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“Tá Serto!”

21 de fevereiro de 2016 Deixe um comentário Go to comments

    Face Palm

    Índice

    No meio de uma Flame War


    Em meio a pesquisas que fiz pela internet a respeito deste mesmo portal, encontrei as seguintes pérolas em certo fórum de debates.

    Um print do Fórum

    Que foi respondido por um apologista espírita com:

    Um print do Fórum: a resposta

    E segue-se um artigo de seu grupo apologista falando de Flávio Josefo e outro sobre Hebreus 9:27.

    Bem, de qual deles vou tomar partido? Nenhum, em princípio. Ambos estão errados a respeito o que realmente trata este portal.
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    Ser Judeu: Ontem e Hoje

    Em se tratando do apologista evangélico, eu jamais disse que os cabalistas não pertencem à “comunidade rabínica organizada”, que são menos judeus por isso ou são reles “feiticeiros”. Para ser sincero, qualquer religião, em sua pior forma, pode ser reduzida a um amontoado de superstições. Que o diga a Cabala, em seu fabrico de amuletos, os evangélicos, em suas quase circenses manifestações “do Espírito Santo” e “os espiritões”. Por outro lado, em sua melhor forma, a maioria das religiões pode se tornar filosofia de qualidade. Não que eu concorde com as premissas delas.

    O fato é: há judeus modernos que creem na reencarnação e outros não. Quem quiser, acesse o portal Ser Judio – Vida y muerte ou leia O Judaísmo Vivo, de Michael Asheri, cap. XLI, pp. 251-2 , para verificar que a aceitação da reencarnação ou gilgul neshamot não é universal entre os judeus atuais. Leia Jewish View of the Afterlife, de S.P. Raphael, cap. VIII, pp. 314-20 para uma análise histórica e mais aprofundada. Curiosamente, esses dois autores também tocam na possibilidade, em alguns círculos cabalísticos, de reencarnação em corpos de animais. Duvido que os espíritas comprem essa ideia ou digam que ela está na Bíblia.

    Essa diversidade de opiniões pode soar estranha a cristãos (ou neocristãos, como os espíritas), pois, historicamente, seus embates são travados em torno de dogmas da fé. Óbvio que o judaísmo também possui um “núcleo duro”, só que é muito mais eclético em todo o resto. O historiador Paul Johson assinalou que:

    [Na Idade Média] Havia uma tal variedade de opiniões sobre o Messias no judaísmo que era quase impossível ser herético nesse assunto. O judaísmo dizia respeito à Lei e sua observância. O cristianismo dizia respeito à teologia dogmática. Um judeu podia atrapalhar-se quanto a um ponto delicado da observância do sábado que a um cristão pareceria ridículo. Por outro lado, um cristão podia ser queimado vivo por sustentar uma ideia sobre Deus que a todos os judeus pareceria um assunto de opinião legítima e de controversa.

    Johson, Paul; A História dos Judeus, Imago, 1995, parte III, p. 228.

    O que ressalto no artigo sobre Saadia Gaon é que a crença na gilgul foi uma inovação medieval. Esse rabino foi testemunha ocular de sua chegada e difusão na região onde viveu (o atual Iraque), mesmo antes da codificação da Cabala. Por isso, também discordo do forista evangélico quanto à exigência de uma opinião judaica “tradicional”, visto que a crença a gilgul não é exclusiva de “místicos”, como outros na discussão lembraram. Aliás, muito do que ele chama de misticismo só o é para quem está de fora. Por outro lado, também é totalmente sem sentido usar a opinião de judeus modernos para abalizar teses espíritas, já que há não razão alguma para acreditar que algum grupo judaico tenha permanecido estático desde a época de Jesus. Muito pelo contrário: mesmo o dito conservador “judaísmo ortodoxo” é o produto de quase dois milênios de evolução.

    O procedimento correto seria buscar a opinião de judeus do século I, quem sabe antes ou um pouco depois. Para isso existe a literatura intertestamentária e o Antigo Testamento, que são silentes sobre o assunto. A não ser, claro, que você lance mão de alegorias (o que Gaon tanto repudiou) ou de preciosismos gramaticais duvidosos.

    É errado alegorizar? Falando como cético, o problema das alegorias é que elas podem tornar qualquer discussão num verdadeiro “vale tudo”. Judeus reclamam do uso cristão de suas Escrituras para justificar Jesus como o Messias (como Isaías 53). Depois cristãos ortodoxos se irritaram quando gnósticos começaram a elucubrar com os evangelhos (João em especial) para explanar seus “segredos”. Os espíritas são apenas os recém-chegados da especulação teológica.

    O que se pode pesquisar é o que determinado grupo cria sobre certo assunto. Deixar o “texto explicar o texto” pode ser contraproducente, porque a Bíblia não é intérprete de si mesma. Em compensação, pode-se pesquisar a palavra de intérpretes antigos sobre o assunto. Um nome que veio à baila foi ninguém menos que Orígenes.
    [topo]

    Sabendo mais que Eu …

    … a respeito de meu próprio portal.

    Vejamos o forista espírita:

    Os apóstolos criam no retorno dos profetas, tais como Elias, Jeremias e outros mais. Nem preciso citar passagens aqui para provar-lhe algo, você já sabe onde encontrá-las. O caso de Jesus afirmar que João Batista era Elias e o diálogo entre Jesus e Nicodemos, fora os exemplos do cego de nascença e do homem coxo. Saiba que a sua fonte do site Falhas do Espiritismo do Cyrix atesta que os judeus primitivos creem na pré-existência da alma, Orígenes defendia Elias ser João Batista, se é que você percebeu isso e nem se dá conta que o Cyrix nem aborda o fato de João Batista e Elias, portanto, não poderá afirmar que não há reencarnação na Bíblia, por ser sua análise parcial. Acaba que “o tiro sai pela culatra”, sem falar de Flávio Josefo do século I. Ademais, sobre ele, tem o artigo abaixo para apreciação.

    Bem, em instante algum se questionou o valor histórico do relato de Gaon. Ele foi, simplesmente, desconsiderado. Outras coisas que me chamaram atenção:

    1. Eu atesto que os judeus primitivos creem na preexistência da alma: Tudo bem, e daí? Isso só será problema se todos os evangélicos forem traducianistas, i.e., acreditarem que a alma é gerada junto com o corpo. Qualquer grau de criação prévia já é um tipo de preexistência. A questão é que em nenhum instante a ela implica em reencarnação, digo, múltiplas existências terrenas. No portal já havia textos remetendo ao pseudoepígrafo II Baruque (I século), que combina preexistência, vida única, apocalipse, ressurreição e redenção (ou danação) eterna. Só faltou Jesus como Messias para ser um texto evangélico/católico.
    2. O Cego de nascença: Um dos textos que disserto sobre a preexistência é justamente o desse episódio. E ainda há outra explicação possível.
    3. Eu digo que Orígenes defendia que João Batista era Elias: É? Onde? Alguém me indique, por favor!
      O que eu falo realmente é como uma certa escritora espiritualista pinçou um texto de Orígenes para dar justamente esse efeito. Vejamos o que o alexandrino tinha a dizer sobre o assunto:

      Nosso primeiro erudito, cuja visão da transcorporação vimos ser baseada em nossa passagem, pode prosseguir com um exame mais detalhado do texto e argumentar contra seu antagonista que se João foi o filho de um homem como o sacerdote Zacarias e se nasceu quando seu pais já eram ambos idosos, contrariando todas as expectativas humanas, não é provável que tanto judeus em Jerusalém o desconhecessem, ou os sacerdotes e levitas por eles enviados não estariam a par dos fatos de seu nascimento. Não declara Lucas que “o temor veio sobre todos os que viviam por perto” (Lc 1:65), – claramente nas proximidades ao redor de Zacarias e Isabel – e que “todas essas coisas foram divulgadas por toda terra montanhosa da Judeia”? E se o nascimento de João a partir de Zacarias foi matéria de comum conhecimento e os judeus de Jerusalém já enviaram sacerdotes e levitas para perguntar, “És tu Elias?” então está claro em dizer que eles consideravam a doutrina da transcorporação com verdadeira e que ela era uma doutrina corrente de seu país, e não estranha aos seus ensinos secretos. João, portanto, diz, “Eu não sou Elias”, porque não sabe sobre sua vida prévia. Estes pensadores, assim, cogitam uma opinião que não deve de forma alguma ser desprezada. Nosso membro da Igreja, contudo, pode replicar à alegação e perguntar se é digno de um profeta, que é iluminado pelo Espírito Santo, que foi previsto por Isaías, e cujo nascimento por pressagiado antes que sucedesse por tão grande anjo, que recebeu da plenitude de Cristo, que partilha de tal graça, que sabe que a verdade vem por meio de Jesus Cristo e ensinou coisas tão profundas a respeito de Deus e do unigênito, que está no seio do Pai, é digno de tal indivíduo mentir ou mesmo hesitar, em razão da ignorância do que era. Pois com relação ao que estava obscuro, ele deveria ter se abstido de confessar, e não ter nem afirmado, nem negado a proposição que foi posta. Se a doutrina [da transcorporação] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias? E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença. Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento (grifo meu).

      Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

      E Orígenes sustenta, sem querer, a tese da entrada tardia da reencarnação no judaísmo. E ele viveu em Alexandria – onde havia uma numerosa comunicada de judia -, e em Cesareia, na Palestina, portanto contato com judeus não lhe faltou. Eis outro texto dele:

      Alguém pode dizer, porém, que Herodes e parte da população mantinham o falso dogma da transmigração de almas para os corpos, com a consequência de que eles pensassem que o antigo João apareceu outra vez devido a um novo nascimento e tinha vindo da morte para a vida como Jesus. Mas o tempo entre o nascimento de João e o de Jesus, que não foi mais que seis meses, não permite se dar crédito a esta falsa opinião. E talvez fosse melhor que outra ideia estivesse na mente de Herodes – os poderes que operaram com João tivessem passado para Jesus – fazendo que ele fosse visto pelo povo como João Batista. E pode-se usar a seguinte linha de raciocínio: apenas por causa do espírito e poder de Elias, não pela alma dele, que se diz de João: “Este é o Elias que deve vir“.

      Comentário sobre Mateus, livro X, cap XX

      Aí entra uma sutileza da língua grega usada por Orígenes, que é a distinção entre “espírito” (pneuma) e “alma” (psyché). Para ele, só haveria sentido em falar de “transcorporação” se fosse essa última, que seria a portadora da individualidade. Em hebraico, também existe, grosso modo, essa mesma separação entre rouach e nephesh. Dependendo do contexto, rouach pode, contudo, assumir significados distintos (sopro, vento, espírito). Mesmo quando ele é traduzido por espírito não significa que seja exatamente a consciência sempre, mas o princípio que nos anima (Sl 146:4) e retorna a Iahweh após a morte (Ecl 12:7), o ânimo (Jz 15:19), “coragem” (Js 2:11), “raiva, exaltação” (Jz 8:3), ação sobre a mente (Ez 11:5), Iahweh e suas manifestações (Is 63:10). Em se tratando de Elias:

      Sucedeu que, havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito [rouach] sobre mim.
      2 Re 2:9

      Vendo-o, pois, os filhos dos profetas que estavam defronte em Jericó, disseram: O espírito [rouach] de Elias repousa sobre Eliseu. E vieram-lhe ao encontro, e se prostraram diante dele em terra.
      2 Re 2:15

      Observando-se isoladamente 2 Re 2:15, poder-se-ia até pensar em incorporação mediúnica, porém, juntado 2 Re 2:9, fica difícil achar que se trata do significado espiritualista da coisa e só forçando a barra é que é possível ver reencarnação nisso.

      Todo esse ecletismo viria a irritar Saadia Gaon (século X) pelo jogos de palavras que seus respectivos oponentes faziam. Já na época de Orígenes (século III), uma capacidade similar na língua grega foi usada para confundir, como ele insinua em suas refutações a pagãos e gnósticos. Seus Comentários apologéticos, em particular, mostram que a associação de João Batista com uma reencarnação de Elias é bem antiga, assim como as respostas (proto-)ortodoxas para ela. E os flame warriors ainda não se fartaram disso.

    4. Flávio Josefo descreveu a reencarnação entres os judeus do século I: Vejamos o artigo ofertado:

      print forum  3

      Desde os tempos do finado GeoCities, já havia um artigo aqui falando de Flávio Josefo e a crença dos fariseus, que foi totalmente desconsiderado. Juntando isso com a deturpação das ideias de Orígenes, fico com a séria impressão de que o forista espírita, na melhor hipótese, apenas passou os olhos por este portal. Recomendo a leitura desse artigo, mas, caso não tenha tempo, fica este aperitivo: por que o retorno à vida é para os bons e não para os maus que, pela lógica espírita, precisariam mais?

    5. Jesus disse que João Batista era Elias e eu não falo nada do assunto: E se eu falasse, que diferença faria? Falei a opinião de Orígenes sobre o assunto e ela foi distorcida. Falei de Josefo e fui desconsiderado. Poderia acontecer uma dessas opções com o que eu dissesse sobre João Batista ou … uma nova exigência ser feita! Agora, vem cá: Jesus realmente disse isso? “Sim, lá em Mt 11:14 …” Não. Isso é o que foi registrado por Mateus. Por acaso você me garante que o Jesus Histórico – o ser de carne e osso que andou entre nós – disse algo próximo a tal?

      Essa é uma das razões por que não considero pesquisa séria boa parte da apologia espírita: ela praticamente trata os evangelhos como documentos históricos, sem o menor critério para distinguir o que pode ter um fundo de verdade do que é puro mito. Convenhamos que isso é útil no debate contra os “fundamentalistas”, a fim de prendê-los em nós difíceis de desatar, embora não condiga com um credo com pretensões racionalistas. O efeito colateral é produzir um Jesus à própria imagem e semelhança.

    Distorção de fatos, falácias e grande má vontade em simplesmente ler as informações que tenho a oferecer. Às vezes tenho a impressão que muitos dos que se propõe a me combater, refutam outro portal. Um portal mais fácil em que eles podem escolher o que responder e se responder. Afinal, jogaram fogos diversivos e nada se falou a respeito de Saadia Gaon. Perda de tempo.

    Atendendo a pedidos, será feita uma breve preleção sobre o tema Elias/João Batista, que, obviamente, não será tudo o que gostaria de dizer.

    [topo]

Categorias:Ceticismo, Miscelânea
  1. 6 de maio de 2016 às 11:59

    Já recebi elogios de espíritas individualmente, mas me surpreende (no sentido positivo) que um coletivo espírita me teça boas palavras. Muito obrigado.

  2. 4 de maio de 2016 às 18:19

    Parabéns pelo site e pelo trabalho. Através da análise metódica dos temas abordados, estamos sempre aprimorando nossos métodos, corrigindo falhas e refinando a Ciência Espírita! Meu muito obrigado, e por favor, continue este trabalho tão necessário que chama os homens de pensamento crítica, a razão e a reflexão de suas ideias, as vezes preconcebidas.

  3. Kelly
    4 de abril de 2016 às 13:14

    “Cada um segundo as suas obras”, enquanto você perde o seu precioso tempo com este site, o movimento espírita cresce praticando a caridade e o amor ao próximo, que são a verdadeira essência da Doutrina Espírita. A verdade é relativa, você pode estar certo meu amigo, e daí?

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