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Archive for the ‘Ceticismo’ Category

“Tá Serto!”

21 de fevereiro de 2016 3 comentários

    Face Palm

    Índice

    No meio de uma Flame War


    Em meio a pesquisas que fiz pela internet a respeito deste mesmo portal, encontrei as seguintes pérolas em certo fórum de debates.

    Um print do Fórum

    Que foi respondido por um apologista espírita com:

    Um print do Fórum: a resposta

    E segue-se um artigo de seu grupo apologista falando de Flávio Josefo e outro sobre Hebreus 9:27.

    Bem, de qual deles vou tomar partido? Nenhum, em princípio. Ambos estão errados a respeito o que realmente trata este portal.
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    Ser Judeu: Ontem e Hoje

    Em se tratando do apologista evangélico, eu jamais disse que os cabalistas não pertencem à “comunidade rabínica organizada”, que são menos judeus por isso ou são reles “feiticeiros”. Para ser sincero, qualquer religião, em sua pior forma, pode ser reduzida a um amontoado de superstições. Que o diga a Cabala, em seu fabrico de amuletos, os evangélicos, em suas quase circenses manifestações “do Espírito Santo” e “os espiritões”. Por outro lado, em sua melhor forma, a maioria das religiões pode se tornar filosofia de qualidade. Não que eu concorde com as premissas delas.

    O fato é: há judeus modernos que creem na reencarnação e outros não. Quem quiser, acesse o portal Ser Judio – Vida y muerte ou leia O Judaísmo Vivo, de Michael Asheri, cap. XLI, pp. 251-2 , para verificar que a aceitação da reencarnação ou gilgul neshamot não é universal entre os judeus atuais. Leia Jewish View of the Afterlife, de S.P. Raphael, cap. VIII, pp. 314-20 para uma análise histórica e mais aprofundada. Curiosamente, esses dois autores também tocam na possibilidade, em alguns círculos cabalísticos, de reencarnação em corpos de animais. Duvido que os espíritas comprem essa ideia ou digam que ela está na Bíblia.

    Essa diversidade de opiniões pode soar estranha a cristãos (ou neocristãos, como os espíritas), pois, historicamente, seus embates são travados em torno de dogmas da fé. Óbvio que o judaísmo também possui um “núcleo duro”, só que é muito mais eclético em todo o resto. O historiador Paul Johson assinalou que:

    [Na Idade Média] Havia uma tal variedade de opiniões sobre o Messias no judaísmo que era quase impossível ser herético nesse assunto. O judaísmo dizia respeito à Lei e sua observância. O cristianismo dizia respeito à teologia dogmática. Um judeu podia atrapalhar-se quanto a um ponto delicado da observância do sábado que a um cristão pareceria ridículo. Por outro lado, um cristão podia ser queimado vivo por sustentar uma ideia sobre Deus que a todos os judeus pareceria um assunto de opinião legítima e de controversa.

    Johson, Paul; A História dos Judeus, Imago, 1995, parte III, p. 228.

    O que ressalto no artigo sobre Saadia Gaon é que a crença na gilgul foi uma inovação medieval. Esse rabino foi testemunha ocular de sua chegada e difusão na região onde viveu (o atual Iraque), mesmo antes da codificação da Cabala. Por isso, também discordo do forista evangélico quanto à exigência de uma opinião judaica “tradicional”, visto que a crença a gilgul não é exclusiva de “místicos”, como outros na discussão lembraram. Aliás, muito do que ele chama de misticismo só o é para quem está de fora. Por outro lado, também é totalmente sem sentido usar a opinião de judeus modernos para abalizar teses espíritas, já que há não razão alguma para acreditar que algum grupo judaico tenha permanecido estático desde a época de Jesus. Muito pelo contrário: mesmo o dito conservador “judaísmo ortodoxo” é o produto de quase dois milênios de evolução.

    O procedimento correto seria buscar a opinião de judeus do século I, quem sabe antes ou um pouco depois. Para isso existe a literatura intertestamentária e o Antigo Testamento, que são silentes sobre o assunto. A não ser, claro, que você lance mão de alegorias (o que Gaon tanto repudiou) ou de preciosismos gramaticais duvidosos.

    É errado alegorizar? Falando como cético, o problema das alegorias é que elas podem tornar qualquer discussão num verdadeiro “vale tudo”. Judeus reclamam do uso cristão de suas Escrituras para justificar Jesus como o Messias (como Isaías 53). Depois cristãos ortodoxos se irritaram quando gnósticos começaram a elucubrar com os evangelhos (João em especial) para explanar seus “segredos”. Os espíritas são apenas os recém-chegados da especulação teológica.

    O que se pode pesquisar é o que determinado grupo cria sobre certo assunto. Deixar o “texto explicar o texto” pode ser contraproducente, porque a Bíblia não é intérprete de si mesma. Em compensação, pode-se pesquisar a palavra de intérpretes antigos sobre o assunto. Um nome que veio à baila foi ninguém menos que Orígenes.
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    Sabendo mais que Eu …

    … a respeito de meu próprio portal.

    Vejamos o forista espírita:

    Os apóstolos criam no retorno dos profetas, tais como Elias, Jeremias e outros mais. Nem preciso citar passagens aqui para provar-lhe algo, você já sabe onde encontrá-las. O caso de Jesus afirmar que João Batista era Elias e o diálogo entre Jesus e Nicodemos, fora os exemplos do cego de nascença e do homem coxo. Saiba que a sua fonte do site Falhas do Espiritismo do Cyrix atesta que os judeus primitivos creem na pré-existência da alma, Orígenes defendia Elias ser João Batista, se é que você percebeu isso e nem se dá conta que o Cyrix nem aborda o fato de João Batista e Elias, portanto, não poderá afirmar que não há reencarnação na Bíblia, por ser sua análise parcial. Acaba que “o tiro sai pela culatra”, sem falar de Flávio Josefo do século I. Ademais, sobre ele, tem o artigo abaixo para apreciação.

    Bem, em instante algum se questionou o valor histórico do relato de Gaon. Ele foi, simplesmente, desconsiderado. Outras coisas que me chamaram atenção:

    1. Eu atesto que os judeus primitivos creem na preexistência da alma: Tudo bem, e daí? Isso só será problema se todos os evangélicos forem traducianistas, i.e., acreditarem que a alma é gerada junto com o corpo. Qualquer grau de criação prévia já é um tipo de preexistência. A questão é que em nenhum instante a ela implica em reencarnação, digo, múltiplas existências terrenas. No portal já havia textos remetendo ao pseudoepígrafo II Baruque (I século), que combina preexistência, vida única, apocalipse, ressurreição e redenção (ou danação) eterna. Só faltou Jesus como Messias para ser um texto evangélico/católico.
    2. O Cego de nascença: Um dos textos que disserto sobre a preexistência é justamente o desse episódio. E ainda há outra explicação possível.
    3. Eu digo que Orígenes defendia que João Batista era Elias: É? Onde? Alguém me indique, por favor!
      O que eu falo realmente é como uma certa escritora espiritualista pinçou um texto de Orígenes para dar justamente esse efeito. Vejamos o que o alexandrino tinha a dizer sobre o assunto:

      Nosso primeiro erudito, cuja visão da transcorporação vimos ser baseada em nossa passagem, pode prosseguir com um exame mais detalhado do texto e argumentar contra seu antagonista que se João foi o filho de um homem como o sacerdote Zacarias e se nasceu quando seu pais já eram ambos idosos, contrariando todas as expectativas humanas, não é provável que tanto judeus em Jerusalém o desconhecessem, ou os sacerdotes e levitas por eles enviados não estariam a par dos fatos de seu nascimento. Não declara Lucas que “o temor veio sobre todos os que viviam por perto” (Lc 1:65), – claramente nas proximidades ao redor de Zacarias e Isabel – e que “todas essas coisas foram divulgadas por toda terra montanhosa da Judeia”? E se o nascimento de João a partir de Zacarias foi matéria de comum conhecimento e os judeus de Jerusalém já enviaram sacerdotes e levitas para perguntar, “És tu Elias?” então está claro em dizer que eles consideravam a doutrina da transcorporação com verdadeira e que ela era uma doutrina corrente de seu país, e não estranha aos seus ensinos secretos. João, portanto, diz, “Eu não sou Elias”, porque não sabe sobre sua vida prévia. Estes pensadores, assim, cogitam uma opinião que não deve de forma alguma ser desprezada. Nosso membro da Igreja, contudo, pode replicar à alegação e perguntar se é digno de um profeta, que é iluminado pelo Espírito Santo, que foi previsto por Isaías, e cujo nascimento por pressagiado antes que sucedesse por tão grande anjo, que recebeu da plenitude de Cristo, que partilha de tal graça, que sabe que a verdade vem por meio de Jesus Cristo e ensinou coisas tão profundas a respeito de Deus e do unigênito, que está no seio do Pai, é digno de tal indivíduo mentir ou mesmo hesitar, em razão da ignorância do que era. Pois com relação ao que estava obscuro, ele deveria ter se abstido de confessar, e não ter nem afirmado, nem negado a proposição que foi posta. Se a doutrina [da transcorporação] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias? E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença. Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento (grifo meu).

      Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

      E Orígenes sustenta, sem querer, a tese da entrada tardia da reencarnação no judaísmo. E ele viveu em Alexandria – onde havia uma numerosa comunicada de judia -, e em Cesareia, na Palestina, portanto contato com judeus não lhe faltou. Eis outro texto dele:

      Alguém pode dizer, porém, que Herodes e parte da população mantinham o falso dogma da transmigração de almas para os corpos, com a consequência de que eles pensassem que o antigo João apareceu outra vez devido a um novo nascimento e tinha vindo da morte para a vida como Jesus. Mas o tempo entre o nascimento de João e o de Jesus, que não foi mais que seis meses, não permite se dar crédito a esta falsa opinião. E talvez fosse melhor que outra ideia estivesse na mente de Herodes – os poderes que operaram com João tivessem passado para Jesus – fazendo que ele fosse visto pelo povo como João Batista. E pode-se usar a seguinte linha de raciocínio: apenas por causa do espírito e poder de Elias, não pela alma dele, que se diz de João: “Este é o Elias que deve vir“.

      Comentário sobre Mateus, livro X, cap XX

      Aí entra uma sutileza da língua grega usada por Orígenes, que é a distinção entre “espírito” (pneuma) e “alma” (psyché). Para ele, só haveria sentido em falar de “transcorporação” se fosse essa última, que seria a portadora da individualidade. Em hebraico, também existe, grosso modo, essa mesma separação entre rouach e nephesh. Dependendo do contexto, rouach pode, contudo, assumir significados distintos (sopro, vento, espírito). Mesmo quando ele é traduzido por espírito não significa que seja exatamente a consciência sempre, mas o princípio que nos anima (Sl 146:4) e retorna a Iahweh após a morte (Ecl 12:7), o ânimo (Jz 15:19), “coragem” (Js 2:11), “raiva, exaltação” (Jz 8:3), ação sobre a mente (Ez 11:5), Iahweh e suas manifestações (Is 63:10). Em se tratando de Elias:

      Sucedeu que, havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito [rouach] sobre mim.
      2 Re 2:9

      Vendo-o, pois, os filhos dos profetas que estavam defronte em Jericó, disseram: O espírito [rouach] de Elias repousa sobre Eliseu. E vieram-lhe ao encontro, e se prostraram diante dele em terra.
      2 Re 2:15

      Observando-se isoladamente 2 Re 2:15, poder-se-ia até pensar em incorporação mediúnica, porém, juntado 2 Re 2:9, fica difícil achar que se trata do significado espiritualista da coisa e só forçando a barra é que é possível ver reencarnação nisso.

      Todo esse ecletismo viria a irritar Saadia Gaon (século X) pelo jogos de palavras que seus respectivos oponentes faziam. Já na época de Orígenes (século III), uma capacidade similar na língua grega foi usada para confundir, como ele insinua em suas refutações a pagãos e gnósticos. Seus Comentários apologéticos, em particular, mostram que a associação de João Batista com uma reencarnação de Elias é bem antiga, assim como as respostas (proto-)ortodoxas para ela. E os flame warriors ainda não se fartaram disso.

    4. Flávio Josefo descreveu a reencarnação entres os judeus do século I: Vejamos o artigo ofertado:

      print forum  3

      Desde os tempos do finado GeoCities, já havia um artigo aqui falando de Flávio Josefo e a crença dos fariseus, que foi totalmente desconsiderado. Juntando isso com a deturpação das ideias de Orígenes, fico com a séria impressão de que o forista espírita, na melhor hipótese, apenas passou os olhos por este portal. Recomendo a leitura desse artigo, mas, caso não tenha tempo, fica este aperitivo: por que o retorno à vida é para os bons e não para os maus que, pela lógica espírita, precisariam mais?

    5. Jesus disse que João Batista era Elias e eu não falo nada do assunto: E se eu falasse, que diferença faria? Falei a opinião de Orígenes sobre o assunto e ela foi distorcida. Falei de Josefo e fui desconsiderado. Poderia acontecer uma dessas opções com o que eu dissesse sobre João Batista ou … uma nova exigência ser feita! Agora, vem cá: Jesus realmente disse isso? “Sim, lá em Mt 11:14 …” Não. Isso é o que foi registrado por Mateus. Por acaso você me garante que o Jesus Histórico – o ser de carne e osso que andou entre nós – disse algo próximo a tal?

      Essa é uma das razões por que não considero pesquisa séria boa parte da apologia espírita: ela praticamente trata os evangelhos como documentos históricos, sem o menor critério para distinguir o que pode ter um fundo de verdade do que é puro mito. Convenhamos que isso é útil no debate contra os “fundamentalistas”, a fim de prendê-los em nós difíceis de desatar, embora não condiga com um credo com pretensões racionalistas. O efeito colateral é produzir um Jesus à própria imagem e semelhança.

    Distorção de fatos, falácias e grande má vontade em simplesmente ler as informações que tenho a oferecer. Às vezes tenho a impressão que muitos dos que se propõe a me combater, refutam outro portal. Um portal mais fácil em que eles podem escolher o que responder e se responder. Afinal, jogaram fogos diversivos e nada se falou a respeito de Saadia Gaon. Perda de tempo.

    Atendendo a pedidos, será feita uma breve preleção sobre o tema Elias/João Batista, que, obviamente, não será tudo o que gostaria de dizer.

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Categorias:Ceticismo, Miscelânea

A Ética Espírita

29 de novembro de 2013 33 comentários

Por Acauan Guajajara, do Religião é Veneno

A ética espírita é uma hipotética dinâmica cósmica na qual a providência divina, o livre arbítrio espiritual e o tempo interagem na cadeia de eventos da existência de modo a garantir que todos os espíritos criados igualmente simples e ignorantes evoluam até se tornar, todos, espíritos igualmente puros e perfeitos, quando desfrutarão de uma felicidade suprema e eterna.

Nesta dinâmica cósmica, a providência divina estabelece e sustenta a ordem metafísica, as regras do jogo, como a lei do karma — que determina que os espíritos devam passar por várias encarnações para expiar antigos erros e aprender — e a lei do progresso, segundo a qual os espíritos podem evoluir ou estacionar moralmente, mas nunca regredir.

Seguindo seu livre arbítrio, cada espírito submete-se ou não a esta ordem metafísica, às regras do jogo. Os que se submetem progridem mais rápido que os que não e alcançam em menor tempo a felicidade da perfeição.

O propósito final da dinâmica cósmica é dar à existência um sentido de justiça universal, erigida da igualdade e do mérito, conforme todos os espíritos devam se submeter à mesma ordem metafísica para progredir e alcançar a felicidade da perfeição.

Esta justiça universal resolveria questões em aberto de outras filosofias e teologias morais:

  • O problema do Mal — por que um Deus bom permite o mal;
  • A conciliação entre soberania divina e livre arbítrio humano;
  • As injustiças da vida — por que algumas pessoas nascem condenadas a uma vida de miséria, doença e sofrimento, enquanto outras levam uma existência tranquila e prazerosa, por que coisas ruins acontecem a pessoas boas, por que pessoas ruins se dão bem no final etc.

Segundo o espiritismo:

Deus permite o mal como decorrência da ignorância primitiva na qual os espíritos foram criados, como pré-requisito para o exercício do livre arbítrio e para estabelecer os méritos individuais dos espíritos que, de livre arbítrio, optam pelo bem.

A soberania divina e o livre arbítrio humano se conciliariam pela vigência da dinâmica cósmica que faz com que o resultado final das decisões individuais tomadas de livre arbítrio seja o encaminhamento de todos os espíritos para a perfeição e felicidade, no tempo justo a cada um.

As injustiças da vida seriam provações necessárias ao aprendizado e evolução do espírito e expiação de faltas passadas. Dentro da dinâmica cósmica as tais deixariam de ser injustas, pois a sequência de reencarnações tanto pode estabelecer uma igualdade geral entre as existências individuais — quem foi pobre, doente ou sofredor em uma vida pode ser rico, saudável e afortunado em outra e vice-versa, quanto os que porventura passam por mais experiências ruins do que boas poderiam aprender e evoluir mais rápido espiritualmente, reduzindo o tempo requerido para alcançar a felicidade da perfeição.

Muitos adeptos do espiritismo o são por tomar como satisfatórias as proposições acima, vendo nelas explicações melhores para estas questões do que as dadas por outras filosofias ou teologias morais.

Nem sempre esta adesão e satisfação passam pelo crivo de uma análise mais metódica da coerência intrínseca e extrínseca das proposições. No mais das vezes pesa mais o alívio emocional do acreditar ter encontrado as respostas pelas quais se ansiava, do que a certeza racional de tê-las provadas verdadeiras.

Uma análise inicial da dinâmica cósmica que fundamenta a ética espírita demonstra contradições e lacunas, no mínimo tantas e tão sérias quanto às das outras filosofias e teologias morais no que se refere às questões propostas do problema do mal, livre arbítrio e injustiças da vida.

Um primeiro problema é quando o espiritismo associa o mal à ignorância. Admitida esta associação direta e exclusiva, o espírito ao longo do tempo se afastaria do mal na medida em que aprende e avança na dinâmica cósmica, até livrar-se dele por completo, por conta de ter aprendido o suficiente para tal.

Ora, a ignorância por si só não é boa ou má. É moralmente neutra. Escolhas morais só se definem quando há consciência delas.

Nas teologias judaica e cristã esta consciência moral é simbolizada pelo fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, antes da tomada do qual o pecado não poderia existir.

O Livro dos Espíritos diz que os espíritos foram criados com igual aptidão, tanto para o bem, quanto para o mal e que os maus o são por vontade própria.

Ocorre que se os espíritos recém criados são plenamente ignorantes das questões morais e dotados de igual aptidão para o bem ou para o mal, diante de uma decisão moral se encontrariam inevitavelmente em um impasse imobilizador.

Não poderiam julgar questões morais a partir do seu próprio conhecimento, limitados que seriam pela tábula rasa de si próprios, e não poderiam reagir intuitiva ou instintivamente, dada a equivalência de aptidões para o bem ou para o mal.

Um espírito com estas características, totalmente ignorante e moralmente neutro seria incapaz de tomar decisões morais.

O Livro dos Espíritos diz que outros espíritos ignorantes são capazes de influenciar os de seu nível ou abaixo para o mal.

Além do já exposto que ignorância não é sinônimo de maldade, fica a questão de quem influenciaria estes espíritos ignorantes que influenciariam os outros. Não há como resolver o problema sem uma regressão infinita, incompatível com a dinâmica cósmica que parte do princípio que os espíritos são criados.

Outra contradição pode ser identificada no conceito de hierarquia moral que os espíritos estabeleceriam entre si conforme progridem na dinâmica cósmica.

O Livro dos Espíritos descreve esta hierarquia em três ordens e dez classes, com ressalvas quanto a esta divisão não ser absoluta.
Na base estariam os espíritos impuros da décima classe, com o status moral análogo ao dos demônios, e no topo os espíritos puros e perfeitos de primeira ordem e primeira classe.

A contradição está em que se a lei do progresso impede os espíritos de regredir, temos que nenhum espírito poderia apresentar um status moral inferior àquele em que foi criado — simples, ignorante e igualmente apto ao bem ou ao mal.

Porém a descrição feita dos espíritos de décima ordem fala de seres inclinados ao mal, aos vícios, às paixões degradantes, que fazem o mal por prazer e ódio ao bem.

É claro que tais seres estão moralmente muito abaixo do que se poderia chamar de espíritos simples e ignorantes, igualmente aptos para o bem ou para o mal.

Assim, ou alguns espíritos recém criados que deveriam ser moralmente neutros em sua ignorância primitiva degeneram para uma condição moral análoga à demoníaca, violando a lei do progresso, ou os espíritos humanos são criados na condição moral análoga à demoníaca, violando o princípio de ser na origem simples e ignorantes.

Além disto, se todos os espíritos são criados iguais e se os de décima ordem são inclinados ao mal, de onde vem esta inclinação? Não se pode dizer que do livre arbítrio, pois se todos os espíritos são criados igualmente ignorantes e com iguais aptidões morais seria de se esperar que seu uso do livre arbítrio apresentasse as mesmas inclinações. A explicação da influência de outros espíritos inferiores também pode ser descartada como exposto acima, dado requerer uma regressão infinita para se sustentar.

Qual seria então o fator diferenciador que levaria alguns espíritos originalmente ignorantes e aptos tanto para o bem quanto para o mal a inclinar seu livre arbítrio para o mal, com a intensidade perversa relatada na descrição dos espíritos de décima classe, enquanto outros criados na mesma condição não o fazem?

Uma explicação possível seria que estes espíritos possuíssem vocação inata para o mal, teriam sido criados com ela, o que contraria o princípio da igualdade original na criação e derruba um dos pilares da justiça universal da dinâmica cósmica espírita que é justamente a igualdade geral das existências individuais, uma vez que alguns espíritos já seriam na origem melhores do que outros.

Outra é que esta queda para o mal é feita de modo completamente aleatório, com o espírito optando por este caminho a partir de decisões tomadas na cegueira de sua ignorância moral primitiva, o que implicaria que o acaso interfere na evolução dos espíritos, o que também contraria a dinâmica cósmica, como definida.

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Por que Sou Agnóstico

26 de agosto de 2013 13 comentários

de Robert G. Ingersoll, 1896

Fonte: Sociedade da Terra Redonda

Eclipse

I

Na maior parte das vezes, herdamos nossas opiniões. Somos os herdeiros de hábitos e costumes mentais. Nossas crenças, assim como a moda de nossas vestimentas, dependem de onde nascemos. Somos moldados e modelados por nosso ambiente.

O ambiente é um escultor — um pintor.

Se tivéssemos nascido em Constantinopla, a maioria de nós diria: “Não existe outro Deus senão Alá, e Maomé é seu profeta”. Se nossos pais tivessem vivido às margens do Ganges, teríamos sido adoradores de Siva, desejando o céu do Nirvana.

Como regra geral, as crianças amam seus pais, acreditam naquilo que eles ensinam e orgulham-se de dizer que a religião de sua mãe é boa o suficiente para eles.

A maioria das pessoas ama a paz. Eles não gostam de ser diferentes de seus vizinhos. Eles gostam de companhia. Eles são sociais. Eles gostam de viajar na estrada com a multidão. Eles odeiam viajar sozinhos.

Os escoceses são calvinistas porque seus pais foram. Os irlandeses são católicos porque seus pais foram. Os ingleses são episcopalistas porque seus pais foram e os americanos estão divididos em uma centena de seitas porque seus pais foram. Esta é a regra geral, à qual existem muitas exceções. As crianças, algumas vezes, são superiores a seus pais, modificam suas ideias, alteram seus costumes e chegam a conclusões diferentes. Mas isto geralmente é tão gradual que a partida quase não é notada e aqueles que mudam, geralmente insistem em que ainda estão seguindo os pais.

Os historiadores cristãos alegam que a religião de uma nação foi mudada abruptamente, algumas vezes, e que milhões de pagãos foram convertidos ao Cristianismo pelo comando de um rei. Os filósofos não estão de acordo com estes historiadores. Os nomes mudaram, altares foram destruídos, mas as opiniões, os costumes e crenças permanecem os mesmos. Um pagão, sob a espada desembainhada de um cristão, provavelmente mudaria suas visões religiosas, e um cristão, com uma cimitarra acima de sua cabeça, subitamente poderia tornar-se muçulmano, mas efetivamente, ambos permaneceriam exatamente como eram antes — exceto ao falar.

A crença não está sujeita à vontade. O homem pensa como se estivessem. As crianças não podem e não acreditam exatamente como foram ensinadas. Elas não são exatamente iguais a seus pais. Elas diferem em temperamento, em experiência, em capacidade, em ambientes. E assim, existe uma mudança contínua, ainda que quase imperceptível. Existe um desenvolvimento, um crescimento consciente e inconsciente, e comparando longos períodos, descobrimos que o velho quase foi abandonado, quase perdido no novo. O Homem não pode permanecer estacionário. A mente não pode ser ancorada firmemente. Se não avançamos, regredimos. Se não crescemos, decaímos, Se não desenvolvemos, encolhemos e secamos.

Como a maioria de vocês, fui criado entre as pessoas que conhecia — que estavam certas. Eles não argumentavam ou investigava. Eles não tinham dúvidas. Eles sabiam que tinham a verdade. Em suas crenças, não havia lugar para a adivinhação — nenhum talvez. Eles tinham a revelação de Deus. Eles conheciam o princípio das coisas. Eles sabiam que Deus começou a criar em uma manhã de segunda-feira, há quatro mil e quatro anos antes de Cristo. Eles sabiam que na eternidade — naquela distante manhã, ele não havia feito nada. Eles sabiam que levou seis dias para criar a terra — todas as plantas, todos os animais, toda a vida e todos os globos que giram no espaço. Eles sabiam exatamente o que Ele fez a cada dia e quando descansou. Eles sabiam a origem, a causa do mal, de todo o crime, de toda doença e da morte.

Eles somente não conheciam o começo, mas conheciam o fim. Ele sabiam que a vida tem um caminho e uma via. Eles sabiam que o caminho, relvado e estreito, cheio de espinhos e urtigas, infestado de víboras, lavado de lágrimas, manchado por pés ensanguentados levava ao céu, e que a estrada larga e suave, ladeada por frutas e flores, cheia de riso e canções, e toda a felicidade do amor humano levava direto ao inferno. Eles sabiam que Deus estava fazendo o melhor para que você escolhesse o caminho e que o Diabo usava de toda artimanha para manter você na estrada.

Eles sabiam que havia um luta perpétua entre os grandes Poderes do bem e do mal pela posse das almas humanas. Eles sabiam que há muitos séculos, Deus tinha deixado seu trono e que um bebê havia nascido neste pobre mundo — e que ele tinha sofrido a morte em nome do homem — para salvar uns poucos. Eles também sabiam que o coração humano era em essência depravado, de modo que por natureza, o homem estava apaixonado pelo erro e odiava Deus com todas as suas forças.

Ao mesmo tempo, eles sabiam que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e que estava perfeitamente satisfeito com seu trabalho. Eles também sabiam que ele havia sido iludido pelo Demônio, que por meio de vilanias e mentiras, tinha enganado o primeiro da raça humana. Eles sabiam que em consequência disto, Deus amaldiçoou o homem e a mulher; o homem com o trabalho exaustivo e a mulher com a escravidão e a dor, e ambos com a morte; e que ele amaldiçoou a própria terra com rosas e espinhos, sarças e cardos. Todas essas coisas abençoadas eles sabiam. Eles também sabiam tudo o que Deus havia feito para purificar e elevar a raça. Eles sabiam tudo sobre o Dilúvio — sabiam que Deus, com exceção de oito, afogou todas as suas crianças — as maiores e as menores — o patriarca encurvado e o bebê sardento — o jovem mancebo e a feliz noiva — a mãe amorosa e a criança risonha — porque sua misericórdia dura para sempre. Eles também sabiam que ele afogou os animais e os pássaros — tudo o que caminhava, se arrastava ou voava — porque sua gentileza amorosa permeia toda a sua obra. Eles sabiam que Deus, com a finalidade de civilizar seus filhos, devorou alguns com terremotos, destruiu alguns com tempestades de fogo, matou alguns com seus raios, milhões de fome, peste e sacrificou milhares incontáveis nos campos de guerra. Eles sabiam que era preciso acreditar nestas coisas e amar a Deus. Eles sabiam que não podia haver salvação senão pela fé, e através do sangue reconciliador de Jesus Cristo.

Todos os que duvidasse ou negassem estariam perdidos. Viver uma vida moral e honesta — manter seus contratos, cuidar da esposa e dos filhos — manter um lar feliz — ser um bom cidadão, um patriota, um homem justo e ponderado, era simplesmente uma maneira respeitável de ir para o inferno.

Deus não premiava os homens por serem honestos, generosos e corajosos, mas pelos atos de fé. Sem a fé, todas as chamadas virtudes eram pecados, e o homem que praticasse estas virtudes, sem a fé, merecia o sofrimento eterno.

Todas estas coisas razoáveis e confortadoras eram ensinadas pelos pastores em seus púlpitos — por professores em escolhas dominicais e pelos pais em suas casas. As crianças eram vítimas, Elas eram assaltadas no berço — nos braços da mãe. Em seguida, o mestre-escola continuava a guerra contra seu senso comum, e todos os livros que elas liam estavam recheados das mesmas verdades impossíveis. As pobres crianças estavam indefesas. A atmosfera que respiravam estava cheia de mentiras — que misturavam-se ao seu sangue.

Naqueles dias os pastores dependiam de revitalizações para salvar almas e reformar o mundo.

No inverno, estando fechada a navegação, os negócios eram suspensos em sua maioria. Não existiam ferrovias e o único meio de comunicação eram carroças e barcos. Geralmente as estradas eram tão ruins que as carroças eram guardadas com os barcos. Não havia óperas, nem teatros, nem diversão, exceto as festas e bailes. As festas eram encaradas como mundanas e os bailes eram pecaminosos. Para uma diversão real e virtuosa, as pessoas boas dependiam de revitalizações.

Os sermões eram em sua maior parte sobre as dores e agonias do inferno, as alegrias e êxtases do céu, salvação pela fé, e a eficácia do arrependimento. As pequenas igrejas, onde o serviço era realizado, geralmente eram pequenas, mal ventiladas e excessivamente quentes. Os sermões emocionais, os cantos tristes, os améns histéricos, a esperança do céu, o medo do inferno fazia com que muitos perdessem o pouco senso que tinha. Eles tornavam-se substancialmente insanos. Nesta condição eles reuniam-se no “banco dos pecadores” — pediam as preces da fé — tinham sensações estranhas, rezavam e choravam e achavam que tinham “renascido”. Em seguida, eles contavam suas experiências — como tinham sido pecaminosos — quão maldosos tinham sido seus pensamentos, seus desejos e quão bons eles repentinamente tinham-se tornado.

Eles costumavam contar a história de uma velha que, ao contar sua experiência, dizia: — “Antes de converter-me, antes de ter dado meu coração a Deus, eu costumava mentir e roubar, mas agora, graças à graça e sangue de Jesus Cristo, eu deixei isso bastante de lado”.

Naturalmente, todas as pessoas não pensavam exatamente igual. Havia alguns zombadores e de vez em quando alguns homens tinham senso suficiente para rir das ameaças dos pastores e zombar do inferno. Contava-se sobre descrentes que tinham vivido e morrido em paz.

Quando eu era um garoto, ouvi contar sobre um velho fazendeiro em Vermont. Ele estava morrendo. O pastor estava ao seu lado — perguntou-lhe se ele era Cristão — se estava preparado para morrer. O velho respondeu que não havia feito qualquer preparação, que ele não era cristão — que ele nada havia feito senão trabalhar. O pregador disse que ele não poderia dar-lhe qualquer esperança, a menos que ele tivesse fé em Cristo, e se ele não tivesse fé, sua alma certamente estaria perdida.

O velho não se assustou. Ele estava perfeitamente calmo. Com uma voz fraca e alquebrada, disse: “Sr. Pastor, suponho que você notou minha fazenda. Minha esposa e eu viemos para cá há cinquenta anos. Acabávamos de nos casar. Isto era uma floresta naquele tempo e a terra estava coberta de pedras. Eu cortei as árvores, queimei os troncos, recolhi as pedras e ergui as parede. Minha esposa fiou e teceu e trabalhou sem parar. Criamos e educamos nossos filhos — negando a nós mesmos. Durante todos estes anos, minha esposa jamais teve um bom vestido, um chapéu decente. Eu nunca tive uma roupa boa. Vivemos com a comida mais simples. Nossas mãos, nossos corpos estão deformados pelo trabalho duro. Nunca tivemos um dia feriado. Amamo-nos e aos nossos filhos. Este foi o único luxo que tivemos. Agora que estou para morrer, voc6e vem perguntar-me se estou preparado, Sr. Pastor, não tenho medo do futuro, nenhum terror de qualquer outro mundo. Pode ser que exista um lugar como o inferno — mas se existir, você não poderá fazer-me acreditar que é pior que a velha Vermont.”

Assim, contava-se sobre um homem que se comparava a seu cachorro. “Meu cachorro”, dizia, “só late e brinca — tem tudo o que quer para comer. Ele nunca trabalhou — não tem preocupações com negócios. Logo ele morre e é tudo. Eu trabalho com todas as minhas forças. Não tenho tempo para diversão. Tenho problemas todos os dias. Logo eu morrerei e, então, irei para o inferno. Eu gostaria de ter sido um cachorro”.

Bem, enquanto durava o tempo frio, enquanto caía a neve, a revitalização continuava, mas quando o inverno acabava, quando o apito do barco era ouvido, quando começavam novamente os negócios, a maior parte dos convertidos “escorregava” e caia novamente nos antigos costumes. Mas no próximo inverno lá estavam eles prontos para “renascer”. Eles formavam um espécie de trupe, desempenhando os mesmos papéis a cada inverno e escorregando a cada primavera.

Os ministros, que pregavam nestas revitalizações eram honestos. Eles eram zelosos e sinceros. Eles não eram filósofos. Para eles ciência é o nome de uma ameaça vaga — um perigoso inimigo. Eles não sabiam muito mas acreditavam um bocado. Para eles o inferno era uma realidade incandescente — eles podiam ver a fumaça e as chamas. O Demônio não era um mito. Ele era uma pessoa de verdade, um rival de Deus, um inimigo da humanidade. Ele pensavam que o negócio importante desta vida era salvar a alma — que todos deveriam resistir e desprezar os prazeres da carne, e manter os olhos fixos nos portões dourados da Nova Jerusalém. Eles eram desequilibrados, emocionais, histéricos, preconceituosos, odientos, amorosos e insanos. Eles realmente acreditavam que a Bíblia fosse a palavra real de Deus — um livro sem erros ou contradições. Eles chamavam suas crueldades, justiça — seus absurdos, mistérios — seus milagres, fatos e as passagens idiotas eram encaradas como profundamente espirituais. Eles trabalhavam com as dores, os arrependimentos, as infinitas agonias dos perdidos e mostravam quão facilmente eles poderiam ter evitado, e quão facilmente poderiam se o céu obtido. Eles diziam a seus ouvintes que acreditassem, tivessem fé, dessem seus corações a Deus, seus pecados a Cristo que carregaria seus pecados e tornaria suas almas tão brancas como a neve.

Todos estes ministros realmente acreditavam. Eles tinham absoluta certeza. Em suas mentes, o demônio tinha tentado em vão semear as sementes da dúvida.

Eu ouvi centenas destes sermões evangélicos — ouvi centenas das mais medonhas e vívidas descrições das torturas infligidas no inferno, do horrível estado dos perdidos. Eu supunha que o que eu ouvia era verdade e, mesmo assim eu não acreditava naquilo. Eu dizia: “É,” e em seguida pensava “Não pode ser.”

Estes sermões deixaram apenas fracas impressões em minha mente. Eu não estava convencido.

Eu não desejava ser “convertido”, não queria um “novo coração” e não tinha qualquer desejo de “renascer”.

Mas eu ouvi um sermão que tocou meu coração, que deixou sua marca como uma cicatriz em minha mente.

Um domingo, eu fui com meu irmão ouvir um pregador batista do Livre Arbítrio. Ele era um homem grande, vestido como fazendeiro, mas ele era um orador. Ele conseguia pintar um quadro usando palavras.

Ele escolher para seu texto a parábola “o rico homem e Lázaro”. Ele descreveu Dives, o homem rico — seu modo de vida, os excessos a que se dedicada, sua extravagância, suas orgias noturnas, seus lençóis púrpura e finos, seus festins, suas vinhas e suas belas mulheres.

Em seguida, ele descreveu Lázaro, sua pobreza, seus andrajos e ruínas, seu pobre corpo carcomido pela doença, as cascas e migalhas que ele devorava, os cães que tinham pena dele. Ele pintava sua vida solitária, sua morte sem amigos.

A seguir, mudando o tom, de piedade para triunfo — saltando de lágrimas às alturas da exaltação — da derrota à vitória — ele descreveu a gloriosa companhia de anjos, que com asas brancas e estendidas carregavam a alma do miserável desprezado para o Paraíso — para o seio de Abraão.

Então, mudando sua voz para desprezo e censura, ele contou a morte do homem rico. Ele estava em seu palácio, em sua cama de luxo, o ar pesado com perfume, o quarto cheio de servos e médicos. Seu ouro era inútil então. Ele não podia comprar outro alento. Ele morreu, e no inferno ele abriu os olhos, em tormento.

Em seguida, assumindo uma atitude dramática, colocando sua mão direita na orelha, ele sussurrou, “Ouça! Eu ouço a voz do homem rico. O que ele está dizendo? Ouça! “Pai Abraão! Pai Abraão! Eu peço que mande Lázaro, e que ele mergulhe a ponta de seu dedo em água e refresque minha língua seca, porque estou torturado nestas chamas.”

“Oh, meus ouvintes, eles vem fazendo este pedido por mais de mil e oitocentos anos. E por milhões de anos mais este lamento cruzará o golfo que existe entre os salvos e os perdidos, e ainda será ouvido o grito: “Pai Abraão! Pai Abraão! Eu peço que mande Lázaro, e que ele mergulhe a ponta de seu dedo em água e refresque minha língua seca, porque estou torturado nestas chamas.”

Pela primeira vez compreendi o dogma do sofrimento eterno — apreciado “as ondas agradáveis de grande alegria”. Pela primeira vez minha imaginação apreendeu a altura e a profundidade do horror cristão. Então, eu disse: “É uma mentira e eu odeio sua religião. Se for verdade, eu odeio o seu Deus”.

A partir daquele dia, eu não tinha mais medo, nenhuma dúvida. Para mim, naquele dia as chamas do inferno foram apagadas. A partir daquele dia, eu odiei apaixonadamente todos os credos ortodoxos. Aquele sermão fez algum bem.

II

Deus na Criação do Mundo

A criação do Sol e da Lua. Detalhe da Capela Sistina.

Desde minha infância, eu ouvia leituras e lia a Bíblia. De manhã e à noite o volume sagrado era aberto e as preces feitas. A Bíblia foi minha primeira história, os Judeus o primeiro povo e os eventos narrados por Moisés e outros escritores inspirados e aqueles preditos pelos profetas eram as coisas mais importantes. Em outros livros eu encontrava os pensamentos e sonhos de homens, mas na Bíblia estavam as sagradas verdades de Deus.

Ainda assim, apesar de meu ambiente, minha educação, eu não tinha amor por Deus. Ele era tão econômico em misericórdia, tão extravagante ao assassinar, tão ansioso para matar, tão pronto a assassinar que eu o odiei do fundo do coração. A seu comando, bebês eram degolados, mulheres violadas e o cabelo branco da idade trêmula manchado de sangue. Este Deus visitava as pessoas com peste — enchia as casas e cobria as ruas com os moribundos e os mortos — via bebês morrendo de fome nos seios murchos de pálidas mães, ouvia os soluços, vias as lágrimas, as faces chupadas, os olhos engazeados, as sepulturas recém cavadas e permanecia tão impiedoso como a peste.

Este Deus retinha a chuva — causando fome, via os olhos raivosos da fome — as formas devastadas, os lábios brancos, via mães comendo bebês e permanecia tão feroz quanto a fome.

Parece impossível para o homem civilizado amar ou adorar ou respeitar o Deus do Antigo Testamento. Uma homem realmente civilizado, uma mulher realmente civilizada, deve ter por um Deus deste tipo o desprezo e repúdio.

Mas, naqueles tempos, as pessoas boas justificavam Jeová em seu tratamento aos hereges. Os inúteis que eram mortos eram idólatras e, portanto, não deviam viver.

De acordo com a Bíblia, Deus nunca revelou-se a estas pessoas e ele sabia que sem uma revelação eles não poderiam saber que ele era o Deus verdadeiro. De quem é, portanto, a culpa de que eles fossem hereges?

Os cristãos diziam que Deus tinha o direito de destruí-los porque eles os havia criado. Para que ele os criou? Ele sabia, quando os fez, que eles seriam comida para a espada. Ele sabia que ele teria o prazer de vê-los assassinados.

Como última resposta, como desculpa final, os adoradores de Jeová diziam que todas estas coisas horríveis aconteceram sob a “antiga aplicação” de lei rígida, e justiça absoluta e que agora, sob a “nova aplicação” tudo tinha mudado — a espada da justiça tinha sido embainhada e o amor entronizado. No Velho Testamento, diziam, Deus é o juiz — mas no Novo, Cristo é misericordioso. Na realidade, o Novo Testamento é infinitamente pior que o Antigo. No Antigo não existe ameaça de sofrimento eterno. Jeová não tinha prisão eterna — não tinha fogo eterno. Seu ódio terminava na sepultura. Sua vingança era satisfeita quando seu inimigo estava morto.

No Novo Testamento, a morte não é o fim, mas o início da punição que não tem fim. No Novo Testamento, a maldade de Deus é infinita e a sua fome de vingança eterna.

O Deus ortodoxo, quando vestido em carne humana, disse a seus discípulos que não resistissem ao mal, que amassem seus inimigos, e quando lhes batessem na face que dessem a outra, e ainda assim nos dizem que este mesmo Deus, com os mesmos lábios amorosos, pronunciou estas palavras duras e diabólicas; “Parti vós, malditos, para o fogo eterno, preparado para o demônio e seus anjos.”

Estas são as palavras de “amor eterno”.

Nenhum ser humano tem imaginação suficiente para conceber este horror infinito.

Toda a raça humana sofreu na guerra e pobreza, em peste e fome, e fogo e inundação — todas as dores de todas as doenças e todas as mortes — tudo isso é nada se comparado às agonias a serem suportadas por uma alma danada.

Este é o consolo da religião cristã. Esta é a justiça de Deus – a misericórdia de Cristo.

Este dogma aterrorizante, esta mentira infinita, tornaram-me em inimigo implacável do Cristianismo. A verdade é que esta crença no sofrimento eterno tem sido o perseguidor real. Ela fundou a Inquisição, forjou as cadeias e forneceu os ferros em brasa. Ela mergulhou em escuridão as vidas de muitos milhões. Ele tornou o berço tão terríveis quanto o ataúde. Ela escravizou nações e derramou o sangue de incontáveis milhares. Ela sacrificou os mais sábios, os mais corajosos e os melhores. Ele subverteu a ideia de justiça, arrancou do coração a misericórdia, transformou homens em inimigos e baniu a razão do cérebro.

Como uma serpente venenosa, ela se arrasta, se encolhe e cissia em todos os credos ortodoxos.

Ela torna o homem uma vítima eterna e Deus um inimigo eterno. Ela é o horror infinito. Cada igreja onde ela é ensinada é uma maldição pública. Cada pregador que a ensina é um inimigo da humanidade. Sob este dogma cristão, a selvajaria não pode ir. Ela é o infinito de maldade, ódio e vingança.

Nada poderia ser acrescentado ao horror do inferno, exceto a presença de seu criador, Deus.

Enquanto viver, enquanto puder respirar, eu negarei com todas as minhas forças, e odiarei com todas as gotas de meu sangue, esta mentira infinita.

Nada me dá maior alegria que saber que esta crença no sofrimento eterno está se enfraquecendo a cada dia — que milhares de ministros estão envergonhados dela. Dá-me alegria saber que os cristãos estão se tornando misericordiosos, tão misericordiosos que o fogo do inferno está em fogo baixo — bruxuleante, abafado pelas cinzas, destinado a extinguir-se para sempre dentro de poucos anos.

Por séculos, o Cristianismo foi um hospício. Papas, cardeais, bispos, padres, monges e hereges eram todos insanos.

Apenas alguns — quatro ou cinco em um século eram são de coração e cérebro. Apenas uns poucos, apesar do ruído e estrondo, apesar dos gritos selvagens, ouviram a voz da razão. Apenas alguns, na orgia selvagem da ignorância, medo e zelo preservaram a perfeita calma proporcionada pela sabedoria.

Avançamos. Dentro de poucos anos os cristão se tornarão — esperamos — suficientemente humanos e sensíveis para negar o dogma que preenche os anos intermináveis com sofrimento. Eles deveriam saber agora que este dogma é absolutamente inconsistente com a sabedoria, a justiça e bondade de seu Deus. Eles deveriam saber que sua crença no inferno, dá ao Espírito Santo – a Pomba – o bico do abutre, e enche a boca da ovelha de Deus com as presas de uma víbora.

III

Bíblia

Em minha juventude eu li livros religiosos — livros sobre Deus, sobre a reconciliação — sobre a salvação pela fé e sobe os outros mundos. Fiquei familiarizado com os comentaristas — com Adam Clark que pensava ter a serpente seduzido nossa mãe Eva e era de fato o pai de Caim. Ele também acreditava que os animais, ainda na arca, tiveram suas naturezas modificadas a tal ponto que eles devoravam palha juntos e apreciavam a companhia uns dos outros — prefigurando assim o milênio abençoado. E li Scott, que era um teólogo natural que realmente pensava que a história de Phaeton — dos cavalos selvagens cruzando o céus — corroborava a história de Josué tendo parado o sol e a lua. Assim, eu li Henry e MacKnight e descobri que Deus amava tanto o mundo que ele mudou de ideia para danar uma grande maioria da raça humana. Eu li Cruden, que fez a grande concordância e fez os milagres tão pequenos e prováveis tanto quanto podia.

Lembro-me de que ele explicou o milagre da alimentação dos Judeus errantes com codornizes, dizendo que mesmo atualmente um número imenso de codornizes cruzavam o Mar Vermelho, e que algumas vezes, quando cansadas, eles pousavam em navios que afundavam com seu peso. O fato é que a explicação era difícil de acreditar quanto o fato de que o milagre não fez qualquer diferença para o devoto Cruden.

Já faz muito tempo que li os Institutos de Calvino, um livro calculado para produzir, em qualquer mente natural, um considerável respeito pelo Demônio.

Eu li as Evidências de Paley e descobri que a evidência de engenhosidade na produção do mal, em tramar o danoso, era pelo menos igual à evidência tendente a mostrar o uso da inteligência na criação daquilo que chamamos bem.

Você sabe que o argumento do relógio é o maior esforço de Paley. Um homem encontra um relógio, e este é tão maravilhoso que ele conclui que o relógio deve ter um criador. Ele encontra o criador e este é muito mais maravilhoso que o relógio e então ele diz que o criador também deve ter um criador. Então ele encontra Deus, o criador do homem, e ele é tão mais maravilhoso que o homem que é impossível que tenha tido um criador. Isto é o que os advogados chamam de um desvio de petição.

De acordo com Paley, não pode existir desenho sem desenhista — mas pode existir um desenhista sem um desenho. A maravilha do relógio sugeria o relojoeiro, e a maravilha do relojoeiro sugeria o criador, e a maravilha do criador demonstrava que ele não fora criado — mas era incriado e eterno.

Tínhamos Edwards em The Will, onde o reverendo autor demonstra que a necessidade não tem efeito sobre a responsabilidade — e que quando Deus cria um ser humano, e ao mesmo determina e decreta exatamente o que aquele ser fará e será, o ser humano é responsável e Deus, em sua justiça e misericórdia tem o direito de torturar a alma daquele ser humano para sempre. E ainda assim Edwards diz que ele ama a Deus.

O fato é que se você acredita em um Deus infinito, e também em punição eterna, então você precisa admitir que Edwards e Calvino estavam absolutamente certos. Não existe escapatória de suas conclusões se você admitir suas premissas. Eles eram infinitamente cruéis, suas premissas infinitamente absurdas, seu Deus infinitamente cruel e sua lógica perfeita.

E, ainda assim, eu tenho a gentileza e a candura de dizer que Calvino e Edwards eram ambos insanos.

Tivemos uma enorme quantidade de literatura teológica. Havia Jenkin sobre a Reconciliação, que demonstrava a sabedoria de Deus criando uma maneira pela qual o sofrimento de inocentes poderia justificar a culpa. Ele tentava demonstrar que as crianças poderiam ser justamente punidas pelos pecados de seus ancestrais, e que os homens podiam, se tivessem fé, ser justamente creditados com as virtudes de outros. Nada poderia ser mais devoto, ortodoxo e idiota. Mas, nem toda a nossa teologia era em prosa. Tínhamos Milton com sua milícia celestial com seu grande e descuidado Deus, seu orgulhoso e astuto Demônio — suas guerras entre imortais, e todos os sublimes absurdos que a religião gravou no cérebro do homem cego.

A teologia ensinada por Milton era cara ao coração dos Puritanos. Ela foi aceita pela Nova Inglaterra e ela envenenou as almas e arruinou as vidas de milhares. O gênio de Shakespeare não poderia tornar poética a teologia de Milton. Na literatura do mundo não existe nada mais perfeitamente absurdo, fora os “livros sagrados”.

Tivemos os Pensamentos Noturnos de Young, e eu supunha que o autor era um devoto excepcional e um seguidos amantíssimo do Senhor. Ainda assim Young tinha um grande desejo de ser bispo, e para atingir este objetivo e ele fez campanha junto à amante do rei. Em outras palavras, ele um velho e fino hipócrita. Nos “Pensamentos Noturnos”, quase não existe uma linha natural e genuinamente honesta. É pretensão do começo ao fim. Ele não escreveu o que sentia, mas o que pensava que devia sentir.

Tivemos o Curso do Tempo de Pollok, com seu verme que nunca morre, as chamas inextinguíveis, a dor sem fim, seus demônios cobiçosos e seu Deus malignamente exultante. O poema assustador deve ter sido escrito em um hospício. Nele você encontra todos os gritos, gemidos e espasmos de maníacos quando eles retalham e despedaçam a carne dos outros. É tão cruel, horrível e infernal quanto o capítulo trinta e dois de Deuteronômio.

Todos conhecemos o belo hino que começa com a linha animadora: “Ouve-se das tumbas um som lúgubre”. Nada poderia ser mais apropriado para crianças. Está bem colocar um ataúde onde ele possa ser visto do berço. Quando uma mãe cuida de seu filho, uma cova aberta deve existir a seus pés. Isto tenderia a tornar seu bebê sério, reflexivo, religioso e sofredor.

Deus odeia o riso e despreza a alegria. Sentir-se livre, sem laços, irresponsável, alegra — esquecer os cuidados e a morte — ser invadido pela luz do sol sem o medo da noite — esquecer o passado, não ter pensamentos em relação ao futuro, não sonhar com Deus, céu ou inferno — estar intoxicado com o presente — ter consciência apenas do abraço e do beijo do ser amado — isto é pecado contra o Espírito Santo.

Mas nós tínhamos os poemas de Cowper. Ele era sincero. Ele era o oposto de Young. Tinha um olho observador, um coração gentil e um senso para o artístico. Ele simpatizava com tudo o que sofria — com os prisioneiros, os escravizados, os excluídos. Ele amava o belo. Não admira que a crença na punição eterna tornou sua alma amorosa insana. Não admira que as “ondas de grande alegria” apagaram a grande estrela de Esperança e deixaram seu coração despedaçado na escuridão do desespero.

Tínhamos muitos volumes de sermões ortodoxos, cheios de ódio e os terrores do julgamento por vir — sermões que tinham sido deixados por santos selvagens.

Tínhamos o Livro dos Mártires, mostrando que os cristão tinham imitado por séculos o Deus que eles adoravam.

Tivemos a história do Waldenses — da reforma da Igreja, Tivemos o Pilgrim’s Progress, a Chamada de Baxter e a Analogia de Butler.

Para empregar uma frase ou dito do Oeste, eu descobri que o Bispo Butler cavou mais serpentes do que matou — sugeriu mais dificuldades do que explicou — mais dúvidas do que explicações.

Entre tais livros minha juventude passou. Todas as sementes de Cristianismo — de superstição, foram semeadas em minha mente e cultivadas com grande diligência e cuidado.

IV

Fronteiras do firmamento

Todo esse tempo eu nada soube de qualquer ciência — nada sobre o outro lado — nada sobre as objeções que foram levantadas contra as sagradas escrituras ou contra o credo Congregacional perfeito. Naturalmente, eu havia ouvido os ministros falar sobre blasfemos, ou infiéis, de escarnecedores que riam das coisas sagradas. Eles não responderam aos seus argumentos, mas eles despedaçaram seus caracteres e demonstraram pela fúria da afirmação que eles haviam feito o trabalho do Demônio. E ainda assim, a despeito de tudo o que ouvi — de tudo o que li, eu ainda não podia acreditar. Meu cérebro e meu coração diziam Não.

Por algum tempo eu abandonei os sonhos, as insanidades, as ilusões e desilusões e os pesadelos da teologia. Estudei astronomia, só um pouco — examinei mapas dos céus — aprendi os nomes de algumas das constelações — de algumas estrelas — descobri alguma coisa sobre o tamanho e a velocidade com que eles giravam em seus órbitas — obtive uma fraca concepção dos espaços astronômicos — descobri que algumas das estrelas conhecidas estavam tão distantes nas profundezas do espaço que sua luz, viajando a quase duzentas mil milhas por segundo, levava muitos anos para chegar até este pequeno mundo — descobri que, comparado às grandes estrelas, nossa terra não passa de um grão de areia — um átomo — descobri que a antiga crença de que todos os hóspedes dos céus tinham sido criados em benefício do homem era infinitamente absurda.

Comparei o que era realmente conhecido sobre as estrelas com a narração da criação conforme o Gênesis. Descobri que o escritor do livro inspirado não tinha qualquer conhecimento de astronomia — que ele era tão ignorante quanto um chefe Choctaw — quanto um Esquimó que dirigia cachorros. Pode alguém imaginar que o autor do Gênesis nada sabia sobre o sol — seu tamanho? Que ele conhecia Sirius, a Estrela Polar, com Capella, ou que ele sabia alguma coisa sobre os grupos de estrelas tão distantes que sua luz, agora visitando nossos olhos, tinha viajado por dois milhões de anos?

Se ele tivesse conhecimento destes fatos, teria ele dito que Jeová trabalhou quase seis dias para criar este mundo, e somente parte da tarde do quarto dia para criar o sol, a lua e todas as estrelas?

Ainda assim, milhões de pessoas insistem em que o autor do Gênesis foi inspirado pelo Criador de todos os mundos.

Agora, homens inteligentes, que não estão assustados, cujos cérebros não foram paralisados pelo medo, sabem que a história sagrada da criação foi escrita por um selvagem ignorante. A história é inconsistente com todos os fatos conhecidos, e toda estrela brilhando nos céus atesta que seu autor foi um bárbaro sem inspiração.

Eu admito que este escritor desconhecido foi sincero, que ele escreveu o que acreditava ser verdade — que ele fez o melhor que pode. Ele não alegou ser inspirado — não fingiu que a história havia sido contada a ele por Jeová. Ele simplesmente declarou os “fatos” como ele os compreendeu.

Após ter aprendido um pouco sobre as estrelas, conclui que este escritor, este escriba “inspirado”, foi enganado pelo mito e a lenda e que ele não sabia mais sobre a criação que o teólogo médio de nossos dias. Em outras palavras, que ele não sabia absolutamente coisa alguma.

E aqui, permitam-me dizer que os ministros que estão respondendo a mim estão voltando suas armas na direção errada. Estes reverendos senhores devem atacar os astrônomos. Eles devem amaldiçoar e vilificar Kepler, Copérnico, Newton, Herschel e Laplace. Estes homens foram os verdadeiros destruidores da História sagrada. Então, após terem-se livrado deles, eles podem declarar guerra às estrelas e contra o próprio Jeová por ter fornecido provas contra a verdade de seu livro.

Em seguida, estudei geologia — não muito, só um pouco — apenas o suficiente para entender de maneira geral os principais fatos que haviam sido descobertos, e algumas das conclusões a que se havia chegado. Aprendi alguma coisa da ação do fogo — da água — da formação de ilhas e continentes — das rochas sedimentares e ígneas — das medidas de carvão — das falésias calcárias, alguma coisa sobre recifes de coral — sobre os depósitos feitos por rios, o efeito de vulcões, de geleiras e de todo o mar ao redor — apenas o suficiente para saber que as rochas Laurencianas eram milhões de anos mais antigas que a grama sob os meus pés — apenas o suficiente para sentir-me seguro de que este mundo tem prosseguido em seu voo ao redor do sol, girando em luz e sombra, por centenas de milhões de anos — apenas o suficiente para saber que o escritor “inspirado” nada sabia da história da terra — nada sobre as grandes forças da natureza — do vento e do fogo — forças que destruíram e construíram, arrebentaram e lavrou por estes incontáveis anos.

E permitam-me dizer mais uma vez aos ministros que eles não devem perder seu tempo respondendo a mim. Eles devem atacar os geólogos. Eles deveriam negar os fatos que foram descobertos. Eles deveriam lançar suas maldições contra os mares blasfemos, e investir suas cabeças contra as rochas infiéis.

Então, eu estudei biologia — não muito — só o suficiente para saber algo sobre formas animais, suficiente para saber que a vida existia quando as rochas Laurencianas foram formadas — apenas o suficiente para saber que ferramentas de pedra, ferramentas criadas por mãos humanas, foram encontradas misturadas aos ossos de animais extintos, ossos que haviam sido quebrados com aquelas ferramentas, e que aqueles animais haviam deixado de existir centenas de milhares de anos antes da criação de Adão e Eva.

Então eu tive certeza de que o registro “inspirado” era falso — que muitos milhões de pessoas haviam sido enganadas e que tudo o que havia sido ensinado a mim sobre a origem dos mundos e do homem era completamente falso. Senti que sabia que o Velho Testamento era a obra de homens ignorantes — que ele era uma mistura de verdade e erro, de sabedoria e bobagens, de crueldade e gentileza, de filosofia e de absurdo — que ele continha alguns pensamentos elevados, alguma poesia — uma grande quantidade de solenidade e lugares comuns — alguns histéricos, outros ternos, algumas preces malditas, algumas previsões insanas, algumas mentiras e alguns sonhos caóticos.

É claro que os teólogos combateram os fatos descobertos pelos geólogos, os cientistas e procuraram sustentar as Escrituras sagradas. Eles confundiram ossos de mastodonte com ossos de seres humanos e, através deles provaram que “existiam gigantes naqueles dias”. Eles interpretaram os fósseis dizendo que Deus os havia feito para experimentar nossa fé, ou que o Demônio tinha imitado os trabalhos do Criador.

Eles responderam aos geólogos dizendo que os “dias” no Gênesis eram longos períodos de tempo e que afinal o dilúvio pode ter sido local. Eles disseram aos astrônomos que o sol e a lua não foram efetivamente, mas apenas aparentemente, parados. E que a aparência foi produzida pela reflexão e refração da luz.

Eles desculparam a escravidão e a poligamia, o roubo e assassinato ocorridos no Velho Testamento dizendo que as pessoas estavam tão degradadas que Jeová foi obrigado a ceder à sua ignorância e preconceito.

De toda forma o clero procurou fugir dos fatos, escamotear a verdade para preservar a crença.

Primeiro, eles simplesmente negaram os fatos — então eles os banalizaram — em seguida eles os harmonizaram — então eles negaram que os tivessem negado. Em seguida, eles trocaram o significado do livro “inspirado” para ajustar-se aos fatos. Primeiro, eles disseram que se os fatos, conforme alegado, fossem verdadeiros, a Bíblia era falso e o próprio Cristianismo era superstição. Depois eles disseram que os fatos, conforme alegados, eram verdadeiros e que eles estabeleciam sem a menor dúvida a inspiração da Bíblia e a origem divina da religião ortodoxa.

Tudo o que eles não puderam evitar eles engoliram, e tudo o que eles não puderam engolir eles evitaram.

Desisti do Velho Testamento devido a seus erros, seus absurdos, sua ignorância e crueldade. Desisti do Novo porque ele assegurava a verdade do Antigo. Desisti dele por causa de seus milagres, suas contradições, porque Cristo e seus discípulos acreditavam na existência de demônios — discutiam e faziam acordos com eles e os expulsavam de pessoas e animais.

Isto em si é o bastante. Sabemos, se sabemos alguma coisa, que os demônios não existem — que Cristo nunca os expulsou, e se ele fingiu que fazia isto, ele era ignorante, desonesto ou louco.

Estas histórias sobre demônios demonstram a origem humana e ignorante do Novo Testamento. Desisti do Novo Testamento porque ele premia a credulidade e amaldiçoa os homens corajosos e honestos, e porque ele ensina o horror infinito do sofrimento eterno.

V

Romeo e Julieta

Tendo passado minha juventude lendo livros sobre religião — sobre o “novo nascimento” — a desobediência a nossos primeiros pais, o arrependimento, a salvação pela fé, a perversidade do prazer, as consequências degradantes do amor e a impossibilidade de se chegar ao céu sendo honesto e generoso, tendo se tornado de alguma forma cansado dos pensamentos desgastados e confusos, você pode imaginar minha surpresa, meu deleite quando li os poemas de Robert Burns.

Eu estava familiarizado com os escritos dos devotos e insinceros, os pios e petrificados, pós puros e sem coração. Aqui estava um homem naturalmente honesto. Eu conhecia os trabalhos daqueles que consideravam toda a natureza como depravada, e encaravam o amor como a herança e testemunho perpétuo do pecado original. Aqui estava um homem que tirava alegria do lodo, que transformava camponesas em deusas e que entronizou o homem honesto. Alguém cuja simpatia, com braços amorosos, abraçou todas as formas de vida sofredora, que odiava a escravidão de todo tipo, que era tão natural quanto o azul do céu, com o humor gentil como um dia de outono, com a presença de espírito tão afiada quanto a espada de Ituriel, um desprezo que açoitava como o hálito do simum. Um homem que amava este mundo, esta vida, as coisas corriqueiras e colocava acima de tudo os êxtases eletrizantes do amor humano.

Eu li e reli arrebatado, entre lágrimas e sorrisos, sentindo que um grande coração batia nas entrelinhas.

Os poetas religiosos, lúgubres, artificiais e espirituais foram esquecidos e permaneceram apenas como fragmentos, os horrores meio lembrados de sonhos monstruosos e distorcidos.

Eu tinha descoberto finalmente um homem natural, alguém que desprezava o credo cruel de sua pátria, e era corajoso e sensível o suficiente para dizer: “Todas as religiões são velhas fábulas de esposas, mas um homem honesto nada tem a temer, neste mundo ou no outro”.

Alguém que teve o gênio para escrever a Prece de São Willie — um poema que crucificou o Calvinismo e através de seu coração exangue trespassou uma estaca do senso comum — um poema que tornou toco credo ortodoxo motivo de desprezo — de riso eterno.

Burns tinha seus defeitos, suas fraquezas. Ele era intensamente humano. Ainda assim, eu preferiria aparecer bêbado na “Cadeira do Julgamento” e poder dizer que eu era o autor de “Um homem é homem por isso”, do que estar perfeitamente sóbrio e admitir que eu tinha vivido e morrido como um Presbiteriano Escocês.

Eu li Byron — li seu Caim, onde, como em Paraíso Perdido, o Demônio parece ser o melhor deus — li suas linhas belas, sublimes e amargas — li seu prisioneiro de Chillon — seu melhor — um poema que encheu meu coração de ternura, de piedade e de um ódio eterno à tirania.

Eu li a Rainha Mab de Shelley — um poema cheio de beleza, coragem, pensamento, simpatia, lágrimas e desprezo, onde uma alma corajosa destrói os muros da prisão e inunda as celas de luz. Eu li seu Skylark — uma chama voadora — apaixonada como sangue — terna como lágrimas — pura como a luz.

Eu li Keats, “cujo nome estava escrito em água” — li a Eva de St. Agnes, uma história contada com tal habilidade que este pobre mundo comum é transformado em uma terra de fadas — a Urna Grega, que enche a alma com um amor ainda mais ansioso, com todo o arrebatamento da canção imaginada — o Rouxinol — uma melodia onde existe a memória da tristeza — uma melodia que se extingue em lusco-fusco e lágrimas, atormentando os sentidos com sua perfeição.

E, então, eu li Shakespeare, as peças, os sonetos, os poemas — li tudo. Eu vi um novo céu e uma nova terra; Shakespeare, que conhecia o cérebro e o coração do homem — as esperanças e os medos, os amores e os ódios, os vícios e virtudes da raça humana: cuja imaginação leu os registros borrados pelas lágrimas, as páginas manchadas de sangue de todo o passado e viu se desfazerem a rolo esparramado de luz de esperança e amor; Shakespeare, que sondou cada profundeza — enquanto sobre pico mais alto caia a sombra de suas asas.

Eu comparei as Peças com os livros “inspirados” — Romeu e Julieta com os Cânticos de Salomão, Lear com Job e os Sonetos com os Salmos e descobri que Jeová não compreendia a arte da palavra. Eu comparei as mulheres de Shakespeare — suas mulheres perfeitas — às mulheres da Bíblia. Descobri que Jeová não era um escultor, nem um pintor — nem um artista — que faltava-lhe o poder de transformar argila em carne — a arte, o toque plástico que molda a forma perfeita — o hálito que lhe dá vida alegre e livre — o gênio que cria a perfeição.

Os livros sagrados de todo o mundo são escória imprestável e simples pedregulhos se comparados ao ouro faiscante e as gemas brilhantes de Shakespeare.

VI

Escola de Atenas

A Escola de Atenas, por Rafael

Até esta época eu não havia lido nada contra nossa bendita religião, exceto o que havia encontrado em Burns, Byron e Shelley. Acidentalmente eu li Volney, que demonstra que todas as religiões são, ou foram, estabelecidas da mesma forma — que todas tinham seus Cristos, seus apóstolos, milagres e livros sagrados, e, em seguida, perguntava como é possível decidir qual delas é verdadeira. Uma questão que ainda espera por uma resposta.

Eu li Gibbons, o maior dos historiadores, que dominava seus fatos com tanta maestria quanto César suas legiões e aprendi que o Cristianismo é apenas um nome para Paganismo — para a antiga religião, extirpada de sua beleza — que alguns absurdos haviam sido trocado por outros — que alguns deuses haviam sido mortos — uma vasta multidão de demônios criada e que o inferno tinha sido ampliado.

E então eu li a Idade da Razão de Thomas Paine. Permitam-me contar alguma coisa sobre este homem sublime e difamado. Ele veio para este país um pouco antes da Revolução. Ele trazia uma carta de apresentação de Benjamin Franklin, naquela época o maior dos Americanos.

Na Filadélfia, Paine foi empregado como redator no Pennsylvania Magazine. Sabemos que ele escreveu pelo menos cinco artigos. O primeiro foi contra a escravidão, o segundo contra os duelos, o terceiro sobre o tratamento de prisioneiros — mostrando que o objetivo deveria ser reformar, não punir e degradar — o quarto sobre os direitos da mulher e o quinto em favor da formação de sociedades voltadas para a prevenção à crueldade contra crianças e animais.

Por ai pode-se ver que ele sugeriu as grandes reformas de nosso século.

A verdade é que ele trabalhou toda a sua vida pelo bem de seus conterrâneos e fez tanto para fundar a Grande República quanto qualquer outro homem que jamais esteve sob nossa bandeira. Ele deu seus pensamentos sobre religião — sobre as Escrituras sagradas, sobre as superstições de seu tempo. Ele era perfeitamente sincero e o que ele dizia era gentil e certo.

A Idade da Razão encheu de ódio os corações daqueles que amavam seus inimigos e o ocupante de cada púlpito ortodoxo tornou-se, e ainda é, um detrator apaixonado de Thomas Paine.

Nenhum respondeu — nem ninguém responderá a sua argumentação contra o dogma da inspiração — suas objeções à Bíblia.

Ele não se levantou acima de todas as superstições de sua época. Ao mesmo tempo em que odiava Jeová, ele louvava o Deus da Natureza, o criador e preservador de tudo. Nisto ele estava errado, pois como disse Watson em seu Resposta a Paine, o Deus da Natureza é tão sem coração e tão cruel quanto o Deus da Bíblia.

Mas Paine foi um dos pioneiros — um dos Titans, um dos heróis, que deu sua vida de bom grado, cada pensamento e cada ato, para libertar e civilizar a humanidade.

Eu li Voltaire — Voltaire, o maior homem de seu século, e que fez mais pela liberdade de pensamento e de expressão que qualquer outro ser humano ou “divino”. Voltaire, que rasgou a máscara da hipocrisia e encontrou atrás do sorriso pintado as dores do ódio. Voltaire que atacou a selvajaria da lei, as decisões cruéis de tribunais venais e resgatou vítimas da roda. Voltaire, que declarou guerra contra a tirania dos tronos, a cobiça e insensibilidade do poder. Voltaire, que encheu a carne dos padres com as setas pontiagudas e envenenadas de seu espírito e fez os piedosos ilusionistas que o amaldiçoavam em público, rirem de si mesmos particularmente. Voltaire que tomou o lado dos oprimidos, resgatou os desafortunados, lutou pelos obscuros e fracos, civilizou juízes, repeliu leis e aboliu a tortura em sua terra natal.

Em todas as direções, este incansável homem lutou contra o absurdo, o milagroso, o sobrenatural, o idiota, o injusto. Ele não tinha qualquer reverência com os velhos. Ele não era impressionado pela pompa e circunstância, por Crime coroado ou Pretensão mitrada. Sob a coroa ele via o criminoso, sob a mitra o hipócrita.

À barra de sua consciência, sua razão, ele levava o barbarismo e os bárbaros de seu tempo. Ele pronunciava o julgamento contra todos eles, e este julgamento foi confirmado pelo mundo inteligente. Voltaire acendeu a tocha e deu aos outros a chama sagrada. A luz ainda brilha e brilhará enquanto o homem amar a liberdade e procurar pela verdade.

Eu li Zenão, o homem que disse, séculos antes do nascimento de Cristo, que o homem não podia possuir seu semelhante.

“Não importa se você reclama um escrava por compra ou captura, o título é ruim. Aqueles que reclamam ter direito de propriedade sobre seus semelhantes, olham para dentro de um fosso e esquecem a justiça que deveria governar o mundo.”

Tive contato com Epicuro, que ensinava a religião da utilidade, da temperança, da coragem e da sabedoria, e que disse: “Porque deveria eu temer a morte? Se eu sou, a morte não é. Se a morte for, eu não sou. Porque deveria eu temer algo que não pode existir enquanto eu existo?”

Eu li sobre Sócrates, que em julgamento por sua vida, disse entre outras coisas, a seus juízes, estas maravilhosas palavras: “Durante minha vida, eu não procurei reunir fortuna e adornar meu corpo, mas eu procurei adornar minha alma com as joias da sabedoria, da paciência e, acima de tudo, do amor pela liberdade.”

Assim, eu li sobre Diógenes, o filósofo que detestava o supérfluo — o inimigo do desperdício e da cobiça, e que um dia entrou no templo, aproximou-se reverentemente do altar, esmagou um piolho entre as unhas de seus polegares e disse solenemente: “O sacrifício de Diógenes a todos os deuses.” Isto parodiava a adoração do mundo — satirizava todos os credos e em um só ato colocava a essência da religião.

Diógenes deve ter sabido desta passagem “inspirada” — “Sem que sangue seja derramado, não existe remissão dos pecados.”

Eu comparei Zenão, Epícuro e Sócrates, três vilões hereges que nunca haviam ouvido falar no Velho Testamento ou nos Dez Mandamentos, a Abraão, Isaac e Jacó, três favoritos de Jeová, e eu fui depravado o suficiente para achar que os Pagão eram superiores aos Patriarcas — e ao próprio Jeová.

VII

Deuses Egípcios

Minha atenção voltou-se para outras religiões, aos livros sagradas, os credos e cerimônias de outras terras — da Índia, Egito, Assíria, Pérsia e das nações mortas ou moribundas.

Concluí que todas as religiões tinham a mesma base — a crença no sobrenatural — um poder acima da natureza que o homem podia influenciar através da adoração — por meio de sacrifícios e de preces.

Descobri que todas as religiões se apoiam em uma concepção errada da natureza — de que a religião de um povo era a ciência daquele povo, o que equivale a dizer, sua explicação do mundo — da vida e da morte — da origem e do destino.

Concluí que todas as religiões tinham substancialmente a mesma origem e que, na realidade, nunca houve a não ser uma religião no mundo. Os brotos e as folhas podem diferir, mas o tronco é o mesmo.

O pobre Africano que derrama seu coração para uma deidade de pedra está em um nível religioso exatamente igual aos padres de batina que suplicam a Deus. O mesmo erro, a mesma superstição dobra os joelhos e fecha os olhos de ambos. Ambos pedem auxílio ao sobrenatural, e nenhum deles tem o menor pensamento sobre a absoluta uniformidade da natureza.

Parece-me provável que a primeira cerimônia religiosa organizada foi a adoração do sol. O sol era o “Pai Céu”, o “Todo Vidente”, a fonte da vida — a lareira do mundo. O sol era visto com um deus que combatia a escuridão, o poder do mal, o inimigo do homem.

Existiram muitos deuses-sol, e eles parecem ter sido as principais deidades nas religiões antigas. Ele foram adorados em muitas terras, por muitas nações que passaram pela morte e o pó.

Apolo era um deus-sol e ele combateu e conquistou a serpente da noite. Baldur era um deus-sol. Ele estava apaixonado pela Aurora — a virgem. Chrishna era um deus-sol, em seu nascimento, o Ganges foi estremecido de sua fonte até o mar, e todas as árvores, os mortos e os vivos, floresceram. Hércules era um deus-sol e também o foi Sansão, cuja força estava nos cabelos — isto é em seus raios. Dalila, a sombra — a escuridão — arrancou-lhe as forças. Osiris, Baco e Mitra, Hermes, Buda e Quetzalcoatl, Prometeu, Zoroastro e Perseu, Cadom, Lao-Tze, Fo-hi, Horus e Ramsés, todos eles foram deuses-sol.

Todos estes deuses tinham deuses como pais e virgens como mães. O nascimento de quase todos eles foi anunciado por estrelas, celebrados por música celestial e vozes declararam que as bênçãos tinham chegado a este pobre mundo. Todos estes deuses nasceram em lugares humildes — em cavernas, sob árvores, em estalagens comuns e tiranos tentaram matá-los quando eram bebês. Todos estes deuses-sol nasceram no solstício de inverno — no Natal. Quase todos eles eram adorados por “homens sábios”. Todos eles jejuaram por quarenta dias — todos eles ensinavam usando parábolas — todos eles realizaram milagres — todos sofreram morte violenta e todos eles ressuscitaram.

A história destes deuses é exatamente igual à história do nosso Cristo.

Isto não é uma coincidência — um acidente. Cristo era um deus-sol. Cristo era um novo nome para uma velha biografia — uma sobrevivência — o último dos deuses-sol. Cristo não era um homem, mas um mito — não uma vida, mas uma lenda.

Descobri que não somente tínhamos tomado emprestado nosso Cristo — mas que todos os nossos sacramentos, símbolos e cerimônias eram herança que recebemos do passado enterrado. Não existe coisa alguma original no Cristianismo.

A cruz era um símbolo a milhares de anos antes de nossa era. Era um símbolo de vida, de imortalidade — do deus Agni e foi esculpida em tumbas muitas eras antes que uma linha de nossa Bíblia tivesse sido escrita.

O batismo é muito mais antigo que o Cristianismo e que o Judaísmo. Os Hindus, Egípcios, Gregos e Romanos tinham água benta muito antes de um católico ter vivido. A eucaristia foi emprestada dos Pagãos. Ceres era a deusa dos campos — Baco era do vinho. No festival da colheita eles faziam bolos de trigo e diziam: “Esta é a carne da deusa”. Eles bebiam vinho e gritavam: “Este é o sangue de nosso deus.”

Os Egípcios tinham uma Trindade. Eles adoravam Osíris, Ísis e Hórus, milhares de anos antes que o Pai, Filho e Espírito Santo fossem conhecidos.

A Árvore da Vida cresceu na Índia, na China e entre os Aztecas, muito antes que o Jardim do Éden tivesse sido plantado.

Muito antes que nossa Bíblia fosse conhecida, outras nações tinham seus livros sagrados.

Os dogmas da Queda do Homem, do Arrependimento e Salvação pela Fé, são muito mais antigos que nossa religião.

Em nosso evangelho abençoado — em nosso “esquema divino” — não existe nada de novo — nada original. Tudo velho — tudo emprestado, recortado e remendado.

Então eu concluí que todas as religiões tinham sido naturalmente produzidas e que todas eram variações, modificações de uma só — então eu senti que sabia serem todas o trabalho de um homem.

VIII

Evolução física

Os teólogos sempre insistiram que seu Deus era o criador de todas as coisas vivas — que as formas, partes, funções, cores e variedades de animais eram as expressões de sua fantasia, gosto e sabedoria — que ele os fez a todos precisamente como são hoje — que ele inventou barbatanas e pernas e asas — que ele forneceu a eles as armas de ataque, os escudos de defesa — que ele os formou com referência a comida e clima, levando em consideração todos os fatos que afetavam a vida.

Eles insistiam em que o homem era uma criação especial, não relacionada de forma alguma com os animais abaixo dele. Eles também afirmavam que todas as formas de vegetação, de musgos a florestas eram exatamente o são hoje, no momento em que foram criados.

Homens de gênio que em sua maioria eram livres de preconceito religioso, estavam examinando estas coisas — estavam procurando por fatos. Eles estavam examinando os fósseis de animais e plantas — estudando as formas dos animais — seus ossos e músculos — o efeito do clima e da comida — as estranhas modificações pelas quais eles haviam passado.

Humboldt tinha publicado suas leituras — cheias de grandes pensamentos — com esplêndidas generalizações — com sugestões que estimulavam o espirito de investigação e com conclusões que satisfaziam a mente. Ele demonstrava a uniformidade da Natureza — o parentesco de tudo o que vive e cresce — que respira e pensa.

Darwin, com sua Origem das Espécies, sua teoria sobre a Seleção Natural, a Sobrevivência do Mais Apto e a influência do ambiente, lançou uma inundação de luz sobre os grandes problemas da vida animal e vegetal.

Estas coisas tinham sido adivinhadas, profetizadas, afirmadas, indicadas por muitos outros, mas Darwin, com paciência infinita, com um candor e cuidado perfeitos, encontrou os fatos, cumpriu as profecias e demonstrou a verdade das adivinhações, indicações e afirmativas. Ele era, a meu ver, o mais preciso observador, o melhor juiz do significado e valor de um fato, o maior Naturalista que o mundo jamais produziu.

A visão teológica começou a parecer pequena e ruim.

Spencer ofereceu sua teoria da evolução e a sustentou com base em incontáveis fatos. Ele colocou-se em uma grande altura e com os olhos de um filósofo, um pensador profundo, observou o mundo. Ele influenciou o pensamento dos mais sábios.

A teologia parecia mais absurda do que nunca.

Huxley juntou-se aos que apoiavam Darwin. Nenhum homem jamais teve uma espada mais afiada — um escudo melhor. Ele desafiou o mundo. Os grandes teólogos e os pequenos cientistas — aqueles que tinham mais coragem que bom senso, aceitaram o desafio. Seus pobres corpos foram levados por seus amigos.

Huxley tinha inteligência, habilidade, gênio e a coragem de expressar seu pensamento. Ele era absolutamente leal àquilo que ele considerava verdade. Sem preconceito e sem medo, ele acompanhou os passos da vida, das formas mais baixas até as mais altas.

A teologia parecia menor ainda.

Haeckel começou com a célula mais simples, foi de mudança em mudança — de forma em forma — seguiu a linha do desenvolvimento, o caminho da vida, até que chegou à raça humana. Era tudo natural. Não havia interferência externa.

Eu li os trabalhos destes grandes homens — de muitos outros — e tornei-me convencido de que eles estavam certos, e de que todos os teólogos — todos os que acreditavam na “Criação especial” estavam absolutamente errados.

O Jardim do Éden se apagou, Adão e Eva voltaram ao pó, a serpente rastejou de volta à grama e Jeová tornou-se um mito miserável.

IX

Dei mais um passo. O que é a matéria — substância? Pode ela ser destruída — aniquilada? É possível conceber a destruição do menor átomo da substância? Ela pode ser moída até virar pó — alterada de sólido para líquido — de líquido para gás — mas tudo permanece. Nada se perde — nada é destruído.

Deixe um Deus infinito, se existir algum, atacar um grão de areia — atacá-lo com poder infinito. Ele não pode ser destruído. Ele não pode se render. Ele desafia toda a força. A substância não pode ser destruída.

Então dei mais um passo.

Se a matéria não pode ser destruída, não pode ser aniquilada, ela não pode ter sido criada.

O indestrutível deve ser incriável.

E, então, perguntei-me: O que é força?

Não podemos conceber a criação da força, ou sua destruição. A força pode ser modificada de uma forma para outra — de movimento para calor — mas não pode ser destruída — aniquilada.

Se a força não pode ser destruída, ela não pode ter sido criada. Ela é eterna.

Outra coisa – a matéria não pode existir separada da força. A força não pode existir separada da matéria. A matéria não ter existido antes da força. A força não poderia ter existido antes da matéria. A matéria e a força somente podem ter sido concebidas juntas. Isto foi demonstrado por diversos cientistas, mas mais claramente, mais forçosamente por Buchner.

O pensamento é uma forma de força, consequentemente ele não poderia ter causado ou criado matéria. A inteligência é uma forma de força e não poderia ter existido sem ou separada da matéria. Sem substância não poderia ter existido mente, nem vontade, nem força de qualquer tipo e não poderia ter havido substância sem força.

A matéria e a força não foram criadas. Elas existiram desde a eternidade. Elas não podem ser destruídas.

Não existiu, não existe criador. Então surgiu a pergunta; Existe um Deus? Existe um ser de inteligência, poder e bondade infinitos que governa o mundo?

Não pode haver bondade sem muita inteligência — mas parece-me que esta inteligência perfeita e bondade perfeita devem aparecer juntas.

Na natureza eu vejo, ou pareço ver, bem e mal — inteligência e ignorância — bondade e crueldade — cuidado e desleixo — economia e desperdício. Eu vejo meios que não atingem os fins — desígnios que parecem falhar.

Parece-me infinitamente cruel para a vida alimentar-se de vida — criar animais que devoram outros.

Os dentes e bicos, as garras e presas, que rasgam e dilaceram, enchem-me de horror. O que pode ser mais assustador que um mundo em guerra? Cada folha um campo de batalha — cada flor um Gólgota — em cada gota de água perseguição, captura e morte. Sob cada pedaço de casca, a vida esperando por vida. Em cada folha de grama, alguma coisa que mata — alguma coisa que sofre. Em todo lugar o forte vivendo do fraco — o superior do inferior. Em todo lugar, o fraco, o insignificante, vivendo no forte — o inferior sobre o superior — a comida superior para o inferior — homens sacrificados em favor de micróbios.

Assassinato universal. Em todo lugar a dor, doença e morte — morte que não espera por formas encurvadas e cabelos grisalhos, mas ataca bebês e jovens felizes. Morte que tira a mãe de sua criança sardenta indefesa — morte que enche o mundo com dor e lágrimas.

Como pode um cristão ortodoxo explicar estas coisas?

Eu sei que a vida é boa. Lembro-me da luz do sol e da chuva. Em seguida, penso em terremotos e inundações, Não esqueço a saúde e a colheita, lar e amor, mas e a peste e a fome? Não consigo harmonizar todas estas contradições — estas bênçãos e agonias — com a existência de um Deus poderoso, sábio e infinitamente bom.

O teólogo diz que o que chamamos mal é para nosso bem — que somos colocados neste mundo de pecado e dor para desenvolver o caráter. Se isso for verdade, eu pergunto porque o bebê morre? Milhões e milhões respiram umas poucas vezes e falecem nos braços de suas mães. A eles não é permitido desenvolver caráter.

O teólogo diz que as serpentes receberam presas para se protegerem contra seus inimigos. Porque Deus que as fez, faz inimigos? Porque muitas espécies de serpentes não têm presas?

O teólogo diz que Deus deu armadura ao hipopótamo, cobriu seu corpo, exceto na parte inferior com placas e escamas, para que outros animais não pudessem cortar com os dentes ou presa. Mas o mesmo Deus criou os rinocerontes e lhes deu um chifre sobre o nariz, com o qual ele destripa o hipopótamo.

O mesmo Deus fez a águia, o abutre, o falcão e suas presas indefesas.

Em cada mão parece haver um desígnio para derrotar desígnio.

Se Deus criou o homem — se ele é o pai de todos nós, porque ele fez os criminosos, os loucos, os deformados e os idiotas?

O homem inferior deve agradecer a Deus? A mãe que embala em seu seio uma criança idiota deve agradecer a Deus? O escravo deve agradecer a Deus?

O teólogo diz que Deus governa o vento, a chuva, o raio. Como então devemos interpretar o ciclone, a inundação, a seca, o relâmpago flamejante que mata?

Suponhamos que temos um homem neste país que pudesse controlar o vento, a chuva e o relâmpago, e suponhamos que o elejamos para governar estas coisas e suponhamos que ele permitisse que estados inteiros secassem e definhassem, e ao mesmo tempo desperdiçasse a chuva no mar. Suponhamos que ele permitisse que o vento destruísse cidades e esmagasse completamente milhares de homens e mulheres e permitisse que os raios ceifassem a vida de mães e bebês. O que diríamos? O que iríamos pensar de um tal selvagem?

E, ainda assim, de acordo com os teólogos, isto é exatamente o caminho seguido por Deus.

O que pensamos de um homem que não protege seus amigos quando tem este poder? Mesmo assim o Deus dos Cristãos permitiu que seus inimigos torturem e queimem seus amigos, seus adoradores.

Quem tem engenhosidade suficiente para explicar isso?

Que homem bom, tendo o pode de impedir, permitiria que o inocente fosse preso, acorrentado em masmorras, e suspirar contra as paredes gotejantes o resto de sua miserável vida?

Se Deus governa o mundo, porque a inocência não é um escudo perfeito? Porque a injustiça triunfa?

Quem pode responder a estas perguntas?

Como resposta, o homem honesto e inteligente deve dizer: não sei.

X

O Pensador, de Rodin

Este Deus, se existir, deve ser uma pessoa — um ser consciente. Quem pode imaginar uma personalidade infinita? Este Deus deve ter força, e não podemos conceber a força separada da matéria. Este Deus deve ser material. Ele deve ter os meios pelos quais ele transforma força nisso que chamamos pensamento. Quando ele pensa, usa força e a força precisa se substituída. Ainda assim é-nos dito que ele é infinitamente sábio. Se ele for, ele não pensa. Pensamento é uma escada — um processo pelo qual chegamos a uma conclusão. Ele que conhece todas as conclusões não pode pensar. Ele não pode ter esperança ou medo. Quando o conhecimento é perfeito não pode haver paixão, nenhuma emoção. Se Deus é infinito ele não deseja. Ele tem tudo. Ele que não deseja nada não age. O infinito deve permanecer em eterna calma.

É tão impossível conceber tal ser quanto imaginar um triângulo quadrado ou pensar em um círculo sem diâmetro.

Ainda assim nos dizem que é nosso dever amar a Deus. Podemos amar o desconhecido, o inconcebível? Pode ser nosso dever amar alguém? É nosso dever agir justamente, honestamente, mas não pode ser nosso dever amar. Não podemos estar sob obrigação de admirar uma pintura — ser encantado por um poema — ou comovido com música. A admiração não pode ser controlada. O gosto e o amor não são servos da vontade. O amor é, e deve ser livre. Ele surge do coração como perfume de uma flor.

Por milhares de eras os homens e as mulheres tem tentado amar os deuses — tentado abrandar seus corações — tentado obter a ajuda deles.

Eu os vejo, todos. O panorama desfila diante de mim. Eu os vejo com as mãos estendidas — com os olhos reverentemente fechados — adorando o sol. Eu os vejo inclinando-se, em seu medo e necessidade, diante de pedras meteóricas — implorando a serpentes, bestas e árvores sagradas — rezando a ídolos esculpidos em madeira e pedra. Eu os vejo construindo altares aos poderes invisíveis, manchando-os com sangue de crianças e animais. Eu vejo os incontáveis sacerdotes e ouço seus cantos solenes. Eu vejo as vítimas moribundas, os altares fumegantes, os turíbios baloiçantes, e as nuvens que sobem. Eu vejo os homens meio deuses — os Cristos pesarosos em muitas terras. Eu vejo as coisas comuns da vida transformadas em milagres à medida que passam de boca a boca. Eu vejo os profetas loucos lendo o livro secreto do destino por sinais e sonhos. Eu os vejo, todos — os assírios cantando preces a Asshur e Ishtar — os hindus adorando Brahma, Vishnu e Daupadi, dos braços brancos — os caldeus sacrificando a Bel e Hea — os egípcios curvando-se para Ptah e Fta, Osíris e Ísis — os medas aplacando a tormenta, adorando o fogo — os babilônios suplicando a Bel e Murodach — eu os vejo, todos, junto ao Eufrates, o Tigre, o Ganges e o Nilo. Eu vejo os gregos construindo templos a Zeus, Netuno e Vênus. Vejo os romanos ajoelhados para centenas de deuses. Eu vejo outros desprezando ídolos e derramando suas esperanças e medos a uma vaga imagem na mente. Eu vejo as multidões, com as bocas abertas, recebendo como verdade os mitos e fábulas dos anos passados. Eu os vejo dar seu trabalho, sua riqueza para vestir os sacerdotes, para construir tetos altos, amplos espaços, os domos brilhantes. Eu os vejo vestidos em andrajos, amontoados em barracas e tocas, devorando migalhas e restos, que eles devem dar mais a fantasmas e deuses. Eu os vejo fazer seus credos cruéis e encher o mundo com ódio, guerra e morte. Eu os vejo com suas faces no pó nos escuros dias de pragas e morte súbita, quando as faces estão lívidas e os lábios brancos por falta de pão. Eu escuto as preces deles, seus suspiros seus soluços. Eu os vejo beijar os lábios inconscientes enquanto suas quentes lágrimas caem sobre as pálidas faces dos mortos. Eu vejo as nações, à medida que desaparecem. Eu os vejo capturados e escravizados. Eu vejo seus altares misturarem-se à terra comum, seus templos desabarem lentamente de volta ao pó. Eu vejo seus deuses ficarem velhos e fracos, enfermos e desmaiarem. Eu os vejo caírem de tronos vagos e enfumaçados, indefesos e mortos. Os adoradores não recebem ajuda. A injustiça triunfa. Trabalhadores são pagos com o chicote — bebês são vendidos — os inocente é preso em cadafalsos e os heróis perecem em chamas. Eu vejo terremotos devorar, vulcões crescer, ciclones destroçar, inundações destruir, e raios matar.

As nações pereceram. Os deuses morreram. O trabalho e a riqueza estão perdidos, Os templos foram construídos em vão e todos aqueles que rezavam morreram sem resposta no ar negligente.

Então eu perguntei-me: Existe um poder sobrenatural — uma mente arbitrária — um Deus entronizado — uma vontade suprema que governa as marés e corrente do mundo — a quem se curvam todas as causas?

Não nego. Não sei – mas não creio. Eu creio que o natural é supremo — que da corrente infinita nenhum elo pode ser perdido ou quebrado — que não existe poder sobrenatural que possa responder a preces — nenhum poder que a adoração possa persuadir ou mudar — nenhum poder que se importe com o homem.

Acredito que com braços infinitos, a Natureza abraça tudo–que não existe interferência — nenhuma possibilidade de que por trás de cada evento estão as causas necessárias e incontáveis e que além de cada evento estarão e deverão estar os efeitos necessários e incontáveis.

O homem deve proteger-se. Ele não pode depender do sobrenatural — de um pai imaginário nos céus. Ele deve proteger-se descobrindo os fatos na Natureza, desenvolvendo seu cérebro, para que ele possa superar os obstáculos e aproveitar as forças da Natureza.

Existe um Deus?

Eu não sei.

O homem é imortal?

Eu não sei.

Uma coisa eu sei, é que, nem a esperança, nem o medo, crença, nem negação pode mudar o fato. É o que é, e será como deve ser.

Aguardamos e temos esperança.

XI

Quebrando grilhões

Quando fiquei convencido de que o Universo é natural — que todos os espíritos e deuses são mitos, entrou em meu cérebro, em minha alma, em cada gota de meu sangue o senso, o sentimento, a alegria da liberdade. As paredes de minha prisão desabaram, a masmorra foi inundada de luz e todas as fechaduras e barras e algemas tornaram-se pó. Eu não era mais um servo ou escravo. Não havia para mim mestre em todo o mundo — nem mesmo no espaço infinito. Eu estava livre — livre para pensar, para expressar meus pensamentos — livre para viver meu próprio ideal — livre para viver por mim mesmo e aqueles que eu amava — livre para usar minhas próprias faculdades, todos os meus sentidos — livre para abrir as asas da imaginação — livre para investigar, para adivinhar e sonhar e ter esperança — livre para julgar e determinar por mim mesmo — livre para rejeitar todos os credos ignorantes e cruéis, todos os livros “inspirados” que os selvagens tinham produzido, e todas as bárbaras lendas do passado — livre de papas e sacerdotes — livre dos “chamados” e dos “excluídos” — livre de erros santificados e santas mentiras — livre do medo do sofrimento eterno — livre dos monstros alados da noite — livre de demônios, espíritos e deuses. Pela primeira vez eu estava livre. Não existiam lugares proibidos em todos as áreas do pensamento — nenhum ar, nenhum espaço onde a fantasia não pudesse abrir suas asas pintadas — nenhuma corrente em meus membros — nenhum chicote em minhas costas — nenhum fogo em minha carne — nenhuma careta ou ameaça do mestre — ninguém seguindo os passos de outros — nenhuma necessidade de inclinar, ou adular ou rastejar, ou proferir palavras mentirosas. Eu estava livre. Eu permaneci ereto e sem medo, alegre, enfrentei todos os mundos.

E então meu coração foi invadido pela gratidão, pelo agradecimento e continuou apaixonado por todos os heróis, os pensadores que deram suas vidas pela liberdade da mão e do cérebro — pela liberdade de trabalho e de pensamento — por aqueles que caíram nos aterradores campos de guerra, por aqueles que morreram em masmorras acorrentados — por aqueles que subiram orgulhosamente as escadas dos patíbulos — por aqueles cujos ossos foram esmagados, cuja carne foi rompida e rasgada — por aqueles consumidos pelo fogo — por todos os sábios, os bons, os corajosos de todas as terras, cujos pensamentos e feitos deram liberdades aos filhos do homem. E então eu jurei segurar a tocha que eles tinham carregado, e mantê-la no alto, esta luz ainda deve conquistar a escuridão.

Sejamos honestos conosco — honestos para com os fatos que conhecemos, e vamos, acima de tudo, preservar a veracidade de nossas almas.

Se existirem deuses, não podemos ajudá-los, mas podemos ajudar nossos semelhantes. Não podemos amar o inconcebível, mas podemos amar a esposa, os filhos e os amigos.

Podemos ser tão honestos quanto somos ignorantes. Se formos, ao nos ser perguntado o que existe além do horizonte do conhecido, devemos dizer que não sabemos. Podemos contar a verdade, e podemos desfrutar da bendita liberdade que os corajosos conseguiram. Podemos destruir os monstros da superstição, as serpentes cissiantes da ignorância e do medo. Podemos expulsar de nossas mentes as coisas assustadoras que rasgam e ferem com bico e presa. Podemos civilizar nossos semelhantes. Podemos encher nossas vidas com feitos generosos, com palavras amorosas, com arte e música, e todos os êxtases do amor. Podemos inundar nossos anos com a luz do sol — com o divino clima da gentileza, e podemos drenar a última gota da taça dourada da alegria.

As Várias Terceiras Revelações

3 de outubro de 2012 9 comentários

Índice

* * *

O Consolador Prometido

3 – Se me amais, guardai os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro consolador, para que fique eternamente convosco, o Espírito da Verdade, a quem o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece. Mas vós o conhecereis, porque ele ficará convosco e estará em vós. – Mas o Consolador, que é o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito. (João, XIV: 15 a 17 e 26)

4 – Jesus promete outro consolador: é o Espírito da Verdade, que o mundo ainda não conhece, pois que não está suficientemente maduro para compreendê-lo, e que o Pai enviará para ensinar todas as coisas e para fazer lembrar o que Cristo disse. Se, pois, o Espírito da Verdade deve vir mais tarde, ensinar todas as coisas, é que o Cristo não pode dizer tudo. Se ele vem fazer lembrar o que o Cristo disse, é que o seu ensino foi esquecido ou mal compreendido.

O Espiritismo vem, no tempo assinalado, cumprir a promessa do Cristo: o Espírito da Verdade preside ao seu estabelecimento. Ele chama os homens à observância da lei; ensina todas as coisas, fazendo compreender o que o Cristo só disse em parábolas. O Cristo disse: “que ouçam os que têm ouvidos para ouvir”. O Espiritismo vem abrir os olhos e os ouvidos, porque ele fala sem figuras e alegorias. Levanta o véu propositalmente lançado sobre certos mistérios, e vem, por fim, trazer uma suprema consolação aos deserdados da Terra e a todos os que sofrem, ao dar uma causa justa e um objetivo útil a todas as dores.

(…)

Assim realiza o Espiritismo o que Jesus disse do consolador prometido: conhecimento das coisas, que faz o homem saber de onde vem, para onde vai e porque está na Terra, lembrança dos verdadeiros princípios da lei de Deus, e consolação pela fé e pela esperança.

O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. VI.

Para os que não sabem, o Espírito de Verdade seria o chefe de uma “falange espiritual” responsável por boa parte das comunicações, digamos, edificantes compiladas por Allan Kardec. Seu advento é tido pelos espíritas kardecistas como o começo da “Terceira Revelação”, a chegada do “Consolador Prometido”, ou Paracleto num linguajar mais helênico. A Primeira Revelação teria sido a Lei Mosaica, a Segunda, os Evangelhos e, então, vinha o espiritismo dar continuidade e cumprimento à profecia. Isso cabe bem como um caso de interpretação pesher porque (1) deu a um texto antigo um significado que seus primeiros leitores dificilmente admitiriam e (2) houve, ao longo da história, várias outras apropriações desses versículos. A atual ortodoxia cristã associa-os com a descida do Espírito Santo em “línguas de fogo” descrita em At 2:1-4, mas talvez a questão seja um pouco mais complexa. Neste artigo, gostaria de começar por essa segunda característica e só depois retornar à discussão sobre “quem é o consolador prometido, o Paracleto?”.

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A Nova Profecia

Por volta do fim do segundo século da era cristã, surgiu na província romana da Frígia (no coração da atual Turquia) um movimento dentro da proto-ortodoxia cristã que se autodenominava “Nova Profecia”, mas seria posteriormente chamado de “montanismo” por seus adversários em alusão a seu fundador: um recém-converso cristão de nome Montano que, um belo dia, passou por uma cartase e manifestou um “dom de profecia” muito similar ao hoje alegado por igrejas pentecostais.

Tudo o que sabemos sobre essa personagem nos veio de forma indireta, principalmente de seus adversários, como Eusébio de Cesareia e Epifânio de Salamina(1). Por outro, lado, uma amostragem mais fanática simpática sobre os preceitos desse movimento chegou-nos através de ninguém menos que Tertuliano de Cartago, um também converso e vigoroso apologista do cristianismo proto-ortodoxo. De tão radical em sua prosa, pode-se cogitar por que Tertuliano foi progressivamente atraído por certos aspectos do montanismo, como sua vigilância moral, ascetismo e proibição de segundas núpcias em caso de viuvez. Até aí, nada muito destoante da teologia proto-ortodoxa se esse rigorismo não fosse um corolário das êxtases proféticas de Montano: o fim estava próximo e o grosso da Igreja não estava moralmente apto para sua chegada.

Montano junto com suas duas consortes em profecia – Priscila (ou Prisca) e Maximila – eram tidos por seus seguidores como “os (profetas) que Senhor havia prometido enviar a seu povo“(3), numa alusão indireta a Jo 14:26. Associações mais explícitas de Montano com o “consolador” permanecem em relatos de outros autores do século IV como Dídimo, o Cego,(4) e mais notoriamente em Epifânio:

O mesmo Montano acrescenta: “Eu sou o Senhor Deus, o Todo Poderoso, residindo num homem“. Felizmente a sagrada escritura e o curso dos ensinamentos do Santo Espírito mantêm-nos a salvo ao nos dar avisos para que saibamos quais são as falsificações do estranho espírito e os opostos da verdade. Ao simplesmente dizer isso, Montano sugeriu que lembremos das palavras do Senhor. Pois o Senhor diz no Evangelho: “vim em nome de meu Pai, e não me recebeis; se outro vier em seu próprio nome, a esse recebereis” (Jo 5:43). Montano está, assim, em total desacordo com as sagradas escrituras, como qualquer leitor atento pode ver. E já que está em desacordo, <ele mesmo> e a seita, que como ele se gaba de ter profetas e dons, são estranhos a santa igreja católica. Ele não recebeu esses dons, afastou-se deles.

Que pessoa racional se atreveria a chamar essas pessoas de profetas em vez de enganadores? Cristo nos ensinou: “Envio-vos o Espírito, o Paracleto“(cf. Jo 16:7), e para dar os sinais do Paracleto, disse: “Ele me glorificará“(Jo 16:14). E na verdade está claro que os santos apóstolos glorificaram o Senhor após receber o Espírito Paracleto, enquanto Montano glorifica si mesmo. O Senhor glorificou seu Pai, e, em seguida, o Senhor glorificou o Espírito ao chamá-lo de Espírito de verdade. Montano, contudo, glorifica apenas a si, e diz ser o Pai Todo Poderoso, e que <o espírito enganoso> que reside nele <é o Paracleto> – prova afirmativa de que ele não é o Pai, não foi enviado pelo Pai, nem recebeu nada do Pai.

Panarion, sç IV, cap. XLVIII, p.16

Entre < > estão reconstruções conjecturais.

Convém lembrar que Epifânio está longe de ser um argumentador moderado. Certo que ninguém está livre de algum viés, mas ele foi o tipo de pessoa que abusou um pouco do direito à parcialidade (5). No entanto, as distorções e exageros que produzia deviam ter algum fundamento aspectos reais e bem mais amenos das seitas que criticava. No caso de Montano, é provável que ele não se julgasse “o Pai”, mas o último canal autoritativo para ele. É possível que ele e Dídimo tivessem se valido de um documento em circulação no século IV chamado de Diálogo entre um Montanista e um Ortodoxo em que se encontra a alegação de que os montanistas davam seu líder como sendo o Paracleto. Jerônimo, em sua carta n. 41, faz alegação semelhante(6) e, como ambos foram contemporâneos, é possível que hajam bebido água da mesma fonte.

O que dá realmente substância ao relato dos heresiólogos do século IV quanto à alegada relação entre Montano e o Paracleto é uma breve menção a esse último feita pelo simpatizante Tertuliano, dois séculos antes:

No curso do tempo, então, o Pai verdadeiramente nasceu, e o Pai sofreu, o próprio Deus, o Senhor Todo Poderoso, a quem em suas orações declaram ser Jesus Cristo. Nós, contudo, como desde o sempre fizemos (ainda mais especialmente depois que viemos sendo melhor instruídos pelo Paracleto, quem realmente levou os homens à verdade total), acreditamos que há um único Deus, mas sob a seguinte dispensação, ou οἰκονομία, como é chamada: esse único Deus também tem um Filho, Seu Verbo, que procedeu dEle mesmo, por meio do qual todas as coisas foram criadas, e sem o qual nada foi feito. (…)

Contra Práxeas (7), cap. II.

Ao contrário dos heresiólogos, as referências aos pontos advogados pela Nova Profecia se encontram dispersos em sua obra, se tornando mais frequentes no fim da vida. Seus adversários é que fariam uma exposição mais sintética e sistemática, pois assim poderiam refutá-la melhor.

Mas talvez Epifânio e os demais já estivessem “chutando cachorro morto” como se diz no popular. As profecias montanistas não se cumpriram no tempo previsto e nada melhor que vaticínios fracassados para abalar a credibilidade de seitas. Que o digam os adventistas e testemunhas de Jeová modernos, que pararam de dar uma data certa para o Juízo Final. Na passagem do século IV para o V, Agostinho de Hipona compôs Sobre as Heresias e no capítulo LXXXVI relata a existência, ainda em seu tempo, de remanescentes de uma “Igreja Tertuliana” em Cartago, na atual Tunísia. Não fica claro se são uma evolução do movimento propagandeado por Tertuliano ou se ele rompera com a “Nova Profecia”. Tal remanescente acabou por se converter à ortodoxia (8).
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Todos em Um

Mani

Ao sul da Mesopotâmia (atual Iraque), no começo do terceiro século da Era Comum, nasceu um menino de nome Mani (9), cujo pai se convertera à seita cristã dos elcesaítas (10) – após ouvir uma voz durante um culto pagão o conclamando à abstinência de carne, vinho e mulheres – e o levou para ser criado na comunidade dela. Aos doze anos teve uma visão de seu “gêmeo celestial” (syzygos, em grego) a lhe instruir sobre uma nova revelação que deveria pregar. Voltou a encontrá-lo aos vinte e quatro anos, um antes de atingir a maioridade religiosa, e decidiu que já era hora de agir. Mani passou a se considerar o último de uma longa cadeia de profetas, que incluía Zoroastro, Jesus e Buda e portador de uma mensagem que reuniria todos os credos fundados por eles e os superaria. Em sua vida, viu a ascensão da dinastia Sassânida na Pérsia e pregou por todo seu império, sob os auspícios do rei Sapor I, fundou comunidades, refinou sua doutrina e, criam seus fiéis, realizou milagres. Na pessoa de Mani, então, reuniam-se o carisma de Jesus, a atividade missionária de Paulo e a capacidade intelectual de Orígenes ou de Agostinho. Tudo correu bem até a morte de Sapor em 272, quando Mani caiu em desgraça, foi perseguido por sacerdotes zoroastristas e morreu pouco depois no cativeiro. Sua mensagem, por sua vez, já havia se espalhado o bastante para ainda resistir por quase um milênio e meio. (11)

Expansão do Maniqueísmo

Etapas do Maniqueísmo. Fonte: Transcultural Studies, nr. 1 (2011).

Sua doutrina lembra as linhas gerais das diversas correntes gnósticas que existiam pelo Oriente Médio e o Mediterrâneo, principalmente no que diz respeito ao dualismo Bem versus Mal, identificado com o conflito entre Espírito e Matéria, Luz e Trevas. Para Mani, originalmente esses dois campos se encontravam separados, mas, após um conflito cósmico, misturam-se dando início ao cárcere das almas no corpo físico. O objetivo mais nobre de uma vida humana, portanto, seria desapegar-se por meio de uma iluminação espiritual através do conhecimento (gnose) da verdade espiritual. Ao morrer o corpo físico, a alma que já estivesse suficientemente liberta da matéria ascenderia ao domínio do espiritual, do contrário renasceria em outro corpo físico. Mas vale atentar que muitas das características que julgamos terem sido comuns em seitas gnósticas – esoterismo, elitismo e o mundo como o produto de um demiurgo inferior – se encontram ausentes nela. Todos eram chamados para a fé, o conhecimento e as boas obras, calcando o maniqueísmo como uma religião para a ação neste mundo material. A encarnação das almas não se deveu a um erro cometido, mas a uma tragédia que afetou a todas indistintamente.

Durante muito tempo nossa principal fonte de informações a respeito dessa religião foram os relatos de antimaniqueus e convém destacar dentre eles o mais famoso ex-maniqueu que o Ocidente teve notícia: Agostinho de Hipona. Em sua obra Confissões (Livros III e IV) somos informados de que fora adepto dela na juventude e o tom não é nem um pouco reverente, mas sem grande explicações doutrinárias, a não ser a acusação de frouxidão moral. Uma descrição mais sistemática é dada por ele em Sobre as Heresias, capítulo XLVI, em que descreve essa religião sincrética como se estivesse mais para uma heresia cristã, tendo inclusive, uma hierarquia sacerdotal assemelhada. É nesse mesmo capítulo que Agostinho atesta que os maniqueus consideravam seu profeta como o Consolador prometido em João.

Contudo, eles de fato atestam que Cristo existiu, alegam ter sido iluminados pela que nossa escritura chama de Serpente, de modo que abriram os olhos do conhecimento (cognitio) e foram capazes de separar o bem do mal, mesmo supondo-se que Cristo teve de vir nos tempos recentes para libertas as almas, não os corpos. Nem se supõe que tenha tido uma verdadeiro corpo, mas ofereceu aos sentidos humanos um aspecto simulado de carne a fim de enganá-los, no qual fingiu não apenas sua morte, mas também sua ressurreição.

O Deus que deu as Leis por meio de Moisés e falou pelos profetas hebreus não é tido como sendo o verdadeiro Deus, mas um dos príncipes das trevas. E leem as próprias escrituras do Novo Testamento como se fossem falsificadas, tomando delas o que lhes agrada e rejeitando o que desgostam e ainda dão prioridade a várias escrituras apócrifas, como se contivessem tudo que é verdadeiro.

Dizem que a promessa de Jesus Cristo do Espírito Santo paracleto foi cumprida em seu heresiarca Mani. Por Conseguinte, em seus escritos, declara-se apóstolo de Jesus Cristo, porque Jesus Cristo prometera que enviaria a si mesmo e nele enviou o Espírito Santo.

E por essa razão, o próprio Mani teve doze apóstolos, numa imitação do número apostólico, que os maniqueus preservam até este dia. Pois, entre seus Escolhidos, possuem doze a quem chamam de mestres e um décimo terceiro a quem têm como seu prior. Há 72 bispos, que são ordenados pelos mestres, e presbíteros, que são ordenados pelos bispos. Também possuem diáconos dos bispos.

Agostinho também faz acusações de “atos imorais” praticados entre maniqueus (12), uma atitude que o deixa, de certa forma, próximo aos métodos de Epifânio. Vale ressaltar que ele teve a vantagem de ter sido efetivamente maniqueu em sua juventude, ainda que isso não lhe garanta respaldo absolutamente. Felizmente, a partir do começo do século XX, uma boa quantidade de documentos de punho maniqueu foram redescobertos, que nos permitem saber como eles viam a si mesmos. Eis um salmo usado na festividade de “bema” (13) que sintetiza um bocado dos conceitos de sua teologia:

Salmo CCXXIIII dos salmos maniqueus coptas

Adoremos o Espírito do Paracleto (Consolador).
Abençoemos nosso Senhor Jesus que nos enviou
o Espírito da Verdade. Ele veio e nos separou do Erro
do mundo, trouxe-nos um espelho, olhamos, vimos o Universo nele.

Quando o Espírito Santo veio, ele nos revelou o caminha da Verdade
e nos ensinou que existem duas Naturezas, a da Luz e a da Escuridão,
separadas uma da outra desde o princípio.

O Reino da Luz, por sua vez, consistia nas cinco Grandezas,
e elas são o Pai e seus doze Éons e os Éons dos Éons,
o Ar Vivente, a Terra da Luz; o grande Espírito a soprar neles
nutrindo-os com sua Luz.

Mas o Reino da Escuridão consiste de cinco câmaras,
que são Fumaça e Fogo e Vento e Água e Escuridão,
com sua Resolução se infiltrando entre eles, movendo-os e incitando-os a
guerrear um com o outro.

Agora que estão guerreando um com o outro, atreveram-se a fazer uma
investida sobre a Terra da Luz, pensando que seriam capazes de conquistá-la.
Mas não sabem que o que pensaram em fazer eles farão cair
sobre suas próprias cabeças.

Mas havia uma multidão de anjos na Terra da Luz tendo poderes para ir
subjugar o inimigo do Pai, a quem agradou que pelo Verbo seu que enviaria,
haveria de subjugar os rebeldes que desejaram se exaltar acima do que era mais
exaltado que eles.

Como um pastor que ao ver um leão vindo destruir seu rebanho,
então ele usa um artifício e pega um cordeiro e coloca-o como uma armadilha para poder capturá-lo
por meio dele: assim com um único cordeiro, salva todo o rebanho. Após isso, ele trata o cordeiro que fora ferido pelo leão.

Dessa maneira também agiu o Pai,
que enviou seu poderoso Filho.
Produziu a partir de si mesmo sua Donzela, proveu com os cinco Poderes
para que ela pudesse lutar contra os cinco Abismos da Escuridão.

Quando o Vigilante (14) se recusou a sair de dentro das fronteiras da Luz
ele mostrou os poderes da Escuridão a sua Donzela, que é sua Alma.
Eles ficam agitados no Abismo e quiseram possuí-la,
abriram suas bocas e tentaram engoli-la.

Ele tomou o poder da Donzela e o espalhou sobre os Poderes da Escuridão,
como uma rede aos peixes, lançou a sobre eles.
Como nuvens purificadas, ela os penetrou como um luminoso e perfurante golpe.
Ela se infiltrou dentro de suas entranhas e selou-os sem que sequer soubessem.

Quando o Primeiro Homem havia terminado sua luta, o Pai enviou seu Segundo Filho.
Ele veio e ajudou seu irmão a sair do Abismo.
Construir este mundo todo a partir da mistura
que se originara da existência de Luz e Escuridão.

Todos os Poderes do Abismo ele espalhou pelos dez Céus e oito Terras,
aprisionou-os neste Mundo e fez dele uma masmorra para todos os Poderes da Escuridão.
Este mundo, contudo, também é um lugar de purificação da alma
que fora tragada pelos Poderes da Escuridão.

O Sol e a Lua foram criados e postos nas alturas para purificar a Alma
Eles levam diariamente a parte refinada acima para as alturas, mas destroem o resíduo.
Intercomunicam-na acima e abaixo.

Este mundo inteiro permanece firme por uma Razão,
já que há um grande Edifício sendo erguido fora deste Mundo.
À Hora quando o Arquiteto o completar, o mundo inteiro será dissolvido.
Por-se-á fogo nele, para que tal fogo o derreta embora.

Toda Vida, os Remanescentes da Luz de todo Lugar,
ele reunirá consigo e dela formará uma Estátua (Eidolon – imagem, similitude).
Mesmo também a Resolução da Morte, a totalidade da Escuridão,
ele reunirá e fará uma imagem de si mesmo junto com o Arconte.

Num instante, o Espírito Vivente virá.
Ele irá amparar a Luz,
mas a Resolução da Morte e da Escuridão
trancará na câmara que foi construída para ela a fim de que jaza em grilhões para sempre.

Não há outro meio exceto esse meio para selar o Inimigo,
pois ele não foi recebido na Luz porque é estranho a ela,
mas também não será deixado em sua Terra de escuridão,
para que não trave uma guerra maior que a primeira.

Um novo Éon será construído no lugar deste Mundo, que será dissolvido,
para que nele os Poderes da Luz possam reinar
já que eles realizaram e cumpriram toda a vontade do pai.
Eles destronaram o odioso, derrotaram-no para sempre.

Este é o conhecimento de Mani,
adoremo-lo e louvemo-lo.
Abençoado é todo homem que confiar nele
pois ele viverá com os Justos.

Honra e Vitória a nosso Senhor Mani, o Espírito da Verdade,
que veio do Pai e nos revelou
o Princípio, o Meio e o Fim.
Vitória à Alma dos Abençoados Maria (15), Theona, Pshai, Jemnoute (16).

Fonte: The Gnostic Society Library

O maniqueísmo, como religião missionária, chegou a rivalizar com o cristianismo na disputa por corações e mentes, mas ficou em séria desvantagem após esse (em sua versão nicena) ter adquirido o status de credo oficial em 380 d.C. e uma combativa contrapropaganda feita por ortodoxos (Agostinho entre eles). Ainda assim, continuaram com alguma expressividade no mundo romano pelo menos até o século VI, quando o imperador Justiniano desfechou violenta repressão contra eles(17). Nas regiões do Oriente Médio além do rio Eufrates, seu declínio se deu a partir da conquista muçulmana, levando o maniqueísmo a se refugiar ainda mais a oste, pela Índia, até chegar às vizinhanças da China, onde chegou a ser a religião oficial do Império Uigur (centrado na atual Mongólia) a partir da conversão de seu primeiro monarca (763 d.C.) até seu desmembramento em 840. Pela patronagem uigur, missionários maniqueus estabeleceram comunidades em cidades chinesas mais ao norte e chegaram a converter alguns locais, mas sua religião foi proibida após a queda de seus protetores. Ela sobreviveu à ilegalidade e reapareceu ao sul da China sob o disfarce de uma seita budista/taoista, que durou até o século XVII (18).

Especula-se que a heresia cátara (ou albigense) na França medieval e bogomila nos Bálcãs teriam sido descendentes de seitas maniqueias, o que ainda é controverso. Os adeptos da primeira foram esmagados na Cruzada Albigense (1209-44) e os da última passarão por uma conversão em massa após a conquista turca e deram origem aos atuais muçulmanos da Bósnia (19).

Origem do catarismo

A difusão do catarismo pela Europa. Fonte:Cathar.Info

* * *

Um dito atribuído a Mani declara que “sabedoria e boas obras têm sido transmitidos em sucessão perfeita de era em era pelos mensageiros de Deus. Vieram em uma era por meio do profeta chamado Buda na região da Índia, em outra por meio de Zoroastro no território da Pérsia e ainda outra por meio de Jesus nas terras do Ocidente” (20). Quando sua doutrina já estava em declínio, um novo profeta estava prestes a receber uma revelação na caverna de uma montanha do grande deserto arábico.

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O Louvado Prometido

A Viagem de Maomé aos Céus

Manuscrito persa de meados do século XVI exibindo iluminura com a viagem de Maomé (representado com o rosto coberto) aos Céus.

Nos instantes finais de uma longa guerra travada contra os bizantinos, O imperador sassânida Cosroe II foi surpreendido com a chegada de um inusitado mensageiro de um desses homens santos que de vez em quando apareciam no deserto ao sul de seus domínios. O conteúdo da mensagem era um convite para que ele se submetesse à religião recém-revelada por aquele profeta da região de Hejaz. Irritado, Cosroe rasgou a carta e ordenou que dois de seus homens acompanhassem aquele mensageiro até o remetente para lhe dar sua resposta. Lá chegando, os dois dignatário o intimaram a ir até a Pérsia, do contrário “seu povo seria destruído e seu país devastado”. O profeta disse-lhes para voltar na manhã seguinte e, quando o fizeram, foi lhes passada a revelação de que seu monarca já fora deposto e morto pelo próprio filho. Estupefatos e descrentes, ameaçaram escrever a Cosroe constando dessa insolência e ouviram uma resposta mais assombrosa ainda: “Sim, digam-lhe a meu respeito e digam-lhe que minha religião e minha soberania alcançarão limites que o reino de Cosroe nunca atingiu” (21). Assim desafiou-lhes Abū al-Qāsim Muḥammad ibn ʿAbd Allāh ibn ʿAbd al-Muṭṭalib ibn Hāshim, vulgo Maomé.

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Quando os Versos desceram à Terra


A partir do capítulo XI da narrativa do livro de Gêneses, somos apresentados à figura de Abraão, homem com um relacionamento muito pessoal com o deus Iahweh, o qual lhe ordenou abandonar sua terra natal (Ur, no atual Iraque) e seguir para Canaã. Como retribuição a sua fidelidade, foi garantida a Abraão a posse daquela terra para ele e a futura vasta descendência que haveria de ter. Contudo, Sara, sua esposa, reconheceu que já era muito velha para ter filhos e, por isso, ofereceu sua serva egípcia – Agar – ao marido, a fim de que pudesse lhe dar descendentes. Da conjunção carnal entre os dois nasceu Ismael, mas os planos divinos eram outros. Mesmo avançada em anos, Sara engravidou e deu à luz a Isaque, o que a pôs em confronto direto com Agar e seu rebento. Pressionado, Abraão se despediu dos dois no deserto de Berseba (cap. XXI), mas Iahweh o consolou garantindo que, embora seu pacto viesse a ser cumprido em Isaque, de Ismael também viria uma grande nação. Repetiu a promessa à desolada Agar e a amparou em sua jornada. Ismael cresceu e casou-se com uma egípcia.

Isso é tudo que a Torá fala a respeito da personagem Ismael. Para as tribos nômades da península arábica do século VI, esse era o único registro escrito (embora emprestado dos judeus) a lhes dar um senso de identidade, a crença de um antepassado comum que, de certa forma, contava com a boa vontade divina. A esse relato, acrescentaram a tradição oral de que Abraão e Ismael construíram um templo no coração do Hejaz (22) – a Caaba (Cubo) – que seria a morada de seu deus – chamado por eles de Alá – na Terra. E Ele não estava sozinho ali, mas partilhando a companhia de diversos outros ídolos de seres sobre-humanos da Arábia pré-islâmica. A cidade de Meca, nascida em torno da Caaba, já era há muito centro de peregrinação religiosa e o ponto de encontro de diversas caravanas de camelos. Era um oásis não só no sentido literal como também sendo um porto seguro onde diversas tribos faziam trégua durante as celebrações religiosas e arbitravam conflitos que normalmente resolviam pelo fio da espada.

Nesse tecido sociocultural frouxo e esgarçado nasceu Maomé em 570 d.C., pertencente à tribo dos coraixitas – a mais forte de Meca e responsável pela coordenação das peregrinações. Ainda assim, não foi exatamente o que se pudesse chamar de um “berço de ouro”: seu clã era um dos mais pobres da tribo e o bebê Maomé já nasceu órfão de pai e viria a perder a mãe ainda criança. Passou aos cuidados do avô e, depois, aos do tio Abu Talib, com quem aprenderia o ofício do comércio em caravanas. Provavelmente, foi pelas caravanas que travou contato com as culturas monoteísta cristã e judaica, adquirindo certo gosto pela religiosidade. E foi também por meio do comércio que teve contato com a rica viúva Cadija, a quem prestou serviços. Impressionada com sua honestidade e tino para negócios, pediu-lhe em casamento. Embora houvesse grande diferença de idade (ela estava 40 anos, quinze a mais que ele), Maomé aceitou e tiveram uma união feliz. Ainda que aceitasse a poligamia, só casou novamente após enviuvar de Cadija.

Um hábito cultivado por Maomé era se retirar para locais ermos, onde pudesse medita e orar a Alá. Certa noite, por volta de 610, numa caverna na encosta de uma montanha nas proximidades de Meca, teve a visão de um ser etéreo – posteriormente identificado como o anjo Gabriel – a lhe ditar mensagens em verso e cobrar que repetisse. Esse primeiro contato direto com o sobrenatural foi um susto. Maomé chegou a pensar estar perdendo o juízo. Foi com o amparo e encorajamento de Cadija e de um primo cristão dela (Waraqah ibn Nawfal) que aceitou sua missão como o último dos profetas prometidos. De seu círculo familiar vieram os primeiros muçulmanos (submissos) à nova religião, o Islã (submissão a Deus). Maomé memorizava as revelações recebidas mais tarde as recitava para eles e, cerca de três anos depois, o fazia publicamente em Meca.

Sua mensagem pregava a solidariedade, a compaixão, bondade para com os escravos, o uso das riquezas para o Bem comum e o fim da usura. Se apenas isso, nada muito de arriscado para ele, pois, de certa forma, estaria dizendo aos árabes para praticarem com todos os valores que já exerciam dentro dos próprios clãs. Um tópico fundamental de suas revelações ainda não dito, contudo, era extremamente delicado para seus contemporâneos: a adoração exclusiva a Alá, o que implicava na rejeição de todos os ídolos da Caaba e um risco para o lucrativo comércio durante as peregrinações. Felizmente, Maomé pôde contar com a diplomacia do tio e com os contatos sociais de sua esposa, mas em 619 ambos faleceram, deixando-o em confronto direto com a elite coraixita.

Foram tempos sombrios: seus seguidores foram perseguidos ou boicotados, os escravos conversos humilhados e o muitos simpatizantes o renegavam. Nem mesmo a visão que teve de ser levado no dorso de um animal fantástico, com a condução do anjo Gabriel, para o Monte do Templo em Jerusalém e de lá ascender pelos sete céus até o trono de Alá aplacou o receio de seus seguidores (23). Maomé até chegou a cogitar uma saída diplomática tratando algumas deidades da Caaba como subordinadas a Alá, o que escandalizou seus seguidores e muniu os adversários da acusação de incoerência. Essas revelações heterodoxas foram, então, atribuídas a Satanás e não a Gabriel, ficando conhecidas como “os versos satânicos“. Percebendo que o cerco, enfim, se fechava quando informado de um plano para assassiná-lo, Maomé se voltou a um grupo de mercadores que conhecera numa das feiras de Meca. Admirados com suas palavras, intuíram que elas poderiam selar a paz entre os clãs de sua terra natal – Iatrib, um oásis localizado a cerca de 300 km ao norte – e transformá-la numa grande ummah (comunidade) do Islã. O profeta e alguns seguidores para lá partiram em meados junho de 622, numa jornada que ficaria conhecida como “Hégira” (migração). Esse seria considerado o marco inicial do calendário muçulmano (25).

Em Iatrib, sua pregação frutificou e uniu as tribos árabes em torno de si, mas ainda havia a resistência das judaicas. São dessa época as revelações com leis dietéticas similares às judaicas, adoção da circuncisão masculina e as orações voltadas para Jerusalém. Como seu discurso não repercutiu tanto entre os judeus – afinal não era descendente de Davi (26) -, as orações passaram a ser feitas em direção a Meca a partir de 624 e o jejum passou a ser realizado no mês de Ramadã, em ver do hebraico Ashuma, dando à nova religião um perfil mais árabe.

Com uma base segura consolidada, iniciaram-se ataques a caravanas com destino a Meca, cuja elite mercantil retaliou em 624 com uma expedição de 800 homens. A vitória contra essa força na batalha de Badr, encheu Maomé de prestígio e poder, permitindo-lhe firmar sua posição política em Iatrib, que fora renomeada para “Madinat al-Nabi” – Cidade do Profeta – ou, simplesmente, Medina.

Os coraixitas de Meca não deixariam tamanha humilhação passar em branco e no ano seguinte retornaram com carga mais pesada contra os muçulmanos no ano seguinte. Em embate truculento travado ao norte de Medina, na cadeia de montanhas de Uhmud, os aliados de Maomé levaram a pior e só não foram massacrados de vez porque o custo da tomado de Medina foi considerado alto demais pelos coraixitas. Com o moral dos crentes abalado, novas revelações garantiam recompensas pós-morte aos que tombassem lutando pelo Islã. Era o embrião do conceito de jihad, palavra que pode significar tanto “luta” como “empenho”: luta contra si e empenho contra os inimigos.

A “prova de fogo” dos muçulmanos de Medina veio em 627, quando Meca reuniu com seus aliados um exército de 10.000 homens, ao passo que as forças de Maomé eram cerca de 3.000. Entendendo ser impossível vencer por um combate aberto, o profeta optou por uma tática defensiva. Como Medina já possuía barreiras naturais de colinas e rochedos em três direções, mandou cavar um largo fosso ao longo da única que estava desprotegida. A estratégia deu certo e, após quase um mês, os sitiantes se retiraram por falta de suprimentos. Esse episódio – a “Batalha da Trincheira” – deu nova mística à figura do líder muçulmano.

A ascensão dos muçulmanos de Medina, porém, teve consequências nefastas para as três tribos judaicas locais. Seu pouco empenho na defesa de Medina e o vínculo comercial entre elas e a elite coraixita sempre deixaram Maomé com uma “pulga atrás da orelha”. Os qaynuqas quase tiveram seu destino selado após Badr, não fosse a tensa diplomacia de um rabino com Maomé, que conseguiu comutar a pena para exílio. Após Uhmud, chegou a vez de os Banu Nadir deixarem Medina e um destino pior aguardava a tribo Qurayzah: embora membros seus tenham ajudado a cavar o fosso usado na “Batalha da Trincheira”, ela foi acusada de maquinar contra Maomé, tendo seus varões executados, suas mulheres e crianças escravizadas. Conforme a oposição do judeus amainou após a consolidação final do Islã, eles foram readmitidos na cidade.

Nem só de armas se fez o jihad do crentes, que também se valeu de muita habilidade diplomática, marcada pelos diversos casamentos que Maomé contraiu (27) para adquirir alianças e pela compra da lealdade dos nômades, que foi financiada pelo controle das rotas de caravanas. Sentindo-se forte o bastante, Maomé lançou um último estratagema ao peregrinar com setecentos seguidores à Caaba.

Imagem da Caaba

A Caaba ao centro da Mesquita de Meca. O local mais sagrado do islamismo.

Embora fossem um alvo fácil, qualquer ataque a peregrinos destruiria a credibilidade de Meca. Por outro lado, sua presença na cidade seria um ultraje. Chegou-se a um acordo em que, por uma trégua de dez anos, os citadinos se comprometiam a evacuar Meca anualmente por três dias para peregrinação dos muçulmanos. O pacto não durou muito, pois em 629 uma briga entre uma tribo muçulmana e outra de Meca deu a Maomé o pretexto que precisava para se pôr em marcha. No Ramadã de 630, ele e dez mil dos seus adentraram sem resistência numa cidade dividida, cujo moral já estava combalido. Destruiu todos os ídolos da Caaba, à exceção da “Pedra Negra” (28), perdoou inimigos e tornou-se a principal força político-militar do Hejaz. O próximo passo foi a submissão dos demais governantes a península e a eliminação de outros grupos de profetas rivais.

Maomé morreu em 632 da Era Comum, de pleurisia, poucos meses após chefiar uma peregrinação de oitenta mil fiéis (29). Com os pés no chão e os olhos no céu, aquele antigo menino órfão conseguira transformar um povo desunido numa única e poderosa ummah. A identidade e o humanismo árabe não residiam mais na lealdade à tribo de nascença, mas na pertinência a uma grande irmandade calcada na submissão a Alá.
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A (Terceira) Revelação do Deserto

Nada do que foi dito acima consta no Alcorão – o livro sagrado dos muçulmanos ( Al Kuran, “A Recitação”). São relatos constantes em biografias posteriores de Maomé, como a Sirat Rasul Allah (“Vida do Mensageiro de Deus) de Ibn Ishaq (30). O Alcorão, por si mesmo, possui pouca informação biográfica. Ele não é um épico nacional como a Tanach dos judeus, nem narrativas proselitistas como os Evangelhos. Para seus crentes ele é a própria palavra de Alá em versos eufônicos com instruções precisas de como um muçulmano deve agir e sua comunidade funcionar. Nele estariam contidas apenas as revelações recebidas por Maomé, divididas em 114 suras (ou suratas), organizadas grosso modo por tamanho, e subdivididas em ayat (“versos”). Nenhuma das suras foi transcrita pelo punho de Maomé, que as repassava oralmente, mas foram registradas por seguidores seus e compilados no governo de seu genro Utman (644-56). Uma sura, em particular, tem relação com o tema aqui tratado:

Sura 61

As Fileiras

4. Olhai: Alah ama esses que batalham pela Sua causa em fileiras, como se fossem uma estrutura sólida!

5. E recordai-vos de quando Moisés disse ao seu povo: – Ó meu povo! Por que é que vós me perseguis quando bem sabeis que sou um mensageiro de Alah para vós? Portanto, quando eles se desencaminharam Alah desencaminhou os seus corações. E Alah não guia o povo que vive no pecado.

6. E quando Jesus, filho de Maria disse: – Ó Filhos de Israel! Olhai: eu sou o mensageiro de Alah para vós; confirmo isso que foi revelado ante mim no Torah (1) e dou as boas novas de um mensageiro que há de vir depois de mim, cujo nome é O que é Louvado! (2) Contudo, quando ele veio para eles, como provas evidentes, disseram: – Isto é simples magia.

Notas do tradutor
(1) Os livros de Moisés
(2) Em arábico: Ahmad, nome do Profeta da Arábia. “O que conforta” – foi tido por muitas comunidades cristãs do Oriente como um profeta que havia ainda de chegar e, muitos deles, aceitaram Muhamad como sendo esse profeta.

Alcorão, tradução de portuguesa de Bento de Castro, Ed. Lourenço Marques, 1964

Não há nenhum versículo nos evangelhos falando desse “Louvado” que estaria por vir depois de Jesus. Ainda assim, A crença na vida de um Ahmad era tida pelos primeiros muçulmanos como intrínseca ao cristianismo. O historiador persa Muhammad ibn Jarir al-Tabari (838–923), por exemplo, registrou relatos (pouco verossímeis) sobre o imperador bizantino Heráclio, após receber um mensageiro de Maomé como Cosroe II, consultando eruditos eclesiásticos, que lhe confirmaram ser o Ahmad aquele profeta “mencionado pelo nome em nossas escrituras” [Guillaume, pp. 654-7]. Óbvio que a opinião cristã era bem diferente:

Quando outra vez perguntamos: “Como é que, quando ele vos determinou nesse vosso livro que não façais ou recebeis nada sem testemunhas, não lhe pedistes: ‘Primeiro, mostre-nos por testemunho que és um profeta e que vieste de Deus e mostre-nos exatamente quais são as Escrituras que testificam sobre ti’ – eles ficam envergonhados e permanecem em silêncio. [Então continuamos:] “Embora não deveis desposar sem testemunhas, ou comprar, ou adquirir propriedade; embora não recebeis nem um asno, nem um animal de carga sem testemunho; e embora somente possuis tanto esposas quanto propriedades, e asnos, e assim por diante por meio de testemunhas, ainda é vossa fé a única que permanece não substanciada por testemunhas. Pois o que vos repassou isso não tem garantia alguma de qualquer fonte, nem há ninguém conhecido que testificou sobre ele antes que viesse. Pelo contrário, recebeu-o enquanto dormia”.

João Damasceno, Das Heresias, cap. CI, “Os ismaelitas” (cf. Writings, p. 155).

De onde, então, veio essa associação entre Maomé e um profeta prometido? Uma hipótese plausível é que alguém tomou a palavra grega παρακλητος (“parakletos”: conformador, advogado) por περικλυτoς (“periklytos”: famoso, renomado, glorioso). Como as escritas de línguas semíticas (hebraico, aramaico, siríaco, árabe, etc.) muitas vezes não grafam as vogais, as transliterações dessas palavras gregas se tornam homógrafas: prklts. Esse é o caso, por exemplo, das Bíblias siríacas:

ܦܪܩܠܛܐ

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Não importa o que aconteceu, os muçulmanos continuarão a se considerar portadores de uma revelação prometida. A última delas. E os espíritas? Como se relacionam com essa religião revelada, colateral às três por eles mencionadas?

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O Olhar de uma Terceira Revelação sobre Outra.

No ano de 1866, Allan Kardec publicou dois artigos na Revista Espírita – um em agosto e outro em novembro – tratando do tema “Maomé e o Islamismo”. O primeiro é um reconhecimento da importância da compressão dessa religião – afinal a França já era senhora da Argélia e o Império Turco Otomano ainda dominava boa parte dos Bálcãs – e, baseado no trabalho de orientalistas contemporâneos seus, traça um esboço da biografia de Maomé até a Hégira, no intuito de desfazer os diversos mitos populares e preconceitos que a Europa cristã fizera ao longo de século sobre o fundador de islamismo:

Há, algumas vezes, sobre os homens e sobre as coisas, opiniões que se acreditam e passam ao estado de ideias recebidas, por errôneas que sejam, porque se acha mais
cômodo aceitá-las inteiramente feitas. Assim o é com Maomé e sua religião, da qual não se conhece quase senão o lado legendário. O antagonismo das crenças, seja por espírito de partido, seja por ignorância, além disso, é mais para fazer ressaltar dela os pontos mais acessíveis à crítica, deixando, frequentemente, de propósito, na sombra as partes favoráveis. Quanto ao público imparcial e desinteressado, é preciso dizer em sua defesa, que faltaram elementos necessários para julgar por si mesmo. As obras que teriam podido esclarecê-lo, escritas numa linguagem apenas conhecida de alguns raros sábios, lhe eram inacessíveis; e como, em definitivo, ali não ia para ele nenhum interesse direto, acreditou sob palavra o que se lhe disse, sem disso perguntar mais. Disso resultou que se fizeram sobre o fundador do Islamismo ideias frequentemente falsas ou ridículas, baseadas sobre os preconceitos que não encontravam nenhum corretivo na discussão.

Os trabalhos perseverantes e conscienciosos de alguns sábios orientalistas modernos, tais como Caussin de Perceval, na França, o doutor W. Muir, na Inglaterra, G. Weil e Sprenger, na Alemanha, permitem hoje encarar a questão sob sua verdadeira luz(1).

(1) Sr. Barthélemy Saint-Hilaire, do Instituto, resumiu esses trabalhos numa interessante obra, intitulada: Maomé e o Corão. 1 vol. i, p -12. – Preço: 3 fr. 50 c. Livraria Didier.

RE, agosto 1866

O segundo artigo, conclui a biografia e passa a uma análise do homem e de sua mensagem. E é francamente positivo sobre os dois!

É preciso julgar Maomé pela história autêntica e imparcial, e não segundo as lendas ridículas que a ignorância e o fanatismo difundiram por sua conta, ou as pinturas que dele fizeram aqueles que tinham interesse em desacreditá-lo, apresentando-o como um ambicioso sanguinário e cruel. Não é necessário, não mais, torná-lo responsável pelos excessos de seus sucessores, que gostariam de conquistar o mundo para a fé muçulmana de sabre à mão. Sem dúvida, houve grandes tarefas no último período de sua vida; pode-se censurá-lo por ter, em algumas circunstâncias, abusado do direito do vencedor, e de não ter agido sempre com toda a moderação desejada. No entanto, ao lado de alguns atos que a nossa civilização reprova, é preciso dizer, para sua defesa, que ele se mostrou muito mais frequentemente humano e clemente para com seus inimigos do que vingativo, e que deu muitas vezes provas de uma verdadeira grandeza de alma. É preciso reconhecer também que, no meio de seu próprio sucesso, e então que chegava ao mais alto ponto de sua glória, até o seu último dia, ele encerrou-se no seu papel de profeta, sem jamais usurpar uma autoridade temporal despótica; não se fez nem rei, nem potentado, e jamais, na vida particular, manchou-se com algum ato de fria barbárie, nem de baixa cupidez; ele sempre viveu simplesmente, sem fausto e sem luxo, mostrando-se bom e benevolente para com todo o mundo. Esta é a história.

Citando o historiador Gustav Weil

“Seríamos injustos e cegos se não reconhecêssemos que seu povo lhe deve ainda outra coisa de verdadeiro e de bem, e lhe reuniu em uma única grande nação, crendo fraternalmente em Deus, as tribos inumeráveis dos Árabes até ali inimigas entre si. No lugar do mais violento arbítrio, do direito da força, e da luta individual, colocou um direito inabalável que, apesar de suas imperfeições, forma sempre a base de todas as leis do Islamismo. Ele limitou a vingança do sangue que, antes dele, se estendia até os parentes mais distantes, e a limitou àquele único que os juízes reconhecessem como assassino. Muito mereceu, sobretudo do belo sexo, não só em protegendo os filhos contra o atroz costume que os fazia, frequentemente, imolar por seus pais, mas, além disto, em protegendo as mulheres contra os parentes de seus maridos, que as herdavam como de uma coisa material, e as defendiam contra os maus tratos dos homens. Ele restringiu a poligamia, não permitindo aos crentes senão quatro mulheres legítimas, em lugar de dez, como era o uso, sobretudo em Medina. Sem haver inteiramente emancipado os escravos, lhes foi bom e útil de muitas maneiras. Para os pobres, não só recomendou sempre a beneficência a seu respeito, mas estabeleceu formalmente um imposto ao seu favor, e lhes fez uma parte especial no espólio e no tributo. Proibindo o jogo, o vinho e todas as bebidas embriagadoras, preveniu muitos vícios, muitos excessos, muitas querelas e muitas desordens.”

Advogando por Maomé:

Ao todo censurando os Cristãos [pela crença na Trindade], Maomé não tinha por eles sentimentos hostis, e no próprio Corão ele recomenda para usar para com eles de comedimento, mas o fanatismo os englobou na prescrição geral dos idolatras e dos infiéis cuja presença não deve sujar os santuários do Islamismo, é porque a entrada nas mesquitas, da Meca e dos lugares santos, lhe é proibida. O mesmo fazem com respeito aos Judeus, e se Maomé os castigou rudemente em Medina, foi porque estavam ligados contra ele. De resto, em nenhuma parte, no Corão, encontra-se o extermínio dos Judeus e dos Cristãos, erigidos em dever, assim como se o crê geralmente. Seria, pois, injusto lhe imputar os males causados pelo zelo ininteligente e os excessos de seus sucessores.

Citando o Alcorão:

Ignorais quantos povos fizemos desaparecer da face da Terra? Nós lhes tínhamos dado um império mais estável do que o vosso. Enviamos as nuvens derramarem a chuva sobre seus campos; ali fazemos correr os rios. Só seus crimes causaram sua ruína. Nós os tínhamos trocado por outras nações. É a Deus que deveis o sono da noite e o despertar da manhã. Ele sabe o que fazeis durante o dia. Ele vos deixa cumprir a carreira da vida. Reaparecereis diante dele, e ele vos mostrará as vossas obras. – Ele domina seus servidores. Dá-vos por guardiães os anjos encarregados de terminar vossos dias no momento prescrito. Eles executam cuidadosamente a ordem do céu. – Retornareis em seguida diante do Deus de verdade. Não é a ele que pertence julgar? Ele é o mais exato dos juízes.-Quem vos livra das tribulações da terra e dos mares, quando, invocando-o em público ou no segredo de vossos corações, exclamais: “Senhor, se afastas de nós esses males nisto seremos reconhecidos?”- É Deus que nos livra deles. É a sua bondade que nos alivia da pena que nos oprime; e em seguida retornais à idolatria. (Sourate VI, v. 60 a 64.)

Todos os segredos são revelados aos seus olhos; e é grande o Altíssimo. -Aquele que fala no secreto, aquele que fala em público, aquele que se envolve nas sombras da noite e aquele que aparece à luz, lhe são igualmente conhecidos. – É ele que faz brilhar o raio aos vossos olhares para vos inspirar o medo e a esperança. É ele que ergue as nuvens carregadas de chuva. -O trovão celebra seus louvores. Os anjos tremem em sua presença. Ele lança o raio, e ele atinge as vítimas marcadas. Os homens disputam com Deus, mas ele é o forte e o poderoso. – Ele é a invocação verdadeira. Aqueles que imploram outros deuses não serão atendidos. Assemelham-se ao viajor que, pressionado pela sede, estende a mão para a água que não pode alcançar. A invocação dos infiéis se perde na noite do erro. (Sourate XIII, v. 10 a 15.)

Não digas jamais: “Eu farei isto amanhã,” sem acrescentar “Se for a vontade de Deus.” Eleva para ele o teu pensamento, quando esqueceste alguma coisa, e dize: “talvez ele me esclareça e me faça conhecer a verdade.” (Sourate XVIII, v. 23.) Se as ondas do mar se transformassem em tinta para descrever os louvores do Senhor, estariam esgotadas antes de terem celebrado todas as suas maravilhas. Um outro oceano semelhante não bastaria ainda. (Sour. XVIII, v. 109.)

Aquele que procura a verdadeira grandeza a encontra em Deus, fonte de todas as perfeições. Os discursos virtuosos sobem para o seu trono. Ele exalta as boas obras; pune rigorosamente o celerado que trama as perfídias. Não, o céu não revoga jamais a sentença que pronunciou. – Não percorreram a terra? não viram qual foi o fim deplorável dos povos que, antes deles, caminharam nos caminhos da iniquidade? Estes povos eram mais fortes e mais poderosos do que não o são. Mas nada nos céus e sobre a Terra pode se oporás vontades do Altíssimo. A ciência e a força são seus atributos. – Se Deus punisse os homens desde o instante em que são culpáveis, não permaneceria sobre a terra ser animado. Difere os castigos até no tempo marcado. -Quando o tempo é chegado, ele distingue as ações de seus servidores. (Sourate XXXV, v. 11,41 a 45.)

Estas citações bastam para mostrar o profundo sentimento de piedade que animava Maomé, e a ideia grande e sublime que se fazia de Deus. O Cristianismo poderia
reivindicar este quadro.

Um ponto que eu questionaria em Kardec seria sua aversão à poligamia islâmica. Kardec, felizmente, não repetiu moralismo quase odium theologicum propagandeado por W. Muir e repassado por Saint-Hilaire:

Chego à falta mais grave já cometida pelo profeta, falarei sua poligamia. Esta desordem fatal e quase inexplicável lançou uma sombra e é como uma mancha indelével sobre toda sua memória; e ele nos aparenta apenas com essa mácula, que rebaixou o seu caráter e desonrou sua moral. Ela é encontrada nas vidas de mais de um patriarca bíblico, sem que isso produzisse deplorável efeito. É que tempo e os personagens mudaram. O que se tolerava no início das eras parece imperdoável seis séculos depois da era cristã, especialmente quando se afirma chamar as pessoas para uma melhor religião, e que aparentemente deve purificar a moral, ao mesmo tempo que ilumina os espíritos.
[Mahomet et le Coran, cap. IV, 170]

Sim, o Corão tem pouco respeito para com a mulher, mas ele tem mais do que tudo o que lhe precedeu. É a poligamia que desonra e arruína quase todas essas sociedades infelizes na Ásia. O Alcorão deveria tê-la abolido, em vez de lhe dar sanção. Mas, novamente, ele tem o mérito de a ter limitado, se não se atreveu a destruí-la.
[idem, cap. V, pp. 205.]

Acertaram bem numa coisa: o judaísmo – que influenciou mais a Maomé que o cristianismo – não possui nenhuma proibição taxativa à poligamia em seus livros sagrados. Muito pelo contrário, o patriarca Jacó tinha duas mulheres, Salomão dispunha de um harém e nunca foram recriminados por isso. Mas ela não era uma prática totalmente abandonada no século VI e só a partir da Baixa Idade Média os rabinos passaram a proibi-la(32). O raciocínio de Kardec, por sua vez, apela mais para demografia e dá um interessante exemplo de como o “bom senso” pode pregar peças:

No entanto, o desregramento dos costumes era tal na época de Maomé, que uma reforma radical era muito difícil entre homens habituados a se entregarem às suas paixões com uma brutalidade bestial; pode-se, pois, dizer que, regulamentando a poligamia, ele colocou limites à desordem e deteve os abusos bem mais graves; mas a poligamia não ficará menos o verme roedor do Islamismo, porque ela é contrária às leis da Natureza. Pela igualdade numérica dos sexos, a própria Natureza traçou o limite das uniões. Permitindo quatro mulheres legítimas, Maomé não pensou que, para que sua lei se tornasse a da universalidade dos homens, seria preciso que o sexo feminino fosse ao menos quatro vezes mais numeroso do que o sexo masculino.

Não é que eu seja um fã incondicional da poligamia, mas é preciso ver que o raciocínio de Kardec possui algumas falhas. Em primeiro lugar, Maomé aceitou, mas não estimulou sistematicamente a poligamia, tal como ainda fazem certas seitas americanas modernas, e impôs regras: o homem deveria ter condições financeiras e a permissão das mulheres com quem já estivesse casado. O segundo e principal motivo é que ele se baseia numa premissa que nem sempre é verdadeira: “igualdade numérica dos sexos”. Isso tende a ocorrer em situações prolongadas de paz, mas em uma sociedade beligerante, essa igualdade se desfaz rapidamente. O próprio Kardec foi contemporâneo de um prolongado conflito – A Guerra Secessão Americana (1861-5) – que levou uma geração ao desequilíbrio demográfico entre sexos (33). Certo que nos tempos de Maomé, os conflitos não eram da magnitude industrial que esse foi, mas eram mais contínuos, o que dificultava o restabelecimento do equilíbrio populacional. Por certo ângulo, tolerar algum grau poligamia faz pleno sentido numa sociedade endogâmica, sem emancipação feminina e com escassez crônica de homens como forma de evitar legiões de viúvas e órfãs solteironas desamparadas.

Kardec também aparenta ter uma compreensão imperfeita de como o islamismo vê a si mesmo como religião profética, até para os padrões da época:

Do ponto de vista histórico, a religião muçulmana admite o Antigo Testamento em sua totalidade até Jesus Cristo inclusive, que ela reconhece como profeta. Segundo Maomé, Moisés e Jesus eram enviados de Deus para ensinarem a verdade aos homens; o Evangelho, do mesmo modo que a lei do Sinai, é a palavra de Deus; mas os Cristãos dele desviaram o sentido. Ele declara, em termos explícitos, que não traz nenhuma crença nova, nem culto novo, mas que vem restabelecer o culto do Deus único professado por Abraão. Não fala senão com respeito dos patriarcas e dos profetas que o precederam: Moisés, Davi, Isaías, Ezequiel e Jesus Cristo; do Pentateuco, dos Salmos e do Evangelho. São os livros que anteciparam e prepararam o Corão. Longe de esconder os empréstimos que lhe fez, disto se gaba, e sua grandeza é o fundamento da sua.

Faltou um pequeno pormenor: Maomé possivelmente se baseou no mesmo versículo bíblico que ele atribui como referência ao “Espírito da Verdade” para se considerar aquele cuja vinda Jesus prometera na Última Ceia. Tal informação não era desconhecida entre os autores citados na abertura do artigo de agosto. Segundo William Muir:

A criança foi chamada MOHAMMED.

Esse nome era raro entre os árabes, mas não desconhecido. Deriva da raiz Hamd e significa “O Louvado.” Outra forma é AHMAD, que tendo sido erroneamente empregada como uma tradução de “Paracleto” em algumas versões árabes do Novo Testamento, tornou-se um termo favorito entre os maometanos, especialmente no trato com judeus e cristãos; pois foi (diziam) o título pelo qual o profeta foi predito em seus livros. Seguindo o uso estabelecido na cristandade, estilizarei Mohammad como MAOMÉ.

The Life of Mahomet, vol. II, cap. I

Gustav Weil, que chegou a ser textualmente citado por Kardec, comenta:

Portanto, como a lenda de Abraão foi valiosa a Maomé, em razão da lição pura e simples que inculcava, além de sua conexão com as coisas sagradas de Meca, então ele valorou a lenda de Cristo, especialmente por sua promessa do Paracleto, que acreditava ser, ou ao menos se proclamava, e à qual o apelo de seu próprio nome era mais, pelo menos, gabaritado com uma melhor alegação que do que alguns dos outros que o arrogaram antes dele. Aqui, outra vez, percebemos que Maomé foi provavelmente mal informado tanto pelos judeus, quanto pelos cristãos, embora, talvez, sem motivos sórdidos. Alguns, por exemplo, como Maccavia já observou, podem ter lhe dito que Cristo falara “peryclete”, – uma palavra que é sinônima de Ahmed (o muito louvado).

Biblische legenden der muselmänner (Lendas Bíblicas dos Muçulmanos), Introdução, 1844.

Lembrando que a obra de Weil realmente utilizada por Kardec foi Mohammet der Prophet, cuja primeira edição foi um ano antes de Biblische…. Se alguém conseguir um texto digital dela (txt, html, rtf, docx, etc), favor entre em contato. A compilação de Saint-Hilaire foi silente quanto ao tema.

A falta dessa dessa informação pode ser considera algo menor quando comparada com um equívoco bem mais sério: para Kardec, o status histórico de que o islamismo gozaria era um tanto secundário. Compare as palavras dele com as de seu conterrâneo e contemporâneo J.B. Saint-Hilaire:

RE nov 1866 Mahomet et le Coran, cap VI, p. 228
O Islamismo tendo suas raízes no antigo e no novo Testamento, deles é uma derivação; pode-se considerá-lo como uma das numerosas seitas das dissidências que surgiram desde a origem do Cristianismo referindo-se à natureza do Cristo, com esta distinção de que, o Islamismo, formado fora do Cristianismo, sobreviveu à maioria dessas seitas, e conta hoje cem milhões de sectários. Deve-se, portanto, reconhecer: por ambas as partes, a concepção geral é quase idêntica, e, basicamente, as três religiões podem ser consideradas os ramos de um único tronco. O cristianismo fez sua glória ao encontrar suas origens no judaísmo e adotou a Bíblia ao lado do Evangelho. Também se poderia reconhecer o Islã por sua prole, porque sem o Evangelho e da Bíblia, o Islã nunca nasceria, e, embora se lamente que haja uma ou outra desnaturação, ele tem, no entanto, manteve características essenciais. Certamente compreendeu o divino com menos majestade e profundidade, mas o sentiu talvez com mais entusiasmo e vivacidade.

Ambos reconhecem que quem veio depois herdou as tradições de seus antecessores, mas Saint-Hilaire trata igualmente as três religiões como “ramos de um mesmo tronco”, ao passo que Kardec considera o Islã como um tipo de “seita”. Uma posição injusta em muitos aspectos e se for para aceitar esse raciocínio, então o cristianismo não passa de uma seita do judaísmo, pois tem suas raízes no antigo testamento. Um dia isso foi verdade, mas não demorou tanto para deixar de sê-lo, com o cristianismo ganhando vida própria. E se os primeiros cristãos ainda se julgavam judeus, os primeiros muçulmanos tinham certeza de que criavam algo diferente em relação a seus antecessores e, por crerem em um planejamento divino, mais autêntico na expressão da vontade de Alá. Maomé seria o último e definitivo profeta, não havendo espaço para novas revelações. Ainda no século VII, o islamismo se tornou (e continua a ser) o grande rival do cristianismo. Reduzi-lo à mera condição de seita é negar-lhe a possibilidade de ser uma genuína “Terceira Revelação”; um posto a que, tendo-se em vista a relevância histórica, o islamismo faz muito mais jus que o espiritismo (34). Essa não foi a única vez que Kardec enxergou o queria ver em um potencial rival (35).

Kardec encerrou seu segundo artigo prometendo mais um em que explicaria “como o islamismo poderá se unir à grande família da Humanidade civilizada“, o que não chegou a concretizar.

* * *

Já no século XX, outras obras espíritas não foram tão positivas com relação ao islamismo.

O ISLAMISMO

Antes da fundação do Papado, em 607, as forças espirituais se viram compelidas a um grande esforço no combate contra as sombras que ameaçavam todas as consciências. Muitos emissários do Alto tomam corpo entre as falanges católicas no intuito de regenerar os costumes da Igreja. Embalde, porém, tentam operar o retorno de Roma aos braços do Cristo, conseguindo apenas desenvolver o máximo de seus esforços no penoso trabalho de arquivar experiências para as gerações vindouras.

Numerosos Espíritos reencarnam com as mais altas delegações do plano invisível. Entre esses missionários, veio aquele que se chamou Maomet, ao nascer em Meca no ano 570. Filho da tribo dos Coraixitas, sua missão era reunir todas as tribos árabes sob a luz dos ensinos cristãos, de modo a organizar-se na Ásia um movimento forte de restauração do Evangelho do Cristo, em oposição aos abusos romanos, nos ambientes da Europa. Maomet, contudo, pobre e humilde no começo de sua vida, que deveria ser de sacrifício e exemplificação, torna-se rico após o casamento com Khadidja e não resiste ao assédio dos Espíritos da Sombra, traindo nobres obrigações espirituais com as suas fraquezas. Dotado de grandes faculdades mediúnicas inerentes ao desempenho dos seus compromissos, muitas vezes foi aconselhado por seus mentores do Alto, nos grandes lances da sua existência, mas não conseguiu triunfar das inferioridades humanas. É por essa razão que o missionário do Islã deixa entrever, nos seus ensinos, flagrantes contradições. A par do perfume cristão que se evola de muitas das suas lições, há um espírito belicoso, de violência e de imposição; junto da doutrina fatalista encerrada no Alcorão, existe a doutrina da responsabilidade individual, divisando-se através de tudo isso uma imaginação superexcitada pelas forças do bem e do mal, num cérebro transviado do seu verdadeiro caminho. Por essa razão o Islamismo, que poderia representar um grande movimento de restauração do ensino de Jesus, corrigindo os desvios do Papado nascente, assinalou mais uma vitória das Trevas contra a Luz e cujas raízes era necessário extirpar.

Xavier, Francisco Cândido; A Caminho da Luz, por Emmanuel, FEB, 22ª ed, 1996, cap. XVII, pp. 149-51

Se assim foi, então a “Providência” – para os que acreditam nela – foi de suma incompetência e talvez não seja tão mágica assim. Emmanuel (ou Chico Xavier) desconsiderou todas as ressalvas feitas pelo “Codificador” e se entregou aos preconceitos tradicionais. Uma miopia que não permitiu a seus leitores descobrirem o quanto o Islã criou uma civilização rica e bela.

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A Civilização Islâmica: a Ponte entre a Antiguidade e a Idade Moderna

A Era dos Rashidun

Três dias antes de sua morte, Maomé reuniu suas últimas energias e se dirigiu para a oração coletiva na Mesquita de Medina (36). Seu grande companheiro, colaborador de primeira hora e sogro (pai de Aisha) Abu Bakr conduzia a oração e, ao vê-lo chegando, cedeu o lugar no púlpito, mas Maomé recusou a oferta e, empurrando-lhe, ordenou que continuasse (Guillaume, p. 682). Esse gesto foi interpretado pela maioria dos fiéis como a escolha do próximo líder. Abu Bakr consolidou o poder do Islã na península, tornando-se o primeiro dos quatro califas (“sucessores”, “representantes”) rashidun (“bem guiados”) e, pouco antes de morrer indicou Omar ibn al-Khattab – outro companheiro de Maomé – como o próximo califa. Foi sob a regência Omar que todo o espírito guerreiro árabe, antes desperdiçado em lutas fratricidas, passou a ser direcionado para fora, levando a uma mudança geopolítica de dimensões e rapidez nunca vistos desde a conquista do Império Macedônico de Alexandre Magno, quase um milênio antes.

Combalidos por décadas de confrontos entre si, os impérios Bizantino e Persa foram pegos de surpresa por essa nova leva de guerreiros. Não que eles fossem numerosos, muito pelo contrário, talvez não passassem de alguns milhares, mas eram munidas com novas técnicas de combate (37), estavam habituadas ao terreno árido e, principalmente, contavam com o extremo fervor religioso a lhes dar uma bravura quase suicida. Em 636, apenas quatro anos após a morte de seu profeta, caíam a Síria bizantina e a Mesopotâmia persa, no ano seguinte era a vez Jerusalém e Omar em pessoa recebeu a rendição das mãos do patriarca local. Respeitou todas igrejas e lugares santos cristãos, mas ficou indignado com o tratamento dado ao antigo Templo judaico, transformado em lixão. Ordenou a limpeza do lugar e construiu uma pequena mesquita, o embrião do futuro e majestoso Domo da Rocha, e convidou os judeus a residir em um bairro da cidade, após séculos de banimento. Em 639, teve início a conquista Egito, concluída em 642, e o fim de seu governo (642-4) foi marcado pela conquista da maior parte da Pérsia.

Omar nomeara uma comissão de antigos companheiros de Maomé para organizar a escolha dos sucessores. A primeira delas caiu sobre Uthman ibn Affan (644–56), membro do clã coraixita Omíada (Umayyad), que consolidou a conquista da Pérsia e expandiu o império pelo norte da África até a atual Tunísia, além das ilhas do Mediterrâneo oriental e resistiu a uma ofensiva naval bizantina no Egito. Apesar do sucesso externo, sua oposição interna foi crescente, alimentada por acusações de enriquecimento indevido e nepotismo para com seu clã. Até o maior legado de Uthman para a fé – a compilação do Alcorão – se tornou um trunfo na mão de seus adversários, pois ele irritou a muitos por deixar leituras variantes de fora. Terminou assassinado. O próximo califa foi Ali ibn Abu Talib (656-61), genro de Maomé (marido de Fátima) e ex-rival de Abu Bakr. Seu governo foi conturbado por conflitos com antigos partidários de seu antecessor – como o governador da Síria Muawiyya (omíada tal qual Uthman) – e com Aisha, filha de Abu Bakr e viúva de Maomé. A situação saiu de controle com a revolta da dissidência islâmica kharidjita, cujos fanáticos acabaram por assassinar Ali, abrindo caminho para a ascensão de Muawiyya. Foi o fim do ciclo de califas eleitos por escolha dos que estiveram próximos a Maomé.

As Dinastias Hereditárias

A dinastia Omíada, inaugurada por Muawiyya, foi o apogeu político-militar do Império Árabe, agora sediado em Damasco, Síria. Sob ela, os domínios islâmicos se estenderam da Espanha (711 d.C.) até o oeste da Índia e chegaram, inclusive, a cercar Constantinopla. Contudo, os custos de manutenção de um império tão vasto e a posterior perda o ímpeto das conquistas (e seus espólios) levaram a aumentos de impostos e à queda de popularidade dos governantes. A situação se deteriorou em uma guerra civil detonada por dissidências religiosas a partir de 740. Em 751, a coligação liderada por Abbas Abd Allah derrotou o último califa omíada, Marwan II, e deu início a nova dinastia, que perduraria por cinco séculos.

Os abássidas, alegados descendentes de Abbas, tio de Maomé, levaram o império ao esplendor cultural máximo, continuando o processo já em andamento desde dos omíadas de aquisição e refinamento do legado dos povos conquistados. Bagdá, sua capital, atingiu a cifra de um milhão de habitantes, tornando-se a maior cidade a oeste da Índia. Sua renomada “Casa do Saber” – fundada no começo do século IX – se tornou famoso centro de estudos, pesquisa e de tradução de manuscritos gregos, persas, siríacos e hindus, além de servir de referência para outros centros regionais do Islã como Cairo, Palermo e Córdoba. É dessa fase de ouro que vieram nomes como matemático al-Khwarizmi (780 – 850, alguém lembrou de “algarismo”?), o historiador e geógrafo al-Masudi (912 – 957), o cartógrafo al-Idrisi (1099 – 1166), o médico e filósofo Ibn Sina (vulgo Avicena, 980 – 1037) e o gênio universal al-Biruni (973 – 1048).

Manuscrito de Geômetra Árabe

Manuscrito de um tratado de geometria árabe.

No trato com os conquistados, a cada guerra de conquista os árabes davam ao adversário a opção de abraçar o Islã voluntariamente, de se colocar sob a proteção dele mediante o pagamento de tributo ou lutar. A maioria dos vencidos escolheu segunda opção que contava com a vantagem da determinação aos muçulmanos de tolerância para com os Povos do Livro (judeus e muçulmanos), que foi estendida aos zoroastristas (38). Salvo episódios esporádicos, não havia pressa para os governantes muçulmanos fazerem conversões em massa, até porque os dhimmi (não muçulmanos sob proteção islâmica) eram uma fonte de renda. Por outro lado, a conversão ao Islã era simples, ele não fazia exigências tão diferentes das de seus rivais e era o credo da elite. Com essas vantagens, o número de conversos foi aumentando de modo gradual até surgir uma expressiva classe de mawali (não árabes islamizados) que, no decorrer do tempo, começou a assumir postos de chefia antes exclusivamente de árabes. Pode-se dizer que o período abássida marcou a transição de um império tributário árabe para um genuíno Mundo Islâmico. Um mundo cujo esplendor chegou à Europa Ocidental por duas janelas: Espanha e Sicília.

Expansão do Império Árabe

A expansão árabe.

Al-Andalus: A Joia do Mundo

AS GUERRAS DO ISLÃ

Maomet, nas recordações do dever que o trazia à Terra, lembrando os trabalhos que lhe competiam na Ásia, a fim de regenerar a Igreja para Jesus, vulgarizou a palavra “infiel”, entre as várias famílias do seu povo, designando assim os árabes que lhe, eram insubmissos, quando a expressão se aplicava, perfeitamente, aos sacerdotes transviados do Cristianismo. Com o seu regresso ao plano espiritual, toda a Arábia estava submetida à sua doutrina, pela força da espada; e todavia os seus continuadores não se deram por satisfeitos com semelhantes conquistas. Iniciaram no exterior as guerras santas”, subjugando toda a África setentrional, no fim do século VII. Nos primeiros anos do século imediato, atravessaram o estreito de Gibraltar, estabelecendo-se na Espanha, em vista da escassa resistência dos visigodos atormentados pela separação, e somente não seguiram caminho além dos Pirineus porque o plano espiritual assinalara um limite às suas operações, encaminhando Carlos Martel para as vitórias de 732.

Xavier, Francisco Cândido; A Caminho da Luz, por Emmanuel, FEB, 22ª ed, 1996, cap. XVII, p.151

E mais uma vez o suposto espírito Emmanuel nos brinda com a propagação de boatos e preconceitos. Mas devo dar-lhe um desconto nesse caso porque é um engano muito comum ainda: a crença de que os exércitos francos, sob a liderança de Carlos Martel, “salvaram” o restante da Europa do feral jugo dos “sarracenos” (39). Para começo de conversa, se você fosse um abade num mosteiro ao sul da atual França por volta dos meados do século VIII, dificilmente iria suspirar aliviado e dizer: “ufa! repelimos os sarracenos de vez!”. A invasão de 732 não fora a primeira e não viria a ser a última. O “mito de Poitiers” – a decisiva batalha entre francos e muçulmanos – ignora episódios como a atuação do Duque Odo da Aquitânia, que repeliu uma invasão em 721 e teve participação em Poitiers, ou as invasões de 735-7 e 739-40. Essa, de tão poderosa, obrigou os francos a se aliarem aos lombardos da Itália, que também estavam ameaçados. Embora a documentação dessa última investida tenha sido mais nebulosa, um cruzamento de registros históricos permite intuir que seu fim fora apressado por uma insurreição em andamento na Espanha, que motivou o retorno dos exércitos muçulmanos.

Não houve mais invasões após 740. De certa forma, a eclosão de um inimigo externo comum teve o efeito colateral de agregar os francos em torno da liderança de Carlos Martel, cujos descendentes formariam a dinastia Carolíngia dos francos. Isso levaria a “Frância” a processo centralizador que faria dela uma breve reedição do Império Romano do Ocidente, se bem que seu perfil era mais germânico que romano. Mesmo quando o Império Carolíngio se esfacelou em meados do século IX, os árabes não retomaram a ofensiva por mudanças internas.

A Espanha muçulmana, ou melhor, al-Andalus para seus antigos cidadãos, tornou-se o último refúgio para dinastia Omíada quando ‘Abd al-Rahman – sobrevivente do massacre da família imperial – reuniu um pequeno exército no Magrebe (onde se escondera sob a proteção de parentes maternos) e foi reclamar o “emirado” (governo) da província. Com seus homens e aliança de antigos beneficiários do Omíadas, al-Rahman depôs o emir abássida e se apossou de forma hereditária do posto. Bagdá tentou reaver a província em 763, mas seu novo “emir oficial” foi derrotado, morto e teve a cabeça embalsada entregue em Meca. Ainda que cronistas tenham registrado a exclamação de horror do califa abássida al-Mansur – “Deus seja louvado por colocar um mar entre nós!” – al-Rahman não podia descartar a hipótese de uma outra tentativa de Bagdá. Por via das dúvida, manteve ao menos os laços formais com a capital e só em 929 seu descendente al-Rahman III assumiu de fato o título de califa. Além da ameaça externa, al-Rahman e seus sucessores ainda tiveram o desafio de manter a coesão de al-Andalus. Volta e meia algum potentado local procurava conquistar mais autonomia do governo de Córdoba, chegando até ao ponto de se aliar aos francos, ou era necessário administrar, à força, a rixa entre árabes e berberes pelas melhores terras e postos de al-Andalus. Enfim, as questões domésticas do emirado omíada de Córdoba e a mudança de foco do califado abássida para para o Oriente foram muito mais responsáveis pelo fim das incursões muçulmanas a partir da Espanha do que a agência sobrenatural sobre um único líder cristão (40).

E não foi apenas nisso que Emmanuel desinforma. É possível que o fracasso da campanha da França tenha sido uma lamentável “chance perdida” para os europeus ocidentais:

Um ou outro estudioso colocou uma questão mais filosófica a respeito de Poitiers que se desvia de considerações relativas à nacionalidade ou religião. Diminuindo os julgamentos de valor ao grau possível, esses acadêmicos iniciaram especulações a respeito do custo-benefício do derramamento de sangue a cerca de cem quilômetros dos Pirineus. Se os homens de ‘Abd al-Rahman [chefe muçulmano em Poitiers, não o príncipe omíada] tivessem prevalecido naquela dia de outubro, o Ocidente pós-romano provavelmente teria sido incorporado a um regnum muçulmano cosmopolita sem a obstrução de fronteiras; de acordo com essa hipótese, um reino desprovido de casta sacerdotal, animado pelo dogma da igualdade dos fiéis e respeitoso a todas as crenças religiosas. Curiosamente, tal especulação tem pedigree francês. Há quarenta anos, dois historiadores, Jean-Henri Roy e Jean Deviosse, enumeraram os benefícios de um triunfo muçulmano em Poitiers: astronomia, trigonometria, numerais arábicos, o corpus da filosofia grega. “Nós [a Europa] teríamos ganhado 267 anos“, conforme seus cálculos. “Poderíamos ter sido poupados das guerras religiosas.” Se formos mais a fundo na lógica dessa análise desconcertante, a vitória de Carlos, o Martelo, [Carlos Martel] deve ser vista como grande contribuição para a criação de uma Europa economicamente atrasada, balcanizada e fratricida que, ao se definir em oposição ao Islã, transformou em virtudes a perseguição religiosa, o particularismo cultural e a aristocracia hereditária.

[Lewis, cap. VII, pp. 184-5]

Centrar-se nas questões da península contando com a disponibilidade de um “mercado comum” islâmico e sem a desvantagem de enviar tributos a Bagdá acabou por render muitos à economia andaluza. Nas palavras dos historiadores Reinhart Dozy e Francis Griffin Stokes (41):

A situação do país harmonizava com a prosperidade do tesouro público. A agricultura, os produtos manufaturados, o comércio, as artes, as ciências, tudo florescia. Os olhos do viajante eram alegrados por todos os lados pelos campos bem cultivados, irrigados com base em princípios científicos, de modo que o que parecia o solo mais estéril era tornado fértil. (…) Córdova, com seu meio milhão de habitantes, suas 3 mil mesquitas, seus esplêndidos palácios, suas 113 mil casas, seus 300 banhos públicos e seus 28 subúrbios, competia em tamanho e magnificência apenas com Bagdá (…) A fama de Córdova penetrou na distante Alemanha: a freira saxã Hroswitha, famosa na segunda metade do século X por seus poemas e dramas em latim, chamou-a de a Joia do Mundo (42).

[Wheatcroft, cap. III, p. 110]
Cf. Spanish Islam: A History of the Muslims in Spain, Kessinger Publishing, 2003 , livro III, cap. IV, p.442(?)-6

Será que foi uma troca vantajosa? Difícil dizer, pois não existe “se” história. Com certeza uma hipotética conquista muçulmana do ocidente mexeria tanto com o tabuleiro político que as consequências ficariam imprevisíveis. Ainda que a “Providência” tenha sido correta em atrasar a Europa em mais de dois séculos e meio, nas bacias dos rios Duero e Ebro – a fronteiras naturais de al-Andalus – estabeleceu-se uma “cultura de contato” que permitiu um fluxo de conhecimento (tanto inovações como cultura clássica) para a Europa Cristã. Quando o califado de Córdoba desmoronou, após uma desastrada tentativa de sucessão dinástica, em vários e fracos minirreinos, os estados cristãos ao norte passaram à ofensiva. O que era apenas um filete de água a verter para o Ocidente se tornou uma torrente. Goste “Emmanuel” ou não, o Islã moldou a Europa, seja preservando, ampliando e transmitindo o saber de vários dos vários povos que conquistou ou servindo de contraponto para a catálise de sua reorganização. Que o Ocidente lhe seja sempre grato.

Arcos da Grande Mesquita

Interior da Grande Mesquita de Córdoba, hoje uma catedral. Um testemunho da glória da Espanha sarracena.

E a Chama se Apaga

Afinal, por que tão grandiosa civilização hoje é vista como um retrato do atraso e do fanatismo. O que deu errado? Talvez responder a isso seja uma discussão tão exaustiva como tentar entender por que o Império Romano decaiu: não deve haver uma causa só, mas dezenas delas que atuaram paralelamente. Trago aqui algumas hipóteses levantadas por alguns autores;

  • Crise Ecológica: Muitos já ouviram falar, em aulas de História, na região conhecida como “Crescente Fértil”: uma meia-lua a descrever um arco do Egito ao sul Iraque. Ele foi o berço de várias civilizações do Oriente Próximo: babilônios, egípcios, sumérios, caldeus, fenícios, hebreus, etc; mas hoje é comumente retratado como uma região predominantemente desértica cortada por grandes rios (Nilo, Tigre e Eufrates). Será que foi sempre assim? A própria Bíblia informa a existência de grandes predadores o Antigo Israel, por exemplo, em I Samuel 17:34 o então jovem pastor Davi informa ao rei Saul que protegia suas ovelha de leões e ursos com sua funda (a mesma arma com que enfrentaria o gigante Golias), em II Reis 2:23-4 duas ursas despedaçam 42 jovens que zombaram do profeta Eliseu. Para sustentar tais animais é preciso um número maior de herbívoros e, por conseguinte, uma flora abundante. Acontece que, ao longo de séculos, a maior parte dela foi derrubada para ceder lugar a lavouras e pastos. Sem poder contar com uma boa pluviosidade e com o pastoreiro excessivo degradando o solo, o processo de desertificação foi de vento em popa. Até quase o começo da I Guerra, por exemplo, encontravam-se florestas nas proximidades do sítio arqueológico de Petra, na Jordânia, mas que foram derrubadas pelos turcos otomanos para a construção de uma ferrovia. Mesmo a fartura de água nos vales irrigáveis da Mesopotâmia não deu conta de séculos de agricultura intensiva em ambiente pouco chuvoso, propensa à salinização do solo(43). Um processo que também ocorreu no subcontinente indiano;

  • Declínio do fervor cívico/religioso:De certa forma, esse fenômeno se repetiu em várias sociedades que acabaram vítimas do próprio sucesso. Satisfeitas e zelosas com sua prosperidade, as elites fundadoras deixam de “dar o exemplo” para abraçar seus próprios interesses, levando o governo instituído a recorrer a setores marginalizados ou estrangeiros na busca por uma lealdade e disciplina militar que encontram mais entre os seus. Com o tempo, os novatos se tornam os reais portadores das virtudes que um dia fizeram grandes os seus senhores. Tal como o Império Romano se viu cada vez mais sob a proteção dos “povos bárbaros” que lhe dariam um golpe de misericórdia, os árabes e seus súditos islamizados passaram a depender de castas guerreiras que eles mesmos criaram. Al-Andalus sofreu com a rixa entre os magrebinos berberes, conquistadores de primeira hora, e os soldados-escravos eslavos comprados posteriormente. Em 1055, turcos seldjúcidas reduziram o califa abássida a uma figura decorativa e o Egito teve o governo tomado pelos mamelucos em meados do século XIII (44);

  • Fragilidade das Instituições: O Império Abássida começou se desmembrar pouco após a ascensão da dinastia. A primeira parte a se separar foi a Espanha (756), seguida por Marrocos (788), Tunísia (801), Egito (868) e Pérsia (872). Não que fragmentação territorial seja em si ruim – um certo grau de rivalidade pode estimular o progresso geral -, a questão foi que muitos desses novos estados falharam em garantir a estabilidade política interna. Muitas vezes, a pior coisa que podia lhes acontecer era a morte de seu governante, que servia como senha para o início de uma guerra civil entre lugares-tenentes, ministros e herdeiros. Em comparação, as passagens de poder na Europa cristã eram bem mais ordeiras(45);

  • Falta de limites aos governantes:Em seu contato com os europeus durante a época das cruzadas, um aspecto da cultura dos “francos” que chocou os locais foi a permanência do costume germânico chamado “julgamento do ordálio” (46) para a solução de disputas legais. Os processos, como previstos no Alcorão, transcorreriam de forma bem mais racional. Por outro lado, havia certas práticas eles entre que embasbacavam os sarracenos positivamente: os reis dos estados latinos do Oriente não podiam tudo, tendo de respeitar deliberações do conselho cavaleiros e eclesiásticas. Até mesmo os mais humildes contavam com algum grau de proteção contra abusos dos mais poderosos contra suas propriedades. Não que já houvesse um conceito de “cidadania” entre os europeus, mas a própria estrutura de “suserania e vassalagem” do feudalismo europeu continha um embrião dessa ideia, ao dar a nobres, servos, burgueses e eclesiásticos noção não apenas de seus direitos em relação aos que lhe estavam abaixo, mas também de seus deveres para com eles. Não existia equivalente disso em muitos estados islâmicos, abrindo portas para arbitrariedade de seus governantes, que tratavam a coisa pública como um bem privado (47). O progresso geral, nessas circunstâncias, se torna bem mais lento;

  • Invasões: Podem-se incluir aqui campanhas tão diversas como a Reconquista na península ibérica, as cruzadas no Levante mediterrânico e as invasões mongóis no Oriente Médio. A primeira teve o efeito duradouro de eliminar o Islã do Ocidente europeu, não sem herdar muito do ele tinha a oferecer. As restantes tiveram efeito materiais temporários, mas levaram a uma espécie militarização da sociedade dos estados sobreviventes justamente para evitar novas invasões, um ambiente por demais hierarquizado e não muito propício a inovações. As cruzadas, em particular, deixaram certo ressentimento contra o Ocidente e a tudo que dele viesse, ainda que útil (48);

  • Baixa separação entre Estado e religião: Não há no Islã um equivalente ao “Dai a César o que é César, dai a Deus o que é de Deus”. O governo terrestre deve sempre se calcar em diretrizes divinas. Qual a real interpretação delas pode ser tanto um problema como solução. Caso os líderes religiosos fossem simpatizantes de inovações ou apenas indiferentes, ótimo. Do contrário, estagnação. Como no Islã não não há o equivalente de um Papa capaz de impor sua opinião a todos os crentes, isso seria apenas uma questão em locais e épocas específicos, se não fosse por outro empecilho que surgiu no mundo islâmico:

  • O domínio de impérios: Após o esfacelamento do Califado Abássida, a reorganização do poder no mundo muçulmano levou, por volta do início do século XVI, à ascensão de três grandes impérios: o turco otomano (Mediterrâneo Oriental, Mesopotâmia e parte da Arábia), o Safávida (Pérsia) e o Mugal (Subcontinente Indiano). O fato de os fiéis dessa religião estarem sob a administração de relativamente poucos estados aumentaram as chances de maus governantes afetarem o destino de muitos, reduzia o grau de competição entre eles e, por conseguinte, o estímulo à inovação. Mesmo tendo importantes inimigos na Europa, o Império Otomano foi incapaz de absorver a experiência deles, por uma boa quantidade de sultões ineptos e vários dos fatores supracitados. Além disso, os impérios tendiam a promover apenas uma determinada vertente do Islã como forma de apoio e justificação do poder, sendo intolerantes com as demais e pouco tolerantes a novas ideias. Religiosas ou não;

  • Posturas pouco producentes ao empreendedorismo: Por incrível que pareça, mandamentos bem intencionados o Islã desestimularam progresso econômico. Por exemplo, a proibição da usura inibe a principal virtude do sistema financeiro: disponibilizar o dinheiro excedente de alguns para os que têm iniciativa empresarial, mas carecem dele. As regras corânicas a repeito da herança estabeleciam que pelo menos dois terços de seu patrimônio deveriam ser divididos igualmente entre sua família estendida. Isso pode ter contribuído para uma sociedade mais igualitária, mas teve um efeito desagradável quando, posteriormente, foi combinada com uma regra comercial que determinava a dissolução de sociedade quando um de seus membros falecesse, com a partilha de sua parte entre os familiares. Além de desestimular a formação de grandes sociedades, inviabilizava as que pudessem durar várias gerações (49).

Alguns desses empecilhos chegaram a afetar países europeus em uma fase ou outra de sua história, então por que seus efeitos foram mais nocivos no mundo islâmico. Uma conjectura plausível foi dado pelo jornalista Alan Beattie, do Financial Times:

A diferença crucial entre as sociedades islâmicas no Oriente Médio e as sociedades cristãs na Europa não era a teologia das respectivas religiões, nem onde se originara a lei comercial nelas baseada. A principal diferença foi que os comerciantes europeus ganharam poder suficiente para conseguir reverter as leis mais inconvenientes, mesmo que, para isso, tenha sido necessário alterar a justificação religiosa dessas leis. Seus equivalentes nos países islâmicos, por razões muito pouco relacionadas à natureza da religião em si, não conseguiram fazer o mesmo.

Por bastante tempo, a fraqueza dessa cristalização dos regimes islâmicos foi mascarada por uma série de campanhas conquista imperial muito bem sucedidas. Como em Roma Antiga, os impérios islâmicos se estenderam enormemente graças a uma excelente organização burocrática e ao seu poderio militar.

O Império Otomano atingiu o ápice de seu poder no século XVI, sob o comando de Solimão (conhecido na Europa como Solimão, o Magnífico), quando este estendeu seu controle pelo Norte da África, tornando-se a entidade política mais poderosa do mundo No entanto, o Império não conseguir avançar até a Europa [Ocidental], tendo sido rechaçado nos portões de Viena em 1529. O Império não se isolou de contatos externos com não muçulmanos. Mas de fato instituiu a sharia, a lei islâmica religiosa, como o código legal de todos os muçulmanos, e o sistema educacional se tornou mais estreito e doutrinário.

A sociedade também permaneceu estática. Como ocorrera anteriormente com o Império Romano, o Império Otomano descobriu que havia um limite natural para os benefícios que poderiam obter apenas por uma melhor organização das tecnologias existentes. A falta de inovação primeiro restringiu a expansão, e posteriormente debilitou os regimes ante as pressões externas. Ao falhar em sua segunda tentativa de conquistar Viena, em 1683, o Império Otomano se tornou mais brando. A disciplina militar enfraqueceu, e a batalha pela receita dos impostos, colhidos em todo o Império e levados ao seu centro, gerou corrupção e disputas internas, como costuma ocorrer. Grupos rebeldes tentaram, às vezes com êxito, estabelecer regimes separatistas nas periferias do Império

[Beattie, cap V, p. 137]

Houve tentativas de modernização em países islâmicos ao longo do século XX, conduzidas por líderes carismáticos como Kemal Atatürk, da Turquia, ou Gamal Abdel Nasser, do Egito. Olhando os problemas atuais dos países da região, pode-se perceber que seu sucesso foi, no mínimo, parcial. Beattie atribui isso ao fato de suas reformas terem sido demasiadamente centralizadoras, ao estilo dos planos quinquenais socialistas ou da política de “substituição de importações” dos regimes latino-americanos, que até promoveram um desenvolvimento rápido, mas de fôlego curto. Em sua opinião, deveriam ter promovido um ambiente mais salutar à iniciativa individual – um choque de capitalismo. Bem, essa discussão econômica foge ao escopo deste portal, mas, pelo menos, há fatos que lançam esperança para os herdeiros de uma outrora rica civilização:

Em outras economias bastante parecidas, o domínio do islamismo em vez de qualquer outra religião raramente parece prever por que um governo dá certo e outro não. A Malásia, por exemplo, apesar de reter uma forte identidade muçulmana, tem sido uma das economias mais bem sucedidas na segunda onda de crescimento de países do Sudeste Asiático. Nas últimas décadas, o país adotou a industrialização e usou o Estado para promover as companhias privadas e atrair investimentos estrangeiros diretos. De fato, o país se saiu muito melhor que, digamos, as Filipinas (cristãs) ou a Tailândia (predominantemente budista).

Portanto, o papel da religião no desenvolvimento econômico provavelmente se deve se deve mais à sua atuação política que à sua tecnologia. A religião talvez não afete o crescimento por embutir seus valores na psicologia de seus seguidores, mas sim pelo modo como explora as instituições de poder. Isso deve explicar por que a Espanha e Portugal se saíram mal nas primeiras décadas após a Segunda Guerra Mundial. Não foi por serem católicos: o problema foi que, até a metade da década de 1970, foram governados por ditadores que ajudaram a manter o país relativamente pobre e atrasado e construíram alianças próximas com grupos poderosos da Igreja Católica para fortalecer sua própria autoridade.

[Idem, pp. 138-9]

* * *

O leitor espírita (ortodoxo) pode muito bem rejeitar todas essas hipóteses e ficar apenas com a questão 786 do Livro dos Espíritos:

786. A História nos mostra uma multidão de povos que, após terem sido convulsionados, recaíram na barbárie. Onde está nesse caso o progresso?

— Quando a tua casa ameaça cair, tu a derrubas para a reconstruir de maneira mais sólida e mais cômoda; mas, até que ela esteja reconstruída, haverá desarranjos e confusões na tua moradia.

Compreende isto também; és pobre e moras num casebre, mas ficas rico e o deixas para morar num palácio. Depois um pobre diabo, como o eras, vem tomar o teu lugar no casebre e se sente muito contente, pois antes não possuía um abrigo. Pois bem, compreende então que os Espíritos encarnados neste povo degenerado não são mais os que o constituíram nos tempos de sues esplendor. Aqueles, logo que se tornaram mais adiantados, mudaram-se para habitações mais perfeitas e progrediram, enquanto outros, menos avançados, tomaram seu lugar, que por sua vez também deixarão.

Se a única ferramenta que tens é um martelo, então tudo que aparecer na tua frente será tratado como prego. Se esse reducionismo te basta, que seja feliz com ele. Particularmente, acho que a história humana é um sistema sensível demais às condições de um dado momento e, portanto, impossível de se predizer a longo prazo. Para sermos capaz de contornar essa limitação, seria necessário um Supremo Intelecto – a própria Onisciência – que ajustasse um número absurdo de variáveis com precisão absoluta. Um “Vasto Intelecto” – uma falange de espíritos avançados a cuidar deste planeta – não teria competência para tanto, ou daria as desculpas esfarrapadas de Emmanuel para as falhas de uma Providência teoricamente capaz de determinar até a queda de um fio de cabelo meu. Muitos não podem gostar do que vou dizer, mas é possível que os povos do Oriente Médio tenham simplesmente tido azar em estar num ambiente ecologicamente frágil e no caminho de vários invasores. Isso não significa que estejam fadados ficar à mercê dele, mas que têm de aprender a não “dar sorte para o azar”. Os europeus conseguiram.

Você pode até rejeitar esta “Terceira Revelação” por, no momento, aparentar ser uma “estrela cadente”. Mas existe uma “estrela em ascensão” que decolou um pouco antes do advento da codificação kardecista. E seu local de nascimento não foi o decadente Império Otomano, mas o dinâmico e promissor Estados Unidos da América.

[topo]

As Placas de Ouro

Retrato de Joseph Smith

Retrato de Joseph Smith (1805 – 1844), por Alvin Gittins.

INTRODUÇÃO

O livro de Mórmon é um volume de escrituras sagradas comparável à Bíblia. É um registro da comunicação de Deus com os antigos habitantes das Américas e contém a plenitude do evangelho eterno.

O livro foi escrito por muitos profetas antigos, pelo espírito de profecia e revelação. Suas palavras, escritas em placas de ouro, foram citadas e resumidas por um profeta-historiador chamado Mórmon. O registro contém um relato de duas grandes civilizações. Uma veio de Jerusalém no ano 600 a.C. e posteriormente se dividiu em duas nações, conhecidas como nefitas e lamanitas. A outra veio muito antes, quando o Senhor confundiu as línguas na Torre de Babel. Este grupo é conhecido como jareditas. Milhares de anos depois, foram todos destruídos, exceto pelos lamanitas, que são os principais antepassados dos índios americanos.

O acontecimento de maior relevância registrado no Livro de Mórmon é o ministério pessoal do Senhor Jesus Cristo entre os nefitas, logo após sua ressurreição. O livro expõe as doutrinas do evangelho, delineia o plano de salvação e explica aos homens o que devem fazer para ganhar a paz nesta vida e salvação eterna no mundo vindouro.

Depois de terminar seus escritos, Mórmon entregou o relato a seu filho Morôni, que acrescentou algumas palavras suas e ocultou as placas no Monte Curoma. A 21 de setembro de 1823, o mesmo Morôni, então um ser ressurreto e glorificado, apareceu ao Profeta Joseph Smith e instruiu-o a respeito do antigo registro e da tradução que seria feita para o inglês.

No devido tempo as placas foram entregues a Joseph Smith, que as traduziu pelo dom e poder de Deus. Hoje o registro se acha publicado em diversas línguas, como testemunho novo e adicional de que Jesus é o Filho do Deus vivente e de que todos os que se achegarem a ele e obedecerem às leis e ordenanças do seu evangelho poderão ser salvos.

Com respeito a este registro o Profeta Joseph Smith declarou: “Eu disse aos irmãos que o Livro de Mórmon era o mais correto de todos os livros da Terra e a pedra fundamental de nossa religião; e que seguindo os seus preceitos o homem se aproximaria mais de Deus do seguindo os de qualquer outro livro.”

O Senhor providenciou para que, além de Joseph Smith, mais onze pessoas vissem as placas de ouro e fossem testemunhas especiais da veracidade e divindade do Livro de Mórmon. Seus testemunhos escritos estão aqui incluídos como “Depoimento de Três Testemunhas” e “Depoimentos de Oito Testemunhas”.

Convidamos todos os homens de toda parte a lerem o Livro de Mórmon, ponderarem no coração a mensagem que ele contém e depois perguntarem a Deus, o Pai Eterno, em nome de Cristo, se o livro é verdadeiro. Os que assim fizerem e perguntarem com fé obterão, pelo poder do Espírito Santo, um testemunho de sua veracidade e divindade. (Vide Morôni 10:3-5)

Os que obtiverem do Santo Espírito esse divino testemunho saberão, pelo mesmo poder, que Jesus Cristo é o Salvador do mundo, que Joseph Smith é o seu revelador e profeta nestes últimos dias e que a A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias é o reino do Senhor restabelecido na Terra, em preparação para a segunda vinda do Messias.

Assim consta na edição brasileira de O Livro de Mórmon editado por A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (AIJCSUD), a falar a respeito de sua própria origem. Óbvio que a maioria do novatos no assunto, ao lerem essa introdução, vai se perguntar “afinal, onde estão essas benditas placas de ouro?”. Além de Joseph Smith, apenas as onze ditas testemunhas as teriam visto. No testemunho do profeta constante no início dessa mesma edição, ele informa que:

Logo verifiquei a razão de tão severas recomendações para que os guardasse em segurança e por que o mensageiro [Morôni] dissera que, quando eu tivesse realizado o que me fora ordenado, ele viria buscá-los. Pois tão logo se soube que estavam em meu poder, foram empregados os mais tenazes esforços para tirá-los de mim. Todos os estratagemas possíveis foram usados com esse propósito. A perseguição tornou-se mais amarga e severa que antes e multidões mantinham-se continuamente alertas para tirá-los de mim, se possível. Mas pela sabedoria de Deus eles continuaram seguros em minhas mãos até que cumpri, por meio deles, o que me fora requerido. Quando o mensageiro os reclamou, de acordo com o combinado, entreguei-os a ele, que os tem sob sua guarda até esta data, dois de maio de mil oitocentos e trinta e oito.

Pois é, ninguém mais verá a benditas placas. Note que Smith (ou melhor, a tradução) usa o masculino plural, indicando que havia outros itens além das placas e que também foram devolvidos, a saber:

[Morôni] Disse também que havia duas pedras em aros de prata – essas pedras, presas a um peitoral, constituíam o que é chamado de Urim e Tumim – depositadas com as placas; e que a posse e uso das dessas pedras era o que constituía Os Videntes dos tempos antigos; e que Deus as tinha preparado para serem usadas na tradução do livro.

E foi através desse amuleto-médium que Smith teria traduzido as placas.

Para quem está de fora, se é para comentar, o começo da revelação Mórmon foi extremamente duvidoso. Há de se lhe fazer justiça, porém, lembrando que não temos nenhum exemplar original dos livros bíblicos e a real autoria de muitos é desconhecida. Inclusive a dos Evangelhos. A própria codificação kardecista tem a fragilidade de não ofertar mais o conjunto de comunicações sobre as quais Kardec teria trabalhado. Tem-se o resultado final de suas pesquisas, as linhas gerais de metodologia, mas não sua matéria-prima. Ainda que com todos os esses “poréns”, os mórmons – como serão chamados doravante os diversos herdeiros da mensagem de Joseph Smith – conseguiram criar uma genuína revelação do “Novo Mundo”.
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O Clamor da Fronteira

Morôni e as placas douradas.

Morôni enterra os registros nefitas. Pintura mórmon de Tom Lovell

Joseph Smith Jr. nasceu em 23 de dezembro de 1805, em um roçado arrendado por sua família no estado norte-americano de Vermont. Originalmente membros de uma ascendente classe média rural, os Smith caíram em desgraça após a traição de um sócio e, para saldar as dívidas, venderam suas terras. Tornaram-se agricultores arrendatários, perambulando pelos estados de Vermont, New Hampshire e Connecticut, nunca mais conhecendo algo que pudessem chamar de tranquilidade financeira.

Em 1816, Joseph Smith, o pai, partiu com a esposa e prole numerosa para região dos Grandes Lagos, que entrava em efervescência com a construção de canais os interligando. Não era apena a nova fronteira econômica dos nascentes Estados Unidos, mas, também, uma região de grande experimentação religiosa pipocando com diversos pregadores rústicos, adeptos de um revivalismo evangélico similar aos dos modernos pentecostais.

Nessa atmosfera de devoção efervescente, J. Smith conta, em escritos da década de 1830, seu primeiro contato com o divino na primavera de 1820, em certa ocasião que repousava num bosque por volta do meio-dia, quando teve uma visão na forma de um pilar luminoso descendo do céu e uma voz lhe anunciando o perdão dos pecados e ordem para que não se juntasse a nenhuma igreja, pois “todas os seus credos eram abominações para sua vista”. Já o primeiro encontro com o supracitado Morôni se deu apenas na madrugada 21 de setembro 1823, quando foi informado sobre a existência do “livro das placas de ouro” enterrado no monte Cumora, seu conteúdo do “evangelho eterno” dado próprio Jesus aos antigo habitantes da América e a incumbência de Deus para que o divulgasse, pois a segunda vinda estaria próxima. Após amanhecer, seguindo as orientações dadas, desenterrou uma urna de pedra contendo as referidas placas, gravadas com uma escrita ao estilo hieroglífico, e duas pedras posteriormente identificadas como Urim e Tumim – seus instrumentos para a tradução da mensagem para o inglês. J. Smith não foi autorizado a removê-las do local de imediato, pois Morôni sentiu que ele cobiçara mais o ouro das placas que sua mensagem em si. Como penitência retornaria todo dia 22 setembro àquele local por quatro anos, quando foi finalmente autorizado a levá-las.

Joseph Smith & Morôni.

Joseph Smith desenterra as placas, guiado por um transfigurado Morôni. Autoria ignorada.

J. Smith pôde contar com o amparo de sua família na investidura de sua missão desde suas primeiras visões. De modo algum, deve-se ressaltar que eram mero um bando de supersticiosos roceiros. O fato de que os Estados Unidos eram uma nação nascida sob os auspícios do iluminismo do século anterior não fez deles um lar de antirreligiosos, mas antes uma cultura avessa ao autoritarismo religioso, sem perder sua religiosidade e a busca privada pela transcendência. J. Smith cresceu em meio a um verdadeiro “laboratório da fé”, com suas catarses, místicos e profetas fracassados. Seu próprio pai alegava ter visões em sonhos, o que o levou a não estranhar quando um de seus rebentos começou a ter suas próprias. O futuro profeta americano também trabalhou por algum tempo como rabdomante, uma atividade que não era considerada charlatanice, caso mostrasse resultados.

Esse círculo receptivo, onde a notícia desse dourado “testamento perdido” se espalhava de boca em boca, revelou-se uma genuína “faca de dois gumes” para J. Smith, pois despertou a cobiça de seus ex-colegas de rabdomancia que chegaram ao ponto de emboscá-lo e lutar fisicamente para se apoderar das placas. Como tantas outras vezes viria a ocorrer com os mórmons, J.Smith teve de fugir e se refugiou junto às proximidades do sogro. Além da proteção dele, lá pôde contar, também, com a parceria de Martin Harris – um influente fazendeiro a quem ele e seus irmãos já haviam prestado serviços rurais – que foi seu primeiro escrivão durante a tradução das placas (50) e viria a ser o patrocinador da primeira edição de O Livro de Mórmon.

Quando a tarefa já estava em 116 páginas manuscritas do chamado “Livro de Leí”, Smith e Harris suspenderam os trabalhos para resolver questões particulares: o primeiro precisava cuidar da esposa, Emma, que passava uma gravidez de risco (e cujo bebê morreria pouco depois de nascer), ao passo que o segundo queria apaziguar sua própria esposa, Lucy, cada vez mais irritada com o tempo e dinheiro gastos com um vidente (ainda) obscuro. Por conta disso, Harris solicitou levar o material traduzido até ela, a fim de que conferisse sua seriedade. Após um período de luto, Smith foi atrás de Harris, que tardava em dar sinal de vida. Ao voltar, trouxe a má notícia de que o manuscrito fora perdido.

Esse baque marcou um ponto de virada na trajetória de Joseph Smith. A partir então ele, que se via como um mero tradutor de um registro antigo, passou realmente a atuar como profeta – alguém que recebia diretamente a mensagem de Deus – e passaria a transcrever as revelações que recebia. E uma delas dizia:

Eis que te digo que não deverás tornar a traduzir aquelas palavras que saíram de tuas mãos; pois eis que não levarão a efeito seus desígnios iníquos de mentir sobre aquelas palavras. Pois eis que, se escreveres as mesmas palavras, dirão que mentiste e que fingiste traduzir, mas que te contradisseste. E eis que publicarão isso e Satanás endurecerá o coração das pessoas a fim de enfurecê-las contra ti, para que não creiam em minhas palavras.

Doutrina e Convênios, 10:30-2

Então, as próximas traduções seriam a partir do “Livro de Néfi”, que contaria a mesma história do de Leí, mas sob a perspectiva de outra pessoa (51).

Smith tentou reiniciar a trabalho com o auxílio de sua esposa, nos tempos livres dela, mas a progressão se deu forma lenta e intermitente. Apenas com a chegada do também rabdomante Oliver Cowdery em abril de 1829, apresentado por seu irmão Samuel Smith, é que o trabalho deslanchou e em março do ano seguinte estava à venda a primeira edição de O Livro de Mórmon. Em seis de abril 1830, Joseph agregou seu núcleo familiar e os de seus admiradores na “Igreja de Jesus Cristo”, que oito anos depois seria renomeada como “Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”, ou, vulgarmente, Igreja Mórmon.

* * *

O “Livro de Mórmon” é composto de um total de quinze livros rotulados ao estilo bíblico (“Primeiro e Segundo Livro de Néfi”, “Livro de Jacó”, “Livro de Helamã”, etc) e cobre um período que vai desde as vésperas da queda de Jerusalém (600 a.C.) até cerca de 400 d.C. A narrativa começa com um grupo de israelitas rumando para a costa ante aproximação do exército babilônico. Com a condução de Deus, partem num navio rumo a uma nova “Terra Prometida”, que nunca é nomeada, mas supõe-se ser o continente americano. À bordo estão o profeta Leí, sua esposa e as famílias de seus filhos, desses destacam-se Néfi e Lamã. Já na nova pátria, a união familiar se desfaz e esses dois filhos agregam em torno si duas facções, que evoluem, respectivamente, para civilizações rivais: os virtuosos nefitas e os ímpios lamanitas. Após a apresentação do panorama feita por Néfi, seguem-se alguns desenvolvimentos feitos por membros de sua linhagem. E os justos nefitas não tiveram apenas que lutar contra a agressão externa, pois outro front muito ressaltado é interno: a constante luta deles para manter a integridade moral ante as tentações da prosperidade. O clímax se dá em 3 e 4 Néfi (atribuídos a descendentes homônimos), com a vinda de Jesus Cristo, já ressuscitado, descendo dos Céus. Ele prega e converte tanto nefitas como lamanitas antes de ascender novamente. Durante algum tempo ocorre uma espécie prévia do “Reino de Deus” nas Américas, havendo harmonia e paz em suas civilizações, ambas compartilhando de um contato íntimo com o divino. Um período idílico, mas efêmero, pois cerca de duzentos anos depois, a iniquidade ressurge e, desta vez, o nefitas também se rendem à impiedade. Nesse período de decadência em todos os sentidos, surge a narração de Mórmon – general nefita, profeta e historiador de seu tempo – que recebe os registros sagrados (grafados desde a época de Néfi) e tenta um último apelo aos seus para o retorno à retidão. Um derradeiro esforço em vão e os nefitas são praticamente exterminados pelo lamanitas. Seu filho Morôni, um dos últimos nefitas, adiciona pensamentos seus aos registros e os enterra para serem resgatados quando a Segunda Vinda estiver próxima. Vale lembrar de um pequeno interlúdio entre esses dois autores – O Livro de Éter – em que é apresentado um resumo feito por Morôni das placas contendo a história dos jareditas, um povo também guiado por Deus para a América, só que nos tempos da Torre de Babel. Ele, contudo, teria se extinguido muito antes da chegada de Leí e sua família, em razão de guerras civis.

Jesus ensinando aos nefitas.

Jesus ensinando aos nefitas.

Do ponto de vista literário, o conjunto de O Livro de Mórmon apresenta diferenças no estilo e no palavreado, bem como nas preocupações imediatas que afligem seus autores. Embora aparentem ter redações distintas, isso não impede que sejam oriundos de um mesmo autor escrevendo através de heterônimos. Quanto a sua qualidade como leitura, seu valor depende um tanto do gosto pessoal o avaliador, variando desde a obra-prima de um “gênio da religião”(52) a um soporífero “clorofórmio impresso”(53). A parte realmente problemática é quanto a seu fundamento antropológico. Primeiro, é duvidoso que um ajuntamento familiar, ainda que incluísse “famílias estendidas”, tenha dado origem a duas poderosas civilizações em relativamente pouco tempo. Também não há registro arqueológico algum das civilizações descritas nele, nem mesmo um paralelo aproximado com as civilizações pré-colombianas já conhecidas. Por sinal, se repararem nas ilustrações mórmons expostas aqui, não será difícil notar os traços caucasianos de seus personagens de origem nefita. Já os lamanitas, os principais remanescentes dos povos enviados à América:

E a pele dos lamanitas era escura, por causa do sinal que havia sido posto em seus pais como um anátema pela transgressão e rebeldia deles contra seus irmãos que eram Néfi, Jacó e José e Sam, que foram homens justos e santos.

Livro de Alma 3:6

Bem, hoje não é muito politicamente correto atribuir uma origem “pecaminosa” aos atuais ameríndios, mas convenhamos que dificilmente a América wasp que Joseph Smith conheceu aceitaria uma revelação transmitida por “peles-vermelhas”.

Do ponto de vista teológico, o Livro de Mórmon possui pouco material doutrinário que não pudesse ser aceito por cristão “ortodoxos”, fora, claro, a existência de um testamento perdido. Um ponto curioso é que essa suposta “tribo judia americana” apresenta um comportamento muito mais cristão do que seus congêneres que ficaram em Israel, com uma precoce expectativa pelo Messias e práticas de batismo (2 Né. 31). Os aspectos peculiares da doutrina mórmon, e que mais causam aversão a ela por parte da ortodoxia cristã vieram de “revelações divinas” obtidas por Joseph Smith e seus sucessores, reunidas (junto a outras menos polêmicas) em coletâneas, como o Livro Doutrina e Convênios. A saber:

  • Batismo pelos mortos: Todas as religiões salvacionistas e de vida única têm de enfrentar a questão sobre o destino dos que partiram sem receber sua Palavra. Os católicos elaboraram a tese do “batismo por desejo” para englobar as pessoas seguem uma moral similar à cristã, mas nunca puderam travar contato com o cristianismo (catecismo 1260). Protestantes não veem conflito entre a bondade e a justiça caso bilhões “morram sem Cristo” por puro azar de ter vivido longe de qualquer missionário. Para a ala arminianista, Deus deve ter suas razões, ainda que estejam além da compreensão humana (uma tese que pode justificar até as atrocidades bíblicas), já os calvinistas são mais crus ainda: Deus pode mandar zilhões para danação eterna por predestinação e “dane-se” quem discordar. Ele é Deus, ora. Essa dificuldade do protestantismo em conciliar misericórdia e justiça divinas deve ter abalado profundamente a família Smith por ocasião da morte de Alvin – o mais velho irmão se Joseph -, já que, durante o funeral, o ministrante declarou que o falecido jovem devia estar no inferno por nunca ter se juntado a uma igreja. É muito provável Joseph Smith desejasse que a Palavra lhe alcançasse e aos familiares de todos os que passaram por drama igual. E não foi o primeiro a pensar assim, pois o próprio Paulo de Tarso traz o relato (I Cor 15:29) de cristãos que se batizavam em prol de entes queridos que já haviam partido. Paulo não desenvolve o tema – nem o acata ou repreende – e foi essa brecha que a revelação mórmon aproveitou:

    E também vos falo com relação ao batismo por vossos mortos.

    Em verdade, assim vos diz o Senhor a respeito de vossos mortos: Quando um de vós for batizado por vossos mortos, que haja um registrador e que ele seja testemunha ocular de vossos batismos; que ouça com seus ouvidos para testificar a verdade, diz o Senhor;

    Para que todos os vossos registros sejam registrados no céu; para que tudo o que ligardes na Terra seja ligado no céu; tudo o que desligardes na Terra seja desligado no céu;

    Pois estou prestes a restaurar na Terra muitas coisas relativas ao sacerdócio, diz o Senhor dos Exércitos.

    E também que todos os registros sejam conservados em ordem, para que sejam postos nos arquivos de meu santo templo, a fim de serem conservados na lembrança, de geração em geração, diz o Senhor dos Exércitos.

    Doutrina e Convênios 127:5-9. Cf. D&C 124:29, 128:1, 138:33

    Esse batismo “para a remissão dos pecados” não salva automaticamente o morto, mas dá-lhe a oportunidade de, por ocasião do Juízo Final, abraçar a revelação mórmon. Não é à toa que nos mórmons haja grupos especializados na reconstrução de árvores genealógicas.

    O batismo mórmon também é feito “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Sim, os mórmons são trinitário, mas seu entendimento da relação entre as hipóstases é bem peculiar:

    Na Trindade há três pessoas distintas: Deus, o Pai Eterno; seu Filho, Jesus Cristo e o Espírito Santo. Cremos em cada um deles (Regra de Fé 1). As revelações modernas nos ensinam que o Pai e o Filho têm corpos tangíveis de carne e ossos, e que o Espírito Santo é um personagem de espírito, sem carne nem ossos (D&C 130:22-23). Estas três pessoas são um em perfeita unidade, harmonia de propósito e doutrina (2 Né. 31:21; 3 Né. 11:27, 35; Jo. 17:21-23).

    Guia para Estudo das Escrituras (GEE, um apêndice de O Livro de Mórmon), verbete Trindade.

    Não é exatamente o que estaria em conformidade com o entendimento niceno da Trindade, motivo pelo qual o batismo mórmon não é aceito pela maioria das denominações cristãs.

  • Divinização do Homem: Uma frase atribuída ao quinto presidente e profeta dos mórmons, Lorenzo Snow, declara: “Deus um dia foi como é o homem, assim como Deus é o que o homem pode ser” (As man is God once was, as God is man may be). Na verdade, essa frase é uma síntese de ideias previamente declaradas pelo próprio Joseph Smith em ocasiões como o Discurso de King Follett, pronunciado durante o funeral do ancião mórmon que lhe emprestou o nome (07/04/1844):

    (…)Mas é o simples e primeiro princípio do evangelho ― conhecer com certeza o caráter de Deus, e que nós podemos conversar com Ele como um homem com outro. O próprio Deus, o Pai de nós todos, habitou em uma terra do mesmo modo que o próprio Senhor Jesus Cristo fez e eu lhes mostrarei isto usando a Bíblia.

    Quisera ter a trombeta de um arcanjo; Eu poderia contar a história de tal maneira que a perseguição cessaria pra sempre. O que disse Jesus? (Marque isto, Ancião Rigdon!) Jesus disse, “Como o Pai tem poder em Si mesmo, também o Filho tem poder.” Para fazer o quê? Para fazer o que o Pai fez. A resposta é óbvia ― para perder seu corpo e tomá-lo novamente para si. “Jesus, o que vai você fazer?” “Vou perder minha vida como fez meu Pai, e resgatá-la novamente.” Se vocês não acreditam nisto, vocês não acreditam na Bíblia. As escrituras sagradas dizem isto e eu desafio toda a erudição e sabedoria, todos os poderes combinados da terra e do inferno juntos para refutar isto.

    Aqui, então, está a vida eterna ― conhecer o único sábio e verdadeiro Deus. E vocês tem que aprender a ser Deuses ― a ser reis e sacerdotes para Deus, do mesmo modo que todos os Deuses fizeram ― indo de um grau pequeno para outro, de graça em graça, de exaltação em exaltação, até que vocês possam assentar-se em glória como fazem os que se assentam empossados em poder perpétuo.

    Fonte: Book of Abraham Project

    O discurso não faz parte das escrituras canônicas dos mórmons, mas é tratado como “quase” por sua tradição. Em tempos recentes, tem havido entre os mórmons uma interpretação mais amena da segunda parte da sentença, algo como “tornar-se semelhante a Deus”, em vez de “igual a Deus” no sentido mais literal (54).

  • Poligamia:Sem dúvida uma das maiores polêmicas dos mórmons com os cristão é (ou foi) sua aceitação do casamento plural, conforme registrada em Doutrina e Convênios:

    Deus deu a ordem a Abraão e Sara entregou-lhe Agar como esposa. E por que ela o fez? Porque essa era a lei; e de Agar descendeu muita gente. Isso, portanto, foi para o cumprimento, entre outras coisas, das promessas.

    Estava Abraão, portanto, sob condenação? Em verdade vos digo que não; porque eu, o Senhor, dei-lhe essa ordem.

    Foi ordenado a Abraão que sacrificasse seu filho Isaque; não obstante, estava escrito: Não matarás. Abraão, contudo, não se negou e isso lhe foi imputado por justiça.

    Abraão recebeu concubinas e elas geraram-lhe filhos; e isso lhe foi atribuído como sendo justo, porque elas lhe foram dadas e ele obedeceu a minha lei; como também Isaque e Jacó nada mais fizeram do que aquilo que lhes fora ordenado; e porque nada mais fizeram do que as coisas que lhes foram ordenadas, entraram para sua exaltação, de acordo com as promessas; e assentam-se em tronos e não são anjos, mas são deuses.

    Davi também recebeu muitas esposas e concubinas, assim como Salomão e Moisés, meus servos; e também muitos outros de meus servos, desde o princípio da criação até agora; e em nada pecaram, a não ser nas coisas que não receberam de mim.

    As esposas e concubinas de Davi foram-lhe dadas por mim, pela mão de Natã, meu servo, e outros profetas que possuíam as chaves desse poder; e em nenhuma dessas coisas pecou ele contra mim, a não ser no caso de Urias e sua mulher; e, portanto, caiu de sua exaltação e recebeu sua porção; e não as herdará fora do mundo, porque as dei a outro, diz o Senhor.

    Eu sou o Senhor teu Deus e dei a ti, meu servo Joseph, uma designação; e restauro todas as coisas. Pede o que desejares e ser-te-á dado de acordo com minha palavra.

    D&C 132:32-40

    A data oficial de registro dessa revelação é 12 de julho de 1843, mas é provável que esse ensino já fosse discutido e praticado com discrição dentro do círculo mais próximo da Joseph Smith desde 1831. Os mórmons resistiram o quanto puderam às tentativas do governo federal de coibir a prática e discipliná-los, mas finalmente cederam em 1890 quando o presidente da Igreja – Wilford Woodruff – baniu a prática (D&C – Declaração Oficial 1).

    Charge sobre poligamia

    “In Memoriam Brigham Young” (1801 -1877), charge antimórmon fazendo troça com a quantidade de viúvas deixadas pelo segundo presidente dos mórmons.

    Bem, na verdade, pode-se dizer que, hoje, a maioria dos não aceita a poligamia, pois o decreto do Woodruff não foi universalmente aceito, com a permanência de núcleos familiares ainda aferrados à prática. Em 1935, quando as lideranças tentaram ameaçá-los com a excomunhão caso insistissem, praticamente todos os dissidentes preferiram romper os laços, levando à criação da Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, com sua própria linha sucessória de profetas. Continuam polígamos até hoje e criando caso com o governo norte-americano (55).

Depois de Doutrina e Convênios, juntam-se ao cânon mórmon o livro Pérola de Grande Valor – um conjunto de escritos de Joseph Smith publicados em periódicos de seu tempo – e uma versão “revisada” da tradicional Bíblia.

Joseph Smith Jr. não foi o único de sua era a auferir “revelações e profecias”. Uma geração antes dele, a inglesa Joanna Southcott (1750-1814) publicou um volume considerável de revelações sobre a vinda iminente do Messias e, inclusive, suposta sua participação direta nisso dando-lhe à luz (o que não chegou a ocorrer, óbvio). Na própria América, houve as revelações da dissidente quaker Jemima Wilkinson (1752-1819), que chegou a ser dada como morta e, quando se reanimou, alegou ter estado no Céu, retornando à vida graças ao “Espírito de Deus”, de quem se tornara um receptáculo e “segundo mensageiro”. Já em meados século XIX, foi uma outra profetiza, Ellen Gould White (1827-1915), que, com suas visões, praticamente salvou a Igreja Adventista do Sétimo Dia do fiasco após o fracasso de uma profecia apocalíptica. Mas há algo que consideravelmente diferencia Smith de seus similares quase contemporâneos: enquanto suas mensagens eram muito centradas em suas próprias figuras, não se escuta a voz de Smith em O Livro de Mórmon e muito pouco nas demais obras de seu cânon. Ele está mais como um ouvinte e retransmissor do que um ator a contracenar com o espiritual. Sua atuação era terrena. Nesse ponto, eles está mais próximo de Maomé, e até mesmo de Kardec, do que de Montano ou Mani. Smith também se destaca por ter criado uma mitologia nova reelaborando elementos de predecessoras, reunindo, assim, tradição e originalidade. Por esses motivos, merece, sim, ser considerado uma “Terceira Revelação” até pela similaridade de propósitos entre sua mensagem a do codificador do “Velho Mundo”:

GEE, “Restauração do Evangelho” ESE, IV, 4
O restabelecimento sobre a Terra, por parte de Deus, das verdades e ordenanças de seu evangelho. O evangelho de Jesus Cristo foi retirado da Terra em virtude da apostasia que ocorreu após o ministério terreno dos apóstolos de Cristo. A apostasia tornou necessária a restauração do evangelho. Por meio de visões, ministrações de anjos e revelações aos homens na Terra, Deus restaurou o evangelho. A restauração começou com o Profeta Joseph Smith (JS—H 1:1–75; D&C 128:20–21) e continua até hoje por intermédio dos profetas vivos do Senhor. Jesus promete outro consolador: é o Espírito da Verdade, que o mundo ainda não conhece, pois que não está suficientemente maduro para compreendê-lo, e que o Pai enviará para ensinar todas as coisas e para fazer lembrar o que Cristo disse. Se, pois, o Espírito da Verdade deve vir mais tarde, ensinar todas as coisas, é que o Cristo não pode dizer tudo. Se ele vem fazer lembrar o que o Cristo disse, é que o seu ensino foi esquecido ou mal compreendido.

Tanto o espiritismo (kardecista) quanto o mormonismo têm pretensões de restauração de uma pureza e completude perdidas, nem que para isso tenham de inovar. Óbvio que diferem quanto ao que realmente seria a intenção original do Evangelho e, além disso, é importante ressaltar que Joseph Smith não se considera o Paracleto: os mórmons seguem a tradição da maioria das correntes cristãs de atribuir esse papel ao Espírito Santo. Só que nem por isso o caráter da mensagem de Smith é menos distintivo:

1. Em verdade eu te digo que é a minha vontade que meu servo Jared Carter torne a ir às regiões do leste, de lugar em lugar, e de cidade em cidade, no poder da ordenação com o qual foi ordenado, proclamando boas novas de grande alegria, sim, o evangelho eterno.

2. E enviarei sobre ele o Consolador, que lhe ensinará a verdade e o caminho que deverá seguir;

3. E se for fiel, tornarei a coroá-lo com molhos.

4. Portanto, alegra teu coração, meu servo Jared Carter, e não temas, diz teu Senhor, sim, Jesus Cristo. Amém.

Doutrina e Convênios, Seção 79
(Revelação dada por intermédio de Joseph Smith, o Profeta, em Hiram, Ohio, em 12 de março de 1832.)

* * *

1. Em verdade assim vos diz o Senhor, a vós que vos reunistes para saber a sua vontade quanto a vós:

2. Eis que isto é agradável a vosso Senhor e os anjos regozijam-se por vossa causa; as esmolas de vossas orações subiram aos ouvidos do Senhor de Sabaote e estão registradas no livro de nomes dos santificados, sim, os do mundo celestial.

3. Portanto, agora vos envio outro Consolador, sim, a vós, meus amigos, para que habite em vosso coração, sim, o Santo Espírito da promessa; esse outro Consolador é o mesmo que prometi a meus discípulos, como registrado no testemunho de João.

4. Esse Consolador é a promessa de vida eterna que vos faço, sim, a glória do reino celestial;

(. . .)

Doutrina e Convênios, Seção 88
(Revelação dada por intermédio de Joseph Smith, o Profeta, em Kirtland, Ohio, em 6 de maio de 1833.)

Ou seja, embora os mórmons não tomem Joseph Smith como o Paracleto, consideram não apenas ele como todos os seus sucessores inspirados pelo mesmo Consolador prometido aos apóstolos no evangelho de João. Por essa razão, também faz sentido incluir o mormonismo no rol das Terceiras Revelações.

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Epopeias Divinas e Terrenas

Templo Mórmon

Templo Mórmon de Salt Lake City, Utah, EUA.

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As teses, digamos, heterodoxas de Joseph Smith despertaram o interesse de muitos e a rejeição de outros tantos. Um ingrediente em especial para sua popularidade foi a importação narrativa épica das terras do longínquo Oriente Médio para o solo americano. A “terra da liberdade” também fora palco dos planos divinos – com seus heróis, vilões e sagas -, o que fez da Igreja dos Santos dos Últimos Dias uma genuína religião americana para os americanos. Partindo de Nova York, iniciou-se intenso trabalho missionário alcançando outros estados, como Ohio, Missouri e Illinois. Como em geral acontece com seitas proselitistas novatas (os antigos nazarenos que o digam), atritos começaram as surgir com os que continuaram fiéis às religiões ancestrais; seja pelo ciúmes dos pastores protestantes, pelo ressentimento de famílias divididas e pelo temor de políticos locais quanto à preservação do status quo. O resultado não poderia ter sido outro: brigas e perseguições, tendo o próprio Joseph Smith sido assassinado por uma turba em 1844, enquanto se encontrava cumprindo pena na prisão.

A maior parte dos mórmons reuniu-se em torno da liderança de Brigham Young, que reuniu seus dispersos seguidores rumo à fronteira oeste, onde estabeleceram um assentamento no “Vale do Lago Salgado” em 1847, bem longe de seus perseguidores. Foi um início cheio de percalços: um ano após a fundação estourou o conflito entre Estados Unidos e México, que terminou com a conquista de praticamente metade do território do último.

(Em construção)

Qual a Verdade do Espírito?


Em Obras Póstumas, segunda parte, pode-se encontrar um pequeno conjunto de textos autobiográficos de Kardec. Entre eles temos a narração de um curioso encontro:

25 de março de 1856
(Em casa do Sr. Baudin; médium: Srta. Baudin)
MEU GUIA ESPIRITUAL

Morava eu, por essa época, na rua dos Mártires, nos 8, no segundo andar, ao fundo. Uma noite, estando no meu gabinete a trabalhar, pequenas pancadas se fizeram ouvir na parede que me separava do aposento vizinho. A princípio, nenhuma atenção lhes dei; como, porém, elas se repetissem mais fortes, mudando de lugar, procedi a uma exploração minuciosa dos dois lados da parede, escutei para verificar se provinham do outro pavimento e nada descobri. O que havia de singular era que, de cada vez que eu me punha a investigar, o ruído cessava, para recomeçar logo que eu retomava o trabalho. Minha mulher entrou da rua por volta das dez horas; veio ao meu gabinete e, ouvindo as pancadas, me perguntou o que era. Não sei, respondi-lhe, há uma hora que isto dura. Investigamos juntos, sem melhor êxito. O ruído continuou até à meia-noite, quando fui deitar-me.

No dia seguinte, como houvesse sessão em casa do Sr. Baudin, narrei o fato e pedi que mo explicassem.

Pergunta — Ouvistes, sem dúvida, o relato que acabo de fazer; poderíeis dizer-me qual a causa daquelas pancadas que se fizeram ouvir com tanta persistência?

Resposta — Era o teu Espírito familiar.

P. — Com que fim foi ele bater daquele modo?

R. — Queria comunicar-se contigo.

P. — Poderíeis dizer-me quem é ele?

R. — Podes perguntar-lhe a ele mesmo, pois que está aqui.

NOTA — Nessa época, ainda se não fazia distinção nenhuma entre as diversas categorias de Espíritos simpáticos. Dava-se-lhes a todos a denominação de Espíritos familiares.

P. — Meu Espírito familiar, quem quer que tu sejas, agradeço-te o me teres vindo visitar. Consentirás em dizer-me quem és?

R. — Para ti, chamar-me-ei A Verdade e todos os meses, aqui, durante um quarto de hora, estarei à tua disposição.

P. — Ontem, quando bateste, estando eu a trabalhar, tinhas alguma coisa de particular a dizer-me?

R. — O que eu tinha a dizer-te era sobre o trabalho a que te aplicavas; desagradava-me o que escrevias e quis fazer que o abandonasses.

NOTA — O que eu estava escrevendo dizia respeito, precisamente, aos estudos que empreendera acerca dos Espíritos e de suas manifestações.

P. — A tua desaprovação era referente ao capítulo que eu escrevia ou ao conjunto do trabalho?

R. — Ao capítulo de ontem; submeto-o ao teu juízo; se o releres, reconhecerás tuas faltas e as corrigirás.

P. — Eu mesmo não me sentia satisfeito com esse capítulo e o refiz hoje. Está melhor?

R. — Está melhor, mas ainda não satisfaz. Relê da 3ª a 30ª linha e com um grave erro depararás.

P. — Rasguei o que escrevera ontem.

R. — Não importa!Isso não impediu que a falta continuasse. Relê e verás

P. — O nome Verdade, que adotaste, constitui uma alusão à verdade que eu procuro?

R. — Talvez; pelo menos, é um guia que te protegerá e ajudará.

P. — Poderei evocar-te em minha casa?

R. — Sim, para te assistir pelo pensamento; mas, para respostas escritas em tua casa, só daqui a muito tempo poderás obtê-las.

NOTA — Com efeito, durante cerca de um ano, nenhuma comunicação escrita obtive em minha casa e sempre que ali se encontrava um médium, com quem eu esperava conseguir qualquer coisa, uma circunstância imprevista a isso se opunha. Somente fora de minha casa lograva eu receber comunicações.

P. — Poderias vir mais amiúde e não apenas de mês em mês?

R. — Sim, mas não prometo senão uma vez mensalmente, até nova ordem.

P. — Terás animado na Terra alguma personagem conhecida?

R. — Já te disse que, para ti, sou a Verdade; isto, para ti, quer dizer discrição; nada mais saberás a respeito.

NOTA — À noite, de regresso a casa, dei-me pressa em reler o que escrevera. Quer no papel que eu lançara à cesta, quer em nova cópia que fizera, se me deparou, na 30ª linha, um erro grave, que me espantei de haver cometido. Desde então, nenhuma outra manifestação do mesmo gênero das anteriores se produziu. Tendo-se tornado desnecessárias, por se acharem estabelecidas as minhas relações com o meu Espírito protetor, elas cessaram. O intervalo de um mês, que ele assinara para suas comunicações, só raramente foi mantido, no princípio. Mais tarde, deixou de o ser, em absoluto. Fora sem dúvida um aviso de que eu tinha de trabalhar por mim mesmo e para não estar constantemente a recorrer ao seu auxílio diante da menor dificuldade.

9 de abril de 1856
(Em casa do Sr. Baudin; médium: Srta. Baudin)

Pergunta (à Verdade) — Criticaste outro dia o trabalho que eu havia feito e tiveste razão. Reli-o e encontrei na 30ª linha um erro contra o qual protestaste por meio das pancadas que me fizeste ouvir. Isso me levou a descobrir outros defeitos e a refazer o trabalho. Estás agora satisfeito?

Resposta — Acho-o melhor, mas aconselho-te que esperes um mês para divulgá-lo.

P. — Que queres dizer, falando em divulgá-lo? Não tenho, bem sabes, a intenção de publicá-lo já, se é que o haja de publicar.

R. — Quero dizer: mostrá-lo a terceiros. Busca um pretexto para recusar isso aos que te pedirem para vê-lo. Daqui até lá melhorarás o trabalho. Faço-te esta recomendação para te poupar à crítica; precato o teu amor-próprio.

P. — Disseste que serás para mim um guia, que me ajudará e protegerá. Compreendo essa proteção e o seu objetivo, dentro de certa ordem de coisas; mas, poderias dizer-me se essa proteção também alcança as coisas materiais da vida?

R. — Nesse mundo, a vida material é muito de ter-se em conta; não te ajudar a viver seria não te amar.

NOTA — A proteção desse Espírito, cuja superioridade eu então estava longe de imaginar, jamais, de fato, me faltou. A sua solicitude e a dos bons Espíritos que agiam sob suas ordens, se manifestou em todas as circunstâncias da minha vida, quer a me remover dificuldades materiais, quer a me facilitar a execução dos meus trabalhos, quer, enfim, a me preservar dos efeitos da malignidade dos meus antagonistas, que foram sempre reduzidos à impotência. Se as tribulações inerentes à missão que me cumpria desempenhar não me puderam ser evitadas, foram sempre suavizadas e largamente compensadas por muitas satisfações morais gratíssimas.

Em mensagens mais tardias, o Espírito da Verdade revelou mais a respeito de si nas entrelinhas, o que não deixou de ser bastante impressivo:

COMUNICAÇÃO ESPIRITA.

A propósito de A Imitação do Evangelho. (Bordeaux, maio de 1864; grupo de Saint-Jean. – Médium, Sr. Rul.)

Um novo livro acaba de aparecer; é uma luz mais brilhante que vem clarear o vosso caminho. Há dezoito séculos eu vim, por ordem de meu Pai, trazer a palavra de Deus aos homens de vontade. Esta palavra foi esquecida pela maioria, e a incredulidade, o materialismo, vieram abafar o bom grão que eu tinha depositado sobre vossa Terra. Hoje, por ordem do Eterno, os bons Espíritos, seus mensageiros, vêm sobre todos os pontos do globo fazer ouvir a trombeta retumbante. Escutai suas vozes; são aquelas destinadas a vos mostrar o caminho que conduz aos pés do Pai celeste. Sede dóceis aos seus ensinos; os tempos preditos são chegados; todos as profecias serão cumpridas.

Pelos frutos se reconhece a árvore. Vede quais são os frutos do Espiritismo: casais, onde a discórdia havia substituído a harmonia, viu-se retornar à paz e à felicidade; os homens que sucumbiam sob o peso de suas aflições, despertados aos assentos melodiosos das vozes de além-túmulo, compreenderam que caminhavam em falso caminho, e, ruborizados de suas fraquezas, arrependeram-se, e pediram ao Senhor a força de suportar suas provas.

Provas e expiações, eis a condição do homem sobre a Terra. Expiação do passado, provas para fortalecê-los contra a tentação, para desenvolver o Espírito pela atividade da luta, habituá-lo a dominar a matéria, e prepará-lo para os gozos puros que o esperam no mundo dos Espíritos.

Há várias moradas na casa de meu Pai, eu lhes disse há dezoito séculos. Estas palavras, o Espiritismo veio fazer compreendê-las. E vós, meus bem-amados, trabalhadores que suportais o ardor do dia, que credes ter a vos lamentar da injustiça da sorte, bendizei vossos sofrimentos; agradecei a Deus que vos dá os meios de quitar as dívidas do passado; orai, não dos lábios, mas do vosso coração melhorado, para vir tomar, na casa de meu Pai, a melhor morada; porque os grandes serão rebaixados; mas, vós o sabeis, os pequenos nos e os humildes serão elevados.

O ESPÍRITO DE VERDADE.

Fonte: Revista Espírita, dezembro de 1864 (56)

Há várias moradas na casa de meu Pai, eu lhes disse há dezoito séculos“, numa clara alusão à João 14:2. Isso, para muitos espíritas, basta para para identificar o Espírito da verdade com Jesus. Só que, dependendo das premissas que se adote, as coisas podem ser bem complicadas. O escritor José Reis Chaves, por exemplo, fez valer uma leitura mais literal do evangelho de João que, de certa forma, desqualifica esse entendimento.

E, se tanto o Pai pode enviar o Espírito Consolador (São João 14, 16), como o próprio Jesus pode também enviar esse Espírito Consolador (São João 16, 7), é porque, de fato, nem sempre é Jesus o Consolador, pois quem envia não pode ser, ao mesmo tempo, o enviado. Mas aqui fica provado que Jesus chefia a equipe dos enviados.

A Face Oculta das Religiões, EBM, 2006, p. 146

Em um artigo publicado no jornal O Tempo, de Belo Horizonte – MG, retomou esse mesmo raciocínio:

O Espírito de Verdade ou o que guia para a verdade (João 16,13) é interpretado de diferentes modos, sob a ótica da Bíblia, pelos católicos, espíritas, protestantes, evangélicos e carismáticos.

O Espírito de Verdade é chamado também de o Consolador, de Espírito Santo ou Santo Espírito, Paráclito ou Paracleto, Mentor, Protetor, Defensor e Advogado. Ele pode não ser Jesus, pois Jesus disse que nos seria enviado pelo Pai outro Consolador
(São João 14,16). Mas, mais raramente, pode ser também Jesus.

Faces do Espírito de Verdade, O Tempo, seção “Opinião”, 19/09/2007.

A resposta veio em artigo homônimo publicado no dia seguinte:

Faces do Espírito de Verdade

HUGO ALVARENGA NOVAES

Sabemos que há certas questões que não são consensuais no meio espírita.

Sendo assim, com todo o respeito que temos pelo confrade José Reis Chaves, com o qual concordamos em muitos pontos, neste em especial divergimos.

O teósofo e biblista, em sua coluna semanal, publicada em Opinião dia 17.9, não define a identidade do Espírito de Verdade, enquanto a doutrina codificada por Allan Kardec o faz categoricamente, embora isso não seja notado por boa parte de seus adeptos.

Em nosso modesto parecer, o texto do pesquisador e escritor espírita Paulo da Silva Neto Sobrinho “Espírito de Verdade, Quem Seria Ele?” vem elucidar de vez (conforme o que nos mostra o espiritismo) a identidade do Espírito de Verdade, que é mencionada no “Evangelho Segundo o Espiritismo”, no “Livro dos Médiuns”, em “A Gênese” e em “Obras Póstumas”, como também na revista “Espírita”, publicada nos anos de 1858 a 1869.

Vale a pena dizer que na redação que ora mencionamos encontram- se trechos das obras citadas que comprovam de forma incontestável a autenticidade de suas afirmações, acabando totalmente com as diversas interpretações errôneas de que o Espírito de Verdade seria uma comunidade de espíritos, um enviado do Cristo ou mesmo o espiritismo.

Achamos ser nosso dever informar corretamente que, segundo a religião, o Espírito de Verdade é Jesus, sem sombra de dúvidas.

Sugiro aos leitores, em especial aos profitentes do kardecismo, que leiam atentamente o link http://www.apologiaespirita.org/artigos_estudos/espirito_de_verdade_quem_seria_ele.htm, a fim de confirmarem essas palavras.

Biblista

Não é difícil encontrar variantes dessa discussão pela internet afora. Particularmente, não tomo partido de nenhuma dessas posições, pois ambas estão erradas pelo mesmo motivo, que será apresentado no próximo item. Por ora, não posso deixar de reparar numa semelhança entre essa questão espírita e outra ocorrida cerca de 1.600 anos atrás:

Em suma, não desconhecem a quem o sermão se refere. Todos os lugares da cidade estão cheios deles, os becos, os mercados, as praças, os distritos residenciais, os vendedores de roupas, os chefes das mesas de câmbio, os que vendem nossa comida. Se você pede o troco (101), ele filosofará contigo acerca do Criado e do Incriado; se você perguntar o preço do pão, ele responderá que “o Pai é maior e o filho é subordinado”; e se você disser, “o banho está pronto?” ele irá declarar que o Filho vem do não-ser. Eu não sei de como chamar esse mal, será que é uma loucura ou delírio, ou alguma outra doença que se espalhou pelo povo e desestabiliza a mente.

Sermão da Divindade do Filho e do Espírito Santo.

Extraído de Patrologia Graeca, vol. 46, col. 557

E assim Gregório de Nissa descreveu os ânimos da população de Constantinopla às vésperas do Concílio de 381.Todo mundo parecia interessado em discutir cristologia, embora, efetivamente, somente os bispos tivessem algum poder de decisão. Não é um comportamento muito diferente do que conhecemos em Copas do Mundo, quando o país ganha uns duzentos milhões de técnicos de futebol, ou das diversas torcidas durante os campeonatos nacionais. Enfim, todos querem opinar sobre uma incerteza, ainda que em nada possam interferir decisivamente, agrupando-se por afinidade de ideias, guiando-se por paixões ocultas por uma fina camada de racionalidade.

Briga de torcida

Printscreen da troca de mensagens privadas entre os membros de um fórum virtual espírita que se atreveram a discutir sobre o Espírito da Verdade.

Os evangelhos não são sistemáticos quanto ao relacionamento entre o Pai e o Filho, Maomé não deixou claro como ele seria sucedido e Kardec não dedicou um capítulo de O Livro dos Espíritos à natureza desse tal de “Verdade”. São brechas como essas que deram margem a anos (ou séculos) de disputas. Para os espíritas, felizmente, a identidade desse “espírito” não é uma ameaça tão grande à união do movimento, como foi a questão ariana para a ortodoxia cristã, por dois motivos que vislumbro:

  1. Não há nenhuma força central querendo definir a questão: A antiga proto-ortodoxia cristã já tinha um esquema teológico razoavelmente definido no século III, deixando os pormenores em aberto. Por exemplo, já era bem aceita a ideia de Jesus tinha um caráter divino. A questão de “divino como?” só se tornou crucial quando o cristianismo foi abraçado pelo imperador romano Constantino (57), que determinou que as arestas fossem aparadas. Como nosso Estado é laico e a FEB está longe de ter o poder do Vaticano, não existe nenhuma premência para um espiritismo “pasteurizado”.
  2. Isso está fora do cerne do espiritismo: ou melhor, da “salvação segundo o espiritismo”. No cristianismo tradicional, principalmente em sua herança paulina, a salvação reside em boa parte (ou toda, segundo algumas igrejas) no sacrifício de Jesus. Daí uma razão da importância em se compreender o caráter do sacrificado. Quando o espiritismo colocou a “salvação” nas mãos do indivíduo – pela reforma íntima e a prática da caridade – ele fechou muitas portas para o dogmatismo. Assim como o judaísmo rabínico se centrou na prática da Lei, o espiritismo centra-se em práticas diárias, deixando elucubrações para os que gostam delas.

De experiência própria, a maioria dos adeptos toca a vida sem se importar com isso, tal como na questão do roustaingismo. A maior parte das brigas que presenciei se deu no meio virtual, onde não se vê os olhos do outro. Entendo, porém, a obsessão de alguns espíritas em fazer de Jesus o Espírito da Verdade, afinal, caso ele não o seja, a Terceira Revelação francesa pode ficar sem o mesmo cacife da Segunda.

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O Adeus e o Adeus de Jesus

Gostaria de retomar a citação de J.R. Chaves feita um pouco acima:

E, se tanto o Pai pode enviar o Espírito Consolador (São João 14, 16), como o próprio Jesus pode também enviar esse Espírito Consolador (São João 16, 7), é porque, de fato, nem sempre é Jesus o Consolador, pois quem envia não pode ser, ao mesmo tempo, o enviado. Mas aqui fica provado que Jesus chefia a equipe dos enviados.

A Face Oculta das Religiões, EBM, 2006, p. 146

Vejamos in loco:

E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre;
Jo 14:16

Todavia digo-vos a verdade, que vos convém que eu vá; porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, quando eu for, vo-lo enviarei.

Jo 16:7-8

Ambas as passagens são retiradas de uma parte do evangelho de João conhecida como “Discurso de Adeus” ou “Discurso de Despedida” (capítulos XIII ao XVII), um longo diálogo entre Jesus e seus discípulos entre a lavagem dos pés e sua prisão (58). O anúncio do Consolador não é a única vez que a fala de Jesus é redundante. Ele ordena duas vezes aos discípulos que …

Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis.
Jo 13:34

O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.
Jo 15:12

Disse duas vezes que partiria:

Ainda um pouco, e o mundo não me verá mais, mas vós me vereis; porque eu vivo, e vós vivereis.
Jo 14:19

Saí do Pai, e vim ao mundo; outra vez deixo o mundo, e vou para o Pai.
Jo 16:28

Outras duas vezes que o mundo os faria sofrer:

Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.
Jo 14:27

Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus.
E isto vos farão, porque não conheceram ao Pai nem a mim.

Jo 18:2-3

Tudo isso pode não passar de uma questão de ênfase, se não fossem duas passagens particularmente estranhas. Primeiro, ao fim do capitulo XIV (v. 31) Jesus diz: “ Levantai-vos, vamo-nos daqui”, mas o diálogo prossegue por mais três capítulos. Poder-se-ia alegar que Jesus e seus discípulo adotaram um método peripatético de ensinar enquanto passeiam, mas ainda assim seria possível pular de 14:31 para 18:1 sem qualquer sensação de perda. A segunda e particularmente mais estranha é pergunta que lança em 16:5: “E agora vou para aquele que me enviou; e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’“. Ora, no capítulo XIII, Pedro indagou a Jesus “Senhor, para onde vais?” (v. 13:36) e no capítulo seguinte foi a vez de Tomé dizer “Senhor, não sabemos para onde vais” (v. 14:5). Teria Jesus problemas em fixar a memória recente?

Há quem sugira (59) que o “Discurso de Despedida” faria mais sentido se fosse reordenado da forma 13:1-30, 17:1-26, 13:31-5, 15:1 – 16:33, 13:36 – 14:31. De fato, isso melhoraria o fluir do texto, mas não eliminaria todas as dificuldades dele, como suas redundâncias e até contradições, como as apresentadas, sem querer, por J.R. Chaves (60), além de precisar explicar o porquê de se embaralhar um texto mais coerente. A verdade pode estar numa hipótese mais simples: a existência de duas fontes para o Discurso de Despedida, ambas muito similares nos temas tratados, mas díspares nos pormenores. Durante a edição de João, elas foram unidas sem que as incompatibilidades fossem sanadas. Talvez em respeito ao texto legado.

Discurso de Despedida.

As fontes para o Discurso de Despedida.

Afinal, qual delas é mais genuína às palavras de Jesus? Tomando o raciocínio de J.R. Chaves, se for a primeira (que contém Jo 14:26) então o Pai pode enviar Jesus de novo e ele ser o Espírito de Verdade. Se for a segunda (contendo a Jo 16:7-8), então ele não poderá enviar a si mesmo. Há uma terceira opção, que passa longe de qualquer debate interno do espiritismo: nenhuma das passagens tem valor histórico. É bem possível que Jesus nunca tenha prometido um “consolador”, seja ele mesmo ou outrem.

Pelo menos desde o lançamento de Cristianismo e Espiritismo, por Léon Denis, os adeptos do espiritismo tem demonstrado maior aceitação da crítica textual bíblica que suas contrapartes católicas e protestantes (61). Isso é bem prestativo na hora de eliminar doutrinas teológica que se desenvolveram após a redação do Novo Testamento e tentaram se infiltrar nele (62), mas pode ser um tiro no pé se formos avaliar as inovações que podem ter surgido durante a fase transmissão oral da tradição cristã. No caso do Discurso de Despedida, pesa contra ele o fato de quase nenhuma fala de Jesus em João ser tida como verídica.

Justiça seja feita, se há discussões acaloradas quanto ao texto recebido dos evangelhos, muito mais discussão existe quanto a sua origem e concepção. De certa forma, o critérios para aumentar ou diminuir a credibilidade de um dito variam conforme o “tipo de Jesus” que se tenha em mente, por exemplo, os adeptos do “profeta apocalíptico” terão em alta conta os ditos apocalípticos de Marcos, já os partidários do “mestre de sabedoria”, não. Há, contundo, um consenso de que a maior parte dos ditos atribuídos a Jesus em João não foram proferidos por ele, refletindo, na verdade, pensamentos da comunidade joanina a seu respeito, pois diversos aspectos dele depõem contra a historicidade de suas falas (63):

  • É tardio: o último dos canônicos a ser redigido foi ele, por volta de 95 d.C., o que pode ter dados mais tempo para a elaboração de uma imagem de Jesus distanciada do personagem histórico;
  • Teologicamente sofisticado: o grande tema de João é o próprio Jesus! Se fosse escrito de seu próprio punho, poder-se-ia suspeitar que o Messias tinha um ego gigantesco para gastar tanto tempo discutindo sua natureza e sua relação com o Pai;
  • Muitas coisas só são ditas nele: essa característica anda de mãos dadas com a anterior. Só em João Jesus é apresentado como o Verbo coeterno do Pai(1:1-14), o próprio diz ser igual a Ele (10:30) ou que toda relação (boa ou ruim) da humanidade com o Pai e vice-versa se dá exclusivamente por meio dele (5:22-4, 6:40, 14:9). Nada como isso pode ser encontrado nos sinópticos ou, até mesmo, Paulo. É mais provável que sejam elaborações tardias da comunidade de João;
  • Falas longas e elaboradas: Isso opõe ao padrão de parábolas e aforismos encontrados nos sinópticos e até em Tomé ou nos ditos ágrafos. Mesmos os discursos longos dos outros evangelhos, como o Sermão da Montanha, podem ser desmontados em unidades pequenas que foram, posteriormente, agrupadas. É improvável que longos discursos sem estrutura mnemônica (por exemplo, uma poesia ritmada) permanecessem inalterados tanto tempo pela transmissão oral;
  • Uma única voz: sem a indicação de quem fala, os discursos de João Batista, de Jesus e o do narrador são quase indistintos. Por trás deles há apenas o autor do evangelho colocando neles seu ponto de vista.

Isso não quer dizer que não haja informações de valor histórico desse evangelho servindo de atestação independente aos sinópticos como, por exemplo, a origem judia de Jesus, a expulsão dos vendilhões (64), a existência de doze discípulos, a negação de Pedro (65) e a crucifixão. Contudo, nos instantes que antecedem a prisão de Jesus, esse evangelho causa confusão. Se repararem bem, não há Última Ceia nesse evangelho, ao menos não como nos sinóptico. Informa-se apenas que cearam, então passa-se à lavagem dos pés ao discurso despedida, sem nada que remeta ao que é hoje conhecido como eucaristia. Isso não significa que a comunidade joanina não a tivesse de alguma forma, tanto que há versículos nesse evangelho remetendo a esse sentido (Jo 6:35, por exemplo), e, claro, há quem tente conciliar as narrativas justapondo o discurso de despedida à Eucaristia. Só que as coisas não são tão simples assim: o anúncio da traição, nos sinópticos, se deu durante a ceia e não após, Jesus não molha um bocado e o dá a Judas nos sinópticos, não há oração no horto em João e ninguém tira um cochilo antes que os soldados do Templo cheguem. Enfim, as duas linhas narrativas são bem díspares e dentro da última há duas recomendações finais distintas. Difícil crer que haja veracidade em ambas ao mesmo tempo.

O espiritismo, por sua vez, é pouco dependente de João, estando mais para uma reinvenção do cristianismo sinóptico despojado de escatologia. A ironia é que um autoproclamado “racional” usa justamente uma parte historicamente dúbia desse evangelho para validar seu próprio advento. Contudo, a principal razão pela qual o espiritismo, ou qualquer outra pretensa terceira revelação, não deve corresponder à promessa do consolador, é que ela não foi feita para os que nasceram duzentos, seiscentos ou mil e oitocentos anos após a morte de Jesus, mas para a própria comunidade joanina, que vivenciava amargores pelos quais as gerações seguintes não passaram.
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Vinde Espírito Santo!

Em função dos vários desdobramentos interessantes que surgiram enquanto eu escrevia, decidi tornar esta parte um artigo separado. Clique aqui.
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Notas


(1) História Eclesiástica, livro V, cap. XIV-XVI; e Panarion, cap. XLVIII.

(2)Em [Panarion, seção, IV, cap. XLVIII, p.7], Epifânio transcreve uma fala atribuída a uma companheira de Montano, Maximila: “após mim não haverá outro profeta, mas a consumação“.

(3)História Eclesiástica, Livro V, cap. XVI, parágrafo 12.

(4)No tratado “Sobre a Trindade“, livro III, cap. XLI, atribui-se a ele a frase: “Eu sou o Pai, o Verbo, o Paracleto“. Cf. Patrologia Graeca, tomo XXXIX, cols 983-4.

(5)Barth D.Ehrman, em Evangelhos Perdidos, cap. IX (pp. 290-4 da edição da Record, 2008) destrincha muitas falhas nos argumentos de Epifânio contra os gnósticos fibionitas. Por outro lado, ele mesmo citou (cap. VII, p. 225) a profecia de Maximila quanto a proximidade do fim, constante no Panarion de Epifânio. Teria Ehrman traído sua própria filosofia de trabalho. Provavelmente não, pois é muito difícil fugir de cronistas ruins quando eles foram os únicos que sobraram. Portanto, é necessário separar o joio do trigo no trato de seus relatos.

(6)E faz a mesma refutação que até hoje os ortodoxos cristãos usam: o Paracleto foi o Espírito Santo em sua vinda no dia de Pentecostes

(7)Práxeas acreditava que as três Hipóstases da Trindade eram uma só, levando a ideia de que o próprio Pai encarnou no útero de Maria, viveu como Jesus e morreu na cruz. Essa tese é também conhecida como patripassionismo (de “o Pai sofreu”).

(8)Ver, também, Praedestinatus Haeresis.

(9) Ou Manes ou, ainda do aramaico helenizado, Manichaios: “Mani, o Vivente”.

(10)Os Elcesaítas (ou helcesaítas, elcasaítas, elquesaítas) formavam uma seita judaica-cristã gnóstica fundada no começo do século II da era Comum. Nosso conhecimento sobre ela chegou até nós por meio de Hipólito de Roma (Refutação de Todas as Heresias, IX.13-17 e X.29), Epifânio(Panarion, heresias 19 e 30) e Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica, VI.38). Todos eles relatam a existência de um livro atribuído a um certo Elchasai, adotado por várias seitas e, em especial, pelos elcesaítas, que receberam esse rótulo por isso. Elchasai, por sinal, teria sido apenas quem teve a tarefa de divulgar o livro, que teria descido dos céus, segundo seus adeptos. Em linhas gerais, a mensagem principal do contida nele era que o Filho de Deus teria tido várias manifestações ao longo dos séculos na pessoa dos justos. Jesus Cristo, filho natural de Maria e José, fora apenas mais uma delas. Além disso, estabelecia a observância da Lei Mosaica (excetuando os sacrifícios de animais), um nova fórmula de batismo, práticas de astrologia e rituais de magia. Seria lícito aparentemente negar a fé para escapar de perseguições.

(11) Boa parte das informações biográficas de Mani foram transmitidas pelo Cologne Mani-Codex, comprado em 1969 de antiquários egípcios por pesquisadores alemães. Para um bom resumo da história inicial do maniqueísmo e de sua doutrina, vide [Garnder & Lieu, cap. II].

(12)Como, por exemplo, a inclusão de sêmen na eucaristia em razão de uma “superstição”:

Quanto àqueles dois navios, isto é, as duas luminárias celestiais, eles [os maniqueus] retratam-nas assim: dizem que a Lua é feita da boa água e o Sol do fogo bom. E nesses navios se encontram as santas virtudes que, por um lado, transfiguram-se em machos a fim de seduzir as fêmeas da raça oposta (gentis adversae) e, pelo outro, em fêmeas para seduzir os machos da mesma raça oposta. E quando o desejo deles for atiçado por essa sedução, supõe-se que a luz que portam em seus membros lhes escape e seja capturada pelos anjos de luz para ser limpa, e, quando limpa, posta nesses navios para ser levada de volta a seus próprios domínios.

Por essa razão – ou um tanto porque são forçados por sua repulsiva superstição – seus Eleitos são levados a consumir um tipo de eucaristia à qual sêmen humano foi adicionado, a fim de que a divina substância seja limpa disso também, como dos outros alimentos que consomem.

De Haeresibus, capítulo XLVI,

Em suas “Confissões”, Agostinho relata seus padrões frouxos na época em que era maniqueu. Isso não significa que Mani advogou um hedonismo vulgar. Na verdade, como Agostinho também comenta, os maniqueus se dividiam em dois grupos: os Escolhidos – que viviam de forma regrada para se libertar do mundo – e os Ouvintes – a quem apenas bastava aceitar a revelação maniqueia e amparar materialmente os Eleitos. Dá para imaginar a qual Agostinho pertenceu.

Bem, acredite se quiser. Plínio, o Jovem, em carta ao imperador Trajano (começo do século II), relatara que os cristãos que conhecera na província sob sua administração praticavam canibalismo “comendo seu próprio deus”. Qualquer católico praticante identificaria isso como um entendimento equivocado da eucaristia. Agostinho, como mero “ouvinte”, pode ter trocado “alho por bugalho”. O papel do Sol e da Lua como agentes purificadores também é relatado (sem esses pormenores) no salmo maniqueu transcrito nessa seção.

(13)De [Haardt, p. 302, nota nº 1]

Este salmo pertence a uma coleção de cânticos que eram entoados no Festival de Bema, a principal festa da comunidade maniqueia. Durante sua celebração, meditavam-se sobre o sofrimento e morte de Mani, bem como a vinda do Julgamento. A palavra grega “bema” aqui significa, grosso modo, o assento ou a corte do juiz.

De certa forma, Bema fazia as vezes da Páscoa cristã para os maniqueus.

(14)Em O Livro dos Gigantes atribuído a Mani, há várias correlações com o pseudoepígrafo I Livro de Enoque. Na primeira parte desse, é narrada a queda de um grupo de anjos conhecidos como “Vigilantes”.

(15)A mãe de Mani possivelmente se chamava Maria (Maryam), indicando uma origem judaica ou confissão cristã (cf. Boyce). Leia a nota seguinte.

(16)Theona, Pshai, Jemnoute são os nomes três mártires maniqueus santificados. O nome deles e de outros “Eleitos” também aparecem ao final do salmo de Bema CCXLI:

Glória e honra aos que guardam o festival neste dia poderoso.
Vitória à alma de Plousiane, Apa Polydoxus, Apa Pshai, Panai, Pshai,
Jmnounte, Theona e, também, à alma de Maria.

O texto da Gnostic Library é, provavelmente, uma edição do texto contido em [Haardt, pp 302-6]. Em ambos os texto lê-se: “Victory to the Soul of the Blessed Mary. Theona, Pshai, Jemnoute”. O texto de Gardner [Gardener & Lieu, pp. 176-9] está com a redação equivalente à deste portal, com uma vírgula após o nome “Maria”. Cogito que houve a propagação de um erro tipográfico.

(17)João de Éfeso, por exemplo, relatou em pormenores o ataque aos maniqueus feito por Justiniano:

Nesse tempo, descobriram maniqueus em Constantinopla e foram queimados.

Havia àquela época um grande número de pessoas partidárias do erro dos maniqueus. Costumavam se encontrar em casas e ouvir os mistérios daquela doutrina impura. Quando foram presos, foram levados à presença do imperador, que tinha a esperança de convertê-los. Discutiu com eles, mas não pôde convencê-los. Com obstinação satânica, gritaram sem medo que estavam prontos para encarar o suplício pela religião de Manes e sofrer cada tortura.

O imperador ordenou que seu desejo fosse realizado. Foram queimados no mar para que pudessem ser sepultados nas ondas e seus bens foram confiscados. Entre eles havia mulheres ilustres, nobres e senadores. E assim muitos maniqueus pereceram pelo fogo e não quiseram deixar seus erros.

Sobre os pagãos que descobertos em Constantinopla sob o imperador Justiniano.
João de Éfeso, extrato de História Eclesiástica, vol. II, contido em [Nau, p. 481]

A data estimada para o episódio acima é de 545 d.C. Boa parte dos “hereges e pagãos” mortos por Justiniano deve vir de ações desse tipo, em várias partes do império. O maniqueísmo, em particular, já estava na mira imperial desde a edição do código de Justiniano, que tornou ilegal a própria existência de um maniqueu.

(18)Cf. [Lieu].

(19) Em [Read, cap. X, p. 205], relata-se a existência da seita maniqueia dos paulicianos fundada no século V, na Armênia, cujos membros foram deportados no século X para província bizantina da Trácia (atual Bulgária). Lá, suas ideias foram adotadas pelo padre Bogomilo e difundida entre seus seguidores. A origem dos cátaros é mais obscura. Read lança a hipótese de que membros da Primeira Cruzada tenham travado contado com paulicianos entrados nos arredores de Antioquia e Trípoli e trazido suas ideias dualistas ao retornarem à Europa. Ainda que tenham adotado uma forte oposição entre espírito e matéria, um clero próprio e uma divisão de fiéis entres Perfeitos (equivalentes aos Eleitos) e Crentes (correspondendo aos Ouvintes), sua base eram as Escrituras cristãs, não havia caráter iniciático em suas cerimônias e seu Salvador era Jesus, não Mani (cf. Brenon).

(20)[Lewis, cap. I, p. 28]. Fala semelhante pode ser encontrada em [Yarshater, cap. XXVII, p. 983], atribuída à biografia deixada pelo sábio muçulmano Al-Biruni (973 – 1048).

(21)[Guillaume, pp. 658-9]

(22) Região costeira ao longo do Mar Vermelho, na atual Arábia Saudita.

(23) Essa visão é um dos motivos pelos quais Jerusalém é o terceiro lugar mais sagrado do Islã, depois de Meca e Medina.

(24) A mais antiga biografia de Maomé, atribuída a Ibn Ishaq (séc. VIII), está atualmente perdida, mas pode ter boa parte de seu texto recuperada a partir das compilações feitas por Ibn Hisham (séc. IX) al-Tabari (séc. X), que a usaram largamente. Como apenas al-Tabari relata o episódio de os “versos satânicos”, é possível que estivesse ausente em Ishaq. A historicidade do episódio até hoje gera acaloradas discussões. Ah! Já perceberam de onde o escritor Salman Rushdie pegou emprestado o título do livro que lhe pôs a cabeça a prêmio?

(25) O marco da contagem do tempo não foi estabelecido por Maomé, mas por Omar, o segundo califa (sucessor). Uma curiosidade desse calendário de doze meses é que ele é puramente lunar, com cada mês iniciando na primeira vez que a lua crescente é avistada após o pôr do Sol, totalizando 354 ou 355 dias. A vantagem dele é sua simplicidade por ser totalmente empírico, tornando-se um marco fácil de ser seguido em todo mundo islâmico. Contudo, ele tem duas desvantagens críticas. Primeiro, não tem sincronia alguma com as estações do ano, o que levou muitos governos islâmicos a adotar dois calendários: um religioso, que segue a tradição islâmica, e outro civil para a cobrança de impostos, sincronizado com elas. Segundo, o início exato de cada mês pode variar conforme o local em que lugar se estiver, pois a data quando o primeiro crescente é avistado depende da longitude.

(26) Se num bate-boca acalorado entre judeus e muçulmanos um dos lados bradar “filho da escrava!”, não estranhe.

(27) Maomé limitou a poligamia já praticada da entre os povos do Hejaz a quatro esposas, colocando regras para admissão de cada nova esposa (ter recursos, autorização das atuais esposas, etc). Uma exceção foi feita para si mesmo, não tendo limites de número de parceiras oficiais ou concubinas. Nem todos esses casamentos foram políticos. Algumas esposas eram ex-viúvas a quem deu proteção, outras eram filhas de auxiliares, como Hafsa (filha de Omar) e Aisha (de Abu Bakr). Essa última, por sinal, foi sempre foco de polêmica com os cristão, pois, segundo uma tradição islâmica, seu casamento se deu aos seis anos de idade e a consumação aos nove. Não preciso dizer o quanto isso gerou acusações de perversão vindas de adversários cristãos, mas a realidade dos fatos pode ter sido bem diferente se levarmos em conta a época e o meio.

(28)Provavelmente um pedaço de meteorito, mas para a tradição islâmica ela é uma relíquia despachada diretamente do Céu para indicar a Adão e Eva o local exato do primeiro altar a ser construído na Terra. Originalmente teria sido de uma alvura resplandescente, mas escureceu devido aos pecados da humanidade.

(29) Muitas vezes referida como a “Peregrinação do Adeus”.

(30)Aqui foi utilizada a tradução inglesa da recensão de al-Tarabi (v. nota 24) feita por Alfred Guillaume. As passagens que o tradutor cogita serem exclusivas dele (i.e., não transmitidas por Ibn Ishaq) foram assinaladas com um “T”.

(31) Se bem que indago o quanto essas regras foram efetivamente seguidas ao longo dos séculos.

(32) Cf. [Asheri, p.58].

(33) Houve várias formas de lidar com a falta de parceiros masculinos: aceitar homens mais jovens, aproveitar os solteiros oriundos da crescente imigração europeia ou, ainda, tolerar as inseguranças da condição de amante (o que também é uma forma de poligamia). Muitas, contudo, optaram ou tiveram de ficar sem um par, o que lhes deu, ao mesmo tempo, uma considerável independência para a época e um estigma. A figura da “tia solteirona” (spinster aunt, maiden aunt) ganhou força na cultura popular e recrudesceria após a I Guerra.

(34) Mesmo quando a Reconquista da península Ibérica já estava bem adiantada, perdurou por algum tempo um ambiente de tolerância (ainda que, em privado, se estranhassem) entre cristãos, judeus e muçulmanos, com direito a discussões teológicas entre os credos. Porém, quando esses debates não eram espontâneos e, sim, patrocinados pelas autoridades seculares por pressão de clérigos, qualquer ousadia do lado não cristão era temerária. Uma das mais famosas discussões de deu na cidade de Barcelona, na corte do rei catalão Jaime I em 1263. De um lado estavam quatro clérigos (um deles ex-judeu) e do outro “apenas” o famoso Rabi Moshe ben Nahman, também conhecido pelo acrônimo de Ramban ou, ainda, Nahmânides. Uma das questões discutidas era quem professava a verdadeira fé: os judeus ou cristãos? Para ela, alguns dos seus argumentos foram:

Ele contra-atacou argumentando que a crença em Jesus mostrara-se desastrosa. Roma, que fora a senhora do mundo, decaíra no momento em que aceitara o cristianismo “e agora os seguidores de Maomé possuem mais território que os cristãos.” Além disso, acrescentou ele, “a partir do tempo de Jesus até o presente momento o mundo esteve cheio de violência e de injustiça, e os cristãos derramaram mais sangue do que todos os outros povos.”

[Johson, parte III – Catedocracia, pp 227-8]

Nahmânides pôde usar esse tom porque o rei lhe garantiu total liberdade, mas os religiosos proto-inquisitores nunca se esqueceriam e aguardaram o primeiro deslise para processá-lo. Ainda que condenado a uma pena leve por contar com a graça do rei, Nahmânides preferiu partir para o exílio em Jerusalém, onde fundou uma sinagoga. Mas suas palavras sempre serão um lembrete para aqueles com mau hábito de “cuspir para cima”.

(35)No Livro dos Médiuns (LM), cap. XXVII –Das Contradições e Mistificações-, item 301:

8ª De todas as contradições que se notam nas comunicações dos Espíritos, uma das mais frisantes é a que diz respeito à reencarnação. Se a reencarnação é uma necessidade da vida espírita, como se explica que nem todos os Espíritos a ensinem?

“Não sabeis que há Espíritos cujas ideias se acham limitadas ao presente, como se dá com muitos homens na Terra? Julgam que a condição em que se encontram tem que durar sempre: nada veem além do círculo de suas percepções e não se preocupam com o saberem donde vêm, nem para onde vão e, no entanto, devem sofrer a ação da lei da necessidade. A reencarnação é, para eles, uma necessidade em que não pensam, senão quando lhes chega. Sabem que o Espírito progride, mas de que maneira? Têm isso como um problema. Então, se os interrogardes a respeito, falar-vos-ão dos sete céus superpostos como andares. Alguns mesmo vos falarão da esfera do fogo, da esfera das estrelas, depois da cidade das flores, da dos eleitos.”

Não foi esse o tom utilizado na Revista Espírita de abril de 1869, no artigo Profissão de Fé Espírita Americana. Lá, Kardec transcreve a “declaração de princípios decretada na quinta convenção nacional, ou assembléia dos delegados espíritas das diferentes partes dos Estados Unidos” e, depois, comenta:

(…)
10. Que, uma vez que o céu e o inferno, ou a felicidade e a infelicidade, dependem antes dos sentimentos íntimos do que das circunstâncias exteriores, há tantos graus para cada um quanto há de nuanças de caracteres, cada indivíduo gravitando em seu próprio lugar por uma lei natural de afinidade. Podem ser divididos em sete graus gerais ou esferas; mas estes devem compreender as variedades indefinidas, ou uma “infinidade de moradas” correspondendo aos caracteres diversos dos indivíduos, cada ser gozando tanto de felicidade quanto seu caráter lhe permite dela ter.
(…)

Ambos [o espiritismo europeu e o americano] reconhecem o progresso indefinido da alma como a lei essencial do futuro; ambos admitem a pluralidade das existências sucessivas em mundos mais ou menos avançados; a única diferença consiste em que o Espiritismo europeu admite essa pluralidade de existências sobre a Terra até que o Espírito tenha adquirido o grau de adiantamento intelectual e moral que comporte este globo, depois do que ele o deixa por outros mundos, onde adquire novas qualidades e novos conhecimentos. De acordo sobre a ideia principal eles não diferem, pois, senão sobre um dos modos de aplicação. É que isso pode ser lá uma causa de antagonismo entre pessoas que perseguem um grande objetivo humanitário?

Com base na declaração exposta por Kardec, não é possível ter esse entendimento, isto é, a ideia de que “o espiritismo nos Estados Unidos aceitava um tipo distinto de reencarnação”. Os “sete graus gerais ou esferas” que aparecem no item 10 da declaração norte-americano, que foram vistas com ceticismo no item 301 do LM, passaram, então, a ser reavaliadas de modo modo positivo, embora não sejam algo realmente reencarnacionista. Aliás, uma das grandes diferenças entre o espiritismo anglófono (não somente o norte-americano) e o francês no século XIX foi justamente a rejeição pelo primeiro da ideia de reencarnação. Que o diga o tratamento que a obra de Kardec teve em Lights and Shadows of Spiritualism(parte III, cap. III), do médium escosês Daniel Dunglas Home.

(36)Para um apanhado dos primeiros séculos dos islamismo, cf. [Lewis, cap. II, III, IV e VIII]. Para um resumo mais enxuto ainda, cf. [Read, cap. III].

(37) “A Carga da Cavalaria Ligeira”

Os grandes confrontos da Antiguidade não passavam de gigantescos combates “corpo a corpo” entre dois alinhamentos de tropas, geralmente lentas e pesadas. A vitória cabia ao mais resistente e/ou ao mais tenaz.

Coube aos árabes a introdução, na arte militar, da cavalaria ligeira: rápida nos golpes, veloz na retirada e nos deslocamentos; eficiente no ataque.

Os cavalos eram jovens e, ao entrar em combate, estavam descansados, pois os árabes tinham o cuidado de poupá-los. Para o transporte de carga, usavam os dromedários; para as cansativas marchas de movimentação de tropas de um lugar para outro, empregavam os camelos brancos, resistentes e velozes.

Desse modo, no momento do combate, a cavalaria árabe caía como um raio sobre a infantaria e cavalaria adversária, sem condições de confronto – seus cavalos estavam inevitavelmente cansados, pois havia suportado o peso das armas e a bagagem da tropa A infantaria árabe também tinha um equipamento que lhe permitia resistir aos embates pesados: um escudo redondo leve, uma lança e uma longa espada reta. O primeiro e o último golpe, porém, eram dados pela cavalaria.

Conhecer Atual, História, vol. I, p. 139.

(38) A relação com os hindus e outros povos politeístas, porém, foi bem mais conflituosa.

(39) O culto historiador do iluminismo inglês Edward Gibbon (Decline & Fall, vol. II, cap. LII) tinha uma visão negativa na expansão islâmica e depositou todos os méritos da “salvação da Europa” na atuação de Carlos Martel em Poitiers. Mesmo obras mais recentes como [Read], História das Civilizações e Conhecer Atual, com uma opinião neutra ou até simpática dos árabes, simplificam o ocorrido em 732.

(40) Cf.[Lewis, cap. VII, VIII, XII]

(41)Não tive acesso à citação original, mas fragmentos disponíveis no Google Books, atestam sua fidedigninidade.

(42)Bem no começo da obra Passio Sancti Pelagii (Paixão de S. Pelágio)

Partibus occiduis fulsit clarum decus orbis
Urbs Augusta Nova, Martis feritate superba,
Quam satis Hispani cultam tenuere coloni,
Corduba,famosa locuples de nomine dicta,
Inclyta deliciis,rebus quoque splendida cunctis,
Maxime septenis sophae repleta fluentis,
Nec non perpetuis semper praeclara triumphis,
Olim quae Christo fuerat bene subdita justo
Fudit et albatos Domino baptismate natos.

Fonte:Migne, Patrologia Latina, vol. CXXXVII, 1853, col. 1095

Em tradução livre:

Brilhou nas terras do ocidente a Joia do Mundo
Uma Nova Sagrada cidade, com a soberba ferocidade de Marte,
Que tão bem os habitantes tem preservado na cultura hispânica,
Chamada pelo ilustre nome de Córdoba, a rica,
Por celebradas delícias, e também por coisas esplêndidas a todos,
Principalmente por estar a fluir cheia com os sete sábios (*).
Além de sempre magnífica por contínuos triunfos,
Que outrora fora bem submissa a Cristo, com justiça
repartiu e [seus] filhos purificados pelo Senhor com o batismo.

(*)Literalmente, “os sete da sabedoria”, uma menção aos “sete sábios da Grécia” indicativa da refinada cultura clássica que abundava em al-Andalus.

(43)Cf. [Diamond, Epílogo, pp. 410-1].

(44)Quando foi a socorro dos muçulmanos andaluzes, o governante almorávida do Magreb, Yusuf ibn Tashufin, foi à mesquita de Sexta-Feira de Sevilha, onde “convocou os fiéis da Andaluzia para um jihad. Yusuf e al-Mu’tamid [governante de Sevilha] resposta desanimadora” [Lewis, XV, p.384].

(45) Cf. [Maalouf, Epílogo, p.242].

(46) Em [Maalouf, cap. VII, pp. 125-6] são dados exemplos de ordálios que horrorizaram os cronistas muçulmanos. Um deles:

Haviam instalado um grande tonel cheio de água. O jovem que era objeto de suspeitas foi atado, suspenso pelas omoplatas a uma corda e lançado no tonel. Se fosse inocente, diziam, ele se afundaria na água, e seria retirado por meio da corda. O infeliz, quando o jogaram dentro da barrica, fez esforço para ir até o fundo, mas não conseguiu, e teve de se submeter aos rigores de sua lei, que Deus os amaldiçoe! Então lhe passaram pelos olhos um buril de prata, avermelhado no fogo, e o cegaram.

Se algum médium conseguir se comunicar com Emmanuel, pergunte-lhe, por obséquio, quem eram os verdadeiros bárbaros?

(47) Cf. [Maalouf, Epílogo, pp. 242-3].

(48) Idem, p. 246:

Enquanto para a Europa a época das cruzadas era o início de uma considerável revolução, ao mesmo tempo econômica e cultural, no Oriente, as guerras santas iam desembocar em longos séculos de decadência e de obscurantismo. Sitiado por todas as partes, o mundo muçulmano se enrosca em si mesmo. Tornou-se friorento, defensivo, intolerante, estéril, tantas atitudes que se agravavam à medida que prossegue a revolução planetária, em relação à qual ele se sente marginalizado. Doravante o progresso é o outro. O modernismo é o outro. Seria preciso afirmar sua identidade cultural e religiosa rejeitando esse modernismo que simbolizava o Ocidente? Seria preciso, ao contrário, enredar-se resolutamente pela via da modernização correndo o risco de perder a própria identidade? Nem o Irã, nem a Turquia, nem o mundo árabe conseguiram resolver esse dilema; e é porque ainda hoje continuamos a assistir a uma alternação, muitas vezes brutal, entre fases de ocidentalização e fases de integridade exagerada, fortemente xenófoba.

(49) Cf. [Beattie, cap V, 128-38].

(50)

O modo de tradução das placas.

Para traduzir o conteúdos das placas, Joseph Smith colocava as pedras Urim e Tumim dentro de um chapéu e lá enfiava o rosto, para tapar o luminosidade exterior e enxergar apenas a que as pedras, supostamente, emitiriam. Não era nem necessária a presença física de uma das placas, segundo testemunhos da época. Contudo, não é incomum encontrar, mesmo na literatura de divulgação mórmon, representações dele lidando diretamente com as placas, sem o auxílio das pedras (à direita).

(51) Uma hipótese cética é que Lucy Harrys teria dado um sumiço no manuscrito para testar Joseph Smith: como ele ainda tinhas as placas, bastaria usar o Urim e o Tumim para obter outra tradução igual. Smith, contudo, não morderia a isca.
Bem, tirem suas próprias conclusões…

(52) Menção atribuída ao crítico literário não-mórmon Harold Bloom em seu livro The American Religion: The Emergence of the Post- Christian Nation (New York: Simon and Schuster, 1992, p.95). No original: “Smith was an authentic religious genius, unique in our national history.”

(53) Do escritor Mark Twain em “Roughing It – A Personal Narrative” :

All men have heard of the Mormon Bible, but few, except the elect have seen it or at least taken the trouble to read it. I brought away a copy from Salt Lake. The book is a curiosity to me. It is such a pretentious affair and yet so slow, so sleepy, such an insipid mess of inspiration. It is chloroform in print.

(54) Essa “divinização” final do homem não foi inédita na história do cristianismo e lembra, de certa forma, a equiparação final das almas humanas ao Verbo criador proposta por algumas vertentes do origenismo tardio dos séculos V e VI. Para mais informações, ler o capítulo IV de Contendas do Deserto, O Livro de Hierotheos.

(55) Essa reportagem foi publicada em português pela National Geographic Brasil de fevereiro de 2010.

(56) Omiti propositalmente a nota de Kardec sobre essa mensagem para direcionar a atenção do leitor espírita “mais entendido” para cá. Recomendo fortemente a análise feita por Júlio Siqueira no portal Criticando Kardec sobre ela.

(57) Há quem acuse, injustamente, o imperador Constantino de ter forçado adoção da tese da “consubstancialidade” (homoousios) entre Pai e Filho em detrimento à tese da “semelhança em substância” (homoiousios) pregada pelos arianos, que dava um caráter de subordinação ao Filho. Na verdade, Constantino não estava nem um pouco interessado em picuinhas teológicas. Ele queria que se chegasse a um consenso, qualquer consenso, e, por isso, impôs a opinião vencedora do Concílio de Niceia aos demais. Em tempos pretensamente “politicamente corretos”, isso seria exemplo de autoritarismo e intolerância execrável, mas era uma atitude coerente com seu projeto de restauração do Império Romano, que precisava de uma religião monolítica como pilar. Por ironia, um erro, digamos, “político” foi feito por ele justamente quando passou a ter atitudes mais clementes e tolerantes: reabilitou líderes arianos e até permitiu que adentrassem à Corte. Foi batizado, inclusive, por um bispo dessa facção. O resultado é que, após sua morte, a Corte era ariana, ao passo que boa parte da população do império, principalmente no ocidente, não o era, dando um fôlego extra à disputa.

O historiador Edward Gibbon fez uma observação que, com variações, seria repetida até hoje:

The sect which asserted the doctrine of a similar substance was the most numerous, at least in the provinces of Asia; and when the leaders of both parties were assembled in the council of Seleucia, their opinion would have prevailed by a majority of one hundred and five to forty-three bishops. The Greek word which was chosen to express this mysterious resemblance bears so close an affinity to the orthodox symbol, that the profane of every age have derided the furious contests which the difference of a single diphthong excited between the Homoousians and the Homoiousians. As it frequently happens that the sounds and characters which approach the nearest to each other accidentally represent the most opposite ideas, the observation would be itself ridiculous, if it were possible to mark any real and sensible distinction between the doctrine of the Semi-Arians, as they were improperly styled, and that of the Catholics themselves. The bishop of Poitiers, who in his Phrygian exile very wisely aimed at a coalition of parties, endeavours to prove that, by a pious and faithful interpretation, the Homoiousion may be reduced to a consubstantial sense. Yet he confesses that the word has a dark and suspicious aspect; and, as if darkness were congenial to theological disputes, the Semi-Arians, who advanced to the doors of the church, assailed them with the most unrelenting fury.

Decline and Fall of the Roman Empire – Fall of the West, cap. XXI – “Arian Creeds”.

Ou seja, é irônico como uma única letra provocou anos de contendas.

(58)Caso fossem retirados desse evangelho, os capítulo de XIII a XVII poderiam constituir o que se chama de literatura testamental, cujo esquema padrão é um patriarca ou líder religioso em seus últimos instantes (muitas vezes no leito de morte) dando as instruções finais a seus filhos ou discípulos. Um exemplo desse gênero no período intertestamentário é o clássico Testamento dos Doze Patriarcas, possivelmente um texto judaico que ganhou um verniz cristão.

(59)[Funk & Hoover, pp. 448-9]

(60) Afinal, o Consolador virá a mando de quem: do Pai ou de Jesus?

(61) Ironicamente, muitos grandes críticos textuais no Novo Testamento e historiadores de Jesus foram cristãos ortodoxos devotos, como a dupla Westcott & Hort ou Albert Schweitzer.

(62) Por exemplo, o “parêntese joanino” com sua defesa da Santíssima Trindade.

(63) Ver [Funk & Hoover, The Gospel of John], [Ehrman, cap. XVII, p. 270], [Vermes, Introdução – Uma observação sobre as fontes, p. 14]. Deve-se deixar claro que nenhum desses aspectos tem, sozinho, força para descreditar um dito atribuído a Jesus. Por exemplo, a história do “Bom Samaritano” só aparece em Lucas (Lc 10:30-7), mas possui outras características que aumentam sua probabilidade de ter sido original de Jesus: seu formato de parábola permite melhor memorização, está de acordo com seus ensinamentos de amor ao próximo e, acima de tudo, por colocar a atitude de um samaritano – um membro de dissidência mal vista pelos judeus de então – como exemplo a ser seguido, foi contra as expectativas de seu meio social.

(64) Se bem que João a coloca logo no começo do ministério.

(65) O episódio em que Pedro nega conhecer Jesus após esse ter sido capturado deve ter sido verídico, pois passa pelos critérios de múltipla atestação e dissimilaridade. Contudo, a previsão de Jesus que ele o negaria três vezes antes do amanhecer é vista com mais ceticismo, pois pode ter sido uma forma de aliviar a imagem de covardia de Pedro.

[topo]

Para Saber Mais

– Asheri, Michael; O Judaísmo Vivo – As tradições e as leis dos judeus praticantes, Imago, 1995.

– Beattie, Alan; Falsa Economia – Uma Surpreendente História Econômica do Mundo, Zahar, 2010.

– Boyce, Mary; A reader in Manichaean Middle Persian and ParthianManichaeism, Teerã, 1975. Acessado em 21/09/2012.

– Brenon, Anne; Herdeiros dos Apóstolos, publicado no periódico A História Viva, ed. 47, pp. 50-53.

– Cesareia, Eusébio de; História Eclesiástica, Novo Século, 1999.

Conhecer Atual, História – I, Nova Cultural, 1988.

– Damascus, John of; Writings, Coleção The Fathers of the Church vol. XXXVII, The Catholica University of America Press, 1999.

– Diamond, Jared; Armas, Germes e Aço, Record, 2004.

– Ehrman, Bart D.; The New Testament – A Historical Introduction to the Early Christian Writings, Oxford University, 4th ed., 2008.

– Funk, Robert & Hoover, Roy; The Five Gospels – What did Jesus Really say?, Harper San Francisco, 1997.

– Gardner, Iain & Lieu, Samuel N. C., Manichaean Texts from the Roman Empire, Cambridge University Press, 2004.

– Guillaume A.; The Life of Muhammada, tradução inglesa da obra de Sirat Rasul Allah de Ibn Ishaq/al-Tabai, Oxford University Press, 2004.

– Gulácsi, Zsuzsanna; Searching for Mani’s Picture Book in Textual and Pictorial Sources, publicado em Transcultural Studies, 2011, nº 1, pp. 233-62.

– Haardt, Robert; Gnosis – Character and Testimony, E.J. Brill, 1971.

– Nau, F.; Analyse de la Seconde Partie Inédite de l’Histoire Écclesiastique de Jean d’Asie, publicado em Revue de l’Orient Chrétien, 2º ano, nº 1, 1897, p. 455-493. Esta obra traz os fragmentos restantes do segundo livro de História Eclesiástica de João de Éfeso (ou da Ásia).

– Lewis, David Levering; O Islã e a Formação da Europa, Amarilys, 2010.

– Lieu, Samuel; Manicheism in Chinese Turkestan and China, publicado originalmente na Encyclopaedia Iranica, Vol. V, Fasc. 5, pp. 478-481, acessado em 22/10/2012.

– Maalouf, Amin; As Cruzadas vistas pelos Árabes, Brasiliense, 2001.

– Muir, William; The Life of Mahomet, Smith, Elder, & Co., Londres, 1861.

– Read, Paul Piers; Os Templários, Imago, 2001.

– Salamina, Epifânio de; The Panarion of Epiphanius of Salamis, Volume 2, E.J. Brill, 1994.

– Saint-Hilaire, Jules Barthélemy; Mahomet et le Coran, Didier et Cie. Libraires-Editeurs, 1865.

– Yarshater, Ehsan; The Cambridge History of Iran, vol. III – The Seleucid, Parthian and Sasanian Periods, Cambridge University Press, 1996.

– Vermes, Geza; O Autêntico Evangelho de Jesus, Record, 2006.

– Wheatcroft, Andrew; Infiéis – O Conflito entre a Cristandade e o Islã , Imago, 2004.

[topo]

Dragões e Duendes

30 de dezembro de 2011 1 comentário

O Dragão na Garagem

Suponhamos, por exemplo, que alguém lhe diga que um dragão que cospe fogo pelas ventas mora em sua garagem. Como você reagiria a essa afirmação?

Onde está o dragão? – você pergunta.

– Esqueci de lhe dizer que é um dragão invisível.

-Você propõe espalhar farinha no chão da garagem para tornar visíveis as pegadas do dragão.

– Boa ideia, mas esse dragão flutua no ar.

-Então você quer usar um sensor infravermelho para detectar o fogo invisível.

– Boa ideia, mas o fogo invisível é também desprovido de calor.

-Você quer borrifar o dragão com tinta para torná-lo visível.

– Boa ideia, só que é um dragão incorpóreo e a tinta não vai aderir

Extraído de “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, de Carl Sagan

Quantos dragões aparecem na vida de um indivíduo?

  • Um adepto de feng shui tentando explicar por que certos indivíduos conseguem viver bem em ambientes bagunçados;
  • Um astrólogo se justificando por que não considera o movimento de precessão dos equinócios em seus mapas astrais, apesar de seu colega de profissão da antiguidade, Ptolomeu, ter considerado;
  • Um(a) chefe de família explicando ao filho porque Papai Noel não trouxe aqueles presentes caros para as crianças, no último Natal;
  • Um político culpando misteriosas intrigas da oposição pela crise em seu governo.

Todos casos acima se aproximam cada vez mais de um “dragão na garagem” à medida que justificam seus fracassos com respostas cada vez mais sofisticadas e, pior, difíceis de serem questionadas. Não que sejam argumentos primorosos, mas porque a chave de suas explicações está onde ninguém pode alcançar. Tentam empurrar os que questionam a dilemas no melhor estilo “ou eu ganho, ou você perde”.

A presença de vida interplanetária mais avançada que nós em locais como Júpiter (segundo a codificação) ou Marte (em algumas comunicações posteriores) são alegações bem extraordinárias. Civilizações mais avançadas que nós deveriam emitir tantas ondas de rádio moduladas que já deveriam ter sido detectadas há muito tempo. Daí parte-se para especulações: nossos instrumentos são muito primitivos ainda (apesar dos progressos constantes), eles estariam tão avançados que ondas de rádio se tornaram obsoletas para eles ou sabem como camuflá-las e, por fim, seriam seres feitos de uma matéria sutil invisível para nós, mesmo indiretamente.

Esta (falta de) atitude é lamentável para quem pretende ter um viés científico. Enquanto os alienígenas não resolvem dar o ar de sua graça e não somos capazes de ir lá para xeretar, cacemos os dragões invisíveis, flutuantes, intangíveis e de fogo frio que habitam as mentes dos terráqueos.

Alice, os duendes e o sono do rei

Venha vê-lo”, exclamaram os dois irmãos pegando Alice, cada um por uma mão, para levá-la até onde o Rei dormia.

“Ele não é adorável?”, perguntou Tweedledum.

Com toda a honestidade, Alice não podia dizer que achava que fosse. Ele tinha na cabeça um grande gorro de dormir vermelho enfeitado com uma borla e jazia encolhido numa espécie de monte imundo. Além disso, roncava ruidosamente: “É de estourar os miolos!”, como observou Tweedledum.

“Tenho medo que ele pegue um resfriado, ficando deitado assim no capim úmido”, disse Alice, que era uma menina muito precavida.

“Neste momento, ele está sonhando”, disse Tweedledee; “e com o que você acha que ele sonha?”

“Ninguém pode adivinhar”, respondeu Alice.

“Ora, vamos, ele sonha com você”!, exclamou Tweedledum batendo palmas com um ar de triunfo. “E se ele parasse se sonhar com você, onde você acha que estaria?”

“Onde eu estou agora, claro”, disse Alice.

“Nunca na vida!, replicou Tweedledee com um ar de profundo desprezo. “Você não estaria em lugar nenhum. Você é apenas uma espécie de objeto aparecendo no sonho dele!”

“Se o Rei aqui presente pro acaso acordasse”, acrescentou Tweedledum, “você estaria soprada -puft – exatamente como uma vela!”

“Isso não é verdade!”, exclamou Alice indignada. “Então, se eu sou apenas uma espécie de objeto no sonho dele, eu gostaria de saber vocês, o que são?”

“Idem”, disse Tweedledum.

“Idem, idem”, repetiu Tweedledee.

Ele gritou tão alto que Alice não pode deixar de rir: “Psiu! Tenho medo que você o acorde com tanto barulho”.

“Ora vamos, como você pode falar em acordá-lo”, redarguiu Tweedledum, “se você é apenas um dos objetos aparecendo no sonho dele. Você sabe muito bem que não é real”.

“Claro que sim, claro que sou real!”, protestou Alice começando a chorar.

“Não é chorando que você vai ficar mais real”, observou Tweedledee; “e isso não é motivo para chorar”.

“Se eu não fosse real”, disse Alice – meio rindo por entre as lágrimas, de tanto que aquilo era ridículo – “ eu não seria capaz de chorar”.

“Espero que você não tome isso que cai de seus olhos como lágrimas de verdade?”, disse Tweedledum num tom do mais perfeito desprezo.

Lewis Carrol, Do outro lado do espelho.

Lewis Carrol, ou melhor, Charles Dogson foi um matemático de Oxford na era vitoriana, mas só assinava seu nome verdadeiro nos trabalhos “sérios”. Mesmo assim, seus viés matemático permeia suas famosas obras literárias como Alice no país das maravilhas e Do outro lado do espelho, que estão cheias de raciocínios de lógica simbólica, ocultos em meio às fantasias.

Aqui somos apresentados ao “paradoxo do sonhador”, que não deixa de ser uma variante do “dragão não garagem”. A história tem diversas maneiras de ser contada, como por exemplo:

  • Seria você, leitor, um cérebro armazenado no recipiente de um laboratório, recebendo estímulos por sensores artificiais, a fim de que “pense” ser um humano completo? Ou se preferir:
  • Você está dentro da Matrix? Prove que sim (ou não).

O que torna a situação praticamente impossível de se refutar é você que está dentro do problema, quando a possível resposta é externa a ele. Originalmente, Alice se considerava “do lado de fora”, mas foi puxada para o interior quando se deixou convencer que que tudo girava em torno do sonho do rei. Inclusive o fato de ele acordar.

Um problema mais cabeludo surge quando dois (ou mais) interlocutores estão presos cada um em “sonhos” diferentes. O pior é que cada um tenta dialogar com argumentos que só são válidos para quem também está tendo “o mesmo sonho”. No embate de ideias, mais ainda quando elas envolvem um fundo religioso, isto gera toda sorte de discussão estéril, em que facilmente se perde a educação e se parte para alegações de cunho passional. Afinal, cada um só enxerga o próprio umbigo.

Logo de começo, esquece-se que se está debatendo com alguém que não partilha boa parte dos valores e paradigmas a que estamos acostumados. Aquela argumentação julgada como “irrefutável” entra por um ouvido e sai pelo outro, quando não é feita de piada pelo interlocutor. Isto é algo que pode ser evitado se ao menos se tentar entender um pouco da doutrina alheia e, por que não, estudá-la. Você pode muito bem julgar o dogma católico da “infalibilidade papal” um absurdo total (também acho), porém se, ao debater com um católico, indagar “como pode um homem cheio de erros querer ser infalível em questões de fé?”, dará a impressão ao outro de que não sabe do que fala. Outra parte da tarefa já não depende só de um, e sim de ambos os lados em sua disponibilidade para ceder um pouco e tentar ir juntos a um tipo de terreno neutro, onde os dois estejam “acordados”.

Com certa dose de boa vontade e respeito, é possível manter um tom agradável de uma boa conversa no lugar de um diálogo ácido, evitando desnecessárias hostilidades.

Ou não.

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