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A Perda da Fé: o Alto Preço da Liberdade (em construção)

17 de novembro de 2018 Comentários desligados

Felipe Morel Wilkon: sob nova direção

O processo que eu vivi, outros poderão viver também, aliás tenho recebido contatos de alguns que o estão vivenciando agora as dúvidas e angústias que já experimentei antes. Cada caso é um caso, embora paralelos sempre possam ser feitos. Na primeira década do século o “ex-pírita” Carlos “APODman” Bella chegou a ter algum destaque em programas de televisivos como “Superpop” (apresentado por Luciana Gimenez), além de dar uma contribuição fundamental nos meios virtuais ao nascente movimento cético brasileiro. Mais recentemente, causou certo burburinho o desligamento do Movimento Espírita de Felipe Morel Wilkon – profícuo palestrante e dono de conceituado canal no YouTube -, que não apenas deixou o movimento como fez questão de metodicamente enumerar, em um novo canal, as razões que o levaram a tal atitude.

Em ambos os caso, temos indivíduos estudiosos não apenas da doutrina, mas também portadores de vasto cabedal intelectual, que começaram a notar sérias rachaduras no suntuoso edifício erguido por Allan Kardec. Ao invés de abraçarem alguma espécie de “duplipensar” ou culpar o preconceito do establishment científico, eles resolveram a dissonância cognitiva que lhes afligia decidindo que o erro estava no colo do Movimento Espírita. Ato contínuo, salpicaram dúvidas de que teriam sido “espíritas de verdade” ou se “vivenciaram a doutrina” no lugar de apenas estudá-la. Enfim, imputaram-lhes a versão espírita da “falácia do escocês”.

Este artigo, contudo, não tratará deles. Tomei-os apenas como exemplos da mídia para que meus leitores, digamos, mais perplexos já saibam de antemão que não estão sós. Nem falarei de Waldo Vieira, cujos motivos da “deserção” aparentam ter sido de outra ordem. Só posso falar de mim mesmo, do que passei, do que lhes espera, e, apesar de tudo, ainda tentar lhes dar ânimo para seguir em frente.

Espíritas, instruí-vos (pero no mucho…)

O recém falecido escritor espírita Richard Simonetti (que sua memória permaneça entre nós) já se aventurou na tarefa de lidar com os corações abalados pelo ceticismo. Vejamos o que ele tinha a dizer:

28 – ENSINO UNIVERSITÁRIO

1 – Por que há jovens espíritas que se sentem abalados em suas convicções ao entrar para os círculos universitários?
É que nunca assimilaram a Doutrina Espírita devidamente. Falta-lhes a base doutrinária. Por isso são facilmente influenciados pelo materialismo que impera ali.

2 – Considerando a cultura e a Inteligência dos catedráticos universitários, não seria razoável admitir que eles têm uma visão mais próxima da realidade, desvinculada de fantasias religiosas?
Se a premissa é falsa a conclusão nunca será verdadeira. Nenhum intelectual, por mais brilhante e erudito enxergará a realidade espiritual, se equivocadamente supõe que somos um aglomerado de ossos, carnes e músculos que pensa.

3 – Não obstante, são professores de grande poder de persuasão, apoiados em vasta cultura. Como enfrentar esse pressionamento?
Estudando a Doutrina Espírita, a partir da ideia fundamental: somos Espíritos eternos em trânsito pela Terra. O que disso se afastar, por mais deslumbrante seja o raciocínio, é absolutamente quimérico.

4 – Mas Isso não será sempre mera questão de fé Incompatível com a racionalidade que Impera nos círculos universitários?
A existência do Espírito está longe de ser mera questão de fé. Está demonstrada pela Ciência Espírita, a partir de “O Livro dos Médiuns”.

5 – Se eu me disser espírita, pretendendo explicar determinados fenômenos à luz da Doutrina, para demonstrar a realidade espiritual, vão rir de mim.
Menos mal. No passado matavam os cristãos pelo simples fato de proclamarem sua fé. Além do mais, você está subestimando o alcance da Doutrina Espírita. Há muita gente interessada dentro das universidades, até professores. Ninguém vai rir se você estiver bem consciente do que fala, com base doutrinária.

6 – O que se poderia fazer, dentro das universidades, em favor de estudantes espíritas?
Procure identificá-los. Formem grupos de estudos no campus, convidando colegas para debates. Convidem os professores. É preciso mostrar o alcance da Doutrina, que ilumina o entendimento humano, principalmente em relação às ciências psicológicas.

7 – E se encontrar resistência por parte da direção?
Não me parece provável. Isso seria de um obscurantismo incompatível com os tempos atuais. De qualquer forma, é impossível impedir que pessoas conversem. Podem até usar o método peripatético, de Aristóteles: debater ideias ao longo de uma caminhada pelo campus.

8 – Teremos futuramente universidades espíritas?

Talvez. O mais importante é que futuramente as universidades descobrirão o Espiritismo, principalmente em relação à Medicina e à Psicologia. Saber-se-á, então, que é impossível cuidar com eficiência de problemas físicos e psíquicos da criatura humana sem admitir a existência do Espírito imortal.

Extraído de “Não pise na Bola”

Agora que você já leu todo o capítulo, vamos “por partes” e descobrir por que o autor pisou na bola nesta questão:

1 – Por que há jovens espíritas que se sentem abalados em suas convicções ao entrar para os círculos universitários?
É que nunca assimilaram a Doutrina Espírita devidamente. Falta-lhes a base doutrinária. Por isso são facilmente influenciados pelo materialismo que impera ali.

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A Profissão – por Isaac Asimov

6 de agosto de 2018 2 comentários

Capa de Astounding Science Fiction, novembro de 1957

este conto integra o livro Nove Amanhãs

traduzido e adaptado por Sérgio Coelho*

Terra, 30 de abril de 6551. George Platen mal se continha de ansiedade e ressentimento. No dia seguinte, como todos os anos, 1.500 mundos habitados iriam participar das Olimpíadas, nas quais “técnicos registrados” se confrontariam em uma prova de habilidades, sendo que os melhores em cada profissão iriam ser convocados para trabalhar nos mundos superiores, como Nóvia. Mas George não poderia participar.

Desde criança, George demonstrara algumas esquisitices. Queria ser programador de computadores, porque achava que sempre seriam necessários, independentemente das profissões da moda. Seu vizinho, principal amigo e rival, Trevelyan, queria ser metalúrgico como seu pai e avô haviam sido antes dele. Só que, havia mais de 1.500 anos, as pessoas não escolhiam mais aquilo que gostariam de ser. O sistema de ensino havia se desenvolvido tanto que se tornara instantâneo.

Todo mês de novembro, os jovens que completavam 18 anos passavam pelo Dia da Instrução, quando tinham seus cérebros vasculhados por grandes máquinas capazes de reconhecer para que tipo de profissão eles eram mais aptos, e programá-los para ela através de fitas pré-gravadas. De um dia para o outro, eles se tornavam “técnicos registrados”, sabendo tudo o que era preciso para ganhar a vida, sem poder decidir sobre isso – da mesma forma que, dez anos antes, haviam passado pelo “Dia da Leitura”, quando aprendiam a ler, também instantaneamente.

As Olimpíadas existiam, então, para que se classificassem aqueles que iriam trabalhar em mundos mais evoluídos. Desde criança George se preparava para ir para o melhor deles, Nóvia, chegando até – coisa esquisita – a estudar computação por conta própria, em antigos livros que ninguém mais usava, querendo aumentar as sua chances. No Dia da Leitura, porém, já havia surgido um primeiro sinal: os técnicos demoraram um pouco mais para fazê-lo ler, parecendo intrigados com seu caso.

Mas no Dia da Instrução, a desgraça caiu sobre ele. Depois de uma disputa acirrada na fila de espera com seu rival Trevelyan, para saber quem iria ter uma profissão mais nobre, George entrou na máquina, ansioso, e recebeu um resultado ainda pior do que poderia imaginar. Simplesmente seu cérebro não podia ser lido pela máquina: não era apto a absorver nenhum conhecimento em especial. George era um desadaptado para o mundo perfeito do século 60.

George então é encaminhado em segredo para uma instituição especial, que lhe dizem ser uma casa para débeis mentais, onde ele tem que aprender lentamente, através de livros. Dizem também que ele é “um protegido do planeta” mas nada o consola. Pensa que “não passaria nunca disso. Seria uma adolescente por toda a vida. Um pré-instruído eterno, e para ele teriam que ser escritos livros especiais”.

George Platen, como 18 anos, tem que ficar morando em um quarto junto com Omani, que tem 30, o mesmo problema que ele, mas parecendo não se importar.

Quando chega a época das Olimpíadas, George se revolta. Não consegue esquecer que, no Dia da Instrução, caíra na besteira de ter se vangloriado diante do técnico de que havia tentado aprender por conta própria. Acha que tudo é uma vingança dos burocratas por ele ter tentado burlar as regras, e quer provar para o mundo que não é débil mental. Por isso, toma a iniciativa de sair da instituição, depois de um ano de reclusão, e ir até um centro olímpico, encontrar alguém importante que o escute.

Para a sua surpresa, ninguém o impede de sair, e também não tem nenhuma dificuldade em tomar um avião. Por coincidência, chega ao mesmo centro no qual seu antigo colega Trevelyan – agora um metalúrgico registrado, como imaginou que seria – compete para poder ir trabalhar em Nóvia.

No estádio imenso, cheio de uma torcida histérica, George está desamparado. Lembra de repente que, quando criança, fizera uma pergunta que ninguém soube responder: por que chamam isso de Olimpíada? De onde veio esse nome? Qual a razão de tudo isso? O seu pai simplesmente dissera: “Não faça perguntas bobas. Quando for instruído saberá tudo o que for preciso saber”, e ninguém poderia imaginar a possibilidade de ele nunca vir a ser instruído.

Cada competido tem que analisar uma barra de liga não-ferrosa e descobrir sua composição exata, usando um “microespectógrafo Beeman”. Trevelyan não consegue ficar entre os três primeiros, e tem de desistir de Nóvia. Quando encontra George, no final da competição, fica um pouco surpreso, mas não desconfia de que seu amigo agora é um “fora-da-lei”, porque está muito preocupado em reclamar da injustiça que sofreu.

Como Trevelyan tivesse vindo de uma cidade pequena, suas fitas de instrução o haviam habilitado para o uso de máquinas Hensler, menos sofisticadas que as Beeman de última geração, que eram usadas em Nóvia. Ele sabia disso, mas mesmo assim insistiu em tentar concorrer para Nóvia. Ingenuamente, George pergunta: “Se você sabia com antecedência que seriam usadas Beemans, não poderia ter estudado sobre elas em livros?”. Trevelyan acha a proposta tão estranha, que deduz que seu antigo rival está querendo gozá-lo. Puxa uma briga, como nos velhos tempos, e o policial que vem apartar a luta está pronto descobrir sobre George, quando … surge um senhor grisalho e mostra uma carteira ao policial, que se afasta rapidamente. Esse senhor é um sociólogo registrado, Ingenescu, que estivera observando George havia algum tempo. Convida George para jantar em seu hotel, e explica-lhe por quê, por ser desadaptado, era tão importante: “Sociólogos trabalham com sociedades e sociedades são compostas de pessoas. Mas pessoas não são máquinas. Os profissionais das ciências físicas trabalham com máquinas. Há apenas uma quantidade limitada de coisas a saber a respeito de uma máquina, e os profissionais sabem tudo a seu respeito. Além do mais, todas as máquinas de determinada espécie são extremamente parecidas, de modo que não há nada que lhes interesse especialmente em determinada máquina. Mas as pessoas … bem, tratam-se de estruturas tão complexas e diferentes umas das outras, que um sociólogo nunca é capaz de saber tudo ou mesmo uma boa parte do que há para saber. Para compreender sua especialidade ele deve estar sempre pronto a estudar as pessoas, especialmente os espécimes incomuns”.

Sentindo-se valorizado pela primeira vez, George pede a Ingenescu para falar com uma noviano por “visofone”, privilégio de poucos terráqueos, para poder provar que ele não é um inútil. O sociólogo aceita.

O noviano é uma figura totalmente desprezível, pretensioso e meio bêbado, que fica ridicularizando Ingenescu por a Terra ser um “supermercado mental”, que vive trocando de modelos para obrigar Nóvia a vir fazer compras todos os anos. Ele mesmo, naquele dia, havia contratado três novos metalúrgicos que só diferiam dos modelos antigos por uma pequeno detalhe: o fato de conhecerem os espectrógrafos Beeman.

Neste momento, para espanto do noviano, George pede para interferir na conversa, e lhe apresenta sua ideia de “instruir sem fitas”, para que os metalúrgicos pudessem pensar por conta própria, sem que fosse preciso substituí-los. A princípio divertido, o noviano vai se irritando com essa ideia de “pensadores originais”, e, alegando que isso não seria prático, desliga na cara de George.

George, que havia chegado muito perto da realização de seu sonho, se desespera. Ingenescu tenta consolá-lo, e de repente George percebe que o sociólogo o chama pelo seu nome, sem que ele tivesse dito – tudo era um grande complô, e ele vinha sendo observado desde que saiu da “casa para débeis mentais”. Desesperado, grita: “Eu não sou débil mental! O mundo inteiro é, mas eu não!”. Dois policiais aparecem e o anestesiam.

Quando George Platen acorda, está de novo ao lado de Omani, na Casa. De repente, tudo fica claro. Percebe que aquilo que estava querendo propor ao noviano, uma lugar que concentrasse homens e mulheres com pensamentos originais, já existia: a própria Casa. Omani confirma, e revela que o verdadeiro nome da Casa é Instituto para Estudos Superiores. “Por que não me disseram isso desde o início?”, pergunta George. Omani responde: “Podemos analisar uma mente e dizer que esta dará um bom arquiteto e aquela um bom entalhador. Não somos capazes, porém, de detectar a capacidade para pensamentos originais e ideias criativas…”.

“No Dia da Instrução, um em cada 100 mil apresenta a desadaptação que você apresentou, e são mandados para lugares como este aqui. Mas, mesmo depois dessa seleção, nove entre dez dos que vêm para cá não chegam a ser do tipo de material classificável como gênio criativo. Esses nove restantes recebem instrução por fita e acabam se tornando sociólogos registrados como Ingenescu, ou psicólogos, como eu. O décimo, ele mesmo tem que se revelar.”

“Nós trazemos todos para uma ‘casa para débeis mentais’, e aquele que não consegue aceitar isso é justamente o homem que procuramos. Pode ser um método cruel, mas funciona. Não adianta dizer a um homem: ‘Você é capaz de criar. Crie!’. É bem mais seguro esperar que o próprio homem diga: ‘Eu sou capaz de criar e vou fazê-lo, quer vocês queiram, quer não’. Há apenas 10 mil homens como você, George, que constituem a base para o avanço tecnológico de 1.500 mundos.”

George pensa na pergunta que nunca lhe haviam respondido: “por que” (e não “como são”) “as Olimpíadas?”. E descobre a grande responsabilidade que lhe cabe: inventar as novas fitas de instrução.

(*)[publicado em Escuta, Charlie Brown!, Moderna, 2a. ed., pp. 72-8]

* * *

E você, prezado leitor, qual a pergunta que fez e nunca lhe responderam em seu centro espírita (ou igreja, terreiro, sinagoga, mesquita, templo, etc.)?

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Ele chegou

11 de julho de 2017 6 comentários

Bem vindo

Bem, a imagem acima vale mais que mil palavras para explicar o que me aconteceu recentemente.

Não, não vou abandonar este portal, mas seu ritmo diminuirá muito.

A meu garoto, antes de mais nada, seja bem vindo! Sei que não pediu para existir, mas desde já obrigado existir em minha vida. Eu, que me considero uma ironia do destino ambulante, me pergunto o que será que você irá aprontar? Embora a promessa que fiz a tua mãe te coloque num caminho quase oposto ao que teu avô paterno imaginou para o futuro da família, sei bem que a capacidade dos pais em moldar os filhos é limitada. Do fundo do meu coração, espero que daqui a quinze anos, quem sabe até um pouco antes, você tenha uma baita de uma crise existencial. Brigue com o mundo, comigo e até com Deus, também. Só não magoe sua mãe, por favor. Depois, uma década ou duas mais à frente, vá se reconciliando, porém nos seus termos. Se voltar para mim, será sinal que não posso mais falar contigo como filho, e sim como igual. Quando não precisar mais de mim, então saberei que continua ao meu lado pelo prazer da companhia. Caso desenvolva novamente algum tipo de espiritualidade, tenho certeza de que ela não será mais a que as crianças aprendem nas aulas de catequese, escolas dominicais ou evangelizações. Não envolverá nenhuma das diversas divindades que a humanidade inventou, nem se apresentará de forma ininteligível no intuito de não ser questionada. Caso ela ainda contenha um deus pessoal, que seja um que não precise ser defendido, pois você poderá amá-lo sem temê-lo. Jamais acredite na sinceridade da fé de alguém que nunca tenha blasfemado.

Por que digo essas coisas? Simples: para que siga seu próprio caminho. O amadurecimento é um processo edipiano, i.e., é preciso que você me mate (simbolicamente, por favor) para que possa seguir em frente. E em sua “paternidade” estará tudo aquilo que receber pronto: a educação escolar, sua cultura, seus valores e seus medos. Quando se libertar disso, não recomeçará do zero: pegará nossos destroços e com eles pavimentará a estrada de seu destino. Não pense que não encontrará resistência do status quo, pois no calor da discussão, serei capaz de te deserdar; outros te prometerão o inferno na Terra ou no outro mundo. Mantenha-se firme, afinal sempre foram os hereges os responsáveis pela evolução cultural da humanidade.

Adaptando certa inscrição feita em famoso templo religioso da Espanha, reúna tudo o que veio antes de você para que venha a inspirar os que vierem depois.

PS: Ele tem seus olhos, meu velho!

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Prezado Hater

23 de junho de 2017 2 comentários

O Coronel, personagem de War for the Planet of the Apes

Enquanto redigia minhas memórias em “Prezado Fred“, recebi um e-mail de alguém meio desesperado:

Assunto: Alerta
Xxxxxx Xxxxxx Xxxxxxx <xxxxxxx@yahoo.com.br> <Nome completo do cidadão e e-mai>
Para Falhas Do Espiritismo
02/13/16 às 10:21 AM
Xxxxxxxx Xxxxxxx, <Meu nome>

Muito cuidado ao revelar assuntos referentes a minha vida particular, pois poderá se decepcionar com a verdade. Você pode estar sendo usando por pessoas que há muito tempo tentam me caluniar e difamar com objetivos escusos. Embora não saiba do conteúdo de muita coisa, informo que existem eventos que ainda não posso revelar, pois colocará pessoas próximas a mim em situações bem desconfortáveis. A história de minha vida já dá por si só um livro, mas existem ainda páginas em branco que precisam ser vividas, bem como eventos que aconteceram que somente quando eu aposentar, poderei revelar. Esta atitude sua poderá arranhar sua credibilidade na internet! Outrossim, a partir do ano que vem colocaremos seus argumentos à prova através do XXXXX <sigla de grupo apologético>, mas pouparemos sua identidade, visando somente seu conteúdo publicado. Este é o trato de nossa trilogia em resposta ao Falhas do Espiritismo!

Até breve!

Atenciosamente,

Xxxxxx <Primeiro nome do cidadão>

“A invencibilidade repousa na defesa, a vulnerabilidade revela-se no ataque”.
(Sun Tzu).

Visite: http://www.xxxxxx.org/

Bem, não intencionando tirar o leite das crianças, vou poupar sua identidade também, porém deixarei uma quantidade de dicas grande o suficiente para que seu “grupo” saiba com quem estão lidando, se é que por lá não há mais gente capaz de atitude semelhante. Acho que nenhum deles paga suas contas, não?

A Conspiração

Muito cuidado ao revelar assuntos referentes a minha vida particular, pois poderá se decepcionar com a verdade. Você pode estar sendo usando por pessoas que há muito tempo tentam me caluniar e difamar com objetivos escusos.

Sem nenhum dado tangível que valide sua alegação, sou tentado a pensar que os illuminati se aliaram aos reptilianos em seus planos de dominação mundial e você é a última barreira no caminho deles. Zoeiras à parte, tenho bons motivos para não acreditar em ti, afinal já te peguei distorcendo o conteúdo do material deste portal quando lhe convinha. Se você age assim com o que tenho pleno conhecimento, o que não faria com o que me é ignorado.

“Uma charada embrulhada num mistério dentro de um enigma”

Embora não saiba do conteúdo de muita coisa, informo que existem eventos que ainda não posso revelar, pois colocará pessoas próximas a mim em situações bem desconfortáveis.

Então seus segredos podem ser qualquer coisa, inclusive coisa nenhuma. Sei que não tem muitos motivos para confiar em mim, porém se quiser obter algo extra de mim terá de arriscar.

Algo (quase) em comum

A história de minha vida já dá por si só um livro, (…)

Sou cético de que esteja com essa bola toda.

(…)mas existem ainda páginas em branco que precisam ser vividas, bem como eventos que aconteceram que somente quando eu aposentar, poderei revelar.

Acho que você talvez agora entenda porque usei um pseudônimo. Você usou seu nome verdadeiro desde o início, às vezes o nome completo. Se tudo fosse bem, ganharia muitos bônus por sua iniciativa, porém me parece que não esteve preparado para algum ônus quando as coisas desandassem.

Apelando para meu Ego

Esta atitude sua poderá arranhar sua credibilidade na internet!

Que credibilidade, diga-me? Você tem RG e CPF, mas Cyrix nunca existiu, caso não tenha percebido. Posso me reinventar em outro pseudônimo quantas vezes quiser enquanto existir a Internet. Será uma “reencarnação sem morte”. De certa forma, fiz isso uma vez, apenas não troquei de nome artístico. Por outro lado, “Falhas do Espiritismo” nunca estará em meu Curriculum Vitae. Ele é satisfação (ou obsessão) pessoal, apenas isso. Minha verdadeira carreira passa léguas daqui.

Uma falsa modéstia

Outrossim, a partir do ano que vem colocaremos seus argumentos à prova através do XXXXX <sigla de grupo apologético>, mas pouparemos sua identidade, visando somente seu conteúdo publicado.

A primeira pessoa do plural foi empregada, portanto, pergunto: você e mais quem? Ou tudo não passa de um “plural de modéstia”, sendo uma questão de honra só sua me refutar? Isso me é importante, pois eu gostaria de saber se você é a única maçã (até agora) podre do seu grupo de apologistas ou se há mais. Digo podre porque agora sei…

… do que você é capaz

mas pouparemos sua identidade, visando somente seu conteúdo publicado. Este é o trato de nossa trilogia em resposta ao Falhas do Espiritismo!

“Chantagem” agora tem outro nome? Não existe trato com chantagistas. Cedo ou tarde eles farão outra demanda com a mesma moeda de troca. Então, meu caro, faça o que você quiser! Ainda que me constranja de início, vai me libertar no longo prazo, pois poderei finalmente sair das sombras e tonar o portal útil para mim. Quem sabe até profissionalizar-me.

Mau discípulo

Até breve!

Atenciosamente,

Xxxxxx <Primeiro nome do cidadão>

“A invencibilidade repousa na defesa, a vulnerabilidade revela-se no ataque”.
(Sun Tzu).

Visite: http://www.xxxxxx.org/

Por favor, não macule a memória de Sun Tzu com uma citação pinçada para fazer uma frase de efeito e fingir que é o tal. Em vez disso, faça uma citação longa, generosa e verdadeiramente instrutiva:

Capítulo IV – Disposições
Sun Tzu disse:

  1. Antigamente os guerreiros bem adestrados primeiro se faziam invencíveis para depois esperar o momento de vulnerabilidade do inimigo.

  2. A invencibilidade depende de nós mesmo; a vulnerabilidade do inimigo, dele;

  3. Segue-se que os homens conspícuos na guerra podem fazer-se invencíveis, mas não ter a certeza de provocar a vulnerabilidade do inimigo.

    Mei Yao-ch’en: Aquilo que depende de mim, eu o faço; aquilo que depende do inimigo, disso não estou certo.

  4. Por isso se disse que é possível saber vencer, mas não necessariamente conseguir vencer.

  5. A invencibilidade reside na defesa; a possibilidade de vitória no ataque.

  6. Defendemo-nos quando nossa força é insuficiente; atacamos quando ela é sobeja.

  7. Os peritos em defesa como que se escondem sob as nove camadas da terra; os versados no ataque movem-se como que acima das nove camadas do céu. Dessa forma mostram-se capazes de proteger-se e de obter uma vitória completa.

    Tu Yu: Os peritos na preparação de defesas acham fundamental contar com a força de obstáculos tais como montanhas, rios e encostas. Eles tornam impossível ao inimigo saber onde atacar. Como que se ocultam sob as nove camadas do solo.

    Os peritos na arte de desfechar ataques acham fundamental contar com as estações e as vantagens do terreno; provocam inundações e incêndios conforme a situação. Tornam impossível ao inimigo saber onde se entrincheirar. Lançam o ataque como se fora o raio vibrado do mais alto das nove camadas do céu.

    (. . .)

Sun Tzu, A Arte da Guerra, Paz e Terra, 1999, pp 45-6.

Com essa mensagem, demonstraste sua vulnerabilidade de forma lastimável. Já o fizeras antes numa pretensa refutação.

Diga “Cyrix” se for capaz!

Já que prontamente agiu ao me enviar a mensagem antes que eu adentrasse nas Flame Wars dos fóruns virtuais, presumo que estivesse me acompanhando de perto ou alguém te mantivesse a par. Isso demonstra, de alguma forma sou importante para ti, nem que seja como o detrator que ama odiar. É o que os anglófonos chamam de hate-watching. Calma, também procuro saber o que falam de mim por aí, e um belo dia encontrei um artigo seu longo e prolixo em que se gabava de suas “artes como debatedor”. Após um começo piegas em que o livro Torá: a Lei de Moisés é apresentado como ofertante prova da reencarnação na Bíblia nos versículos Ex 20:5 e 34:7 numa fatídica livraria, começo a ler parágrafos que aparentam ser respostas a argumentos meus contra Severino Celestino da Silva. Até aí tudo bem, estavas fazendo teu papel. O estranho, porém, residia numa particularidade: em instante algum houve uma alusão a este portal era feita, muito menos o apelido Cyrix era mencionado. Quem de fora do seu grupo lesse o artigo perceberia que esse autor era defendido de críticas, porém não saberia exatamente quais eram elas, nem quem as fez. Senti-me como uma espécie Lorde Voldemort, “aquele que não deve ser nomeado” ou “Você sabe quem”, tamanho é o medo que sentem dele. Como a carapuça aparentava ser do meu tamanho, resolvi prová-la.

Para ser sincero, aquilo sequer poderia ser chamado de uma verdadeira resposta, pois você fez uma jogada muito malandra: não respondeu a crítica alguma explicitamente; em vez disso, recontou os pontos do Dr. Severino com outros “fundamentos”. Dessa forma, esquivou-se de responder aos pontos mais indefensáveis, forneceu explicações sobre alguns pormenores e, de quebra, pregou para o coral. Para terminar, encheu linguiça com um extrato imenso do livro Analisando as Tradução Bíblicas. Nessa arte do debate, você fez um longo monólogo com o que julgou serem seus melhores momentos e os piores dos outros. Assim fica fácil.

Como se não bastasse, você cometeu erros crassos como, por exemplo, ignorar que trabalho com a mesma edição crítica da Septuaginta que o Dr. Severino e insinuou que minha versão era tendenciosa. Eu poderia ter feito uma refutação avassaladora, mas concluí que não valia a pena gastar meu escasso tempo livre com articulistas desonestos. Fiz algo melhor: elevei o nível do artigo original para “além do nono céu”, seguindo o conselho de Sun Tzu e explicitando ainda mais todas as fraquezas de Analisando…. Não deu outra: você retirou seu texto do ar e só voltou com ele depois de lapidá-lo um pouco, fazendo menções bem en passant às fragilidades que tentara esconder. Acho que ainda pensava que estou no nível de argumentação do pessoal do CACP.

Quer me refutar? Eu te ajudo!

Baseado nesse malfadado artigo, darei algumas dicas que te farão do um articulista melhor. Se bem que seu ponto de partida é tão ruim que não será preciso muito. Vamos lá:

  1. Deixe claro quem você está refutando: caso sua refutação seja realmente boa, não há por que temer que seus leitores leiam o original. Do contrário, corre-se sério risco de começar refutar a uma caricatura do original, que será mais fácil de trabalhar e muito ilusória quanto ao seu potencial;

  2. Faça citações grandes: já disseram que “texto fora de contexto é pretexto”. Clichês à parte, isso é uma grande verdade (e por isso que virou clichê). Siga o exemplo de Orígenes em sua obra Contra Celso. Por ela sabemos que a obra refutada se chamava “O Verdadeiro Discurso” ou “A Verdadeira Razão” e, embora não tenha sobrado exemplar algum do texto anticristão desse filósofo, pode-se ter uma boa noção dele devido às fartas citações que Orígenes fazia;

  3. Aprenda inglês: em certa altura você se esquiva de analisar certo trecho do Talmude Babilônico (tratado Sanhedrim) por ainda esperar uma tradução em português. Curiosamente, é o mesmo tratado que utilizei em Quanto pesa a alma?, que peguei de uma tradução inglesa, online, gratuita. Sinceramente, tire um ano sabático e aprenda inglês. Não estou falando para você se tornar superfluente, capaz de assistir filmes sem dublagem, nem legenda, ou discutir filosofia com um nativo ao telefone. Você precisaria apenas ler. Você e todos os outros monoglotas do seu grupo não têm a mínima condição de autointitular “pesquisadores” sem essa ferramenta. Isso já bastaria para ver que não adulterei nada em minha tradução. Para vocês fazerem suas próprias traduções, um bom dicionário e prática lhes ajudariam. Agora, se seu inglês, digamos, já “dava pro gasto”, então você tirou o corpo fora para ganhar tempo. Outra esperteza;

  4. Arrume uma bibliografia decente: que muito provavelmente estará em inglês, afinal a maior parte da produção científica da atualidade é nesse idioma. Preste atenção: científica, ou seja, textos que procuram embasar seus argumentos em fontes primárias e submeterem-se ao contraditório. Cansei de ler textos espíritas que só trazem (quando trazem) referência a outros textos espíritas/espiritualistas. Vejo dentistas, auditores fiscais, juízes, jornalistas, etc. se arvorando de autoridade para falar do passado, já historiador que se preze, nada. E, principalmente ao lidar com ciências humanas, é bom saber o quanto a tese proposta é controversa ou não, do contrário você clamará como certa uma publicação pelo simples fato de ter sido publicada;

  5. Tire o escorpião do bolso: não vai encontrar a maioria desses livros em sebos nacionais. Foi durante meus estudos sobre o II Concílio de Constantinopla que mais maltratei meu cartão de crédito na Amazon e em outras livrarias virtuais estrangeiras. Foram três anos de muito bons investimentos. Não sei como anda seu bolso no momento, mas lembre-se que sou apenas um, ao passo que você tem seus confrades. Alguns, julgo eu, bem de vida, financeiramente falando. Fazer uma vaquinha será uma boa forma de testar sua coesão interna e verificar se são realmente um grupo organizado ou mero bando;

  6. Cuidado com as autoridades: a escolha de uma boa bibliografia requer cuidado, porém. Primeiramente, alguns escrevem livros aventurando-se em temas sobre os quais não têm expertise alguma. Incluiria nesse rol José Reis Chaves, Elizabeth Prophet e, sim, Severino Celestino da Silva. Boa parte dos membros desse grupo já tem a conclusão de seus estudos pronta antes de sequer começar; apenas catam e organizam dados corroboradores e fingem inexistirem controvérsias. Por outro lado, há um grande número de autoridades cuja formação realmente segue seus estudos, mas lembre-se: não possuem divina infalibilidade. Autoridades antigas podem já estar defasadas em diversos pontos; por exemplo, eu adoro Edward Gibbon e seu Declínio e Queda do Império Romano, mas sou comedido em seu uso, pois sei que muita coisa sobre o tema foi revista de duzentos anos para cá. Além disso, atenção às envoltas em grande controvérsia, como esotérico Champlin. Existem, também, o temas que são controversos por sua própria natureza – como o perfil do Jesus Histórico – e nesses você pode encontrar autores igualmente competentes falando coisas díspares, por pertencerem a escolas diferentes. Por fim, mas não menos importante, peço que não envergonhe suas fontes se escondendo atrás delas. Não use autoridades como “carteirada intelectual”. Elas, em si, são apenas humanos como nós; seus argumentos e provas é que são fundamentais. Não faça como certo cidadão que fica clamando que Bart Ehrman é o “maior biblista do mundo” e ainda confunde “variações” com “alterações” (da Bíblia), demonstrando não entender muito bem do que Ehrman escrevera;

  7. Prefira o acadêmico ao de divulgação: Por falar em Bart Ehrman, ele é, de fato, bom, mas não é “o maior biblista do mundo” e nem ele se rotula assim. Creio que foi uma jogada de marketing da Prestígio, a editora no Brasil de O que Jesus disse? O que Jesus não disse? – Quem mudou a Bíblia e por quê. É um grande divulgador, devo concordar, e competente em sua área. Mas se quer realmente ler um livro dele, comece por The New Testament: A Historical Introduction to the Early Christian Writings, que é seu livro escrito para estudantes de seminários protestantes. É outro nível de discussão e, ao fim de cada capítulo, há dicas para continuar seu estudos sobre o tema em questão. Seus livros para o grande público são bem escritos e desenvolvem alguns tópicos que neste livro, ficaram limitados a um capítulo; porém nenhum deles dará uma visão abrangente. Ah! Já ia me esquecendo: está em inglês;

  8. Se possível, leia os originais: já que o Pentateuco espírita é o ponto de partida para os novatos do movimento, porque você se furtaria de ler os textos originais de autores antigos? Sim, essa é uma pergunta capciosa. De fato, é possível aprender sobre determinado autor e época sem ler todos os originais ou apenas extratos. A questão real é qual pedra de toque usarias para saber quem está sendo fidedigno ao objeto de estudo e quem o distorce fazendo uma releitura muito pessoal? Estaria um antagonista exagerando na crítica, um simpatizante nos elogios e um pretenso isento na falta de substância de sua análise? É possível enxergar “fora da caixa”? Para responder essas perguntas, terá você mesmo de ler algo de fontes em primeira mão sobre determinado assunto e tecer seu próprio juízo separando estudiosos de impostores. Mas para isso, você tem que ter…;

  9. Fontes, diga quais são elas é bizarro, mas você faz alusão a certos “eruditos” que nunca são especificados ou nomeados. Será que eles existem, ou será algum deles já foi chamado de “detrator” por você ou pelos seus?

  10. Não diga apenas a verdade, mas toda a verdade: quando citar os versículos que contradizem a ideia de maldições hereditárias, cite, também os que a corroboram (que, aliás, estão em maior número). Em outras palavras, não faça “cherry picking“. Depois, tente explicar essa contradição sem aparentar dar uma de “ensaboado” para quem está de fora;

  11. Não dê tiro no pé: Não capítulo VIII, p. 135 da 4ª edição de Analisando as Traduções Bíblicas, Dr. Severino diz:

    Não sei como encontraram este sentido para a língua portuguesa, nem de onde o tiraram, pois, no hebraico, bem como, no grego e no latim, ele não existe.

    No caso, ele se refere ao uso da preposição “até” em Ex 20: e 34:7, no trecho “até a terceira e quarta geração“. Você tacitamente admitiu a possibilidade, na língua latina, de uma tradução da preposição in como “até”, caso se seguisse a norma clássica da regência dessa preposição no caso acusativo. De certa forma, ao elevar o nível da discussão, você soube de onde “tiraram isso” e, por vias tortas, demonstrou o quão rasa foi a análise da tradução feita por Severino, ao menos da versão latina. A questão é que você não aceitou a norma clássica nesse caso, o que te levou a…

  12. Apelar – sem isso, por favor: por não aceitar a tradução latina convencional, você elaborou uma elucubrada tese de que Jerônimo – o tradutor da Vulgata – teria usado a regência do acusativo da preposição in objetivando um sentido que, na norma clássica, corresponderia à regência dela no ablativo: “em”. Era um parágrafo particularmente confuso em que você fez uma série de considerações especiais para convencer seu leitor de que a tradução do Dr. Severino seria válida. Desculpe, mas esse bizarro contorcionismo foi infeliz:
    1. Não se baseia em nenhuma análise da gramática da Vulgata propriamente dita, a não ser o alegado por “estudiosos” e “eruditos” que nunca são nomeados;

    2. Até acerta ao sugerir que o latim da Vulgata não corresponde exatamente ao clássico, mas erra no grau: se quer um texto latino cheio de vulgarismos, deveria ter optado pela Vetus;

    3. Acha que por se chamar Vulgata (i.e., para o vulgo), ela deveria estar escrita em linguagem popular. Isso é um anacronismo, pois esse termo originalmente se referia à Vetus (cf. Agostinho de Hipona, Cidade de Deus, livro XVI, cap. VIII), apenas sendo usado para designar a tradução/revisão de Jerônimo a partir da Idade Média;

    4. Sequer a Vetus te confirmaria: Jerônimo, quando faz uso da Vetus, revela que seu exemplar não trazia a tradução que você gostaria;

    5. Tampouco Jerônimo (e Agostinho) interpretava(m) esses versículo do jeito que você gostaria. Como sei disso? Fui ler o que esse(s) cidadão(s) escreveu(ram) a respeito, em vez de inventar outro(s) que me aprouvesse(m);

    6. Outra vez: seu tecnicismo mostrou o quão raso ou, melhor, inexistente foi o tratamento dado no livro do Dr. Severino à regência da preposição in. Tem certeza que vale a pena defendê-lo só por ter sido escrito por um confrade?

    Tudo bem que se queira fazer uma alegação contundente, porém, para tanto, é mister alguma solidez nos fundamentos. E você fincou seus alicerces na areia dos “achismos”;

  13. Seja coerente: e lembre-se que isso não significa estar certo, mas, sim, não se contradizer, seja por palavras ou atitudes. Pode-se estar tremendamente equivocado e ainda assim em conformidade com seus princípios. A incoerência, no seu caso, deu-se ao tratar o texto hebraico usando regras normativas de gramática e o latino por uma (errônea) abordagem descritiva do que teria sido o latim vulgar. Ou seja, a língua hebraica não teria evoluído nada durante a transmissão do texto massorético, ao passo que a latina não só evoluía, como seguiu para uma direção muito conveniente para ti. Poderia até haver uma razão para tanto, porém, no balanço geral, o único fundamento dessa tese foi sua própria conveniência. Ah! Não se esqueça: “em” com o sentido de “a/até” ainda é usada até hoje na linguagem coloquial do português brasileiro;

  14. Reconheça que Deus também evolui: ao menos na cabeça de seus adoradores. Você comete uma série de wishful thinkings ao recusar a admitir a ideia de maldições hereditárias entre os antigos hebreus. Era uma doutrina injusta? Sim, e daí? Aquele era o deus que eles precisavam para um contexto pré-exílio, quando não havia, ainda, crença em vida após a morte. As concepções acerca do deus único e seu relacionamento com os mortais mudou após a passagem por Babilônia e continuaram a mudar (e se diversificar) ao longo da sucessão de invasores estrangeiros. Se você, antolhado por sua fé cega, acha que a reencarnação é a única forma de salvar Ex 20:5 e 34:7, então você (1) é pouco criativo e (2) tem um baita narcisismo teológico. Uma terceira opção é você saber que as alternativas existem e não julgá-las tão elegantes como considera a reencarnação. Mais um motivo porque seu “debate” não passa de um monólogo;

  15. Não tape o Sol com peneira: na primeira versão, você se valeu de um exemplar interlinear (inglês/grego) da LXX, cuja leitura de Ex 20:5 lhe era conveniente e chegou ao ponto de cogitar que alguns portais com uma edição virtual da LXX haviam adulterado o versículo grego para conciliá-lo com a leitura “até a terceira…” do texto inglês. Pena que você não leu Nm 14:18 do seu próprio exemplar para encontrar justamente essa leitura. Tudo bem, talvez não tenha se tocado. Por isso mesmo esfreguei na sua cara que a edição crítica usada pelo Dr. Severino – a de Alfred Rahlfs – traz “até a terceira…” como leitura principal e “na terceira…” como uma leitura variante encontrada no Códice Alexandrino. Ela ainda trazia “na terceira…” em Dt 5:9 e “até a terceira…” em Nm 14:18. Estava aí a explicação para as diferenças entre as leituras: códices distintos. Você até passou a fazer menção a Rahlphs na revisão que fez, mas desviou do ponto mais nevrágico: o Dr. Severino tinha pelo acesso à leitura “até a terceira e quarta geração” em Ex 20:5 na LXX (e na tradução de André Chouraqui, também), porém omitiu esse fato em seu livro Analisando as Traduções Bíblicas, exibindo apenas Ex 34:7. Muito conveniente (e grave), não acha? Sequer se aferrar à leitura alexandrina (como você fez) ele tentou. Aliás, exatamente essa oscilação entre “até” e “em” diversos versículo paralelos da LXX sugere que a confusão de significados nas preposições hebraicas já estava ocorrendo nos últimos séculos antes da Era Cristã. E com quem será que aprendeste a respeito das trocas preposicionais, hein?

  16. Dê créditos a quem faz jus: na segunda versão você passou a mencionar a edição crítica da LXX feita por Rahlphs e a usar expressões como “trocas preposicionais em códices”. Isso já me era familiar, porém gritante mesmo foi isto:

    Havia uma certa sobreposição semântica nas duas versões pesquisadas, sendo estas entre εως e επι de acusativo. Isso dever ter repercutido nas versões latinas.

    p. 16

    Substituindo-se a preposição εως por εις fica praticamente igual a uma frase que eu disse neste portal. Pois é, meu hater de estimação: você aprendeu algo comigo e recusou-se a admitir que se “apoiou em meus ombros” também! Você pode até jurar ajoelhado que não foi nada disso, alegando que chegou à conclusão por via independente – usando outra gramática grega -, e até enganar meio mundo. Só me pergunto se já conseguiu enganar a si mesmo, tornando-se o mais perfeito tipo de mentiroso: o que acredita nas próprias lorotas. Como escrevi isso antes e sei que você me lê, não caio nesse papo. Um confrade seu escreveu um e-book sobre a questão da reencarnação e o II Concílio de Constantinopla e, apesar de nossas inúmeras diferenças, ele me reconheceu meu artigo como o motivo da revisão de sua postura anterior. O coroamento da ironia é que você prefaciou justamente esse e-book. Não que eu me ressinta pela falta de reconhecimento, o que me preocupa é o que ela revelou de sua personalidade e me pergunto até onde irá teu cinismo;

  17. Por último, mas não menos importante: transcenda sua condição de espírita: ao menos a de ortodoxo. Do contrário, não passará de um mero revisor da obra kardecista: todas as conclusões já estarão no Pentateuco (espírita), na Revista e em O que é Espiritismo?. Seu único trabalho será catar evidências que corroborem tais “conclusões” e fazer vista grossa para as discrepâncias. Exatamente o que você fez no seu infeliz artigo, algo não muito diferente do que os criacionistas bíblicos (e védicos, também) fazem. Em outras palavras, toda vez que a Ciência corroborar sua ortodoxia, você dirá: “viram só, o Espiritismo já antecipava isso há 150 anos”; porém, quando ela discordar, papo será: “a Ciência é falível por ser feita por homens”, “tudo nela é provisório”. Ainda que haja certa verdade nisso, essa atitude continuará sendo uma cortina de fumaça para auxiliar sua fuga ante qualquer tentativa de refutação.
    Como você pode fazer isso? Bem, uma possibilidade é chutar o balde, como eu, e se tornar um detrator antagonista. Algo menos radical é caminhar entre o espiritualismo e o livre pensamento, como fez Vitor Moura. Nesse caso, as pesquisas nos campos psi e “hipótese sobrevivência” deixam de ser ameaças e geram insumos para elaboração de novas hipóteses sobre a relação mente x cérebro. Um terceiro caminho é compartimentar o espírita em uma parte de seu ser e o pesquisador em outra. Um exemplo disso seria o historiador Lair Amaro, que impressionante análise crítica fez do romance Há Dois Mil Anos, de Chico Xavier/Emmanuel. Não importa qual desses caminhos você escolha, mexerá com “vacas sagradas” do movimento espírita e, portanto, há de desagradar alguém. Pelo menos pode escolher a quem importunar e como.
    Caso opte em bater de boa com todos os “confrades”, ótimo. Para mim, claro, afinal terá alguns “graus de liberdade” intelectual a menos para se locomover e terei uma vantagem da qual usarei e abusarei. De certa forma, ficará com u’a mão amarrada tal qual os fanáticos cristãos de que tanto gosta. Pode até não falar em Adão e Eva ou cobra falante, porém outras posturas anticientíficas surgem sem falta.

    O Coronel sucumbe à infecção pelo vírus

    Pode até rir dos católicos e evangélicos por suas doutrinas engessadas, não será mais do um pássaro de um viveiro amplo rindo de seu irmão aprisionado numa gaiola, esquecendo-se da vastidão do céu que lhe é inatingível. Estará numa caixa maior, porém ainda incapaz de pensar fora dela. Com o tempo, perderá aquilo de que tanto se vangloria com relação aos demais cristãos: a faculdade da razão. Deixará de criar para meramente copiar, contará histórias que leu ou ouviu em vez de viver as suas próprias. Tornar-se-á mais digno de pena que de raiva.

* * *

Bem, agora que já te mordi um bocado, vou assoprar um pouco: parabéns! Sim, verdade, você está de parabéns por, ao menos, ter tentado me refutar. Bem ao contrário de certo confrade teu que esbravejou as mágoas num jornal de circulação regional e deixou por isso mesmo. Você não, muito pelo contrário, parece obcecado por mim. Pergunto-me, um pouco, pelo porquê.

Conta uma anedota que o alpinista George Mallory (1886 – 1924), quando perguntado sobre a razão de seu desejo em escalar o Monte Evereste, simplesmente respondia: “Porque ele está lá”. Creio que seu caso seja um tanto análogo a isso. Você e seu grupo apologético já digladiaram com quevedianos, o Centro Apologético Cristão de Pesquisas (CACP), o Instituto Cristãos de Pesquisas (ICP), o Fórum Evangélico, o Adventista, etc., sobrando apenas eu a ser devidamente atacado. Não, talvez seja muita pretensão minha. Não posso esquecer do Criticando Kardec e do Obras Psicografadas que, embora contenham muito material que lhes seria útil, são bem pesquisados desde seus respectivos começos, volta e meia importunando “vacas sagradas” do Movimento Espírita. Meu portal, assim, seria apenas o próximo da fila por possuir tanto um pé no aspecto religioso e outro no científico. Por meio do primeiro pretendiam começar o ataque com a farta discussão que tiveram com os religiosos.

Parece-me que esqueceu de um pormenor crucial: o paradigma aqui é outro, pois eu não tento provar a Bíblia com ela mesma. Meu universo de pesquisa é muito maior que o deles. Maior que o seu, também. Ademais, como não religioso, dispenso qualquer obrigação de aceitar juízos de valor ao tratar de alguma divindade antiga. Se o Javé do Antigo Testamento te desagrada, sinto muito, pois era o deus que os antigos hebreus precisavam, o resto é releitura posterior. Com isso, boa parte do arsenal que acumulou simplesmente deixou de ter serventia. Não desanime, você continuará, em sua teimosia, autoiludindo-se e carregando outros consigo. E podes até ser bem exitoso nisso, afinal é possível tecer raciocínios perfeitamente lógicos com premissas erradas. Criacionistas da Terra Jovem fazem assim. Quer saber de uma coisa: vocês, o CACP e o ICP se merecem.

Pergunto-me, às vezes, qual a razão por essa obsessão. Deve ter sido aquele “debate” que eu unilateralmente larguei no agora moribundo fórum do “Portal de Espírito” acho que discutíamos algo a respeito da natureza de Deus ou coisa do gênero. Acho que ficaste estimulado pela possibilidade de ter um adversário de maior quilate que a média do pessoal da seção “Do Contra” (lembras do Erivelton?) e injuriado por não conseguires atenção dele (i.e., de mim). Estou sendo vaidoso? Sem dúvida! Outra opção é que eu seja perigoso de mais para ser deixado solto impunemente por aí, o que afagaria meu ego do mesmo jeito. Um mero exercício para a atividade cerebral de um entediado? Pode ser, mas não está funcionando pelos motivos apontados acima. Estou aberto a sugestões.

Sabe, aqui do alto é muito solitário, frio e com ar rarefeito. Adoraria ter uma companhia para admirar a paisagem. Você pode ser um dos felizardos caso aceite o desafio de chegar até o cume. O lado bom é que, quando tiver vencido o desafio, terei eu vencido também, pois não será mais a mesma pessoa que começou a escalada. Apenas lembro que deves respeitar o desafio, do contrário o desafio se fará respeitar. O cadáver de George Mallory até pouco tempo repousava no Evereste sob camadas e camadas de neve.

Um abraço e veja se toma tenência. Caso não tome, tudo bem: haters gonna hate, e caravana continuará a passar enquanto eles ladram.

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14 de outubro de 2016 Deixe um comentário

Publicado um adendo à resenha do livro Analisando as Traduções Bíblicas visando sanar as dúvidas de certo leitor.

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Como Discordar

22 de agosto de 2016 2 comentários

Hierarquia de desacordo

Por Paul Graham

Índice

Introdução


A web está transformando o ato de escrever em uma conversa. Vinte anos atrás, os escritores escreviam e os leitores liam. A web permite que os leitores respondam, e eles o fazem cada vez mais – em tópicos de comentários, em fóruns, e em suas mensagens de blog.

Muitos que respondem a algo, discordam. Isso é de se esperar. Concordar tende a motivar as pessoas menos do que discordar. E quando você concorda, há menos a dizer. Você poderia expandir algo que o autor disse, mas ele provavelmente já explorou os pontos mais interessantes. Quando você discorda, está entrando em um território que ele pode não ter explorado.

O resultado é que há muito mais discordâncias, especialmente medidas pelas palavras. Isso não significa que as pessoas estão ficando mais irritadas. A mudança estrutural na forma como nos comunicamos é suficiente para explicá-la. Mas, ainda que não seja a raiva que esteja a dirigir o aumento de desacordos, há um perigo de que ela deixe as pessoas mais irritadas. Particularmente online, onde é fácil dizer coisas que você nunca diria cara a cara.

Se estamos todos em um caminho de maior discordância, devemos ter o cuidado de fazê-lo bem. O que significa discordar bem? A maioria dos leitores pode dizer a diferença entre meros xingamentos e uma refutação cuidadosamente fundamentada. Mas eu acho que iria ajudar, colocar nomes nas etapas intermediárias. Então aqui vai uma tentativa de uma hierarquia do desacordo (DH – Disagree Hierarchy):

DH0. Xingamentos.


Esta é a forma mais baixa de desacordo e provavelmente também a mais comum. Nós todos vimos comentários como este

Você é uma bicha!!!!

Mas é importante perceber que até mesmo o mais articulado xingamento, tem pouco peso. Um comentário como:

O autor é um diletante presunçoso.

Nada mais é do que uma versão pretensiosa de “Você é uma bicha”.

DH1. Ad hominem.


Um ataque ad hominem não é tão fraco como um mero xingamento. Ele pode realmente ter algum peso. Por exemplo, se um senador escreveu um artigo dizendo que o salário dos senadores deve ser aumentado, pode-se responder:

É claro que ele diria isso. Ele é um senador.

Isso não refuta o argumento do autor, mas pode pelo menos ser relevante para o caso. Mas ainda é uma forma muito fraca de desacordo. Se há algo de errado com o argumento do senador, você deve dizer o que é, e se não houver, que diferença faz se ele é um senador?

Dizer que um autor não tem autoridade para escrever sobre um tema é uma variante de ad hominem e particularmente inútil, porque as boas ideias muitas vezes vêm de fora. A questão é saber se o autor está correto ou não. Se sua falta de autoridade levou a cometer erros, aponte-os. E se não o fez, não é um problema.

DH2. Respondendo ao tom.


No próximo nível começamos a ver respostas para o que foi escrito, em vez do escritor. A forma mais baixa delas é a de não concordar com o tom do autor. Por exemplo:

Eu não posso acreditar que o autor rejeita o design inteligente de uma forma tão arrogante.

Embora melhor do que atacar o autor, esta é ainda uma forma fraca de desacordo. É muito mais importante se o autor está certo ou errado do que como o seu tom é. Especialmente porque o tom é difícil de se julgar. Alguém que tenha afeição sobre algum tópico, pode ser ofendido por um tom que parecia, a outros leitores, neutro.

Portanto, se a pior coisa que você pode dizer sobre algo é criticar seu tom, você não está dizendo muito. O autor é irreverente, mas correto? Melhor do que sério e errado. E, se o autor está incorreto em algum lugar, diga onde.

DH3. Contradição.


Nesta fase, finalmente, obtemos respostas para o que foi dito, em vez de “como” ou “por quem”. A menor forma de resposta a um argumento é simplesmente afirmar o caso oposto, com pouca ou nenhuma evidência de apoio.

Isso é muitas vezes combinado com declarações do tipo DH2, como em:

Eu não posso acreditar que o autor rejeita o design inteligente de uma forma tão arrogante. O design inteligente é uma teoria científica legítima.

A contradição, às vezes, pode ter algum peso. Outras vezes, apenas ver o caso oposto explicitamente é o suficiente para constatar que ele está certo. Mas geralmente uma evidência vai ajudar.

DH4. Contra-argumento

No nível 4, chegamos à primeira forma de desacordo convincente: contra-argumento. As formas até este ponto podem ser normalmente ignoradas, como podem não provar nada. Um contra-argumento pode provar alguma coisa. O problema é que é difícil dizer exatamente o quê.

Um contra-argumento é “contradição” mais “raciocínio” e/ou “provas”. Quando refuta diretamente o argumento principal, pode ser convincente. Mas, infelizmente, é comum que os contra-argumentos se destinem a algo um pouco diferente. Com boa frequência, duas pessoas discutem fervorosamente sobre algo, mas estão realmente discutindo sobre duas coisas diferentes. Às vezes elas até concordam uma com a outra, mas estão tão envolvidas em sua disputa que não percebem isso.

Pode haver uma razão legítima para argumentar contra alguma coisa ligeiramente diferente do que o autor original disse: quando se sente que ele perdeu o cerne da questão. Mas quando se faz isso, deve-se dizer explicitamente que o está fazendo.

DH5. Refutação


A forma mais convincente de desacordo é refutação. É também a mais rara, porque é mais trabalhosa. Na verdade, a hierarquia do desacordo forma uma espécie de pirâmide, no sentido de que no mais alto estão as instâncias que se vão menos encontrar.

Para refutar alguém, você provavelmente terá de citá-los. Você tem que encontrar um ponto falho, uma passagem em que você possa discordar com o que você sente que é errado e, então, explicar por que ele está enganado. Se você não consegue encontrar uma citação real para discordar, pode estar discutindo com um espantalho.

Enquanto uma refutação geralmente implica em citar, citar não implica necessariamente numa refutação. Alguns escritores citam partes de coisas que eles discordam para dar a aparência de refutação legítima, então seguem com uma resposta tão baixa como DH3 ou mesmo DH0.

DH6. Refutando o ponto central


A força de uma refutação depende do que você refutar. A forma mais poderosa de desacordo é refutar ponto central de alguém.

Mesmo na DH5, ainda vemos algumas vezes uma desonestidade deliberada, quando, por exemplo, alguém escolhe pontos sem importância de um argumento e os refuta. Às vezes, o modo como isso é feito faz com que seja mais uma forma sofisticada do ad hominen do que uma verdadeira refutação. Por exemplo, corrigir a gramática de alguém, ou insistir em pequenos erros em nomes ou números. A menos que o argumento contrário realmente precise de tais coisas, a única finalidade de corrigi-los é desacreditar o adversário.

Refutar verdadeiramente algo requer refutar o seu ponto central, ou pelo menos um deles. E isso significa que tem de se expor explicitamente qual é o ponto central. Então, uma refutação verdadeiramente eficaz seria algo como:

O ponto principal do autor parece ser x. Como ele diz:

<citação>

Mas isso é errado pelas seguintes razões …

A citação que você apontar como equivocada não precisa ser realmente o ponto principal do autor. Basta refutar algo do qual ele dependa.

O que isso significa


Agora, temos uma maneira de classificar formas de desacordo. E o que há de bom? Uma coisa que a hierarquia desacordo não nos dá é uma maneira de escolher um vencedor. Os níveis DH apenas descrevem a forma de uma declaração, não se ela está correta. Uma resposta DH6 ainda poderia estar completamente enganada.

Embora os níveis de DH não definam um limite inferior no convencimento de uma resposta, eles definem um limite superior. Uma resposta DH6 pode ser convincente, enquanto uma resposta DH2 ou inferior é sempre inconvincente.

A vantagem mais óbvia de classificar as formas de desacordo é que elas vão ajudar as pessoas a avaliar o que leem. Em particular, elas irão ajudá-los a ver através de argumentos intelectualmente desonestos. Um orador eloquente ou escritor pode dar a impressão de derrotar um oponente apenas usando palavras fortes. Na verdade essa é provavelmente a qualidade de um demagogo. Ao dar nomes para as diferentes formas de desacordo, damos aos leitores críticos um alfinete para estourar esses balões.

Esses rótulos podem ajudar os escritores também. A maior parte da desonestidade intelectual não é intencional. Alguém argumentando contra o tom de algo que ele discorda pode acreditar que está realmente dizendo algo. Diminuir o zoom e ver sua posição atual na hierarquia de desacordo pode inspirá-lo a tentar mover-se para contra-argumento ou a refutação.

Mas o maior benefício de discordar bem não é apenas que vai fazer conversas melhores, mas fará as pessoas mais felizes. Se estudar as conversas, você achará muito mais maldades baixas em DH1 do que em DH6. Você não tem que ser mau quando tem um verdadeiro ponto a defender. E na verdade não quer. Se você tiver algo real a dizer, bancar o malvado apenas atrapalha.

Se subir na hierarquia do desacordo torna as pessoas menos malévolas, isso fará a maioria delas mais feliz. A maioria das pessoas realmente não gosta de ser má, elas o são porque não conseguem evitar.

Agradecimentos a Trevor Blackwell e Jessica Livingston por lerem os rascunhos disto.

* * *

Baseado na tradução de Song Fuê constante em Destinatário Théo

Link para o texto original de Paul Graham.

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“Tá Serto!”

21 de fevereiro de 2016 3 comentários

    Face Palm

    Índice

    No meio de uma Flame War


    Em meio a pesquisas que fiz pela internet a respeito deste mesmo portal, encontrei as seguintes pérolas em certo fórum de debates.

    Um print do Fórum

    Que foi respondido por um apologista espírita com:

    Um print do Fórum: a resposta

    E segue-se um artigo de seu grupo apologista falando de Flávio Josefo e outro sobre Hebreus 9:27.

    Bem, de qual deles vou tomar partido? Nenhum, em princípio. Ambos estão errados a respeito o que realmente trata este portal.
    [topo]

    Ser Judeu: Ontem e Hoje

    Em se tratando do apologista evangélico, eu jamais disse que os cabalistas não pertencem à “comunidade rabínica organizada”, que são menos judeus por isso ou são reles “feiticeiros”. Para ser sincero, qualquer religião, em sua pior forma, pode ser reduzida a um amontoado de superstições. Que o diga a Cabala, em seu fabrico de amuletos, os evangélicos, em suas quase circenses manifestações “do Espírito Santo” e “os espiritões”. Por outro lado, em sua melhor forma, a maioria das religiões pode se tornar filosofia de qualidade. Não que eu concorde com as premissas delas.

    O fato é: há judeus modernos que creem na reencarnação e outros não. Quem quiser, acesse o portal Ser Judio – Vida y muerte ou leia O Judaísmo Vivo, de Michael Asheri, cap. XLI, pp. 251-2 , para verificar que a aceitação da reencarnação ou gilgul neshamot não é universal entre os judeus atuais. Leia Jewish View of the Afterlife, de S.P. Raphael, cap. VIII, pp. 314-20 para uma análise histórica e mais aprofundada. Curiosamente, esses dois autores também tocam na possibilidade, em alguns círculos cabalísticos, de reencarnação em corpos de animais. Duvido que os espíritas comprem essa ideia ou digam que ela está na Bíblia.

    Essa diversidade de opiniões pode soar estranha a cristãos (ou neocristãos, como os espíritas), pois, historicamente, seus embates são travados em torno de dogmas da fé. Óbvio que o judaísmo também possui um “núcleo duro”, só que é muito mais eclético em todo o resto. O historiador Paul Johson assinalou que:

    [Na Idade Média] Havia uma tal variedade de opiniões sobre o Messias no judaísmo que era quase impossível ser herético nesse assunto. O judaísmo dizia respeito à Lei e sua observância. O cristianismo dizia respeito à teologia dogmática. Um judeu podia atrapalhar-se quanto a um ponto delicado da observância do sábado que a um cristão pareceria ridículo. Por outro lado, um cristão podia ser queimado vivo por sustentar uma ideia sobre Deus que a todos os judeus pareceria um assunto de opinião legítima e de controversa.

    Johson, Paul; A História dos Judeus, Imago, 1995, parte III, p. 228.

    O que ressalto no artigo sobre Saadia Gaon é que a crença na gilgul foi uma inovação medieval. Esse rabino foi testemunha ocular de sua chegada e difusão na região onde viveu (o atual Iraque), mesmo antes da codificação da Cabala. Por isso, também discordo do forista evangélico quanto à exigência de uma opinião judaica “tradicional”, visto que a crença a gilgul não é exclusiva de “místicos”, como outros na discussão lembraram. Aliás, muito do que ele chama de misticismo só o é para quem está de fora. Por outro lado, também é totalmente sem sentido usar a opinião de judeus modernos para abalizar teses espíritas, já que há não razão alguma para acreditar que algum grupo judaico tenha permanecido estático desde a época de Jesus. Muito pelo contrário: mesmo o dito conservador “judaísmo ortodoxo” é o produto de quase dois milênios de evolução.

    O procedimento correto seria buscar a opinião de judeus do século I, quem sabe antes ou um pouco depois. Para isso existe a literatura intertestamentária e o Antigo Testamento, que são silentes sobre o assunto. A não ser, claro, que você lance mão de alegorias (o que Gaon tanto repudiou) ou de preciosismos gramaticais duvidosos.

    É errado alegorizar? Falando como cético, o problema das alegorias é que elas podem tornar qualquer discussão num verdadeiro “vale tudo”. Judeus reclamam do uso cristão de suas Escrituras para justificar Jesus como o Messias (como Isaías 53). Depois cristãos ortodoxos se irritaram quando gnósticos começaram a elucubrar com os evangelhos (João em especial) para explanar seus “segredos”. Os espíritas são apenas os recém-chegados da especulação teológica.

    O que se pode pesquisar é o que determinado grupo cria sobre certo assunto. Deixar o “texto explicar o texto” pode ser contraproducente, porque a Bíblia não é intérprete de si mesma. Em compensação, pode-se pesquisar a palavra de intérpretes antigos sobre o assunto. Um nome que veio à baila foi ninguém menos que Orígenes.
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    Sabendo mais que Eu …

    … a respeito de meu próprio portal.

    Vejamos o forista espírita:

    Os apóstolos criam no retorno dos profetas, tais como Elias, Jeremias e outros mais. Nem preciso citar passagens aqui para provar-lhe algo, você já sabe onde encontrá-las. O caso de Jesus afirmar que João Batista era Elias e o diálogo entre Jesus e Nicodemos, fora os exemplos do cego de nascença e do homem coxo. Saiba que a sua fonte do site Falhas do Espiritismo do Cyrix atesta que os judeus primitivos creem na pré-existência da alma, Orígenes defendia Elias ser João Batista, se é que você percebeu isso e nem se dá conta que o Cyrix nem aborda o fato de João Batista e Elias, portanto, não poderá afirmar que não há reencarnação na Bíblia, por ser sua análise parcial. Acaba que “o tiro sai pela culatra”, sem falar de Flávio Josefo do século I. Ademais, sobre ele, tem o artigo abaixo para apreciação.

    Bem, em instante algum se questionou o valor histórico do relato de Gaon. Ele foi, simplesmente, desconsiderado. Outras coisas que me chamaram atenção:

    1. Eu atesto que os judeus primitivos creem na preexistência da alma: Tudo bem, e daí? Isso só será problema se todos os evangélicos forem traducianistas, i.e., acreditarem que a alma é gerada junto com o corpo. Qualquer grau de criação prévia já é um tipo de preexistência. A questão é que em nenhum instante a ela implica em reencarnação, digo, múltiplas existências terrenas. No portal já havia textos remetendo ao pseudoepígrafo II Baruque (I século), que combina preexistência, vida única, apocalipse, ressurreição e redenção (ou danação) eterna. Só faltou Jesus como Messias para ser um texto evangélico/católico.
    2. O Cego de nascença: Um dos textos que disserto sobre a preexistência é justamente o desse episódio. E ainda há outra explicação possível.
    3. Eu digo que Orígenes defendia que João Batista era Elias: É? Onde? Alguém me indique, por favor!
      O que eu falo realmente é como uma certa escritora espiritualista pinçou um texto de Orígenes para dar justamente esse efeito. Vejamos o que o alexandrino tinha a dizer sobre o assunto:

      Nosso primeiro erudito, cuja visão da transcorporação vimos ser baseada em nossa passagem, pode prosseguir com um exame mais detalhado do texto e argumentar contra seu antagonista que se João foi o filho de um homem como o sacerdote Zacarias e se nasceu quando seu pais já eram ambos idosos, contrariando todas as expectativas humanas, não é provável que tanto judeus em Jerusalém o desconhecessem, ou os sacerdotes e levitas por eles enviados não estariam a par dos fatos de seu nascimento. Não declara Lucas que “o temor veio sobre todos os que viviam por perto” (Lc 1:65), – claramente nas proximidades ao redor de Zacarias e Isabel – e que “todas essas coisas foram divulgadas por toda terra montanhosa da Judeia”? E se o nascimento de João a partir de Zacarias foi matéria de comum conhecimento e os judeus de Jerusalém já enviaram sacerdotes e levitas para perguntar, “És tu Elias?” então está claro em dizer que eles consideravam a doutrina da transcorporação com verdadeira e que ela era uma doutrina corrente de seu país, e não estranha aos seus ensinos secretos. João, portanto, diz, “Eu não sou Elias”, porque não sabe sobre sua vida prévia. Estes pensadores, assim, cogitam uma opinião que não deve de forma alguma ser desprezada. Nosso membro da Igreja, contudo, pode replicar à alegação e perguntar se é digno de um profeta, que é iluminado pelo Espírito Santo, que foi previsto por Isaías, e cujo nascimento por pressagiado antes que sucedesse por tão grande anjo, que recebeu da plenitude de Cristo, que partilha de tal graça, que sabe que a verdade vem por meio de Jesus Cristo e ensinou coisas tão profundas a respeito de Deus e do unigênito, que está no seio do Pai, é digno de tal indivíduo mentir ou mesmo hesitar, em razão da ignorância do que era. Pois com relação ao que estava obscuro, ele deveria ter se abstido de confessar, e não ter nem afirmado, nem negado a proposição que foi posta. Se a doutrina [da transcorporação] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias? E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença. Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento (grifo meu).

      Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

      E Orígenes sustenta, sem querer, a tese da entrada tardia da reencarnação no judaísmo. E ele viveu em Alexandria – onde havia uma numerosa comunicada de judia -, e em Cesareia, na Palestina, portanto contato com judeus não lhe faltou. Eis outro texto dele:

      Alguém pode dizer, porém, que Herodes e parte da população mantinham o falso dogma da transmigração de almas para os corpos, com a consequência de que eles pensassem que o antigo João apareceu outra vez devido a um novo nascimento e tinha vindo da morte para a vida como Jesus. Mas o tempo entre o nascimento de João e o de Jesus, que não foi mais que seis meses, não permite se dar crédito a esta falsa opinião. E talvez fosse melhor que outra ideia estivesse na mente de Herodes – os poderes que operaram com João tivessem passado para Jesus – fazendo que ele fosse visto pelo povo como João Batista. E pode-se usar a seguinte linha de raciocínio: apenas por causa do espírito e poder de Elias, não pela alma dele, que se diz de João: “Este é o Elias que deve vir“.

      Comentário sobre Mateus, livro X, cap XX

      Aí entra uma sutileza da língua grega usada por Orígenes, que é a distinção entre “espírito” (pneuma) e “alma” (psyché). Para ele, só haveria sentido em falar de “transcorporação” se fosse essa última, que seria a portadora da individualidade. Em hebraico, também existe, grosso modo, essa mesma separação entre rouach e nephesh. Dependendo do contexto, rouach pode, contudo, assumir significados distintos (sopro, vento, espírito). Mesmo quando ele é traduzido por espírito não significa que seja exatamente a consciência sempre, mas o princípio que nos anima (Sl 146:4) e retorna a Iahweh após a morte (Ecl 12:7), o ânimo (Jz 15:19), “coragem” (Js 2:11), “raiva, exaltação” (Jz 8:3), ação sobre a mente (Ez 11:5), Iahweh e suas manifestações (Is 63:10). Em se tratando de Elias:

      Sucedeu que, havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito [rouach] sobre mim.
      2 Re 2:9

      Vendo-o, pois, os filhos dos profetas que estavam defronte em Jericó, disseram: O espírito [rouach] de Elias repousa sobre Eliseu. E vieram-lhe ao encontro, e se prostraram diante dele em terra.
      2 Re 2:15

      Observando-se isoladamente 2 Re 2:15, poder-se-ia até pensar em incorporação mediúnica, porém, juntado 2 Re 2:9, fica difícil achar que se trata do significado espiritualista da coisa e só forçando a barra é que é possível ver reencarnação nisso.

      Todo esse ecletismo viria a irritar Saadia Gaon (século X) pelo jogos de palavras que seus respectivos oponentes faziam. Já na época de Orígenes (século III), uma capacidade similar na língua grega foi usada para confundir, como ele insinua em suas refutações a pagãos e gnósticos. Seus Comentários apologéticos, em particular, mostram que a associação de João Batista com uma reencarnação de Elias é bem antiga, assim como as respostas (proto-)ortodoxas para ela. E os flame warriors ainda não se fartaram disso.

    4. Flávio Josefo descreveu a reencarnação entres os judeus do século I: Vejamos o artigo ofertado:

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      Desde os tempos do finado GeoCities, já havia um artigo aqui falando de Flávio Josefo e a crença dos fariseus, que foi totalmente desconsiderado. Juntando isso com a deturpação das ideias de Orígenes, fico com a séria impressão de que o forista espírita, na melhor hipótese, apenas passou os olhos por este portal. Recomendo a leitura desse artigo, mas, caso não tenha tempo, fica este aperitivo: por que o retorno à vida é para os bons e não para os maus que, pela lógica espírita, precisariam mais?

    5. Jesus disse que João Batista era Elias e eu não falo nada do assunto: E se eu falasse, que diferença faria? Falei a opinião de Orígenes sobre o assunto e ela foi distorcida. Falei de Josefo e fui desconsiderado. Poderia acontecer uma dessas opções com o que eu dissesse sobre João Batista ou … uma nova exigência ser feita! Agora, vem cá: Jesus realmente disse isso? “Sim, lá em Mt 11:14 …” Não. Isso é o que foi registrado por Mateus. Por acaso você me garante que o Jesus Histórico – o ser de carne e osso que andou entre nós – disse algo próximo a tal?

      Essa é uma das razões por que não considero pesquisa séria boa parte da apologia espírita: ela praticamente trata os evangelhos como documentos históricos, sem o menor critério para distinguir o que pode ter um fundo de verdade do que é puro mito. Convenhamos que isso é útil no debate contra os “fundamentalistas”, a fim de prendê-los em nós difíceis de desatar, embora não condiga com um credo com pretensões racionalistas. O efeito colateral é produzir um Jesus à própria imagem e semelhança.

    Distorção de fatos, falácias e grande má vontade em simplesmente ler as informações que tenho a oferecer. Às vezes tenho a impressão que muitos dos que se propõe a me combater, refutam outro portal. Um portal mais fácil em que eles podem escolher o que responder e se responder. Afinal, jogaram fogos diversivos e nada se falou a respeito de Saadia Gaon. Perda de tempo.

    Atendendo a pedidos, será feita uma breve preleção sobre o tema Elias/João Batista, que, obviamente, não será tudo o que gostaria de dizer.

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