O Rival Cooptado (Rascunho)

A Pregação de João Batista

A Pregação de João Batista, por Domenico Ghirlandaio

Um dos “cavalos de batalha” dos adeptos da reencarnação bíblica é a alegada existência de João Batista como reencarnação do profeta Elias. Bem, venho dar uma pequena contribuição ao tema, que de forma alguma considero como exaustiva do assunto.

    Índice

    Anunciando o Fim do Mundo. Tal como o Conhecemos.


    Antes de começar a análise do relacionamento entre João e Jesus, convém saber um pouco a respeito do contexto histórico e social em que viveram.

    O Clamor à Retidão


    A tradição judaica fala que Iahweh estabeleceu uma Aliança com o povo hebreu: seria seu único Deus, zeloso e protetor, em troca de sua devoção, que deveria ser expressa na obediência à Lei que lhes enviara. Quando os dois reinos hebreus caíram, um após o outro, sob o domínio do Império Babilônico e boa parte do povo foi levado em cativeiro para o centro do Império, esse entendimento ficou em xeque. Haveria seu deus lhes abandonado? Eram os deuses do conquistador mais fortes? Por essa época um adveio um “movimento profético”, com nomes como Jeremias e Isaías, que levou a uma saída incomum para uma situação dramática que sempre afligia os povos conquistados: não fora Iahweh que os abandonou, nem ele era menor; foi o povo hebreu que lhe dera as costas e, por isso, perdeu sua
    proteção. O sofrimento cessaria por intervenção divina tão logo o povo retornasse à Lei que lhes fora dada.

    Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai benignamente a Jerusalém, e bradai-lhe que já a sua milícia é acabada, que a sua iniquidade está expiada e que já recebeu em dobro da mão do Senhor, por todos os seus pecados. Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus. Todo o vale será exaltado, e todo o monte e todo o outeiro será abatido; e o que é torcido se endireitará, e o que é áspero se aplainará. E a glória do Senhor se manifestará, e toda a carne juntamente a verá, pois a boca do Senhor o disse. Uma voz diz: Clama; e alguém disse: Que hei de clamar? Toda a carne é erva e toda a sua beleza como a flor do campo. Seca-se a erva, e cai a flor, soprando nela o Espírito do Senhor. Na verdade o povo é erva. Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente.
    Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente.
    Tu, ó Sião, que anuncias boas novas, sobe a um monte alto. Tu, ó Jerusalém, que anuncias boas novas, levanta a tua voz fortemente; levanta-a, não temas, e dize às cidades de Judá: Eis aqui está o vosso Deus.
    Eis que o Senhor DEUS virá com poder e seu braço dominará por ele; eis que o seu galardão está com ele, e o seu salário diante da sua face.
    Como pastor apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos, e os levará no seu regaço; as que amamentam guiará suavemente.

    Is 40:1-11

    O Filho do Homem

    A visão de Daniel das quatro bestas. Por Hans Holbien, o Jovem.

    Mesmo com o retorno do cativeiro, os problemas de Israel não cessaram efetivamente, muito menos retornou a uma suposta “Era de Ouro” como nos tempos de Davi e Salomão. Durante a maior parte do período do “Segundo Templo”, não foi plenamente independente, submetendo-se à suserania de sucessivos povos imperiais: persas, macedônios, selêucidas e, por fim, romanos. A abordagem profética em, digamos, “colocar a culpa na vítima” começou a desagradar algumas mentes pensantes judaicas. Nos últimos séculos antes de Cristo, surgiu um tipo de literatura conhecido como “apocalíptica” (do grego apokalypsis: “revelação”) que tinha como linha mestra a existência de um planejamento secreto divino. Por motivos não muito claros, Iahweh haveria permitido a disseminação do Mal para no momento devido esmagá-lo de forma retumbante, seguindo-se a instauração do “Reino de Deus” sobre a Terra. O pessimismo reinante seria um indício de que o acontecimento era breve, mas, até lá, as pessoas continuariam a dever seguir a Lei para estarem do “lado certo”. Para instaurar e governar o “Reino de Deus”, entraria em cena uma figura mítica conhecida como o “Filho do Homem”. No Antigo Testamento, essa expressão com seu sentido escatológico só aparece no apagar das luzes de sua literatura, no livro de Daniel:

    No primeiro ano de Belsazar, rei de babilônia, teve Daniel um sonho e visões da sua cabeça quando estava na sua cama; escreveu logo o sonho, e relatou a suma das coisas.
    Falou Daniel, e disse: Eu estava olhando na minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o mar grande.
    E quatro animais grandes, diferentes uns dos outros, subiam do mar.
    O primeiro era como leão, e tinha asas de águia; enquanto eu olhava, foram-lhe arrancadas as asas, e foi levantado da terra, e posto em pé como um homem, e foi-lhe dado um coração de homem.
    Continuei olhando, e eis aqui o segundo animal, semelhante a um urso, o qual se levantou de um lado, tendo na boca três costelas entre os seus dentes; e foi-lhe dito assim: Levanta-te, devora muita carne.
    Depois disto, eu continuei olhando, e eis aqui outro, semelhante a um leopardo, e tinha quatro asas de ave nas suas costas; tinha também este animal quatro cabeças, e foi-lhe dado domínio.
    Depois disto eu continuei olhando nas visões da noite, e eis aqui o quarto animal, terrível e espantoso, e muito forte, o qual tinha dentes grandes de ferro; ele devorava e fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os animais que apareceram antes dele, e tinha dez chifres.
    Estando eu a considerar os chifres, eis que, entre eles subiu outro chifre pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos, como os de homem, e uma boca que falava grandes coisas.
    Eu continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e um ancião de dias se assentou; a sua veste era branca como a neve, e o cabelo da sua cabeça como a pura lã; e seu trono era de chamas de fogo, e as suas rodas de fogo ardente.
    Um rio de fogo emanava e saía de diante dele; milhares de milhares o serviam, e milhões de milhões assistiam diante dele; assentou-se o juízo, e abriram-se os livros.
    Então estive olhando, por causa da voz das grandes palavras que o chifre proferia; estive olhando até que o animal foi morto, e o seu corpo desfeito, e entregue para ser queimado pelo fogo;
    E, quanto aos outros animais, foi-lhes tirado o domínio; todavia foi-lhes prolongada a vida até certo espaço de tempo.
    Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele.
    E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído.
    Quanto a mim, Daniel, o meu espírito foi abatido dentro do corpo, e as visões da minha cabeça me perturbaram.
    Cheguei-me a um dos que estavam perto, e pedi-lhe a verdade acerca de tudo isto. E ele me disse, e fez-me saber a interpretação das coisas.
    Estes grandes animais, que são quatro, são quatro reis, que se levantarão da terra.

    Daniel 7:1-17

    O número 4 é recorrente nesse livro, refletindo por vezes o padrão “três mais um” encontrado em outros livros da Bíblia – como Amós (cap. 1 e 2) – em que, após três repetições de algo, uma quarta assinala um tipo de mudança. No caso, as bestas apresentadas na visão representam os “quatro reinos” (cf. Dn 2) que sucessivamente dominaram Israel: o primeiro, a Babilônia, é fácil de identificar, assim como último e penúltimo – a Grécia, precedida pela Pérsia. A identidade do segundo ainda é discutida (talvez o Império Medo, antecessor do Persa), mas certo é que o fim do quarto reino seria marcado pelo começo da soberania eterna do Filho do Homem e o fim do sofrimento para o povo de Deus.

    A figura do “Filho do Homem” prossegue no período intertestamentário, notadamente no I Livro de Enoque, em que também é chamado de “Messias” (Ungido) e apresentado como um ser angélico ou, pelo menos, mais que um mero humano.

    E, naquela hora, o Filho do Homem era mencionado diante do Senhor dos Espíritos, e o seu Nome era referido diante do Ancião. Antes que fossem criados o sol e os signos, e antes que fossem feitas as estrelas do céu, o seu Nome era pronunciado diante do Senhor dos Espíritos.(…)

    Naqueles dias, os reis da terra e os poderosos que possuem esta terra ficarão com o semblante abatido por causa das obras das suas mãos. no dia da sua angústia e privação não poderão salvar a alma. Eu os entregarei então nas mãos do meu Escolhido; eles arderão como palha ao fogo na presença dos Justos e submergirão como chumbo n’água diante dos Santos, e não se encontrará mais sinal deles. No dia da sua tribulação, estabelecer-se-á a paz sobre a terra; cairão na presença deles e não mais poderão levantar-se. Ninguém então se apresentará para tomá-los pela mão e reerguê-los, porque eles negaram o Senhor dos Espíritos e o seu Ungido. Louvado seja o Nome do Senhor dos Espíritos.

    cap. 58:3,5-7. Fonte: [Tricca, vol. III, pp. 143]

    (…)Grande alegria reinava entre elas [as criaturas fiéis a Deus], e bendiziam, louvavam, glorificavam e rejubilavam-se, porque o Nome daquele Filho do Homem lhes foi desvelado. Ele assentou-se sobre o trono da sua Glória; e então foi confiada a Ele, o Filho do Homem, a condução do Julgamento, e fez com que desaparecessem da terra os pecadores e os perversos do mundo. Eles serão postos em grilhões e encerrados no lugar comum da sua destruição. todas as suas obras desaparecerão da terra. De agora em diante, o corruptível deixará de existir, pois aquele Filho do Homem apareceu e assentou-se sobre o trono da sua Glória, e diante da sua face todo o mal se dissipa e desaparece. E a voz daquele Filho do Homem se fará ouvir e será poderosa diante do Senhor dos Espíritos. Esta foi a terceira alegoria de Enoque.

    cap. 69:14-6. Fonte: [Tricca, vol. III, pp. 160]

    Embora a expressão irmã “Filho de Deus” pudesse se referir a um membro da corte angélica de Javé [Jó 1:6, 2:1; 38:7], curiosamente, ela aparece na literatura hebraica clássica muitas vezes com um sentido quase oposto: o de um humano comum em relação íntima com o Divino. Era, por exemplo, o título dado aos reis hebreus quando ascendiam ao trono [cf Is 9:6; Sl 2:7; 89:27], baseado numa promessa dada a Davi de seus herdeiros serem considerados “filhos” de Deus, a começar por Salomão [2 Sm 7:14; 1 Cr 17:13]. A palavra “filho” também é usada de forma coletiva para ser referir a Israel como um todo, quer no singular [Ex 4:22; Os 11:1; Jr 31:20] e no plural [Os 2:1; Is 1:2; Jr 3:19]. Desenvolveu-se, também, a noção de que, dentre os Filhos de Deus, um “Messias terreno” emergiria. Duas vertentes dessa figura surgiram: a primeira era o Messias Davídico, o futuro rei de Israel e descendente de Davi que expulsaria os invasores estrangeiros de Israel e os subjugaria. Nos Salmos de Salomão, um documento do primeiro século antes da Era Comum, encontra-se uma resposta judia ao domínio romano e uma esperança da vinda desse novo regente de uma antiga linhagem:

    Senhor, tu escolheste Davi rei sobre Israel, e prometeste-lhe acerca de sua descendência para sempre, de que seu reino nunca iria te desapontar.

    Mas devido aos nossos pecados, pecadores levantaram-se sobre nós, nos atacaram e nos expulsaram. Àqueles aos quais não deste promessa com violência nos roubaram, e não glorificaram o teu precioso nome.

    Com glória puseram um rei por causa de seus proeminentes; desolaram o trono de Davi como preço da arrogância.

    (. . . )

    O inimigo arrogantemente e com indiferença agiu, e seu coração era indiferente com relação ao nosso Deus.

    Assim ele fez em Jerusalém todas as coisas que os gentios fizeram nas cidades de seus domínios.

    E os assenhorearam os filhos da aliança no meio dos povos promíscuos. Não havia entre eles um que fizesse misericórdia e verdade em Jerusalém.

    Aqueles que amam as sinagogas das santos fugirão deles como os pássaros fogem de seus ninhos.

    Eles vagueiam nos desertos para salvar suas almas do mal. A alma salva deles era preciosa aos olhos do exílio.

    Por toda a terra foi a dispersão deles causada pelos ímpios, por que o céu reteve a chuva de cair sobre a terra.

    Fontes foram interrompidas, desde os permanentes dos abismos até aqueles nas altas montanhas, pois não havia um dentre eles que praticasse a justiça e o juízo.

    Desde o governante deles até o menor do povo estavam em toda espécie de pecado; o rei em transgressão da lei, o juiz em desobediência, e o povo em pecado.

    Veja, Senhor, e levanta-lhes o rei deles, filho de Davi, para reinar sobre Israel, seu servo, no tempo que escolheste, Deus.

    Guarneceste-o com o poder para destruir os governantes injustos, para purificar Jerusalém dos gentios que a pisaram para destruir.

    (. . .)

    E ele será um rei justo sobre eles, instruído por Deus. Não haverá injustiça no meio deles nos seus dias, pois todos serão santos, e seu rei será ungido do Senhor.

    Porém ele não confiará no cavalo, nem no cavaleiro e nem no arco, nem multiplicará seu ouro e sua prata para a guerra, nem a muitas nações estreitará as esperanças para dia de guerra.

    O próprio Senhor é o seu rei, a esperança do forte. Mediante a esperança em Deus mostrará misericórdia a todas as nações que estiverem diante dele em temor.

    Pois ele golpeará a terra com a palavra de sua boca para sempre, ele abençoará o povo do Senhor com sabedoria e júbilo.

    E ele próprio será purificado de pecados, a fim de governar um grande povo, para lançar ao opróbrio os governantes e remover os pecadores pelo poder da palavra.

    E ele não enfraquecerá naqueles dias, graças a seu Deus, pois Deus o fará poderoso pelo Espírito Santo e sábio pelo conselho do entendimento, com poder e justiça.

    Cap. XVII, vv. 4-6, 13-22 e 32-7

    Vale reparar que, ao contrário do violento Messias angélico de Enoque, o dos salmos salomônicos seria pacífico, afinal cumpriria sua missão sem derramar sangue, o que não significa que inexistissem versões guerreiras para o próximo sucessor de Davi. A segunda vertente de Messias humano era a do Aarônico, um novo sumo sacerdote que restauraria o Templo. Uma figura que já aparecia de forma discreta na Bíblia ao lado do Messias Davídico:

    Então ele disse: Estes são os dois ungidos, que estão diante do Senhor de toda a terra.
    Zc 4:14

    E fala-lhe, dizendo: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eis aqui o homem cujo nome é RENOVO; ele brotará do seu lugar, e edificará o templo do SENHOR. Ele mesmo edificará o templo do Senhor, e ele levará a glória; assentar-se-á no seu trono e dominará, e será sacerdote no seu trono, e conselho de paz haverá entre ambos os ofícios. E estas coroas serão para Helém, e para Tobias, e para Jedaías, e para Hem, filho de Sofonias, como um memorial no templo do Senhor.
    Idem 6:12-14

    A tese de dois Messias reaparece em apócrifos intertestamentários como Testamento dos Doze Patriarcas e em Qumran, assinalando uma certa popularidade da ideia. No primeiro, o leitor é apresentado a um Messias sacerdotal oriundo de Levi e outro, com papel de realeza, de Judá:

    Uma vez castigados pelo Senhor, ele suscitará para o sacerdócio um novo sacerdote: a Ele serão reveladas todas as palavras do Senhor. Ele impedirá, em muitas oportunidades, que sobrevenha um julgamento justo sobre a terra. Eis que a sua estrela brilhará no céu, semelhantemente à de um rei. A luz da sabedoria resplandecerá como o sol ao meio-dia. Será glorificado no mundo inteiro. Ele brilhará como o sol sobre a terra, dissipará todas as sombras que nela existem, e por toda parte reinará paz.

    Nos seus dias, os próprios céus rejubilar-se-ão; a terra se alegrará; e exultarão as nuvens. Naqueles dias, o reconhecimento do Senhor derramar-se-á sobre a terra, como a água nos mares. Com Ele alegrar-se-ão igualmente os Anjos da Glória que estão na presença do Senhor. Os céus abrir-se-ão. E do Santuário da Glória descerá sobre Ele a santidade, numa voz paternal, como a de Abraão e Isaac.

    A Glória do Altíssimo ser-lhe-á adjudicada, e o espírito do entendimento repousará n’Ele, da mesma forma como o espírito da santidade [na água]. Ele transmitirá realmente aos seus descendentes a majestade do Senhor, para sempre. Todavia, não será sucedido por ninguém, até os tempos mais distantes. No seu reino, os pagãos sobre a terra crescerão em conhecimentos, iluminados pela graça do Senhor. No seu sacerdócio cessarão os pecados. Não haverá mais o mal da desordem e da anarquia. E os justos encontrarão n’Ele a paz.

    Ele mesmo abrirá as portas do Paraíso, afastará a espada que foi brandida contra Adão, e aos santos dará de comer da Árvore da Vida; sobre eles repousará o Espírito da santidade. Ele acorrentará Belial, e dará aos seus filhos o poder de enfrentar os espíritos maus. O Senhor alegrar-se-á com os seus filhos, e seus bem-amados gozarão do seu beneplácito eterno, e, com isso, exultarão Abraão, Isaac e Jacó; eu também me alegrarei, e todos os santos cantarão de júbilo.

    Testamento de Levi, cap. XVIII. [Tricca]

    Então sairá de Jacó uma estrela que vos trará a paz. Surgirá um Homem da minha estirpe que será como o sol da justiça; Ele habitará entre os filhos dos homens em mansidão e justiça, e nenhum pecado será encontrado n’Ele. Eis que os céus se abrem sobre Ele, derramando o espírito e a bênção santa do Pai.

    Ele mesmo derramará sobre vós o espírito da graça; vós sereis seus filhos em verdade, e seguireis os seus Mandamentos, da manhã à noite. Este é o Rebento do Deus altíssimo, fonte da vida para toda carne.

    Então luzirá o cetro da minha realeza; o Rebento florescerá da vossa raiz. D’Ele procederá um cetro justo para os pagãos, para julgar e salvar a todos que invocam o Senhor.

    Testamento de Judá, cap. XXIV. [Idem]

    Um dos mais antigos Manuscritos do Mar Morto, o “Preceito da Comunidade” (ou 1QS), já trazia uma rápida menção aos dois Messias e no pequeno documento 4QFlorilegium (ou 4Q174), o Messias Aarônico é chamado de “intérprete da Lei” e novamente ladeado pelo regente davídico.

    Quanto à propriedade dos homens da santidade que caminha na perfeição, não será unida às dos homens da falsidade que não purificaram suas vidas por não se terem separado da iniquidade e não terem andado pelo caminho da perfeição . Eles não deverão afastar-se de nenhuma das recomendações da Lei para caminhar na obstinação de seus corações, mas serão regidos pelos preceitos primitivos nos quais os homens da Comunidade for instruídos em primeiro lugar, até que venham o Profeta e o Messias de Aarão e Israel.

    1QS, IX. Fonte: [Vermes, p. 133].

    O Senhor te diz que Ele te construirá uma Casa (II Sm 7:11). Farei permanecer tua linhagem (7:12). Estabelecerei [para sempre] o trono do teu reinado (7:13). [Serei] para ele um pai e ele será para mim um filho (7:14). Este é o Reino de Davi que surgirá com o Intérprete da Lei [para governar] em Sião [no final] dos tempos. Como está escrito: Erguerei a tenda desmoronada de Davi (Am 9:11). Isto quer dizer: a tenda desmoronada de Davi é aquele que surgirá para salvar Israel.

    4QFlor. Fonte: [Idem, pp. 389-90].

    A ideia de separação entre as funções sacerdotal e régia entre dois Messias não é tão estranha assim caso se observe que, na história do antigo Israel, as funções de sumo-sacerdote e de rei geralmente andavam separadas, pois seus titulares seriam oriundos, respectivamente, da casa de Levi e de Davi. As coisas começaram a mudar a partir do rei asmoneu Aristóbolo (105 – 103 a.C.), o primeiro a acumular os dois papéis e cuja linhagem produziu outros nessa situação. É possível então, que a hipótese de um único Messias humano tenha começado a deixar de ser tabu, mas a comunidade de Qumran ainda impunha uma condição:

    Nenhum dos homens que ingressam na Nova Aliança na terra de Damasco, e que novamente a traem e se separam da fonte das águas da Vida, será contado no Conselho dos povos ou sequer inscrito em seu Livro, desde o dia da reunião do Mestre da Comunidade até a vinda do Messias, procedente de Aarão e Israel.

    Preceito de Damasco, IX. Fonte: [Vermes, p. 153].

    Ou seja, ele deveria portar as duas ascendências previstas. Nada disso era necessário para o Messias angélico e Qumran também produziu sua versão dele. No um tanto fragmentado manuscrito 11QMelch (11Q13), o antigo rei-sacerdote da cidade de Salém Melquisedeque – a quem o patriarca Abraão deu um décimo de um butim de guerra (Gn 14:17-20) – é retratado como um poderoso juiz escatológico celestial, com atributos muito semelhantes ao Filho do Homem de I Enoque.

    (. . .)

    E isto [ocorrerá] na primeira semana do Jubileu que segue os nove Jubileus. E o Dia da Reconciliação é o f[inal] do décimo [Ju]bileu, quando será feita a expiação por todos os filhos de [El/Luz] e o os homens da parte de Mel[qui]sedeque. [E] há um estatuto a respeito deles [para for]necer-lhes suas recompensas. Porque este é o momento do Ano da Graça para Melquisedeque. [E el]e, por meio de sua força, julgará os santos de Deus, exercendo o julgamento como está escrito a seu respeito nos Salmos de Davi, que disse: “Elohim tomou o seu lugar no conselho divino; ele julga em meio aos deuses” (Sl 82:1). E é a respeito dele que ele disse: “(Que a assembléia dos povos) volte às 11 alturas acima deles; El (deus) julgará os povos” (Sl 7:7-8). Quanto ao que Ele d[isse: “Até quando] julgareis injustamente e sereis parciais com relação aos ímpios? Selah” (Sl 82:2), sua interpretação diz respeito a Satanás e aos espíritos de seu partido [que] se rebelaram ao abandonar os preceitos de Deus para (…) E Melquisedeque exercerá a vingança dos julgamentos de Deus (…) e ele [os] arrancará [da mão de] Satanás e da mão de todos os esp[íritos de ] seu [partido]. E todos os “deuses [da justiça“] virão em seu auxílio [para] participar da des[truição] de Satanás. E “a altura é (…)” todos os filhos de Deus (…) este (…) Este é o Dia da [Paz/Salvação] a respeito do qual [Deus] falou [através de Isa]ías, profeta, que disse: “[Quão] graciosos, sobre os montes, são os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz boas novas e anuncia a salvação, e que diz a Sião: Ó teu Elohim [reina]” (Is 52:7). Sua interpretação: “as montanhas são os profetas (…) e o mensageiro é o Ungindo do espírito, a respeito de quem Dan[iel] disse: [Até que um ungido, um príncipe (Dn 9:25)] (…) [E aquele que traz] boas [novas], que anuncia a [salvação]“: é a respeito dele que está escrito (…) “[Para confortar todos os que estão enlutados, para conceder àqueles que estão enlutados em Sião]” (Is 61:2-3). Para consolar [“os que estão enlutados“: sua interpretação], para fazê-los entender todas as eras dos t[empos] (…) Em verdade (…) abandonarão Satanás (…) pelos julgamento[s] de Deus, com está escrito a respeito dele, “[que diz a Sião]: o teu Elohim reina (Is 52:7). Sião é (…)“], aqueles que sustentam a Aliança, que deixam de caminhar [pelo] caminho dos povos. E “teu Elohim” é [Melquisedeque (?), que os salvará da ] mão de Satanás. Quanto ao que Ele disse: “Então no [sétimo] m[ê]s farás vibrar [o toque] da trombeta” (Lv 35:9) (…)

    11QMelch. Fonte: [Vermes, pp. 396-7].

    Dado que Abraão pagou dízimo a Melquisedeque, o patriarca do judaísmo se colocou abaixo dele. Por essa lógica, Levi, seu descendente, também era inferior ao sacerdote de Salém. Contudo, apenas com o material contido em Gênese, Melquisedeque ainda seria mero humano. A chave para sua promoção a juiz parece estar no salmo 110 (ou 109), mais especificamente no versículo quarto: “Jurou o Senhor, e não se arrependerá: tu és um sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque“. Uma leitura mais apressada deixa de perceber uma certa ambiguidade nesse versículo: afinal o sacerdócio do Messias seria eterno simplesmente porque Iavé o determinou ou como uma consequência da indicação à ordem de Melquisedeque, que daria esse atributo? Houve quem preferisse a segunda opção e desenvolveu-se um tradição acerca de de Melquisedeque que o colocava no mesmo patamar de Enoque, como humano feito imortal (cf. [Flusser, cap. XII]). Um documento que chegou até nós – o apócrifo II Enoque – relata o nascimento miraculoso de Melquiseque a partir do cadáver da esposa de Nir, irmão de Noé. A criança foi concebida sem conjunção carnal e se desenvolveu aceleradamente no ventre da mãe, que se surpreendeu ao se descobrir em gestação avançada, e após o nascimento, a ponto de já ser encontrada por Noé e Nir declarando louvores a Deus. Pouco depois foi levada pelo anjo Gabriel para o Jardim do Éden a fim de ser poupada do dilúvio iminente e de lá sairia para ser “ o cabeça
    dos sacerdotes em outra geração”
    . Não há como saber se os sectários de Qumran tinham conhecimento dessa lenda. Por outro lado, a existência de uma tradição escatológica para Melquisedeque, aliada a histórias lhe dando uma origem sobrenatural, lança uma luz sobre o enigmático versículo de Hb 7:3

    Sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre.

    * * *

    Após esta um tanto longa exposição acerca da figura Filho do Homem/Messias, tem-se um mosaico de expectativas diferentes quanto a seus atributos:

    1. Humano ou sobre-humano: ele poderia ser uma pessoa comum com qualidades excepcionais e, possivelmente, poderes especiais pela graça divina ou alguém que teve sua natureza transformada para algo comparável ou superior à dos anjos;
    2. Pacífico ou guerreiro: o Messias poderia libertar Israel e subjugar os pagãos por meio de um magnetismo pessoal ou pela força das armas;
    3. Um ou dois Messias: as funções de sacerdote e rei poderiam ser desempenhadas por indivíduos diferentes ou por incorporadas em um único;
    4. Uma ou duas vindas: esta é capciosa, mas uma consequência indireta do item anterior, pois o Messias poderia vir desempenhar uma das funções num momento e só depois assumir a outra. Há um testemunho disso nos Salmos de Salomão 18:5, pois o texto grego (único remanescente) admite duplo entendimento:

      Para que Deus purifique Israel para o dia da misericórdia, para o dia da eleição quando trará de volta/apresentará Seu ungido.

      Ao menos no judaísmo helênico, isso poderia fundamentar uma dupla vinda do Messias.

    Ainda há uma característica do Messias por discutir: sua chegada teria ou não um aviso prévio? E quem seria o mensageiro. Essa discussão merece um tópico próprio.

    Anunciando o Reino de Deus

     Elias subindo aos Céus

    Eram os deuses Era Javé astronauta?

    Mais de uma vez, na literatura hebraica, apareceu a tese de que a subjugação dos opressores de Israel não viria sem um aviso prévio, e esse anúncio poderia vir pelos lábios de alguma figura notável. Judas Macabeu, um dos líderes da revolta contra o domínio selêucida, teria levantado o moral de seus companheiros de luta, após um revés, graças a um estimulante sonho:

    Tendo, pois, armado a cada um deles, menos com a segurança dos escudos e das lanças do que com o conforto das boas palavras, referiu-lhes ainda um sonho digno de fé, uma espécie de visão, que os alegrou a todos. Ora, este foi o espetáculo que lhe coube apreciar: Onias, que tinha sido sumo sacerdote, homem honesto e bom, modesto no trato e de caráter manso, expressando-se convenientemente no falar, e desde a infância exercitado em todas as práticas da virtude, estava com as mãos estendidas, intercedendo por toda a comunidade dos judeus. Apareceu a seguir, da mesma forma, uma homem notável pelos cabelos brancos e pela dignidade, sendo maravilhosa e majestosíssima a superioridade que o circundava. Tomando então a palavra, disse Onias: “Este é o amigo dos seus irmãos, aquele que muito ora pelo povo e por toda a cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus.” Estendendo, por sua vez, a mão direita, Jeremias entregou a Judas uma espada de ouro, pronunciando estas palavras enquanto a entregava: “Recebe esta espada, presente de Deus, por meio da qual esmagarás teus adversários!”

    II Mac 15:11-6

    Os livros de Macabeus visam ser épicos históricos permeados por teologia, já a literatura apocalíptica aumentou a experiência do retorno dos profetas para muito mais que uma visão em sonho, rompendo a barreira da morte:

    Assim diz o Senhor a Esdras:
    “Diga a meu povo que lhe darei o reino de Jerusalém, que eu teria dado a Israel. Também tomarei sua glória para mim e darei estes tabernáculos eternos, que preparei para ele. Terá a árvore da vida para uma unção de doce sabor; não terá de trabalhar, nem se fatigar. Vai e receberás. Ora por alguns dias por ti, para que eles possam ser encurtados: o reino já está preparado para ti, veja. Toma o Céu e a Terra por testemunhas; pois quebrei o mal em pedaços e criei o bom: pois eu vivo.” Diz o Senhor.

    “Mãe, abrace teus filhos e os crie com alegria, e faça os pés deles tão firmes quanto um pilar: pois eu os escolhi.” Diz o Senhor.

    “E os que estão mortos e reerguerei de onde estiverem e os tirarei dos túmulos, pois fiz meu nome conhecido em Israel. Não tema, ó mãe, por teus filhos, pois eu os escolhi.” Diz o Senhor.

    “Para seu amparo enviarei meus servos Esaú e Jeremias, de cujos conselhos santifiquei e preparei para eles doze árvores carregadas com diversos frutos, o mesmo total de fontes a verter leite e mel, e sete imponentes montanhas sobre as quais crescem rosas e lírios, por onde encherei teus filhos com alegria.

    Sê correto com a viúva, justo com o bastardo, dá ao pobre, defende o órfão, veste o nu, cuida do machucado e do fraco, não ri para escárnio do manco, defende o aleijado, e deixa o cego vir para vista de minha clareza. Guarda o ancião e o jovem dentro de tuas muralhas. Onde quer que encontre os mortos, toma-os e os enterra, e te darei o primeiro lugar em minha ressurreição.”

    IV Esd 2:10-23

    O texto acima foi extraído do Apocalipse Judaico de Esdras. Não é uma história como Macabeus, mas um conjunto de sete visões atribuídas a esse profeta e as explicações dadas pelo anjo Uriel. A nomenclatura desse livro é um pouco complicada, correspondendo aos capítulos 3-14 do livro 2 Esdras das edições de pseudoepígrafos feitas por protestantes, 3 Esdras nas igreja eslavas e a 4 Esdras na Vulgata de Jerônimo. Datado do final do I século, esse apocalipse faz coro com II Baruque na tentativa de amparar uma comunidade em choque com a destruição do II Templo.

    Os sectários de Qumran também tinham suas próprias expectativas quanto ao mensageiro. No Preceito de Damasco, é feita uma reinterpretação do livro de Números à luz de seu próprio apocaliptismo:

    o poço que os príncipes cavam, que os chefes do povo perfuram com o cajado (Nm 21:18).

    O poço é a Lei, e aqueles que o cavaram eram os convertidos de Israel que saíram de Judá, permanecendo por algum tempo na terra de Damasco. Deus denominou-os a todos príncipes porque iam ao encontro dEle, e ninguém questionava sua reputação. O Cajado é o Intérprete da Lei de quem Isaías dissera: Ele fabrica uma ferramenta para a Sua obra(Is 54:16); e os chefes do povo são aqueles que vieram para cavar o Poço com os cajados, com os quais o Cajado ordenou que caminhassem durante toda a era da iniquidade – e sem estes não achariam nada -, até que venha aquele que ensinará a retidão no final dos tempos.

    Preceito de Damasco 6:4-11. Fonte: [Vermes].

    O fim dessa passagem talvez remeta ao Mestre da Retidão, apresentado na exortação inicial do manuscrito como aquele posto por Deus para ”guiá-los pelos caminhos de Seu coração” e que ”revelou às gerações posteriores aquilo que Deus fizera à última geração [i.e., o Cativeiro de Babilônia], a congregação dos traidores, àqueles que abandonaram o caminho” (Idem 1:11). Essa figura misteriosa poderia ter sido o fundador da comunidade, algum de seus notáveis líderes ou ainda um cargo repassado entre seus sucessores. Embora esteja associada ao “fim dos tempos” é difícil dizer, com o material disponível, se seria alguém a retornar por algum modo não especificado (imortalidade, ressurreição ou reencarnação) ou um novo indivíduo com equivalência funcional.

    Embora tenha permeado o imaginário de Qumran, o Mestre da Retidão não teve vez fora dos limites da comunidade. Os profetas de Macabeus, por sua vez, tiveram seus nomes grafados em grego. Seu público alvo eram os judeus de Alexandria, com uma mensagem edificante sobre as guerras de libertação de seus irmãos da Palestina. Não deve ter sido um livro que os contemporâneos e conterrâneos de Jesus tenham lido. O Apocalipse de 4 Esdras não o foi com certeza, por razões óbvias. Há outra fonte hebraica sobre profecia iminente que foi, esta sim, a usada pelos evangelistas:

    Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais; e o mensageiro da aliança, a quem vós desejais, eis que ele vem, diz o Senhor dos Exércitos. Mas quem suportará o dia da sua vinda? E quem subsistirá, quando ele aparecer? Porque ele será como o fogo do ourives e como o sabão dos lavandeiros.

    Ml 3:1,2

    Porque eis que aquele dia vem ardendo como fornalha; todos os soberbos, e todos os que cometem impiedade, serão como a palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o Senhor dos Exércitos, de sorte que lhes não deixará nem raiz nem ramo. Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, e cura trará nas suas asas; e saireis e saltareis como bezerros da estrebaria. E pisareis os ímpios, porque se farão cinza debaixo das plantas de vossos pés, naquele dia que estou preparando, diz o Senhor dos Exércitos. Lembrai-vos da lei de Moisés, meu servo, que lhe mandei em Horebe para todo o Israel, a saber, estatutos e juízos. Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor; e ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha, e fira a terra com maldição.

    Ml 3:19-24 (ou 4:1-6)

    Há um intrigante pormenor que surge ao se emparelhar essas passagens de Malaquias, que escapa à maioria dos religiosos judaico-cristãos: falariam elas da mesma pessoa? Seria o “mensageiro” de Ml 3:1 o Elias de 4:5? Bem, Ml 4:1-6 (ou Ml 3:19-24) tem a estrutura de um pequeno apêndice a uma obra que poderia terminar em Ml 3:18. Seu editor pode muito bem ter copiado material de Ml 3:1 para forçar uma identificação. Contudo, as tarefas atribuídas ao enviado em cada passagem não são exatamente as mesmas. Assim, por mais estranho que isto pareça aos fiéis modernos – espíritas inclusive -, é possível uma leitura de Malaquias que compreenda dois mensageiros distintos: um de preparação para o caminho do Senhor e outro para a vingar desrespeitada aliança entre Javé e seu povo. Se assim for, com qual deles seria feita a identificação com Elias? O deuterocanônico Eclesiástico, que dedica seu capítulo XLVIII à volta de Elias, aparenta preferir identificá-lo com o último, ou pelo menos – supondo-se um único mensageiro – enfatizar o aspecto vingativo de sua missão. Um ponto curioso é que em instante algum um Messias é mencionado: os (terríveis) prodígios são realizados por Elias em pessoa:

    1. Suas palavras queimavam como uma tocha ardente. Elias, o profeta, levantou-se em breve como um fogo.

    2. Ele fez vir a fome sobre o povo (de Israel): foram reduzidos a um punhado por tê-lo irritado com sua inveja, pois não podiam suportar os preceitos do Senhor.

    3. Com a palavra do Senhor ele fechou o céu, e dele fez cair fogo por três vezes.

    4. Quão glorioso te tornaste, Elias, por teus prodígios! Quem pode gloriar-se de ser como tu?

    5. Tu que fizeste sair um morto do seio da morte, e o arrancaste da região dos mortos pela palavra do Senhor;

    6. tu que lançaste os reis na ruína, que desfizeste sem dificuldade o seu poder, que fizeste cair de seu leito homens gloriosos.

    7. Tu que ouviste no Sinai o julgamento do Senhor, e no monte Horeb os decretos de sua vingança.

    8. Tu que sagraste reis para a penitência, e estabeleceste profetas para te sucederem.

    9. Tu que foste arrebatado num turbilhão de fogo, num carro puxado por cavalos ardentes.

    Ou seja, nesse deuterocanônico, Elias é o grande protagonista do “terrível dia do Senhor”. Talvez por focar no aspecto religioso (cf. cap. XVII), um novo rei davídico não lhe fosse crucial.

    Uma razão de por que é tentadora a identificação entre [um dos] o inominado[s] mensageiro[s] (do grego αγγελος, “anjo”) e Elias é o fato de poderem ter a mesma origem; afinal este, junto com Enoque e Melquisedeque, fazia parte de um seleto grupo de humanos que ascendeu aos Céus sem conhecer a morte. Como bem lembrou o autor de Eclesiástico, ele teria ascendido para lá levado por uma “carruagem de fogo”:

    E Elias disse: Fica-te aqui, porque o Senhor me enviou ao Jordão. Mas ele disse: Vive o Senhor, e vive a tua alma, que não te deixarei. E assim ambos foram juntos.
    E foram cinquenta homens dos filhos dos profetas, e pararam defronte deles, de longe: e assim ambos pararam junto ao Jordão.
    Então Elias tomou a sua capa e a dobrou, e feriu as águas, as quais se dividiram para os dois lados; e passaram ambos em seco.
    Sucedeu que, havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito sobre mim.
    E disse: Coisa difícil pediste; se me vires quando for tomado de ti, assim se te fará, porém, se não, não se fará.
    E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho.
    O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel, e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, pegando as suas vestes, rasgou-as em duas partes.
    Também levantou a capa de Elias, que dele caíra; e, voltando-se, parou à margem do Jordão.
    E tomou a capa de Elias, que dele caíra, e feriu as águas, e disse: Onde está o Senhor Deus de Elias? Quando feriu as águas elas se dividiram de um ao outro lado; e Eliseu passou.
    Vendo-o, pois, os filhos dos profetas que estavam defronte em Jericó, disseram: O espírito de Elias repousa sobre Eliseu. E vieram-lhe ao encontro, e se prostraram diante dele em terra.

    II Reis 2:6-15

    Um problema surge ao se tratar com o arrebatamento: o corpo humano está sujeito ao desgaste e à deterioração. Como, então, poderia Elias (ou os outros arrebatados) permanecer indefinidamente no Céu? Uma sugestão foi dada pelo pseudoepígrafo judaico-cristão Ascensão de Isaías (séc. I ou II), em que é relatada uma jornada desse profeta pelas várias regiões celestiais. Essa viagem não se enquadra bem como um caso de “arrebatamento” porque se tratou de uma visão: Isaías não esteve lá em corpo físico. Mesmo nessa “visão”, ele precisou colocar uma veste a partir do sétimo Céu para poder prosseguir e ela o deixou similar aos anjos. Já no sétimo Céu, ele encontrou … Enoque, que trajava o mesmo tipo de veste! Não é impossível que seu autor tenha se inspirado em um trecho de I Enoque (62:10), onde se lê de forma poética:

    Serão [os justos] recobertos com as vestes da glória, que são as vestes da Vida do Senhor dos Espíritos. Vossas vestes não envelhecerão e vossa glória não passará na presença do Senhor dos Espíritos.

    Ao contrário da volta de Jeremias ou Esaú, a crença em Elias como mensageiro do “Mundo Vindouro” persiste até hoje nas principais correntes do judaísmo. Note que todas essas figuras estavam para alertar para o fim dos tempos. A vinda do Filho do Homem (ou do Messias terreno) é que fazia parte desse contexto. O que teriam feito os cristão dela ao se destacarem do judaísmo?

    Chegando sem Avisar

    Quadro da destruição do Templo

    A Destruição do Templo em Jerusalém, por Francesco Hayez (1867).

    Nem sempre era necessário que um profeta anunciasse o Fim dos Tempos. Um exceção notável é O Apocalipse de Baruque (ou II Baruque), que traz um Final dos Tempos arrasando os incautos. Quem estiver vivo, deverá se dar conta no meio do processo.

    XXV – O Julgamento do mundo

    Ele falou: “Também tu também serás mantido até aquele dia, como testemunha da ação do Altíssimo sobre os habitantes da terra. E este será o sinal: os habitantes da terra, acometidos de espanto terrível, cairão em muitas privações e em profundíssimos sofrimentos. E quando disserem entre si, na sua necessidade extrema: ‘Que o Altíssimo zele constantemente pela terra’, então o novo tempo se inaugurará”.

    XXVI – A Duração das Tribulações

    Eu falei: “Permanecerá então por longo tempo aquela calamidade? E durará muitos anos aquele tempo de privações?”

    XXVII – Doze Períodos de Calamidades

    Ele falou-me: “De doze partes se compõe aquele tempo: cada uma delas está reservada para o que lhe foi previsto. O primeiro período marcará o início das inquietações; no segundo acontecerá a matança dos poderosos; no terceiro, a morte de muitos; no quarto, o desembainhar das espadas; no quinto, fome e dilúvios de chuva; no sexto, terremotos e horror; no sétimo, (…) no oitavo, aparições e encontros com espíritos; no nono, queda de fogo do alto; no décimo, muitos saques e opressões; no undécimo, crimes e devassidão; no duodécimo, mistura e superposição de todos os precedentes.

    No princípio, esses períodos serão separados, depois eles se misturarão e se completarão entre si […] Pois uns não se exaurem de uma só vez, e terão como acrescentar aos outros; outros completam-se a si mesmos e complementam ainda aos demais, de sorte que os habitantes da terra não perceberão de que se trata do fim dos tempos.”

    XXVIII – Nova Reflexão

    “Mas aquele que perceber estará de sobreaviso. No que se refere porém à medida e números de tempo, haverá dois períodos, que são semanas de sete semanas cada uma.”

    Eu falei: “Será bom que um homem experimente e presencie isso; mas melhor seria que não alcançasse esse tempo, para não sucumbir ao horror. Agora pergunto ainda o seguinte: porventura aquele que vai sobreviver terá desprezo pelo que é condenado e pelo destino que lhe é reservado? Será ele o único a usufruir a imortalidade? Meu Senhor, se efetivamente chegará aquilo que agora me antecipaste, e se porventura encontrei graça aos teus olhos, revela-me ainda o seguinte: acontecerá isso só num país, talvez numa única região, ou se estenderá a toda terra?”

    XXIX – O Messias

    Ele falou-me: “O que vai acontecer atingirá toda a terra; dessa forma, experimentá-lo-ão todos os que estiverem em vida. Mas naquele tempo eu protegerei apenas aqueles que nesses dias se encontrarem neste país [Sião]. Uma vez cumprido aquilo que deve acontecer nos períodos do tempo, o Messias começará a sua revelação. Também Behemoth virá dos seus domínios, e Leviatã se levantará do mar; os dois imensos monstros marinhos por mim criados no quinto dia da Criação, e que reservo para aqueles dias; eles servirão de alimento para todos os que sobreviverem.

    “Então a terra produzirá os seus frutos ao cêntuplo; numa cepa de videira haverá mil ramos, um ramo carregará mil racimos, e um racimo mil bagos, e um bago data até quarenta litros de vinho. Os que sofreram fome comerão regiamente, e a cada dia lhes estão reservadas novas maravilhas.

    “Pois de mim procederão ventos que trarão todas as manhãs o perfume de frutos saborosos, e farão gotejar ao final do dia o orvalho salvífico. Do alto cairá de novo grande quantidade de maná; dele comerão eles naqueles anos, por haverem participado do final dos tempos”.

    XXX – Ressurreição dos Mortos

    “Terminado o tempo vigente do Messias, Ele voltará de novo à glória do céu. Então haverão de ressuscitar todos aqueles que outrora adormeceram na esperança. Naquele tempo acontecerá que se abrirão as câmaras onde se demoram as almas dos piedosos; elas sairão, e todas essas numerosas almas, como uma legião de um só coração, apareceram todas juntas, abertamente. As que foram as primeiras, alegrar-se-ão; as que foram as últimas, não estarão tristes.

    “Cada uma delas sabe que foi chegado o tempo, previsto como o fim de todos os tempos. As almas dos pecadores perder-se-ão em angústia, ao presenciarem tudo isso. Pois elas já sabem que o tormento as atingirá, e que a hora da sua condenação é chegada.”

    Fonte: [Tricca, vol. III, pp. 315-7]. Cf. [Charlesworth, pp. 630-1].

    O Messias não seria uma figura meramente passiva, a produzir maravilhas por sua simples presença. Em outras duas passagens, ele é apresentado, também, como um líder guerreiro:

    XL – O Último Príncipe Será Morto pelo Messias

    “O último rei permanecerá com vida, mesmo tendo perecido a multidão dos seus súditos. Então ele será acorrentado e conduzido ao monte Sião, e ali o meu Ungido lhe pedirá contas de todos os seus atos de prepotência, e, juntamente com as obras de toda a sua multidão, o aniquilará na sua presença.

    “Depois disso, Ele o dará à morte, e assim protegerá o restante do meu povo, que se encontra na terra por mim escolhida. E o seu reino durará para sempre, até o final do mundo perecível, quando então completar-se-ão os tempos predeterminados.

    “Foi essa a tua visão e o seu significado.”

    LXXII – O Messias

    “Toma conhecimento também daquele raio, que deverá vir ao final, após a água negra! Ele representa o seguinte: depois dos sinais prodigiosos, que há pouco foram mencionados, quando os povos forem lançados na confusão, e chegar o tempo do meu Ungido, este convocará a todas as gentes. A umas conservará em vida, a outras eliminará. Aos povos por ele poupados acontecerá o seguinte: todos aqueles que não chegaram a conhecer Israel, e que nunca oprimiram a raça de Jacó, serão conservados em vida e separados dentre todos os povos, submeter-se-ão ao teu povo. Mas todos aqueles que outrora vos dominaram, ou que inutilmente vos conheceram, cairão em conjunto sob a espada.

    E esse Messias guerreiro teve uma contrapartida real: durante a revolta judaica de 132-5 d.C., seu líder Simão bar Kochba foi declarado o Messias por ninguém menos que o famoso rabi Aquiba, após algumas campanhas bem sucedidas contra os romanos, o que deu mais ímpeto à rebelião. Contudo, os romanos contra-atacaram e o final foi desastroso para os revoltosos, para Aquiba e para o povo judeu como um todo, que foi definitivamente posto em diáspora.

    Teria Aquiba cometido um erro crasso de avaliação? Hoje, olhando em retrospectiva, sabe-se que sim, mas e àquela época? Aquiba já conhecera ao longo da vida duas revoltas fracassadas antes dessa e sabia que um sucesso inicial podia nada significar ante o poderio romano. Talvez a presença de uma liderança realmente carismática e centralizada – algo ausente nas anteriores – o fez pensar que “dessa vez seria diferente”. Há quem diga [Gruber] que Aquiba estava ciente de que Bar Kochba não reunia os atributos esperados, como outros rabinos alegavam, mas o utilizou assim mesmo como braço armado para eliminar seitas avessas à primazia rabínica, entre elas o judeu-cristianismo.

    De fato, nenhum profeta viera e o mundo não passava por calamidades, mas essas expectativas eram apenas algumas das diferentes existentes, numa época em que o judaísmo tinha mais divergências de opiniões do que teria na subsequente. Para ir atrás delas é tão preciso buscar os livros ficaram fora do cânon judaico. Afinal, a a Bíblia não é o bastante.

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    O Sacerdócio Eterno

    A Arca da Aliança

    Quanto às origens do profeta Elias, pouquíssima informação há na Bíblia:

    Então Elias, o tisbita, que habitava em Gileade, disse a Acabe: Vive o Senhor, Deus de Israel, em cuja presença estou, que nestes anos não haverá orvalho nem chuva, senão segundo a minha palavra.

    I Re 17:1

    Então veio a palavra do Senhor a Elias, o tisbita, dizendo:
    I Re 21:17

    A única informação existente é o gentílico “tisbita”. Flávio Josefo (Ant., VIII, 13) dá sua origem no vilarejo de Thesbon, no país de Gileade, que também é transliterado para Tesbe ou Tisbe. A falta de qualquer informação biográfica deu margem para a multiplicação de tradições quanto ao passado do profeta, algumas tão inusitadas como esta:

    Eu não sei como os hebreus começaram a falar que Fineias, filho de Eleazar, que admitidamente prolongou sua vida ao tempo de muitos dos juízes, como lemos no Livro de Juízes (Jz 20:28), para dizer o que agora menciono. Dizem que ele foi Elias porque Deus lhe prometera imortalidade, devido à aliança concedida a ele (…) .

    Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

    A aliança da qual o teólogo do III século Orígenes fala é a seguinte: E ele, e a sua descendência depois dele, terá a aliança do sacerdócio perpétuo, porquanto teve zelo pelo seu Deus, e fez expiação pelos filhos de Israel (Nm 25:13). Isso não é garantia de identificação entre Fineias e Elias e, dependendo de como se leia, nem de imortalidade. Entretanto, o que o alexandrino não sabia é que essa tradição tinha raízes extrabíblicas, sendo fixada em traduções aramaicas mais livres da Escritura:

    E os anos de vida de Kehath, o santo, foram cento e trinta e três anos. Ele viveu para ver Fineias, que é Elias, o Grande Sacerdote, que será enviado ao cativeiro de Israel no fim dos dias.

    Targum Pseudo-Jonatas Ex 4:13 e Ex 6:18

    E ungirás o altar de oferendas queimadas e todos os seus vasilhames, e consagrarás o altar, que ele seja um santíssimo altar, em razão da coroa do sacerdócio de Aarão, e de seus filhos, e de Elias, o grande Sacerdote, que será enviado ao fim do cativeiro.

    Idem Ex 40:10

    Ainda que possais estar dispersos até os confins dos céus, de lá o Verbo do Senhor vos congregará juntos pela mão de Elias, o grande sacerdote , e de lá Ele vos trará pela mão do Rei Meshiha .

    Idem Dt 30:40

    Essas paráfrases já bastam para identificar Fineias com Elias, mas a natureza desse relacionamento é definida em outra:

    E o Senhor falou com Moisés, dizendo: Fineias, o zeloso, o filho de Eleazar bar Aharon, o sacerdote, afastou minha ira dos filhos de Israel, de modo que, quando zeloso com Meu zelo, massacrou os pecadores que estavam entre eles; e por sua causa não destruí os filhos de Israel em Minha indignação. Jurando por Meu Nome, digo-lhe: “Eis que declaro Minha aliança de paz e fá-lo-ei um anjo da aliança, que ele viva para sempre, para anunciar a Redenção no fim dos dias.

    Targum Pseudo-Jonatas Nm 25:12

    Lembrando que “anjo (mensageiro) da aliança” foi o título dado a Elias em Ml 3:1. Outra corroboração para a tradição descrita por Orígenes se encontra no apócrifo judaico Liber Antiquitatum Biblicarum (“Livro das Antiguidades Bíblicas”), datado do primeiro século e pseudonimamente atribuído a Fílon de Alexandria:

    Também, naquela ocasião, Fineias deitou-se para morrer e o senhor lhe disse: “Eis que ultrapassaste os 120 anos que foram estabelecidos para todo homem (Gn 6:3). Agora levanta e vai-te daqui para residires sobre o monte Danaben e lá resida por muitos anos. E ordenarei a minha águia (cf. I Re 17:4) e ela te alimentará por lá e não descereis à humanidade até o tempo chegar e será provado naquele tempo; e fecharás, então o céu e por tua boca ele se abrirá. E depois serás erguido para o lugar onde os que antes de ti foram erguidos, e lá ficarás até que Eu me lembre do mundo. Então farei todos vós virdes, e provareis o gosto da morte”. E Fineias subiu e fez tudo o que o Senhor lhe ordenou. Entretanto, nos dias que o indicou para ser sacerdote, ungiu-o em Siló (cf. Gn 49:10).

    Cap. XLVIII.

    Palavras e expressões como “redenção”, “fim dos dias”, “lembrar-se do mundo” transmitem a visão apocalíptica de que o término do sofrimento do povo de Deus se daria pela direta intervenção divina, numa data ignorada, mas certa. Fineias – e outros profetas, segundo Antiguidades Bíblicas – eram esperados por essa época, tal como Elias também o era segundo Malaquias. A harmonização dessas duas tradições teria produzido um indivíduo extremamente longevo, oculto boa parte do tempo, e que não se apresentava necessariamente com o nome original.

    Houve outras tradições a respeito da origem de Elias. Numa direção menos, digamos, sobrenatural, o heresiólogo do século IV Epifânio de Salamina (Panarion, sç IV, “melquizedequianos”, pp. 79-80) afirmou ter tomado conhecimento de uma tradição que ligaria a ascendência de Elias a Aarão, passando por Fineias. No outro extremo, existe outra que o considera com uma materialização do arcanjo Sandalphon, o que explicaria a ausência de uma origem, seus milagres e a ascensão ao céu (cf. [Ginzberg, vol. IV, cap. VII]).
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    Em Busca da Figura Histórica

    O historiador judeu do final do primeiro século Flávio Josefo deixou um relato sobre um popular pregador que viveu à época de Herodes:

    Alguns judeus pensavam que a destruição do exército de Herodes veio de Deus, de forma justa, como punição pelo que ele havia feito contra João, chamado Batista: pois Herodes o matara, ele que era um homem bom e pregava para que os judeus praticassem a virtude, tanto pela justiça de uns para com os outros, como pela reverência a Deus, para isso vindo ao batismo. Esta lavagem era aceita por ele, não se fosse para terem alguns pecados perdoados, mas para a purificação do corpo. A alma devia estar purificada antes pela retidão. Quando muitos vieram em multidão até João, movidos por suas palavras, Herodes, que temia a grande influência de João sobre o povo, o que permitiria que estimulasse uma revolta (pois pareciam prontos a fazer o que ele dissesse), pensou ser melhor matá-lo. Isto impediria qualquer ação contrária causada por João e não traria dificuldades para o rei, que poderia arrepender-se muito tarde de tê-lo deixado vivo. Assim, foi aprisionado em Maqueronte, castelo que mencionei antes, e morto. Os judeus consideraram que a destruição do exército de Herodes foi uma punição, para mostrar o desagrado de Deus

    Antiguidades Judaicas, Livro XVIII, cap. V

    Panorama de Maqueronte

    Montanha da antiga fortaleza de Maqueronte, nas proximidades do Mar Morto.

    E isso é tudo o que sabemos sobre João Batista de uma fonte não (muito) religiosa. Qualquer conhecimento extra tem de ser extraído dos sinópticos, do evangelho de João e dos ditos não gnósticos de Tomé. Como a maior quantidade de dados que temos disponível sobre o “Jesus Histórico” se encontra nos sinópticos, boa parte das informações de sua relação com João e até a respeito do próprio estará neles. Ao lida com esse material, é preciso ter em mente que:

    1. Não são independentes: conforme a hipótese mais aceita hoje, Marcos é o mais antigos dos três e forneceu o fio narrativo comum a eles. Lucas e Mateus adicionaram aos seus relatos elementos exclusivos e uma boa quantidade de outros tomada a partir de uma suposta fonte de ditos comum, chamada de Q (do alemão Quelle, “fonte”). Portanto, as referências aqui usadas não são exatamente os sinópticos, mas a narração de Marcos (Mc), o material exclusivo de Mateus (M), o exclusivo de Lucas (L) e a fonte Q;
    2. Não são biografias de Jesus: São obras de fé que queriam convencer seus primeiros leitores de uma imagem derivada do verdadeiro Jesus Histórico. Elementos dele se encontram nos evangelhos, permeados elementos míticos e, para separar um pouco “o joio do trigo”, esse material deve ser analisado e filtrado por critérios como o da múltipla atestação, da conformidade social e o da dissimilaridade (1).

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    A mensagem

    Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados.
    E toda a província da Judeia e os de Jerusalém iam ter com ele; e todos eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.

    Mc 1:4-5

    E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura?
    Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento;
    E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão.
    E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo.

    Mt 3:7-10

    Dizia, pois, João à multidão que saía para ser batizada por ele: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir?
    Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento, e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque eu vos digo que até destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão.
    E também já está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não dá bom fruto, corta-se e lança-se no fogo.
    E a multidão o interrogava, dizendo: Que faremos, pois?
    E, respondendo ele, disse-lhes: Quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem, e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira.
    E chegaram também uns publicanos, para serem batizados, e disseram-lhe: Mestre, que devemos fazer?
    E ele lhes disse: Não peçais mais do que o que vos está ordenado.
    E uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo.

    Lc 3:7-14

    Não é difícil compreender porque a mensagem do Batista (“o imersor”, em grego) alcançou uma considerável popularidade. Seus princípios simples contrastavam com a sofisticação de regras dos “doutores da Lei”. A pureza ritual era alcança uma única vez, dispensando as sucessivas purificações exigidas pela letra da Lei para as mais diversas e repetitivas circunstâncias, pois a principal pureza era a moral. Era desvinculada do Templo de Jerusalém, que intermediava o perdão divino por meio de sacrifícios de animais. Sem dúvida, para os mais humildes era confortador e libertador não ter que aturar a arrogância dos doutos, poupar suas escassa água e não ter que pagar o tributo ao Templo.

    Pelos resquícios que nos restam, fica patente que João Batista tinha pressa em chamar o povo ao arrependimento, pois “a ira” estava prestes a cair. Uma mudança abrupta em todo o status quo. Assim, pode ser considerado como um pregador escatológico, como outros de seu tempo foram.

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    O Discípulo maior que o Mestre


    No meio da multidão que ouvia sua mensagem e recebia seu batismo, estava um jovem artesão chamado Yeshua ben Yosef, que boa parte da humanidade, a partir de alguns séculos depois, passaria a ter como o Messias (“Ungido”) esperado para a instauração do Reino de Deus.

    Batismo de Jesus

    Esta cena foi verídica. Contudo, editamos a pombinha, pois sua aparição não passa no princípio da dissimilaridade.

    O batismo de Jesus, filho de José, por João e sua morte na cruz são umas das poucas certezas que temos em sua biografia. Ambas por um motivo similar: foram passadas adiante pelos evangelistas, mesmo sendo potencialmente constrangedoras. Talvez por serem notórias aos contemporâneos, fossem impossíveis de omitir. O embaraço da crucifixão é óbvio, afinal como o Messias poderia ter tido um fim tão ignóbil. Se você se declarasse um seguidor de Jesus por volta do anos 40-50 da Era Comum, muito provavelmente seria alvo de chacota. A solução foi “fazer um limonada desse limão” e enquadrar esse aparente fracasso como a conclusão da primeira etapa do plano de salvação da humanidade. A história da Ressurreição de Jesus – calcada em uma crença já existente entre os judeus pós-exílio – foi fundamental para tanto. Mas isso é outro assunto…

    Embora o batismo não fosse tão catastrófico quanto à morte na cruz, ainda assim gerava uma dificuldade: caso se presuma uma superioridade moral do imersor em relação ao imergido, então por que Jesus se deixou batizar e não o contrário? Houve quem realmente descartasse essa hipótese:

    A mãe do Senhor e seus irmãos lhe disseram: “João Batista batiza pelo perdão dos pecados; vamos e sejamos batizados por ele.” Mas ele lhes respondeu: “De que forma eu pequei para que devesse ir e ser batizado por ele? A não ser que, talvez, o que eu acabei de dizer seja um pecado de ignorância.”

    Fragmento do Evangelho do Hebreus, preservado por Jerônimo em Contra Pelágio, livro III, parágrafo 2.

    A solução adotada pelos evangelistas foi tornar João Batista precursor de Jesus, e não seu mentor, assim invertendo a ordem hierárquica entre eles. Por exemplo:

    Então veio Jesus da Galileia ter com João, junto do Jordão, para ser batizado por ele.
    Mas João opunha-se-lhe, dizendo: Eu careço de ser batizado por ti, e vens tu a mim?
    Jesus, porém, respondendo, disse-lhe: Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça. Então ele o permitiu.

    Mt 3:13-15

    Esse dito aparece apenas em Mateus e isso não é de se estranhar, pois, tal como a Paixão, a Ressurreição e a expulsão dos vendilhões, os evangelhos concordam na existência de certos episódios comuns, mas destoam nos pormenores. Por outro lado, uma fala comum a todos os sinópticos é:

    E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas alparcas. Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.

    Mc 1:7-8. Cf Lc 3:16 e Mt 3:11

    Não se deve, entretanto, ver muito nisso. Essas palavras são exclusivas de Marcos e copiadas quase ipsis literis nos outros dois. Elas também não passam pelo critério da dissimilaridade, pois vão ao encontro do que os primeiros cristãos gostariam de ouvir. Elas representam o esforço dos primeiros cristãos – os evangelistas em especial – de subordinar o mestre ao discípulo.

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    Os Sinópticos sobre o Mestre

    Os evangelhos sinópticos

    Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus;
    Como está escrito nos profetas: Eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti.
    Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas.
    Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados.
    E toda a província da Judeia e os de Jerusalém iam ter com ele; e todos eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.
    E João andava vestido de pelos de camelo, e com um cinto de couro em redor de seus lombos, e comia gafanhotos e mel silvestre.

    Mc 1:1-6. Cf. Mt 3:1-5, Lc 3:3-4

    Marcos, copiado depois pelos demais sinópticos, faz nítida associação entre João Batista e a profecia de Isaías supracitada. Quando surgiu pela primeira vez um profeta guiando o povo no deserto, veio a destruição para as nações que ocupavam a Terra Prometida. Um novo fim batia à porta (2). É curioso notar também outra associação feita, menos explícita.

    E eles lhe disseram: Era um homem peludo, e com os lombos cingidos de um cinto de couro. Então disse ele: É Elias, o tisbita.
    II Reis 1:8

    A associação mais forte com Elias só é feita na metade desse evangelho, após o episódio da transfiguração:

    E, descendo eles do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, até que o Filho do homem ressuscitasse dentre os mortos.
    E eles retiveram o caso entre si, perguntando uns aos outros que seria aquilo, ressuscitar dentre os mortos.
    E interrogaram-no, dizendo: Por que dizem os escribas que é necessário que Elias venha primeiro?
    E, respondendo ele, disse-lhes: Em verdade Elias virá primeiro, e todas as coisas restaurará; e, como está escrito do Filho do homem, que ele deva padecer muito e ser aviltado.
    Digo-vos, porém, que Elias já veio, e fizeram-lhe tudo o que quiseram, como dele está escrito.

    Mc 9:9-13. Cf. Mt 17:10-3

    Essa anedota foi registrada por Marcos e copiada por Mateus, com algumas (nada) sutis diferenças: ele retira a confusão dos discípulos quanto à “ressurreição dentre os mortos” do Filho do Homem e explicita a identificação ente os personagens, que Marco deixara nas entrelinhas.

    Nenhuma dessas versões deve ter saído da boca de Jesus (3).

    Em questões de fé, não se faz profecias em relação ao passado. O passado é justificado, o que é bem diferente. No caso dos primeiríssimos cristãos, eles tinham dois abacaxis para descascar: o martírio de João Batista e o de Jesus. Dois finais nada gloriosos. Tanto que a pergunta “por que dizem os escribas que é necessário que Elias venha primeiro?” deveria ser embaraço com que os membros da comunidade marcana eram confrontados. A solução foi enfatizar que João e Jesus foram realmente quem deveriam ser – o precursor e o Messias -, tanto que basta confrontar as palavras de Malaquias e Marcos:

    Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim.
    Ml 3:1 (i.e., diante de Deus)

    Como está escrito nos profetas: Eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti.
    Mc 1:2 (i.e, diante de Jesus)

    para constatar uma edição do Antigo Testamento em prol dessa nova doutrina; bastando interpretar “Senhor” não mais como Deus, mas como o Messias. A mudança de pronome seria “licença poética”…

    Acontece que eles não desempenhariam esses papéis da forma que a maioria do judaísmo esperava e isso é um aspecto muito forte em Marcos. Embora esse evangelho afirme logo no primeiro versículo que Jesus é “Filho de Deus”, o comportamento dele descrito ao longo da maior parte da narrativa é o de alguém que tentava esconder isso ao máximo. Jesus não deixava que os demônios falassem “porque eles o conheciam” (1:34). Ao curar um leproso, advertiu-o não contar a ninguém (1:43-4), mandou expressamente que ninguém soubesse que ressuscitara a filha de Jairo (5:43). Quando Pedro o identificou como o Messias, ordenou que guardasse segredo dos demais discípulos (8:29-30). Após a transfiguração no monte, ordenou às testemunhas que não contassem a ninguém (9:9). Uma proposta radical para o “segredo messiânico” de Marcos foi feita no começo do século XX pelo erudito alemão William Wrede: o Jesus Histórico jamais exigiu segredo porque nunca viu a si mesmo como Messias. Foram seus seguidores que o consideraram com tal e tiveram que elaborar histórias explicando o fato de ele nunca haver se pronunciado a respeito disso. Não é preciso muito para imaginar o quanto de controvérsia isso gerou. Uma proposta mais amena seria considerar que Marcos apenas propôs um Messias humilde, servil e sofredor, em vez da visão de grandeza terrena para o Filho do Homem. De forma análoga, João Batista seria o Elias aguardado, ainda que ninguém se desse conta disso. Mateus, por sua vez, é bem mais enfático em associar Jesus com o Messias prometido, embora em uma roupagem inesperada. Para ele, não haveria o que esconder, mas realçar. O mesmo vale para Elias, tanto que faz um adendo à história para que ninguém se confundisse: “Então entenderam os discípulos que lhes falara de João o Batista” (Mt 7:13). Por outro lado, ambos têm algo em comum com relação a João: não lhe dão uma origem. Para eles o passado do Batista é tão misteriosos quanto fora o de Elias. Seria possível que partilhassem da crença no “sacerdócio eterno”, tendo o mesmo indivíduo Fineias/Elias/João atravessado séculos até o advento de Jesus.

    Em Lucas, nenhuma vinculação de João a Elias é feita após a transfiguração (9:28-36), até por que uma já aparecera bem antes, na Natividade. Tanto Mateus quanto Lucas falam da concepção miraculosa de Jesus, cuja mãe, Maria, fora fecundada ainda virgem pelo Espírito Santo. Apenas Lucas, porém, fala que sua prima (4) Isabel também tivera um pouco antes uma concepção “fora do comum” – engravidara já com idade – e o pai, o sacerdote Zacarias, recebera a notícia de uma forma espantosa:

    Segundo o costume sacerdotal, coube-lhe em sorte entrar no templo do Senhor para oferecer o incenso.
    E toda a multidão do povo estava fora, orando, à hora do incenso.
    E um anjo do Senhor lhe apareceu, posto em pé, à direita do altar do incenso.
    E Zacarias, vendo-o, turbou-se, e caiu temor sobre ele.
    Mas o anjo lhe disse: Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida, e Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João.
    E terás prazer e alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento,
    Porque será grande diante do Senhor, e não beberá vinho, nem bebida forte, e será cheio do Espírito Santo, já desde o ventre de sua mãe.
    E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus,
    E irá adiante dele no espírito e virtude de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à prudência dos justos, com o fim de preparar ao Senhor um povo bem disposto.
    Disse então Zacarias ao anjo: Como saberei isto? pois eu já sou velho, e minha mulher avançada em idade.
    E, respondendo o anjo, disse-lhe: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado a falar-te e dar-te estas alegres novas.

    Lc 1:9-19

    Tal história existe apenas em Lucas (5), dando um problema a esse evangelista: se João teve um começo recente, como relacioná-lo ao “Elias oculto”, que não provara da morte? O jeito foi dar-lhe um papel simbólico de Elias – “no espírito e virtude (poder)”, – coisa que os outros dois sinópticos não fizeram ou, com certa boa vontade, deixaram nas entrelinhas. Existe, também, um evangelho apócrifo da natividade – o Protoevangelho de Tiago – que também fala da paternidade do sacerdote Zacarias, mas não entra em maiores detalhes.

    Isabel e Maria

    Isabel e Maria, por Philippe de Champainge.

    Quanto à historicidade dessa narrativa, os prognósticos não são bons. Dos canônicos, Lucas é o único a trazer essa história e, também, é o único a deixar transparecer que seu autor se valeu de fontes pregressas (Lc 1:1-4). É possível que ele tenha utilizado uma tradição comum ao Protoevangelho de Tiago – que também dá origem sacerdotal a João e relaciona sua mãe com Maria -, mas continuaria tendo elementos exclusivos dele, em especial o nascimento miraculoso (não tanto quanto o de Jesus), deixando de satisfazer o princípio da múltipla atestação. Isso enfraquece, sem dúvida, as chances de a natividade de João ter algum valor histórico em meios ao elementos da fé, sem, no entanto, refutá-la. O que realmente a compromete são elementos que parecem ter sido tomados do Antigo Testamento:

    • Isabel já é dada como estéril (Lc 1:17), assim como Sara (Gn 11:30);
    • Como Abraão e Sara (Gn 13:11), Zacarias e Isabel (Lc 1:7) já estão velhos;
    • Tanto para Abraão (Gn 17:16) quanto para Zacarias (Lc 1:13), um anjo anuncia a vinda de um filho;
    • Em ambos os casos, o nome da criança é previamente anunciado (Gn 17:19 e Lc 1:13);
    • Uma quebra dessa sequência é que a reação de Isabel ante a gravidez (Lc 1:25), que usa as palavras gratidão de Raquel (Gn 30:23), em vez do ceticismo de Sara (Gn 18:12).

    Enfim, Lucas retrata Zacarias e Isabel como novos Abraão e Sara, uma metáfora da (re)fundação de Israel, tornando-os mais próximos de figuras míticas que reais. O ápice da natividade de João se dá no encontro ente Isabel e Maria, que se revela mais do que uma reunião entre comadres:

    E aconteceu que, ao ouvir Isabel a saudação de Maria, a criancinha saltou no seu ventre; e Isabel foi cheia do Espírito Santo. E exclamou com grande voz, e disse: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre. E de onde me provém isto a mim, que venha visitar-me a mãe do meu Senhor? Pois eis que, ao chegar aos meus ouvidos a voz da tua saudação, a criancinha saltou de alegria no meu ventre.

    Lc 1:41-44

    Ou seja, segundo Lucas, João Batista teria reconhecido e aclamado Jesus desde o tempo em que estavam ambos nos ventres de suas respectivas mães. Essa foi a solução dada por Lucas para a desconcertante inversão de papéis entre os dois por ocasião do batismo, ainda que assumisse o custo (ou não o pudesse recusar) de não mais permitir a volta do Elias original.

    Não apenas por ocasião da transfiguração (Lc 9:28-36), a vinculação entre João Batista e Elias foi dispensada em Lucas – em razão de ter ocorrido logo no início -, mas também em outro discurso de Jesus. Compare as redações dadas por e Mateus para esta trecho de um discurso de Jesus:

    E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele. Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

    Mt 11:12-15

    e

    A lei e os profetas duraram até João; desde então é anunciado o reino de Deus, e todo o homem emprega força para entrar nele.
    Lc 16:16

    Ambos falam de João Batista como último profeta antes da chegada do Reino de Deus e da violência usada para se chegar a ele. A ordem de um está invertida em relação outro e, como não há terceira fonte para comparação, não é possível precisar o dito original, provavelmente extraído de Q. O trecho destacado sobre a identidade de João Batista com Elias possui forte cheiro de uma glosa posterior (oral ou escrita) que entrou no texto de Mateus, tal como Mt 7:13.

    Será que algo que Jesus provavelmente disse sobre João que ficou registrado?

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    O Discípulo sobre o Mestre

    João e Jesus

    Cena de Jesus de Nazaré (1977), de Franco Zefirelli. Mestre e discípulo face a face, pelas mãos de um mestre do cinema.

    Uma passagem bem conhecida da tradição cristã – conhecida como “o Louvor de João” – ficou registrada em dois dos evangelhos, que devem tê-la extraído de Q. Ei-la:

    Mateus 11:2-19 Lucas 7:19-35
    E João, ouvindo no cárcere falar dos feitos de Cristo, enviou dois dos seus discípulos,
    A dizer-lhe: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?
    E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide, e anunciai a João as coisas que ouvis e vedes:

    “Os cegos veem, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho.”

    E bem-aventurado é aquele que não se escandalizar em mim.

    E, partindo eles, começou Jesus a dizer às turbas, a respeito de João:

    Que fostes ver no deserto? uma cana agitada pelo vento?
    Sim, que fostes ver? um homem ricamente vestido? Os que trajam ricamente estão nas casas dos reis.

    Mas, então que fostes ver? um profeta? Sim, vos digo eu, e muito mais do que profeta; Porque é este de quem está escrito:

    Eis que diante da tua face envio o meu anjo,que preparará diante de ti o teu caminho.

    Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João o Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele.

    E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele.
    Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João.
    E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir.
    Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

    Mas, a quem assemelharei esta geração? É semelhante aos meninos que se assentam nas praças, e clamam aos seus companheiros, e dizem:

    “Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes.”

    Porquanto veio João, não comendo nem bebendo, e dizem: Tem demônio.
    Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis aí um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores. Mas a sabedoria é justificada por seus filhos.

    E João, chamando dois dos seus discípulos, enviou-os a Jesus, dizendo: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?
    E, quando aqueles homens chegaram junto dele, disseram: João o Batista enviou-nos a perguntar-te: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?
    E, na mesma hora, curou muitos de enfermidades, e males, e espíritos maus, e deu vista a muitos cegos.

    Respondendo, então, Jesus, disse-lhes: Ide, e anunciai a João o que tendes visto e ouvido:

    que “os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho.”

    E bem-aventurado é aquele que em mim se não escandalizar.

    E, tendo-se retirado os mensageiros de João, começou a dizer à multidão acerca de João:

    Que saístes a ver no deserto? uma cana abalada pelo vento? Mas que saístes a ver? um homem trajado de vestes delicadas? Eis que os que andam com preciosas vestiduras, e em delícias, estão nos paços reais.

    Mas que saístes a ver? um profeta? Sim, vos digo, e muito mais do que profeta. Este é aquele de quem está escrito:

    Eis que envio o meu anjo diante da tua face, O qual preparará diante de ti o teu caminho.

    E eu vos digo que, entre os nascidos de mulheres, não há maior profeta do que João o Batista; mas o menor no reino de Deus é maior do que ele.

    E todo o povo que o ouviu e os publicanos, tendo sido batizados com o batismo de João, justificaram a Deus.
    Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido batizados por ele.

    E disse o Senhor: A quem, pois, compararei os homens desta geração, e a quem são semelhantes?
    São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros, e dizem:

    “Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes.”

    Porque veio João o Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio; veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e pecadores. Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos.

    Os textos em azul, em cada coluna, são os trechos em que os evangelhos destoam, talvez fruto de versões ou edições diferentes do texto de Q. O de Mateus foi avaliado no item anterior.

    A resposta que Jesus dá aos discípulos de João está mais para uma apologia da comunidade de Q para justificar o ministério de Jesus como cumprimento de uma série de profecias contidas em Isaías:

    Mateus 11:5 Profecia

    Os cegos veem, e os coxos andam;
    os leprosos são limpos,
    e os surdos ouvem;
    os mortos são ressuscitados,
    e aos pobres é anunciado o evangelho [boa nova].

    Is 35:5-6

    Is 29:18-9
    Is 26:19
    Is 61:1

    Essa mesma lista aparece em Mt 10:8. Falta, contudo, uma menção profética à cura de leprosos, embora haja casos de cura mencionados no Antigo Testamento (por exemplo, II Re 5:1-19).

    O trecho que realmente pode ter saído dos lábios de Jesus são as primeiras perguntas retóricas que ele fez à multidão a respeito de João Batista, contidas em Mt 11:7-8 e Lc 7:24-5, em virtude de possuírem um testemunho independente em Tomé, dito 78

    78. Disse Jesus: Por que saístes ao campo? Para verdes um caniço agitado pelo vento? Ou um homem vestido de roupas macias? Os reis e os grandes vestem roupas macias – e eles não poderão conhecer a verdade.

    Com exceção do fim da última frase – que tem um viés gnóstico – a identidade é clara. Em Tomé, falta um contexto que associe o dito 78 diretamente a João, mas, ainda que o “louvor de João” não constasse em Q, seria fácil reparar a oposição entre os adjetivos de suas perguntas e os atribuídos a João, preservados em outras partes. Para um texto enxuto desses merecer ficar registrado num evangelho de logias é bem provável que fosse usado de forma recorrente – tal qual as parábolas – como uma crítica à riqueza material e pobreza de virtudes da elite, conforme vários outros ensinamentos de Jesus. Além disso, não deixa de ser um elogio a um potencial rival (6). Os dois versículos que se seguem imediatamente (Q: Mt 11:9-10 e Lc 7:26-7), apontando João como “mais que um profeta“, trazem um elogio que talvez apenas Jesus fosse autoritativo de dar na Igreja primitiva, porém o último deles parece ser um fabrico bem ao gosto das comunidades dos evangelistas ao posicionar João como mero precursor, tal como no começo de Marcos:

    Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus.
    Is 40:3 (cf. Lc 3:4-6)

    Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais; e o mensageiro da aliança, a quem vós desejais, eis que ele vem, diz o Senhor dos Exércitos.
    Ml 3:1

    Porque é este de quem está escrito:Eis que diante da tua face envio o meu anjo,que preparará diante de ti o teu caminho.
    Mt 11:10 e Lc 7:27

    No Antigo Testamento, o mensageiro prepararia a vinda de Deus, ao passo que a Fonte Q muda as possíveis origens da citação para o próprio Jesus! Se você considera Jesus como Deus, isso não é o problema, só que estamos tratando dos sinópticos, i.e., em textos de baixa cristologia, ao invés do Evangelho de João. A comunidade que compilou os ditos de Q mudou “o que estava escrito”, assim como a de Marcos.

    O final do “louvor” provoca opiniões distintas entre os acadêmicos, principalmente por causa do uso que se faz da expressão “Filho do Homem” (7). Do jeito que está escrita, ela serve como um circunlóquio de terceira pessoa para Jesus se referir a si mesmo. Os adeptos do modelo de Jesus Histórico como um “mestre de sabedoria” desprovido de escatologia (Jesus Seminar, B.L. Mack, etc.) rejeitam prontamente qualquer sugestão de uso dela por Jesus. Os adeptos do Jesus como “profeta apocalíptico” (B. Ehrman) também não a aprovariam, por crerem que Jesus esperava outra pessoa para a instauração do Reino de Deus (retorno a esse assunto adiante). Um coisa, contudo, pode ter um fundo real: o contraste entre o ascetismo de João e o mundanismo de Jesus, uma diferença de ponto de vista que teria contribuído à separação dos dois.

    Um olhar mais atento terá reparado que pulei algumas partes do “louvor”. São justamente as que expressam não os sentimentos de Jesus para com João, mas da rixa entre as comunidades que eles fundaram.
    [topo]

    A Batalha por Corações e Mentes

    Batismo Mandeu

    Mandeus: ainda hoje à beira d’água.

    Retomando o “Louvor a João”:

    Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João o Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele.

    Q (Mt 11:11, Lc 7:28) e Tomé 46

    Não sei se um elogio seguido de um escárnio seria uma atitude esperada de um “espírito evoluidíssimo”. Quem sabe de um pregador mais bronco e, muito mais provavelmente, de um rústico fiel defendendo sua crença. Esse versículo comum a Mateus e Lucas (obtido via Fonte Q com equivalente em Tomé) pode sugerir uma certa rivalidade entre o cristianismo nascente e os já constituídos discípulos de João.

    De fato, logo no primeiro capítulo do evangelho de João, fala-se que os primeiros seguidores de Jesus também foram ex-discípulos de João Batista:

    No dia seguinte João viu Jesus aproximando-se e disse:
    “Vejam! É o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! Este é aquele a quem eu me referi, quando disse: Vem depois de mim um homem que é superior a mim, porque já existia antes de mim. Eu mesmo não o conhecia, mas por isso é que vim batizando com água: para que ele viesse a ser revelado a Israel”.

    Então João deu o seguinte testemunho:
    “Eu vi o Espírito descer do céu como pomba e permanecer sobre ele. Eu não o teria reconhecido, se aquele que me enviou para batizar com água não me tivesse dito: ‘Aquele sobre quem você vir o Espírito descer e permanecer, esse é o que batiza com o Espírito Santo’. Eu vi e testifico que este é o Filho de Deus”.

    No dia seguinte João estava ali novamente com dois dos seus discípulos.
    Quando viu Jesus passando, disse: “Vejam! É o Cordeiro de Deus! ”

    Ouvindo-o dizer isso, os dois discípulos seguiram a Jesus.
    Voltando-se e vendo Jesus que os dois o seguiam, perguntou-lhes: “O que vocês querem? ” Eles disseram: “Rabi”, ( que significa Mestre ), “onde estás hospedado? ”
    Respondeu ele: “Venham e verão”. Então foram, por volta das quatro horas da tarde, viram onde ele estava hospedado e passaram com ele aquele dia.

    André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido o que João dissera e que haviam seguido a Jesus.
    O primeiro que ele encontrou foi Simão, seu irmão, e lhe disse: “Achamos o Messias” ( isto é, o Cristo ).
    E o levou a Jesus. Jesus olhou para ele e disse: “Você é Simão, filho de João. Será chamado Cefas” ( que significa Pedro ).

    Jo 1:29-42

    Além de João Batista praticamente “empurrar” alguns de seus discípulos para Jesus, algo mais impressionante é a declaração feita por ele no capítulo III.

    Depois disso Jesus foi com os seus discípulos para a terra da Judeia, onde passou algum tempo com eles e batizava. João também estava batizando em Enom, perto de Salim, porque havia ali muitas águas, e o povo vinha para ser batizado.

    ( Isto se deu antes de João ser preso. )

    Surgiu uma discussão entre alguns discípulos de João e um certo judeu, a respeito da purificação cerimonial. Eles se dirigiram a João e lhe disseram: “Mestre, aquele homem que estava contigo no outro lado do Jordão, do qual testemunhaste, está batizando, e todos estão se dirigindo a ele”.

    A isso João respondeu:

    “Uma pessoa só pode receber o que lhe é dado do céu. Vocês mesmos são testemunhas de que eu disse: Eu não sou o Cristo, mas sou aquele que foi enviado adiante dele. A noiva pertence ao noivo. O amigo que presta serviço ao noivo e que o atende e o ouve, enche-se de alegria quando ouve a voz do noivo. Esta é a minha alegria, que agora se completa. É necessário que ele cresça e que eu diminua. Aquele que vem do alto está acima de todos; aquele que é da terra pertence à terra e fala como quem é da terra. Aquele que vem do céu está acima de todos. Ele testifica o que tem visto e ouvido, mas ninguém aceita o seu testemunho. Aquele que o aceita confirma que Deus é verdadeiro. Pois aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus, porque ele dá o Espírito sem limitações. O Pai ama o Filho e entregou tudo em suas mãos. Quem crê no Filho tem a vida eterna; já quem rejeita o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele”.

    Jo 3:22-36

    Ou seja, João Batista decretara o fim de seu próprio movimento. Pode haver tanto de mito como verdade nessas passagens. A verdade estaria na maior facilidade de Jesus em angariar seguidores, mesmo tendo sido um retardatário. A chave pode estar na diferença de postura de cada um em relação ao mundo:

    Pois veio João, que jejua e não bebe vinho, e dizem: “Ele tem demônio”.
    Veio o Filho do homem comendo e bebendo, e dizem: “Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e ‘pecadores “. Mas a sabedoria é comprovada pelas obras que a acompanham.
    Q (Mt 11:18,9; Lc 7:33-6).

    Enquanto João praticava uma espécie de ascetismo, Jesus ia em busca do mundo. Qualquer comparação com as diferenças de eficiência entre o marketing da Igreja Católica e o das seitas evangélicas, na história recente do Brasil, não será mera coincidência. O erro, entretanto, está em achar que João simplesmente abandonaria sua pregação em prol de outra com mensagem similar, mas métodos bem distintos dos seus. Se assim o fosse, haveria de se esperar um total desaparecimento dos discípulos de João após a morte do Mestre, absorvidos pelo cristianismo. Não foi o que aconteceu.

    Em primeiro lugar, houve um movimento missionário entre os discípulos de João após sua morte. O próprio livro de Atos registra dois episódios de encontros entre eles e os apóstolos cristãos:

    E chegou a Éfeso um certo judeu chamado Apolo, natural de Alexandria, homem eloquente e poderoso nas Escrituras. Este era instruído no caminho do Senhor e, fervoroso de espírito, falava e ensinava diligentemente as coisas do Senhor, conhecendo somente o batismo de João. Ele começou a falar ousadamente na sinagoga; e, quando o ouviram Priscila e Aquila, o levaram consigo e lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus. Querendo ele passar à Acaia, o animaram os irmãos, e escreveram aos discípulos que o recebessem; o qual, tendo chegado, aproveitou muito aos que pela graça criam. Porque com grande veemência, convencia publicamente os judeus, mostrando pelas Escrituras que Jesus era o Cristo.

    At 18:24-28

    E sucedeu que, enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo, tendo passado por todas as regiões superiores, chegou a Éfeso; e achando ali alguns discípulos,
    Disse-lhes: Recebestes vós já o Espírito Santo quando crestes? E eles disseram-lhe: Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo.
    Perguntou-lhes, então: Em que sois batizados então? E eles disseram: No batismo de João.
    Mas Paulo disse: Certamente João batizou com o batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse no que após ele havia de vir, isto é, em Jesus Cristo. E os que ouviram foram batizados em nome do Senhor Jesus. E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas, e profetizavam. E estes eram, ao todo, uns doze homens.

    Atos 19:1-7

    Como material voltado ao público cristão, Atos sugere a conversão ao cristianismo como um passo natural aos discípulos de João Batista, embora não tenha isso sido regra. Em um documento de meados do século IV – Reconhecimentos Clementinos – um escritor ortodoxo descreve um suposto confronto entre os primeiros apóstolos e um discípulo do Batista:

    E eis que um dos discípulo de João afirmou que João era o Cristo e não Jesus, visto que o próprio Jesus declarou que João era maior que todos os homens e todos os profetas.

    – Se, então, – disse – ele for maior que todos, deve ser considerado maior que Moisés e que o próprio Jesus. Mas se for o maior de todos, então deve ser o Cristo.

    Respondendo a isso, Simão, o Caanita, afirmou que João era, de fato, maior que todos os profetas e que todos os nascidos de mulher, embora não fosse maior que o Filho do homem. Portanto, Jesus é, também, o Cristo, enquanto João é apenas um profeta: e há tanta diferença entre ele e Jesus como entre o precursor e aquele de quem precursor ele é, ou entre o que dá a lei e o que guarda a lei. Tendo feito essas e similares declarações, o Caanita ficou em silêncio. Depois dele, Barnabé, que também é chamado Matias, que substituíra Judas como apóstolo [At 1:23-6], começou a exortar o povo de que não deveriam encarar Jesus com ódio, nem lhe maldizer. Afinal, seria bem mais adequado, mesmo aos que pudessem estar em ignorância ou em dúvida quanto a Jesus, amá-lo do que odiá-lo. Afinal, Deus afixou uma recompensa para o amor e uma penalidade para o ódio.

    – Pois dado o fato – disse – de que ele assumiu um corpo judeu e nasceu entre os judeus, como isso não nos incitou todos a amá-lo?

    Quando falara isso e mais para o mesmo efeito, parou.

    Livro I, Cap. LX

    Por último, vale a pena lembrar que ainda existem descendentes (indiretos, talvez) do antigo círculo de discípulos do Imersor. Tratam-se dos mandeus, uma minoria étnica estabelecida ao sul do atual Iraque e que toma João Batista como principal profeta, rejeitando Jesus (assim como, curiosamente, Moisés e Abraão). A origem deles é incerta, sendo uma das hipóteses a junção de um grupo de antigos batistas com algum gnosticismo judeu. Incerto, também,é seu destino com as atuais convulsões políticas do Iraque pós Saddam Hussein (cf. [Pereira]).

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    O Evangelho João: o Fim dos Imortais

    Evangelho de João

    Se o quarto evangelho é tido como “um estranho entre os canônicos”, sua versão do Batista não é menos díspare que a dos sinópticos:

    João testificou dele, e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu. E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça. Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.

    E este é o testemunho de João, quando os judeus mandaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para que lhe perguntassem: Quem és tu?
    E confessou, e não negou; confessou: Eu não sou o Cristo.
    E perguntaram-lhe: Então quê? És tu Elias? E disse: Não sou. És tu profeta? E respondeu: Não.
    Disseram-lhe pois: Quem és? para que demos resposta àqueles que nos enviaram; que dizes de ti mesmo?
    Disse: Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías.
    E os que tinham sido enviados eram dos fariseus.
    E perguntaram-lhe, e disseram-lhe: Por que batizas, pois, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?
    João respondeu-lhes, dizendo: Eu batizo com água; mas no meio devós está um a quem vós não conheceis. Este é aquele que vem após mim, que é antes de mim, do qual eu não sou digno de desatar a correia da alparca.

    Estas coisas aconteceram em Betabara, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando.
    João 1:15-28

    Esse extrato contém as duas únicas vezes em que o nome de Elias é mencionado nesse evangelho. Em nenhum outro trecho cogita-se identificar João Batista com ele, muito menos Jesus tenta lhe relacioná-lo. O batismo de Jesus é comentado de forma indireta em Jo 1:32-4 e o cárcere de João é apenas citado em Jo 3:24, sem menção à execução. O seu perfil muda bastante, como mostram as já transcritas passagens de Jo 1:29-42 e Jo 3:22-36, com um João Batista altamente cristianizado e chegando ao cúmulo de ordenar que seus discípulos o deserdem em prol de Jesus. A expressão “Cordeiro de Deus” (cf. Is 53) foi posta na boca de João, visto que reflete um desenvolvimento teológico posterior, quando o martírio de Jesus ganhou tão ou mais relevância que os princípios éticos e morais de sua pregação, algo condizente com a redação mais tardia desse evangelho. O mais discrepante, porém, é que, para este evangelista, seu xará não era Elias.

    Isso também é reflexo da redação mais tardia do quarto evangelho. Um padrão observado, conforme se avança na estimativa da data do autrógrafo de cada evagelho, é uma progressiva perda do teor apocalípitico da mensagem da “boa nova”:

    • Em Marcos, durante o julgamento de Jesus perante o Sinédrio, o réu declara para o sumo sacerdore: “Eu o [o Cristo], e vereis o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu” (Mc 14:62). Mensagem parecida se encontra em Mt 26:64;
    • Lucas muda essa passagem de Marcos de forma curisosa “Desde agora o Filho do homem se assentará à direita do poder de Deus.” (Lc 22:69), ou seja, não é mais dito que o sumo sacertode chegaria a ver o fim daquela era. Ele deveria ter morrido;
    • Em João (cap. 18), Jesus nada fala sobre a vinda do Filho do Homem perante o sumo sacerdote. No mesmo capítulo (v. 36), Jesus informa que seu reino “não é deste mundo“.
    • Na terceira logia do evangelho gnóstico de Tomé, Jesus informa que o Reino já estaria presente, mas os não iniciados não o reconheceriam:” (…) Mas o reino está dentro de vós e está fora de vós. Se vos reconhecerdes, então sereis reconhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. (…)

    Ou seja, conforme se avança na data de redação de um evangelho, o advento do Reino de Deus progressivamente mais afastado, até praticamente inexistir (pois já estaria aqui) em Tomé. O evangelho de João, datado entre o final do primeiro século e começo do segundo, situa-se num período que deve ter sido crítico para as lideranças cristãs, quando a geração que conheceu Jesus já havia perecido sem conhecer a instauração do Reino de Deus na Terra. Com o “grande e terrível dia do Senhor” tardando em vir e João Batista morto há décadas, a associação entre ele e Elias se tornou problemática. As perguntas feitas pelos sacerdotes e levitas em Jo 1:21 deviam ser as mesmas que muitos fieis se faziam. Desvinculá-los e deixar o Reino para depois foram duas mudanças teológicas necessárias para os novos tempos, quando a função de João não era mais preparar o terreno, mas, sim, “dar testemunho“.

    Outra mudança, contudo, não teve a ver com a simples passagem do tempo, mas com as próprias experiências da comunidade joanina. Expulsa da sinagoga e, em seguida, praticamente se definindo em oposição a ela (cf. Jo 8:31-59), ela rejeitou boa parte de seu legado judaico em prol daquele que fora o motivo de suas desavenças com seus antigos companheiros: Jesus. Para os membros dessa comunidade, o filho de Maria não era apenas o Messias, e sim algo muito maior:

    Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu.

    Jo 3:13

    Agora, leiamos o Prólogo desse evangelho:

    No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. (…)
    Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

    Jo 1:1-5,9-14

    Comparando-se as duas passagens, fica claro que o “Filho do Homem” não é mais uma expressão usada para designar um figura escatológica, como em algumas passagens dos sinópticos, mas um circunlóquio para o próprio Jesus. Ele, também sendo o Verbo de Deus encarnado, não admitia rivais em autoridade nem, como ser coeterno com Pai, um precursor. Isso gera conflitos com as supras mencionadas tradições judaicas de mortais ascendendo ao céu sem conhecer a morte – dentre eles Elias – e vinda de anunciadores. Como o assunto principal desse evangelho é o próprio Jesus – sua natureza e relação com Pai -, em vez da preparação para a chegada do Reino de Deus exposta nos sinópticos, isso não chega a ser um problema sério para João Evangelista, como o seria para o judaizante Mateus. Comentaristas ortodoxos deram (e dão) variadas harmonizações – como propor subdivisões celestes, deixando a última e mais refinada para Jesus -, entretanto nenhum desafio se compara a explicar como ser e ao mesmo tempo não ser Elias.

    Nomes famosos se debruçaram sobre a questão.

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    Respostas da Ortodoxia Cristã

    Foto de I Co 13 em grego

    Limitando-se apenas ao canônicos, tem-se um panorama conflituoso quanto à relação entre João Batista e Elias:

    • Mateus e Lucas identificam diretamente os dois, não dando nenhuma origem a João. Possivelmente o Fineias/Elias imortal sob mais um nome;
    • Lucas dá a João uma origem próxima a seus contemporâneos, não podendo mais relacioná-lo à tradição de Fineias/Elias. João passa a fazer uma papel simbólico de Elias;
    • João evangelista nega que o Batista seja Elias.

    Então, há forte uma discrepância que precisaria ser sanada por quem quisesse usar os quatro evangelhos simultaneamente. A proto-ortodoxia cristã, como credo de compromisso entre diversas correntes cristãs que emergiram no começo do século II, aceitou esse desafio e criou curiosas harmonizações. Trago três dessas propostas feitas por membros da patrística, sendo dois deles especiais: um ainda é muito querido pelos espiritualistas mais desavisados e o outro – dizem – fazia parte da falange do Espírito da Verdade. Dado o desafio que encontraram, pode-se dizer que até se saíram bem.

    Orígenes


    Ainda tido erroneamente como adepto da reencarnação nos moldes do espiritualismo moderno, o sábio alexandrino é capaz de surpreender esses incautos:

    Nosso primeiro erudito, cuja visão da transcorporação vimos ser baseada em nossa passagem, pode prosseguir com um exame mais detalhado do texto e argumentar contra seu antagonista que se João foi o filho de um homem como o sacerdote Zacarias e se nasceu quando seu pais já eram ambos idosos, contrariando todas as expectativas humanas, não é provável que tanto judeus em Jerusalém o desconhecessem, ou os sacerdotes e levitas por eles enviados não estariam a par dos fatos de seu nascimento. Não declara Lucas que “o temor veio sobre todos os que viviam por perto” (Lc 1:65), – claramente nas proximidades ao redor de Zacarias e Isabel – e que “todas essas coisas foram divulgadas por toda terra montanhosa da Judeia?” E se o nascimento de João a partir de Zacarias foi matéria de comum conhecimento e os judeus de Jerusalém já enviaram sacerdotes e levitas para perguntar, “És tu Elias?” então está claro em dizer que eles consideravam a doutrina da transcorporação com verdadeira e que ela era uma doutrina corrente de seu país, e não estranha aos seus ensinos secretos. João, portanto, diz, “Eu não sou Elias“, porque não sabe sobre sua vida prévia. Estes pensadores, assim, cogitam uma opinião que não deve de forma alguma ser desprezada. Nosso membro da Igreja, contudo, pode replicar à alegação e perguntar se é digno de um profeta, que é iluminado pelo Espírito Santo, que foi previsto por Isaías, e cujo nascimento por pressagiado antes que sucedesse por tão grande anjo, que recebeu da plenitude de Cristo, que partilha de tal graça, que sabe que a verdade vem por meio de Jesus Cristo e ensinou coisas tão profundas a respeito de Deus e do unigênito, que está no seio do Pai, é digno de tal indivíduo mentir ou mesmo hesitar, em razão da ignorância do que era. Pois com relação ao que estava obscuro, ele deveria ter se abstido de confessar, e não ter nem afirmado, nem negado a proposição que foi posta. Se a doutrina [da transcorporação] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias? E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença. Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento.

    Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

    É curioso que o próprio Orígenes assinale a inexistência da reencarnação entre os judeus contemporâneos seus, ao menos os que viviam no Egito e Palestina romanos, com os quais conviveu. E mais adiante:

    Entretanto, um membro da Igreja, que rejeita a doutrina da transcorporação como falsa e não admite que a alma de João fosse a de Elias, pode se referir às palavras do anjo supra-citadas e assinalar que não é a alma de Elias que é dita ao nascimento de João, mas o espírito e poder (…)[τω προειρημενω λογω του αγγελου χρησεται ψυχην Ἠλιου μη ονομασαντος επι της Ἰωαννου γενεσεως αλλα πνευμα και δυναμιν].

    Quanto aos espíritos dos profetas, estes são dados por Deus e são considerados como sendo, de certo modo, propriedades deles, como “Os espíritos dos profetas estão submissos aos profetas” (I Cor 14:32) e “o Espírito de Elias repousou sobre Eliseu” (2 Reis 2:15). Assim, diz-se, não há nada de absurdo supor que João, “no espírito e poder de Elias“, voltou o coração dos pais para os filhos e foi por causa deste espírito que foi chamado de “o Elias que deve vir”.

    Idem. Texto grego de Migne, Patrologia Graeca, XIV, cols 219-220

    Ao contrário do alguns alegam, o Comentário sobre João não está em contradição com as teses dele apresentadas em De Principiis, pelo contrário: Orígenes até defendeu, sim, a possibilidade de múltiplas existências corporais em Eras distintas, cada qual com sua própria criação e juízo final, mas haveria uma única existência física por Era! E pior: Orígenes não esteve sozinho nas distorções que a patrística sofreu nas mãos de escritores espiritualistas. Outra “vítima” famosa foi…

    Agostinho de Hipona

    Então o viram humilde e não o reconheceram. Mostrava-se a eles por meio de uma candeia [cf. Jo 5:35]. Pois em primeiro lugar ele, a quem ninguém superava entre os nascido de mulher, disse: “Não sou o Cristo“. E lhe disseram: “És tu Elias?“. Respondeu ele: “Não sou“. Já que Cristo enviou Elias antes dEle, e João disse “não sou“, e criou um problema para nós. Visto que é de se temer que os de pouco entendimento pensem que João contradisse o que Cristo falou. Pois em certo lugar, quando o Senhor Jesus Cristo disse algo no Evangelho sobre Si Mesmo, os discípulos Lhe responderam: “Como, então, dizem os escribas” – i.e, os peritos na lei – “que Elias deve vir primeiro?” E o Senhor disse: “Elias já veio e fizeram com ele o que quiseram“; e, se quereis saber, ele é Elias. O Senhor Jesus Cristo disse: “Elias já veio, e João Batista” é ele; mas João, sendo interrogado, confessou que ele não era Elias, do mesmo que confessou que não era Cristo. E como sua confissão de não ser Cristo era verdadeira, assim foi sua confissão de não ser Elias. Como, então, compararemos as palavras do mensageiro com as do Juiz? Longe de pensar que o mensageiro minta; visto que o que ouve do Juiz. Por que será, então, que aquele disse “não sou Elias” e o Senhor: “ele é Elias”? Porque o Senhor Jesus Cristo desejou prefigurar nele Seu próprio advento e assim dizer que João estava no espírito de Elias
    [quia in spiritu Eliae erat Ioannes]. E o que João foi para o primeiro advento, tal será Elias para o segundo advento. Como há dois adventos do Juiz, assim há dois mensageiros. De fato, o Juiz era ele mesmo, mas dois são os mensageiros, não dois juízes. Era mister que na primeiro vinda o Juiz fosse julgado. Enviou antes dEle seu primeiro mensageiro; chamou o de Elias, porque Elias será no segundo advento o que foi João no primeiro.

    Tratado Sobre o Evangelho de João, IV, 5.

    E o raciocínio de Agostinho talvez não seja original dele, pois, dois séculos e meio antes, alguém pensou algo parecido.

    Justino

    Justino, o Mártir, (100 – 165 d.C.) tido erroneamente por autores espiritualistas como crente na reencarnação, deixou o que talvez seja o relato mais antigo da opinião ortodoxa cristã a respeito do relacionamento Elias-João-Jesus.

    Trifão replicou:
    – Parece-me que os que afirmam que Jesus foi apenas homem e que por eleição foi ungido e tornado Cristo dizem coisas mais críveis do que vós, ao dizer o que dizes (*). Todos nós, com efeito, esperamos o Cristo, que nascerá como homem, de homens, e a quem Elias virá ungir. E este se apresenta como o Cristo, deve-se pensar absolutamente que é homem, nascido de homens. Contudo, pelo fato de Elias não ter vindo, afirmo que esse não é o Cristo.
    Eu então perguntei-lhe novamente:
    – A palavra de Deus, por meio de Zacarias, não diz que Elias virá antes do grande e terrível dia do Senhor?
    Ele me respondeu:
    – Certamente.
    Eu continuei:
    – Portanto, a palavra de Deus leva-nos a admitir que foram profetizadas duas vindas: uma, em que havia de aparecer passível, desonrado e disforme; outra, em que viria glorioso e como um juiz universal, como se demonstra pelos muitos testemunhos já alegados. Isso não nos leva a entender que a palavra de Deus anunciou que Elias seria precursor de Cristo na segunda vinda, isto é, do dia temível e grande?
    Ele me respondeu:
    – Certamente.
    Eu continuei:
    – Isso também nosso Senhor nos deixou em seus ensinamentos, quando disse que Elias devia vir, e nós sabemos que isso acontecerá quando nosso Senhor Jesus Cristo voltar do céu com glória. Na sua manifestação, o Espírito de Deus o precedeu como arauto, que esteve em Elias, também esteve em João, profeta do vosso povo, depois do qual nenhum outro profeta tornou a aparecer entre vós. Sentado junto ao rio Jordão, João gritava: “Eu vos batizo com água para a penitência; mas virá outro mais forte que eu, cujas sandálias não mereço carregar. Ele vos batizará com Espírito Santo e com fogo. Sua pá já está em sua mão, e ele limpa a sua eira, e reunirá o trigo no celeiro e queimará a palha com fogo inextinguível [Mt 3:11,2; Lc 3:16]”.
    Vosso rei Herodes mandou prender no cárcere esse mesmo profeta e, durante a festa do seu aniversário, uma sobrinha sua o agradou muito com sua dança, ele falou que ela lhe pedisse o que desejasse. A mãe da jovem lhe sugeriu que pedisse a cabeça de João, que estava no cárcere; ela fez o pedido, e o rei mandou um carrasco e deu ordem que trouxesse a cabeça do profeta sobre uma bandeja. Foi por isso que o nosso Cristo, estando ainda sobre a terra, ao lhe dizerem alguns que antes do Cristo deveria vir Elias, respondeu: “Sim, Elias virá e restabelecerá tudo, mas eu vos asseguro que Elias já veio e não o reconheceram, mas fizeram com ele o que quiseram“. E está escrito que “então seus discípulos perceberam que ele havia falado de João Batista [Mt 17:11-3]”.
    Trifão retrucou:
    – Também me parece absurdo o fato de que digas que o Espírito profético de Deus, que esteve com Elias, também esteve com João.
    Eu lhe respondi:
    – Não te parece que o mesmo aconteceu com Josué, filho de Nave, que sucedeu a Moisés na direção do povo? Deus mandou que Moisés lhe impusesse as mão, dizendo: “Transferirei sobre ele parte do Espírito que há em ti [Nm 11:17]”.
    – Certamente.
    Eu continuei:
    – Portanto, da mesma forma que, estando Moisés ainda entre os homens, Deus transferiu sobre Josué parte do Espírito que nele estava, assim também pode fazer que Elias o Espírito passasse para João. Assim como a primeira vinda de Cristo foi sem glória, também a primeira vinda do Espírito, apesar de permanecer sempre puro em Elias, foi sem glória, como a de Cristo. Com efeito, dizem que o Senhor guerreava contra Amalec com mão oculta. Entretanto, não podes negar que Amalec caiu. Se apenas com a vinda gloriosa de Cristo se dissesse que Amalec deveria ser combatido, que sentido teria a Escritura que diz: “Deus guerreia contra Amalec com mão oculta? [Ex 17:8-16]”. Portanto, podeis compreender que o Cristo crucificado teve alguma força oculta de Deus, pois diante dele os demônios e todos os principados e potestades da terra estremecem.

    Diálogo com Trifão, cap. XLIX

    (*) Justino comentara, ao final do capítulo precedente, a existência de uma cristologia adocionista – Jesus se tornara Filho de Deus por ocasião do batismo, com a descida do Espírito Santo sobre ele – entre os judeus-cristãos. Justino, por sua vez, parece já professar uma alta cristologia (Jesus, de alguma forma, como Deus).

    * * *

    Se você partilha da fé desses pais da Igreja, então os argumentos estão até elegantes e bem estruturados. Do contrário, pouco pode ser feito e inúmeras explicações alternativas podem surgir, como todo sistema lógico é recriado após uma mudança em seu conjunto de premissas.

    O que chama atenção nesses dois extratos é que contêm muitos dos argumentos ainda utilizados no cristianismo tradicional. De certa forma, tudo já foi dito há pelo menos 1800 anos. E as querelas continuam.

    [topo]

    Mestre e Discípulo: Unidos pela Fé

    Jesus: A Maior História de Todos os Tempos

    Jesus (1999), de Roger Young. Na telinha, um Jesus tão humano quanto nós e ao mesmo tempo tão encantadoramente divino.

    O Jesus Histórico, mantendo-se o olhar como profeta apocalíptico, e, com certeza, as primeiras comunidades cristãs advogavam a instauração do Reino de Deus na Terra pela chegada poderoso juiz escatológico chamado o Filho do Homem, mencionado acima. Contam-nos isso as mais antigas fontes sobre a pessoa de Jesus, a saber: Marcos, Q, L (o material exclusivo de Lucas) e M (o material exclusivo de Mateus):

    Porquanto, qualquer que, entre esta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos. Dizia-lhes também: Em verdade vos digo que, dos que aqui estão, alguns há que não provarão a morte sem que vejam chegado o reino de Deus com poder.

    Mc 8:38-9:1

    Ora, naqueles dias, depois daquela aflição, o sol se escurecerá, e a lua não dará a sua luz. E as estrelas cairão do céu, e as forças que estão nos céus serão abaladas. E então verão vir o Filho do homem nas nuvens, com grande poder e glória. E ele enviará os seus anjos, e ajuntará os seus escolhidos, desde os quatro ventos, da extremidade da terra até a extremidade do céu. (…)Na verdade vos digo que não passará esta geração, sem que todas estas coisas aconteçam.

    Mc 13:24-27, 30

    Porque, como o relâmpago ilumina desde uma extremidade inferior do céu até à outra extremidade, assim será também o Filho do homem no seu dia. (…)E, como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do homem. Comiam, bebiam, casavam, e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio, e os consumiu a todos. (…) Assim será no dia em que o Filho do homem se há de manifestar.

    Q (Lc 17:24,26-7, 30)

    Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem. (…)E, como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do homem. Porquanto, assim como, nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do homem.

    Q, mesma passagem anterior, porém extraída de (Mt 24:27, 37-9)

    Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniquidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
    M (Mt 13:40-43)

    E olhai por vós, não aconteça que os vossos corações se carreguem de glutonaria, de embriaguez, e dos cuidados da vida, e venha sobre vós de improviso aquele dia. Porque virá como um laço sobre todos os que habitam na face de toda a terra. Vigiai, pois, em todo o tempo, orando, para que sejais havidos por dignos de evitar todas estas coisas que hão de acontecer, e de estar em pé diante do Filho do homem.
    L (Lc 21:34-36)

    A pregação escatológica de Jesus ou, pelo menos, das primeiras comunidades cristãs, remete à profecia de Daniel, quanto à chegada do Filho do Homem. Isso não difere de outros exemplares da literatura intertestamentária, como o supracitado I Enoque. O pormenor dos evangelhos é que neles encontra-se, também, uma identificação entre Jesus e o Filho do Homem: em certas passagens Jesus aparenta estar falando a seus ouvintes de uma terceira pessoa, noutras “Filho do Homem” é usado como um circunlóquio para ele mesmo. Afinal, o Jesus Histórico se via ou não como o esperado Juiz Escatológico?

    A resposta pode estar nos próprio evangelhos, se repararmos as mudanças de redação que certas passagens sofreram ao longo do tempo. Por exemplo, em Mc 8:27, no mais antigo dos sinópticos, Jesus indaga: “Quem dizem os homens que eu sou?“, uma expressão que se repete de forma similar em Lc 9:18: “Quem diz a multidão que eu sou?“, entretanto em Mt 16:13 aparece “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?“. Lucas e Mateus absorveram essa passagem de Marcos, tanto que as respostas que os discípulos dão são as mesmas, porém Mateus trocou eu por Filho do homem. De forma análoga, em Mc 8:38 lê-se “qualquer que (…) se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele“, leitura acompanhada em Lc 9:26, ao passo que em Mt 10:33 está “qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus.“, não necessitando mais Jesus do intermédio do Filho do Homem. Na passagem de Q reconstituída acima com (Lc 17:24,26-7, 30)/(Mt 24:27, 37-9), foi excluído o versículo Lc 17:25 “mas primeiro convém que ele [o Filho do Homem] padeça muito, e seja reprovado por esta geração“, uma associação direta entre Jesus e o Filho do Homem que está ausente no capítulo XXIV de Mateus. Ou seja, houve uma tendência entre as comunidades cristãs a identificar Jesus com o Filho do Homem, especialmente por ocasião de sua esperada segunda vinda, conforme o tempo avançou. O Jesus Histórico, portanto, não se via como o Filho do Homem, mas anunciava sua vinda.

    No caso de João Batista, segundo os sinópticos, ele teria pregado explicitamente a vinda de outro mais poderoso que ele:

    Mc 1:7,8 E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas alparcas. Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.
    Mt 3:11,12
    (Cf. Lc 3:16,17)
    E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo.
    Em sua mão tem a pá, e limpará a sua eira, e recolherá no celeiro o seu trigo, e queimará a palha com fogo que nunca se apagará.

    As fontes M e Q apresentam uma justaposição aqui, com um acréscimo na parte final de Q unida à anterior pelas palavras “e com fogo“. Alguns podem ver nisso uma alusão à descida do Espírito Santo em línguas de fogo no dia de Pentecostes (At 2:1-5), mas há um pormenor crucial aqui: a imersão no fogo é uma forma de castigo. A literatura apocalíptica do século registra algo assim:

    1. Depois de sete dias eu tive um sonho durante a noite;
    2 e eis que um vento surgiu do mar e despertou todas as suas ondas.
    3. E olhei, e eis que esse vento fez algo parecido com a figura de um homem vir do coração do mar. E olhei, e eis que o homem voou com as nuvens do céu, e onde quer que ele virasse o rosto para olhar, tudo sob o olhar tremia,
    4. e sempre que a voz era emitida de sua boca, todos os que ouviram a voz dele derreteram como cera derrete quando sente o fogo.
    5. Depois destas coisas olhei, e eis que uma multidão inumerável de homens estava reunida desde os quatro ventos do céu para fazer a guerra contra o homem que veio do mar.
    6. E olhei, e eis que ele esculpiu para si próprio uma grande montanha, e voou em cima dela.
    7. E eu tentei ver a região ou local em que a montanha foi esculpida, mas não consegui.
    8. Depois destas coisas olhei, e eis que todos os que estavam reunidos contra ele, para travar a guerra com ele, estavam com muito medo, ainda se atreveram a lutar.
    9. E eis que, quando viu a investida da multidão se aproximando, ele não levantou a mão nem empunhava uma lança ou qualquer arma de guerra;
    10. mas eu só vi como ele lançou de sua boca algo como se fosse um rio de fogo, e de seus lábios um hálito flamejante, e de sua língua, ele lançava uma tempestade de faíscas.
    11. Todos esses foram misturados juntos, o fluxo de fogo e do hálito flamejante e a grande tempestade, e caíram sobre a multidão crescente que estava preparada para lutar, e queimaram-nos todos, de modo que de repente, nada foi visto da multidão inumerável mas apenas a poeira de cinzas e o cheiro de fumaça. Quando eu o vi, fiquei espantado.
    (…)
    21. “Eu vou dizer-lhe a interpretação da visão, e também vou explicar-lhe as coisas que você mencionou.”
    (…)
    35. Mas ele deve estar no topo do Monte Sião.
    36. E Sião virá e se manifestará a todas as pessoas, preparada e construída, como você viu a montanha esculpida sem mãos.
    37. E ele, meu filho, vai reprovar as nações reunidos para a sua impiedade (isto foi simbolizado pela tempestade),
    38. e irá repreendê-las para o seu rosto com os seus maus pensamentos e os tormentos com que estão a ser torturado (que eram simbolizados pelas chamas), e vai destruí-los sem esforço pela lei (que foi simbolizado pelo fogo) .

    4 Esdras, cap. XIII

    Com um pouco de conhecimento da lei mosaica, sabe-se que ela não é nem um pouco clemente com os que andam fora dela. Não é para se tomar João como um crente em alguma versão das visões de 4 Esdras, mas tanto ele como o anônimo autor desse livro anunciavam a vinda de um poderoso juiz escatológico, uma ideia que remonta a Daniel. Tal como fazia Jesus, que herdara essa mensagem de seu mestre. Como o nazareno se tornou o Filho do Homem após a crucifixão é que é outra história…

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    Mestre e Discípulo: Separados pelo Ministério

    Banque de Levi

    O Banquete de Levi, de Paolo Veronese (1573)

    Nos sinópticos, após a execução de João Batista, somos apresentados à história da reação de Herodes Antipas aos primeiros rumores sobre Jesus em sua corte:

    E ouviu isto o rei Herodes (porque o nome de Jesus se tornara notório), e disse: João, o que batizava, ressuscitou dentre os mortos, e por isso estas maravilhas operam nele. Outros diziam: É Elias. E diziam outros: É um profeta, ou como um dos profetas. Herodes, porém, ouvindo isto, disse: Este é João, que mandei degolar; ressuscitou dentre os mortos.

    Mc 6:14-16 (Cf. Mt 14:1-2; Lc 9:7-9).

    O fato de Jesus chegar a ser confundido pelo povo com João Batista (cf. Mc 8:27-8) sugere que ao menos em linhas gerais suas práticas (como o batismo) e pregação deveriam se assemelhar às dele. Contudo, algumas diferenças começaram a saltar aos olhos de quem o acompanhou de mais perto:

    Ora, os discípulos de João e os fariseus jejuavam; e foram e disseram-lhe: Por que jejuam os discípulos de João e os dos fariseus, e não jejuam os teus discípulos?
    E Jesus disse-lhes: Podem porventura os filhos das bodas jejuar enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar;
    Mas dias virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão naqueles dias.

    Mc 2:18-20 (cf. Mt 9:14-5; Lc 5:33-5)

    O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.
    O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!

    L (Lc 18:11-13)

    Pois veio João, que jejua e não bebe vinho, e dizem: “Ele tem demônio”.
    Veio o Filho do homem comendo e bebendo, e dizem: “Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores “. Mas a sabedoria é comprovada pelas obras que a acompanham.
    Q (Mt 11:18,9; Lc 7:33-6).

    João e os fariseus praticavam uma espécie de purgação espiritual por meio do jejum. Teria sido essa prática abandonada por Jesus ou pelos primeiros cristãos? Bem, condenada não foi, pois até mesmo no Sermão da Montanha ele não se opõe ao jejum, mas a regula como deveria ser:

    Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuardes, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

    Mt.6:16-18

    O que ocorreu foi uma mudança foco: não era necessário que alguém se arrependesse para daí ser aceito no círculo de Jesus. Em vez de ser um mero “profeta ameaçador”, Jesus ia até “os pecadores” e se envolvia com eles, em vez de esperar que fossem atrás da “boa nova” por conta própria. Outro motivo seria que Jesus realmente gostava de comemorar a chegada do Reino:

    “O tempo é chegado”, dizia ele. “O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas!” Mc 1:15, Mt 4:17

    João também cria na iminência do Reino, mas há uma sutil diferença em relação a Jesus: enquanto o mestre acreditava numa intervenção unilateral divina para muito em breve, seu discípulo já defendia uma antecipação do Reino valendo já para seus ouvintes e até por meio deles. Só haveria amor no Reino de Deus, então as pessoas deveriam se amar desde já; não haveria miséria, então todos já partilhariam os bens com os necessitados; como o Mal seria derrotado, que os demônios já fossem expulsos; não haveria doença, que as pessoas fossem curadas desde já; e, por fim, não haveria mortes, o que seria evidenciado pela ressurreição de alguns.

    Óbvio que exorcismos, curas, ressurreições e outros prodígios estão no domínio da fé e nem há como avaliar sua veracidade, mas atestam como Jesus era visto pelos seus seguidores: um emérito produtor de sinais, coisa que, aparentemente, João Batista nunca foi e os seguidores de Jesus aproveitavam isso para cutucar os de Elias (cf. Q – Mt 11:4,5 e Lc 7:21,2). É um traço que distingue o mestre de Elias – que também foi milagreiro, porém em grau bem mais modesto – e que contribuiu para o discípulo ser confundido com o tisbita.

    Infelizmente para ambos, o Reino de Deus não veio. O “noivo” foi tomado dos seguidores de Jesus e eles voltaram a jejuar (8).

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    De Mestre a Precursor, de Discípulo a Messias

    Jesus, ladeado por Maria e João Batista

    Jesus reinando no Céu, ladeado por Maria e João Batista: detalhe de mosaico da fachada da Basílica de S. Marcos, em Veneza.

    Mal comparando, se tanto o Jesus Histórico, quanto o João Batista Histórico fossem quebra-cabeças de 1000 peças, eu diria que do primeiro restariam 100 e do último apenas 10. Desses valores, claro, foram expurgadas peças alienígenas inseridas pelas primeiras comunidades cristãs, que queriam deixá-los mais próximos do que lhes convinha. Quanto à imagem do retrato de cada um constante na embalagem, que nos ajudaria a remontá-los, restam as bordas: o contexto social do judaísmo do primeiro século. Fazendo um balanço desse material, o que pode ser dito, com alguma certeza, a respeito do Mestre?

    Bem:

    • Existiu um pregador contemporâneo de Jesus chamado João: isso parece um truísmo, nas não o é. Diversos personagens da Bíblia, inclusive do Novo Testamento, tem sua historicidade posta em dúvida modernamente, como José de Arimateia. A múltipla atestação de João Batista (Marcos, Q, Josefo e, de certa forma, Tomé), o relato do Batismo de Jesus por ele (fato embaraçoso aos primeiros cristãos, mas não negado por eles) e o teor da mensagem condizente com as expectativas da época são pontos positivos para atestar sua existência concreta;

    • Era judeu: não esquecendo que era um judeu do primeiro século, quando o cânon ainda estava em aberto, havia um maior pluralismo teológico – inclusive no significava “seguir a Lei” -, além de grande expectativa escatológica. Tudo isso mudou após as revoltas fracassadas contra o domínio romano, com a dispersão do judeus, destruição do Templo e consolidação da autoridade rabínica. Daí seguiram-se quase dois mil anos de evolução em separado do judaísmo. Avaliar o judaísmo do Segundo Templo com base nos ortodoxos modernos é preciso quanto avaliar os primeiros cristãos a partir do catecismo católico de hoje;

    • Era apocalipcista: além de estar em conformidade com o espírito (e literatura) da época, suas palavras remanescentes nos sinópticos têm esse enfoque;

    • Pregava o arrependimento: consequência direta da expectativa da vinda iminente do Reino de Deus;

    • Tal arrependimento estava associado ao ritual do batismo: a ideia da água como elemento purificador ou mediador da purificação é recorrente no judaísmo, sendo encontrado na literatura hebraica clássica (Lv 15:5-27, Nm 19:19, 2 Re 5:10-15), em Qumran (1QS 3:5-9 e 5:13-14, 4Q414 e 4Q512) e até no Novo Testamento, mesmo em passagens sem relação com o Batista (Jo 5:1-9). O diferencial dele era realizar uma única e definitiva vez o ato, como uma espécie de rito de passagem. Um legado dos batistas originais ao cristianismo;

    • Teve discípulos e houve, por algum tempo, um movimento batista: diferentes fontes, canônicas e não, fazem alusão a discípulos de João interagindo com os de Jesus;

    • Pregava nos sertões da Palestina: também multiplamente atestado;

    • João batizou Jesus: como já explicado, um indivíduo com um status religioso inferior (embora ainda notável) iniciando outro com um muito superior teria sido constrangedor aos primeiros cristãos. Como não esconderam o fato (provavelmente porque seriam denunciados) e, em vez disso, o reinterpretaram, isso deve ter acontecido;

    • Jesus considerava João uma grande figura: as alusões quanto à humildade de João – Q (Mt 11:7-8, Lc 7:24-5) e Tomé 78 – e seu elogio como o “maior entre os nascidos de mulher” – Q (Mt 11:11, Lc 7:28) e Tomé 46 – , apontam nessa direção. O demérito que o exclui do Reino de Deus nessa última passagem, por sinal, aparenta ser um acréscimo dos primeiros cristãos a competir com os batistas;

    • João foi preso e executado a mando de Herodes Antipas: episódio com várias atestações distintas, a questão são os pormenores dessa execução;

    • João entrou em choque com Herodes Antipas: se fosse um mero sábio a dar conselhos morais, não havia motivo algum para sua prisão. É provável que sua crítica ao casamento com Herodias estivesse entre um de seus ataques;

    • Sua mensagem teve grande alcance: além do testemunho de Josefo, essa conclusão também deriva da própria execução de João, do contrário ele não representaria perigo.

    Ao lado dessas, existe um conjunto de afirmações prováveis a respeito de João Batista:

    • Pregava a vinda de alguém maior que ele (Mc 1:7, Lc 3:16 e Mt 3:11): Como judeu apocalipcista do primeiro século, é bem provável que anunciasse a vinda do Filho do Homem;

    • Jesus foi discípulo de João: os sinópticos mostram o batismo de Jesus como uma espécie de “investidura do cargo”, confirmada pela descida do Espírito Santo. O provável é que um operário de pouca instrução recebesse alguma iniciação de um mentor, cuja mensagem ética e profética absorveria e, em seguida, levaria a um novo patamar. Isso não significa necessariamente que tenha sido um companheiro itinerante por longo tempo, mas que, de início, aceitou as premissas do movimento;

    • Jesus teve alguma experiência visionária: o batismo marcano, a transfiguração e as tentações no deserto são as únicas narrativas evangélicas que podem ser classificadas como visões (Lc 10:18 está mais para simbolismo). Não faço juízo de valor quanto a fatualidade dessas visões, pois elas podem ser extremamente reais para quem as vivencia e serem ignoradas por todo o resto. Esse número de visões registradas é pequeno para se dizer que elas eram corriqueiras na experiência de vida do Jesus Histórico. Entretanto, o legado dos evangelhos possui um pano de fundo de curas, longas orações e um relacionamento especial com Deus e o sobrenatural (seja ele real ou não) que aumenta a probabilidade de ter havido uma experiência de “chamamento para a ação”. Só é duvidoso que esse chamado veio na forma de pomba no instante exato do batismo, para todos os presentes;

    • Jesus rompeu deliberadamente com os batistas: os sinópticos partem direto do batismo de Jesus para uma estadia no deserto e, daí, a pregação de Jesus na Galileia (região ainda intocada pela mensagem do arrependimento), Josefo nada fala do relacionamento entre Jesus e João, em Q (Mt 11:2 e Lc 7:19) só no cárcere João toma conhecimento dos feitos de Jesus e em At 13:25 fica implícito que, ao menos para a comunidade de Lucas, os dois se encontraram já pelo fim da atividade de João. Jesus não foi importante para os batistas, sendo apenas mais um entre tantos, e sua saída não deve ter sido sentida no começo, nem motivada por algum cisma traumático. Do lado de Jesus e seus seguidores, em duas fontes distintas – Q (Mt 11:11, Lc 7:28) e Tomé 46 – Jesus tece elogio elevado seguido de uma depreciação. Ainda que possa haver um viés cristão na hora de depreciar, fica claro que o movimento iniciado por Jesus se via como superior e não uma mera franquia do original. É provável que Jesus tenha trilhado seu próprio caminho após se esgotarem as possibilidades que o movimento batista tinha a oferecer. Quando isso se deu é incerto, mas um evento candidato é a prisão de João;

    • Alguns discípulos do Batista passaram a seguir Jesus: Apenas no quarto evangelho isso é dito claramente, com a escolha de André e Pedro por Jesus, que até então eram discípulos do Batista (Jo 1:40-2). Nos sinópticos, contudo, nada é dito da relação deles com o Batista quando Jesus os chama para serem “pescadores de homens” (Mc 1:17; Mt 4:18-19). Isso poder até ser harmonizado com pouco esforço especulativo, mas nada concilia o fato de que o ingresso deles no movimento de Jesus se dá antes da prisão de João Batista no quarto evangelho (Jo 3:22-4) e, no caso dos sinópticos, depois (Mc 1:14; Mt 4:12). O maior indício de que houve um afluxo de batistas para o cristianismo nascente deve estar em Lucas. Dos evangelistas, ele é o único a admitir que trabalhou com fontes prévias (Lc 1:1-4). Uma delas, cogitada pelos acadêmicos, é Marcos, que deu o fio narrativo, e outra são os ditos da hipotética “Fonte Q”. O restante é classificado genericamente como pertencente à “Fonte L” de versículos exclusivos de Lucas. Entre eles estão supostos ditos da pregação do Batista (Lc 3:10-4) que podem, sim, ter vindo discípulos dele. Não necessariamente foi, de início, uma “deserção”, mas uma sobreposição de pessoas que ouviam a mensagem tanto de um como do outro;

    • Por algum tempo, o movimento batista competiu com o de Jesus: As alfinetadas que os evangelistas dão em João – desmerecendo-o pouco após elogiá-lo e aludindo a perda de fieis -, além de relatos da literatura patrística sugerem que sim. A questão em aberto é se essa rivalidade existiu ou não ao tempo em Jesus estava vivo. É possível que o discípulo, inicialmente, apenas preenchesse o vácuo deixado pelo mestre (na Galileia, por exemplo) e passado a agir entre judeus também após a execução de João.

    Agora, gostaria de relatar uma série de hipóteses plausíveis, mas que também ostentam uma grande interrogação perante nós:

    • João tinha origem sacerdotal: embora os pormenores da filiação de João, como visto acima, aparentem ser um fabrico, seu pano de fundo, não. O primeiro capítulo de Lucas traz descrição acertada da rotina dos sacerdotes do I século da Era Comum: a existência de divisões entre os sacerdotes (1:5, 8), a oferta de incenso (1:9), o fracionamento do tempo de serviço (1:8, 21), a tendência a casamentos endogâmicos entre as famílias sacerdotais (1:5), as moradias em regiões rurais (1:39, 65). Assim, embora não tenha mais de uma atestação, está conforme o contexto social da época. Essa precisão sugere uma fonte escrita de origem judaica (lembre-se: Lucas foi escrito em grego), quiçá batista, que foi posteriormente cristianizada;

    • João Batista foi essênio por algum tempo: Uma Mensagem apocalíptica, o uso da água em purificação ritual e atitudes ascéticas no cotidiano são elementos que João possuía em comum com a seita do Mar Morto. O que não chega a ser uma prova de pertinência a essa facção, dado que podiam ser encontrados fora dela, também. Não há impeditivo para que João nascesse em família sacerdotal e, já crescido, passasse sua juventude entre os essênios, por conta própria;

    • João Batista foi tido por Elias ainda em vida, de alguma forma: O Evangelho de João é o único em que o Batista é interrogado pessoalmente quanto a sua origem (Jo 1:20-28). Embora, não seja possível aventar a historicidade desse episódio, a negativa dele pode significar uma mensagem admoestadora aos seus discípulos, tal como a ordem atribuída a João para que o abandonassem e seguissem a Jesus (Jo 1:29-42). Supondo-se que os batistas ainda tomassem João por Elias na segunda metade do primeiro século, não muito diferente deveria ser com os antigos cristãos, como fica implícito em Marcos (Mc 9:9-13) e, quiçá, Q (Mt 11:12-15), porém não da mesma forma. Em Marcos, quando Jesus indaga quem o povo pensa que ele é, as respostas são variadas: João Batista, Elias, outro profeta (Mc 8:27-9). Nenhuma dessas especulações, obviamente, estava certa e apenas seus discípulos achegados sabiam que ele era o Cristo (o que não poderiam contar, conforme o “secretismo” marcano). Ora, se a massa do povo, sem conhecimento das origens de Jesus, atribuía-lhe diversas identidades, o mesmo não poderia ter sido feito a João Batista por aqueles que não lhe fossem próximos, como Marcos e Mateus, cujos evangelhos são desprovidos de uma natividade para João? Por outro lado, quem conheceu João Batista em sua intimidade, como seus discípulos, ou baseou-se numa (possível) fonte batista, como Lucas, não o poderia fazer. Pelo menos não como um retornado Fineias/Elias. Assim os ignorantes quanto ao passado de João o consideraram um Elias retornado, ao passo que seu círculo próximo o teve como um Elias em poder e espírito. O que deixa essa hipótese em dificuldade é que isso deveria ter ocorrido antes da decapitação de João, que lhe retirou as chances de ser associado a um profeta bem sucedido entre a população. Contudo, tanto a fala atribuída a Jesus após a transfiguração em Marcos (Mc 9:9-13) quanto a natividade de Lucas dão a entender que a associação entre Elias e João Batista não era ainda de aceitação geral durante seu ministério, um indício de que foi uma construção da Igreja primitiva;

    • João Batista imitava Elias: Não é difícil encontrar paralelos feitos entre essas duas personagens:
      • Eram profetas;
      • Eram audazes (I Re 18:27/Lc 3:7);
      • Passaram parte do tempo no deserto;
      • Usavam vestes de pelo com um cinto de couro (II Re 1:8/ Mc 1:6 – Mt 3:4 );
      • Entraram em choque com casais de regentes iníquos.

      Seria possível, então, que João emulasse deliberadamente Elias para aumentar sua popularidade? Sim, seria possível. Também, claro, deveria se fazer vista grossa às diferenças. Algumas simples, como o estilo de alimentação e outras imensas, como a total ausência de milagres ou sinais atribuídos a João, ao passo que Elias teria feito vários. Ademais, Josefo identificou ao menos uma outra figura que também tinha similaridades com o Batista:

      Quando tinha eu cerca de dezesseis anos, tive a ideia de provar das diversas seitas que existiam entre nós. Havia três delas, a dos fariseus, os saduceus e a dos essências, como frequentemente lhes disse. Pensava que me familiarizando com todas elas, poderia escolher a melhor. Então me entreguei às asperezas, e me submeti a grandes dificuldades, e passei por todas elas. Nem mesmo me contentei em experimentar apenas dessas três, pois quando tomei ciência daquele cujo nome era Bano, que vivia no deserto, e não usava outra vestimenta senão o que crescia sobre as árvores, e não tinha outro alimento senão o que crescesse por conta própria, e se banhava em água fria frequentemente, tanto de dia como de noite, a fim de se purificar. Eu o imitei nessas coisas e fiquei com ele três anos.

      Flávio Josefo, Autobiografia, segundo parágrafo

      Como a maioria dos leitores deve ter reparado, João não se vestiu exatamente com “cascas e folhas de árvores”, mas sua indumentária não deve ter sido exclusiva sua:

      E acontecerá naquele dia que os profetas se envergonharão, cada um da sua visão, quando profetizarem; nem mais se vestirão de manto de pelos, para mentirem.

      Zc 13:4

      Assim, é possível que João Batista apenas seguisse as tendências comuns aos pregadores do deserto. O mais provável, contudo, é que Marcos (e, por conseguinte, Mateus) descrevesse João à semelhança de Elias propositadamente.

    • João Batista cogitou ser Jesus seu sucessor: o fato de em Q (Mt 11:2 e Lc 7:19) João ter enviado discípulos para indagar qual à natureza da missão Jesus, contrasta com o suposto reconhecimento imediato pelo primeiro da superioridade do segundo por ocasião do batismo. Teria João ficado amnésico na prisão? Embora o batismo de Jesus por João tenha um bom grau de historicidade, a identificação da relação entre um e outro não o tem. Outra dúvida era qual o tipo de sucessor aguardado. Se ele aguardava algum tipo de messias aarônico é possível que o Jesus Histórico se enquadrasse nessa expectativa em virtude de sua pregação. Agora, um messias davídico é algo mais difícil na ausência de um poder militar, muito menos um angélico; que seria o mais provável da pregação apocalíptica do Batista. O Jesus da fé, contudo, só se tornou o escatológico Filho do Homem após a morte;

    • Herodias instigou a execução de João Batista: em Antiguidades Judaicas, cap. XVIII, Josefo informa que Herodes Antipas era casado com uma filha do rei da Arábia Pétrea (que compreendia a península do Sinai e parte da atual Jordânia), antes de conhecer Herodias, numa estadia em Roma. Teria sido por exigência dela que se divorciou logo após retornar, o que desencadeou um guerra entre os reinos. Se a ascendência de Herodias sobre o novo marido era tão grande a ponto de ele se dispor a causar um conflito, muito menos difícil seria matar um profeta, não? Talvez nem tanto. Tal como houve uma tendência nos evangelhos a reduzir a responsabilidade dos romanos (i.e., o poder imperial) na condenação e execução de Jesus e aumentar a dos judeus, incrementar o peso da influência de Herodias na morte do João seria uma forma de aliviar a culpa de Herodes, governante local apoiado pelos romanos.

    Por fim, alguns fatos e episódios das narrativas evangélicas cuja historicidade pode ser dada como improvável:

    • Os pais de João Batista se chamavam Zacarias e Isabel: sem interferir na possibilidade de João ter tido origem sacerdotal e, tal como outros pormenores de sua natividade comentados anteriormente, os nomes de seus pais parecem ter sido escolhidos a dedo para realçar as qualidades dele como profeta. O anjo Gabriel utilizou as palavras de Malaquias (Lc 1:17) para se referir à missão da qual o filho de Zacarias seria incumbido. Ora, “Zacarias” é o profeta que intitula o livro que antecede o de Malaquias, na ordenação da LXX. Além disso, a abertura do ministério de João (Lc 3:1-2) tem uma estrutura similar (embora ampliada) a do primeiro versículo do livro de Zacarias. Assim, Lucas pretende mostrar que a nova aliança começa com o arauto de Malaquias, sucedido por um novo Zacarias e que “a lei e os profetas foram até João” (Lc 16:16). Outras “coincidências” também surgem: Zacarias foi o nome do último mártir do Antigo Testamento (II Cr 24:21,2), que também era sacerdote e profeta (II Cr 24:20), e Zacarias pertencia à ordem sacerdotal de Abias (Lc 1:5), a oitava da relação dada em I Cr 24, precedendo justamente a de Jesua. O nome de sua mãe também parece ser teologicamente motivado, pois por Isabel era chamada a esposa de Aarão (Ex 6:23) e a mãe do Batista era justamente uma das “filhas de Aarão” (Lc 1:5). Não apenas isso: a Isabel de Êxodo tinha uma parenta muito mais importante que era sua cunhada e profetiza Miriam, provável versão hebraica de Maria;

    • Maria e Isabel eram aparentadas: e, por conseguinte, Jesus e João Batista. Primeiramente, isso só é atestado em Lucas, em uma única passagem (Lc 1:36). Nem por ocasião do batismo de Jesus (cap. 3) há alguma conversa “entre parentes”. E mais: a menção ao parentesco das duas aparece como um aposto feito pelo anjo Gabriel, em vez de algo explanado pelo narrador. Soa como se fosse um acréscimo feito pelo redator de Lucas à uma tradição prévia da Anunciação. Por fim, como explanado no item anterior, uma relação familiar entre ambas, estando Maria em posição superior, iria bem ao encontro dos interesses teológicos dos primeiros cristãos;

    • João Batista era essênio por ocasião de seu ministério: uma das características das comunidades essênias era a vida apartada do restante da sociedade. João, em seu ministério, não era “mundano” como Jesus, mas também não era tão isolado como os membros da seita do Mar Morto. Vivia uma espécie de meio termo: longe das grandes concentrações o bastante para se dizer que pregava nos sertões, mas ainda perto o bastante para o povo poder ir até ele. Se João Batista foi essênio alguma parte da vida, já devia ter abandonado o movimento;

    • João Batista era apenas um mestre de sabedoria, como o eremita Bano; se assim fosse, seria inofensivo e teria morrido de velhice ou doença, salvo algum atentado de criminosos comuns. João foi um mestre de sabedoria também, mas não somente isso;

    • O Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma de pomba: Bem-vindos ao domínio da fé! Essa passagem está em Marcos, tendo sido copiada por Mateus e Lucas. O quarto evangelho, por sua vez, também faz uma alusão independente ao episódio (Jo 1:32), permitindo, assim, que seja dado como multiatestado. Isso poderia ser um ponto positivo para sua fatualidade caso ele ela não fosse, justamente, bem ao encontro da agenda teológica dos primeiros cristãos em retratar Jesus como o Messias esperado. Esse episódio estaria numa situação parecida com o da ressurreição de Jesus – algo que permeia a literatura cristã primitiva, mas sobre o qual pouco se pode afirmar de concreto – se não fosse a discrepância entre seus desdobramentos. A ressurreição é o “marco zero” do cristianismo, tenha sido ela real, uma alucinação coletiva ou, no pior caso, uma fraude. A crença de que Jesus, de alguma forma, venceu a morte foi o que garantiu continuidade ao seu movimento e evitou que ele se tornasse mais um dos profetas palestinos fracassados do primeiro século. Por outro lado, a descida do Espírito Santo por ocasião do batismo de Jesus deveria ter marcado o fim do movimento batista, afinal estaria apontado quem sucederia o Imersor. Não foi o que ocorreu. Chega até a ser contraditório que a fonte Q (Mt 11:2,3 e Lc 7:19,20) apresente João Batista ainda em dúvida se Jesus era quem ele esperava, após tão forte experiência. Outro João, o evangelista, escrevendo bem depois dos supostos fatos, pode ter reparado na incompatibilidade dessas duas tradições circulantes entre os cristãos e abandonou a segunda. Em seu relato, João Batista prontamente identifica Jesus e, na primeira oportunidade, fala para seus discípulos o seguirem. Enfim, se a visão da pomba ocorreu, é mais provável ter sido uma experiência pessoal de Jesus de Nazaré que algo compartilhado com João ou algum presente;

      De fato, em outro fragmento do supracitado Evangelho dos Hebreus (EvHeb), e também preservado por Jerônimo, aparece outra descrição do episódio:

      Conforme o evangelho que, escrito em língua hebraica, é lido pelos nazareus, descerá sobre ele [Jesus] toda fonte do Espírito Santo … Além disso, encontramos escrito no evangelho que acabamos de citar:

      “Aconteceu, porém, que ao sair o Senhor da água, toda a fonte do Espírito desceu sobre ele, repousando sobre ele, dizendo: ‘Meu filho, em todos os profetas eu esperava por ti, que tu viesses e eu repousasse em ti. Pois tu és o meu repouso, tu és meu primogênito, que reinas para sempre'”.

      Comentário sobre Isaías cap. XII, vv. 1-2. (Original latino: Patrologia Latina, Migne, vol. XXIV, cols.144-5

      (Embora fale “nazareus”, a crítica mais recente o considera como parte de EvHeb. Cf. [Klauck, p.57]).

      Se formos conferir Is 11:2, leremos: “repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do Senhor“, que encontra eco em livros deuterocanônicos como:

      Ela [a Sabedoria] se derrama de geração em geração nas almas santas e forma os amigos e os intérpretes de Deus. (Sb 7:27)

      Entre todas as coisas procurei um lugar de repouso, e habitarei na moradia do Senhor. (Eclo 24:11)

      Negligenciaste a fonte da sabedoria. (Br 3:12)

      Assim, embora não haja pomba alguma e nem uma voz que ecoe do céu, essa versão judaizante do batismo de Jesus não é propriamente algo que se possa considerar com mais chances de ser verídico, visto que, em verdade, apenas substitui um mito cristão por outro sapiencial judaico;

    • Salomé exigiu a cabeça de João Batista numa bandeja: história narrada em Mc 6:21-9, com paralelo em Mt 14:6-11, em que Herodias manipula Hedores por meio da filha que teve em seu casamento prévio, Salomé. Os pormenores do episódio espantam justamente por isso: como as minúcias dessa tramoia teriam chegado aos ouvidos alheios? Mãe e filha não teriam tomado cuidado para estarem a sós, longe de algum simpatizante do batista? Ainda que as paredes tivessem ouvidos, Flávio Josefo relatou que João fora trancafiado na fortaleza de Maqueronte, um local improvável para a realização de um banquete onde Salomé executasse uma dança para convidados nobres. Mais adequado seria o palácio real. Agora, algum estafeta sairia da corte para Maqueronte a fim de comunicar a ordem e voltaria a tempo com a cabeça, ou todos ficariam esperando por sua chegada? Ademais, Josefo também é silente quanto às circunstâncias da execução e Lucas, o evangelista que possivelmente se valeu de fontes batistas, coloca na boca de Herodes (Lc 9:7-9) a notícia da decapitação de João, desconsiderando sua esposa e enteada. Enfim, essa história tem forte cheiro de boato. Se há algo a dizer em favor de sua veracidade, seria o fato de a realidade, às vezes, conseguir ser mais bizarra que qualquer ficção e a possibilidade de Josefo estar errado, tendo sido João trancafiado num suposto calabouço do palácio (um lugar ruim para se manter um agitador). A título de curiosidade, o nome Salomé não aparece nos evangelhos, mas sim na obra de Josefo Antiguidades Judaicas, livro XVIII, cap. V.

    Dadas essas considerações sobre o que pode ou não ter acontecido, venho propor uma sequência cronológica da possível evolução do contexto sociocultural em que viveu a dupla João Batista/Jesus de Nazaré, tendo-os tanto como agentes da História quanto pacientes dela.

    1. VIII a.C.: conquista de Israel pelos assírios (732 a.C.), com a deportação de parte de sua população original e a colonização por povos aliados;

    2. VI a.C. – Cativeiro de Babilônia: Judá tem destino semelhante ao do seu irmão setentrional quando é conquistado pelo Novo Império Babilônico de Nabucodonosor: sua capital, Jerusalém, é saqueada e o Templo destruído. Parte da população foge para os reinos vizinhos – iniciando a diáspora judaica -, parte é deportada para o coração do Império conquistador e lá permanece por quase 70 anos (586 – 538 a.C.) e a parcela mais humilde é autorizada a ficar. Esse período se encerra com a conquista da Babilônia pela nova potência emergente do Oriente Médio: o Império Persa de Ciro, o Grande, que autoriza o retorno dos exilados e auxilia na reconstrução do Templo. Contudo, não é possível restaurar o antigo status quo plenamente: o novo Templo é inferior em grandeza ao primeiro, o hebraico cede progressivamente lugar ao aramaico como língua vernacular e o antigo Israel agora é habitado por um povo miscigenado – os samaritanos – que, embora ainda professasse uma religião parecida com a dos antigos hebreus, era visto com desconfiança pelos retornados por sua associação com os antigos senhores;

    3. V a.C. Os samaritanos constroem um templo rival sobre o monte Gerizim, assinalando a separação definitiva entre as duas comunidades;

    4. IV a.C. – II a.C.: conquista do Império Persa pelo helenizado macedônio Alexandre Magno (333 – 323 a.C.). Após sua morte, seus domínios são divididos entre seus generais, cabendo as regiões dos antigos reinos hebraicos ao Egito dos Ptolomeus, em cuja capital, Alexandria, se estabelece numerosa comunidade judaica. Ocorre grande difusão da cultura grega pela orla oriental do Mediterrâneo no chamado “Mundo Helenístico”;

    5. II a.C. – I d.C.: após o sucessivo domínio de diversas potências estrangeiras, surge a abordagem apocalítica para o entendimento da história judaica: Javé teria permitido a prosperidade dos inimigos de seu povo para, num momento devido, esmagá-los e instaurar o Reino de Deus na Terra. Desenvolve-se toda uma literatura sob esse viés, com obras como o canônico Daniel e os apócrifos I Enoque, Esdras e II Baruque, além de diversos exemplos da literatura essênia de Qumran. Surgem no ideário judaico as sobrepostas figuras do Filho do Homem e do(s) Messia(s), como instaurador(es) dessa nova Ordem Divina;

    6. Primeira metade do século II a.C.: os Selêucidas – a dinastia grega da Síria – derrotam o egípcios e tomam os territórios judaicos (198 a.C.), iniciando uma política de helenização forçada. Por essa época ou um pouco antes, um grupo de judeus aparta-se do convívio dos demais e funda comunidades nos sertões da Judeia. Era o começo da seita dos essênios;

    7. 163 a.C. – Revolta dos Macabeus: em uma guerrilha bem-sucedida, um exército nativo, liderado por Judas Macabeu, conseguiu uma vitória após outra contra as tropas selêucidas e, por fim, tomou Jerusalém. Fundação da dinastia Asmoneia, que restaurou a religião judaica, expandiu suas fronteiras e reduziu a influência estrangeira;

    8. Segunda metade do II a.C. – I a.C.: Emergem dois grandes “partidos”: o dos saduceus – ligados à casta sacerdotal e à aristocracia, adeptos de uma interpretação mais enxuta da Torá e da centralização da vida judaica no culto do Templo de Jerusalém – e o dos fariseus, que tinham um apelo mais popular, defendiam a existência de uma “tradição oral” da Torá, a explanar e complementar a escrita (algo negado pelos saduceus), além de ressaltar a importância do cumprimento da Lei Mosaica e não apenas dos ritos do Templo. Conforme a evolução do tabuleiro político-social, o regente da ocasião podia se valer do apoio de um grupo ou de outro;

    9. 88 – 63 a.C.: Série de três guerras entre a República Romana e Mitrídates VI, rei do Ponto (norte da atual Turquia). A vitória de Roma levou a uma campanha expansionista que fez suas tropas chegarem às bordas do reino asmoneu;

    10. 63 a.C.: O general romano Pompeu intervém numa guerra civil entre os irmãos Hircano (aliado dos fariseus) e Aristóbulo (partidário dos saduceus). Inicialmente, Pompeu fora chamado a pedido desse último, mas ficou tão irritado com suas maquinações políticas, que tomou partido do outro lado. O irmão rival assumiu o trono com o título de Hircano II, mas em troca, além de perder todas as províncias mais helenizadas, seu reino passou a ser vassalo de Roma;

    11. 37 a.C – 4 a.C.: Reinado de Herodes, o Grande. Filho de Antípater – o primeiro-ministro do fraco Hircano II -, Herodes se saiu vitorioso após três anos de guerra contra o último rei asmoneu, o anti-romano Antígono II, recebendo do senado da capital o título de “Rei da Judeia”. De início, tentou governar como “déspota esclarecido”, realizando grandes obras como a remodelação do Templo para proporções monumentais, a construção de cidade portuária de Cesareia, fortalezas e outros empreendimentos; não só em seus domínios, mas também fora deles em cidades como Antioquia, Beirute, Damasco, Rodes. Chegou, inclusive a patrocinar e presidir os Jogos Olímpicos. Por meio desse mecenato estendeu sua influência, podendo melhor amparar as comunidades da diáspora. Não só de obras públicas construiu seu prestígio, mas também de políticas de amparo, como a importação de trigo do Egito para aplacar a fome provocada por uma prolongada seca em 25-24 a.C. Contudo, Herodes não conseguiu resolver diversas contradições em seu governo, que terminaram por deixá-lo paranoico: sua origem idumeia provocava desconfiança aos olhos dos nativos, por mais que cumprisse a Lei mosaica à risca; casou-se com uma princesa asmoneia em busca de alguma legitimidade, porém matou parentes dela com medo de que reclamassem o trono ou lhe traíssem, a própria esposa por suspeita de adultério e, mais tarde, dois dos filhos que tiveram, por conspiração; procurou agradar aos judeus rigoristas ao mesmo tempo que fazia concessões ao culto ao imperador romano que eram intoleráveis aos seus súditos, e quem lhe desobedecesse era executado. Ao falecer, seu reino foi dividido entre os três filhos varões sobreviventes: Arquelau, Felipe e Herodes Antipas, cabendo ao primeiro a Judeia e, ao último, a Samaria;

    12. 27 a.C.: após eliminar seus rivais na disputa pelo poder no mundo romano, Caio Júlio César Otaviano – sobrinho-neto e, depois, filho adotivo do famoso conquistador da Gália, ditador da república e amante de Cleópatra – recebe do senado os títulos de Princeps, i.e., o primeiro entre os cidadãos, e o de Augusto, dado exclusivamente a divindades. Inaugurava-se o que viria a ser conhecida como a fase imperial de Roma, embora ainda se mantivesse uma fachada republicana;

    13. 6 – 4 a.C. – Nascimento de Jesus: a tradição cristã coloca o nascimento de Jesus no fim do reinado de Herodes. Contudo, um erro medieval na datação do falecimento do monarca adiantou o primeiro ano do calendário cristão;

    14. 6 d.C.: Por mostrar-se cruel e inepto, Arquelau é deposto pelos romanos a pedido dos judeus e a Judeia torna-se província romana, governada por um prefeito e subordinada à Síria. Em ato contínuo, uma reforma tributária feita por, Quirino, o legado romano na Síria, faz eclodir a revolta de Judas, o Galileu, que seria considerado o fundador da seita dos zelotes (ou zelotas), partidários da oposição armada ao domínio estrangeiro. Esse ano também é tido como o do nascimento de Saulo, na cidade de Tarso, próxima à costa meridional da atual Turquia;

    15. 14 – 37 d.C.: Tibério imperador romano;

    16. 26 – 36 d.C.: Pôncio Pilatos prefeito da Judeia;

    17. 27 – 28 d.C.: pregação de João Batista, com forte urgência apocalíptica e provável expectativa de um Messias angélico. Início do ministério de Jesus;

    18. 30 d.C – Morre Jesus, nasce o cristianismo: a crucifixão de Jesus deveria ter sido o fim ou, pelo menos, um baque no seu movimento, o que faria dele apenas mais um dos tantos “messias fracassados” da história do judaísmo. Entretanto, pouco após sua morte, uma nova esperança lhe daria vida extra:

      E que [Jesus] foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também. Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos.

      I Cor 15:4-7

      Surgia, então, a seita dos nazarenos (cf. At 24:5) e a interpretação de como o ministério de Jesus e a crença em sua volta à vida se relacionavam com os planos divinos constituiu o desafio da construção da mitologia do nascente grupo religioso;

    19. 30- 34 d.C.: a nova seita se expande de aproximadamente 120 (At 1:16) para 8.000 indivíduos (cf. At 2:41 e 4:4). Ainda que os números estejam inflados, é possível que o carisma e independência dos seguidores de Jesus tenha alarmado os saduceus, que iniciaram a repressão;

    20. 34 – 37d.C.: lapidação do diácono Estevão, consentida pelo fariseu Saulo de Tarso, notório perseguidor dos cristãos. Pouco depois desse episódio, Saulo se converteu após uma experiência visionária e assumiu o nome de Paulo. Nunca ficou explícita – nem em suas cartas, nem em Atos – a motivação para a repressão aos seguidores de Jesus. Uma hipótese (Cf. [Ehrman (2008), cap. XIX, p.299]) é que, já por aquela época, Jesus fosse tido por eles como o Messias. Dado que todas as expectativas messiânicas indicavam essa figura como alguém glorioso e, às vezes, supra-humano, a vinda de um humilde pregador itinerante que acabou executado soava absurda. Para um zeloso seguidor da Lei, como antigo Saulo, havia uma particularidade nessa morte ignóbil que transformaria o absurdo em blasfêmia:

      Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro;

      Gl 3:13 (citando Dt 21:23)

      A superação da Lei feita por Paulo disponibilizaria ao cristianismo todo um novo universo de potenciais prosélitos: os pagãos do Império;

    21. 37 – 41 d.C.: Calígula imperador romano;

    22. 40 – 80 d.C.: compilação dos ditos da Fonte Q, dentre eles o “Louvor a João” (Mt 11:2-19 e Lc 7:19-35), com sua mistura de reverência e rivalidade dos seguidores de Jesus para com os de João. Nele, é provável que João já fosse identificado com o precursor de Ml 3:1 (Lc 7:24 = Mt 11:7), contudo ainda não deveria ter sido feita a identificação com Ml 4:5, afinal Lc 7:29-30 ≠ Mt 11:12-5. Assinale-se que Mt 11:12-15 sem a menção a Elias é similar a Lc 16:16, indicando que esse passo seria dado por Marcos (cf. [Vassiliadis, p. 410]) e enfatizado por Mateus;

    23. 41 – 44d.C.: Herodes Agripa – neto de Herodes, o Grande – como rei da Judeia. A tradição cristã relata como mandante da morte de Tiago (irmão de João) e da prisão de Pedro (cf. At 12). Por outro lado, foi a última vez em que os judeus do Segundo Templo foram governados por alguém etnicamente afim e minimamente preocupado em não ferir suas sensibilidades religiosas;

    24. 41 – 54 d.C.: Cláudio imperador romano;

    25. 44 – 66 d.C.: Judeia novamente como província romana, em crescente tensão política;

    26. 45 – 52 d.C.: primeiras viagens missionárias de Paulo de Tarso, mal sucedidas entre os judeus da diáspora, porém com bom afluxo de conversos gentios;

    27. ca. 50 d.C.: nascimento de Akiba ben Joseph, futuro Rabi Akiba (ou Akiva), figura central na consolidação do poder dos “sábios da Lei”;

    28. 50 dC. – Concílio de Jerusalém: num relato do capítulo XV de Atos, Paulo e Barnabé, seu companheiro de missão, vão a Jerusalém discutir com os apóstolos originais se os gentios deveriam se tornar judeus antes de serem cristãos, o que implicaria em seguir a Lei Mosaica e suas práticas, como a circuncisão e as restrições dietéticas. Ficou decido que eles estariam dispensados de serem judeus, contudo deveriam abandonar certas práticas pagãs, abstendo-se “das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da fornicação” (At 15:29). Contudo, em sua carta ao Gálatas, Paulo se escandaliza ao saber que essa igreja recebera a visita de outros missionários com viés judaizante. Documentos mais tardios, como as Homilias Pseudoclementinas, também evidenciam a permanência de uma rixa entre cristãos judeus e helênicos. É possível que o alegado consenso do Livro de Atos nunca tenha sido pleno;

    29. 50 – 60 d.C. – Redação das genuínas cartas de Paulo: apesar de Paulo ser o mais prolífico autor do Novo Testamento, pouca informação pode ser obtida a partir de suas cartas sobre a vida e a mensagem de Jesus, o mesmo sendo verdade para quase todos os outros livros desse Testamento, à exceção dos evangelhos e Atos. Por outro lado, elas são uma fonte inestimável de como se desenvolvia a fé no “Cristo ressuscitado” nas primeiras décadas do cristianismo gentio. Havia:
      1. A expectativa de um retorno próximo de Jesus, com a ressurreição dos mortos e transformação dos vivos (cf. I Ts 4 e I Cor 15);
      2. Uma concepção de Jesus com um Messias do tipo angélico (cf. Fp 2:6-11);
      3. A tese da salvação calcada na fé em Jesus como redentor da humanidade por meio de seu sacrifício na cruz, em vez da prática da Lei Mosaica (cf. Gálatas e Romanos).

      O apocalipsismo era comum entre os judeus do primeiro século de nossa Era, bem como a crença na ressurreição não lhes era estranha. Alguns grupos judaicos aceitariam um Messias sobre-humano e preexistente. Contudo, abster-se da Lei era renegar sua identidade judaica. A questão não era os gentios estarem dispensados dela para poderem ingressar no Mundo Vindouro, mas que nem judeus – os que aceitassem Jesus como Messias, inclusive – pudessem se valer dela. Essa foi uma das forças centrífugas entre os dois grupos;

    30. 50 – 95 d.C. – Hebreus: não chega a ser exatamente uma carta, mas um sermão ou homilia cujo autor é desconhecido. Foi aceito assim mesmo no cânon devido a uma crença no séculos III e IV de ter sido Paulo seu redator, possibilidade hoje descartada. Tampouco é possível dizer se o público alvo se compunha de judeus cristãos, o que se pode afirmar com alguma certeza é que seus membros haviam sofrido algum tido de perseguição (Hb 10:34-6) e adotar (ou voltar para) o judaísmo era tentador, pois esse gozava de proteção legal. Assim, seu anônimo autor admoesta seu público a permanecer firme na fé, pois o cristianismo seria ápice de todas as realizações e promessas do judaísmo. Ameaças à parte, é feita uma série de comparações para justificar tal superioridade e uma delas seria a posse de Jesus de um sacerdócio superior ao dos levitas, um “segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 7:21). Jesus, portanto, ganhara atributos de Messias sacerdotal nessa comunidade;

    31. 53 – 57 d.C. – Terceira viagem missionária de Paulo: durante esse episódio, o livro de Atos (cap. 18 e 19) relata a assimilação pelo cristianismo de alguns discípulos de João Batista residentes na diáspora. Um deles, Apolo, deve ter sido importante o suficiente para ter seu nome citado, tanto que reaparece em diversos capítulos da primeira carta aos Coríntios (1, 3, 4 e 16), sugerindo a existência uma certa rivalidade entre os admiradores dele e de Paulo naquela comunidade. O quarto evangelho também traz a captação de discípulos de João, porém logo no começo do ministério de Jesus e incentivados pelo próprio Imersor. Como discutido acima, dado que o movimento batista prosseguiu ao menos por um tempo, isso foi algo um tanto improvável. Já o relato de Atos conta com uma vantagem: seu “primeiro volume” – o evangelho de Lucas – traz dados sobre a origem de João (ainda que “floreados”) e fragmentos de sua mensagem, informações que poderiam ter sido obtidas graças a fontes batistas às quais a paulina comunidade lucana teve acesso;

    32. 54 – 68 d.C.: Nero imperador romano;

    33. 62 d.C.: martírio de Tiago, o “Irmão do Senhor” (cf. H.E. II.23);

    34. 64 d.C.: incêndio de Roma. Os cristãos da capital são usado como bodes expiatórios e perseguidos;

    35. 65 – 67 d.C.: martírio de Pedro e Paulo em Roma;

    36. 65 – 80 d.C – Evangelho de Marcos: Papias (citado por Ireneu em Contra as Heresias, 3.1.1) coloca a redação deste evangelho nas mãos de um discípulo de Pedro, tendo-a iniciado após a morte do apóstolo, ocorrida em Roma por volta do ano 65 d.C. segundo a tradição cristã. Como limite superior, teríamos as redações de Lucas e de Mateus, cujas estimativas mais antigas são de 80 d.C. e não poderiam ter sido feitas sem o relato de Marcos. Esse posicionamento cronológico permite enxergar o “pequeno apocalipse” constante em seu capítulo XIII como uma exegese da “Grande Revolta Judaica”, contemporânea de seus primeiros leitores e ouvintes, transformada num anúncio do fim iminente dos tempos.

      Escrito numa forma a apresentar Jesus como um “Messias incompreendido”, este evangelho levanta discussões sobre se o Jesus histórico se via realmente como o esperado libertador do povo judeu ou, em caso positivo, preferiu manter a sigilo para não ser tomado por um tipo de Messias que não coadunasse com sua proposta. Quer seja de um jeito ou do outro, esse evangelho deixa transparecer que João Batista não era tido como Elias pelos seus contemporâneos. Adaptando a tradição de Malaquias, Marcos fez de João o precursor de um Messias humano, e, tal como esse, vindo de uma forma distinta da expectativa geral;

    37. 66 – 70 d.C. – Grande Revolta Judaica ou Primeira Guerra Judaico-Romana: capitaneada pelos zelotes, uma insurreição armada tomou Jerusalém e algumas fortalezas, massacrou as guarnições romanas locais, para daí se espalhar pelos antigos domínios dos asmodeus. A reação romana não tardou e foi esmagadora. Embora duvidoso que os revoltosos conseguissem resistir ao avanço inimigo, muito de sua capacidade bélica foi desperdiçada numa verdadeira guerra civil a se desenrolar dentro das muralhas de Jerusalém. A tradição cristã informa uma fuga dos judeus cristãos de Jerusalém para a cidade de Pella, na região da Pereia (Eusebio, Hist. Ecles., III. V. 3; cf. Lc 21:20-2). Uma outra tradição, talmúdica desta vez, fala de Yohanan bem Zakkai, um rabino sobrevivente que escapara do cerco escondido dentro de um caixão, como se fosse um defunto. Ele teria recebido autorização dos romanos para se instalar em Yavneh (Jâmnia, em grego), onde fundou uma escola de estudos e instalou o Sinédrio.

      Ao fim do conflito, o Segundo Templo fora destruído, os saduceus desapareceram na luta entre as facções, e os zelotes foram exterminados pelos romanos. Os essênios esconderam seus manuscritos nas cavernas de Qumran até que a poeira baixasse e, aparentemente, nenhum deles sobrou para resgatá-los.

      Morria aí o mundo em que Jesus viveu;

    38. 69 – 79 d.C.: Vespasiano imperador romano;

    39. 70 – 73 d.C.: últimos focos de resistência judaica são eliminados;

    40. 70 – 135 d.C.: a Judeia é comandada por um legado romano, i.e., uma espécie de general a dispor das tropas necessárias para manter o controle da província. Paralelamente, começa a ascensão do partido farisaico, que, de certa forma, obtivera durante a guerra uma sanção romana para deliberar sobre os assuntos judaicos. A sinagoga substituiu o Templo como centro da religião e acelerou-se um processo de padronização do cânon, bem como seus textos e interpretações. Apenas um grupo ainda se interpunha a sua hegemonia: os nazarenos;

    41. 79 – 81 d.C.: Tito Flávio imperador romano;

    42. 80 – 100 d.C. – Evangelho de Mateus: Provavelmente composto a partir do fio narrativo de Marcos, os ditos de Q, mais algum material próprio (M). Em relação a sua autoria, há os que defendem ele ter sido redigido por um judeu e, depois, ter recebido acréscimos cristãos [Flusser (2002), pp. 95 – 103] ou seu autor adviria de uma comunidade cristã mista de judeus e gentios [Ehrman (2008), cap. VIII, 118-9], e buscava abarcar a ambos na “boa nova”. Independentemente de sua autoria, seu texto o revela como “o mais judaico” dos evangelhos: no sermão da Montanha (5:18-20) seus leitores são explicitamente instados a seguir os mandamentos da Lei, e de uma forma superior “à dos fariseus e mestres da Lei”. Isso também revela que seu entendimento da Lei era distinto desses dois grupos, pois Jesus teria mais autoridade que eles ao ser apresentado enfaticamente como o Messias Judaico. Logo no começo, Mateus inova em relação Marcos ao começar por uma narrativa do nascimento de Jesus e ali inserir a maior quantidade possível de profecias cumpridas: a concepção virginal (Is 7:14), o nascimento em Belém (Mq 5:2), ascendência davídica (II Sm 7:12-6) e sua estadia no Egito (Os 11:1). Juntando a Natividade com os eventos até o Sermão da Montanha, tem-se um inusitado retrato da pessoa de Jesus: um varão miraculosamente nascido de pais judeus fica log à mercê de um tirano disposto a destruí-lo. Por meios sobrenaturais a criança é protegida de qualquer agressão no Egito. Então deixa essa terra para passar pelas águas (do batismo) e é testado no deserto por um longo período. Por fim, sobe à montanha e entrega a Lei de Deus aos que o seguiam. Sim, para Mateus, Jesus é o novo profeta como Moisés prometido no capítulo 18 de Deuteronômio. Enquanto Marcos segue aos poucos clarificando o papel de Jesus, Mateus sempre é bem mais direto. Repare no acréscimo ao diálogo entre Jesus e seus discípulos logo após o episódio da transfiguração:

      E interrogaram-no, dizendo: Por que dizem os escribas que é necessário que Elias venha primeiro?
      E, respondendo ele, disse-lhes: Em verdade Elias virá primeiro, e todas as coisas restaurará; e, como está escrito do Filho do homem, que ele deva padecer muito e ser aviltado. Digo-vos, porém, que Elias já veio, e fizeram-lhe tudo o que quiseram, como dele está escrito.

      Mc 9:11-13

      E os seus discípulos o interrogaram, dizendo: Por que dizem então os escribas que é mister que Elias venha primeiro?
      E Jesus, respondendo, disse-lhes: Em verdade Elias virá primeiro, e restaurará todas as coisas; mas digo-vos que Elias já veio, e não o conheceram, mas fizeram-lhe tudo o que quiseram. Assim farão eles também padecer o Filho do homem.
      Então entenderam os discípulos que lhes falara de João o Batista.

      Mt 17:10-13

      A vinculação entre João Batista e Elias fica explícita em Mateus, ao passo que estava subentendida em Marcos. Em ambos a origem do Imersor está em aberto, tal como foi a de Elias. Para eles isso não era significativo, contanto que essa simples identificação pudesse ser mais uma característica messiânica atribuída a Jesus. Se fosse o imortal Fineias ou um anjo materializado, pouco importava.

      Essa ânsia de Mateus em provar a identidade de Jesus como o Messias deve ser reflexo da competição de sua comunidade com os fariseus, que, em seu evangelho, atinge o ápice nos “Sete Ais” do capítulo XXIII. Já antes de Jesus, os fariseus promoviam a prática de “cercar da Torá”, i.e. a elaboração de procedimentos estritos para que a Torá (Escrita) não fosse violada sequer por acidente. A “denúncia” da inutilidade desses rigorismos (cf. Mt 23:24) escancara a diferença de entendimento entre esses dois grupos do que seria “seguir os mandamentos“, já anunciada no Sermão da Montanha;

    43. 80 – 100 d.C. – II Tessalonicenses: ao lado de Efésios, de Colossenses e das pastorais, integra um grupo de documentos conhecido com cartas deuteropaulinas, i.e., textos tradicionalmente atribuídos a Paulo de Tarso cuja autoria, porém, é posta em dúvida por diversos fatores, que vão desde o de vocábulos gregos poucos usuais ao das cartas tidas como autênticas até doutrinas discrepantes com elas. No caso de II Tessalonicenses, chamam atenção os seguintes versículos:

      Ora, irmãos, rogamo-vos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, e pela nossa reunião com ele, que não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como de nós, como se o dia de Cristo estivesse já perto.

      II Ts 2:1,2

      Isso está em franco desacordo com I Ts 4:15-18 ou I Cor 15:51-2, em que Paulo garante que alguns membros de suas comunidades ainda estarão vivos por ocasião da parúsia e, portanto, não ressuscitarão, mas serão “transformados”. Ao que parece, já estava arrefecendo a expectativa de de um Fim dos Tempos para aquela geração;

    44. 80 – 110 d.C. – Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos: Seu redator é o único entre os evangelistas que assume ter se baseado em relatos prévios (Lc 1:1-4). Para seu evangelho, deve ter se valido também de Marcos e Q, além de algum material próprio (L), não compartilhado com Mateus. Atos também deve ter se baseado em fontes anteriores, porém mais difíceis de se delimitar e atualmente perdidas. É possível que tenha se baseado em um diário de viagens de Paulo ou algum acompanhante dele para construir um fio narrativo plausível e em tradições dos ensinamentos apostólicos para produzir os longos discursos que ocorrem no livro. Quanto aos eventos, tradições orais são candidatas e, inclusive, harmonizações entre elas (como as três versões ligeiramente diferentes da conversão de Paulo). A rigor, Atos também mereceria o status de evangelho ou de “segundo volume” de um deles, pois a mensagem de Lucas só está completa pela união desses dois livros: a salvação chegando para os judeus, sendo pela maioria deles rejeitada, e então partindo para o mundo. Dada a grande importância do “apóstolo dos gentios” dentro de Atos (presente em quase dois terços do livro), Lucas intencionava explicar a origem e difusão da própria fé ao um público majoritariamente não judeu. Faltam indícios de que Lucas tenha se valido das Cartas, pelo contrário: há incompatibilidades entre a narrativa de Atos e o que Paulo falou de si mesmo em sua correspondência. Talvez Lucas não tivesse acesso às cartas paulinas por elas ainda não circularem em grande escala, mas diversos elementos comuns com elas são encontrados: a ceia comunal como instituição cristã, a ampla atividade carismática do Espírito Santo, a liberação dos gentios das práticas da Lei, a soteriologia, apocalipsismo e aclamação de Jesus como o Messias prometido. Quanto a esse último item, as motivações de Lucas parecem se diferir das de Mateus. O último viveu num ambiente de competição com os fariseus, enquanto Lucas não os teve por oponentes. Seus adversários seriam outros pagãos, que viam o cristianismo nascente como mera superstição oriental, uma novidade suspeita. Na Antiguidade Tardia, antiguidade gerava respeito. Poucas criações realmente originais foram feitas em relação ao período em torno de 400 a.C., por outro lado, muitos comentários e reelaborações dos clássicos eram produzidos. Assim, apresentar-se como o prosseguimento de uma longa tradição permitia “queimar etapas” na busca por credibilidade. A identificação entre João Batista e Elias faz parte dessa apresentação do cristianismo como “cumprimento de profecias”, porém Lucas teve de adaptar Marcos de uma forma diferente da feita por Mateus. Como mencionado antes, Lucas pode ter utilizado fontes batistas. Sejam oriundas de prosélitos ou de remanescentes rivais, elas estariam acessíveis, também, a outros membros letrados de sua comunidade, expondo um dado com o qual Marcos e Mateus não precisaram trabalhar: João Batista teve uma origem recente. Não era mais possível identificá-lo com o longevíssimo Fineias/Elias. João, portanto, teve de fazer as vezes de Elias, reproduzindo seu ministério. Visto que a introdução de João Batista como um Elias alternativo já é feita durante a Natividade, não há mais a identificação entre ambos por ocasião da transfiguração (Lc 9:28-36).

      Lucas também conta com um “pequeno apocalipse” (Lc 21:7-32), com pontos comuns ao de Marcos, mas também diferenças significativas. A principal está na afirmação de que “o fim não virá logo” (Lc 21:9), ao contrário do fim iminente esperado em Marcos. É notável a mudança feita na conversa entre Jesus e o sumo sacerdote:

      O sumo sacerdote lhe tornou a perguntar, e disse-lhe: És tu o Cristo, Filho do Deus Bendito?
      E Jesus disse-lhe: Eu o sou, e vereis o Filho do Homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu.
      Mc 14:61,62

      És tu o Cristo? Dize-no-lo.
      Ele replicou: Se vo-lo disser, não o crereis; e também, se vos perguntar, não me respondereis, nem me soltareis. Desde agora o Filho do Homem se assentará à direita do poder de Deus.
      Lc 22:67-69

      Parece que Lucas tinha ciência de que o sumo sacerdote não veria o Filho do Homem “fazendo e acontecendo”, afinal ele já devia ter morrido. Onde entraria, então, a profecia quanto ao retorno de Elias nesse contexto em que o fim era certo, mas a hora incerta, e seu profeta por procuração – João Batista – já falecera? Para o evangelista, Elias já estaria neste mundo desde a ocasião transfiguração: explicitamente ele apareceu “em glória” para Jesus, junto com Moisés; dois homens em “vestes resplandecentes” aparecem para as mulheres que encontraram o túmulo de Jesus aberto (Lc 24:1-7); e, já em Atos, dois homens “vestidos de branco” apareceram para os apóstolos logo após a ascensão de Jesus informando de seu retorno em glória. Coincidência? Provavelmente Lucas construiu sua narrativa para que tanto o maior legislador de Israel e seu maior profeta estivessem presentes em momentos-chave da trajetória de Jesus (anúncio da morte, ressurreição e arrebatamento), justificando o ministério dele pelas tradições judaicas. O dado adicional foi a evidência da difusão pelo cristianismo helênico da crença em um segundo advento de Jesus: uma ocasião adequada para que este assumisse o papel de Filho do Homem e Elias – o original – cumprisse integralmente a profecia;

    45. 81 – 96 d.C.: Domiciano imperador romano. Durante seu reinado, teria ocorrido uma segunda onda perseguições aos cristãos. Não resta nenhum documento oficial ou de cronista pagão relatando isso, ficando seu registro a cargo da patrística (cf. H.E., III.XV-XX). Eusébio (H.E. III.XX-5) informa que ela foi menos severa que a de Nero e, depois, suspensa pelo próprio Domiciano. Embora não chegasse a ser um programa de extermínio, foi opressora o bastante para levar à redação do livro bíblico do Apocalipse;

    46. ca. 90 d.C. – Birkat ha-Minim – “A Bênção dos Sectários”: no Talmude Babilônico (Berakhot 28b–29a), Gamaliel II teria perguntado: “Há alguém que saiba como compor uma bênção contra os minim (sectários, heréticos)?“. Samuel, o Pequeno, teria se prontificado a fazê-la, tendo sido acrescentada ao conjunto dezoito de orações recitadas nos serviços diários das sinagogas (Amidah) como a décima segunda da lista. Tal bênção, que mais parece uma maldição, possui diversas variantes muito similares umas com as outras, e uma proposta de reconstituição da forma original seria algo como:

      Que não haja esperança para os separatistas, para os apóstatas e para os traidores, e os hereges [minim] hão de perecer como num instante, e o domínio da arrogância Tu prontamente erradicarás. Abençoado sê Tu, ó Senhor, que humilhas o arrogante.

      Fonte: [Flusser (2002), cap. XIII – B, p.189]

      Flusser [idem, p. 190] sugere que a “bênção” na verdade seria uma composição de três fórmulas derrogatórias prévias: uma para os separatistas, outra para os hereges. Por “hereges”, o alvo original poderiam ser os essênios, que não se davam com os fariseus, nem com os saduceus. Após a Grande Revolta e avançando pelo II século, os (judeus) cristãos se tornaram os principais candidatos a serem identificados com os minim.

      Ainda é discutido se expulsão de cristãos da sinagoga mencionada em Jo 9:22 seria um reflexo da instituição oficial da 12ª bênção por Jâmnia ou uma mera revolta espontânea dos judeus não cristãos ante um mal-vindo proselitismo. Uma certeza é a disposição farisaica para fazer sua própria separação “do joio do trigo”;

    47. 90 – 120 d.C. – Evangelho de João: Herdeiro de tradições próprias, o quarto evangelho foi provavelmente escrito por uma comunidade de judeus helênicos que foi expulsa da sinagoga (c. Jo 9:22) e, em seguida, voltou-se contra ela (cf. Jo 8:44-7). Não tendo mais que buscar a aceitação de seus antigos pares, essa comunidade buscou encontrar uma nova identidade pela superação da antiga: Jesus não era “apenas” o Messias a trazer a nova revelação, ele era a Revelação, o preexistente e coeterno Verbo Divino encarnado. Não bastava somente aceitar sua mensagem, era preciso aceitar o próprio Jesus, e rejeitá-lo seria como rejeitar a Deus (cf. Jo 14:1-16). Essa elevação da figura de Jesus demorou a ser elaborada e, no tardio evangelho de João, esvanecera em sua comunidade a expectativa do “Fim dos Tempos” para a geração que conheceu pessoalmente Jesus, tal como fora nas comunidades paulinas e na marcana, ou para a sub-apostólica de Mateus e Lucas. Em vez da realidade terrena da apocalíptica judaica, o Reino de Deus foi transportado para o domínio espiritual (Jo 18:36) e o tempo restante deste mundo (tal qual conhecemos) ficou em aberto. Assim, com esse novo contexto, não havia mais razão para Elias retornar e “preparar o caminho” para o “terrível dia do Senhor” (Ml 3:1, 4:5); tanto que ele possui pouquíssimo espaço neste evangelho, sendo mencionado somente duas vezes (Jo 1:21,25). Em vez disso, veio João Batista, que não se identificava como Elias (Jo 1:21), pois sua principal tarefa era outra: dar testemunho de Jesus (Jo 1:7);

    48. 90 – 120 d.C. – I João: redigida na mesma comunidade do evangelho que leva seu nome (embora não necessariamente pelo mesmo redator dele) relata a existência de uma dissidência entre eles cuja principal divergência era a crença numa cristologia docética, i.e., Jesus não teria possuído um verdadeiro corpo carnal, apenas o aparentado (do grego dokeô, “parecer”). Como o mais antigo comentarista do quarto evangelho conhecido foi o gnóstico valentiano Heracleão (ca. 150 – 180 d.C.), fica a hipótese de que esses dissidentes tenham se unido a alguma outra seita religiosa e dado origem ao gnosticismo cristão;

    49. ca. 95 d.C. – Apocalipse: exilado na ilha de Patmos, talvez em razão perseguição de Domiciano, um certo João (que não era o autor do quarto evangelho) redige um conjunto de revelações que teve acerca do fim próximo da realidade que eles conheciam, com a subjugação e a destruição do Império Romano (identificado por vários e bizarros simbolismos), além da instauração do Reino de Deus. Impressionante é descrição que faz da parusia:

      Vi ainda o céu aberto: eis que aparece um cavalo branco. Seu cavaleiro chama-se Fiel e Verdadeiro, e é com justiça que ele julga e guerreia. Tem olhos flamejantes. Há em sua cabeça muitos diademas e traz escrito um nome que ninguém conhece, senão ele. Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu nome é Verbo de Deus. Seguiam-no em cavalos brancos os exércitos celestes, vestidos de linho fino e de uma brancura imaculada. De sua boca sai uma espada afiada, para com ela ferir as nações pagãs, porque ele deve governá-las com cetro de ferro e pisar o lagar do vinho da ardente ira do Deus Dominador. Ele traz escrito no manto e na coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores!

      Ap 19:11-16

      Decididamente, esse Messias vingador não corresponde ao dos evangelhos, nem ao das cartas de Paulo, porém não era desconhecido na tradição intertestamentária. A opressão dos cristãos os levou a conceber uma imagem guerreira de Jesus, ainda que em sua segunda vinda. Apocalipse foi bastante controverso e sua aceitação como canônico demorou;

    50. 96 – 98 d.C.: Nerva imperador romano;

    51. 98 – 117 d.C.: Trajano imperador romano;

    52. 100 – 150 d.C – Cartas Pastorais: um subconjunto das deuteropaulinas (I e II Timóteo e Tito) em que são dadas recomendações a pessoas responsáveis pela condução de comunidades presumidamente fundadas por Paulo. Embora tradicionalmente atribuídas a esse apóstolo, é quase unânime a rejeição de sua autoria entre os acadêmicos, sendo considerados obras pseudônimas feitas por alguém tentando lidar com os problemas de sua(s) comunidade(s) se valendo da autoridade dele. Tanto os problemas vivenciados como as orientações dadas não coadunam com aqueles do ambiente em que Paulo pregou. Por exemplo:
      • Luta contra falsos ensinamentos: não eram apenas os judaizantes de Gálatas ou os superapóstolos de II Coríntios, mas principalmente os que falavam de “fábulas e genealogias intermináveis” (I Tm 1:4, cf. Tt 3:9). Possivelmente, seriam os primeiros gnósticos cristãos ou seus antecessores;

      • Valorização de a hierarquia: com designação de cargos como bispos e diáconos (I Tm 3), em vez da estrutura mais horizontal guiada pelo Espírito Santo nas cartas genuínas;

      • Redução do papel feminino: mulheres deveriam permanecer em silêncio na igreja (I Tm 2:11-5), ao passo que Paulo, embora já as subordinasse aos homens, reconhecia que podiam orar e profetizar (I Cor 11:3-16).

      • O que era sinal de uma progressiva mudança em certas comunidades cristãs helênicas, que se tornavam menos carismáticas e mais hierárquicas, menos igualitárias entre os sexos e mais patriarcais, menos abertas a experimentações e mais apegadas a tradições;

    53. 111 – 112 d.C: Plínio, o Jovem, como governador da Bitínia (norte da atual Turquia), escreveu ao imperador Trajano (Cartas, 10.96-97) solicitando instruções de como lidar com uma perigosa superstição que se alastrava por sua província, permeando “as cidades, aldeias e fazendas”; cujos adeptos se denominavam “cristãos” e reuniam antes da alvorada para entoar hinos a “Cristo como a um deus”. A resposta do imperador foi sucinta, recomendando não fazer perseguições ativas, rejeitar denúncias anônimas e libertar prontamente os que aceitassem fazer oferendas aos deuses romanos, cuja recusa deveria ser o crime cometido por eles.

      No episódio do incêndio de Roma, os cristãos foram usados como mero bode expiatório; agora, surge uma evidência de que sua expansão começava a realmente a ser preocupação de estado;

    54. 115 – 117 d.C. – Segunda Guerra Judaico-Romana: também chamada de “Guerras de Kitos” – em alusão a Lúsio Quieto, um dos comandantes militares romanos – foi uma série rebeliões das comunidades judaicas de Chipre, Egito, Cirenaica (leste da atual Líbia) que, aproveitando-se do fato de a maior parte do exército romano estar combatendo os partas na Mesopotâmia, promoveram o massacre de cidadãos romanos (de língua grega) e quase cortaram o envio de trigo para as tropas na frente de batalha. Na Mesopotâmia, milícias judias atacavam pequenas guarnições romanas de retaguarda. Ao fim do conflito, diversas comunidades da diáspora foram exterminadas ou expulsas;

    55. 117 – 138 d.C.: Adriano imperador romano;

    56. 132 -135 d.C – Terceira Guerra Judaico-Romana: o elo se rompe. O imperador Adriano iniciou uma política de reorganização administrativa o império que, entre suas metas, advogava uma uniformização cultural, com medidas de helenizantes. Na Judeia, isso implicou na proibição da circuncisão e, por fim, a imposição de um altar dedicado a Júpiter no Monte do Templo. Essa foi a gota d’água para nova revolta que, a exemplo dos antigos Macabeus, e desta vez sob a liderança de Simeão bar Kochba, começou como uma guerrilha bem sucedida, conseguindo expulsar as legiões romanas e tomar Jerusalém. O ápice do prestígio de Bar Korcha ocorreu quando Rabi Akiba – a principal autoridade religiosa entre os rabinos – apontou-o com sendo o tão esperado Messias. A consequência imediata disso para os judeus cristãos foi colocá-los entre dois fogos: caso apoiassem o movimento, ainda que apenas colaborando no esforço de guerra à retaguarda, estariam negando a Jesus como Messias; se rejeitassem a autoridade do novo líder, podiam ser acusados de crime capital e executados. De qualquer forma, a retaliação romana foi tamanha que é duvidoso que a comunidade cristã de Jerusalém sobrevivesse ao fim do conflito. Num esforço para apagar o passado hebraico da região, a Judeia passou a se chamar Palestina, estando administrativamente integrada à Síria, e o processo de diáspora judaica foi completado. Os judeus foram proibidos de voltar a Jerusalém, que foi reconstruída como a colônia romana Aelia Capitolina, e uma nova comunidade de seguidores de Jesus floresceu, porém não eram mais os “nazarenos” e, sim, cristãos helênicos. O termo “fariseu” perdeu razão de ser, visto que não havia mais outra seita da qual se distinguir, e o judaísmo juntou seus cacos em torno da liderança dos rabinos. Comunidades de judeus cristãos – como os ebionitas – sobreviveram por séculos, porém passaram a ser vistas como heréticas pelos de origem gentia, cada vez mais numerosos. Cristianismo e judaísmo agora eram duas religiões independentes;

    57. Meados do século II – início do IV – Proto-ortodoxia: diversos “sabores” de cristianismo floresceram na primeira metade do II século da Era Comum. Desses começou a se destacar o conjunto de comunidades que:

      1. Não era judaizante: não afastando, assim, os possíveis prosélitos que até apoiariam a mensagem cristã, mas não práticas judaicas, como circuncisão ou restrições dietética;

      2. Se julgava herdeiro do judaísmo: alegando ser a concretização de uma antiga tradição, apropriando-se de sua respeitabilidade;

      3. Permitia voos intelectuais mais altos para adquirir um corpo de pensadores próprio;

      4. Não exagerava nesses mesmos voos, ao ponto de se tornar uma religião só para secretos iniciados;

      5. Possuía uma estrutura hierárquica que permitisse uma atuação organizada por todo Império Romano e além.

      Tal grupo daria origem ao que hoje conhecemos como catolicismo romano;

    58. 150 – 160 d.C. – obras de Justino, o Mártir: um dos primeiros “Pais Apologéticos” relatou em seu Diálogos com o Judeu Trifão (cap. XLIX) uma opinião sobre João Batista extremamente próxima a da atual ortodoxia, com ele fazendo as vezes de Elias para o primeiro advento de Jesus, enquanto o original viria apenas no segundo. Contudo, Justino não parece fazer uso do quarto evangelho, sendo até hoje discutido se ele, pelo menos, conhecia tradições joaninas;

    59. 175 – 185 d.C. – Contra as Heresias, de Ireneu de Lião: estabelece o quarto evangelho como sendo canônico (C.E. III.11-1,8). Pela mesma época, o Diassetaron – uma edição harmônica dos evangelhos – faz uso de João e esse mesmo evangelho é relacionado no “Cânon Muratoriano”;

    60. ca. 232 – ca. 248 d.C. – Comentário sobre o Evangelho segundo João, de Orígenes: é apresentada uma combinação do quarto evangelho com os sinópticos (VI.7) para estabelecer como João Batista poderia ser e, ao mesmo tempo, não ser Elias, utilizando a natividade de Lucas como o cerne de sua interpretação;

    61. 313 d.C. – Edito de Milão: Constantino (regente do ocidente) e Licínio (oriente) concedem liberdade de culto a todas as religiões do império, cessando as perseguições aos cristãos, dos quais o primeiro se aproxima;

    62. 324 d.C. – Concílio de Niceia: Constantino, já como único imperador do mundo romano, convoca a primeira reunião geral de todos os bispos da ortodoxia para discutir a relação entre Jesus e o Pai. Seria o Filho tão divino quanto o Pai (do grego homoousius, “de mesma substância”) ou sua divindade seria em algum grau inferior e subordinada à dEle (homoiousius, “de substância similar”), como advogavam os partidários do padre alexandrino Ário? A vitória esmagadora coube aos homoousianos que, com o aval do imperador, reprimiram seus opositores. Contudo, Constantino foi gradualmente reabilitando clérigos arianos e deles se rodeando, ao ponto de ter sido batizado, no leito de morte, por um de seus bispos. Os sucessores de Constantino se aliaram aos arianos e as disputas político-teológicas entre a Corte e as províncias se estenderam por décadas, principalmente no oriente, onde diversas variedades de arianismo competiam com os homoousianos e ente si;

    63. 361 – 363 d.C.: Juliano, o Apóstata, como imperador. Em seu curto reinado houve uma já inviável tentativa de restaurar o paganismo como religião de Estado, embora nominalmente permacesse tolerante;

    64. 378 – 395 d.C.: Teodósio como imperador do Oriente e, por fim, de todo império (393 -395 d.C). Originário da Espanha, Teodósio foi criado dentro do credo no Ocidente, o niceno, o qual determinou que tornasse a religião oficial do império no Edito de Tessalônica (380 d.C.). Não apenas o arianismo se tornava ilegal, como paganismo perdia a proteção oficial. Após sua morte, o império foi dividido entre seus dois filhos – Arcádio (oriente) e Honório (ocidente) – e não mais ficaria sob as mãos de uma única pessoa;

    65. 408 – 420 d.C. – Tratados sobre o Evangelho de João, de Agostinho de Hipona: no quarto tratado, o principal teólogo da época no ocidente expõe uma interpretação quanto ao papel de João Batista e sua relação com Jesus idêntica a de Orígenes, mas agora com a chancela da ortodoxia nicena. Provavelmente, ele apenas relatou ou consolidou uma opinião que já era comum nesse grupo e vinha se desenvolvendo desde o século II.

    E assim, partindo de um contexto religioso apocalipcista, João Batista foi perdeu sua identidade própria como anunciador da chegada do Filho do Homem e profeta de Reino de Deus para precursor um novo Filho de Homem – Jesus – e fiador de uma nova religião – o cristianismo.

    [topo]

    Um Alerta

    Pintura

    Giovanni Fattori: São João Batista repreendendo Herodes

    Tudo que se disse no capítulo anterior pode estar errado.

    Como dito antes, o quebra-cabeça está incompleto demais. As peças remanescentes foram dispostas conforme as regras de arranjo disponíveis – o tempo (estimado) em que surgiram e o seu contexto social – e o resto ficou a cargo deste autor que vos fala. Não, não foi um amontoado de achismos meus, pois calquei-me em trabalhos de acadêmicos dedicados ao estudo do judaísmo intertestamentário e do cristianismo primevo. Apenas reconheço que não sou o dono da verdade, afinal a História não é uma Ciência exata e ela sempre permitirá a existência de um “talvez” em um ou outro ponto em que não há consenso entre os estudiosos. Uma bibliografia diferente – com outras premissas acerca do Jesus e do João Batista Históricos – levaria a resultados divergentes. Também assumo que uma nova descoberta pode mudar tudo que se pensava a respeito de algo. Talvez algum documento dos batistas originais (i.e. antes do gnosticismo mandeano) esteja perdido em algum local ermo, tal como os Pergaminhos do Morto ou a biblioteca de Nag Hammadi. Quiçá haja alguma carta do missionário Apolo, a explicar como ele relacionava Jesus com João, acumulando poeira em algum mosteiro. Torço para que sejam encontrados, por ora, só nos resta aguardar e lidar com o que temos.

    Vale também lembrar que isso de forma alguma autoriza os que discordam das observações aqui feitas de descartá-las em prol de suas próprias opiniões sem que antes as respalde de forma mais sólida que uma assertiva confessional. De qualquer confissão.

    [topo]

    A Malícia de Ontem e a de Hoje

    Pintura

    – Mestre, seria João Batista a reencarnação de Elias?
    – Raça de víboras, quem vos ensinou a criar arapucas em vez de procurar a verdade?

    Uma das minhas passagens preferidas dos evangelhos é Mc 12:13-7 (cf. Mt 22:15-22 e Lc 20:20-6), quando os adversários de Jesus tentam encurralá-lo com um ardil:

    E enviaram-lhe alguns dos fariseus e dos herodianos, para que o apanhassem nalguma palavra. E, chegando eles, disseram-lhe: Mestre, sabemos que és homem de verdade, e de ninguém se te dá, porque não olhas à aparência dos homens, antes com verdade ensinas o caminho de Deus; é lícito dar o tributo a César, ou não? Daremos, ou não daremos?

    Mc 12:13,14

    Percebem que a abordagem começa com um elogio fingido a fim de posarem, para o público, como moderados e respeitosos a alguém que detestam. A segunda e principal parte é uma arapuca: caso Jesus diga que sim, então é um traidor do próprio povo por fazer o jogo do dominador estrangeiro; a outra opção o torna automaticamente inimigo de Roma, passível de prisão imediata. A resposta de Jesus foi impagável:

    Então ele, conhecendo a sua hipocrisia, disse-lhes: Por que me tentais? Trazei-me uma moeda, para que a veja. E eles lha trouxeram. E disse-lhes: De quem é esta imagem e inscrição? E eles lhe disseram: De César. E Jesus, respondendo, disse-lhes: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. E maravilharam-se dele.

    Mc 12:15-7

    Ou seja, num tremendo golpe de gênio, Jesus devolveu a responsabilidade de tomar alguma ação à mão dos seus detratores e ainda por cima não respondeu à pergunta. Não posso deixar de dizer que a lapidar frase “dai a César o que é de César…” é tida como autêntica de Jesus.

    Bem, por que estou fazendo tal desvio, já que este episódio nada tem a ver com João Batista? Por causa de uma indagação espírita que, guardadas as devidas proporções, reproduz perfídia similar à da “moeda do tributo”:

    João Batista era (mesmo) Elias?

    Se um membro da “ortodoxia cristã” disser que sim, então tem de admitir que ele seria uma reencarnação do profeta; e a outra opção – que veio no espírito e poder do antigo profeta – implica em dizer que Jesus não é o Messias, afinal Elias teria de “vir em primeiro”. Depois dessa, tenho que dar uma pausa

    Face Palm

    Bem, primeiramente, essa é uma tática duvidosa, pois só afeta um grupo: cristãos presos ao literalismo bíblico e sem a menor bagagem sobre sua própria teologia, um demográfico um tanto comum em fóruns de internet. Pegue-se alguém com melhor preparo e as coisas não serão tão fáceis assim. O pior acontece quando a outra parte sequer se enquadra nos paradigmas judaico-cristãos: para este que vos escreve, por exemplo, tal pergunta é tão significativa quanto seria “Maria permaneceu virgem após o parto?” ou “o Espírito da Verdade era Jesus?“.

    Em segundo lugar, essa pergunta é uma falsa bifurcação pelo simples fato de ser anacrônica: não havia, no primeiro século da Era Comum, qualquer obrigatoriedade de Elias voltar antes do Messias. Um livro que se consolidou no cânon – Malaquias – assegura o retorno dele. Entretanto, se olharmos bem seu texto (Ml 3:1), ele viria preparar o terreno para o próprio Deus, em vez do Messias, como propôs o autor de Eclesiástico. Incluindo-se os livros apócrifos e sectários, então o Reino de Deus poderia vir sem anunciante (II Baruque) ou anunciado por outros profetas (Preceito de Damasco, IV Esdras); não se podendo esquecer, claro, do exemplo concreto da aclamação de Bar Kochba por Rabi Akiva.

    Por Malaquias ter sido bem aceito entre os fariseus – tanto que permaneceu no cânon judaico criado por eles -, o processo de identificação entre Elias e João Batista progrediu na medida em que as comunidades nazarenas se opunham a esse grupo. Elas não criam ainda numa Nova Aliança a superar a primeira, pois não constituíam uma religião separada; tampouco numa Segunda Revelação integrante de um plano de longuíssimo prazo. Elas buscavam por aceitação.

    Mal comparando, elas guardavam certa semelhança com algumas figuras atemporais:

    • Um novo rico a exibir de forma espalhafatosa ou brega sua fortuna recém auferida;

    • Um ex-detento a fazer demonstrações constantes de prestatividade e honestidade;

    • Um prosélito mais fervoroso e praticante que os nascidos num grupo religioso.

    Todos têm algo em comum: incomodam quem lhes cerca. Um novo rico é a evidência ambulante de que o motor principal da economia já pode ter trocado de mãos; é vergonhoso para um veterano perceber que um novato possui melhor conhecimento que ele sobre o ambiente cultural onde cresceu. Não lhes tardam a chegar aos ouvidos frases depreciativas e preconceituosas como “o que vem fácil, vai fácil“, “uma vez bandido, sempre bandido” ou “vai virar ateu na primeira decepção“.

    A recém nascida seita dos nazarenos enfrentou desafio semelhante, visto que ao se expandir entre os am ha’aretz – o inculto “povo da terra” -, muitas vezes indisposto com a autoridade rabínica -, ela começou a constranger sacerdotes e doutores da Lei. Segundo Atos, as reações mais extremas envolviam perseguições e até mesmo assassinatos de lideranças, porém um combate menos sangrento, apesar de igualmente feroz deve ter sido travado no campo das ideias, afinal não havia motivo algum para reconhecer Jesus como o Messias. Um nazareno poderia muito bem ser alvo de chacota ou escárnio de um fariseu ou escriba por julgar como Messias alguém cuja morte foi ignóbil e, portanto, um fracasso, visto que seu reinado deveria ser eterno (II Sm 7:12, Dn 7:13-4).

    Não bastava aos nazarenos apenas terem em seu íntimo a convicção de Jesus era o Messias, era preciso fazê-lo parecer, também, a fim de fazer frente a outros grupos bem mais cosolidados que o deles. O mais antigo registro dessa reconstrução apologética de Jesus foi Marcos que, de um jeito tímido, mostrou um Messias incompreendido. As assertivas messiânicas se radicalizaram na medida em que o cristianismo se espalhava entre os gentios (Lucas) ou tinha de enfrentar a crescente dominância dos fariseus na Judeia (Mateus), até que surgiu uma ruptura (João) desistindo de convencer os outros da unção de Jesus para aclamá-lo como algo muito maior: o Verbo de Deus.

    Conforme o papel de Jesus evoluía, atributos a ele eram acrescentados. Podiam ser prodígios, profecias cumpridas e até uma paternidade especial. Numa listagem de atributos esperados do Messias, seus novos seguidores buscaram assinalar item a item e um deles era reaparição de Elias no fim dos tempos. Não era obrigatório à época, mas contava pontos. No hipotético evangelho de Q, João Batista não tinha ainda essa identificação e a disparidade entre Mt 11:12-15 e Lc 16:16 sugerem que a comunidade mateana tomou alguma “licença poética” para si. A Identificação começa com a catástrofe da Grande Revolta Judaica, quando os batistas deixaram de ser rivais significativos e puderam, portanto, tornar-se ferramenta para a criação da mitologia cristã. Em Marcos, seu líder de rival passou a ser Elias, embora de um jeito incompreendido para seu contemporâneos, assim como Jesus não fora um Messias de modo claro e evidente.

    Vale lembrar que Marcos é o mais antigo, enxuto e menos simbólico dos evangelhos. Possui apenas baixa cristologia, diria até um modo adocionista: Jesus teria se tornado Filho de Deus apenas por ocasião do batismo, não sendo, portanto, superior a João Batista antes disso. Com o surgimento dos outros dois sinópticos, outras tradições cristãs foram agregadas ao fio narrativo de Marcos, dentre elas, contos sobre a Natividade. Aí a relação entre João e Jesus ganha um complicador, pois o status especial de Jesus é assinalado desde o seu nascimento em razão da concepção virginal realizada pelo Espírito Santo. Então, como explicar que alguém inferior (João Batista) iniciasse quem lhe era superior (Jesus)? Mateus e Lucas deram, cada um, sua própria solução.

    Dos evangelhos, Mateus é o que mais insiste no caráter judaico de Jesus e seu ministério, enfatizando muito o cumprimento de profecias, a prática da Lei (ou o entendimento que tinha dela) e seu antagonismo com os fariseus. A identificação entre João Batista e Elias é bem mais enfática que a de Marcos, afinal era mais uma profecia a contar pontos; contudo, como seu antecessor, continua sem dar uma explicação sobre sua origem (o imortal Fineias/Elias?). Por ocasião do batismo, a justificativa, ainda que vaga, dá-se também no afã de cumprimento de desígnios: “porque assim nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3:15). Assim como Mateus, Lucas acrescenta à narrativa de Marcos os ditos de Q, uma genealogia que passa por Davi e a natividade. Há relatos, porém, que lhe são únicos, como algumas falas de João Batista e uma natividade própria para ele. É possível que tivesse acesso a fontes batistas sobre a vida do Imersor, contudo – fictícia ou não – sua biografia foi cristianizada: as natividades de Jesus e João se entrelaçam e nesse momento Lucas subordina João a Jesus. O preço pago foi não poder mais relacionar João com o Elias original, mas, sim, “no espírito e no poder de Elias”. Ou, quem sabe, muito pelo contrário, esse evangelista teria feito “uma limonada a partir de um limão” ao transformar um fato difícil que não podia esconder (a origem recente de João Batista) numa solução para outro constrangimento (o batismo de Jesus por João).

    A construção da mitologia cristã prosseguiu para além da cronologia contida nos evangelhos. A morte e suposto fracasso de Jesus como Messias foram reelaborados pela aceitação da crença em sua ressurreição, ascensão aos Céus e futura volta (parousia). Sua morte foi encarada como um sacrifício ofertado, parte de um plano maior para a salvação de toda a humanidade (cf.Romanos e Hebreus), fazendo de Jesus tanto oferenda como sacrifício, aproximando-o nesse aspecto da versão sacerdotal do Messias. Paralelamente, o ínterim entre a ascensão e o fim dos tempos era a oportunidade necessária para seus apóstolos e discípulos espalharem a “boa nova” e para Elias, desta vez o original (cf. Lucas 9:28-30; 24:1-7/Atos 1:10-1), preparar o terreno. O retorno de Jesus também sofreu a evolução conforme a perseguição aos cristãos crescia, partindo de uma tomada de poder aparentemente pacífica na Era Apostólica (cf. I Cor 15:24,25), como a dos Salmos de Salomão, para a entrada triunfal de um Messias guerreiro no livro de Apocalipse (Ap 19:11-16). Conforme o tempo passava, a geração que conheceu Jesus e seus discípulos originais se esvaía. O Reino de Deus tardava em chegar até que o senso de urgência dos apóstolos deixou de fazer sentido. No quarto evangelho, o mais tardio deles, o Reino já não era mais “deste mundo” (Jo 18:36) e, portanto, já não havia mais razão para Elias voltar. Nem para João Batista ser identificado com ele.

    Vale lembrar que esse desenvolvimento não foi linear em toda as suas etapas. Pelo contrário, o cristianismo de se desenvolveu como um arbusto ramificado desde o início. Alguns ramos não citados acima mantiveram-se firmes no compromisso firmado na Primeira Aliança, exigindo que, antes de ser cristão, era preciso ser (ou tornar-se) judeu. No caminho oposto, outros, como Marcião, quiseram romper com a herança judaica e considerar apenas o Pai de que Jesus falava como Deus genuíno e tratar o Javé dos antigos hebreus como um demiurgo inferior. Os gnósticos, como uma terceira via, aprofundaram ainda mais essa ideia em sofisticados sistemas cosmológicos e místicos. Quem venceu a guerra “por corações e mentes” foi o grupo que evitou todos esses extremos e procurou fazer um grande credo de compromisso: o que hoje chamamos de proto-ortodoxia cristã. Estabelecendo os evangelhos em quatro e um conjunto autoritativo de cartas, seus pensadores procuraram criar uma teologia capaz uniformizar, dentro do possível, o que jamais deixou de ser uma enorme colcha de retalhos. No caso da identidade entre Elias e João Batista, temos Mateus afirmando enfaticamente que um era o outro num extremo e o quarto evangelho negando com a mesma veemência na ponta oposta. Como fiel da balança, escolheu-se Lucas, com seu “Espírito e Poder”, pois tal concepção permitia a João Batista ser Elias e ao mesmo tempo não o ser.

    Mas a profecia afirmava que o próprio Elias tinha de voltar, não alguém como ele.

    Em terceiro lugar, não há a menor razão para se rejeitar que João Batista fosse Elias de uma forma alternativa, porque já se aceitou que Jesus não era o Messias da maneira esperada. Ao menos em sua primeira vinda. Os judeus rejeitam Jesus como Messias por diversos motivos, dentre eles o fato de o Reino de Deus não ter se concretizado ainda, mas um cristão pode justificar essas inconsistências e atrasos fazendo uma releitura das Escrituras judaicas e usando a crença na ressurreição como fiadora de promessas pendentes. Apologistas espíritas, por sua vez, fazem uma releitura do Novo Testamento para ajustá-lo a sua teologia, porém uma interpretação um tanto literal de Malaquias para garantir a reencarnação de Elias em João Batista. Com duas metodologias discrepantes, acho difícil que se chegue a um consenso.

    João Batista morreu decapitado porque, em sua encarnação como Elias, mandara degolar mais de 400 sacerdotes de Baal.

    Isso me soa como uma versão espírita da falácia post hoc ergo propter hoc (“após isto, então por causa disto”): a simples atribuição de um relacionamento de “causa e efeito” para dois eventos, apenas por eles serem subsequentes, aqui com o agravante de estarem distanciados de alguns séculos. Vou te dizer uma coisa: até que João Batista teve sorte em ser decapitado, dado que outras opções de execução poderiam ser bem piores, como lapidação, eviceramento, crucifixão, etc. A tradição cristã [Atos de Paulo 10:3] diz que o Apóstolo dos Gentios também morreu decapitado, porém teve direito a esse tipo de execução por ser cidadão romano. Mortes cruéis e humilhantes ficavam para a ralé, como a de um tal de Jesus de Nazaré. Que teria ele feito na encarnação anterior para merecer tanto?

    Jesus era um espírito evoluidíssimo e não tinha dívidas a pagar. Seu martírio foi algo necessário para o cumprimento de sua missão, como exemplo de perseverança e sacrifício para os discípulos < ou coloque qualquer outra desculpa que se queira>).

    Ok, então por que não poderia valer o mesmo raciocínio para João Batista? Ele teria de morrer para que Jesus crescesse, simples assim. Ademais, por que se deveria aceitar uma visão tão tacanha da “lei” de ação e reação? O esforço que o Batista despendeu na seara do Amor não deveria amortecer a dívida a ser paga pela Dor? Seus critérios são bem arbitrários e convenientes.

    Ora, Jesus disse que João Batista era Elias. Se ele falou, está falado!

    Por acaso você é adepto da inerrância bíblica? Caso sim, não tenho o que discutir contigo. Do contrário, eis algumas perguntas: possuis em tuas mãos alguma antiga tabuleta de cera contendo a transcrição estenográfica dessa fala atribuída a Jesus? És membro de algum grupo de pesquisa em viagens no tempo, ao estilo do livro Operação Cavalo de Troia, e já foi à Judeia do primeiro século a fim de registrar tudo em equipamentos modernos? Acho meio difícil. Quem disse isso foi Marcos, que foi exacerbado por Mateus e reformulado por Lucas. Há, também, a possibilidade de sua “inerrância” ser seletiva. E, ainda que Jesus tivesse dito isto, poder-se-ia acrescentar mais uma pergunta: ele era Elias de qual modo?

    Ademais, não custa lembrar que já no período pré-literário (30 – 65 d.C.) era encontrada em círculos cristãos a crença numa segunda vinda de Jesus, uma oportunidade teológica e tanto para emendar as pontas soltas de seu primeiro ministério, entre elas a vinda de Elias (o original, dessa vez).

    Jesus deu diversas mostras do retorno de Elias nos evangelhos. Esse pensamento era compreendido pelos apóstolos e transmitido por eles, mas não tinham conhecimento profundo de como retornariam os profetas, ou melhor o processo reencarnatório. Foi justamente isso que Jesus nos queria ensinar, mas que não estávamos ainda preparados para receber.

    Sem petições de princípio, por favor! Sequer ficou provado por A + B que João Batista era tido por Elias reencarnado (muito menos se era essa a intenção de Jesus) e já está usando isso em suas conclusões. Se está “jogando para a torcida”, favor procurar a arquibancada correta.

    Você também não tem autoridade para dizer que ele não o era, ou que não há reencarnação na Bíblia!

    Uma autoridade da qual nunca me arvorei, como certos autoproclamados biblistas do meio espírita, porém com objetivo oposto. Por outro lado, considero que tenho certa habilidade em detectar imposturas, como a exigência em demonstrar negativas usada como uma “inversão do ônus da prova” disfarçada. Imagine só como seria se nossos tribunais exigissem que os réus provassem não serem culpados? As caças às bruxas dos religiosos ou os tribunais jacobinos da França revolucionária eram assim. Deu no que deu. Em tempos mais saudáveis, o réu é considerado inocente (mesmo que não o seja de fato), e cabe à promotoria a tarefa de juntar evidências a favor de sua culpabilidade. A defesa, por sua vez, pode refutar o cerne do argumento da promotoria, ou demonstrar que as evidências apresentadas por ela não permitem um juízo “para além de qualquer dúvida razoável”.

    Bem, como estamos nesse balanço? Seria possível que os judeus do primeiro século ou os primeiros cristãos tomassem João Batista pela reencarnação de Elias? Sim, seria possível. Provável? Não.

    Possível porque mesmo num contexto não reencarnacionsita (neste caso, devido à urgência apocalíptica), a reencarnação pode ser cogitada para casos especiais. Um exemplo moderno seria o de grupos xiitas que aceitam a reencarnação de certos imãs, embora cogitem a vida única para todo o restante.

    (Aposto que muitos citarão o parágrafo acima e esquecerão todo o restante do artigo, paciência.)

    Improvável porque os próprios relatos evangélicos dão a entender que essa não seria a primeira opção. Marcos deixa nas entrelinhas que João Batista não era tido por Elias pelo grosso dos seus contemporâneos (até porque fracassou…). Tanto ele quanto Mateus não lhe dão uma origem, então o que seus supostos primeiros leitores deveriam esperar: uma reencarnação – crença cujas evidências dentro no judaísmo mainstream datam da Idade Média – ou no retorno de Fineias/Elias – que foi relatado por Orígenes (séc. III) como crença difundida entre os judeus e pode ser rastreada até o primeiro século (cf. Liber Antiquitatum Biblicarum)? Quando Lucas deu lhe uma origem e filiação, por que ele não foi mais assertivo em dizer que João era Elias reencarnado em vez de possuidor de atributos dele (“espírito e poder”)?

    Assim, julgo como falsa a tese de que João Batista fosse originalmente tomado por Elias reencarnado, ao menos até que ela seja corroborada por evidências e análises mais contundentes que simples releituras do Novo Testamento ou argumentos falaciosos.

    O regresso de Elias como João Batista, na época de Jesus, era tido como sendo por meio da ressurreição, mas o Consolador Prometido nos elucida o processo de reencarnação. Como a reencarnação não era compreendida no primeiro século da idade cristã, os apóstolos não estavam preparados para receber o que Jesus ainda tinha para nos revelar. A vinda do Consolador Prometido também era necessária após um amadurecimento da humanidade, a fim de que pudéssemos entender certas verdades, não reveladas nos dias do Mestre Jesus. Ele mesmo disse: “Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam capazes de suportar” (Jo 16:12).

    Desconheço a surata do Alcorão em que Maomé explicou a reencarnação. Se não entendeu a ironia, clique no link anterior para para descobrir o quanto há de “narcisismo teológico” nessa história de “Consolador Prometido”.

    Tomar partido na questão quanto ao regresso do profeta Elias como João Batista por meio de um processo reencarnatório ou não é uma posição que mesmo céticos têm que tomar. Este último posicionamento o tornará um fundamentalista, ou aceite o processo de reencarnação. Não há meio termo, mesmo sendo cético. Qual é o teu posicionamento?

    “Você já parou de cometer assassinatos em série, sim ou não? Não há meio termo.”

    Percebeste o efeito desastroso cruzamento de uma falsa dicotomia com a exigência de uma resposta simples para uma pergunta complexa? Em ambos os casos, a dicotomia surge por estar se presumindo algo que reduza a dois o número de opções. No exemplo que dei, você já teria tido ao menos um surto assassino; já na sua pergunta, uma profecia teria de ter sido cumprida e de um jeito específico. Para nossa sorte, não há razão alguma para assumir esses pressupostos.

    Ainda que o ponto que eu defenda guarde semelhança com aqueles a quem chama de “fundamentalista”, isso não me torna um deles. A ortodoxia cristã é um pacote, um combo, e o fato de aceitar um dos itens de forma alguma significa que levei todos os demais. Se não, voltaríamos ao tempo das querelas teológicas dos séculos IV e V, quando alguém que cogitasse um término para a danação dos pecadores era acusado de “origenismo”; ou ficaríamos na mesma situação dos “comunistas” do século XX que apenas queriam um pouco mais de justiça social.

    No que diz respeito à identidade João Batista/Elias, não há razão para eu, como cético, tomar posição a respeito disto, pois é uma questão que pertence ao domínio da fé. Como não possuo tal fé, a pergunta se torna sem sentido. O que não posso me esquivar é do personagem histórico, e este desagradará a espíritas e “fundamentalistas”. Há evidência de existiu alguém chamado João Batista na Judeia do começo do primeiro século, que foi influente e posteriormente transformado em precursor do Messias para os herdeiros da seita dos nazarenos. Qual foi o pano de fundo e dinâmica dessa transformação é o desafio que o pesquisador tenta responder. Se você chegou até aqui, pôde perceber que não é nada simples. Apenas os fanáticos reduzem todas as nuances envolvidas a um mero “sim ou não”.

    Peraí, não sou devoto e nem um apaixonado por dogmas e religiões, mas um pesquisador que busca a verdade!

    Eu fico realmente impressionado: você age exatamente do modo que nega. Para começo de conversa, violas o princípio básico de qualquer pesquisador do Jesus Histórico: o Jesus dos evangelhos é o da fé e muito do que é dito lá visa justificar o credo das comunidades em que viveram os evangelistas. O Jesus histórico só é extraído a partir de um senhor cruzamento de dados, análises da época em que viveu e um conjunto de critérios. O resultado, porém, é frustrante para muitos religiosos. Então meu caro, você não é pesquisador coisa nenhuma e, sim, um apologista de seu grupo religioso. Na melhor das hipóteses, és um pesquisador que produziu um Jesus “à sua própria imagem e semelhança”. Você deseja abrir os evangelhos e encontrar um pequeno espelho no canto de cada página.

    (Em construção)
    [topo]

    Notas


    (1) Relembrando rapidamente:

    • Múltipla atestação: refere-se a elementos da vida e dos ensinos de Jesus que se repitam em mais de uma fonte, por exemplo, o fato de ele ter tido irmãos e um grupo seleto de discípulos mais achegados;
    • Conformidade social: refere-se a elementos que se adaptam à realidade cultural e social em que Jesus viveu;
    • Dissimilaridade: refere-se a elementos que não deveriam agradar quem os registrou e, justamente por isso, devem ser genuínos.

    A crucifixão de Jesus é um exemplo claro de episódio que passa pelos três critérios, mas sua ressurreição não passa pela dissimilaridade. Não é que historiadores estejam negando um milagre, apenas dizendo que nada podem afirmar sobre ele. Ele pertence à fé. Da mesma forma, é possível que um elemento presente em uma única fonte tenha sido verídico, mas deveremos averiguar isso de outras formas.

    (2)[Ehrman (1999), cap. VIII, pp. 137-8] e [Ehrman (2008), cap. XVI, pp.258-9]

    (3) [Funk & Hoover, “Gospel of Matthew”, pp. 210-1]

    (4) Na verdade, a palavra grega utilizada para expressar o relacionamento entre as duas (syngenes) pode significar qualquer relacionamento sanguíneo entre pessoas. Segundo a Catholic Encyclopedia, o entendimento de “primas” vem de uma tradição cristã que remonta aos tempos de Hipólito, pelo menos.

    (5) Na verdade, existe uma menção a um Zacarias em Mateus

    Para que sobre vós [escribas e fariseus] caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar.
    Mt 23:35

    Há um outro sacerdote de nome Zacarias que aparece rapidamente em II Cr 24:20-1, tendo sido morto por apedrejamento pouco depois de empossado, no pátio do Templo. O problema é que ele era filho de Joiada, não de Baraquias. O Protoevangelho de Tiago também relata que o Zacarias “pai de João” fora assassinado a mando de Herodes, durante o massacre dos inocentes. Entretanto, esse crime foi cometido lado do altar e nada sabemos sobre o avô paterno de João.

    De qualquer forma, esse discurso não deve ser original de Jesus, pois contradiz a pregação para “amar os inimigos”, além que exigir que filhos paguem pelos pecados dos antepassados.

    (6) Ainda que tivesse discordâncias com o antigo mestre, o Jesus Histórico poderia muito bem não tê-lo visto necessariamente como um competidor por “corações e mentes”. Essa corrida pode muito bem ter começado após a morte de ambos.

    (7) Cf. [Funk & Hoover, “Matthew”, p. 180] e [Funk & Hoover, “Luke”, pp. 302-3]

    (8) Há indícios de que os primeiros cristãos retornaram à prática de jejuns já pela fundação das primeiras comunidades helênicas:

    E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram. E assim estes, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre.

    At 13:2-4

    Que os jejuns de vocês não coincidam com os dos hipócritas. Eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana. Vocês, porém, jejuem no quarto dia e no dia da preparação [sexta-feira].

    Didaqué 8:1

    No caso da Didaqué, seu autor queria diferenciar o nascente cristianismo do partido fariseu, a quem chama de “hipócritas”.

    [topo]

Para saber mais

– Charlesworth, James H.; The Old Testament Pseudepigrapha, Vol. I, Doubleday, 1983.Z

-Ehrman, Bart D.; Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millenium, Oxford University Press, 1999.

_______, The New Testment: A Historical Introduction to the Early Christian Writings, Oxford University Press, 4a. ed., 2008.

– Epiphanius of Salamis, Panarion, livros II e III (Sects 47-80 -, De Fide), tradução inglesa de Frank Williams, Nag Hammadi and Manichaean Studies, 1993.

– Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Novo Século, 1999.

– Flusser, David; O Judaísmo e as Origens do Cristianismo, vol. I e III, Imago, 2000 e 2002.

– Funk, Robert W., Hoover, Roy W. & Jesus Seminar; The Five Gospels – What did Jesus really say?, Harper San Francisco, 1993.

– Ginzberg, Louis; The Legends of the Jews, Sacred Texts, acessado em 20/08/2015.

– Gruber, Daniel; Rabbi Akiba’s Messiah, Elijah Publishing, 2013.

– Klauck, Hans-Josef; Evangelhos Apócrifos, Loyola, 2007.

– Ireneu de Lião; Contra as Heresias, Coleção Patrística, vol. IV, Paulus, 2a. edição.

– Mack, Burton L.; O Evangelho Perdido: O Livro de Q e as Origens Cristãs, tradução de Sergio Alcides, Imago, 1994.

– Origen; Commentary on the Gospel according to John, Books 1 – 10, Coleção The Fathers of the Church, vol. LXXX, tradução em língua inglesa de Ronald E. Heine, The Catholic University of America Press, 1989.

– Pereira, Rosalie Helena de Souza; A Questão da Origem dos Mandeus, os Últimos Gnósticos, Revista de Estudos da Religião, junho de 2009. pp. 92-120.

– Tricca, Maria Helena de Oliveira; Apócrifos: os Proscritos da Bíblia, vol. III, Mercuryo, 1995.

– Vermes, Geza; Os Manuscritos do Mar Morto, Mercuryo, 4a. ed., 2004.

– Vassiliadis, Petros; The function of John the Baptist in Q and Mark, publicado em Theologia, vol. 46, pp. 405-413, Grécia, 1975

– Wilkinson, Josepha Josephine; John the Baptist: A Life and Death, Kindle Edition, 2012.
[topo]

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