendeu muita gente. Isso, portanto, foi para o cumprimento, entre outras coisas, das promessas.

    Estava Abraão, portanto, sob condenação? Em verdade vos digo que não; porque eu, o Senhor, dei-lhe essa ordem.

    Foi ordenado a Abraão que sacrificasse seu filho Isaque; não obstante, estava escrito: Não matarás. Abraão, contudo, não se negou e isso lhe foi imputado por justiça.

    Abraão recebeu concubinas e elas geraram-lhe filhos; e isso lhe foi atribuído como sendo justo, porque elas lhe foram dadas e ele obedeceu a minha lei; como também Isaque e Jacó nada mais fizeram do que aquilo que lhes fora ordenado; e porque nada mais fizeram do que as coisas que lhes foram ordenadas, entraram para sua exaltação, de acordo com as promessas; e assentam-se em tronos e não são anjos, mas são deuses.

    Davi também recebeu muitas esposas e concubinas, assim como Salomão e Moisés, meus servos; e também muitos outros de meus servos, desde o princípio da criação até agora; e em nada pecaram, a não ser nas coisas que não receberam de mim.

    As esposas e concubinas de Davi foram-lhe dadas por mim, pela mão de Natã, meu servo, e outros profetas que possuíam as chaves desse poder; e em nenhuma dessas coisas pecou ele contra mim, a não ser no caso de Urias e sua mulher; e, portanto, caiu de sua exaltação e recebeu sua porção; e não as herdará fora do mundo, porque as dei a outro, diz o Senhor.

    Eu sou o Senhor teu Deus e dei a ti, meu servo Joseph, uma designação; e restauro todas as coisas. Pede o que desejares e ser-te-á dado de acordo com minha palavra.

    D&C 132:32-40

    A data oficial de registro dessa revelação é 12 de julho de 1843, mas é provável que esse ensino já fosse discutido e praticado com discrição dentro do círculo mais próximo da Joseph Smith desde 1831. Os mórmons resistiram o quanto puderam às tentativas do governo federal de coibir a prática e discipliná-los, mas finalmente cederam em 1890 quando o presidente da Igreja – Wilford Woodruff – baniu a prática (D&C – Declaração Oficial 1).

    Charge sobre poligamia

    “In Memoriam Brigham Young” (1801 -1877), charge antimórmon fazendo troça com a quantidade de viúvas deixadas pelo segundo presidente dos mórmons.

    Bem, na verdade, pode-se dizer que, hoje, a maioria dos não aceita a poligamia, pois o decreto do Woodruff não foi universalmente aceito, com a permanência de núcleos familiares ainda aferrados à prática. Em 1935, quando as lideranças tentaram ameaçá-los com a excomunhão caso insistissem, praticamente todos os dissidentes preferiram romper os laços, levando à criação da Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, com sua própria linha sucessória de profetas. Continuam polígamos até hoje e criando caso com o governo norte-americano (55).

Depois de Doutrina e Convênios, juntam-se ao cânon mórmon o livro Pérola de Grande Valor – um conjunto de escritos de Joseph Smith publicados em periódicos de seu tempo – e uma versão “revisada” da tradicional Bíblia.

Joseph Smith Jr. não foi o único de sua era a auferir “revelações e profecias”. Uma geração antes dele, a inglesa Joanna Southcott (1750-1814) publicou um volume considerável de revelações sobre a vinda iminente do Messias e, inclusive, suposta sua participação direta nisso dando-lhe à luz (o que não chegou a ocorrer, óbvio). Na própria América, houve as revelações da dissidente quaker Jemima Wilkinson (1752-1819), que chegou a ser dada como morta e, quando se reanimou, alegou ter estado no Céu, retornando à vida graças ao “Espírito de Deus”, de quem se tornara um receptáculo e “segundo mensageiro”. Já em meados século XIX, foi uma outra profetiza, Ellen Gould White (1827-1915), que, com suas visões, praticamente salvou a Igreja Adventista do Sétimo Dia do fiasco após o fracasso de uma profecia apocalíptica. Mas há algo que consideravelmente diferencia Smith de seus similares quase contemporâneos: enquanto suas mensagens eram muito centradas em suas próprias figuras, não se escuta a voz de Smith em O Livro de Mórmon e muito pouco nas demais obras de seu cânon. Ele está mais como um ouvinte e retransmissor do que um ator a contracenar com o espiritual. Sua atuação era terrena. Nesse ponto, eles está mais próximo de Maomé, e até mesmo de Kardec, do que de Montano ou Mani. Smith também se destaca por ter criado uma mitologia nova reelaborando elementos de predecessoras, reunindo, assim, tradição e originalidade. Por esses motivos, merece, sim, ser considerado uma “Terceira Revelação” até pela similaridade de propósitos entre sua mensagem a do codificador do “Velho Mundo”:

GEE, “Restauração do Evangelho” ESE, IV, 4
O restabelecimento sobre a Terra, por parte de Deus, das verdades e ordenanças de seu evangelho. O evangelho de Jesus Cristo foi retirado da Terra em virtude da apostasia que ocorreu após o ministério terreno dos apóstolos de Cristo. A apostasia tornou necessária a restauração do evangelho. Por meio de visões, ministrações de anjos e revelações aos homens na Terra, Deus restaurou o evangelho. A restauração começou com o Profeta Joseph Smith (JS—H 1:1–75; D&C 128:20–21) e continua até hoje por intermédio dos profetas vivos do Senhor. Jesus promete outro consolador: é o Espírito da Verdade, que o mundo ainda não conhece, pois que não está suficientemente maduro para compreendê-lo, e que o Pai enviará para ensinar todas as coisas e para fazer lembrar o que Cristo disse. Se, pois, o Espírito da Verdade deve vir mais tarde, ensinar todas as coisas, é que o Cristo não pode dizer tudo. Se ele vem fazer lembrar o que o Cristo disse, é que o seu ensino foi esquecido ou mal compreendido.

Tanto o espiritismo (kardecista) quanto o mormonismo têm pretensões de restauração de uma pureza e completude perdidas, nem que para isso tenham de inovar. Óbvio que diferem quanto ao que realmente seria a intenção original do Evangelho e, além disso, é importante ressaltar que Joseph Smith não se considera o Paracleto: os mórmons seguem a tradição da maioria das correntes cristãs de atribuir esse papel ao Espírito Santo. Só que nem por isso o caráter da mensagem de Smith é menos distintivo:

1. Em verdade eu te digo que é a minha vontade que meu servo Jared Carter torne a ir às regiões do leste, de lugar em lugar, e de cidade em cidade, no poder da ordenação com o qual foi ordenado, proclamando boas novas de grande alegria, sim, o evangelho eterno.

2. E enviarei sobre ele o Consolador, que lhe ensinará a verdade e o caminho que deverá seguir;

3. E se for fiel, tornarei a coroá-lo com molhos.

4. Portanto, alegra teu coração, meu servo Jared Carter, e não temas, diz teu Senhor, sim, Jesus Cristo. Amém.

Doutrina e Convênios, Seção 79
(Revelação dada por intermédio de Joseph Smith, o Profeta, em Hiram, Ohio, em 12 de março de 1832.)

* * *

1. Em verdade assim vos diz o Senhor, a vós que vos reunistes para saber a sua vontade quanto a vós:

2. Eis que isto é agradável a vosso Senhor e os anjos regozijam-se por vossa causa; as esmolas de vossas orações subiram aos ouvidos do Senhor de Sabaote e estão registradas no livro de nomes dos santificados, sim, os do mundo celestial.

3. Portanto, agora vos envio outro Consolador, sim, a vós, meus amigos, para que habite em vosso coração, sim, o Santo Espírito da promessa; esse outro Consolador é o mesmo que prometi a meus discípulos, como registrado no testemunho de João.

4. Esse Consolador é a promessa de vida eterna que vos faço, sim, a glória do reino celestial;

(. . .)

Doutrina e Convênios, Seção 88
(Revelação dada por intermédio de Joseph Smith, o Profeta, em Kirtland, Ohio, em 6 de maio de 1833.)

Ou seja, embora os mórmons não tomem Joseph Smith como o Paracleto, consideram não apenas ele como todos os seus sucessores inspirados pelo mesmo Consolador prometido aos apóstolos no evangelho de João. Por essa razão, também faz sentido incluir o mormonismo no rol das Terceiras Revelações.

(Em construção)
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Qual a Verdade do Espírito?


Em Obras Póstumas, segunda parte, pode-se encontrar um pequeno conjunto de textos autobiográficos de Kardec. Entre eles temos a narração de um curioso encontro:

25 de março de 1856
(Em casa do Sr. Baudin; médium: Srta. Baudin)
MEU GUIA ESPIRITUAL

Morava eu, por essa época, na rua dos Mártires, nos 8, no segundo andar, ao fundo. Uma noite, estando no meu gabinete a trabalhar, pequenas pancadas se fizeram ouvir na parede que me separava do aposento vizinho. A princípio, nenhuma atenção lhes dei; como, porém, elas se repetissem mais fortes, mudando de lugar, procedi a uma exploração minuciosa dos dois lados da parede, escutei para verificar se provinham do outro pavimento e nada descobri. O que havia de singular era que, de cada vez que eu me punha a investigar, o ruído cessava, para recomeçar logo que eu retomava o trabalho. Minha mulher entrou da rua por volta das dez horas; veio ao meu gabinete e, ouvindo as pancadas, me perguntou o que era. Não sei, respondi-lhe, há uma hora que isto dura. Investigamos juntos, sem melhor êxito. O ruído continuou até à meia-noite, quando fui deitar-me.

No dia seguinte, como houvesse sessão em casa do Sr. Baudin, narrei o fato e pedi que mo explicassem.

Pergunta — Ouvistes, sem dúvida, o relato que acabo de fazer; poderíeis dizer-me qual a causa daquelas pancadas que se fizeram ouvir com tanta persistência?

Resposta — Era o teu Espírito familiar.

P. — Com que fim foi ele bater daquele modo?

R. — Queria comunicar-se contigo.

P. — Poderíeis dizer-me quem é ele?

R. — Podes perguntar-lhe a ele mesmo, pois que está aqui.

NOTA — Nessa época, ainda se não fazia distinção nenhuma entre as diversas categorias de Espíritos simpáticos. Dava-se-lhes a todos a denominação de Espíritos familiares.

P. — Meu Espírito familiar, quem quer que tu sejas, agradeço-te o me teres vindo visitar. Consentirás em dizer-me quem és?

R. — Para ti, chamar-me-ei A Verdade e todos os meses, aqui, durante um quarto de hora, estarei à tua disposição.

P. — Ontem, quando bateste, estando eu a trabalhar, tinhas alguma coisa de particular a dizer-me?

R. — O que eu tinha a dizer-te era sobre o trabalho a que te aplicavas; desagradava-me o que escrevias e quis fazer que o abandonasses.

NOTA — O que eu estava escrevendo dizia respeito, precisamente, aos estudos que empreendera acerca dos Espíritos e de suas manifestações.

P. — A tua desaprovação era referente ao capítulo que eu escrevia ou ao conjunto do trabalho?

R. — Ao capítulo de ontem; submeto-o ao teu juízo; se o releres, reconhecerás tuas faltas e as corrigirás.

P. — Eu mesmo não me sentia satisfeito com esse capítulo e o refiz hoje. Está melhor?

R. — Está melhor, mas ainda não satisfaz. Relê da 3ª a 30ª linha e com um grave erro depararás.

P. — Rasguei o que escrevera ontem.

R. — Não importa!Isso não impediu que a falta continuasse. Relê e verás

P. — O nome Verdade, que adotaste, constitui uma alusão à verdade que eu procuro?

R. — Talvez; pelo menos, é um guia que te protegerá e ajudará.

P. — Poderei evocar-te em minha casa?

R. — Sim, para te assistir pelo pensamento; mas, para respostas escritas em tua casa, só daqui a muito tempo poderás obtê-las.

NOTA — Com efeito, durante cerca de um ano, nenhuma comunicação escrita obtive em minha casa e sempre que ali se encontrava um médium, com quem eu esperava conseguir qualquer coisa, uma circunstância imprevista a isso se opunha. Somente fora de minha casa lograva eu receber comunicações.

P. — Poderias vir mais amiúde e não apenas de mês em mês?

R. — Sim, mas não prometo senão uma vez mensalmente, até nova ordem.

P. — Terás animado na Terra alguma personagem conhecida?

R. — Já te disse que, para ti, sou a Verdade; isto, para ti, quer dizer discrição; nada mais saberás a respeito.

NOTA — À noite, de regresso a casa, dei-me pressa em reler o que escrevera. Quer no papel que eu lançara à cesta, quer em nova cópia que fizera, se me deparou, na 30ª linha, um erro grave, que me espantei de haver cometido. Desde então, nenhuma outra manifestação do mesmo gênero das anteriores se produziu. Tendo-se tornado desnecessárias, por se acharem estabelecidas as minhas relações com o meu Espírito protetor, elas cessaram. O intervalo de um mês, que ele assinara para suas comunicações, só raramente foi mantido, no princípio. Mais tarde, deixou de o ser, em absoluto. Fora sem dúvida um aviso de que eu tinha de trabalhar por mim mesmo e para não estar constantemente a recorrer ao seu auxílio diante da menor dificuldade.

9 de abril de 1856
(Em casa do Sr. Baudin; médium: Srta. Baudin)

Pergunta (à Verdade) — Criticaste outro dia o trabalho que eu havia feito e tiveste razão. Reli-o e encontrei na 30ª linha um erro contra o qual protestaste por meio das pancadas que me fizeste ouvir. Isso me levou a descobrir outros defeitos e a refazer o trabalho. Estás agora satisfeito?

Resposta — Acho-o melhor, mas aconselho-te que esperes um mês para divulgá-lo.

P. — Que queres dizer, falando em divulgá-lo? Não tenho, bem sabes, a intenção de publicá-lo já, se é que o haja de publicar.

R. — Quero dizer: mostrá-lo a terceiros. Busca um pretexto para recusar isso aos que te pedirem para vê-lo. Daqui até lá melhorarás o trabalho. Faço-te esta recomendação para te poupar à crítica; precato o teu amor-próprio.

P. — Disseste que serás para mim um guia, que me ajudará e protegerá. Compreendo essa proteção e o seu objetivo, dentro de certa ordem de coisas; mas, poderias dizer-me se essa proteção também alcança as coisas materiais da vida?

R. — Nesse mundo, a vida material é muito de ter-se em conta; não te ajudar a viver seria não te amar.

NOTA — A proteção desse Espírito, cuja superioridade eu então estava longe de imaginar, jamais, de fato, me faltou. A sua solicitude e a dos bons Espíritos que agiam sob suas ordens, se manifestou em todas as circunstâncias da minha vida, quer a me remover dificuldades materiais, quer a me facilitar a execução dos meus trabalhos, quer, enfim, a me preservar dos efeitos da malignidade dos meus antagonistas, que foram sempre reduzidos à impotência. Se as tribulações inerentes à missão que me cumpria desempenhar não me puderam ser evitadas, foram sempre suavizadas e largamente compensadas por muitas satisfações morais gratíssimas.

Em mensagens mais tardias, o Espírito da Verdade revelou mais a respeito de si nas entrelinhas, o que não deixou de ser bastante impressivo:

COMUNICAÇÃO ESPIRITA.

A propósito de A Imitação do Evangelho. (Bordeaux, maio de 1864; grupo de Saint-Jean. – Médium, Sr. Rul.)

Um novo livro acaba de aparecer; é uma luz mais brilhante que vem clarear o vosso caminho. Há dezoito séculos eu vim, por ordem de meu Pai, trazer a palavra de Deus aos homens de vontade. Esta palavra foi esquecida pela maioria, e a incredulidade, o materialismo, vieram abafar o bom grão que eu tinha depositado sobre vossa Terra. Hoje, por ordem do Eterno, os bons Espíritos, seus mensageiros, vêm sobre todos os pontos do globo fazer ouvir a trombeta retumbante. Escutai suas vozes; são aquelas destinadas a vos mostrar o caminho que conduz aos pés do Pai celeste. Sede dóceis aos seus ensinos; os tempos preditos são chegados; todos as profecias serão cumpridas.

Pelos frutos se reconhece a árvore. Vede quais são os frutos do Espiritismo: casais, onde a discórdia havia substituído a harmonia, viu-se retornar à paz e à felicidade; os homens que sucumbiam sob o peso de suas aflições, despertados aos assentos melodiosos das vozes de além-túmulo, compreenderam que caminhavam em falso caminho, e, ruborizados de suas fraquezas, arrependeram-se, e pediram ao Senhor a força de suportar suas provas.

Provas e expiações, eis a condição do homem sobre a Terra. Expiação do passado, provas para fortalecê-los contra a tentação, para desenvolver o Espírito pela atividade da luta, habituá-lo a dominar a matéria, e prepará-lo para os gozos puros que o esperam no mundo dos Espíritos.

Há várias moradas na casa de meu Pai, eu lhes disse há dezoito séculos. Estas palavras, o Espiritismo veio fazer compreendê-las. E vós, meus bem-amados, trabalhadores que suportais o ardor do dia, que credes ter a vos lamentar da injustiça da sorte, bendizei vossos sofrimentos; agradecei a Deus que vos dá os meios de quitar as dívidas do passado; orai, não dos lábios, mas do vosso coração melhorado, para vir tomar, na casa de meu Pai, a melhor morada; porque os grandes serão rebaixados; mas, vós o sabeis, os pequenos nos e os humildes serão elevados.

O ESPÍRITO DE VERDADE.

Fonte: Revista Espírita, dezembro de 1864 (56)

Há várias moradas na casa de meu Pai, eu lhes disse há dezoito séculos“, numa clara alusão à João 14:2. Isso, para muitos espíritas, basta para para identificar o Espírito da verdade com Jesus. Só que, dependendo das premissas que se adote, as coisas podem ser bem complicadas. O escritor José Reis Chaves, por exemplo, fez valer uma leitura mais literal do evangelho de João que, de certa forma, desqualifica esse entendimento.

E, se tanto o Pai pode enviar o Espírito Consolador (São João 14, 16), como o próprio Jesus pode também enviar esse Espírito Consolador (São João 16, 7), é porque, de fato, nem sempre é Jesus o Consolador, pois quem envia não pode ser, ao mesmo tempo, o enviado. Mas aqui fica provado que Jesus chefia a equipe dos enviados.

A Face Oculta das Religiões, EBM, 2006, p. 146

Em um artigo publicado no jornal O Tempo, de Belo Horizonte – MG, retomou esse mesmo raciocínio:

O Espírito de Verdade ou o que guia para a verdade (João 16,13) é interpretado de diferentes modos, sob a ótica da Bíblia, pelos católicos, espíritas, protestantes, evangélicos e carismáticos.

O Espírito de Verdade é chamado também de o Consolador, de Espírito Santo ou Santo Espírito, Paráclito ou Paracleto, Mentor, Protetor, Defensor e Advogado. Ele pode não ser Jesus, pois Jesus disse que nos seria enviado pelo Pai outro Consolador
(São João 14,16). Mas, mais raramente, pode ser também Jesus.

Faces do Espírito de Verdade, O Tempo, seção “Opinião”, 19/09/2007.

A resposta veio em artigo homônimo publicado no dia seguinte:

Faces do Espírito de Verdade

HUGO ALVARENGA NOVAES

Sabemos que há certas questões que não são consensuais no meio espírita.

Sendo assim, com todo o respeito que temos pelo confrade José Reis Chaves, com o qual concordamos em muitos pontos, neste em especial divergimos.

O teósofo e biblista, em sua coluna semanal, publicada em Opinião dia 17.9, não define a identidade do Espírito de Verdade, enquanto a doutrina codificada por Allan Kardec o faz categoricamente, embora isso não seja notado por boa parte de seus adeptos.

Em nosso modesto parecer, o texto do pesquisador e escritor espírita Paulo da Silva Neto Sobrinho “Espírito de Verdade, Quem Seria Ele?” vem elucidar de vez (conforme o que nos mostra o espiritismo) a identidade do Espírito de Verdade, que é mencionada no “Evangelho Segundo o Espiritismo”, no “Livro dos Médiuns”, em “A Gênese” e em “Obras Póstumas”, como também na revista “Espírita”, publicada nos anos de 1858 a 1869.

Vale a pena dizer que na redação que ora mencionamos encontram- se trechos das obras citadas que comprovam de forma incontestável a autenticidade de suas afirmações, acabando totalmente com as diversas interpretações errôneas de que o Espírito de Verdade seria uma comunidade de espíritos, um enviado do Cristo ou mesmo o espiritismo.

Achamos ser nosso dever informar corretamente que, segundo a religião, o Espírito de Verdade é Jesus, sem sombra de dúvidas.

Sugiro aos leitores, em especial aos profitentes do kardecismo, que leiam atentamente o link http://www.apologiaespirita.org/artigos_estudos/espirito_de_verdade_quem_seria_ele.htm, a fim de confirmarem essas palavras.

Biblista

Não é difícil encontrar variantes dessa discussão pela internet afora. Particularmente, não tomo partido de nenhuma dessas posições, pois ambas estão erradas pelo mesmo motivo, que será apresentado no próximo item. Por ora, não posso deixar de reparar numa semelhança entre essa questão espírita e outra ocorrida cerca de 1.600 anos atrás:

Em suma, não desconhecem a quem o sermão se refere. Todos os lugares da cidade estão cheios deles, os becos, os mercados, as praças, os distritos residenciais, os vendedores de roupas, os chefes das mesas de câmbio, os que vendem nossa comida. Se você pede o troco (101), ele filosofará contigo acerca do Criado e do Incriado; se você perguntar o preço do pão, ele responderá que “o Pai é maior e o filho é subordinado”; e se você disser, “o banho está pronto?” ele irá declarar que o Filho vem do não-ser. Eu não sei de como chamar esse mal, será que é uma loucura ou delírio, ou alguma outra doença que se espalhou pelo povo e desestabiliza a mente.

Sermão da Divindade do Filho e do Espírito Santo.

Extraído de Patrologia Graeca, vol. 46, col. 557

E assim Gregório de Nissa descreveu os ânimos da população de Constantinopla às vésperas do Concílio de 381.Todo mundo parecia interessado em discutir cristologia, embora, efetivamente, somente os bispos tivessem algum poder de decisão. Não é um comportamento muito diferente do que conhecemos em Copas do Mundo, quando o país ganha uns duzentos milhões de técnicos de futebol, ou das diversas torcidas durante os campeonatos nacionais. Enfim, todos querem opinar sobre uma incerteza, ainda que em nada possam interferir decisivamente, agrupando-se por afinidade de ideias, guiando-se por paixões ocultas por uma fina camada de racionalidade.

Briga de torcida

Printscreen da troca de mensagens privadas entre os membros de um fórum virtual espírita que se atreveram a discutir sobre o Espírito da Verdade.

Os evangelhos não são sistemáticos quanto ao relacionamento entre o Pai e o Filho, Maomé não deixou claro como ele seria sucedido e Kardec não dedicou um capítulo de O Livro dos Espíritos à natureza desse tal de “Verdade”. São brechas como essas que deram margem a anos (ou séculos) de disputas. Para os espíritas, felizmente, a identidade desse “espírito” não é uma ameaça tão grande à união do movimento, como foi a questão ariana para a ortodoxia cristã, por dois motivos que vislumbro:

  1. Não há nenhuma força central querendo definir a questão: A antiga proto-ortodoxia cristã já tinha um esquema teológico razoavelmente definido no século III, deixando os pormenores em aberto. Por exemplo, já era bem aceita a ideia de Jesus tinha um caráter divino. A questão de “divino como?” só se tornou crucial quando o cristianismo foi abraçado pelo imperador romano Constantino (57), que determinou que as arestas fossem aparadas. Como nosso Estado é laico e a FEB está longe de ter o poder do Vaticano, não existe nenhuma premência para um espiritismo “pasteurizado”.
  2. Isso está fora do cerne do espiritismo: ou melhor, da “salvação segundo o espiritismo”. No cristianismo tradicional, principalmente em sua herança paulina, a salvação reside em boa parte (ou toda, segundo algumas igrejas) no sacrifício de Jesus. Daí uma razão da importância em se compreender o caráter do sacrificado. Quando o espiritismo colocou a “salvação” nas mãos do indivíduo – pela reforma íntima e a prática da caridade – ele fechou muitas portas para o dogmatismo. Assim como o judaísmo rabínico se centrou na prática da Lei, o espiritismo centra-se em práticas diárias, deixando elucubrações para os que gostam delas.

De experiência própria, a maioria dos adeptos toca a vida sem se importar com isso, tal como na questão do roustaingismo. A maior parte das brigas que vi se deu no meio virtual, onde não se vê os olhos do outro.

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O Adeus e o Adeus de Jesus

Gostaria de retomar a citação de J.R. Chaves feita um pouco acima:

E, se tanto o Pai pode enviar o Espírito Consolador (São João 14, 16), como o próprio Jesus pode também enviar esse Espírito Consolador (São João 16, 7), é porque, de fato, nem sempre é Jesus o Consolador, pois quem envia não pode ser, ao mesmo tempo, o enviado. Mas aqui fica provado que Jesus chefia a equipe dos enviados.

A Face Oculta das Religiões, EBM, 2006, p. 146

Vejamos in loco:

E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre;
Jo 14:16

Todavia digo-vos a verdade, que vos convém que eu vá; porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, quando eu for, vo-lo enviarei.

Jo 16:7-8

Ambas as passagens são retiradas de uma parte do evangelho de João conhecida como “Discurso de Adeus” ou “Discurso de Despedida” (capítulos XIII ao XVII), um longo diálogo entre Jesus e seus discípulos entre a lavagem dos pés e sua prisão (58). O anúncio do Consolador não é a única vez que a fala de Jesus é redundante. Ele ordena duas vezes aos discípulos que …

Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis.
Jo 13:34

O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.
Jo 15:12

Disse duas vezes que partiria:

Ainda um pouco, e o mundo não me verá mais, mas vós me vereis; porque eu vivo, e vós vivereis.
Jo 14:19

Saí do Pai, e vim ao mundo; outra vez deixo o mundo, e vou para o Pai.
Jo 16:28

Outras duas vezes que o mundo os faria sofrer:

Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.
Jo 14:27

Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus.
E isto vos farão, porque não conheceram ao Pai nem a mim.

Jo 18:2-3

Tudo isso pode não passar de uma questão de ênfase, se não fossem duas passagens particularmente estranhas. Primeiro, ao fim do capitulo XIV (v. 31) Jesus diz: “ Levantai-vos, vamo-nos daqui”, mas o diálogo prossegue por mais três capítulos. Poder-se-ia alegar que Jesus e seus discípulo adotaram um método peripatético de ensinar enquanto passeiam, mas ainda assim seria possível pular de 14:31 para 18:1 sem qualquer sensação de perda. A segunda e particularmente mais estranha é pergunta que lança em 16:5: “E agora vou para aquele que me enviou; e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’“. Ora, no capítulo XIII, Pedro indagou a Jesus “Senhor, para onde vais?” (v. 13:36) e no capítulo seguinte foi a vez de Tomé dizer “Senhor, não sabemos para onde vais” (v. 14:5). Teria Jesus problemas em fixar a memória recente?

Há quem sugira (59) que o “Discurso de Despedida” faria mais sentido se fosse reordenado da forma 13:1-30, 17:1-26, 13:31-5, 15:1 – 16:33, 13:36 – 14:31. De fato, isso melhoraria o fluir do texto, mas não eliminaria todas as dificuldades dele, como suas redundâncias e até contradições, como as apresentadas, sem querer, por J.R. Chaves (60), além de precisar explicar o porquê de se embaralhar um texto mais coerente. A verdade pode estar numa hipótese mais simples: a existência de duas fontes para o Discurso de Despedida, ambas muito similares nos temas tratados, mas díspares nos pormenores. Durante a edição de João, elas foram unidas sem que as incompatibilidades fossem sanadas. Talvez em respeito ao texto legado.

Discurso de Despedida.

As fontes para o Discurso de Despedida.

Afinal, qual delas é mais genuína às palavras de Jesus? Tomando o raciocínio de J.R. Chaves, se for a primeira (que contém Jo 14:26) então o Pai pode enviar Jesus de novo e ele ser o Espírito de Verdade. Se for a segunda (contendo a Jo 16:7-8), então ele não poderá enviar a si mesmo. Há uma terceira opção, que passa longe de qualquer debate interno do espiritismo: nenhuma das passagens tem valor histórico. É bem possível que Jesus nunca tenha prometido um “consolador”, seja ele mesmo ou outrem.

Pelo menos desde o lançamento de Cristianismo e Espiritismo, por Léon Denis, os adeptos do espiritismo tem demonstrado maior aceitação da crítica textual bíblica que suas contrapartes católicas e protestantes (61). Isso é bem prestativo na hora de eliminar doutrinas teológica que se desenvolveram após a redação do Novo Testamento e tentaram se infiltrar nele (62), mas pode ser um tiro no pé se formos avaliar as inovações que podem ter surgido durante a fase transmissão oral da tradição cristã. No caso do Discurso de Despedida, pesa contra ele o fato de quase nenhuma fala de Jesus em João ser tida como verídica.

Justiça seja feita, se há discussões acaloradas quanto ao texto recebido dos evangelhos, muito mais discussão existe quanto a sua origem e concepção. De certa forma, o critérios para aumentar ou diminuir a credibilidade de um dito variam conforme o “tipo de Jesus” que se tenha em mente, por exemplo, os adeptos do “profeta apocalíptico” terão em alta conta os ditos apocalípticos de Marcos, já os partidários do “mestre de sabedoria”, não. Há, contundo, um consenso de que a maior parte dos ditos atribuídos a Jesus em João não foram proferidos por ele, refletindo, na verdade, pensamentos da comunidade joanina a seu respeito, pois diversos aspectos dele depõem contra a historicidade de suas falas (63):

  • É tardio: o último dos canônicos a ser redigido foi ele, por volta de 95 d.C., o que pode ter dados mais tempo para a elaboração de uma imagem de Jesus distanciada do personagem histórico;
  • Teologicamente sofisticado: o grande tema de João é o próprio Jesus! Se fosse escrito de seu próprio punho, poder-se-ia suspeitar que o Messias tinha um ego gigantesco para gastar tanto tempo discutindo sua natureza e sua relação com o Pai;
  • Muitas coisas só são ditas nele: essa característica anda de mãos dadas com a anterior. Só em João Jesus é apresentado como o Verbo coeterno do Pai(1:1-14), o próprio diz ser igual a Ele (10:30) ou que toda relação (boa ou ruim) da humanidade com o Pai e vice-versa se dá exclusivamente por meio dele (5:22-4, 6:40, 14:9). Nada como isso pode ser encontrado nos sinópticos ou, até mesmo, Paulo. É mais provável que sejam elaborações tardias da comunidade de João;
  • Falas longas e elaboradas: Isso opõe ao padrão de parábolas e aforismos encontrados nos sinópticos e até em Tomé ou nos ditos ágrafos. Mesmos os discursos longos dos outros evangelhos, como o Sermão da Montanha, podem ser desmontados em unidades pequenas que foram, posteriormente, agrupadas. É improvável que longos discursos sem estrutura mnemônica (por exemplo, uma poesia ritmada) permanecessem inalterados tanto tempo pela transmissão oral;
  • Uma única voz: sem a indicação de quem fala, os discursos de João Batista, de Jesus e o do narrador são quase indistintos. Por trás deles há apenas o autor do evangelho colocando neles seu ponto de vista.

Isso não quer dizer que não haja informações de valor histórico desse evangelho servindo de atestação independente aos sinópticos como, por exemplo, a origem judia de Jesus, a expulsão dos vendilhões (64), a existência de doze discípulos, a negação de Pedro (65) e a crucifixão. Contudo, nos instantes que antecedem a prisão de Jesus, esse evangelho causa confusão. Se repararem bem, não há Última Ceia nesse evangelho, ao menos não como nos sinóptico. Informa-se apenas que cearam, então passa-se à lavagem dos pés ao discurso despedida, sem nada que remeta ao que é hoje conhecido como eucaristia. Isso não significa que a comunidade joanina não a tivesse de alguma forma, tanto que há versículos nesse evangelho remetendo a esse sentido (Jo 6:35, por exemplo), e, claro, há quem tente conciliar as narrativas justapondo o discurso de despedida à Eucaristia. Só que as coisas não são tão simples assim: o anúncio da traição, nos sinópticos, se deu durante a ceia e não após, Jesus não molha um bocado e o dá a Judas nos sinópticos, não há oração no horto em João e ninguém tira um cochilo antes que os soldados do Templo cheguem. Enfim, as duas linhas narrativas são bem díspares e dentro da última há duas recomendações finais distintas. Difícil crer que haja veracidade em ambas ao mesmo tempo.

O espiritismo, por sua vez, é pouco dependente de João, estando mais para uma reinvenção do cristianismo sinóptico despojado de escatologia. A ironia é que um autoproclamado “racional” usa justamente uma parte historicamente dúbia desse evangelho para validar seu próprio advento. Contudo, a principal razão pela qual o espiritismo, ou qualquer outra pretensa terceira revelação, não deve corresponder à promessa do consolador, é que ela não foi feita para os que nasceram duzentos, seiscentos ou mil e oitocentos anos após a morte de Jesus, mas para a própria comunidade joanina, que vivenciava amargores pelos quais as gerações seguintes não passaram.
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Vinde Espírito Santo!

Em função dos vários desdobramentos interessantes que surgiram enquanto eu escrevia, decidi tornar esta parte um artigo separado. Clique aqui.
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Notas


(1) História Eclesiástica, livro V, cap. XIV-XVI; e Panarion, cap. XLVIII.

(2)Em [Panarion, seção, IV, cap. XLVIII, p.7], Epifânio transcreve uma fala atribuída a uma companheira de Montano, Maximila: “após mim não haverá outro profeta, mas a consumação“.

(3)História Eclesiástica, Livro V, cap. XVI, parágrafo 12.

(4)No tratado “Sobre a Trindade“, livro III, cap. XLI, atribui-se a ele a frase: “Eu sou o Pai, o Verbo, o Paracleto“. Cf. Patrologia Graeca, tomo XXXIX, cols 983-4.

(5)Barth D.Ehrman, em Evangelhos Perdidos, cap. IX (pp. 290-4 da edição da Record, 2008) destrincha muitas falhas nos argumentos de Epifânio contra os gnósticos fibionitas. Por outro lado, ele mesmo citou (cap. VII, p. 225) a profecia de Maximila quanto a proximidade do fim, constante no Panarion de Epifânio. Teria Ehrman traído sua própria filosofia de trabalho. Provavelmente não, pois é muito difícil fugir de cronistas ruins quando eles foram os únicos que sobraram. Portanto, é necessário separar o joio do trigo no trato de seus relatos.

(6)E faz a mesma refutação que até hoje os ortodoxos cristãos usam: o Paracleto foi o Espírito Santo em sua vinda no dia de Pentecostes

(7)Práxeas acreditava que as três Hipóstases da Trindade eram uma só, levando a ideia de que o próprio Pai encarnou no útero de Maria, viveu como Jesus e morreu na cruz. Essa tese é também conhecida como patripassionismo (de “o Pai sofreu”).

(8)Ver, também, Praedestinatus Haeresis.

(9) Ou Manes ou, ainda do aramaico helenizado, Manichaios: “Mani, o Vivente”.

(10)Os Elcesaítas (ou helcesaítas, elcasaítas, elquesaítas) formavam uma seita judaica-cristã gnóstica fundada no começo do século II da era Comum. Nosso conhecimento sobre ela chegou até nós por meio de Hipólito de Roma (Refutação de Todas as Heresias, IX.13-17 e X.29), Epifânio(Panarion, heresias 19 e 30) e Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica, VI.38). Todos eles relatam a existência de um livro atribuído a um certo Elchasai, adotado por várias seitas e, em especial, pelos elcesaítas, que receberam esse rótulo por isso. Elchasai, por sinal, teria sido apenas quem teve a tarefa de divulgar o livro, que teria descido dos céus, segundo seus adeptos. Em linhas gerais, a mensagem principal do contida nele era que o Filho de Deus teria tido várias manifestações ao longo dos séculos na pessoa dos justos. Jesus Cristo, filho natural de Maria e José, fora apenas mais uma delas. Além disso, estabelecia a observância da Lei Mosaica (excetuando os sacrifícios de animais), um nova fórmula de batismo, práticas de astrologia e rituais de magia. Seria lícito aparentemente negar a fé para escapar de perseguições.

(11) Boa parte das informações biográficas de Mani foram transmitidas pelo Cologne Mani-Codex, comprado em 1969 de antiquários egípcios por pesquisadores alemães. Para um bom resumo da história inicial do maniqueísmo e de sua doutrina, vide [Garnder & Lieu, cap. II].

(12)Como, por exemplo, a inclusão de sêmen na eucaristia em razão de uma “superstição”:

Quanto àqueles dois navios, isto é, as duas luminárias celestiais, eles [os maniqueus] retratam-nas assim: dizem que a Lua é feita da boa água e o Sol do fogo bom. E nesses navios se encontram as santas virtudes que, por um lado, transfiguram-se em machos a fim de seduzir as fêmeas da raça oposta (gentis adversae) e, pelo outro, em fêmeas para seduzir os machos da mesma raça oposta. E quando o desejo deles for atiçado por essa sedução, supõe-se que a luz que portam em seus membros lhes escape e seja capturada pelos anjos de luz para ser limpa, e, quando limpa, posta nesses navios para ser levada de volta a seus próprios domínios.

Por essa razão – ou um tanto porque são forçados por sua repulsiva superstição – seus Eleitos são levados a consumir um tipo de eucaristia à qual sêmen humano foi adicionado, a fim de que a divina substância seja limpa disso também, como dos outros alimentos que consomem.

De Haeresibus, capítulo XLVI,

Em suas “Confissões”, Agostinho relata seus padrões frouxos na época em que era maniqueu. Isso não significa que Mani advogou um hedonismo vulgar. Na verdade, como Agostinho também comenta, os maniqueus se dividiam em dois grupos: os Escolhidos – que viviam de forma regrada para se libertar do mundo – e os Ouvintes – a quem apenas bastava aceitar a revelação maniqueia e amparar materialmente os Eleitos. Dá para imaginar a qual Agostinho pertenceu.

Bem, acredite se quiser. Plínio, o Jovem, em carta ao imperador Trajano (começo do século II), relatara que os cristãos que conhecera na província sob sua administração praticavam canibalismo “comendo seu próprio deus”. Qualquer católico praticante identificaria isso como um entendimento equivocado da eucaristia. Agostinho, como mero “ouvinte”, pode ter trocado “alho por bugalho”. O papel do Sol e da Lua como agentes purificadores também é relatado (sem esses pormenores) no salmo maniqueu transcrito nessa seção.

(13)De [Haardt, p. 302, nota nº 1]

Este salmo pertence a uma coleção de cânticos que eram entoados no Festival de Bema, a principal festa da comunidade maniqueia. Durante sua celebração, meditavam-se sobre o sofrimento e morte de Mani, bem como a vinda do Julgamento. A palavra grega “bema” aqui significa, grosso modo, o assento ou a corte do juiz.

De certa forma, Bema fazia as vezes da Páscoa cristã para os maniqueus.

(14)Em O Livro dos Gigantes atribuído a Mani, há várias correlações com o pseudoepígrafo I Livro de Enoque. Na primeira parte desse, é narrada a queda de um grupo de anjos conhecidos como “Vigilantes”.

(15)A mãe de Mani possivelmente se chamava Maria (Maryam), indicando uma origem judaica ou confissão cristã (cf. Boyce). Leia a nota seguinte.

(16)Theona, Pshai, Jemnoute são os nomes três mártires maniqueus santificados. O nome deles e de outros “Eleitos” também aparecem ao final do salmo de Bema CCXLI:

Glória e honra aos que guardam o festival neste dia poderoso.
Vitória à alma de Plousiane, Apa Polydoxus, Apa Pshai, Panai, Pshai,
Jmnounte, Theona e, também, à alma de Maria.

O texto da Gnostic Library é, provavelmente, uma edição do texto contido em [Haardt, pp 302-6]. Em ambos os texto lê-se: “Victory to the Soul of the Blessed Mary. Theona, Pshai, Jemnoute”. O texto de Gardner [Gardener & Lieu, pp. 176-9] está com a redação equivalente à deste portal, com uma vírgula após o nome “Maria”. Cogito que houve a propagação de um erro tipográfico.

(17)João de Éfeso, por exemplo, relatou em pormenores o ataque aos maniqueus feito por Justiniano:

Nesse tempo, descobriram maniqueus em Constantinopla e foram queimados.

Havia àquela época um grande número de pessoas partidárias do erro dos maniqueus. Costumavam se encontrar em casas e ouvir os mistérios daquela doutrina impura. Quando foram presos, foram levados à presença do imperador, que tinha a esperança de convertê-los. Discutiu com eles, mas não pôde convencê-los. Com obstinação satânica, gritaram sem medo que estavam prontos para encarar o suplício pela religião de Manes e sofrer cada tortura.

O imperador ordenou que seu desejo fosse realizado. Foram queimados no mar para que pudessem ser sepultados nas ondas e seus bens foram confiscados. Entre eles havia mulheres ilustres, nobres e senadores. E assim muitos maniqueus pereceram pelo fogo e não quiseram deixar seus erros.

Sobre os pagãos que descobertos em Constantinopla sob o imperador Justiniano.
João de Éfeso, extrato de História Eclesiástica, vol. II, contido em [Nau, p. 481]

A data estimada para o episódio acima é de 545 d.C. Boa parte dos “hereges e pagãos” mortos por Justiniano deve vir de ações desse tipo, em várias partes do império. O maniqueísmo, em particular, já estava na mira imperial desde a edição do código de Justiniano, que tornou ilegal a própria existência de um maniqueu.

(18)Cf. [Lieu].

(19) Em [Read, cap. X, p. 205], relata-se a existência da seita maniqueia dos paulicianos fundada no século V, na Armênia, cujos membros foram deportados no século X para província bizantina da Trácia (atual Bulgária). Lá, suas ideias foram adotadas pelo padre Bogomilo e difundida entre seus seguidores. A origem dos cátaros é mais obscura. Read lança a hipótese de que membros da Primeira Cruzada tenham travado contado com paulicianos entrados nos arredores de Antioquia e Trípoli e trazido suas ideias dualistas ao retornarem à Europa. Ainda que tenham adotado uma forte oposição entre espírito e matéria, um clero próprio e uma divisão de fiéis entres Perfeitos (equivalentes aos Eleitos) e Crentes (correspondendo aos Ouvintes), sua base eram as Escrituras cristãs, não havia caráter iniciático em suas cerimônias e seu Salvador era Jesus, não Mani (cf. Brenon).

(20)[Lewis, cap. I, p. 28]. Fala semelhante pode ser encontrada em [Yarshater, cap. XXVII, p. 983], atribuída à biografia deixada pelo sábio muçulmano Al-Biruni (973 – 1048).

(21)[Guillaume, pp. 658-9]

(22) Região costeira ao longo do Mar Vermelho, na atual Arábia Saudita.

(23) Essa visão é um dos motivos pelos quais Jerusalém é o terceiro lugar mais sagrado do Islã, depois de Meca e Medina.

(24) A mais antiga biografia de Maomé, atribuída a Ibn Ishaq (séc. VIII), está atualmente perdida, mas pode ter boa parte de seu texto recuperada a partir das compilações feitas por Ibn Hisham (séc. IX) al-Tabari (séc. X), que a usaram largamente. Como apenas al-Tabari relata o episódio de os “versos satânicos”, é possível que estivesse ausente em Ishaq. A historicidade do episódio até hoje gera acaloradas discussões. Ah! Já perceberam de onde o escritor Salman Rushdie pegou emprestado o título do livro que lhe pôs a cabeça a prêmio?

(25) O marco da contagem do tempo não foi estabelecido por Maomé, mas por Omar, o segundo califa (sucessor). Uma curiosidade desse calendário de doze meses é que ele é puramente lunar, com cada mês iniciando na primeira vez que a lua crescente é avistada após o pôr do Sol, totalizando 354 ou 355 dias. A vantagem dele é sua simplicidade por ser totalmente empírico, tornando-se um marco fácil de ser seguido em todo mundo islâmico. Contudo, ele tem duas desvantagens críticas. Primeiro, não tem sincronia alguma com as estações do ano, o que levou muitos governos islâmicos a adotar dois calendários: um religioso, que segue a tradição islâmica, e outro civil para a cobrança de impostos, sincronizado com elas. Segundo, o início exato de cada mês pode variar conforme o local em que lugar se estiver, pois a data quando o primeiro crescente é avistado depende da longitude.

(26) Se num bate-boca acalorado entre judeus e muçulmanos um dos lados bradar “filho da escrava!”, não estranhe.

(27) Maomé limitou a poligamia já praticada da entre os povos do Hejaz a quatro esposas, colocando regras para admissão de cada nova esposa (ter recursos, autorização das atuais esposas, etc). Uma exceção foi feita para si mesmo, não tendo limites de número de parceiras oficiais ou concubinas. Nem todos esses casamentos foram políticos. Algumas esposas eram ex-viúvas a quem deu proteção, outras eram filhas de auxiliares, como Hafsa (filha de Omar) e Aisha (de Abu Bakr). Essa última, por sinal, foi sempre foco de polêmica com os cristão, pois, segundo uma tradição islâmica, seu casamento se deu aos seis anos de idade e a consumação aos nove. Não preciso dizer o quanto isso gerou acusações de perversão vindas de adversários cristãos, mas a realidade dos fatos pode ter sido bem diferente se levarmos em conta a época e o meio.

(28)Provavelmente um pedaço de meteorito, mas para a tradição islâmica ela é uma relíquia despachada diretamente do Céu para indicar a Adão e Eva o local exato do primeiro altar a ser construído na Terra. Originalmente teria sido de uma alvura resplandescente, mas escureceu devido aos pecados da humanidade.

(29) Muitas vezes referida como a “Peregrinação do Adeus”.

(30)Aqui foi utilizada a tradução inglesa da recensão de al-Tarabi (v. nota 24) feita por Alfred Guillaume. As passagens que o tradutor cogita serem exclusivas dele (i.e., não transmitidas por Ibn Ishaq) foram assinaladas com um “T”.

(31) Se bem que indago o quanto essas regras foram efetivamente seguidas ao longo dos séculos.

(32) Cf. [Asheri, p.58].

(33) Houve várias formas de lidar com a falta de parceiros masculinos: aceitar homens mais jovens, aproveitar os solteiros oriundos da crescente imigração europeia ou, ainda, tolerar as inseguranças da condição de amante (o que também é uma forma de poligamia). Muitas, contudo, optaram ou tiveram de ficar sem um par, o que lhes deu, ao mesmo tempo, uma considerável independência para a época e um estigma. A figura da “tia solteirona” (spinster aunt, maiden aunt) ganhou força na cultura popular e recrudesceria após a I Guerra.

(34) Mesmo quando a Reconquista da península Ibérica já estava bem adiantada, perdurou por algum tempo um ambiente de tolerância (ainda que, em privado, se estranhassem) entre cristãos, judeus e muçulmanos, com direito a discussões teológicas entre os credos. Porém, quando esses debates não eram espontâneos e, sim, patrocinados pelas autoridades seculares por pressão de clérigos, qualquer ousadia do lado não cristão era temerária. Uma das mais famosas discussões de deu na cidade de Barcelona, na corte do rei catalão Jaime I em 1263. De um lado estavam quatro clérigos (um deles ex-judeu) e do outro “apenas” o famoso Rabi Moshe ben Nahman, também conhecido pelo acrônimo de Ramban ou, ainda, Nahmânides. Uma das questões discutidas era quem professava a verdadeira fé: os judeus ou cristãos? Para ela, alguns dos seus argumentos foram:

Ele contra-atacou argumentando que a crença em Jesus mostrara-se desastrosa. Roma, que fora a senhora do mundo, decaíra no momento em que aceitara o cristianismo “e agora os seguidores de Maomé possuem mais território que os cristãos.” Além disso, acrescentou ele, “a partir do tempo de Jesus até o presente momento o mundo esteve cheio de violência e de injustiça, e os cristãos derramaram mais sangue do que todos os outros povos.”

[Johson, parte III – Catedocracia, pp 227-8]

Nahmânides pôde usar esse tom porque o rei lhe garantiu total liberdade, mas os religiosos proto-inquisitores nunca se esqueceriam e aguardaram o primeiro deslise para processá-lo. Ainda que condenado a uma pena leve por contar com a graça do rei, Nahmânides preferiu partir para o exílio em Jerusalém, onde fundou uma sinagoga. Mas suas palavras sempre serão um lembrete para aqueles com mau hábito de “cuspir para cima”.

(35)No Livro dos Médiuns (LM), cap. XXVII –Das Contradições e Mistificações-, item 301:

8ª De todas as contradições que se notam nas comunicações dos Espíritos, uma das mais frisantes é a que diz respeito à reencarnação. Se a reencarnação é uma necessidade da vida espírita, como se explica que nem todos os Espíritos a ensinem?

“Não sabeis que há Espíritos cujas ideias se acham limitadas ao presente, como se dá com muitos homens na Terra? Julgam que a condição em que se encontram tem que durar sempre: nada veem além do círculo de suas percepções e não se preocupam com o saberem donde vêm, nem para onde vão e, no entanto, devem sofrer a ação da lei da necessidade. A reencarnação é, para eles, uma necessidade em que não pensam, senão quando lhes chega. Sabem que o Espírito progride, mas de que maneira? Têm isso como um problema. Então, se os interrogardes a respeito, falar-vos-ão dos sete céus superpostos como andares. Alguns mesmo vos falarão da esfera do fogo, da esfera das estrelas, depois da cidade das flores, da dos eleitos.”

Não foi esse o tom utilizado na Revista Espírita de abril de 1869, no artigo Profissão de Fé Espírita Americana. Lá, Kardec transcreve a “declaração de princípios decretada na quinta convenção nacional, ou assembléia dos delegados espíritas das diferentes partes dos Estados Unidos” e, depois, comenta:

(…)
10. Que, uma vez que o céu e o inferno, ou a felicidade e a infelicidade, dependem antes dos sentimentos íntimos do que das circunstâncias exteriores, há tantos graus para cada um quanto há de nuanças de caracteres, cada indivíduo gravitando em seu próprio lugar por uma lei natural de afinidade. Podem ser divididos em sete graus gerais ou esferas; mas estes devem compreender as variedades indefinidas, ou uma “infinidade de moradas” correspondendo aos caracteres diversos dos indivíduos, cada ser gozando tanto de felicidade quanto seu caráter lhe permite dela ter.
(…)

Ambos [o espiritismo europeu e o americano] reconhecem o progresso indefinido da alma como a lei essencial do futuro; ambos admitem a pluralidade das existências sucessivas em mundos mais ou menos avançados; a única diferença consiste em que o Espiritismo europeu admite essa pluralidade de existências sobre a Terra até que o Espírito tenha adquirido o grau de adiantamento intelectual e moral que comporte este globo, depois do que ele o deixa por outros mundos, onde adquire novas qualidades e novos conhecimentos. De acordo sobre a ideia principal eles não diferem, pois, senão sobre um dos modos de aplicação. É que isso pode ser lá uma causa de antagonismo entre pessoas que perseguem um grande objetivo humanitário?

Com base na declaração exposta por Kardec, não é possível ter esse entendimento, isto é, a ideia de que “o espiritismo nos Estados Unidos aceitava um tipo distinto de reencarnação”. Os “sete graus gerais ou esferas” que aparecem no item 10 da declaração norte-americano, que foram vistas com ceticismo no item 301 do LM, passaram, então, a ser reavaliadas de modo modo positivo, embora não sejam algo realmente reencarnacionista. Aliás, uma das grandes diferenças entre o espiritismo anglófono (não somente o norte-americano) e o francês no século XIX foi justamente a rejeição pelo primeiro da ideia de reencarnação. Que o diga o tratamento que a obra de Kardec teve em Lights and Shadows of Spiritualism(parte III, cap. III), do médium escosês Daniel Dunglas Home.

(36)Para um apanhado dos primeiros séculos dos islamismo, cf. [Lewis, cap. II, III, IV e VIII]. Para um resumo mais enxuto ainda, cf. [Read, cap. III].

(37) “A Carga da Cavalaria Ligeira”

Os grandes confrontos da Antiguidade não passavam de gigantescos combates “corpo a corpo” entre dois alinhamentos de tropas, geralmente lentas e pesadas. A vitória cabia ao mais resistente e/ou ao mais tenaz.

Coube aos árabes a introdução, na arte militar, da cavalaria ligeira: rápida nos golpes, veloz na retirada e nos deslocamentos; eficiente no ataque.

Os cavalos eram jovens e, ao entrar em combate, estavam descansados, pois os árabes tinham o cuidado de poupá-los. Para o transporte de carga, usavam os dromedários; para as cansativas marchas de movimentação de tropas de um lugar para outro, empregavam os camelos brancos, resistentes e velozes.

Desse modo, no momento do combate, a cavalaria árabe caía como um raio sobre a infantaria e cavalaria adversária, sem condições de confronto – seus cavalos estavam inevitavelmente cansados, pois havia suportado o peso das armas e a bagagem da tropa A infantaria árabe também tinha um equipamento que lhe permitia resistir aos embates pesados: um escudo redondo leve, uma lança e uma longa espada reta. O primeiro e o último golpe, porém, eram dados pela cavalaria.

Conhecer Atual, História, vol. I, p. 139.

(38) A relação com os hindus e outros povos politeístas, porém, foi bem mais conflituosa.

(39) O culto historiador do iluminismo inglês Edward Gibbon (Decline & Fall, vol. II, cap. LII) tinha uma visão negativa na expansão islâmica e depositou todos os méritos da “salvação da Europa” na atuação de Carlos Martel em Poitiers. Mesmo obras mais recentes como [Read], História das Civilizações e Conhecer Atual, com uma opinião neutra ou até simpática dos árabes, simplificam o ocorrido em 732.

(40) Cf.[Lewis, cap. VII, VIII, XII]

(41)Não tive acesso à citação original, mas fragmentos disponíveis no Google Books, atestam sua fidedigninidade.

(42)Bem no começo da obra Passio Sancti Pelagii (Paixão de S. Pelágio)

Partibus occiduis fulsit clarum decus orbis
Urbs Augusta Nova, Martis feritate superba,
Quam satis Hispani cultam tenuere coloni,
Corduba,famosa locuples de nomine dicta,
Inclyta deliciis,rebus quoque splendida cunctis,
Maxime septenis sophae repleta fluentis,
Nec non perpetuis semper praeclara triumphis,
Olim quae Christo fuerat bene subdita justo
Fudit et albatos Domino baptismate natos.

Fonte:Migne, Patrologia Latina, vol. CXXXVII, 1853, col. 1095

Em tradução livre:

Brilhou nas terras do ocidente a Joia do Mundo
Uma Nova Sagrada cidade, com a soberba ferocidade de Marte,
Que tão bem os habitantes tem preservado na cultura hispânica,
Chamada pelo ilustre nome de Córdoba, a rica,
Por celebradas delícias, e também por coisas esplêndidas a todos,
Principalmente por estar a fluir cheia com os sete sábios (*).
Além de sempre magnífica por contínuos triunfos,
Que outrora fora bem submissa a Cristo, com justiça
repartiu e [seus] filhos purificados pelo Senhor com o batismo.

(*)Literalmente, “os sete da sabedoria”, uma menção aos “sete sábios da Grécia” indicativa da refinada cultura clássica que abundava em al-Andalus.

(43)Cf. [Diamond, Epílogo, pp. 410-1].

(44)Quando foi a socorro dos muçulmanos andaluzes, o governante almorávida do Magreb, Yusuf ibn Tashufin, foi à mesquita de Sexta-Feira de Sevilha, onde “convocou os fiéis da Andaluzia para um jihad. Yusuf e al-Mu’tamid [governante de Sevilha] resposta desanimadora” [Lewis, XV, p.384].

(45) Cf. [Maalouf, Epílogo, p.242].

(46) Em [Maalouf, cap. VII, pp. 125-6] são dados exemplos de ordálios que horrorizaram os cronistas muçulmanos. Um deles:

Haviam instalado um grande tonel cheio de água. O jovem que era objeto de suspeitas foi atado, suspenso pelas omoplatas a uma corda e lançado no tonel. Se fosse inocente, diziam, ele se afundaria na água, e seria retirado por meio da corda. O infeliz, quando o jogaram dentro da barrica, fez esforço para ir até o fundo, mas não conseguiu, e teve de se submeter aos rigores de sua lei, que Deus os amaldiçoe! Então lhe passaram pelos olhos um buril de prata, avermelhado no fogo, e o cegaram.

Se algum médium conseguir se comunicar com Emmanuel, pergunte-lhe, por obséquio, quem eram os verdadeiros bárbaros?

(47) Cf. [Maalouf, Epílogo, pp. 242-3].

(48) Idem, p. 246:

Enquanto para a Europa a época das cruzadas era o início de uma considerável revolução, ao mesmo tempo econômica e cultural, no Oriente, as guerras santas iam desembocar em longos séculos de decadência e de obscurantismo. Sitiado por todas as partes, o mundo muçulmano se enrosca em si mesmo. Tornou-se friorento, defensivo, intolerante, estéril, tantas atitudes que se agravavam à medida que prossegue a revolução planetária, em relação à qual ele se sente marginalizado. Doravante o progresso é o outro. O modernismo é o outro. Seria preciso afirmar sua identidade cultural e religiosa rejeitando esse modernismo que simbolizava o Ocidente? Seria preciso, ao contrário, enredar-se resolutamente pela via da modernização correndo o risco de perder a própria identidade? Nem o Irã, nem a Turquia, nem o mundo árabe conseguiram resolver esse dilema; e é porque ainda hoje continuamos a assistir a uma alternação, muitas vezes brutal, entre fases de ocidentalização e fases de integridade exagerada, fortemente xenófoba.

(49) Cf. [Beattie, cap V, 128-38].

(50)

O modo de tradução das placas.

Para traduzir o conteúdos das placas, Joseph Smith colocava as pedras Urim e Tumim dentro de um chapéu e lá enfiava o rosto, para tapar o luminosidade exterior e enxergar apenas a que as pedras, supostamente, emitiriam. Não era nem necessária a presença física de uma das placas, segundo testemunhos da época. Contudo, não é incomum encontrar, mesmo na literatura de divulgação mórmon, representações dele lidando diretamente com as placas, sem o auxílio das pedras (à direita).

(51) Uma hipótese cética é que Lucy Harrys teria dado um sumiço no manuscrito para testar Joseph Smith: como ele ainda tinhas as placas, bastaria usar o Urim e o Tumim para obter outra tradução igual. Smith, contudo, não morderia a isca.
Bem, tirem suas próprias conclusões…

(52) Menção atribuída ao crítico literário não-mórmon Harold Bloom em seu livro The American Religion: The Emergence of the Post- Christian Nation (New York: Simon and Schuster, 1992, p.95). No original: “Smith was an authentic religious genius, unique in our national history.”

(53) Do escritor Mark Twain em “Roughing It – A Personal Narrative” :

All men have heard of the Mormon Bible, but few, except the elect have seen it or at least taken the trouble to read it. I brought away a copy from Salt Lake. The book is a curiosity to me. It is such a pretentious affair and yet so slow, so sleepy, such an insipid mess of inspiration. It is chloroform in print.

(54) Essa “divinização” final do homem não foi inédita na história do cristianismo e lembra, de certa forma, a equiparação final das almas humanas ao Verbo criador proposta por algumas vertentes do origenismo tardio dos séculos V e VI. Para mais informações, ler o capítulo IV de Contendas do Deserto, O Livro de Hierotheos.

(55) Essa reportagem foi publicada em português pela National Geographic Brasil de fevereiro de 2010.

(56) Omiti propositalmente a nota de Kardec sobre essa mensagem para direcionar a atenção do leitor espírita “mais entendido” para cá. Recomendo fortemente a análise feita por Júlio Siqueira no portal Criticando Kardec sobre ela.

(57) Há quem acuse, injustamente, o imperador Constantino de ter forçado adoção da tese da “consubstancialidade” (homoousios) entre Pai e Filho em detrimento à tese da “semelhança em substância” (homoiousios) pregada pelos arianos, que dava um caráter de subordinação ao Filho. Na verdade, Constantino não estava nem um pouco interessado em picuinhas teológicas. Ele queria que se chegasse a um consenso, qualquer consenso, e, por isso, impôs a opinião vencedora do Concílio de Niceia aos demais. Em tempos pretensamente “politicamente corretos”, isso seria exemplo de autoritarismo e intolerância execrável, mas era uma atitude coerente com seu projeto de restauração do Império Romano, que precisava de uma religião monolítica como pilar. Por ironia, um erro, digamos, “político” foi feito por ele justamente quando passou a ter atitudes mais clementes e tolerantes: reabilitou líderes arianos e até permitiu que adentrassem à Corte. Foi batizado, inclusive, por um bispo dessa facção. O resultado é que, após sua morte, a Corte era ariana, ao passo que boa parte da população do império, principalmente no ocidente, não o era, dando um fôlego extra à disputa.

O historiador Edward Gibbon fez uma observação que, com variações, seria repetida até hoje:

The sect which asserted the doctrine of a similar substance was the most numerous, at least in the provinces of Asia; and when the leaders of both parties were assembled in the council of Seleucia, their opinion would have prevailed by a majority of one hundred and five to forty-three bishops. The Greek word which was chosen to express this mysterious resemblance bears so close an affinity to the orthodox symbol, that the profane of every age have derided the furious contests which the difference of a single diphthong excited between the Homoousians and the Homoiousians. As it frequently happens that the sounds and characters which approach the nearest to each other accidentally represent the most opposite ideas, the observation would be itself ridiculous, if it were possible to mark any real and sensible distinction between the doctrine of the Semi-Arians, as they were improperly styled, and that of the Catholics themselves. The bishop of Poitiers, who in his Phrygian exile very wisely aimed at a coalition of parties, endeavours to prove that, by a pious and faithful interpretation, the Homoiousion may be reduced to a consubstantial sense. Yet he confesses that the word has a dark and suspicious aspect; and, as if darkness were congenial to theological disputes, the Semi-Arians, who advanced to the doors of the church, assailed them with the most unrelenting fury.

Decline and Fall of the Roman Empire – Fall of the West, cap. XXI – “Arian Creeds”.

Ou seja, é irônico como uma única letra provocou anos de contendas.

(58)Caso fossem retirados desse evangelho, os capítulo de XIII a XVII poderiam constituir o que se chama de literatura testamental, cujo esquema padrão é um patriarca ou líder religioso em seus últimos instantes (muitas vezes no leito de morte) dando as instruções finais a seus filhos ou discípulos. Um exemplo desse gênero no período intertestamentário é o clássico Testamento dos Doze Patriarcas, possivelmente um texto judaico que ganhou um verniz cristão.

(59)[Funk & Hoover, pp. 448-9]

(60) Afinal, o Consolador virá a mando de quem: do Pai ou de Jesus?

(61) Ironicamente, muitos grandes críticos textuais no Novo Testamento e historiadores de Jesus foram cristãos ortodoxos devotos, como a dupla Westcott & Hort ou Albert Schweitzer.

(62) Por exemplo, o “parêntese joanino” com sua defesa da Santíssima Trindade.

(63) Ver [Funk & Hoover, The Gospel of John], [Ehrman, cap. XVII, p. 270], [Vermes, Introdução – Uma observação sobre as fontes, p. 14]. Deve-se deixar claro que nenhum desses aspectos tem, sozinho, força para descreditar um dito atribuído a Jesus. Por exemplo, a história do “Bom Samaritano” só aparece em Lucas (Lc 10:30-7), mas possui outras características que aumentam sua probabilidade de ter sido original de Jesus: seu formato de parábola permite melhor memorização, está de acordo com seus ensinamentos de amor ao próximo e, acima de tudo, por colocar a atitude de um samaritano – um membro de dissidência mal vista pelos judeus de então – como exemplo a ser seguido, foi contra as expectativas de seu meio social.

(64) Se bem que João a coloca logo no começo do ministério.

(65) O episódio em que Pedro nega conhecer Jesus após esse ter sido capturado deve ter sido verídico, pois passa pelos critérios de múltipla atestação e dissimilaridade. Contudo, a previsão de Jesus que ele o negaria três vezes antes do amanhecer é vista com mais ceticismo, pois pode ter sido uma forma de aliviar a imagem de covardia de Pedro.

[topo]

Para Saber Mais

– Asheri, Michael; O Judaísmo Vivo – As tradições e as leis dos judeus praticantes, Imago, 1995.

– Beattie, Alan; Falsa Economia – Uma Surpreendente História Econômica do Mundo, Zahar, 2010.

– Boyce, Mary; A reader in Manichaean Middle Persian and ParthianManichaeism, Teerã, 1975. Acessado em 21/09/2012.

– Brenon, Anne; Herdeiros dos Apóstolos, publicado no periódico A História Viva, ed. 47, pp. 50-53.

– Cesareia, Eusébio de; História Eclesiástica, Novo Século, 1999.

Conhecer Atual, História – I, Nova Cultural, 1988.

– Damascus, John of; Writings, Coleção The Fathers of the Church vol. XXXVII, The Catholica University of America Press, 1999.

– Diamond, Jared; Armas, Germes e Aço, Record, 2004.

– Ehrman, Bart D.; The New Testament – A Historical Introduction to the Early Christian Writings, Oxford University, 4th ed., 2008.

– Funk, Robert & Hoover, Roy; The Five Gospels – What did Jesus Really say?, Harper San Francisco, 1997.

– Gardner, Iain & Lieu, Samuel N. C., Manichaean Texts from the Roman Empire, Cambridge University Press, 2004.

– Guillaume A.; The Life of Muhammada, tradução inglesa da obra de Sirat Rasul Allah de Ibn Ishaq/al-Tabai, Oxford University Press, 2004.

– Gulácsi, Zsuzsanna; Searching for Mani’s Picture Book in Textual and Pictorial Sources, publicado em Transcultural Studies, 2011, nº 1, pp. 233-62.

– Haardt, Robert; Gnosis – Character and Testimony, E.J. Brill, 1971.

– Nau, F.; Analyse de la Seconde Partie Inédite de l’Histoire Écclesiastique de Jean d’Asie, publicado em Revue de l’Orient Chrétien, 2º ano, nº 1, 1897, p. 455-493. Esta obra traz os fragmentos restantes do segundo livro de História Eclesiástica de João de Éfeso (ou da Ásia).

– Lewis, David Levering; O Islã e a Formação da Europa, Amarilys, 2010.

– Lieu, Samuel; Manicheism in Chinese Turkestan and China, publicado originalmente na Encyclopaedia Iranica, Vol. V, Fasc. 5, pp. 478-481, acessado em 22/10/2012.

– Maalouf, Amin; As Cruzadas vistas pelos Árabes, Brasiliense, 2001.

– Muir, William; The Life of Mahomet, Smith, Elder, & Co., Londres, 1861.

– Read, Paul Piers; Os Templários, Imago, 2001.

– Salamina, Epifânio de; The Panarion of Epiphanius of Salamis, Volume 2, E.J. Brill, 1994.

– Saint-Hilaire, Jules Barthélemy; Mahomet et le Coran, Didier et Cie. Libraires-Editeurs, 1865.

– Yarshater, Ehsan; The Cambridge History of Iran, vol. III – The Seleucid, Parthian and Sasanian Periods, Cambridge University Press, 1996.

– Vermes, Geza; O Autêntico Evangelho de Jesus, Record, 2006.

– Wheatcroft, Andrew; Infiéis – O Conflito entre a Cristandade e o Islã , Imago, 2004.

[topo]

  1. 13 de agosto de 2014 às 16:09

    E o mistério continua, disse Jesus, quando perguntaram a ELE, senhor é este o tempo que DEUS restaurará o reino a Israel, e Jesus respondeu, não é conhecido nem a mim que sou o filho, nem a Santo nem, a Anjo e nem a espírito nenhum que venha do céu ou de qualquer lugar, que conheça este tempo, se não a DEUS que reservará da sua própria vontade para esta restauração.

  2. 13 de agosto de 2014 às 11:05

    É que ainda não o terminei

  3. Sergio
    13 de agosto de 2014 às 9:03

    Prezado, O link para “Vinde Espirito Santo” não está funcionando.

  4. 29 de julho de 2014 às 13:56

    . Na promessa do CONSOLADOR feita por Jesus, analisei a Bíblia, e descobri que os sábios terráqueos só aproveitaram 90% da verdade emanada por DEUS, e por JESUS. Para entender melhor, disse Jesus: “Mas eu vos digo a verdade: Convém-vos que eu vá, porque se eu não for, o consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei”. (Bíblia. JOÃO. cap. 16: v. 7)
    Mais adiante, – Jesus diz: “Quando vier, porém, o espírito da verdade, ele vos guiará a toda verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas que hão de vir. (João. Cap. 13). Ele me glorificará porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar”. (Bíblia. JOÃO. cap.16: v. 14).
    Analisando os versículos desta história Bíblica de uma época tão afastada de nós, explico que nesta narração de João supracitada no CAPÍTULO 16, na profecia de Jesus para a vinda do CONSOLADOR; Jesus se referiu a outro consolador; portanto, ELE não se referiu a um espírito, e sim, a um homem como foi Jesus. Portanto, foi esta promessa para um futuro distante que teve início na nossa época em 1932 na pessoa de Cícero. (Sadabi).

    ESTE COMENTÁRIO É EM RESPOSTA UMA NOTIFICAÇÃO QUE VEIO PRA MEU E-MAIL…

  5. Montalvão
    21 de novembro de 2013 às 13:25

    Para quem não sabe, o espírito de verdade não é nem poderia ser Jesus. Em termos kardecistas há controvérsias se seria Jesus quem se manifestara a Rivail: alguns intérpretes acreditam que sim, outros discordam. Em termos gerais, não haveria coerência que Jesus, em vida não-reencarnacionista tampouco mediunista, viesse, espiriticamente, contradizer seu discurso, oficializado nos Evangelhos, e defender as múltiplas existências e a comunicação com mortos.

  6. Ingrid
    11 de junho de 2013 às 17:14

    A verdade subsiste na revelação de Joseph Smith?
    Comente: “Pedro tu és pedra e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.”

  7. 1 de abril de 2013 às 12:08

    MILTON MENDONCA :

    Sem cometários:, apenas reflita, não conheces o espiritismos, nós somos o que somos.

    Conheço, sim.

    porque temos fê, sabemos de onde viemos, para que viemos e para onde iremos, algo que você só saberá quando retornar a casa do pai (morrer na sua concepção), passando primeiro pelo umbral para onde sua alma será arrebatada ou coletada pelos ceifeiros de plantão.

    Já me mandaram pro inferno. Pelo menos o umbral espírita é temporário.

    Antes de fazer quaisquer comentários sobre o que a sua inteligência não capta, procure estudar os fatos e evidências com base científica para expor suas alegações infundadas em base bíblicas alteradas pelos humanos por vários séculos, com cada qual com sua definição e interpretação desvirtuada da verdadeira realidade, apenas com a finalidade de impor preceitos com a finalidade de escravizar os povos, esses sem livre arbítrio, sem direito e opiniões.

    Favor ler este artigo antes:
    https://falhasespiritismo.wordpress.com/2011/10/20/principios-de-critica-textual-biblica/

    Vale salientar que o ESPIRITISMO, antes de ser uma religião, antes de quaisquer definição, é uma Ciência com fatos e evidências comprovadas, ,procure estudar com base científica antes falar um monte de baboseiras, E mais, nós espiritas quando voltados para religião somos Espiritualistas porque acreditamos em nosso criador “DEUS pai do universo!

    Será que esse povo não pode esperar que eu termine este artigo antes sair teclando por impulso?

  8. MILTON MENDONCA
    1 de abril de 2013 às 6:21

    Sem cometários:, apenas reflita, não conheces o espiritismos, nós somos o que somos. porque temos fê, sabemos de onde viemos, para que viemos e para onde iremos, algo que você só saberá quando retornar a casa do pai (morrer na sua concepção), passando primeiro pelo umbral para onde sua alma será arrebatada ou coletada pelos ceifeiros de plantão.
    Antes de fazer quaisquer comentários sobre o que a sua inteligência não capta, procure estudar os fatos e evidências com base científica para expor suas alegações infundadas em base bíblicas alteradas pelos humanos por vários séculos, com cada qual com sua definição e interpretação desvirtuada da verdadeira realidade, apenas com a finalidade de impor preceitos com a finalidade de escravizar os povos, esses sem livre arbítrio, sem direito e opiniões.
    Vale salientar que o ESPIRITISMO, antes de ser uma religião, antes de quaisquer definição, é uma Ciência com fatos e evidências comprovadas, ,procure estudar com base científica antes falar um monte de baboseiras, E mais, nós espiritas quando voltados para religião somos Espiritualistas porque acreditamos em nosso criador “DEUS pai do universo!

  9. rita
    21 de novembro de 2012 às 16:39

    na doutrina espirita para quem nao sb,espirito da verdade é Jesus…nao somos julgadores,pq sabemos q o julgamento pertence a Deus..ninguem é dono da razão,somos pequenos aprendizem,ainda falhos diante os mandamentos da Lei d Deus..amai a Deus sobre tdas as coisas e o proximo como a ti msm!!!!

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