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A Fonte da Vida

16 de abril de 2017 Deixe um comentário

Pingo d'água

    Índice

    Além de fundamental para a existência orgânica, a água comumente esteve associada à ideia pureza. Na dualidade Imundície x limpeza recorrente no antigo judaísmo, a água teve papel fundamental como elemento purificador, o que também foi mais um legado da antiga religião ao cristianismo.

    Lavar-se: mais que um Dever, um Ritual

    Lavagem das mãos

    Lavar as mãos antes da oração: um serviço a Iahweh.

    Para o povo judeu, pureza do corpo é fundamental desde a época do Primeiro Templo. Atesta isso o livro de Levítico, o único do Pentateuco a ser praticamente desprovido de narrativa histórica, centrando-se quase exclusivamente na legislação da vida religiosa, civil, dietética e diária. Diversas são suas instruções de como lidar com os que estão doentes, envolvendo diversas práticas que hoje seriam consideradas de higiene e assepsia:

    E todo o animal que anda sobre as suas patas, todo o animal que anda a quatro pés, vos será por imundo; qualquer que tocar nos seus cadáveres será imundo até à tarde.

    E o que levar os seus cadáveres lavará as suas vestes, e será imundo até à tarde; eles vos serão por imundos.

    Lv 11:27,28

    Esta aparenta ser razoável, e surpreende ao estender o entendimento de “fluxo” para emissões naturais da fisiologia do corpo humano.

    Falai aos filhos de Israel, e dizei-lhes: Qualquer homem que tiver fluxo da sua carne, será imundo por causa do seu fluxo.

    Esta, pois, será a sua imundícia, por causa do seu fluxo; se a sua carne vasa o seu fluxo ou se a sua carne estanca o seu fluxo, esta é a sua imundícia.

    Toda a cama, em que se deitar o que tiver fluxo, será imunda; e toda a coisa, sobre o que se assentar, será imunda.

    E qualquer que tocar a sua cama, lavará as suas roupas, e se banhará em água, e será imundo até à tarde.

    E aquele que se assentar sobre aquilo em que se assentou o que tem o fluxo, lavará as suas roupas, e se banhará em água, e será imundo até à tarde.

    E aquele que tocar a carne do que tem o fluxo, lavará as suas roupas, e se banhará em água, e será imundo até à tarde.

    Quando também o que tem o fluxo cuspir sobre um limpo, então lavará este as suas roupas, e se banhará em água, e será imundo até à tarde.

    Lv 15:2-8

    Também o homem, quando sair dele o sêmen da cópula, toda a sua carne banhará com água, e será imundo até à tarde.

    Também toda a roupa, e toda a pele em que houver sêmen da cópula se lavará com água, e será imundo até à tarde.

    E também se um homem se deitar com a mulher e tiver emissão de sêmen, ambos se banharão com água, e serão imundos até à tarde.

    Lv 15:16-18

    O capítulo XIII é dedicado à distinção da lepra de feridas comuns. Caso alguém fosse diagnosticado com ela pelo sacerdote, era declarado “imundo” e tinha de viver apartado sociedade. O capítulo seguinte trata de sua reintegração em caso de remissão da doença, não sem antes passar por algumas limpezas finais:

    Esta será a lei do leproso no dia da sua purificação: será levado ao sacerdote,

    E o sacerdote sairá fora do arraial, e o examinará, e eis que, se a praga da lepra do leproso for sarada,

    Então o sacerdote ordenará que por aquele que se houver de purificar se tomem duas aves vivas e limpas, e pau de cedro, e carmesim, e hissopo.

    Mandará também o sacerdote que se degole uma ave num vaso de barro sobre águas vivas,

    E tomará a ave viva, e o pau de cedro, e o carmesim, e o hissopo, e os molhará, com a ave viva, no sangue da ave que foi degolada sobre as águas correntes.

    E sobre aquele que há de purificar-se da lepra espargirá sete vezes; então o declarará por limpo, e soltará a ave viva sobre a face do campo.

    E aquele que tem de purificar-se lavará as suas vestes, e rapará todo o seu pelo, e se lavará com água; assim será limpo; e depois entrará no arraial, porém, ficará fora da sua tenda por sete dias;

    E será que ao sétimo dia rapará todo o seu pelo, a sua cabeça, e a sua barba, e as sobrancelhas; sim, rapará todo o pelo, e lavará as suas vestes, e lavará a sua carne com água, e será limpo,

    E ao oitavo dia tomará dois cordeiros sem defeito, e uma cordeira sem defeito, de um ano, e três dízimas de flor de farinha para oferta de alimentos, amassada com azeite, e um logue de azeite;

    E o sacerdote que faz a purificação apresentará o homem que houver de purificar-se, com aquelas coisas, perante o Senhor, à porta da tenda da congregação.

    Lv 14:2-11

    De fato, cadáveres, conforme de degradam, tornam-se criadouros de germes e focos de doenças; sangue e sêmen podem ser infectantes caso seu emissor esteja doente. Faz sentido isolar o portador de uma doença (tida por) contagiosa antes que ela se torne uma praga. Contudo, Levítico traz uma série de restrições que são irrelevantes do ponto de vista medicinal:

    • Não usar um tecido feito com dois tipos de fios (19:19);

    • Não cortar o cabelo em redondo e aparar a barba dos lados (19:27);

    • Não comer carne de porco, camarão, mariscos, coelho, etc (11:1-12);

    • Não comer os frutos dos três primeiros anos de colheita (19:23).

    Por outro lado, tudo faz sentido se observarmos estes versículos:

    Não fareis segundo as obras da terra do Egito, em que habitastes, nem fareis segundo as obras da terra de Canaã, para a qual vos levo, nem andareis nos seus estatutos.

    Fareis conforme os meus juízos, e os meus estatutos guardareis, para andardes neles. Eu sou o Senhor vosso Deus.

    Lv 18:3,4

    Ou seja, as diversas regras que Levíticos estipula existem para realçar a distinção entre os hebreus e os povos que os circundavam e, claro, garantir que pouco misturassem. Ao tornar tabu os pratos prediletos dos vizinhos, participar de uma confraternização com pagãos fica impraticável. Não adotar suas indumentárias torna hebreus e gentios distinguíveis de longe, já a constante higiene torna a proximidade com esses últimos desagradável aos primeiros, caso não a seguissem tão à risca. Não misturar tipos diferentes de fios num tecido, de animais num mesmo pasto ou de plantas no campo reforça ainda mais a ideia de segregação entre o Povo Eleito e restante. Em suma, as deliberações de Levíticos – a pureza material entre elas – estava a serviço da criação de uma identidade nacional israelita (1).

    Nos antigos textos hebraicos, três são as formas de purificação pela água: espargimento (aspersão), lavagem (ablução) e imersão. Algum ritual de limpeza tinha de ser aplicado àquele que se encontra-se me estado “imundo”. O fato de ter sido contaminado por alguma impureza não faria alguém automaticamente um pecador, podia-se simples ser algo que lhe aconteceu por estar no lugar errado, na hora errada:

    Esta é a lei, quando morrer algum homem em alguma tenda, todo aquele que entrar naquela tenda, e todo aquele que nela estiver, será imundo sete dias.

    Também todo o vaso aberto, sobre o qual não houver pano atado, será imundo.

    E todo aquele que sobre a face do campo tocar em alguém que for morto pela espada, ou em outro morto ou nos ossos de algum homem, ou numa sepultura, será imundo sete dias.

    Para um imundo, pois, tomarão da cinza da queima da expiação, e sobre ela colocarão água corrente num vaso.

    E um homem limpo tomará hissopo, e o molhará naquela água, e a espargirá sobre aquela tenda, e sobre todos os móveis, e sobre as pessoas que ali estiverem, como também sobre aquele que tocar os ossos, ou em alguém que foi morto, ou que faleceu, ou numa sepultura.

    E o limpo ao terceiro e sétimo dia espargirá sobre o imundo; e ao sétimo dia o purificará; e lavará as suas vestes, e se banhará na água, e à tarde será limpo.

    Nm 19:14-19

    O que deixaria alguém realmente em apuros seria não ter praticado a purificação sabendo de seu dever:

    Porém o que for imundo, e se não purificar, do meio da congregação será ele extirpado; porquanto contaminou o santuário do Senhor; água de separação sobre ele não foi espargida; imundo é.

    Nm 19:20

    [topo]

    A Mediadora de Deus

    Piscina encontrada na comunidade de Qumran

    Piscina de duas saídas, localizada em Qumran [Lawrence, p. 210].

    Se em Levíticos elas aparecem como parte de um conjunto de instruções para a vida cotidiana, outros livros apresentam a purificação como uma preparação simbólica a algo superior. Em Êxodo, Aarão e seus filhos lavaram pés e mãos antes de iniciar seus serviços na tenda do tabernáculo:

    E falou o Senhor a Moisés, dizendo:

    Farás também uma pia de cobre com a sua base de cobre, para lavar; e a porás entre a tenda da congregação e o altar; e nela deitarás água.

    E Aarão e seus filhos nela lavarão as suas mãos e os seus pés.

    Quando entrarem na tenda da congregação, lavar-se-ão com água, para que não morram, ou quando se chegarem ao altar para ministrar, para acender a oferta queimada ao Senhor.

    Lavarão, pois, as suas mãos e os seus pés, para que não morram; e isto lhes será por estatuto perpétuo a ele e à sua descendência nas suas gerações.

    Ex 30:17-21

    O salmista (Sl 26:5-7) deixou transparecer que esse procedimento era adotado também no Templo de Jerusalém ao tempo de Davi e o historiador Flávio Josefo também escreveu nesse sentido (2). No contexto cotidiano, o ato de lavar das mãos chegou a ser ritualizado já no período intertestamentário pela seita dos fariseus, como sugere Mc 7:3, já a lavagem dos pés permaneceu como parte de um ritual de hospitalidade (3).

    Em Números, os levitas precisam ser purificados antes da execução de seu ofício:

    E falou o Senhor a Moisés, dizendo: Toma os levitas do meio dos filhos de Israel e purifica-os;

    E assim lhes farás, para os purificar: Esparge sobre eles a água da expiação; e sobre toda a sua carne farão passar a navalha, e lavarão as suas vestes, e se purificarão.

    Então tomarão um novilho, com a sua oferta de alimentos de flor de farinha amassada com azeite; e tomarás tu outro novilho, para expiação do pecado.

    Nm 8:5-8

    Fora do Pentateuco, uma nova dinâmica de purificação surge: o próprio Deus procedendo a limpeza física por meio da ritual. O Segundo Livro de Reis, por exemplo, traz um caso interessante de cura mediante ritual de purificação:

    E Naamã, capitão do exército do rei da Síria, era um grande homem diante do seu Senhor, e de muito respeito; porque por ele o Senhor dera livramento aos sírios; e era este homem herói valoroso, porém leproso.

    E saíram tropas da Síria, da terra de Israel, e levaram presa uma menina que ficou ao serviço da mulher de Naamã.

    E disse esta à sua senhora: Antes o meu senhor estivesse diante do profeta que está em Samaria; ele o restauraria da sua lepra.
    (. . .)

    Veio, pois, Naamã com os seus cavalos, e com o seu carro, e parou à porta da casa de Eliseu.

    Então Eliseu lhe mandou um mensageiro, dizendo: Vai, e lava-te sete vezes no Jordão, e a tua carne será curada e ficarás purificado.

    (. . .)

    Então desceu, e mergulhou no Jordão sete vezes, conforme a palavra do homem de Deus; e a sua carne tornou-se como a carne de um menino, e ficou purificado.

    Então voltou ao homem de Deus, ele e toda a sua comitiva, e chegando, pôs-se diante dele, e disse: Eis que agora sei que em toda a terra não há Deus senão em Israel; agora, pois, peço-te que aceites uma bênção do teu servo.

    II Re 5:1-3, 9,10, 14,15

    Embora fosse sírio, Naamã era um homem de valor e serviria ao propósito de propaganda de Eliseu (II Re 5:8). Outras duas passagens chamam atenção: uma é um salmo de Davi a clamar por sua purificação:

    Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e mais branco do que a neve serei. (…) Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto.
    Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo.

    Sl 51(50):7,10-1

    A segunda, a promessa de restauração da Nação após o jugo estrangeiro:

    Pois eu os tirarei das nações, os ajuntarei do meio de todas as terras e os trarei de volta para a sua própria terra. Aspergirei água pura sobre vocês, e vocês ficarão puros; eu os purificarei de todas as suas impurezas e de todos os seus ídolos. E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis.

    Ez 36:24-7

    Todas apresentam em comum uma limpeza ritual, representada pela ação da água, acompanhada por outra de cunho moral, propiciada pelo Espírito do próprio Deus, como uma permanente presença sua junto ao purificado. Esse padrão aparece repetidas vezes nos Manuscritos do Mar Morto, preservados nas cavernas de Qumran, com ocasiões em que a purificação é feita pelo próprio Espírito divino:

    Impuro, impuro ele será todos os dias que rejeitar as ordenações de Deus (…). Mas pelo espírito do verdadeiro conselho para os hábitos do homem, todas as iniquidades serão expiadas, de modo que ele olhará a luz da vida, e pelo espírito da santidade que o unirá em sua verdade ele será purificado de todas as suas iniquidades; e pelo espírito da probidade e da brandura seu pecado será expiado, e pela submissão de sua alma a todos os estatutos de Deus sua carne será purificada, para que ele possa ser aspergido com água para a impureza e santificar-se com a água da purificação.

    (1QS – III, 5-9)

    Não os deixes entrar na água para tocar a pureza dos homens da Santidade, pois eles não serão purificados a menos que tenham se arrependido de sua maldade.

    (1QS – V, 13-14)

    E então Deus selecionará os feitos do homem, e purificará por Si o corpo do homem consumindo cada espírito do mal nos tecidos de sua carne e purificando-o com o Espírito Santo de todos os seus feitos maus. E lançará sobre ele o Espírito da Verdade, como água para impureza, por causa de todas as abominações de falsidade e por chafurdar no espírito da impureza.

    (1QS – IV, 20-22)

    Agradeço a ti, ó Senhor, por me apoiares com Tua força. Derramaste Teu Espírito Santo sobre mim para que eu não tropece.

    (1QH -VII, 7)

    E sei que o homem não é reto a não ser através de Ti, e por isso Te imploro, pelo espírito que Tu me deste, que aumentes Tuas [benevolências] para com Teu servo [para sempre], purificando-me pelo Teu Espírito Santo, e aproximando-me de Ti pela Tua graça conforme a abundância de Tuas benesses (…)

    (1QH XVI)

    Fonte: [Vermes]

    Um princípio permeia os textos da comunidade do deserto: a pureza moral deve preceder a ritual, i.e., a limpeza da alma pelo Espírito Santo (ou alguma variante) deve ser feita antes da lavagem em água. Isso nos remete a certa personagem dos princípios do cristianismo e contemporânea da seita essênia de Qumran (4).

    [topo]

    A Voz que clama do Deserto

    A Pregação de João Batista

    A Pregação de João Batista, por Domenico Ghirlandaio

    Nas literaturas deuterocanônicas, intertestamentária e pseudoepígrafa continuaram a existir relatos de práticas de pureza ritual para os leitores de épocas mais próximas a de Jesus ou até contemporâneas:

    Aí entrando, Judite pediu que lhe fosse permitido sair à noite e antes do amanhecer, para fazer suas devoções e orar ao Senhor. Holofernes ordenou aos seus escravos que a deixassem sair e entrar como quisesse, durante três dias, para adorar o seu Deus. Cada noite ela saía ao vale de Betúlia e fazia as suas abluções numa fonte. Ao voltar, rogava ao Senhor Deus de Israel que lhe dirigisse os passos para a libertação do seu povo. Entrava em seguida na sua tenda, e ali permanecia pura até que tomava a sua refeição pela tarde.
    Jt 12:5-9

    Quando havia reunido seu exército, Judas alcançou a cidade de Odolão e, chegando o sétimo dia da semana, purificaram-se segundo o costume e celebraram ali o sábado (5).
    II Mac 12:38

    Tudo que eles [os 72 sábios] queriam era fornecido para eles numa escala pródiga (6). Além disso, Doroteu fazia os mesmos preparativos para eles diariamente, tal como era feito para o próprio rei – pois assim ele fora ordenado pelo rei. De manhã cedo, eles apareciam diariamente na corte, e depois de saudar o rei, voltaram a seus próprios lugares. E como é costume de todos os judeus, lavavam as mãos no mar e oraram a Deus, e então se dedicavam a ler e traduzir a passagem em particular sobre a qual estavam encarregados, e eu lhes fiz a pergunta: “Por que foi que lavaram as mãos antes de orar?” E eles explicaram que era um sinal de que eles não haviam feito mal (pois toda forma de atividade é executada por meio das mãos), pois em seu modo nobre e santo consideram tudo como um símbolo de justiça e verdade.
    Carta de Aristeias.

    Quando tinha eu cerca de dezesseis anos, tive a ideia de provar das diversas seitas que existiam entre nós. Havia três delas, a dos fariseus, os saduceus e a dos essências, como frequentemente lhes disse. Pensava que me familiarizando com todas elas, poderia escolher a melhor. Então me entreguei às asperezas, e me submeti a grandes dificuldades, e passei por todas elas. Nem mesmo me contentei em experimentar apenas dessas três, pois quando tomei ciência daquele cujo nome era Bano, que vivia no deserto, e não usava outra vestimenta senão o que crescia sobre as árvores, e não tinha outro alimento senão o que crescesse por conta própria, e se banhava em água fria frequentemente, tanto de dia como de noite, a fim de se purificar. Eu o imitei nessas coisas e fiquei com ele três anos.

    Flávio Josefo, Autobiografia, segundo parágrafo

    Uma novidade, porém, que se afigurou nesse período foi o uso da lavagem não apenas como um ritual de purificação, mas também iniciático. Em Qumran, banhos purificadores estariam destinados aos que abraçassem os preceitos da comunidade durante um longo estágio probatório:

    O homem, ao recusar-se unir-se à [Aliança de] Deus para caminhar na obstinação de seu coração [não permanecerá na] Comunidade de Sua verdade, pois sua alma despreza o ensinamento sábio das leis justas. Ele não será considerado entre os justos por não ter persistido na conversão de sua vida. Seu conhecimento, seus poderes e suas propriedades não serão recebidos no Conselho da Comunidade, pois quem vai arar a lama da iniquidade volta impuro (?). Não será absolvido pelo que seu coração obstinado reconhece como dentro da lei, pois ao buscar os caminhos da luz ele olha para as trevas. Não será considerado entre os perfeitos; não será purificado pela expiação, nem limpado pelas águas purificadoras, nem santificado pelos mares ou rios, nem lavado com nenhuma ablução. Sendo impuro, impuro permanecerá. Pois enquanto desprezar os preceitos de Deus, não receberá nenhum ensinamento na Comunidade do conselho divino.

    (1QS III)

    Mas então, se alguém tem a intenção de ingressar a sua seita, ele não é imediatamente admitido, mas lhe é prescrito o mesmo método de vida que eles usam por um ano, enquanto ele continua excluído; E dar-lhe-ão também uma pequena pá, e o cinturão supramencionado, e a veste branca. E quando ele tiver dado evidência, durante esse tempo, de que pode observar sua continência, aproxima-se mais de seu modo de viver, e se torna participante das águas da purificação; contudo, não se admite ainda que viva com eles; pois após essa demonstração de sua fortaleza, seu temperamento é provado por mais dois anos; e se aparenta ser digno, então eles o admitem em sua sociedade.

    Josefo, Guerras dos Judeus, livro II, cap. VIII

    Numa singela história de amor contada por um livro pseudoepígrafo, é apresentado o ritual executado pela jovem egípcia Asenath quando Deus aceitou sua conversão ao judaísmo, com a qual poderia se casar com José, “o intérprete de sonhos” (7). Ele possuía semelhanças com a liturgia essênia no que diz respeito ao uso da água, veste branca e certos paramentos:

    Encorajada, Asenath ergueu-se e colocou-se em posição ereta. Então o Anjo falou-lhe assim: “Vai agora mesmo ao teu segundo quarto, desveste a roupa de luto como que te cobriste e tira dos teus quadris a veste de penitência! Remove as cinzas de tua cabeça! Lava as mãos e o rosto com água pura e veste uma roupa branca inata! Cinge os teus rins com o cinto puro e duplo e duplo da virgindade! Depois volta para junto de mim, para que eu possa transmitir-te a mensagem pela qual o Senhor me enviou a ti!

    Asenath dirigiu-se a toda pressa ao seu segundo quarto, repositório dos seus adornos, abriu a arca, retirou dela um vestido branco, fino e imaculado, e vestiu-o, depois de se desfazer da vestimenta preta e arrancar a corda e os andrajos de penitência que lhe envolviam os flancos. Depois colocou seu cinto duplo da virgindade, um nos quadris, outro no peito.

    Isso feito, sacudiu as cinzas da cabeça, lavou as mãos e o rosto com água limpa, tomou também um véu fino e belíssimo e cobriu com ele a cabeça.

    José e Asenath. Fonte: [Tricca, p. 117]

    Pela cronologia bíblica, essa história se passa mais de 400 anos antes da narrativa do Êxodo e, por conseguinte, da entrega da Lei. Para os homens, a única regra de conversão explícita é a circuncisão (Gn. 17:9 – 14), inexistindo uma norma para as mulheres. É provável que o autor desse livro tenha transposto práticas já vigentes em sua época (ca. séc. I a.C. – II d.C.), quando o judaísmo contava com simpatizantes e prosélitos na diáspora (cf. At 6:5). Ainda hoje, os convertidos ao judaísmo concluem um longo processo de admissão com um banho de imersão ritual, após, no caso dos homens, submeterem-se à circuncisão (8).

    O que viria a ser o mais famoso ritual de purificação da cultura ocidental ficou registrado pelo historiador judeu Flávio Josefo e, notadamente, pelos evangelhos. Começando pelo primeiro, uma fonte não religiosa e, supostamente, independente (9):

    Alguns judeus pensavam que a destruição do exército de Herodes veio de Deus, de forma justa, como punição pelo que ele havia feito contra João, chamado Batista: pois Herodes o matara, ele que era um homem bom e pregava para que os judeus praticassem a virtude, tanto pela justiça de uns para com os outros, como pela reverência a Deus, para isso vindo ao batismo. Esta lavagem era aceita por ele, não se fosse para terem alguns pecados perdoados, mas para a purificação do corpo. A alma devia estar purificada antes pela retidão. Quando muitos vieram em multidão até João, movidos por suas palavras, Herodes, que temia a grande influência de João sobre o povo, o que permitiria que estimulasse uma revolta (pois pareciam prontos a fazer o que ele dissesse), pensou ser melhor matá-lo. Isto impediria qualquer ação contrária causada por João e não traria dificuldades para o rei, que poderia arrepender-se muito tarde de tê-lo deixado vivo. Assim, foi aprisionado em Maqueronte, castelo que mencionei antes, e morto. Os judeus consideraram que a destruição do exército de Herodes foi uma punição, para mostrar o desagrado de Deus

    Antiguidades Judaicas, Livro XVIII, cap. V

    Josefo atribui a João um codinome que indica a prática de uma lavagem por imersão (de βαπτιστης, “imersor”), e o retrata como um mestre de sabedoria. Os evangelhos – os sinópticos em particular – acrescentaram um caráter apocalíptico a sua mensagem, um conceito desconhecido no universo greco-romanos do público-alvo de Josefo e bem difundido no judaísmo intertestamentário, inclusive na seita de Qumran. Ao contrário das práticas dela, porém, sua imersão não era um ritual a ser executado recorrentemente, nem após uma longa iniciação. Afinal, o juízo já lhe era iminente.

    Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados.
    E toda a província da Judeia e os de Jerusalém iam ter com ele; e todos eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.

    Mc 1:4-5

    E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura?
    Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento;
    E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão.
    E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo.

    Mt 3:7-10

    Dizia, pois, João à multidão que saía para ser batizada por ele: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir?
    Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento, e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque eu vos digo que até destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão.
    E também já está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não dá bom fruto, corta-se e lança-se no fogo.
    E a multidão o interrogava, dizendo: Que faremos, pois?
    E, respondendo ele, disse-lhes: Quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem, e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira.
    E chegaram também uns publicanos, para serem batizados, e disseram-lhe: Mestre, que devemos fazer?
    E ele lhes disse: Não peçais mais do que o que vos está ordenado.
    E uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo.

    Lc 3:7-14

    Portanto, tal como os essênios, João Batista advogava que a pureza moral proporcionada pelo arrependimento e conduta reta deveria preceder a ritual. Outra similaridade chamativa com a seita era a crença de que o Espírito Santo proporcionaria uma purificação mais completa do ser.

    E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas alparcas. Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.
    Mc 1:7,8

    E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo.

    Mt 3:11 (cf. Lc 3:16)

    Descontando-se a considerável cristianização que a figura de João Batista sofreu ao longo do tempo, é provável que, como apocalipsista de sua época, aguardasse a chegada do Filho do Homem (10), descrito em Daniel 7:1-7, I Enoque (cap. 58 e 69) e com paralelos em Qumran (4QFlor e 11QMelch). Diante de tantas semelhanças, há de se perguntar se João Batista teria sido um essênio que largou a clausura? É uma possibilidade, por outro lado, como demonstrado pela literatura intertestamentária, esses elementos já estavam disseminados no ambiente cultural do judaísmo do Segundo Templo. A seita pode apenas tê-los levado para dentro de sua comunidade quando decidiu se apartar do restante da população. Num caso ou no outro, o Batista serviu de elo entre as antigas práticas de purificação dos judeus e a iniciação dos seguidores de seu mais famoso imerso: Jesus de Nazaré.

    [topo]

    Nos Sinópticos, um Começo de Magistério

    Cena do batismo de Jesus em O Filho de Deus (2014)

    Com pequenas diferenças, o batismo de Jesus é retratado de maneira similar nos três sinópticos. Apresentando a de Marcos:

    E aconteceu naqueles dias que Jesus, tendo ido de Nazaré da Galiléia, foi batizado por João, no Jordão. E, logo que saiu da água, viu os céus abertos, e o Espírito, que como pomba descia sobre ele. E ouviu-se uma voz dos céus, que dizia: Tu és o meu Filho amado em quem me comprazo.

    Mc 1:9-11

    Nos sinópticos, o batismo de Jesus marca o início de seu ministério público. Independentemente de uma “voz dos céus” realmente ter sido ouvida ou uma pomba repousado sobre Jesus, seus signos remetem a ideia de uma nova vida, quer por uma nova filiação ou pelo início de uma nova era; afinal uma pomba trouxe a Noé um ramo de oliveira assinalando o fim o dilúvio (8:11) e, em Cantares, a voz das rolas anunciava o fim do inverno (Ct 2:12). Por outro lado, também podem representar dor e provação: a Abraão foi dada a ordem para sacrificar seu filho Isaque (Gn 22) e a pomba era a oferta de sacrifício no Templo mais usada pelos pobres.

    Marcos dista uns trinta da morte de Jesus, teria havia tempo suficiente para seus continuadores e novos seguidores desenvolverem uma identificação com esse “renascer”? Pouca informação o primeiro dos evangelhos redigidos nos dá quanto a isso. Em um diálogo entre Jesus e seus discípulos em, há uma confirmação de que eles receberiam o mesmo “batismo que ele recebeu”, embora isso não aparente ser a preocupação central de Jesus quanto à conduta deles:

    Então, se aproximaram dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo-lhe: Mestre, queremos que nos concedas o que te vamos pedir. E ele lhes perguntou: Que quereis que vos faça? Responderam-lhe: Permite-nos que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda. Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu bebo ou receber o batismo com que eu sou batizado? Disseram-lhe: Podemos. Tornou-lhes Jesus: Bebereis o cálice que eu bebo e recebereis o batismo com que eu sou batizado; quanto, porém, ao assentar-se à minha direita ou à minha esquerda, não me compete concedê-lo; porque é para aqueles a quem está preparado. Ouvindo isto, indignaram-se os dez contra Tiago e João. Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos. Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.

    Mc 10:35-45

    O tempo futuro usado na resposta de Jesus em Mc 10:39 indica que os apóstolos ainda não passaram pelo tal “batismo” nem provaram do cálice. Como Marcos já deveria ter conhecimento da morte de Tiago pelas mãos de Herodes Agripa (At 12:1,2), esta passagem é uma antecipação feita pelo evangelista da Última Ceia (cálice) e da morte de Jesus (batismo de sangue). Ou seja, ela serve para a justificação de um passado recente, mas não ao estabelecimento de um rito de iniciação. Alguns podem alegar que Mc 16:16 diz com todas as letras que é preciso “crer e ser batizado” para ser salvo, o que eu concordaria se não fosse um porém: os mais antigos manuscritos deste evangelho encerram o capítulo abruptamente no versículo 8, ou seja, tudo do versículo 9 em diante é espúrio (11).

    Ao copiar Mc 10:35-45, Mateus removeu a referência ao batismo de sangue (cf. Mt 20:20-8); quanto ao batismo convencional, as adições são poucas: uma é armadilha preparada pelos sacerdotes e anciãos indagando sobre a natureza do batismo de João (Mt 21:23-7) – que ficou em aberta pela evasiva de Jesus -, a outra é a crucial ordem dada no último capítulo, em polêmico versículo:

    Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;

    Mt 20:19

    Como a baixa cristologia de Mateus não nos oferece nada como “eu e o Pai somos um” ou “Eu sou“, é tentador pensar que houve uma adulteração. Há, inclusive, uma variante a este versículo sem fórmula trinitária ou alusão ao batismo, que se assemelha a Lc 24:47:

    Ide e fazei discípulos de todas as nações em Meu Nome, ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado.

    Eusébio de Cesareia, Demonstratio Evangelica, III, 6

    O problema é que todos os manuscritos conhecidos até agora de Mateus, e que possuem seus últimos versículos, trazem a fórmula trinitária bem como a ordem para batizar. Eusébio, por sua vez, também é suspeito por ter sido simpatias pela causa ariana e proposto um credo de conciliação. Por ora essa questão permanece em aberto, cabendo-nos cogitar como a comunidade de Mateus poderia ter entendido essa fórmula de modo a manter uma baixa cristologia (12).

    Lucas também não acrescenta muito em relação a Marcos, possuindo também sua versão da pergunta dos sacerdotes a respeito do batismo de João (Lc 20:1-8) e, de forma sucinta, uma alusão ao batismo de sangue de Jesus (Lc 12:50). Em suma, baseando-se exclusivamente no material dos sinópticos, temos o ritual do batismo como uma preparação do povo para a chegada do Messias (Jesus) e o marco inicial de seu ministério, restando apenas uma dúbia ordem para sua prática aos novos conversos após a ressurreição.

    Entretanto falta um pormenor: Lucas possui um segundo volume: Atos dos Apóstolos.

    Já no segundo capítulo, na fala de Pedro à multidão cosmopolita estupefata diante do comportamento dos apóstolos após receberem as “línguas de fogo”, é dito:

    “Portanto, que todo o Israel fique certo disto: Este Jesus, a quem vocês crucificaram, Deus o fez Senhor e Cristo”.

    Quando ouviram isso, ficaram aflitos em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos outros apóstolos: “Irmãos, que faremos?”

    Pedro respondeu: Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo.

    Pois a promessa é para vocês, para os seus filhos e para todos os que estão longe, para todos quantos o Senhor, o nosso Deus, chamar.

    At 2:36-9

    Uma ordem que foi executada em diversas passagens do livro (At 8:12-7; 9:17,8; 10:44-8; 11:15-7; 19:5,6) em que o batismo de água e o do Espírito andam juntos, demonstrando que, para comunidade lucana, era importante uma pessoa se submeter a ambos para se tornar membro dela. De certa forma, Lucas trabalhou fazendo um paralelo (13) com o próprio batismo de Jesus: alguém, ao ser batizado, faria pregações similares e com resultados parecidos, faria milagres semelhantes e também teria visões. Enfim, o batismo seria o início de uma nova vida que espelhava (em menor escala) a de Jesus e dava continuidade a sua obra, podendo até levar a sofrer o mesmo destino. Assim, pela datação desse evangelho e de Atos, o ritual do batismo da água e do Espírito já estava estabelecido entre os cristãos da virada do primeiro século para o segundo. Será que há indícios dele um pouco antes?

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    Paulo: partilhando da Vitória de Cristo

    Mosaico do batismo de Paulo de Tarso

    O Batismo de São Paulo Mosaico do século XII da Capela Palatina, em Palermo (Sicília)

    O “apóstolo dos gentios” descreveu em sua carta escrita aos cristãos de Roma sua própria visão religiosa. Como única carta remanescente de Paulo direcionada a uma comunidade que não fora criada por ele, Romanos possui a característica ímpar de ser onde ele desenvolve em profundidade temas de sua mensagem que apenas comenta ou relembra a seus prosélitos nas demais, afinal teve de explicar tudo do zero a quem não conhecera pessoalmente. Por esse motivo, um nome mais adequado para esta carta seria “Evangelho segundo Paulo”, pois é aqui que descreve em pormenores sua fé e a “boa nova” que tinha a repassar. Em sua apresentação, Paulo expõe um pequeno catecismo cristão, testemunho de uma tradição que antecederia a própria redação do Novo Testamento:

    Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus, que ele antes havia prometido pelos seus profetas nas santas Escrituras, acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, e que com poder foi declarado Filho de Deus segundo o espírito de santidade [κατα πνευμα αγιωσυνης], pela ressurreição dentre os mortos – Jesus Cristo nosso Senhor -, pelo qual recebemos a graça e o apostolado, por amor do seu nome, para a obediência da fé entre todos os gentios, entre os quais sois também vós chamados para serdes de Jesus Cristo; a todos os que estais em Roma, amados de Deus, chamados para serdes santos: Graça a vós, e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.

    Rm 1:1-7

    Nesse “cartão de visitas” em forma de credo condensado, Paulo usa um hebraísmo – “espírito de santidade” – em vez do simples adjetivo grego talvez por ser uma forma mais familiar aos fundadores daquela comunidade, além de reforçar sua apresentação como um cristão genuíno, não falso apóstolo a propagandear ideias alienígenas. Uma maneira de preparar terreno para expor sua própria visão a respeito da fé em Jesus: o papel central do martírio de Jesus e sua subsequente ressurreição na salvação da humanidade. Ou melhor, de todos aqueles que reconhecessem esse sacrifício e acreditassem em sua vitória sobre a morte.

    Há diferentes linhas de argumentação utilizadas por Paulo ao longo da carta (14). Uma das principais é o modelo judicial (cf. cap. 3 a 5): Deus seria uma espécie de legislador a regular como os humanos (judeus e gentios Rm 2:9-10) deveriam se portar. O problema é que ninguém, mas ninguém, consegue seguir suas leis, “porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3:23). Como Deus também é juiz (3:9), a humanidade toda está condenada. A solução, segundo esse argumento, estaria em outra pessoa cumprir a punição por nós, aí que entra o valor do sacrifício de Jesus na cruz (3:24) como forma de cumprimento alternativo da pena, cuja aprovação divina estaria no fato de ele ter sido ressuscitado em seguida (4:24-5). Aos humanos caberia aceitar de bom grado esse sacrifício ofertado em seu lugar (3:27-8).

    Outro argumento importante utilizado por Paulo foi o modelo participacionista. Enquanto o modelo visto acima explica a salvação por meios de termos “jurídicos”, este explica a salvação por meio de uma espécie de união com Jesus Cristo, que livra a humanidade das forças malignas. Bem que forças seriam essas?

    Como apocalipcista, Paulo acreditava num tipo de “dualismo brando”, em que haviam forças antagônicas a Deus regiam a Terra momentaneamente, até que Deus resolvesse intervir. Duas dessas formas cósmicas são de particular relevância: o Pecado e a Morte. Nisso as coisas começam a soar um tanto estranhas ao leitor moderno, para o qual “pecado” é algo ruim que alguém faz e “morte” é o cessar das funções vitais. No entanto, no primeiro século, tanto o ato quanto o fato eram produtos de entidades autônomas, que a todos controlavam. Começando pelo Pecado:

    • O pecado está no mundo (5:13);
    • O pecado governa as pessoas (5:21, 6:12);
    • As pessoas podem servir ao pecado (6:6);
    • Elas podem ser escravizadas pelo pecado (6:17);
    • Elas podem morrer ao pecar (6:11);
    • Elas podem ser libertas do pecado (6:18).

    O pecado, para Paulo, não é meramente algo que as pessoas fazem, mas sim um poder que as compele à prática do mal. Associado a ele, está outro poder maligno: a morte (6:21-3), que definitivamente afasta alguém de Deus. Ao ressuscitar, Jesus teria quebrado o jugo da morte e, por conseguinte, dos poderes com ela associados (6:9-10). Por meio do batismo, tomaríamos parte dessa vitória sobre a morte e nos reconciliaríamos com Deus. Para Paulo, o batismo não seria apenas uma simbólica limpeza de uma alma arrependida ou um rito de passagem para uma nova vida, mas uma experiência de união com Jesus Cristo de modo a participar de sua vitória com a morte:

    Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; porquanto quem morreu está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos, sabedores de que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus.

    Rm 1-11

    Valer reparar que, por esse modelo, embora os fiéis batizados já estivessem mortos em Cristo, i.e., partilhavam de sua vitória contra a morte e o pecado, isso não significava que não fossem mais morrer fisicamente. A salvação só estaria completa no fim dos tempos, quando seriam ressuscitados à semelhança dele. Até lá, deveriam viver “em novidade de vida”, pois já estariam livres da sujeição ao poder do pecado.

    * * *

    Apesar de Romanos já ser suficiente para atestar o valor que Paulo dava ao ritual do batismo, não será improvável encontrar apologistas que tentem rebater com o seguinte versículo:

    Porque Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho; não em sabedoria de palavras, para não se tornar vã a cruz de Cristo.

    I Cor 1:17

    Esse é mais um clássico caso de texto fora do contexto se fazendo de pretexto. Vejamos mais:

    Pois a vosso respeito, meus irmãos, fui informado, pelos da casa de Cloe, de que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo. Acaso, Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vós ou fostes, porventura, batizados em nome de Paulo? Dou graças [a Deus] porque a nenhum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. Batizei também a casa de Estéfanas; além destes, não me lembro se batizei algum outro. Porque Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho; não em sabedoria de palavras, para não se tornar vã a cruz de Cristo.

    I Cor 1:12-7

    A comunidade de Coríntio enfrentava uma série de problemas, dentre eles rixas internas. Paulo não estava menosprezando o ritual do batismo, apenas relatando seu alívio por não ter se tornado mais um elemento desagregador por ter se abstido de praticar o batismo entre eles e, assim, vincular sua imagem ao ritual. Embora essa tarefa pudesse ser delegada, não significa que considerasse o batismo como opcional, pelo contrário:

    Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito.

    I Cor 12:13

    Assim, pela datação de I Coríntios, pode-se dizer que a associação entre o batismo e a ação do Espírito já estava estabelecida entre os cristãos por volta de 60 da era cristã.

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    Um Passo além: o Batismo no período Subapostólico

    Jesus como o bom pastaor

    Bom Pastor. Pintura mural das catacumbas de Priscilla, em Roma (século II)

    Quando os apóstolos já havia partido, mas uma estrutura bem organizada ainda não surgira, as comunidades cristãs lidavam como podiam com suas questões cotidianas. Uma tentativa de criar um conjunto mínimo de referências, foi redigida entre o final do primeiro século e o começo do segundo a Didaqué, também conhecida como “o Ensino dos doze Apóstolos”. Com seus conselhos, diretrizes e exortações, ela procurava amparar as nascentes comunidades numa época em que ainda existiam “profetas itinerantes” um tanto duvidosos e não caíssem em suas arapucas. No que tange ao batismo, ela nos oferece um pequeno manual de “como fazer”:

    Quanto ao batismo, procedam assim: Depois de ditas todas essas coisas [uma instrução quanto aos “dois caminhos”: o da vida (o Bem) e o da morte (o Mal)], batizem em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

    Se você não tem água corrente, batize em outra água; se não puder batizar em água fria, faça-o em água quente.

    Na falta de uma e outra, derrame três vezes água sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

    Antes do batismo, tanto aquele que batiza como aquele que vai ser batizado, e se outros puderem também, observem o jejum. Àquele que vai ser batizado, você deverá ordenar jejum de um ou dois dias.

    Didaqué, cap. VII, tradução de Padres Apostólicos, pp.351-2

    A Didaqué reapresenta a fórmula trinitária utilizada por Mateus, da mesma forma como sua versão do Pai Nosso (cap. VIII) se assemelha mais à dele que à de Lucas, indicando que talvez tenham bebido da mesma tradição, além de ser um ponto a favor de Mt 28:19. Outro aspecto interessante que ela traz é a necessidade de lidar com questões de ordem prática na execução do ritual: embora recomendada, a imersão não era mais obrigatória.

    Enquanto a Didaqué já apresentava uma versão do batismo que viria a se tornar dominante posteriormente, outros textos contemporâneos seus exploravam concepções mais radicais quanto ao caráter e potencialidades do ritual, porém que seriam rejeitadas. Gostaria de comentar dois deles que constituem o que alguns chamam de “cânon falido”: textos de grande circulação nos primeiros séculos do cristianismo, mas que terminaram por ficar fora do Novo Testamento. Datado do começo do século II, o primeiro se chama Epístola de Barnabé, um verdadeiro tratado antissemita obcecado em provar que o judaísmo seria uma religião falsa e o cristianismo a verdadeira interpretação de suas Escrituras, usando e abusando de alegorias. No que diz respeito ao batismo, interpreta o Antigo Testamento alegoricamente a fim de deixar todo Israel de fora do ritual:

    Pesquisemos se o Senhor teve intenção de falar antecipadamente sobre a água e sobre a cruz.

    Quanto à água, está escrito que Israel não teria recebido o batismo que leva à remissão dos pecados, mas que eles próprios teriam construído um. Com efeito, diz o profeta [Jr 2:12,3 e Is 16:1-2]: “Pasma, ó céu, e que a terra trema ainda mais! Pois este povo cometeu um mal duplo: eles me abandonaram, a mim que sou a fonte viva da água, e cavaram para si mesmos uma cisterna da morte. Por acaso, o Sinai, minha montanha santa, é rocha deserta? Vós sereis como os passarinhos que voam, quando se lhes tira o ninho.” E o profeta diz ainda [Is 45:2,3 e Is 33:16–8]: “Eu marcharei à tua frente, aplainarei as montanhas, quebrarei as portas de bronze, despedaçarei as trancas de ferro, e te darei tesouros secretos, escondidos, invisíveis, a fim de que saibam que eu sou o Senhor Deus. Tu habitarás numa caverna alta de rocha sólida, onde a água não falta nunca. Vereis o rei em sua glória e vossa alma meditará no temor do Senhor.

    Epístola de Barnabé, 11:1-5

    No que diz respeito ao ritual em si, Barnabé inova ao dizer que o batismo leva à regeneração moral, em vez de esta ser requisito para ele:

    E outro profeta diz ainda (15): “E a terra de Jacó era celebrada mais do que qualquer outra terra“. Isso quer dizer que ele glorifica o vaso do seu Espírito. O que diz (16) ele a seguir? “Havia um rio que corria, vinda da direita, e árvores esplêndidas hauriam dele seu crescimento. Qualquer pessoa que delas comer, viverá eternamente.” Isso significa que descemos para a água carregados de pecados e poluição, mas subimos dela para dar frutos em nosso coração, tendo no Espírito o tempo e a esperança em Jesus. “Quem comer deles viverá eternamente“, quer dizer: quem escutar, quando tais palavras são ditas, e crer nelas, viverá eternamente.

    Idem, 11:9-11

    Algumas décadas depois, em meados do segundo século, com bem menos ódio e mais teor pio, um escritor cristão denominado Hermas redigiu um documento que viria a ser conhecido como A Carta do Pastor, ou, simplesmente, O Pastor. Teve boa aceitação entre os antigos cristãos (17) e, tal como a Epístola Barnabé, chegou até a ser incluído no Códice Sinaítico – um dos mais antigos manuscritos completos do Novo Testamento (18). Narrado em primeira pessoa, Hermas descreve os encontros que travou com um mediador que lhe apareceu na forma de um pastor, além de outras figuras angélicas. Esses diversos personagens lhe transmitem visões, mandamentos e parábolas; cujo significado ele sempre indaga, recebendo, então, uma explanação de seu mensageiro da ocasião, às vezes a contragosto do explanador. Durante o “Quarto Mandamento”, toca-se na questão do pecado e do batismo:

    Eu disse: “Senhor, ainda quero te fazer outra pergunta.” Ele respondeu: “Pergunta.” Continuei: “Ouvi alguns doutores dizerem que não há outra conversão além daquela do dia em que descemos à água e recebemos o perdão dos pecados anteriores.” Ele me respondeu: “Ouviste bem. E assim mesmo. Aquele que recebeu o perdão de seus pecados não deveria mais pecar, e sim permanecer na pureza. Entretanto, como queres saber tudo com pormenores, eu te explicarei também isso, sem dar pretexto para pecar aos que hão de crer ou aos que começaram agora a crer no Senhor, pois tanto uns como outros não têm necessidade de fazer penitência de seus pecados, pois seus pecados passados já foram abolidos. Para os que foram chamados antes destes dias, o Senhor estabeleceu uma penitência, pois o Senhor conhece os corações. E sabendo tudo de antemão, ele conheceu a fraqueza dos homens e a esperteza do diabo em fazer o mal aos servos de Deus e exercer sua malícia contra eles. Sendo misericordioso, o Senhor teve compaixão de sua criatura e estabeleceu a penitência, e deu-me o poder sobre ela. Todavia, eu te digo: se, depois desse chamado importante e solene, alguém, seduzido pelo diabo, cometer pecado, ele dispõe de uma só penitência; contudo, se peca repetidamente, ainda que se arrependa, a penitência será inútil para tal homem, pois dificilmente viverá.” Então eu lhe disse: “Senhor, sinto-me reviver depois de ouvir essas coisas tão pormenorizadamente, pois sei que serei salvo, se eu não continuar a pecar.” Ele me disse: “Serás salvo, tu e todos os que fizerem essas coisas.

    Carta do Pastor, cap. XXXI

    Hermas retorna a opinião original de que o batismo complementa um arrependimento prévio, mas não seria capaz de evitar recaídas no mal. Mas adiante, na Nona Parábola, ele compara o batismo a um “selo divino” (19) capaz de transformar os (espiritualmente) mortos em vivos:

    Eu pedi: “Senhor, explica-me mais ainda.” Ele respondeu: “O que procuras mais?” Eu continuei: “Senhor, por que as pedras tiveram que subir do fundo, para ser colocadas na construção da torre, embora tivessem esses espíritos?” Ele respondeu: “Era preciso que saíssem da água, para receber a vida. Elas não podiam entrar no Reino de Deus, senão deixando a mortalidade da vida anterior. Tais mortos receberam o selo do Filho de Deus e entraram no Reino de Deus. De fato, antes de levar o nome do Filho de Deus o homem está morto. Quando recebe o selo, deixa a morte e retoma a vida. O selo é a água: eles descem à água e daí saem vivos. Também a eles foi anunciado esse selo, e eles o usaram para entrar no Reino de Deus.” Eu perguntei: “Senhor, por que as quarenta pedras também sobem com eles do abismo, visto que estas já haviam recebido o selo?” Ele respondeu. “Porque esses apóstolos e doutores que anunciaram o nome do Filho de Deus, adormecidos no poder e na fé do Filho de Deus, o anunciaram também àqueles que tinham morrido antes deles, e lhes deram o selo do anúncio. Desceram com eles à água e novamente subiram. Contudo, desceram vivos e subiram vivos, enquanto os que estavam mortos antes deles desceram mortos e subiram vivos. E graças a eles que estes últimos receberam o nome do Filho de Deus. Por isso, subiram com eles, foram ajustados à construção da torre, e colocados sem ser lavrados, porque morreram na justiça e na pureza. Apenas não tinham o selo. Agora tens a explicação dessas coisas.” Eu respondi: “Sim, senhor.

    Idem, cap. XCIII

    Ao lado de Hermas e Barnabé, por pouco não ficou a Carta aos Hebreus, vista com desconfiança por sua autoria desconhecida e cuja tentativa de atribuição a Paulo já era questionada nos primeiros séculos. Em seu capítulo sexto, ela estabelece o batismo como doutrina fundamental e dá um alerta para os que fraquejam na fé:

    Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito, não lançando, de novo, a base do arrependimento de obras mortas e da fé em Deus, o ensino de batismos e da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno. Isso faremos, se Deus permitir. É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia.

    Hb 6:1-6

    Ou seja, para o anônimo autor de Hebreus, os que recaíssem em pecado não teriam uma segunda chance de arrependimento, uma exceção aberta por Hermas. Uma fórmula ritualística à moda das antigas purificações judaicas é usada por ele em Hb 10:22: “Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé, tendo os corações purificados da má consciência, e o corpo lavado com água limpa“. O autor da Epístola deve ter feito uso dessa fórmula porque ela era tradicional, embora ele fosse oposto às “várias abluções“(Hb 9:9-10) dos judeus que, segundo ele, pertencem à categoria das “justificações da carne” e “não podem aperfeiçoar aquele que faz o serviço” (idem).

    Outras cartas canônicas – agora com autoria reconhecida pela tradição apesar de serem pseudonímias – trazem um entendimento multifacetado do batismo como ritual. Em Efésios (5:25-26), temos a lavagem mais como um simbolismo para a purificação, do que ela em si: “E vós, maridos, amai vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela Palavra(…)”, ao passo que I Pedro (I Pe 3:20,1) fala do batismo em termos semelhantes a Hebreus 10:22, aceitando-o como a confirmação de uma consciência purificada, mas rejeitando com toda a ênfase a ideia de um corpo purificado: “agora vos salva, o batismo, não do despojamento da imundície da carne, mas da indagação de uma boa consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo.

    * * *

    Se, numa época quando a proto-ortodoxia ainda se organizava, eram de se esperar divergências em diversas questões doutrinárias. Então, o que pensariam acerca do batismo os grupos dissidentes?

    [topo]

    Um Toque Esotérico

    Os códices de manuscritos gnósticos descobertos em Nag Hammadi.

    Não é incomum encontrar quem pense terem constituído os gnósticos um grupo à parte da proto-ortodoxia, com seus próprios locais de cultos. Na verdade, eles foram um movimento secretista dentro da própria Igreja nascente. Eles estavam disseminados entre os fiéis comuns, partilhavam de suas atividades e cultos. Apartavam-se apenas quando o assunto era o “conhecimento” especial que julgavam ter, e, inclusive, admitiam que seus irmãos ignorantes – embora bons cristãos – também teriam direito a serem salvos, ainda que não recebessem uma salvação tão plena quanto a deles (20). Assim, os gnósticos também se batizavam; a questão é: o que o ritual significava para eles? Nas palavras de uma estudiosa do cristianismo gnóstico:

    (…) Felipe [no Evangelho Gnóstico de Felipe] pergunta O que acontece – ou não acontece – quando uma pessoa recebe o batismo? É o mesmo para todos? Felipe sugere que não. Há muita gente, diz ele, para quem o batismo simplesmente assinala a iniciação. Um indivíduo desses “entra na água e sai sem ter recebido nada e diz ‘Sou cristão'”(li). Às vezes, porém, prossegue Felipe, a pessoa batizada “recebe o Espírito Santo (…) que é o que acontece quando se experimenta um mistério”(lii). O que faz a diferença envolve não só a dádiva misteriosa da graça divina, mas também a capacidade de compreensão espiritual do iniciado.

    Assim, escreve Felipe, repetindo a carta de Paulo aos gálatas, muitos crentes se veem mais como escravos do que como filhos de Deus; mais os batizados, qual bebês recém-nascidos, destinam-se a crescer na fé rumo à esperança, ao amor e à compreensão (gnose):

    “A fé é a nossa terra, na qual criamos raízes; a esperança é a água que nos nutre; o amor é o ar com que crescemos; a gnose é a luz com que nos tornamos plenamente desenvolvidos” (liii).

    Quem inicialmente professa a fé no nascimento virgem pode, mais tarde, atingir uma compreensão diferente do que isso significa, explica ele. Muitos crentes continuam a interpretá-lo literalmente, como se Maria tivesse concebido sem José; “alguns dizem que Maria concebeu através do Espírito Santo”, mas “estão errados”(liv), diz Felipe. Pois o “nascimento virgem” não é algo que aconteceu uma vez a Jesus; refere-se ao que pode acontecer a qualquer um que seja batizado e “renascido” por meio de uma “virgem que desce”, ou seja, do Espírito Santo(lv). Assim como Jesus nasceu “espiritualmente” quando o Espírito Santo desceu sobre ele em seu batismo, também nós, que primeiro nascemos fisicamente, podemos “renascer por meio do Espírito Santo” no batismo, de modo que “ao nos tornarmos cristãos, passamos a ter um pai e uma mãe”, (lvi) ou seja, o Pai celestial e o Espírito Santo.

    Cf. [Pagels, cap IV, p.138-9].

    Notas da autora:
    (li)Evangelho de Felipe, 64.22-26
    (lii)Ibidem, 64.29-31
    (liii)Ibidem 79.25-31
    (liv)Ibidem 55.23-24
    (lv)Ibidem 71.3-15
    (lv)Ibidem 52.21-24

    Ou seja, ao menos para um grupo específico de gnósticos, o batismo, para alguns iluminados, propiciaria uma experiência de “renascimento” através do Espírito, que desvelaria o conhecimento (gnose) mais profundo. É um linguajar que guarda semelhança ao de uma passagem encontrada em outro evangelho de grande sucesso entre os gnósticos – embora tenha se originado fora de seus círculos -, a Boa Nova de João.

    [topo]

    O Novo Nascimento

    Jesus e Nicodemos

    Jesus e Nicodemos, por Crijn Hendricksz.

    Ora, havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, um dos principais dos judeus. Este foi ter com Jesus, de noite, e disse-lhe: Rabi, sabemos que és Mestre, vindo de Deus; pois ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele.

    Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.

    Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?

    Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te admires de eu te haver dito: Necessário vos é nascer de novo. O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.

    Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode ser isto?

    Respondeu-lhe Jesus: Tu és mestre em Israel, e não entendes estas coisas? Em verdade, em verdade te digo que nós dizemos o que sabemos e testemunhamos o que temos visto; e não aceitais o nosso testemunho! Se vos falei de coisas terrestres, e não credes, como crereis, se vos falar das celestiais? Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem. E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna.

    Jo 3:1-15

    Único entre os evangelhos canônicos, João refaz elementos dos sinópticos de um jeito alternativo: a expulsão dos vendilhões do Templo se dá no começo de seu ministério, tendo ele de criar outra causa imediata (21) para a decisão do Sinédrio de entregar Jesus aos romanos; a instituição da eucaristia – o clímax da Última Ceia – é substituída por um (na verdade, dois) longo discurso de despedida; e o encontro de Jesus e João Batista nas águas do Jordão é narrado de forma indireta por este último (Jo 1:30-4). Embora haja uma série de sinais e prodígios, não há exorcismo algum; apesar de ressaltar uma regra de ouro – “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 13:34) -, nenhuma parábola ao estilo dos sinópticos é contada (22).

    A diferença mais brutal, sem dúvida, é falta de qualquer pormenor quanto à mensagem de Jesus: o tema central deste evangelho é o próprio Jesus! Haveria razões para uma abordagem tão diferente? Pela dinâmica social que transparece nas linhas deste evangelho, pode-se intuir que sua comunidade estaria em crise: seus membros eram expulsos da sinagoga, desenvolviam, por conta disso, sentimentos antijudaicos (Jo 8:37:47), eram perseguidos pelos pagãos (Jo 17:14), e, como indica a Primeira Carta de João, enfrentavam uma rixa interna que terminou em cisma. Como se não bastasse, quiçá ainda enfrentasse a rivalidade com outras comunidades cristãs, como a que redigiu o evangelho gnóstico de Tomé, o Dídimo, dado o pouco apreço que essa figura recebeu durante o episódio da ressurreição, sendo retratado como incréu (Jo 20:24-9).

    Nesse contexto turbulento, a questão dos sacramentos também parece ser matéria de discussão. Embora não haja uma instituição da eucaristia na Última Ceia, ela aparece de forma poética num discurso dado no primeiro terço do livro:

    Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim. Não que alguém visse ao Pai, a não ser aquele que é de Deus; este tem visto ao Pai. Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer não morra. Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo. Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como nos pode dar este a sua carne a comer? Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu; não é o caso de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre.

    Jo 6:44-58

    Se isso foi uma adição posterior à redação original ou não, fica em aberto. Como em Jo 6:59 somos informados que Jesus “disse estas coisas na sinagoga, ensinando em Cafarnaum”, isso pode ser indício de uma justificação do ritual ante uma comunidade judaica que não o entendia e o desprezava. Neste caso, e em muitos aspectos, este evangelho aparenta não ter sido escrito como uma instrução a novatos – como foi o de Lucas – mas para a justificação da fé de uma comunidade que perigava colapsar. Quando Jesus deu um novo mandamento em Jo 13:34 – “amai-vos uns aos outros” – está implícito que outros mandamentos já eram de conhecimento de seus primeiros leitores/ouvintes.

    De forma similar, caso não existisse a conversa com Nicodemos pouca informação haveria quanto ao significado do batismo para aquela comunidade. O batismo do próprio Jesus aparece apenas nas entrelinha da fala de João Batista:

    E eu não o conhecia; mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água.
    E João testificou, dizendo: Eu vi o Espírito descer do céu como pomba, e repousar sobre ele.
    E eu não o conhecia, mas o que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo.

    Jo 1:31-33

    A partir dos sinópticos, é possível saber a que esse episódio se refere, mas com o material exclusivo do próprio João, isso fica apenas sugerido. Seu público já o deveria saber por outros meios.
    Também chega a ser chamativa uma certa contradição que salta de seus versículos:

    Depois disto foi Jesus com os seus discípulos para a terra da Judeia; e estava ali com eles, e batizava (3:22)

    E quando o Senhor entendeu que os fariseus tinham ouvido que Jesus fazia e batizava mais discípulos do que João (ainda que Jesus mesmo não batizava, mas os seus discípulos), deixou a Judeia, e foi outra vez para a Galileia. (4:1-3)

    O versículo Jo 4:2 tem forte cheiro de enxerto, deixando dúvida se toda essa comunidade acreditava que Jesus batizara em vida ou não. Sabemos que a comunidade passou por grave cisma por meio da primeira Epístola de João – um documento bem afinado com a teologia do Evangelho atribuído ao mesmo apóstolo -, mas especificamente uma dissidência de caráter docetista (23). Assim, no último capítulo dessa epístola, é feito um reforço aos aspectos redentores das substâncias materiais utilizadas na eucaristia e no batismo, que possivelmente eram desprezadas pelos dissidentes:

    Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus? Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só por água, mas por água e por sangue. E o Espírito é o que testifica, porque o Espírito é a verdade.

    1 Jo 5:5,6

    No enfoque de sanar contendas da comunidade e validar crenças, a conversa entre Jesus e Nicodemos vinha a resolver outro problema: o batismo deveria ser pela água ou pelo Espírito? Se lembramos a fala de João Batista (Jo 1:33): “o que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo.” ficamos com a impressão de que Jesus não batizaria mais com água, o que pode ter gerado o arremedo que Jo 4:2. Lembrando a tradição de Atos, em algumas passagens o recebimento do Espírito se dá por imposição das mãos em pessoas previamente batizadas (At 8:17-8 e 19:6). Já em At 10:44-8, temos o padrão oposto: gente que primeiro recebeu o Espírito Santo (mesmo sem imposição de mãos) e só depois foi batizada. Isso sugere que, na Igreja primitiva, houvesse quem tomasse o batismo de água e o de Espírito por dois sacramentos separados (ou separáveis), uma ideia radicalizada entre a comunidade joanina, levando ao risco de o segundo preterir o primeiro. Assim, a conversa de Nicodemos vem a reafirmar a necessidade da sagração por ambos o meios para que se “nasça de novo”. No caso em particular dessa comunidade, o novo nascimento pressupunha a morte como judeu, afinal já haviam sido “mortos” ao serem expulsos da sinagoga (24).

    Um possível complemento a essa análise surge ao se reparar que a palavra grega anothen (Jo 3:3) pode significar tanto “de novo” como “do alto”, provocando um interessante jogo de palavras: Nicodemos teria compreendido o primeiro sentido, enquanto Jesus teria em mente o primeiro. O entendimento quanto a esse nascimento celestial (Cf. [Ehrman (2008), cap. XI, p.167]) só poderia ser explicado por aquele que tivesse vindo do céu: o Filho do Homem (Jo 3:13), que já é um circunlóquio para figura de Jesus nesse evangelho. Há um reforço ao sentido “do alto” por ocasião da fala de João Batista nesse mesmo capítulo

    Aquele que vem de cima [ανωθεν] é sobre todos; aquele que vem da terra é da terra e fala da terra. Aquele que vem do céu é sobre todos.

    Jo 3:31

    Contudo, a análise do tecido social do Quarto Evangelho passou longe do tratamento espírita a essa conversa e a análise linguística repete equívocos dos fanáticos religiosos que tanto eles criticam.

    [topo]

    A Releitura de Kardec

    Retrato de Allan Kardec

    Do Evangelho segundo o Espiritismo (ESE), cap. IV

    5 – E havia um homem dentre os fariseus, por nome Nicodemos, senador dos judeus. Este, uma noite, veio buscar a Jesus, e disse-lhe: Rabi, sabemos que és mestre, vindo da parte de Deus, porque ninguém pode fazer estes milagres, que tu fazes, se Deus não estiver com ele. Jesus respondeu e lhe disse: Na verdade, na verdade te digo que não pode ver o Reino de Deus senão aquele que renascer de novo. Nicodemos lhe disse: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode entrar no ventre de sua mãe e nascer outra vez? Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus, o que é nascido de carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito. Não te maravilhes de eu te dizer que vos importa nascer de novo. O Espírito sopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde ele vem, nem para onde vai. Assim é todo aquele que é nascido do Espírito. Perguntou Nicodemos: Como se pode fazer isto? Respondeu Jesus: Tu és mestre em Israel, e não sabes estas coisas? Em verdade, em verdade te digo: que nós dizemos o que sabemos, e damos testemunho do que vimos, e vós, com tudo isso, não recebeis o nosso testemunho. Se quando eu vos tenho falado das coisas terrenas, ainda assim me credes, como creríeis, se eu vos falasse das celestiais? (João, III: 1-12)

    6 – A ideia de que João Batista era Elias, e de que os profetas podiam reviver na Terra, encontra-se em muitas passagens dos Evangelhos, notadamente nas acima reproduzidas (nº 1 a 3). Se essa crença fosse um erro, Jesus não deixaria de combatê-la, como fez com tantas outras. Longe disso, porém, ele a sancionou com toda a sua autoridade, e a transformou num princípio, fazendo-a condição necessária, quando disse: Ninguém pode ver o Reino dos Céus, se não nascer de novo. E insistiu, acrescentando: Não te maravilhes de eu ter dito que é necessário nascer de novo.

    7 – Estas palavras: “Se não renascer da água e do Espírito”, foram interpretadas no sentido da regeneração pela água do batismo. Mas o texto primitivo diz simplesmente: Não renascer da água e do Espírito, enquanto que, em algumas traduções, a expressão do Espírito foi substituída por do Espírito Santo, o que não corresponde ao mesmo pensamento. Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários feitos sobre o Evangelho, assim como um dia será constatado sem equívoco possível.(1)

    8 – Para compreender o verdadeiro sentido dessas palavras, é necessário reportar à significação da palavra, que não foi empregada no seu sentido específico. Os antigos tinham conhecimentos imperfeitos sobre as ciências físicas, e acreditavam que a Terra havia saído das águas. Por isso, consideravam a água como o elemento gerador absoluto. É assim que encontramos no Gênesis: “O Espírito de Deus era levado sobre as águas”, “flutuava sobre as águas”, “que o firmamento seja no meio das águas”, que as águas que estão sob o céu se reúnam num só lugar, e que o elemento árido apareça”, “que as águas produzam animais viventes, que nadem na água, e pássaros que voem sobre a terra e debaixo do firmamento”.

    Conforme essa crença, a água se transformara no símbolo da natureza material, como o Espírito o era da natureza inteligente. Estas palavras: “Se o homem renascer da água e do Espírito”, ou “na água e no Espírito”, significam pois: “Se o homem não renascer com o corpo e a alma”. Neste sentido é que foram compreendidas no princípio.

    Esta interpretação se justifica, aliás, por estas outras palavras: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito”. Jesus faz aqui uma distinção positiva entre o Espírito e o corpo. “O que é nascido da carne é carne”, indica claramente que o corpo procede apenas do corpo, e que o Espírito é independente dele.

    9 – “O Espírito sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai”, é uma passagem que se pode entender pelo Espírito de Deus que dá a vida a quem quer, ou pela alma do homem. Nesta última acepção, a sequência: “mas não sabes de onde vem nem para onde vai”, significa que não se sabe o que foi nem o que será o Espírito. Se, pelo contrário, o Espírito, ou alma, fosse criado com o corpo, saberíamos de onde ele vem, pois conheceríamos o seu começo. Em todo caso, esta passagem é a consagração do principio da preexistência da alma, e por conseguinte da pluralidade das existências.

    (…)

    (1) A tradução de Osterwald está conforme o texto primitivo, e traz: não renascer da água e do Espírito. A de Sacy diz do Espírito Santo. A de Lamennais também diz: Espírito Santo.

    Essa interpretação que Allan Kardec dá aos versículos de Jo 3:1-15 é menos apelativa que a dada no capítulo anterior do ESE, quando Jo 14:1-3 (“Há muitas moradas na casa de meu pai“) é utilizado como justificativa da vida em outros planetas (espiritual ou carnal). Eu também creio na possibilidade de que haja outros planetas habitados neste vasto universo, porém sou cético de que os antigos hebreus criam nisso. Tal interpretação soa mais como uma espécie de anacronismo: a transposição de ideias, conceitos, costumes, etc. de uma época para outra, a qual eles são alienígenas. O tratamento dado à conversa com Nicodemos padece do mesmo problema.

    Um adepto ou simpatizante pode não perceber isso, pois Kardec faz uma seleção de versículos auxiliares que lhe são úteis. A questão é que há, como vimos, toda uma massa de textos do Antigo Testamento, pseudoepígrafos, essênios, neotestamentários e da literatura cristã primitiva apontando para o uso de “água” e “Espírito” vinculados explicitamente à purificação e à iniciação, e não à reencarnação. Já essa última, quando indicada por espiritualistas, tem de ser extraída das entrelinhas. O sentido mais provável em que essas palavras “foram compreendidas no princípio” não foi o apregoado por Kardec.

    Um espírita tem todo o direito de assim interpretar, porém os demais religiosos não tem a menor obrigação de comprar esse peixe. Contudo o que é ruim ainda pôde ficar pior…

    [topo]

    Se hay Bautismo, soy Contra

    Emergindo das águas

    Pode não.

    Em Analisando as Traduções Bíblicas, cap. XVII, Severino Celestino da Silva sintetiza várias das objeções espíritas ao entendimento da conversa com Nicodemos como uma alusão ao batismo, além de acrescentar algumas de própria autoria:

    Perguntou-lhe Nicodemos: Como isso pode acontecer? Respondeu-lhe Jesus: És mestre em Israel e ignoras essas coisas? Em verdade, em verdade, te digo: falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos, porém não aceitais o nosso testemunho. Se não credes quando vos falo das coisas da terra, como ireis crer quando vos falar das coisas do céu?”

    Este é o texto que tem dado mais trabalho aos exegetas que querem negar a Reencarnação. No entanto, é o mais claro e contundente de todos, por isso, existe um verdadeiro malabarismo por parte destes, no sentido de obscurecer o verdadeiro e claro sentido desta passagem. Iniciamos pelo vocábulo “anóten” que em grego pode significar “de novo” e “do alto”.

    Nesta passagem, esse vocábulo significa realmente “de novo”, porém a maioria dos exegetas emprega o termo “do alto” para justificar a sua descrença na Reencarnação. Este malabarismo envolve também a questão gramatical na tradução do texto, como veremos mais adiante. Colocaremos, aqui, muitas observações e conceitos empregados, sobre este texto, feitos por Torres Pastorino na sua obra “Sabedoria do Evangelho”, com relação ao texto grego. Concordamos plenamente com todos os seus conceitos, razão por que o usaremos para reforçar nossa exegese. A análise do texto hebraico é de autoria e responsabilidade nossa.

    p. 238, 4a. ed.

    Vejamos, então, cada parte dessa análise:

    Muitos começam com a afirmação de que Jesus teria dito: “AQUELE QUE NÃO NASCER “DO ALTO”. Observe, no entanto, que a pergunta feita por Nicodemos, em seguida, denota que ele entendeu que Jesus falava realmente em nascer “de novo” e não “do alto”: Como pode “o homem, depois de velho, entrar pela segunda vez (deuteron) no ventre materno?”

    Esta ambiguidade de entendimento só acontece na língua grega, porque no hebraico, que foi realmente a língua em que Jesus dialogou com Nicodemos, este problema não existe. O texto é bem claro e jamais pode significar “do alto”. Diz o seguinte: (“im Iô iualed ish mimkôr ’ai lô-iukal lirôt et-malkut haelohim”) im=se, =nâo, iualed=incompleto do grau qal do verbo “nolad”=nascer, ish=um homem, mimekôr= palavra composta, formada por mi=de + makôr=fonte de água viva, origem. Existe a expressão hebraica “Mekôr chaim” que quer dizer “fonte da vida”. Observe que não existe nada referente “ao alto”, no texto grego, como muitos querem se fazer entender. Assim, o Cristo fala que aquele que não nascer em origem, no sentido de se voltar à fonte original da vida, ou seja, nascer novamente, “não poderá” (lô-iuchal=incompleto do verbo iachôl =poder) ver o reino de Deus (lirôt et-malkut haelohim).

    Assim, no diálogo, a palavra grega “anóten” tem o sentido e significado de “de novo”, portanto, Jesus falava de retorno, ou seja, de Reencarnação mesmo, como foi visto no texto hebraico.

    Lembramos, ainda, que Nicodemos já era um cidadão de idade avançada e o Cristo lhe fala de Reencarnação (Nascer de Novo), como uma esperança e reconforto para ele, mostrando-lhe que a vida não termina com a morte, nem os velhos devem temer a morte, pois podem renascer e começar tudo novamente.

    p. 239 [grifos do autor do livro]

    Eu não teria tanta certeza assim. Concordo que o texto é controverso: Na impressão de 1995 de A Bíblia de Jerusalém, optou-se pelo termo “do alto”, sem nenhuma alusão a duplo sentido (apenas fala “melhor do que ‘de novo’”). Já a impressão de 1998 substituiu anothen por “de novo” e criticou a tese do jogo de palavras. Segundo André Chouraqui, autor bem cotado pelo Dr. Severino, o anônimo redator do texto deixou transparecer que dominava tanto o idioma grego quanto os do ramo semítico (Chouraqui, A Bíblia – Johanam), podendo ter expresso seu raciocínio no primeiro idioma. Como não sou exegeta e, sim, alguém buscando mais um enfoque histórico, repito duas objeções implicitamente levantadas por Bart Ehrman [(2008), cap. XIV, p. 237] à historicidade do episódio:

    1. Tal diálogo ocorreu realmente?
    2. Se ocorreu, foi do jeito que consta no Evangelho de João?

    Sim, ainda hoje há adeptos da “fé racionada” achando que alguém gravou a conversa entre Jesus e Nicodemos, ao estilo do livro Operação Cavalo de Troia, ou, de forma menos apelativa, registrou taquigraficamente a conversa em uma tábua de cera. Se tal registro um dia existiu, encontra-se perdido. O que temos é o Evangelho de João, cuja língua original é tida como sendo a grega, pela maioria dos pesquisadores. O jogo de palavras feito pode ter sido a intenção de seu anônimo autor. “Peraí, o Dr. Severino postou o texto em hebraico“. Sim, fiquei tão surpreso que gostaria de saber de onde esse texto saiu. Nenhuma informação é dada em sua bibliografia e, ao que eu saiba, a primeira tradução para esse idioma foi feita nos tempos do Renascimento. Ou seja, até que se esclareça a fonte utilizada por ele, há um forte cheiro de uma tradução de outra tradução.

    Isso me lembra o episódio de Teodora e as 500 prostitutas assassinadas: ninguém soube indicar a fonte, embora propalassem o boato. Acho que a fonte hebraica para evangelho de João vai pelo mesmo caminho: quando um apologista espírita for cobrado, vai declarar frases como: “tenho que ir, pois vai chover!”, “Alá um disco voador!” ou “não tenho de dar fonte alguma pois você não refutou tais e tais pontos“… Haja paciência.

    [topo]

    Um Artigo (Nada) em Falta


    Os artigos gregos do nominativo singular

    Na sequência, Cristo confirma que era isso que Ele queria dizer: “Quem não nascer de água (materialmente, com o corpo denso, dado que o nascimento físico é feito através da bolsa d’água do líquido amniótico), (…) e de espírito (pneumatos), (ou seja, que adquirira nova personalidade no mundo terreno, em cada nova existência, a fim de progredir). Se Nicodemos entendeu ao pé da letra as palavras de Jesus, o Mestre confirma ao pé da letra e reforça o seu ensino. Com efeito, o espírito ao reentrar na vida física, pode ser considerado o mesmo espírito que inicia suas experiências, esquecido de todo o passado.”

    A questão gramatical: No texto em grego não há artigo diante das palavras “água” (ek ydatos = de água) e “espírito” (kai pneumatos), portanto, o texto fala em nascer “de água e de espírito”. Não é portanto, nascer da água do batismo, nem do espírito, mas de água (por meio da reencarnação) e de espírito (pela Reencarnação do espírito).

    p. 239-40 [grifos do autor do livro]

    Agora será muito estranho o que vou dizer: a tradução em português que usa do artigo (“da água e do espírito”) é a mais correta! Bem, acho que o leitor deve estar se perguntando por quê? Para entender, vamos ter de entrar em certas particularidades do grego. Coisa que Severino da Silva não realçou é que a preposição εκ/εξ (e sua equivalente latina “ex”) não tem o sentido simples de nosso “de”. O mais preciso seria: de dentro para fora ( no espaço e no tempo), a partir de, de, origem, ponto de partida, de iniciativa.

    Exemplos retirados de [Murachco, pp. 563-565]:

    εκ θαλαττης – do mar. [a partir do mar]
    εκ παιδων – desde a infância. [a partir da infância]
    εκ χρυσων πινομεν φιαλων – Nós bebemos de taças de ouro.
    οι εξ εκεινων γεγονοτες – os que nasceram deles

    Note que em alguns dos exemplos, o artigo inexiste em grego, mas se faz necessário em português para dar a ideia de origem, como se fez em “da água” e “do espírito”, e não o uso deles como um veículo. Vale lembrar que várias palavras e, principalmente, sentenças de sentido geral não costumam levar artigo em grego: mar, cidade, céu, dia, sol e uma das gramáticas usadas pelo Dr. Severino informa isso (25). Não houve nenhuma garantia que um uso sem artigo (anartro) da palavra “água” foi feito, que teria causado uma ausência também em “espírito”. Para corroborar sua tese de que não se falou de batismo em tal versículo, Dr. Severino faz uma interpretação sui generis do livro de Gênesis:

    O primeiro versículo do Gênesis (1:1) fala que no princípio criou Deus os Céus e a terra. A palavra “céus” em hebraico “Shamaim” (…) significa: “Carrega água”, “Ali existe água”; “fogo e água” que, misturados um ao outro, formaram os Céus.

    Como podemos observar, tudo começou com as águas. Água é vida e essa era a crença geral naquela época. É lógico que o Cristo não falava de batismo e sim de retorno através da água. Lembramos ainda que 99% da constituição das células reprodutoras são água.

    p. 240 [grifos do autor do livro]

    A crença da época apontava a água como instrumento de purificação. Como já foi dito aqui anteriormente, há toda uma massa de textos do Antigo Testamento, pseudoepígrafos, essênios, neotestamentários e da literatura cristã primitiva apontando para o uso de “água” e “Espírito” vinculados explicitamente à purificação e à iniciação, em vez da reencarnação. E não será um versículo que mudará isso. Ademais, como o conceito de “célula” era desconhecido pelos antigos hebreus, a analogia com as células reprodutoras não passou de um forte anacronismo por parte do autor.

    Uma ironia é que logo no parágrafo seguinte, a palavra grega para “espírito” aparece precedida de artigo; um pormenor pelo qual Severino Celestino da Silva passou tangencialmente:

    Daí a explicação que segue “o que nasce da carne (ek tês sarkos) com artigo (tês) em grego, é carne”, isto é com corpo físico, com toda a hereditariedade física herdada do corpo dos pais; “e o que nasce do espírito (ek tou pneumatos) é espírito”, ou seja, o espírito que reencarna provém do espírito da última reencarnação com toda a hereditariedade pessoal (cármica) que traz do passado.

    p. 240 [grifos do autor do livro]

    Ou seja, nem ele explica que a tradução mais ao pé da letra de pneuma é “sopro” e ela não tinha o sentido de “alma” que ganhou com o tempo. Tanto que em textos de Justino Mártir (Diálogos…, IV) e Orígenes (Comentário sobre o Evangelho de João, livro VI, cap VII) é clara a distinção entre alma (psyché, em grego) e espírito (pneuma).

    E no próprio Novo Testamento há exemplos de expressões preposicionadas (com εκ e outras), de sentido definido, que não levam artigo em grego:

    εν αρχη – no princípio (Jo 1:1)
    απ’αρωχης – desde o princípio (Mt 19:4)
    εκ δεξιων – à direita (Mc 10:37)
    εκ αριοτερων – à esquerda (Mc 10:37)
    εκ νεκρων – dentre os mortos (Mt 17:9)
    εν πνευπατι – no espírito (Ef 6:18)

    Em resumo: em grego antigo, existia apenas o artigo defino. Sua presença delimitava o substantivo ao qual se referia, porém sua ausência não o tornava necessariamente indefinido. Clique neste link para acessar um estudo pormenorizado sobre o tema.

    [topo]

    Uns dizem um espírito, outros dizem o Espírito. Eles escreviam ΠΝΑ

    Jo 3:6 em P66
    foto de P66
    Papiro P66 em Jo 3:6

    Detalhe do papiro P66 em Jo 3:6, exibindo o nomem sacrum para pneuma em apenas uma das aparições dessa palavra no versículo. Extraído de Early Bible.

    Recapitulando as observações feitas por Kardec quanto às traduções que dispunha do Evangelhos João, em relação ao versículo 3:5:

    7 – Estas palavras: “Se não renascer da água e do Espírito”, foram interpretadas no sentido da regeneração pela água do batismo. Mas o texto primitivo diz simplesmente: Não renascer da água e do Espírito, enquanto que, em algumas traduções, a expressão do Espírito foi substituída por do Espírito Santo, o que não corresponde ao mesmo pensamento. Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários feitos sobre o Evangelho, assim como um dia será constatado sem equívoco possível.(1)

    (. . .)

    Nota (1): A tradução de Osterwald está conforme o texto primitivo, e traz: não renascer da água e do Espírito. A de Sacy diz do Espírito Santo. A de Lamennais também diz: Espírito Santo.

    A tradução da Bíblia para o francês feita por Louis-Isaac Lemaistre de Sacy (1613 – 1684) se valeu da Vulgata, segundo informa a aprovação clerical recebida por ela. A tradução dos Evangelhos de Félicité Robert de Lamennais, em meados do século XIX, faz referências às leitura do texto grego e da Vulgata, embora em Jo 3:5 traga a leitura Esprit-Saint sem maiores explicações. Já o pastor protestante suíço Jean-Frédéric Osterwald (1663 – 1747) revisou a Bible de Genève com base no texto grego e redigiu apenas esprit, com letra minúscula. Tanto Kardec quanto Dr. Severino advogam que “espírito” em Jo 3:5 não deve ser entendido como “Espírito Santo” com base na autoridade do texto “mais antigo”.

    Inicialmente, vejamos o que entendiam os tradutores acima por “Vulgata” e “Texto Grego”. A primeira é a Vulgata Sixto-Clementina, uma recensão feita nos tempos da Contrarreforma da tradução de Jerônimo de Estridão. Alguns manuscritos da Vulgata – como o Códice Covensis – trazem a leitura ex aqua et Spiritu Sancto, enquanto o Códice Amiatinus – o mais antigo exemplar completo da Vulgata (ca. séc. VIII) – traz apenas ex … Spiritu. Já o mais tardio Códice Cavense (séc. IX) traz a leitura mais longa, assim como diversos outros códices cujas leituras refletem a Vetus Latina, além de ser citada por autores latinos tão separados no tempo como Tertuliano (séc. II e III, em De Baptismo, cap. XIII) e Tomás de Aquino (séc. XIII, em Suma Teológica, parte III, questão 66, art 2º). Essa leitura pode até não ser a original, porém é mais antiga do que sugere Kardec. Quanto a “texto grego”, entenda-se que seria o Textus Receptus (“Texto Recebido”), a edição do Novo Testamento em grego feita pelo erudito Erasmo de Roterdã (1466 – 1536). Apesar de todas as críticas justificadas feitas ao texto de Erasmo, não há em Jo 3:5 discrepância com relação aos manuscritos de melhor qualidade: apenas “εξ … πνευματος” aparece na fala de Jesus a Nicodemos. Teria, então, algum tradutor latino inserido no texto da Vetus uma interpretação em vez da tradução mais literal? É provável que sim, embora ele ainda seja inocente ou, pelo menos, digno de um atenuante, pois é possível rastrear essa associação de “espírito” como “Espírito Santo” em Jo 3:5 desde o século III. Como sabemos disso? Os antigos copistas deixaram indicações.

    Uma linha argumentativa recorrente entre pretensiosos “biblistas” espiritualistas é a de que, nos evangelhos, sempre se deveria escrever “espírito” em vez de “Espírito”, pois na antiguidade inexistiam a diferenciação entre letras maiúsculas e minúsculas, afinal essas últimas só foram inventadas na Idade Média. Portanto, qualquer um que traduza ΠΝEYMA por “Espírito” terá inserido uma interpretação teológica tardia, após a consolidação da doutrina da Trindade. Quem dera que os fatos fossem tão simples assim. De fato, os antigos copistas escreviam apenas em maiúsculas e, para economizar tempo e aproveitar ao máximo as caríssimas folhas de pergaminho, nãoseparavamumapalavradaoutra (scripta continua) recorriam muitas vezes a abreviaturas. Como essas eram feitas para as palavras mais frequentes, nada mais natural que as de cunho religioso fossem escolhidas e dessem origem ao que, em tempos modernos, seria designado como uma classe especial de abreviaturas: os nomina sacra (“nomes sagrados”).

    Uma particularidade interessante dos nomina sacra é que todos os manuscritos antigos possuem um conjunto mínimo deles, dando a entender que, se já não surgiram junto com os originais dos livros, começaram a ser utilizados bem cedo. Quatro nomes aparecem universalmente em todos os unciais na forma abreviada: “Senhor” (Κυριος), “Deus” (Θεος), “Jesus” (Ιησους) e “Cristo” (Χριστος). Conforme a datação dos manuscritos avança, outras palavras se juntam ao grupo, como “Pai” (Πατηρ), “Filho” (Υιος), “Cruz” (Cταυρος), “Israel” (Ισραηλ), “Céu” (Ουρανος), etc. Não havia uma regra única para as abreviaturas, mas, em geral, os copistas tomavam a primeira ou as duas primeiras letras, a última, e as sobrescreviam com um traço horizontal. Como a terminação de uma palavra variava conforme o caso em que se encontrasse, os nomina sacra também mudavam em concordância.

    Uncial Nominativo Genitivo
    Senhor ΚΥΡΙΟC ΚC ΚΥ
    Deus ΘΕΟC ΘC ΘΥ
    Jesus ΙΗCΟΥC ΙC ΙΥ
    Cristo ΧΡΙCΤΟC ΧC ΧΥ
    Espírito ΠΝΕΥΜΑ ΠΝΑ ΠΝC
    Pai ΠΑΤΗΡ ΠΗΡ ΠΡC
    Filho ΥΙΟC ΥC ΥΥ
    Cruz CΤΑΥΡΟC CΤC CΤΥ
    Israel ΙCΡΑΗΛ ΙΗΛ indeclinável
    Céu ΟΥΡΑΝΟC ΟΥΝΟC ΟΥΝΟΥ

    Lista não exaustiva de nomina sacra comuns em manuscritos do Novo Testamento. Não foram incluídas variantes como IHC para Jesus. Mais pormenores em [Comfort, cap. IV]

    Como se enquadra Pneuma no histórico do emprego dos nomina sacra? Seu nomen sacrum ΠΝΑ se encontra presente nos mais antigos manuscritos que chegaram até nós contendo a palavra “espírito” denotando uma origem divina, dando a entender que seria tão antigo quanto os quatro primários e seria tranquilamente aceito como um quinto membro desse grupo se não fosse por duas anomalias [Comfort, cap. IV, pp. 231-41]:

    • O papiro P46 (c. 175-225, contém epístolas paulinas) deixa de aplicar o nomen sacrum para o espírito divino em dez circunstâncias que seriam comumente aceitas depois;
    • O Códice Vaticano, contemporâneo do igualmente famoso Sinaítico (séc. IV), não possui nomen sacrum para Pneuma.

    Uma conciliação proposta é que P46 teria sido redigido numa época de transição, quando as abreviaturas para Pneuma ainda estavam se desenvolvendo e o Códice Vaticano seria uma reprodução de um manuscrito ainda mais antigo que P46. Com o material disponível atualmente, isso é apenas conjectura, não estando descartada a hipótese de o copista de P46 ter se descuidado. Por ora, pode-se afirmar que, se ΠΝΑ não for um nomen sacrum primário, ao menos é quase tão antigo quanto os desse grupo.

    O impacto desse registro paleográfico é deixar claro que a personalização do Espírito Santo – representando um ente específico e não uma classe – se encontra presente desde o II século de nossa Era e duzentos anos antes do I Concílio de Constantinopla. E, embora o registro escrito fosse bem mais precário, os antigos tinham, sim, seus meios para destacar o que lhes era relevante. Os nomina sacra constituíam um deles. Não revelam apenas vislumbres de como “Espírito” era compreendido, mas também aspectos um pouco mais profundos de exegese. Por exemplo, relembrando o diálogo entre Jesus e Nicodemus, mais especificamente este versículo:

    Jo 3:6
    P66
    (Fonte)
    Papiro P66 em Jo 3:6
    P75
    (Fonte)
    Papiro P75 em Jo 3:6

    A última oração do versículo – και το γεγεννημενον εκ του πνευματος πνευμα εστιν (“e o que é nascido do espírito é espírito”) – é interpretada de forma diferente pelos copistas. O de P66 distinguiu o Espírito divino do humano, dando a entender que “o Espírito divino gera o espírito humano”. Essa é a interpretação da maioria das traduções modernas. Já o de P75, por sua vez, tratou os dois como divinos, sugerindo que “o que é gerado pelo Espírito também é divino”. A passagem, sem dúvida, permite mais de um entendimento, não havendo razão alguma para se considerar o viés reencarnacionista como o único possível, como fazem certos apologistas espíritas. Bem antes de Niceia, as opiniões eram outras…
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    Várias Línguas, Poucos Poliglotas

    Jesus perante Pilatos

    – Quid est veritas?
    – Por favor, Pilatos, você deveria falar:
    Τι εστιν αληθεια;
    Aliás, cadê o intérprete nesta cena do filme?

    Na encruzilhada de diversos impérios ao longo de sua história, a região do antigo reino de Herodes recebeu diversas influências, que deixaram suas marcas linguística nas culturas locais. Quatro são os idiomas em questão: hebraico, aramaico, grego e latim; cada um com um papel diferente em sua sociedade no primeiro século da Era Comum.

    1. Latim: Do grupo, este idioma era o “recém-chegado”, tendo sido apresentado às terras da Judeia pelas tropas do general Pompeu em 63 a.C., passando a marcar um pouco mais de presença quando ela passou para a administração de direta de Roma no sexto ano da Era Comum. Com certeza era ouvida na capital administrativa, Cesareia Marítima, entre os soldados e altos funcionários civis do império, contudo era a língua do conquistador. Para um romano, aprender um idioma local seria uma habilidade a mais, já um nativo poderia ser visto como traidor se fizesse o contrário. Inscrições monumentais encontradas nos vestígios arqueológicos das construções romanas da época de forma alguma significam que seus autores desejavam ser lidos por outros que não fossem os seus. Os romanos se congratulavam entre si e, para os que estavam de fora, a mensagem de uma inscrição latina era sempre a mesma: “Roma manda aqui“;

    2. Grego: difundido no Levante pelas tropas de Alexandre da Macedônia, o dialeto koiné desse idioma era a língua internacional da helenizada orla oriental do Mediterrâneo no primeiro século da Era Comum e só perderia esse posto após a expansão do Islã, a partir do século VII. Na divisão do império macedônio, a Judeia ficou inicialmente com o Egito dos Ptolomeus e, em seguida, passou para o domínio dos Selêucidas da Síria. Esse último tentou impor uma helenização forçada e acelerada que resultou na vitoriosa revolta dos Macabeus e na instauração da dinastia Hasmoneia. Entretanto, isso não foi o fim da influência grega na região, afinal já estavam estabelecidas grandes comunidades judaicas pelo mundo helênico, cujo idioma materno não era mais o hebraico ou o aramaico e, sim, o grego. Em suas peregrinações ao Templo, esses judeus da diáspora faziam garantir que a língua de Platão fosse escutada pelos nativos Jerusalém e arredores. Com a conquista romana e o reinado de Herodes, uma nova fase de aculturação começou e voltaram a florescer colônias gregas nas bordas de seu reino. Um desses centros cosmopolitas foi a cidade de Séforis, localizada a apenas 7 km de Nazaré, onde um certo jovem galileu chamado Jesus deve ter trabalhado. Sim, Jesus Histórico com certeza travou contato com a cultura greco-romana e em algum grau deveria compreender a língua franca de sua região – o grego koiné, a questão é qual era seu provável grau de intimidade com o idioma? Ou, em outras palavras, até onde era difundido o bilinguismo na Galileia/Judeia do primeiro século?

      De fato, mesmo uma pessoa pouco instruída pode dominar várias línguas caso tenha sido exposta a elas desde cedo ao interagir com falantes nativos de outros idiomas. Contudo, ser capaz de realizar transações comerciais, fornecer instruções objetivas, ou dar explicações de como chegar a algum lugar, requer bem menos vocabulário e domínio da gramática que sermões religiosos ou expressões de afeto. Via de regra, gentios e judeus viviam perto uns dos outros o suficiente para estabelecer um contato superficial, mas dificilmente seriam entrosados o bastante para precisar de uma comunicação profunda. O fato de alguns discípulos de Jesus – como Felipe e André – e o próprio Nicodemos possuírem nomes de origem helênica atesta uma elevada influência da cultura grega na região, mas pouco garante algo sobre o bilinguismo de seus habitantes. Um paralelo moderno pode ser a profusão de nomes próprios de origem inglesa na Brasil, mesmo nas camadas populares (às vezes grosseiramente aportuguesados), embora o grosso da população continue monoglota.

      Alguns relatos fora dos evangelhos reforçam a ideia de que a maioria dos judeus locais não possuía o grego como primeira língua:

      • Em Atos, capítulos VI a VIII, é relatada uma rixa entre os “judeus de fala hebraica” e os de “fala grega”. Bem, esses dois grupos deveriam se comunicar utilizando alguma língua em comum, mas qual? No capítulo XXI, vv. 37-40, Paulo comunica-se com os soldados que o prendem em grego, mas fala à multidão em aramaico. Ainda que tal passagem não tenha sido 100% verídica, a Lucas deve ter tentado dar plausibilidade à narrativa, lembrando que a maioria dos os ouvintes não dominava o grego muito bem. Assim, os bilíngues eram os judeus de fala grega, como Paulo o era;

      • No livro V, capítulo IX de A Guerra dos Judeus, Flávio Josefo informa que serviu de intérprete para o general romano Tito:

        Mas então Tito, sabendo que a cidade [Jerusalém] seria ou salva ou destruída por ele mesmo, não apenas procedeu prontamente ao cerco, mas não deixou de exortar os judeus ao arrependimento; de modo que uniu um bom aconselhamento com seus trabalhos de cerco. E tendo o senso de que exortações são frequentemente mais efetivas que braços, persuadiu-os a entregar a cidade, que já estava tomada de certa forma, e assim se salvarem, e enviou Josefo para falar com eles em sua própria língua; pois imaginou que poderiam ceder à persuasão de um conterrâneo deles.

      Assim, é provável que Jesus (o Histórico) conhecesse e até entendesse um pouco de grego, mas com certeza não era sua língua materna, nem o idioma com que pregava às massas.

    3. Hebraico: Com o Cativeiro de Babilônia (590 – 538 a.C.) , os israelitas remanescentes foram expostos ao, ou melhor, imersos no idioma do conquistador: o aramaico, que era um parente próximo do hebraico na família das línguas semíticas. Mesmo com a queda do Império Babilônico ante os persas e o retorno de parcela do povo a Israel, ele continuou a ser a língua oficial da parte ocidental do novo império. Com seu uso constante no contato com outros povos, quer na diplomacia ou no comércio, e com os que permaneceram na Babilônia fez o aramaico suplantar o hebraico como língua materna dos judeus, deixando ao segundo apenas o uso litúrgico. O livro de Neemias (v. 13:24) dá um registro dessa mudança linguística ao relatar que metade dos filhos de casamentos mistos “não sabia mais o hebraico”. Acredita-se que ao tempo de Jesus, esse processo já estivesse quase completo na Palestina romana.

      Estaria o hebraico ainda vivo o bastante para ter sido usado como veículo para a pregação de Jesus? Nem todos os judeus foram exilados na Babilônia e, com certeza, ele ainda era usado nas Sinagogas, mas e fora delas? As regiões rurais poderiam ser isoladas o bastante ter ficado imunes a exílio, num primeiro momento, e ao cosmopolitismo posterior; além do que, bem longe de Jerusalém, a comunidade de Qumran escreveu todos os seus textos doutrinários em hebraico, indicando que deveria ser ao menos a língua litúrgica local. Entretanto, já não era o hebraico dos livros bíblicos, mas um intermediário entre ele o hebraico mishinaico utilizado pelos rabinos após a revolta de Bar Kochba, o que seria sinal de que o hebraico continuava a evoluir como língua justamente por ainda estar bem vivo.

      Esses indícios, contudo, não são conclusivos: quinze porcento dos textos bíblicos em Qumran estão em aramaico, indicando que boa parte dos membros da comunidade (os novatos, talvez) não conseguia ler diretamente em hebraico, além do fato de línguas puramente escritas também evoluírem, embora mais devagar, por causa da evolução do meio ambiente em que seus redatores vivem e da língua que falam (26). O hebraico pode, sim, ter sobrevivido nas isoladas colinas ao sul da Judeia (27), mas para as maiores aglomerações, evidências apontam para uma quarta opção de língua vernacular.

    4. Aramaico: Ao contrário do latim e o grego, o aramaico contava para os falantes de hebraico com a vantagem de pertencer à mesma família de línguas – a semítico-ocidental -, e a similaridade entre esses dois era comparável com a que existe entre as atuais línguas neolatinas. Isso, sem dúvida, ajudou o aramaico a suplantar o hebraico, fincando sua presença, inclusive, nos mais tardios livros que viriam a constituir o Antigo Testamento: metade do livro de Daniel está escrito nessa língua (Dn 2:4b–7:28) e trechos longos Esdras, também (4:8–6:18 e 7:12–26). Por fim, sua escrita “quadrada” substituiu a variante do alfabeto fenício usada antes do Exílio.

      Fora dos textos bíblicos, a evidência das inscrições monumentais, lapidares (ossários) e de correspondências aponta para uma predominância do aramaico sobre o hebraico em antigas áreas de preponderância semita na Judeia do primeiro século e adjacências (28). O aramaico, portanto, deve ter sido o idioma de uso mais corrente entre o povo de Jerusalém e ainda mais no da Galileia. Se Jesus desejou que sua mensagem alcançasse o maior número de pessoas, então deve ter se valido deste idioma. Nos evangelhos, várias palavras de origem aramaica – como Abba (Mc 14:26, “Pai”) ou Rabôni (“Mestre”, Jo 20:16) – aparecem com uma explanação de sentido para seus leitores gregos, além do grito de Jesus (Mt 27:46) na crucificação – “Eli, Eli, lema sabachthani?(29), cuja última palavra está indiscutivelmente em aramaico (30). Embora não se possa garantir historicidade nas falas em que ocorrem esses aramaísmos, ao menos os evangelistas procuraram apresentar Jesus como um falante de aramaico.

    Ainda que o aramaico fosse a primeira opção de Jesus, teria sido possível que ele pregasse em outras línguas? Bem, tudo dependeria de seus interlocutores e do quanto ele dominava o idioma deles. Dentro das sinagogas, o uso do hebraico poderia ser válido, supondo um Jesus instruído formalmente na Torá. A conversação em alguns episódios das narrativas evangélicas – como a cura do servo de um centurião (Mt 8:5-13 e Lc 7:1-10) e o diálogo com Pilatos -, caso verídicos, teriam sido em grego pelo fato de um dos interlocutores ser totalmente alienígena à cultura local. Entretanto, que não se descarte a hipótese de que tenha havido um intérprete no meio, suprimido pela tradição que chegou aos evangelistas (31). No caso da conversa com Nicodemos, temos dois semitas falando ambiente indeterminado. Nada indica que essa conversa se deu em grego ou algum nicho em que a adoção do hebraico fosse presumida. Assim, o duplo sentido de novo/do alto seria inválido por não ser possível de ser reproduzido em aramaico, certo? Talvez se esteja procurando a resposta nos locais errados.
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    Buscando-se apenas onde há luz

    Vela na escuridão

    – Estou procurando por minha moeda de 25 centavos que deixei cair.
    – Você a deixou cair aqui?
    – Não, deixei cair duas quadras rua abaixo.
    – Então por que está procurando por ela aqui?
    – Porque aqui a luz é melhor.

    (Mutt and Jeff, 1942)

    Na questão dos manuscritos originais dos evangelhos (autógrafos), temos, ao menos provisoriamente, uma certeza e uma grande dúvida: todas as cópias mais antigas disponíveis estão em grego e não se sabe se seriam, na verdade, reproduções de traduções feitas a partir de originais em aramaico. É possível, também, que os evangelhos tenham sido redigidos já em grego, porém baseados em fontes aramaicas. Eusébio de Cesareia, em A História Eclesiástica (livro V, XXXIX, 16), cita uma observação feita pelo um antigo escritor cristão e bispo de Hierápolis, Papias (32), acerca da redação de Mateus: “Mateus ordenou as sentenças em língua hebraica, mas cada um as traduzia como melhor podia.” Teriam sido essas sentenças uma primeira redação dos ditos de Q e depois algum anônimo juntou com a narrativa de Marcos que, segundo o próprio Papias (idem, XXXIX, 15) “foi intérprete de Pedro, pôs por escrito, ainda que não com ordem, o quanto recordava do que o Senhor havia dito e feito“, dando origem ao atual evangelho de Mateus? Possivelmente, conforme a hipótese quádrupla da origem dos sinópticos, mas como Marcos teria sido bilíngue e já se tentavam traduzir as “sentenças de Mateus”, essa junção já poderia ter ocorrido diretamente em grego. A dobradinha Lucas/Atos, com sua dedicatória a Teófilo e um enfoque da migração do cristianismo dos judeus para o mundo, certamente foi escrita em grego. Quanto ao Evangelho de João, as dúvidas são ainda maiores a respeito de um possível original semita seu ou de parte dele. A tensão retratada entre cristãos e judeus aliada à virtual ausência dos saduceus e dos zelotas em seu texto sugerem uma redação após 70 d.C., quando fariseus e nazarenos entraram em rota de colisão e diáspora se acelerou. Seu mais antigo exemplar – o diminuto papiro P52 – é datado em cerca de 125 d.C., já com um texto em grego. Pela análise de seu texto, cogita-se a existência de certas fontes empregadas por seu anônimo redator (o hino do prólogo, um evangelho de sinais, uma coletânea de discursos e uma narrativa da paixão), mas não há como lhes garantir uma origem aramaica. Entretanto, há quem aposte nessa tese.

    James David Audlin é um de seus principais advogados e, embora seja algo ainda bem controverso, ele teve uma interessante sacada quanto à inviabilidade de uma palavra aramaica como o mesmo duplo sentido da grega anothen: na verdade, o duplo sentido existente em aramaico era outro – similar, mas não idêntico – e anothen foi a tentativa de um tradutor grego de simulá-lo. Para saber qual seria essa palavra, Audlin se vale da Peshitta, a versão da Bíblia escrita em siríaco (o dialeto aramaico da Síria), que fornece em Jo 3:3 a palavra ܪܝܫ (riysh), que pode significar “cabeça”, “princípio”, “principal”. Eis alguns usos seus no Novo Testamento siríaco:

    • Cabeça (1 Cor 12:21)
    • Pedra angular (lit. “cabeça da esquina” ou “principal da esquina”, Mc 12:10, Lc 20:17, At 4:11, I Pd 2:6 e Ef 2:20)
    • Princípio, começo (Mc 1:1 e Jo 1:1)
    • Primeiro (Col 2:16 – referindo-se à primeira lua nova do mês)
    • Ponta (Lc 16:24)
    • Extremidade (Mc 13:27)
    • Chefe, líder (Mt 9:34, Lc 8:41, Ef 2:2)

    Do jeito que riysh está preposicionada e prefixada no diálogo com Nicodemos (men d’riysh, literalmente, “(a partir )do começo”, ela forma uma expressão muito similar à italiana da capo, podendo significar realmente “de novo” – como indiscutivelmente ela aparece em Gl 4:9,19 ou II Cor 3:1 -, porém também poderia ser entendida como “(a partir) do topo”, i.e, “de Deus”. É um raciocínio interessante e mataria a questão se não fosse por um pormenor: em nenhum outro lugar do Novo Testamento men d’riysh é usada indubitavelmente para indicar um lugar superior. Portanto, Audlin pode estar “forçando a barra” e impondo a um idiomático um significado que nunca teve. Como já expliquei em outro lugar, não basta um dicionário para validar uma tradução, pois quem define o significado de uma palavra é quem a usa. Dicionários apenas correm atrás.

    Por outro lado, um dos livros do Novo Testamento em que a Peshitta traz esse idiomático duas vezes no mesmo capítulo, com um contexto bem revelador:

    Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,
    I Pedro 1:3

    (…)

    Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro;
    Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre.
    I Pedro 1:22-3

    O anônimo autor de I Pedro advogava uma regeneração moral por meio do Espírito e, provavelmente o tradutor da Peshitta identificou isso em Jo 3:3. De fato, não é preciso um jogo de palavras para produzir um duplo sentido que confundisse Nicodemos. Ele não estava sozinho.

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    Dois passos além: os Primeiros Apologistas

    Catacumba cristã

    Na segunda metade do segundo século, o cristianismo se fragmentava em várias facções. Alguns, como os seguidores de Marcião, desejavam romper com o passado judaico da religião, pois julgavam o Pai de Jesus tão diferente do Javé dos patriarcas, que atribuíram ao último um status muito inferior e indigno. Baseando-se em princípio semelhante, grupos esotéricos o tratavam como um demiurgo inferior a aprisionar as almas humanas nos corpos terrenos; e, munidos de sofisticadas alegorias, compuseram complexos sistemas para explanar a catástrofe cósmica que levou inúmeras centelhas divinas a caírem nas garras desse demiurgo, assim como para designar Jesus como um enviado do deus bom com a missão de levar o conhecimento (gnose) necessário para que elas se libertassem e retornassem ao domínio celeste. No outro extremo, persistiam comunidades de judeus cristãos, a advogar que a circuncisão era fundamental para sinalizar a aliança com o Criador, cuja Lei fora dada a Moisés e magnificamente cumprida pelo Nazareno.

    No meio de campo, diversas comunidades se organizavam na busca por um grande compromisso: achavam que era possível ser bom cristão sem se converter ao judaísmo, ao mesmo tempo que louvavam a Escritura por ele legada. Lançavam mão de alegorias para Justificar passagens embaraçosas contidas nela, além justificar Jesus como Messias prometido -, mas paravam por aí. O deus de Abraão era o mesmo deles, do qual se julgavam filhos por adoção. Eis o grupo que viria a constituir a ortodoxia moderna, embora isso ainda incerto àquela época. Na luta por corações e mentes, esse grupo contou com seu próprio exército intelectual a justificar seu ponto de vista sobre os demais. No que tange ao batismo alguns nomes se destacam:

    • Teófilo de Antioquia (? – ca. 186 d.C.): focou na defesa contra as críticas pagãs. Em seu tratado direcionado a elas, considerou o batismo como um propiciador da renovação da vida moral, espelhando a narrativa bíblica da criação do mundo:

      No quinto dia foram criados os animais que procedem das águas, pelas quais e nas quais se mostra a multiforme sabedoria de Deus. De fato, quem seria capaz de enumerar sua quantidade e a variedade de suas variadíssimas espécies? Além disso, o que foi criado das águas por Deus foi abençoado por ele, para que isso servisse de prova sobre o que os homens deveriam receber: penitência e remissão dos pecados através da água e banho de regeneração [λουτρου παλιγγενεσιας], todos os que se aproximam da verdade, renascem e recebem a bênção de Deus.

      II Livro a Autólico, cap. XVI. Texto grego em Patrologia Graeca, Migne, Vol. VI, col. 1.078

    • Irineu de Lião (ca. 130 — 202): mais conhecido por sua obra Contra as Heresias, em que lança veemente ataque aos gnósticos, escreveu, também, um pequeno tratado que pode seu considerado um catecismo para adultos ou uma síntese de sua obra mais famosa. Nele deixa bem claro seu entendimento quanto ao papel do batismo:

      Assim, pois, por temer coisa semelhante [impiedade por meio da heresia], devemos manter inalterada a regra da fé e cumprir os mandamentos de Deus, crendo n’Ele, temendo-O como Senhor e amando-O como Pai. Portanto, um comportamento deste estilo é uma conquista da fé, pois, como diz Isaías: “Se não creres, não compreendereis” (Is. 7,9). A fé nos é concedida pela verdade, pois a fé se fundamenta na verdade. De fato, cremos o que realmente é e como é; e crendo no que realmente é e como sempre foi, mantemos firme nossa adesão. Pois bem: posto que a fé sustenta nossa salvação, é necessário prestar-lhe muita atenção para obter uma inteligência autêntica da realidade. A fé é que nos faz procurar tudo isso, como nos transmitiu os Presbíteros, discípulos dos apóstolos. Em primeiro lugar, a fé nos convida insistentemente a relembrar que recebemos o batismo para o perdão dos pecados em nome de Deus Pai e em nome de Jesus Cristo, Filho de Deus encarnado, morto e ressuscitado, e [em nome] do Espírito Santo de Deus; que o batismo é o selo da vida eterna, o novo nascimento de Deus, de modo tal que não somos mais filhos de homens mortais, mas do Deus eterno e indefectível; que o Eterno e Indefectível é Deus, acima de todas as criaturas, e que cada coisa, seja qual for a sua espécie, está submetida a Ele; e tudo o que foi a Ele submetido foi por Ele criado. Deus, portanto, não exerce seu poder e soberania sobre o que pertence aos outros, mas sobre o que lhe é próprio. E tudo é de Deus. Com efeito, Deus é onipotente e tudo provém d’Ele.

      Demonstração [ou Exposição] da Pregação Apostólica, cap. III

    • Justino, o Mártir (ca. 100 – ca. 165 d.c.): em sua Apologia do cristianismo endereçada ao imperador Antonino Pio é feita uma descrição do ritual do batismo:

      Explicaremos agora de que modo, depois de renovados por Jesus Cristo, nos consagramos a Deus, para que não aconteça que, omitindo nesse ponto, demos a impressão de proceder um pouco maliciosamente em nossa exposição. Todos os que se convencem e acreditam que são verdadeiras essas coisas que nós ensinamos e dizemos, e prometem que poderão viver de acordo com elas, são instruídos, em primeiro lugar, para que com jejum orem e peçam perdão a Deus por seus pecados anteriormente cometidos, e nós oramos e jejuamos juntamente com eles. Depois os conduzimos a um lugar onde haja água e pelo mesmo banho de regeneração, como que também nós fomos regenerados, eles são regenerados, pois então tomam na água o banho em nome de Deus, Pai soberano do universo, e de nosso Salvador Jesus Cristo e do Espírito Santo. É assim que Cristo disse: “Se não nascerdes de novo, não entrareis no Reino dos Céus” (cf. Jo 3:3,4). É evidente para todos que, uma vez nascidos, não é possível entrar de novo no seio de nossas mães. Também o profeta Isaías, como citamos anteriormente, disse como fugiram dos pecados aqueles que antes pecaram e agora se arrependem. Eis o que ele disse: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai as maldades de vossas almas e aprendei a fazer o bem, julgai o órfão e fazei justiça à viúva; então vinde e conversemos, diz o Senhor. Se vossos pecados forem como púrpura, eu os tornarei brancos como a lã; se forem como o escarlate, eu os alvejarei como a neve. Se não me escutardes, a espada vos devorará, porque assim falou o Senhor” (cf. Is 1:16-20). A explicação que aprendemos dos apóstolos sobre isso é a seguinte: uma vez que não tivemos consciência de nosso primeiro nascimento, pois fomos gerados por necessidade de um germe úmido, através da união mútua de nossos pais, e nos criamos em costumes maus e em conduta perversa, agora, para que não continuemos sendo filhos da necessidade e da ignorância, mas da liberdade e do conhecimento e, ao mesmo tempo, alcancemos o perdão de nossos pecados anteriores, pronuncia-se na água, sobre aquele que decidiu regenerar-se e se arrepende de seus pecados, o nome de Deus, Pai e soberano do universo; e aquele que conduz ao banho pronuncia este único nome sobre aquele que vai ser lavado. Com efeito, ninguém é capaz de dar um nome ao Deus inefável; se alguém se atrevesse a dizer que esse nome existe, sofreria a mais vergonhosa loucura. Esse banho chama-se iluminação, para dar a entender que são iluminados os que se aprendem estas coisas. O iluminado se lava também em nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e no nome do Espírito Santo, que, por meio dos profetas, nos anunciou previamente tudo o que se refere a Jesus.

      Apologia, Vol. I, cap. LXI

    Alguém deve estar se perguntando o que esse autores mais tardios teriam a dizer da opinião cristã original? Bem, diria eu que se encontram numa situação em que não são antigos o bastante para que seu ensino seja, acima de qualquer dúvida, chamado de apostólico. Na segundo metade do século II – onde se situa a datação de suas obras – aquilo que viríamos a chamar de Igreja já se organizava institucional e doutrinariamente. Por outro lado, antecedem bem o famigerado Concílio de Niceia. Mais ainda o II Concílio de Constantinopla, que teria expurgado a reencarnação do cristianismo, segundo conspiracionistas de plantão. Vale lembrar que Justino já foi tido por crente na reencarnação por espíritas/espiritualistas e a palavra grega palingênese, que é recorrentemente traduzida por espíritas como “reencarnação”, aparece na pena de Teófilo de Antioquia com um sentido que incomodaria a muitos dos apologistas espíritas. Pois é: sempre quando convier a patrística será usada em prol de teses estapafúrdias de doutrinas modernas; quando não o for, as idiossincrasias dos primeiros teólogos serão assinaladas para constranger os cristãos ortodoxos modernos.

    Se você ainda está cismado com esses textos da patrística pré-nicena, então vejamos se o próprio texto do Evangelho de João tem mais algum segredo para revelar.

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    Um Padrão Oculto nos Diálogos de João

    Ícone de João Evangelista com o Prólogo de Seu Evangelho

    (…)

    Depois que a reencarnação foi retirada do cristianismo pelo imperador Justiniano, no Concílio Ecumênico de Constantinopla (553), houve nele uma reviravolta. Os dogmas, que começaram a surgir em 325, no concílio de Niceia, passaram a ser a base do ensino cristão. A Bíblia passou a ter outras interpretações e seus textos foram adaptados às novas doutrinas, que provocavam acaloradas polêmicas entre os teólogos.

    Realmente, é famosa a passagem reencarnacionista da visita de Nicodemos a Jesus (João 3: 3). Ela se refere de modo claro e contundente à reencarnação, fenômeno esse já largamente comprovado por milhares de biblistas e cientistas de várias religiões ou mesmo sem religião.

    Mas os teólogos, não todos, e cristãos fundamentalistas ainda querem interpretar o nascer “de novo” ou “do alto” (“anothen”) como sendo da água (líquido amniótico) do batismo, mas o texto joanino nada tem a ver com esse ritual que muito respeitamos: “…Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3: 3). E, para deixar a questão mais clara, Jesus acentuou para Nicodemos: “O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito”. “Não te admires de eu te dizer: Importa-vos nascer de novo” (João 3: 6 e 7).
    Esse assunto nada mesmo tem a ver com a água do batismo, mas com o nascer de novo do espírito (conversão ou mudança espiritual radical de vida para melhor) e com o nascer também “de novo” ou “do alto” da (na) carne, ou seja, dos pais, o que é nova vida ou nova reencarnação. Isso é tão verdade que Nicodemos até perguntou a Jesus: “…Como pode um homem nascer sendo velho? Pode, porventura, voltar a entrar no ventre materno e nascer segunda vez?” (João 3: 4). Essa pergunta demonstra-nos que o assunto entre os dois não tem nada mesmo a ver com o batismo.

    (…)

    Nicodemos tinha conhecimento da reencarnação. Daí Jesus ter-lhe dito: “Tu és mestre em Israel, e não compreendes essas coisas?” (João 3: 10). Realmente, os judeus sábios e cabalistas aceitavam as várias vidas terrenas do espírito.

    Para mim, Nicodemos, simplesmente, deu uma de bobo para poder ouvir de Jesus mais e melhores esclarecimentos sobre a reencarnação!

    José Reis Chaves, Só se chega à salvação nascendo “de novo” do espírito e da carne , em coluna semanal do jornal O Tempo, 11/05/2015.

    Deixando de lado as bobagens quanto ao II Concílio de Constantinoplado início do texto – que já discuti à exaustão em outras partes – e as especulações espíritas quanto ao “nascer de novo” – vistas aqui mesmo mais acima -, resgatei esse texto de um velho conhecido, principalmente pela última frase “Nicodemos, simplesmente, deu uma de bobo para poder ouvir de Jesus mais e melhores esclarecimentos sobre a reencarnação!” De fato, imaginar um Nicodemos dando uma de sonso ou de desentendido faz pleno sentido numa interpretação reencarnacionista da passagem, pois, do contrário, haveria uma admissão tácita de que a reencarnação não era tão difundida assim entre os judeus da época, a ponto de um “mestre” ser ignorante quanto a ela. A questão é: será possível presumir isso de alguma forma ou se está extraindo no texto mais do que ele pode oferecer? Aposto nesta última, pois, não somente Nicodemos, mas uma série de interlocutores de Jesus no Evangelho de João aparentam sofrer uma ignorância que precisa ser corrigida pelo Verbo de Deus. Mais tecnicamente falando, observa-se ao longo desse evangelho o padrão ambiguidade/mal-entendido/elucidação nos diálogos de Jesus. Eis alguns exemplos:

    Jo 2:19-22 Jo 4:10-5 Jo 6:33-5
    Ambiguidade Jesus respondeu, e disse-lhes: Derribai este templo, e em três dias o levantarei. Jesus respondeu, e disse-lhe: Se tu conheceras o dom de Deus, e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo.
    Mal-entendido Disseram, pois, os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu o levantarás em três dias? Disse-lhe a mulher: Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva?
    És tu maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, bebendo ele próprio dele, e os seus filhos, e o seu gado?
    Disseram-lhe, pois: Senhor, dá-nos sempre desse pão.
    Elucidação Mas ele falava do templo do seu corpo. Quando, pois, ressuscitou dentre os mortos, os seus discípulos lembraram-se de que lhes dissera isto; e creram na Escritura, e na palavra que Jesus tinha dito. Jesus respondeu, e disse-lhe: Qualquer que beber desta água tornará a ter sede;
    Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna.
    E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede.

    Outros exemplos são encontrados em Jo 4:32ss, 8:31ss, 8:38ss, 11:11ss, 11:23ss, 13:8ss, 14:4ss, 14:7ss, 14:21ss e 16:16ss. Ah, claro, a conversa com Nicodemos (Jo 3:33ss) também se enquadra nesse padrão. Pouca diferença faz se o Jesus histórico empregou essa técnica ou foi um recurso estilístico do evangelista, pois o resultado é o mesmo: os interlocutores de Jesus, nesse evangelho, não se faziam de bobos; eles eram bobos, mesmo. Um dado disponibilizado por estudiosos acadêmicos da Bíblia. Ou seja, pelos biblistas de verdade.

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    Outras Águas

    Crucifixão sobre o 
crânio de Adão

    Crucifixão, por Carlo Crivelli (1485)

    Gostaria de tratar, agora, de uma tradição cristã que não tem exatamente a ver com o batismo, mas trata de um tema importante para os primeiros cristãos: o relação entre o primeiro Adão e o Segundo (Jesus) por meio de um instrumento: a “água da vida”, i.e., o sangue de Jesus. Comecemos por uma apresentação dessa tradição num estágio já bem desenvolvido e dele partir em busca de suas origens

    Capítulo XLI
    (…)
    Depois dessa prece de ambos, Adão se pôs a orar em voz alta perante Deus, e disse:

    10 “ó Senhor, quando eu estava no jardim e via a água que corria sob a Árvore da Vida, meu coração não desejava, nem meu corpo precisava beber dela; nem eu conhecia a sede, pois estava vivo; e em condição superior à de agora.”

    11 “De maneira que para viver eu não necessitava de nenhum Alimento da Vida, nem bebia da Água da Vida.”

    12 “Mas agora, ó Deus, eu estou morto; minha carne esta ressequida pela sede. Dai-me Água da Vida para que possa dela beber e viver.”

    13 “Por Vossa misericórdia ó Deus, salvai-me desses flagelos e provações, e levai-me para outra terra diferente desta, que não me permitis habitar no Vosso jardim.”

    Capítulo XLII

    1 Então veio a Palavra Deus a Adão e disse-lhe:

    2 “ó Adão, quanto ao que tu dizes: Levai-me para uma terra onde haja descanso, não é outra terra diferente desta mas é o reino do céu, o único lugar onde há descanso.”

    3 “Mas tu não podes nele entrar no momento presente mas apenas depois do teu julgamento feito e cumprido.”

    4 “Então far-te-ei subir ao reino do céu, a ti e à tua descendência justa; e dar-te-ei ti e a eles o descanso que pedes presentemente.”

    5 “E se dizes: Dai-me Água da Vida para que eu dela possa beber e viver, isto não pode ser hoje, mas no dia que eu descer ao inferno, quebrar os portões de bronze esmagar os reinos de ferro.”

    6 “Então, por misericórdia salvarei tua alma e a alma justos para dar-lhes descanso em Meu jardim. E isto será quando o mundo chegar ao fim.

    7 “E, novamente, conquanto a Água da Vida que buscas não te seja concedida hoje, te será dada no dia em que Eu derramar Meu sangue sobre tua cabeça na terra do Gólgota.”

    8 “Pois Meu sangue será para ti a Água da Vida, e não somente para ti, mas para todos da tua descendência que acreditarem em Mim; para que seja para eles o descanso eterno.”

    (…)
    Primeiro livro de Adão e Eva, fonte: [Tricca, vol. II] (33).

    A narrativa do primeiro livro da Bíblia é extremamente sucinta da criação do mundo até o dilúvio, o que despertaria a curiosidade sobre os pormenores da odisseia dos primeiros humanos, segundo a mitologia hebraica. No período intertestamentário, essa curiosidade foi saciada por diversas obras destinadas a tapas as lacunas, como Jubileus (bastante popular em Qumran) e o Livro de Adão e Eva. Datado do primeiro século da Era Cristã, esse último desenvolve temas como o motivo da queda dos demônios, a identificação da serpente com Satanás e pormenores sobre as descendências de Caim e de Sete. Cogita-se a existência de um original hebraico hoje perdido, sobrevivendo em diversas versões em outros idiomas, como grego (também chamado equivocadamente de Apocalipse de Moisés), latim (também chamado, A Vida de Adão e Eva), armênio, eslavônico, árabe e etíope. Nesta última, expandida e mais tardia versão – já eivada de interpolações com referências e simbolismos cristãos – é apresentada a história de Adão ter sido sepultado no Gólgota. Nenhuma referência ao sangue de Jesus pode ser encontrada nas versões latina e grega. Contudo, alusões a “fontes vitais” alternativas também são feitas nas versões mais antigas:

    1. Em Vida, quando Adão já se encontra à beira da morte, padecendo de dores por todo o corpo, ele faz um último pedido a Eva:

      Levante e vá com meu filho Sete às regiões do Paraíso, e ponham pó sobre suas cabeças, e prostrem-se ao chão, e chorem ante a visão de Deus. Talvez ele tenha piedade e envie seu anjo à árvore de sua misericórdia, da qual flui o óleo da vida, e lhes dará um pouco dele, com o qual me ungirão, para que eu tenha repouso destas dores pelas quais estou me esvaindo.”

      Cap XXXVII. Fonte:[Charlesworth, p. 272]

      E assim fizeram, mas o Altíssimo foi irredutível:

      Mas quando já tinham orado e suplicado por horas, eis que lhes aparece o anjo Miguel a dizer: “Fui enviado a vocês pelo Senhor, fui posto pelo Senhor sobre os corpos dos homens. Digo a você, Sete, homem de Deus, não choramingue, orando e pedindo pelo óleo da árvore da misericórdia para ungir seu pai Adão em razão das dores de seu corpo.

      Em verdade te digo que de modo algum será capaz de tomar dele, a não ser nos últimos dias.

      Mas você, Sete, vá até seu pai Adão, pois o tempo de vida dele está completo. A contar de agora, em seis dias sua alma deixará o corpo; e, assim que ela partir, você verá grandes maravilhas no céu e na terra, e nas luzes do céu.

      Cap. XL – XLIII, [Idem, p. 274]

    2. Já em “Apocalipse de Moisés”, o pedido é feito pelo próprio Adão, por ocasião de sua queda:

      E o Senhor se virou para Adão e lhe disse: “De agora em diante não permitirei que fique no Paraíso.” E Adão respondeu e disse: “Senhor, dê-me da árvore da vida para que eu possa comer antes de ser expulso” Então o Senhor falou a Adão: “Agora não tomará dela, visto que foi determinado ao querubim e à espada flamejante que anda ao redor para guardá-la por sua causa, a fim de que não possa provar dela e se tornar imortal para sempre, mas que tenha de entrar em conflito com o inimigo que foi posto dentro de você. Mas, após sair do Paraíso, caso se guarde de todo o mal, preferindo a morte a ele, por ocasião da ressurreição eu o erguerei de novo, e então lhe será dado da árvore da vida, e você será imortal para sempre.

      Cap. XXVIII, [Idem, p. 285]

    Outro livro a trazer a história do sepultamento de Adão no Gólgota é A Caverna dos Tesouros, que é tradicionalmente atribuído a Efrém da Síria (séc. IV), embora cogite-se ter sido redigido no século VI por algum seguidor dele. Compartilha muito das lendas apresentadas na versão etíope da história de Adão e Eva (talvez tendo bebido das mesmas fontes) e, em sua terceira parte, relata que um dos filhos de de Noé – Sem – teria levado o corpo de Adão (também transportado na Arca) para o monte Gólgota.

    Por escrito, essa tradição pode ser rastreada até Orígenes (ca. 184 – ca. 254) que, em seu comentário a Mateus, atribui-a aos judeus, sem deixar de lhe dar um toque cristão:

    Sobre o lugar da caveira, chegou-nos a tradição dos hebreus de que o corpo de Adão foi enterrado lá, a fim de que “como todos morrem em Adão” tanto Adão será ressuscitado e “em Cristo todos serão vivificados” [Cf. I Cor 15:22].

    Comentário sobre o Evangelho de Mateus, tomo XXVII, cap. XXXIII, em Patrologia Graeca vol. XIII, col. 1777, nota 89

    A partir daí surge uma série de controvérsias. Primeiramente, essa alegação persiste apenas no texto grego remanescente desse comentário (cf. nota 89 de PG XIII), ficando em aberto houve uma tradução relapsa, uma manipulação/lacuna na transmissão textual – seja da versão latina ou de manuscrito grego que lhe deu origem -, e até mesmo uma glosa incorporada no corpo principal. Segundo, há uma divergência com outra obra da patrística (34) que atribui do nome “Gólgota” (35) a uma peculiar topografia do terreno, à semelhança de um crânio. Por último, a tradição judaica dá como sepulcro de Adão (e Eva) a Gruta de Macpela, em Hebron (36), junto a outros patriarcas e sua esposas.

    Há quem proponha que Orígenes se baseou não numa tradição rabínica antiga e esquecida, mas em fontes judaico-cristãs contemporâneas e acessíveis a ele, algo no mínimo controverso (37). Jerônimo de Estridão, que, à semelhança de Orígenes, passou parte da vida na Palestina, lançou uma luz de como pode ter sido essa tradição repassada, a partir da Carta aos Efésios:

    Bem, então, para apresentar algo ainda mais surpreendente, devemos retroceder a tempos ainda mais remotos. A tradição diz que nessa cidade, não, nesse exato lugar, Adão viveu e morreu. O lugar onde nosso Senhor foi crucificado é chamado Calvário, porque o crânio do homem primitivo foi enterrado lá. Então aconteceu que o segundo Adão, que é o sangue de Cristo, quando caiu da cruz, lavou os pecados do protoplasto [primeiro ser formado] enterrado, o primeiro Adão, e assim as palavras do apóstolo foram cumpridas: “Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá” (Ef 5:14).

    Epístola 46, para Marcela, em nome de Paula e Eustóquio.

    Nesta carta, datada de 386 d.C., Jerônimo tenta convencer sua interlocutora a se mudar para a Terra Santa, tal como ele e seus dois companheiros tinham acabado de fazer. Ela estava relutante devido à crença de a região se tornara amaldiçoada após a morte de Jesus. Jerônimo, então, tenta desfazer essa imagem relatando os encantos do lugar. A redenção de Adão pelo sangue no Calvário é apenas uma delas. Contudo, Jerônimo parece ter mudado de opinião mais tarde e, em seu próprio Comentário sobre Mateus, considerou essa história uma lenda sem fundamento, repetindo, curiosamente, a mesma passagem de Efésios:

    Eu ouvi que alguém explicou que o “lugar da caveira” é o lugar onde Adão está enterrado e a razão pela qual ele é assim denominado é porque a cabeça do antigo homem jaz ali. Relacionam isso ao que o apóstolo disse: “Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá” (Ef 5:14). Essa interpretação é atrativa e tranquilizante aos ouvidos do povo, mas não é verdade. Afinal, do lado de fora da cidade e fora do portão há locais em que as cabeças dos condenados são cortadas. É aí onde tomam o nome de “da caveira” (Calvariae); ou seja, isso se refere às caveiras dos decapitados. Mas a razão pela qual o Senhor foi crucificado ali era para que, onde outrora havia sido um sítio de condenados, lá fosse erguido o estandarte do martírio; e da mesma forma como ele se fez maldição por nós (cf. Gl 3:13) sobre a cruz, e foi açoitado e crucificado, assim ele é crucificado como se um homem culpado entre os culpados para a salvação. Mas caso alguém deseje alegar que a razão pela qual o Senhor foi lá crucificado era para que seu sangue escorresse abaixo sobre a tumba de Adão, perguntar-lhe-emos por que os outros ladrões também foram crucificados no mesmo lugar. Do qual aparenta que Calvário significa não a tumba do primeiro homem, mas o “lugar dos decapitados”. Assim, onde o pecado abunda, a graça superabunda (cf. Rm 5:20). Mas no livro de Josué, filho de Nave [Num], lemos que Adão foi sepultado próximo a Hebron e Arba (cf. Js 14:15, Vulg.).

    Comentário sobre Mateus, 27.33

    Bem, algum adepto da crença do sepultamento de Adão no Calvário poderia alegar por que o nome do monte não estaria no plural “das Caveiras” (Calvariarum), já que haveria uma fartura de cabeças por lá. Nesse caso, a tese da semelhança da topografia local com um crânio seria mais apropriada. Ademais, a tradução que Jerônimo fez em Js 14:15 está provavelmente errada e a Bíblia não dá indicação alguma sobre o local do sepulcro de Adão (38). Por outro lado, Jerônimo deixa nas entrelinhas que a tradição rabínica de Hebron como o endereço final dos restos mortais do primeiro homem já existia na passagem do século IV para o V, tendo-a possivelmente tomado dos judeus com os quais convivera (39). Contudo, há pelo menos uma tradição judaica mais antiga que contraria isso, embora não o estabeleça explicitamente em Jerusalém (40). Seria possível, pois, que a tradução recebida por Orígenes tenha sido mais antiga e foi depois alterada pelos judeus depois que círculos (judaico-)cristãos se apropriarem dela? Caso o tenha sido, não foi o único episódio do gênero (41).

    O que pode ser dito com alguma certeza é que a partir do século IV difundiu-se a crença do primeiro Adão sendo redimido, literalmente, pelo sangue do segundo, que lhe foi derramado (42). Tanto que não difícil encontrar pintura da cena da crucifixão em que um crânio jaz ao pé da cruz de Jesus. De certa forma, o próprio Evangelho de João pode ter sido um catalisador dessa difusão, em particular por esta passagem

    Chegando, porém, a Jesus, como o vissem já morto, não lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água.

    Jo 19:33,4 (Edição Ave Maria)

    Sangue e água, justamente os símbolos constantes em dois sacramentos da Igreja – eucaristia e batismo – jorrando sobre o solo. Isso não passou despercebido pelos comentaristas dos evangelhos da Antiguidade, em especial um que viria a ter destaque no Espiritismo séculos depois:

    Uma palavra sugestiva foi usada pela evangelista, sem dizer que teve Seu lado perfurado (43), ou ferido, ou outra coisa do gênero, mas “aberto”; para que, desse modo, em certo sentido, o portal da vida possa ser deixado aberto, a parti de onde têm fluído os sacramentos da Igreja, sem os quais não há entrada para vida que é a verdadeira vida. Esse sangue foi derramado para a remissão dos pecados; essa água é a que preenche o cálice doador de saúde, e supre ao mesmo tempo a pia batismal e a água para beber. Isso foi anunciado, de antemão, quando se ordenou a Noé fazer um porta na lateral da Arca (Gn 6:16), por onde puderam entrar os animais que não estavam destinados a perecer no dilúvio, e pela qual a Igreja foi prefigurada. Por causa disso, a primeira mulher foi formada da lateral do homem quando adormecido (Gn 2:22) e foi chamada Vida e a mãe de todos os viventes (Gn 3:20). Em verdade, isso apontou para um grande bem, anterior ao grande mail da transgressão (assim no disfarce de alguém jazendo adormecido): este segundo Adão tombou Sua cabeça e caiu adormecido na cruz, para que uma esposa pudesse ser formada para Ele a partir do que fluiu da lateral do adormecido. Oh morte, pela qual os mortos se reguem outra vez para a vida! O que pode ser mais puro que tal sangue? O que pode dar mais saúde que tal ferida?

    Agostinho de Hipona, Tratados sobre o Evangelho de João, nº 120 (Jo 19:31-20:9)

    Daí para a reabilitação de Adão no Calvário é um pequeno pulo. Afinal, como os elementos disponíveis nas já consolidadas Escrituras e literatura patrística, tudo colorava para uma valoração do poder dos sacramentos – em especial o batismo – no imaginário cristão.

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    Balanço Final

    Uma balança e seus pratos com os respectivos pesos, em equilíbrio

    Inspirado numa padronização proposta pelo “Jesus Seminar”, usarei a seguinte nomenclatura para um apanhado de tudo que foi discutido:

    1. Altamente provável: chance de certeza de 75 a 100%;
    2. Provável: chance de certeza de 50 a 74%;
    3. Possível: chance de certeza de 25 a 49%;
    4. Improvável: chance de certeza de 0 a 24%;

    Atentando que não faço parte de tal Seminário, nem realizei nenhuma votação, calco-me na bibliografia apresentada aqui e em outras partes do portal:

    • O batismo já era um ritual iniciático das primeiras comunidades cristãs: altamente provável. Isso é multiplamente atestado na literatura neotestamentária, dos primórdios da patrística, e a dos gnósticos;

    • O batismo era um ritual pagão apropriado pelos cristãos: improvável. partindo do Antigo Testamento e prosseguindo pelas literaturas intertestamentária, sectária e neotestamentária; há um crescente desenvolvimento de rituais de purificação por meio da água rumo ao chamado ao arrependimento de João Batista. Como a adoção desse batismo pelas primeiras comunidades cristãos é quase certa, não houve necessidade, nem tempo de se importar uma prática gentia. Como a água é associada comumente às ideias de limpeza e pureza, outras culturas desenvolveram rituais similares independentemente;

    • Jesus pode não ter dado tanto valor ao batismo quanto João Batista: possível. Embora tenha sido discípulo do Batista, Jesus demonstrou ter diferenças com relação ao mestre no que dizia respeito à vivência da fé: João era mais ascético, ao passo que seu discípulo bem mais mundano. Uma diferença oriunda da forma como viam a chegada do Reino de Deus. João tinha urgência chamar o povo para o arrependimento antes que ele chegasse, o que não tardaria. Já para Jesus, o Reino já havia chegado com seu próprio ministério, então por que não comemorar (cf. Wilkinson, cap. V)? Jesus não se opôs ao jejum (Mt 6:16-8), mas ele tampouco aparentou ser entusiasta dele (cf. Mc 2:18-20, Mt 9:14-5, Lc 5:33-5; Lc 18:11-13; e Mt 11:18,9; Lc 7:33-6). Da mesma forma, Jesus ia aos pecadores em vez de chamar para viessem até ele em arrependimento e, portanto, batizarem-se. A própria complementação posta em Jo 4:2 indica a delegação de uma tarefa que não julgava ser tão crucial assim. Com a morte de Jesus e o adiamento do Reino para sua segunda vinda, o batismo e ascetismo retornaram como formas de preparação;

    • Nicodemos é um personagem histórico: possível. Flávio Josefo (Guerra Judaica, II, cap. XVII) fala de um membro do grupo pacifista por ocasião da primeira Revolta Judaica chamado Gorion ben Nicodemos e o Talmud babilônico (Taanit, 19b) fala de um Nicodemos [Nakdimon] ben Gorion, que teria sido riquíssimo (e milagroso) cidadão de Jerusalém na época do Segundo Templo. É possível, então, que estejamos diante de um caso de uma família proeminente em que o neto herdou o nome do avô (Gorion – Nicodemos – Gorion);

    • Nicodemos e Jesus conversaram: possível . Óbvio que, em João, pode se tratar de outro Nicodemos, porém há certos indícios que parecem forçar essa identificação: se em Jo 3:1-21 é apresentado como mestre da religião, em outras duas passagens ele é membro do Sinédrio (Jo 7:50ss) e uma pessoa bem rica, capaz de contribuir com “quase cem arráteis de um composto de mirra e aloés” (Jo 19:39) para o funeral de Jesus. Em nenhum registro, porém, Nicodemos assume abertamente sua simpatia por ele. O mais provável é que o evangelista tenha tentado correlacionar Jesus a uma figura importante do judaísmo do Segundo Templo, como uma forma de alfinetar os judeus que expulsaram sua comunidade da Sinagoga. Tanto que, convenientemente, o encontro dos dois teria sido à noite, livre de qualquer testemunha não-cristã;

    • Supondo ter ocorrido a conversa, seu registro foi bem documentado em Jo 3:1-21: improvável. Parábolas e aforismos têm boas chances de serem transmitidos oralmente com poucas modificações antes de serem registrados, pois são de fácil memorização e com mensagem direta. Provavelmente foram repetidos mais de uma vez durante o ministério de Jesus. Já os longos discursos abundantes em João são duvidosos quanto à fidelidade, ainda mais passados pelo menos 60 anos desde a morte de Jesus. Que o digam as as duas versões da despedida dele. Não há razão plausível para pensar que a inesperada conversa noturna com Nicodemos foi registrada taquigraficamente na única ocasião em que supostamente ocorreu;

    • A conversa teria se dado em grego: improvável. A língua vernacular da maior parte da Judeia da época era o aramaico. Se Jesus teve algum conhecimento nessa língua, deve ter sido um “grego de contato” sem chegar à profundidade literária apresentada no discurso transcrito. Nicodemos poderia ter maiores chances se ser instruído formalmente no idioma, porém por que ele iniciaria uma conversa com um homem do povo justamente nela?

    • A língua original do Evangelho de João é a grega: provável. As cópias mais antigas desse evangelhos estão em grego, inclusive um fragmento de papiro datado de 125 da Era Comum. A Peshitta é tida como uma versão, e não o original. Contudo, permanece uma corrente de estudiosos a defender que houve um substrato em aramaico sobre o qual o evangelista se baseou e ele ainda estaria acessível por meio de supostos aramaicismos dispersos pelo texto;

  • Existe um trocadilho com a palavra grega anothen usada em Jo 3:3: provável. O cerne da conversa está no mal entendido de Nicodemos e sua correção por Jesus. Argumentos alegando que Nicodemos de fez de bobo para testar Jesus enxergam a árvore, mas não a floresta: por todo esse evangelho o padrão “declaração/mal-entendido/clarificação” se repete. Não haveria por que ser diferente apenas nessa conversa. Seria possível um mal-entendido sem a ambiguidade de anothen? Sim, embora já não fique tão marcado;

  • Tal trocadilho – “alto”/”de novo” – existiria em aramaico: improvável. Pela maioria dos autores que vi, a resposta é não. Isso, porém, tem sido usado por alguns para negar a possibilidade da tradução de anothen como “do alto”, como se o texto tivesse obrigatoriamente que refletir uma tradução literal de uma conversa em aramaico que ninguém registrou. A possibilidade de que o episódio não seja verídico, ou possua um registro impreciso, assusta muitos crentes, mas não precisa ser assim: o longo discurso de Jo 3:1-21 pertence ao domínio da Fé, não da História. Portanto, sua redação pode ainda ter sido inspirada por ensinamentos genuínos de Jesus, ainda que dispersos num contexto fabricado para os propósitos teológicos da comunidade joanina;

  • Também existiria um duplo sentido em aramaico, porém de forma distinta do grego: possível. Caso a tese de James David Audlin se mostre viável, poderíamos até subir a nota para “provável”. Mas até lá ou sua rejeição final, melhor deixá-la em estado suspenso;

  • O cerne da conversa com Nicodemos é o batismo cristão: provável. Fiar-se apenas no uso das palavras “água” e “espírito” torna o entendimento dessa passagem um teste de figuras de Rorschach: elas podem ser o que você quiser, mas o que disser revelará algo sobre ti. Para tentar reduzir um pouco a parcialidade do leitor e acrescentar alguma objetividade à análise da questão, vislumbres devem vir de informações auferidas das evidências internas do Evangelho de João, da comunidade joanina (i.e., das cartas atribuídas a João) e de outras fontes do cristianismo primevo. Com o enfoque da crise reinante na comunidade joanina – tendo de lidar com a rejeição da sinagoga e cismas internos (cf. I João) -, seu evangelho veio para consolar os rejeitados e prover coerência interna. Retomarei, então, uma linha de raciocínio anteriormente apresentada.

    A identificação feita em João 14:26 entre o Consolador e o Espírito Santo durante o discurso de despedida tem, sim, o aspecto de um enxerto no texto do discurso, seja pela apositiva como aparece e por sua ausência no “segundo” discurso de despedida (Jo cap. 15-17), contudo discordo de Pastorino de que tenha sido um acréscimo taridio. Pelo contrário: todos os mais antigos manuscritos trazem essa leitura. Minha hipótese é que o acréscimo já foi feito pelo redator do evangelho (a quem chamarei por praticidade de João) ou por um dos primeiros copistas. A razão para essa pressa em associar o Paracleto ao Espírito Santo pode estar relacionada à dissidência interna sofrida pela comunidade e descrita de forma parcial na Primeira Carta de João. Não é possível saber exatamente em que os dissidente discordavam dos que permaneceram na comunidade, contudo, pelas admoestações feitas pelo autor de I João, temos indícios de que professavam uma cristologia docetista e origem dessa tese estaria em questões quanto à pneumatologia professada pelos contendedores. Quando seu autor fala:

    Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.

    Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus;

    E todo o espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que já agora está no mundo.

    1 Jo 4:1-3

    Ao que parece, os dissidentes constituíram seu próprio movimento profético, atingindo uma amplitude grande demais até para aquela quase mística comunidade. Nesse contexto, um espírito foi “designado como autoritativo” – o Espírito Santo – e que lhes ensinaria “todas as coisas“, e os lembraria “de tudo quanto” lhes fora dito (Jo 14:26). E nesse afã de asseverar uma opinião “ortodoxa” na comunidade, os símbolos sacramentais são definidos:

    Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?

    Este é aquele que veio por água e sangue, isto é, Jesus Cristo; não só pela água, mas pela água e pelo sangue.

    E o Espírito é o que dá testemunho, porque o Espírito é a verdade.

    Porque três são os que dão testemunho: o Espírito, e a água, e o sangue; e estes três concordam.

    Se recebemos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é este, que de seu Filho testificou.

    I Jo 5:5-9

    O sangue é tradicionalmente relacionado ao sacrifício de Jesus para a propiciação dos pecados (Jo 4:9-10). Ele e seu complemento – o corpo – aparecem no longo discurso do sexto capítulo (Jo 6:25-58), que define a fórmula eucarística ausente, nesse evangelho, nos discursos da Última Ceia. Fica intuído, pois, que os dissidentes também rejeitavam esse papel Jesus como “cordeiro pascal”. Os outros dois símbolos – a água e o Espírito – aparecem na conversa com Nicodemos e a ênfase dada para ambos remete a possíveis questionamentos quanto ao modus operandi da iniciação pelo batismo – pela água, pelo Espírito ou pelos dois? -, numa confusão levemente assinalada em Atos. Mesmo o trecho mais enigmático dessa conversa:

    O vento [espírito] sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.

    Jo 3:8

    Ganha outro enfoque se visto à luz dos conflitos internos da comunidade: ao deixar para o Espírito a decisão quanto ao seu próprio destino, estar-se-ia retirando dos dissidentes uma apropriação dele.

    Então, dentro desse contexto social da comunidade joanina, a conversa com Nicodemos fica muito mais clara se entendida como uma regulamentação e defesa de um rito de iniciação contra opiniões divergentes.

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E a História se Repete

A Circuncisão de Jesus - por Giovanni Bellini

– Pode não.
– Peraí, Jesus foi circuncidado!
– Já disse que NÃO PODE!!!
(Circuncisão, de Giovanni Bellini)

Depois, passados catorze anos, subi outra vez a Jerusalém com Barnabé, levando também comigo Tito.

E subi por uma revelação, e lhes expus o evangelho, que prego entre os gentios, e particularmente aos que estavam em estima; para que de maneira alguma não corresse ou não tivesse corrido em vão.

Mas nem ainda Tito, que estava comigo, sendo grego, foi constrangido a circuncidar-se;

E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão;

Aos quais nem ainda por uma hora cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós.

E, quanto àqueles que pareciam ser alguma coisa (quais tenham sido noutro tempo, não se me dá; Deus não aceita a aparência do homem), esses, digo, que pareciam ser alguma coisa, nada me comunicaram;

Antes, pelo contrário, quando viram que o evangelho da incircuncisão me estava confiado, como a Pedro o da circuncisão (Porque aquele que operou eficazmente em Pedro para o apostolado da circuncisão, esse operou também em mim com eficácia para com os gentios),

E conhecendo Tiago, Cefas e João, que eram considerados como as colunas, a graça que me havia sido dada, deram-nos as destras, em comunhão comigo e com Barnabé, para que nós fôssemos aos gentios, e eles à circuncisão;

Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também procurei fazer com diligência.

Gl 2:1-10

Com essas palavras Paulo de Tarso demonstrou seu aborrecimento quando soube que certas comunidades por ele fundadas haviam recebido a visita de outros missionários, cuja mensagem era um tanto diferente da sua, em especial no que diz respeito a práticas judaicas. Como viria a desenvolver melhor em sua Carta aos Romanos, Paulo não apenas achava que Jesus tinha suplantado a Lei mosaica, como a própria Lei seria, ironicamente, um empecilho à salvação; pois não seria possível segui-la à risca. Por outro lado, esses professores, digamos, “judaizantes” tinham um ponto bem forte a favor, pelo menos, da circuncisão: era o sinal da “aliança eterna” entre Abraão e Deus (Gen 17:1-14) e, portanto, deveria continuar valendo, não é? Bem, Paulo conseguiu convencer que ela seria dispensável para os “filhos por adoção” de Deus e, graças a isso, o cristianismo se livrou de uma barreira em seu caminho para o mundo greco-romano, que não via a circuncisão com bom olhos.

Um efeito inevitável disso, porém, foi catalisar a separação entre judaísmo e cristianismo, afinal desprezou-se justamente o principal ritual de iniciação do primeiro em prol de um novo: o batismo. Pode-se até discutir se Jesus, em seu ministério, teria dado alguma ênfase ou não à prática do batismo (44), mas não se pode duvidar que passou a ser tratada como rito de ingresso na comunidade cristã pouco após a crucifixão, pois diversas fontes do primeiro e segundo séculos da Era Comum atestam isso, inclusive gnósticas. Talvez tenha havido contendas entre os adeptos do “batismo de água” e os do “batismo de espírito”, mas a opinião de consenso que o autor de João buscou foi a da necessidade de ambos. O recebimento dos dons do Espírito por ocasião do batismo cristão o distinguia particularmente daquele de simples arrependimento professado por João, sem contar que a fórmula enunciada durante o rito envolvia, inicialmente, o nome de Jesus e, a partir do segundo século, também o Pai e o Espírito Santo.

De certa forma, uma das pretensas terceiras revelações, em tempos modernos, vem tentando algo bem similar ao negar o valor histórico do rito de iniciação da segunda revelação:

Interpretação Cristã Católica

Renascer da água ocorre com o ser que passa pela água do batismo. O Batismo, na verdade, foi um rito de iniciação egípcia e grega, em que somente algumas pessoas tinham acesso aos mistérios das comunidades religiosas daquele tempo e que a Igreja se apropriou, mas com outro significado, passando a ser um dos seus sacramentos. Os filhos que Deus enviou para cada família foram adotados por Ele para sua família pelo ritual do batismo, que os levou a vida divina.

E do espírito: é a infusão do Espírito Santo que conduz e dirige a Igreja e também dá direção a vida daqueles que foram batizados.

Interpretação Cristã Protestante

Renascer protestante: é a mesma dos católicos.
(…)

Faria, Paulo César de; Espiritismo para Leigos, Alta Books, 2016, cap. XIV, p.231

Sabe-se que (parte d)o judaísmo pós-exílio importou alguns conceitos novos de seu cativeiro, como a crença na ressurreição, entretanto não há indícios de que o ritual praticado pelo Imersor fosse uma importação de algum povo vizinho. Pelo contrário: a literatura judaica – seja clássica, intertestamentária ou sectária – sugere um desenvolvimento autóctone do ritual. Já o Novo Testamento descreve em suas linhas a adoção do batismo desde o princípio das atividades missionárias dos apóstolos, bem como as questões surgidas entre as primeiras comunidades cristãs quanto à forma correta de ministrá-la (por meio de água, Espírito ou ambos?), em nada indicando ter havido a adoção pronta de um ritual estrangeiro, o que provavelmente deixaria menos margem a dúvidas.

Ao dizer que o batismo não remonta aos primeiros cristãos e interpretar textos bíblicos sobre ele de forma diversa, o movimento espírita tenta tirar do cristianismo tradicional um item de prestígio que não tem condições de reclamar como seu. De certa forma, a história se repete, porém, no futuro, não há o menor risco de que uma “quarta revelação” faça o mesmo com o espiritismo, pelo simples fato de inexistir no espiritismo um ritual de iniciação. Para ser mais claro, não há ritual algum para ser atacado. Isso, obviamente, dá-lhe robustez contra adversários, porém a um preço que se manifesta em situações um tanto … esdrúxulas: de um lado há pessoas que colaboram anos a fio em centros espíritas que ainda “não se consideram espíritas o bastante”; do outro, gente que apenas é fã de literatura mediúnica e já se declara espírita de carteirinha.

Tomando o simbolismo – entendido aqui como a capacidade de criar um universo interior e externá-lo por meio de símbolo, marcos, ritos, etc. – como um aspecto fundamental da natureza da natureza humana, então essa aparente robustez do Espiritismo tem um preço ainda mais alto do que meros casos pitorescos: a perda do sentimento de transcendência, tão comum nas vertentes da Segunda Revelação. Entenda bem: não estou dizendo que “a inteligência suprema e causa primária de todas as coisas” também não seja um modelo de divindade transcendente, a questão é como um fiel espírita se conecta com essa transcendência para partilhar do sobre-humano. Uma sessão de estudos do Livro dos Espíritos pode ser tão útil como as atividades cotidianas de escovar os dentes, cortas as unhas, lavar a roupa, pagar as contas, etc. e poderá ser tão transformadora do ser quanto elas. Por outro lado, um evangélico pode passar a noite inteira ouvindo platitudes numa vigília e sair de lá se sentindo realmente “Filho de Deus” e num sentido muitíssimo íntimo de filiação. Não digo que uma vivência religiosa seja melhor que a outro, até porque isso é uma escolha individual. Apenas, como observador externo, tenho a impressão de ser maior o número de indivíduos a preferir transcendência à racionalidade. Foi um preço que a fé racionada teve que pagar.

Por outro lado, nada impede que a religiosidade transcendente seja inserida no meio espírita. Seria mais um tropicalização de uma doutrina europeia. Nada contra de minha parte, só não garanto que o ortodoxos do movimento fiquem de boas com isso.

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Notas

(1) Segundo [Finkelstein & Slberman, IV, p. 169]:

Hoje, como no passado, as pessoas demonstram sua etnia de muitas maneiras diferentes: na língua que falam, na religião, no modo de vestir, nas práticas funerárias e nos elaborados tabus dietéticos. A simples cultura material deixada pelos pastores e fazendeiros das montanhas, que se tornaram os primeiros israelitas, não oferece nenhuma indicação precisa de seu dialeto, de seus rituais religiosos, de seus costumes ou de suas práticas fúnebres. Mas descobriu-se detalhe muito importante sobre seus hábitos dietéticos; os ossos recuperados nas escavações de pequenas vilas israelitas antigas nas regiões montanhosas diferem daqueles dos assentamentos em outras partes do país num aspecto significativo: não foram encontrados ossos de porcos. Os conjuntos de ossos de antigos assentamentos nas regiões montanhosas continham remanescentes de porcos, e condição idêntica ocorre para os assentamentos posteriores da mesma região, na pós-Idade do Ferro. No entanto, ao longo da Idade do Ferro – a era das monarquias israelitas – os porcos não eram cozidos e comidos, ou mesmo criados, nas regiões montanhosas. A informação comparativa de assentamentos do mesmo período – a Idade do Ferro I – na costa filisteia mostra número surpreendentemente grande de ossos de porcos entre ossos de animais que foram recuperados. Embora os antigos israelitas não comessem porcos, sabe-se que os filisteus comiam (pelo que podemos dizer de informações pouco detalhadas), do mesmo modo que os amonitas e moabitas a leste do Jordão.

A proibição ao porco não pode ser explicada apenas por razões ambientais ou econômicas. De fato, pode ser a única pista disponível para uma identidade específica, partilhada entre os aldeões das regiões montanhosas a oeste do Jordão. Talvez os proto-israelitas tenham parado de comer porco só porque as pessoas que os cercavam – seus adversários – assim o faziam e eles tenham começado a se perceber diferentes. Práticas culinárias e costumes dietéticos distintos são duas maneiras pelas quais são formadas fronteiras étnicas. O monoteísmo e as tradições do Êxodo e da Aliança parece que vieram mais tarde. Na metade do milênio antes de o texto bíblico ser composto, os israelistas, com suas leis detalhadas e regras dietéticas, escolheram – por razões que não estão absolutamente claras – não comer porco. Fazendo o mesmo, os judeus modernos estão dando continuidade à prática arqueológica documentada mais antiga do povo de Israel.

Tal como a língua, as práticas de higiene também não deixaram vestígios arqueológicos, embora também pudessem facilmente constituir mais uma “fronteira étnica”. [voltar]

(2) Em Antiguidades Judaicas, livro VIII, cap. III.

Ele [Salomão] também fez dez grandes tanques redondos de latão, que eram os próprios lavatórios, cada qual contendo quarenta batos [1 bato ~ 32 litros], pois tinham quatro côvados de altura e suas bordas distavam o mesmo tanto uma da outra. Também dispôs esses lavatórios sobre dez bases chamadas “Mechnoth”, e colocou cinco dos lavatórios no lado esquerdo do templo, que é o lado em direção ao vento setentrional, e igual número no lado direito, na direção sul, porém voltados em direção ao leste; na mesma direção [leste] ele também colocou o mar, então, designou o mar para a lavagem das mãos e pés dos sacerdotes, quando eles adentravam o templo e tinham de subir ao altar, mas os lavatórios para a limpeza das entranhas dos animais a serem queimadas em oferendas, junto com as patas deles.

O texto é muito parecido com II Cr 4:2-8, mas na Bíblia somos informados apenas que os sacerdotes se lavavam e não especificamente “pés e mãos” como informa Josefo. [voltar]

(3) Exemplos:

Que se traga já um pouco de água, e lavai os vossos pés, e recostai-vos debaixo desta árvore;
Gn 18:4

E disse: Eis agora, meus senhores, entrai, peço-vos, em casa de vosso servo, e passai nela a noite, e lavai os vossos pés; e de madrugada vos levantareis e ireis vosso caminho. E eles disseram: Não, antes na rua passaremos a noite.
Gn 19:2

Então veio aquele homem à casa, e desataram os camelos, e deram palha e pasto aos camelos, e água para lavar os pés dele, e os pés dos homens que estavam com ele.
Gn 24:32

Depois levou os homens à casa de José, e deu-lhes água, e lavaram os seus pés; também deu pasto aos seus jumentos.
Gn 43:24

E levou-o à sua casa, e deu pasto aos jumentos; e, lavando-se os pés, comeram e beberam.
Jz 9:21

Então ela se levantou, e se inclinou com o rosto em terra, e disse: Eis que a tua serva servirá de criada para lavar os pés dos criados de meu senhor.
I Sm 25:41

Vale lembrar a passagem dos evangelhos (Lc 7:36-50; Mt 11:28-30) em que Jesus é convidado para jantar por um fariseu e tem os pés ungidos pelas lágrimas de uma pecadora e secos por seus cabelos, enquanto o dono da casa sequer lhe ofereceu água para a lavagem. [voltar]

(4) Cf. [Lawrence, cap. IV, p. 153] e [Flusser, cap. III, pp. 69-71]. [voltar]

(5) Pelo texto de II Macabeus não é possível saber em que consistia tal purificação “segundo o costume”. Para uma discussão sobre hipóteses, ver [Lawrence, cap. III, pp. 62-4]. [voltar]

(6) A Carta de Aristeias traz a lendária história da origem da Septuaginta, ou melhor, da tradução do Pentateuco para o idioma grego. O faraó Ptolomeu Filadelfo (285- 247 a.C.) teria solicitado a 72 sábios judeus de Alexandria a tradução da Torá para o grego koiné, a fim de incluí-la em sua famosa biblioteca. O trabalho, curiosamente, teria sido concluído em exatos 72 dias. [voltar]

(7) Nome também transliterado por Azenate e, ainda, Asenate. Pouca informação sobre ela há no cânon bíblico (cf. Gn 41:45,50-2), o que abriu espaço para amplo trabalho criativo extrabíblico. [voltar]

(8) Cf. [Asheri, cap. XLV, pp. 267-9]. O livro de Judite relata o ato de conversão de Aquior apenas como sendo a circuncisão (Jd 14:6), talvez evidenciando uma diversidade de culto entre os judeus da diáspora ou omitindo a lavagem ritual por considerá-la, para os homens, apenas como uma prévia da circuncisão. No século II da Era Comum, o Talmude babilônico já equiparava ambos os rituais em importância:

[Mas] todos concordam que ablução ritual sem circuncisão é efetiva, mas discordam apenas quanto a circuncisão sem ablução.

Yevamot 49a

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(9) Nos manuscritos de Josefo que chegaram até nós, teria sido feita uma referência a Jesus nesse mesmo livro XVIII de Antiguidades…:

Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, se na verdade se pode chamá-lo de homem. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como entre muitos de origem grega. Ele era o Messias. E quando Pilatos, por causa de uma acusação feita pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-o à cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de amá-lo. Pois ele lhes apareceu no terceiro dia, novamente vivo, exatamente como os profetas divinos haviam falado deste e de incontáveis outros fatos assombrosos sobre ele. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve este nome a ele, não desapareceu.

Antiguidades Judaicas, livro XVIII, cap. III

Também conhecido como Testimonium Flavianum, essa passagem é polêmica por possuir forte cheiro de fraude: como poderia um judeu alinhado com os fariseus chamar Jesus de “Cristo”, considerá-lo “mais do que um homem” e crer em sua ressurreição? Para não descartar totalmente essa passagem, há propostas de que ela seria genuína, porém sofreu enxertos cristãos [Meier, cap. III, pp67-77]. Uma tentativa de reconstituição seria “descristianizá-la” para algo como:

Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como entre muitos de origem grega. E quando Pilatos, por causa de uma acusação feita pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-o à cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de amá-lo. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve este nome a ele, não desapareceu.

Já a passagem de João Batista é mais crível justamente por não ser “cristã demais”. [voltar]

(10) Apesar da possibilidade de o “João Batista Histórico” realmente aguardar alguém maior que ele, como dito em Mc 1:7 e no meio de Mt 3:11/Lc 3:16, não está muito claro que ele esperasse um batismo diferente, como os evangelistas escreverem em Mc 1:8 e ao fim de Mt 3:11/Lc 3:16. À primeira vista, texto aparenta ser extraído apenas de Marcos e copiado nos outros dois sinópticos, conforme a hipótese da origem quádrupla, contudo podemos estar diante de um caso de múltipla atestação de Marcos e Q. Repare a diferença:

(…) ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo (Mc 1:8)

(…) ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo. (Mt 3:11/Lc 3:16)

É possível que os redatores de Lucas e Mateus tenham se deparado com a seguinte leitura em Q: “ele vos batizará com fogo” e daí feito independentemente uma harmonização com Marcos gerando um versículo híbrido em seus respectivos evangelhos (cf. [Tatum, cap. XIII, pp. 128-31]).

A Fonte Q é uma hipótese poderosa e explicativa, mas sofre de um problema sério: não temos nenhum exemplar de Q disponível e – caso ela tenha sido uma tradição oral – talvez nunca venhamos a ter um. Portanto, é possível (embora improvável) que ele contivesse a forma mais longa da passagem. O que a hipótese pode indicar com alguma certeza é existência dessa fala atribuída a João Batista já no período pré-literário, i.e., após a morte de Jesus e antes da redação dos evangelhos. [voltar]

(11) Nos dois principais manuscritos antigos de Marcos – os códices Sinaítico e Vaticano -, os doze últimos versículos estão ausentes. Além disso, há uma mudança abrupta no estilo e palavreado (em grego) que dão praticamente certeza de eles foram um acréscimo posterior. As dúvidas estão entre determinar seu o final original foi perdido, ou se o encerramento abrupto em Mc 16:8 foi o pretendido. Há argumentos fortes para uma e outra opção. Para a hipótese do “final perdido”, vide [Metzger, cap. VIII, pp. 226-9] e, depois, contraste-a com a defesa de um de seus alunos do “final abrupto” em [Ehrman (2006), cap. II, pp. 75-8]. [voltar]

(12) Cf. [Willker, pp.636-8] para pormenores dessa passagem difícil. [voltar]

(13) Sobre outros paralelos que Lucas fez, ver [Ehrman (2008), cap. X, p. 148, box 10.4]. [voltar]

(14) Sobre os modelos de salvação usados por Paulo de Tarso em Romanos, ver [Ehrman (2008), cap. XXII, pp. 361-7]. [voltar]

(15) A edição brasileira da Paulus não dá referência alguma sobre a origem da citação. A edição em língua inglesa de Philip Schaff referencia a passagem a Sofonias 3:19. Como qualquer um pode conferir, a semelhança é vaga, sugerindo uma paráfrase bem grande feita pelo autor da carta ao recorrer à memória.

(16) Vale o mesmo que a nota anterior, porém em relação ao versículo Ez 47:12. [voltar]

(17) Eusébio de Cesareia, em seu História Eclesiástica, assim defende a adoção de O Pastor:

Mas, como ocorre que o mesmo apóstolo, nas despedidas finais da carta aos Romanos [Rm 16:14], menciona, junto com outros, a Hermas – de quem se diz que é o livro O Pastor -, deve-se saber que alguns também rechaçam este livro e que por causa deles não se pode contá-lo entre os admitidos; por outro lado, outros julgam-no muito necessário, especialmente para os que precisam de uma introdução elementar. Por esta razão sabemos que foi lido publicamente nas igrejas e comprovamos que alguns escritores dos mais antigos fizeram uso dele.

H.E., livro III, cap. III, parágrafo 6

Atualmente, considera-se a redação de O Pastor como sendo por volta de 150 d.C., portanto, pertencente a algum outro Hermas bem posterior. O outro documento – o Cânon Muratori diz este Hermas ter sido um irmão do papa Pio, cujo pontificado foi de 142 d.C. a 155. [voltar]

(18) Barnabé e Hermas aparecem, respectivamente, após o Apocalipse, sugerindo que estariam como uma espécie de “apêndice”. [voltar]

(19) A Segunda Epístola de Clemente aos Coríntios, outro documento de meados do segundo século, também se refere ao batismo como “selo”, algo que pode ser estabelecido pelo cruzamento de duas de suas passagens:

Pois assim também diz a Escritura em Ezequiel [Ez 14:14]: “Se Noé, Jó e Daniel ressuscitassem, não salvariam seus filhos em cativeiro.” Então, se homens tão eminentemente justos não são capazes, por sua justiça, de salvar filhos, como podemos esperar entrar na residência real de Deus a menos que mantenhamos nosso batismo santo e imaculado? Ou quem será nosso advogado, a menos que nos encontremos possuidores de obras de santidade e justiça?
Cap. VI

Pois eu digo a você que aquele que é fiel no que é mínimo é fiel também no muito. Isto é, então, o que Ele quer dizer: “Mantenha a carne santificada e o selo imaculado, para que recebam a vida eterna.
Cap. VIII

[voltar]
(20) Cf. [Ehrman (2008), cap. XII, p. 197, box 12.6]. [voltar]

(21) No caso, a ressuscitação de Lázaro. [voltar]

(22) Em Jo 10:6 diz-se que Jesus contou uma parábola, mas os versículo antecedentes desse capítulo se parecem mais com um aforismo seguido de sua explicação. [voltar]

(23) Do grego dokeo (“parecer”). Ou seja, para os dissidentes da ocasião, Jesus não teria tido um corpo físico verdadeiro, apenas aparentando estar na carne. [voltar]

(24) Ideia proposta por [Cullmann, cap. VII, pp. 119-22]. Tenho minhas ressalvas quanto a esse autor – especialmente sua visão do (judeo-)cristianismo esotérico como sendo o original credo cristão, em vez de uma elaboração posterior -, mas devo admitir que achei a tese “dois sacramentos distintos para o batismo” como uma interessante sacada. [voltar]

(25) Lista retirada de [Freire, parte III, cap III]. [voltar]

(26) Um exemplo disto seria o latim medieval, que passou progressivamente a adotar a estrutura sujeito-verbo-objeto, que é a comum nas línguas românicas originárias do latim vulgar. Não que essa estrutura fosse proibida na forma clássica, porém a antiga prosa latina preferia o modelo sujeito-objeto-verbo, tal como o japonês e o coreano modernos fazem. [voltar]

(27) Cf. [Poirier, p.66]. [voltar]

(28) Cf. [Porier, pp. 57-64] e [Meier, cap. IX, pp. 262-6]. [voltar]

(29) Ou “Eloi, Eloi, lama sabachthani?”, na vocalização feita em Mc 15:34. [voltar]

(30) Compare com o verbo utilizado em Sl 22:1 `azabhtâniy. [voltar]

(31) Nas palavras de [Meier, cap. IX, p. 266], “Numa região quadrilíngue, Jesus pode até ter sido um judeu trilíngue, mas provavelmente não seria um mestre trinlíngue“. [voltar]

(32) Tecnicamente, ele teria pertencido à terceira geração de cristãos: ouviu relatos dos que tiveram contato direto com os apóstolos. [voltar]

(33) Esta tardia versão também é conhecida como O Conflito de Adão e Eva com Satanás, e nem sempre é classificada junto aos pseudepígrafos mais antigos que estendem o livro do Gênesis, como Apocalipse de Moisés e A Vida de Adão e Eva. Está mais próxima, sim, de A Caverna dos Tesouros, da qual partilha inúmeras lendas. [voltar]

(34) O pseudo-Tertuliano Poemas contra os Marcionitas, livro II

Esta é a Igreja, mãe verdadeira de um povo vivente; nova carne da carne de Cristo, e um osso de seus ossos. Há um lugar chamado Gólgota – “crânio da cabeça” – assim denominado na antiga língua ancestral: aqui é o meio da Terra, aqui é o sinal da vitória; aqui, ensinaram nossos grandes anciões, encontrava-se sepultado o primeiro homem; aqui Cristo sofreu, com o sagrado sangue a terra se encharcou. Que o pó do velho Adão seja capaz, ao se amalgamar com o sangue de Cristo, de ser erguido pela vertente água da virtude

Para o original latino, clique aqui. A datação da é incerta, podendo ser, pela análise de fórmulas teológicas encontradas nela, pós-nicena. [voltar]

(35) Os evangelhos não são muito elucidativos quanto à questão:

Mateus 27:33: E, chegando ao lugar chamado Gólgota[Γολγοθα], que se diz: Lugar da Caveira[Κρανιου Τοπος],
Marcos 15:22: E levaram-no ao lugar do Gólgota [Γολγοθα], que se traduz por lugar da Caveira [Κρανιου Τοπος].
Lucas 23:33: E, quando chegaram ao lugar chamado a Caveira [Κρανιον], ali o crucificaram, e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda.
João 19:17: E, levando ele às costas a sua cruz, saiu para o lugar chamado Caveira [Κρανιου Τοπος]., que em hebraico se chama Gólgota [Γολγοθα],

[voltar]

(36) Existe uma base bíblica para sepultamento dos patriarcas a partir de Abraão e de suas esposas nessa gruta: Gn 23:9 (Sara), 25:9 (Abraão), 49:29-32 (Isaque, Rebeca, Lia e Jacó). Nada é dito, porém, a respeito de Noé ou Adão. [voltar]

(37) Cf. [Taylor, pp. 127 ss] a respeito das teses dos arqueólogos italianos Bellarmino Bagatti e Emmanuela Testa. Segundo a autora, Bagatti e Testa tomaram A Caverna dos Tesouros e O Livro de Adão e Eva como antigas fontes judaico-cristãs do segundo século. Contudo, ainda que tenham se valido de tradições antigas, as redações finais deles – as únicas disponíveis hoje – são tardias, sendo temerário atribuir-lhes a origem dessa tradição. Outra objeção é o estranho silêncio das fontes cristãs mais antigas, dentre elas Paulo de Tarso, que deu grande valor ao sacrifício expiatório de Jesus em sua teologia. [voltar]

(38)
Conforme o Massorético:

E antes o nome de Hebrom era Quiriate-Arba [cidade de Arba], porque Arba foi o maior homem [Adam, em hebraico] entre os anaquins. E a terra repousou da guerra.

Js 14:15

Entretanto, na Vulgata lê-se:

“O nome de Hebrom antes era chamado Quiriate-Arba, Adão [Adam], o maior entre os anaquins, foi sepultado lá e a terra repousou da guerra.”

Na LXX:

Mas antes o nome de Hebrom era Cidade de Arbok, a capital dos anaquins. E a terra repousou da guerra.

[voltar]

(39) Um dos mais antigos registros na literatura judaica sobre o sepultamento de Adão (e Eva) em Hebron, junto a outros patriarcas, está em Bereshit Rabbah 58:4, datando do século V e, portanto, (quase) contemporâneo a Jerônimo. [voltar]

(40) Seria o Livros dos Jubileus, capítulo IV, em que se relata que Adão foi sepultado “na terra de sua criação“, i.e. no Éden. [voltar]

(41) Dois casos em que judeus tiveram de entrar em disputa de tradições com outros grupos:

  1. Com os cristãos, quanto ao status de inspirada ou não da Septuaginta;
  2. Com os samaritanos, quanto ao local certo para a adoração a Javé – o Monte do Templo de Jerusalém ou o Monte Gerizim?

[voltar]
(42) Algumas outras citações patrísticas dessa crença:

  • Epifânio de Salamina (ca.310 – 403), em Panarion, 46.5, “Contra os tacianitas”:

    E, portanto, devemos nos surpreender que alguém [como Taciano] que saiba – como também encontrei na literatura – que nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado no Gólgota, nenhum outro lugar que aquele onde o corpo de Adão jaz enterrado. Pois após deixar o Paraíso, viver defronte a ele por um bom tempo e envelhecer, Adão posteriormente voltou e morreu nesse lugar – digo, Jerusalém -, e lá foi enterrado no sítio do Gólgota. Este é provavelmente o modo como o lugar – que significa “lugar de uma caveira”

    Confrontando-se com o Livro dos Jubileus, cap. IV, supõe-se que essa tradição estabelecia o Éden no sítio de Jerusalém.

  • João Crisóstomo (ca. 347 – 407), em Homilia 85 sobre o Evangelho de João, 19:16-8

    Saiu para o lugar chamado Caveira“. Alguns dizem que Adão morreu ali e ali jaz; e que Jesus, no lugar onde a morte reinara, lá também erigiu o troféu. Pois ele seguiu adiante carregando a Cruz como um troféu sobre a tirania da morte: e como os conquistadores fazem, assim carregou sobre Seus ombros o símbolo da vitória.

[voltar]

(43) Excepcionalmente, utilizei a versão católica em vez da de João Ferreira de Almeida, porque esta, sendo baseada em manuscritos gregos, traz a leitura “perfurou” (do grego ενυξεν) em Jo 19:34. A Vulgata traz a leitura aperuit (“abriu”), provavelmente refletindo uma leitura grega ηνοιξεν (cf. At 9:40). [voltar]

(44) Cf. [Kelly, cap. VIII, pp. 193-4]. [voltar]

[topo]

Para saber mais

– Asheri, Michael; O Judaísmo Vivo, Imago, 1995.

– Charlesworth, James H.; The Old Testament Pseudepigrapha, vol. II,3a. ed., Hendrickson Publishers, 2013.

– Comfort, Philip; Encountering the Manuscripts, Broadman & Holdman Publishers, 2005.

– Cullmann, Oscar; Das Orignes do Evangelho à Formação da Teologia Cristã, Fonte Editorial, 2ª ed., 2004.

– Ehrman, Bart D.; O que Jesus disse? o que Jesus não disse? – Quem mudou a Bíblia e por quê, Prestígio, 2006

_________________; The New Testament – A Historical Introduction to the Early Christian Writings, Oxford University Press, 4ª ed, 2008.

– Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Novo Século, 1999.

– Finkelstein, Israel & Silberman, Neil Asher; A Bíblia não tinha Razão, A Girafa, 2003.

– Flusser, David; O Judaísmo e as Origens do Cristianismo, vol. I, Imago, 2000.

– Freire, Antônio; Gramática grega, Ed. Martin Fontes, 1997.

– Jerônimo de Estridão (Jerome), Commentary on Matthew, coleção The Fathers of the Church, vol. 117, The Catholic University of America Press, 2008.

– Josefo, Flávio; The Works of Flavius Josephus, tradução inglesa de William Whiston acessado em 01/03/2017.

– Kelly, John Norman Davidson; Early Christian Doctrines, 4ª ed., Adam & Charles Black, Londres, 1968.

– Lawrence, Jonathan David; Washing in Water: Trajectories of Ritual Bathing in the Hebrew Bible and Second Temple Literature, Brill, 2006.

– Meier, John P.; Um Judeu Marginal – Repensando o Jesus Histórico, vol. I, Imago, 1993.

– Metzger, Bruce M.; The Text of the New Testament – Its transmission, Corruption and Restoration, Oxford University Press, 3ª ed., 1992.

– Murachco, Henrique ; Língua Grega, Ed. Vozes, 2ª ed., 2003.

– Pagels, Elaine; Além de toda crença: o Evangelho Desconhecido de Tomé, ed. Objetiva, 2004.

– Patrística, Padres Apostólicos, vol I, Paulus, 1995.

Poirier, John C.; The Linguistic Situation in Jewish Palestine in Late Antiquity, Journal of Greco-Roman Christianity and Judaism, ed. 4 (2007), pp. 55-134.

– Tatum, W. Barnes; John the Baptist and Jesus – A Report of the Jesus Seminar, Polebridge Press, 1992

– Taylor, Joan E.; Christians and the Holy Places – The Myth of Jewish-Christian Origins, Clarendon Press/Oxford, 1993.

– Tricca, Maria Helena & Bárány, Júlia; Apócrifos – Os Proscritos da Bíblia, Vol. II & IV, Mercuryo, 2001.

– Vermes, Geza; Os Manuscritos do Mar Morto, Mercúryo, 2004.

– Wilkinson, Josepha Josephine; John the Baptist: A Life and Death, Kindle Edition, 2012.

– Willker, Wieland; A Textual Commentary on The Greek Gospels, vol. I – Matthew, 8ª ed., 2011.

[topo]

O Rival Cooptado (Rascunho)

4 de junho de 2015 Deixe um comentário

A Pregação de João Batista

A Pregação de João Batista, por Domenico Ghirlandaio

Um dos “cavalos de batalha” dos adeptos da reencarnação bíblica é a alegada existência de João Batista como reencarnação do profeta Elias. Bem, venho dar uma pequena contribuição ao tema, que de forma alguma considero como exaustiva do assunto.

    Índice

    Anunciando o Fim do Mundo. Tal como o Conhecemos.


    Antes de começar a análise do relacionamento entre João e Jesus, convém saber um pouco a respeito do contexto histórico e social em que viveram.

    O Clamor à Retidão


    A tradição judaica fala que Iahweh estabeleceu uma Aliança com o povo hebreu: seria seu único Deus, zeloso e protetor, em troca de sua devoção, que deveria ser expressa na obediência à Lei que lhes enviara. Quando os dois reinos hebreus caíram, um após o outro, sob o domínio do Império Babilônico e boa parte do povo foi levado em cativeiro para o centro do Império, esse entendimento ficou em xeque. Haveria seu deus lhes abandonado? Eram os deuses do conquistador mais fortes? Por essa época um adveio um “movimento profético”, com nomes como Jeremias e Isaías, que levou a uma saída incomum para uma situação dramática que sempre afligia os povos conquistados: não fora Iahweh que os abandonou, nem ele era menor; foi o povo hebreu que lhe dera as costas e, por isso, perdeu sua
    proteção. O sofrimento cessaria por intervenção divina tão logo o povo retornasse à Lei que lhes fora dada.

    Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai benignamente a Jerusalém, e bradai-lhe que já a sua milícia é acabada, que a sua iniquidade está expiada e que já recebeu em dobro da mão do Senhor, por todos os seus pecados. Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus. Todo o vale será exaltado, e todo o monte e todo o outeiro será abatido; e o que é torcido se endireitará, e o que é áspero se aplainará. E a glória do Senhor se manifestará, e toda a carne juntamente a verá, pois a boca do Senhor o disse. Uma voz diz: Clama; e alguém disse: Que hei de clamar? Toda a carne é erva e toda a sua beleza como a flor do campo. Seca-se a erva, e cai a flor, soprando nela o Espírito do Senhor. Na verdade o povo é erva. Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente.
    Seca-se a erva, e cai a flor, porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente.
    Tu, ó Sião, que anuncias boas novas, sobe a um monte alto. Tu, ó Jerusalém, que anuncias boas novas, levanta a tua voz fortemente; levanta-a, não temas, e dize às cidades de Judá: Eis aqui está o vosso Deus.
    Eis que o Senhor DEUS virá com poder e seu braço dominará por ele; eis que o seu galardão está com ele, e o seu salário diante da sua face.
    Como pastor apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos, e os levará no seu regaço; as que amamentam guiará suavemente.

    Is 40:1-11

    O Filho do Homem

    A visão de Daniel das quatro bestas. Por Hans Holbien, o Jovem.

    Mesmo com o retorno do cativeiro, os problemas de Israel não cessaram efetivamente, muito menos retornou a uma suposta “Era de Ouro” como nos tempos de Davi e Salomão. Durante a maior parte do período do “Segundo Templo”, não foi plenamente independente, submetendo-se à suserania de sucessivos povos imperiais: persas, macedônios, selêucidas e, por fim, romanos. A abordagem profética em, digamos, “colocar a culpa na vítima” começou a desagradar algumas mentes pensantes judaicas. Nos últimos séculos antes de Cristo, surgiu um tipo de literatura conhecido como “apocalíptica” (do grego apokalypsis: “revelação”) que tinha como linha mestra a existência de um planejamento secreto divino. Por motivos não muito claros, Iahweh haveria permitido a disseminação do Mal para no momento devido esmagá-lo de forma retumbante, seguindo-se a instauração do “Reino de Deus” sobre a Terra. O pessimismo reinante seria um indício de que o acontecimento era breve, mas, até lá, as pessoas continuariam a dever seguir a Lei para estarem do “lado certo”. Para instaurar e governar o “Reino de Deus”, entraria em cena uma figura mítica conhecida como o “Filho do Homem”. No Antigo Testamento, essa expressão com seu sentido escatológico só aparece no apagar das luzes de sua literatura, no livro de Daniel:

    No primeiro ano de Belsazar, rei de babilônia, teve Daniel um sonho e visões da sua cabeça quando estava na sua cama; escreveu logo o sonho, e relatou a suma das coisas.
    Falou Daniel, e disse: Eu estava olhando na minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o mar grande.
    E quatro animais grandes, diferentes uns dos outros, subiam do mar.
    O primeiro era como leão, e tinha asas de águia; enquanto eu olhava, foram-lhe arrancadas as asas, e foi levantado da terra, e posto em pé como um homem, e foi-lhe dado um coração de homem.
    Continuei olhando, e eis aqui o segundo animal, semelhante a um urso, o qual se levantou de um lado, tendo na boca três costelas entre os seus dentes; e foi-lhe dito assim: Levanta-te, devora muita carne.
    Depois disto, eu continuei olhando, e eis aqui outro, semelhante a um leopardo, e tinha quatro asas de ave nas suas costas; tinha também este animal quatro cabeças, e foi-lhe dado domínio.
    Depois disto eu continuei olhando nas visões da noite, e eis aqui o quarto animal, terrível e espantoso, e muito forte, o qual tinha dentes grandes de ferro; ele devorava e fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os animais que apareceram antes dele, e tinha dez chifres.
    Estando eu a considerar os chifres, eis que, entre eles subiu outro chifre pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos, como os de homem, e uma boca que falava grandes coisas.
    Eu continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e um ancião de dias se assentou; a sua veste era branca como a neve, e o cabelo da sua cabeça como a pura lã; e seu trono era de chamas de fogo, e as suas rodas de fogo ardente.
    Um rio de fogo emanava e saía de diante dele; milhares de milhares o serviam, e milhões de milhões assistiam diante dele; assentou-se o juízo, e abriram-se os livros.
    Então estive olhando, por causa da voz das grandes palavras que o chifre proferia; estive olhando até que o animal foi morto, e o seu corpo desfeito, e entregue para ser queimado pelo fogo;
    E, quanto aos outros animais, foi-lhes tirado o domínio; todavia foi-lhes prolongada a vida até certo espaço de tempo.
    Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele.
    E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído.
    Quanto a mim, Daniel, o meu espírito foi abatido dentro do corpo, e as visões da minha cabeça me perturbaram.
    Cheguei-me a um dos que estavam perto, e pedi-lhe a verdade acerca de tudo isto. E ele me disse, e fez-me saber a interpretação das coisas.
    Estes grandes animais, que são quatro, são quatro reis, que se levantarão da terra.

    Daniel 7:1-17

    O número 4 é recorrente nesse livro, refletindo por vezes o padrão “três mais um” encontrado em outros livros da Bíblia – como Amós (cap. 1 e 2) – em que, após três repetições de algo, uma quarta assinala um tipo de mudança. No caso, as bestas apresentadas na visão representam os “quatro reinos” (cf. Dn 2) que sucessivamente dominaram Israel: o primeiro, a Babilônia, é fácil de identificar, assim como último e penúltimo – a Grécia, precedida pela Pérsia. A identidade do segundo ainda é discutida (talvez o Império Medo, antecessor do Persa), mas certo é que o fim do quarto reino seria marcado pelo começo da soberania eterna do Filho do Homem e o fim do sofrimento para o povo de Deus.

    A figura do “Filho do Homem” prossegue no período intertestamentário, notadamente no I Livro de Enoque, em que também é chamado de “Messias” (Ungido) e apresentado como um ser angélico ou, pelo menos, mais que um mero humano.

    E, naquela hora, o Filho do Homem era mencionado diante do Senhor dos Espíritos, e o seu Nome era referido diante do Ancião. Antes que fossem criados o sol e os signos, e antes que fossem feitas as estrelas do céu, o seu Nome era pronunciado diante do Senhor dos Espíritos.(…)

    Naqueles dias, os reis da terra e os poderosos que possuem esta terra ficarão com o semblante abatido por causa das obras das suas mãos. no dia da sua angústia e privação não poderão salvar a alma. Eu os entregarei então nas mãos do meu Escolhido; eles arderão como palha ao fogo na presença dos Justos e submergirão como chumbo n’água diante dos Santos, e não se encontrará mais sinal deles. No dia da sua tribulação, estabelecer-se-á a paz sobre a terra; cairão na presença deles e não mais poderão levantar-se. Ninguém então se apresentará para tomá-los pela mão e reerguê-los, porque eles negaram o Senhor dos Espíritos e o seu Ungido. Louvado seja o Nome do Senhor dos Espíritos.

    cap. 58:3,5-7. Fonte: [Tricca, vol. III, pp. 143]

    (…)Grande alegria reinava entre elas [as criaturas fiéis a Deus], e bendiziam, louvavam, glorificavam e rejubilavam-se, porque o Nome daquele Filho do Homem lhes foi desvelado. Ele assentou-se sobre o trono da sua Glória; e então foi confiada a Ele, o Filho do Homem, a condução do Julgamento, e fez com que desaparecessem da terra os pecadores e os perversos do mundo. Eles serão postos em grilhões e encerrados no lugar comum da sua destruição. todas as suas obras desaparecerão da terra. De agora em diante, o corruptível deixará de existir, pois aquele Filho do Homem apareceu e assentou-se sobre o trono da sua Glória, e diante da sua face todo o mal se dissipa e desaparece. E a voz daquele Filho do Homem se fará ouvir e será poderosa diante do Senhor dos Espíritos. Esta foi a terceira alegoria de Enoque.

    cap. 69:14-6. Fonte: [Tricca, vol. III, pp. 160]

    Embora a expressão irmã “Filho de Deus” pudesse se referir a um membro da corte angélica de Javé [Jó 1:6, 2:1; 38:7], curiosamente, ela aparece na literatura hebraica clássica muitas vezes com um sentido quase oposto: o de um humano comum em relação íntima com o Divino. Era, por exemplo, o título dado aos reis hebreus quando ascendiam ao trono [cf Is 9:6; Sl 2:7; 89:27], baseado numa promessa dada a Davi de seus herdeiros serem considerados “filhos” de Deus, a começar por Salomão [2 Sm 7:14; 1 Cr 17:13]. A palavra “filho” também é usada de forma coletiva para ser referir a Israel como um todo, quer no singular [Ex 4:22; Os 11:1; Jr 31:20] e no plural [Os 2:1; Is 1:2; Jr 3:19]. Desenvolveu-se, também, a noção de que, dentre os Filhos de Deus, um “Messias terreno” emergiria. Duas vertentes dessa figura surgiram: a primeira era o Messias Davídico, o futuro rei de Israel e descendente de Davi que expulsaria os invasores estrangeiros de Israel e os subjugaria. Nos Salmos de Salomão, um documento do primeiro século antes da Era Comum, encontra-se uma resposta judia ao domínio romano e uma esperança da vinda desse novo regente de uma antiga linhagem:

    Senhor, tu escolheste Davi rei sobre Israel, e prometeste-lhe acerca de sua descendência para sempre, de que seu reino nunca iria te desapontar.

    Mas devido aos nossos pecados, pecadores levantaram-se sobre nós, nos atacaram e nos expulsaram. Àqueles aos quais não deste promessa com violência nos roubaram, e não glorificaram o teu precioso nome.

    Com glória puseram um rei por causa de seus proeminentes; desolaram o trono de Davi como preço da arrogância.

    (. . . )

    O inimigo arrogantemente e com indiferença agiu, e seu coração era indiferente com relação ao nosso Deus.

    Assim ele fez em Jerusalém todas as coisas que os gentios fizeram nas cidades de seus domínios.

    E os assenhorearam os filhos da aliança no meio dos povos promíscuos. Não havia entre eles um que fizesse misericórdia e verdade em Jerusalém.

    Aqueles que amam as sinagogas das santos fugirão deles como os pássaros fogem de seus ninhos.

    Eles vagueiam nos desertos para salvar suas almas do mal. A alma salva deles era preciosa aos olhos do exílio.

    Por toda a terra foi a dispersão deles causada pelos ímpios, por que o céu reteve a chuva de cair sobre a terra.

    Fontes foram interrompidas, desde os permanentes dos abismos até aqueles nas altas montanhas, pois não havia um dentre eles que praticasse a justiça e o juízo.

    Desde o governante deles até o menor do povo estavam em toda espécie de pecado; o rei em transgressão da lei, o juiz em desobediência, e o povo em pecado.

    Veja, Senhor, e levanta-lhes o rei deles, filho de Davi, para reinar sobre Israel, seu servo, no tempo que escolheste, Deus.

    Guarneceste-o com o poder para destruir os governantes injustos, para purificar Jerusalém dos gentios que a pisaram para destruir.

    (. . .)

    E ele será um rei justo sobre eles, instruído por Deus. Não haverá injustiça no meio deles nos seus dias, pois todos serão santos, e seu rei será ungido do Senhor.

    Porém ele não confiará no cavalo, nem no cavaleiro e nem no arco, nem multiplicará seu ouro e sua prata para a guerra, nem a muitas nações estreitará as esperanças para dia de guerra.

    O próprio Senhor é o seu rei, a esperança do forte. Mediante a esperança em Deus mostrará misericórdia a todas as nações que estiverem diante dele em temor.

    Pois ele golpeará a terra com a palavra de sua boca para sempre, ele abençoará o povo do Senhor com sabedoria e júbilo.

    E ele próprio será purificado de pecados, a fim de governar um grande povo, para lançar ao opróbrio os governantes e remover os pecadores pelo poder da palavra.

    E ele não enfraquecerá naqueles dias, graças a seu Deus, pois Deus o fará poderoso pelo Espírito Santo e sábio pelo conselho do entendimento, com poder e justiça.

    Cap. XVII, vv. 4-6, 13-22 e 32-7

    Vale reparar que, ao contrário do violento Messias angélico de Enoque, o dos salmos salomônicos seria pacífico, afinal cumpriria sua missão sem derramar sangue, o que não significa que inexistissem versões guerreiras para o próximo sucessor de Davi. A segunda vertente de Messias humano era a do Aarônico, um novo sumo sacerdote que restauraria o Templo. Uma figura que já aparecia de forma discreta na Bíblia ao lado do Messias Davídico:

    Então ele disse: Estes são os dois ungidos, que estão diante do Senhor de toda a terra.
    Zc 4:14

    E fala-lhe, dizendo: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eis aqui o homem cujo nome é RENOVO; ele brotará do seu lugar, e edificará o templo do SENHOR. Ele mesmo edificará o templo do Senhor, e ele levará a glória; assentar-se-á no seu trono e dominará, e será sacerdote no seu trono, e conselho de paz haverá entre ambos os ofícios. E estas coroas serão para Helém, e para Tobias, e para Jedaías, e para Hem, filho de Sofonias, como um memorial no templo do Senhor.
    Idem 6:12-14

    A tese de dois Messias reaparece em apócrifos intertestamentários como Testamento dos Doze Patriarcas e em Qumran, assinalando uma certa popularidade da ideia. No primeiro, o leitor é apresentado a um Messias sacerdotal oriundo de Levi e outro, com papel de realeza, de Judá:

    Uma vez castigados pelo Senhor, ele suscitará para o sacerdócio um novo sacerdote: a Ele serão reveladas todas as palavras do Senhor. Ele impedirá, em muitas oportunidades, que sobrevenha um julgamento justo sobre a terra. Eis que a sua estrela brilhará no céu, semelhantemente à de um rei. A luz da sabedoria resplandecerá como o sol ao meio-dia. Será glorificado no mundo inteiro. Ele brilhará como o sol sobre a terra, dissipará todas as sombras que nela existem, e por toda parte reinará paz.

    Nos seus dias, os próprios céus rejubilar-se-ão; a terra se alegrará; e exultarão as nuvens. Naqueles dias, o reconhecimento do Senhor derramar-se-á sobre a terra, como a água nos mares. Com Ele alegrar-se-ão igualmente os Anjos da Glória que estão na presença do Senhor. Os céus abrir-se-ão. E do Santuário da Glória descerá sobre Ele a santidade, numa voz paternal, como a de Abraão e Isaac.

    A Glória do Altíssimo ser-lhe-á adjudicada, e o espírito do entendimento repousará n’Ele, da mesma forma como o espírito da santidade [na água]. Ele transmitirá realmente aos seus descendentes a majestade do Senhor, para sempre. Todavia, não será sucedido por ninguém, até os tempos mais distantes. No seu reino, os pagãos sobre a terra crescerão em conhecimentos, iluminados pela graça do Senhor. No seu sacerdócio cessarão os pecados. Não haverá mais o mal da desordem e da anarquia. E os justos encontrarão n’Ele a paz.

    Ele mesmo abrirá as portas do Paraíso, afastará a espada que foi brandida contra Adão, e aos santos dará de comer da Árvore da Vida; sobre eles repousará o Espírito da santidade. Ele acorrentará Belial, e dará aos seus filhos o poder de enfrentar os espíritos maus. O Senhor alegrar-se-á com os seus filhos, e seus bem-amados gozarão do seu beneplácito eterno, e, com isso, exultarão Abraão, Isaac e Jacó; eu também me alegrarei, e todos os santos cantarão de júbilo.

    Testamento de Levi, cap. XVIII. [Tricca]

    Então sairá de Jacó uma estrela que vos trará a paz. Surgirá um Homem da minha estirpe que será como o sol da justiça; Ele habitará entre os filhos dos homens em mansidão e justiça, e nenhum pecado será encontrado n’Ele. Eis que os céus se abrem sobre Ele, derramando o espírito e a bênção santa do Pai.

    Ele mesmo derramará sobre vós o espírito da graça; vós sereis seus filhos em verdade, e seguireis os seus Mandamentos, da manhã à noite. Este é o Rebento do Deus altíssimo, fonte da vida para toda carne.

    Então luzirá o cetro da minha realeza; o Rebento florescerá da vossa raiz. D’Ele procederá um cetro justo para os pagãos, para julgar e salvar a todos que invocam o Senhor.

    Testamento de Judá, cap. XXIV. [Idem]

    Um dos mais antigos Manuscritos do Mar Morto, o “Preceito da Comunidade” (ou 1QS), já trazia uma rápida menção aos dois Messias e no pequeno documento 4QFlorilegium (ou 4Q174), o Messias Aarônico é chamado de “intérprete da Lei” e novamente ladeado pelo regente davídico.

    Quanto à propriedade dos homens da santidade que caminha na perfeição, não será unida às dos homens da falsidade que não purificaram suas vidas por não se terem separado da iniquidade e não terem andado pelo caminho da perfeição . Eles não deverão afastar-se de nenhuma das recomendações da Lei para caminhar na obstinação de seus corações, mas serão regidos pelos preceitos primitivos nos quais os homens da Comunidade for instruídos em primeiro lugar, até que venham o Profeta e o Messias de Aarão e Israel.

    1QS, IX. Fonte: [Vermes, p. 133].

    O Senhor te diz que Ele te construirá uma Casa (II Sm 7:11). Farei permanecer tua linhagem (7:12). Estabelecerei [para sempre] o trono do teu reinado (7:13). [Serei] para ele um pai e ele será para mim um filho (7:14). Este é o Reino de Davi que surgirá com o Intérprete da Lei [para governar] em Sião [no final] dos tempos. Como está escrito: Erguerei a tenda desmoronada de Davi (Am 9:11). Isto quer dizer: a tenda desmoronada de Davi é aquele que surgirá para salvar Israel.

    4QFlor. Fonte: [Idem, pp. 389-90].

    A ideia de separação entre as funções sacerdotal e régia entre dois Messias não é tão estranha assim caso se observe que, na história do antigo Israel, as funções de sumo-sacerdote e de rei geralmente andavam separadas, pois seus titulares seriam oriundos, respectivamente, da casa de Levi e de Davi. As coisas começaram a mudar a partir do rei asmoneu Aristóbolo (105 – 103 a.C.), o primeiro a acumular os dois papéis e cuja linhagem produziu outros nessa situação. É possível então, que a hipótese de um único Messias humano tenha começado a deixar de ser tabu, mas a comunidade de Qumran ainda impunha uma condição:

    Nenhum dos homens que ingressam na Nova Aliança na terra de Damasco, e que novamente a traem e se separam da fonte das águas da Vida, será contado no Conselho dos povos ou sequer inscrito em seu Livro, desde o dia da reunião do Mestre da Comunidade até a vinda do Messias, procedente de Aarão e Israel.

    Preceito de Damasco, IX. Fonte: [Vermes, p. 153].

    Ou seja, ele deveria portar as duas ascendências previstas. Nada disso era necessário para o Messias angélico e Qumran também produziu sua versão dele. No um tanto fragmentado manuscrito 11QMelch (11Q13), o antigo rei-sacerdote da cidade de Salém Melquisedeque – a quem o patriarca Abraão deu um décimo de um butim de guerra (Gn 14:17-20) – é retratado como um poderoso juiz escatológico celestial, com atributos muito semelhantes ao Filho do Homem de I Enoque.

    (. . .)

    E isto [ocorrerá] na primeira semana do Jubileu que segue os nove Jubileus. E o Dia da Reconciliação é o f[inal] do décimo [Ju]bileu, quando será feita a expiação por todos os filhos de [El/Luz] e o os homens da parte de Mel[qui]sedeque. [E] há um estatuto a respeito deles [para for]necer-lhes suas recompensas. Porque este é o momento do Ano da Graça para Melquisedeque. [E el]e, por meio de sua força, julgará os santos de Deus, exercendo o julgamento como está escrito a seu respeito nos Salmos de Davi, que disse: “Elohim tomou o seu lugar no conselho divino; ele julga em meio aos deuses” (Sl 82:1). E é a respeito dele que ele disse: “(Que a assembléia dos povos) volte às 11 alturas acima deles; El (deus) julgará os povos” (Sl 7:7-8). Quanto ao que Ele d[isse: “Até quando] julgareis injustamente e sereis parciais com relação aos ímpios? Selah” (Sl 82:2), sua interpretação diz respeito a Satanás e aos espíritos de seu partido [que] se rebelaram ao abandonar os preceitos de Deus para (…) E Melquisedeque exercerá a vingança dos julgamentos de Deus (…) e ele [os] arrancará [da mão de] Satanás e da mão de todos os esp[íritos de ] seu [partido]. E todos os “deuses [da justiça“] virão em seu auxílio [para] participar da des[truição] de Satanás. E “a altura é (…)” todos os filhos de Deus (…) este (…) Este é o Dia da [Paz/Salvação] a respeito do qual [Deus] falou [através de Isa]ías, profeta, que disse: “[Quão] graciosos, sobre os montes, são os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz boas novas e anuncia a salvação, e que diz a Sião: Ó teu Elohim [reina]” (Is 52:7). Sua interpretação: “as montanhas são os profetas (…) e o mensageiro é o Ungindo do espírito, a respeito de quem Dan[iel] disse: [Até que um ungido, um príncipe (Dn 9:25)] (…) [E aquele que traz] boas [novas], que anuncia a [salvação]“: é a respeito dele que está escrito (…) “[Para confortar todos os que estão enlutados, para conceder àqueles que estão enlutados em Sião]” (Is 61:2-3). Para consolar [“os que estão enlutados“: sua interpretação], para fazê-los entender todas as eras dos t[empos] (…) Em verdade (…) abandonarão Satanás (…) pelos julgamento[s] de Deus, com está escrito a respeito dele, “[que diz a Sião]: o teu Elohim reina (Is 52:7). Sião é (…)“], aqueles que sustentam a Aliança, que deixam de caminhar [pelo] caminho dos povos. E “teu Elohim” é [Melquisedeque (?), que os salvará da ] mão de Satanás. Quanto ao que Ele disse: “Então no [sétimo] m[ê]s farás vibrar [o toque] da trombeta” (Lv 35:9) (…)

    11QMelch. Fonte: [Vermes, pp. 396-7].

    Dado que Abraão pagou dízimo a Melquisedeque, o patriarca do judaísmo se colocou abaixo dele. Por essa lógica, Levi, seu descendente, também era inferior ao sacerdote de Salém. Contudo, apenas com o material contido em Gênese, Melquisedeque ainda seria mero humano. A chave para sua promoção a juiz parece estar no salmo 110 (ou 109), mais especificamente no versículo quarto: “Jurou o Senhor, e não se arrependerá: tu és um sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque“. Uma leitura mais apressada deixa de perceber uma certa ambiguidade nesse versículo: afinal o sacerdócio do Messias seria eterno simplesmente porque Iavé o determinou ou como uma consequência da indicação à ordem de Melquisedeque, que daria esse atributo? Houve quem preferisse a segunda opção e desenvolveu-se um tradição acerca de de Melquisedeque que o colocava no mesmo patamar de Enoque, como humano feito imortal (cf. [Flusser, cap. XII]). Um documento que chegou até nós – o apócrifo II Enoque – relata o nascimento miraculoso de Melquiseque a partir do cadáver da esposa de Nir, irmão de Noé. A criança foi concebida sem conjunção carnal e se desenvolveu aceleradamente no ventre da mãe, que se surpreendeu ao se descobrir em gestação avançada, e após o nascimento, a ponto de já ser encontrada por Noé e Nir declarando louvores a Deus. Pouco depois foi levada pelo anjo Gabriel para o Jardim do Éden a fim de ser poupada do dilúvio iminente e de lá sairia para ser “ o cabeça
    dos sacerdotes em outra geração”
    . Não há como saber se os sectários de Qumran tinham conhecimento dessa lenda. Por outro lado, a existência de uma tradição escatológica para Melquisedeque, aliada a histórias lhe dando uma origem sobrenatural, lança uma luz sobre o enigmático versículo de Hb 7:3

    Sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre.

    * * *

    Após esta um tanto longa exposição acerca da figura Filho do Homem/Messias, tem-se um mosaico de expectativas diferentes quanto a seus atributos:

    1. Humano ou sobre-humano: ele poderia ser uma pessoa comum com qualidades excepcionais e, possivelmente, poderes especiais pela graça divina ou alguém que teve sua natureza transformada para algo comparável ou superior à dos anjos;
    2. Pacífico ou guerreiro: o Messias poderia libertar Israel e subjugar os pagãos por meio de um magnetismo pessoal ou pela força das armas;
    3. Um ou dois Messias: as funções de sacerdote e rei poderiam ser desempenhadas por indivíduos diferentes ou por incorporadas em um único;
    4. Uma ou duas vindas: esta é capciosa, mas uma consequência indireta do item anterior, pois o Messias poderia vir desempenhar uma das funções num momento e só depois assumir a outra. Há um testemunho disso nos Salmos de Salomão 18:5, pois o texto grego (único remanescente) admite duplo entendimento:

      Para que Deus purifique Israel para o dia da misericórdia, para o dia da eleição quando trará de volta/apresentará Seu ungido.

      Ao menos no judaísmo helênico, isso poderia fundamentar uma dupla vinda do Messias.

    Ainda há uma característica do Messias por discutir: sua chegada teria ou não um aviso prévio? E quem seria o mensageiro. Essa discussão merece um tópico próprio.

    Anunciando o Reino de Deus

     Elias subindo aos Céus

    Eram os deuses Era Javé astronauta?

    Mais de uma vez, na literatura hebraica, apareceu a tese de que a subjugação dos opressores de Israel não viria sem um aviso prévio, e esse anúncio poderia vir pelos lábios de alguma figura notável. Judas Macabeu, um dos líderes da revolta contra o domínio selêucida, teria levantado o moral de seus companheiros de luta, após um revés, graças a um estimulante sonho:

    Tendo, pois, armado a cada um deles, menos com a segurança dos escudos e das lanças do que com o conforto das boas palavras, referiu-lhes ainda um sonho digno de fé, uma espécie de visão, que os alegrou a todos. Ora, este foi o espetáculo que lhe coube apreciar: Onias, que tinha sido sumo sacerdote, homem honesto e bom, modesto no trato e de caráter manso, expressando-se convenientemente no falar, e desde a infância exercitado em todas as práticas da virtude, estava com as mãos estendidas, intercedendo por toda a comunidade dos judeus. Apareceu a seguir, da mesma forma, uma homem notável pelos cabelos brancos e pela dignidade, sendo maravilhosa e majestosíssima a superioridade que o circundava. Tomando então a palavra, disse Onias: “Este é o amigo dos seus irmãos, aquele que muito ora pelo povo e por toda a cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus.” Estendendo, por sua vez, a mão direita, Jeremias entregou a Judas uma espada de ouro, pronunciando estas palavras enquanto a entregava: “Recebe esta espada, presente de Deus, por meio da qual esmagarás teus adversários!”

    II Mac 15:11-6

    Os livros de Macabeus visam ser épicos históricos permeados por teologia, já a literatura apocalíptica aumentou a experiência do retorno dos profetas para muito mais que uma visão em sonho, rompendo a barreira da morte:

    Assim diz o Senhor a Esdras:
    “Diga a meu povo que lhe darei o reino de Jerusalém, que eu teria dado a Israel. Também tomarei sua glória para mim e darei estes tabernáculos eternos, que preparei para ele. Terá a árvore da vida para uma unção de doce sabor; não terá de trabalhar, nem se fatigar. Vai e receberás. Ora por alguns dias por ti, para que eles possam ser encurtados: o reino já está preparado para ti, veja. Toma o Céu e a Terra por testemunhas; pois quebrei o mal em pedaços e criei o bom: pois eu vivo.” Diz o Senhor.

    “Mãe, abrace teus filhos e os crie com alegria, e faça os pés deles tão firmes quanto um pilar: pois eu os escolhi.” Diz o Senhor.

    “E os que estão mortos e reerguerei de onde estiverem e os tirarei dos túmulos, pois fiz meu nome conhecido em Israel. Não tema, ó mãe, por teus filhos, pois eu os escolhi.” Diz o Senhor.

    “Para seu amparo enviarei meus servos Esaú e Jeremias, de cujos conselhos santifiquei e preparei para eles doze árvores carregadas com diversos frutos, o mesmo total de fontes a verter leite e mel, e sete imponentes montanhas sobre as quais crescem rosas e lírios, por onde encherei teus filhos com alegria.

    Sê correto com a viúva, justo com o bastardo, dá ao pobre, defende o órfão, veste o nu, cuida do machucado e do fraco, não ri para escárnio do manco, defende o aleijado, e deixa o cego vir para vista de minha clareza. Guarda o ancião e o jovem dentro de tuas muralhas. Onde quer que encontre os mortos, toma-os e os enterra, e te darei o primeiro lugar em minha ressurreição.”

    IV Esd 2:10-23

    O texto acima foi extraído do Apocalipse Judaico de Esdras. Não é uma história como Macabeus, mas um conjunto de sete visões atribuídas a esse profeta e as explicações dadas pelo anjo Uriel. A nomenclatura desse livro é um pouco complicada, correspondendo aos capítulos 3-14 do livro 2 Esdras das edições de pseudoepígrafos feitas por protestantes, 3 Esdras nas igreja eslavas e a 4 Esdras na Vulgata de Jerônimo. Datado do final do I século, esse apocalipse faz coro com II Baruque na tentativa de amparar uma comunidade em choque com a destruição do II Templo.

    Os sectários de Qumran também tinham suas próprias expectativas quanto ao mensageiro. No Preceito de Damasco, é feita uma reinterpretação do livro de Números à luz de seu próprio apocaliptismo:

    o poço que os príncipes cavam, que os chefes do povo perfuram com o cajado (Nm 21:18).

    O poço é a Lei, e aqueles que o cavaram eram os convertidos de Israel que saíram de Judá, permanecendo por algum tempo na terra de Damasco. Deus denominou-os a todos príncipes porque iam ao encontro dEle, e ninguém questionava sua reputação. O Cajado é o Intérprete da Lei de quem Isaías dissera: Ele fabrica uma ferramenta para a Sua obra(Is 54:16); e os chefes do povo são aqueles que vieram para cavar o Poço com os cajados, com os quais o Cajado ordenou que caminhassem durante toda a era da iniquidade – e sem estes não achariam nada -, até que venha aquele que ensinará a retidão no final dos tempos.

    Preceito de Damasco 6:4-11. Fonte: [Vermes].

    O fim dessa passagem talvez remeta ao Mestre da Retidão, apresentado na exortação inicial do manuscrito como aquele posto por Deus para ”guiá-los pelos caminhos de Seu coração” e que ”revelou às gerações posteriores aquilo que Deus fizera à última geração [i.e., o Cativeiro de Babilônia], a congregação dos traidores, àqueles que abandonaram o caminho” (Idem 1:11). Essa figura misteriosa poderia ter sido o fundador da comunidade, algum de seus notáveis líderes ou ainda um cargo repassado entre seus sucessores. Embora esteja associada ao “fim dos tempos” é difícil dizer, com o material disponível, se seria alguém a retornar por algum modo não especificado (imortalidade, ressurreição ou reencarnação) ou um novo indivíduo com equivalência funcional.

    Embora tenha permeado o imaginário de Qumran, o Mestre da Retidão não teve vez fora dos limites da comunidade. Os profetas de Macabeus, por sua vez, tiveram seus nomes grafados em grego. Seu público alvo eram os judeus de Alexandria, com uma mensagem edificante sobre as guerras de libertação de seus irmãos da Palestina. Não deve ter sido um livro que os contemporâneos e conterrâneos de Jesus tenham lido. O Apocalipse de 4 Esdras não o foi com certeza, por razões óbvias. Há outra fonte hebraica sobre profecia iminente que foi, esta sim, a usada pelos evangelistas:

    Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais; e o mensageiro da aliança, a quem vós desejais, eis que ele vem, diz o Senhor dos Exércitos. Mas quem suportará o dia da sua vinda? E quem subsistirá, quando ele aparecer? Porque ele será como o fogo do ourives e como o sabão dos lavandeiros.

    Ml 3:1,2

    Porque eis que aquele dia vem ardendo como fornalha; todos os soberbos, e todos os que cometem impiedade, serão como a palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o Senhor dos Exércitos, de sorte que lhes não deixará nem raiz nem ramo. Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, e cura trará nas suas asas; e saireis e saltareis como bezerros da estrebaria. E pisareis os ímpios, porque se farão cinza debaixo das plantas de vossos pés, naquele dia que estou preparando, diz o Senhor dos Exércitos. Lembrai-vos da lei de Moisés, meu servo, que lhe mandei em Horebe para todo o Israel, a saber, estatutos e juízos. Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor; e ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha, e fira a terra com maldição.

    Ml 3:19-24 (ou 4:1-6)

    Há um intrigante pormenor que surge ao se emparelhar essas passagens de Malaquias, que escapa à maioria dos religiosos judaico-cristãos: falariam elas da mesma pessoa? Seria o “mensageiro” de Ml 3:1 o Elias de 4:5? Bem, Ml 4:1-6 (ou Ml 3:19-24) tem a estrutura de um pequeno apêndice a uma obra que poderia terminar em Ml 3:18. Seu editor pode muito bem ter copiado material de Ml 3:1 para forçar uma identificação. Contudo, as tarefas atribuídas ao enviado em cada passagem não são exatamente as mesmas. Assim, por mais estranho que isto pareça aos fiéis modernos – espíritas inclusive -, é possível uma leitura de Malaquias que compreenda dois mensageiros distintos: um de preparação para o caminho do Senhor e outro para a vingar desrespeitada aliança entre Javé e seu povo. Se assim for, com qual deles seria feita a identificação com Elias? O deuterocanônico Eclesiástico, que dedica seu capítulo XLVIII à volta de Elias, aparenta preferir identificá-lo com o último, ou pelo menos – supondo-se um único mensageiro – enfatizar o aspecto vingativo de sua missão. Um ponto curioso é que em instante algum um Messias é mencionado: os (terríveis) prodígios são realizados por Elias em pessoa:

    1. Suas palavras queimavam como uma tocha ardente. Elias, o profeta, levantou-se em breve como um fogo.

    2. Ele fez vir a fome sobre o povo (de Israel): foram reduzidos a um punhado por tê-lo irritado com sua inveja, pois não podiam suportar os preceitos do Senhor.

    3. Com a palavra do Senhor ele fechou o céu, e dele fez cair fogo por três vezes.

    4. Quão glorioso te tornaste, Elias, por teus prodígios! Quem pode gloriar-se de ser como tu?

    5. Tu que fizeste sair um morto do seio da morte, e o arrancaste da região dos mortos pela palavra do Senhor;

    6. tu que lançaste os reis na ruína, que desfizeste sem dificuldade o seu poder, que fizeste cair de seu leito homens gloriosos.

    7. Tu que ouviste no Sinai o julgamento do Senhor, e no monte Horeb os decretos de sua vingança.

    8. Tu que sagraste reis para a penitência, e estabeleceste profetas para te sucederem.

    9. Tu que foste arrebatado num turbilhão de fogo, num carro puxado por cavalos ardentes.

    Ou seja, nesse deuterocanônico, Elias é o grande protagonista do “terrível dia do Senhor”. Talvez por focar no aspecto religioso (cf. cap. XVII), um novo rei davídico não lhe fosse crucial.

    Uma razão de por que é tentadora a identificação entre [um dos] o inominado[s] mensageiro[s] (do grego αγγελος, “anjo”) e Elias é o fato de poderem ter a mesma origem; afinal este, junto com Enoque e Melquisedeque, fazia parte de um seleto grupo de humanos que ascendeu aos Céus sem conhecer a morte. Como bem lembrou o autor de Eclesiástico, ele teria ascendido para lá levado por uma “carruagem de fogo”:

    E Elias disse: Fica-te aqui, porque o Senhor me enviou ao Jordão. Mas ele disse: Vive o Senhor, e vive a tua alma, que não te deixarei. E assim ambos foram juntos.
    E foram cinquenta homens dos filhos dos profetas, e pararam defronte deles, de longe: e assim ambos pararam junto ao Jordão.
    Então Elias tomou a sua capa e a dobrou, e feriu as águas, as quais se dividiram para os dois lados; e passaram ambos em seco.
    Sucedeu que, havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito sobre mim.
    E disse: Coisa difícil pediste; se me vires quando for tomado de ti, assim se te fará, porém, se não, não se fará.
    E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho.
    O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel, e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, pegando as suas vestes, rasgou-as em duas partes.
    Também levantou a capa de Elias, que dele caíra; e, voltando-se, parou à margem do Jordão.
    E tomou a capa de Elias, que dele caíra, e feriu as águas, e disse: Onde está o Senhor Deus de Elias? Quando feriu as águas elas se dividiram de um ao outro lado; e Eliseu passou.
    Vendo-o, pois, os filhos dos profetas que estavam defronte em Jericó, disseram: O espírito de Elias repousa sobre Eliseu. E vieram-lhe ao encontro, e se prostraram diante dele em terra.

    II Reis 2:6-15

    Um problema surge ao se tratar com o arrebatamento: o corpo humano está sujeito ao desgaste e à deterioração. Como, então, poderia Elias (ou os outros arrebatados) permanecer indefinidamente no Céu? Uma sugestão foi dada pelo pseudoepígrafo judaico-cristão Ascensão de Isaías (séc. I ou II), em que é relatada uma jornada desse profeta pelas várias regiões celestiais. Essa viagem não se enquadra bem como um caso de “arrebatamento” porque se tratou de uma visão: Isaías não esteve lá em corpo físico. Mesmo nessa “visão”, ele precisou colocar uma veste a partir do sétimo Céu para poder prosseguir e ela o deixou similar aos anjos. Já no sétimo Céu, ele encontrou … Enoque, que trajava o mesmo tipo de veste! Não é impossível que seu autor tenha se inspirado em um trecho de I Enoque (62:10), onde se lê de forma poética:

    Serão [os justos] recobertos com as vestes da glória, que são as vestes da Vida do Senhor dos Espíritos. Vossas vestes não envelhecerão e vossa glória não passará na presença do Senhor dos Espíritos.

    Ao contrário da volta de Jeremias ou Esaú, a crença em Elias como mensageiro do “Mundo Vindouro” persiste até hoje nas principais correntes do judaísmo. Note que todas essas figuras estavam para alertar para o fim dos tempos. A vinda do Filho do Homem (ou do Messias terreno) é que fazia parte desse contexto. O que teriam feito os cristão dela ao se destacarem do judaísmo?

    Chegando sem Avisar

    Quadro da destruição do Templo

    A Destruição do Templo em Jerusalém, por Francesco Hayez (1867).

    Nem sempre era necessário que um profeta anunciasse o Fim dos Tempos. Um exceção notável é O Apocalipse de Baruque (ou II Baruque), que traz um Final dos Tempos arrasando os incautos. Quem estiver vivo, deverá se dar conta no meio do processo.

    XXV – O Julgamento do mundo

    Ele falou: “Também tu também serás mantido até aquele dia, como testemunha da ação do Altíssimo sobre os habitantes da terra. E este será o sinal: os habitantes da terra, acometidos de espanto terrível, cairão em muitas privações e em profundíssimos sofrimentos. E quando disserem entre si, na sua necessidade extrema: ‘Que o Altíssimo zele constantemente pela terra’, então o novo tempo se inaugurará”.

    XXVI – A Duração das Tribulações

    Eu falei: “Permanecerá então por longo tempo aquela calamidade? E durará muitos anos aquele tempo de privações?”

    XXVII – Doze Períodos de Calamidades

    Ele falou-me: “De doze partes se compõe aquele tempo: cada uma delas está reservada para o que lhe foi previsto. O primeiro período marcará o início das inquietações; no segundo acontecerá a matança dos poderosos; no terceiro, a morte de muitos; no quarto, o desembainhar das espadas; no quinto, fome e dilúvios de chuva; no sexto, terremotos e horror; no sétimo, (…) no oitavo, aparições e encontros com espíritos; no nono, queda de fogo do alto; no décimo, muitos saques e opressões; no undécimo, crimes e devassidão; no duodécimo, mistura e superposição de todos os precedentes.

    No princípio, esses períodos serão separados, depois eles se misturarão e se completarão entre si […] Pois uns não se exaurem de uma só vez, e terão como acrescentar aos outros; outros completam-se a si mesmos e complementam ainda aos demais, de sorte que os habitantes da terra não perceberão de que se trata do fim dos tempos.”

    XXVIII – Nova Reflexão

    “Mas aquele que perceber estará de sobreaviso. No que se refere porém à medida e números de tempo, haverá dois períodos, que são semanas de sete semanas cada uma.”

    Eu falei: “Será bom que um homem experimente e presencie isso; mas melhor seria que não alcançasse esse tempo, para não sucumbir ao horror. Agora pergunto ainda o seguinte: porventura aquele que vai sobreviver terá desprezo pelo que é condenado e pelo destino que lhe é reservado? Será ele o único a usufruir a imortalidade? Meu Senhor, se efetivamente chegará aquilo que agora me antecipaste, e se porventura encontrei graça aos teus olhos, revela-me ainda o seguinte: acontecerá isso só num país, talvez numa única região, ou se estenderá a toda terra?”

    XXIX – O Messias

    Ele falou-me: “O que vai acontecer atingirá toda a terra; dessa forma, experimentá-lo-ão todos os que estiverem em vida. Mas naquele tempo eu protegerei apenas aqueles que nesses dias se encontrarem neste país [Sião]. Uma vez cumprido aquilo que deve acontecer nos períodos do tempo, o Messias começará a sua revelação. Também Behemoth virá dos seus domínios, e Leviatã se levantará do mar; os dois imensos monstros marinhos por mim criados no quinto dia da Criação, e que reservo para aqueles dias; eles servirão de alimento para todos os que sobreviverem.

    “Então a terra produzirá os seus frutos ao cêntuplo; numa cepa de videira haverá mil ramos, um ramo carregará mil racimos, e um racimo mil bagos, e um bago data até quarenta litros de vinho. Os que sofreram fome comerão regiamente, e a cada dia lhes estão reservadas novas maravilhas.

    “Pois de mim procederão ventos que trarão todas as manhãs o perfume de frutos saborosos, e farão gotejar ao final do dia o orvalho salvífico. Do alto cairá de novo grande quantidade de maná; dele comerão eles naqueles anos, por haverem participado do final dos tempos”.

    XXX – Ressurreição dos Mortos

    “Terminado o tempo vigente do Messias, Ele voltará de novo à glória do céu. Então haverão de ressuscitar todos aqueles que outrora adormeceram na esperança. Naquele tempo acontecerá que se abrirão as câmaras onde se demoram as almas dos piedosos; elas sairão, e todas essas numerosas almas, como uma legião de um só coração, apareceram todas juntas, abertamente. As que foram as primeiras, alegrar-se-ão; as que foram as últimas, não estarão tristes.

    “Cada uma delas sabe que foi chegado o tempo, previsto como o fim de todos os tempos. As almas dos pecadores perder-se-ão em angústia, ao presenciarem tudo isso. Pois elas já sabem que o tormento as atingirá, e que a hora da sua condenação é chegada.”

    Fonte: [Tricca, vol. III, pp. 315-7]. Cf. [Charlesworth, pp. 630-1].

    O Messias não seria uma figura meramente passiva, a produzir maravilhas por sua simples presença. Em outras duas passagens, ele é apresentado, também, como um líder guerreiro:

    XL – O Último Príncipe Será Morto pelo Messias

    “O último rei permanecerá com vida, mesmo tendo perecido a multidão dos seus súditos. Então ele será acorrentado e conduzido ao monte Sião, e ali o meu Ungido lhe pedirá contas de todos os seus atos de prepotência, e, juntamente com as obras de toda a sua multidão, o aniquilará na sua presença.

    “Depois disso, Ele o dará à morte, e assim protegerá o restante do meu povo, que se encontra na terra por mim escolhida. E o seu reino durará para sempre, até o final do mundo perecível, quando então completar-se-ão os tempos predeterminados.

    “Foi essa a tua visão e o seu significado.”

    LXXII – O Messias

    “Toma conhecimento também daquele raio, que deverá vir ao final, após a água negra! Ele representa o seguinte: depois dos sinais prodigiosos, que há pouco foram mencionados, quando os povos forem lançados na confusão, e chegar o tempo do meu Ungido, este convocará a todas as gentes. A umas conservará em vida, a outras eliminará. Aos povos por ele poupados acontecerá o seguinte: todos aqueles que não chegaram a conhecer Israel, e que nunca oprimiram a raça de Jacó, serão conservados em vida e separados dentre todos os povos, submeter-se-ão ao teu povo. Mas todos aqueles que outrora vos dominaram, ou que inutilmente vos conheceram, cairão em conjunto sob a espada.

    E esse Messias guerreiro teve uma contrapartida real: durante a revolta judaica de 132-5 d.C., seu líder Simão bar Kochba foi declarado o Messias por ninguém menos que o famoso rabi Aquiba, após algumas campanhas bem sucedidas contra os romanos, o que deu mais ímpeto à rebelião. Contudo, os romanos contra-atacaram e o final foi desastroso para os revoltosos, para Aquiba e para o povo judeu como um todo, que foi definitivamente posto em diáspora.

    Teria Aquiba cometido um erro crasso de avaliação? Hoje, olhando em retrospectiva, sabe-se que sim, mas e àquela época? Aquiba já conhecera ao longo da vida duas revoltas fracassadas antes dessa e sabia que um sucesso inicial podia nada significar ante o poderio romano. Talvez a presença de uma liderança realmente carismática e centralizada – algo ausente nas anteriores – o fez pensar que “dessa vez seria diferente”. Há quem diga [Gruber] que Aquiba estava ciente de que Bar Kochba não reunia os atributos esperados, como outros rabinos alegavam, mas o utilizou assim mesmo como braço armado para eliminar seitas avessas à primazia rabínica, entre elas o judeu-cristianismo.

    De fato, nenhum profeta viera e o mundo não passava por calamidades, mas essas expectativas eram apenas algumas das diferentes existentes, numa época em que o judaísmo tinha mais divergências de opiniões do que teria na subsequente. Para ir atrás delas é tão preciso buscar os livros ficaram fora do cânon judaico. Afinal, a a Bíblia não é o bastante.

    [topo]

    O Sacerdócio Eterno

    A Arca da Aliança

    Quanto às origens do profeta Elias, pouquíssima informação há na Bíblia:

    Então Elias, o tisbita, que habitava em Gileade, disse a Acabe: Vive o Senhor, Deus de Israel, em cuja presença estou, que nestes anos não haverá orvalho nem chuva, senão segundo a minha palavra.

    I Re 17:1

    Então veio a palavra do Senhor a Elias, o tisbita, dizendo:
    I Re 21:17

    A única informação existente é o gentílico “tisbita”. Flávio Josefo (Ant., VIII, 13) dá sua origem no vilarejo de Thesbon, no país de Gileade, que também é transliterado para Tesbe ou Tisbe. A falta de qualquer informação biográfica deu margem para a multiplicação de tradições quanto ao passado do profeta, algumas tão inusitadas como esta:

    Eu não sei como os hebreus começaram a falar que Fineias, filho de Eleazar, que admitidamente prolongou sua vida ao tempo de muitos dos juízes, como lemos no Livro de Juízes (Jz 20:28), para dizer o que agora menciono. Dizem que ele foi Elias porque Deus lhe prometera imortalidade, devido à aliança concedida a ele (…) .

    Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

    A aliança da qual o teólogo do III século Orígenes fala é a seguinte: E ele, e a sua descendência depois dele, terá a aliança do sacerdócio perpétuo, porquanto teve zelo pelo seu Deus, e fez expiação pelos filhos de Israel (Nm 25:13). Isso não é garantia de identificação entre Fineias e Elias e, dependendo de como se leia, nem de imortalidade. Entretanto, o que o alexandrino não sabia é que essa tradição tinha raízes extrabíblicas, sendo fixada em traduções aramaicas mais livres da Escritura:

    E os anos de vida de Kehath, o santo, foram cento e trinta e três anos. Ele viveu para ver Fineias, que é Elias, o Grande Sacerdote, que será enviado ao cativeiro de Israel no fim dos dias.

    Targum Pseudo-Jonatas Ex 4:13 e Ex 6:18

    E ungirás o altar de oferendas queimadas e todos os seus vasilhames, e consagrarás o altar, que ele seja um santíssimo altar, em razão da coroa do sacerdócio de Aarão, e de seus filhos, e de Elias, o grande Sacerdote, que será enviado ao fim do cativeiro.

    Idem Ex 40:10

    Ainda que possais estar dispersos até os confins dos céus, de lá o Verbo do Senhor vos congregará juntos pela mão de Elias, o grande sacerdote , e de lá Ele vos trará pela mão do Rei Meshiha .

    Idem Dt 30:40

    Essas paráfrases já bastam para identificar Fineias com Elias, mas a natureza desse relacionamento é definida em outra:

    E o Senhor falou com Moisés, dizendo: Fineias, o zeloso, o filho de Eleazar bar Aharon, o sacerdote, afastou minha ira dos filhos de Israel, de modo que, quando zeloso com Meu zelo, massacrou os pecadores que estavam entre eles; e por sua causa não destruí os filhos de Israel em Minha indignação. Jurando por Meu Nome, digo-lhe: “Eis que declaro Minha aliança de paz e fá-lo-ei um anjo da aliança, que ele viva para sempre, para anunciar a Redenção no fim dos dias.

    Targum Pseudo-Jonatas Nm 25:12

    Lembrando que “anjo (mensageiro) da aliança” foi o título dado a Elias em Ml 3:1. Outra corroboração para a tradição descrita por Orígenes se encontra no apócrifo judaico Liber Antiquitatum Biblicarum (“Livro das Antiguidades Bíblicas”), datado do primeiro século e pseudonimamente atribuído a Fílon de Alexandria:

    Também, naquela ocasião, Fineias deitou-se para morrer e o senhor lhe disse: “Eis que ultrapassaste os 120 anos que foram estabelecidos para todo homem (Gn 6:3). Agora levanta e vai-te daqui para residires sobre o monte Danaben e lá resida por muitos anos. E ordenarei a minha águia (cf. I Re 17:4) e ela te alimentará por lá e não descereis à humanidade até o tempo chegar e será provado naquele tempo; e fecharás, então o céu e por tua boca ele se abrirá. E depois serás erguido para o lugar onde os que antes de ti foram erguidos, e lá ficarás até que Eu me lembre do mundo. Então farei todos vós virdes, e provareis o gosto da morte”. E Fineias subiu e fez tudo o que o Senhor lhe ordenou. Entretanto, nos dias que o indicou para ser sacerdote, ungiu-o em Siló (cf. Gn 49:10).

    Cap. XLVIII.

    Palavras e expressões como “redenção”, “fim dos dias”, “lembrar-se do mundo” transmitem a visão apocalíptica de que o término do sofrimento do povo de Deus se daria pela direta intervenção divina, numa data ignorada, mas certa. Fineias – e outros profetas, segundo Antiguidades Bíblicas – eram esperados por essa época, tal como Elias também o era segundo Malaquias. A harmonização dessas duas tradições teria produzido um indivíduo extremamente longevo, oculto boa parte do tempo, e que não se apresentava necessariamente com o nome original.

    Houve outras tradições a respeito da origem de Elias. Numa direção menos, digamos, sobrenatural, o heresiólogo do século IV Epifânio de Salamina (Panarion, sç IV, “melquizedequianos”, pp. 79-80) afirmou ter tomado conhecimento de uma tradição que ligaria a ascendência de Elias a Aarão, passando por Fineias. No outro extremo, existe outra que o considera com uma materialização do arcanjo Sandalphon, o que explicaria a ausência de uma origem, seus milagres e a ascensão ao céu (cf. [Ginzberg, vol. IV, cap. VII]).
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    Em Busca da Figura Histórica

    O historiador judeu do final do primeiro século Flávio Josefo deixou um relato sobre um popular pregador que viveu à época de Herodes:

    Alguns judeus pensavam que a destruição do exército de Herodes veio de Deus, de forma justa, como punição pelo que ele havia feito contra João, chamado Batista: pois Herodes o matara, ele que era um homem bom e pregava para que os judeus praticassem a virtude, tanto pela justiça de uns para com os outros, como pela reverência a Deus, para isso vindo ao batismo. Esta lavagem era aceita por ele, não se fosse para terem alguns pecados perdoados, mas para a purificação do corpo. A alma devia estar purificada antes pela retidão. Quando muitos vieram em multidão até João, movidos por suas palavras, Herodes, que temia a grande influência de João sobre o povo, o que permitiria que estimulasse uma revolta (pois pareciam prontos a fazer o que ele dissesse), pensou ser melhor matá-lo. Isto impediria qualquer ação contrária causada por João e não traria dificuldades para o rei, que poderia arrepender-se muito tarde de tê-lo deixado vivo. Assim, foi aprisionado em Maqueronte, castelo que mencionei antes, e morto. Os judeus consideraram que a destruição do exército de Herodes foi uma punição, para mostrar o desagrado de Deus

    Antiguidades Judaicas, Livro XVIII, cap. V

    Panorama de Maqueronte

    Montanha da antiga fortaleza de Maqueronte, nas proximidades do Mar Morto.

    E isso é tudo o que sabemos sobre João Batista de uma fonte não (muito) religiosa. Qualquer conhecimento extra tem de ser extraído dos sinópticos, do evangelho de João e dos ditos não gnósticos de Tomé. Como a maior quantidade de dados que temos disponível sobre o “Jesus Histórico” se encontra nos sinópticos, boa parte das informações de sua relação com João e até a respeito do próprio estará neles. Ao lida com esse material, é preciso ter em mente que:

    1. Não são independentes: conforme a hipótese mais aceita hoje, Marcos é o mais antigos dos três e forneceu o fio narrativo comum a eles. Lucas e Mateus adicionaram aos seus relatos elementos exclusivos e uma boa quantidade de outros tomada a partir de uma suposta fonte de ditos comum, chamada de Q (do alemão Quelle, “fonte”). Portanto, as referências aqui usadas não são exatamente os sinópticos, mas a narração de Marcos (Mc), o material exclusivo de Mateus (M), o exclusivo de Lucas (L) e a fonte Q;
    2. Não são biografias de Jesus: São obras de fé que queriam convencer seus primeiros leitores de uma imagem derivada do verdadeiro Jesus Histórico. Elementos dele se encontram nos evangelhos, permeados elementos míticos e, para separar um pouco “o joio do trigo”, esse material deve ser analisado e filtrado por critérios como o da múltipla atestação, da conformidade social e o da dissimilaridade (1).

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    A mensagem

    Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados.
    E toda a província da Judeia e os de Jerusalém iam ter com ele; e todos eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.

    Mc 1:4-5

    E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura?
    Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento;
    E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão.
    E também agora está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo.

    Mt 3:7-10

    Dizia, pois, João à multidão que saía para ser batizada por ele: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir?
    Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento, e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque eu vos digo que até destas pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão.
    E também já está posto o machado à raiz das árvores; toda a árvore, pois, que não dá bom fruto, corta-se e lança-se no fogo.
    E a multidão o interrogava, dizendo: Que faremos, pois?
    E, respondendo ele, disse-lhes: Quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem, e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira.
    E chegaram também uns publicanos, para serem batizados, e disseram-lhe: Mestre, que devemos fazer?
    E ele lhes disse: Não peçais mais do que o que vos está ordenado.
    E uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo.

    Lc 3:7-14

    Não é difícil compreender porque a mensagem do Batista (“o imersor”, em grego) alcançou uma considerável popularidade. Seus princípios simples contrastavam com a sofisticação de regras dos “doutores da Lei”. A pureza ritual era alcança uma única vez, dispensando as sucessivas purificações exigidas pela letra da Lei para as mais diversas e repetitivas circunstâncias, pois a principal pureza era a moral. Era desvinculada do Templo de Jerusalém, que intermediava o perdão divino por meio de sacrifícios de animais. Sem dúvida, para os mais humildes era confortador e libertador não ter que aturar a arrogância dos doutos, poupar suas escassa água e não ter que pagar o tributo ao Templo.

    Pelos resquícios que nos restam, fica patente que João Batista tinha pressa em chamar o povo ao arrependimento, pois “a ira” estava prestes a cair. Uma mudança abrupta em todo o status quo. Assim, pode ser considerado como um pregador escatológico, como outros de seu tempo foram.

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    O Discípulo maior que o Mestre


    No meio da multidão que ouvia sua mensagem e recebia seu batismo, estava um jovem artesão chamado Yeshua ben Yosef, que boa parte da humanidade, a partir de alguns séculos depois, passaria a ter como o Messias (“Ungido”) esperado para a instauração do Reino de Deus.

    Batismo de Jesus

    Esta cena foi verídica. Contudo, editamos a pombinha, pois sua aparição não passa no princípio da dissimilaridade.

    O batismo de Jesus, filho de José, por João e sua morte na cruz são umas das poucas certezas que temos em sua biografia. Ambas por um motivo similar: foram passadas adiante pelos evangelistas, mesmo sendo potencialmente constrangedoras. Talvez por serem notórias aos contemporâneos, fossem impossíveis de omitir. O embaraço da crucifixão é óbvio, afinal como o Messias poderia ter tido um fim tão ignóbil. Se você se declarasse um seguidor de Jesus por volta do anos 40-50 da Era Comum, muito provavelmente seria alvo de chacota. A solução foi “fazer um limonada desse limão” e enquadrar esse aparente fracasso como a conclusão da primeira etapa do plano de salvação da humanidade. A história da Ressurreição de Jesus – calcada em uma crença já existente entre os judeus pós-exílio – foi fundamental para tanto. Mas isso é outro assunto…

    Embora o batismo não fosse tão catastrófico quanto à morte na cruz, ainda assim gerava uma dificuldade: caso se presuma uma superioridade moral do imersor em relação ao imergido, então por que Jesus se deixou batizar e não o contrário? Houve quem realmente descartasse essa hipótese:

    A mãe do Senhor e seus irmãos lhe disseram: “João Batista batiza pelo perdão dos pecados; vamos e sejamos batizados por ele.” Mas ele lhes respondeu: “De que forma eu pequei para que devesse ir e ser batizado por ele? A não ser que, talvez, o que eu acabei de dizer seja um pecado de ignorância.”

    Fragmento do Evangelho do Hebreus, preservado por Jerônimo em Contra Pelágio, livro III, parágrafo 2.

    A solução adotada pelos evangelistas foi tornar João Batista precursor de Jesus, e não seu mentor, assim invertendo a ordem hierárquica entre eles. Por exemplo:

    Então veio Jesus da Galileia ter com João, junto do Jordão, para ser batizado por ele.
    Mas João opunha-se-lhe, dizendo: Eu careço de ser batizado por ti, e vens tu a mim?
    Jesus, porém, respondendo, disse-lhe: Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça. Então ele o permitiu.

    Mt 3:13-15

    Esse dito aparece apenas em Mateus e isso não é de se estranhar, pois, tal como a Paixão, a Ressurreição e a expulsão dos vendilhões, os evangelhos concordam na existência de certos episódios comuns, mas destoam nos pormenores. Por outro lado, uma fala comum a todos os sinópticos é:

    E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas alparcas. Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.

    Mc 1:7-8. Cf Lc 3:16 e Mt 3:11

    Não se deve, entretanto, ver muito nisso. Essas palavras são exclusivas de Marcos e copiadas quase ipsis literis nos outros dois. Elas também não passam pelo critério da dissimilaridade, pois vão ao encontro do que os primeiros cristãos gostariam de ouvir. Elas representam o esforço dos primeiros cristãos – os evangelistas em especial – de subordinar o mestre ao discípulo.

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    Os Sinópticos sobre o Mestre

    Os evangelhos sinópticos

    Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus;
    Como está escrito nos profetas: Eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti.
    Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas.
    Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados.
    E toda a província da Judeia e os de Jerusalém iam ter com ele; e todos eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.
    E João andava vestido de pelos de camelo, e com um cinto de couro em redor de seus lombos, e comia gafanhotos e mel silvestre.

    Mc 1:1-6. Cf. Mt 3:1-5, Lc 3:3-4

    Marcos, copiado depois pelos demais sinópticos, faz nítida associação entre João Batista e a profecia de Isaías supracitada. Quando surgiu pela primeira vez um profeta guiando o povo no deserto, veio a destruição para as nações que ocupavam a Terra Prometida. Um novo fim batia à porta (2). É curioso notar também outra associação feita, menos explícita.

    E eles lhe disseram: Era um homem peludo, e com os lombos cingidos de um cinto de couro. Então disse ele: É Elias, o tisbita.
    II Reis 1:8

    A associação mais forte com Elias só é feita na metade desse evangelho, após o episódio da transfiguração:

    E, descendo eles do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, até que o Filho do homem ressuscitasse dentre os mortos.
    E eles retiveram o caso entre si, perguntando uns aos outros que seria aquilo, ressuscitar dentre os mortos.
    E interrogaram-no, dizendo: Por que dizem os escribas que é necessário que Elias venha primeiro?
    E, respondendo ele, disse-lhes: Em verdade Elias virá primeiro, e todas as coisas restaurará; e, como está escrito do Filho do homem, que ele deva padecer muito e ser aviltado.
    Digo-vos, porém, que Elias já veio, e fizeram-lhe tudo o que quiseram, como dele está escrito.

    Mc 9:9-13. Cf. Mt 17:10-3

    Essa anedota foi registrada por Marcos e copiada por Mateus, com algumas (nada) sutis diferenças: ele retira a confusão dos discípulos quanto à “ressurreição dentre os mortos” do Filho do Homem e explicita a identificação ente os personagens, que Marco deixara nas entrelinhas.

    Nenhuma dessas versões deve ter saído da boca de Jesus (3).

    Em questões de fé, não se faz profecias em relação ao passado. O passado é justificado, o que é bem diferente. No caso dos primeiríssimos cristãos, eles tinham dois abacaxis para descascar: o martírio de João Batista e o de Jesus. Dois finais nada gloriosos. Tanto que a pergunta “por que dizem os escribas que é necessário que Elias venha primeiro?” deveria ser embaraço com que os membros da comunidade marcana eram confrontados. A solução foi enfatizar que João e Jesus foram realmente quem deveriam ser – o precursor e o Messias -, tanto que basta confrontar as palavras de Malaquias e Marcos:

    Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim.
    Ml 3:1 (i.e., diante de Deus)

    Como está escrito nos profetas: Eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti.
    Mc 1:2 (i.e, diante de Jesus)

    para constatar uma edição do Antigo Testamento em prol dessa nova doutrina; bastando interpretar “Senhor” não mais como Deus, mas como o Messias. A mudança de pronome seria “licença poética”…

    Acontece que eles não desempenhariam esses papéis da forma que a maioria do judaísmo esperava e isso é um aspecto muito forte em Marcos. Embora esse evangelho afirme logo no primeiro versículo que Jesus é “Filho de Deus”, o comportamento dele descrito ao longo da maior parte da narrativa é o de alguém que tentava esconder isso ao máximo. Jesus não deixava que os demônios falassem “porque eles o conheciam” (1:34). Ao curar um leproso, advertiu-o não contar a ninguém (1:43-4), mandou expressamente que ninguém soubesse que ressuscitara a filha de Jairo (5:43). Quando Pedro o identificou como o Messias, ordenou que guardasse segredo dos demais discípulos (8:29-30). Após a transfiguração no monte, ordenou às testemunhas que não contassem a ninguém (9:9). Uma proposta radical para o “segredo messiânico” de Marcos foi feita no começo do século XX pelo erudito alemão William Wrede: o Jesus Histórico jamais exigiu segredo porque nunca viu a si mesmo como Messias. Foram seus seguidores que o consideraram com tal e tiveram que elaborar histórias explicando o fato de ele nunca haver se pronunciado a respeito disso. Não é preciso muito para imaginar o quanto de controvérsia isso gerou. Uma proposta mais amena seria considerar que Marcos apenas propôs um Messias humilde, servil e sofredor, em vez da visão de grandeza terrena para o Filho do Homem. De forma análoga, João Batista seria o Elias aguardado, ainda que ninguém se desse conta disso. Mateus, por sua vez, é bem mais enfático em associar Jesus com o Messias prometido, embora em uma roupagem inesperada. Para ele, não haveria o que esconder, mas realçar. O mesmo vale para Elias, tanto que faz um adendo à história para que ninguém se confundisse: “Então entenderam os discípulos que lhes falara de João o Batista” (Mt 7:13). Por outro lado, ambos têm algo em comum com relação a João: não lhe dão uma origem. Para eles o passado do Batista é tão misteriosos quanto fora o de Elias. Seria possível que partilhassem da crença no “sacerdócio eterno”, tendo o mesmo indivíduo Fineias/Elias/João atravessado séculos até o advento de Jesus.

    Em Lucas, nenhuma vinculação de João a Elias é feita após a transfiguração (9:28-36), até por que uma já aparecera bem antes, na Natividade. Tanto Mateus quanto Lucas falam da concepção miraculosa de Jesus, cuja mãe, Maria, fora fecundada ainda virgem pelo Espírito Santo. Apenas Lucas, porém, fala que sua prima (4) Isabel também tivera um pouco antes uma concepção “fora do comum” – engravidara já com idade – e o pai, o sacerdote Zacarias, recebera a notícia de uma forma espantosa:

    Segundo o costume sacerdotal, coube-lhe em sorte entrar no templo do Senhor para oferecer o incenso.
    E toda a multidão do povo estava fora, orando, à hora do incenso.
    E um anjo do Senhor lhe apareceu, posto em pé, à direita do altar do incenso.
    E Zacarias, vendo-o, turbou-se, e caiu temor sobre ele.
    Mas o anjo lhe disse: Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida, e Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João.
    E terás prazer e alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento,
    Porque será grande diante do Senhor, e não beberá vinho, nem bebida forte, e será cheio do Espírito Santo, já desde o ventre de sua mãe.
    E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus,
    E irá adiante dele no espírito e virtude de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à prudência dos justos, com o fim de preparar ao Senhor um povo bem disposto.
    Disse então Zacarias ao anjo: Como saberei isto? pois eu já sou velho, e minha mulher avançada em idade.
    E, respondendo o anjo, disse-lhe: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado a falar-te e dar-te estas alegres novas.

    Lc 1:9-19

    Tal história existe apenas em Lucas (5), dando um problema a esse evangelista: se João teve um começo recente, como relacioná-lo ao “Elias oculto”, que não provara da morte? O jeito foi dar-lhe um papel simbólico de Elias – “no espírito e virtude (poder)”, – coisa que os outros dois sinópticos não fizeram ou, com certa boa vontade, deixaram nas entrelinhas. Existe, também, um evangelho apócrifo da natividade – o Protoevangelho de Tiago – que também fala da paternidade do sacerdote Zacarias, mas não entra em maiores detalhes.

    Isabel e Maria

    Isabel e Maria, por Philippe de Champainge.

    Quanto à historicidade dessa narrativa, os prognósticos não são bons. Dos canônicos, Lucas é o único a trazer essa história e, também, é o único a deixar transparecer que seu autor se valeu de fontes pregressas (Lc 1:1-4). É possível que ele tenha utilizado uma tradição comum ao Protoevangelho de Tiago – que também dá origem sacerdotal a João e relaciona sua mãe com Maria -, mas continuaria tendo elementos exclusivos dele, em especial o nascimento miraculoso (não tanto quanto o de Jesus), deixando de satisfazer o princípio da múltipla atestação. Isso enfraquece, sem dúvida, as chances de a natividade de João ter algum valor histórico em meios ao elementos da fé, sem, no entanto, refutá-la. O que realmente a compromete são elementos que parecem ter sido tomados do Antigo Testamento:

    • Isabel já é dada como estéril (Lc 1:17), assim como Sara (Gn 11:30);
    • Como Abraão e Sara (Gn 13:11), Zacarias e Isabel (Lc 1:7) já estão velhos;
    • Tanto para Abraão (Gn 17:16) quanto para Zacarias (Lc 1:13), um anjo anuncia a vinda de um filho;
    • Em ambos os casos, o nome da criança é previamente anunciado (Gn 17:19 e Lc 1:13);
    • Uma quebra dessa sequência é que a reação de Isabel ante a gravidez (Lc 1:25), que usa as palavras gratidão de Raquel (Gn 30:23), em vez do ceticismo de Sara (Gn 18:12).

    Enfim, Lucas retrata Zacarias e Isabel como novos Abraão e Sara, uma metáfora da (re)fundação de Israel, tornando-os mais próximos de figuras míticas que reais. O ápice da natividade de João se dá no encontro ente Isabel e Maria, que se revela mais do que uma reunião entre comadres:

    E aconteceu que, ao ouvir Isabel a saudação de Maria, a criancinha saltou no seu ventre; e Isabel foi cheia do Espírito Santo. E exclamou com grande voz, e disse: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre. E de onde me provém isto a mim, que venha visitar-me a mãe do meu Senhor? Pois eis que, ao chegar aos meus ouvidos a voz da tua saudação, a criancinha saltou de alegria no meu ventre.

    Lc 1:41-44

    Ou seja, segundo Lucas, João Batista teria reconhecido e aclamado Jesus desde o tempo em que estavam ambos nos ventres de suas respectivas mães. Essa foi a solução dada por Lucas para a desconcertante inversão de papéis entre os dois por ocasião do batismo, ainda que assumisse o custo (ou não o pudesse recusar) de não mais permitir a volta do Elias original.

    Não apenas por ocasião da transfiguração (Lc 9:28-36), a vinculação entre João Batista e Elias foi dispensada em Lucas – em razão de ter ocorrido logo no início -, mas também em outro discurso de Jesus. Compare as redações dadas por e Mateus para esta trecho de um discurso de Jesus:

    E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele. Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

    Mt 11:12-15

    e

    A lei e os profetas duraram até João; desde então é anunciado o reino de Deus, e todo o homem emprega força para entrar nele.
    Lc 16:16

    Ambos falam de João Batista como último profeta antes da chegada do Reino de Deus e da violência usada para se chegar a ele. A ordem de um está invertida em relação outro e, como não há terceira fonte para comparação, não é possível precisar o dito original, provavelmente extraído de Q. O trecho destacado sobre a identidade de João Batista com Elias possui forte cheiro de uma glosa posterior (oral ou escrita) que entrou no texto de Mateus, tal como Mt 7:13.

    Será que algo que Jesus provavelmente disse sobre João que ficou registrado?

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    O Discípulo sobre o Mestre

    João e Jesus

    Cena de Jesus de Nazaré (1977), de Franco Zefirelli. Mestre e discípulo face a face, pelas mãos de um mestre do cinema.

    Uma passagem bem conhecida da tradição cristã – conhecida como “o Louvor de João” – ficou registrada em dois dos evangelhos, que devem tê-la extraído de Q. Ei-la:

    Mateus 11:2-19 Lucas 7:19-35
    E João, ouvindo no cárcere falar dos feitos de Cristo, enviou dois dos seus discípulos,
    A dizer-lhe: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?
    E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide, e anunciai a João as coisas que ouvis e vedes:

    “Os cegos veem, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho.”

    E bem-aventurado é aquele que não se escandalizar em mim.

    E, partindo eles, começou Jesus a dizer às turbas, a respeito de João:

    Que fostes ver no deserto? uma cana agitada pelo vento?
    Sim, que fostes ver? um homem ricamente vestido? Os que trajam ricamente estão nas casas dos reis.

    Mas, então que fostes ver? um profeta? Sim, vos digo eu, e muito mais do que profeta; Porque é este de quem está escrito:

    Eis que diante da tua face envio o meu anjo,que preparará diante de ti o teu caminho.

    Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João o Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele.

    E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele.
    Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João.
    E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir.
    Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

    Mas, a quem assemelharei esta geração? É semelhante aos meninos que se assentam nas praças, e clamam aos seus companheiros, e dizem:

    “Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes.”

    Porquanto veio João, não comendo nem bebendo, e dizem: Tem demônio.
    Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis aí um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores. Mas a sabedoria é justificada por seus filhos.

    E João, chamando dois dos seus discípulos, enviou-os a Jesus, dizendo: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?
    E, quando aqueles homens chegaram junto dele, disseram: João o Batista enviou-nos a perguntar-te: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?
    E, na mesma hora, curou muitos de enfermidades, e males, e espíritos maus, e deu vista a muitos cegos.

    Respondendo, então, Jesus, disse-lhes: Ide, e anunciai a João o que tendes visto e ouvido:

    que “os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho.”

    E bem-aventurado é aquele que em mim se não escandalizar.

    E, tendo-se retirado os mensageiros de João, começou a dizer à multidão acerca de João:

    Que saístes a ver no deserto? uma cana abalada pelo vento? Mas que saístes a ver? um homem trajado de vestes delicadas? Eis que os que andam com preciosas vestiduras, e em delícias, estão nos paços reais.

    Mas que saístes a ver? um profeta? Sim, vos digo, e muito mais do que profeta. Este é aquele de quem está escrito:

    Eis que envio o meu anjo diante da tua face, O qual preparará diante de ti o teu caminho.

    E eu vos digo que, entre os nascidos de mulheres, não há maior profeta do que João o Batista; mas o menor no reino de Deus é maior do que ele.

    E todo o povo que o ouviu e os publicanos, tendo sido batizados com o batismo de João, justificaram a Deus.
    Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido batizados por ele.

    E disse o Senhor: A quem, pois, compararei os homens desta geração, e a quem são semelhantes?
    São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros, e dizem:

    “Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes.”

    Porque veio João o Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio; veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e pecadores. Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos.

    Os textos em azul, em cada coluna, são os trechos em que os evangelhos destoam, talvez fruto de versões ou edições diferentes do texto de Q. O de Mateus foi avaliado no item anterior.

    A resposta que Jesus dá aos discípulos de João está mais para uma apologia da comunidade de Q para justificar o ministério de Jesus como cumprimento de uma série de profecias contidas em Isaías:

    Mateus 11:5 Profecia

    Os cegos veem, e os coxos andam;
    os leprosos são limpos,
    e os surdos ouvem;
    os mortos são ressuscitados,
    e aos pobres é anunciado o evangelho [boa nova].

    Is 35:5-6

    Is 29:18-9
    Is 26:19
    Is 61:1

    Essa mesma lista aparece em Mt 10:8. Falta, contudo, uma menção profética à cura de leprosos, embora haja casos de cura mencionados no Antigo Testamento (por exemplo, II Re 5:1-19).

    O trecho que realmente pode ter saído dos lábios de Jesus são as primeiras perguntas retóricas que ele fez à multidão a respeito de João Batista, contidas em Mt 11:7-8 e Lc 7:24-5, em virtude de possuírem um testemunho independente em Tomé, dito 78

    78. Disse Jesus: Por que saístes ao campo? Para verdes um caniço agitado pelo vento? Ou um homem vestido de roupas macias? Os reis e os grandes vestem roupas macias – e eles não poderão conhecer a verdade.

    Com exceção do fim da última frase – que tem um viés gnóstico – a identidade é clara. Em Tomé, falta um contexto que associe o dito 78 diretamente a João, mas, ainda que o “louvor de João” não constasse em Q, seria fácil reparar a oposição entre os adjetivos de suas perguntas e os atribuídos a João, preservados em outras partes. Para um texto enxuto desses merecer ficar registrado num evangelho de logias é bem provável que fosse usado de forma recorrente – tal qual as parábolas – como uma crítica à riqueza material e pobreza de virtudes da elite, conforme vários outros ensinamentos de Jesus. Além disso, não deixa de ser um elogio a um potencial rival (6). Os dois versículos que se seguem imediatamente (Q: Mt 11:9-10 e Lc 7:26-7), apontando João como “mais que um profeta“, trazem um elogio que talvez apenas Jesus fosse autoritativo de dar na Igreja primitiva, porém o último deles parece ser um fabrico bem ao gosto das comunidades dos evangelistas ao posicionar João como mero precursor, tal como no começo de Marcos:

    Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus.
    Is 40:3 (cf. Lc 3:4-6)

    Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais; e o mensageiro da aliança, a quem vós desejais, eis que ele vem, diz o Senhor dos Exércitos.
    Ml 3:1

    Porque é este de quem está escrito:Eis que diante da tua face envio o meu anjo,que preparará diante de ti o teu caminho.
    Mt 11:10 e Lc 7:27

    No Antigo Testamento, o mensageiro prepararia a vinda de Deus, ao passo que a Fonte Q muda as possíveis origens da citação para o próprio Jesus! Se você considera Jesus como Deus, isso não é o problema, só que estamos tratando dos sinópticos, i.e., em textos de baixa cristologia, ao invés do Evangelho de João. A comunidade que compilou os ditos de Q mudou “o que estava escrito”, assim como a de Marcos.

    O final do “louvor” provoca opiniões distintas entre os acadêmicos, principalmente por causa do uso que se faz da expressão “Filho do Homem” (7). Do jeito que está escrita, ela serve como um circunlóquio de terceira pessoa para Jesus se referir a si mesmo. Os adeptos do modelo de Jesus Histórico como um “mestre de sabedoria” desprovido de escatologia (Jesus Seminar, B.L. Mack, etc.) rejeitam prontamente qualquer sugestão de uso dela por Jesus. Os adeptos do Jesus como “profeta apocalíptico” (B. Ehrman) também não a aprovariam, por crerem que Jesus esperava outra pessoa para a instauração do Reino de Deus (retorno a esse assunto adiante). Um coisa, contudo, pode ter um fundo real: o contraste entre o ascetismo de João e o mundanismo de Jesus, uma diferença de ponto de vista que teria contribuído à separação dos dois.

    Um olhar mais atento terá reparado que pulei algumas partes do “louvor”. São justamente as que expressam não os sentimentos de Jesus para com João, mas da rixa entre as comunidades que eles fundaram.
    [topo]

    A Batalha por Corações e Mentes

    Batismo Mandeu

    Mandeus: ainda hoje à beira d’água.

    Retomando o “Louvor a João”:

    Em verdade vos digo que, entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João o Batista; mas aquele que é o menor no reino dos céus é maior do que ele.

    Q (Mt 11:11, Lc 7:28) e Tomé 46

    Não sei se um elogio seguido de um escárnio seria uma atitude esperada de um “espírito evoluidíssimo”. Quem sabe de um pregador mais bronco e, muito mais provavelmente, de um rústico fiel defendendo sua crença. Esse versículo comum a Mateus e Lucas (obtido via Fonte Q com equivalente em Tomé) pode sugerir uma certa rivalidade entre o cristianismo nascente e os já constituídos discípulos de João.

    De fato, logo no primeiro capítulo do evangelho de João, fala-se que os primeiros seguidores de Jesus também foram ex-discípulos de João Batista:

    No dia seguinte João viu Jesus aproximando-se e disse:
    “Vejam! É o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! Este é aquele a quem eu me referi, quando disse: Vem depois de mim um homem que é superior a mim, porque já existia antes de mim. Eu mesmo não o conhecia, mas por isso é que vim batizando com água: para que ele viesse a ser revelado a Israel”.

    Então João deu o seguinte testemunho:
    “Eu vi o Espírito descer do céu como pomba e permanecer sobre ele. Eu não o teria reconhecido, se aquele que me enviou para batizar com água não me tivesse dito: ‘Aquele sobre quem você vir o Espírito descer e permanecer, esse é o que batiza com o Espírito Santo’. Eu vi e testifico que este é o Filho de Deus”.

    No dia seguinte João estava ali novamente com dois dos seus discípulos.
    Quando viu Jesus passando, disse: “Vejam! É o Cordeiro de Deus! ”

    Ouvindo-o dizer isso, os dois discípulos seguiram a Jesus.
    Voltando-se e vendo Jesus que os dois o seguiam, perguntou-lhes: “O que vocês querem? ” Eles disseram: “Rabi”, ( que significa Mestre ), “onde estás hospedado? ”
    Respondeu ele: “Venham e verão”. Então foram, por volta das quatro horas da tarde, viram onde ele estava hospedado e passaram com ele aquele dia.

    André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido o que João dissera e que haviam seguido a Jesus.
    O primeiro que ele encontrou foi Simão, seu irmão, e lhe disse: “Achamos o Messias” ( isto é, o Cristo ).
    E o levou a Jesus. Jesus olhou para ele e disse: “Você é Simão, filho de João. Será chamado Cefas” ( que significa Pedro ).

    Jo 1:29-42

    Além de João Batista praticamente “empurrar” alguns de seus discípulos para Jesus, algo mais impressionante é a declaração feita por ele no capítulo III.

    Depois disso Jesus foi com os seus discípulos para a terra da Judeia, onde passou algum tempo com eles e batizava. João também estava batizando em Enom, perto de Salim, porque havia ali muitas águas, e o povo vinha para ser batizado.

    ( Isto se deu antes de João ser preso. )

    Surgiu uma discussão entre alguns discípulos de João e um certo judeu, a respeito da purificação cerimonial. Eles se dirigiram a João e lhe disseram: “Mestre, aquele homem que estava contigo no outro lado do Jordão, do qual testemunhaste, está batizando, e todos estão se dirigindo a ele”.

    A isso João respondeu:

    “Uma pessoa só pode receber o que lhe é dado do céu. Vocês mesmos são testemunhas de que eu disse: Eu não sou o Cristo, mas sou aquele que foi enviado adiante dele. A noiva pertence ao noivo. O amigo que presta serviço ao noivo e que o atende e o ouve, enche-se de alegria quando ouve a voz do noivo. Esta é a minha alegria, que agora se completa. É necessário que ele cresça e que eu diminua. Aquele que vem do alto está acima de todos; aquele que é da terra pertence à terra e fala como quem é da terra. Aquele que vem do céu está acima de todos. Ele testifica o que tem visto e ouvido, mas ninguém aceita o seu testemunho. Aquele que o aceita confirma que Deus é verdadeiro. Pois aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus, porque ele dá o Espírito sem limitações. O Pai ama o Filho e entregou tudo em suas mãos. Quem crê no Filho tem a vida eterna; já quem rejeita o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele”.

    Jo 3:22-36

    Ou seja, João Batista decretara o fim de seu próprio movimento. Pode haver tanto de mito como verdade nessas passagens. A verdade estaria na maior facilidade de Jesus em angariar seguidores, mesmo tendo sido um retardatário. A chave pode estar na diferença de postura de cada um em relação ao mundo:

    Pois veio João, que jejua e não bebe vinho, e dizem: “Ele tem demônio”.
    Veio o Filho do homem comendo e bebendo, e dizem: “Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e ‘pecadores “. Mas a sabedoria é comprovada pelas obras que a acompanham.
    Q (Mt 11:18,9; Lc 7:33-6).

    Enquanto João praticava uma espécie de ascetismo, Jesus ia em busca do mundo. Qualquer comparação com as diferenças de eficiência entre o marketing da Igreja Católica e o das seitas evangélicas, na história recente do Brasil, não será mera coincidência. O erro, entretanto, está em achar que João simplesmente abandonaria sua pregação em prol de outra com mensagem similar, mas métodos bem distintos dos seus. Se assim o fosse, haveria de se esperar um total desaparecimento dos discípulos de João após a morte do Mestre, absorvidos pelo cristianismo. Não foi o que aconteceu.

    Em primeiro lugar, houve um movimento missionário entre os discípulos de João após sua morte. O próprio livro de Atos registra dois episódios de encontros entre eles e os apóstolos cristãos:

    E chegou a Éfeso um certo judeu chamado Apolo, natural de Alexandria, homem eloquente e poderoso nas Escrituras. Este era instruído no caminho do Senhor e, fervoroso de espírito, falava e ensinava diligentemente as coisas do Senhor, conhecendo somente o batismo de João. Ele começou a falar ousadamente na sinagoga; e, quando o ouviram Priscila e Aquila, o levaram consigo e lhe declararam mais precisamente o caminho de Deus. Querendo ele passar à Acaia, o animaram os irmãos, e escreveram aos discípulos que o recebessem; o qual, tendo chegado, aproveitou muito aos que pela graça criam. Porque com grande veemência, convencia publicamente os judeus, mostrando pelas Escrituras que Jesus era o Cristo.

    At 18:24-28

    E sucedeu que, enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo, tendo passado por todas as regiões superiores, chegou a Éfeso; e achando ali alguns discípulos,
    Disse-lhes: Recebestes vós já o Espírito Santo quando crestes? E eles disseram-lhe: Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo.
    Perguntou-lhes, então: Em que sois batizados então? E eles disseram: No batismo de João.
    Mas Paulo disse: Certamente João batizou com o batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse no que após ele havia de vir, isto é, em Jesus Cristo. E os que ouviram foram batizados em nome do Senhor Jesus. E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas, e profetizavam. E estes eram, ao todo, uns doze homens.

    Atos 19:1-7

    Como material voltado ao público cristão, Atos sugere a conversão ao cristianismo como um passo natural aos discípulos de João Batista, embora não tenha isso sido regra. Em um documento de meados do século IV – Reconhecimentos Clementinos – um escritor ortodoxo descreve um suposto confronto entre os primeiros apóstolos e um discípulo do Batista:

    E eis que um dos discípulo de João afirmou que João era o Cristo e não Jesus, visto que o próprio Jesus declarou que João era maior que todos os homens e todos os profetas.

    – Se, então, – disse – ele for maior que todos, deve ser considerado maior que Moisés e que o próprio Jesus. Mas se for o maior de todos, então deve ser o Cristo.

    Respondendo a isso, Simão, o Caanita, afirmou que João era, de fato, maior que todos os profetas e que todos os nascidos de mulher, embora não fosse maior que o Filho do homem. Portanto, Jesus é, também, o Cristo, enquanto João é apenas um profeta: e há tanta diferença entre ele e Jesus como entre o precursor e aquele de quem precursor ele é, ou entre o que dá a lei e o que guarda a lei. Tendo feito essas e similares declarações, o Caanita ficou em silêncio. Depois dele, Barnabé, que também é chamado Matias, que substituíra Judas como apóstolo [At 1:23-6], começou a exortar o povo de que não deveriam encarar Jesus com ódio, nem lhe maldizer. Afinal, seria bem mais adequado, mesmo aos que pudessem estar em ignorância ou em dúvida quanto a Jesus, amá-lo do que odiá-lo. Afinal, Deus afixou uma recompensa para o amor e uma penalidade para o ódio.

    – Pois dado o fato – disse – de que ele assumiu um corpo judeu e nasceu entre os judeus, como isso não nos incitou todos a amá-lo?

    Quando falara isso e mais para o mesmo efeito, parou.

    Livro I, Cap. LX

    Por último, vale a pena lembrar que ainda existem descendentes (indiretos, talvez) do antigo círculo de discípulos do Imersor. Tratam-se dos mandeus, uma minoria étnica estabelecida ao sul do atual Iraque e que toma João Batista como principal profeta, rejeitando Jesus (assim como, curiosamente, Moisés e Abraão). A origem deles é incerta, sendo uma das hipóteses a junção de um grupo de antigos batistas com algum gnosticismo judeu. Incerto, também,é seu destino com as atuais convulsões políticas do Iraque pós Saddam Hussein (cf. [Pereira]).

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    O Evangelho João: o Fim dos Imortais

    Evangelho de João

    Se o quarto evangelho é tido como “um estranho entre os canônicos”, sua versão do Batista não é menos díspare que a dos sinópticos:

    João testificou dele, e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu. E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça. Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.

    E este é o testemunho de João, quando os judeus mandaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para que lhe perguntassem: Quem és tu?
    E confessou, e não negou; confessou: Eu não sou o Cristo.
    E perguntaram-lhe: Então quê? És tu Elias? E disse: Não sou. És tu profeta? E respondeu: Não.
    Disseram-lhe pois: Quem és? para que demos resposta àqueles que nos enviaram; que dizes de ti mesmo?
    Disse: Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías.
    E os que tinham sido enviados eram dos fariseus.
    E perguntaram-lhe, e disseram-lhe: Por que batizas, pois, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?
    João respondeu-lhes, dizendo: Eu batizo com água; mas no meio devós está um a quem vós não conheceis. Este é aquele que vem após mim, que é antes de mim, do qual eu não sou digno de desatar a correia da alparca.

    Estas coisas aconteceram em Betabara, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando.
    João 1:15-28

    Esse extrato contém as duas únicas vezes em que o nome de Elias é mencionado nesse evangelho. Em nenhum outro trecho cogita-se identificar João Batista com ele, muito menos Jesus tenta lhe relacioná-lo. O batismo de Jesus é comentado de forma indireta em Jo 1:32-4 e o cárcere de João é apenas citado em Jo 3:24, sem menção à execução. O seu perfil muda bastante, como mostram as já transcritas passagens de Jo 1:29-42 e Jo 3:22-36, com um João Batista altamente cristianizado e chegando ao cúmulo de ordenar que seus discípulos o deserdem em prol de Jesus. A expressão “Cordeiro de Deus” (cf. Is 53) foi posta na boca de João, visto que reflete um desenvolvimento teológico posterior, quando o martírio de Jesus ganhou tão ou mais relevância que os princípios éticos e morais de sua pregação, algo condizente com a redação mais tardia desse evangelho. O mais discrepante, porém, é que, para este evangelista, seu xará não era Elias.

    Isso também é reflexo da redação mais tardia do quarto evangelho. Um padrão observado, conforme se avança na estimativa da data do autrógrafo de cada evagelho, é uma progressiva perda do teor apocalípitico da mensagem da “boa nova”:

    • Em Marcos, durante o julgamento de Jesus perante o Sinédrio, o réu declara para o sumo sacerdore: “Eu o [o Cristo], e vereis o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu” (Mc 14:62). Mensagem parecida se encontra em Mt 26:64;
    • Lucas muda essa passagem de Marcos de forma curisosa “Desde agora o Filho do homem se assentará à direita do poder de Deus.” (Lc 22:69), ou seja, não é mais dito que o sumo sacertode chegaria a ver o fim daquela era. Ele deveria ter morrido;
    • Em João (cap. 18), Jesus nada fala sobre a vinda do Filho do Homem perante o sumo sacerdote. No mesmo capítulo (v. 36), Jesus informa que seu reino “não é deste mundo“.
    • Na terceira logia do evangelho gnóstico de Tomé, Jesus informa que o Reino já estaria presente, mas os não iniciados não o reconheceriam:” (…) Mas o reino está dentro de vós e está fora de vós. Se vos reconhecerdes, então sereis reconhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. (…)

    Ou seja, conforme se avança na data de redação de um evangelho, o advento do Reino de Deus progressivamente mais afastado, até praticamente inexistir (pois já estaria aqui) em Tomé. O evangelho de João, datado entre o final do primeiro século e começo do segundo, situa-se num período que deve ter sido crítico para as lideranças cristãs, quando a geração que conheceu Jesus já havia perecido sem conhecer a instauração do Reino de Deus na Terra. Com o “grande e terrível dia do Senhor” tardando em vir e João Batista morto há décadas, a associação entre ele e Elias se tornou problemática. As perguntas feitas pelos sacerdotes e levitas em Jo 1:21 deviam ser as mesmas que muitos fieis se faziam. Desvinculá-los e deixar o Reino para depois foram duas mudanças teológicas necessárias para os novos tempos, quando a função de João não era mais preparar o terreno, mas, sim, “dar testemunho“.

    Outra mudança, contudo, não teve a ver com a simples passagem do tempo, mas com as próprias experiências da comunidade joanina. Expulsa da sinagoga e, em seguida, praticamente se definindo em oposição a ela (cf. Jo 8:31-59), ela rejeitou boa parte de seu legado judaico em prol daquele que fora o motivo de suas desavenças com seus antigos companheiros: Jesus. Para os membros dessa comunidade, o filho de Maria não era apenas o Messias, e sim algo muito maior:

    Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu.

    Jo 3:13

    Agora, leiamos o Prólogo desse evangelho:

    No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. (…)
    Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

    Jo 1:1-5,9-14

    Comparando-se as duas passagens, fica claro que o “Filho do Homem” não é mais uma expressão usada para designar um figura escatológica, como em algumas passagens dos sinópticos, mas um circunlóquio para o próprio Jesus. Ele, também sendo o Verbo de Deus encarnado, não admitia rivais em autoridade nem, como ser coeterno com Pai, um precursor. Isso gera conflitos com as supras mencionadas tradições judaicas de mortais ascendendo ao céu sem conhecer a morte – dentre eles Elias – e vinda de anunciadores. Como o assunto principal desse evangelho é o próprio Jesus – sua natureza e relação com Pai -, em vez da preparação para a chegada do Reino de Deus exposta nos sinópticos, isso não chega a ser um problema sério para João Evangelista, como o seria para o judaizante Mateus. Comentaristas ortodoxos deram (e dão) variadas harmonizações – como propor subdivisões celestes, deixando a última e mais refinada para Jesus -, entretanto nenhum desafio se compara a explicar como ser e ao mesmo tempo não ser Elias.

    Nomes famosos se debruçaram sobre a questão.

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    Respostas da Ortodoxia Cristã

    Foto de I Co 13 em grego

    Limitando-se apenas ao canônicos, tem-se um panorama conflituoso quanto à relação entre João Batista e Elias:

    • Mateus e Lucas identificam diretamente os dois, não dando nenhuma origem a João. Possivelmente o Fineias/Elias imortal sob mais um nome;
    • Lucas dá a João uma origem próxima a seus contemporâneos, não podendo mais relacioná-lo à tradição de Fineias/Elias. João passa a fazer uma papel simbólico de Elias;
    • João evangelista nega que o Batista seja Elias.

    Então, há forte uma discrepância que precisaria ser sanada por quem quisesse usar os quatro evangelhos simultaneamente. A proto-ortodoxia cristã, como credo de compromisso entre diversas correntes cristãs que emergiram no começo do século II, aceitou esse desafio e criou curiosas harmonizações. Trago três dessas propostas feitas por membros da patrística, sendo dois deles especiais: um ainda é muito querido pelos espiritualistas mais desavisados e o outro – dizem – fazia parte da falange do Espírito da Verdade. Dado o desafio que encontraram, pode-se dizer que até se saíram bem.

    Orígenes


    Ainda tido erroneamente como adepto da reencarnação nos moldes do espiritualismo moderno, o sábio alexandrino é capaz de surpreender esses incautos:

    Nosso primeiro erudito, cuja visão da transcorporação vimos ser baseada em nossa passagem, pode prosseguir com um exame mais detalhado do texto e argumentar contra seu antagonista que se João foi o filho de um homem como o sacerdote Zacarias e se nasceu quando seu pais já eram ambos idosos, contrariando todas as expectativas humanas, não é provável que tanto judeus em Jerusalém o desconhecessem, ou os sacerdotes e levitas por eles enviados não estariam a par dos fatos de seu nascimento. Não declara Lucas que “o temor veio sobre todos os que viviam por perto” (Lc 1:65), – claramente nas proximidades ao redor de Zacarias e Isabel – e que “todas essas coisas foram divulgadas por toda terra montanhosa da Judeia?” E se o nascimento de João a partir de Zacarias foi matéria de comum conhecimento e os judeus de Jerusalém já enviaram sacerdotes e levitas para perguntar, “És tu Elias?” então está claro em dizer que eles consideravam a doutrina da transcorporação com verdadeira e que ela era uma doutrina corrente de seu país, e não estranha aos seus ensinos secretos. João, portanto, diz, “Eu não sou Elias“, porque não sabe sobre sua vida prévia. Estes pensadores, assim, cogitam uma opinião que não deve de forma alguma ser desprezada. Nosso membro da Igreja, contudo, pode replicar à alegação e perguntar se é digno de um profeta, que é iluminado pelo Espírito Santo, que foi previsto por Isaías, e cujo nascimento por pressagiado antes que sucedesse por tão grande anjo, que recebeu da plenitude de Cristo, que partilha de tal graça, que sabe que a verdade vem por meio de Jesus Cristo e ensinou coisas tão profundas a respeito de Deus e do unigênito, que está no seio do Pai, é digno de tal indivíduo mentir ou mesmo hesitar, em razão da ignorância do que era. Pois com relação ao que estava obscuro, ele deveria ter se abstido de confessar, e não ter nem afirmado, nem negado a proposição que foi posta. Se a doutrina [da transcorporação] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias? E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença. Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento.

    Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

    É curioso que o próprio Orígenes assinale a inexistência da reencarnação entre os judeus contemporâneos seus, ao menos os que viviam no Egito e Palestina romanos, com os quais conviveu. E mais adiante:

    Entretanto, um membro da Igreja, que rejeita a doutrina da transcorporação como falsa e não admite que a alma de João fosse a de Elias, pode se referir às palavras do anjo supra-citadas e assinalar que não é a alma de Elias que é dita ao nascimento de João, mas o espírito e poder (…)[τω προειρημενω λογω του αγγελου χρησεται ψυχην Ἠλιου μη ονομασαντος επι της Ἰωαννου γενεσεως αλλα πνευμα και δυναμιν].

    Quanto aos espíritos dos profetas, estes são dados por Deus e são considerados como sendo, de certo modo, propriedades deles, como “Os espíritos dos profetas estão submissos aos profetas” (I Cor 14:32) e “o Espírito de Elias repousou sobre Eliseu” (2 Reis 2:15). Assim, diz-se, não há nada de absurdo supor que João, “no espírito e poder de Elias“, voltou o coração dos pais para os filhos e foi por causa deste espírito que foi chamado de “o Elias que deve vir”.

    Idem. Texto grego de Migne, Patrologia Graeca, XIV, cols 219-220

    Ao contrário do alguns alegam, o Comentário sobre João não está em contradição com as teses dele apresentadas em De Principiis, pelo contrário: Orígenes até defendeu, sim, a possibilidade de múltiplas existências corporais em Eras distintas, cada qual com sua própria criação e juízo final, mas haveria uma única existência física por Era! E pior: Orígenes não esteve sozinho nas distorções que a patrística sofreu nas mãos de escritores espiritualistas. Outra “vítima” famosa foi…

    Agostinho de Hipona

    Então o viram humilde e não o reconheceram. Mostrava-se a eles por meio de uma candeia [cf. Jo 5:35]. Pois em primeiro lugar ele, a quem ninguém superava entre os nascido de mulher, disse: “Não sou o Cristo“. E lhe disseram: “És tu Elias?“. Respondeu ele: “Não sou“. Já que Cristo enviou Elias antes dEle, e João disse “não sou“, e criou um problema para nós. Visto que é de se temer que os de pouco entendimento pensem que João contradisse o que Cristo falou. Pois em certo lugar, quando o Senhor Jesus Cristo disse algo no Evangelho sobre Si Mesmo, os discípulos Lhe responderam: “Como, então, dizem os escribas” – i.e, os peritos na lei – “que Elias deve vir primeiro?” E o Senhor disse: “Elias já veio e fizeram com ele o que quiseram“; e, se quereis saber, ele é Elias. O Senhor Jesus Cristo disse: “Elias já veio, e João Batista” é ele; mas João, sendo interrogado, confessou que ele não era Elias, do mesmo que confessou que não era Cristo. E como sua confissão de não ser Cristo era verdadeira, assim foi sua confissão de não ser Elias. Como, então, compararemos as palavras do mensageiro com as do Juiz? Longe de pensar que o mensageiro minta; visto que o que ouve do Juiz. Por que será, então, que aquele disse “não sou Elias” e o Senhor: “ele é Elias”? Porque o Senhor Jesus Cristo desejou prefigurar nele Seu próprio advento e assim dizer que João estava no espírito de Elias
    [quia in spiritu Eliae erat Ioannes]. E o que João foi para o primeiro advento, tal será Elias para o segundo advento. Como há dois adventos do Juiz, assim há dois mensageiros. De fato, o Juiz era ele mesmo, mas dois são os mensageiros, não dois juízes. Era mister que na primeiro vinda o Juiz fosse julgado. Enviou antes dEle seu primeiro mensageiro; chamou o de Elias, porque Elias será no segundo advento o que foi João no primeiro.

    Tratado Sobre o Evangelho de João, IV, 5.

    E o raciocínio de Agostinho talvez não seja original dele, pois, dois séculos e meio antes, alguém pensou algo parecido.

    Justino

    Justino, o Mártir, (100 – 165 d.C.) tido erroneamente por autores espiritualistas como crente na reencarnação, deixou o que talvez seja o relato mais antigo da opinião ortodoxa cristã a respeito do relacionamento Elias-João-Jesus.

    Trifão replicou:
    – Parece-me que os que afirmam que Jesus foi apenas homem e que por eleição foi ungido e tornado Cristo dizem coisas mais críveis do que vós, ao dizer o que dizes (*). Todos nós, com efeito, esperamos o Cristo, que nascerá como homem, de homens, e a quem Elias virá ungir. E este se apresenta como o Cristo, deve-se pensar absolutamente que é homem, nascido de homens. Contudo, pelo fato de Elias não ter vindo, afirmo que esse não é o Cristo.
    Eu então perguntei-lhe novamente:
    – A palavra de Deus, por meio de Zacarias, não diz que Elias virá antes do grande e terrível dia do Senhor?
    Ele me respondeu:
    – Certamente.
    Eu continuei:
    – Portanto, a palavra de Deus leva-nos a admitir que foram profetizadas duas vindas: uma, em que havia de aparecer passível, desonrado e disforme; outra, em que viria glorioso e como um juiz universal, como se demonstra pelos muitos testemunhos já alegados. Isso não nos leva a entender que a palavra de Deus anunciou que Elias seria precursor de Cristo na segunda vinda, isto é, do dia temível e grande?
    Ele me respondeu:
    – Certamente.
    Eu continuei:
    – Isso também nosso Senhor nos deixou em seus ensinamentos, quando disse que Elias devia vir, e nós sabemos que isso acontecerá quando nosso Senhor Jesus Cristo voltar do céu com glória. Na sua manifestação, o Espírito de Deus o precedeu como arauto, que esteve em Elias, também esteve em João, profeta do vosso povo, depois do qual nenhum outro profeta tornou a aparecer entre vós. Sentado junto ao rio Jordão, João gritava: “Eu vos batizo com água para a penitência; mas virá outro mais forte que eu, cujas sandálias não mereço carregar. Ele vos batizará com Espírito Santo e com fogo. Sua pá já está em sua mão, e ele limpa a sua eira, e reunirá o trigo no celeiro e queimará a palha com fogo inextinguível [Mt 3:11,2; Lc 3:16]”.
    Vosso rei Herodes mandou prender no cárcere esse mesmo profeta e, durante a festa do seu aniversário, uma sobrinha sua o agradou muito com sua dança, ele falou que ela lhe pedisse o que desejasse. A mãe da jovem lhe sugeriu que pedisse a cabeça de João, que estava no cárcere; ela fez o pedido, e o rei mandou um carrasco e deu ordem que trouxesse a cabeça do profeta sobre uma bandeja. Foi por isso que o nosso Cristo, estando ainda sobre a terra, ao lhe dizerem alguns que antes do Cristo deveria vir Elias, respondeu: “Sim, Elias virá e restabelecerá tudo, mas eu vos asseguro que Elias já veio e não o reconheceram, mas fizeram com ele o que quiseram“. E está escrito que “então seus discípulos perceberam que ele havia falado de João Batista [Mt 17:11-3]”.
    Trifão retrucou:
    – Também me parece absurdo o fato de que digas que o Espírito profético de Deus, que esteve com Elias, também esteve com João.
    Eu lhe respondi:
    – Não te parece que o mesmo aconteceu com Josué, filho de Nave, que sucedeu a Moisés na direção do povo? Deus mandou que Moisés lhe impusesse as mão, dizendo: “Transferirei sobre ele parte do Espírito que há em ti [Nm 11:17]”.
    – Certamente.
    Eu continuei:
    – Portanto, da mesma forma que, estando Moisés ainda entre os homens, Deus transferiu sobre Josué parte do Espírito que nele estava, assim também pode fazer que Elias o Espírito passasse para João. Assim como a primeira vinda de Cristo foi sem glória, também a primeira vinda do Espírito, apesar de permanecer sempre puro em Elias, foi sem glória, como a de Cristo. Com efeito, dizem que o Senhor guerreava contra Amalec com mão oculta. Entretanto, não podes negar que Amalec caiu. Se apenas com a vinda gloriosa de Cristo se dissesse que Amalec deveria ser combatido, que sentido teria a Escritura que diz: “Deus guerreia contra Amalec com mão oculta? [Ex 17:8-16]”. Portanto, podeis compreender que o Cristo crucificado teve alguma força oculta de Deus, pois diante dele os demônios e todos os principados e potestades da terra estremecem.

    Diálogo com Trifão, cap. XLIX

    (*) Justino comentara, ao final do capítulo precedente, a existência de uma cristologia adocionista – Jesus se tornara Filho de Deus por ocasião do batismo, com a descida do Espírito Santo sobre ele – entre os judeus-cristãos. Justino, por sua vez, parece já professar uma alta cristologia (Jesus, de alguma forma, como Deus).

    * * *

    Se você partilha da fé desses pais da Igreja, então os argumentos estão até elegantes e bem estruturados. Do contrário, pouco pode ser feito e inúmeras explicações alternativas podem surgir, como todo sistema lógico é recriado após uma mudança em seu conjunto de premissas.

    O que chama atenção nesses dois extratos é que contêm muitos dos argumentos ainda utilizados no cristianismo tradicional. De certa forma, tudo já foi dito há pelo menos 1800 anos. E as querelas continuam.

    [topo]

    Mestre e Discípulo: Unidos pela Fé

    Jesus: A Maior História de Todos os Tempos

    Jesus (1999), de Roger Young. Na telinha, um Jesus tão humano quanto nós e ao mesmo tempo tão encantadoramente divino.

    O Jesus Histórico, mantendo-se o olhar como profeta apocalíptico, e, com certeza, as primeiras comunidades cristãs advogavam a instauração do Reino de Deus na Terra pela chegada poderoso juiz escatológico chamado o Filho do Homem, mencionado acima. Contam-nos isso as mais antigas fontes sobre a pessoa de Jesus, a saber: Marcos, Q, L (o material exclusivo de Lucas) e M (o material exclusivo de Mateus):

    Porquanto, qualquer que, entre esta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos. Dizia-lhes também: Em verdade vos digo que, dos que aqui estão, alguns há que não provarão a morte sem que vejam chegado o reino de Deus com poder.

    Mc 8:38-9:1

    Ora, naqueles dias, depois daquela aflição, o sol se escurecerá, e a lua não dará a sua luz. E as estrelas cairão do céu, e as forças que estão nos céus serão abaladas. E então verão vir o Filho do homem nas nuvens, com grande poder e glória. E ele enviará os seus anjos, e ajuntará os seus escolhidos, desde os quatro ventos, da extremidade da terra até a extremidade do céu. (…)Na verdade vos digo que não passará esta geração, sem que todas estas coisas aconteçam.

    Mc 13:24-27, 30

    Porque, como o relâmpago ilumina desde uma extremidade inferior do céu até à outra extremidade, assim será também o Filho do homem no seu dia. (…)E, como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do homem. Comiam, bebiam, casavam, e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio, e os consumiu a todos. (…) Assim será no dia em que o Filho do homem se há de manifestar.

    Q (Lc 17:24,26-7, 30)

    Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem. (…)E, como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do homem. Porquanto, assim como, nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do homem.

    Q, mesma passagem anterior, porém extraída de (Mt 24:27, 37-9)

    Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniquidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
    M (Mt 13:40-43)

    E olhai por vós, não aconteça que os vossos corações se carreguem de glutonaria, de embriaguez, e dos cuidados da vida, e venha sobre vós de improviso aquele dia. Porque virá como um laço sobre todos os que habitam na face de toda a terra. Vigiai, pois, em todo o tempo, orando, para que sejais havidos por dignos de evitar todas estas coisas que hão de acontecer, e de estar em pé diante do Filho do homem.
    L (Lc 21:34-36)

    A pregação escatológica de Jesus ou, pelo menos, das primeiras comunidades cristãs, remete à profecia de Daniel, quanto à chegada do Filho do Homem. Isso não difere de outros exemplares da literatura intertestamentária, como o supracitado I Enoque. O pormenor dos evangelhos é que neles encontra-se, também, uma identificação entre Jesus e o Filho do Homem: em certas passagens Jesus aparenta estar falando a seus ouvintes de uma terceira pessoa, noutras “Filho do Homem” é usado como um circunlóquio para ele mesmo. Afinal, o Jesus Histórico se via ou não como o esperado Juiz Escatológico?

    A resposta pode estar nos próprio evangelhos, se repararmos as mudanças de redação que certas passagens sofreram ao longo do tempo. Por exemplo, em Mc 8:27, no mais antigo dos sinópticos, Jesus indaga: “Quem dizem os homens que eu sou?“, uma expressão que se repete de forma similar em Lc 9:18: “Quem diz a multidão que eu sou?“, entretanto em Mt 16:13 aparece “Quem dizem os homens ser o Filho do homem?“. Lucas e Mateus absorveram essa passagem de Marcos, tanto que as respostas que os discípulos dão são as mesmas, porém Mateus trocou eu por Filho do homem. De forma análoga, em Mc 8:38 lê-se “qualquer que (…) se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele“, leitura acompanhada em Lc 9:26, ao passo que em Mt 10:33 está “qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus.“, não necessitando mais Jesus do intermédio do Filho do Homem. Na passagem de Q reconstituída acima com (Lc 17:24,26-7, 30)/(Mt 24:27, 37-9), foi excluído o versículo Lc 17:25 “mas primeiro convém que ele [o Filho do Homem] padeça muito, e seja reprovado por esta geração“, uma associação direta entre Jesus e o Filho do Homem que está ausente no capítulo XXIV de Mateus. Ou seja, houve uma tendência entre as comunidades cristãs a identificar Jesus com o Filho do Homem, especialmente por ocasião de sua esperada segunda vinda, conforme o tempo avançou. O Jesus Histórico, portanto, não se via como o Filho do Homem, mas anunciava sua vinda.

    No caso de João Batista, segundo os sinópticos, ele teria pregado explicitamente a vinda de outro mais poderoso que ele:

    Mc 1:7,8 E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas alparcas. Eu, em verdade, tenho-vos batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo.
    Mt 3:11,12
    (Cf. Lc 3:16,17)
    E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo.
    Em sua mão tem a pá, e limpará a sua eira, e recolherá no celeiro o seu trigo, e queimará a palha com fogo que nunca se apagará.

    As fontes M e Q apresentam uma justaposição aqui, com um acréscimo na parte final de Q unida à anterior pelas palavras “e com fogo“. Alguns podem ver nisso uma alusão à descida do Espírito Santo em línguas de fogo no dia de Pentecostes (At 2:1-5), mas há um pormenor crucial aqui: a imersão no fogo é uma forma de castigo. A literatura apocalíptica do século registra algo assim:

    1. Depois de sete dias eu tive um sonho durante a noite;
    2 e eis que um vento surgiu do mar e despertou todas as suas ondas.
    3. E olhei, e eis que esse vento fez algo parecido com a figura de um homem vir do coração do mar. E olhei, e eis que o homem voou com as nuvens do céu, e onde quer que ele virasse o rosto para olhar, tudo sob o olhar tremia,
    4. e sempre que a voz era emitida de sua boca, todos os que ouviram a voz dele derreteram como cera derrete quando sente o fogo.
    5. Depois destas coisas olhei, e eis que uma multidão inumerável de homens estava reunida desde os quatro ventos do céu para fazer a guerra contra o homem que veio do mar.
    6. E olhei, e eis que ele esculpiu para si próprio uma grande montanha, e voou em cima dela.
    7. E eu tentei ver a região ou local em que a montanha foi esculpida, mas não consegui.
    8. Depois destas coisas olhei, e eis que todos os que estavam reunidos contra ele, para travar a guerra com ele, estavam com muito medo, ainda se atreveram a lutar.
    9. E eis que, quando viu a investida da multidão se aproximando, ele não levantou a mão nem empunhava uma lança ou qualquer arma de guerra;
    10. mas eu só vi como ele lançou de sua boca algo como se fosse um rio de fogo, e de seus lábios um hálito flamejante, e de sua língua, ele lançava uma tempestade de faíscas.
    11. Todos esses foram misturados juntos, o fluxo de fogo e do hálito flamejante e a grande tempestade, e caíram sobre a multidão crescente que estava preparada para lutar, e queimaram-nos todos, de modo que de repente, nada foi visto da multidão inumerável mas apenas a poeira de cinzas e o cheiro de fumaça. Quando eu o vi, fiquei espantado.
    (…)
    21. “Eu vou dizer-lhe a interpretação da visão, e também vou explicar-lhe as coisas que você mencionou.”
    (…)
    35. Mas ele deve estar no topo do Monte Sião.
    36. E Sião virá e se manifestará a todas as pessoas, preparada e construída, como você viu a montanha esculpida sem mãos.
    37. E ele, meu filho, vai reprovar as nações reunidos para a sua impiedade (isto foi simbolizado pela tempestade),
    38. e irá repreendê-las para o seu rosto com os seus maus pensamentos e os tormentos com que estão a ser torturado (que eram simbolizados pelas chamas), e vai destruí-los sem esforço pela lei (que foi simbolizado pelo fogo) .

    4 Esdras, cap. XIII

    Com um pouco de conhecimento da lei mosaica, sabe-se que ela não é nem um pouco clemente com os que andam fora dela. Não é para se tomar João como um crente em alguma versão das visões de 4 Esdras, mas tanto ele como o anônimo autor desse livro anunciavam a vinda de um poderoso juiz escatológico, uma ideia que remonta a Daniel. Tal como fazia Jesus, que herdara essa mensagem de seu mestre. Como o nazareno se tornou o Filho do Homem após a crucifixão é que é outra história…

    [topo]

    Mestre e Discípulo: Separados pelo Ministério

    Banque de Levi

    O Banquete de Levi, de Paolo Veronese (1573)

    Nos sinópticos, após a execução de João Batista, somos apresentados à história da reação de Herodes Antipas aos primeiros rumores sobre Jesus em sua corte:

    E ouviu isto o rei Herodes (porque o nome de Jesus se tornara notório), e disse: João, o que batizava, ressuscitou dentre os mortos, e por isso estas maravilhas operam nele. Outros diziam: É Elias. E diziam outros: É um profeta, ou como um dos profetas. Herodes, porém, ouvindo isto, disse: Este é João, que mandei degolar; ressuscitou dentre os mortos.

    Mc 6:14-16 (Cf. Mt 14:1-2; Lc 9:7-9).

    O fato de Jesus chegar a ser confundido pelo povo com João Batista (cf. Mc 8:27-8) sugere que ao menos em linhas gerais suas práticas (como o batismo) e pregação deveriam se assemelhar às dele. Contudo, algumas diferenças começaram a saltar aos olhos de quem o acompanhou de mais perto:

    Ora, os discípulos de João e os fariseus jejuavam; e foram e disseram-lhe: Por que jejuam os discípulos de João e os dos fariseus, e não jejuam os teus discípulos?
    E Jesus disse-lhes: Podem porventura os filhos das bodas jejuar enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar;
    Mas dias virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão naqueles dias.

    Mc 2:18-20 (cf. Mt 9:14-5; Lc 5:33-5)

    O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.
    O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!

    L (Lc 18:11-13)

    Pois veio João, que jejua e não bebe vinho, e dizem: “Ele tem demônio”.
    Veio o Filho do homem comendo e bebendo, e dizem: “Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores “. Mas a sabedoria é comprovada pelas obras que a acompanham.
    Q (Mt 11:18,9; Lc 7:33-6).

    João e os fariseus praticavam uma espécie de purgação espiritual por meio do jejum. Teria sido essa prática abandonada por Jesus ou pelos primeiros cristãos? Bem, condenada não foi, pois até mesmo no Sermão da Montanha ele não se opõe ao jejum, mas a regula como deveria ser:

    Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuardes, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

    Mt.6:16-18

    O que ocorreu foi uma mudança foco: não era necessário que alguém se arrependesse para daí ser aceito no círculo de Jesus. Em vez de ser um mero “profeta ameaçador”, Jesus ia até “os pecadores” e se envolvia com eles, em vez de esperar que fossem atrás da “boa nova” por conta própria. Outro motivo seria que Jesus realmente gostava de comemorar a chegada do Reino:

    “O tempo é chegado”, dizia ele. “O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas!” Mc 1:15, Mt 4:17

    João também cria na iminência do Reino, mas há uma sutil diferença em relação a Jesus: enquanto o mestre acreditava numa intervenção unilateral divina para muito em breve, seu discípulo já defendia uma antecipação do Reino valendo já para seus ouvintes e até por meio deles. Só haveria amor no Reino de Deus, então as pessoas deveriam se amar desde já; não haveria miséria, então todos já partilhariam os bens com os necessitados; como o Mal seria derrotado, que os demônios já fossem expulsos; não haveria doença, que as pessoas fossem curadas desde já; e, por fim, não haveria mortes, o que seria evidenciado pela ressurreição de alguns.

    Óbvio que exorcismos, curas, ressurreições e outros prodígios estão no domínio da fé e nem há como avaliar sua veracidade, mas atestam como Jesus era visto pelos seus seguidores: um emérito produtor de sinais, coisa que, aparentemente, João Batista nunca foi e os seguidores de Jesus aproveitavam isso para cutucar os de Elias (cf. Q – Mt 11:4,5 e Lc 7:21,2). É um traço que distingue o mestre de Elias – que também foi milagreiro, porém em grau bem mais modesto – e que contribuiu para o discípulo ser confundido com o tisbita.

    Infelizmente para ambos, o Reino de Deus não veio. O “noivo” foi tomado dos seguidores de Jesus e eles voltaram a jejuar (8).

    [topo]

    De Mestre a Precursor, de Discípulo a Messias

    Jesus, ladeado por Maria e João Batista

    Jesus reinando no Céu, ladeado por Maria e João Batista: detalhe de mosaico da fachada da Basílica de S. Marcos, em Veneza.

    Mal comparando, se tanto o Jesus Histórico, quanto o João Batista Histórico fossem quebra-cabeças de 1000 peças, eu diria que do primeiro restariam 100 e do último apenas 10. Desses valores, claro, foram expurgadas peças alienígenas inseridas pelas primeiras comunidades cristãs, que queriam deixá-los mais próximos do que lhes convinha. Quanto à imagem do retrato de cada um constante na embalagem, que nos ajudaria a remontá-los, restam as bordas: o contexto social do judaísmo do primeiro século. Fazendo um balanço desse material, o que pode ser dito, com alguma certeza, a respeito do Mestre?

    Bem:

    • Existiu um pregador contemporâneo de Jesus chamado João: isso parece um truísmo, nas não o é. Diversos personagens da Bíblia, inclusive do Novo Testamento, tem sua historicidade posta em dúvida modernamente, como José de Arimateia. A múltipla atestação de João Batista (Marcos, Q, Josefo e, de certa forma, Tomé), o relato do Batismo de Jesus por ele (fato embaraçoso aos primeiros cristãos, mas não negado por eles) e o teor da mensagem condizente com as expectativas da época são pontos positivos para atestar sua existência concreta;

    • Era judeu: não esquecendo que era um judeu do primeiro século, quando o cânon ainda estava em aberto, havia um maior pluralismo teológico – inclusive no significava “seguir a Lei” -, além de grande expectativa escatológica. Tudo isso mudou após as revoltas fracassadas contra o domínio romano, com a dispersão do judeus, destruição do Templo e consolidação da autoridade rabínica. Daí seguiram-se quase dois mil anos de evolução em separado do judaísmo. Avaliar o judaísmo do Segundo Templo com base nos ortodoxos modernos é preciso quanto avaliar os primeiros cristãos a partir do catecismo católico de hoje;

    • Era apocalipcista: além de estar em conformidade com o espírito (e literatura) da época, suas palavras remanescentes nos sinópticos têm esse enfoque;

    • Pregava o arrependimento: consequência direta da expectativa da vinda iminente do Reino de Deus;

    • Tal arrependimento estava associado ao ritual do batismo: a ideia da água como elemento purificador ou mediador da purificação é recorrente no judaísmo, sendo encontrado na literatura hebraica clássica (Lv 15:5-27, Nm 19:19, 2 Re 5:10-15), em Qumran (1QS 3:5-9 e 5:13-14, 4Q414 e 4Q512) e até no Novo Testamento, mesmo em passagens sem relação com o Batista (Jo 5:1-9). O diferencial dele era realizar uma única e definitiva vez o ato, como uma espécie de rito de passagem. Um legado dos batistas originais ao cristianismo;

    • Teve discípulos e houve, por algum tempo, um movimento batista: diferentes fontes, canônicas e não, fazem alusão a discípulos de João interagindo com os de Jesus;

    • Pregava nos sertões da Palestina: também multiplamente atestado;

    • João batizou Jesus: como já explicado, um indivíduo com um status religioso inferior (embora ainda notável) iniciando outro com um muito superior teria sido constrangedor aos primeiros cristãos. Como não esconderam o fato (provavelmente porque seriam denunciados) e, em vez disso, o reinterpretaram, isso deve ter acontecido;

    • Jesus considerava João uma grande figura: as alusões quanto à humildade de João – Q (Mt 11:7-8, Lc 7:24-5) e Tomé 78 – e seu elogio como o “maior entre os nascidos de mulher” – Q (Mt 11:11, Lc 7:28) e Tomé 46 – , apontam nessa direção. O demérito que o exclui do Reino de Deus nessa última passagem, por sinal, aparenta ser um acréscimo dos primeiros cristãos a competir com os batistas;

    • João foi preso e executado a mando de Herodes Antipas: episódio com várias atestações distintas, a questão são os pormenores dessa execução;

    • João entrou em choque com Herodes Antipas: se fosse um mero sábio a dar conselhos morais, não havia motivo algum para sua prisão. É provável que sua crítica ao casamento com Herodias estivesse entre um de seus ataques;

    • Sua mensagem teve grande alcance: além do testemunho de Josefo, essa conclusão também deriva da própria execução de João, do contrário ele não representaria perigo.

    Ao lado dessas, existe um conjunto de afirmações prováveis a respeito de João Batista:

    • Pregava a vinda de alguém maior que ele (Mc 1:7, Lc 3:16 e Mt 3:11): Como judeu apocalipcista do primeiro século, é bem provável que anunciasse a vinda do Filho do Homem;

    • Jesus foi discípulo de João: os sinópticos mostram o batismo de Jesus como uma espécie de “investidura do cargo”, confirmada pela descida do Espírito Santo. O provável é que um operário de pouca instrução recebesse alguma iniciação de um mentor, cuja mensagem ética e profética absorveria e, em seguida, levaria a um novo patamar. Isso não significa necessariamente que tenha sido um companheiro itinerante por longo tempo, mas que, de início, aceitou as premissas do movimento;

    • Jesus teve alguma experiência visionária: o batismo marcano, a transfiguração e as tentações no deserto são as únicas narrativas evangélicas que podem ser classificadas como visões (Lc 10:18 está mais para simbolismo). Não faço juízo de valor quanto a fatualidade dessas visões, pois elas podem ser extremamente reais para quem as vivencia e serem ignoradas por todo o resto. Esse número de visões registradas é pequeno para se dizer que elas eram corriqueiras na experiência de vida do Jesus Histórico. Entretanto, o legado dos evangelhos possui um pano de fundo de curas, longas orações e um relacionamento especial com Deus e o sobrenatural (seja ele real ou não) que aumenta a probabilidade de ter havido uma experiência de “chamamento para a ação”. Só é duvidoso que esse chamado veio na forma de pomba no instante exato do batismo, para todos os presentes;

    • Jesus rompeu deliberadamente com os batistas: os sinópticos partem direto do batismo de Jesus para uma estadia no deserto e, daí, a pregação de Jesus na Galileia (região ainda intocada pela mensagem do arrependimento), Josefo nada fala do relacionamento entre Jesus e João, em Q (Mt 11:2 e Lc 7:19) só no cárcere João toma conhecimento dos feitos de Jesus e em At 13:25 fica implícito que, ao menos para a comunidade de Lucas, os dois se encontraram já pelo fim da atividade de João. Jesus não foi importante para os batistas, sendo apenas mais um entre tantos, e sua saída não deve ter sido sentida no começo, nem motivada por algum cisma traumático. Do lado de Jesus e seus seguidores, em duas fontes distintas – Q (Mt 11:11, Lc 7:28) e Tomé 46 – Jesus tece elogio elevado seguido de uma depreciação. Ainda que possa haver um viés cristão na hora de depreciar, fica claro que o movimento iniciado por Jesus se via como superior e não uma mera franquia do original. É provável que Jesus tenha trilhado seu próprio caminho após se esgotarem as possibilidades que o movimento batista tinha a oferecer. Quando isso se deu é incerto, mas um evento candidato é a prisão de João;

    • Alguns discípulos do Batista passaram a seguir Jesus: Apenas no quarto evangelho isso é dito claramente, com a escolha de André e Pedro por Jesus, que até então eram discípulos do Batista (Jo 1:40-2). Nos sinópticos, contudo, nada é dito da relação deles com o Batista quando Jesus os chama para serem “pescadores de homens” (Mc 1:17; Mt 4:18-19). Isso poder até ser harmonizado com pouco esforço especulativo, mas nada concilia o fato de que o ingresso deles no movimento de Jesus se dá antes da prisão de João Batista no quarto evangelho (Jo 3:22-4) e, no caso dos sinópticos, depois (Mc 1:14; Mt 4:12). O maior indício de que houve um afluxo de batistas para o cristianismo nascente deve estar em Lucas. Dos evangelistas, ele é o único a admitir que trabalhou com fontes prévias (Lc 1:1-4). Uma delas, cogitada pelos acadêmicos, é Marcos, que deu o fio narrativo, e outra são os ditos da hipotética “Fonte Q”. O restante é classificado genericamente como pertencente à “Fonte L” de versículos exclusivos de Lucas. Entre eles estão supostos ditos da pregação do Batista (Lc 3:10-4) que podem, sim, ter vindo discípulos dele. Não necessariamente foi, de início, uma “deserção”, mas uma sobreposição de pessoas que ouviam a mensagem tanto de um como do outro;

    • Por algum tempo, o movimento batista competiu com o de Jesus: As alfinetadas que os evangelistas dão em João – desmerecendo-o pouco após elogiá-lo e aludindo a perda de fieis -, além de relatos da literatura patrística sugerem que sim. A questão em aberto é se essa rivalidade existiu ou não ao tempo em Jesus estava vivo. É possível que o discípulo, inicialmente, apenas preenchesse o vácuo deixado pelo mestre (na Galileia, por exemplo) e passado a agir entre judeus também após a execução de João.

    Agora, gostaria de relatar uma série de hipóteses plausíveis, mas que também ostentam uma grande interrogação perante nós:

    • João tinha origem sacerdotal: embora os pormenores da filiação de João, como visto acima, aparentem ser um fabrico, seu pano de fundo, não. O primeiro capítulo de Lucas traz descrição acertada da rotina dos sacerdotes do I século da Era Comum: a existência de divisões entre os sacerdotes (1:5, 8), a oferta de incenso (1:9), o fracionamento do tempo de serviço (1:8, 21), a tendência a casamentos endogâmicos entre as famílias sacerdotais (1:5), as moradias em regiões rurais (1:39, 65). Assim, embora não tenha mais de uma atestação, está conforme o contexto social da época. Essa precisão sugere uma fonte escrita de origem judaica (lembre-se: Lucas foi escrito em grego), quiçá batista, que foi posteriormente cristianizada;

    • João Batista foi essênio por algum tempo: Uma Mensagem apocalíptica, o uso da água em purificação ritual e atitudes ascéticas no cotidiano são elementos que João possuía em comum com a seita do Mar Morto. O que não chega a ser uma prova de pertinência a essa facção, dado que podiam ser encontrados fora dela, também. Não há impeditivo para que João nascesse em família sacerdotal e, já crescido, passasse sua juventude entre os essênios, por conta própria;

    • João Batista foi tido por Elias ainda em vida, de alguma forma: O Evangelho de João é o único em que o Batista é interrogado pessoalmente quanto a sua origem (Jo 1:20-28). Embora, não seja possível aventar a historicidade desse episódio, a negativa dele pode significar uma mensagem admoestadora aos seus discípulos, tal como a ordem atribuída a João para que o abandonassem e seguissem a Jesus (Jo 1:29-42). Supondo-se que os batistas ainda tomassem João por Elias na segunda metade do primeiro século, não muito diferente deveria ser com os antigos cristãos, como fica implícito em Marcos (Mc 9:9-13) e, quiçá, Q (Mt 11:12-15), porém não da mesma forma. Em Marcos, quando Jesus indaga quem o povo pensa que ele é, as respostas são variadas: João Batista, Elias, outro profeta (Mc 8:27-9). Nenhuma dessas especulações, obviamente, estava certa e apenas seus discípulos achegados sabiam que ele era o Cristo (o que não poderiam contar, conforme o “secretismo” marcano). Ora, se a massa do povo, sem conhecimento das origens de Jesus, atribuía-lhe diversas identidades, o mesmo não poderia ter sido feito a João Batista por aqueles que não lhe fossem próximos, como Marcos e Mateus, cujos evangelhos são desprovidos de uma natividade para João? Por outro lado, quem conheceu João Batista em sua intimidade, como seus discípulos, ou baseou-se numa (possível) fonte batista, como Lucas, não o poderia fazer. Pelo menos não como um retornado Fineias/Elias. Assim os ignorantes quanto ao passado de João o consideraram um Elias retornado, ao passo que seu círculo próximo o teve como um Elias em poder e espírito. O que deixa essa hipótese em dificuldade é que isso deveria ter ocorrido antes da decapitação de João, que lhe retirou as chances de ser associado a um profeta bem sucedido entre a população. Contudo, tanto a fala atribuída a Jesus após a transfiguração em Marcos (Mc 9:9-13) quanto a natividade de Lucas dão a entender que a associação entre Elias e João Batista não era ainda de aceitação geral durante seu ministério, um indício de que foi uma construção da Igreja primitiva;

    • João Batista imitava Elias: Não é difícil encontrar paralelos feitos entre essas duas personagens:
      • Eram profetas;
      • Eram audazes (I Re 18:27/Lc 3:7);
      • Passaram parte do tempo no deserto;
      • Usavam vestes de pelo com um cinto de couro (II Re 1:8/ Mc 1:6 – Mt 3:4 );
      • Entraram em choque com casais de regentes iníquos.

      Seria possível, então, que João emulasse deliberadamente Elias para aumentar sua popularidade? Sim, seria possível. Também, claro, deveria se fazer vista grossa às diferenças. Algumas simples, como o estilo de alimentação e outras imensas, como a total ausência de milagres ou sinais atribuídos a João, ao passo que Elias teria feito vários. Ademais, Josefo identificou ao menos uma outra figura que também tinha similaridades com o Batista:

      Quando tinha eu cerca de dezesseis anos, tive a ideia de provar das diversas seitas que existiam entre nós. Havia três delas, a dos fariseus, os saduceus e a dos essências, como frequentemente lhes disse. Pensava que me familiarizando com todas elas, poderia escolher a melhor. Então me entreguei às asperezas, e me submeti a grandes dificuldades, e passei por todas elas. Nem mesmo me contentei em experimentar apenas dessas três, pois quando tomei ciência daquele cujo nome era Bano, que vivia no deserto, e não usava outra vestimenta senão o que crescia sobre as árvores, e não tinha outro alimento senão o que crescesse por conta própria, e se banhava em água fria frequentemente, tanto de dia como de noite, a fim de se purificar. Eu o imitei nessas coisas e fiquei com ele três anos.

      Flávio Josefo, Autobiografia, segundo parágrafo

      Como a maioria dos leitores deve ter reparado, João não se vestiu exatamente com “cascas e folhas de árvores”, mas sua indumentária não deve ter sido exclusiva sua:

      E acontecerá naquele dia que os profetas se envergonharão, cada um da sua visão, quando profetizarem; nem mais se vestirão de manto de pelos, para mentirem.

      Zc 13:4

      Assim, é possível que João Batista apenas seguisse as tendências comuns aos pregadores do deserto. O mais provável, contudo, é que Marcos (e, por conseguinte, Mateus) descrevesse João à semelhança de Elias propositadamente.

    • João Batista cogitou ser Jesus seu sucessor: o fato de em Q (Mt 11:2 e Lc 7:19) João ter enviado discípulos para indagar qual à natureza da missão Jesus, contrasta com o suposto reconhecimento imediato pelo primeiro da superioridade do segundo por ocasião do batismo. Teria João ficado amnésico na prisão? Embora o batismo de Jesus por João tenha um bom grau de historicidade, a identificação da relação entre um e outro não o tem. Outra dúvida era qual o tipo de sucessor aguardado. Se ele aguardava algum tipo de messias aarônico é possível que o Jesus Histórico se enquadrasse nessa expectativa em virtude de sua pregação. Agora, um messias davídico é algo mais difícil na ausência de um poder militar, muito menos um angélico; que seria o mais provável da pregação apocalíptica do Batista. O Jesus da fé, contudo, só se tornou o escatológico Filho do Homem após a morte;

    • Herodias instigou a execução de João Batista: em Antiguidades Judaicas, cap. XVIII, Josefo informa que Herodes Antipas era casado com uma filha do rei da Arábia Pétrea (que compreendia a península do Sinai e parte da atual Jordânia), antes de conhecer Herodias, numa estadia em Roma. Teria sido por exigência dela que se divorciou logo após retornar, o que desencadeou um guerra entre os reinos. Se a ascendência de Herodias sobre o novo marido era tão grande a ponto de ele se dispor a causar um conflito, muito menos difícil seria matar um profeta, não? Talvez nem tanto. Tal como houve uma tendência nos evangelhos a reduzir a responsabilidade dos romanos (i.e., o poder imperial) na condenação e execução de Jesus e aumentar a dos judeus, incrementar o peso da influência de Herodias na morte do João seria uma forma de aliviar a culpa de Herodes, governante local apoiado pelos romanos.

    Por fim, alguns fatos e episódios das narrativas evangélicas cuja historicidade pode ser dada como improvável:

    • Os pais de João Batista se chamavam Zacarias e Isabel: sem interferir na possibilidade de João ter tido origem sacerdotal e, tal como outros pormenores de sua natividade comentados anteriormente, os nomes de seus pais parecem ter sido escolhidos a dedo para realçar as qualidades dele como profeta. O anjo Gabriel utilizou as palavras de Malaquias (Lc 1:17) para se referir à missão da qual o filho de Zacarias seria incumbido. Ora, “Zacarias” é o profeta que intitula o livro que antecede o de Malaquias, na ordenação da LXX. Além disso, a abertura do ministério de João (Lc 3:1-2) tem uma estrutura similar (embora ampliada) a do primeiro versículo do livro de Zacarias. Assim, Lucas pretende mostrar que a nova aliança começa com o arauto de Malaquias, sucedido por um novo Zacarias e que “a lei e os profetas foram até João” (Lc 16:16). Outras “coincidências” também surgem: Zacarias foi o nome do último mártir do Antigo Testamento (II Cr 24:21,2), que também era sacerdote e profeta (II Cr 24:20), e Zacarias pertencia à ordem sacerdotal de Abias (Lc 1:5), a oitava da relação dada em I Cr 24, precedendo justamente a de Jesua. O nome de sua mãe também parece ser teologicamente motivado, pois por Isabel era chamada a esposa de Aarão (Ex 6:23) e a mãe do Batista era justamente uma das “filhas de Aarão” (Lc 1:5). Não apenas isso: a Isabel de Êxodo tinha uma parenta muito mais importante que era sua cunhada e profetiza Miriam, provável versão hebraica de Maria;

    • Maria e Isabel eram aparentadas: e, por conseguinte, Jesus e João Batista. Primeiramente, isso só é atestado em Lucas, em uma única passagem (Lc 1:36). Nem por ocasião do batismo de Jesus (cap. 3) há alguma conversa “entre parentes”. E mais: a menção ao parentesco das duas aparece como um aposto feito pelo anjo Gabriel, em vez de algo explanado pelo narrador. Soa como se fosse um acréscimo feito pelo redator de Lucas à uma tradição prévia da Anunciação. Por fim, como explanado no item anterior, uma relação familiar entre ambas, estando Maria em posição superior, iria bem ao encontro dos interesses teológicos dos primeiros cristãos;

    • João Batista era essênio por ocasião de seu ministério: uma das características das comunidades essênias era a vida apartada do restante da sociedade. João, em seu ministério, não era “mundano” como Jesus, mas também não era tão isolado como os membros da seita do Mar Morto. Vivia uma espécie de meio termo: longe das grandes concentrações o bastante para se dizer que pregava nos sertões, mas ainda perto o bastante para o povo poder ir até ele. Se João Batista foi essênio alguma parte da vida, já devia ter abandonado o movimento;

    • João Batista era apenas um mestre de sabedoria, como o eremita Bano; se assim fosse, seria inofensivo e teria morrido de velhice ou doença, salvo algum atentado de criminosos comuns. João foi um mestre de sabedoria também, mas não somente isso;

    • O Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma de pomba: Bem-vindos ao domínio da fé! Essa passagem está em Marcos, tendo sido copiada por Mateus e Lucas. O quarto evangelho, por sua vez, também faz uma alusão independente ao episódio (Jo 1:32), permitindo, assim, que seja dado como multiatestado. Isso poderia ser um ponto positivo para sua fatualidade caso ele ela não fosse, justamente, bem ao encontro da agenda teológica dos primeiros cristãos em retratar Jesus como o Messias esperado. Esse episódio estaria numa situação parecida com o da ressurreição de Jesus – algo que permeia a literatura cristã primitiva, mas sobre o qual pouco se pode afirmar de concreto – se não fosse a discrepância entre seus desdobramentos. A ressurreição é o “marco zero” do cristianismo, tenha sido ela real, uma alucinação coletiva ou, no pior caso, uma fraude. A crença de que Jesus, de alguma forma, venceu a morte foi o que garantiu continuidade ao seu movimento e evitou que ele se tornasse mais um dos profetas palestinos fracassados do primeiro século. Por outro lado, a descida do Espírito Santo por ocasião do batismo de Jesus deveria ter marcado o fim do movimento batista, afinal estaria apontado quem sucederia o Imersor. Não foi o que ocorreu. Chega até a ser contraditório que a fonte Q (Mt 11:2,3 e Lc 7:19,20) apresente João Batista ainda em dúvida se Jesus era quem ele esperava, após tão forte experiência. Outro João, o evangelista, escrevendo bem depois dos supostos fatos, pode ter reparado na incompatibilidade dessas duas tradições circulantes entre os cristãos e abandonou a segunda. Em seu relato, João Batista prontamente identifica Jesus e, na primeira oportunidade, fala para seus discípulos o seguirem. Enfim, se a visão da pomba ocorreu, é mais provável ter sido uma experiência pessoal de Jesus de Nazaré que algo compartilhado com João ou algum presente;

      De fato, em outro fragmento do supracitado Evangelho dos Hebreus (EvHeb), e também preservado por Jerônimo, aparece outra descrição do episódio:

      Conforme o evangelho que, escrito em língua hebraica, é lido pelos nazareus, descerá sobre ele [Jesus] toda fonte do Espírito Santo … Além disso, encontramos escrito no evangelho que acabamos de citar:

      “Aconteceu, porém, que ao sair o Senhor da água, toda a fonte do Espírito desceu sobre ele, repousando sobre ele, dizendo: ‘Meu filho, em todos os profetas eu esperava por ti, que tu viesses e eu repousasse em ti. Pois tu és o meu repouso, tu és meu primogênito, que reinas para sempre'”.

      Comentário sobre Isaías cap. XII, vv. 1-2. (Original latino: Patrologia Latina, Migne, vol. XXIV, cols.144-5

      (Embora fale “nazareus”, a crítica mais recente o considera como parte de EvHeb. Cf. [Klauck, p.57]).

      Se formos conferir Is 11:2, leremos: “repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do Senhor“, que encontra eco em livros deuterocanônicos como:

      Ela [a Sabedoria] se derrama de geração em geração nas almas santas e forma os amigos e os intérpretes de Deus. (Sb 7:27)

      Entre todas as coisas procurei um lugar de repouso, e habitarei na moradia do Senhor. (Eclo 24:11)

      Negligenciaste a fonte da sabedoria. (Br 3:12)

      Assim, embora não haja pomba alguma e nem uma voz que ecoe do céu, essa versão judaizante do batismo de Jesus não é propriamente algo que se possa considerar com mais chances de ser verídico, visto que, em verdade, apenas substitui um mito cristão por outro sapiencial judaico;

    • Salomé exigiu a cabeça de João Batista numa bandeja: história narrada em Mc 6:21-9, com paralelo em Mt 14:6-11, em que Herodias manipula Hedores por meio da filha que teve em seu casamento prévio, Salomé. Os pormenores do episódio espantam justamente por isso: como as minúcias dessa tramoia teriam chegado aos ouvidos alheios? Mãe e filha não teriam tomado cuidado para estarem a sós, longe de algum simpatizante do batista? Ainda que as paredes tivessem ouvidos, Flávio Josefo relatou que João fora trancafiado na fortaleza de Maqueronte, um local improvável para a realização de um banquete onde Salomé executasse uma dança para convidados nobres. Mais adequado seria o palácio real. Agora, algum estafeta sairia da corte para Maqueronte a fim de comunicar a ordem e voltaria a tempo com a cabeça, ou todos ficariam esperando por sua chegada? Ademais, Josefo também é silente quanto às circunstâncias da execução e Lucas, o evangelista que possivelmente se valeu de fontes batistas, coloca na boca de Herodes (Lc 9:7-9) a notícia da decapitação de João, desconsiderando sua esposa e enteada. Enfim, essa história tem forte cheiro de boato. Se há algo a dizer em favor de sua veracidade, seria o fato de a realidade, às vezes, conseguir ser mais bizarra que qualquer ficção e a possibilidade de Josefo estar errado, tendo sido João trancafiado num suposto calabouço do palácio (um lugar ruim para se manter um agitador). A título de curiosidade, o nome Salomé não aparece nos evangelhos, mas sim na obra de Josefo Antiguidades Judaicas, livro XVIII, cap. V.

    Dadas essas considerações sobre o que pode ou não ter acontecido, venho propor uma sequência cronológica da possível evolução do contexto sociocultural em que viveu a dupla João Batista/Jesus de Nazaré, tendo-os tanto como agentes da História quanto pacientes dela.

    1. VIII a.C.: conquista de Israel pelos assírios (732 a.C.), com a deportação de parte de sua população original e a colonização por povos aliados;

    2. VI a.C. – Cativeiro de Babilônia: Judá tem destino semelhante ao do seu irmão setentrional quando é conquistado pelo Novo Império Babilônico de Nabucodonosor: sua capital, Jerusalém, é saqueada e o Templo destruído. Parte da população foge para os reinos vizinhos – iniciando a diáspora judaica -, parte é deportada para o coração do Império conquistador e lá permanece por quase 70 anos (586 – 538 a.C.) e a parcela mais humilde é autorizada a ficar. Esse período se encerra com a conquista da Babilônia pela nova potência emergente do Oriente Médio: o Império Persa de Ciro, o Grande, que autoriza o retorno dos exilados e auxilia na reconstrução do Templo. Contudo, não é possível restaurar o antigo status quo plenamente: o novo Templo é inferior em grandeza ao primeiro, o hebraico cede progressivamente lugar ao aramaico como língua vernacular e o antigo Israel agora é habitado por um povo miscigenado – os samaritanos – que, embora ainda professasse uma religião parecida com a dos antigos hebreus, era visto com desconfiança pelos retornados por sua associação com os antigos senhores;

    3. V a.C. Os samaritanos constroem um templo rival sobre o monte Gerizim, assinalando a separação definitiva entre as duas comunidades;

    4. IV a.C. – II a.C.: conquista do Império Persa pelo helenizado macedônio Alexandre Magno (333 – 323 a.C.). Após sua morte, seus domínios são divididos entre seus generais, cabendo as regiões dos antigos reinos hebraicos ao Egito dos Ptolomeus, em cuja capital, Alexandria, se estabelece numerosa comunidade judaica. Ocorre grande difusão da cultura grega pela orla oriental do Mediterrâneo no chamado “Mundo Helenístico”;

    5. II a.C. – I d.C.: após o sucessivo domínio de diversas potências estrangeiras, surge a abordagem apocalítica para o entendimento da história judaica: Javé teria permitido a prosperidade dos inimigos de seu povo para, num momento devido, esmagá-los e instaurar o Reino de Deus na Terra. Desenvolve-se toda uma literatura sob esse viés, com obras como o canônico Daniel e os apócrifos I Enoque, Esdras e II Baruque, além de diversos exemplos da literatura essênia de Qumran. Surgem no ideário judaico as sobrepostas figuras do Filho do Homem e do(s) Messia(s), como instaurador(es) dessa nova Ordem Divina;

    6. Primeira metade do século II a.C.: os Selêucidas – a dinastia grega da Síria – derrotam o egípcios e tomam os territórios judaicos (198 a.C.), iniciando uma política de helenização forçada. Por essa época ou um pouco antes, um grupo de judeus aparta-se do convívio dos demais e funda comunidades nos sertões da Judeia. Era o começo da seita dos essênios;

    7. 163 a.C. – Revolta dos Macabeus: em uma guerrilha bem-sucedida, um exército nativo, liderado por Judas Macabeu, conseguiu uma vitória após outra contra as tropas selêucidas e, por fim, tomou Jerusalém. Fundação da dinastia Asmoneia, que restaurou a religião judaica, expandiu suas fronteiras e reduziu a influência estrangeira;

    8. Segunda metade do II a.C. – I a.C.: Emergem dois grandes “partidos”: o dos saduceus – ligados à casta sacerdotal e à aristocracia, adeptos de uma interpretação mais enxuta da Torá e da centralização da vida judaica no culto do Templo de Jerusalém – e o dos fariseus, que tinham um apelo mais popular, defendiam a existência de uma “tradição oral” da Torá, a explanar e complementar a escrita (algo negado pelos saduceus), além de ressaltar a importância do cumprimento da Lei Mosaica e não apenas dos ritos do Templo. Conforme a evolução do tabuleiro político-social, o regente da ocasião podia se valer do apoio de um grupo ou de outro;

    9. 88 – 63 a.C.: Série de três guerras entre a República Romana e Mitrídates VI, rei do Ponto (norte da atual Turquia). A vitória de Roma levou a uma campanha expansionista que fez suas tropas chegarem às bordas do reino asmoneu;

    10. 63 a.C.: O general romano Pompeu intervém numa guerra civil entre os irmãos Hircano (aliado dos fariseus) e Aristóbulo (partidário dos saduceus). Inicialmente, Pompeu fora chamado a pedido desse último, mas ficou tão irritado com suas maquinações políticas, que tomou partido do outro lado. O irmão rival assumiu o trono com o título de Hircano II, mas em troca, além de perder todas as províncias mais helenizadas, seu reino passou a ser vassalo de Roma;

    11. 37 a.C – 4 a.C.: Reinado de Herodes, o Grande. Filho de Antípater – o primeiro-ministro do fraco Hircano II -, Herodes se saiu vitorioso após três anos de guerra contra o último rei asmoneu, o anti-romano Antígono II, recebendo do senado da capital o título de “Rei da Judeia”. De início, tentou governar como “déspota esclarecido”, realizando grandes obras como a remodelação do Templo para proporções monumentais, a construção de cidade portuária de Cesareia, fortalezas e outros empreendimentos; não só em seus domínios, mas também fora deles em cidades como Antioquia, Beirute, Damasco, Rodes. Chegou, inclusive a patrocinar e presidir os Jogos Olímpicos. Por meio desse mecenato estendeu sua influência, podendo melhor amparar as comunidades da diáspora. Não só de obras públicas construiu seu prestígio, mas também de políticas de amparo, como a importação de trigo do Egito para aplacar a fome provocada por uma prolongada seca em 25-24 a.C. Contudo, Herodes não conseguiu resolver diversas contradições em seu governo, que terminaram por deixá-lo paranoico: sua origem idumeia provocava desconfiança aos olhos dos nativos, por mais que cumprisse a Lei mosaica à risca; casou-se com uma princesa asmoneia em busca de alguma legitimidade, porém matou parentes dela com medo de que reclamassem o trono ou lhe traíssem, a própria esposa por suspeita de adultério e, mais tarde, dois dos filhos que tiveram, por conspiração; procurou agradar aos judeus rigoristas ao mesmo tempo que fazia concessões ao culto ao imperador romano que eram intoleráveis aos seus súditos, e quem lhe desobedecesse era executado. Ao falecer, seu reino foi dividido entre os três filhos varões sobreviventes: Arquelau, Felipe e Herodes Antipas, cabendo ao primeiro a Judeia e, ao último, a Samaria;

    12. 27 a.C.: após eliminar seus rivais na disputa pelo poder no mundo romano, Caio Júlio César Otaviano – sobrinho-neto e, depois, filho adotivo do famoso conquistador da Gália, ditador da república e amante de Cleópatra – recebe do senado os títulos de Princeps, i.e., o primeiro entre os cidadãos, e o de Augusto, dado exclusivamente a divindades. Inaugurava-se o que viria a ser conhecida como a fase imperial de Roma, embora ainda se mantivesse uma fachada republicana;

    13. 6 – 4 a.C. – Nascimento de Jesus: a tradição cristã coloca o nascimento de Jesus no fim do reinado de Herodes. Contudo, um erro medieval na datação do falecimento do monarca adiantou o primeiro ano do calendário cristão;

    14. 6 d.C.: Por mostrar-se cruel e inepto, Arquelau é deposto pelos romanos a pedido dos judeus e a Judeia torna-se província romana, governada por um prefeito e subordinada à Síria. Em ato contínuo, uma reforma tributária feita por, Quirino, o legado romano na Síria, faz eclodir a revolta de Judas, o Galileu, que seria considerado o fundador da seita dos zelotes (ou zelotas), partidários da oposição armada ao domínio estrangeiro. Esse ano também é tido como o do nascimento de Saulo, na cidade de Tarso, próxima à costa meridional da atual Turquia;

    15. 14 – 37 d.C.: Tibério imperador romano;

    16. 26 – 36 d.C.: Pôncio Pilatos prefeito da Judeia;

    17. 27 – 28 d.C.: pregação de João Batista, com forte urgência apocalíptica e provável expectativa de um Messias angélico. Início do ministério de Jesus;

    18. 30 d.C – Morre Jesus, nasce o cristianismo: a crucifixão de Jesus deveria ter sido o fim ou, pelo menos, um baque no seu movimento, o que faria dele apenas mais um dos tantos “messias fracassados” da história do judaísmo. Entretanto, pouco após sua morte, uma nova esperança lhe daria vida extra:

      E que [Jesus] foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também. Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos.

      I Cor 15:4-7

      Surgia, então, a seita dos nazarenos (cf. At 24:5) e a interpretação de como o ministério de Jesus e a crença em sua volta à vida se relacionavam com os planos divinos constituiu o desafio da construção da mitologia do nascente grupo religioso;

    19. 30- 34 d.C.: a nova seita se expande de aproximadamente 120 (At 1:16) para 8.000 indivíduos (cf. At 2:41 e 4:4). Ainda que os números estejam inflados, é possível que o carisma e independência dos seguidores de Jesus tenha alarmado os saduceus, que iniciaram a repressão;

    20. 34 – 37d.C.: lapidação do diácono Estevão, consentida pelo fariseu Saulo de Tarso, notório perseguidor dos cristãos. Pouco depois desse episódio, Saulo se converteu após uma experiência visionária e assumiu o nome de Paulo. Nunca ficou explícita – nem em suas cartas, nem em Atos – a motivação para a repressão aos seguidores de Jesus. Uma hipótese (Cf. [Ehrman (2008), cap. XIX, p.299]) é que, já por aquela época, Jesus fosse tido por eles como o Messias. Dado que todas as expectativas messiânicas indicavam essa figura como alguém glorioso e, às vezes, supra-humano, a vinda de um humilde pregador itinerante que acabou executado soava absurda. Para um zeloso seguidor da Lei, como antigo Saulo, havia uma particularidade nessa morte ignóbil que transformaria o absurdo em blasfêmia:

      Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro;

      Gl 3:13 (citando Dt 21:23)

      A superação da Lei feita por Paulo disponibilizaria ao cristianismo todo um novo universo de potenciais prosélitos: os pagãos do Império;

    21. 37 – 41 d.C.: Calígula imperador romano;

    22. 40 – 80 d.C.: compilação dos ditos da Fonte Q, dentre eles o “Louvor a João” (Mt 11:2-19 e Lc 7:19-35), com sua mistura de reverência e rivalidade dos seguidores de Jesus para com os de João. Nele, é provável que João já fosse identificado com o precursor de Ml 3:1 (Lc 7:24 = Mt 11:7), contudo ainda não deveria ter sido feita a identificação com Ml 4:5, afinal Lc 7:29-30 ≠ Mt 11:12-5. Assinale-se que Mt 11:12-15 sem a menção a Elias é similar a Lc 16:16, indicando que esse passo seria dado por Marcos (cf. [Vassiliadis, p. 410]) e enfatizado por Mateus;

    23. 41 – 44d.C.: Herodes Agripa – neto de Herodes, o Grande – como rei da Judeia. A tradição cristã relata como mandante da morte de Tiago (irmão de João) e da prisão de Pedro (cf. At 12). Por outro lado, foi a última vez em que os judeus do Segundo Templo foram governados por alguém etnicamente afim e minimamente preocupado em não ferir suas sensibilidades religiosas;

    24. 41 – 54 d.C.: Cláudio imperador romano;

    25. 44 – 66 d.C.: Judeia novamente como província romana, em crescente tensão política;

    26. 45 – 52 d.C.: primeiras viagens missionárias de Paulo de Tarso, mal sucedidas entre os judeus da diáspora, porém com bom afluxo de conversos gentios;

    27. ca. 50 d.C.: nascimento de Akiba ben Joseph, futuro Rabi Akiba (ou Akiva), figura central na consolidação do poder dos “sábios da Lei”;

    28. 50 dC. – Concílio de Jerusalém: num relato do capítulo XV de Atos, Paulo e Barnabé, seu companheiro de missão, vão a Jerusalém discutir com os apóstolos originais se os gentios deveriam se tornar judeus antes de serem cristãos, o que implicaria em seguir a Lei Mosaica e suas práticas, como a circuncisão e as restrições dietéticas. Ficou decido que eles estariam dispensados de serem judeus, contudo deveriam abandonar certas práticas pagãs, abstendo-se “das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da fornicação” (At 15:29). Contudo, em sua carta ao Gálatas, Paulo se escandaliza ao saber que essa igreja recebera a visita de outros missionários com viés judaizante. Documentos mais tardios, como as Homilias Pseudoclementinas, também evidenciam a permanência de uma rixa entre cristãos judeus e helênicos. É possível que o alegado consenso do Livro de Atos nunca tenha sido pleno;

    29. 50 – 60 d.C. – Redação das genuínas cartas de Paulo: apesar de Paulo ser o mais prolífico autor do Novo Testamento, pouca informação pode ser obtida a partir de suas cartas sobre a vida e a mensagem de Jesus, o mesmo sendo verdade para quase todos os outros livros desse Testamento, à exceção dos evangelhos e Atos. Por outro lado, elas são uma fonte inestimável de como se desenvolvia a fé no “Cristo ressuscitado” nas primeiras décadas do cristianismo gentio. Havia:
      1. A expectativa de um retorno próximo de Jesus, com a ressurreição dos mortos e transformação dos vivos (cf. I Ts 4 e I Cor 15);
      2. Uma concepção de Jesus com um Messias do tipo angélico (cf. Fp 2:6-11);
      3. A tese da salvação calcada na fé em Jesus como redentor da humanidade por meio de seu sacrifício na cruz, em vez da prática da Lei Mosaica (cf. Gálatas e Romanos).

      O apocalipsismo era comum entre os judeus do primeiro século de nossa Era, bem como a crença na ressurreição não lhes era estranha. Alguns grupos judaicos aceitariam um Messias sobre-humano e preexistente. Contudo, abster-se da Lei era renegar sua identidade judaica. A questão não era os gentios estarem dispensados dela para poderem ingressar no Mundo Vindouro, mas que nem judeus – os que aceitassem Jesus como Messias, inclusive – pudessem se valer dela. Essa foi uma das forças centrífugas entre os dois grupos;

    30. 50 – 95 d.C. – Hebreus: não chega a ser exatamente uma carta, mas um sermão ou homilia cujo autor é desconhecido. Foi aceito assim mesmo no cânon devido a uma crença no séculos III e IV de ter sido Paulo seu redator, possibilidade hoje descartada. Tampouco é possível dizer se o público alvo se compunha de judeus cristãos, o que se pode afirmar com alguma certeza é que seus membros haviam sofrido algum tido de perseguição (Hb 10:34-6) e adotar (ou voltar para) o judaísmo era tentador, pois esse gozava de proteção legal. Assim, seu anônimo autor admoesta seu público a permanecer firme na fé, pois o cristianismo seria ápice de todas as realizações e promessas do judaísmo. Ameaças à parte, é feita uma série de comparações para justificar tal superioridade e uma delas seria a posse de Jesus de um sacerdócio superior ao dos levitas, um “segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 7:21). Jesus, portanto, ganhara atributos de Messias sacerdotal nessa comunidade;

    31. 53 – 57 d.C. – Terceira viagem missionária de Paulo: durante esse episódio, o livro de Atos (cap. 18 e 19) relata a assimilação pelo cristianismo de alguns discípulos de João Batista residentes na diáspora. Um deles, Apolo, deve ter sido importante o suficiente para ter seu nome citado, tanto que reaparece em diversos capítulos da primeira carta aos Coríntios (1, 3, 4 e 16), sugerindo a existência uma certa rivalidade entre os admiradores dele e de Paulo naquela comunidade. O quarto evangelho também traz a captação de discípulos de João, porém logo no começo do ministério de Jesus e incentivados pelo próprio Imersor. Como discutido acima, dado que o movimento batista prosseguiu ao menos por um tempo, isso foi algo um tanto improvável. Já o relato de Atos conta com uma vantagem: seu “primeiro volume” – o evangelho de Lucas – traz dados sobre a origem de João (ainda que “floreados”) e fragmentos de sua mensagem, informações que poderiam ter sido obtidas graças a fontes batistas às quais a paulina comunidade lucana teve acesso;

    32. 54 – 68 d.C.: Nero imperador romano;

    33. 62 d.C.: martírio de Tiago, o “Irmão do Senhor” (cf. H.E. II.23);

    34. 64 d.C.: incêndio de Roma. Os cristãos da capital são usado como bodes expiatórios e perseguidos;

    35. 65 – 67 d.C.: martírio de Pedro e Paulo em Roma;

    36. 65 – 80 d.C – Evangelho de Marcos: Papias (citado por Ireneu em Contra as Heresias, 3.1.1) coloca a redação deste evangelho nas mãos de um discípulo de Pedro, tendo-a iniciado após a morte do apóstolo, ocorrida em Roma por volta do ano 65 d.C. segundo a tradição cristã. Como limite superior, teríamos as redações de Lucas e de Mateus, cujas estimativas mais antigas são de 80 d.C. e não poderiam ter sido feitas sem o relato de Marcos. Esse posicionamento cronológico permite enxergar o “pequeno apocalipse” constante em seu capítulo XIII como uma exegese da “Grande Revolta Judaica”, contemporânea de seus primeiros leitores e ouvintes, transformada num anúncio do fim iminente dos tempos.

      Escrito numa forma a apresentar Jesus como um “Messias incompreendido”, este evangelho levanta discussões sobre se o Jesus histórico se via realmente como o esperado libertador do povo judeu ou, em caso positivo, preferiu manter a sigilo para não ser tomado por um tipo de Messias que não coadunasse com sua proposta. Quer seja de um jeito ou do outro, esse evangelho deixa transparecer que João Batista não era tido como Elias pelos seus contemporâneos. Adaptando a tradição de Malaquias, Marcos fez de João o precursor de um Messias humano, e, tal como esse, vindo de uma forma distinta da expectativa geral;

    37. 66 – 70 d.C. – Grande Revolta Judaica ou Primeira Guerra Judaico-Romana: capitaneada pelos zelotes, uma insurreição armada tomou Jerusalém e algumas fortalezas, massacrou as guarnições romanas locais, para daí se espalhar pelos antigos domínios dos asmodeus. A reação romana não tardou e foi esmagadora. Embora duvidoso que os revoltosos conseguissem resistir ao avanço inimigo, muito de sua capacidade bélica foi desperdiçada numa verdadeira guerra civil a se desenrolar dentro das muralhas de Jerusalém. A tradição cristã informa uma fuga dos judeus cristãos de Jerusalém para a cidade de Pella, na região da Pereia (Eusebio, Hist. Ecles., III. V. 3; cf. Lc 21:20-2). Uma outra tradição, talmúdica desta vez, fala de Yohanan bem Zakkai, um rabino sobrevivente que escapara do cerco escondido dentro de um caixão, como se fosse um defunto. Ele teria recebido autorização dos romanos para se instalar em Yavneh (Jâmnia, em grego), onde fundou uma escola de estudos e instalou o Sinédrio.

      Ao fim do conflito, o Segundo Templo fora destruído, os saduceus desapareceram na luta entre as facções, e os zelotes foram exterminados pelos romanos. Os essênios esconderam seus manuscritos nas cavernas de Qumran até que a poeira baixasse e, aparentemente, nenhum deles sobrou para resgatá-los.

      Morria aí o mundo em que Jesus viveu;

    38. 69 – 79 d.C.: Vespasiano imperador romano;

    39. 70 – 73 d.C.: últimos focos de resistência judaica são eliminados;

    40. 70 – 135 d.C.: a Judeia é comandada por um legado romano, i.e., uma espécie de general a dispor das tropas necessárias para manter o controle da província. Paralelamente, começa a ascensão do partido farisaico, que, de certa forma, obtivera durante a guerra uma sanção romana para deliberar sobre os assuntos judaicos. A sinagoga substituiu o Templo como centro da religião e acelerou-se um processo de padronização do cânon, bem como seus textos e interpretações. Apenas um grupo ainda se interpunha a sua hegemonia: os nazarenos;

    41. 79 – 81 d.C.: Tito Flávio imperador romano;

    42. 80 – 100 d.C. – Evangelho de Mateus: Provavelmente composto a partir do fio narrativo de Marcos, os ditos de Q, mais algum material próprio (M). Em relação a sua autoria, há os que defendem ele ter sido redigido por um judeu e, depois, ter recebido acréscimos cristãos [Flusser (2002), pp. 95 – 103] ou seu autor adviria de uma comunidade cristã mista de judeus e gentios [Ehrman (2008), cap. VIII, 118-9], e buscava abarcar a ambos na “boa nova”. Independentemente de sua autoria, seu texto o revela como “o mais judaico” dos evangelhos: no sermão da Montanha (5:18-20) seus leitores são explicitamente instados a seguir os mandamentos da Lei, e de uma forma superior “à dos fariseus e mestres da Lei”. Isso também revela que seu entendimento da Lei era distinto desses dois grupos, pois Jesus teria mais autoridade que eles ao ser apresentado enfaticamente como o Messias Judaico. Logo no começo, Mateus inova em relação Marcos ao começar por uma narrativa do nascimento de Jesus e ali inserir a maior quantidade possível de profecias cumpridas: a concepção virginal (Is 7:14), o nascimento em Belém (Mq 5:2), ascendência davídica (II Sm 7:12-6) e sua estadia no Egito (Os 11:1). Juntando a Natividade com os eventos até o Sermão da Montanha, tem-se um inusitado retrato da pessoa de Jesus: um varão miraculosamente nascido de pais judeus fica log à mercê de um tirano disposto a destruí-lo. Por meios sobrenaturais a criança é protegida de qualquer agressão no Egito. Então deixa essa terra para passar pelas águas (do batismo) e é testado no deserto por um longo período. Por fim, sobe à montanha e entrega a Lei de Deus aos que o seguiam. Sim, para Mateus, Jesus é o novo profeta como Moisés prometido no capítulo 18 de Deuteronômio. Enquanto Marcos segue aos poucos clarificando o papel de Jesus, Mateus sempre é bem mais direto. Repare no acréscimo ao diálogo entre Jesus e seus discípulos logo após o episódio da transfiguração:

      E interrogaram-no, dizendo: Por que dizem os escribas que é necessário que Elias venha primeiro?
      E, respondendo ele, disse-lhes: Em verdade Elias virá primeiro, e todas as coisas restaurará; e, como está escrito do Filho do homem, que ele deva padecer muito e ser aviltado. Digo-vos, porém, que Elias já veio, e fizeram-lhe tudo o que quiseram, como dele está escrito.

      Mc 9:11-13

      E os seus discípulos o interrogaram, dizendo: Por que dizem então os escribas que é mister que Elias venha primeiro?
      E Jesus, respondendo, disse-lhes: Em verdade Elias virá primeiro, e restaurará todas as coisas; mas digo-vos que Elias já veio, e não o conheceram, mas fizeram-lhe tudo o que quiseram. Assim farão eles também padecer o Filho do homem.
      Então entenderam os discípulos que lhes falara de João o Batista.

      Mt 17:10-13

      A vinculação entre João Batista e Elias fica explícita em Mateus, ao passo que estava subentendida em Marcos. Em ambos a origem do Imersor está em aberto, tal como foi a de Elias. Para eles isso não era significativo, contanto que essa simples identificação pudesse ser mais uma característica messiânica atribuída a Jesus. Se fosse o imortal Fineias ou um anjo materializado, pouco importava.

      Essa ânsia de Mateus em provar a identidade de Jesus como o Messias deve ser reflexo da competição de sua comunidade com os fariseus, que, em seu evangelho, atinge o ápice nos “Sete Ais” do capítulo XXIII. Já antes de Jesus, os fariseus promoviam a prática de “cercar da Torá”, i.e. a elaboração de procedimentos estritos para que a Torá (Escrita) não fosse violada sequer por acidente. A “denúncia” da inutilidade desses rigorismos (cf. Mt 23:24) escancara a diferença de entendimento entre esses dois grupos do que seria “seguir os mandamentos“, já anunciada no Sermão da Montanha;

    43. 80 – 100 d.C. – II Tessalonicenses: ao lado de Efésios, de Colossenses e das pastorais, integra um grupo de documentos conhecido com cartas deuteropaulinas, i.e., textos tradicionalmente atribuídos a Paulo de Tarso cuja autoria, porém, é posta em dúvida por diversos fatores, que vão desde o de vocábulos gregos poucos usuais ao das cartas tidas como autênticas até doutrinas discrepantes com elas. No caso de II Tessalonicenses, chamam atenção os seguintes versículos:

      Ora, irmãos, rogamo-vos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, e pela nossa reunião com ele, que não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como de nós, como se o dia de Cristo estivesse já perto.

      II Ts 2:1,2

      Isso está em franco desacordo com I Ts 4:15-18 ou I Cor 15:51-2, em que Paulo garante que alguns membros de suas comunidades ainda estarão vivos por ocasião da parúsia e, portanto, não ressuscitarão, mas serão “transformados”. Ao que parece, já estava arrefecendo a expectativa de de um Fim dos Tempos para aquela geração;

    44. 80 – 110 d.C. – Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos: Seu redator é o único entre os evangelistas que assume ter se baseado em relatos prévios (Lc 1:1-4). Para seu evangelho, deve ter se valido também de Marcos e Q, além de algum material próprio (L), não compartilhado com Mateus. Atos também deve ter se baseado em fontes anteriores, porém mais difíceis de se delimitar e atualmente perdidas. É possível que tenha se baseado em um diário de viagens de Paulo ou algum acompanhante dele para construir um fio narrativo plausível e em tradições dos ensinamentos apostólicos para produzir os longos discursos que ocorrem no livro. Quanto aos eventos, tradições orais são candidatas e, inclusive, harmonizações entre elas (como as três versões ligeiramente diferentes da conversão de Paulo). A rigor, Atos também mereceria o status de evangelho ou de “segundo volume” de um deles, pois a mensagem de Lucas só está completa pela união desses dois livros: a salvação chegando para os judeus, sendo pela maioria deles rejeitada, e então partindo para o mundo. Dada a grande importância do “apóstolo dos gentios” dentro de Atos (presente em quase dois terços do livro), Lucas intencionava explicar a origem e difusão da própria fé ao um público majoritariamente não judeu. Faltam indícios de que Lucas tenha se valido das Cartas, pelo contrário: há incompatibilidades entre a narrativa de Atos e o que Paulo falou de si mesmo em sua correspondência. Talvez Lucas não tivesse acesso às cartas paulinas por elas ainda não circularem em grande escala, mas diversos elementos comuns com elas são encontrados: a ceia comunal como instituição cristã, a ampla atividade carismática do Espírito Santo, a liberação dos gentios das práticas da Lei, a soteriologia, apocalipsismo e aclamação de Jesus como o Messias prometido. Quanto a esse último item, as motivações de Lucas parecem se diferir das de Mateus. O último viveu num ambiente de competição com os fariseus, enquanto Lucas não os teve por oponentes. Seus adversários seriam outros pagãos, que viam o cristianismo nascente como mera superstição oriental, uma novidade suspeita. Na Antiguidade Tardia, antiguidade gerava respeito. Poucas criações realmente originais foram feitas em relação ao período em torno de 400 a.C., por outro lado, muitos comentários e reelaborações dos clássicos eram produzidos. Assim, apresentar-se como o prosseguimento de uma longa tradição permitia “queimar etapas” na busca por credibilidade. A identificação entre João Batista e Elias faz parte dessa apresentação do cristianismo como “cumprimento de profecias”, porém Lucas teve de adaptar Marcos de uma forma diferente da feita por Mateus. Como mencionado antes, Lucas pode ter utilizado fontes batistas. Sejam oriundas de prosélitos ou de remanescentes rivais, elas estariam acessíveis, também, a outros membros letrados de sua comunidade, expondo um dado com o qual Marcos e Mateus não precisaram trabalhar: João Batista teve uma origem recente. Não era mais possível identificá-lo com o longevíssimo Fineias/Elias. João, portanto, teve de fazer as vezes de Elias, reproduzindo seu ministério. Visto que a introdução de João Batista como um Elias alternativo já é feita durante a Natividade, não há mais a identificação entre ambos por ocasião da transfiguração (Lc 9:28-36).

      Lucas também conta com um “pequeno apocalipse” (Lc 21:7-32), com pontos comuns ao de Marcos, mas também diferenças significativas. A principal está na afirmação de que “o fim não virá logo” (Lc 21:9), ao contrário do fim iminente esperado em Marcos. É notável a mudança feita na conversa entre Jesus e o sumo sacerdote:

      O sumo sacerdote lhe tornou a perguntar, e disse-lhe: És tu o Cristo, Filho do Deus Bendito?
      E Jesus disse-lhe: Eu o sou, e vereis o Filho do Homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu.
      Mc 14:61,62

      És tu o Cristo? Dize-no-lo.
      Ele replicou: Se vo-lo disser, não o crereis; e também, se vos perguntar, não me respondereis, nem me soltareis. Desde agora o Filho do Homem se assentará à direita do poder de Deus.
      Lc 22:67-69

      Parece que Lucas tinha ciência de que o sumo sacerdote não veria o Filho do Homem “fazendo e acontecendo”, afinal ele já devia ter morrido. Onde entraria, então, a profecia quanto ao retorno de Elias nesse contexto em que o fim era certo, mas a hora incerta, e seu profeta por procuração – João Batista – já falecera? Para o evangelista, Elias já estaria neste mundo desde a ocasião transfiguração: explicitamente ele apareceu “em glória” para Jesus, junto com Moisés; dois homens em “vestes resplandecentes” aparecem para as mulheres que encontraram o túmulo de Jesus aberto (Lc 24:1-7); e, já em Atos, dois homens “vestidos de branco” apareceram para os apóstolos logo após a ascensão de Jesus informando de seu retorno em glória. Coincidência? Provavelmente Lucas construiu sua narrativa para que tanto o maior legislador de Israel e seu maior profeta estivessem presentes em momentos-chave da trajetória de Jesus (anúncio da morte, ressurreição e arrebatamento), justificando o ministério dele pelas tradições judaicas. O dado adicional foi a evidência da difusão pelo cristianismo helênico da crença em um segundo advento de Jesus: uma ocasião adequada para que este assumisse o papel de Filho do Homem e Elias – o original – cumprisse integralmente a profecia;

    45. 81 – 96 d.C.: Domiciano imperador romano. Durante seu reinado, teria ocorrido uma segunda onda perseguições aos cristãos. Não resta nenhum documento oficial ou de cronista pagão relatando isso, ficando seu registro a cargo da patrística (cf. H.E., III.XV-XX). Eusébio (H.E. III.XX-5) informa que ela foi menos severa que a de Nero e, depois, suspensa pelo próprio Domiciano. Embora não chegasse a ser um programa de extermínio, foi opressora o bastante para levar à redação do livro bíblico do Apocalipse;

    46. ca. 90 d.C. – Birkat ha-Minim – “A Bênção dos Sectários”: no Talmude Babilônico (Berakhot 28b–29a), Gamaliel II teria perguntado: “Há alguém que saiba como compor uma bênção contra os minim (sectários, heréticos)?“. Samuel, o Pequeno, teria se prontificado a fazê-la, tendo sido acrescentada ao conjunto dezoito de orações recitadas nos serviços diários das sinagogas (Amidah) como a décima segunda da lista. Tal bênção, que mais parece uma maldição, possui diversas variantes muito similares umas com as outras, e uma proposta de reconstituição da forma original seria algo como:

      Que não haja esperança para os separatistas, para os apóstatas e para os traidores, e os hereges [minim] hão de perecer como num instante, e o domínio da arrogância Tu prontamente erradicarás. Abençoado sê Tu, ó Senhor, que humilhas o arrogante.

      Fonte: [Flusser (2002), cap. XIII – B, p.189]

      Flusser [idem, p. 190] sugere que a “bênção” na verdade seria uma composição de três fórmulas derrogatórias prévias: uma para os separatistas, outra para os hereges. Por “hereges”, o alvo original poderiam ser os essênios, que não se davam com os fariseus, nem com os saduceus. Após a Grande Revolta e avançando pelo II século, os (judeus) cristãos se tornaram os principais candidatos a serem identificados com os minim.

      Ainda é discutido se expulsão de cristãos da sinagoga mencionada em Jo 9:22 seria um reflexo da instituição oficial da 12ª bênção por Jâmnia ou uma mera revolta espontânea dos judeus não cristãos ante um mal-vindo proselitismo. Uma certeza é a disposição farisaica para fazer sua própria separação “do joio do trigo”;

    47. 90 – 120 d.C. – Evangelho de João: Herdeiro de tradições próprias, o quarto evangelho foi provavelmente escrito por uma comunidade de judeus helênicos que foi expulsa da sinagoga (c. Jo 9:22) e, em seguida, voltou-se contra ela (cf. Jo 8:44-7). Não tendo mais que buscar a aceitação de seus antigos pares, essa comunidade buscou encontrar uma nova identidade pela superação da antiga: Jesus não era “apenas” o Messias a trazer a nova revelação, ele era a Revelação, o preexistente e coeterno Verbo Divino encarnado. Não bastava somente aceitar sua mensagem, era preciso aceitar o próprio Jesus, e rejeitá-lo seria como rejeitar a Deus (cf. Jo 14:1-16). Essa elevação da figura de Jesus demorou a ser elaborada e, no tardio evangelho de João, esvanecera em sua comunidade a expectativa do “Fim dos Tempos” para a geração que conheceu pessoalmente Jesus, tal como fora nas comunidades paulinas e na marcana, ou para a sub-apostólica de Mateus e Lucas. Em vez da realidade terrena da apocalíptica judaica, o Reino de Deus foi transportado para o domínio espiritual (Jo 18:36) e o tempo restante deste mundo (tal qual conhecemos) ficou em aberto. Assim, com esse novo contexto, não havia mais razão para Elias retornar e “preparar o caminho” para o “terrível dia do Senhor” (Ml 3:1, 4:5); tanto que ele possui pouquíssimo espaço neste evangelho, sendo mencionado somente duas vezes (Jo 1:21,25). Em vez disso, veio João Batista, que não se identificava como Elias (Jo 1:21), pois sua principal tarefa era outra: dar testemunho de Jesus (Jo 1:7);

    48. 90 – 120 d.C. – I João: redigida na mesma comunidade do evangelho que leva seu nome (embora não necessariamente pelo mesmo redator dele) relata a existência de uma dissidência entre eles cuja principal divergência era a crença numa cristologia docética, i.e., Jesus não teria possuído um verdadeiro corpo carnal, apenas o aparentado (do grego dokeô, “parecer”). Como o mais antigo comentarista do quarto evangelho conhecido foi o gnóstico valentiano Heracleão (ca. 150 – 180 d.C.), fica a hipótese de que esses dissidentes tenham se unido a alguma outra seita religiosa e dado origem ao gnosticismo cristão;

    49. ca. 95 d.C. – Apocalipse: exilado na ilha de Patmos, talvez em razão perseguição de Domiciano, um certo João (que não era o autor do quarto evangelho) redige um conjunto de revelações que teve acerca do fim próximo da realidade que eles conheciam, com a subjugação e a destruição do Império Romano (identificado por vários e bizarros simbolismos), além da instauração do Reino de Deus. Impressionante é descrição que faz da parusia:

      Vi ainda o céu aberto: eis que aparece um cavalo branco. Seu cavaleiro chama-se Fiel e Verdadeiro, e é com justiça que ele julga e guerreia. Tem olhos flamejantes. Há em sua cabeça muitos diademas e traz escrito um nome que ninguém conhece, senão ele. Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu nome é Verbo de Deus. Seguiam-no em cavalos brancos os exércitos celestes, vestidos de linho fino e de uma brancura imaculada. De sua boca sai uma espada afiada, para com ela ferir as nações pagãs, porque ele deve governá-las com cetro de ferro e pisar o lagar do vinho da ardente ira do Deus Dominador. Ele traz escrito no manto e na coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores!

      Ap 19:11-16

      Decididamente, esse Messias vingador não corresponde ao dos evangelhos, nem ao das cartas de Paulo, porém não era desconhecido na tradição intertestamentária. A opressão dos cristãos os levou a conceber uma imagem guerreira de Jesus, ainda que em sua segunda vinda. Apocalipse foi bastante controverso e sua aceitação como canônico demorou;

    50. 96 – 98 d.C.: Nerva imperador romano;

    51. 98 – 117 d.C.: Trajano imperador romano;

    52. 100 – 150 d.C – Cartas Pastorais: um subconjunto das deuteropaulinas (I e II Timóteo e Tito) em que são dadas recomendações a pessoas responsáveis pela condução de comunidades presumidamente fundadas por Paulo. Embora tradicionalmente atribuídas a esse apóstolo, é quase unânime a rejeição de sua autoria entre os acadêmicos, sendo considerados obras pseudônimas feitas por alguém tentando lidar com os problemas de sua(s) comunidade(s) se valendo da autoridade dele. Tanto os problemas vivenciados como as orientações dadas não coadunam com aqueles do ambiente em que Paulo pregou. Por exemplo:
      • Luta contra falsos ensinamentos: não eram apenas os judaizantes de Gálatas ou os superapóstolos de II Coríntios, mas principalmente os que falavam de “fábulas e genealogias intermináveis” (I Tm 1:4, cf. Tt 3:9). Possivelmente, seriam os primeiros gnósticos cristãos ou seus antecessores;

      • Valorização de a hierarquia: com designação de cargos como bispos e diáconos (I Tm 3), em vez da estrutura mais horizontal guiada pelo Espírito Santo nas cartas genuínas;

      • Redução do papel feminino: mulheres deveriam permanecer em silêncio na igreja (I Tm 2:11-5), ao passo que Paulo, embora já as subordinasse aos homens, reconhecia que podiam orar e profetizar (I Cor 11:3-16).

      • O que era sinal de uma progressiva mudança em certas comunidades cristãs helênicas, que se tornavam menos carismáticas e mais hierárquicas, menos igualitárias entre os sexos e mais patriarcais, menos abertas a experimentações e mais apegadas a tradições;

    53. 111 – 112 d.C: Plínio, o Jovem, como governador da Bitínia (norte da atual Turquia), escreveu ao imperador Trajano (Cartas, 10.96-97) solicitando instruções de como lidar com uma perigosa superstição que se alastrava por sua província, permeando “as cidades, aldeias e fazendas”; cujos adeptos se denominavam “cristãos” e reuniam antes da alvorada para entoar hinos a “Cristo como a um deus”. A resposta do imperador foi sucinta, recomendando não fazer perseguições ativas, rejeitar denúncias anônimas e libertar prontamente os que aceitassem fazer oferendas aos deuses romanos, cuja recusa deveria ser o crime cometido por eles.

      No episódio do incêndio de Roma, os cristãos foram usados como mero bode expiatório; agora, surge uma evidência de que sua expansão começava a realmente a ser preocupação de estado;

    54. 115 – 117 d.C. – Segunda Guerra Judaico-Romana: também chamada de “Guerras de Kitos” – em alusão a Lúsio Quieto, um dos comandantes militares romanos – foi uma série rebeliões das comunidades judaicas de Chipre, Egito, Cirenaica (leste da atual Líbia) que, aproveitando-se do fato de a maior parte do exército romano estar combatendo os partas na Mesopotâmia, promoveram o massacre de cidadãos romanos (de língua grega) e quase cortaram o envio de trigo para as tropas na frente de batalha. Na Mesopotâmia, milícias judias atacavam pequenas guarnições romanas de retaguarda. Ao fim do conflito, diversas comunidades da diáspora foram exterminadas ou expulsas;

    55. 117 – 138 d.C.: Adriano imperador romano;

    56. 132 -135 d.C – Terceira Guerra Judaico-Romana: o elo se rompe. O imperador Adriano iniciou uma política de reorganização administrativa o império que, entre suas metas, advogava uma uniformização cultural, com medidas de helenizantes. Na Judeia, isso implicou na proibição da circuncisão e, por fim, a imposição de um altar dedicado a Júpiter no Monte do Templo. Essa foi a gota d’água para nova revolta que, a exemplo dos antigos Macabeus, e desta vez sob a liderança de Simeão bar Kochba, começou como uma guerrilha bem sucedida, conseguindo expulsar as legiões romanas e tomar Jerusalém. O ápice do prestígio de Bar Korcha ocorreu quando Rabi Akiba – a principal autoridade religiosa entre os rabinos – apontou-o com sendo o tão esperado Messias. A consequência imediata disso para os judeus cristãos foi colocá-los entre dois fogos: caso apoiassem o movimento, ainda que apenas colaborando no esforço de guerra à retaguarda, estariam negando a Jesus como Messias; se rejeitassem a autoridade do novo líder, podiam ser acusados de crime capital e executados. De qualquer forma, a retaliação romana foi tamanha que é duvidoso que a comunidade cristã de Jerusalém sobrevivesse ao fim do conflito. Num esforço para apagar o passado hebraico da região, a Judeia passou a se chamar Palestina, estando administrativamente integrada à Síria, e o processo de diáspora judaica foi completado. Os judeus foram proibidos de voltar a Jerusalém, que foi reconstruída como a colônia romana Aelia Capitolina, e uma nova comunidade de seguidores de Jesus floresceu, porém não eram mais os “nazarenos” e, sim, cristãos helênicos. O termo “fariseu” perdeu razão de ser, visto que não havia mais outra seita da qual se distinguir, e o judaísmo juntou seus cacos em torno da liderança dos rabinos. Comunidades de judeus cristãos – como os ebionitas – sobreviveram por séculos, porém passaram a ser vistas como heréticas pelos de origem gentia, cada vez mais numerosos. Cristianismo e judaísmo agora eram duas religiões independentes;

    57. Meados do século II – início do IV – Proto-ortodoxia: diversos “sabores” de cristianismo floresceram na primeira metade do II século da Era Comum. Desses começou a se destacar o conjunto de comunidades que:

      1. Não era judaizante: não afastando, assim, os possíveis prosélitos que até apoiariam a mensagem cristã, mas não práticas judaicas, como circuncisão ou restrições dietética;

      2. Se julgava herdeiro do judaísmo: alegando ser a concretização de uma antiga tradição, apropriando-se de sua respeitabilidade;

      3. Permitia voos intelectuais mais altos para adquirir um corpo de pensadores próprio;

      4. Não exagerava nesses mesmos voos, ao ponto de se tornar uma religião só para secretos iniciados;

      5. Possuía uma estrutura hierárquica que permitisse uma atuação organizada por todo Império Romano e além.

      Tal grupo daria origem ao que hoje conhecemos como catolicismo romano;

    58. 150 – 160 d.C. – obras de Justino, o Mártir: um dos primeiros “Pais Apologéticos” relatou em seu Diálogos com o Judeu Trifão (cap. XLIX) uma opinião sobre João Batista extremamente próxima a da atual ortodoxia, com ele fazendo as vezes de Elias para o primeiro advento de Jesus, enquanto o original viria apenas no segundo. Contudo, Justino não parece fazer uso do quarto evangelho, sendo até hoje discutido se ele, pelo menos, conhecia tradições joaninas;

    59. 175 – 185 d.C. – Contra as Heresias, de Ireneu de Lião: estabelece o quarto evangelho como sendo canônico (C.E. III.11-1,8). Pela mesma época, o Diassetaron – uma edição harmônica dos evangelhos – faz uso de João e esse mesmo evangelho é relacionado no “Cânon Muratoriano”;

    60. ca. 232 – ca. 248 d.C. – Comentário sobre o Evangelho segundo João, de Orígenes: é apresentada uma combinação do quarto evangelho com os sinópticos (VI.7) para estabelecer como João Batista poderia ser e, ao mesmo tempo, não ser Elias, utilizando a natividade de Lucas como o cerne de sua interpretação;

    61. 313 d.C. – Edito de Milão: Constantino (regente do ocidente) e Licínio (oriente) concedem liberdade de culto a todas as religiões do império, cessando as perseguições aos cristãos, dos quais o primeiro se aproxima;

    62. 324 d.C. – Concílio de Niceia: Constantino, já como único imperador do mundo romano, convoca a primeira reunião geral de todos os bispos da ortodoxia para discutir a relação entre Jesus e o Pai. Seria o Filho tão divino quanto o Pai (do grego homoousius, “de mesma substância”) ou sua divindade seria em algum grau inferior e subordinada à dEle (homoiousius, “de substância similar”), como advogavam os partidários do padre alexandrino Ário? A vitória esmagadora coube aos homoousianos que, com o aval do imperador, reprimiram seus opositores. Contudo, Constantino foi gradualmente reabilitando clérigos arianos e deles se rodeando, ao ponto de ter sido batizado, no leito de morte, por um de seus bispos. Os sucessores de Constantino se aliaram aos arianos e as disputas político-teológicas entre a Corte e as províncias se estenderam por décadas, principalmente no oriente, onde diversas variedades de arianismo competiam com os homoousianos e ente si;

    63. 361 – 363 d.C.: Juliano, o Apóstata, como imperador. Em seu curto reinado houve uma já inviável tentativa de restaurar o paganismo como religião de Estado, embora nominalmente permacesse tolerante;

    64. 378 – 395 d.C.: Teodósio como imperador do Oriente e, por fim, de todo império (393 -395 d.C). Originário da Espanha, Teodósio foi criado dentro do credo no Ocidente, o niceno, o qual determinou que tornasse a religião oficial do império no Edito de Tessalônica (380 d.C.). Não apenas o arianismo se tornava ilegal, como paganismo perdia a proteção oficial. Após sua morte, o império foi dividido entre seus dois filhos – Arcádio (oriente) e Honório (ocidente) – e não mais ficaria sob as mãos de uma única pessoa;

    65. 408 – 420 d.C. – Tratados sobre o Evangelho de João, de Agostinho de Hipona: no quarto tratado, o principal teólogo da época no ocidente expõe uma interpretação quanto ao papel de João Batista e sua relação com Jesus idêntica a de Orígenes, mas agora com a chancela da ortodoxia nicena. Provavelmente, ele apenas relatou ou consolidou uma opinião que já era comum nesse grupo e vinha se desenvolvendo desde o século II.

    E assim, partindo de um contexto religioso apocalipcista, João Batista foi perdeu sua identidade própria como anunciador da chegada do Filho do Homem e profeta de Reino de Deus para precursor um novo Filho de Homem – Jesus – e fiador de uma nova religião – o cristianismo.

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    Um Alerta

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    Giovanni Fattori: São João Batista repreendendo Herodes

    Tudo que se disse no capítulo anterior pode estar errado.

    Como dito antes, o quebra-cabeça está incompleto demais. As peças remanescentes foram dispostas conforme as regras de arranjo disponíveis – o tempo (estimado) em que surgiram e o seu contexto social – e o resto ficou a cargo deste autor que vos fala. Não, não foi um amontoado de achismos meus, pois calquei-me em trabalhos de acadêmicos dedicados ao estudo do judaísmo intertestamentário e do cristianismo primevo. Apenas reconheço que não sou o dono da verdade, afinal a História não é uma Ciência exata e ela sempre permitirá a existência de um “talvez” em um ou outro ponto em que não há consenso entre os estudiosos. Uma bibliografia diferente – com outras premissas acerca do Jesus e do João Batista Históricos – levaria a resultados divergentes. Também assumo que uma nova descoberta pode mudar tudo que se pensava a respeito de algo. Talvez algum documento dos batistas originais (i.e. antes do gnosticismo mandeano) esteja perdido em algum local ermo, tal como os Pergaminhos do Morto ou a biblioteca de Nag Hammadi. Quiçá haja alguma carta do missionário Apolo, a explicar como ele relacionava Jesus com João, acumulando poeira em algum mosteiro. Torço para que sejam encontrados, por ora, só nos resta aguardar e lidar com o que temos.

    Vale também lembrar que isso de forma alguma autoriza os que discordam das observações aqui feitas de descartá-las em prol de suas próprias opiniões sem que antes as respalde de forma mais sólida que uma assertiva confessional. De qualquer confissão.

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    A Malícia de Ontem e a de Hoje

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    – Mestre, seria João Batista a reencarnação de Elias?
    – Raça de víboras, quem vos ensinou a criar arapucas em vez de procurar a verdade?

    Uma das minhas passagens preferidas dos evangelhos é Mc 12:13-7 (cf. Mt 22:15-22 e Lc 20:20-6), quando os adversários de Jesus tentam encurralá-lo com um ardil:

    E enviaram-lhe alguns dos fariseus e dos herodianos, para que o apanhassem nalguma palavra. E, chegando eles, disseram-lhe: Mestre, sabemos que és homem de verdade, e de ninguém se te dá, porque não olhas à aparência dos homens, antes com verdade ensinas o caminho de Deus; é lícito dar o tributo a César, ou não? Daremos, ou não daremos?

    Mc 12:13,14

    Percebem que a abordagem começa com um elogio fingido a fim de posarem, para o público, como moderados e respeitosos a alguém que detestam. A segunda e principal parte é uma arapuca: caso Jesus diga que sim, então é um traidor do próprio povo por fazer o jogo do dominador estrangeiro; a outra opção o torna automaticamente inimigo de Roma, passível de prisão imediata. A resposta de Jesus foi impagável:

    Então ele, conhecendo a sua hipocrisia, disse-lhes: Por que me tentais? Trazei-me uma moeda, para que a veja. E eles lha trouxeram. E disse-lhes: De quem é esta imagem e inscrição? E eles lhe disseram: De César. E Jesus, respondendo, disse-lhes: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. E maravilharam-se dele.

    Mc 12:15-7

    Ou seja, num tremendo golpe de gênio, Jesus devolveu a responsabilidade de tomar alguma ação à mão dos seus detratores e ainda por cima não respondeu à pergunta. Não posso deixar de dizer que a lapidar frase “dai a César o que é de César…” é tida como autêntica de Jesus.

    Bem, por que estou fazendo tal desvio, já que este episódio nada tem a ver com João Batista? Por causa de uma indagação espírita que, guardadas as devidas proporções, reproduz perfídia similar à da “moeda do tributo”:

    João Batista era (mesmo) Elias?

    Se um membro da “ortodoxia cristã” disser que sim, então tem de admitir que ele seria uma reencarnação do profeta; e a outra opção – que veio no espírito e poder do antigo profeta – implica em dizer que Jesus não é o Messias, afinal Elias teria de “vir em primeiro”. Depois dessa, tenho que dar uma pausa

    Face Palm

    Bem, primeiramente, essa é uma tática duvidosa, pois só afeta um grupo: cristãos presos ao literalismo bíblico e sem a menor bagagem sobre sua própria teologia, um demográfico um tanto comum em fóruns de internet. Pegue-se alguém com melhor preparo e as coisas não serão tão fáceis assim. O pior acontece quando a outra parte sequer se enquadra nos paradigmas judaico-cristãos: para este que vos escreve, por exemplo, tal pergunta é tão significativa quanto seria “Maria permaneceu virgem após o parto?” ou “o Espírito da Verdade era Jesus?“.

    Em segundo lugar, essa pergunta é uma falsa bifurcação pelo simples fato de ser anacrônica: não havia, no primeiro século da Era Comum, qualquer obrigatoriedade de Elias voltar antes do Messias. Um livro que se consolidou no cânon – Malaquias – assegura o retorno dele. Entretanto, se olharmos bem seu texto (Ml 3:1), ele viria preparar o terreno para o próprio Deus, em vez do Messias, como propôs o autor de Eclesiástico. Incluindo-se os livros apócrifos e sectários, então o Reino de Deus poderia vir sem anunciante (II Baruque) ou anunciado por outros profetas (Preceito de Damasco, IV Esdras); não se podendo esquecer, claro, do exemplo concreto da aclamação de Bar Kochba por Rabi Akiva.

    Por Malaquias ter sido bem aceito entre os fariseus – tanto que permaneceu no cânon judaico criado por eles -, o processo de identificação entre Elias e João Batista progrediu na medida em que as comunidades nazarenas se opunham a esse grupo. Elas não criam ainda numa Nova Aliança a superar a primeira, pois não constituíam uma religião separada; tampouco numa Segunda Revelação integrante de um plano de longuíssimo prazo. Elas buscavam por aceitação.

    Mal comparando, elas guardavam certa semelhança com algumas figuras atemporais:

    • Um novo rico a exibir de forma espalhafatosa ou brega sua fortuna recém auferida;

    • Um ex-detento a fazer demonstrações constantes de prestatividade e honestidade;

    • Um prosélito mais fervoroso e praticante que os nascidos num grupo religioso.

    Todos têm algo em comum: incomodam quem lhes cerca. Um novo rico é a evidência ambulante de que o motor principal da economia já pode ter trocado de mãos; é vergonhoso para um veterano perceber que um novato possui melhor conhecimento que ele sobre o ambiente cultural onde cresceu. Não lhes tardam a chegar aos ouvidos frases depreciativas e preconceituosas como “o que vem fácil, vai fácil“, “uma vez bandido, sempre bandido” ou “vai virar ateu na primeira decepção“.

    A recém nascida seita dos nazarenos enfrentou desafio semelhante, visto que ao se expandir entre os am ha’aretz – o inculto “povo da terra” -, muitas vezes indisposto com a autoridade rabínica -, ela começou a constranger sacerdotes e doutores da Lei. Segundo Atos, as reações mais extremas envolviam perseguições e até mesmo assassinatos de lideranças, porém um combate menos sangrento, apesar de igualmente feroz deve ter sido travado no campo das ideias, afinal não havia motivo algum para reconhecer Jesus como o Messias. Um nazareno poderia muito bem ser alvo de chacota ou escárnio de um fariseu ou escriba por julgar como Messias alguém cuja morte foi ignóbil e, portanto, um fracasso, visto que seu reinado deveria ser eterno (II Sm 7:12, Dn 7:13-4).

    Não bastava aos nazarenos apenas terem em seu íntimo a convicção de Jesus era o Messias, era preciso fazê-lo parecer, também, a fim de fazer frente a outros grupos bem mais cosolidados que o deles. O mais antigo registro dessa reconstrução apologética de Jesus foi Marcos que, de um jeito tímido, mostrou um Messias incompreendido. As assertivas messiânicas se radicalizaram na medida em que o cristianismo se espalhava entre os gentios (Lucas) ou tinha de enfrentar a crescente dominância dos fariseus na Judeia (Mateus), até que surgiu uma ruptura (João) desistindo de convencer os outros da unção de Jesus para aclamá-lo como algo muito maior: o Verbo de Deus.

    Conforme o papel de Jesus evoluía, atributos a ele eram acrescentados. Podiam ser prodígios, profecias cumpridas e até uma paternidade especial. Numa listagem de atributos esperados do Messias, seus novos seguidores buscaram assinalar item a item e um deles era reaparição de Elias no fim dos tempos. Não era obrigatório à época, mas contava pontos. No hipotético evangelho de Q, João Batista não tinha ainda essa identificação e a disparidade entre Mt 11:12-15 e Lc 16:16 sugerem que a comunidade mateana tomou alguma “licença poética” para si. A Identificação começa com a catástrofe da Grande Revolta Judaica, quando os batistas deixaram de ser rivais significativos e puderam, portanto, tornar-se ferramenta para a criação da mitologia cristã. Em Marcos, seu líder de rival passou a ser Elias, embora de um jeito incompreendido para seu contemporâneos, assim como Jesus não fora um Messias de modo claro e evidente.

    Vale lembrar que Marcos é o mais antigo, enxuto e menos simbólico dos evangelhos. Possui apenas baixa cristologia, diria até um modo adocionista: Jesus teria se tornado Filho de Deus apenas por ocasião do batismo, não sendo, portanto, superior a João Batista antes disso. Com o surgimento dos outros dois sinópticos, outras tradições cristãs foram agregadas ao fio narrativo de Marcos, dentre elas, contos sobre a Natividade. Aí a relação entre João e Jesus ganha um complicador, pois o status especial de Jesus é assinalado desde o seu nascimento em razão da concepção virginal realizada pelo Espírito Santo. Então, como explicar que alguém inferior (João Batista) iniciasse quem lhe era superior (Jesus)? Mateus e Lucas deram, cada um, sua própria solução.

    Dos evangelhos, Mateus é o que mais insiste no caráter judaico de Jesus e seu ministério, enfatizando muito o cumprimento de profecias, a prática da Lei (ou o entendimento que tinha dela) e seu antagonismo com os fariseus. A identificação entre João Batista e Elias é bem mais enfática que a de Marcos, afinal era mais uma profecia a contar pontos; contudo, como seu antecessor, continua sem dar uma explicação sobre sua origem (o imortal Fineias/Elias?). Por ocasião do batismo, a justificativa, ainda que vaga, dá-se também no afã de cumprimento de desígnios: “porque assim nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3:15). Assim como Mateus, Lucas acrescenta à narrativa de Marcos os ditos de Q, uma genealogia que passa por Davi e a natividade. Há relatos, porém, que lhe são únicos, como algumas falas de João Batista e uma natividade própria para ele. É possível que tivesse acesso a fontes batistas sobre a vida do Imersor, contudo – fictícia ou não – sua biografia foi cristianizada: as natividades de Jesus e João se entrelaçam e nesse momento Lucas subordina João a Jesus. O preço pago foi não poder mais relacionar João com o Elias original, mas, sim, “no espírito e no poder de Elias”. Ou, quem sabe, muito pelo contrário, esse evangelista teria feito “uma limonada a partir de um limão” ao transformar um fato difícil que não podia esconder (a origem recente de João Batista) numa solução para outro constrangimento (o batismo de Jesus por João).

    A construção da mitologia cristã prosseguiu para além da cronologia contida nos evangelhos. A morte e suposto fracasso de Jesus como Messias foram reelaborados pela aceitação da crença em sua ressurreição, ascensão aos Céus e futura volta (parousia). Sua morte foi encarada como um sacrifício ofertado, parte de um plano maior para a salvação de toda a humanidade (cf.Romanos e Hebreus), fazendo de Jesus tanto oferenda como sacrifício, aproximando-o nesse aspecto da versão sacerdotal do Messias. Paralelamente, o ínterim entre a ascensão e o fim dos tempos era a oportunidade necessária para seus apóstolos e discípulos espalharem a “boa nova” e para Elias, desta vez o original (cf. Lucas 9:28-30; 24:1-7/Atos 1:10-1), preparar o terreno. O retorno de Jesus também sofreu a evolução conforme a perseguição aos cristãos crescia, partindo de uma tomada de poder aparentemente pacífica na Era Apostólica (cf. I Cor 15:24,25), como a dos Salmos de Salomão, para a entrada triunfal de um Messias guerreiro no livro de Apocalipse (Ap 19:11-16). Conforme o tempo passava, a geração que conheceu Jesus e seus discípulos originais se esvaía. O Reino de Deus tardava em chegar até que o senso de urgência dos apóstolos deixou de fazer sentido. No quarto evangelho, o mais tardio deles, o Reino já não era mais “deste mundo” (Jo 18:36) e, portanto, já não havia mais razão para Elias voltar. Nem para João Batista ser identificado com ele.

    Vale lembrar que esse desenvolvimento não foi linear em toda as suas etapas. Pelo contrário, o cristianismo de se desenvolveu como um arbusto ramificado desde o início. Alguns ramos não citados acima mantiveram-se firmes no compromisso firmado na Primeira Aliança, exigindo que, antes de ser cristão, era preciso ser (ou tornar-se) judeu. No caminho oposto, outros, como Marcião, quiseram romper com a herança judaica e considerar apenas o Pai de que Jesus falava como Deus genuíno e tratar o Javé dos antigos hebreus como um demiurgo inferior. Os gnósticos, como uma terceira via, aprofundaram ainda mais essa ideia em sofisticados sistemas cosmológicos e místicos. Quem venceu a guerra “por corações e mentes” foi o grupo que evitou todos esses extremos e procurou fazer um grande credo de compromisso: o que hoje chamamos de proto-ortodoxia cristã. Estabelecendo os evangelhos em quatro e um conjunto autoritativo de cartas, seus pensadores procuraram criar uma teologia capaz uniformizar, dentro do possível, o que jamais deixou de ser uma enorme colcha de retalhos. No caso da identidade entre Elias e João Batista, temos Mateus afirmando enfaticamente que um era o outro num extremo e o quarto evangelho negando com a mesma veemência na ponta oposta. Como fiel da balança, escolheu-se Lucas, com seu “Espírito e Poder”, pois tal concepção permitia a João Batista ser Elias e ao mesmo tempo não o ser.

    Mas a profecia afirmava que o próprio Elias tinha de voltar, não alguém como ele.

    Em terceiro lugar, não há a menor razão para se rejeitar que João Batista fosse Elias de uma forma alternativa, porque já se aceitou que Jesus não era o Messias da maneira esperada. Ao menos em sua primeira vinda. Os judeus rejeitam Jesus como Messias por diversos motivos, dentre eles o fato de o Reino de Deus não ter se concretizado ainda, mas um cristão pode justificar essas inconsistências e atrasos fazendo uma releitura das Escrituras judaicas e usando a crença na ressurreição como fiadora de promessas pendentes. Apologistas espíritas, por sua vez, fazem uma releitura do Novo Testamento para ajustá-lo a sua teologia, porém uma interpretação um tanto literal de Malaquias para garantir a reencarnação de Elias em João Batista. Com duas metodologias discrepantes, acho difícil que se chegue a um consenso.

    João Batista morreu decapitado porque, em sua encarnação como Elias, mandara degolar mais de 400 sacerdotes de Baal.

    Isso me soa como uma versão espírita da falácia post hoc ergo propter hoc (“após isto, então por causa disto”): a simples atribuição de um relacionamento de “causa e efeito” para dois eventos, apenas por eles serem subsequentes, aqui com o agravante de estarem distanciados de alguns séculos. Vou te dizer uma coisa: até que João Batista teve sorte em ser decapitado, dado que outras opções de execução poderiam ser bem piores, como lapidação, eviceramento, crucifixão, etc. A tradição cristã [Atos de Paulo 10:3] diz que o Apóstolo dos Gentios também morreu decapitado, porém teve direito a esse tipo de execução por ser cidadão romano. Mortes cruéis e humilhantes ficavam para a ralé, como a de um tal de Jesus de Nazaré. Que teria ele feito na encarnação anterior para merecer tanto?

    Jesus era um espírito evoluidíssimo e não tinha dívidas a pagar. Seu martírio foi algo necessário para o cumprimento de sua missão, como exemplo de perseverança e sacrifício para os discípulos < ou coloque qualquer outra desculpa que se queira>).

    Ok, então por que não poderia valer o mesmo raciocínio para João Batista? Ele teria de morrer para que Jesus crescesse, simples assim. Ademais, por que se deveria aceitar uma visão tão tacanha da “lei” de ação e reação? O esforço que o Batista despendeu na seara do Amor não deveria amortecer a dívida a ser paga pela Dor? Seus critérios são bem arbitrários e convenientes.

    Ora, Jesus disse que João Batista era Elias. Se ele falou, está falado!

    Por acaso você é adepto da inerrância bíblica? Caso sim, não tenho o que discutir contigo. Do contrário, eis algumas perguntas: possuis em tuas mãos alguma antiga tabuleta de cera contendo a transcrição estenográfica dessa fala atribuída a Jesus? És membro de algum grupo de pesquisa em viagens no tempo, ao estilo do livro Operação Cavalo de Troia, e já foi à Judeia do primeiro século a fim de registrar tudo em equipamentos modernos? Acho meio difícil. Quem disse isso foi Marcos, que foi exacerbado por Mateus e reformulado por Lucas. Há, também, a possibilidade de sua “inerrância” ser seletiva. E, ainda que Jesus tivesse dito isto, poder-se-ia acrescentar mais uma pergunta: ele era Elias de qual modo?

    Ademais, não custa lembrar que já no período pré-literário (30 – 65 d.C.) era encontrada em círculos cristãos a crença numa segunda vinda de Jesus, uma oportunidade teológica e tanto para emendar as pontas soltas de seu primeiro ministério, entre elas a vinda de Elias (o original, dessa vez).

    Jesus deu diversas mostras do retorno de Elias nos evangelhos. Esse pensamento era compreendido pelos apóstolos e transmitido por eles, mas não tinham conhecimento profundo de como retornariam os profetas, ou melhor o processo reencarnatório. Foi justamente isso que Jesus nos queria ensinar, mas que não estávamos ainda preparados para receber.

    Sem petições de princípio, por favor! Sequer ficou provado por A + B que João Batista era tido por Elias reencarnado (muito menos se era essa a intenção de Jesus) e já está usando isso em suas conclusões. Se está “jogando para a torcida”, favor procurar a arquibancada correta.

    Você também não tem autoridade para dizer que ele não o era, ou que não há reencarnação na Bíblia!

    Uma autoridade da qual nunca me arvorei, como certos autoproclamados biblistas do meio espírita, porém com objetivo oposto. Por outro lado, considero que tenho certa habilidade em detectar imposturas, como a exigência em demonstrar negativas usada como uma “inversão do ônus da prova” disfarçada. Imagine só como seria se nossos tribunais exigissem que os réus provassem não serem culpados? As caças às bruxas dos religiosos ou os tribunais jacobinos da França revolucionária eram assim. Deu no que deu. Em tempos mais saudáveis, o réu é considerado inocente (mesmo que não o seja de fato), e cabe à promotoria a tarefa de juntar evidências a favor de sua culpabilidade. A defesa, por sua vez, pode refutar o cerne do argumento da promotoria, ou demonstrar que as evidências apresentadas por ela não permitem um juízo “para além de qualquer dúvida razoável”.

    Bem, como estamos nesse balanço? Seria possível que os judeus do primeiro século ou os primeiros cristãos tomassem João Batista pela reencarnação de Elias? Sim, seria possível. Provável? Não.

    Possível porque mesmo num contexto não reencarnacionsita (neste caso, devido à urgência apocalíptica), a reencarnação pode ser cogitada para casos especiais. Um exemplo moderno seria o de grupos xiitas que aceitam a reencarnação de certos imãs, embora cogitem a vida única para todo o restante.

    (Aposto que muitos citarão o parágrafo acima e esquecerão todo o restante do artigo, paciência.)

    Improvável porque os próprios relatos evangélicos dão a entender que essa não seria a primeira opção. Marcos deixa nas entrelinhas que João Batista não era tido por Elias pelo grosso dos seus contemporâneos (até porque fracassou…). Tanto ele quanto Mateus não lhe dão uma origem, então o que seus supostos primeiros leitores deveriam esperar: uma reencarnação – crença cujas evidências dentro no judaísmo mainstream datam da Idade Média – ou no retorno de Fineias/Elias – que foi relatado por Orígenes (séc. III) como crença difundida entre os judeus e pode ser rastreada até o primeiro século (cf. Liber Antiquitatum Biblicarum)? Quando Lucas deu lhe uma origem e filiação, por que ele não foi mais assertivo em dizer que João era Elias reencarnado em vez de possuidor de atributos dele (“espírito e poder”)?

    Assim, julgo como falsa a tese de que João Batista fosse originalmente tomado por Elias reencarnado, ao menos até que ela seja corroborada por evidências e análises mais contundentes que simples releituras do Novo Testamento ou argumentos falaciosos.

    O regresso de Elias como João Batista, na época de Jesus, era tido como sendo por meio da ressurreição, mas o Consolador Prometido nos elucida o processo de reencarnação. Como a reencarnação não era compreendida no primeiro século da idade cristã, os apóstolos não estavam preparados para receber o que Jesus ainda tinha para nos revelar. A vinda do Consolador Prometido também era necessária após um amadurecimento da humanidade, a fim de que pudéssemos entender certas verdades, não reveladas nos dias do Mestre Jesus. Ele mesmo disse: “Ainda tenho muitas coisas para dizer, mas agora vocês não seriam capazes de suportar” (Jo 16:12).

    Desconheço a surata do Alcorão em que Maomé explicou a reencarnação. Se não entendeu a ironia, clique no link anterior para para descobrir o quanto há de “narcisismo teológico” nessa história de “Consolador Prometido”.

    Tomar partido na questão quanto ao regresso do profeta Elias como João Batista por meio de um processo reencarnatório ou não é uma posição que mesmo céticos têm que tomar. Este último posicionamento o tornará um fundamentalista, ou aceite o processo de reencarnação. Não há meio termo, mesmo sendo cético. Qual é o teu posicionamento?

    “Você já parou de cometer assassinatos em série, sim ou não? Não há meio termo.”

    Percebeste o efeito desastroso cruzamento de uma falsa dicotomia com a exigência de uma resposta simples para uma pergunta complexa? Em ambos os casos, a dicotomia surge por estar se presumindo algo que reduza a dois o número de opções. No exemplo que dei, você já teria tido ao menos um surto assassino; já na sua pergunta, uma profecia teria de ter sido cumprida e de um jeito específico. Para nossa sorte, não há razão alguma para assumir esses pressupostos.

    Ainda que o ponto que eu defenda guarde semelhança com aqueles a quem chama de “fundamentalista”, isso não me torna um deles. A ortodoxia cristã é um pacote, um combo, e o fato de aceitar um dos itens de forma alguma significa que levei todos os demais. Se não, voltaríamos ao tempo das querelas teológicas dos séculos IV e V, quando alguém que cogitasse um término para a danação dos pecadores era acusado de “origenismo”; ou ficaríamos na mesma situação dos “comunistas” do século XX que apenas queriam um pouco mais de justiça social.

    No que diz respeito à identidade João Batista/Elias, não há razão para eu, como cético, tomar posição a respeito disto, pois é uma questão que pertence ao domínio da fé. Como não possuo tal fé, a pergunta se torna sem sentido. O que não posso me esquivar é do personagem histórico, e este desagradará a espíritas e “fundamentalistas”. Há evidência de existiu alguém chamado João Batista na Judeia do começo do primeiro século, que foi influente e posteriormente transformado em precursor do Messias para os herdeiros da seita dos nazarenos. Qual foi o pano de fundo e dinâmica dessa transformação é o desafio que o pesquisador tenta responder. Se você chegou até aqui, pôde perceber que não é nada simples. Apenas os fanáticos reduzem todas as nuances envolvidas a um mero “sim ou não”.

    Peraí, não sou devoto e nem um apaixonado por dogmas e religiões, mas um pesquisador que busca a verdade!

    Eu fico realmente impressionado: você age exatamente do modo que nega. Para começo de conversa, violas o princípio básico de qualquer pesquisador do Jesus Histórico: o Jesus dos evangelhos é o da fé e muito do que é dito lá visa justificar o credo das comunidades em que viveram os evangelistas. O Jesus histórico só é extraído a partir de um senhor cruzamento de dados, análises da época em que viveu e um conjunto de critérios. O resultado, porém, é frustrante para muitos religiosos. Então meu caro, você não é pesquisador coisa nenhuma e, sim, um apologista de seu grupo religioso. Na melhor das hipóteses, és um pesquisador que produziu um Jesus “à sua própria imagem e semelhança”. Você deseja abrir os evangelhos e encontrar um pequeno espelho no canto de cada página.

    (Em construção)
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    Notas


    (1) Relembrando rapidamente:

    • Múltipla atestação: refere-se a elementos da vida e dos ensinos de Jesus que se repitam em mais de uma fonte, por exemplo, o fato de ele ter tido irmãos e um grupo seleto de discípulos mais achegados;
    • Conformidade social: refere-se a elementos que se adaptam à realidade cultural e social em que Jesus viveu;
    • Dissimilaridade: refere-se a elementos que não deveriam agradar quem os registrou e, justamente por isso, devem ser genuínos.

    A crucifixão de Jesus é um exemplo claro de episódio que passa pelos três critérios, mas sua ressurreição não passa pela dissimilaridade. Não é que historiadores estejam negando um milagre, apenas dizendo que nada podem afirmar sobre ele. Ele pertence à fé. Da mesma forma, é possível que um elemento presente em uma única fonte tenha sido verídico, mas deveremos averiguar isso de outras formas.

    (2)[Ehrman (1999), cap. VIII, pp. 137-8] e [Ehrman (2008), cap. XVI, pp.258-9]

    (3) [Funk & Hoover, “Gospel of Matthew”, pp. 210-1]

    (4) Na verdade, a palavra grega utilizada para expressar o relacionamento entre as duas (syngenes) pode significar qualquer relacionamento sanguíneo entre pessoas. Segundo a Catholic Encyclopedia, o entendimento de “primas” vem de uma tradição cristã que remonta aos tempos de Hipólito, pelo menos.

    (5) Na verdade, existe uma menção a um Zacarias em Mateus

    Para que sobre vós [escribas e fariseus] caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar.
    Mt 23:35

    Há um outro sacerdote de nome Zacarias que aparece rapidamente em II Cr 24:20-1, tendo sido morto por apedrejamento pouco depois de empossado, no pátio do Templo. O problema é que ele era filho de Joiada, não de Baraquias. O Protoevangelho de Tiago também relata que o Zacarias “pai de João” fora assassinado a mando de Herodes, durante o massacre dos inocentes. Entretanto, esse crime foi cometido lado do altar e nada sabemos sobre o avô paterno de João.

    De qualquer forma, esse discurso não deve ser original de Jesus, pois contradiz a pregação para “amar os inimigos”, além que exigir que filhos paguem pelos pecados dos antepassados.

    (6) Ainda que tivesse discordâncias com o antigo mestre, o Jesus Histórico poderia muito bem não tê-lo visto necessariamente como um competidor por “corações e mentes”. Essa corrida pode muito bem ter começado após a morte de ambos.

    (7) Cf. [Funk & Hoover, “Matthew”, p. 180] e [Funk & Hoover, “Luke”, pp. 302-3]

    (8) Há indícios de que os primeiros cristãos retornaram à prática de jejuns já pela fundação das primeiras comunidades helênicas:

    E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram. E assim estes, enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre.

    At 13:2-4

    Que os jejuns de vocês não coincidam com os dos hipócritas. Eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana. Vocês, porém, jejuem no quarto dia e no dia da preparação [sexta-feira].

    Didaqué 8:1

    No caso da Didaqué, seu autor queria diferenciar o nascente cristianismo do partido fariseu, a quem chama de “hipócritas”.

    [topo]

Para saber mais

– Charlesworth, James H.; The Old Testament Pseudepigrapha, Vol. I, Doubleday, 1983.Z

-Ehrman, Bart D.; Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millenium, Oxford University Press, 1999.

_______, The New Testment: A Historical Introduction to the Early Christian Writings, Oxford University Press, 4a. ed., 2008.

– Epiphanius of Salamis, Panarion, livros II e III (Sects 47-80 -, De Fide), tradução inglesa de Frank Williams, Nag Hammadi and Manichaean Studies, 1993.

– Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Novo Século, 1999.

– Flusser, David; O Judaísmo e as Origens do Cristianismo, vol. I e III, Imago, 2000 e 2002.

– Funk, Robert W., Hoover, Roy W. & Jesus Seminar; The Five Gospels – What did Jesus really say?, Harper San Francisco, 1993.

– Ginzberg, Louis; The Legends of the Jews, Sacred Texts, acessado em 20/08/2015.

– Gruber, Daniel; Rabbi Akiba’s Messiah, Elijah Publishing, 2013.

– Klauck, Hans-Josef; Evangelhos Apócrifos, Loyola, 2007.

– Ireneu de Lião; Contra as Heresias, Coleção Patrística, vol. IV, Paulus, 2a. edição.

– Mack, Burton L.; O Evangelho Perdido: O Livro de Q e as Origens Cristãs, tradução de Sergio Alcides, Imago, 1994.

– Origen; Commentary on the Gospel according to John, Books 1 – 10, Coleção The Fathers of the Church, vol. LXXX, tradução em língua inglesa de Ronald E. Heine, The Catholic University of America Press, 1989.

– Pereira, Rosalie Helena de Souza; A Questão da Origem dos Mandeus, os Últimos Gnósticos, Revista de Estudos da Religião, junho de 2009. pp. 92-120.

– Tricca, Maria Helena de Oliveira; Apócrifos: os Proscritos da Bíblia, vol. III, Mercuryo, 1995.

– Vermes, Geza; Os Manuscritos do Mar Morto, Mercuryo, 4a. ed., 2004.

– Vassiliadis, Petros; The function of John the Baptist in Q and Mark, publicado em Theologia, vol. 46, pp. 405-413, Grécia, 1975

– Wilkinson, Josepha Josephine; John the Baptist: A Life and Death, Kindle Edition, 2012.
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O Cego de Nascença – A Vida antes da Vida no Judaísmo Intertestamentário

27 de janeiro de 2012 2 comentários

Índice

Jesus curando o cego

Jesus curando o cego, de El Greco, 1570.

* * *

O Cego de Nascença

E, passando Jesus, viu um homem cego de nascença.

E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: “Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?”

Jesus respondeu: “Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus.

Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar.

Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.”

Tendo dito isto, cuspiu na terra, e com a saliva fez lodo, e untou com o lodo os olhos do cego.

E disse-lhe: “Vai, lava-te no tanque de Siloé” (que significa o Enviado). Foi, pois, e lavou-se, e voltou vendo.

João 9:1-7

A meu ver essa é a única passagem da Bíblia que efetivamente pode sugerir reencarnação. Até mesmo identidade Elias/João Batista já teve respostas ortodoxas razoáveis, como as de (quem diria) Orígenes, em seu Comentário sobre João, ou Agostinho de Hipona, em seus estudos sobre o Evangelho de João. Um ponto comum a ambas é o entendimento de “espírito” (pneuma, em grego e spiritus, em latim) distinto de “alma” (psyché/anima). Bem, isso é assunto para outro artigo…

O que chama atenção no episódio desse milagre é a pouca atenção dada a ele pela ortodoxia atual. Não é incomum explicações que envolvam a crença em “pecado original”, mas esse conceito é tardio, só ganhando plena forma com o já citado Agostinho de Hipona (séculos IV e V). Qualquer explicação acadêmica deve-se limitar a conceitos existentes entre os judeus da época. Mas mesmo entre os acadêmicos, esse episódio não tem muito tratamento. John P. Meier, por exemplo, escreveu um livro inteiro dedicado aos milagres de Jesus (Um Judeu Marginal, vol. II, tomo 3) e foi superficial demais nessa questão, lembrando apenas que Jesus descartou a hipótese de a culpa ser do próprio cego…

Por que não cogitar uma espécie de karma contraído em uma encarnação passada? De certo essa é a explicação mais simples, direta e preferida pelos reencarnacionistas, contudo esbarra em um problema: existe alguma evidência robusta para a crença em reencarnação entres os judeus daquela época?

Muitos espiritualistas diriam que sim, baseados em pérolas como:

  • Os judeus de hoje creem em reencarnação, logo os de antigamente também deviam crer: primeiramente, o certo seria dizer que parte (1) dos judeus atuais creem em reencarnação e outra não. O segundo e principal furo é que, se esse raciocínio fosse válido, então os primeiros cristão adoravam santos e imagens porque parte dos cristãos atuais também o faz. Note que não estou dizendo a reencarnação ou a adoração de santos sejam crenças errôneas, apenas ressaltando que elas tiveram uma aceitação mais tardia.

  • Passagens bíblicas como a “conversa com Nicodemos” ou “Ezequiel no vale dos ossos secos” aludem a reencarnação: São passagens que de tão alegóricas ou mesmo crípticas podem ter várias interpretações. Em vez de ter uma ideia preconcebida (a reencarnação está na Bíblia) e fazer um monte de livre associações para justificá-la, por que não tentam descobrir que teria sido a ideia original do autor, baseados no contexto?

  • Flávio Josefo registrou essa crença entre os fariseus: Não, não a registrou. O linguajar das descrições de Josefo quanto às crenças deles até chega a ser um pouco ambíguo, mas uma análise pormenorizada revela uma exposição da crença na ressurreição.

  • A reencarnação era doutrina secreta e por isso deve ser extraída das entrelinhas: Melhor provar essa tese antes de usá-la. O próprio Orígenes alegou ausência dela nas doutrinas esotéricas dos judeus de seu tempo (Com Jo, Livro VI, cap. VII). Infelizmente, o estado fragmentário de seu Comentário sobre João não nos legou a análise do “cego de nascença”.

Quando falo de “evidência sólida”, refiro-me a comentários dos judeus da época a respeito do que eles mesmos criam. Josefo é um tiro n’água e o Talmude é silente quanto à reencarnação, que só começou a deixar registros em tempos medievais.

Então como o cego poderia ter pecado antes de nascer? A resposta deve jazer em outra crença judaica, essa sim bem documentada no período: a preexistência da alma.
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A Preexistência da Alma no Judaísmo Intertestamentário

O Céu estrelado

No início do livro de Jó, temos uma espécie de reunião de seres celestiais (Jó 1:6), na qual os membros do séquito divino são chamados de “filhos de Deus”, estando, curiosamente, Satanás entre eles. No Salmo 82 (81) há um curioso discurso a respeito de alguns desses que teriam se desviado:

Deus está na congregação dos poderosos; julga no meio dos deuses.

Até quando julgareis injustamente, e aceitareis as pessoas dos ímpios? (Selá.)

Fazei justiça ao pobre e ao órfão; justificai o aflito e o necessitado.

Livrai o pobre e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.

Eles não conhecem, nem entendem; andam em trevas; todos os fundamentos da terra vacilam.

Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo.

Todavia morrereis como homens, e caireis como qualquer dos príncipes.

Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois tu possuis todas as nações.

Sl 82:1-8

Ou seja, Deus os puniu os membros displicentes de sua corte transformando-os em humanos que, como todos nós, terminarão no pó. É uma espécie de queda semelhante a que Adão e Eva teveram e, como essa foi, constitui um caso particular, não uma regra geral. Fora o primeiro casal de Gêneses e o seres desse salmo, não há na literatura hebraica clássica (i.e., o Antigo Testamento) outra menção a uma existência pré-mortal de humanos. Há indícios vagos de alguma residual sobrevivência post mortem no Xeol. Bênçãos e castigos são concretizados neste mundo, seja com o próprio indivíduo, seja com sua descendência, pois só por meio dela seria possível uma “imortalidade sanguínea”. assim, mente e corpo ganham importâncias similares. A situação começou a mudar na literatura intertestamentária – juntando aqui os deuterocanônicos e pseudoepígrafos -, quando surgiram as primeiras alusões à uma existência antes do nascimento, a recompensas no além túmulo e à ressurreição do corpo.

Sabedoria de Salomão

Amei a sabedoria, busquei-a desde a minha juventude e procurei tomá-la por esposa, pois fiquei enamorado da sua formosura.
(…)
Assim sendo, eu ia por toda a parte procurando o modo de a conquistar para mim.
Eu era um jovem de boas qualidades e tive a sorte de ter uma boa alma,
Ou melhor, sendo bom, entrei num corpo sem mancha.
Sabendo que jamais teria conquistado a sabedoria, se Deus não ma tivesse concedido (…)

Sabedoria de Salomão 8:2, 8:18-21

Os protestantes podem muito bem desconsiderar os versículos acima, pois não constam em suas Bíblias. Os espiritualistas se deliciam com eles, pois, alegam, significam reencarnação, além de preexistências. Os católicos é que possuem um nó para desatar. Uma nota de rodapé na edição de 1995 da Bíblia de Jerusalém explica a passagem assim:

Este texto [v. 20] não ensina a preexistência da alma como se poderia crer, se fosse isolado do contexto. Ele corrige a expressão do v. 19, que parecia dar prioridade ao corpo como sujeito pessoal, e sublinha a proeminência da alma.

Talvez, mas o capítulo também pode passar a ideia de a encarnação como um estágio de aprendizado, principalmente se cruzarmos essa passagem com outras do mesmo livro:

As almas dos justos, pelo contrário, estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento os atingirá.
Aos olhos dos insensatos pareciam ter morrido, e o seu fim foi considerado uma desgraça.
Os insensatos pensavam que a morte dos justos fosse um aniquilamento, mas agora estão em paz.
As pessoas pensavam que os justos estavam a cumprir uma pena, mas esperavam a imortalidade.
Por uma breve pena receberão grandes benefícios, porque Deus os provou e os encontrou dignos de Si.
Deus examinou-os como ouro no crisol, e aceitou-os como holocausto perfeito.
No dia do julgamento, eles resplandecerão, correndo como fagulhas no meio da palha.
Eles governarão as nações, submeterão os povos, e o Senhor reinará para sempre sobre eles.

Sb 3:1-8

Os pensamentos dos mortais são tímidos e os nossos raciocínios são falíveis,
porque um corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime a mente pensativa.

Sb 9:14-15

Vale notar que o tempo é linear, sem indicação de punições e/ou renascimentos cíclicos. Se isso não foi o bastante para convencer a equipe de A Bíblia de Jerusalém, há vários outros livros contemporâneos ao surgimento do cristianismo que atestam uma vida celestial antes de uma única vida terrena:

II Esdras

“As entradas para este mundo foram feitas estreitas, dolorosas e árduas, poucas e de aspereza triturante. Mas as entradas para o mundo maior são largas e seguras, e levam à imortalidade. Todos os homens, portanto, adentram esta existência curta e fútil; do contrário nunca poderão atingir as bênçãos guardadas. Por que então, Esdras, estás tão profundamente perturbado com a ideia de que és mortal e deves morrer? Por que não voltaste tua mente para o futuro em lugar do presente?”

“Meu senhor, meu mestre”, respondi, “é em Vossa lei que deixastes que os justos virão a gozar dessas bênçãos, mas o ímpios se perderão. Os justos, assim, podem suportar esta vida curta e aspirar à ampla vida futura; mas os que viveram uma vida iníqua terão ido por entre os estreitos sem nunca atingir os espaços abertos.”

Disse-me ele: “Não és melhor juiz que Deus, nem mais sábio que o Altíssimo. Melhor que muitos do que agora vivem se percam do que a lei que Deus pôs diante deles seja desprezada! Deus deu claras instruções a todos os homens quando vieram a este mundo, dizendo-lhes como alcançar a vida e como escapar da punição. Mas os ímpios se recusaram a obedecer-Lhe; adotaram suas próprias ideias vazias e planejaram fraude e iniquidade; até mesmo negaram a existência do Altíssimo e não reconheceram Seus caminhos. Ele rejeitaram Sua lei e recusaram Suas promessas, nem puseram fé em Seus decretos nem fizeram o que ordena. Assim, Esdras, o vazio para os vazios, a plenitude para os plenos”.

(…)
Eu respondi e disse: “Eu sei, ó Senhor, que o Altíssimo agora se chama piedoso, porque tem piedade dos que ainda não vieram a este mundo; e é afável, porque é afável aos que se voltam em arrependimento para Sua lei; é paciente, porque demonstra paciência para com os que têm pecado, já que são suas próprias criaturas; é recompensador, porque prefere dar a tomar; é abundante em compaixão, porque faz Sua compaixão abundar mais e mais aos que agora vivem e aos que já se foram e aos que ainda estão por vir”.

2 Esdras 7:13-25 e 132-137
Fonte: 2 Esdras

O texto acima foi extraído do Apocalipse Judaico de Esdras. Não é uma história, mas um conjunto de sete visões atribuídas a esse profeta e as explicações dadas pelo anjo Uriel, sendo que a terceira visão possui clara referência à preexistência. A nomenclatura desse livro é um pouco complicada, correspondendo aos capítulos 3-14 do livro 2 Esdras das edições de pseudoepígrafos feitas por protestantes, 3 Esdras nas igreja eslavas e a 4 Esdras na Vulgata de Jerônimo. Datado do final do I século, esse livro corrobora outro apocalipse do mesmo período quanto à existência prévia das almas:

Apocalipse de Abraão

E disse eu:” Eterno, Todo Poderoso! O que é essa imagem da criação?” E disse-me ele: “… O que quer que eu tenha determinado a existir já fora delineado nessa e em todas as [coisas] previamente criadas que viste perante mim”. E disse eu: “Ó Soberano, poderoso e eterno! Por que estão as pessoas dessa imagem deste lado e do outro?” E disse para mim: “Estes que estão à esquerda são uma multidão de tribos que existia previamente … Os da direita da imagem são as pessoas que separei para mim das pessoas com Azazel; esses são os que tenho preparado para nascer de ti e serem chamados de meu povo”

Apocalipse de Abraão 21:7 -22:5

Poderia dar mais exemplos (2), mas, por enquanto, basta saber que a própria ideia de um envio de almas previamente constituídas chegou a adentrar alguns círculos cristãos, como relatou Jerônimo – “Ou são as almas mantidas em um divino Tesouro onde foram armazenada há muito tempo, como alguns eclesiásticos, tolamente enganados, creem?” (epístola 126.1)- ao listar as hipóteses correntes ao final do século IV para a origem delas.

Então, seria possível as almas pecarem antes de vir a este mundo e receberem um “corpo maculado”, como poderia sugerir a lógica de Sabedoria de Salomão? Talvez, mas antes seria útil analisar uma outra e surpreendente hipótese para o pecado do cego de nascença, a ser tratada a seguir.
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John Lightfoot – uma Abordagem Inusitada

Retrato de John Lightfoot

Reclamei no início deste artigo sobre o baixo interesse dos cristãos ortodoxos atuais sobre a passagem do “cego de nascença” em João. Justiça seja feita, houve comentaristas que realmente abordaram a questão a fundo e, de certa forma, fazem escola até hoje. Um nome deve ser ressaltado: John Lightfoot (1602-1675), teólogo e hebraísta inglês e um dos primeiros a analisar os evangelhos à luz de informação colhidas de documentos hebraicos fora do Antigo Testamento.

Em edições antigas deste portal, já havia colocado links para seu comentário ao nono capítulo de João, mas, como estava perdido no corpo de artigos um tanto longos e – suspeito – muitos dos autoproclamados pesquisadores que sonham em me refutar são monoglotas, acho que pouquíssimos o leram. Portanto, faço a tradução do inglês para o texto original disponível neste portal. Como o texto é um tanto longo, vamos passo a passo.

João 9

2. E seus discípulos lhe perguntaram, dizendo, “Mestre quem pecou, este homem ou seus pais, para que ele nascesse cego?”

[Quem pecou, este homem ou seus pais?]

  1. Era uma doutrina aceita nas escolas judias que as crianças, em razão de alguma iniquidade de seus pais, nasciam coxas, ou tortas, ou mutiladas ou deficientes em alguma de suas parte, etc.; através da qual elas mantinham os pais em temor, a fim de que não ficassem desleixados e negligentes na realização de alguns rituais relacionados a seu estado de limpeza, tais como lavagens e purificações, etc. Demos exemplos em outro lugar.
  2. Mas que a criança deva nascer coxa, ou cega, ou em alguma parte por algum pecado ou falta sua própria aparenta ser um enigma, de fato.
    1. Nem resolvem o problema os quem partem para o princípio da transmigração das almas, com o qual teriam pintado os judeus; ao menos se admitirmos Josefo como um intérprete justo e juiz desse princípio. Pois segundo ele:

      É a crença dos fariseus que “as almas de todos são imortais e passam para outro corpo; isto é, apenas os do Bem [observe isso]; mas os da iniquidade são punidos com tormentos eternos.” De modo que, a não ser que diga que a alma de algum bom homem passou para o corpo ser a causa de sua cegueira de nascença (uma suposição que qualquer um deveria se envergonhar), não dirás nada quanto ao caso em mãos. Se a crença da transmigração das almas entre os judeus prevalecia apenas até esse ponto, que supunham ‘apenas as almas dos homens de bem’ passariam para outros corpos, esse mesmo assunto está fora da presente questão; e toda suspeita de punição ou defeito ocorrendo à criança em razão da transmigração desaparece completamente, a não ser que digas que isso poderia ocorrer a uma boa alma vinda do corpo de um bom homem.
      (…)

É interessantíssima essa observação de Lightfoot, válida para os que ainda insistem em utilizar Flávio Josefo para alegar crença na reencarnação entre os judeus intertestamentários. Para Josefo, o retorno a um novo corpo é prêmio e não uma punição. Os maus sofreriam a danação eterna. Um estudo pormenorizado do linguajar de Josefo feito por Steve Mason demonstrou que Josefo utilizava um palavreado grego para explicar a seu público helênico a crença na ressurreição à moda paulina.

Prosseguindo com Lightfoot:

  1. (cont.)

    1. Há uma solução tentada por alguns a partir da preexistência da alma; da qual, imaginariam eles, os judeus tinham alguns traços, a partir do que dizem sobre aquelas almas que estão na Goph ou Guph.

      “R. José disse, O Filho de Davi não virá até que todas as almas que estão na Goph sejam consumadas.” A mesma passagem é recitada também em Niddah e Jevamoth, onde é atribuída a R. Asi.

      “Há um repositório (diz R. Salomão), cujo nome é Goph: e desde a criação, todas as almas que já estiveram para nascer foram formadas juntas e lá colocadas.”

      Mas há outro rabino, trazido por outro comentarista, que supôs uma Goph dupla e que as almas dos israelistas e dos gentios não estão na mesma e única Goph. Além disso, ele concebe que, nos dias do Messias, haverá uma terceira Goph e uma nova raça de almas criada.

      R. José deduziu sua opinião de Isaías 57;16, torcendo miseravelmente as palavras do profeta para este sentido, “Minha vontade se retardará para as almas que criei.” Pois assim Aruch e os comentaristas explicam seu pensamento.

      Considerando, agora, que o que citei possa ser suficiente confirmação de que os judeus realmente partilhavam a crença na preexistência da alma, embora eu confesse não ter nem uma apreensão rápida, nem uma forma de imaginar o que considerar a preexistência de almas tenha a ver com essa questão.

De fato, não basta a simples crença na preexistência da alma para explicar o episódio de “o cego de nascença”. Se as almas ficarem meramente estocadas, inertes enquanto aguardam sua vez, o problema persiste. É preciso que elas, antes de nascerem, tenham algum grau de consciência e livre-arbítrio. Sabedoria de Salomão sugeriu que, de algum modo, isso ocorre, Lightfoot, por sua vez, resolve essa questão de uma forma surpreendente para a maioria dos leitores:

  1. Eu, portanto, procuraria desatar esse nó de alguma outra forma .
    1. Teria observado a passagem que temos em Vajicra Rabba:”E estão próximos os dia em que não dirás ‘Neles tenho prazer'” (Ecl 12:1). “Esses
      são os dias do Messias, nos quais não haverá mérito nem demérito
      “: isto é, se não me engano, em que nem os bons merecimentos dos pais serão imputados aos filhos para seu benefício, nem seus merecimentos por sua falta e castigo. Essas são palavras de R. Akibah in locum, e elas sua aplicação dessa passagem de Eclesiastes e certamente de sua invenção: mas a própria crença de que não haverá mérito nem demérito nos dias do Messias é que é comumente aceita entre os judeus. Sendo assim, então deixe-me aumentar um pouco a pergunta dos discípulos de nosso Salvador, por meio de paráfrase, para este propósito: “Mestre, sabemos que sois o Messias, e que estes são os dias do Messias; também aprendemos de nossas escolhas que não há imputação de mérito ou demérito dos pais nos dias do Messias; qual a razão, então para que este homem nascesse cego? Para que nestes dias do Messias ele devesse vir ao mundo com alguma marca e imputação de falta em algum parte? Por acaso foi alguma falta de seus pais? Isso parece contra a crença aceita. Parece, portanto, que carrega alguns sinais de sua própria falta: é isso ou não?”

    2. Era um preceito entre os judeus que a criança, quando já formada e a chutar dentro do ventre, poderia se comportar de forma anormal e fazer algo não pudesse ser de todo sem falta.

      No último tratado mencionado, traz-se uma mulher perante o juiz em seríssima reclamação sobre seu filho, que a chutava irracionalmente dentro do ventre. Em Midas Coheleth e Midras Ruth, cap. III. 13, há uma história que fala de Elisha Ben Abujah, que se afastou da fé e se tornou um horrível apóstata e, entre outras razões de sua apostasia, ela é devida a:

      “Há os que dizem que sua mãe, quando já estava grande na gestação dele, ao passar por um templo dos gentios, cheirou algo muito forte, e eles deram a ela do que cheirou, e o comeu; e a criança em seu ventre ficou quente, e inchou em bolha, como no ventre de uma serpente.”

        Em tal história, sua apostasia é supostas como sendo originariamente enraizada e fundada nele dentro do ventre, em razão da falta de sua mãe ao comer do que fora oferecido aos ídolos. Também é igualmente presumido que uma criança possa chutar e socar de forma irracional e anormal no ventre de sua mãe além da frequência de crianças comuns. Sejam como exemplo as crianças no ventre de Rebeca; onde os judeus certamente absolvem Jacó de falta, apesar de ter puxado Esaú pelo calcanhar; mas dificilmente perdoarão Esaú por se voltar com seu irmão Jacó.

        “Antonino perguntou a R. Judá, ‘Em qual época as afeições malignas começam prevalecer no homem? Será assim que se forma o feto no ventre ou por ocasião de sua chegada?‘ Disse-lhe o Rabi, ‘A partir da época de sua chegada.’ ‘Então,’ disse Antonino, ‘chutará ele de dentro do ventre de sua mãe e apressar-se-á em sair.’ Disse o Rabi, ‘Isso aprendi de Antonino; e a escritura parece tornar a isso quando diz: o pecado jaz à porta.'”

        Dessa disputa, seja verdadeira ou fictícia, aparenta que a antiga crença dos judeus era que a criança, desde seus primeiros chutes, tinha alguma mancha de pecado sobre ela. E esse grande doutor, R. Judá, o Santo, era ele mesmo originalmente dessa crença, mas mudara ligeiramente sua opinião em tão insignificante discussão. De fato, eles iriam um pouco mais longe: não apenas a criança poderia ter alguma mancha de pecado no ventre, mas ela poderia, em alguma medida, realmente pecar e fazer o que poderia torná-la criminosa. Para tal propósito essa passagem dos discípulos parece ter alguma relação; “Esse homem pecou para que nascesse cego?” Isto é, fez ele, quando sua mãe o carregava no ventre, alguma insensatez ou coisa enorme para que merecesse essa severa deficiência nele, para que trouxesse essa cegueira consigo ao mundo?

Pecados pré-natais. Impressionante, não? É preciso alertar o leitor de que o cerne do judaísmo rabínico é aperfeiçoar a prática da Lei e não a teologia dogmática, como viria a ser no cristianismo. Excetuando alguns assuntos chaves como o monoteísmo estrito, a ressurreição no fim dos tempos e a vinda do Messias, existe uma ampla variedade de opiniões quanto ao funcionamento da Criação e outros assuntos não relacionados com a Lei, de modo que dificilmente um grupo conseguiria acusar outro de heresia (3). Lightfoot trouxe uma opinião para explicar a origem do sofrimentos dos recém-nascidos. Explicações de cunho “kármico” surgiram na Idade Média, às quais o rabino Saadia Gaon contrapôs a tese de compensações futuras no pós-morte.

Talvez algum apologista espírita esteja achando a solução aqui trazida uma apelação. Talvez ignore ele que um nome bem conhecido entre os espiritualistas concordaria com isso, embora discordasse em vários outros pontos meus. Esse é o próximo assunto.
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Uma Inesperada Corroboração

A jornalista Elizabeth Clare Prophet produziu um livro muito falado entre os espiritualistas de nome Reencarnação: o Elo Perdido do Cristianismo. Comparada com outras obras sobre o tema, esse livro apresenta vários pontos positivos: uma pormenorizada descrição das crises origenistas, ao contrário da simplificação exagerada feita por outros autores, e não cai na tentação fácil de explicar tudo numa teoria conspiratória centrada na figura da imperatriz Teodora. Também devo comentar que Prophet fez a gentileza de colocar muitas vezes referências diretas às obras de Orígenes, o que facilita muito o trabalho de revisão e crítica, embora ainda se valha demais de citações não verificadas. Já comentei em outro artigo certos vícios de pesquisa da autora, que não vou repetir aqui. O que interessa agora é uma valiosa informação que ela traz no capítulo XVI do livro (“Os Diferentes Destinos dos Gêmeos”).

Os rabinos chegaram a uma conclusão incomum. Como as escrituras diziam que os destinos dos gêmeos [Esaú e Jacó] eram diferentes desde o nascimento, e uma vez que Deus era justo, acharam que a única resposta possível era que Esaú havia pecado enquanto estava no ventre de sua mãe. Por mais estranho que pareça, é exatamente esta especulação que encontramos num comentário do Gêneses escrito por volta de 400 a.C.. Os rabinos conjeturavam que, quando Rebeca passava por “casas de idolatria”, Esaú indicava a sua preferência dando pontapés, mas “quando ela passava por sinagogas e casas de estudo, era Jacó quem dava pontapés, tentando sair” (n. 4). Por estas ações os rabinos concluíram que Deus preferia Jacó e sua semente a Esaú e sua semente, por gerações.

Prophet afirma que essa história consta no comentário rabínico Genesis Rabbah 63.6.3 (4) e, conforme ela explica em sua nota nº4 para esse capítulo ao fim do livro, foi retirada de um livro do escritor judeu Jacob Neusner. Bom, como estamos falando de citações de citações surge uma questão a respeito da datação de Gêneses Rabbah. Tenho outro livro desse mesmo autor (Introdução ao Judaísmo, ed. Imago ) cujo glossário traz a datação para Genesis Rabbah para 450 E.C. (Era Comum, isto é, d.C), portanto quando Prophet situa o livro em 400 a.C. devo indagar se o correto não seria 400 d.C. De fato, há um erro aí, mas não da autora e sim da tradução da edição brasileira. Consultando o original em inglês, encontra-se:

Edição em língua inglesa de Prophet

A expressão usada é “A.D. 400” (Anno Domini 400), que significa literalmente “400º ano do Senhor“, ou, em bom português, “ano 400 depois de Cristo“. Por algum motivo, confundiram a sigla A.D., comum entre os anglófonos, com o nosso tradicional a.C. Esse lapso não é tão inofensivo assim, pois, ao datar Genesis Rabbah 400 anos antes de Cristo, haveria tempo para sua proposta para o caso de Esaú e Jacó ter sido substituída por uma doutrina reencarnacionista que, supostamente, teria se difundido no seio do judaísmo intertestamentário. Com a datação correta, fica menos provável que a reencarnação já fosse moeda corrente no mainstream do judaísmo ao tempo de Jesus. Prophet, sem querer, confirma a mesma ideia trazida por John Lightfoot em seu comentário de João.

Bem, muitos podem estar se perguntando por que estou usando uma autora cujo trabalho tanto critiquei. A resposta é que aqui ela está agindo contra os seus interesses, portanto não há motivo para que fraudasse isso. Vale lembrar que Prophet também abordou a passagem do “Cego de Nascença” no capítulo IX de seu livro e óbvio que sua análise está ao gosto espiritualista. Ela não percebeu que sua alusão a Genesis Rabbah, bem mais à frente, deixaria a obra inconsistente. Isso também deve ter passado despercebido por vários apologistas que fazem uso dessa autora, mas não por este portal.
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A Finitude da Criação

ampulheta

A crença na existência alguma forma de Juízo Final ou Fim dos Tempos torna imperioso que, em algum dado instante, novas almas deixem de ser criadas. Num modelo traducianista (alma e corpo são gerados juntos) ou com criação contínua de almas, bastaria que novas concepções não ocorressem. O que aconteceria, porém, se todas as almas já estivessem prontas e contadas desde o princípio? É esse o caso que nos traz o apocalipse judaico II Baruque, que defende o começo da era messiânica para quando a última alma em espera vier a nascer:

XXIII – A Proximidade da Salvação
(…)
Então ele falou-me: “Por que te preocupas, pois, com aquilo que não sabes? Por que te angustias com o que não conheces? Se tu tens conhecimento dos homens de hoje, e dos que já se foram, eu conheço os que hão de vir. Quando Adão pecou, atraindo a morte sobre os seus descendentes, foi então contada a grande massa daqueles que haveriam de nascer; e foi preparado um lugar para aquela multidão, tanto para morada dos vivos como para a guarda dos mortos. Enquanto aquele número predeterminado não for preenchido, as criaturas que morreram não reviverão. O meu Espírito é o de Criador da vida; e o mundo inferior continuará a receber os mortos.
“Porém, mais coisas ainda ser-te-á permitido ouvir sobre o que irá acontecer após esses tempos. Em verdade, a Salvação que vos preparei está próxima, e já não mais tão distante como anteriormente.”

Fonte [Tricca, p. 314]

O interessante que esse apócrifo nos revela é o fato de a preexistência, embora seja uma condição necessária para a reencarnação, de forma alguma é uma condição suficiente para ela. É perfeitamente possível conceber um sistema – e foi concebido – em que as almas encarnem apenas uma vez e, depois, permaneçam numa espécie de limbo até a ressurreição do Mundo Vindouro, algo do qual o próprio livro de II Baruque apresenta sua versão em outra parte.

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Uma Análise Histórica de João, capítulo IX

Tudo que foi escrito acima partiu de dois pressupostos:

  1. Os ensinos de Jesus estavam dentro de seu contexto histórico-cultural;
  2. A passagem do “cego de nascença” foi histórica.

Nenhum dos dois, porém, me parece válido, ou melhor, válido do modo como os espiritualistas alegam. Com relação ao primeiro, pode-se conceber uma racionalização para a discrepância assinalada ao final do tópico anterior: Prophet consideraria a reencarnação como um ensino de Jesus, ao passo que os pecados pré-natais pertenceriam aos de outros rabinos. A brecha que ela e outros escritores esotéricos dispõem são os “anos perdidos”: o período dos 13 aos 30 anos de Jesus em que a literatura cristã é silente. Jesus poderia ter absorvido a reencarnação pelo contato com a cultura grega ou viajado à Índia pegando carona com a “Rota da Seda” (cap. VIII do citado livro de Prophet). É um tanto questionável a primeira hipótese porque o ambiente em que Jesus viveu era fortemente nacionalista e apocalíptico, ou seja, não eram seus conterrâneos tão propícios a aceitar ideias alienígenas e acreditavam numa mudança iminente (e cataclísmica) da realidade que conheciam. Quanto ao suposto contato de Jesus com monges budistas na Índia, isso não é levado muito a sério no meio acadêmico (5). Em outras palavras, “Jesus em contexto” aqui assumido não é o mesmo deles.

Resta ainda saber se Jo 9:2 tem alguma probabilidade relevante de ter sido verídico. Em suas palavras após a pergunta dos discípulos são: “Nem ele nem seus pais pecaram, mas isto aconteceu para que a obra de Deus se manifestasse na vida dele“; Jesus vai contra o tecido social da época, um ponto favorável a sua autenticidade. Por outro lado, como contexto é uma hierarquia, há fatos no capítulo IX de João que não condizem com o esperado durante a vida de Jesus:

Responderam os pais: Sabemos que ele é nosso filho e que nasceu cego. Mas não sabemos como ele pode ver agora ou quem lhe abriu os olhos. Perguntem a ele. Idade ele tem; falará por si mesmo. Seus pais disseram isso porque tinham medo dos judeus, pois estes já haviam decidido que, se alguém confessasse que Jesus era o Cristo, seria expulso da sinagoga.

Jo 9:20-22

Nem nos sinópticos, nem em Atos há relatos de expulsão dos cristãos das sinagogas durante a vida de Jesus ou bem no início da pregação do apóstolos. Os registros judaicos de expulsão de quem apontasse Jesus como Messias (ou qualquer outro) também são mais tardios. Então, o autor de João está narrando uma experiência vivida por sua comunidade, não por Jesus e seus discípulos. A resposta de Jesus é feita de palavras desse desconhecido autor, embora façam o estilo do Messias cristão.

João é o mais tardio dos canônicos, tendo sido escrito após a destruição do Segundo Templo em 70 d.C., quando a maioria das seitas judaicas foi extinta e o judaísmo rabínico emergiu como força distinta do cristianismo. O “cego de nascença” reflete o começo das tensões que levaram declaração de que judeus-cristãos não eram mais filhos de Abraão nesse novo judaísmo centrado na sinagoga. Note-se o teor antissemita das palavras ao final do capítulo precedente ao nono:

Vós [os judeus] tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira.

Mas, porque vos digo a verdade, não me credes.

Quem dentre vós me convence de pecado? E se vos digo a verdade, por que não credes? Quem é de Deus escuta as palavras de Deus; por isso vós [os judeus] não as escutais, porque não sois de Deus.

Jo 8:44-47

Assim, pode-se cogitar que a cura do cego de nascença seja uma metáfora para como a comunidade joanina encarava sua antiga matriz religiosa: todo judeu nasceria cego e apenas Jesus Cristo lhe “abriria os olhos”, especialmente se fosse fariseu (cf. Jo 9:39-41).

É possível, também, que essa passagem reflita um estágio em que a comunidade joanina já contasse com um bom número cristãos gentios entre eles e a pergunta dos apóstolos refletisse uma antiga crença pagã deles (6). Ou era mesmo parte de uma herança rabínica ainda recente, como alegado acima. Embora não seja possível decidir quanto a isso, o certo é que quando foi abraçado pela ortodoxia cristã, notadamente por Irineu de Lião (7), a reencarnação não fazia parte de sua doutrina.
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Notas

(1) Acesse o portal Ser Judio – Vida y muerte ou leia O Judaísmo Vivo, de Michael Asheri, cap. XLI, pp. 251-2 , para verificar que a aceitação da reencarnação ou gigul neshamot não é universal entre os judeus modernos. Leia Jewish View of the Afterlife, de S.P. Raphael, cap. VIII, pp. 314-20 para uma análise histórica e mais aprofundada. Curiosamente, esses dois autores também tocam na possibilidade, em alguns círculos kabalísticos, de reencarnação em corpos de animais. Será que os espiritualistas modernos compram essa ideia?

(2) Cf. [Givens], cap.III. e – [Chamberlin]

(3) O historiador Paul Johson fez uma interessante observação:

[Na Idade Média] Havia uma tal variedade de opiniões sobre o Messias no judaísmo que era quase impossível ser herético nesse assunto. O judaísmo dizia respeito à Lei e sua observância. O cristianismo dizia respeito à teologia dogmática. Um judeu podia atrapalhar-se quanto a um ponto delicado da observância do sábado que a um cristão pareceria ridículo. Por outro lado, um cristão podia ser queimado vivo por sustentar uma ideia sobre Deus que a todos os judeus pareceria um assunto de opinião legítima e de controversa.

Johson, Paul; A História dos Judeus, Imago, 1995, parte III, p. 228.

O comentário rabínico Genesis Rabbah 34:10 (a conversa entre Antonino Pio e Rabi Judá ha-Nasi, trazida por Lightfoot), mostra uma opinião oposta à possibilidade de um feto pecar. Porém, conforme a nota seguinte, dentro do mesmo comentário há uma opinião a favor disso. Uma alternativa para Jo 9:2 é a de que os discípulos de Jesus quisessem justamente sanar essa dúvida.

(4) Da própria transcrição de Genesis Rabbah 63:6 feita por Jacob Neusner (p. 180):

When she sent by houses of idolatry, Esau would kick, trying to get out: “The wicked are estranged from the womb” (Ps. 58:4). When she passed by synagogues and study-houses, Jacob would try to kick, trying to get out: “Before I formed you in the womb, I know you” (Jer 1:5)

Tradução

Quando ela [Rebeca] cruzasse com casas de adoração dos ídolos, Esaú se contorceria querendo sair, como se diz, “os ímpios são desviados desde o ventre materno” (Sl 58:4). Quando ela passasse por sinagogas ou casas de estudo, Jacó se contorceria querendo sair, como se diz, “antes que eu te formasse no ventre, eu te conheci” (Jr 1:5).

Óbvio que aqui houve uma “rabinização” da história de Gêneses, pois não havia sinagogas ou casas de estudo à época da narrativa sobre Esaú e Jacó.

Observação: Uma edição completa e bilíngue (hebraico/inglês) do livro pode ser encontrada no portal www.seferia.org. O portal “Sacred Texts” possui apenas uma seleta deste livro e carece desta passagem. A Bíblia Ecumênica Barsa (1979) comenta a passagem Jo 9:2 de forma parecida com a de John Lightfoot, mas não faz nenhuma referência bibliográfica.

(5) Essa história de que “Jesus viveu na Índia” teria começado quando um russo – Nicolai Notovitch -, no final do século XIX, teria viajado ao Tibete e se abrigado no mosteiro budista de Hemis enquanto convalescia de uma fratura. Lá teria conseguido acessar um manuscrito chamado A Vida de São Issa, que lhe era recitado, e ficou pasmo com similaridades entre essa personagem e Jesus Cristo, com o diferencial de ela conter informações sobre os “anos perdidos de Jesus”, i.e., o período que vai dos doze aos trinta anos que supostamente foram passados na fronteira entre a atual Índia e o Tibete, e dedicados ao aprendizado do budismo. Já de volta ao ocidente, publicou em francês suas memórias no livro A Vida Desconhecida de Jesus Cristo. Um dos apologistas desse “Jesus indiano” – Holger Kersten (de Jesus Viveu na Índia) – não ignora as críticas surgidas e adota a postura de que “a melhor defesa é o ataque”: acusa um dos críticos da tese – Max Müller, hindulogista de Oxford – de ser fanático cristão e de nunca ter estado na Índia. Isso é de uma extrema esperteza e covardia, pois assinalar as fraquezas do adversário de forma alguma torna alguém mais forte. Pelo contrário, afinal fica claro que não se tem resposta às críticas do oponente. E um dos ataques de Müller era o fato de tão notável documento não constar em grandes cânones do budismo tibetano, como o Kanjur e o Tanjur. Notovitch acabou mudando sua história em novas edições: a biografia de Issa não era mais uma obra em dois volumes e, sim, um apanhado de contos espalhados em diversas outras. Além disso, existe outra acusação de fraude feita à mesma época pelo acadêmico inglês J. Archibald, que foi ao mosteiro de Himes e não encontrou nada e ninguém sabia de tal manuscrito. A história foi encerrada por um tempo até que outros alegaram ter visto o documento, inclusive entrando em contradição com Notovitch, só que ninguém o trouxe ou fotografou. Como se não bastasse, o documento, posteriormente, foi dado como “perdido”, apesar de a história original de Notovitch não tratar os textos de Himes como exclusivos…

A quem quiser saber mais, sugiro a leitura de Jesus in Tibet – A Modern Myth, de Robert M. Price, e a das publicações originais de Müller e Archibald. O recentemente aclamado Bart Ehrman chega a fazer um breve comentário a respeito das teses do “Jesus indiano”:

Outras falsificações têm sido perpetradas nos tempos modernos, de relevância direta para nosso corrente estudo de apócrifos cristãos antigos. Pode-se pensar que, em nossos dias e época, ninguém seria tão ardiloso para assegurar quaisquer relatos de primeira mão de Jesus como autênticos. Mas nada poderia estar mais longe da verdade. Estranhos evangelhos aparecem regularmente, se você souber onde procurá-los. Muitas vezes esses registram incidentes dos “anos perdidos” de Jesus, por exemplo, relatos de Cristo ainda criança ou jovem anteriores a seu ministério público, um gênero que retrocede até o segundo século. Esses relatos algumas vezes descrevem viagens de Jesus à Índia para aprender a sabedoria dos brâmanes (como de outra forma ele seria tão sábio?) ou seus feitos no deserto, juntando-se com monges judaicos para aprender o caminho da santidade.

– Ehrman, Bart D.; Lost Christianities, Oxford University Press, 2003, cap. IV, p. 68:

Ehrman não chega a citar Notovitch, nem a desenvolver o tema do Jesus budista/hindu. Mas esse parágrafo deixa transparecer que a tese não é levada muito a sério nos meios acadêmicos.

(6) Para mais pormenores da evolução social da comunidade joanina, ver Ehrman, Bart; The New Testament, Oxford University Press, 2008, cap. XI. O Jesus Seminar, no livro The Five Gospels, também não considerou essa passagem como genuína, mas por razões estilísticas: serve de abertura a um discurso um tanto longo, improvável de ser relembrando com tanto precisão, e como mais uma brecha para os característicos “Eu sou” desse evangelho.

(7) Contra as Heresias, livro III, 11
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Para Saber Mais

– Asheri, Michael; O Judaísmo Vivo; Imago,1995;

– Chamberlin, Frank; Pre-Existence of the Soul in the Book of Wisdom and in the Rabbinical Writings, The American Journal of Theology, Vol. 12, No. 1, (Jan., 1908), pp. 53-115, The University of Chicago Press.

– Givens, Terry L.; When the Souls had Wings – Pre-Mortal Existence in Western Thought, Oxford, 2010.

– Johson, Paul; A História dos Judeus, Imago, 1995

– Raphael, Simcha, Paull; Jewish Views of the Afterlife, Aronson, 2004.

– Neusner, Jacob; Introdução ao Judaísmo, Imago, 2004.

– Tricca, Maria Helena de Oliveira (compiladora); Apócrifos – Os proscritos da Bíblia, tradução do alemão de Ivo Martinazzo, vol. I e III, Ed. Mercuryo, 2003.

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E quanto aos essênios?

19 de outubro de 2011 Deixe um comentário

Carvernas onde foram encontrados os manuscritos do Mar Morto.

As Cavernas de Qumran: a Arca de Noé dos manuscritos essênios.

Vamos supor que você faça uma viagem ao extremo oriente e visite um templo budista. Fica admirado com a sinceridade do voto de pobreza dos monges, as vestimentas despojadas e características, suas cabeças raspadas, seu trabalho social, horas gastas em estudos doutrinários, hierarquia interna, atitudes contemplativas e meditação. Voltando aqui para o ocidente, é interpelado por um colega seu que é totalmente ignorante quanto aos hábitos fora de sua cultura. Sabendo que seu colega é católico, ou tenha algum conhecimento sobre o catolicismo, manda-lhe uma comparação com algo que mais familiar: “os monges budistas vivem como os frades franciscanos”.

Obviamente, foram ignoradas diferenças enormes: meditar não é orar (se bem que o efeito cerebral parece ser semelhante), a coroinha dos franciscanos não chega a ser uma cabeça totalmente pelada, os budistas não prestam contas ao Vaticano e, principalmente, o conceito de vida única não condiz com os ciclos de renascimento. Visto que a intenção foi apenas ilustrar, até que não foi nada de mais.

Seria perigoso, com tão pouca informação, deduzir as crenças budistas usando os franciscanos como referencial. Então, por que extrapolar que a seita dos essênios do século I acreditavam em reencarnação a partir de uma frase tão curta:

Estes homens [os essênios] levam o mesmo estilo de vida daqueles a quem os gregos chamam de pitagóricos.

Josefo, Antiguidades Judaicas, XV, cap.10.

Isto quer dizer que eles viviam em comunidades religiosas e reclusas, se assemelhando ao estilo de vida dos pitagóricos; ou que eles também professavam suas crenças na reencarnação? Ou melhor: na metempsicose, com a possibilidade de uma alma humana habitar um corpo animal.

No Preceito da Guerra (1QM II,1), há uma alusão a sacrifícios rituais: “Os sacerdotes-chefes ministrarão durante o sacrifício diário diante de Deus…” foram encontrados 26 depósitos de ossos de diversos animais em Qumran. Seria estranho se eles acreditassem em metempsicose e matassem animais, coisa que os pitagóricos evitavam. Mesmo para a alimentação. Vamos obter mais informação, então. Na continuação da mesma frase de Josefo em Ant. XV, 10; ele diz: “dos quais discursarei mais plenamente em outro lugar.” E aqui está esse “outro lugar”:

A doutrina dos essênios é esta: que todas as coisas são melhor atribuídas a Deus. Ensinam a imortalidade das almas, e consideram que as recompensas da retidão são zelosamente adquiridas com esforço, e quando enviam o que dedicaram a Deus para o templo, não oferecem sacrifícios porque têm mais pura lustração por conta própria; razão pela qual são excluídos do pátio comunitário do templo, mas oferecem sacrifícios por si mesmos; embora seu estilo de vida seja melhor que o dos outros homens; e eles se entregam inteiramente ao zelo da atividade econômica. Também merece nossa admiração o quanto eles excedem todos os homens que se entregam a virtude, e isto em correção e em tal grau que nunca apareceu entre qualquer grupo de homens, quer gregos, quer bárbaros; não, não for pouco tempo, visto que isto tem durado bastante entre eles. Tal fica demonstrado pela sua instituição, que nada sofrerá para impedi-los de ter todas as coisas em comum; de forma que o rico não desfrute mais de suas fortuna do que aquele que nada tem. Há cerca de quatro mil homens que vivem desta forma, que nem se casam, nem desejam manter servos; pensando que a última tenta os homens a serem injustos e a primeira dá espaço a disputas domésticas; mas como eles vivem por conta própria, ensinam um para o outro. Também indicam certos administradores para receber os lucros de suas rendas e dos frutos da terra; tal qual bons homens e sacerdotes, que aprontam seu trigo e alimento para eles. Não se diferem nenhum deles dos outros essênios em seus estilo de vida, mas se assemelham aos dacas, que são chamados polistas (citadinos*).

Antiguidade judaicas, livro XVIII, cap I
(*) Os dacas eram membros de uma seita pitagórica. Pouco se sabe quanto ao ramo dos polistas, se realmente viviam de forma monástica ou nas cidades, como o próprio nome diz.

Fica patente, aqui, que os essênios criam na imortalidade da alma, mas sem a ressurreição farisaica no fim dos tempos. A semelhança com os pitagóricos é quanto ao seu estilo de vida, não com as suas crenças. A atitude de Josefo foi a de usar comparações a para auxiliar seu público helênico de leitores, como explica [Vermes, cap. III]:

Segundo Josefo, eles adotaram um conceito de imortalidade claramente helenístico, sustentando que a carne é uma prisão da qual a alma indestrutível dos justos escapa para um êxtase infinito, “num lugar além do oceano”, depois de sua libertação final (1) (Guerra Judaica, II, 8).

A ressurreição, que significa o retorno do espírito ao corpo material, não pode assim fazer parte deste esquema.

Os manuscritos nada ajudaram neste particular, até recentemente. Encontramos afirmações tais como “Içai uma bandeira, ó vós que jazeis no pó! Ó corpos roídos pelos vermes, erguei um estandarte…!” (1QH VI, 34-5; cf. XI, 10-14), o que pode ter uma conotação de ressurreição corporal. Por outro lado, a linguagem poética pode ser apenas alegórica. Há mais informações sobre a imortalidade distinta da ressurreição. Elas confirmam a descrição de Josefo, embora – o que não é de surpreender – sem qualquer coloração tipicamente helenística (sem dúvida introduzida por ele para agradar a seus leitores gregos).

Outro texto importante de Qumran, “O preceito da comunidade” (1QS), cap. IV, assim descreve:

O julgamento divino de todos que caminham com este espírito será a saúde, uma vida longa em grande paz, e abundância, junto com todas as bênçãos eternas e alegrias infinitas numa vida sem fim, uma coroa de glória e uma vestimenta majestosa de luz infinda

Mas os caminhos do espírito da falsidade são estes: ganância e negligência na busca da retidão, maldade e mentiras, arrogância e orgulho, hipocrisia e engano, crueldade e mal abundantes, mau humor e muita insensatez e descarada insolência, atos abomináveis (cometidos) com espírito de luxúria, e conduta lasciva a serviço da impureza, uma língua blasfema, cegueira do olho e surdez o ouvido, cerviz dura, dureza de coração, assim caminha, assim caminha este homem para as sendas das trevas e do logro.

E o julgamento de todo aquele que caminha com este espírito trará incontáveis flagelos por intermédio dos anjos destruidores, maldição eterna por causa da ira vingativa de Deus, tormento eterno e desgraça infinita junto com a extinção vergonhosa do fogo das regiões escuras. Todas as suas gerações futuras decorrerão em tristes lamentações e amarga miséria, e em calamidades tenebrosas até que sejam todas destruídas, sem deixar rastro ou sobreviventes.

Fica nítida a crença em redenção e danação eternas, bem como uma crença das gerações seguintes pagando pelo pecado das outras. Curiosamente, os essênios poderiam ter um ponto em comum com os fariseus:

A liberação dos manuscritos em 1991 revelou, todavia, um texto poético, usualmente chamado de “fragmento da Ressurreição” (4Q521) que, fazendo eco com Isaías LXI, 1, descreve Deus na idade do Messias curando e revivendo os mortos. Se este poema for uma composição essênia, pode-se dizer que um dos 813 manuscritos de Qumran definitivamente comprova a crença da seita na ressurreição do corpo.

[Vermes, cap. III]:

E por falar em fariseus, é bom que se diga que os essênios não foram a única seita judaica da qual Josefo fez paralelos com a cultura grega:

Quando tinha eu cerca de dezesseis anos, tive a ideia de provar das diversas seitas que existiam entre nós. Havia três delas, a dos fariseus, os saduceus e a dos essências, como frequentemente lhes disse. Pensava que me familiarizando com todas elas, poderia escolher a melhor. Então me entreguei às asperezas, e me submeti a grandes dificuldades, e passei por todas elas. Nem mesmo me contentei em experimentar apenas dessas três, pois quando tomei ciência daquele cujo nome era Bano, que vivia no deserto, e não usava outra vestimenta senão o que crescia sobre as árvores, e não tinha outro alimento senão o que crescesse por conta própria, e se banhava em água fria frequentemente, tanto de dia como de noite, a fim de se purificar. Eu o imitei nessas coisas e fiquei com ele três anos. Então, quando tinha realizado os meus intentos, voltei para a cidade, estando agora dezenove anos de idade , e comecei a me conduzir conforme as regras da seita dos fariseus, que é aparentada à seita dos estoicos, como os gregos os chamam.

Flávio Josefo, Autobiografia, segundo parágrafo

Nem por isso cabe se considerar os fariseus como uma versão judaica dos estoicos ou será que até isso irão apelar? O que Josefo queria passar a seus leitores originais é que os essênios estariam mais para um grupo monástico e místico, ao passo que os fariseus continuavam integrados à sociedade e com um perfil mais racionalista.

Notas:

(1) Transcrevendo o texto completo:

Pois sua doutrina é esta: que os corpos são corruptíveis e que a matéria de que são feitos não é permanente; mas que as almas são imortais e continuam para sempre; e que vieram do mais sutil ar e são unidas a seus corpos como a uma prisão, a que foram arrastadas por um espécie de atração natural; mas quando são libertadas dos laços da carne, então elas, como libertas de um longo cativeiro, regozijam-se e ascendem. E isso é como as opiniões dos gregos, que boas almas têm suas moradas além do oceano, numa região que não é oprimida nem pelas tempestades de chuva ou neve, nem com calor intenso, mas esse tal lugar é refrescado por uma suave brisa de um vento do oeste, que sopra perpetuamente do oceano; ao passo que designam para as almas más um antro escuro e tempestuoso, cheio de castigos incessantes. E de fato os gregos aparentam-me seguir a mesma noção, quando designam as ilhas dos abençoados para seus bravos homens, a quem chamam de heróis e semideuses; e para as almas dos iníquos, a região dos ímpios, no Hades, onde suas fábulas relatam que certas pessoas, tais como Sísifo, e Tântalo, e Ixíon, e Títio, são punidos; que está assentada sobre essa primeira suposição, que as almas são imortais; e daí são reunidas as exortações à virtude e dissuasões da iniquidade; pelas quais bons homens são aperfeiçoados na conduta de sua vida através da esperança de terem uma recompensa após suas mortes; e pelas quais a veementes inclinações dos maus ao vício são restringidas através do medo e da expectativa em que se encontram de que, apesar encobrirem nesta vida, devam sofrer castigo imortal após suas mortes. Essas são as doutrinas divinas dos essênios sobre a alma, que lançam uma irresistível isca para os que uma vez que tiveram uma amostra de sua filosofia.

Guerras, livro II, cap. VIII

Para saber mais:

– Vermes, Geza: Os Manuscritos do Mar Morto, Ed. Mercuryo.

– Flusser, David; O Judaísmo e as origens do cristianismo, vol. I, ed. Imago.

Reencarnação X Ressurreição

18 de outubro de 2011 26 comentários

Ressurreição da Carne

Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. (I Cor 15:52)”

Luca Signorelli: A Ressurreição da Carne

    Índice

    Se a reencarnação realmente estivesse contida na Bíblia, tão importante ponto referente ao destino deveria estar escrito de maneira bem explícita. Autores espíritas, possivelmente querendo tornar sua doutrina mais palatável com a ortodoxia cristã, começaram um esforço violento para extrair supostos versículos que confirmassem a presença deste antigo ensino. O Evangelho Segundo o Espiritismo (ESE), já alega arbitrariamente que a ressurreição é a reencarnação entendida pelos judeus do séc. I. Como eles não criam em novo nascimento, acreditavam que no retorno ao mesmo corpo. Segundo Kardec o certo seria crer em reencarnação, visto ser impossível reagrupar nossos átomos após o corpo se decompor. Isto é muito questionável, pois não interessa se algo é possível ou não, mas se teve algum significado para o povo do século I. Pelo menos, o próprio “mestre lionês” teve a prudência de reconhecer que o credo corrente na época pregava a ressurreição. Vejamos, então, o que realmente os judeus do século I entendiam como ressurreição e verificar se corrobora o preconizado por Kardec.

    1 – Antigas Visões Judaicas do Pós-Morte

    Túmulos judaicos

    Ao longo dos livros do Antigo Testamento, pode-se notar uma evolução uma progressiva evolução de pensamento sobre o que acontece após a morte:

    1. Aniquilação;
    2. Existência desencorpada;
    3. Não morrer.
    4. Restauração corporal.

    1.1 Aniquilação

    A primeira a ser encontrada na Bíblia e se resume a sentença de Iahweh sobre Adão (Gn 3:19): “Com o suor de teu rosto comerá teu pão até que retornes ao solo. Pois tu és pó e ao pó retornarás“. Dessa forma, a morte é o fim inexorável de nossa existência, a ser retardado o mais possível. As bênçãos que uma pessoa poderia esperar seriam uma vida longa, feliz, ter muitos filhos e ser enterrado junto aos ancestrais. A “imortalidade” existiria através da descendência e daí um grande temor de que punições recaíssem sobre ela (1). No mundo pagão, essa (des)crença se expressava em inscrições lapidares como RIP – Resquiat in Pace (Descanse em paz) ou NFFNSNC – Non fui, fui, non sum, non curo (Não existia, existi, não existo, não me importo). Como paralelo moderno, esse seria o destino imediato de todo ser humano, segundo as Testemunhas de Jeová, e o destino final da maior da humanidade não salva.

    1.2 Existência de desencorpada

    As almas não seriam imateriais, mas formadas de alguma substância sutil que sobreviveria, de certa maneira, em um lugar chamado Xeol (pronuncia-se Sheol). Ao menos nos livros que lhe fazem menção, o Xeol estava longe de ser um prolongamento desta vida, mas a contemplação de um eterno vazio, não muito diferente do Hades dos pagãos:

    Lembra-te que minha vida é um sopro, e que meus olhos não voltarão a ver a felicidade. Os olhos de quem me via não mais me verão, teus olhos pousarão sobre mim e não mais existirei. Como a nuvem se dissipa e desaparece, assim que desce ao Xeol não subirá jamais.

    Jó: 7-10

    Volta-te, Iahweh! Liberta-me! Salva-me por teu amor! Pois na morte ninguém se lembra de ti, quem te louvaria no Xeol?

    Salmos 6:5-6

    Ainda há esperança para quem está ligado a todos os vivos, e um cão vivo vale mais que um leão morto. Os vivos sabem ao menos que irão morrer; os mortos, porém, não sabem, e nem terão recompensa, por que sua memória cairá no esquecimento. Seu amor, ódio e ciúme já pereceram, e eles nunca mais participarão de tudo que se faz debaixo do Sol.

    Eclesiastes 9:4-6

    Com efeito, não é o Xeol que te louva, nem a morte que te glorifica, pois já não esperam em tua felicidade aqueles que descem à cova. Os vivos, só os vivos é que te louvam, como estou fazendo hoje.

    Isaías 38:18-19

    Não te prives da felicidade presente, não deixes escapar nada de um legítimo desejo. Não deixarás a outro os teus recursos, e o fruto de teu trabalho à decisão da sorte? Dá e recebe, faze divagar a tua alma, pois não há no Xeol quem procure algum prazer. Como uma roupa, toda carne vai envelhecendo, porque a morte é lei eterna. Como as folhas numa árvore frondosa tanto caem como brotam, assim a geração de carne e sangue: esta morre, aquela nasce.

    Eclesiástico 14:14-20

    As expectativas de longo prazo dos vivos não seriam muito diferentes do caso anterior.
    Um paralelo moderno aparece no terceiro volume da série Fronteiras do Universo (no original, His Dark Materials), do escritor Philip Pullman, em que o “Mundo dos Mortos” é apresentado como um lugar sombrio, acinzentado, onde as almas são impostas a uma espécie de tédio sem fim, ao ponto de acabarem esquecendo, com os séculos, seus próprios nomes.

    1.3 Não Morrer – Vivendo no Céu

    Três grandes figuras da mitologia judaicas se constituem exceção à regra:

    • Enoque: Brevemente citado em Gn 5:18-24 como um justo ancestral de Noé, que “andou com Deus”, viveu 365 anos e então desapareceu, “pois Deus o arrebatou”. Aparentemente, livro Gêneses foi extremamente sucinto ao falar de uma personagem que teve vida bem mais ampla no imaginário judaico e se tornou título de três livros:

      • I Enoque: Na verdade, uma compilação de cinco livros redigidos entre III e I a.C., que tratam desde a queda de um grupo de anjos conhecido como Vigilantes até a consumação dos tempos, além das jornadas de Enoque ao Xeol e aos céus.
      • II Enoque ou Livro dos Segredos de Enoque: Apesar do nome, não é continuação do anterior, tendo sido redigido no I século de nossa era e narra a viagem de Enoque aos dez céus, ao Xeol e as coisas que aprendeu sobre a origem do mundo, a queda dos anjos e destino dos justos e iníquos. Enoque volta à Terra, fala aos seus sobre o que viu, de como deveriam se portar para agradar a Deus e redige 366 livros. É arrebatado de novo e definitivamente por Deus. Alguns manuscritos possuem um adendo sobre a origem de outro imortal: Melquisedeque.
      • III Enoque: Também sem relação com seus antecessores e datado no século V de nossa era. Nele o arcanjo Metatron é apresentado como tendo sido originariamente Enoque.
    • Melquisedeque: Figura enigmática da mitologia judaica, Melquisedeque (“Meu rei é justiça”) é apresentado e Gn 14:17-20, como o rei-sacerdote da cidade de Salém, a quem o patriarca Abraão deu um décimo de um butim de guerra. E só. Fora da Bíblia, porém, Melquisedeque parece ter tido várias faces. Um dos seus reaparecimentos foi nos Manuscritos do Mar Morto, mais especificamente em 11QMelch (ou 11Q13), onde ele é retratado como um grande juiz escatológico celestial, sugerindo uma metamorfose parecida com a que viria ter Enoque/Metatron. Um dos mais elucidativos retratos de seus foi registrado em algumas versões de II Enoque. Nele, informa-se que Melquisedeque teve um nascimento de circunstâncias miraculosas e já veio ao mundo grande o bastante para ficar em pé e pregar. Essa criança foi arrebatada antes do dilúvio e, após as águas baixarem, um novo Melquisedeque apareceu, sem grandes explicações. A partir dele, viria uma sequência de sacerdotes com esse título e último deles seria um juiz escatológico. Talvez a menção ao “sacerdócio eterno de Melquisedeque” na Epístola aos Hebreus não seja mera coincidência.
    • Elias: Profeta que teria sido arrebatado por uma carruagem de fogo (II Reis 2:11). Segundo Malaquias (Ml 3,1) e (Ml 3,22-24 ou 4,4-6), retornará como precursor do Messias.

    Um problema surge ao se tratar com os “arrebatados”: o corpo humano está sujeito ao desgaste e à deterioração. Como, então, poderiam eles permanecer indefinidamente no Céu? Uma conjectura já foi dada acima, pela transformação de Enoque e Melquisedeque (o de Qumran) em seres celestiais. Há também o caso do pseudepígrafo judaico-cristão “Ascensão de Isaías” (séc. I ou II), em que é relatada uma jornada desse profeta pelas várias regiões celestiais. Essa viagem não se enquadra bem como um caso de “arrebatamento” porque se tratou de uma visão: Isaías não esteve lá em corpo físico. Mesmo nessa “visão”, ele precisou colocar uma veste a partir do sétimo Céu para poder prosseguir e ela o deixou similar aos anjos. Já no sétimo Céu, ele encontrou … Enoque, que trajava o mesmo tipo de veste! Não é impossível que seu autor tenha se inspirado em um trecho de I Enoque (62:10), onde se lê de forma poética:

    Serão [os justos] recobertos com as vestes da glória, que são as vestes da Vida do Senhor dos Espíritos. Vossas vestes não envelhecerão e vossa glória não passará na presença do Senhor dos Espíritos.

    Seja por uma mudança em sua natureza intrínseca ou por um influxo externo de poder, a transformação de um corpo mortal em outro celestial foi melhor explorada em outros exemplares da literatura intertestamentária que se encarregaram de democratizar a imortalidade de uns poucos.

    1.4 Restauração corporal

    No judaísmo posterior ao exílio, talvez por influência persa e pela constatação de que muitos justos sofrem e maus prosperam nesta vida, começam a se desenvolver ideias a respeito da ressurreição dos mortos, i.e., a reunião da alma dos falecidos com corpo a ocorrer durante a concretização das profecias apocalípticas. Seria o tempo de as injustiças serem reparadas:

    Como mulher grávida, ao aproximar-se a hora do parto, se contorce e, nas suas dores, dá gritos, assim nos encontrávamos nós na tua presença, ó Iahweh: Concebemos e tivemos as dores do parto, mas quando demos à luz, eis que era vento: não asseguramos a salvação da terra; não nasceram novos habitantes para o mundo. Os teus mortos tornarão a viver, os teus cadáveres ressurgirão. Despertai e cantai, vós os que habitais o pó, porque o teu orvalho será um orvalho luminoso, e a terra dará à luz sombras.

    Isaías 26:17-19

    Nesse tempo levantar-se-á Miguel, o grande Príncipe, que se conserva junto aos filhos do teu povo. Será um tempo de tal angústia qual jamais terá havido até aquele tempo, desde que as nações existem. Mas nesse tempo o teu povo escapará, isto é, todos os que se encontrarem inscritos no Livro. E muitos dos que dormem no solo poeirento acordarão, uns para a vida eterna e outros para o opróbrio, para o horror eterno. Os que são esclarecidos resplandecerão como o resplendor do firmamento; e os que ensinam a muitos a justificar hão de ser como as estrelas, por toda a eternidade. Quanto a ti, Daniel, guarda em segredo estas palavras e mantém lacrado o livro até o tempo do Fim. Muitos andarão errantes, e a iniquidade aumentará.

    Daniel 12:1-4

    Neste caso, o Xeol passaria a ser um estágio intermediário enquanto os mortos esperam o fim da realidade tal como conhecemos, que cederá lugar ao “Mundo Vindouro”, quando a opressão sobre os judeus terminará, o Mal será punido e os justos recompensados.

    No deuterocanônico II Macabeus, torna-se mais explícita a crença em uma restauração corporal. Era uma forma de honrar aqueles que morreram por sua fé na luta contra o domínio da dinastia helênica dos Selêucidas na Palestina.

    Passado também este à outra vida, passaram a torturar da mesma forma ao quarto, desfigurando-o. Estando ele próximo a morrer, assim falou: “É desejável passar à outra vida às mãos dos homens, tendo da parte de Deus as esperanças de ser ressuscitado por Ele. Mas para ti, ao contrário, não haverá ressurreição para a vida!”

    II Mc 7:13-4

    Depois, tendo organizado uma coleta individual, enviou a Jerusalém cerca de duas mil dracmas de prata, a fim de que se oferecesse o sacrifício pelo pecado: agiu absolutamente bem e nobremente, com o pensamento na ressurreição. De fato, se ele não esperasse que os que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos. Mas se considerava que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormecem na piedade, então era santo e piedoso seu modo de pensar (5).

    II Mc 12:43-5

    Repare a semelhança entre II Mc 7:14 e o registro feito por Flávio Josefo (6) sobre a crença da facção dos fariseus:

    Eles também acreditavam que as almas tinham uma força imortal dentro delas e que sob a terra elas serão premiadas ou punidas, segundo elas tivessem vivido virtuosamente ou em vício esta vida; e estas últimas são mantidas numa prisão eterna, ao passo que as primeiras terão o poder de revivificar-se e viver novamente (…)

    Antiguidades Judaicas, livro XVIII, cap. I

    Uma forma curiosa de ressurreição apenas para os bons. Contudo, a independência de Israel durou pouco e os romanos tomaram o lugar dos Selêucidas. Uma nova literatura apocalíptica floresceu em torno da imagem desse novo agressor.

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    2 – II Baruque: um Apocalipse Judaico por Excelência

    Quadro da destruição do Templo

    A Destruição do Templo em Jerusalém, por Francesco Hayez (1867).

    Apesar de todas as previsões da escatologia judaica quanto à vinda do Messias e advento do Reino de Deus, algo saiu errado. Em 70 d.C., uma revolta judaica foi esmagada pelas tropas do general Tito, a população de Jerusalém foi chacinada, a cidade reduzida a escombros e tesouro do Templo saqueado. Os “kittim” [grego-romanos] venceram e o processo de diáspora se acelerou. Com o mundo em que Jesus viveu se extinguindo e um judaísmo estupefato com a tragédia, os sobreviventes precisavam de uma explicação para o ocorrido.

    Uma das respostas veio em Apocalipse de Baruque (ou II Baruque), datada no final do século I e começo do II. Nele (2) são narrados diálogos de Baruque (ou Baruch, Baruc), contemporâneo da tomada de Jerusalém pelos babilônicos ocorrida em 587 a.C., a lamentar com o próprio Criador e vozes celestes a sorte de Sião, sua pátria, e indagar-lhes o porquê da calamidade. É nítida a intenção do desconhecido autor do livro de comparar destruição que presenciou com aquela ocorrida séculos antes, além de levantar o moral de seu povo ao afirmar que tudo isso já estava previsto e dias melhores viriam com a chegada do Messias (“Ungido”) aos que persistissem na Lei. Eis alguns trechos elucidativos:

    IV – Nova Jerusalém

    Falou-me então o Senhor: “Sim, esta cidade [Jerusalém] será abandonada por algum tempo, e temporariamente será castigado o seu povo; contudo, o mundo não terminará. Pensas tu por acaso que é esta a cidade da qual eu falei: ‘Trago-te inscrita nas minhas mãos’?, não, esta vossa cidade, com as suas edificações, não é a cidade futura que eu anunciei, já anteriormente preparada, desde o tempo em que decidi criar o Paraíso. Eu mostrei-a a Adão antes da queda em pecado; ela foi-lhe tirada juntamente com o Paraíso, depois que ele se rebelou contra a proibição.

    “Mostrei-a também ao meu servo Abraão, naquela noite, entre as oferendas partidas ao meio. Mostrei-a a Moisés sobre o monte Sinai, onde lhe expliquei a imagem do tabernáculo e todos os seus utensílios. Assim, ela continuará preparada na minha mente, juntamente com o Paraíso. Vai, pois, e faz o que eu te ordeno!”

    XXIX – O Messias

    Ele falou-me: “O que vai acontecer atingirá toda a terra; dessa forma, experimentá-lo-ão todos os que estiverem em vida. Mas naquele tempo eu protegerei apenas aqueles que nesses dias se encontrarem neste país [Sião]. Uma vez cumprido aquilo que deve acontecer nos períodos do tempo, o Messias começará a sua revelação. Também Behemoth virá dos seus domínios, e Leviatã se levantará do mar; os dois imensos monstros marinhos por mim criados no quinto dia da Criação, e que reservo para aqueles dias; eles servirão de alimento para todos os que sobreviverem.

    “Então a terra produzirá os seus frutos ao cêntuplo; numa cepa de videira haverá mil ramos, um ramo carregará mil racimos, e um racimo mil bagos, e um bago data até quarenta litros de vinho (3). Os que sofreram fome comerão regiamente, e a cada dia lhes estão reservadas novas maravilhas (4).

    “Pois de mim procederão ventos que trarão todas as manhãs o perfume de frutos saborosos, e farão gotejar ao final do dia o orvalho salvífico. Do alto cairá de novo grande quantidade de maná; dele comerão eles naqueles anos, por haverem participado do final dos tempos”.

    XXXII – Reconstrução de Sião

    “Mas preparai os vossos corações e semeai neles os frutos da Lei, para estardes protegidos no tempo em que o Todo-Poderoso haverá de abalar toda a Criação. Pois as edificações de Sião dentro de pouco tempo serão aniquiladas, mas logo em seguida reconstruídas.

    “Todavia, essa reconstrução não durará muito; após algum tempo, Sião será arrasada uma vez mais e permanecerá em destroços por um período. Depois será renovada em todo o esplendor, e, uma vez plenamente reconstruída, permanecerá para todo o sempre.

    “Não devemos perturbar-vos excessivamente com a desgraça que aconteceu, mas muito mais com aquilo que ainda há de vir. Pois, maior ainda do que ambas essas calamidades será o embate em que o Todo-Poderoso renovará a sua Criação. Agora, porém, não te preocupeis mais por alguns dias! Não vos preocupeis comigo, até que eu volte para junto de vós!”

    Após essas palavras, eu, Baruch, segui meu caminho. Mas quando o povo percebeu que eu desejava afastar-me, levantou a voz em lamentos, clamando: “Aonde vais tu? Por que, Baruch, nos abandona, como um pai que vai embora e deixa os filhos na orfandade? (…)”

    Fonte [Tricca, p. 304,316-8]

    A glória que viria após a vitória final do Bem não seria vivenciada apenas pelos que houvessem nascido um pouco antes, mas também pelos morto, que seriam restaurados. Uma inovação que II Baruque traz é que os maus também ressuscitariam para o castigo. Ele assim relata:

    “Terminado o tempo vigente do Messias, Ele voltará de novo à glória do céu. Então haverão de ressuscitar todos aqueles que outrora adormeceram na esperança. Naquele tempo acontecerá que se abrirão as câmaras onde se demoram as almas dos piedosos; elas sairão, e todas essas numerosas almas, como uma legião de um só coração, apareceram todas juntas, abertamente. As que foram as primeiras, alegrar-se-ão; as que foram as últimas, não estarão tristes.

    “Cada uma delas sabe que foi chegado o tempo, previsto como o fim de todos os tempos. As almas dos pecadores perder-se-ão em angústia, ao presenciarem tudo isso. Pois elas já sabem que o tormento as atingirá, e que a hora da sua condenação é chegada.”

    Cap. XXX. Fonte: [Tricca, p. 317]

    O mesmo livro vai além e descreve o próprio processo de ressurreição:

    Mas além disso, eu te pergunto, ó Poderoso; e pedirei graça dele que criou todas as coisas. Em qual forma irão os viventes viver em seu dia? Ou como permanecerá o esplendor que haverá depois dele? Irão eles, talvez, retomar esta presente forma e adquirirão membros acorrentados que são malignos e pelos quais males são feitos? Ou irás mudar essas coisas que têm estado no mundo, bem como o próprio mundo?

    E ele respondeu e me disse: “Ouça, Baruch, estas palavra e registre na memória de seu coração tudo o que aprenderá. Pois a terra seguramente devolverá os mortos naquele tempo; ela os recebe agora a fim de preservá-los, sem mudar nada em sua forma. Mas assim como ela os tem recebido, então ela os devolverá. E como eu os tenho enviado para ela, então ela os erguerá. Pois aí será necessário mostrar aos que vivem que os mortos estão vivendo novamente e que voltaram os que partiram. E será então quando tiverem reconhecido uns aos outros aqueles que se conhecem neste momento, então meu julgamento será forte e aquelas coisas que foram ditas antes serão cumpridas.“

    E será então após esse dia que ele indicou ter acabado é que tanto a forma daqueles que se descobriram culpados quanto a glória dos que se demonstraram justos serão mudadas. “Pois a forma dos que agora agem iniquamente será feita mais maligna que é (agora) de modo que sofram tormento. Também, como a glória dos que demonstraram serem justos em nome de minha lei, os que possuíram inteligência em sua vida e os que plantaram a raiz da sabedoria em seu coração – seu esplendor será então glorificado por transformações e a forma de sua face será convertida na luz de sua beleza de modo que possam adquirir e receber um mundo imperecível que está prometido a eles. Portanto, especialmente eles que então virão a ficar tristes, porque desprezaram minha Lei e taparam seus ouvidos a fim de que não ouvissem sabedoria e recebessem inteligência. Quando, portanto, virem que os que estão acima deles, que são agora exaltados, serão então ainda mais exaltados e glorificados que eles, então tanto estes e aqueles serão mudados, estes no esplendor dos anjos e aqueles em aspectos chocantes e formas horríveis; e arrasar-se-ão ainda mais. Pois primeiro verão e, então, partirão para o tormento. (…)” (7)

    Cap 49-51. Fonte: [Charlesworth, p. 637-8] (8)

    Desse apocalipse judaico, fica claro um paralelo com a defesa de Paulo da ressurreição mortos através de transformação de um corpo material em espiritual (I Cor 15), que será vista a seguir.
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    3 – Paulo: um Apocalipsista Cristão

    Ícone de Paulo de Tarso

    Em sua primeira carta aos coríntios, Paulo trata de diversos problemas enfrentados por uma das assembleias que fundou. No capítulo XV, ele trata particularmente de uma questão doutrinária que surgira entre eles:

    Ora, se prega que Cristo ressuscitou dos mortos como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé. Acontece mesmo que somos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, quando de fato não ressuscitou, se é que mortos ressuscitam. Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo estão perdidos. Se temos esperança em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens.
    (1 Co 15.14-20).

    Ao que aparenta, alguns membros daquela igreja estavam descrentes da ressurreição dos mortos. Paulo, então, não tenta convencê-los disso, mas lembrá-los de algo que eles já aceitam: a ressurreição do próprio Jesus como exemplo dessa possibilidade.

    Mas, dirá alguém, como ressuscitam os mortos? Com que corpo voltam? Insensato! O que semeias não readquire vida a não ser que morra. E se o que semeias não é o corpo da futura planta que deve nascer, mais um simples grão de trigo ou de qualquer outra espécie. A seguir, Deus lhe dá corpo como quer; a cada uma das sementes ele dá o corpo que lhe é próprio.

    Nenhuma carne é igual às outras, mas uma é a carne dos homens, outra a carne dos quadrúpedes, outra a dos pássaros, outra a dos peixes. Há corpos celestes e corpos terrestres. São, porém, diversos o brilhos dos celestes e o brilho dos terrestres. Um é o brilho do Sol, outro o brilho da Lua,e outro o brilho das estrelas. E até de estrela para estrela há diferenças de brilho. O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos; semeado corruptível, ressuscita incorruptível; semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual.

    Se há um corpo psíquico, há também um corpo espiritual. Assim está escrito: o primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o último Adão tornou-se espírito que dá a vida. Primeiro foi feito não o que é espiritual, mas o que é psíquico; o que é espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terrestre. O segundo homem vem do céu. Qual foi o homem terrestre, tais são os homens celestes. E assim como trouxemos a imagem do homem terrestre, assim traremos a imagem do homem celeste.

    (I Co.15:35-49)

    Tomando Jesus como modelo (o “segundo homem”), a ressurreição para Paulo não consiste numa existência etérea, quase desencorpada, mas na transformação do corpo carnal em outro melhor, celestial. A afirmação mais contundente de Paulo, porém, foi deixada bem para o fim:

    Digo-vos, irmãos: a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorruptibilidade. Eis que vos dou a conhecer um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num instante, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final; sim a trombeta tocará, e os mortos ressurgirão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Com efeito, é necessário que este ser corruptível revista a incorruptibilidade e que este ser mortal revista a imortalidade.

    I Cor 15:50-5

    Portanto, o apóstolo dos gentios cria que essa ressurreição seria um evento iminente, que se daria até mesmo para alguns de seus conhecidos que ainda estivessem vivos e consistiria, tal como em II Baruque ou I Enoque, não no descarte do corpo físico, mas em sua modificação. Ela seria não um evento rotineiro como a reencarnação espírita (ressurreição material, segundo eles) ou o desencarne (ressurreição espiritual), mas um episódio ímpar destinado a se concretizar apenas no fim dos tempos, do mundo tal como o conhecemos (cf. I Cor 15:20-28).

    Ou seja, a ressurreição é ponto fundamental do cristianismo e se dará num corpo análogo ao de Cristo ressuscitado. Em A Gênese, cap XV, 65, Kardec dá a ideia de que Jesus teria dois corpos: o carnal e o fluídico. O primeiro foi sepultado e o segundo foi o que teria aparecido para os apóstolos. Não era essa a crença contida contida em I Coríntios ou II Baruque. A ressurreição, segundo esses autores antigos, não deixaria restos. Em vez disso, esses restos seriam matéria-prima para algo novo
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    4 – Outras Visões da Ressurreição

    Fênix renascida.

    Vale lembrar que opiniões sobre a ressurreição expostas acima são de judeus que criam nela, como Paulo e o anônimo autor de II Baruque. A seita judaica dos saduceus (9) não acreditava nela e os essênios, aparentemente, criam numa imortalidade meramente espiritual. A literatura patrística registrou variantes da opinião paulina:

    – Clemente I (30 -100): bispo de Roma (na época não existia a denominação Papa) e possivelmente companheiro de Paulo em Filipos, comparou a ressurreição à lenda da Fênix, em sua carta aos coríntios, cap XXV – A Fênix, um emblema de nossa ressurreição:

    Vamos considerar este maravilhoso sinal [de ressurreição] que acontece nas terras orientais, isto é, na Arábia e países adjacentes. Há certo pássaro que é chamado Fênix. Este é o único de sua espécie e vive quinhentos anos. E quando o tempo de sua dissolução mostra que sua morte está próxima, constrói por si só um ninho de olíbano, mirra e outras especiarias, no qual, quando é chegada a hora, entra e morre. Mas a medida que a carne se decompõe, um certo tipo de verme é produzido, que sendo alimentado pelos fluidos do pássaros morto, produz penas. Então, quando adquire força, ergue o ninho em que estão os ossos de seu pai e, carregando-os, vai da Arábia para o Egito, para a cidade chamada Heliópolis. E, num dia de céu limpo, voando à vista de todos os homens, deposita-os sobre o altar do sol, e feito isto, apressa-se em voltar à antiga residência. Os sacerdotes, então, inspecionam o registro das datas e descobrem que ele retornou exatamente ao quingentésimo ano ser completado.

    – Justino Mártir (100-165): acreditava na ressurreição da carne, pois tinha uma visão tríplice do ser humano: corpo, alma e espírito. Em seu tratado sobre a ressurreição (*), cap. X:

    A ressurreição é uma ressurreição da carne que morreu. Visto que o espírito não morre, a alma está no corpo, e sem uma alma ele não pode viver. O corpo, quando a alma o abandona, perece. Visto que o corpo é a casa da alma e a alma é a casa do espírito. Estes três, em todos aqueles que nutrem uma fé sincera e inquestionável em Deus, serão salvos. Considerando, portanto, mesmo tais argumentos como são adequados a este mundo e descobrindo que, mesmo com tais argumentos, não é impossível que a carne seja regenerada; e vendo que, além de todas estas provas, o Salvador em todo o Evangelho mostra que há salvação para a carne, por que não deixamos de aturar esses céticos e perigosos argumentos e falhamos em ver que retrocedemos quando escutamos tais argumentos como se fossem: a alma é imortal, mas o corpo é mortal e incapaz de ser redivivo?

    (*) Só restam fragmentos deste tratado. Não há certeza absoluta que são de sua autoria, mas há forte possibilidade de que sejam.

    – Irineu de Lião (120? – 200?): segue a interpretação paulina de um corpo carnal incorrupto em seu “Contra as heresias”, livro V, cap VII:

    Da mesma maneira que Cristo se ergue na substância da carne e assinalou para Seus discípulos a marcas dos cravos a abertura em seu lado [Jo 20:20,25] (agora estes são símbolos da carne que ascendeu dos mortos), então “Ele também irá”, diz [I Co 6:14], “nos ressuscitar pelo seu próprio poder”. E mais uma vez diz aos romanos [Rom 8:11], “e se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos dará vida também aos vossos corpos mortais”. Então o que são corpos mortais? Seriam eles almas? Não, visto que almas são incorpóreas quando postas em “comparação com corpos mortais; pois Deus soprou na face do homem o sopro da vida e o homem se tornou alma vivente”. Agora o sopro da vida é algo incorpóreo. E certamente eles não podem manter aquele mesmo sopro da vida que é mortal. (… ) Nos devemos assim concluir que isto é em referência a carne cuja morte é mencionada; que, depois da partida da alma, torna-se parada e inanimada e se decompõe gradualmente na terra de onde foi tirada. Isto, então, é o que é mortal. E é disto que ele também fala, “Ele dará vida a seus corpos mortais”. E assim em referência a isto ele diz na primeira [epístola] aos coríntios: “O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos; semeado corruptível, ressuscita incorruptível.” Visto que declara,”O que semeias não readquire vida até que morra.”

    – Orígenes ( 182? – 254?): É um dos mais controversos teólogos pré-nicenos, utilizado, equivocadamente, por grupos esotéricos e espiritualistas para reforçar suas teses. No “Analisando as Traduções Bíblicas”, cap. XVI, de Severino C. da Silva, 4ª ed., Idéia; aparece a seguinte alusão a Orígenes:

    O teólogo cristão primitivo, Orígenes de Alexandria, sugere uma versão diferente. Ele defendia que haveria duas ressurreições, uma no final dos tempos e outra “do espírito, da vontade e da fé”, que poderia ocorrer durante a vida. Este conceito apresenta a ressurreição como sinônimo de Reencarnação. Orígenes também achava que o corpo da ressurreição era um corpo espiritual que não tinha nenhuma relação com o corpo mortal.

    Severino C. da Silva dá como embasamento desta opinião a obra “Reencarnação: O Elo perdido do Cristianismo“, de Elizabeth Clare Prophet; portanto não se baseou no original de Orígenes. Sugiro uma leitura na categoria Patrística para saber a verdadeira opinião de Orígenes quanto a “transmigração de almas”. Por hora, deixemos o próprio Orígenes contar suas ideias quanto à ressurreição: na obra De Principiis, livro II, cap X; ele também disserta sobre o enfoque de Paulo:

    O que então? Se é certo que devemos fazer uso de corpos, e se os corpos caídos são declarados ter de erguer-se novamente (pois apenas o que caiu antes pode ter a adequada capacidade de se reerguer), não pode ser matéria de dúvida a ninguém que eles se erguem de novo para que sejamos revestidos com eles uma segunda vez na ressurreição. Uma coisa está estreitamente relacionada com a outra. Pois se corpos são erguido outra vez, sem dúvida eles se erguem para nos revestir; e se nos é necessários ser investidos de corpos, como é certamente necessário, não devemos ser investidos com nenhum outro senão o nosso próprio.

    Mas se é verdade que eles se reerguem e que ressuscitam como corpos “espirituais”, não pode haver dúvida que eles vêm do morto, após se livrarem da corrupção e posto de lado a mortalidade; de outra forma pareceria vão e inútil a qualquer um ressuscitar dos mortos para morrer uma segunda vez. E finalmente isto deve ser mais distintamente compreendido desta forma, se cuidadosamente se considerar quais são as qualidades de um corpo animal, que, quando semeado na terra, recupera as de um corpo espiritual. Pois é de um corpo animal que o próprio poder e graça da ressurreição extraem o corpo espiritual, quando ele transmuta de uma condição indigna para uma de glória.

    Pois é… não seria um novo corpo ou apenas o perispírito, mas o mesmo corpo modificado. A questão é, como Orígenes imaginou essa transformação:

    Nós, porém, estamos convencidos de que aquilo que semeamos “não adquire vida a não ser que morra” e “não é o corpo da futura planta” que é semeado. Pois “Deus dá o corpo que quer”: semeado “corruptível, o corpo ressuscita incorruptível, semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado desprezível, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual” (I Cor 15:36-44). Conservamos tanto a doutrina da igreja de Cristo quanto a grandeza da promessa de Deus. Podemos provar que é uma coisa possível não por uma afirmação mas por meio do argumento. (…) Portanto, não afirmamos que o corpo putrefato voltará à sua verdadeira natureza original, assim como o grão de trigo, uma vez corrompido, não retorna ao seu estado de grão de trigo. Afirmamos que, assim como do grão de trigo surge uma espiga, há também no corpo um princípio que não está sujeito à corrupção, a partir do qual o corpo surge “incorruptível”. (…) Não recorremos à mais absurda evasiva: tudo é possível para Deus; pois sabemos entender a palavra “tudo” sem incluir nela o que não tem existência ou não é concebível. Concordamos assim que Deus nada pode fazer de vergonhoso, pois então Deus não poderia ser Deus: pois se Deus fizesse algo de vergonhoso, não seria Deus.

    Contra Celso, V.22-3

    Qual era esse “princípio não sujeito à corrupção” só é explicado bem mais adiante:

    Celso não compreendeu nossa doutrina da ressurreição, doutrina rica, difícil de expor, por exigir mais do que qualquer outra intérprete bem preparado para mostrar o quanto esta doutrina é digna de Deus e sublime: de acordo com ela, existe uma relação seminal no que a Escritura chama de tenda da alma (II Cor 5:4), na qual os justos gemem acabrunhados; e gostariam de não ser “despojados de sua veste, mas revestir a outra por cima desta” (idem). Por ter ouvido falar da ressurreição da boca de pessoas simples, incapazes de apoiá-la com qualquer razão, ridiculariza o que se afirma. Será útil acrescentar ao que ficou dito acima esta simples observação sobre a doutrina: não é, como acredita Celso, por ter compreendido mal a doutrina da metensomatose que nós falamos de ressurreição; mas é porque sabemos que a alma, que por sua própria natureza é incorpórea e invisível, precisa, quando se encontra num lugar corporal qualquer, de um corpo apropriado por sua natureza neste lugar. Ela carrega este corpo depois de ter abandonado a veste, necessária antes, mas supérflua para um segundo estado, e a seguir, após tê-lo revestido por cima com aquela veste que tinha inicialmente, porque precisa de uma veste melhor para chegar às regiões mais puras, etéreas e celestes. Ao nascer para o mundo, ela abandonou a placenta que era útil à sua formação no seio de sua mãe enquanto nela se encontrava; revestiu por baixo o que era necessário a um ser que viveria na terra.

    Contra Celso, VII.32

    Essa “relação/princípio seminal” (logos spermatikos) seria uma espécie de lei ou força que, por sua própria natureza, sobreviveria à morte e, nutrindo-se com os elementos adequados, conforme a situação em que se encontrasse, construiria um novo invólucro. O corpo atual e o futuro seriam contínuos por esse princípio, mas não em substância. Vale atentar que Orígenes usou aqui a mesma expressão de filósofos estoicos para se referir ao “princípio gerativo” responsável pela renovação do universo. Com isso, novos adversários pagãos teriam a dificuldade extra de rejeitar suas próprias ideias.

    [topo]

    5 – A Questão da Gilgul

    Escultura de uma roda de carruagem

    A crença na transmigração de almas (gilgul neshamot – “roda de almas”) é mais tardia, tendo sido assimilada por certas correntes judaicas ao longo da Idade Média e posteriormente. Ainda é matéria de discussão entre os historiadores de como isso ocorreu exatamente (10).

    Assim relata a Jewish Enclyclopedia

    Transmigração das almas: A passagem de alma em sucessivos formas corpóreas, sejam humanas ou animais. De acordo com Pitágoras, que provavelmente aprendeu a doutrina no Egito, a mente racional, após ter se libertado dos grilhões do corpo, assume uma veículo etéreo e passa para a região dos mortos, onde permanece até ser enviada de volta a este mundo para habitar algum outro corpo, humano ou animal. Depois de passar por sucessivas purgações e quando estiver suficientemente purificada, ela é recebida entre os deuses e retorna para a fonte eterna de onde originalmente procedeu. Esta doutrina era estranha ao judaísmo até cerca do século oitavo, quando, sob influência de místicos maometanos, foi adota pelos caraítas e outras dissidências judaicas. Ela é mencionada pela primeira vez na literatura judaica por Saadia [Gaon], que protestou contra esta crença, que em seu tempo era compartilhada pelos yudghanitas(…)”

    Assim relatou Saadia Gaon:

    Embora eu deva dizer que tenho encontrado certas pessoas, que chamam a si mesmas de judias, professando a doutrina da metempsicose, que é designada por eles com a teoria da “transmigração” das almas. O que ele querem dizer com isso é que o espírito de Rúben transferiu-se a Simão e depois a Levi e, em seguida a isto, a Judá. Muitos deles iriam tão longe como ao ponto de afirmar que o espírito de um ser humano pode entrar no corpo de uma fera ou que o de uma fera no de uma ser humano e outros tipos de absurdo e estupidez”

    Saadia Gaon, Livro das crenças e opiniões, tratado VI, cap. VIII, “A alma”. Acesse aqui para uma versão completa do texto.

    A primeira aparição da doutrina da gilgul em um tratado esotérico escrito vem a ocorrer só no século XII, num trabalho intitulado Bahir. A partir daí, a reencarnação se torna popular entre a vertente mística do judaísmo, a Cabala.

    De 1.200 d.C. A 1.500, ocorreram trabalhos cabalísticos afirmando a possibilidade em alguns casos de transmigração para corpos de animais. Esta ideia entrou em declínio depois, apesar de nunca ter desaparecido totalmente (11).

    Atualmente, a reencarnação não é professada por boa parte dos judeus, e muitos desses alegam que judeus não devem adotá-la. Ela ainda permanece vigente entre cabalistas, muitos grupo judaicos hassídicos (seita fundada no século XVIII) e até mesmo entre alguns ultraortodoxos.

    Para outros, como o professor e rabino Yehuda Ribco é lícito um judeu crer em reencarnação, mas não uma questão central do judaísmo, e nem mesmo ele a defende:

    Logo, e já passando a responder: graças a Deus não sou o único que não compartilha da ideia da reencarnação (gilgul haneshamot), pois houve outros, anteriores e imensamente maiores que este humilde mestre, que se opuseram, tal qual Saadia Gaon, Bajia ibn Pakuda, Iosef ibn Tzadik, e até (segundo alguns entendidos) o príncipe dos pensadores judaicos: Rambam [Maimônides], entre outros.

    Se bem é certo, outros insignes mestres e filósofos a sustentaram (Ramban [Nachmânides] e Baal Shem Tov, por exemplo, ambos posteriores a aparição pública do Zohar), não é por isso que a ideia da reencarnação é parte das crenças judaicas centrais, nem é obrigação que se compartilhe dela.

    (…)

    Em resumo: a reencarnação é uma crença individual (ou de certos grupos), tal como a descrença na mesma o é. É uma crença de natureza restrita e que não atenta contra os princípios gerais e superiores (Torá e halacá); nem tão pouco é obrigatório compartilhá-la. Portanto, não há razão de identificá-la ao judeu e ao judaísmo, tal como, por exemplo, a crença em alienígenas.

    De fato, a conversão do escritor judeu americano Norman Mailer à crença na reencarnação chamou atenção até da imprensa:

    Como todo construtor de crenças de ocasião, Mailer não quer perder o vínculo com a religião original. Embora os cabalistas acreditem na transmigração de almas, a reencarnação não faz parte da essência da fé judaica. Não é mencionada na Bíblia, nem na literatura rabínica”

    Revista Veja, edição 1834, ano de 2003, pág. 125.

    Já a ressurreição é dogma (ou lei como preferem) a todas as correntes do judaísmo:

    A crença na ressurreição dos mortos é declarada nas orações, na teologia e na lei: no fim dos dias, a morte morrerá. A certeza da ressurreição origina-se de um fato simples da teologia restauracionista: Deus já mostrou que pode fazê-la.

    Você observa que tudo o que o Sagrado, abençoado o seja, destina-se a fazer nos dia vindouros ele já se adiantou e fez por meio dos justos nesse mundo. O Sagrado, abençoado seja, levantará os mortos, e Elias levantou os mortos.

    O fato de Deus erguer os mortos leva à última pergunta: quem ele erguerá dos mortos? E a resposta é: “Todo Israel, com poucas exceções”. Por Israel entendem-se aqueles que serão erguidos dentre os mortos; praticar o judaísmo e guardar a Torá e escolher a vida eterna, de acordo com a admoestação de Moisés em Deuteronômio 30:19: “Portanto, escolhe a vida”. Aquela definição de quem é israelita e o que é Israel – aqueles que se levantarão do túmulo, o povo destinado à vida eterna nos céus – retira o modo de vida judaico do domínio meramente étnico ou terreno.

    [Neusner, cap VII]

    A morte, todavia, não assinala o fim da vida. Nos tempos de Deus, os mortos viverão novamente. A ressurreição representa a mais completa metamorfose de uma experiência desse mundo: a morte simboliza o seu oposto, a vida eterna. Na lei judaica, a reação à antecipada transformação traduz-se numa regra especial e estrita contra a autópsia ou a desfiguração do corpo. Os mortos viverão, portanto, o corpo deve ser preservado como foi em vida, tanto quanto possível, para a ressurreição vindoura.

    Idem, cap IV

    Portanto, é errôneo afirmar que a “ressurreição era a reencarnação entendida pelo judeus da época de Cristo”, pois mesmo os grupos que professam a gilgul modernamente, lhe dão tratamento diferente da ressurreição (12). Há até questões de ordem teológica própria, como “qual corpo será o ressuscitado?” Alguns grupos alegam que apenas última encarnação será ressuscitada; outras, a primeira, e até há quem creia em uma ressurreição que englobe todo o conjunto de vidas (13).

    Do exposto acima, conclui-se que a doutrina da reencarnação entrou tardiamente no judaísmo, só sendo posta por escrito na Idade Média e ainda hoje não é consenso.
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    6 – Distorções Espíritas

    Ciclo da reencarnação

    Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.

    Todas as versões acima quanto ao processo de ressurreição possuem um traço comum: de algum modo, o novo corpo espiritual é produzido a partir do antigo corpo material. Para os proto-ortodoxos, o mundo material era inerentemente bom como seu Criador, embora corrompido pelas forças do Mal. Mas no fim dos tempos, ele também seria redimido. Para os gnóstico, a situação era bem distinta: o mundo material fora criado por uma divindade inferior e maligna, escapar dele seria a atitude correta. O espiritismo, por sua vez, não julga o mundo material como algo ruim, embora ele tenha limites de melhoria (as leis naturais) e seja apenas um estágio transitório na jornada evolutiva de um espírito. Assim, não é incomum encontrar autores espíritas que tentam expor a ressurreição antiga como uma espécie de desencarne: o simples descarte do corpo físico e permanência do corpo perispiritual subjacente.
    Para obter esses efeito, lança-se mão dos seguintes artifícios:

    • A boa e velha misquotation: Escolher um pequeno fragmento a dedo para que ele, destacado do conjunto, aparente corroborar essa tese. Por exemplo, pegue I Coríntios 15:50: “Digo-vos, irmãos: a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorruptibilidade“. Agora, prolongue a citação até o versículo 55 e veja as implicações;

    • Desconsiderar a escatologia: A ressurreição em corpo espiritual ocorreria apenas no fim dos tempos, com a vinda do Messias (II Baruque) ou, para os cristãos, sua segunda vinda (cf. I Cor 15:20-28), ao contrários dos exemplos relatados evangelhos, cujos ressuscitados certamente morreriam outra vez, nem que fosse de velhice. O que aconteceria entre a morte nesta era e a consumação final é ambíguo nas escrituras, podendo-se buscar ao bel-prazer passagens sobre aniquilação, um Xeol de simples espera ou castigos e recompensas logo após a morte. De qualquer forma, a ressurreição não é um simples retorno ao mundo espiritual após o “desencarne”, mas o estágio final da existência humana (ao menos para os “salvos”) com data para ocorrer e de forma coletiva;

    • Fazer jogo com os evangelhos: O modelo de ressurreição apresentado acima é, entre os cristãos, essencialmente sinóptico e paulino. O cristianismo joanino, por sua vez, quase nada possui de escatologia. Para os primeiros, o Reino de Deus é uma mudança temporal e cataclísmica, ao passo a comunidade joanina o via como uma mudança espacial (ou dimensional, se preferir): “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18:36). Evangelho de João dá tanto valor ao espiritual, que até mesmo uma parte da comunidade em que ele surgiu (cf. Segunda Epístola de João) passou a negar que Jesus tivesse um corpo físico real, apenas aparentando um (i.e., inventaram o docetismo (14). Já no século II, o Evangelho de João seria, inclusive, admirado por gnósticos, que viram nele similaridades com sua doutrina (15). Óbvio que a proto-ortodoxia, ao adotar João como canônico, não o interpretava assim, procurando harmonizá-lo com os sinópticos. O discurso espírita, então, consiste em desfazer essa harmonização, ao enfatizar os itens convenientes da mensagem de João (16);

    • Usar a consultoria de judeus ortodoxos: Que, por coincidência, também creiam na gilgul neshamot. Nada contra um filho de Abraão expressar seu entendimento sobre o pós-morte. A questão é saber o quanto a opinião de um judeu moderno seria representativa no judaísmo do primeiro século. Mal comparando, seria como se fiar num católico para afirmar que o culto aos santos era corrente entre os primeiros cristãos. Note que não estou afirmando que seja errado cultuar santos ou acreditar na gilgul, a questão é que tais crenças são inovações que surgiram, em suas respectivas religiões, bem depois dos tempos de Jesus. Há muitas coisas, sem dúvida, em que os judeus ortodoxos foram conservadores, mas é irrealista supor que tenham permanecido estáticos por 2.000 anos e possam ser usados como “pedra de toque”, sem nenhuma ressalva, para estudar o judaísmo intertestamentário.

    ***

    Caso se queira realmente validar a crença da reencarnação na Bíblia, é necessário comprovar que o contexto em que ela foi produzido era reencarnacionista. As seguintes abordagens podem ser feitas:

    1. Obras que relatem certo ensino explicitamente: Foi, por exemplo, o caso da ressurreição em “II Baruque” ou nas cartas paulinas. Por outro, não seria viável considerar a reencarnação como presente no “nascer de novo” do diálogo entre Jesus e Nicodemos (Jo 3), pois o discurso é tão alegórico, que dá margem a múltiplas interpretações;

    2. Comentários religiosos: Os comentários rabínicos do midrash e as obras da patrística são silentes quanto ao assunto. Mesmo o sistema concebido por Orígenes, no século III, não era compatível com a proposta espírita para reencarnação. Gnósticos, sim, criam na reencarnação, só que, outra vez, “à moda deles”;

    3. Relatos de não religiosos: Flávio Josefo, pelo visto, revelou-se um tiro n’água.

    Assim, ao escolher frases a dedo, desconsiderar a evolução histórica do pós-morte judaica e tratar o cânon bíblico como monolítico, você pode até se dar bem contra religiosos presos à inerrância e autossuficiência bíblica, mas dificilmente poderá ser considerado um pesquisador.
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    Notas:

    (1) Cf. Gn 9:24-25, Dt 23:2, Dt 28:18, 2 Sm 12:13-14, 2 Sm 21:6, 1 Rs 2:33, 1 Rs 11:11-12, 1 Rs 21:29, 2 Rs 5:27, Is 14:21, Jr 16:10-11, Jr 29:21, Jr 32:18, Sl 109:14. Algumas passagens preveem o fim das punições hereditárias em um tempo futuro, como Jr 31:29-30, e algumas a negam desde já: Dt 24:16 e Ez 18:20.

    (2) Informo que II Baruque NÃO é continuação do deuterocanônico de mesmo nome, constante nas Bíblias católicas.

    (3) Obviamente, a unidade de medida “litro” não existia na época. Em versões inglesas do livro, encontra-se “a cor of wine”. Essa unidade de capacidade (cor) corresponderia a aproximadamente 400 litros (391 mais precisamente). Talvez um erro de digitação tenha transformado 400 em 40 e tradutor assim transcrito por extenso.

    (4) Compare essa fartura dos tempos pós-apocalípticos com aquela descrita mais acima no Livro de I Enoque, 10:9 -11:2. Um traço comum à literatura apocalíptica é a superabundância do Mundo Vindouro”.

    (5) Repare que os livros de Macabeus fazem menção explícita a orações pelos mortos. Isto pode ser um dos motivos que levaram os líderes da Reforma protestante a adotar a Bíblia hebraica como Antigo Testamento e assim eliminar de seu cânon um livro que iria contra a sua teologia, embora ele tivesse grande valor como documento histórico por narrar um genuíno episódio.

    (6) Se Flávio Josefo aponta os fariseus como defensores da reencarnação, como defendem alguns, favor explicar porque os maus, que mais precisariam de uma nova chance, não a teriam. Também explicar porque reencarnar num mundo de sofrimento seria alguma espécie de “recompensa”, se havia opções melhores…

    (7) No Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IV

    A reencarnação fazia parte dos dogmas judaicos sob o nome de ressurreição. Somente os saduceus, que pensavam que tudo acabava com a morte, não acreditavam nela. As ideias dos judeus sobre esse assunto, e sobre muitos outros, não estavam claramente definidas, pois apenas tinham noções vagas e incompletas sobre a alma e sua ligação com o corpo. Acreditavam que um homem que viveu podia reviver, sem entender entretanto de que modo isso podia acontecer. Designavam pela palavra ressurreição o que o Espiritismo chama mais apropriadamente de reencarnação. De fato, a ressurreição supõe o retorno à vida do corpo que está morto, o que a Ciência demonstra ser materialmente impossível, porque os elementos desse corpo estão, desde há muito tempo, desintegrados na Natureza. A reencarnação é o retorno da alma ou Espírito à vida corporal, mas em um outro corpo, formado novamente para ele, e que não tem nada em comum com o que se desintegrou. A palavra ressurreição podia assim se aplicar a Lázaro, mas não a Elias, nem aos outros profetas. Se, portanto, conforme se acreditava, João Batista era Elias, o corpo de João não podia ser o de Elias, porque João tinha sido visto desde criança e sabia-se quem eram seu pai e sua mãe. João, portanto, podia ser Elias reencarnado, mas não ressuscitado.

    Tal argumento de Kardec é muito questionável. Mesmo os grupos judaicos que desenvolveram em tempos medievais o conceito reencarnacionista gilgul ainda creem em ressurreição no fim dos tempos. Algumas facções alegam que apenas última encarnação será ressuscitada; outras, a primeira, e até há quem creia em uma ressurreição que englobe todo o conjunto de vidas [cf. Blau]. O fato de a ressurreição ser inviável do ponto de vista científico é irrelevante do ponto de vista de um historiador. Se os judeus do período intertestamentário advogavam uma ressurreição física, então qualquer estudo que se faça sobre eles deve respeitar isso, do contrário correrá o risco de distorcer o passado para que se adeque a ideias e vieses do presente. Por último, havia relatos que deixavam bem claro que tal ressurreição estava longe de ser reencarnação nos moldes espíritas ou um processo exclusivamente espiritual. O livro de II Baruque dá um exemplo disso, apresentando uma ressurreição física seguida por uma espécie de transfiguração.

    (8) O livro Apócrifos – Os Proscritos da Bíblia, vol. III, de Maria H. O. Tricca possui uma gigantesca lacuna em II Baruque, que vai do capítulo XL ao LXXXIX. Não creio que tenha sido só o meu exemplar, pois a numeração das páginas não dá saltos. Ao que me parece, não há ruptura no texto, apenas na numeração dos capítulos. Os capítulos XLIX – LI corresponderiam aos XCIX – CI dessa edição. Como consequência, o livro está incompleto. Ignoro se isso foi corrigido em edições posteriores e, por via das dúvidas, traduzi a referida passagem do texto inglês de Charlesworth.

    (9) Os saduceus, de acordo com o Evangelho segundo o Espiritismo, Introdução, item 3

    Seita judia que se formou por volta de 248 a.C.; assim nomeada devido a Sadoc, seu fundador. Os saduceus não acreditavam nem na imortalidade da alma, nem na ressurreição, nem nos bons e maus anjos. Entretanto, acreditavam em Deus, mas não esperavam nada após a morte, somente o serviam em vista de recompensas temporais que, segundo a crença que tinham, era ao que se limitava sua Providência. A satisfação dos sentidos era para eles o objetivo essencial da vida. Quanto às Escrituras, os saduceus se prendiam ao texto da antiga lei, não admitindo nem a tradição, nem nenhuma interpretação; colocavam as boas obras e a execução pura e simples da lei acima das práticas exteriores do culto. Eram, como podemos ver, os materialistas, os deístas e os sensualistas daquela época. Essa seita era pouco numerosa, mas contava com personagens importantes, e se tornou um partido político constantemente oposto aos fariseus.

    Não deixa de ser um tanto ilógico associar uma seita que cria em Deus e o temia com materialistas. O fato de crerem que esta vida era a única que poderiam almejar não os torna automaticamente sensualistas. Se as punições também eram deste mundo, era preciso seguir condutas éticas para evitá-las, e isso também pode ser encontrado na Antiga Lei. Seria um pouco de preconceito por não crerem em vida após a morte?

    (10) Vide [Raphael, cap. VIII, pp. 314-20] para uma análise histórica mais aprofundada.

    (11) De [Asheri, cap. XLI, pp. 251-2]:

    REENCARNAÇÃO: Em hebraico, a reencarnação é chamada de gilgul neshamot, e um grande número de judeus ortodoxos sustenta que em certas circunstâncias, nunca definidas de maneira muito clara, a alma de um judeu pode retornar à vida no corpo de outra pessoa ou até no de um animal ou de um planta. Não é necessariamente como castigo que o gilgul ocorre, mas com frequência alguma boa ação que a alma foi incapaz de realizar enquanto estava na Terra é completada na reencarnação dessa alma em outro corpo.

    Ver também [Raphael, cap. VIII, pp. 318-9].

    (12) Fazendo coro com Neusner:

    O MESSIAS E A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS. De todas as crenças, esta é a mais amplamente aceita, sendo considerada por muitos ortodoxos como absoluto artigo de fé. Em resumo, diz-se que algum dia aparecerá um judeu que anunciará o fim do mundo, tal como o conhecemos, e a criação do Reino de Deus, no qual, finalmente, o leão se deitará ao lado do cordeiro. Esse judeu, e ele será uma pessoa, não uma encarnação de Deus (como se tal coisa fosse possível), é chamado de Mashiach, ou Messias. Quando ele chegar, haverá uma ressurreição dos mortos, chamada em hebraico de T’chiat Ha-metim, e todos os judeus ressurrectos reunir-se-ão em Israel, para lá viver eternamente. O Messias será um descendente da Casa de Davi e seu anúncio será feito por Elias, o Profeta (Eliahu Anavi).

    Nada muito diferente das crenças apocalípticas circulantes pela Judeia do século I.

    (13) Cf. [Blau]

    (14) Qualquer semelhança com Roustaing não é mera coincidência.

    (15) Em João, Jesus é um ser divino (O Verbo) enviado à terra como figura redentora (“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida“, Jo 14:6) para que por meio dele tenhamos o conhecimento necessário para nos libertarmos (“Conhecereis a verdade e a Verdade vos libertará“, Jo 8:32). Essas similaridades fizeram de João um prato cheio para os gnósticos e o primeiro comentário a esse evangelho foi feito por um gnóstico: Heracleão.

    (16) Quando o assunto é a Trindade, a tática é oposta: enfatizar os sinópticos e menosprezar João.
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    Para saber mais

    – Asheri, Michael; O Judaísmo Vivo – As tradições e as leis dos judeus praticantes, Imago, 1995.

    Bíblia de Jerusalém, Sociedade Bíblica Internacional e Editora Paulus, 1995.

    – Blau, Yitzchak; Body And Soul:Teh.iyyat ha-Metim and Gilgulim in Medieval and Modern Philosophy, publicado em The Torah u-Madda Journal (10/2001).

    – Charlesworth, James H.; Old Testament Pseudoepigrapha, vol. I, Doubleday, 1983.

    – Ehrman, Bart D.; Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millennium, Oxford University Press, 2001.

    – Neusner, Jacob; Introdução ao Judaísmo, Imago, 2004.

    – Raphael, Simcha Paul; Jewish View of the Afterlife, Aronson, 2004.

    – Reddish, Mitchell G., Apocalytiptic Literature: A Reader [Literatura Apocalíptica: um Manual de Leitura], Hendrickson Publishers, Inc., 1995.

    – Schweitzer, Albert; The Quest of the Historical Jesus [A Busca do Jesus Histórico], Acessado em 10/09/2009 no portal Early Christian Writings.

    – Tricca, Maria Helena de Oliveira (compiladora); Apócrifos – Os proscritos da Bíblia, tradução do alemão de Ivo Martinazzo, vol. I e III, Ed. Mercuryo, 2003.

    Para acessar

    Jewish Eschatology, acessado em 05/10/2013.

    Rabbi scheinerman – After life, acessado em 05/10/2013.

    Ser judio – Vida y Muerte, acessado em 05/10/2013.

    [topo]

Flávio Josefo e a Crença dos Fariseus

17 de outubro de 2011 18 comentários

Flávio Josefo

Retrato hipotético de Josefo, da tradução inglesa de William Whiston.

O historiador judeu Flávio Josefo, cuja obra data da segunda metade do século I, muitas vezes é apontado como alguém que registrou a crença da reencarnação entre os fariseus (1). Até mesmo o verbete metempsychosis da Catholic Encyclopedia lhe atribui tal relato, provavelmente baseada na seguinte passagem:

Eles [os fariseus] também acreditavam que as almas tinham uma força imortal dentro delas e que sob a terra elas serão premiadas ou punidas, segundo elas tivessem vivido virtuosamente ou em vício esta vida; e estas últimas são mantidas numa prisão eterna, ao passo que as primeiras terão o poder de revivificar-se e viver novamente (2); (…)

Antiguidades Judaicas, livro XVIII, cap I

É preciso ter em mente que Josefo é um judeu escrevendo para um público helenizado e, portanto, explica suas crenças por meio de empréstimos da cultura e do vocabulário gregos. Assim, uma análise mais aprofundada do uso que Josefo dá às palavras, com paralelos a outras fontes judaicas e pagãs de sua época, revela sutilezas que apontam para uma direção bem diferente daquela que os reencarnacionistas gostariam. Josefo, na passagem acima, usa o verbo αναβιοω, que pode ser traduzido por “voltar à vida”, “reviver”, “ressuscitar” (3). Este verbo aparece em mais duas ocasiões em “Antiguidades Judaicas”:

  1. A ressurreição do filho da viúva feita por Elias:

    Agora esta mulher, de quem falamos antes, que amparara o profeta, quando seu filho caiu doente até que entregou o espírito e aparentou estar morto, veio ao profeta chorando, e batendo contra seu peito com suas mãos, e exclamando tamanhas expressões conforme suas paixões lhe ditavam, e reclamou a ele que viera censurá-la por seus pecados, que por causa disto seu filho estava morto. Mas ele a mandou ter bom ânimo e dar-lhe seu filho, a fim de que devolvesse a ela novamente vivo. Quando ela lhe entregou seu filho, ele o levou para um quarto de cima, onde estava hospedado, e deitou-o sobre a cama, e clamou a Deus, e disse que Deus não agira bem em recompensar a mulher que o hospedara e amparara tomando-lhe o filho; e orou para Ele enviasse novamente a alma da criança para dentro dela, e a trouxesse à vida novamente. Por conseguinte, Deus teve pena da mãe e estava desejoso por gratificar o profeta, que não poderia parecer ter vindo a ela para lhe fazer mal, e a criança, além de toda expectativa, voltou à vida outra vez [ανεβιωσεν]. Então a mãe foi grata ao profeta e ficou nitidamente contente que Deus conversasse com ele.

    Antiguidades Judaicas, livro VIII, cap 13

  2. Com relação ao fim do cativeiro de Babilônia e a volta para Israel:

    Então eles fizeram seus juramentos a Deus e ofereceram os sacrifícios que foram tradicionais no tempo antigo; quanto a isto me refiro à reconstrução de sua cidade e ao reviver [αναβιουσης] de antigas práticas de sua adoração.

    Antiguidades Judaicas, livro XI, cap 1

Nenhuma dessas citações permite o entendimento de “reencarnar”, aliás, os exemplos obtidos na literatura grega e pagã vão contra essa suposição. Até mesmo Platão, um crente na transmigração de almas, usava este verbo no sentido de “ressuscitar” (4):

Sócrates — Não é a história de Alcino que te vou contar, mas a de um homem valoroso: Er, filho de Armênio, originário de Panfília. Ele morrera numa batalha; dez dias depois, quando recolhiam os cadáveres já putrefatos, o seu foi encontrado intacto. Levaram-no para casa, a fim de o enterrarem, mas, ao décimo segundo dia, quando estava estendido na pira, ressuscitou. Assim que recuperou os sentidos, contou o que tinha visto no além. (…)

A República, livro X.

Continuando em outras obras de Josefo.

Mas então quanto às duas ordens anteriormente mencionadas, os fariseus são aqueles estimados por sua habilidade na exata explicação de suas leis e introduzem a primeira seita. Estes atribuem tudo ao destino [ou providência] e a Deus, e embora deixe que o agir de forma correta ou o contrário esteja principalmente nas mãos dos homens, apesar de o destino, de fato, cooperar com cada ação. Dizem que todas as almas são incorruptíveis, mas que as almas dos bons homens apenas são movidas para outros corpos, – porém as almas dos maus são sujeitas ao castigo eterno. Mas os saduceus são os que compõem a segunda seita, e excluem inteiramente o destino, e supõem que Deus não está interessado se o que fazemos ou deixamos de fazer é mau; e dizem que o bom ou mal agir está na escolha dos homens, e que um ou outro, portanto, pertence a todos, que podem agir como bem entenderem. Também excluem a crença na duração imortal da alma, e nos castigos e recompensas no Hades.

Guerra Judaica, livro II, cap. VIII

Ademais, nossa lei ordena justamente que escravos que fogem de seus senhores deverão ser punidos, apesar de que os senhores dos quais eles fugiram tenham sido cruéis com eles. E nos atreveremos a fugir de Deus, que é o melhor de todos os senhores, e não sermos culpados de impiedade? Não sabes que os que partem desta vida conforme a lei da natureza e pagam a dívida que foi adquirida de Deus, quando ele, que no-la emprestou, fica prazeroso em pedi-la de volta, gozam de eterno renome; que suas casas e suas posteridades estão asseguradas, que suas almas são puras e obedientes e obtêm o mais sagrado lugar do paraíso, de onde, nos ciclos dos tempos [περιτροπης αιωνων], eles são novamente postos em corpos puros; enquanto as almas daqueles cujas mãos agiram desvairadamente contra si mesmos são recebidos nos lugares mais sombrios do Hades, onde Deus, que é o Pai deles, pune quem comente ofensa contra qualquer uma destas na sua posteridade? Por esta razão Deus odeia tais atos [de suicídio] e o crime é punido pelo nosso mais sábio legislador. (…)

Guerra Judaica, livro III, cap VIII

Além disso, se alguém engana outro nas medidas e pesos ou faz transação e venda desonesta a fim de enganar outrem, se rouba os bens de outrem, e leva o que nunca guardou; todos estes têm punições os aguardando; não daquelas reservadas para os de outras nações, mas mais severas. E quanto a tentativas de comportamento injusto aos pais ou de impiedade contra Deus, ainda que não realmente concretizados, os agressores são destruídos imediatamente. Porém, a recompensa para os que vivem exatamente de acordo com as leis não é prata ou outro; não é uma grinalda de ramos de oliveira nova, nem qualquer semelhante sinal de aprovação; mas todo bom homem que tenha sua própria consciência dando testemunho se si mesmo, e pela virtude do espírito profético de nosso legislador, e a firme segurança que o próprio Deus propicia tais, ele crê que Deus fez esta dádiva àqueles que observam estas leis, ainda que sejam obrigados a prontamente morrer por elas, que eles retornarão à existência e, num determinado ciclo [περιτροπης] das coisas, receberão uma vida melhor do que a que gozaram. Nem eu me arriscaria em escrever assim agora não fosse bem conhecido por todos pelas nossas ações que muitos de nosso povo decidiram várias vezes resistir a qualquer sofrimento, em vez de falar uma palavra contra a lei.

Contra Apião, livro II

As duas primeiras passagens chamam atenção por assinalar que apenas os justos teriam uma nova vida. Os maus permaneceriam em castigo eterno, sendo que, na quarta passagem, os que ofenderam a Deus e aos pais seriam eliminados. Seria estranho um tipo de reencarnação em que apenas os bons retornassem à vida, quando justamente os ímpios têm mais o que resgatar. Na terceira passagem, em que Josefo explana porque era melhor se entregar aos romanos do que cometer suicídio, deixa transparecer a ideia de “corpo puro” por ocasião da ressurreição, e faz uma breve alusão castigos hereditários. O mais interessante é o caráter do “corpo puro” atribuído por Josefo. As versões inglesas muitas vertem por “pure” ou “chaste”, o que talvez oculte um significado alternativo do original grego ‘αγνος – “sagrado, santo, consagrado”. No Corpus Flavianum, esta palavra aparece apenas mais quatro vezes além desta, todas em Antiguidades Judaicas:

Esta novilha foi sacrificada pelo sumo sacerdote e seu sangue aspergido com o dedo dele sete vezes perante o tabernáculo de Deus; depois disto, toda a novilha é queimada naquele estado, junto com sua pele e entranhas; e atiraram madeira de cedro, e hissopo, e lã escarlate no meio do fogo; então um homem ‘αγνος ajuntou todas as suas cinzas e as pôs em local perfeitamente limpo.
Livro IV. Cap IV, 6

E certamente esta legislação é cheia de sabedoria oculta e totalmente irrepreensível, como sendo a legislação de Deus; razão pela qual é, como Hecateus de Abdera diz, que os poetas e historiadores não fazem menção dela, nem dos homens que levam suas vidas de acordo com ela, visto que é uma ‘αγνης lei.
XII, II, 6

Havia um grande portão através do qual os que eram ‘αγνοι entravam, junto com suas esposas; mas a parte mais interior do templo naquele portão não era permitia às mulheres.
XV, XI, 5

Mas a nação dos Samaritanos não escapou sem tumulto. O homem que os incitou a isto foi aquele que pensou que o ato de mentir é uma de pequenas consequências, e imaginou cada coisa para que a multidão pudesse ser agradada; então os conclamou a se ajuntar no Monte Gerizim, que lhes é respeitado como a ‘αγνοτατον (*) de todas as montanhas…

XVIII, IV, 1.
(*) superlativo: a mais sagrada

Em cada uma delas, ‘αγνος é usado para dar um caráter distintivo de santidade/sacralidade e/ou pureza, logo Josefo estava falando de um corpo santo ou sagrado para uma vida melhor. Tanto este corpo especial se faz necessário, pois, caso fosse um normal (ainda que sadio), não poderia ser um prêmio aos justos, já que nas próprias palavras de Josefo: “(…), pois é verdade que a alma, por estar unida ao corpo, fica sujeita a misérias, e não é outra vez liberta disso senão pela morte (…)” (Contra Apion, II, 25). Esta forma de retorno à vida atribuída aos fariseus por Josefo guarda similaridades com o que se chamaria “ressurreição”, na literatura rabínica e doutrina neotestamentária do ex-fariseu Paulo de Tarso. Tanto Guerra Judaica III, VIII, e Contra Apion, II, possuem a expressão “ciclo(s) dos tempos, das coisas”. Apesar de a tradução inglesa whistoniana colocar “ciclos” (plural) em “Guerra..”, em ambas as passagens o original grego é εν/εχ περιτροπης, i.e., uma expressão singular. O historiador Steve Mason, em sua obra Flavius Josephus: on the Pharisees, assim comenta o uso flaviano do vocabulário grego:

Portanto o uso de περιτροπη, περιτρεπω, e εχ περιτροπης em Josefo e outra literatura grega permite tanto a ideia de “revolução contínua” e a de “transformação súbita, inversão, ou sucessão”. Mas o εχ περιτροπης de Josefo envolve o αιωνες. Apesar de αιων poder significar períodos de variável comprimento, de um período de vida a uma época, ele praticamente sempre tem o sentido de um concebível, determinado período de tempo. E esta observação parece suportar a ideia de sucessão ou mudança para εχ περιτροπης, em vez de uma “revolução contínua”: não que todos os éons de alguma forma façam um ciclo simultaneamente, mas sim que quanto uma era chega ao fim, a próxima começa. Eu proponho, portanto, a tradução: “na sucessão (ou mudança) das eras”

p. 168

Expressão análoga em Guerra Judaica VI, cap. V, onde narra a destruição do segundo templo:

Então Tito recuou para dentro da torre Antônia e decidiu tomar de assalto o Templo no dia seguinte, no começo da manhã, com todo o seu exército, e acampar em torno da Santa Casa; mas, com relação a esta Casa, Deus tinha determinado a muito tempo condená-la ao fogo; e agora que o dia fatal chegara, de acordo com o ciclo dos tempo [χρονων περιοδιος]: era o décimo dia do mês de Lous, [Av], sobre o qual ela fora anteriormente queimada pelo rei de Babilônia.(…)

Esta data concorda com Jr 52:12 e discorda de 2 Rs 25:8 (que seria o sétimo dia), o que importa é que Josefo lança e ideia de a destruição do segundo templo já estar definida para um plano “de acordo com o ciclo dos tempos”, sendo uma passagem (trágica) para o povo judeu.

Esta é uma última, porém suspeita, passagem de Josefo:

Este é o discurso sobre o Hades, onde as almas de todos os homens estão confinadas até a época adequada, que Deus determinou, quando ele fará a ressurreição de todos os homens dos mortos, não obtendo a transmigração de almas de um corpo para outro, mas erguendo novamente aqueles mesmos corpos, que vós gregos, vendo serem dissolvidos, não acreditam [em sua ressurreição]. Mas aprendei a não descrer dela; pois embora acreditais que a alma é criada de acordo com a Doutrina de Platão, e apesar de ser feita imortal por Deus,(…), não sejai incrédulos; mas acreditai que Deus é capaz, quando ergueu para a vida aquele corpo que foi feito como um composto dos mesmos elementos, de fazê-lo imortal; já que não se deve dizer que Deus é capaz de realizar algumas coisas e incapaz de outras. Temos, pois, acreditado que o corpo se erguerá novamente; mesmo que esteja dissolvido, ele não pereceu; pois a terra recebeu seus vestígios e preservou-os; e embora eles sejam como semente e estejam misturados aos solo mais fértil, florescem, e o que foi semeado na verdade foi grão nu, mas ao poderoso som do Senhor o Criador, germinará e será erguido numa condição revestida e gloriosa, ainda que tenha sido dissolvido e misturado [com a terra]. (…) Mas no que se refere aos injustos, eles receberão seus corpos não transformados, não libertos de suas doenças e desequilíbrios, nem feitos gloriosos, mas com as mesmas doenças de quando morreram; e assim como eles estavam em sua descrença, assim estarão quando forem acuradamente julgados. (…)

Discurso aos gregos sobre o Hades

Note que aqui há uma contradição com as passagens anteriores, agora com uma ressurreição universal, sendo a dos maus para o juízo, um tanto em contradição com os extratos anteriores. O “Discurso aos gregos…” merece uma ressalva: atualmente duvida-se que ele tenha sido realmente uma obra de Josefo.

Em suma, três são as características do Corpus Flavianum quanto ao pós-morte farisaico que o distinguem de uma doutrina de “transmigração de almas” (5):

  1. A volta ao corpo é uma recompensa, não uma punição, regeneração, aprendizado ou missão. Em princípio, ela se daria apenas para os justos, tendo um paralelo flagrante com o pseudoepígrafo 2 Mc 7:9, 14
    Tu, celerado, nos tiras desta vida presente. Mas o Rei do mundo nos fará ressurgir para uma vida eterna [εις αιωνιον αναβιωσιν ζωης ημας αναστησει], a nós que morremos por suas leis (…)
    É desejável passar para a outra vida às mãos dos homens, tendo da parte de Deus as esperanças de um dia ser ressuscitado por ele. Mas a ti, ao contrário, não haverá ressurreição para a vida!
    ”;
  2. a natureza do corpo futuro é distinta daquela do corpo anterior;
  3. a volta à vida é um clímax a se dar num mundo vindouro, estabelecido pelo uso do singular na narrativa, não algo cíclico. A estadia no céu não é o ápice disto.

Na conclusão de Mason (6):

A forma de reencarnação atribuída aos fariseus por Josefo, portanto, suporta muitas similaridades com o que chamaríamos de ressurreição – uma doutrina farisaica bem atestada pela literatura rabínica e no Novo testamento. Uma leve dificuldade surge, talvez, com o uso de Josefo do adjetivo ‘ετερον [outro] para σομα [corpo], que parece conflitar com a costumeira ideia judaica de que na ressurreição os corpos dos mortos se reerguem. Não se deve, porém, ler demais nisso, já que Josefo deixa claro que o novo corpo será diferente do antigo com respeito a sua “santidade” (cf. ‘αγνος) uma visão compartilhada em certo grau pelo ex-fariseu Paulo (I Cor 15:35 ss). Em qualquer caso, não há nenhuma questão em Josefo quanto a repetidas mudanças de corpo humano (ou animal) para outro.

p. 169

Notas:

(1) De fato, as chances de haver confusão são grandes, se não fossem certos pormenores:

Josefo também afirma que os fariseus diferem dos saduceus nesse ponto, em duas das passagens em que ele apresenta o farisaísmo como uma espécie de escola filosófica grega, conhecida por seus leitores greco-romanos (G.J. 2.8.14 parágrafo 163; Ant. 18.1.3 § 14). Mais especificamente, os fariseus assumem a coloração dos estoicos. (cf. Vida § 12). Nessas duas passagens, Josefo diz claramente que os fariseus, diferentemente dos saduceus, acreditam na imortalidade da alma, em algum lugar de recompensa e castigo após a morte e – pelo menos em uma delas – na ressurreição do corpo (G.J 2.8.14 § 163, embora os leitores gentios de Josefo devam ter entendido que sua linguagem ambígua se referia à reencarnação) (n. 142).

[Meier, cap. XXVIII, p. 48]

Eis a nota 142, p. 102:

Ver Mason, Flavius Josephus on the Pharisees. 156-69. Na verdade, há apenas uma tênue linha entre certos conceitos de ressurreição dos corpos e de reencarnação. Contudo, a linha de pensamento em G.J. 2.8.25 § 163 (*) sugere uma passagem definitiva e de uma vez por todas da alma de uma pessoa boa para um novo corpo, como forma de recompensa eterna (em oposição ao “castigo eterno” que “os ímpios sofrem”). Isso é notavelmente diferente de pelo menos algumas ideias sobre reencarnação, que muitas vezes envolvem a possibilidade de se passar por uma longa sucessão de muitos corpos, como parte de um processo de purificação ou punição, enquanto se segue no objetivo desejado de existência incorpórea ou mesmo de total extinção da pessoa humana com sua consciência individual.

Não apenas os gentios de antigamente podiam confundir habeas corpus com corpus Christi, os espiritualistas de hoje, também. A diferença é que não o fazem mais por um equívoco ao identificar uma crença desconhecida com as suas próprias e, sim, para se municiarem em embates apologéticos.

(*) Observação: No texto da nota 142, a referência à Guerra dos Judeus parece ter sofrido um erro tipográfico.

(2) Na tradução de W. Whiston, “[the good souls] shall have power to revive and live again“, e em Feldman, “receive an easy passage to a new life“.

(3) Do prefixo ανα (“para cima”, “de novo”, “de volta”) e βιοω (“vivo”). O portal Perseus traz dois dicionários com esse verbo: o de Henry George Liddell e Robert Scott e uma versão simplificada dele. No verbete do primeiro, somos informados de uma variante popular cuja primeira pessoa do singular do presente é αναβιωσκομαι e o léxico grego-português ao final do segundo volume da gramática de Murachco traz como significado, para essa variante, “ressuscito”.

(4) Mason reconhece o sentido de αναβιοω como sendo “ressuscitar”, dentro da obra josefiana (e inclusive 2 Macabeus 7:9), mas não aceita muito bem a evidência externa da literatura grega pagã. Questiono um pouco isto, pois há vasta evidência externa. Além do trecho de A República, de Platão, que relatei, há vários outros testemunhos disto, todos acessíveis no Portal Perseus, por exemplo: Hípias Maior e Fédon, de Platão; Descrição da Grécia, livro IV, cap. 19 e 26, de Pausânias; Discurso I, seção 125 de Andrócides, e outros (link alternativo para elas). Uma coisa, porém, concordo com ele, muitos judeus ou judeu-cristãos ao escreverem em grego tomavam empréstimos do paganismo para expressar características própria de sua religião, o que torna um erro querer que certas expressões tenham seu significado pagão em textos neotestamentários ou pseudoepígrafos. Voltarei a isto em Tito 3:5.

(5) Uma das principais traduções de Flávio Josefo para a língua inglesa são The Works of Flavius Josephus de William Whitson, que data de 1737 e tornou-se extremamente popular nos séculos XVIII e XIX e já é de domínio público. Contudo, seu estilo é arcaizante à la King James Bible, usou manuscritos tidos hoje como de má qualidade e privilegiou o estilo à precisão. No século XX, surgiram novas traduções, como as da Loeb Classical Library, feitas a partir de manuscritos melhores, com uma linguagem moderna e mais rigor, apesar do estilo seco e frio. Nas obras de Josefo dessa coleção bilíngue de clássicos greco-latinos, destaca-se o nome de Henry St. John Thackeray, que retraduziu boa parte das obras de Josefo, até sua morte em 1930. Thackeray, contudo, foi um dos divulgadores da ideia de que os fariseus eram crentes na metempsicose, um equívoco que um dos continuadores de seu trabalho apontou e corrigiu:

Thackeray, Selections [from Josephus], p. 159 dá uma referência cruzada para B.J. [Bellum Judaicum – “Guerra dos Judeus”] iii. 374 (“suas almas … são designadas ao mais santo lugar no céu, de onde, na revolução das eras, retornam para encontrar em corpos castos uma nova morada”), na qual Josefo discursa para seus homens sobre o mal do suicídio. Essa passagem em B.J. iii. 374, diz Thackeray, contém uma referência à metempsicose. Mas nossa passagem [Antiguidades Judaicas xviii. 3], a passagem em B.J. e aquela em Contra Ap. ii. 218, que Thackeray cita em sua nota sobre B.J. iii. 374, não se refere à metempsicose, que não era um princípio dos fariseus, mas à crença na ressurreição, que era uma doutrina central dos fariseus. Cf. 2 Mac vii.9, que emprega αναβιωσιν, o substantivo correspondente ao verbo αναβιοω (a palavra usada por Josefo em nossa passagem) em clara referência à ressurreição.

Feldman, Jewish Antiquities: Books XVIII – XIX, p.13

Ou seja, Mason não foi o único nem o primeiro a perceber o engano, dado que a primeira impressão da tradução de Feldman é de 1965.

(6)Mason considera a ressurreição um tipo de reencarnação que se dá uma única vez, o que tem até sentido.

Para saber mais

– Josefo, Flávio; Textos em inglês e grego do portal Perseus.

_____________; The Works of Flavius Josephus, as clássicas e já de domínio público traduções inglesas de William Whiston.

_____________; Jewish Antiquities: Books XVIII – XIX, tradução inglesa de Louis H. Feldman, Loeb Classical Library, Vol. 433, Harvard University Press, 2000.

– Mason, Steve; Flavius Josephus – on the Pharisees, Brill Academic Publishers, 2001, cap. VI, pags. 156-170.

– Meier, John P.; Um Judeu Marginal – Repensando o Jesus Histórico, Vol. III, livro II, Imago, 2004.

– Murachco, Henrique; Língua Grega – Visão Semântica, Lógica, Orgânica e Funcional, Vol. II (Prática), Vozes.