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Ele chegou

11 de julho de 2017 6 comentários

Bem vindo

Bem, a imagem acima vale mais que mil palavras para explicar o que me aconteceu recentemente.

Não, não vou abandonar este portal, mas seu ritmo diminuirá muito.

A meu garoto, antes de mais nada, seja bem vindo! Sei que não pediu para existir, mas desde já obrigado existir em minha vida. Eu, que me considero uma ironia do destino ambulante, me pergunto o que será que você irá aprontar? Embora a promessa que fiz a tua mãe te coloque num caminho quase oposto ao que teu avô paterno imaginou para o futuro da família, sei bem que a capacidade dos pais em moldar os filhos é limitada. Do fundo do meu coração, espero que daqui a quinze anos, quem sabe até um pouco antes, você tenha uma baita de uma crise existencial. Brigue com o mundo, comigo e até com Deus, também. Só não magoe sua mãe, por favor. Depois, uma década ou duas mais à frente, vá se reconciliando, porém nos seus termos. Se voltar para mim, será sinal que não posso mais falar contigo como filho, e sim como igual. Quando não precisar mais de mim, então saberei que continua ao meu lado pelo prazer da companhia. Caso desenvolva novamente algum tipo de espiritualidade, tenho certeza de que ela não será mais a que as crianças aprendem nas aulas de catequese, escolas dominicais ou evangelizações. Não envolverá nenhuma das diversas divindades que a humanidade inventou, nem se apresentará de forma ininteligível no intuito de não ser questionada. Caso ela ainda contenha um deus pessoal, que seja um que não precise ser defendido, pois você poderá amá-lo sem temê-lo. Jamais acredite na sinceridade da fé de alguém que nunca tenha blasfemado.

Por que digo essas coisas? Simples: para que siga seu próprio caminho. O amadurecimento é um processo edipiano, i.e., é preciso que você me mate (simbolicamente, por favor) para que possa seguir em frente. E em sua “paternidade” estará tudo aquilo que receber pronto: a educação escolar, sua cultura, seus valores e seus medos. Quando se libertar disso, não recomeçará do zero: pegará nossos destroços e com eles pavimentará a estrada de seu destino. Não pense que não encontrará resistência do status quo, pois no calor da discussão, serei capaz de te deserdar; outros te prometerão o inferno na Terra ou no outro mundo. Mantenha-se firme, afinal sempre foram os hereges os responsáveis pela evolução cultural da humanidade.

Adaptando certa inscrição feita em famoso templo religioso da Espanha, reúna tudo o que veio antes de você para que venha a inspirar os que vierem depois.

PS: Ele tem seus olhos, meu velho!

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Prezado Hater

23 de junho de 2017 2 comentários

O Coronel, personagem de War for the Planet of the Apes

Enquanto redigia minhas memórias em “Prezado Fred“, recebi um e-mail de alguém meio desesperado:

Assunto: Alerta
Xxxxxx Xxxxxx Xxxxxxx <xxxxxxx@yahoo.com.br> <Nome completo do cidadão e e-mai>
Para Falhas Do Espiritismo
02/13/16 às 10:21 AM
Xxxxxxxx Xxxxxxx, <Meu nome>

Muito cuidado ao revelar assuntos referentes a minha vida particular, pois poderá se decepcionar com a verdade. Você pode estar sendo usando por pessoas que há muito tempo tentam me caluniar e difamar com objetivos escusos. Embora não saiba do conteúdo de muita coisa, informo que existem eventos que ainda não posso revelar, pois colocará pessoas próximas a mim em situações bem desconfortáveis. A história de minha vida já dá por si só um livro, mas existem ainda páginas em branco que precisam ser vividas, bem como eventos que aconteceram que somente quando eu aposentar, poderei revelar. Esta atitude sua poderá arranhar sua credibilidade na internet! Outrossim, a partir do ano que vem colocaremos seus argumentos à prova através do XXXXX <sigla de grupo apologético>, mas pouparemos sua identidade, visando somente seu conteúdo publicado. Este é o trato de nossa trilogia em resposta ao Falhas do Espiritismo!

Até breve!

Atenciosamente,

Xxxxxx <Primeiro nome do cidadão>

“A invencibilidade repousa na defesa, a vulnerabilidade revela-se no ataque”.
(Sun Tzu).

Visite: http://www.xxxxxx.org/

Bem, não intencionando tirar o leite das crianças, vou poupar sua identidade também, porém deixarei uma quantidade dicas o suficiente para que seu “grupo” saiba com quem estão lidando, se é que por lá não há mais gente capaz de atitude semelhante. Acho que nenhum deles paga suas contas, não?

A Conspiração

Muito cuidado ao revelar assuntos referentes a minha vida particular, pois poderá se decepcionar com a verdade. Você pode estar sendo usando por pessoas que há muito tempo tentam me caluniar e difamar com objetivos escusos.

Sem nenhum dado tangível que valide sua alegação, sou tentado a pensar que os illuminati se aliaram aos reptilianos em seus planos de dominação mundial e você é a última barreira no caminho deles. Zoeiras à parte, tenho bons motivos para não acreditar em ti, afinal já te peguei distorcendo o conteúdo do material deste portal quando lhe convinha. Se você age assim com o que tenho pleno conhecimento, o que não faria com o que me é ignorado.

“Uma charada embrulhada num mistério dentro de um enigma”

Embora não saiba do conteúdo de muita coisa, informo que existem eventos que ainda não posso revelar, pois colocará pessoas próximas a mim em situações bem desconfortáveis.

Então seus segredos podem ser qualquer coisa, inclusive coisa nenhuma. Sei que não tem muitos motivos para confiar em mim, porém se quiser obter algo extra de mim terá de arriscar.

Algo (quase) em comum

A história de minha vida já dá por si só um livro, (…)

Sou cético de que esteja com essa bola toda.

(…)mas existem ainda páginas em branco que precisam ser vividas, bem como eventos que aconteceram que somente quando eu aposentar, poderei revelar.

Acho que você talvez agora entenda porque usei um pseudônimo. Você usou seu nome verdadeiro desde o início, às vezes o nome completo. Se tudo fosse bem, ganharia muitos bônus por sua iniciativa, porém me parece que não esteve preparado para algum ônus quando as coisas desandassem.

Apelando para meu Ego

Esta atitude sua poderá arranhar sua credibilidade na internet!

Que credibilidade, diga-me? Você tem RG e CPF, mas Cyrix nunca existiu, caso não tenha percebido. Posso me reinventar em outro pseudônimo quantas vezes quiser enquanto existir a Internet. Será uma “reencarnação sem morte”. De certa forma, fiz isso uma vez, apenas não troquei de nome artístico. Por outro lado, “Falhas do Espiritismo” nunca estará em meu Curriculum Vitae. Ele é satisfação (ou obsessão) pessoal, apenas isso. Minha verdadeira carreira passa léguas daqui.

Uma falsa modéstia

Outrossim, a partir do ano que vem colocaremos seus argumentos à prova através do XXXXX <sigla de grupo apologético>, mas pouparemos sua identidade, visando somente seu conteúdo publicado.

A primeira pessoa do plural foi empregada, portanto, pergunto: você e mais quem? Ou tudo não passa de um “plural de modéstia”, sendo uma questão de honra só sua me refutar? Isso me é importante, pois eu gostaria de saber se você é a única maçã (até agora) podre do seu grupo de apologistas ou se há mais. Digo podre porque agora sei…

… do que você é capaz

mas pouparemos sua identidade, visando somente seu conteúdo publicado. Este é o trato de nossa trilogia em resposta ao Falhas do Espiritismo!

“Chantagem” agora tem outro nome? Não existe trato com chantagistas. Cedo ou tarde eles farão outra demanda com a mesma moeda de troca. Então meu, caro, faça o que você quiser! Ainda que me constranja de início, vai me libertar no longo prazo, pois poderei finalmente sair das sombras e tonar o portal útil para mim. Quem sabe até profissionalizar-me.

Mau discípulo

Até breve!

Atenciosamente,

Xxxxxx <Primeiro nome do cidadão>

“A invencibilidade repousa na defesa, a vulnerabilidade revela-se no ataque”.
(Sun Tzu).

Visite: http://www.xxxxxx.org/

Por favor, não macule a memória de Sun Tzu com uma citação pinçada para fazer uma frase de efeito e fingir que é o tal. Em vez disso, faça uma citação longa, generosa e verdadeiramente instrutiva:

Capítulo IV – Disposições
Sun Tzu disse:

  1. Antigamente os guerreiros bem adestrados primeiro se faziam invencíveis para depois esperar o momento de vulnerabilidade do inimigo.

  2. A invencibilidade depende de nós mesmo; a vulnerabilidade do inimigo, dele;

  3. Segue-se que os homens conspícuos na guerra podem fazer-se invencíveis, mas não ter a certeza de provocar a vulnerabilidade do inimigo.

    Mei Yao-ch’en: Aquilo que depende de mim, eu o faço; aquilo que depende do inimigo, disso não estou certo.

  4. Por isso se disse que é possível saber vencer, mas não necessariamente conseguir vencer.

  5. A invencibilidade reside na defesa; a possibilidade de vitória no ataque.

  6. Defendemo-nos quando nossa força é insuficiente; atacamos quando ela é sobeja.

  7. Os peritos em defesa como que se escondem sob as nove camadas da terra; os versados no ataque movem-se como que acima das nove camadas do céu. Dessa forma mostram-se capazes de proteger-se e de obter uma vitória completa.

    Tu Yu: Os peritos na preparação de defesas acham fundamental contar com a força de obstáculos tais como montanhas, rios e encostas. Eles tornam impossível ao inimigo saber onde atacar. Como que se ocultam sob as nove camadas do solo.

    Os peritos na arte de desfechar ataques acham fundamental contar com as estações e as vantagens do terreno; provocam inundações e incêndios conforme a situação. Tornam impossível ao inimigo saber onde se entrincheirar. Lançam o ataque como se fora o raio vibrado do mais alto das nove camadas do céu.

    (. . .)

Sun Tzu, A Arte da Guerra, Paz e Terra, 1999, pp 45-6.

Com essa mensagem, demonstraste sua vulnerabilidade de forma lastimável. Já o fizeras antes numa pretensa refutação.

Diga “Cyrix” se for capaz!

Já que prontamente agiu ao me enviar a mensagem antes que eu adentrasse nas Flame Wars dos fóruns virtuais, presumo que estivesse me acompanhando de perto ou alguém te mantivesse a par. Isso demonstra, de alguma forma sou importante para ti, nem que seja como o detrator que ama odiar. É o que os anglófonos chamam de hate-watching. Calma, também procuro saber o que falam de por aí, e um belo dia encontrei um artigo seu longo e prolixo em que se gabava de suas “artes como debatedor”. Após um começo piegas em que o livro Torá: a Lei de Moisés é apresentado como ofertante prova da reencarnação na Bíblia nos versículos Ex 20:5 e 34:7 numa fatídica livraria, começo a ler parágrafos que aparentam ser respostas a argumentos meus contra Severino Celestino da Silva. Até aí tudo bem, estavas fazendo teu papel. O estranho, porém, residia numa particularidade: em instante algum houve uma alusão a este portal era feita, muito menos o apelido Cyrix era mencionado. Quem de fora do seu grupo lesse o artigo perceberia que esse autor era defendido de críticas, porém não saberia exatamente quais eram elas, nem quem as fez. Senti-me como uma espécie Lorde Voldemort, “aquele que não deve ser nomeado” ou “Você sabe quem”, tamanho é o medo que sentem dele. Como a carapuça aparentava ser do meu tamanho, resolvi prová-la.

Para ser sincero, aquilo sequer poderia ser chamado de uma verdadeira resposta, pois você fez uma jogada muito malandra: não respondeu a crítica alguma explicitamente; em vez disso, recontou os pontos do Dr. Severino com outros “fundamentos”. Dessa forma, esquivou-se de responder aos pontos mais indefensáveis, forneceu explicações sobre alguns pormenores e, de quebra, pregou para o coral. Para terminar, encheu linguiça com um extrato imenso do livro Analisando as Tradução Bíblicas. Nessa arte do debate, você fez um longo monólogo com o que julgou serem seus melhores momentos e os piores dos outros. Assim fica fácil.

Como se não bastasse, você cometeu erros crassos como, por exemplo, ignorar que trabalho com a mesma edição crítica da Septuaginta que o Dr. Severino e insinuou que minha versão era tendenciosa. Eu poderia ter feito uma refutação avassaladora, mas concluí que não valia a pena gastar meu escasso tempo livre com articulistas desonestos. Fiz algo melhor: elevei o nível do artigo original para “além do nono céu”, seguindo o conselho de Sun Tzu e explicitando ainda mais todas as fraquezas de Analisando…. Não deu outra: você retirou seu texto do ar e só voltou com ele depois de lapidá-lo um pouco, fazendo menções bem en passant às fragilidades que tentara esconder. Acho que ainda pensava que estou no nível de argumentação do pessoal do CACP.

Quer me refutar? Eu te ajudo!

Baseado nesse malfadado artigo, darei algumas dicas que te farão do um articulista melhor. Se bem que seu ponto de partida é tão ruim que não será preciso muito. Vamos lá:

  1. Deixe claro quem você está refutando: caso sua refutação seja realmente boa, não há por que temer que seus leitores leiam o original. Do contrário, corre-se sério risco de começar refutar a uma caricatura do original, que será mais fácil de trabalhar e muito ilusória quanto ao seu potencial;

  2. Faça citações grandes: já disseram que “texto fora de contexto é pretexto”. Clichês à parte, isso é uma grande verdade (e por isso que virou clichê). Siga o exemplo de Orígenes em sua obra Contra Celso. Por ela sabemos que a obra refutada se chamava “O Verdadeiro Discurso” ou “A Verdadeira Razão” e, embora não tenha sobrado exemplar algum do texto anticristão desse filósofo, pode-se ter uma boa noção dele devido às fartas citações que Orígenes fazia;

  3. Aprenda inglês: em certa altura você se esquiva de analisar certo trecho do Talmude Babilônico (tratado Sanhedrim) por ainda esperar uma tradução em português. Curiosamente, é o mesmo tratado que utilizei em Quanto pesa a alma?, que peguei de uma tradução inglesa, online, gratuita. Sinceramente, tire um ano sabático e aprenda inglês. Não estou falando para você se tornar super fluente, capaz de assistir filmes sem dublagem, nem legenda, ou discutir filosofia com um nativo ao telefone. Você precisaria apenas ler. Você e todos os outros monoglotas do seu grupo não têm a mínima condição de autointitular “pesquisadores” sem essa ferramenta. Isso já bastaria para ver que não adulterei nada em minha tradução. Para vocês fazerem suas próprias traduções, um bom dicionário e prática lhes ajudariam. Agora, se seu inglês, digamos, já “dava pro gasto”, então você tirou o corpo fora para ganhar tempo. Outra esperteza;

  4. Arrume uma bibliografia decente: que muito provavelmente estará em inglês, afinal a maior parte da produção científica da atualidade é nesse idioma. Preste atenção: científica, ou seja, textos que procuram embasar seus argumentos em fontes primárias e submeterem-se ao contraditório. Cansei de ler textos espíritas que só trazem (quando trazem) referência a outros textos espíritas/espiritualistas. Vejo dentistas, auditores fiscais, juízes, jornalistas, etc. se arvorando de autoridade para falar do passado, já historiador que se preze, nada. E, principalmente ao lidar com ciências humanas, é bom saber o quanto a tese proposta é controversa ou não, do contrário você clamará como certa uma publicação pelo simples fato de ter sido publicada;

  5. Tire o escorpião do bolso: não vai encontrar a maioria desses livros em sebos nacionais. Foi durante meus estudos sobre o II Concílio de Constantinopla que mais maltratei meu cartão de crédito na Amazon e em outras livrarias virtuais estrangeiras. Foram três anos de muito bons investimentos. Não sei como anda seu bolso no momento, mas lembre-se que sou apenas um, ao passo que você tem seus confrades. Alguns, julgo eu, bem de vida, financeiramente falando. Fazer uma vaquinha será um boa forma de testar sua coesão interna e verificar se são realmente um grupo organizado ou mero bando;

  6. Cuidado com as autoridades: a escolha de uma boa bibliografia requer cuidado, porém. Primeiramente, alguns escrevem livros aventurando-se em temas sobre os quais não têm expertise alguma. Incluiria nesse rol José Reis Chaves, Elizabeth Prophet e, sim, Severino Celestino da Silva. Boa parte dos membros desse grupo já tem a conclusão de seus estudos pronta antes de sequer começar; apenas catam e organizam dados corroboradores e fingem inexistirem controvérsias. Por outro lado, há um grande número de autoridades cuja formação realmente segue seus estudos, mas lembre-se: não possuem divina infalibilidade. Autoridades antigas podem já estar defasadas em diversos pontos; por exemplo, eu adoro Edward Gibbon e seu Declínio e Queda do Império Romano, mas sou comedido em seu uso, pois sei que muita coisa sobre o tema foi revista de duzentos anos para cá. Além disso, atenção às envoltas em grande controvérsia, como esotérico Champlin. Existem, também, o temas que são controversos por sua própria natureza – como o perfil do Jesus Histórico – e nesses você pode encontrar autores igualmente competentes falando coisas díspares, por pertencerem a escolas diferentes. Por fim, mas não menos importante, peço que não envergonhe suas fontes se escondendo atrás delas. Não use autoridades como “carteirada intelectual”. Elas, em si, são apenas humanos como nós; seus argumentos e provas é que são fundamentais. Não faça como certo cidadão que fica clamando que Bart Ehrman é o “maior biblista do mundo” e ainda confunde “variações” com “alterações” (da Bíblia), demonstrando não entender muito bem do que Ehrman escrevera;

  7. Prefira o acadêmico ao de divulgação: Por falar em Bart Ehrman, ele é, de fato, bom, mas não é “o maior biblista do mundo” e nem ele se rotula assim. Creio que foi uma jogada de marketing da Prestígio, a editora no Brasil de O que Jesus disse? O que Jesus não disse? – Quem mudou a Bíblia e por quê. É um grande divulgador, devo concordar, e competente em sua área. Mas se quer realmente ler um livro dele, comece por The New Testament: A Historical Introduction to the Early Christian Writings, que é seu livro escrito para estudantes de seminários protestantes. É outro nível de discussão e, ao fim de cada capítulo, há dicas para continuar seu estudos sobre o tema em questão. Seus livros para o grande público são bem escritos e desenvolvem alguns tópicos que neste livro, ficaram limitados a um capítulo; porém nenhum deles dará uma visão abrangente. Ah! Já ia me esquecendo: está em inglês;

  8. Se possível, leia os originais: já que o Pentateuco espírita é o ponto de partida para os novatos do movimento, porque você se furtaria de ler os textos originais de autores antigos? Sim, essa é uma pergunta capciosa. De fato, é possível aprender sobre determinado autor e época sem ler todos os originais ou apenas extratos. A questão real é qual pedra de toque usarias para saber quem está sendo fidedigno ao objeto de estudo e quem o distorce fazendo uma releitura muito pessoal? Estaria um antagonista exagerando na crítica, um simpatizante nos elogios e um pretenso isento na falta de substância de sua análise? É possível enxergar “fora da caixa”? Para responder essas perguntas, terá você mesmo de ler algo de fontes em primeira mão sobre determinado assunto e tecer seu próprio juízo separando estudiosos de impostores. Mas para isso, você tem que ter…;

  9. Fontes, diga quais são elas é bizarro, mas você faz alusão a certos “eruditos” que nunca são especificados ou nomeados. Será que eles existem, ou será algum deles já foi chamado de “detrator” por você ou pelos seus?

  10. Não diga apenas a verdade, mas toda a verdade: quando citar os versículos que contradizem a ideia de maldições hereditárias, cite, também os que a corroboram (que, aliás, estão em maior número). Em outras palavras, não faça “cherry picking“. Depois, tente explicar essa contradição sem aparentar dar uma de “ensaboado” para quem está de fora;

  11. Não dê tiro no pé: Não capítulo VIII, p. 135 da 4ª edição de Analisando as Traduções Bíblicas, Dr. Severino diz:

    Não sei como encontraram este sentido para a língua portuguesa, nem de onde o tiraram, pois, no hebraico, bem como, no grego e no latim, ele não existe.

    No caso, ele se refere ao uso da preposição “até” em Ex 20: e 34:7, no trecho “até a terceira e quarta geração“. Você tacitamente admitiu a possibilidade, na língua latina, de uma tradução da preposição in como “até”, caso se seguisse a norma clássica da regência dessa preposição no caso acusativo. De certa forma, ao elevar o nível da discussão, você soube de onde “tiraram isso” e, por vias tortas, demonstrou o quão rasa foi a análise da tradução feita por Severino, ao menos da versão latina. A questão é que você não aceitou a norma clássica nesse caso, o que te levou a…

  12. Apelar – sem isso, por favor: por não aceitar a tradução latina convencional, você elaborou uma elucubrada tese de que Jerônimo – o tradutor da Vulgata – teria usado a regência do acusativo da preposição in objetivando um sentido que, na norma clássica, corresponderia à regência dela no ablativo: “em”. Era um parágrafo particularmente confuso em que você fez uma série de considerações especiais para convencer seu leitor de que a tradução do Dr. Severino seria válida. Desculpe, mas esse bizarro contorcionismo foi infeliz:
    1. Não se baseia em nenhuma análise da gramática da Vulgata propriamente dita, a não ser o alegado por “estudiosos” e “eruditos” que nunca são nomeados;

    2. Até acerta ao sugerir que o latim da Vulgata não corresponde exatamente ao clássico, mas erra no grau: se quer um texto latino cheio de vulgarismos, deveria ter optado pela Vetus;

    3. Acha que por se chamar Vulgata (i.e., para o vulgo), ela deveria estar escrita em linguagem popular. Isso é um anacronismo, pois esse termo originalmente se referia à Vetus (cf. Agostinho de Hipona, Cidade de Deus, livro XVI, cap. VIII), apenas sendo usado para designar a tradução/revisão de Jerônimo a partir da Idade Média;

    4. Sequer a Vetus te confirmaria: Jerônimo, quando faz uso da Vetus, revela que seu exemplar não trazia a tradução que você gostaria;

    5. Tampouco Jerônimo (e Agostinho) interpretava(m) esses versículo do jeito que você gostaria. Como sei disso? Fui ler o que esse(s) cidadão(s) escreveu(ram) a respeito, em vez de inventar outro(s) que me aprouvesse(m);

    6. Outra vez: seu tecnicismo mostrou o quão raso ou, melhor, inexistente foi o tratamento dado no livro do Dr. Severino à regência da preposição in. Tem certeza que vale à pena defendê-lo só por ter sido escrito por um confrade?

    Tudo bem que se queira fazer uma alegação contundente, porém, para tanto, é mister alguma solidez nos fundamentos. E você fincou seus alicerces na areia dos “achismos”;

  13. Seja coerente: e lembre-se que isso não significa estar certo, mas, sim, não se contradizer, seja por palavras ou atitudes. Pode-se estar tremendamente equivocado e ainda assim em conformidade com seu princípios. A incoerência, no seu caso, deu-se ao tratar o texto hebraico usando usando regras normativas de gramática e o latino por uma (errônea) abordagem descritiva do que teria sido o latim vulgar. Ou seja, a língua hebraica não teria evoluído nada durante a transmissão do texto massorético, ao passo que a latina não só evoluía, como seguiu para uma direção muito conveniente para ti. Poderia até haver uma razão para tanto, porém, no balanço geral, o único fundamento dessa tese foi sua própria conveniência. Ah! Não se esqueça: “em” com o sentido de “a/até” ainda é usada até hoje na linguagem coloquial do português brasileiro;

  14. Reconheça que Deus também evolui: ao menos na cabeça de seus adoradores. Você comete uma série de wishful thinkings ao recusar a admitir a ideia de maldições hereditárias entre os antigos hebreus. Era uma doutrina injusta? Sim, e daí? Aquele era o deus que eles precisavam para um contexto pré-exílio, quando não havia, ainda, crença em vida após a morte. As concepções acerca do deus único e seu relacionamento com os mortais mudou após a passagem por Babilônia e continuaram a mudar (e se diversificar) ao longo da sucessão de invasores estrangeiros. Se você, antolhado por sua fé cega, acha que a reencarnação é a única forma de salvar Ex 20:5 e 34:7, então você (1) é pouco criativo e (2) tem um baita narcisismo teológico. Uma terceira opção é você saber que as alternativas existem e não julgá-las tão elegantes como considera a reencarnação. Mais um motivo porque seu “debate” não passa de um monólogo;

  15. Não tape o Sol com peneira: na primeira versão, você se valeu de um exemplar interlinear (inglês/grego) da LXX, cuja leitura de Ex 20:5 lhe era conveniente e chegou ao ponto de cogitar que alguns portais com uma edição virtual da LXX haviam adulterado o versículo grego para conciliá-lo com a leitura “até a terceira…” do texto inglês. Pena que você não leu Nm 14:18 do seu próprio exemplar para encontrar justamente essa leitura. Tudo bem, talvez não tenha se tocado. Por isso mesmo esfreguei na sua cara que a edição crítica usada pelo Dr. Severino – a de Alfred Rahlfs – traz “até a terceira…” como leitura principal e “na terceira…” como uma leitura variante encontrada no Códice Alexandrino. Ela ainda trazia “na terceira…” em Dt 5:9 e “até a terceira…” em Nm 14:18. Estava aí a explicação para as diferenças entre as leituras: códices distintos. Você até passou a fazer menção a Rahlphs na revisão que fez, mas desviou do ponto mais nevrágico: o Dr. Severino tinha pelo acesso à leitura “até a terceira e quarta geração” em Ex 20:5 na LXX, porém omitiu esse fato em seu livro Analisando as Traduções Bíblicas, exibindo apenas Ex 34:7. Muito conveniente (e grave), não acha? Sequer se aferrar à leitura alexandrina (como você fez) ele tentou. Aliás, exatamente essa oscilação entre “até” e “em” diversos versículo paralelos da LXX sugere que a confusão de significados nas preposições hebraicas já estava ocorrendo nos últimos séculos antes da Era Cristã. E com quem será que aprendeste a respeito das trocas preposicionais, hein?

  16. Dê créditos a quem faz jus: na segunda versão você passou a mencionar a edição crítica da LXX feita por Rahlphs e a usar expressões como “trocas preposicionais em códices”. Isso já me era familiar, porém gritante mesmo foi isto:

    Havia uma certa sobreposição semântica nas duas versões pesquisadas, sendo estas entre εως e επι de acusativo. Isso dever ter repercutido nas versões latinas.

    p. 16

    Substituindo-se a preposição εως por εις fica praticamente igual a uma frase que eu disse neste portal. Pois é, meu hater de estimação: você aprendeu algo comigo e recusou-se a admitir que se “apoiou em meus ombros” também! Você pode até jurar ajoelhado que não foi nada disso, alegando que chegou à conclusão por via independente – usando outra gramática grega -, e até enganar meio mundo. Só me pergunto se já conseguiu enganar a si mesmo, tornando-se o mais perfeito tipo de mentiroso: o que acredita nas próprias lorotas. Como escrevi isso antes e sei que você me lê, não caio nesse papo. Um confrade seu escreveu um e-book sobre a questão da reencarnação e o II Concílio de Constantinopla e, apesar de nossas inúmeras diferenças, ele me reconheceu meu artigo como o motivo da revisão de sua postura anterior. O coroamento da ironia é que você prefaciou justamente esse e-book. Não que eu me ressinta pela falta de reconhecimento, o que me preocupa é o que ela revelou de sua personalidade e me pergunto até onde irá teu cinismo;

  17. Por último, mas não menos importante: transcenda sua condição de espírita: ao menos a de ortodoxo. Do contrário, não passará de um mero revisor da obra kardecista: todas as conclusões já estarão no Pentateuco (espírita), na Revista e em O que é Espiritismo?. Seu único trabalho será catar evidências que corroborem tais “conclusões” e fazer vista grossa para as discrepâncias. Exatamente o que você fez no seu infeliz artigo, algo não muito diferente do que os criacionistas bíblicos (e védicos, também) fazem. Em outras palavras, toda vez que a Ciência corroborar sua ortodoxia, você dirá: “viram só, o Espiritismo já antecipava isso há 150 anos”; porém, quando ela discordar, papo será: “a Ciência é falível por seu feita por homens”, “tudo nela é provisório”. Ainda que haja certa verdade nisso, essa atitude continuará sendo uma cortina de fumaça para auxiliar sua fuga ante qualquer tentativa de refutação.
    Como você pode fazer isso? Bem, uma possibilidade é chutar o balde, como eu, e se tornar um detrator antagonista. Algo menos radical é caminhar entre o espiritualismo e o livre pensamento, como fez Vitor Moura. Nesse caso, as pesquisas nos campos psi e “hipótese sobrevivência” deixam de ser ameaças e geram insumos para elaboração de novas hipóteses sobre a relação mente x cérebro. Um terceiro caminho é compartimentar o espírita em uma parte de seu ser e o pesquisador em outra. Um exemplo disso seria o historiador Lair Amaro, que impressionante análise crítica fez do romance Há Dois Mil Anos, de Chico Xavier/Emmanuel. Não importa qual desses caminhos você escolha, mexerá com “vacas sagradas” do movimento espírita e, portanto, há de desagradar alguém. Pelo menos pode escolher a quem importunar e como.
    Caso opte em bater de boa com todos os “confrades”, ótimo. Para mim, claro, afinal terá alguns “graus de liberdade” intelectual a menos para se locomover e terei uma vantagem da qual usarei e abusarei. De certa forma, ficará com u’a mão amarrada tal qual os fanáticos cristãos de que tanto gosta. Pode até não falar em Adão e Eva ou cobra falante, porém outras posturas anticientíficas surgem sem falta.

    O Coronel sucumbe à infecção pelo vírus

    Pode até rir dos católicos e evangélicos por suas doutrinas engessadas, não será mais do um pássaro de um viveiro amplo rindo de seu irmão aprisionado numa gaiola, esquecendo-se da vastidão do céu que lhe é inatingível. Estará numa caixa maior, porém ainda incapaz de pensar fora dela. Com o tempo, perderá aquilo de que tanto se vangloria com relação aos demais cristão: a faculdade da razão. Deixará de criar para meramente copiar, contará histórias que leu ou ouviu em vez de viver as suas próprias. Tornar-se-á mais digno de pena que de raiva.

* * *

Bem, agora que já te mordi um bocado, vou assoprar um pouco: parabéns! Sim, verdade, você está de parabéns por, ao menos, ter tentado me refutar. Bem ao contrário de certo confrade teu que esbravejou as mágoas num jornal de circulação regional e deixou por isso mesmo. Você não, muito pelo contrário, parece obcecado por mim. Pergunto-me, um pouco, pelo porquê.

Conta uma anedota que o alpinista George Mallory (1886 – 1924), quando perguntado sobre a razão de seu desejo em escalar o Monte Evereste, simplesmente respondia: “Porque ele está lá”. Creio que seu caso seja um tanto análogo a isso. Você e seu grupo apologético já digladiaram com quevedianos, o Centro Apologético Cristão de Pesquisas (CACP), o Instituto Cristãos de Pesquisas (ICP), o Fórum Evangélico, o Adventista, etc., sobrando apenas eu a ser devidamente atacado. Não, talvez seja muita pretensão minha. Não posso esquecer do Criticando Kardec e do Obras Psicografadas que, embora contenham muito material que lhes seria útil, são bem pesquisados desde seus respectivos começos, volta e meia importunando “vacas sagradas” do Movimento Espírita. Meu portal, assim, seria apenas o próximo da fila por possuir tanto um pé no aspecto religioso e outro no científico. Por meio do primeiro pretendiam começar o ataque com a farta discussão que tiveram com os religiosos.

Parece-me que esqueceu de um pormenor crucial: o paradigma aqui é outro, pois eu não tento provar a Bíblia com ela mesma. Meu universo de pesquisa é muito maior que o deles. Maior que o seu, também. Ademais, como não religioso, dispenso qualquer obrigação de aceitar juízos de valor ao tratar de alguma divindade antiga. Se o Javé do Antigo Testamento te desagrada, sinto muito, pois era o deus que os antigos hebreus precisavam, o resto é releitura posterior. Com isso, boa parte do arsenal que acumulou simplesmente deixou de ter serventia. Não desanime, você continuará, em sua teimosia, autoiludindo-se e carregando outros consigo. E podes até ser bem exitoso nisso, afinal é possível tecer raciocínios perfeitamente lógicos com premissas erradas. Criacionistas da Terra Jovem fazem assim. Quer saber de uma coisa: vocês, o CACP e o ICP se merecem.

Pergunto-me, às vezes, qual a razão por essa obsessão. Deve ter sido aquele “debate” que eu unilateralmente larguei no agora moribundo fórum do “Portal de Espírito” acho que discutíamos algo a respeito da natureza de Deus ou coisa do gênero. Acho que ficaste estimulado pela possibilidade de ter um adversário de maior quilate que a média do pessoal da seção “Do Contra” (lembras do Erivelton?) e injuriado por não conseguires atenção dele (i.e., de mim). Estou sendo vaidoso? Sem dúvida! Outra opção é que eu seja perigoso de mais para ser deixado solto impunemente por aí, o que afagaria meu ego do mesmo jeito. Um mero exercício para a atividade cerebral de um entediado? Pode ser, mas não está funcionando pelos motivos apontados acima. Estou aberto a sugestões.

Sabe, aqui do alto é muito solitário, frio e com ar rarefeito. Adoraria ter uma companhia para admirar a paisagem. Você pode ser um dos felizardos caso aceite o desafio de chegar até o cume. O lado bom é que, quando tiver vencido o desafio, terei eu vencido também, pois não será mais a mesma pessoa que começou a escalada. Apenas lembro que deves respeitar o desafio, do contrário o desafio se fará respeitar. O cadáver de George Mallory até pouco tempo repousava no Evereste sob camadas e camadas de neve.

Um abraço e veja se toma tenência. Caso não tome, tudo bem: hatters gonna hate, e caravana continuará a passar enquanto eles ladram.

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14 de outubro de 2016 Deixe um comentário

Publicado um adendo à resenha do livro Analisando as Traduções Bíblicas visando sanar as dúvidas de certo leitor.

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Como Discordar

22 de agosto de 2016 2 comentários

Hierarquia de desacordo

Por Paul Graham

Índice

Introdução


A web está transformando o ato de escrever em uma conversa. Vinte anos atrás, os escritores escreviam e os leitores liam. A web permite que os leitores respondam, e eles o fazem cada vez mais – em tópicos de comentários, em fóruns, e em suas mensagens de blog.

Muitos que respondem a algo, discordam. Isso é de se esperar. Concordar tende a motivar as pessoas menos do que discordar. E quando você concorda, há menos a dizer. Você poderia expandir algo que o autor disse, mas ele provavelmente já explorou os pontos mais interessantes. Quando você discorda, está entrando em um território que ele pode não ter explorado.

O resultado é que há muito mais discordâncias, especialmente medidas pelas palavras. Isso não significa que as pessoas estão ficando mais irritadas. A mudança estrutural na forma como nos comunicamos é suficiente para explicá-la. Mas, ainda que não seja a raiva que esteja a dirigir o aumento de desacordos, há um perigo de que ela deixe as pessoas mais irritadas. Particularmente online, onde é fácil dizer coisas que você nunca diria cara a cara.

Se estamos todos em um caminho de maior discordância, devemos ter o cuidado de fazê-lo bem. O que significa discordar bem? A maioria dos leitores pode dizer a diferença entre meros xingamentos e uma refutação cuidadosamente fundamentada. Mas eu acho que iria ajudar, colocar nomes nas etapas intermediárias. Então aqui vai uma tentativa de uma hierarquia do desacordo (DH – Disagree Hierarchy):

DH0. Xingamentos.


Esta é a forma mais baixa de desacordo e provavelmente também a mais comum. Nós todos vimos comentários como este

Você é uma bicha!!!!

Mas é importante perceber que até mesmo o mais articulado xingamento, tem pouco peso. Um comentário como:

O autor é um diletante presunçoso.

Nada mais é do que uma versão pretensiosa de “Você é uma bicha”.

DH1. Ad hominem.


Um ataque ad hominem não é tão fraco como um mero xingamento. Ele pode realmente ter algum peso. Por exemplo, se um senador escreveu um artigo dizendo que o salário dos senadores deve ser aumentado, pode-se responder:

É claro que ele diria isso. Ele é um senador.

Isso não refuta o argumento do autor, mas pode pelo menos ser relevante para o caso. Mas ainda é uma forma muito fraca de desacordo. Se há algo de errado com o argumento do senador, você deve dizer o que é, e se não houver, que diferença faz se ele é um senador?

Dizer que um autor não tem autoridade para escrever sobre um tema é uma variante de ad hominem e particularmente inútil, porque as boas ideias muitas vezes vêm de fora. A questão é saber se o autor está correto ou não. Se sua falta de autoridade levou a cometer erros, aponte-os. E se não o fez, não é um problema.

DH2. Respondendo ao tom.


No próximo nível começamos a ver respostas para o que foi escrito, em vez do escritor. A forma mais baixa delas é a de não concordar com o tom do autor. Por exemplo:

Eu não posso acreditar que o autor rejeita o design inteligente de uma forma tão arrogante.

Embora melhor do que atacar o autor, esta é ainda uma forma fraca de desacordo. É muito mais importante se o autor está certo ou errado do que como o seu tom é. Especialmente porque o tom é difícil de se julgar. Alguém que tenha afeição sobre algum tópico, pode ser ofendido por um tom que parecia, a outros leitores, neutro.

Portanto, se a pior coisa que você pode dizer sobre algo é criticar seu tom, você não está dizendo muito. O autor é irreverente, mas correto? Melhor do que sério e errado. E, se o autor está incorreto em algum lugar, diga onde.

DH3. Contradição.


Nesta fase, finalmente, obtemos respostas para o que foi dito, em vez de “como” ou “por quem”. A menor forma de resposta a um argumento é simplesmente afirmar o caso oposto, com pouca ou nenhuma evidência de apoio.

Isso é muitas vezes combinado com declarações do tipo DH2, como em:

Eu não posso acreditar que o autor rejeita o design inteligente de uma forma tão arrogante. O design inteligente é uma teoria científica legítima.

A contradição, às vezes, pode ter algum peso. Outras vezes, apenas ver o caso oposto explicitamente é o suficiente para constatar que ele está certo. Mas geralmente uma evidência vai ajudar.

DH4. Contra-argumento

No nível 4, chegamos à primeira forma de desacordo convincente: contra-argumento. As formas até este ponto podem ser normalmente ignoradas, como podem não provar nada. Um contra-argumento pode provar alguma coisa. O problema é que é difícil dizer exatamente o quê.

Um contra-argumento é “contradição” mais “raciocínio” e/ou “provas”. Quando refuta diretamente o argumento principal, pode ser convincente. Mas, infelizmente, é comum que os contra-argumentos se destinem a algo um pouco diferente. Com boa frequência, duas pessoas discutem fervorosamente sobre algo, mas estão realmente discutindo sobre duas coisas diferentes. Às vezes elas até concordam uma com a outra, mas estão tão envolvidas em sua disputa que não percebem isso.

Pode haver uma razão legítima para argumentar contra alguma coisa ligeiramente diferente do que o autor original disse: quando se sente que ele perdeu o cerne da questão. Mas quando se faz isso, deve-se dizer explicitamente que o está fazendo.

DH5. Refutação


A forma mais convincente de desacordo é refutação. É também a mais rara, porque é mais trabalhosa. Na verdade, a hierarquia do desacordo forma uma espécie de pirâmide, no sentido de que no mais alto estão as instâncias que se vão menos encontrar.

Para refutar alguém, você provavelmente terá de citá-los. Você tem que encontrar um ponto falho, uma passagem em que você possa discordar com o que você sente que é errado e, então, explicar por que ele está enganado. Se você não consegue encontrar uma citação real para discordar, pode estar discutindo com um espantalho.

Enquanto uma refutação geralmente implica em citar, citar não implica necessariamente numa refutação. Alguns escritores citam partes de coisas que eles discordam para dar a aparência de refutação legítima, então seguem com uma resposta tão baixa como DH3 ou mesmo DH0.

DH6. Refutando o ponto central


A força de uma refutação depende do que você refutar. A forma mais poderosa de desacordo é refutar ponto central de alguém.

Mesmo na DH5, ainda vemos algumas vezes uma desonestidade deliberada, quando, por exemplo, alguém escolhe pontos sem importância de um argumento e os refuta. Às vezes, o modo como isso é feito faz com que seja mais uma forma sofisticada do ad hominen do que uma verdadeira refutação. Por exemplo, corrigir a gramática de alguém, ou insistir em pequenos erros em nomes ou números. A menos que o argumento contrário realmente precise de tais coisas, a única finalidade de corrigi-los é desacreditar o adversário.

Refutar verdadeiramente algo requer refutar o seu ponto central, ou pelo menos um deles. E isso significa que tem de se expor explicitamente qual é o ponto central. Então, uma refutação verdadeiramente eficaz seria algo como:

O ponto principal do autor parece ser x. Como ele diz:

<citação>

Mas isso é errado pelas seguintes razões …

A citação que você apontar como equivocada não precisa ser realmente o ponto principal do autor. Basta refutar algo do qual ele dependa.

O que isso significa


Agora, temos uma maneira de classificar formas de desacordo. E o que há de bom? Uma coisa que a hierarquia desacordo não nos dá é uma maneira de escolher um vencedor. Os níveis DH apenas descrevem a forma de uma declaração, não se ela está correta. Uma resposta DH6 ainda poderia estar completamente enganada.

Embora os níveis de DH não definam um limite inferior no convencimento de uma resposta, eles definem um limite superior. Uma resposta DH6 pode ser convincente, enquanto uma resposta DH2 ou inferior é sempre inconvincente.

A vantagem mais óbvia de classificar as formas de desacordo é que elas vão ajudar as pessoas a avaliar o que leem. Em particular, elas irão ajudá-los a ver através de argumentos intelectualmente desonestos. Um orador eloquente ou escritor pode dar a impressão de derrotar um oponente apenas usando palavras fortes. Na verdade essa é provavelmente a qualidade de um demagogo. Ao dar nomes para as diferentes formas de desacordo, damos aos leitores críticos um alfinete para estourar esses balões.

Esses rótulos podem ajudar os escritores também. A maior parte da desonestidade intelectual não é intencional. Alguém argumentando contra o tom de algo que ele discorda pode acreditar que está realmente dizendo algo. Diminuir o zoom e ver sua posição atual na hierarquia de desacordo pode inspirá-lo a tentar mover-se para contra-argumento ou a refutação.

Mas o maior benefício de discordar bem não é apenas que vai fazer conversas melhores, mas fará as pessoas mais felizes. Se estudar as conversas, você achará muito mais maldades baixas em DH1 do que em DH6. Você não tem que ser mau quando tem um verdadeiro ponto a defender. E na verdade não quer. Se você tiver algo real a dizer, bancar o malvado apenas atrapalha.

Se subir na hierarquia do desacordo torna as pessoas menos malévolas, isso fará a maioria delas mais feliz. A maioria das pessoas realmente não gosta de ser má, elas o são porque não conseguem evitar.

Agradecimentos a Trevor Blackwell e Jessica Livingston por lerem os rascunhos disto.

* * *

Baseado na tradução de Song Fuê constante em Destinatário Théo

Link para o texto original de Paul Graham.

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“Tá Serto!”

21 de fevereiro de 2016 3 comentários

    Face Palm

    Índice

    No meio de uma Flame War


    Em meio a pesquisas que fiz pela internet a respeito deste mesmo portal, encontrei as seguintes pérolas em certo fórum de debates.

    Um print do Fórum

    Que foi respondido por um apologista espírita com:

    Um print do Fórum: a resposta

    E segue-se um artigo de seu grupo apologista falando de Flávio Josefo e outro sobre Hebreus 9:27.

    Bem, de qual deles vou tomar partido? Nenhum, em princípio. Ambos estão errados a respeito o que realmente trata este portal.
    [topo]

    Ser Judeu: Ontem e Hoje

    Em se tratando do apologista evangélico, eu jamais disse que os cabalistas não pertencem à “comunidade rabínica organizada”, que são menos judeus por isso ou são reles “feiticeiros”. Para ser sincero, qualquer religião, em sua pior forma, pode ser reduzida a um amontoado de superstições. Que o diga a Cabala, em seu fabrico de amuletos, os evangélicos, em suas quase circenses manifestações “do Espírito Santo” e “os espiritões”. Por outro lado, em sua melhor forma, a maioria das religiões pode se tornar filosofia de qualidade. Não que eu concorde com as premissas delas.

    O fato é: há judeus modernos que creem na reencarnação e outros não. Quem quiser, acesse o portal Ser Judio – Vida y muerte ou leia O Judaísmo Vivo, de Michael Asheri, cap. XLI, pp. 251-2 , para verificar que a aceitação da reencarnação ou gilgul neshamot não é universal entre os judeus atuais. Leia Jewish View of the Afterlife, de S.P. Raphael, cap. VIII, pp. 314-20 para uma análise histórica e mais aprofundada. Curiosamente, esses dois autores também tocam na possibilidade, em alguns círculos cabalísticos, de reencarnação em corpos de animais. Duvido que os espíritas comprem essa ideia ou digam que ela está na Bíblia.

    Essa diversidade de opiniões pode soar estranha a cristãos (ou neocristãos, como os espíritas), pois, historicamente, seus embates são travados em torno de dogmas da fé. Óbvio que o judaísmo também possui um “núcleo duro”, só que é muito mais eclético em todo o resto. O historiador Paul Johson assinalou que:

    [Na Idade Média] Havia uma tal variedade de opiniões sobre o Messias no judaísmo que era quase impossível ser herético nesse assunto. O judaísmo dizia respeito à Lei e sua observância. O cristianismo dizia respeito à teologia dogmática. Um judeu podia atrapalhar-se quanto a um ponto delicado da observância do sábado que a um cristão pareceria ridículo. Por outro lado, um cristão podia ser queimado vivo por sustentar uma ideia sobre Deus que a todos os judeus pareceria um assunto de opinião legítima e de controversa.

    Johson, Paul; A História dos Judeus, Imago, 1995, parte III, p. 228.

    O que ressalto no artigo sobre Saadia Gaon é que a crença na gilgul foi uma inovação medieval. Esse rabino foi testemunha ocular de sua chegada e difusão na região onde viveu (o atual Iraque), mesmo antes da codificação da Cabala. Por isso, também discordo do forista evangélico quanto à exigência de uma opinião judaica “tradicional”, visto que a crença a gilgul não é exclusiva de “místicos”, como outros na discussão lembraram. Aliás, muito do que ele chama de misticismo só o é para quem está de fora. Por outro lado, também é totalmente sem sentido usar a opinião de judeus modernos para abalizar teses espíritas, já que há não razão alguma para acreditar que algum grupo judaico tenha permanecido estático desde a época de Jesus. Muito pelo contrário: mesmo o dito conservador “judaísmo ortodoxo” é o produto de quase dois milênios de evolução.

    O procedimento correto seria buscar a opinião de judeus do século I, quem sabe antes ou um pouco depois. Para isso existe a literatura intertestamentária e o Antigo Testamento, que são silentes sobre o assunto. A não ser, claro, que você lance mão de alegorias (o que Gaon tanto repudiou) ou de preciosismos gramaticais duvidosos.

    É errado alegorizar? Falando como cético, o problema das alegorias é que elas podem tornar qualquer discussão num verdadeiro “vale tudo”. Judeus reclamam do uso cristão de suas Escrituras para justificar Jesus como o Messias (como Isaías 53). Depois cristãos ortodoxos se irritaram quando gnósticos começaram a elucubrar com os evangelhos (João em especial) para explanar seus “segredos”. Os espíritas são apenas os recém-chegados da especulação teológica.

    O que se pode pesquisar é o que determinado grupo cria sobre certo assunto. Deixar o “texto explicar o texto” pode ser contraproducente, porque a Bíblia não é intérprete de si mesma. Em compensação, pode-se pesquisar a palavra de intérpretes antigos sobre o assunto. Um nome que veio à baila foi ninguém menos que Orígenes.
    [topo]

    Sabendo mais que Eu …

    … a respeito de meu próprio portal.

    Vejamos o forista espírita:

    Os apóstolos criam no retorno dos profetas, tais como Elias, Jeremias e outros mais. Nem preciso citar passagens aqui para provar-lhe algo, você já sabe onde encontrá-las. O caso de Jesus afirmar que João Batista era Elias e o diálogo entre Jesus e Nicodemos, fora os exemplos do cego de nascença e do homem coxo. Saiba que a sua fonte do site Falhas do Espiritismo do Cyrix atesta que os judeus primitivos creem na pré-existência da alma, Orígenes defendia Elias ser João Batista, se é que você percebeu isso e nem se dá conta que o Cyrix nem aborda o fato de João Batista e Elias, portanto, não poderá afirmar que não há reencarnação na Bíblia, por ser sua análise parcial. Acaba que “o tiro sai pela culatra”, sem falar de Flávio Josefo do século I. Ademais, sobre ele, tem o artigo abaixo para apreciação.

    Bem, em instante algum se questionou o valor histórico do relato de Gaon. Ele foi, simplesmente, desconsiderado. Outras coisas que me chamaram atenção:

    1. Eu atesto que os judeus primitivos creem na preexistência da alma: Tudo bem, e daí? Isso só será problema se todos os evangélicos forem traducianistas, i.e., acreditarem que a alma é gerada junto com o corpo. Qualquer grau de criação prévia já é um tipo de preexistência. A questão é que em nenhum instante a ela implica em reencarnação, digo, múltiplas existências terrenas. No portal já havia textos remetendo ao pseudoepígrafo II Baruque (I século), que combina preexistência, vida única, apocalipse, ressurreição e redenção (ou danação) eterna. Só faltou Jesus como Messias para ser um texto evangélico/católico.
    2. O Cego de nascença: Um dos textos que disserto sobre a preexistência é justamente o desse episódio. E ainda há outra explicação possível.
    3. Eu digo que Orígenes defendia que João Batista era Elias: É? Onde? Alguém me indique, por favor!
      O que eu falo realmente é como uma certa escritora espiritualista pinçou um texto de Orígenes para dar justamente esse efeito. Vejamos o que o alexandrino tinha a dizer sobre o assunto:

      Nosso primeiro erudito, cuja visão da transcorporação vimos ser baseada em nossa passagem, pode prosseguir com um exame mais detalhado do texto e argumentar contra seu antagonista que se João foi o filho de um homem como o sacerdote Zacarias e se nasceu quando seu pais já eram ambos idosos, contrariando todas as expectativas humanas, não é provável que tanto judeus em Jerusalém o desconhecessem, ou os sacerdotes e levitas por eles enviados não estariam a par dos fatos de seu nascimento. Não declara Lucas que “o temor veio sobre todos os que viviam por perto” (Lc 1:65), – claramente nas proximidades ao redor de Zacarias e Isabel – e que “todas essas coisas foram divulgadas por toda terra montanhosa da Judeia”? E se o nascimento de João a partir de Zacarias foi matéria de comum conhecimento e os judeus de Jerusalém já enviaram sacerdotes e levitas para perguntar, “És tu Elias?” então está claro em dizer que eles consideravam a doutrina da transcorporação com verdadeira e que ela era uma doutrina corrente de seu país, e não estranha aos seus ensinos secretos. João, portanto, diz, “Eu não sou Elias”, porque não sabe sobre sua vida prévia. Estes pensadores, assim, cogitam uma opinião que não deve de forma alguma ser desprezada. Nosso membro da Igreja, contudo, pode replicar à alegação e perguntar se é digno de um profeta, que é iluminado pelo Espírito Santo, que foi previsto por Isaías, e cujo nascimento por pressagiado antes que sucedesse por tão grande anjo, que recebeu da plenitude de Cristo, que partilha de tal graça, que sabe que a verdade vem por meio de Jesus Cristo e ensinou coisas tão profundas a respeito de Deus e do unigênito, que está no seio do Pai, é digno de tal indivíduo mentir ou mesmo hesitar, em razão da ignorância do que era. Pois com relação ao que estava obscuro, ele deveria ter se abstido de confessar, e não ter nem afirmado, nem negado a proposição que foi posta. Se a doutrina [da transcorporação] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias? E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença. Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento (grifo meu).

      Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

      E Orígenes sustenta, sem querer, a tese da entrada tardia da reencarnação no judaísmo. E ele viveu em Alexandria – onde havia uma numerosa comunicada de judia -, e em Cesareia, na Palestina, portanto contato com judeus não lhe faltou. Eis outro texto dele:

      Alguém pode dizer, porém, que Herodes e parte da população mantinham o falso dogma da transmigração de almas para os corpos, com a consequência de que eles pensassem que o antigo João apareceu outra vez devido a um novo nascimento e tinha vindo da morte para a vida como Jesus. Mas o tempo entre o nascimento de João e o de Jesus, que não foi mais que seis meses, não permite se dar crédito a esta falsa opinião. E talvez fosse melhor que outra ideia estivesse na mente de Herodes – os poderes que operaram com João tivessem passado para Jesus – fazendo que ele fosse visto pelo povo como João Batista. E pode-se usar a seguinte linha de raciocínio: apenas por causa do espírito e poder de Elias, não pela alma dele, que se diz de João: “Este é o Elias que deve vir“.

      Comentário sobre Mateus, livro X, cap XX

      Aí entra uma sutileza da língua grega usada por Orígenes, que é a distinção entre “espírito” (pneuma) e “alma” (psyché). Para ele, só haveria sentido em falar de “transcorporação” se fosse essa última, que seria a portadora da individualidade. Em hebraico, também existe, grosso modo, essa mesma separação entre rouach e nephesh. Dependendo do contexto, rouach pode, contudo, assumir significados distintos (sopro, vento, espírito). Mesmo quando ele é traduzido por espírito não significa que seja exatamente a consciência sempre, mas o princípio que nos anima (Sl 146:4) e retorna a Iahweh após a morte (Ecl 12:7), o ânimo (Jz 15:19), “coragem” (Js 2:11), “raiva, exaltação” (Jz 8:3), ação sobre a mente (Ez 11:5), Iahweh e suas manifestações (Is 63:10). Em se tratando de Elias:

      Sucedeu que, havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito [rouach] sobre mim.
      2 Re 2:9

      Vendo-o, pois, os filhos dos profetas que estavam defronte em Jericó, disseram: O espírito [rouach] de Elias repousa sobre Eliseu. E vieram-lhe ao encontro, e se prostraram diante dele em terra.
      2 Re 2:15

      Observando-se isoladamente 2 Re 2:15, poder-se-ia até pensar em incorporação mediúnica, porém, juntado 2 Re 2:9, fica difícil achar que se trata do significado espiritualista da coisa e só forçando a barra é que é possível ver reencarnação nisso.

      Todo esse ecletismo viria a irritar Saadia Gaon (século X) pelo jogos de palavras que seus respectivos oponentes faziam. Já na época de Orígenes (século III), uma capacidade similar na língua grega foi usada para confundir, como ele insinua em suas refutações a pagãos e gnósticos. Seus Comentários apologéticos, em particular, mostram que a associação de João Batista com uma reencarnação de Elias é bem antiga, assim como as respostas (proto-)ortodoxas para ela. E os flame warriors ainda não se fartaram disso.

    4. Flávio Josefo descreveu a reencarnação entres os judeus do século I: Vejamos o artigo ofertado:

      print forum  3

      Desde os tempos do finado GeoCities, já havia um artigo aqui falando de Flávio Josefo e a crença dos fariseus, que foi totalmente desconsiderado. Juntando isso com a deturpação das ideias de Orígenes, fico com a séria impressão de que o forista espírita, na melhor hipótese, apenas passou os olhos por este portal. Recomendo a leitura desse artigo, mas, caso não tenha tempo, fica este aperitivo: por que o retorno à vida é para os bons e não para os maus que, pela lógica espírita, precisariam mais?

    5. Jesus disse que João Batista era Elias e eu não falo nada do assunto: E se eu falasse, que diferença faria? Falei a opinião de Orígenes sobre o assunto e ela foi distorcida. Falei de Josefo e fui desconsiderado. Poderia acontecer uma dessas opções com o que eu dissesse sobre João Batista ou … uma nova exigência ser feita! Agora, vem cá: Jesus realmente disse isso? “Sim, lá em Mt 11:14 …” Não. Isso é o que foi registrado por Mateus. Por acaso você me garante que o Jesus Histórico – o ser de carne e osso que andou entre nós – disse algo próximo a tal?

      Essa é uma das razões por que não considero pesquisa séria boa parte da apologia espírita: ela praticamente trata os evangelhos como documentos históricos, sem o menor critério para distinguir o que pode ter um fundo de verdade do que é puro mito. Convenhamos que isso é útil no debate contra os “fundamentalistas”, a fim de prendê-los em nós difíceis de desatar, embora não condiga com um credo com pretensões racionalistas. O efeito colateral é produzir um Jesus à própria imagem e semelhança.

    Distorção de fatos, falácias e grande má vontade em simplesmente ler as informações que tenho a oferecer. Às vezes tenho a impressão que muitos dos que se propõe a me combater, refutam outro portal. Um portal mais fácil em que eles podem escolher o que responder e se responder. Afinal, jogaram fogos diversivos e nada se falou a respeito de Saadia Gaon. Perda de tempo.

    Atendendo a pedidos, será feita uma breve preleção sobre o tema Elias/João Batista, que, obviamente, não será tudo o que gostaria de dizer.

    [topo]

Categorias:Ceticismo, Miscelânea

O Outro Outro Mundo dos Espíritas

24 de dezembro de 2015 5 comentários

Por Acauan Guajajara, do Religião é Veneno

Os espíritas oscilam entre este mundo e um outro no qual habitam os desencarnados que guiam os médiuns na escrita de livros de estilo indistinguível ou na execução de procedimentos cirúrgicos não reconhecidos pelos conselhos de medicina.

E tem um terceiro.

Um outro outro mundo, exclusivo dos espíritas e invisível para quem não o é, mas mais próximo e compreensível para os terrenos do que o etéreo entre o nirvana e o umbral, onde karmas se cumprem obedecendo a enredos parecidos com os das novelas mexicanas.

O interessante do segundo outro mundo dos espíritas é que, ao contrário do primeiro, ele é repleto de realizações positivas aferíveis pelos prosaicos observadores deste plano.

Este outro mundo manifesta-se no nosso através dos Centros Espíritas. Não… não pensem de início em lugares onde apenas se dão passes e gente morta manda recados sobre o quanto estão felizes e bem lá do outro lado.

Os Centros Espíritas são complexos impressionantes, pelos menos os grandes Centros, que agregam, além das atividades típicas requeridas pela doutrina kardecista, as ações de caridade exigidas por ela.

Os grandes Centros Espíritas são de matar pastor de igreja neopentecostal de porta de garagem de inveja. Enquanto estes espremem o dom de apascentar que lhes é dado pelo Espírito Santo para tentar recolher até o último centavo de dízimo que lhe permita pagar o aluguel do mês daquele espaçozinho sem graça, os espíritas se dão ao luxo de manter prédios no porte e forma parecidos com escolas públicas, onde, além de exercitarem seus iniciados no diálogo com o além-túmulo, mantém uma enormidade de atividades sociais que muitas vezes incluem creches, orfanatos, escolas de deficientes e coisas do tipo.

Estou certo que todo mundo sabe que manter estas coisas é caro. Talvez nem todo mundo saiba que manter estas coisas é muito, muito caro.

Há Centros Espíritas que mantém creches para carentes, escolas para excepcionais, lares para órfãos ou asilos para idosos dotados de toda a infraestrutura e tocados por profissionais especialistas remunerados. O custo mensal disto tem muitos zeros a direita da primeira cifra.

Mas segundo o IBGE os espíritas são uma percentagem pequenininha da população e não cadastram seus adeptos para pingar o dim-dim do fim do mês nos cofres das lideranças religiosas sob a pena de terem o devorador comendo suas rendas caso não o façam (hei, hei, fiz piada com vocês sabem quem…).

Como então conseguem manter tantas obras, cujo funcionamento exige uma garantia de recursos fluindo todo quinto dia útil do mês para pagar folhas de pagamento e toda semana para pagar alimentos, materiais de consumo e serviços de manutenção? E para complicar parece que ainda sobra para campanhas várias, da Páscoa ao Natal.

A resposta é o que os espíritas mantém uma enorme, silenciosa e extremamente organizada rede de coleta e distribuição de recursos que não só fazem fluir quantidades imensas de dinheiro e donativos para a manutenção de suas obras como mantém um gerenciamento eficiente na aplicação destes recursos.

Os grandes Centros Espíritas são reflexo disto. Todos funcionais, limpinhos e ascéticos.
Cheios de salas, algumas de portas trancadas embaixo das quais sempre olho para ver se tem ectoplasma escorrendo pela fresta. Quadras de esportes, cantinas e anfiteatros completam o pacote.

Os espíritas brasileiros que sustentam tudo isto estão concentrados na classe média, mas a comunidade abrange empresários e profissionais liberais bem sucedidos que de modo notavelmente discreto estão por traz das contas que não fechariam sem a contribuição deles.

Lembro-me de uma muito conhecida família de advogados criminalistas de São Paulo que assumia pessoalmente a direção de uma grande creche mantida pelos espíritas. Nunca entendi como tinham tempo para dar atenção aos seus casos jurídicos cuidando de todos os pepinos que aquele abacaxi lhes proporcionava.

Como empresário espírita não bota neon na fachada de suas empresas anunciando que “Deus é Fiel”, como fazem prosélitos de outras crenças, ninguém sabe que eles existem. Mas há muitos. Talvez o seu patrão seja um deles, vá saber.

Um conselho: não tentem fazer marketing social em instituições espíritas dando algum dinheiro para ostentar faixas do tipo “a empresa tal mantém esta instituição”. Para quem não sabe, os espíritas não aceitam isto. Se quiser doar dinheiro eles agradecerão e dirão que o donativo será tratado com discrição, mesmo que sua intenção ao doar fosse fazer o máximo possível de propaganda da sua bondade.

Alguns Centros Espíritas são mantidos exclusivamente pelos chamados servidores, membros da comunidade que realizam todos os serviços para manter a instituição – da contabilidade a lavar banheiros – sem receber um centavo por isto.

E há também empresas mantidas e tocadas por espíritas cujo objetivo é levantar fundos para manter as obras da comunidade. Um grau de especialização e sofisticação que parece planejado por alguma administração central.

Só que os espíritas não têm organização central nenhuma.

O consenso mais próximo que os espíritas parecem ter quanto à uma autoridade reconhecida por todos é que todos parecem concordar que a Federação Espírita Brasileira não é esta autoridade.

E quem é?

Ninguém.

É isto que torna o outro outro mundo dos espíritas um fenômeno digno de nota. A mais pura expressão do Laissez-faire transferida para o mundo da religião.

* * *

Do administrador: um bom Natal e feliz ano novo!

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Prezado Fred…

5 de julho de 2015 11 comentários

Índice

Um Inusitado Admirador

escrevendo

Quero deixar aqui minha admiração a este “anônimo” adversário da Doutrina Espírita. Nunca vi alguém estudar com tanto afinco para contrapor uma filosofia. Você é um ser com uma capacidade de raciocínio e de argumentação incrível, e eu como espírita, não tenho sequer coragem de arriscar algum argumento em defesa da Doutrina Espírita, diante de suas argumentações e documentações apresentadas. Minha argumentação e conhecimentos seriam simplórios diante da astúcia com que você se desenvolve em suas argumentações. Eu não tenho experiências espirituais que comprovem sequer o que eu acredito, apenas meus parcos estudos dentro da Doutrina. Portanto, só o que há em mim que possa abonar minha crença, é a fé. Talvez, como já falou aquele carinha famosinho, este seja o meu “ópio”, mas eu prefiro isso, do que enfrentar o vazio da incerteza. Quanto a você, meu irmão “anônimo”, não compreendo onde tudo isso o está conduzindo. Não compreendo qual a vantagem de dispensar tanta energia em um combate como este. Como escreveu o @Claudio, é uma das filosofias de amor mais coerentes que eu conheço. Ainda concordando com a colocação de nosso amigo Claudio, não compreendo porque você não empreende melhor todo este seu dom e toda esta energia, de um modo mais positivo em favor de você e de nossa humanidade. Com sinceridade, tenho muito respeito pelos teus textos, teus argumentos, tuas pesquisas, pois são de uma lucidez muito grande, ainda que eu não compreenda onde você quer chegar com isso, e qual a vantagem que almeja. Eu compreenderia se você me dissesse que está defendendo a sua religião ou a sua filosofia, mas não consigo entender o motivo desta guerra sem objetivo. Da minha parte, o que digo é que a Doutrina Espírita não precisa ser defendida, e que toda a verdade desta filosofia se constata em pouco tempo, que é o nosso pós-tumulo. Eu compreendo que há muita verdade no trabalho que você tem feito, mas também acredito que algumas verdades também deve haver na filosofia Espírita, bem como em tantas outras filosofias espiritualistas espalhadas pelo mundo. E a única argumentação que tenho, e que para você não deve significar nada, é a minha fé. Se você está em busca de alguma verdade, desejo que a encontre, e que compartilhe conosco quando a encontrar. (Comentário postado em Vinde Espírito Santo)

É Fred (posso te chamar assim?), você merece uma resposta. Até porque não deve estar sozinho. Vou deixar este fixo no topo por uns tempos até ter encerrado. Seus comentários serão os únicos que autorizarei, ao menos de início.
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Origens

Planeta dos Macacos - A Origem

Quem viu esse filme talvez possa perceber algo a ver …

As coisas começaram, de certa forma, bem antes de nascer. Não falo de planejamento reencarnatório em alguma colônia etérea ou coisa assemelhada, mas na minha figura paterna. Em sua juventude ele chamara a atenção de seus pares veteranos. Muito culto e inteligente, podia-se dizer que ele era uma promessa para o movimento espírita. E, realmente, foi só isso mesmo: ao falecer tragou toda sua cultura para o túmulo. Por outro lado, o fato de ele ser quem era rendeu-me um ambiente culturalmente rico, com boa oferta de livros e, às vezes conversas, longas sobre os assuntos mais aleatórios que uma curiosidade infantil permitisse.

Minha apresentação ao espiritismo foi feita por ele mesmo, baseada numa espécie de “catecismo” antigo que possuía. Por sinal, ao contrário de outros familiares de minha faixa etária, não frequentei nenhuma sala de evangelização. Não sei se por alguma implicância com a orientação do Centro mais próximo, alguma sensação de autossuficiência ou qualquer outra razão oculta, preferiu-se um home schooling. Não sei quanto essa relação mestre/discípulo pode ter emulado as escolas catequéticas católicas ou as dominicais dos protestantes, mas já ouvi (fico te devendo de onde) que relações mais horizontais, lúdicas e com outras crianças teriam sido melhores. Bem, agora só me restam cogitações.

Caesar e o Dr. Rodman

Definitivamente, não éramos da mesma espécie, mas a gente se entendia.

O que ele não contava era ter um aluno … “questionador”, principalmente ao chegar ao começo puberdade. Por exemplo, quando chegamos à parte “Fora da caridade não há salvação” no Evangelho Segundo o Espiritismo (ESE), perguntei algo como ”como praticar a caridade sem ter interesse em me salvar, pois do contrário não é caridade?”. Em outras palavras, perguntei se existia altruísmo genuíno ou sempre haveria um interesse subjacente. Não quero começar uma discussão filosófica aqui, pois diferentes respostas já escutei. Basta saber que por esse tipo de pergunta meu velho não esperava e tive um bom número de evasivas. Às vezes, buscava respostas sozinho, o que me levou a ler o Pentateuco por conta própria. Para o quê fui fazer isso: O Céu e o Inferno me encheu de horror em sua segunda parte. Hoje, claro, já não teria esse efeito, mas naquela época … Conforme cresci, o controle paterno se afrouxou e fui naturalmente me afastando. E, respondendo a sua pergunta, não, nunca tive nenhuma experiência “sobrenatural”. No máximo ouvia histórias e “causos” que ele presenciara, mas não se emprestam vivências. Aliás, o que eu realmente quase não li, nem muito me interessei, foi o Livro dos Médiuns (LM).

Mas Falhas do Espiritismo ainda estava um pouco longe… o que aconteceu foi em seguida foi uma espécie de comportamento ciclotímico que, hoje, nem entendo como aconteceu. Bem, tal como uma criança chora por um brinquedo quebrado – que alguns anos depois não daria a mínima –, o que senti na época foi importante. Já por volta da maioridade e sem contar mais com a presença da figura paterna, levada de forma súbita, fui tomado por um processo de, digamos, “aborrescência”, catalisado por experiências negativas. Tornei-me arisco e recluso, mas não depressivo ou inerte. O fim dos laços sociais, pelo menos, deu-me tempo de sobra para focar nos estudos, o que me permitiu passar pelo funil do vestibular com até mais de uma opção. Mudei de ares com a entrada no ensino superior, mas não de cabeça. Continuava alguém de “mal com a vida”, uma presa interessante para quem me desse uma proposta capaz de me fazer sentir especial: os evangélicos, por exemplo.

Caesar no santuário símio

Longe de serem aqueles estereotipados pregadores em cima de um banquinho, no meio da rua, clamando em voz alta: eles eram seus próprios cartões de visita. No meio da loucura do corpo discente das universidades, eles eram uma ilha de sanidade para pessoas de formação mais “tradicional”, como a minha. Não era apenas isso. Sentia neles uma alegria de viver, uma autoconfiança, uma garra que me causava m uma certa inveja, não algo mesquinho, mas a vontade partilhar disso também. Fiz sinceras amizades naquele meio e, entre uma conversa e outra, assuntos religiosos acabam por aflorar. Não, não conheci nenhum daqueles clássicos “ex-isso”, “ex-aquilo”, todos, que eu me lembre, haviam sido criados assim de berço ou, pelo menos, muito cedo. O que me mostraram foi outra forma vivência, com um relacionamento com o Divino em nada racional, porém muitíssimo pessoal. O batismo, como de praxe, dado na adolescência parece um rito de passagem extremamente marcante a eles. Um verdadeiro “renascer”, bem distinto daquele aprendido na “catequese doméstica”. Foi de histórias como essas que comecei a entender o significado de transcendência, embora jamais viesse a me sentir tocado por algo além de meu ego humano. Também foi deles a sensação de acolhimento que precisava: no âmbito doméstico, nas poucas vezes em que pensei me abrir com outros parentes, a resposta era sempre algo como “você que escolheu isso” ou “essas foram as consequências de seus atos”, e “não estou aí para seus dramas existenciais”. Doía ouvir isso de gente que visitava orfanatos, hospitais, fazia trabalho voluntário, sempre lidando abnegadamente com desconhecidos e, ao mesmo tempo, sendo dura com alguém que conheceu de berço e até dividiu o teto. Fazer o quê? O espiritismo, em si, é uma meritocracia. O que os evangélicos me traziam, por sua vez, era bem diferente: eu poderia ser especial, mesmo sem merecer, aliás, mérito não fazia sentido nessa teologia. Eu não precisava estar pronto para ser acolhido: se acolhesse a oferta, eu que seria preparado. A porta deles sempre esteve aberta, não se precisava bater. Se eu havia cortado laços, outra comunidade muito maior estava prestes a me chamar de “irmão”. Não tinha em conta que estava imerso em um jogo de sedução (no bom sentido) muito bem orquestrado, que quase funcionou. Quase. Até hoje penso que, tivesse eu me entregado, não teria vivido mais feliz. Mas eles cometeram um erro sério no processo: exageraram na dose.

Caeser e Maurice

Havia alguns entre eles que eram criacionistas da “Terra Jovem”, adeptos de uma interpretação literal do livro de Gênesis. De início achei divertido discutir com eles, tamanha era a ignorância que tinham sobre o assunto. Depois fiquei um pouco preocupado, pois não eram ignorantes como pessoas, muito pelo contrário, mas tinham escolhido voluntariamente antolhar a mente num tema específico. Isso por si só não seria o bastante para prevenir uma possível conversão – também havia conciliadores entre ciência e fé -, pois o verdadeiro tiro pela culatra ocorreu quando me apresentaram o livro O Império das Seitas, de Walter Martin, volume 4. Um capítulo inteiro era dedicado ao Espiritismo. Se as dúvidas já haviam me afligido durante a catequese paterna, aquilo foi um choque: o autor reunira diversos absurdos científicos, inconsistências, argumentações fracas, interpretações enviesadas da Bíblia (afinal, era um livro da ortodoxia cristã) e rixas internas do espiritualismo de século XIX. Fiquei com a impressão de que havia tanto de apelação no espiritismo como no protestantismo. Passado o impacto inicial, entrei numa espécie de “negação”, não podia admitir que a “fé racionada” tivesse alicerces tão frágeis. Fiz, então, algo inédito em minha vivência religiosa: adentrei um centro espírita.

Um passeio em família

Ficava a algumas quadras de casa. Lembro ainda menino, em um passeio a pé pelas redondezas, de lhe perguntar por que ele não o frequentava. Não recordo, porém, da resposta, apenas da sensação de ele querer desconversar. Não sei se não gostava dos dirigentes, da dinâmica do trabalho ou se apenas não queria se envolver. O que quer que fosse não era nada fidagal, tanto que outros parentes próximos o frequentaram sem que ele implicasse. Nunca me encaminhou, porém, nem eu fizera questão. Como se diz no meio, já que não me voltava a Deus por amor, estava voltando pela dor, ainda que fosse uma dor emocional.

Olhando ao longe.

Olhei na fachada um cartaz com a programação semanal e soube quando eram as reuniões de mocidade (embora, tecnicamente, já fosse adulto jovem). Na reunião seguinte, estando a porta aberta, entrei e sentei-me ao fundo. Não demorou a minha presença ser notada e ser convidado a chegar à frente (cf. Lc 14:7-10). Posso dizer que fui bem recebido e o pessoal da mocidade não deixava nada a desejar em termos de acolhimento em relação aos evangélicos. Revi até alguns colegas de ginásio, pois a escola em que estudamos também era no mesmo bairro. A única diferença que vi entre os dois grupos – além das doutrinárias, claro – é a ausência do proselitismo dos últimos nos espíritas. Bem, isso não vem ao caso aqui. Coincidência ou não, minha chegada permitiu que os organizadores formassem um pequeno grupo com outros recém chegados (uns quatro, acho, contando comigo) a serem apresentados mais formalmente à doutrina. No essencial, não me mostraram nada de novo; mas, como modesto calouro, recomecei do zero. As novidades se encontravam naquilo que “não estava escrito”: os jargões, práticas e maneiras, enfim, tudo o que faz um membro de um grupo reconhecer outro sem grandes formalidades. Por exemplo, foi aí que descobri que “Pentateuco” era usado como sinônimo das obras básicas da codificação, em vez de meramente os cinco primeiros livros da Bíblia.

Passada a fase de apresentação, as coisas transcorriam mais ou menos assim em cada reunião:

  1. Alguma dinâmica de grupo para descontrair ou integrar, concluída com um prece;
  2. Partida dos grupos de estudo cada um para sua sala, conforme o grau de adiantamento. Se não me engano eram dois apenas;
  3. O estudo em si era dividido em dois tempos: um para algum capítulo de um livro do Pentateuco, artigo da RE ou o OQEE, seguido por outro para a leitura de algum romance psicografado, um daqueles “clássicos”: Memórias de um Suicida, Nosso Lar, Ação e Reação, etc;
  4. Uma reunião de despedida, como anúncios de caráter geral, um esboço para a próxima semana e uma prece final.

Íamos, também, visitar uma instituição de amparo pelo menos à tarde de um domingo do mês. Às vezes, numa frequência que não me lembro agora, também chegávamos mais cedo à reunião semanal para uma espécie de faxina no centro. Durante as férias de verão, havia uma programação mais leve, com a leitura de livros de pequenos contos, como alguns do Richard Simonetti, seguidas por dinâmicas calcadas na história lida.

Foram três anos eu acho. Melhor, quatro incompletos. Tive um entusiasmo inicial, admito, chegando a argumentar melhor com os crentes da faculdade e até a distribuir alguns exemplares de bolso do ESE (não para esses últimos, claro). Não era difícil, como a maioria dos apologistas já o sabe, usar contradições bíblicas contra eles. Se minha passagem por lá serviu de algo, foi para me convencer de que o espiritismo não se trata de “artimanha de satanás”. Por outro lado, ainda não estava convencido que fosse algo divino, ou pelo menos obra feita sob orientação superior. A fé não precisa de coerência para se manter firme, precisa de motivos e esses podem muito bem ser reunidos num ente misterioso chamado “inspiração divina“. Já a razão exige coerência, mesmo que se calque em premissas falsas. Uma “fé racionada” deveria ir pelo mesmo caminho, supunha. Só que as contradições científicas e filosóficas do Espiritismo continuavam a me assombrar e minha empolgação foi arrefecendo paulatinamente. Tentei trazer uma ou outra vez algum ponto à discussão, mas geralmente se preferia não interromper o fluxo do estudo do dia. Quando isso ocorria, era costume algum gentil veterano dar uma explicação à parte para mim, após a prece final. Achava um tanto fracos os argumentos, mas acatava. Não queria entrar num embate. Não lá dentro. Não me sentia à vontade. Essa era outra questão e aflição.

Eu simplesmente não conseguia me integrar. Ao contrário dos religiosos da faculdade, cujo convívio era quase diário, os membros da mocidade só se encontravam uma vez por semana e nem sempre eram os mesmos cada vez. Na faculdade era nítido que estávamos no mesmo barco apesar de nossas diferenças, enquanto no centro, com toda comunhão de ideias, ainda me sentia um estranho. Muitos dos demais estavam lá desde a época de evangelização (i.e., cresceram dentro do centro), mesmo os que eu já conhecia do ginásio, estavam apenas para colegas de classe que amizades profundas. Os coordenadores até sentiam isso e estimularam a participação em outros grupos para aumentar a interação (biblioteca, distribuição de cestas, etc.). Participei de um deles e penso que até a proposta era boas, porém chegou um tanto tarde para mim. Era complicado me envolver mais quando, internamente, a sensação de deslocamento aumentava mais e mais.

Caesar diante do espelho

Percebendo essa contradição, brequei qualquer passo na direção de um envolvimento mais profundo e fui me afastando gradualmente. Comecei a ir semana sim, semana não, em seguida mensalmente, até sumir. Sim, fui embora sem dizer adeus. Se me arrependo, não sei. Meu eu antigo precisava sair, mas se acovardou. Ainda esbarro com um outro dos antigos contemporâneos de mocidade por essas andanças da vida e, se me reconhecem, devolvem ao menos um aceno. Acho que deixei boas lembranças, mas me constrange quão ignoram o que fiz.

No período em que fiquei, não tive nenhuma experiência, digamos, sobrenatural. Não era meu foco quando entrei e, quando próximo a sair, já não acreditaria nos bastidores do fenômeno. “Tomei passe” apenas uma vez e nada senti, até talvez porque já estivesse meio cético.

Já formado, encontrava-me sozinho de novo, por escolha própria outra vez, só que agora o cenário era outro: a internet começava a explodir e com ela as primeiras páginas pessoais e fóruns. Os primeiros autores e foristas que li eram ex-religiosos de origem católica ou protestante, sem muito em comum com minha vivência pessoal. Os únicos a realmente debater com espíritas eram os ainda religiosos, mas eram de um indigência intelectual de dar pena. Até que depois de muita busca encontrei um ex-espírita a criticar racionalmente o espiritismo. Tentei trocar ideias com ele, mas nada. Hoje, relembrando o fato, creio que ele já tivesse outros afazeres, assim como eu não respondo a vários dos que me escrevem também, mas na época essa pequena frustração foi a gota d’água para que eu decidisse agir por conta própria.

Caeser espalha o vírus

Resolvi criar minha própria página pessoal, inicialmente no domínio hpg e, logo depois, no GeoCities (ambos já extintos). No começo, o material não passava de uma coletânea que fiz do supracitado livro de Walter Martin, mas já era um bastante para um objetivo duplo: melhorar a argumentação de evangélicos e católicos, além de deixar espíritas na defensiva. Isso foi uma atitude calculista de minha parte? Sim, foi. A ideia era dar aos espíritas adversários à altura, a fim de os forçar a responder as dúvidas que me afligiam, ou, quem sabe, produzir mais céticos “ex-píritas” como eu mesmo, assim não ficaria mais sozinho. Estava disposto a acender a centelha de uma guerra ideológica ou, pelo menos, de uma corrida armamentista.

Caesar na batalha da ponte Golden Gate

Assim surgiu “Falhas do Espiritismo”. Parti com as aspirações de glória de um recruta, mas o veterano que agora te escreve, preferiria a paz. Na época, não tinha ideia do que estava por vir.
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Flame Wars: a Era dos Fóruns

Game of Thrones

The winter is coming!

Entrar na Internet é fácil, fazer-se notar que é difícil. Então fui espalhar minhas sementes por aí. Criei o nick de “Cyrix”, que nada mais é que o nome de antiga uma empresa de processadores de baixo custo (uma “prima pobre” da Intel) cujo um dos produtos movia um laptop que usava. Coisa bem nerd, reconheço, e a maioria hoje não o deve saber sem pedir ajuda a um motor de busca. Bem, foi esse o “nome de guerra” que adotei no fórum Sociedade Terra Redonda (STR), talvez um dos primeiros fóruns céticos virtuais do país, ao lado do ainda ativo Religião é Veneno.

Processador da Cyrix

Adicionei um link para o portal em minha assinatura da STR, mas o resultado inicial foi um tanto pífio: o foco do fórum estava no combate a radicais católicos, evangélicos, criacionistas de ambos os grupos e ufólogos. Os tópicos que abri para divulgá-lo não iam além de algumas postagens. Tentei repassar o material para outros portais que abrissem espaço para a paranormalidade, como o finado “A Busca da Verdade”, como algum sucesso e olhe lá. Cheguei ao cúmulo de postar na caixa de entrada de portais de centros espíritas pedindo ajuda para refutar minha própria criação, fingindo ser um pobre adepto em crise de fé. Quase todos, porém, me recomendaram buscar orientação e estudo num centro espírita.

As coisas começaram a mudar após um debate entre o cético Cláudio Loredo e o espírita Marcus Arduin a respeito da “vida após a morte”, moderado pelos administradores da STR. Isso colocou esse fórum cético/materialista no radar dos espíritas. Por meio de alguns espíritas que lá aportaram, tomei ciência do sítio Portal do Espírito (ainda ativo) e de seu fórum. Registrei-me lá também, porém um perfil falso chamado “Círius”, com o qual pratiquei uma espécie de “trollagem moderada”. Explico: não abria tópicos com a intenção de implicar, mas alfinetava dentro de outros já abertos por outros foristas declaradamente “do contra”. Tanto que a moderação local criou uma seção justamente com esse nome por lá. Ficava eu mais como uma espécie de vírus incubado, esperando o momento certo de agir. Os que realmente abriam pegavam material de meu portal, mas os foristas locais não respondiam, pois havia outra pessoa a fazer isso por eles, à qual eles apenas linkavam.

Jon Snow e Mance

Inimigos também podem guardar respeito, ainda que a contragosto.

Chamo-o momentaneamente de V., pois talvez eu fale sobre coisas particulares de uma outra pessoa à qual não pedi autorização. Para resumir, diria que foi uma das poucas interações produtivas que tive ao longo da última década. Eu já tinha ciência de sua existência, pois ele já tentara dialogar com A Busca da Verdade, mas foi uma perda de tempo, devido, ao que eu que me lembre, à “falta de modos” dos administradores daquele portal. Então, decidi dar-lhe uma nova oportunidade quando me enviou um “e-mail resposta”. Logo percebi a razão do pouco interesse dos espíritas pelo meu portal: estava tudo muito cru e facilmente contra-argumentável. Foram duas ou três rodadas de respostas e réplicas, que me valeram para incrementar o próprio portal. Durante esse período, travei contato com o trabalho de nomes como Pastorino, J.R. Chaves, Severino Celestino da Silva, Paulo Neto e outros escritores, divulgadores e apologistas espíritas. Constatei ainda ter muito a me aperfeiçoar e, ao mesmo tempo, um amplo campo por onde expandir. No balanço final, eu diria que levei a melhor na crítica à reencarnação na história e ele em na defesa dela como fato. V. também aproveitou o material que produziu para a criação de se seu próprio portal, que depois foi reformulado para outro em formato de blog, dedicado à análise de evidências quanto à existência de espíritos e de casos de recordações de vidas passadas, além de fazer avaliações críticas dos romances psicografados considerados clássicos entre os espíritas. Não sei se ele ainda se declara espírita, mas gostaria que existissem mais como ele.

Algum tempo depois, por motivos técnicos (problemas com a hospedagem) e brigas internas por motivos que já não me lembro mais, a STR se desagregou. Parte de seus foristas fundaram o Clube Cético (ainda ativo) e outra migrou para o supracitado Religião é Veneno. Criei perfil no primeiro e já tinha um no segundo, pois ambos tinham estilos bem diferentes. O “Clube Cético” (CC, para os íntimos) manteve a postura de “rédea curta” em termos de moderação da STR, que sempre evitou uma escalada exagerada das discussões, ao passo que o “Religião é Veneno” (RV, para os íntimos) era bem mais anárquico. Havia moderação, sim, e ela agia (e ainda age) prontamente quando uma postagem descambava em algum crime contra a honra da pessoa real por trás da tela (injúria, calúnia e difamação), de ódio e/ou racismo. Agora, quando o único afetado era um “nick”, então a pancadaria era livre! Trollagem era tolerada? Digamos que em um nível muito maior que no CC, mesmo assim um bom número de foristas conseguiu a proeza de torrar a paciência da moderação e ser banido.

Debate no Religião é Veneno

Dizem que se um debate no Religião é Veneno não tiver pelo menos três mortes, ele é considerado chato.”

Foi no RV que conheci alguém que se propunha ser uma espécie de Nêmesis meu (e de outros, quem sabe). Seu nome, bem, para protegê-lo, será “Kevin”. Era um ex-membro de uma seita evangélica e prosélito do espiritismo, um caso raro em minha vivência. Segundo testemunho seu, em outro fórum (de orientação evangélica), fora uma espécie de apologista cristão contra o espiritismo, como tantos outros, que, quando teve o senso de dúvida despertado indiretamente pelos próprios espíritas que atacava, entrou em crise fé. De um crente devoto, tornou-se kardecista igualmente fanático devoto, sem deixar de agir como um pretenso teólogo. Óbvio que eu era uma presa cobiçada e ele estava em fóruns alheios justamente para refutar, desprezar e escrachar os que se opusessem a sua nova fé, como um bom troglodita.

Só que ele não sabia como a banda tocava ali. Ninguém ali estava preocupado em “salvar a alma” ou praticar a “reforma íntima”, enfim, os céticos/materialistas não faziam a menor questão de bancar os bonzinhos. Muito menos alguém ali acreditava na Inerrância Bíblica para defender se esta ou aquela interpretação era a mais piedosa. Os sentidos mais crus e ásperos para nós eram os mais prováveis, principalmente se estivessem a serviço da mitologia nacional do Antigo Israel. Vendo a incapacidade de se fazer notar, tentou mudar de tática, atendo-se aos aspectos mais, digamos, “científicos” do espiritismo ou criticando os adeptos a parapsicologia “quevedista”, que ninguém de fora levava a sério, mas que nos divertiam com suas teorias ridículas sobre o inconsciente. Comigo, não conseguiu ir muito longe, pois, primeiramente, não oferecia eu combate aberto, adotando mais a tática do Picador. Ainda assim, consegui surpreendê-lo refutando textos de Aksakof, besteiras sobre a Patrística e o II Concílio de Constantinopla. E, em segundo lugar, outros fóruns em que postava, de perfis religiosos, consumiam mais de suas energias.

Nem tudo foi ruim com a presença de espiritualistas: o fórum, por algum tempo, foi um interessante lugar de debate entre a “hipótese psi” (a versão séria) e a de “sobrevivência”, i.e., a separação entre mente e corpo, mas foi impressionante a incapacidade dos kardecistas ortodoxos em acrescentar algo. Houve duas honrosas exceções, mas jamais os classificaria como ortodoxos, tal como Kevin era. Esse começou a se incomodar com um forista cético que bancava o papel de Palhaço Malvado, não que os argumentos desse fossem grande coisa, mas evidenciavam como Kevin caía muito fácil em “zoações”. Ele gostava de bater com seus punhos de aço, mas detestava que lhe arranhassem o queixo de vidro.

Sabendo disso, revolvi me aproveitar e dar-lhe o sabor do próprio veneno: registrei-me em um fórum evangélico do qual ele participava e comecei a abastecer os foristas religiosos com os “furos” na doutrina espírita e em suas defesas apologéticas. Não demorou muito para a irritação dele dar sinais de que iria rebentar. Retirei-me discretamente antes de uma “guerra aberta” (que não conseguiria manter, afinal ele tinha boa retórica, embora prolixo demais) e deixei que os “donos da casa” cuidassem do resto. Fiquei por um tempo restrito ao Religião é Veneno, até porque meu perfil fake fora descoberto no Portal do Espírito. Estava eu a fim de “dar o troco” em um forista espírita com quem me desentendi no Clube Cético, de certa forma, fui traído pela própria demonstração de conhecimento quando debatedores melhores lá chegaram e fui “convidado” peitá-los. No RV esteve mais do mesmo algum tempo, até que, em um fatídico dia Kevin, cometeu um erro fatal.

Jon Snow contra Night Walker

– Seu maldito! Kardec é inatacável!!
-Ah, vai te catar!

Ele caiu numa armadilha colocada pelo supramencionado evil clown: as polêmicas declarações da codificação quanto à inferioridade de negros (e asiáticos, também) em relação aos europeus. Em vez de dar uma daquelas respostas-padrão de que Kardec estava preso no século XIX e, sendo assim, portaria o “ranço” de sua época, etc. e tal, ele corroborou e quis provar que isso não era racismo porque essa superioridade existiria de fato (e da pior maneira possível). Não contava, porém, com a emergência de outro forista muito mais competente que ele em eloquência e, para seu azar, membro de uma etnia tida por inferior na codificação. Foi um massacre. Nenhum dos demais espíritas foi em seu socorro para defender o indefensável e os demais céticos, como eu, ficamos assistindo de camarote Kevin ser humilhado, com uma ou outra provocação manifestação ocasional. Kevin não sumiu de imediato depois dessa, mas sua participação diminuiu significativamente, até se extinguir. Bem mais tarde, em buscas no Google, fiquei se sabendo que desenvolvera uma doença autoimune. Já estava melhor, porém havia passado por maus bocados. Não sei se, de certa forma, isso foi uma somatização de seu próprio jeito irascível de ser ou mero azar (karma?), o que posso dizer é quanto a mim: minha primeira reação íntima não foi de pena, nem de escárnio, mas de apreensão. O receio de que, em um possível reencontro virtual, ele estivesse pior ainda (como pessoa, não de saúde), afinal o sofrimento nem sempre é um bom professor, muito pelo contrário. No momento em que escrevo, tal encontro jamais ocorreu, mas Kevin deixara uma espécie de escudeiro em meu encalço. Chamá-lo-ei de “Jaime”. De início, achei que ele seria um adversário promissor, mais tarde percebi que jamais sairia da aba de alguém que fosse maior que ele, seja o Kevin, outro apologista, ou até mesmo todo um bando de asseclas. Não sei o que houve, mas acho que lhe dava mais excitação intelectual que crentes do Fórum Evangelho. Tal como um antagonista de cinema, passou a amar me odiar.

Nem sempre fui bem no RV e em pelo menos dois episódios levei a pior. O primeiro foi com um meteórico forista que chamarei de “Rodger”. Ele apareceu do nada, procurando diretamente por mim para uma “contenda”. Ele avisou, logo de início, que iria responder “como espírita” e eu aceitei (ou pelo menos não rejeitei) essa condição. Foi um erro fatal. Achei poderia contradizer o espiritismo com ele mesmo, mas esqueci que ele não se resume apenas ao Pentateuco kardecista. É todo um contexto criado ao longo de 150 anos, que foi lapidado para ter coerência interna. De certa forma, permiti a Rodger que fizesse inúmeras petições de princípio ao deixar que presumisse diversas hipóteses ad hoc que só eram válidas dentro de um centro espírita e as usasse como argumento. Quando tentava eu apontar para esse “pormenor”, Rodger já passava para outro assunto. Por fim, rebaixei-me ao nível dele ao postar textos enormes para que refutasse (o que não fez, claro). Quando já cansado dessas sandices, abandonei unilateralmente e deixei que tivesse a última palavra, o que deve ter deliciado uma invisível plateia. Não me lembro de Rodger ter postado mais no fórum. Uma das lições que aprendi, ruminando as mensagens daquele tópico, foi a necessidade de transcender a condição de espírita se quisesse ainda peitar a ortodoxia kardecista. A verificação de sua (in)validade estaria fora dela e os ortodoxos jamais sairão da zona de conforto voluntariamente.

O outro envolveu um forista que chamarei de Williams. De certa forma, lembrava Kevin no objetivos, porém desprovido do menor estilo. Parecia mais um hidrófobo Barnabé anticatólico, antievangélico e, moderadamente, anticético. Controlava-se lá, apenas, por estar em casa alheia, mas, para perder as estribeiras, bastavam apenas alguns cutucões. Como bom “picador” costumava também a mostrar os furos dos autores espíritas que utilizava. Contudo, e também diferentemente de Kevin, era impossível que alfinetadas evoluíssem para uma verdadeira “tourada”. A postura era mais a de um feirante a querer ganhar discussões no grito e a depreciar o argumentador, não o argumento (algo proibido na finada STR e no CC, mas liberado no RV). Quando, por fim, reparando que xingar não bastava, tomou uma medida diversiva: mandou-me falar com os próprios autores criticados por mim e (alguns) usados por ele. De nada adiantou oferecer minhas fontes para que lesse e verificasse que não estava de bravata (Kevin o faria, ao menos), só os autores originais seriam autorizados a dar a última palavra sobre os assuntos que escreveram. Sinceramente, hoje isso para mim é uma declaração tácita de derrota, pois se você não é capaz de abalizar uma posição com seus próprios argumentos ou entender o cerne dos que tomou emprestado para defendê-la, então você não passa de um papagaio a repetir o que escuta achando que as compreende. Pode-se até repetir coisas certas, mas a discussão já terá acabado para ti. Só que àquela época não tinha essa visão e, com o orgulho ferido, fui atrás de um desses escritores, no Portal do Espírito (e Williams conseguiu o que queria: tempo).

Tyrion Lannister e o mercenário Bronn

Se não tiver a menor chance, duele por procuração…

Retornei ao Portal do Espírito, só que dessa vez sem perfil fake, e sim como Cyrix, mesmo. E já cheguei atirando. Fui, primeiramente, atrás de um dos autores usados por Williams: alguém, segundo o raivoso forista, cuja réplica seria “arrasadora” e a quem chamarei de Apostol. Cheguei bem no momento quando ele destroçava um forista evangélico não muito capacitado se valendo justamente da tese da remoção da reencarnação no século VI. Ataquei-o com um dos argumentos que Williams recusou a lidar – a inexistência de um testemunho de época quanto aos fatos alegados – e o fiz de forma nem um pouco educada. Para a minha surpresa, a postura dele foi a de um genuíno “lorde inglês” e solicitou tempo para buscar tais fontes. Para isso, foi falar com outro articulista espírita – que chamarei de Klés – também utilizado por Williams e que, naquele momento, gozava de bem mais projeção que o primeiro, inclusive com uma coluna semanal em jornal de grande circulação em certo estado importante da Federação. Havia, também, outra diferença crucial entre ambos: apenas Klés havia sido criticado em meu portal, até porque apenas ele possuía obras impressas (minhas preferidas), ao passo que Apostol ainda estava se fazendo no meio virtual e como palestrante. As coisas estavam prestes a tomar uma dimensão inesperada.

Algum tempo depois (uma semana ou duas), Apostol me apareceu com a notícia de que Klés publicara em sua coluna um artigo falando sobre meu portal – com direito a link, inclusive -, mais especificamente sobre minha crítica à história de Teodora e o suposto assassinato de 500 prostitutas a seu mando como gatilho para o V Concílio e a supressão da reencarnação do cristianismo. O problema é que no exíguo espaço pré-definido de uma coluna não foi possível dar uma resposta que prestasse. No máximo, diria que foram repetidos os mesmos chavões de um modo um pouco diferente. Por outro lado, foi a maior propaganda gratuita que já recebi, incrementando muito meus acessos por quase uma semana. Redigi uma resposta a Klés no meu portal e encaminhei-lhe o link, a tréplica – se é que posso chamar assim – foi o repasse de um e-mail congratulatório de uma terceira pessoa a sua coluna. Apostol até tentou ser uma ponte entre nós, mas nada de nada adiantou: continuei sem saber quais eram as fontes dele em seu livro, aumentando as suspeitas de que tudo não passava de teoria conspiratória, boato. Não fiquei mais a incomodar Klés e Apostol deixou uma promessa vaga de averiguar os fatos daquele longínquo passado.

Após apresentar o artigo do jornal e mencionar minha troca de correspondência com os dois acima, Williams simplesmente zombou afirmando que isso não era grande coisa, dado que a querela não foi levada aos holofotes, i.e., ao próprio jornal onde Klés publicava. De início, senti-me logrado pelo “aumento da exigência” e com a sensação de estar diante de uma arapuca: levar aquele debate à imprensa de massa podia gerar consequências inesperadas com as quais temia lidar, enquanto ele ficaria ileso. Williams se aproveitou do que viu ser uma demonstração de fraqueza – ainda que ele mesmo não desse o exemplo – e tripudiou em cima com diversas acusações a mim ou à forma como redigia, não abordando argumento meu algum. Respondi a essa série de ataques ad hominem rebaixando-me ao mesmo tom que ele. Não foi um momento do qual me orgulhe de lembrar e saí realmente chamuscado. Minha participação no RV foi, a partir daí, minguando até enfim sumir. Esse fórum trocaria de servidor e nem sei se meu perfil foi migrado. Não fiz nenhuma despedida choramingona como alguns – esses sempre voltam -, simplesmente me desinteressei. Senti-me, também, desmotivado por uma espécie de “falta de corporativismo” por parte dos céticos locais, havendo quem perfilasse com Williams em alguns ataques. Fazer o quê? A briga era minha e aquele era o RV: se quiser bater, se disponha a apanhar, como Kevin descobrira de uma maneira ainda pior. Havia outros “ex-píritas” por lá? Sim, mas podiam ser contados nos dedos de uma só mão e esses poucos já não participavam muito, pois certo processo já estava em andamento: a ascensão das redes sociais.

Casamento Vermelho - Game of Thrones

É uma cilada, Bino!

Pode ter sido coincidência, mas acho que não postaria ativamente em fóruns por muito tempo de qualquer jeito, pois começava o fim de uma era. Os perfis do Orkut acabaram com as páginas pessoais e suas comunidades com os fóruns, drenando boa parte dos antigos foristas, só que não eles não se mudaram para criar algo análogo. Houve uma espécie de “feudalização” das relações virtuais, em que pessoas se agrupam segundo suas afinidades. Não há mais tanto do “balaio de gatos” que eram os fóruns. Em seguida, o Facebook sucedeu ao Orkut e o material discutido se perde rapidamente nas timelines. Além da concorrência, houve uma saturação dos temas. Hoje tanto o RV como o CC discutem mais política que religião ou ceticismo, pois parece que tudo já foi dito sobre esses temas e nenhum teísta ou esotérico vem trazer algo diferente, ao passo que Brasília não se cansa de fornecer “novidades”. No RV a sangria foi até maior, quer por abandono de alguns (meu caso), brigas internas (que levaram uns para o CC), ou a simples expulsão dos que eram radicais até para os padrões do RV. Alguns desses exilados fundaram um fórum alternativo – o Realidade -, que por algum tempo manteve a tradição de “arranca-rabos” até decair, também. O Portal do Espírito, coitado, hoje parece mais uma daquelas cidades fantasmas dos filmes de faroeste. Paralelamente, surgiu em terras lusitanas o Fórum Espírita, que ainda está melhor que o Portal, mas, com o perdão do trocadilho, não possui mesmo “espírito” de seu irmão mais velho.

Hoje encaro um pouco os fóruns como aqueles colégios internos ou escolas militares dos filmes de época: locais onde se faz amigos, inimigos, intrigas e muitas experiências (boas e más), contudo eles são uma fase que, após terminada, você gosta até de relembrar, porém não tem o menor desejo de voltar àquele tempo, principalmente se for no mesmo papel. Houve outras personagens que marcaram, sim, e no sentido positivo do termo. Aqui gostaria de citar seus nicks, e agora uso as versões originais ou apelidos íntimos, pois não há nada de errado em elogiar. Começando pelo Portal do Espírito: Lelê, a mãezona do lugar e uma lembrança de que os kardecistas não têm monopólio do espiritismo; Pedro, pois sei que, apesar do jeito bronco, tem bom coração; Marcelo, outro admirador inusitado do Cyrius/Ethos; Rhea, uma pequena anja adoçando a vida por lá; Aridi, sempre a cair fácil “na pilha” e proporcionando momentos engraçados; Virgílio, que tenha ido em paz e que sua memória permaneça sempre entre nós; Leafar, que teve uma paciência comigo maior do que eu merecia (e uma estranha obsessão em saber no quê eu acreditava); e Douglas, u’a mão que se estendeu a mim, mas, na época, não tinha a menor condição de aceitar. Do lado do RV, minhas lembranças para Apodman, com uma trajetória de vida com pontos em comum com a minha; Anna, sempre cheia de simpatia e conhecimentos sobre teoria da evolução (por onde andas?); FlavioChecker, todo zen e grande moderado daquela selva; Res, que sempre dizia o que ninguém tinha coragem; o “Gavião que caminha”, com sua retórica que dava gosto de ouvir mesmo quando não concordava com nada; Vitor, que marcou com os embates sobrevivência X psi; e Botanico, um espírita que se fez respeitar pelos céticos sem ser babaca (muito pelo contrário).

Após uma traição e a perda do marido e do filho, Daenerys dá à luz aos dragões

Às vezes, da mais dura perda e da mais amarga lição, se originam as chaves para a próxima etapa!

As Flame Wars acabaram discretamente e terminei sem nenhuma condecoração ou algo para me orgulhar. Muito pelo contrário, olhando para trás sinto vergonha de mim mesmo, de como me portei, seja com os mais fortes ou com os mais fracos. A Internet tem esse poder de liberar nossos piores instintos, mas ela é apenas uma tentação. Nossas tendências é que nos fazem ceder a ela. Contudo, esses embates me legaram um caso de estudo. Era um assunto que minha intuição dizia ter certeza de que eu estava certo e os espíritas redondamente enganados. Com o orgulho ferido, pus mãos à obra numa tarefa que seria um marco na trajetória do portal.

Um Caso de Amor e Intrigas

Antigo (1954), esquecido, não muito fiel aos fatos, cheio de licenças poéticas,
e ainda assim toda a fibra de Teodora está lá.

As brigas nos fóruns legaram um mistério para averiguar: a suposta supressão da reencarnação do cristianismo pelo casal de monarcas Justiniano e Teodora, no século VI. Em meus contatos com os evangélicos, nos tempos de faculdade, já havia reparado a irritação deles quando versículos de seu livro sagrado eram utilizados pelos espíritas de forma “heterodoxa”, apesar de terem feito algo parecido com o Antigo Testamento, há dois mil anos. Posteriormente, com meus próprios estudos, percebi que não há como a sério a ideia de que os primeiríssimos cristãos fossem reencarnacionistas, visto que possuíam uma grande urgência escatológica: para eles o mundo, tal como conheciam, acabaria ainda na geração deles, o Reino de Deus seria instaurado sobre a Terra e o Mal eliminado. Bem, assim aparece o recado em Marcos, Mateus, um pouco em Lucas, e nas (genuínas) cartas de Paulo. Ainda que houvesse, em alguns casos, retorno à carne nos moldes de certos pagãos antigos ou dos espíritas modernos, em pouco tempo não deveria haver mais nenhum. Os evangélicos estão certos nesse ponto, embora continuem tendo de explicar porque o fim não veio ainda.

Mesmo com uma constatação simples, convencer nem sempre é fácil, em especial aqueles que chamo de Barnabés, i.e., os que defendem que a ortodoxia cristã seria uma fraude história e o e espiritismo a verdadeira expressão da mensagem de Jesus e dos apóstolos. Faço isso em homenagem à Epístola de Barnabé, um pseudo-epígrafe cristão que pretendia fazer algo parecido, só que com o judaísmo. Um ponto de partida para a tarefa foi a única referência dada por autores espíritas a um cronista da época: Procópio de Cesareia. Segundo esses autores (dentre eles, Klés) esse historiador teria relatado que Teodora fora filha de um criador de ursos, usados para a diversão do populacho no “pão e circo” de Constantinopla. Até aí nada de mais ou inverídico. O problema surge quando se atribui a ela – sem uma menção direta a Procópio – a execução de 500 prostitutas da capital, antigas colegas de ofício. Teodora teria ficado com medo de expiar por esse crime reencarnando como escrava e, então, fez a cabeça de seu marido para que convocasse um Concílio cuja principal pauta era banir a doutrina da reencarnação da Igreja, junto seu principal postulante: o teólogo do século III Orígenes. E assim foi feito.

Tirando a origem do meretrício, nada disso tem base documental. Aliás, Procópio relatava algo diferente: Teodora teria trancafiado 500 prostitutas num convento chamado Arrependimento. Algumas teriam morrido ao tentar escapar de lá, descendo pelas muralhas. E só. Contudo, isso dá margem a divagações como as hipóteses de que as internas eram maltratadas, mortas longe dos olhos e ouvidos da capital, ou simplesmente preferiam uma vida de incertezas a um noviciado forçado. De qualquer forma, não havia nenhuma vinculação disso com o II Concílio de Constantinopla e nem poderia: Teodora morrera em 548 d.C., cinco anos antes. Como até mesmo encontrei espírita apelando com a tese de Teodora ter agido como obsessora do marido na erraticidade, não houve outro jeito senão buscar quais foram as reais causas do referido Concílio e da suposta condenação de Orígenes.

Encontrei várias referências para fontes primárias sobre o assunto se encontram no artigo Orígenes e Origenismo. O problema, como quem acessá-lo poderá perceber, é que ele faz parte da Catholic Encyclopedia, uma fonte totalmente confessional. Alguns autores espiritualistas já a utilizaram assim mesmo, quando ela parecia lhes corroborar, mas isso não seria argumento aceitável por muitos, não importando quão boa fosse a qualidade do referido artigo (e é bom). Portanto, decidi me debruçar diretamente sobre as fontes indicadas, começando pela mais extensa delas: A Vida dos Monges da Palestina, de Cirilo de Citópolis. Comprei o livro e fiquei tentado simplesmente a escanear e disponibilizar os capítulos de A Vida de São Saba. O problema era que estava tudo em inglês e um dos murmúrios constantes dos apologistas que evitam “olhar para fora da caverna” era justamente a ignorância desse idioma (ou de qualquer outro). Arregacei as mangas e me pus a um trabalho paciente de tradução. Como já havia falado de Procópio e a questão de Teodora em um artigo do portal, criei um novo: Contendas do Deserto, em alusão às batalhas ideológicas (e físicas) entre os monastérios do deserto palestino do século VI.

Foi interessante ler sobre a instalação dos primeiros origenistas bem embaixo das barbas de Saba em um dos mosteiros por ele fundado – o Nova Laura – e sua súbita expansão após sua morte (532 d.C.). Seu biógrafo se esmerou por realçar suas qualidades pias, contudo pode ter equivocadamente passado a impressão de frouxidão. Cirilo até relata que Saba apresentara sua preocupação com o origenistas (e outros grupos heréticos) diretamente ao imperador Justiniano, que aparentemente nada fez contras os insubmissos na ocasião. Curiosamente, Saba peitou a imperatriz Teodora recusando-lhe dar uma bênção para engravidar.

Justiniano encontra Teodora

Não me lembro de nada disso nos clássicos greco-latinos

Somente após os origenistas palestinos partirem para a uma campanha de conquista de “corações e mentes” nos mosteiros da região é os ortodoxos buscaram apoio em Constantinopla, desencadeando o Sínodo de 543 d.C., que não passou de uma condenação protocolar. Os dez anos seguintes marcaram o apogeu do partido origenista da região, quando conseguiram manobrar massas para encurralar os ortodoxos em poucos redutos ainda fiéis. Apenas quando surgiu uma nova e firme liderança, aliada a um cisma entre os origenistas – com muitos deles retornando à Igreja – é que se iniciou a reação da ortodoxia. Por fim, outra vez a questão foi levada à capital, aproveitando-se do V Concílio, em pleno andamento. O origenismo fora condenado mais uma vez e, agora, com uma ação militar que desalojou os insubmissos de Nova Laura.

Li uma versão fatos um pouco diferente em outro cronista – Liberato de Cartago, também apresentado pelo mesmo artigo da Catholic Encyclopedia. Nela, o pedido de condenação a Orígenes em 543 não teria ido diretamente dos clérigos palestinos para Constantinopla, mas teve um intermediário – Pelágio, o “embaixador” da cúria romana em Constantinopla – que viu numa condenação a Orígenes a oportunidade para se vingar de um bispo da Ásia Menor: Teodoro Ascidas. Esse, além de origenista, também era monofisita, uma heresia cristológica que incomodava Roma. Pelágio conseguiu o que queria, mas Ascidas deu respondeu à altura: como o sínodo de 543 abriu precedente para anatematizações póstumas, ele sugeriu ao imperador que condenasse as obras de três teólogos acusados de nestorianismo (um deles antigo opositor de Orígenes) e assim angariar a simpatia dos monofisitas (cuja cristologia era incompatível com a dos nestorianos) e fazê-los voltar à comunhão com a Igreja. Com o auxílio de ninguém menos que a imperatriz Teodora (também monofisista), Ascida conseguiu seu intento. Contudo, apesar de realmente, sob um olhar posterior, terem flertado com o nestorianismo, esses teólogos morreram em paz com a Igreja; o que levou à rejeição do decreto imperial por muitos bispos. Começava a Questão dos Três Capítulos, a principal razão para a convocação do II Concílio de Constantinopla.

Ainda traduzi um pequeno trecho do tratado Em Defesa dos Três Capítulos, do bispo norte-africano Facundo de Hermiano, que, junto com Liberato, demonstra que a Igreja Latina não se importava nem um pouco com os origenistas, aliás, até se irritou com a confusão por eles provocada.

Apenas com esse (imenso) material, já era possível dar ao público uma boa ideia do que aconteceu tanto em Bizâncio como na Palestina do século VI, só que isso não era o bastante. Precisava destrinchar como a situação chegara àquele estado de contendas. Já havia descrito alguns vislumbres portal, baseado numa tese redigida em inglês pela Igreja Copta do Egito intitulada Deans of The School of Alexandria, cujo segundo volume trata de Orígenes. Decidi aprofundar um pouco mais a questão indo atrás das fontes por eles utilizadas e um nome muito citado era o de Henri Crouzel, um jesuíta francês e professor na Pontífica Universidade Gregoriana de Roma. Crouzel fez, de fato, uma pesquisa ampla e profunda, mas é preciso tomar certo cuidado com ele. Uma coisa é reconhecer que Orígenes tomou liberdades numa época em que a ortodoxia cristã ainda não estava plenamente definida em determinados pontos, outra é achar que tais liberdades ainda poderiam ser tidas por razoáveis numa época posterior. Houve um Pai da Igreja chamado Pânfilo, do começo do século IV, que procurou o mais possível apresentar o pensamento de Orígenes como ainda válido para a ortodoxia da época de Niceia e o que não fosse aproveitável seria obra da corrupção de seus escritos por hereges ou de uma leitura enviesada deles. Pânfilo fez escola nos séculos IV e V, legando dedicados defensores da memória de Orígenes, como Rufino, e Crouzel (falecido em 2003) é seu mais recente herdeiro. Procurando um estudo um pouco, digamos, menos “entusiasta”, deparei-me com The Origenist Controversy, Elizabeth Ann Clark. Já sabia, pela Catholic Encyclopedia, que houve duas “crises origenistas”: a segunda é a que os escritores espiritualistas adoram apontar com “a supressão da reencarnação no cristianismo”, sem o menor conhecimento do assunto, a primeira é geralmente desconsiderada por eles. A Catholic Encyclopedia a apresentava como um difuso embate entre teólogos dos séculos IV e V; precisava, portanto, aprofundar-me mais sobre esse período.

Foi uma frustração inicial seguida por grata e impressionante surpresa. Não encontrei nada acerca do Orígenes de carne e osso que viveu na Alexandria do século III, nem sobre os conflitos na Palestina do século VI. Ainda que não fossem da proposta do livro, mereceriam uma abordagem maior. Por outro lado, devo reconhecer que The Origenist Controversy é uma obra acadêmica feita para acadêmicos, ou ao menos estudantes; ou seja, gente que já conhecia algo do assunto, para os quais ela preferiu não repetir pormenores que já esperava que soubessem. Isso permitiu que ela focasse no período que vai do século IV a meados do V e daí que veio minha surpresa: não imaginava que daí viriam tão ricas discussões a respeito do velho Alexandrino. Para ser sincero, pouco se debateu acerca do Orígenes histórico, mas de como ele era lembrado por suas especulações numa época de consolidação do cristianismo como religião oficial. Assim, todos que procuravam estar do “lado certo” do pensamento religioso acusavam os adversários de alguma heresia; e um lugar comum se tornou a acusação de ser “origenista”, pouco importando se Orígenes concordaria com o acusado. Mal comparando, seria como alguém nos anos 60 do século XX ser tachado de comunistas por apenas demonstrar alguma preocupação com a questão social. Do outro lado, estavam os partidários de Orígenes tentando explicar que os verdadeiros hereges faziam mal uso do seu teólogo preferido. Chegou-se ao cúmulo de um mesmo texto seu poder ser usado tanto contra como a favor de sua reputação. No final, excetuando Pelágio e seus seguidores, nenhum dos antiorigenistas adversários conseguiu dar uma resposta à altura da dele para a questão do Problema Mal: o porquê de um Deus Bom ter criado um mundo de sofrimento. O melhor que se conseguiu foi a doutrina do “pecado original” de Agostinho de Hipona, que, de certa forma, é um leve origenismo, como observou a autora. Enfim, o II Concílio de Constantinopla empalidece diante da efervescência intelectual (e política) de 150 anos antes.

Teodora na corrida de bigas

Go, Theodora! Go!

Percebendo a complexidade do tema “Orígenes e Origenismo”, decidi fazer toda uma revisão profunda em torno do tema. Aproveitando-me de um câmbio monetário um pouco mais favorável, maltratei meu cartão de crédito como nunca em livrarias virtuais – como Amazon, Abe Books e Alibris – atrás muitas vezes de livros raros e/ou esgotados, cuja existência soube por meio de obras mais acessíveis. No rol das aquisições estavam exemplares da série Origeniana de colóquios, traduções inglesas de Orígenes mais recentes, confiáveis e comentadas que as já de domínio público da Internet, estudos sobre a teologia de Orígenes, obras de bizantinólogos famosos do passado (como J. B. Bury) e da atualidade (James A. S. Evans), biografias de Teodora, fontes primárias disponíveis apenas em livros físicos (como Crônicas, de João Malalas) e estudos sobre a evolução do cristianismo, em particular sobre o período do século IV ao VI. De posse de todo esse material, propus-me ao seguinte plano de desenvolvimento:

  1. Um sumário das teses de Orígenes, em especial sua teodiceia e soteriologia;

  2. O surgimento do “Orígenes lembrado” nos séculos IV e V que, no meio do cabo de guerra entre detratores e apoiadores, começava a se distanciar do indivíduo de carne e osso que andou pela Alexandria do século III;

  3. O superorigenismo dos místicos do deserto dos séculos V e VI, codificado no desconhecido e impressionante Livro de Hierotheos. Sinceramente, depois de ler suas páginas tenho certeza de que os espíritas não têm a menor, a mais ínfima noção do que estava em jogo ao se lamentarem pelo V Concílio;

  4. Uma apresentação do meio ambiente onde o origenismo e suas crias se evoluíram: o império romano em progressiva cristianização declínio, até a queda de sua metade ocidental ante os bárbaros;

  5. O pano de fundo em que a segunda crise origenista: o reinado de Justiniano no Oriente e sua tentativa de restauração de um império ao redor de toda orla do Mediterrâneo, unido espiritualmente por uma fé única e monolítica;

  6. Uma apresentação à imperatriz Teodora. Sinceramente, uma das maiores calúnias já feitas pelos movimentos espiritualistas foi contra esta pessoa. Já vi discretos alertas para que se interrompessem as acusações sem base, mas ainda estou por encontrar um sincero mea culpa por parte deles;

  7. Apresentação das fontes primárias da questão da prostituição e do tráfico de escravas sexuais no governo de Justiniano;

  8. Exposição das análises feitas por historiadores modernos (Paolo Cesaretti, J.A.S. Evans, etc.) sobre as duas questões acima e a conclusão: Justiniano e Teodora tentaram inicialmente extinguir o tráfico sexual por bem – comprando a liberdade das cativas e indenizando seus “credores” -, para depois, vendo que essa abordagem não surtira efeito, combater ferozmente traficantes e rufiões, ao passo que tentaram proteger as prostitutas, ainda que não da melhor forma;

  9. Apresentação das fontes primárias para o V Concílio Ecumênico. Exceção feita para o imenso relato de Cirilo de Citópolis, que é apenas descrito no corpo do texto e posto integralmente em um dos apêndices;

  10. Exposição de análises de historiadores (e de um espiritualista que estudou ao menos um mínimo) sobre o desenrolar dos fatos do V Concílio;

  11. Análise pormenorizada dos anátemas do sínodo de 543 d.C. e os do V Concílio para averiguar suas reais relações com as ideias originais de Orígenes ou com as de seus continuadores;

  12. Averiguação do real impacto da condenação de Orígenes no V Concílio na História do cristianismo. Resposta: nenhuma, pois o origenismo já não fazia mais parte da corrente principal dos cristianismo havia tempos;

O estudo foi publicado de forma folhetinesca, o que deu tempo para uma resposta espírita. Embora eu tenha visto uma considerável e positiva mudança de opinião, velhas práticas entre os autores espíritas persistiam, com nenhuma literatura especializada no Alexandrino sequer, muito menos a leitura direta de Orígenes ou de cronistas bizantinos. O próprio biógrafo de Teodora usado – Carlo Maria Franzero – estava mal traduzido em sua edição brasileira. Adicionei mais um capítulo rebatendo esses comentários e decidi incluir mais outros dois que foram frutos de um amadurecimento ocorrido durante a pesquisa. Primeiramente, houve a constatação de que Orígenes, Teodora e o V Concílio compunham, na verdade, um “mito auxiliar” para complementar outro mito, o de que o cristianismo primevo era uma espécie de protoespiritualismo, isso, sim, fundamental a muitos espíritas. A necessidade de mais um mito advinha de uma pergunta quase natural provocada pelo primeiro: “se a reencarnação estava entre os ensinamentos do cristianismo, por que foi abandonada?” Um curso alternativo da História – em que Orígenes chegasse inconteste ao século VI, Teodora agisse como louca sanguinária e a anatematização da preexistência fosse a questão central do V Concílio – viria bem a calhar.

Justiniano e Teodora in love

– Oh, “Justi”, não sabia que você era tão galante!
– É que andei lendo Ovídio fim de semana passado, querida.

O primeiro acréscimo girava em torno de um ensaio do historiador britânico Eric Hobsbawm (“Dentro e fora da História“) sobre diversas tentativas de políticos, ideólogos e religiosos de moldar o passado à própria imagem e semelhança. Sua maior sacada está aqui resumida:

O passado legitima. O passado fornece um pano de fundo mais glorioso para um presente que não tem muito o que comemorar.

Uma síntese que cai como uma luva para as mistificações em torno do V Concílio. O segundo “extra” foi uma busca pelo real passado do cristianismo, pelo que as primeiras gerações de cristãos realmente ansiavam. Ajudou-me nisso o “maior biblista do mundo” (aspas, pois são palavras de Klés) Bart Ehrman, que em seu livro Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millennium (sem tradução em português, creio), expôs o caráter apocalíptico da mensagem evangélica, que me convenceu. Sei que existem outras visões quanto ao Jesus Histórico, mas mesmo esses pesquisadores alternativos (como os do Jesus Seminar) concordam que João Batista, Paulo de Tarso e a comunidade marcana foram apocalipsistas. Aí que está o X da questão: se os primeiros cristãos acreditavam que o cosmos, tal como o conhecemos, chegaria a um término em pouco tempo com a instauração do Reino de Deus, então a reencarnação perdia a razão de ser. Foi esse contexto histórico que me propus a resumir no segundo extra.

Encerrei o estudo falando sucintamente do destino do Império Romano do Oriente no longo prazo, com o sonho de Justiniano de um novo Mare Nostrum destruído por sucessivas invasões, bem como o de uma Igreja unida sob o Patriarcado de Constantinopla. Nesse caso, o movimento monofisita prosseguiu firme e forte na Síria e no Egito, onde se beneficiou imensamente da conquista islâmica. Contudo seus libertadores terminaram por asfixiar lentamente os antigos protegidos de Teodora, em razão de um fluxo contínuo de conversões ao Islã. Se por um lado esses dois sonhos se extinguiram como o fogo de uma vela, também terminou gradualmente o pesadelo Orígenes. Redescoberto no Renascimento, suas apologias e comentários remanescentes o reabilitaram no seio da Igreja Católica, que hoje apenas deixa de lado seu papel de “teólogo investigativo”. Muito de sua obra se foi, com certeza, mas o resta ainda é impressionante. Lê-lo é como visitar um sítio de ruínas da Antiga Roma: tem-se a sensação paradoxal de se estar diante de uma grandeza ao mesmo tempo perdida e perene.

No total, foram quase três anos de trabalho exclusivos sobre o tema (novembro de 2007 a setembro de 2010), do quais não desenvolvi nenhum outro grande assunto no portal. Pelo contrário: esse artigo é que serviu de base para a melhora do portal. Foi algo que me encheu de orgulho por ter feito o que ninguém da intelligentsia se dispusera até então, aliás, eu acabara por realizar um serviço que deveria ter sido deles. Meu portal, que antes apenas catalogava e listava erros, pela primeira vez estava agregando conhecimento aos que o liam. Não chegou a ser uma pesquisa genuína – afinal nada de original foi apresentado sobre o tema -, mas senti que quase esgotara o material disponível sobre a questão. De certa forma, ficou faltado uma coisa: descobrir de onde surgiu o boato, algo um tanto difícil sem a colaboração dos espíritas que o repassaram, e não querem me ver nem pintado de ouro.

Justiniano e Teodora na meia-idade

– Que cara é essa, meu bem?
– Tive um sonho horrível: parecia que, num futuro distante, uma seita falaria mal de ti…
– Ah, querido! Você sabe como as seitas são: sempre querendo se apropriar do passado alheio.
– Hehe, tens razão.

Por mais que neguem, o boato desmascarado em Contendas do Deserto é um equivalente espírita do Homem de Piltdown dos biólogos. Não chegaram a abalar, respectivamente, os pilares do espiritismo (como gostariam muitos cristãos fundamentalistas), nem os da Teoria da Evolução (idem), porém demonstram o quanto de credulidade podem existir entre os “adeptos da razão”. A única diferença a apontar é que os próprios cientistas detectaram a fraude de Piltdown, ao passo que para o V Concílio e a reencarnação foi necessária a intervenção de um “detrator”. Nenhum biólogo mais tenta salvar as aparências daquele fóssil forjado, já quanto à história do V Concílio Ecumênico…

Esse trabalho me encheu de orgulho, o que, no fim das contas, não me foi muito benéfico.

Uma Descida ao Abismo

Poster de Breaking Bad

– Say my name!
– Cyrix.
– Goddamn right!

Durante o período de redação de Contendas do Deserto, encerraram-se as atividades do GeoCities, que fora incapaz de concorrer com o formato blog e outras modalidades de hospedagem. Migrei para o domínio “6te.net” e adotei o livro de visitas da DreamBook, o que foi muito bom, pois tinha agora um endereço mais enxuto e uma caixa de comentários eficiente. Paralelamente, afastei-me dos fóruns, postando uma ou outra trivialidade ocasionalmente em intervalos espaçados. Produzi até um boletim de atualizações numa área reservada do fórum Portal do Espírito para postagens “do contra”. Salvo uma forista, ninguém demonstrou maiores interesses. Contudo “não demonstrar” não significa “não possuir”, pois encontrava meus textos pela Internet afora. Um caso curioso se deu no fórum Ex-testemunhas de Jeová quando um forista, que, por sinal, havia conhecido do Portal do Espírito, usou meus textos sobre Orígenes, admitindo que era de “um site contrario ao espiritismo“, porém sem dar nenhum link para a fonte. Citava-me porque concordava parcialmente com ele, apesar de nossas diferenças, mas por que não me referenciava? Talvez para não aumentar o número de referências ao meu portal em motores de busca, ou uma simples referência seria como abrir uma “Caixa de Pandora” cheia de questionamentos embaraçosos. Senti-me como o vilão de Harry Potter, Voldemort: “Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado”. Só de provocação, cadastrei-me apenas para postar os links omitidos.

Finda a publicação de Contendas…, comecei a colher os frutos de um serviço bem feito. Era progressivamente mais citado na rede social Orkut que, com suas comunidades, havia substituído boa parte dos fóruns independentes e decidi acelerar o processo. Dessa vez, porém, não me envolveria em discussões propriamente ditas. Repetindo o que fizera no Ex-testemunhas…, buscava por discussões onde houvesse alguma menção a Teodora e Orígenes, lançava nelas o link para minha criação e deixava os contendores locais se digladiarem. Assuntos como “Teoria da Beleza” e vida extraterrena também eram bem prolíficos em acirradas flame wars.

– Mais um artigo pronto!
– Yeah, Mr. Cyrix, science!

Por essa época, tomei conhecimento que, pouco tempo antes, Klés lançara um livro com uma coletânea dos artigos de sua coluna. A crítica ao meu portal era logo uma das primeiras. Se eu já desfrutara de meus 15 minutos de fama anos antes em terras mineiras, agora podia já sonhar com alguma nota de rodapé na trajetória do espiritismo brasileiro. Aos poucos, o vaticínio que fizeram sobre meu pai se cumpria em mim, ainda que de uma forma bem torta. De certa forma, ajudei-o comprando um exemplar do livro e lhe reservando um lugar de destaque em minha estante, aberto justamente na página de meu interesse. Era estranho, mas esse reconhecimento a contragosto afagava meu ego como nunca e me desconfortava ao mesmo tempo. Algo como almejar a fama de um gangster: que me quisessem mal, contanto que falassem de mim.

No mundo real, paguei com frieza o desdém que recebi julguei receber nos meus tempos estudantis: qualquer pedido de ajuda dos familiares ainda envolvidos com o espiritismo era simplesmente desconsiderado se envolvesse assuntos dos seus respectivos centros. Mesmo a jantares beneficentes – com direito a churrasco e show de mágica – recusei-me atender. Havia particularmente um parente adepto de métodos coercitivos de “motivação” – uma semelhança flagrante entre religiosos e mafiosos – e, irritado com minhas negativas sucessivas, passou a me intimidar com insinuações de que uma temporada no umbral me purgaria de meu egoísmo. Engoli sapo uma ou duas vezes até que respondi com veemência: “Com certeza seria muito bom, pois assim ficaria livre e longe de hipócritas com você!” Ainda bem que havia mais pessoas por perto para acalmar os ânimos na ocasião.

I’m not in danger. I am the danger!

Meu campo de atuação até ensaiou se expandir um pouco, ocorrendo, inclusive, um convite de V. para fazer parte de um grupo de estudo da “hipótese sobrevivência”; algo que, em tempos modernos, representaria melhor o espírito (com o perdão do trocadilho) dos investigadores da segunda metade do século XIX e do começo do XX. Aproveito aqui a oportunidade para tecer minha desculpa a V. por não ter sido lá um membro dos mais atuantes. Embora eu reconheça a importância da iniciativa, simplesmente era uma área que não me empolgava. Cheguei a colaborar com a revisão da tradução de uma obra do final do século XIX – um estudo sobre a médium Leonora Piper -, mas minhas energias estavam focadas em projetos mais pessoais. Basicamente, ambicionava transformar Contendas do Deserto em livro. Não seria tarefa fácil, pois teria de situar o leitor no contexto do problema do revisionismo histórico do espiritualismo moderno e daí mostrar o que aconteceu de forma didática. A “didática” era o X da questão, afinal, não podia simplesmente tascar as inúmeras citações de pesquisadores e fontes primárias tal como fizera na internet. O objetivo não era mais esmagar apologistas e, sim, instruir e seduzir o leitor com uma história contada com minhas próprias palavras. Decidir o que deixar, o que tirar não era nada fácil, mas ainda assim continuava motivado: era uma chance que vislumbrava de sair de trás da tela e assumir meu nome verdadeiro, além de minha descrença, em grande estilo. Bem diferente do que meramente colocar em meu cartão de visitas o link para um portal especializado em catalogar erros e bancar o chato. As coisas não saíram exatamente como planejado, contudo.

Um baque veio numa reunião em família. Conversa vai, conversa vem, caímos no “assunto” remoção da reencarnação na Bíblia pela Igreja Católica. Sim, espíritas, new agers e ascensionados também possuem seus carolas, a se esquecem de que outros assuntos e, principalmente, outras vivências religiosas existem. O boato, daquela vez, mudara de Concílio, retrocedendo uns duzentos anos para o de Niceia. No caso, a remoção da reencarnação teria se dado pela escolha de um cânon livre de referências a ela, algo ao estilo O Código da Vinci. Tentei me conter, mas chegou a hora me que não suportei mais ouvir tamanha quantidade de abobrinhas e perguntei se alguém lera realmente as atas de tal Concílio. A composição do cânon sequer foi assunto tratado lá! Aproveitando a oportunidade de eu ter me manifestado, aquele parente com quem discutira antes voltou a provocar, insinuando não querer eu mais do que bancar um sabichão metido a historiador. “Antes isso que um ignorante como você” e comecei a relatar diversas das imposturas espíritas que havia catalogado ao longo dos anos, tudo cobrando explicações que ele era incapaz de fornecer. E jamais forneceria, afinal a discussão foi interrompida quando uma série de gemidos oriundos de um canto da sala chamou a atenção dos presentes, que, em seguida, lançaram seus olhares de reprovação em mim.

Breaking Bad, cena de Walter White confrontando seu reflexo deformado.

Eu tinha acabado de fazer alguém chorar.

Tentei, em vão, retratar-me, e, por fim fui, convidado a me retirar. Voltei para casa mais silencioso que um túmulo. Por dentro, ressoavam em meu ouvido o riso de meu desafeto e o choro de alguém que poderia muito bem ter dormido sem esse freak show. Naquela noite, o primeiro me incomodou mais; ao fim de uma semana, era o último. Era uma experiência que não os fóruns não podiam dar: a existência de alguém do outro lado da tela. Enquanto matutava sobre isso, eis que em minha caixa de comentários aparece Jaime – o subalterno de Kevin – cobrando que eu escrevesse algo sobre Elias e sua (suposta) reencarnação em João Batista. Dei-lhe como resposta algo que nas redes sociais de hoje poderia até ser chamado de “textão”, mas cujo efeito foi simplesmente o de lhe irritar. Ele insistia ad nauseam numa resposta binária para a questão, sem se mancar de que não falava com um crente. Para meu desgosto, um pequeno e infrutífero debate surgiu, sendo que no meio dele aparece uma curta mensagem de “Douglas” me atacando. Seria aquele mesmo Douglas que quis me ajudar durante minha “infiltração” no “Portal do Espírito”? Não conhecia outro, o fato de os dois estarem juntos não seria mera coincidência. Então, por que estava tão diferente? O que Kevin e seus asseclas fizeram com ele? O que eu fiz a ele?

A conversa acabou por pura saturação, como tantos outros embates sem mediação. Não julgo que fui mal, mas estava arrasado. Era esse tipo de gente que eu atraía: hipócritas querendo aumentar seu valor diminuindo o dos que lhes cercam, nanicos ambicionando parecerem mais altos me usando como escada e ex-empáticos transformados em inimigos? E quanto a quem eu repeli … ou magoei – mesmo não nunca tendo visto a vermelhidão em seus olhos -, que ganhei com isso? Por que Falhas do Espiritismo deveria continuar a existir, se tinha caído a ficha de resultados tão chifrins?

Skyler e Walter - último diálogo

Por alguns dias, tirei o portal do ar. Precisava encontrar ao menos algumas respostas.

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O Livro que Ninguém lerá

Cartaz de Mr. Holland - Adorável Professor

Afinal, o que é o sucesso? Sucesso para quem?

Foi uma espécie de crise existencial em menor escala. Pretendi bastante com o portal e, como uma facada no ego, não tive o retorno esperado. Sem contar que ele me tomava tempo, sim, o único ativo neste mundo que é irrecuperável; desperdiçado com algo que não me dava dinheiro, nem contatos (por uma postura minha), e que poderia ser gasto no convívio com os meus, aperfeiçoando-me profissionalmente, ou, simplesmente, em bons e saborosos momentos de ócio. Tentei me desintoxicar à maneira que diversos tabagistas tentam largar o cigarro: abstinência radical o quanto puder, porém sem direito a adesivos de nicotina. Tal como muitos deles, falhei miseravelmente. Não eram só os pensamentos a respeito dos artigos que ainda queria escrever, mas também uma reflexão sobre os já escritos: eram rasos, sem nada acrescentar além de apontar erros. A única exceção era Contendas do Deserto, mas mesmo ele não me agradava mais tanto assim. Seu crescimento um tanto desordenado, as misturas de pedantismo e falas coloquiais, além do fato de, no afã de ser exaustivo no tema, ser capaz de exaurir quem o lesse; davam-me vontade de refazê-lo do zero. Era, em parte, a proposta do livro que planejava escrever, mas se agora já não tinha tanta motivação, constatava que não tinha condições para redigir algo que prestasse. Seria uma versão cética dos mesmos sujeitos que criticava.

Prof. Holland na primeira devolução de provas corrigidas

– Suas notas foram horríveis!
– Graças ao senhor, mestre!

Eu precisava me reinventar se não quisesse perecer ante à malícia externa e ao inferno interior que eu mesmo criei. Começando pela casca, abandonei o formato “puro html” do “6te.net” – que já estava irritando com seus anúncios e pop-ups – e comecei a migrar meu conteúdo para um blog do WordPress. Escolhi um tema elegante e enxuto, pagando por um domínio “.org” para possuir um link mais compacto e me ver livre de propagandas. Enfim, o novo “Falhas do Espiritismo” tinha de ser agradável à visão do leitor. Como lema, subintitulei-o com os dizeres “entender, desconstruir, reconstruir“. Sim, confesso que o plagiei de uma animação japonesa – outro escapismo meu – e não me envergonho: tinha tudo a ver com a nova proposta, embora o contexto fosse outro.

Primeiramente, entender por que uma falha, equívoco, engano, etc. ocorre. Todo erro tem uma história para contar, as motivações de seus personagens, o ponto de partida que tiveram, as bifurcações com que se depararam e, claro, as escolhas que tomaram. A escola nos dá a ilusão de um progresso linear do conhecimento quando, na verdade, aquilo que chamamos de Ciência deveria ser apelidado de “cemitério de ideias”: uma imensidão de equívocos oriundos de uma eterna “bateção” de cabeças. Kardec estava preso no século XIX, então o que era tido por científico naquela época? Quais eram os principais programas de pesquisa, suas dúvidas e escolas concorrentes? Simplesmente apontar-lhe erros é não deixar ao cidadão do Segundo Império Francês a oportunidade de falar por si mesmo.

Mr. Holland ensina a uma aluna a tocar clarinete

– Por que não consigo tocar esta passagem?
– Você está com tanto medo de errar que se esquece de se divertir.

Existe, também, o atemporal fator humano. Os que dão ao Codificador o atributo de “Bom Senso Encarnado” mal têm ideia do quão há de enganoso nesse título. Podemos ser tudo, menos genuínos animais racionais capazes de discernimento imparcial. A Emoção e a Intuição são as verdadeiras molas mestras de nossa existência. Aquilo que chamamos de “racionalidade” é apenas uma ferramenta a serviço dessas duas; que pode usada para arranjar comida, traçar estratégias com o inimigo, alcançar status num grupo, codificar uma nova doutrina ou escrever um blog. Enfim, a razão serve para descobrir a melhor maneira de dar vazão a nossas fortíssimas paixões. Kardec, Léon Denis, “Klés” e “Kevin”, nenhum deles esteve imune à própria condição humana que lhes antolha a vista, dá falsas heurísticas, muitas convicções e poucas provas. Tudo metodicamente explicado e justificado. Entender por que caímos nessas armadilhas com o devido cuidado para não tropeçar em outras é um outro desafio do “entendimento”.

desconstruir é um pouco mais complicado. Isso poderia até ser um sinônimo pós-moderno para “crítica construtiva”, se não fosse o problema de inexistir tal coisa. Afinal de contas, toda crítica visa destruir. Por outro lado há destruições e destruições: pode-se usar dinamite para explodir uma construção ou retirar-lhe tijolo por tijolo. Isso implicou, para mim, em revisar cada um dos artigos. Como não gostaria mais de ferir corações sensíveis, reduzi bastante o grau de ironia e sarcasmo (para não dizer deboche, mesmo) que um dia aqui abundou. Alguns comentários continuam a apontar a presença de um tom que lhes desagrada. A seus autores, respondo que já foi bem pior.

Qual o valor disto, professor?

– Professor, é o seguinte: todos os livros que concordam com a Codificação são desnecessários, os que discordam são horríveis, então…
– Pode parar, rapaz! Na última vez que alguém falou algo assim, começou a Idade das Trevas.

Por outro lado, não tenho a menor intenção de proteger egos sensíveis. Até porque seria muita pretensão querer estar de bem com todo mundo, ainda mais quando credibilidades são postas em xeque, reputações questionadas, falta de solidez nos argumentos evidenciada e, principalmente, as “vacas sagradas” de muitos são transformadas em churrasco. Por mais que eu tente separar as pessoas de suas obras, é difícil alguém não se ressentir. Ou que um terceiro tome suas dores e tente justiçá-lo. Em ambos os casos estão envolvidos sentimentos de vergonha e humilhação, quer contra si mesmo ou contra a comunidade à qual pertence.

Já me apoquentei um bocado com tal situação, mas hoje estou mais tranquilo e até me divirto um pouco. Reparei, muitas vezes, que suas reações não são contra mim, mas direcionadas a uma visão distorcida que tem a meu respeito. Uma caricatura mais fácil de responder, carente dos pontos mais espinhosos apontados pelo original, cujas críticas objetivas sequer são ao menos explicitamente enunciadas em diversas ocasiões. Assim é tão mais fácil…

Holland e seu adversário

– Nosso grão-mestre-articulista-mor vai acabar contigo!
– Quando ele aprender a interpretar textos, quem sabe…

Se apenas ficasse refutando textos como na época dos fóruns, jamais partiria para reconstruir. Para tanto, posso dizer que Contendas do Deserto me ajudou, não exatamente com seu material, mas como modelo. No princípio, não fazia coisas muito diferentes das que encontrei no fatídico O Império das Seitas: catalogar erros e zombar. Com os próprios pressupostos que assumi acima, decidi partir em busca das histórias por trás desses erros – em que pé estava a ciência vitoriana, o que significava ser cristão no tempo dos apóstolos, a razão de certas opções equivocadas serem tão sedutoras, etc. – para depois analisar porque é tentador se apropriar de um passado que nunca existiu numa forma de autoafirmação. Acredito que, não só para o espiritismo como para qualquer filosofia ou ideologia, será mais producente buscar uma identidade própria mirando no futuro, no lugar de sair atrás de uma mítica “Era de Ouro” ou “Paraíso Perdido”.

Em seguida, cada artigo, quando possível, deve vir com uma explanação sobre o que é agora considerado o certo e por quê. Parece simples, mas nem sempre o é, afinal, pela nossa educação escolar, temos a ilusão de um desenvolvimento linear da ciência, numa acumulação de conhecimento sempre crescente. Pouco se fala dos “becos sem saída” ou das ideias estapafúrdias outrora respeitáveis, embora constituam grossa parte do que a humanidade já pensou. Enfim, é preciso “contar histórias” de forma simples sem perder o rigor, o que acrescenta mais um desafio a ser vencido. O resultado final são artigos, em média, bem maiores, uma redação melhor elaborada e um intervalo bem mais longo entre um artigo concluído e outro. Sem contar que brindo meus leitores com uma bibliografia bem mais profunda e farta ao final de cada artigo, para que possam prosseguir com seus próprios pés.

ensinando o ritmo

– Me disseram que, quando o espiritismo concorda com a Ciência, só fica demonstrado o quanto ele é demais. Quando discorda, é porque a Ciência é algo falível.
– Já entendi porque você voltou aqui para aprender os passos básicos de Ciência.

Paulatinamente, os resultados começaram a surgir na forma de retornos positivos de meus leitores. Poucos, mas ainda assim significativos comentários interessados – como o seu – indicam que meu novo direcionamento ao menos é melhor que o anterior, pois nos tempos do GeoCities eles praticamente inexistiam: ou eram críticas iradas de espíritas ressentidos ou elogios de fanáticos cristãos “tradicionais” e céticos militantes. Houve, inclusive algumas propostas de parcerias, locais de hospedagem e até financiamento para publicações. Alguns declinei polidamente, outros (desculpem) sequer respondi. A todos digo, agora, que Falhas do Espiritismo é um projeto pessoal e intransferível: é minha forma de vivenciar a religiosidade e desejo plena liberdade nisso, mesmo que implique em tocá-lo sozinho. Não é por mal, nem por esnobismo, apenas prefiro as coisas assim. Há outras formas pelas quais posso ser ajudado, sem que eu me sinta afetado por riscos de ingerências.

Holland recebe proposta inusitada.

– Venha comigo, professor. Com minha voz e sua música seremos uma dupla imbatível.
– Desculpe, querida, mas acho que isso vai dar ruim. Muito ruim.

Infelizmente, em uma coisa vou te decepcionar: jamais irei muito a fundo na tarefa de reconstruir. Justamente por minha postura de “lobo solitário”, o trabalho se torna gigantesco demais para mim, e nem Kardec fez tudo sozinho. O máximo que pretendi fazer é um pouco de terraplanagem e fincar alguns alicerces para os que viessem a auxiliar os que realmente estivesse a fim. Só isso já consome tanto de meu “tempo inútil” (como dizia o utilíssimo Kevin) que desisti de redigir meu ambicioso livro. Contudo, ainda sonho que ele seja concluído, não por mim exatamente, mas por todos aqueles leitores a quem eu conseguir cativar. Quero que ninguém passe por aqui ileso, que sentimentos de amor e ódio permeiem a todos, nunca a indiferença. Assim terei marcado seus corações de alguma forma. Tal como na parábola do semeador, sei que a maioria das sementes que eu lançar em nada dará, porém cruzo os dedos desejoso em viver o suficiente para topar pelas andanças da vida com algumas das que vingarão.

Holland: reencontros

“Humm, conheço essa ruiva de algum lugar…”

Também sei que muitas delas serão ervas daninhas loucas para me envenenar lentamente. Fazer o quê: ao arrancar ídolos de pedestais é óbvio que seus adoradores iriam gemer, ainda mais quando caem em cima deles. Não há muito o que fazer quanto a eles. Por outro lado, aposto que muitos dos “irados” na verdade estão apenas perplexos, que, uma vez passado o impacto inicial, podem começar a me dar razão em alguns pontos após investigar por conta própria, tentando contra-atacar. Conto com a colaboração inclusive deles para que a proposta de Falhas do Espiritismo se torne uma grande obra coletiva e fique maior que qualquer coisa já imaginada desde quando aqui comecei.

Enfim, quando as luzes se apagarem e o pano descer em meio a uma cacofonia de vaias, eu gostaria de poder ouvir ao fundo os lábios que verdadeiramente me entenderam:

Mr. Holland rege a Sinfonia Americana.

Bravo! Bravo!

Assim, creio que metade ou mais de minha vida não terá sido vão. A torcida contra é grande, mas estou esperançoso porque, graças à nova abordagem tomada, não preciso vencer. Basta apenas existir e persistir, pois a intransigência dos fanáticos idólatras só fará o tempo jogar a meu favor.

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Quatorze Anos depois

Caesar e seu filho

Sinto que falta algo, você também não? Não teria chegado até aqui se simplesmente minha motivação fosse externa, uma vontade de ver o Espiritismo mais dinâmico. Eu poderia simplesmente reconhecer que ele perdeu o bonde da história e seguir em frente. Não me é tão fácil. Sinceramente, acho que ainda sou assombrado pelas mensagens da segunda parte de O Céu e o Inferno ou das regiões umbralinas da literatura posterior. A distorção apropriação que o espiritismo fez da terceira Lei de Newton nunca me desceu pela goela. O destino dos suicidas – com direito a uma região trevosa especial para eles onde são tratados como os piores dos criminosos em vez de pessoas necessitadas de ajuda – é simplesmente horrorizante. Enfim, a solução para o Problema do Mal talvez seja o que mais me desagrade, no fundo.

Caesar dentro da jauna no santuário símio.

Talvez eu não quisesse aceitar a solução espírita sem que alguém me desse garantias de não estar sendo enganado. Vendo o majestoso edifício kardecista ter tantas rachaduras, ficaria aliviado se o que não consigo averiguar – sua soteriologia – fosse comprometido pelos buracos do “Consenso Universal dos Espíritos”. Ironicamente, as propaladas pesquisas de Ian Stevenson não indicam a existência de um “karma retributivo” ou de um vale dos suicidas. Óbvio que ninguém mete o dedo nessas discrepâncias dentro do movimento enquanto enaltecem seus “casos sugestivos de reencarnação”.

Uma hora acordo desses pesadelos e inspeciono esses ecos do passado, só para constatar que, em meu íntimo, eu sou e sempre serei espírita. Por mais que tente renegá-lo, por mais que me esforce para que me chamem de detrator, essa é minha identidade. Não é possível arrancá-la de mim. Só me resta reelaborá-la.

Caesar vê imagens da infância em seu antigo quarto (no sótão)

Aconteça o que acontecer, sempre me lembrarei de onde vim. Com direito a um sorriso nostálgico.

Vila dos Macacos

Nesse meio tempo, procurei novos ambientes, fiz novos amigos e, com o passar dos anos, a presença do Espiritismo ficou um tanto tênue em meu cotidiano e só não desapareceu de vez pelos parentes espíritas que possuo, mas com os quais já não convivo tanto. Um mundo se abriu, de certa forma, pois conheci novas maneiras de vivenciar a fé; particularmente a busca pela transcendência, algo desconhecido em Centros Espíritas (pelo menos nos que adentrei) e que embasbaca até este descrente que vos fala. Também foi com eles que passei a compreender a mitologia cristã, que é fundamental para a compreensão da História do Ocidente. Jamais aprenderia isso com livros preocupados em (autodefensivamente) demolir esses mitos em vez de explicá-los a leigos.

Caesar e Koba

E, ainda, sou muito grato a um segmento dos cristãos, pois partiram dele as mãos que se estenderam quando eu mais precisava. Se foi uma ajuda de interesse missionário, que seja. Os religiosos que conheci antes deles achavam ser de minha única responsabilidade me reerguer, ainda que estivesse com as pernas quebradas. Jamais esquecerei ambas as atitudes.

Koba

Conheci entre eles indivíduos sofridos, cada um a sua maneira. Muitos deles só não fizeram besteira pela fé que adotaram. Não me admira que, quando a viram ser vilipendiada, acusada de inculta e mentirosa; tenham ficado refratários a qualquer ideia vinda de grupos externos, ainda mais de um que lhes queira tomar o lugar como “verdadeiro cristianismo”. Embora o material deste portal não lhes sirva completamente, sou de pleno acordo que utilizem a parte que lhe adequar em sua própria defesa apologética, afinal eles terão sido as vítimas.

Exército símio encara a colônia humana

Minha ajuda talvez nem seja tão mais necessária assim. Eles estão alcançando seus irmãos norte-americanos e já desenvolveram seu próprio núcleo de elite, sendo capazes de se defender intelectualmente em grande parte sozinhos. A arraia miúda é que ainda apanha em discussões virtuais, o que dá aos apologistas da ortodoxia espírita uma falsa sensação de força. Às vezes, pergunto-me se possuo um prazer sádico em destronar presunçosos. Talvez eu e Kevin tenhamos mais em comum do que imaginemos, incluindo nosso jeito de extravasar o excesso de testosterona. A questão é como sublimar isso?

Caesar enfrenta Koba

Por outro lado, também sei que vítimas e algozes têm o estranho hábito de trocar constantemente de posições. É tudo uma questão de quem tem a oportunidade de estar com o poder. Nessa hora, meu passado me chamará e hei de enfrentar meus novos companheiros. Essa briga já dura mais de 150 anos e acho que as atuais gerações sequer lembram quem começou o quê.

Caesar e Cornelia

Nesse ínterim, casei com uma mulher não espírita e isso me fez bem, entre outras coisas, ao me afastar um pouco de discussões familiares. A religiosidade dela não me incomoda, enquanto mantenho um respeitoso agnosticismo “não praticante”. Se eu me relacionaria com uma espírita … bem, estaria mentindo se dissesse que não rolaram alguns flertes em meus tempo de mocidade. Por sorte saí antes que algum ficasse sério demais. Minhas divergências com o movimento seriam uma pedrinha no sapato a corroer lentamente qualquer possível relacionamento afetivo. Reconheço que minha calmaria atual pode ser ilusória. Como um lago plácido, porém cheio de lodo no fundo, basta uma pedra bem arremessada para fazer toda a sujeira aflorar à superfície. Sabe, parte de mim quer “chutar o balde”, assumir meu nome verdadeiro e encarar as consequências, dentre elas a rejeição definitiva e (talvez) recíproca de metade de minha família. A outra quer “deixar quieto”, sublimar e apaziguar.

Difícil. Em mais de uma década fiz churrasco das “vacas sagradas” do Espiritismo. A maioria dos espíritas – os seguros de sua fé – simplesmente tocará sua vida sem me importunar. Já os ressentidos não irão perdoar. Para esses, deixar-me impune será um crime maior que o de se suicidar. Bem, se é para enxergar um lado bom, então de alguma forma para eles sou importante, antes o ódio que a indiferença.

Caesar se despede de Malcolm

Agora, a você, Fred, ou a qualquer um que tenha aguentado até aqui ouvindo meus lamentos, é chegada a hora de nos despedirmos.

Caesar eh chamado pelo sacerdote

Sei que é um tanto abrupto, mas espero que compreenda que estou sendo chamado com certa urgência.

O nascimento de Milo

Afinal, o ciclo da vida está para completar mais uma volta. Tenho fé (fé cega, mesmo) nesta nova geração. Que eles sejam os próximos trabalhadores da última hora e saibamos lhes ceder o lugar.

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Réquiem

Will Rodman e Caesar

A distância traz a saudade, nunca o esquecimento.

Adeus, professor!
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