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Prezado Hater (em construção)

23 de junho de 2017 2 comentários

O Coronel, personagem de War for the Planet of the Apes

Enquanto redigia minhas memórias em “Prezado Fred“, recebi um e-mail de alguém meio desesperado:

Assunto: Alerta
Xxxxxx Xxxxxx Xxxxxxx <xxxxxxx@yahoo.com.br> <Nome completo do cidadão e e-mai>
Para Falhas Do Espiritismo
02/13/16 às 10:21 AM
Xxxxxxxx Xxxxxxx, <Meu nome>

Muito cuidado ao revelar assuntos referentes a minha vida particular, pois poderá se decepcionar com a verdade. Você pode estar sendo usando por pessoas que há muito tempo tentam me caluniar e difamar com objetivos escusos. Embora não saiba do conteúdo de muita coisa, informo que existem eventos que ainda não posso revelar, pois colocará pessoas próximas a mim em situações bem desconfortáveis. A história de minha vida já dá por si só um livro, mas existem ainda páginas em branco que precisam ser vividas, bem como eventos que aconteceram que somente quando eu aposentar, poderei revelar. Esta atitude sua poderá arranhar sua credibilidade na internet! Outrossim, a partir do ano que vem colocaremos seus argumentos à prova através do XXXXX <sigla de grupo apologético>, mas pouparemos sua identidade, visando somente seu conteúdo publicado. Este é o trato de nossa trilogia em resposta ao Falhas do Espiritismo!

Até breve!

Atenciosamente,

Xxxxxx <Primeiro nome do cidadão>

“A invencibilidade repousa na defesa, a vulnerabilidade revela-se no ataque”.
(Sun Tzu).

Visite: http://www.xxxxxx.org/

Bem, não intencionando tirar o leite das crianças, vou poupar sua identidade também, porém deixarei uma quantidade dicas o suficiente para que seu “grupo” saiba com quem estão lidando, se é que por lá não há mais gente capaz de atitude semelhante. Acho que nenhum deles paga suas contas, não?

A Conspiração

Muito cuidado ao revelar assuntos referentes a minha vida particular, pois poderá se decepcionar com a verdade. Você pode estar sendo usando por pessoas que há muito tempo tentam me caluniar e difamar com objetivos escusos.

Sem nenhum dado tangível que valide sua alegação, sou tentado a pensar que os illuminati se aliaram aos reptilianos em seus planos de dominação mundial e você é a última barreira no caminho deles. Zoeiras à parte, tenho bons motivos para não acreditar em ti, afinal já te peguei distorcendo o conteúdo do material deste portal quando lhe convinha. Se você age assim com o que tenho pleno conhecimento, o que não faria com o que me é ignorado.

“Uma charada embrulhada num mistério dentro de um enigma”

Embora não saiba do conteúdo de muita coisa, informo que existem eventos que ainda não posso revelar, pois colocará pessoas próximas a mim em situações bem desconfortáveis.

Então seus segredos podem ser qualquer coisa, inclusive coisa nenhuma. Sei que não tem muitos motivos para confiar em mim, porém se quiser obter algo extra de mim terá de arriscar.

Algo (quase) em comum

A história de minha vida já dá por si só um livro, (…)

Sou cético de que esteja com essa bola toda.

(…)mas existem ainda páginas em branco que precisam ser vividas, bem como eventos que aconteceram que somente quando eu aposentar, poderei revelar.

Acho que você talvez agora entenda porque usei um pseudônimo. Você usou seu nome verdadeiro desde o início, às vezes o nome completo. Se tudo fosse bem, ganharia muitos bônus por sua iniciativa, porém me parece que não esteve preparado para algum ônus quando as coisas desandassem.

Apelando para meu Ego

Esta atitude sua poderá arranhar sua credibilidade na internet!

Que credibilidade, diga-me? Você tem RG e CPF, mas Cyrix nunca existiu, caso não tenha percebido. Posso me reinventar em outro pseudônimo quantas vezes quiser enquanto existir a Internet. Será uma “reencarnação sem morte”. De certa forma, fiz isso uma vez, apenas não troquei de nome artístico. Por outro lado, “Falhas do Espiritismo” nunca estará em meu Curriculum Vitae. Ele é satisfação (ou obsessão) pessoal, apenas isso. Minha verdadeira carreira passa léguas daqui.

Uma falsa modéstia

Outrossim, a partir do ano que vem colocaremos seus argumentos à prova através do XXXXX <sigla de grupo apologético>, mas pouparemos sua identidade, visando somente seu conteúdo publicado.

A primeira pessoa do plural foi empregada, portanto, pergunto: você e mais quem? Ou tudo não passa de um “plural de modéstia”, sendo uma questão de honra só sua me refutar? Isso me é importante, pois eu gostaria de saber se você é a única maçã (até agora) podre do seu grupo de apologistas ou se há mais. Digo podre porque agora sei…

… do que você é capaz

mas pouparemos sua identidade, visando somente seu conteúdo publicado. Este é o trato de nossa trilogia em resposta ao Falhas do Espiritismo!

“Chantagem” agora tem outro nome? Não existe trato com chantagistas. Cedo ou tarde eles farão outra demanda com a mesma moeda de troca. Então meu, caro, faça o que você quiser! Ainda que me constranja de início, vai me libertar no longo prazo, pois poderei finalmente sair das sombras e tonar o portal útil para mim. Quem sabe até profissionalizar-me.

Mau discípulo

Até breve!

Atenciosamente,

Xxxxxx <Primeiro nome do cidadão>

“A invencibilidade repousa na defesa, a vulnerabilidade revela-se no ataque”.
(Sun Tzu).

Visite: http://www.xxxxxx.org/

Por favor, não macule a memória de Sun Tzu com uma citação pinçada para fazer uma frase de efeito e fingir que é o tal. Em vez disso, faça uma citação longa, generosa e verdadeiramente instrutiva:

Capítulo IV – Disposições
Sun Tzu disse:

  1. Antigamente os guerreiros bem adestrados primeiro se faziam invencíveis para depois esperar o momento de vulnerabilidade do inimigo.

  2. A invencibilidade depende de nós mesmo; a vulnerabilidade do inimigo, dele;

  3. Segue-se que os homens conspícuos na guerra podem fazer-se invencíveis, mas não ter a certeza de provocar a vulnerabilidade do inimigo.

    Mei Yao-ch’en: Aquilo que depende de mim, eu o faço; aquilo que depende do inimigo, disso não estou certo.

  4. Por isso se disse que é possível saber vencer, mas não necessariamente conseguir vencer.

  5. A invencibilidade reside na defesa; a possibilidade de vitória no ataque.

  6. Defendemo-nos quando nossa força é insuficiente; atacamos quando ela é sobeja.

  7. Os peritos em defesa como que se escondem sob as nove camadas da terra; os versados no ataque movem-se como que acima das nove camadas do céu. Dessa forma mostram-se capazes de proteger-se e de obter uma vitória completa.

    Tu Yu: Os peritos na preparação de defesas acham fundamental contar com a força de obstáculos tais como montanhas, rios e encostas. Eles tornam impossível ao inimigo saber onde atacar. Como que se ocultam sob as nove camadas do solo.

    Os peritos na arte de desfechar ataques acham fundamental contar com as estações e as vantagens do terreno; provocam inundações e incêndios conforme a situação. Tornam impossível ao inimigo saber onde se entrincheirar. Lançam o ataque como se fora o raio vibrado do mais alto das nove camadas do céu.

    (. . .)

Sun Tzu, A Arte da Guerra, Paz e Terra, 1999, pp 45-6.

Com essa mensagem, demonstraste sua vulnerabilidade de forma lastimável. Já o fizeras antes numa pretensa refutação.

Diga “Cyrix” se for capaz!

Já que prontamente agiu ao me enviar a mensagem antes que eu adentrasse nas Flame Wars dos fóruns virtuais, presumo que estivesse me acompanhando de perto ou alguém te mantivesse a par. Isso demonstra, de alguma forma sou importante para ti, nem que seja como o detrator que ama odiar. É o que os anglófonos chamam de hate-watching. Calma, também procuro saber o que falam de por aí, e um belo dia encontrei um artigo seu longo e prolixo em que se gabava de suas “artes como debatedor”. Após um começo piegas em que o livro Torá: a Lei de Moisés é apresentado como ofertante prova da reencarnação na Bíblia nos versículos Ex 20:5 e 34:7 numa fatídica livraria, começo a ler parágrafos que aparentam ser respostas a argumentos meus contra Severino Celestino da Silva. Até aí tudo bem, estavas fazendo teu papel. O estranho, porém, residia numa particularidade: em instante algum houve uma alusão a este portal era feita, muito menos o apelido Cyrix era mencionado. Quem de fora do seu grupo lesse o artigo perceberia que esse autor era defendido de críticas, porém não saberia exatamente quais eram elas, nem quem as fez. Senti-me como uma espécie Lorde Voldemort, “aquele que não deve ser nomeado” ou “Você sabe quem”, tamanho é o medo que sentem dele. Como a carapuça aparentava ser do meu tamanho, resolvi prová-la.

Para ser sincero, aquilo sequer poderia ser chamado de uma verdadeira resposta, pois você fez uma jogada muito malandra: não respondeu a crítica alguma explicitamente; em vez disso, recontou os pontos do Dr. Severino com outros “fundamentos”. Dessa forma, esquivou-se de responder aos pontos mais indefensáveis, forneceu explicações sobre alguns pormenores e, de quebra, pregou para o coral. Para terminar, encheu linguiça com um extrato imenso do livro Analisando as Tradução Bíblicas. Nessa arte do debate, você fez um longo monólogo com o que julgou serem seus melhores momentos e os piores dos outros. Assim fica fácil.

Como se não bastasse, você cometeu erros crassos como, por exemplo, ignorar que trabalho com a mesma edição crítica da Septuaginta que o Dr. Severino e insinuou que minha versão era tendenciosa. Eu poderia ter feito uma refutação avassaladora, mas concluí que não valia a pena gastar meu escasso tempo livre com articulistas desonestos. Fiz algo melhor: elevei o nível do artigo original para “além do nono céu”, seguindo o conselho de Sun Tzu e explicitando ainda mais todas as fraquezas de Analisando…. Não deu outra: você retirou seu texto do ar e só voltou com ele depois de lapidá-lo um pouco, fazendo menções bem en passant às fragilidades que tentara esconder. Acho que ainda pensava que estou no nível de argumentação do pessoal do CACP.

Quer me refutar? Eu te ajudo!

Baseado nesse malfadado artigo, darei algumas dicas que te farão do um articulista melhor. Se bem que seu ponto de partida é tão ruim que não será preciso muito. Vamos lá:

  1. Deixe claro quem você está refutando: caso sua refutação seja realmente boa, não há por que temer que seus leitores leiam o original. Do contrário, corre-se sério risco de começar refutar a uma caricatura do original, que será mais fácil de trabalhar e muito ilusória quanto ao seu potencial;

  2. Faça citações grandes: já disseram que “texto fora de contexto é pretexto”. Clichês à parte, isso é uma grande verdade (e por isso que virou clichê). Siga o exemplo de Orígenes em sua obra Contra Celso. Por ela sabemos que a obra refutada se chamava “O Verdadeiro Discurso” ou “A Verdadeira Razão” e, embora não tenha sobrado exemplar algum do texto anticristão desse filósofo, pode-se ter uma boa noção dele devido às fartas citações que Orígenes fazia;

  3. Aprenda inglês: em certa altura você se esquiva de analisar certo trecho do Talmude Babilônico (tratado Sanhedrim) por ainda esperar uma tradução em português. Curiosamente, é o mesmo tratado que utilizei em Quanto pesa a alma?, que peguei de uma tradução inglesa, online, gratuita. Sinceramente, tire um ano sabático e aprenda inglês. Não estou falando para você se tornar super fluente, capaz de assistir filmes sem dublagem, nem legenda, ou discutir filosofia com um nativo ao telefone. Você precisaria apenas ler. Você e todos os outros monoglotas do seu grupo não têm a mínima condição de autointitular “pesquisadores” sem essa ferramenta. Isso já bastaria para ver que não adulterei nada em minha tradução. Para vocês fazerem suas próprias traduções, um bom dicionário e prática lhes ajudariam. Agora, se seu inglês, digamos, já “dava pro gasto”, então você tirou o corpo fora para ganhar tempo. Outra esperteza;

  4. Arrume uma bibliografia decente: que muito provavelmente estará em inglês, afinal a maior parte da produção científica da atualidade é nesse idioma. Preste atenção: científica, ou seja, textos que procuram embasar seus argumentos em fontes primárias e submeterem-se ao contraditório. Cansei de ler textos espíritas que só trazem (quando trazem) referência a outros textos espíritas/espiritualistas. Vejo dentistas, auditores fiscais, juízes, jornalistas, etc. se arvorando de autoridade para falar do passado, já historiador que se preze, nada. E, principalmente ao lidar com ciências humanas, é bom saber o quanto a tese proposta é controversa ou não, do contrário você clamará como certa uma publicação pelo simples fato de ter sido publicada;

  5. Tire o escorpião do bolso: não vai encontrar a maioria desses livros em sebos nacionais. Foi durante meus estudos sobre o II Concílio de Constantinopla que mais maltratei meu cartão de crédito na Amazon e em outras livrarias virtuais estrangeiras. Foram três anos de muito bons investimentos. Não sei como anda seu bolso no momento, mas lembre-se que sou apenas um, ao passo que você tem seus confrades. Alguns, julgo eu, bem de vida, financeiramente falando. Fazer uma vaquinha será um boa forma de testar sua coesão interna e verificar se são realmente um grupo organizado ou mero bando;

  6. Cuidado com as autoridades: a escolha de uma boa bibliografia requer cuidado, porém. Primeiramente, alguns escrevem livros aventurando-se em temas sobre os quais não têm expertise alguma. Incluiria nesse rol José Reis Chaves, Elizabeth Prophet e, sim, Severino Celestino da Silva. Boa parte dos membros desse grupo já tem a conclusão de seus estudos pronta antes de sequer começar; apenas catam e organizam dados corroboradores e fingem inexistirem controvérsias. Por outro lado, há um grande número de autoridades cuja formação realmente segue seus estudos, mas lembre-se: não possuem divina infalibilidade. Autoridades antigas podem já estar defasadas em diversos pontos; por exemplo, eu adoro Edward Gibbon e seu Declínio e Queda do Império Romano, mas sou comedido em seu uso, pois sei que muita coisa sobre o tema foi revista de duzentos anos para cá. Além disso, atenção às envoltas em grande controvérsia, como esotérico Champlin. Existem, também, o temas que são controversos por sua própria natureza – como o perfil do Jesus Histórico – e nesses você pode encontrar autores igualmente competentes falando coisas díspares, por pertencerem a escolas diferentes. Por fim, mas não menos importante, peço que não envergonhe suas fontes se escondendo atrás delas. Não use autoridades como “carteirada intelectual”. Elas, em si, são apenas humanos como nós; seus argumentos e provas é que são fundamentais. Não faça como certo cidadão que fica clamando que Bart Ehrman é o “maior biblista do mundo” e ainda confunde “variações” com “alterações” (da Bíblia), demonstrando não entender muito bem do que Ehrman escrevera;

  7. Prefira o acadêmico ao de divulgação: Por falar em Bart Ehrman, ele é, de fato, bom, mas não é “o maior biblista do mundo” e nem ele se rotula assim. Creio que foi uma jogada de marketing da Prestígio, a editora no Brasil de O que Jesus disse? O que Jesus não disse? – Quem mudou a Bíblia e por quê. É um grande divulgador, devo concordar, e competente em sua área. Mas se quer realmente ler um livro dele, comece por The New Testament: A Historical Introduction to the Early Christian Writings, que é seu livro escrito para estudantes de seminários protestantes. É outro nível de discussão e, ao fim de cada capítulo, há dicas para continuar seu estudos sobre o tema em questão. Seus livros para o grande público são bem escritos e desenvolvem alguns tópicos que neste livro, ficaram limitados a um capítulo; porém nenhum deles dará uma visão abrangente. Ah! Já ia me esquecendo: está em inglês;

  8. Se possível, leia os originais: já que o Pentateuco espírita é o ponto de partida para os novatos do movimento, porque você se furtaria de ler os textos originais de autores antigos? Sim, essa é uma pergunta capciosa. De fato, é possível aprender sobre determinado autor e época sem ler todos os originais ou apenas extratos. A questão real é qual pedra de toque usarias para saber quem está sendo fidedigno ao objeto de estudo e quem o distorce fazendo uma releitura muito pessoal? Estaria um antagonista exagerando na crítica, um simpatizante nos elogios e um pretenso isento na falta de substância de sua análise? É possível enxergar “fora da caixa”? Para responder essas perguntas, terá você mesmo de ler algo de fontes em primeira mão sobre determinado assunto e tecer seu próprio juízo separando estudiosos de impostores. Mas para isso, você tem que ter…;

  9. Fontes, diga quais são elas é bizarro, mas você faz alusão a certos “eruditos” que nunca são especificados ou nomeados. Será que eles existem, ou será algum deles já foi chamado de “detrator” por você ou pelos seus?

  10. Não diga apenas a verdade, mas toda a verdade: quando citar os versículos que contradizem a ideia de maldições hereditárias, cite, também os que a corroboram (que, aliás, estão em maior número). Em outras palavras, não faça “cherry picking“. Depois, tente explicar essa contradição sem aparentar dar uma de “ensaboado” para quem está de fora;

  11. Não dê tiro no pé: Não capítulo VIII, p. 135 da 4ª edição de Analisando as Traduções Bíblicas, Dr. Severino diz:

    Não sei como encontraram este sentido para a língua portuguesa, nem de onde o tiraram, pois, no hebraico, bem como, no grego e no latim, ele não existe.

    No caso, ele se refere ao uso da preposição “até” em Ex 20: e 34:7, no trecho “até a terceira e quarta geração“. Você tacitamente admitiu a possibilidade, na língua latina, de uma tradução da preposição in como “até”, caso se seguisse a norma clássica da regência dessa preposição no caso acusativo. De certa forma, ao elevar o nível da discussão, você soube de onde “tiraram isso” e, por vias tortas, demonstrou o quão rasa foi a análise da tradução feita por Severino, ao menos da versão latina. A questão é que você não aceitou a norma clássica nesse caso, o que te levou a…

  12. Apelar – sem isso, por favor: por não aceitar a tradução latina convencional, você elaborou uma elucubrada tese de que Jerônimo – o tradutor da Vulgata – teria usado a regência do acusativo da preposição in objetivando um sentido que, na norma clássica, corresponderia à regência dela no ablativo: “em”. Era um parágrafo particularmente confuso em que você fez uma série de considerações especiais para convencer seu leitor de que a tradução do Dr. Severino seria válida. Desculpe, mas esse bizarro contorcionismo foi infeliz:
    1. Não se baseia em nenhuma análise da gramática da Vulgata propriamente dita, a não ser o alegado por “estudiosos” e “eruditos” que nunca são nomeados;

    2. Até acerta ao sugerir que o latim da Vulgata não corresponde exatamente ao clássico, mas erra no grau: se quer um texto latino cheio de vulgarismos, deveria ter optado pela Vetus;

    3. Acha que por se chamar Vulgata (i.e., para o vulgo), ela deveria estar escrita em linguagem popular. Isso é um anacronismo, pois esse termo originalmente se referia à Vetus (cf. Agostinho de Hipona, Cidade de Deus, livro XVI, cap. VIII), apenas sendo usado para designar a tradução/revisão de Jerônimo a partir da Idade Média;

    4. Sequer a Vetus te confirmaria: Jerônimo, quando faz uso da Vetus, revela que seu exemplar não trazia a tradução que você gostaria;

    5. Tampouco Jerônimo (e Agostinho) interpretava(m) esses versículo do jeito que você gostaria. Como sei disso? Fui ler o que esse(s) cidadão(s) escreveu(ram) a respeito, em vez de inventar outro(s) que me aprouvesse(m);

    6. Outra vez: seu tecnicismo mostrou o quão raso ou, melhor, inexistente foi o tratamento dado no livro do Dr. Severino à regência da preposição in. Tem certeza que vale à pena defendê-lo só por ter sido escrito por um confrade?

    Tudo bem que se queira fazer uma alegação contundente, porém, para tanto, é mister alguma solidez nos fundamentos. E você fincou seus alicerces na areia dos “achismos”;

  13. Seja coerente: e lembre-se que isso não significa estar certo, mas, sim, não se contradizer, seja por palavras ou atitudes. Pode-se estar tremendamente equivocado e ainda assim em conformidade com seu princípios. A incoerência, no seu caso, deu-se ao tratar o texto hebraico usando usando regras normativas de gramática e o latino por uma (errônea) abordagem descritiva do que teria sido o latim vulgar. Ou seja, a língua hebraica não teria evoluído nada durante a transmissão do texto massorético, ao passo que a latina não só evoluía, como seguiu para uma direção muito conveniente para ti. Poderia até haver uma razão para tanto, porém, no balanço geral, o único fundamento dessa tese foi sua própria conveniência. Ah! Não se esqueça: “em” com o sentido de “a/até” ainda é usada até hoje na linguagem coloquial do português brasileiro;

  14. Reconheça que Deus também evolui: ao menos na cabeça de seus adoradores. Você comete uma série de wishful thinkings ao recusar a admitir a ideia de maldições hereditárias entre os antigos hebreus. Era uma doutrina injusta? Sim, e daí? Aquele era o deus que eles precisavam para um contexto pré-exílio, quando não havia, ainda, crença em vida após a morte. As concepções acerca do deus único e seu relacionamento com os mortais mudou após a passagem por Babilônia e continuaram a mudar (e se diversificar) ao longo da sucessão de invasores estrangeiros. Se você, antolhado por sua fé cega, acha que a reencarnação é a única forma de salvar Ex 20:5 e 34:7, então você (1) é pouco criativo e (2) tem um baita narcisismo teológico. Uma terceira opção é você saber que as alternativas existem e não julgá-las tão elegantes como considera a reencarnação. Mais um motivo porque seu “debate” não passa de um monólogo;

  15. Não tape o Sol com peneira: na primeira versão, você se valeu de um exemplar interlinear (inglês/grego) da LXX, cuja leitura de Ex 20:5 lhe era conveniente e chegou ao ponto de cogitar que alguns portais com uma edição virtual da LXX haviam adulterado o versículo grego para conciliá-lo com a leitura “até a terceira…” do texto inglês. Pena que você não leu Nm 14:18 do seu próprio exemplar para encontrar justamente essa leitura. Tudo bem, talvez não tenha se tocado. Por isso mesmo esfreguei na sua cara que a edição crítica usada pelo Dr. Severino – a de Alfred Rahlfs – traz “até a terceira…” como leitura principal e “na terceira…” como uma leitura variante encontrada no Códice Alexandrino. Ela ainda trazia “na terceira…” em Dt 5:9 e “até a terceira…” em Nm 14:18. Estava aí a explicação para as diferenças entre as leituras: códices distintos. Você até passou a fazer menção a Rahlphs na revisão que fez, mas desviou do ponto mais nevrágico: o Dr. Severino tinha pelo acesso à leitura “até a terceira e quarta geração” em Ex 20:5 na LXX, porém omitiu esse fato em seu livro Analisando as Traduções Bíblicas, exibindo apenas Ex 34:7. Muito conveniente (e grave), não acha? Sequer se aferrar à leitura alexandrina (como você fez) ele tentou. Aliás, exatamente essa oscilação entre “até” e “em” diversos versículo paralelos da LXX sugere que a confusão de significados nas preposições hebraicas já estava ocorrendo nos últimos séculos antes da Era Cristã. E com quem será que aprendeste a respeito das trocas preposicionais, hein?

  16. Dê créditos a quem faz jus:

(Em construção)

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14 de outubro de 2016 Deixe um comentário

Publicado um adendo à resenha do livro Analisando as Traduções Bíblicas visando sanar as dúvidas de certo leitor.

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Como Discordar

22 de agosto de 2016 2 comentários

Hierarquia de desacordo

Por Paul Graham

Índice

Introdução


A web está transformando o ato de escrever em uma conversa. Vinte anos atrás, os escritores escreviam e os leitores liam. A web permite que os leitores respondam, e eles o fazem cada vez mais – em tópicos de comentários, em fóruns, e em suas mensagens de blog.

Muitos que respondem a algo, discordam. Isso é de se esperar. Concordar tende a motivar as pessoas menos do que discordar. E quando você concorda, há menos a dizer. Você poderia expandir algo que o autor disse, mas ele provavelmente já explorou os pontos mais interessantes. Quando você discorda, está entrando em um território que ele pode não ter explorado.

O resultado é que há muito mais discordâncias, especialmente medidas pelas palavras. Isso não significa que as pessoas estão ficando mais irritadas. A mudança estrutural na forma como nos comunicamos é suficiente para explicá-la. Mas, ainda que não seja a raiva que esteja a dirigir o aumento de desacordos, há um perigo de que ela deixe as pessoas mais irritadas. Particularmente online, onde é fácil dizer coisas que você nunca diria cara a cara.

Se estamos todos em um caminho de maior discordância, devemos ter o cuidado de fazê-lo bem. O que significa discordar bem? A maioria dos leitores pode dizer a diferença entre meros xingamentos e uma refutação cuidadosamente fundamentada. Mas eu acho que iria ajudar, colocar nomes nas etapas intermediárias. Então aqui vai uma tentativa de uma hierarquia do desacordo (DH – Disagree Hierarchy):

DH0. Xingamentos.


Esta é a forma mais baixa de desacordo e provavelmente também a mais comum. Nós todos vimos comentários como este

Você é uma bicha!!!!

Mas é importante perceber que até mesmo o mais articulado xingamento, tem pouco peso. Um comentário como:

O autor é um diletante presunçoso.

Nada mais é do que uma versão pretensiosa de “Você é uma bicha”.

DH1. Ad hominem.


Um ataque ad hominem não é tão fraco como um mero xingamento. Ele pode realmente ter algum peso. Por exemplo, se um senador escreveu um artigo dizendo que o salário dos senadores deve ser aumentado, pode-se responder:

É claro que ele diria isso. Ele é um senador.

Isso não refuta o argumento do autor, mas pode pelo menos ser relevante para o caso. Mas ainda é uma forma muito fraca de desacordo. Se há algo de errado com o argumento do senador, você deve dizer o que é, e se não houver, que diferença faz se ele é um senador?

Dizer que um autor não tem autoridade para escrever sobre um tema é uma variante de ad hominem e particularmente inútil, porque as boas ideias muitas vezes vêm de fora. A questão é saber se o autor está correto ou não. Se sua falta de autoridade levou a cometer erros, aponte-os. E se não o fez, não é um problema.

DH2. Respondendo ao tom.


No próximo nível começamos a ver respostas para o que foi escrito, em vez do escritor. A forma mais baixa delas é a de não concordar com o tom do autor. Por exemplo:

Eu não posso acreditar que o autor rejeita o design inteligente de uma forma tão arrogante.

Embora melhor do que atacar o autor, esta é ainda uma forma fraca de desacordo. É muito mais importante se o autor está certo ou errado do que como o seu tom é. Especialmente porque o tom é difícil de se julgar. Alguém que tenha afeição sobre algum tópico, pode ser ofendido por um tom que parecia, a outros leitores, neutro.

Portanto, se a pior coisa que você pode dizer sobre algo é criticar seu tom, você não está dizendo muito. O autor é irreverente, mas correto? Melhor do que sério e errado. E, se o autor está incorreto em algum lugar, diga onde.

DH3. Contradição.


Nesta fase, finalmente, obtemos respostas para o que foi dito, em vez de “como” ou “por quem”. A menor forma de resposta a um argumento é simplesmente afirmar o caso oposto, com pouca ou nenhuma evidência de apoio.

Isso é muitas vezes combinado com declarações do tipo DH2, como em:

Eu não posso acreditar que o autor rejeita o design inteligente de uma forma tão arrogante. O design inteligente é uma teoria científica legítima.

A contradição, às vezes, pode ter algum peso. Outras vezes, apenas ver o caso oposto explicitamente é o suficiente para constatar que ele está certo. Mas geralmente uma evidência vai ajudar.

DH4. Contra-argumento

No nível 4, chegamos à primeira forma de desacordo convincente: contra-argumento. As formas até este ponto podem ser normalmente ignoradas, como podem não provar nada. Um contra-argumento pode provar alguma coisa. O problema é que é difícil dizer exatamente o quê.

Um contra-argumento é “contradição” mais “raciocínio” e/ou “provas”. Quando refuta diretamente o argumento principal, pode ser convincente. Mas, infelizmente, é comum que os contra-argumentos se destinem a algo um pouco diferente. Com boa frequência, duas pessoas discutem fervorosamente sobre algo, mas estão realmente discutindo sobre duas coisas diferentes. Às vezes elas até concordam uma com a outra, mas estão tão envolvidas em sua disputa que não percebem isso.

Pode haver uma razão legítima para argumentar contra alguma coisa ligeiramente diferente do que o autor original disse: quando se sente que ele perdeu o cerne da questão. Mas quando se faz isso, deve-se dizer explicitamente que o está fazendo.

DH5. Refutação


A forma mais convincente de desacordo é refutação. É também a mais rara, porque é mais trabalhosa. Na verdade, a hierarquia do desacordo forma uma espécie de pirâmide, no sentido de que no mais alto estão as instâncias que se vão menos encontrar.

Para refutar alguém, você provavelmente terá de citá-los. Você tem que encontrar um ponto falho, uma passagem em que você possa discordar com o que você sente que é errado e, então, explicar por que ele está enganado. Se você não consegue encontrar uma citação real para discordar, pode estar discutindo com um espantalho.

Enquanto uma refutação geralmente implica em citar, citar não implica necessariamente numa refutação. Alguns escritores citam partes de coisas que eles discordam para dar a aparência de refutação legítima, então seguem com uma resposta tão baixa como DH3 ou mesmo DH0.

DH6. Refutando o ponto central


A força de uma refutação depende do que você refutar. A forma mais poderosa de desacordo é refutar ponto central de alguém.

Mesmo na DH5, ainda vemos algumas vezes uma desonestidade deliberada, quando, por exemplo, alguém escolhe pontos sem importância de um argumento e os refuta. Às vezes, o modo como isso é feito faz com que seja mais uma forma sofisticada do ad hominen do que uma verdadeira refutação. Por exemplo, corrigir a gramática de alguém, ou insistir em pequenos erros em nomes ou números. A menos que o argumento contrário realmente precise de tais coisas, a única finalidade de corrigi-los é desacreditar o adversário.

Refutar verdadeiramente algo requer refutar o seu ponto central, ou pelo menos um deles. E isso significa que tem de se expor explicitamente qual é o ponto central. Então, uma refutação verdadeiramente eficaz seria algo como:

O ponto principal do autor parece ser x. Como ele diz:

<citação>

Mas isso é errado pelas seguintes razões …

A citação que você apontar como equivocada não precisa ser realmente o ponto principal do autor. Basta refutar algo do qual ele dependa.

O que isso significa


Agora, temos uma maneira de classificar formas de desacordo. E o que há de bom? Uma coisa que a hierarquia desacordo não nos dá é uma maneira de escolher um vencedor. Os níveis DH apenas descrevem a forma de uma declaração, não se ela está correta. Uma resposta DH6 ainda poderia estar completamente enganada.

Embora os níveis de DH não definam um limite inferior no convencimento de uma resposta, eles definem um limite superior. Uma resposta DH6 pode ser convincente, enquanto uma resposta DH2 ou inferior é sempre inconvincente.

A vantagem mais óbvia de classificar as formas de desacordo é que elas vão ajudar as pessoas a avaliar o que leem. Em particular, elas irão ajudá-los a ver através de argumentos intelectualmente desonestos. Um orador eloquente ou escritor pode dar a impressão de derrotar um oponente apenas usando palavras fortes. Na verdade essa é provavelmente a qualidade de um demagogo. Ao dar nomes para as diferentes formas de desacordo, damos aos leitores críticos um alfinete para estourar esses balões.

Esses rótulos podem ajudar os escritores também. A maior parte da desonestidade intelectual não é intencional. Alguém argumentando contra o tom de algo que ele discorda pode acreditar que está realmente dizendo algo. Diminuir o zoom e ver sua posição atual na hierarquia de desacordo pode inspirá-lo a tentar mover-se para contra-argumento ou a refutação.

Mas o maior benefício de discordar bem não é apenas que vai fazer conversas melhores, mas fará as pessoas mais felizes. Se estudar as conversas, você achará muito mais maldades baixas em DH1 do que em DH6. Você não tem que ser mau quando tem um verdadeiro ponto a defender. E na verdade não quer. Se você tiver algo real a dizer, bancar o malvado apenas atrapalha.

Se subir na hierarquia do desacordo torna as pessoas menos malévolas, isso fará a maioria delas mais feliz. A maioria das pessoas realmente não gosta de ser má, elas o são porque não conseguem evitar.

Agradecimentos a Trevor Blackwell e Jessica Livingston por lerem os rascunhos disto.

* * *

Baseado na tradução de Song Fuê constante em Destinatário Théo

Link para o texto original de Paul Graham.

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“Tá Serto!”

21 de fevereiro de 2016 3 comentários

    Face Palm

    Índice

    No meio de uma Flame War


    Em meio a pesquisas que fiz pela internet a respeito deste mesmo portal, encontrei as seguintes pérolas em certo fórum de debates.

    Um print do Fórum

    Que foi respondido por um apologista espírita com:

    Um print do Fórum: a resposta

    E segue-se um artigo de seu grupo apologista falando de Flávio Josefo e outro sobre Hebreus 9:27.

    Bem, de qual deles vou tomar partido? Nenhum, em princípio. Ambos estão errados a respeito o que realmente trata este portal.
    [topo]

    Ser Judeu: Ontem e Hoje

    Em se tratando do apologista evangélico, eu jamais disse que os cabalistas não pertencem à “comunidade rabínica organizada”, que são menos judeus por isso ou são reles “feiticeiros”. Para ser sincero, qualquer religião, em sua pior forma, pode ser reduzida a um amontoado de superstições. Que o diga a Cabala, em seu fabrico de amuletos, os evangélicos, em suas quase circenses manifestações “do Espírito Santo” e “os espiritões”. Por outro lado, em sua melhor forma, a maioria das religiões pode se tornar filosofia de qualidade. Não que eu concorde com as premissas delas.

    O fato é: há judeus modernos que creem na reencarnação e outros não. Quem quiser, acesse o portal Ser Judio – Vida y muerte ou leia O Judaísmo Vivo, de Michael Asheri, cap. XLI, pp. 251-2 , para verificar que a aceitação da reencarnação ou gilgul neshamot não é universal entre os judeus atuais. Leia Jewish View of the Afterlife, de S.P. Raphael, cap. VIII, pp. 314-20 para uma análise histórica e mais aprofundada. Curiosamente, esses dois autores também tocam na possibilidade, em alguns círculos cabalísticos, de reencarnação em corpos de animais. Duvido que os espíritas comprem essa ideia ou digam que ela está na Bíblia.

    Essa diversidade de opiniões pode soar estranha a cristãos (ou neocristãos, como os espíritas), pois, historicamente, seus embates são travados em torno de dogmas da fé. Óbvio que o judaísmo também possui um “núcleo duro”, só que é muito mais eclético em todo o resto. O historiador Paul Johson assinalou que:

    [Na Idade Média] Havia uma tal variedade de opiniões sobre o Messias no judaísmo que era quase impossível ser herético nesse assunto. O judaísmo dizia respeito à Lei e sua observância. O cristianismo dizia respeito à teologia dogmática. Um judeu podia atrapalhar-se quanto a um ponto delicado da observância do sábado que a um cristão pareceria ridículo. Por outro lado, um cristão podia ser queimado vivo por sustentar uma ideia sobre Deus que a todos os judeus pareceria um assunto de opinião legítima e de controversa.

    Johson, Paul; A História dos Judeus, Imago, 1995, parte III, p. 228.

    O que ressalto no artigo sobre Saadia Gaon é que a crença na gilgul foi uma inovação medieval. Esse rabino foi testemunha ocular de sua chegada e difusão na região onde viveu (o atual Iraque), mesmo antes da codificação da Cabala. Por isso, também discordo do forista evangélico quanto à exigência de uma opinião judaica “tradicional”, visto que a crença a gilgul não é exclusiva de “místicos”, como outros na discussão lembraram. Aliás, muito do que ele chama de misticismo só o é para quem está de fora. Por outro lado, também é totalmente sem sentido usar a opinião de judeus modernos para abalizar teses espíritas, já que há não razão alguma para acreditar que algum grupo judaico tenha permanecido estático desde a época de Jesus. Muito pelo contrário: mesmo o dito conservador “judaísmo ortodoxo” é o produto de quase dois milênios de evolução.

    O procedimento correto seria buscar a opinião de judeus do século I, quem sabe antes ou um pouco depois. Para isso existe a literatura intertestamentária e o Antigo Testamento, que são silentes sobre o assunto. A não ser, claro, que você lance mão de alegorias (o que Gaon tanto repudiou) ou de preciosismos gramaticais duvidosos.

    É errado alegorizar? Falando como cético, o problema das alegorias é que elas podem tornar qualquer discussão num verdadeiro “vale tudo”. Judeus reclamam do uso cristão de suas Escrituras para justificar Jesus como o Messias (como Isaías 53). Depois cristãos ortodoxos se irritaram quando gnósticos começaram a elucubrar com os evangelhos (João em especial) para explanar seus “segredos”. Os espíritas são apenas os recém-chegados da especulação teológica.

    O que se pode pesquisar é o que determinado grupo cria sobre certo assunto. Deixar o “texto explicar o texto” pode ser contraproducente, porque a Bíblia não é intérprete de si mesma. Em compensação, pode-se pesquisar a palavra de intérpretes antigos sobre o assunto. Um nome que veio à baila foi ninguém menos que Orígenes.
    [topo]

    Sabendo mais que Eu …

    … a respeito de meu próprio portal.

    Vejamos o forista espírita:

    Os apóstolos criam no retorno dos profetas, tais como Elias, Jeremias e outros mais. Nem preciso citar passagens aqui para provar-lhe algo, você já sabe onde encontrá-las. O caso de Jesus afirmar que João Batista era Elias e o diálogo entre Jesus e Nicodemos, fora os exemplos do cego de nascença e do homem coxo. Saiba que a sua fonte do site Falhas do Espiritismo do Cyrix atesta que os judeus primitivos creem na pré-existência da alma, Orígenes defendia Elias ser João Batista, se é que você percebeu isso e nem se dá conta que o Cyrix nem aborda o fato de João Batista e Elias, portanto, não poderá afirmar que não há reencarnação na Bíblia, por ser sua análise parcial. Acaba que “o tiro sai pela culatra”, sem falar de Flávio Josefo do século I. Ademais, sobre ele, tem o artigo abaixo para apreciação.

    Bem, em instante algum se questionou o valor histórico do relato de Gaon. Ele foi, simplesmente, desconsiderado. Outras coisas que me chamaram atenção:

    1. Eu atesto que os judeus primitivos creem na preexistência da alma: Tudo bem, e daí? Isso só será problema se todos os evangélicos forem traducianistas, i.e., acreditarem que a alma é gerada junto com o corpo. Qualquer grau de criação prévia já é um tipo de preexistência. A questão é que em nenhum instante a ela implica em reencarnação, digo, múltiplas existências terrenas. No portal já havia textos remetendo ao pseudoepígrafo II Baruque (I século), que combina preexistência, vida única, apocalipse, ressurreição e redenção (ou danação) eterna. Só faltou Jesus como Messias para ser um texto evangélico/católico.
    2. O Cego de nascença: Um dos textos que disserto sobre a preexistência é justamente o desse episódio. E ainda há outra explicação possível.
    3. Eu digo que Orígenes defendia que João Batista era Elias: É? Onde? Alguém me indique, por favor!
      O que eu falo realmente é como uma certa escritora espiritualista pinçou um texto de Orígenes para dar justamente esse efeito. Vejamos o que o alexandrino tinha a dizer sobre o assunto:

      Nosso primeiro erudito, cuja visão da transcorporação vimos ser baseada em nossa passagem, pode prosseguir com um exame mais detalhado do texto e argumentar contra seu antagonista que se João foi o filho de um homem como o sacerdote Zacarias e se nasceu quando seu pais já eram ambos idosos, contrariando todas as expectativas humanas, não é provável que tanto judeus em Jerusalém o desconhecessem, ou os sacerdotes e levitas por eles enviados não estariam a par dos fatos de seu nascimento. Não declara Lucas que “o temor veio sobre todos os que viviam por perto” (Lc 1:65), – claramente nas proximidades ao redor de Zacarias e Isabel – e que “todas essas coisas foram divulgadas por toda terra montanhosa da Judeia”? E se o nascimento de João a partir de Zacarias foi matéria de comum conhecimento e os judeus de Jerusalém já enviaram sacerdotes e levitas para perguntar, “És tu Elias?” então está claro em dizer que eles consideravam a doutrina da transcorporação com verdadeira e que ela era uma doutrina corrente de seu país, e não estranha aos seus ensinos secretos. João, portanto, diz, “Eu não sou Elias”, porque não sabe sobre sua vida prévia. Estes pensadores, assim, cogitam uma opinião que não deve de forma alguma ser desprezada. Nosso membro da Igreja, contudo, pode replicar à alegação e perguntar se é digno de um profeta, que é iluminado pelo Espírito Santo, que foi previsto por Isaías, e cujo nascimento por pressagiado antes que sucedesse por tão grande anjo, que recebeu da plenitude de Cristo, que partilha de tal graça, que sabe que a verdade vem por meio de Jesus Cristo e ensinou coisas tão profundas a respeito de Deus e do unigênito, que está no seio do Pai, é digno de tal indivíduo mentir ou mesmo hesitar, em razão da ignorância do que era. Pois com relação ao que estava obscuro, ele deveria ter se abstido de confessar, e não ter nem afirmado, nem negado a proposição que foi posta. Se a doutrina [da transcorporação] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias? E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença. Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento (grifo meu).

      Orígenes, Comentário sobre o Evangelho de João, 6.7

      E Orígenes sustenta, sem querer, a tese da entrada tardia da reencarnação no judaísmo. E ele viveu em Alexandria – onde havia uma numerosa comunicada de judia -, e em Cesareia, na Palestina, portanto contato com judeus não lhe faltou. Eis outro texto dele:

      Alguém pode dizer, porém, que Herodes e parte da população mantinham o falso dogma da transmigração de almas para os corpos, com a consequência de que eles pensassem que o antigo João apareceu outra vez devido a um novo nascimento e tinha vindo da morte para a vida como Jesus. Mas o tempo entre o nascimento de João e o de Jesus, que não foi mais que seis meses, não permite se dar crédito a esta falsa opinião. E talvez fosse melhor que outra ideia estivesse na mente de Herodes – os poderes que operaram com João tivessem passado para Jesus – fazendo que ele fosse visto pelo povo como João Batista. E pode-se usar a seguinte linha de raciocínio: apenas por causa do espírito e poder de Elias, não pela alma dele, que se diz de João: “Este é o Elias que deve vir“.

      Comentário sobre Mateus, livro X, cap XX

      Aí entra uma sutileza da língua grega usada por Orígenes, que é a distinção entre “espírito” (pneuma) e “alma” (psyché). Para ele, só haveria sentido em falar de “transcorporação” se fosse essa última, que seria a portadora da individualidade. Em hebraico, também existe, grosso modo, essa mesma separação entre rouach e nephesh. Dependendo do contexto, rouach pode, contudo, assumir significados distintos (sopro, vento, espírito). Mesmo quando ele é traduzido por espírito não significa que seja exatamente a consciência sempre, mas o princípio que nos anima (Sl 146:4) e retorna a Iahweh após a morte (Ecl 12:7), o ânimo (Jz 15:19), “coragem” (Js 2:11), “raiva, exaltação” (Jz 8:3), ação sobre a mente (Ez 11:5), Iahweh e suas manifestações (Is 63:10). Em se tratando de Elias:

      Sucedeu que, havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito [rouach] sobre mim.
      2 Re 2:9

      Vendo-o, pois, os filhos dos profetas que estavam defronte em Jericó, disseram: O espírito [rouach] de Elias repousa sobre Eliseu. E vieram-lhe ao encontro, e se prostraram diante dele em terra.
      2 Re 2:15

      Observando-se isoladamente 2 Re 2:15, poder-se-ia até pensar em incorporação mediúnica, porém, juntado 2 Re 2:9, fica difícil achar que se trata do significado espiritualista da coisa e só forçando a barra é que é possível ver reencarnação nisso.

      Todo esse ecletismo viria a irritar Saadia Gaon (século X) pelo jogos de palavras que seus respectivos oponentes faziam. Já na época de Orígenes (século III), uma capacidade similar na língua grega foi usada para confundir, como ele insinua em suas refutações a pagãos e gnósticos. Seus Comentários apologéticos, em particular, mostram que a associação de João Batista com uma reencarnação de Elias é bem antiga, assim como as respostas (proto-)ortodoxas para ela. E os flame warriors ainda não se fartaram disso.

    4. Flávio Josefo descreveu a reencarnação entres os judeus do século I: Vejamos o artigo ofertado:

      print forum  3

      Desde os tempos do finado GeoCities, já havia um artigo aqui falando de Flávio Josefo e a crença dos fariseus, que foi totalmente desconsiderado. Juntando isso com a deturpação das ideias de Orígenes, fico com a séria impressão de que o forista espírita, na melhor hipótese, apenas passou os olhos por este portal. Recomendo a leitura desse artigo, mas, caso não tenha tempo, fica este aperitivo: por que o retorno à vida é para os bons e não para os maus que, pela lógica espírita, precisariam mais?

    5. Jesus disse que João Batista era Elias e eu não falo nada do assunto: E se eu falasse, que diferença faria? Falei a opinião de Orígenes sobre o assunto e ela foi distorcida. Falei de Josefo e fui desconsiderado. Poderia acontecer uma dessas opções com o que eu dissesse sobre João Batista ou … uma nova exigência ser feita! Agora, vem cá: Jesus realmente disse isso? “Sim, lá em Mt 11:14 …” Não. Isso é o que foi registrado por Mateus. Por acaso você me garante que o Jesus Histórico – o ser de carne e osso que andou entre nós – disse algo próximo a tal?

      Essa é uma das razões por que não considero pesquisa séria boa parte da apologia espírita: ela praticamente trata os evangelhos como documentos históricos, sem o menor critério para distinguir o que pode ter um fundo de verdade do que é puro mito. Convenhamos que isso é útil no debate contra os “fundamentalistas”, a fim de prendê-los em nós difíceis de desatar, embora não condiga com um credo com pretensões racionalistas. O efeito colateral é produzir um Jesus à própria imagem e semelhança.

    Distorção de fatos, falácias e grande má vontade em simplesmente ler as informações que tenho a oferecer. Às vezes tenho a impressão que muitos dos que se propõe a me combater, refutam outro portal. Um portal mais fácil em que eles podem escolher o que responder e se responder. Afinal, jogaram fogos diversivos e nada se falou a respeito de Saadia Gaon. Perda de tempo.

    Atendendo a pedidos, será feita uma breve preleção sobre o tema Elias/João Batista, que, obviamente, não será tudo o que gostaria de dizer.

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O Outro Outro Mundo dos Espíritas

24 de dezembro de 2015 5 comentários

Por Acauan Guajajara, do Religião é Veneno

Os espíritas oscilam entre este mundo e um outro no qual habitam os desencarnados que guiam os médiuns na escrita de livros de estilo indistinguível ou na execução de procedimentos cirúrgicos não reconhecidos pelos conselhos de medicina.

E tem um terceiro.

Um outro outro mundo, exclusivo dos espíritas e invisível para quem não o é, mas mais próximo e compreensível para os terrenos do que o etéreo entre o nirvana e o umbral, onde karmas se cumprem obedecendo a enredos parecidos com os das novelas mexicanas.

O interessante do segundo outro mundo dos espíritas é que, ao contrário do primeiro, ele é repleto de realizações positivas aferíveis pelos prosaicos observadores deste plano.

Este outro mundo manifesta-se no nosso através dos Centros Espíritas. Não… não pensem de início em lugares onde apenas se dão passes e gente morta manda recados sobre o quanto estão felizes e bem lá do outro lado.

Os Centros Espíritas são complexos impressionantes, pelos menos os grandes Centros, que agregam, além das atividades típicas requeridas pela doutrina kardecista, as ações de caridade exigidas por ela.

Os grandes Centros Espíritas são de matar pastor de igreja neopentecostal de porta de garagem de inveja. Enquanto estes espremem o dom de apascentar que lhes é dado pelo Espírito Santo para tentar recolher até o último centavo de dízimo que lhe permita pagar o aluguel do mês daquele espaçozinho sem graça, os espíritas se dão ao luxo de manter prédios no porte e forma parecidos com escolas públicas, onde, além de exercitarem seus iniciados no diálogo com o além-túmulo, mantém uma enormidade de atividades sociais que muitas vezes incluem creches, orfanatos, escolas de deficientes e coisas do tipo.

Estou certo que todo mundo sabe que manter estas coisas é caro. Talvez nem todo mundo saiba que manter estas coisas é muito, muito caro.

Há Centros Espíritas que mantém creches para carentes, escolas para excepcionais, lares para órfãos ou asilos para idosos dotados de toda a infraestrutura e tocados por profissionais especialistas remunerados. O custo mensal disto tem muitos zeros a direita da primeira cifra.

Mas segundo o IBGE os espíritas são uma percentagem pequenininha da população e não cadastram seus adeptos para pingar o dim-dim do fim do mês nos cofres das lideranças religiosas sob a pena de terem o devorador comendo suas rendas caso não o façam (hei, hei, fiz piada com vocês sabem quem…).

Como então conseguem manter tantas obras, cujo funcionamento exige uma garantia de recursos fluindo todo quinto dia útil do mês para pagar folhas de pagamento e toda semana para pagar alimentos, materiais de consumo e serviços de manutenção? E para complicar parece que ainda sobra para campanhas várias, da Páscoa ao Natal.

A resposta é o que os espíritas mantém uma enorme, silenciosa e extremamente organizada rede de coleta e distribuição de recursos que não só fazem fluir quantidades imensas de dinheiro e donativos para a manutenção de suas obras como mantém um gerenciamento eficiente na aplicação destes recursos.

Os grandes Centros Espíritas são reflexo disto. Todos funcionais, limpinhos e ascéticos.
Cheios de salas, algumas de portas trancadas embaixo das quais sempre olho para ver se tem ectoplasma escorrendo pela fresta. Quadras de esportes, cantinas e anfiteatros completam o pacote.

Os espíritas brasileiros que sustentam tudo isto estão concentrados na classe média, mas a comunidade abrange empresários e profissionais liberais bem sucedidos que de modo notavelmente discreto estão por traz das contas que não fechariam sem a contribuição deles.

Lembro-me de uma muito conhecida família de advogados criminalistas de São Paulo que assumia pessoalmente a direção de uma grande creche mantida pelos espíritas. Nunca entendi como tinham tempo para dar atenção aos seus casos jurídicos cuidando de todos os pepinos que aquele abacaxi lhes proporcionava.

Como empresário espírita não bota neon na fachada de suas empresas anunciando que “Deus é Fiel”, como fazem prosélitos de outras crenças, ninguém sabe que eles existem. Mas há muitos. Talvez o seu patrão seja um deles, vá saber.

Um conselho: não tentem fazer marketing social em instituições espíritas dando algum dinheiro para ostentar faixas do tipo “a empresa tal mantém esta instituição”. Para quem não sabe, os espíritas não aceitam isto. Se quiser doar dinheiro eles agradecerão e dirão que o donativo será tratado com discrição, mesmo que sua intenção ao doar fosse fazer o máximo possível de propaganda da sua bondade.

Alguns Centros Espíritas são mantidos exclusivamente pelos chamados servidores, membros da comunidade que realizam todos os serviços para manter a instituição – da contabilidade a lavar banheiros – sem receber um centavo por isto.

E há também empresas mantidas e tocadas por espíritas cujo objetivo é levantar fundos para manter as obras da comunidade. Um grau de especialização e sofisticação que parece planejado por alguma administração central.

Só que os espíritas não têm organização central nenhuma.

O consenso mais próximo que os espíritas parecem ter quanto à uma autoridade reconhecida por todos é que todos parecem concordar que a Federação Espírita Brasileira não é esta autoridade.

E quem é?

Ninguém.

É isto que torna o outro outro mundo dos espíritas um fenômeno digno de nota. A mais pura expressão do Laissez-faire transferida para o mundo da religião.

* * *

Do administrador: um bom Natal e feliz ano novo!

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Prezado Fred…

5 de julho de 2015 11 comentários

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Um Inusitado Admirador

escrevendo

Quero deixar aqui minha admiração a este “anônimo” adversário da Doutrina Espírita. Nunca vi alguém estudar com tanto afinco para contrapor uma filosofia. Você é um ser com uma capacidade de raciocínio e de argumentação incrível, e eu como espírita, não tenho sequer coragem de arriscar algum argumento em defesa da Doutrina Espírita, diante de suas argumentações e documentações apresentadas. Minha argumentação e conhecimentos seriam simplórios diante da astúcia com que você se desenvolve em suas argumentações. Eu não tenho experiências espirituais que comprovem sequer o que eu acredito, apenas meus parcos estudos dentro da Doutrina. Portanto, só o que há em mim que possa abonar minha crença, é a fé. Talvez, como já falou aquele carinha famosinho, este seja o meu “ópio”, mas eu prefiro isso, do que enfrentar o vazio da incerteza. Quanto a você, meu irmão “anônimo”, não compreendo onde tudo isso o está conduzindo. Não compreendo qual a vantagem de dispensar tanta energia em um combate como este. Como escreveu o @Claudio, é uma das filosofias de amor mais coerentes que eu conheço. Ainda concordando com a colocação de nosso amigo Claudio, não compreendo porque você não empreende melhor todo este seu dom e toda esta energia, de um modo mais positivo em favor de você e de nossa humanidade. Com sinceridade, tenho muito respeito pelos teus textos, teus argumentos, tuas pesquisas, pois são de uma lucidez muito grande, ainda que eu não compreenda onde você quer chegar com isso, e qual a vantagem que almeja. Eu compreenderia se você me dissesse que está defendendo a sua religião ou a sua filosofia, mas não consigo entender o motivo desta guerra sem objetivo. Da minha parte, o que digo é que a Doutrina Espírita não precisa ser defendida, e que toda a verdade desta filosofia se constata em pouco tempo, que é o nosso pós-tumulo. Eu compreendo que há muita verdade no trabalho que você tem feito, mas também acredito que algumas verdades também deve haver na filosofia Espírita, bem como em tantas outras filosofias espiritualistas espalhadas pelo mundo. E a única argumentação que tenho, e que para você não deve significar nada, é a minha fé. Se você está em busca de alguma verdade, desejo que a encontre, e que compartilhe conosco quando a encontrar. (Comentário postado em Vinde Espírito Santo)

É Fred (posso te chamar assim?), você merece uma resposta. Até porque não deve estar sozinho. Vou deixar este fixo no topo por uns tempos até ter encerrado. Seus comentários serão os únicos que autorizarei, ao menos de início.
[topo]

Origens

Planeta dos Macacos - A Origem

Quem viu esse filme talvez possa perceber algo a ver …

As coisas começaram, de certa forma, bem antes de nascer. Não falo de planejamento reencarnatório em alguma colônia etérea ou coisa assemelhada, mas na minha figura paterna. Em sua juventude ele chamara a atenção de seus pares veteranos. Muito culto e inteligente, podia-se dizer que ele era uma promessa para o movimento espírita. E, realmente, foi só isso mesmo: ao falecer tragou toda sua cultura para o túmulo. Por outro lado, o fato de ele ser quem era rendeu-me um ambiente culturalmente rico, com boa oferta de livros e, às vezes conversas, longas sobre os assuntos mais aleatórios que uma curiosidade infantil permitisse.

Minha apresentação ao espiritismo foi feita por ele mesmo, baseada numa espécie de “catecismo” antigo que possuía. Por sinal, ao contrário de outros familiares de minha faixa etária, não frequentei nenhuma sala de evangelização. Não sei se por alguma implicância com a orientação do Centro mais próximo, alguma sensação de autossuficiência ou qualquer outra razão oculta, preferiu-se um home schooling. Não sei quanto essa relação mestre/discípulo pode ter emulado as escolas catequéticas católicas ou as dominicais dos protestantes, mas já ouvi (fico te devendo de onde) que relações mais horizontais, lúdicas e com outras crianças teriam sido melhores. Bem, agora só me restam cogitações.

Caesar e o Dr. Rodman

Definitivamente, não éramos da mesma espécie, mas a gente se entendia.

O que ele não contava era ter um aluno … “questionador”, principalmente ao chegar ao começo puberdade. Por exemplo, quando chegamos à parte “Fora da caridade não há salvação” no Evangelho Segundo o Espiritismo (ESE), perguntei algo como ”como praticar a caridade sem ter interesse em me salvar, pois do contrário não é caridade?”. Em outras palavras, perguntei se existia altruísmo genuíno ou sempre haveria um interesse subjacente. Não quero começar uma discussão filosófica aqui, pois diferentes respostas já escutei. Basta saber que por esse tipo de pergunta meu velho não esperava e tive um bom número de evasivas. Às vezes, buscava respostas sozinho, o que me levou a ler o Pentateuco por conta própria. Para o quê fui fazer isso: O Céu e o Inferno me encheu de horror em sua segunda parte. Hoje, claro, já não teria esse efeito, mas naquela época … Conforme cresci, o controle paterno se afrouxou e fui naturalmente me afastando. E, respondendo a sua pergunta, não, nunca tive nenhuma experiência “sobrenatural”. No máximo ouvia histórias e “causos” que ele presenciara, mas não se emprestam vivências. Aliás, o que eu realmente quase não li, nem muito me interessei, foi o Livro dos Médiuns (LM).

Mas Falhas do Espiritismo ainda estava um pouco longe… o que aconteceu foi em seguida foi uma espécie de comportamento ciclotímico que, hoje, nem entendo como aconteceu. Bem, tal como uma criança chora por um brinquedo quebrado – que alguns anos depois não daria a mínima –, o que senti na época foi importante. Já por volta da maioridade e sem contar mais com a presença da figura paterna, levada de forma súbita, fui tomado por um processo de, digamos, “aborrescência”, catalisado por experiências negativas. Tornei-me arisco e recluso, mas não depressivo ou inerte. O fim dos laços sociais, pelo menos, deu-me tempo de sobra para focar nos estudos, o que me permitiu passar pelo funil do vestibular com até mais de uma opção. Mudei de ares com a entrada no ensino superior, mas não de cabeça. Continuava alguém de “mal com a vida”, uma presa interessante para quem me desse uma proposta capaz de me fazer sentir especial: os evangélicos, por exemplo.

Caesar no santuário símio

Longe de serem aqueles estereotipados pregadores em cima de um banquinho, no meio da rua, clamando em voz alta: eles eram seus próprios cartões de visita. No meio da loucura do corpo discente das universidades, eles eram uma ilha de sanidade para pessoas de formação mais “tradicional”, como a minha. Não era apenas isso. Sentia neles uma alegria de viver, uma autoconfiança, uma garra que me causava m uma certa inveja, não algo mesquinho, mas a vontade partilhar disso também. Fiz sinceras amizades naquele meio e, entre uma conversa e outra, assuntos religiosos acabam por aflorar. Não, não conheci nenhum daqueles clássicos “ex-isso”, “ex-aquilo”, todos, que eu me lembre, haviam sido criados assim de berço ou, pelo menos, muito cedo. O que me mostraram foi outra forma vivência, com um relacionamento com o Divino em nada racional, porém muitíssimo pessoal. O batismo, como de praxe, dado na adolescência parece um rito de passagem extremamente marcante a eles. Um verdadeiro “renascer”, bem distinto daquele aprendido na “catequese doméstica”. Foi de histórias como essas que comecei a entender o significado de transcendência, embora jamais viesse a me sentir tocado por algo além de meu ego humano. Também foi deles a sensação de acolhimento que precisava: no âmbito doméstico, nas poucas vezes em que pensei me abrir com outros parentes, a resposta era sempre algo como “você que escolheu isso” ou “essas foram as consequências de seus atos”, e “não estou aí para seus dramas existenciais”. Doía ouvir isso de gente que visitava orfanatos, hospitais, fazia trabalho voluntário, sempre lidando abnegadamente com desconhecidos e, ao mesmo tempo, sendo dura com alguém que conheceu de berço e até dividiu o teto. Fazer o quê? O espiritismo, em si, é uma meritocracia. O que os evangélicos me traziam, por sua vez, era bem diferente: eu poderia ser especial, mesmo sem merecer, aliás, mérito não fazia sentido nessa teologia. Eu não precisava estar pronto para ser acolhido: se acolhesse a oferta, eu que seria preparado. A porta deles sempre esteve aberta, não se precisava bater. Se eu havia cortado laços, outra comunidade muito maior estava prestes a me chamar de “irmão”. Não tinha em conta que estava imerso em um jogo de sedução (no bom sentido) muito bem orquestrado, que quase funcionou. Quase. Até hoje penso que, tivesse eu me entregado, não teria vivido mais feliz. Mas eles cometeram um erro sério no processo: exageraram na dose.

Caeser e Maurice

Havia alguns entre eles que eram criacionistas da “Terra Jovem”, adeptos de uma interpretação literal do livro de Gênesis. De início achei divertido discutir com eles, tamanha era a ignorância que tinham sobre o assunto. Depois fiquei um pouco preocupado, pois não eram ignorantes como pessoas, muito pelo contrário, mas tinham escolhido voluntariamente antolhar a mente num tema específico. Isso por si só não seria o bastante para prevenir uma possível conversão – também havia conciliadores entre ciência e fé -, pois o verdadeiro tiro pela culatra ocorreu quando me apresentaram o livro O Império das Seitas, de Walter Martin, volume 4. Um capítulo inteiro era dedicado ao Espiritismo. Se as dúvidas já haviam me afligido durante a catequese paterna, aquilo foi um choque: o autor reunira diversos absurdos científicos, inconsistências, argumentações fracas, interpretações enviesadas da Bíblia (afinal, era um livro da ortodoxia cristã) e rixas internas do espiritualismo de século XIX. Fiquei com a impressão de que havia tanto de apelação no espiritismo como no protestantismo. Passado o impacto inicial, entrei numa espécie de “negação”, não podia admitir que a “fé racionada” tivesse alicerces tão frágeis. Fiz, então, algo inédito em minha vivência religiosa: adentrei um centro espírita.

Um passeio em família

Ficava a algumas quadras de casa. Lembro ainda menino, em um passeio a pé pelas redondezas, de lhe perguntar por que ele não o frequentava. Não recordo, porém, da resposta, apenas da sensação de ele querer desconversar. Não sei se não gostava dos dirigentes, da dinâmica do trabalho ou se apenas não queria se envolver. O que quer que fosse não era nada fidagal, tanto que outros parentes próximos o frequentaram sem que ele implicasse. Nunca me encaminhou, porém, nem eu fizera questão. Como se diz no meio, já que não me voltava a Deus por amor, estava voltando pela dor, ainda que fosse uma dor emocional.

Olhando ao longe.

Olhei na fachada um cartaz com a programação semanal e soube quando eram as reuniões de mocidade (embora, tecnicamente, já fosse adulto jovem). Na reunião seguinte, estando a porta aberta, entrei e sentei-me ao fundo. Não demorou a minha presença ser notada e ser convidado a chegar à frente (cf. Lc 14:7-10). Posso dizer que fui bem recebido e o pessoal da mocidade não deixava nada a desejar em termos de acolhimento em relação aos evangélicos. Revi até alguns colegas de ginásio, pois a escola em que estudamos também era no mesmo bairro. A única diferença que vi entre os dois grupos – além das doutrinárias, claro – é a ausência do proselitismo dos últimos nos espíritas. Bem, isso não vem ao caso aqui. Coincidência ou não, minha chegada permitiu que os organizadores formassem um pequeno grupo com outros recém chegados (uns quatro, acho, contando comigo) a serem apresentados mais formalmente à doutrina. No essencial, não me mostraram nada de novo; mas, como modesto calouro, recomecei do zero. As novidades se encontravam naquilo que “não estava escrito”: os jargões, práticas e maneiras, enfim, tudo o que faz um membro de um grupo reconhecer outro sem grandes formalidades. Por exemplo, foi aí que descobri que “Pentateuco” era usado como sinônimo das obras básicas da codificação, em vez de meramente os cinco primeiros livros da Bíblia.

Passada a fase de apresentação, as coisas transcorriam mais ou menos assim em cada reunião:

  1. Alguma dinâmica de grupo para descontrair ou integrar, concluída com um prece;
  2. Partida dos grupos de estudo cada um para sua sala, conforme o grau de adiantamento. Se não me engano eram dois apenas;
  3. O estudo em si era dividido em dois tempos: um para algum capítulo de um livro do Pentateuco, artigo da RE ou o OQEE, seguido por outro para a leitura de algum romance psicografado, um daqueles “clássicos”: Memórias de um Suicida, Nosso Lar, Ação e Reação, etc;
  4. Uma reunião de despedida, como anúncios de caráter geral, um esboço para a próxima semana e uma prece final.

Íamos, também, visitar uma instituição de amparo pelo menos à tarde de um domingo do mês. Às vezes, numa frequência que não me lembro agora, também chegávamos mais cedo à reunião semanal para uma espécie de faxina no centro. Durante as férias de verão, havia uma programação mais leve, com a leitura de livros de pequenos contos, como alguns do Richard Simonetti, seguidas por dinâmicas calcadas na história lida.

Foram três anos eu acho. Melhor, quatro incompletos. Tive um entusiasmo inicial, admito, chegando a argumentar melhor com os crentes da faculdade e até a distribuir alguns exemplares de bolso do ESE (não para esses últimos, claro). Não era difícil, como a maioria dos apologistas já o sabe, usar contradições bíblicas contra eles. Se minha passagem por lá serviu de algo, foi para me convencer de que o espiritismo não se trata de “artimanha de satanás”. Por outro lado, ainda não estava convencido que fosse algo divino, ou pelo menos obra feita sob orientação superior. A fé não precisa de coerência para se manter firme, precisa de motivos e esses podem muito bem ser reunidos num ente misterioso chamado “inspiração divina“. Já a razão exige coerência, mesmo que se calque em premissas falsas. Uma “fé racionada” deveria ir pelo mesmo caminho, supunha. Só que as contradições científicas e filosóficas do Espiritismo continuavam a me assombrar e minha empolgação foi arrefecendo paulatinamente. Tentei trazer uma ou outra vez algum ponto à discussão, mas geralmente se preferia não interromper o fluxo do estudo do dia. Quando isso ocorria, era costume algum gentil veterano dar uma explicação à parte para mim, após a prece final. Achava um tanto fracos os argumentos, mas acatava. Não queria entrar num embate. Não lá dentro. Não me sentia à vontade. Essa era outra questão e aflição.

Eu simplesmente não conseguia me integrar. Ao contrário dos religiosos da faculdade, cujo convívio era quase diário, os membros da mocidade só se encontravam uma vez por semana e nem sempre eram os mesmos cada vez. Na faculdade era nítido que estávamos no mesmo barco apesar de nossas diferenças, enquanto no centro, com toda comunhão de ideias, ainda me sentia um estranho. Muitos dos demais estavam lá desde a época de evangelização (i.e., cresceram dentro do centro), mesmo os que eu já conhecia do ginásio, estavam apenas para colegas de classe que amizades profundas. Os coordenadores até sentiam isso e estimularam a participação em outros grupos para aumentar a interação (biblioteca, distribuição de cestas, etc.). Participei de um deles e penso que até a proposta era boas, porém chegou um tanto tarde para mim. Era complicado me envolver mais quando, internamente, a sensação de deslocamento aumentava mais e mais.

Caesar diante do espelho

Percebendo essa contradição, brequei qualquer passo na direção de um envolvimento mais profundo e fui me afastando gradualmente. Comecei a ir semana sim, semana não, em seguida mensalmente, até sumir. Sim, fui embora sem dizer adeus. Se me arrependo, não sei. Meu eu antigo precisava sair, mas se acovardou. Ainda esbarro com um outro dos antigos contemporâneos de mocidade por essas andanças da vida e, se me reconhecem, devolvem ao menos um aceno. Acho que deixei boas lembranças, mas me constrange quão ignoram o que fiz.

No período em que fiquei, não tive nenhuma experiência, digamos, sobrenatural. Não era meu foco quando entrei e, quando próximo a sair, já não acreditaria nos bastidores do fenômeno. “Tomei passe” apenas uma vez e nada senti, até talvez porque já estivesse meio cético.

Já formado, encontrava-me sozinho de novo, por escolha própria outra vez, só que agora o cenário era outro: a internet começava a explodir e com ela as primeiras páginas pessoais e fóruns. Os primeiros autores e foristas que li eram ex-religiosos de origem católica ou protestante, sem muito em comum com minha vivência pessoal. Os únicos a realmente debater com espíritas eram os ainda religiosos, mas eram de um indigência intelectual de dar pena. Até que depois de muita busca encontrei um ex-espírita a criticar racionalmente o espiritismo. Tentei trocar ideias com ele, mas nada. Hoje, relembrando o fato, creio que ele já tivesse outros afazeres, assim como eu não respondo a vários dos que me escrevem também, mas na época essa pequena frustração foi a gota d’água para que eu decidisse agir por conta própria.

Caeser espalha o vírus

Resolvi criar minha própria página pessoal, inicialmente no domínio hpg e, logo depois, no GeoCities (ambos já extintos). No começo, o material não passava de uma coletânea que fiz do supracitado livro de Walter Martin, mas já era um bastante para um objetivo duplo: melhorar a argumentação de evangélicos e católicos, além de deixar espíritas na defensiva. Isso foi uma atitude calculista de minha parte? Sim, foi. A ideia era dar aos espíritas adversários à altura, a fim de os forçar a responder as dúvidas que me afligiam, ou, quem sabe, produzir mais céticos “ex-píritas” como eu mesmo, assim não ficaria mais sozinho. Estava disposto a acender a centelha de uma guerra ideológica ou, pelo menos, de uma corrida armamentista.

Caesar na batalha da ponte Golden Gate

Assim surgiu “Falhas do Espiritismo”. Parti com as aspirações de glória de um recruta, mas o veterano que agora te escreve, preferiria a paz. Na época, não tinha ideia do que estava por vir.
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Flame Wars: a Era dos Fóruns

Game of Thrones

The winter is coming!

Entrar na Internet é fácil, fazer-se notar que é difícil. Então fui espalhar minhas sementes por aí. Criei o nick de “Cyrix”, que nada mais é que o nome de antiga uma empresa de processadores de baixo custo (uma “prima pobre” da Intel) cujo um dos produtos movia um laptop que usava. Coisa bem nerd, reconheço, e a maioria hoje não o deve saber sem pedir ajuda a um motor de busca. Bem, foi esse o “nome de guerra” que adotei no fórum Sociedade Terra Redonda (STR), talvez um dos primeiros fóruns céticos virtuais do país, ao lado do ainda ativo Religião é Veneno.

Processador da Cyrix

Adicionei um link para o portal em minha assinatura da STR, mas o resultado inicial foi um tanto pífio: o foco do fórum estava no combate a radicais católicos, evangélicos, criacionistas de ambos os grupos e ufólogos. Os tópicos que abri para divulgá-lo não iam além de algumas postagens. Tentei repassar o material para outros portais que abrissem espaço para a paranormalidade, como o finado “A Busca da Verdade”, como algum sucesso e olhe lá. Cheguei ao cúmulo de postar na caixa de entrada de portais de centros espíritas pedindo ajuda para refutar minha própria criação, fingindo ser um pobre adepto em crise de fé. Quase todos, porém, me recomendaram buscar orientação e estudo num centro espírita.

As coisas começaram a mudar após um debate entre o cético Cláudio Loredo e o espírita Marcus Arduin a respeito da “vida após a morte”, moderado pelos administradores da STR. Isso colocou esse fórum cético/materialista no radar dos espíritas. Por meio de alguns espíritas que lá aportaram, tomei ciência do sítio Portal do Espírito (ainda ativo) e de seu fórum. Registrei-me lá também, porém um perfil falso chamado “Círius”, com o qual pratiquei uma espécie de “trollagem moderada”. Explico: não abria tópicos com a intenção de implicar, mas alfinetava dentro de outros já abertos por outros foristas declaradamente “do contra”. Tanto que a moderação local criou uma seção justamente com esse nome por lá. Ficava eu mais como uma espécie de vírus incubado, esperando o momento certo de agir. Os que realmente abriam pegavam material de meu portal, mas os foristas locais não respondiam, pois havia outra pessoa a fazer isso por eles, à qual eles apenas linkavam.

Jon Snow e Mance

Inimigos também podem guardar respeito, ainda que a contragosto.

Chamo-o momentaneamente de V., pois talvez eu fale sobre coisas particulares de uma outra pessoa à qual não pedi autorização. Para resumir, diria que foi uma das poucas interações produtivas que tive ao longo da última década. Eu já tinha ciência de sua existência, pois ele já tentara dialogar com A Busca da Verdade, mas foi uma perda de tempo, devido, ao que eu que me lembre, à “falta de modos” dos administradores daquele portal. Então, decidi dar-lhe uma nova oportunidade quando me enviou um “e-mail resposta”. Logo percebi a razão do pouco interesse dos espíritas pelo meu portal: estava tudo muito cru e facilmente contra-argumentável. Foram duas ou três rodadas de respostas e réplicas, que me valeram para incrementar o próprio portal. Durante esse período, travei contato com o trabalho de nomes como Pastorino, J.R. Chaves, Severino Celestino da Silva, Paulo Neto e outros escritores, divulgadores e apologistas espíritas. Constatei ainda ter muito a me aperfeiçoar e, ao mesmo tempo, um amplo campo por onde expandir. No balanço final, eu diria que levei a melhor na crítica à reencarnação na história e ele em na defesa dela como fato. V. também aproveitou o material que produziu para a criação de se seu próprio portal, que depois foi reformulado para outro em formato de blog, dedicado à análise de evidências quanto à existência de espíritos e de casos de recordações de vidas passadas, além de fazer avaliações críticas dos romances psicografados considerados clássicos entre os espíritas. Não sei se ele ainda se declara espírita, mas gostaria que existissem mais como ele.

Algum tempo depois, por motivos técnicos (problemas com a hospedagem) e brigas internas por motivos que já não me lembro mais, a STR se desagregou. Parte de seus foristas fundaram o Clube Cético (ainda ativo) e outra migrou para o supracitado Religião é Veneno. Criei perfil no primeiro e já tinha um no segundo, pois ambos tinham estilos bem diferentes. O “Clube Cético” (CC, para os íntimos) manteve a postura de “rédea curta” em termos de moderação da STR, que sempre evitou uma escalada exagerada das discussões, ao passo que o “Religião é Veneno” (RV, para os íntimos) era bem mais anárquico. Havia moderação, sim, e ela agia (e ainda age) prontamente quando uma postagem descambava em algum crime contra a honra da pessoa real por trás da tela (injúria, calúnia e difamação), de ódio e/ou racismo. Agora, quando o único afetado era um “nick”, então a pancadaria era livre! Trollagem era tolerada? Digamos que em um nível muito maior que no CC, mesmo assim um bom número de foristas conseguiu a proeza de torrar a paciência da moderação e ser banido.

Debate no Religião é Veneno

Dizem que se um debate no Religião é Veneno não tiver pelo menos três mortes, ele é considerado chato.”

Foi no RV que conheci alguém que se propunha ser uma espécie de Nêmesis meu (e de outros, quem sabe). Seu nome, bem, para protegê-lo, será “Kevin”. Era um ex-membro de uma seita evangélica e prosélito do espiritismo, um caso raro em minha vivência. Segundo testemunho seu, em outro fórum (de orientação evangélica), fora uma espécie de apologista cristão contra o espiritismo, como tantos outros, que, quando teve o senso de dúvida despertado indiretamente pelos próprios espíritas que atacava, entrou em crise fé. De um crente devoto, tornou-se kardecista igualmente fanático devoto, sem deixar de agir como um pretenso teólogo. Óbvio que eu era uma presa cobiçada e ele estava em fóruns alheios justamente para refutar, desprezar e escrachar os que se opusessem a sua nova fé, como um bom troglodita.

Só que ele não sabia como a banda tocava ali. Ninguém ali estava preocupado em “salvar a alma” ou praticar a “reforma íntima”, enfim, os céticos/materialistas não faziam a menor questão de bancar os bonzinhos. Muito menos alguém ali acreditava na Inerrância Bíblica para defender se esta ou aquela interpretação era a mais piedosa. Os sentidos mais crus e ásperos para nós eram os mais prováveis, principalmente se estivessem a serviço da mitologia nacional do Antigo Israel. Vendo a incapacidade de se fazer notar, tentou mudar de tática, atendo-se aos aspectos mais, digamos, “científicos” do espiritismo ou criticando os adeptos a parapsicologia “quevedista”, que ninguém de fora levava a sério, mas que nos divertiam com suas teorias ridículas sobre o inconsciente. Comigo, não conseguiu ir muito longe, pois, primeiramente, não oferecia eu combate aberto, adotando mais a tática do Picador. Ainda assim, consegui surpreendê-lo refutando textos de Aksakof, besteiras sobre a Patrística e o II Concílio de Constantinopla. E, em segundo lugar, outros fóruns em que postava, de perfis religiosos, consumiam mais de suas energias.

Nem tudo foi ruim com a presença de espiritualistas: o fórum, por algum tempo, foi um interessante lugar de debate entre a “hipótese psi” (a versão séria) e a de “sobrevivência”, i.e., a separação entre mente e corpo, mas foi impressionante a incapacidade dos kardecistas ortodoxos em acrescentar algo. Houve duas honrosas exceções, mas jamais os classificaria como ortodoxos, tal como Kevin era. Esse começou a se incomodar com um forista cético que bancava o papel de Palhaço Malvado, não que os argumentos desse fossem grande coisa, mas evidenciavam como Kevin caía muito fácil em “zoações”. Ele gostava de bater com seus punhos de aço, mas detestava que lhe arranhassem o queixo de vidro.

Sabendo disso, revolvi me aproveitar e dar-lhe o sabor do próprio veneno: registrei-me em um fórum evangélico do qual ele participava e comecei a abastecer os foristas religiosos com os “furos” na doutrina espírita e em suas defesas apologéticas. Não demorou muito para a irritação dele dar sinais de que iria rebentar. Retirei-me discretamente antes de uma “guerra aberta” (que não conseguiria manter, afinal ele tinha boa retórica, embora prolixo demais) e deixei que os “donos da casa” cuidassem do resto. Fiquei por um tempo restrito ao Religião é Veneno, até porque meu perfil fake fora descoberto no Portal do Espírito. Estava eu a fim de “dar o troco” em um forista espírita com quem me desentendi no Clube Cético, de certa forma, fui traído pela própria demonstração de conhecimento quando debatedores melhores lá chegaram e fui “convidado” peitá-los. No RV esteve mais do mesmo algum tempo, até que, em um fatídico dia Kevin, cometeu um erro fatal.

Jon Snow contra Night Walker

– Seu maldito! Kardec é inatacável!!
-Ah, vai te catar!

Ele caiu numa armadilha colocada pelo supramencionado evil clown: as polêmicas declarações da codificação quanto à inferioridade de negros (e asiáticos, também) em relação aos europeus. Em vez de dar uma daquelas respostas-padrão de que Kardec estava preso no século XIX e, sendo assim, portaria o “ranço” de sua época, etc. e tal, ele corroborou e quis provar que isso não era racismo porque essa superioridade existiria de fato (e da pior maneira possível). Não contava, porém, com a emergência de outro forista muito mais competente que ele em eloquência e, para seu azar, membro de uma etnia tida por inferior na codificação. Foi um massacre. Nenhum dos demais espíritas foi em seu socorro para defender o indefensável e os demais céticos, como eu, ficamos assistindo de camarote Kevin ser humilhado, com uma ou outra provocação manifestação ocasional. Kevin não sumiu de imediato depois dessa, mas sua participação diminuiu significativamente, até se extinguir. Bem mais tarde, em buscas no Google, fiquei se sabendo que desenvolvera uma doença autoimune. Já estava melhor, porém havia passado por maus bocados. Não sei se, de certa forma, isso foi uma somatização de seu próprio jeito irascível de ser ou mero azar (karma?), o que posso dizer é quanto a mim: minha primeira reação íntima não foi de pena, nem de escárnio, mas de apreensão. O receio de que, em um possível reencontro virtual, ele estivesse pior ainda (como pessoa, não de saúde), afinal o sofrimento nem sempre é um bom professor, muito pelo contrário. No momento em que escrevo, tal encontro jamais ocorreu, mas Kevin deixara uma espécie de escudeiro em meu encalço. Chamá-lo-ei de “Jaime”. De início, achei que ele seria um adversário promissor, mais tarde percebi que jamais sairia da aba de alguém que fosse maior que ele, seja o Kevin, outro apologista, ou até mesmo todo um bando de asseclas. Não sei o que houve, mas acho que lhe dava mais excitação intelectual que crentes do Fórum Evangelho. Tal como um antagonista de cinema, passou a amar me odiar.

Nem sempre fui bem no RV e em pelo menos dois episódios levei a pior. O primeiro foi com um meteórico forista que chamarei de “Rodger”. Ele apareceu do nada, procurando diretamente por mim para uma “contenda”. Ele avisou, logo de início, que iria responder “como espírita” e eu aceitei (ou pelo menos não rejeitei) essa condição. Foi um erro fatal. Achei poderia contradizer o espiritismo com ele mesmo, mas esqueci que ele não se resume apenas ao Pentateuco kardecista. É todo um contexto criado ao longo de 150 anos, que foi lapidado para ter coerência interna. De certa forma, permiti a Rodger que fizesse inúmeras petições de princípio ao deixar que presumisse diversas hipóteses ad hoc que só eram válidas dentro de um centro espírita e as usasse como argumento. Quando tentava eu apontar para esse “pormenor”, Rodger já passava para outro assunto. Por fim, rebaixei-me ao nível dele ao postar textos enormes para que refutasse (o que não fez, claro). Quando já cansado dessas sandices, abandonei unilateralmente e deixei que tivesse a última palavra, o que deve ter deliciado uma invisível plateia. Não me lembro de Rodger ter postado mais no fórum. Uma das lições que aprendi, ruminando as mensagens daquele tópico, foi a necessidade de transcender a condição de espírita se quisesse ainda peitar a ortodoxia kardecista. A verificação de sua (in)validade estaria fora dela e os ortodoxos jamais sairão da zona de conforto voluntariamente.

O outro envolveu um forista que chamarei de Williams. De certa forma, lembrava Kevin no objetivos, porém desprovido do menor estilo. Parecia mais um hidrófobo Barnabé anticatólico, antievangélico e, moderadamente, anticético. Controlava-se lá, apenas, por estar em casa alheia, mas, para perder as estribeiras, bastavam apenas alguns cutucões. Como bom “picador” costumava também a mostrar os furos dos autores espíritas que utilizava. Contudo, e também diferentemente de Kevin, era impossível que alfinetadas evoluíssem para uma verdadeira “tourada”. A postura era mais a de um feirante a querer ganhar discussões no grito e a depreciar o argumentador, não o argumento (algo proibido na finada STR e no CC, mas liberado no RV). Quando, por fim, reparando que xingar não bastava, tomou uma medida diversiva: mandou-me falar com os próprios autores criticados por mim e (alguns) usados por ele. De nada adiantou oferecer minhas fontes para que lesse e verificasse que não estava de bravata (Kevin o faria, ao menos), só os autores originais seriam autorizados a dar a última palavra sobre os assuntos que escreveram. Sinceramente, hoje isso para mim é uma declaração tácita de derrota, pois se você não é capaz de abalizar uma posição com seus próprios argumentos ou entender o cerne dos que tomou emprestado para defendê-la, então você não passa de um papagaio a repetir o que escuta achando que as compreende. Pode-se até repetir coisas certas, mas a discussão já terá acabado para ti. Só que àquela época não tinha essa visão e, com o orgulho ferido, fui atrás de um desses escritores, no Portal do Espírito (e Williams conseguiu o que queria: tempo).

Tyrion Lannister e o mercenário Bronn

Se não tiver a menor chance, duele por procuração…

Retornei ao Portal do Espírito, só que dessa vez sem perfil fake, e sim como Cyrix, mesmo. E já cheguei atirando. Fui, primeiramente, atrás de um dos autores usados por Williams: alguém, segundo o raivoso forista, cuja réplica seria “arrasadora” e a quem chamarei de Apostol. Cheguei bem no momento quando ele destroçava um forista evangélico não muito capacitado se valendo justamente da tese da remoção da reencarnação no século VI. Ataquei-o com um dos argumentos que Williams recusou a lidar – a inexistência de um testemunho de época quanto aos fatos alegados – e o fiz de forma nem um pouco educada. Para a minha surpresa, a postura dele foi a de um genuíno “lorde inglês” e solicitou tempo para buscar tais fontes. Para isso, foi falar com outro articulista espírita – que chamarei de Klés – também utilizado por Williams e que, naquele momento, gozava de bem mais projeção que o primeiro, inclusive com uma coluna semanal em jornal de grande circulação em certo estado importante da Federação. Havia, também, outra diferença crucial entre ambos: apenas Klés havia sido criticado em meu portal, até porque apenas ele possuía obras impressas (minhas preferidas), ao passo que Apostol ainda estava se fazendo no meio virtual e como palestrante. As coisas estavam prestes a tomar uma dimensão inesperada.

Algum tempo depois (uma semana ou duas), Apostol me apareceu com a notícia de que Klés publicara em sua coluna um artigo falando sobre meu portal – com direito a link, inclusive -, mais especificamente sobre minha crítica à história de Teodora e o suposto assassinato de 500 prostitutas a seu mando como gatilho para o V Concílio e a supressão da reencarnação do cristianismo. O problema é que no exíguo espaço pré-definido de uma coluna não foi possível dar uma resposta que prestasse. No máximo, diria que foram repetidos os mesmos chavões de um modo um pouco diferente. Por outro lado, foi a maior propaganda gratuita que já recebi, incrementando muito meus acessos por quase uma semana. Redigi uma resposta a Klés no meu portal e encaminhei-lhe o link, a tréplica – se é que posso chamar assim – foi o repasse de um e-mail congratulatório de uma terceira pessoa a sua coluna. Apostol até tentou ser uma ponte entre nós, mas nada de nada adiantou: continuei sem saber quais eram as fontes dele em seu livro, aumentando as suspeitas de que tudo não passava de teoria conspiratória, boato. Não fiquei mais a incomodar Klés e Apostol deixou uma promessa vaga de averiguar os fatos daquele longínquo passado.

Após apresentar o artigo do jornal e mencionar minha troca de correspondência com os dois acima, Williams simplesmente zombou afirmando que isso não era grande coisa, dado que a querela não foi levada aos holofotes, i.e., ao próprio jornal onde Klés publicava. De início, senti-me logrado pelo “aumento da exigência” e com a sensação de estar diante de uma arapuca: levar aquele debate à imprensa de massa podia gerar consequências inesperadas com as quais temia lidar, enquanto ele ficaria ileso. Williams se aproveitou do que viu ser uma demonstração de fraqueza – ainda que ele mesmo não desse o exemplo – e tripudiou em cima com diversas acusações a mim ou à forma como redigia, não abordando argumento meu algum. Respondi a essa série de ataques ad hominem rebaixando-me ao mesmo tom que ele. Não foi um momento do qual me orgulhe de lembrar e saí realmente chamuscado. Minha participação no RV foi, a partir daí, minguando até enfim sumir. Esse fórum trocaria de servidor e nem sei se meu perfil foi migrado. Não fiz nenhuma despedida choramingona como alguns – esses sempre voltam -, simplesmente me desinteressei. Senti-me, também, desmotivado por uma espécie de “falta de corporativismo” por parte dos céticos locais, havendo quem perfilasse com Williams em alguns ataques. Fazer o quê? A briga era minha e aquele era o RV: se quiser bater, se disponha a apanhar, como Kevin descobrira de uma maneira ainda pior. Havia outros “ex-píritas” por lá? Sim, mas podiam ser contados nos dedos de uma só mão e esses poucos já não participavam muito, pois certo processo já estava em andamento: a ascensão das redes sociais.

Casamento Vermelho - Game of Thrones

É uma cilada, Bino!

Pode ter sido coincidência, mas acho que não postaria ativamente em fóruns por muito tempo de qualquer jeito, pois começava o fim de uma era. Os perfis do Orkut acabaram com as páginas pessoais e suas comunidades com os fóruns, drenando boa parte dos antigos foristas, só que não eles não se mudaram para criar algo análogo. Houve uma espécie de “feudalização” das relações virtuais, em que pessoas se agrupam segundo suas afinidades. Não há mais tanto do “balaio de gatos” que eram os fóruns. Em seguida, o Facebook sucedeu ao Orkut e o material discutido se perde rapidamente nas timelines. Além da concorrência, houve uma saturação dos temas. Hoje tanto o RV como o CC discutem mais política que religião ou ceticismo, pois parece que tudo já foi dito sobre esses temas e nenhum teísta ou esotérico vem trazer algo diferente, ao passo que Brasília não se cansa de fornecer “novidades”. No RV a sangria foi até maior, quer por abandono de alguns (meu caso), brigas internas (que levaram uns para o CC), ou a simples expulsão dos que eram radicais até para os padrões do RV. Alguns desses exilados fundaram um fórum alternativo – o Realidade -, que por algum tempo manteve a tradição de “arranca-rabos” até decair, também. O Portal do Espírito, coitado, hoje parece mais uma daquelas cidades fantasmas dos filmes de faroeste. Paralelamente, surgiu em terras lusitanas o Fórum Espírita, que ainda está melhor que o Portal, mas, com o perdão do trocadilho, não possui mesmo “espírito” de seu irmão mais velho.

Hoje encaro um pouco os fóruns como aqueles colégios internos ou escolas militares dos filmes de época: locais onde se faz amigos, inimigos, intrigas e muitas experiências (boas e más), contudo eles são uma fase que, após terminada, você gosta até de relembrar, porém não tem o menor desejo de voltar àquele tempo, principalmente se for no mesmo papel. Houve outras personagens que marcaram, sim, e no sentido positivo do termo. Aqui gostaria de citar seus nicks, e agora uso as versões originais ou apelidos íntimos, pois não há nada de errado em elogiar. Começando pelo Portal do Espírito: Lelê, a mãezona do lugar e uma lembrança de que os kardecistas não têm monopólio do espiritismo; Pedro, pois sei que, apesar do jeito bronco, tem bom coração; Marcelo, outro admirador inusitado do Cyrius/Ethos; Rhea, uma pequena anja adoçando a vida por lá; Aridi, sempre a cair fácil “na pilha” e proporcionando momentos engraçados; Virgílio, que tenha ido em paz e que sua memória permaneça sempre entre nós; Leafar, que teve uma paciência comigo maior do que eu merecia (e uma estranha obsessão em saber no quê eu acreditava); e Douglas, u’a mão que se estendeu a mim, mas, na época, não tinha a menor condição de aceitar. Do lado do RV, minhas lembranças para Apodman, com uma trajetória de vida com pontos em comum com a minha; Anna, sempre cheia de simpatia e conhecimentos sobre teoria da evolução (por onde andas?); FlavioChecker, todo zen e grande moderado daquela selva; Res, que sempre dizia o que ninguém tinha coragem; o “Gavião que caminha”, com sua retórica que dava gosto de ouvir mesmo quando não concordava com nada; Vitor, que marcou com os embates sobrevivência X psi; e Botanico, um espírita que se fez respeitar pelos céticos sem ser babaca (muito pelo contrário).

Após uma traição e a perda do marido e do filho, Daenerys dá à luz aos dragões

Às vezes, da mais dura perda e da mais amarga lição, se originam as chaves para a próxima etapa!

As Flame Wars acabaram discretamente e terminei sem nenhuma condecoração ou algo para me orgulhar. Muito pelo contrário, olhando para trás sinto vergonha de mim mesmo, de como me portei, seja com os mais fortes ou com os mais fracos. A Internet tem esse poder de liberar nossos piores instintos, mas ela é apenas uma tentação. Nossas tendências é que nos fazem ceder a ela. Contudo, esses embates me legaram um caso de estudo. Era um assunto que minha intuição dizia ter certeza de que eu estava certo e os espíritas redondamente enganados. Com o orgulho ferido, pus mãos à obra numa tarefa que seria um marco na trajetória do portal.

Um Caso de Amor e Intrigas

Antigo (1954), esquecido, não muito fiel aos fatos, cheio de licenças poéticas,
e ainda assim toda a fibra de Teodora está lá.

As brigas nos fóruns legaram um mistério para averiguar: a suposta supressão da reencarnação do cristianismo pelo casal de monarcas Justiniano e Teodora, no século VI. Em meus contatos com os evangélicos, nos tempos de faculdade, já havia reparado a irritação deles quando versículos de seu livro sagrado eram utilizados pelos espíritas de forma “heterodoxa”, apesar de terem feito algo parecido com o Antigo Testamento, há dois mil anos. Posteriormente, com meus próprios estudos, percebi que não há como a sério a ideia de que os primeiríssimos cristãos fossem reencarnacionistas, visto que possuíam uma grande urgência escatológica: para eles o mundo, tal como conheciam, acabaria ainda na geração deles, o Reino de Deus seria instaurado sobre a Terra e o Mal eliminado. Bem, assim aparece o recado em Marcos, Mateus, um pouco em Lucas, e nas (genuínas) cartas de Paulo. Ainda que houvesse, em alguns casos, retorno à carne nos moldes de certos pagãos antigos ou dos espíritas modernos, em pouco tempo não deveria haver mais nenhum. Os evangélicos estão certos nesse ponto, embora continuem tendo de explicar porque o fim não veio ainda.

Mesmo com uma constatação simples, convencer nem sempre é fácil, em especial aqueles que chamo de Barnabés, i.e., os que defendem que a ortodoxia cristã seria uma fraude história e o e espiritismo a verdadeira expressão da mensagem de Jesus e dos apóstolos. Faço isso em homenagem à Epístola de Barnabé, um pseudo-epígrafe cristão que pretendia fazer algo parecido, só que com o judaísmo. Um ponto de partida para a tarefa foi a única referência dada por autores espíritas a um cronista da época: Procópio de Cesareia. Segundo esses autores (dentre eles, Klés) esse historiador teria relatado que Teodora fora filha de um criador de ursos, usados para a diversão do populacho no “pão e circo” de Constantinopla. Até aí nada de mais ou inverídico. O problema surge quando se atribui a ela – sem uma menção direta a Procópio – a execução de 500 prostitutas da capital, antigas colegas de ofício. Teodora teria ficado com medo de expiar por esse crime reencarnando como escrava e, então, fez a cabeça de seu marido para que convocasse um Concílio cuja principal pauta era banir a doutrina da reencarnação da Igreja, junto seu principal postulante: o teólogo do século III Orígenes. E assim foi feito.

Tirando a origem do meretrício, nada disso tem base documental. Aliás, Procópio relatava algo diferente: Teodora teria trancafiado 500 prostitutas num convento chamado Arrependimento. Algumas teriam morrido ao tentar escapar de lá, descendo pelas muralhas. E só. Contudo, isso dá margem a divagações como as hipóteses de que as internas eram maltratadas, mortas longe dos olhos e ouvidos da capital, ou simplesmente preferiam uma vida de incertezas a um noviciado forçado. De qualquer forma, não havia nenhuma vinculação disso com o II Concílio de Constantinopla e nem poderia: Teodora morrera em 548 d.C., cinco anos antes. Como até mesmo encontrei espírita apelando com a tese de Teodora ter agido como obsessora do marido na erraticidade, não houve outro jeito senão buscar quais foram as reais causas do referido Concílio e da suposta condenação de Orígenes.

Encontrei várias referências para fontes primárias sobre o assunto se encontram no artigo Orígenes e Origenismo. O problema, como quem acessá-lo poderá perceber, é que ele faz parte da Catholic Encyclopedia, uma fonte totalmente confessional. Alguns autores espiritualistas já a utilizaram assim mesmo, quando ela parecia lhes corroborar, mas isso não seria argumento aceitável por muitos, não importando quão boa fosse a qualidade do referido artigo (e é bom). Portanto, decidi me debruçar diretamente sobre as fontes indicadas, começando pela mais extensa delas: A Vida dos Monges da Palestina, de Cirilo de Citópolis. Comprei o livro e fiquei tentado simplesmente a escanear e disponibilizar os capítulos de A Vida de São Saba. O problema era que estava tudo em inglês e um dos murmúrios constantes dos apologistas que evitam “olhar para fora da caverna” era justamente a ignorância desse idioma (ou de qualquer outro). Arregacei as mangas e me pus a um trabalho paciente de tradução. Como já havia falado de Procópio e a questão de Teodora em um artigo do portal, criei um novo: Contendas do Deserto, em alusão às batalhas ideológicas (e físicas) entre os monastérios do deserto palestino do século VI.

Foi interessante ler sobre a instalação dos primeiros origenistas bem embaixo das barbas de Saba em um dos mosteiros por ele fundado – o Nova Laura – e sua súbita expansão após sua morte (532 d.C.). Seu biógrafo se esmerou por realçar suas qualidades pias, contudo pode ter equivocadamente passado a impressão de frouxidão. Cirilo até relata que Saba apresentara sua preocupação com o origenistas (e outros grupos heréticos) diretamente ao imperador Justiniano, que aparentemente nada fez contras os insubmissos na ocasião. Curiosamente, Saba peitou a imperatriz Teodora recusando-lhe dar uma bênção para engravidar.

Justiniano encontra Teodora

Não me lembro de nada disso nos clássicos greco-latinos

Somente após os origenistas palestinos partirem para a uma campanha de conquista de “corações e mentes” nos mosteiros da região é os ortodoxos buscaram apoio em Constantinopla, desencadeando o Sínodo de 543 d.C., que não passou de uma condenação protocolar. Os dez anos seguintes marcaram o apogeu do partido origenista da região, quando conseguiram manobrar massas para encurralar os ortodoxos em poucos redutos ainda fiéis. Apenas quando surgiu uma nova e firme liderança, aliada a um cisma entre os origenistas – com muitos deles retornando à Igreja – é que se iniciou a reação da ortodoxia. Por fim, outra vez a questão foi levada à capital, aproveitando-se do V Concílio, em pleno andamento. O origenismo fora condenado mais uma vez e, agora, com uma ação militar que desalojou os insubmissos de Nova Laura.

Li uma versão fatos um pouco diferente em outro cronista – Liberato de Cartago, também apresentado pelo mesmo artigo da Catholic Encyclopedia. Nela, o pedido de condenação a Orígenes em 543 não teria ido diretamente dos clérigos palestinos para Constantinopla, mas teve um intermediário – Pelágio, o “embaixador” da cúria romana em Constantinopla – que viu numa condenação a Orígenes a oportunidade para se vingar de um bispo da Ásia Menor: Teodoro Ascidas. Esse, além de origenista, também era monofisita, uma heresia cristológica que incomodava Roma. Pelágio conseguiu o que queria, mas Ascidas deu respondeu à altura: como o sínodo de 543 abriu precedente para anatematizações póstumas, ele sugeriu ao imperador que condenasse as obras de três teólogos acusados de nestorianismo (um deles antigo opositor de Orígenes) e assim angariar a simpatia dos monofisitas (cuja cristologia era incompatível com a dos nestorianos) e fazê-los voltar à comunhão com a Igreja. Com o auxílio de ninguém menos que a imperatriz Teodora (também monofisista), Ascida conseguiu seu intento. Contudo, apesar de realmente, sob um olhar posterior, terem flertado com o nestorianismo, esses teólogos morreram em paz com a Igreja; o que levou à rejeição do decreto imperial por muitos bispos. Começava a Questão dos Três Capítulos, a principal razão para a convocação do II Concílio de Constantinopla.

Ainda traduzi um pequeno trecho do tratado Em Defesa dos Três Capítulos, do bispo norte-africano Facundo de Hermiano, que, junto com Liberato, demonstra que a Igreja Latina não se importava nem um pouco com os origenistas, aliás, até se irritou com a confusão por eles provocada.

Apenas com esse (imenso) material, já era possível dar ao público uma boa ideia do que aconteceu tanto em Bizâncio como na Palestina do século VI, só que isso não era o bastante. Precisava destrinchar como a situação chegara àquele estado de contendas. Já havia descrito alguns vislumbres portal, baseado numa tese redigida em inglês pela Igreja Copta do Egito intitulada Deans of The School of Alexandria, cujo segundo volume trata de Orígenes. Decidi aprofundar um pouco mais a questão indo atrás das fontes por eles utilizadas e um nome muito citado era o de Henri Crouzel, um jesuíta francês e professor na Pontífica Universidade Gregoriana de Roma. Crouzel fez, de fato, uma pesquisa ampla e profunda, mas é preciso tomar certo cuidado com ele. Uma coisa é reconhecer que Orígenes tomou liberdades numa época em que a ortodoxia cristã ainda não estava plenamente definida em determinados pontos, outra é achar que tais liberdades ainda poderiam ser tidas por razoáveis numa época posterior. Houve um Pai da Igreja chamado Pânfilo, do começo do século IV, que procurou o mais possível apresentar o pensamento de Orígenes como ainda válido para a ortodoxia da época de Niceia e o que não fosse aproveitável seria obra da corrupção de seus escritos por hereges ou de uma leitura enviesada deles. Pânfilo fez escola nos séculos IV e V, legando dedicados defensores da memória de Orígenes, como Rufino, e Crouzel (falecido em 2003) é seu mais recente herdeiro. Procurando um estudo um pouco, digamos, menos “entusiasta”, deparei-me com The Origenist Controversy, Elizabeth Ann Clark. Já sabia, pela Catholic Encyclopedia, que houve duas “crises origenistas”: a segunda é a que os escritores espiritualistas adoram apontar com “a supressão da reencarnação no cristianismo”, sem o menor conhecimento do assunto, a primeira é geralmente desconsiderada por eles. A Catholic Encyclopedia a apresentava como um difuso embate entre teólogos dos séculos IV e V; precisava, portanto, aprofundar-me mais sobre esse período.

Foi uma frustração inicial seguida por grata e impressionante surpresa. Não encontrei nada acerca do Orígenes de carne e osso que viveu na Alexandria do século III, nem sobre os conflitos na Palestina do século VI. Ainda que não fossem da proposta do livro, mereceriam uma abordagem maior. Por outro lado, devo reconhecer que The Origenist Controversy é uma obra acadêmica feita para acadêmicos, ou ao menos estudantes; ou seja, gente que já conhecia algo do assunto, para os quais ela preferiu não repetir pormenores que já esperava que soubessem. Isso permitiu que ela focasse no período que vai do século IV a meados do V e daí que veio minha surpresa: não imaginava que daí viriam tão ricas discussões a respeito do velho Alexandrino. Para ser sincero, pouco se debateu acerca do Orígenes histórico, mas de como ele era lembrado por suas especulações numa época de consolidação do cristianismo como religião oficial. Assim, todos que procuravam estar do “lado certo” do pensamento religioso acusavam os adversários de alguma heresia; e um lugar comum se tornou a acusação de ser “origenista”, pouco importando se Orígenes concordaria com o acusado. Mal comparando, seria como alguém nos anos 60 do século XX ser tachado de comunistas por apenas demonstrar alguma preocupação com a questão social. Do outro lado, estavam os partidários de Orígenes tentando explicar que os verdadeiros hereges faziam mal uso do seu teólogo preferido. Chegou-se ao cúmulo de um mesmo texto seu poder ser usado tanto contra como a favor de sua reputação. No final, excetuando Pelágio e seus seguidores, nenhum dos antiorigenistas adversários conseguiu dar uma resposta à altura da dele para a questão do Problema Mal: o porquê de um Deus Bom ter criado um mundo de sofrimento. O melhor que se conseguiu foi a doutrina do “pecado original” de Agostinho de Hipona, que, de certa forma, é um leve origenismo, como observou a autora. Enfim, o II Concílio de Constantinopla empalidece diante da efervescência intelectual (e política) de 150 anos antes.

Teodora na corrida de bigas

Go, Theodora! Go!

Percebendo a complexidade do tema “Orígenes e Origenismo”, decidi fazer toda uma revisão profunda em torno do tema. Aproveitando-me de um câmbio monetário um pouco mais favorável, maltratei meu cartão de crédito como nunca em livrarias virtuais – como Amazon, Abe Books e Alibris – atrás muitas vezes de livros raros e/ou esgotados, cuja existência soube por meio de obras mais acessíveis. No rol das aquisições estavam exemplares da série Origeniana de colóquios, traduções inglesas de Orígenes mais recentes, confiáveis e comentadas que as já de domínio público da Internet, estudos sobre a teologia de Orígenes, obras de bizantinólogos famosos do passado (como J. B. Bury) e da atualidade (James A. S. Evans), biografias de Teodora, fontes primárias disponíveis apenas em livros físicos (como Crônicas, de João Malalas) e estudos sobre a evolução do cristianismo, em particular sobre o período do século IV ao VI. De posse de todo esse material, propus-me ao seguinte plano de desenvolvimento:

  1. Um sumário das teses de Orígenes, em especial sua teodiceia e soteriologia;

  2. O surgimento do “Orígenes lembrado” nos séculos IV e V que, no meio do cabo de guerra entre detratores e apoiadores, começava a se distanciar do indivíduo de carne e osso que andou pela Alexandria do século III;

  3. O superorigenismo dos místicos do deserto dos séculos V e VI, codificado no desconhecido e impressionante Livro de Hierotheos. Sinceramente, depois de ler suas páginas tenho certeza de que os espíritas não têm a menor, a mais ínfima noção do que estava em jogo ao se lamentarem pelo V Concílio;

  4. Uma apresentação do meio ambiente onde o origenismo e suas crias se evoluíram: o império romano em progressiva cristianização declínio, até a queda de sua metade ocidental ante os bárbaros;

  5. O pano de fundo em que a segunda crise origenista: o reinado de Justiniano no Oriente e sua tentativa de restauração de um império ao redor de toda orla do Mediterrâneo, unido espiritualmente por uma fé única e monolítica;

  6. Uma apresentação à imperatriz Teodora. Sinceramente, uma das maiores calúnias já feitas pelos movimentos espiritualistas foi contra esta pessoa. Já vi discretos alertas para que se interrompessem as acusações sem base, mas ainda estou por encontrar um sincero mea culpa por parte deles;

  7. Apresentação das fontes primárias da questão da prostituição e do tráfico de escravas sexuais no governo de Justiniano;

  8. Exposição das análises feitas por historiadores modernos (Paolo Cesaretti, J.A.S. Evans, etc.) sobre as duas questões acima e a conclusão: Justiniano e Teodora tentaram inicialmente extinguir o tráfico sexual por bem – comprando a liberdade das cativas e indenizando seus “credores” -, para depois, vendo que essa abordagem não surtira efeito, combater ferozmente traficantes e rufiões, ao passo que tentaram proteger as prostitutas, ainda que não da melhor forma;

  9. Apresentação das fontes primárias para o V Concílio Ecumênico. Exceção feita para o imenso relato de Cirilo de Citópolis, que é apenas descrito no corpo do texto e posto integralmente em um dos apêndices;

  10. Exposição de análises de historiadores (e de um espiritualista que estudou ao menos um mínimo) sobre o desenrolar dos fatos do V Concílio;

  11. Análise pormenorizada dos anátemas do sínodo de 543 d.C. e os do V Concílio para averiguar suas reais relações com as ideias originais de Orígenes ou com as de seus continuadores;

  12. Averiguação do real impacto da condenação de Orígenes no V Concílio na História do cristianismo. Resposta: nenhuma, pois o origenismo já não fazia mais parte da corrente principal dos cristianismo havia tempos;

O estudo foi publicado de forma folhetinesca, o que deu tempo para uma resposta espírita. Embora eu tenha visto uma considerável e positiva mudança de opinião, velhas práticas entre os autores espíritas persistiam, com nenhuma literatura especializada no Alexandrino sequer, muito menos a leitura direta de Orígenes ou de cronistas bizantinos. O próprio biógrafo de Teodora usado – Carlo Maria Franzero – estava mal traduzido em sua edição brasileira. Adicionei mais um capítulo rebatendo esses comentários e decidi incluir mais outros dois que foram frutos de um amadurecimento ocorrido durante a pesquisa. Primeiramente, houve a constatação de que Orígenes, Teodora e o V Concílio compunham, na verdade, um “mito auxiliar” para complementar outro mito, o de que o cristianismo primevo era uma espécie de protoespiritualismo, isso, sim, fundamental a muitos espíritas. A necessidade de mais um mito advinha de uma pergunta quase natural provocada pelo primeiro: “se a reencarnação estava entre os ensinamentos do cristianismo, por que foi abandonada?” Um curso alternativo da História – em que Orígenes chegasse inconteste ao século VI, Teodora agisse como louca sanguinária e a anatematização da preexistência fosse a questão central do V Concílio – viria bem a calhar.

Justiniano e Teodora in love

– Oh, “Justi”, não sabia que você era tão galante!
– É que andei lendo Ovídio fim de semana passado, querida.

O primeiro acréscimo girava em torno de um ensaio do historiador britânico Eric Hobsbawm (“Dentro e fora da História“) sobre diversas tentativas de políticos, ideólogos e religiosos de moldar o passado à própria imagem e semelhança. Sua maior sacada está aqui resumida:

O passado legitima. O passado fornece um pano de fundo mais glorioso para um presente que não tem muito o que comemorar.

Uma síntese que cai como uma luva para as mistificações em torno do V Concílio. O segundo “extra” foi uma busca pelo real passado do cristianismo, pelo que as primeiras gerações de cristãos realmente ansiavam. Ajudou-me nisso o “maior biblista do mundo” (aspas, pois são palavras de Klés) Bart Ehrman, que em seu livro Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millennium (sem tradução em português, creio), expôs o caráter apocalíptico da mensagem evangélica, que me convenceu. Sei que existem outras visões quanto ao Jesus Histórico, mas mesmo esses pesquisadores alternativos (como os do Jesus Seminar) concordam que João Batista, Paulo de Tarso e a comunidade marcana foram apocalipsistas. Aí que está o X da questão: se os primeiros cristãos acreditavam que o cosmos, tal como o conhecemos, chegaria a um término em pouco tempo com a instauração do Reino de Deus, então a reencarnação perdia a razão de ser. Foi esse contexto histórico que me propus a resumir no segundo extra.

Encerrei o estudo falando sucintamente do destino do Império Romano do Oriente no longo prazo, com o sonho de Justiniano de um novo Mare Nostrum destruído por sucessivas invasões, bem como o de uma Igreja unida sob o Patriarcado de Constantinopla. Nesse caso, o movimento monofisita prosseguiu firme e forte na Síria e no Egito, onde se beneficiou imensamente da conquista islâmica. Contudo seus libertadores terminaram por asfixiar lentamente os antigos protegidos de Teodora, em razão de um fluxo contínuo de conversões ao Islã. Se por um lado esses dois sonhos se extinguiram como o fogo de uma vela, também terminou gradualmente o pesadelo Orígenes. Redescoberto no Renascimento, suas apologias e comentários remanescentes o reabilitaram no seio da Igreja Católica, que hoje apenas deixa de lado seu papel de “teólogo investigativo”. Muito de sua obra se foi, com certeza, mas o resta ainda é impressionante. Lê-lo é como visitar um sítio de ruínas da Antiga Roma: tem-se a sensação paradoxal de se estar diante de uma grandeza ao mesmo tempo perdida e perene.

No total, foram quase três anos de trabalho exclusivos sobre o tema (novembro de 2007 a setembro de 2010), do quais não desenvolvi nenhum outro grande assunto no portal. Pelo contrário: esse artigo é que serviu de base para a melhora do portal. Foi algo que me encheu de orgulho por ter feito o que ninguém da intelligentsia se dispusera até então, aliás, eu acabara por realizar um serviço que deveria ter sido deles. Meu portal, que antes apenas catalogava e listava erros, pela primeira vez estava agregando conhecimento aos que o liam. Não chegou a ser uma pesquisa genuína – afinal nada de original foi apresentado sobre o tema -, mas senti que quase esgotara o material disponível sobre a questão. De certa forma, ficou faltado uma coisa: descobrir de onde surgiu o boato, algo um tanto difícil sem a colaboração dos espíritas que o repassaram, e não querem me ver nem pintado de ouro.

Justiniano e Teodora na meia-idade

– Que cara é essa, meu bem?
– Tive um sonho horrível: parecia que, num futuro distante, uma seita falaria mal de ti…
– Ah, querido! Você sabe como as seitas são: sempre querendo se apropriar do passado alheio.
– Hehe, tens razão.

Por mais que neguem, o boato desmascarado em Contendas do Deserto é um equivalente espírita do Homem de Piltdown dos biólogos. Não chegaram a abalar, respectivamente, os pilares do espiritismo (como gostariam muitos cristãos fundamentalistas), nem os da Teoria da Evolução (idem), porém demonstram o quanto de credulidade podem existir entre os “adeptos da razão”. A única diferença a apontar é que os próprios cientistas detectaram a fraude de Piltdown, ao passo que para o V Concílio e a reencarnação foi necessária a intervenção de um “detrator”. Nenhum biólogo mais tenta salvar as aparências daquele fóssil forjado, já quanto à história do V Concílio Ecumênico…

Esse trabalho me encheu de orgulho, o que, no fim das contas, não me foi muito benéfico.

Uma Descida ao Abismo

Poster de Breaking Bad

– Say my name!
– Cyrix.
– Goddamn right!

Durante o período de redação de Contendas do Deserto, encerraram-se as atividades do GeoCities, que fora incapaz de concorrer com o formato blog e outras modalidades de hospedagem. Migrei para o domínio “6te.net” e adotei o livro de visitas da DreamBook, o que foi muito bom, pois tinha agora um endereço mais enxuto e uma caixa de comentários eficiente. Paralelamente, afastei-me dos fóruns, postando uma ou outra trivialidade ocasionalmente em intervalos espaçados. Produzi até um boletim de atualizações numa área reservada do fórum Portal do Espírito para postagens “do contra”. Salvo uma forista, ninguém demonstrou maiores interesses. Contudo “não demonstrar” não significa “não possuir”, pois encontrava meus textos pela Internet afora. Um caso curioso se deu no fórum Ex-testemunhas de Jeová quando um forista, que, por sinal, havia conhecido do Portal do Espírito, usou meus textos sobre Orígenes, admitindo que era de “um site contrario ao espiritismo“, porém sem dar nenhum link para a fonte. Citava-me porque concordava parcialmente com ele, apesar de nossas diferenças, mas por que não me referenciava? Talvez para não aumentar o número de referências ao meu portal em motores de busca, ou uma simples referência seria como abrir uma “Caixa de Pandora” cheia de questionamentos embaraçosos. Senti-me como o vilão de Harry Potter, Voldemort: “Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado”. Só de provocação, cadastrei-me apenas para postar os links omitidos.

Finda a publicação de Contendas…, comecei a colher os frutos de um serviço bem feito. Era progressivamente mais citado na rede social Orkut que, com suas comunidades, havia substituído boa parte dos fóruns independentes e decidi acelerar o processo. Dessa vez, porém, não me envolveria em discussões propriamente ditas. Repetindo o que fizera no Ex-testemunhas…, buscava por discussões onde houvesse alguma menção a Teodora e Orígenes, lançava nelas o link para minha criação e deixava os contendores locais se digladiarem. Assuntos como “Teoria da Beleza” e vida extraterrena também eram bem prolíficos em acirradas flame wars.

– Mais um artigo pronto!
– Yeah, Mr. Cyrix, science!

Por essa época, tomei conhecimento que, pouco tempo antes, Klés lançara um livro com uma coletânea dos artigos de sua coluna. A crítica ao meu portal era logo uma das primeiras. Se eu já desfrutara de meus 15 minutos de fama anos antes em terras mineiras, agora podia já sonhar com alguma nota de rodapé na trajetória do espiritismo brasileiro. Aos poucos, o vaticínio que fizeram sobre meu pai se cumpria em mim, ainda que de uma forma bem torta. De certa forma, ajudei-o comprando um exemplar do livro e lhe reservando um lugar de destaque em minha estante, aberto justamente na página de meu interesse. Era estranho, mas esse reconhecimento a contragosto afagava meu ego como nunca e me desconfortava ao mesmo tempo. Algo como almejar a fama de um gangster: que me quisessem mal, contanto que falassem de mim.

No mundo real, paguei com frieza o desdém que recebi julguei receber nos meus tempos estudantis: qualquer pedido de ajuda dos familiares ainda envolvidos com o espiritismo era simplesmente desconsiderado se envolvesse assuntos dos seus respectivos centros. Mesmo a jantares beneficentes – com direito a churrasco e show de mágica – recusei-me atender. Havia particularmente um parente adepto de métodos coercitivos de “motivação” – uma semelhança flagrante entre religiosos e mafiosos – e, irritado com minhas negativas sucessivas, passou a me intimidar com insinuações de que uma temporada no umbral me purgaria de meu egoísmo. Engoli sapo uma ou duas vezes até que respondi com veemência: “Com certeza seria muito bom, pois assim ficaria livre e longe de hipócritas com você!” Ainda bem que havia mais pessoas por perto para acalmar os ânimos na ocasião.

I’m not in danger. I am the danger!

Meu campo de atuação até ensaiou se expandir um pouco, ocorrendo, inclusive, um convite de V. para fazer parte de um grupo de estudo da “hipótese sobrevivência”; algo que, em tempos modernos, representaria melhor o espírito (com o perdão do trocadilho) dos investigadores da segunda metade do século XIX e do começo do XX. Aproveito aqui a oportunidade para tecer minha desculpa a V. por não ter sido lá um membro dos mais atuantes. Embora eu reconheça a importância da iniciativa, simplesmente era uma área que não me empolgava. Cheguei a colaborar com a revisão da tradução de uma obra do final do século XIX – um estudo sobre a médium Leonora Piper -, mas minhas energias estavam focadas em projetos mais pessoais. Basicamente, ambicionava transformar Contendas do Deserto em livro. Não seria tarefa fácil, pois teria de situar o leitor no contexto do problema do revisionismo histórico do espiritualismo moderno e daí mostrar o que aconteceu de forma didática. A “didática” era o X da questão, afinal, não podia simplesmente tascar as inúmeras citações de pesquisadores e fontes primárias tal como fizera na internet. O objetivo não era mais esmagar apologistas e, sim, instruir e seduzir o leitor com uma história contada com minhas próprias palavras. Decidir o que deixar, o que tirar não era nada fácil, mas ainda assim continuava motivado: era uma chance que vislumbrava de sair de trás da tela e assumir meu nome verdadeiro, além de minha descrença, em grande estilo. Bem diferente do que meramente colocar em meu cartão de visitas o link para um portal especializado em catalogar erros e bancar o chato. As coisas não saíram exatamente como planejado, contudo.

Um baque veio numa reunião em família. Conversa vai, conversa vem, caímos no “assunto” remoção da reencarnação na Bíblia pela Igreja Católica. Sim, espíritas, new agers e ascensionados também possuem seus carolas, a se esquecem de que outros assuntos e, principalmente, outras vivências religiosas existem. O boato, daquela vez, mudara de Concílio, retrocedendo uns duzentos anos para o de Niceia. No caso, a remoção da reencarnação teria se dado pela escolha de um cânon livre de referências a ela, algo ao estilo O Código da Vinci. Tentei me conter, mas chegou a hora me que não suportei mais ouvir tamanha quantidade de abobrinhas e perguntei se alguém lera realmente as atas de tal Concílio. A composição do cânon sequer foi assunto tratado lá! Aproveitando a oportunidade de eu ter me manifestado, aquele parente com quem discutira antes voltou a provocar, insinuando não querer eu mais do que bancar um sabichão metido a historiador. “Antes isso que um ignorante como você” e comecei a relatar diversas das imposturas espíritas que havia catalogado ao longo dos anos, tudo cobrando explicações que ele era incapaz de fornecer. E jamais forneceria, afinal a discussão foi interrompida quando uma série de gemidos oriundos de um canto da sala chamou a atenção dos presentes, que, em seguida, lançaram seus olhares de reprovação em mim.

Breaking Bad, cena de Walter White confrontando seu reflexo deformado.

Eu tinha acabado de fazer alguém chorar.

Tentei, em vão, retratar-me, e, por fim fui, convidado a me retirar. Voltei para casa mais silencioso que um túmulo. Por dentro, ressoavam em meu ouvido o riso de meu desafeto e o choro de alguém que poderia muito bem ter dormido sem esse freak show. Naquela noite, o primeiro me incomodou mais; ao fim de uma semana, era o último. Era uma experiência que não os fóruns não podiam dar: a existência de alguém do outro lado da tela. Enquanto matutava sobre isso, eis que em minha caixa de comentários aparece Jaime – o subalterno de Kevin – cobrando que eu escrevesse algo sobre Elias e sua (suposta) reencarnação em João Batista. Dei-lhe como resposta algo que nas redes sociais de hoje poderia até ser chamado de “textão”, mas cujo efeito foi simplesmente o de lhe irritar. Ele insistia ad nauseam numa resposta binária para a questão, sem se mancar de que não falava com um crente. Para meu desgosto, um pequeno e infrutífero debate surgiu, sendo que no meio dele aparece uma curta mensagem de “Douglas” me atacando. Seria aquele mesmo Douglas que quis me ajudar durante minha “infiltração” no “Portal do Espírito”? Não conhecia outro, o fato de os dois estarem juntos não seria mera coincidência. Então, por que estava tão diferente? O que Kevin e seus asseclas fizeram com ele? O que eu fiz a ele?

A conversa acabou por pura saturação, como tantos outros embates sem mediação. Não julgo que fui mal, mas estava arrasado. Era esse tipo de gente que eu atraía: hipócritas querendo aumentar seu valor diminuindo o dos que lhes cercam, nanicos ambicionando parecerem mais altos me usando como escada e ex-empáticos transformados em inimigos? E quanto a quem eu repeli … ou magoei – mesmo não nunca tendo visto a vermelhidão em seus olhos -, que ganhei com isso? Por que Falhas do Espiritismo deveria continuar a existir, se tinha caído a ficha de resultados tão chifrins?

Skyler e Walter - último diálogo

Por alguns dias, tirei o portal do ar. Precisava encontrar ao menos algumas respostas.

[topo]

O Livro que Ninguém lerá

Cartaz de Mr. Holland - Adorável Professor

Afinal, o que é o sucesso? Sucesso para quem?

Foi uma espécie de crise existencial em menor escala. Pretendi bastante com o portal e, como uma facada no ego, não tive o retorno esperado. Sem contar que ele me tomava tempo, sim, o único ativo neste mundo que é irrecuperável; desperdiçado com algo que não me dava dinheiro, nem contatos (por uma postura minha), e que poderia ser gasto no convívio com os meus, aperfeiçoando-me profissionalmente, ou, simplesmente, em bons e saborosos momentos de ócio. Tentei me desintoxicar à maneira que diversos tabagistas tentam largar o cigarro: abstinência radical o quanto puder, porém sem direito a adesivos de nicotina. Tal como muitos deles, falhei miseravelmente. Não eram só os pensamentos a respeito dos artigos que ainda queria escrever, mas também uma reflexão sobre os já escritos: eram rasos, sem nada acrescentar além de apontar erros. A única exceção era Contendas do Deserto, mas mesmo ele não me agradava mais tanto assim. Seu crescimento um tanto desordenado, as misturas de pedantismo e falas coloquiais, além do fato de, no afã de ser exaustivo no tema, ser capaz de exaurir quem o lesse; davam-me vontade de refazê-lo do zero. Era, em parte, a proposta do livro que planejava escrever, mas se agora já não tinha tanta motivação, constatava que não tinha condições para redigir algo que prestasse. Seria uma versão cética dos mesmos sujeitos que criticava.

Prof. Holland na primeira devolução de provas corrigidas

– Suas notas foram horríveis!
– Graças ao senhor, mestre!

Eu precisava me reinventar se não quisesse perecer ante à malícia externa e ao inferno interior que eu mesmo criei. Começando pela casca, abandonei o formato “puro html” do “6te.net” – que já estava irritando com seus anúncios e pop-ups – e comecei a migrar meu conteúdo para um blog do WordPress. Escolhi um tema elegante e enxuto, pagando por um domínio “.org” para possuir um link mais compacto e me ver livre de propagandas. Enfim, o novo “Falhas do Espiritismo” tinha de ser agradável à visão do leitor. Como lema, subintitulei-o com os dizeres “entender, desconstruir, reconstruir“. Sim, confesso que o plagiei de uma animação japonesa – outro escapismo meu – e não me envergonho: tinha tudo a ver com a nova proposta, embora o contexto fosse outro.

Primeiramente, entender por que uma falha, equívoco, engano, etc. ocorre. Todo erro tem uma história para contar, as motivações de seus personagens, o ponto de partida que tiveram, as bifurcações com que se depararam e, claro, as escolhas que tomaram. A escola nos dá a ilusão de um progresso linear do conhecimento quando, na verdade, aquilo que chamamos de Ciência deveria ser apelidado de “cemitério de ideias”: uma imensidão de equívocos oriundos de uma eterna “bateção” de cabeças. Kardec estava preso no século XIX, então o que era tido por científico naquela época? Quais eram os principais programas de pesquisa, suas dúvidas e escolas concorrentes? Simplesmente apontar-lhe erros é não deixar ao cidadão do Segundo Império Francês a oportunidade de falar por si mesmo.

Mr. Holland ensina a uma aluna a tocar clarinete

– Por que não consigo tocar esta passagem?
– Você está com tanto medo de errar que se esquece de se divertir.

Existe, também, o atemporal fator humano. Os que dão ao Codificador o atributo de “Bom Senso Encarnado” mal têm ideia do quão há de enganoso nesse título. Podemos ser tudo, menos genuínos animais racionais capazes de discernimento imparcial. A Emoção e a Intuição são as verdadeiras molas mestras de nossa existência. Aquilo que chamamos de “racionalidade” é apenas uma ferramenta a serviço dessas duas; que pode usada para arranjar comida, traçar estratégias com o inimigo, alcançar status num grupo, codificar uma nova doutrina ou escrever um blog. Enfim, a razão serve para descobrir a melhor maneira de dar vazão a nossas fortíssimas paixões. Kardec, Léon Denis, “Klés” e “Kevin”, nenhum deles esteve imune à própria condição humana que lhes antolha a vista, dá falsas heurísticas, muitas convicções e poucas provas. Tudo metodicamente explicado e justificado. Entender por que caímos nessas armadilhas com o devido cuidado para não tropeçar em outras é um outro desafio do “entendimento”.

desconstruir é um pouco mais complicado. Isso poderia até ser um sinônimo pós-moderno para “crítica construtiva”, se não fosse o problema de inexistir tal coisa. Afinal de contas, toda crítica visa destruir. Por outro lado há destruições e destruições: pode-se usar dinamite para explodir uma construção ou retirar-lhe tijolo por tijolo. Isso implicou, para mim, em revisar cada um dos artigos. Como não gostaria mais de ferir corações sensíveis, reduzi bastante o grau de ironia e sarcasmo (para não dizer deboche, mesmo) que um dia aqui abundou. Alguns comentários continuam a apontar a presença de um tom que lhes desagrada. A seus autores, respondo que já foi bem pior.

Qual o valor disto, professor?

– Professor, é o seguinte: todos os livros que concordam com a Codificação são desnecessários, os que discordam são horríveis, então…
– Pode parar, rapaz! Na última vez que alguém falou algo assim, começou a Idade das Trevas.

Por outro lado, não tenho a menor intenção de proteger egos sensíveis. Até porque seria muita pretensão querer estar de bem com todo mundo, ainda mais quando credibilidades são postas em xeque, reputações questionadas, falta de solidez nos argumentos evidenciada e, principalmente, as “vacas sagradas” de muitos são transformadas em churrasco. Por mais que eu tente separar as pessoas de suas obras, é difícil alguém não se ressentir. Ou que um terceiro tome suas dores e tente justiçá-lo. Em ambos os casos estão envolvidos sentimentos de vergonha e humilhação, quer contra si mesmo ou contra a comunidade à qual pertence.

Já me apoquentei um bocado com tal situação, mas hoje estou mais tranquilo e até me divirto um pouco. Reparei, muitas vezes, que suas reações não são contra mim, mas direcionadas a uma visão distorcida que tem a meu respeito. Uma caricatura mais fácil de responder, carente dos pontos mais espinhosos apontados pelo original, cujas críticas objetivas sequer são ao menos explicitamente enunciadas em diversas ocasiões. Assim é tão mais fácil…

Holland e seu adversário

– Nosso grão-mestre-articulista-mor vai acabar contigo!
– Quando ele aprender a interpretar textos, quem sabe…

Se apenas ficasse refutando textos como na época dos fóruns, jamais partiria para reconstruir. Para tanto, posso dizer que Contendas do Deserto me ajudou, não exatamente com seu material, mas como modelo. No princípio, não fazia coisas muito diferentes das que encontrei no fatídico O Império das Seitas: catalogar erros e zombar. Com os próprios pressupostos que assumi acima, decidi partir em busca das histórias por trás desses erros – em que pé estava a ciência vitoriana, o que significava ser cristão no tempo dos apóstolos, a razão de certas opções equivocadas serem tão sedutoras, etc. – para depois analisar porque é tentador se apropriar de um passado que nunca existiu numa forma de autoafirmação. Acredito que, não só para o espiritismo como para qualquer filosofia ou ideologia, será mais producente buscar uma identidade própria mirando no futuro, no lugar de sair atrás de uma mítica “Era de Ouro” ou “Paraíso Perdido”.

Em seguida, cada artigo, quando possível, deve vir com uma explanação sobre o que é agora considerado o certo e por quê. Parece simples, mas nem sempre o é, afinal, pela nossa educação escolar, temos a ilusão de um desenvolvimento linear da ciência, numa acumulação de conhecimento sempre crescente. Pouco se fala dos “becos sem saída” ou das ideias estapafúrdias outrora respeitáveis, embora constituam grossa parte do que a humanidade já pensou. Enfim, é preciso “contar histórias” de forma simples sem perder o rigor, o que acrescenta mais um desafio a ser vencido. O resultado final são artigos, em média, bem maiores, uma redação melhor elaborada e um intervalo bem mais longo entre um artigo concluído e outro. Sem contar que brindo meus leitores com uma bibliografia bem mais profunda e farta ao final de cada artigo, para que possam prosseguir com seus próprios pés.

ensinando o ritmo

– Me disseram que, quando o espiritismo concorda com a Ciência, só fica demonstrado o quanto ele é demais. Quando discorda, é porque a Ciência é algo falível.
– Já entendi porque você voltou aqui para aprender os passos básicos de Ciência.

Paulatinamente, os resultados começaram a surgir na forma de retornos positivos de meus leitores. Poucos, mas ainda assim significativos comentários interessados – como o seu – indicam que meu novo direcionamento ao menos é melhor que o anterior, pois nos tempos do GeoCities eles praticamente inexistiam: ou eram críticas iradas de espíritas ressentidos ou elogios de fanáticos cristãos “tradicionais” e céticos militantes. Houve, inclusive algumas propostas de parcerias, locais de hospedagem e até financiamento para publicações. Alguns declinei polidamente, outros (desculpem) sequer respondi. A todos digo, agora, que Falhas do Espiritismo é um projeto pessoal e intransferível: é minha forma de vivenciar a religiosidade e desejo plena liberdade nisso, mesmo que implique em tocá-lo sozinho. Não é por mal, nem por esnobismo, apenas prefiro as coisas assim. Há outras formas pelas quais posso ser ajudado, sem que eu me sinta afetado por riscos de ingerências.

Holland recebe proposta inusitada.

– Venha comigo, professor. Com minha voz e sua música seremos uma dupla imbatível.
– Desculpe, querida, mas acho que isso vai dar ruim. Muito ruim.

Infelizmente, em uma coisa vou te decepcionar: jamais irei muito a fundo na tarefa de reconstruir. Justamente por minha postura de “lobo solitário”, o trabalho se torna gigantesco demais para mim, e nem Kardec fez tudo sozinho. O máximo que pretendi fazer é um pouco de terraplanagem e fincar alguns alicerces para os que viessem a auxiliar os que realmente estivesse a fim. Só isso já consome tanto de meu “tempo inútil” (como dizia o utilíssimo Kevin) que desisti de redigir meu ambicioso livro. Contudo, ainda sonho que ele seja concluído, não por mim exatamente, mas por todos aqueles leitores a quem eu conseguir cativar. Quero que ninguém passe por aqui ileso, que sentimentos de amor e ódio permeiem a todos, nunca a indiferença. Assim terei marcado seus corações de alguma forma. Tal como na parábola do semeador, sei que a maioria das sementes que eu lançar em nada dará, porém cruzo os dedos desejoso em viver o suficiente para topar pelas andanças da vida com algumas das que vingarão.

Holland: reencontros

“Humm, conheço essa ruiva de algum lugar…”

Também sei que muitas delas serão ervas daninhas loucas para me envenenar lentamente. Fazer o quê: ao arrancar ídolos de pedestais é óbvio que seus adoradores iriam gemer, ainda mais quando caem em cima deles. Não há muito o que fazer quanto a eles. Por outro lado, aposto que muitos dos “irados” na verdade estão apenas perplexos, que, uma vez passado o impacto inicial, podem começar a me dar razão em alguns pontos após investigar por conta própria, tentando contra-atacar. Conto com a colaboração inclusive deles para que a proposta de Falhas do Espiritismo se torne uma grande obra coletiva e fique maior que qualquer coisa já imaginada desde quando aqui comecei.

Enfim, quando as luzes se apagarem e o pano descer em meio a uma cacofonia de vaias, eu gostaria de poder ouvir ao fundo os lábios que verdadeiramente me entenderam:

Mr. Holland rege a Sinfonia Americana.

Bravo! Bravo!

Assim, creio que metade ou mais de minha vida não terá sido vão. A torcida contra é grande, mas estou esperançoso porque, graças à nova abordagem tomada, não preciso vencer. Basta apenas existir e persistir, pois a intransigência dos fanáticos idólatras só fará o tempo jogar a meu favor.

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Quatorze Anos depois

Caesar e seu filho

Sinto que falta algo, você também não? Não teria chegado até aqui se simplesmente minha motivação fosse externa, uma vontade de ver o Espiritismo mais dinâmico. Eu poderia simplesmente reconhecer que ele perdeu o bonde da história e seguir em frente. Não me é tão fácil. Sinceramente, acho que ainda sou assombrado pelas mensagens da segunda parte de O Céu e o Inferno ou das regiões umbralinas da literatura posterior. A distorção apropriação que o espiritismo fez da terceira Lei de Newton nunca me desceu pela goela. O destino dos suicidas – com direito a uma região trevosa especial para eles onde são tratados como os piores dos criminosos em vez de pessoas necessitadas de ajuda – é simplesmente horrorizante. Enfim, a solução para o Problema do Mal talvez seja o que mais me desagrade, no fundo.

Caesar dentro da jauna no santuário símio.

Talvez eu não quisesse aceitar a solução espírita sem que alguém me desse garantias de não estar sendo enganado. Vendo o majestoso edifício kardecista ter tantas rachaduras, ficaria aliviado se o que não consigo averiguar – sua soteriologia – fosse comprometido pelos buracos do “Consenso Universal dos Espíritos”. Ironicamente, as propaladas pesquisas de Ian Stevenson não indicam a existência de um “karma retributivo” ou de um vale dos suicidas. Óbvio que ninguém mete o dedo nessas discrepâncias dentro do movimento enquanto enaltecem seus “casos sugestivos de reencarnação”.

Uma hora acordo desses pesadelos e inspeciono esses ecos do passado, só para constatar que, em meu íntimo, eu sou e sempre serei espírita. Por mais que tente renegá-lo, por mais que me esforce para que me chamem de detrator, essa é minha identidade. Não é possível arrancá-la de mim. Só me resta reelaborá-la.

Caesar vê imagens da infância em seu antigo quarto (no sótão)

Aconteça o que acontecer, sempre me lembrarei de onde vim. Com direito a um sorriso nostálgico.

Vila dos Macacos

Nesse meio tempo, procurei novos ambientes, fiz novos amigos e, com o passar dos anos, a presença do Espiritismo ficou um tanto tênue em meu cotidiano e só não desapareceu de vez pelos parentes espíritas que possuo, mas com os quais já não convivo tanto. Um mundo se abriu, de certa forma, pois conheci novas maneiras de vivenciar a fé; particularmente a busca pela transcendência, algo desconhecido em Centros Espíritas (pelo menos nos que adentrei) e que embasbaca até este descrente que vos fala. Também foi com eles que passei a compreender a mitologia cristã, que é fundamental para a compreensão da História do Ocidente. Jamais aprenderia isso com livros preocupados em (autodefensivamente) demolir esses mitos em vez de explicá-los a leigos.

Caesar e Koba

E, ainda, sou muito grato a um segmento dos cristãos, pois partiram dele as mãos que se estenderam quando eu mais precisava. Se foi uma ajuda de interesse missionário, que seja. Os religiosos que conheci antes deles achavam ser de minha única responsabilidade me reerguer, ainda que estivesse com as pernas quebradas. Jamais esquecerei ambas as atitudes.

Koba

Conheci entre eles indivíduos sofridos, cada um a sua maneira. Muitos deles só não fizeram besteira pela fé que adotaram. Não me admira que, quando a viram ser vilipendiada, acusada de inculta e mentirosa; tenham ficado refratários a qualquer ideia vinda de grupos externos, ainda mais de um que lhes queira tomar o lugar como “verdadeiro cristianismo”. Embora o material deste portal não lhes sirva completamente, sou de pleno acordo que utilizem a parte que lhe adequar em sua própria defesa apologética, afinal eles terão sido as vítimas.

Exército símio encara a colônia humana

Minha ajuda talvez nem seja tão mais necessária assim. Eles estão alcançando seus irmãos norte-americanos e já desenvolveram seu próprio núcleo de elite, sendo capazes de se defender intelectualmente em grande parte sozinhos. A arraia miúda é que ainda apanha em discussões virtuais, o que dá aos apologistas da ortodoxia espírita uma falsa sensação de força. Às vezes, pergunto-me se possuo um prazer sádico em destronar presunçosos. Talvez eu e Kevin tenhamos mais em comum do que imaginemos, incluindo nosso jeito de extravasar o excesso de testosterona. A questão é como sublimar isso?

Caesar enfrenta Koba

Por outro lado, também sei que vítimas e algozes têm o estranho hábito de trocar constantemente de posições. É tudo uma questão de quem tem a oportunidade de estar com o poder. Nessa hora, meu passado me chamará e hei de enfrentar meus novos companheiros. Essa briga já dura mais de 150 anos e acho que as atuais gerações sequer lembram quem começou o quê.

Caesar e Cornelia

Nesse ínterim, casei com uma mulher não espírita e isso me fez bem, entre outras coisas, ao me afastar um pouco de discussões familiares. A religiosidade dela não me incomoda, enquanto mantenho um respeitoso agnosticismo “não praticante”. Se eu me relacionaria com uma espírita … bem, estaria mentindo se dissesse que não rolaram alguns flertes em meus tempo de mocidade. Por sorte saí antes que algum ficasse sério demais. Minhas divergências com o movimento seriam uma pedrinha no sapato a corroer lentamente qualquer possível relacionamento afetivo. Reconheço que minha calmaria atual pode ser ilusória. Como um lago plácido, porém cheio de lodo no fundo, basta uma pedra bem arremessada para fazer toda a sujeira aflorar à superfície. Sabe, parte de mim quer “chutar o balde”, assumir meu nome verdadeiro e encarar as consequências, dentre elas a rejeição definitiva e (talvez) recíproca de metade de minha família. A outra quer “deixar quieto”, sublimar e apaziguar.

Difícil. Em mais de uma década fiz churrasco das “vacas sagradas” do Espiritismo. A maioria dos espíritas – os seguros de sua fé – simplesmente tocará sua vida sem me importunar. Já os ressentidos não irão perdoar. Para esses, deixar-me impune será um crime maior que o de se suicidar. Bem, se é para enxergar um lado bom, então de alguma forma para eles sou importante, antes o ódio que a indiferença.

Caesar se despede de Malcolm

Agora, a você, Fred, ou a qualquer um que tenha aguentado até aqui ouvindo meus lamentos, é chegada a hora de nos despedirmos.

Caesar eh chamado pelo sacerdote

Sei que é um tanto abrupto, mas espero que compreenda que estou sendo chamado com certa urgência.

O nascimento de Milo

Afinal, o ciclo da vida está para completar mais uma volta. Tenho fé (fé cega, mesmo) nesta nova geração. Que eles sejam os próximos trabalhadores da última hora e saibamos lhes ceder o lugar.

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Réquiem

Will Rodman e Caesar

A distância traz a saudade, nunca o esquecimento.

Adeus, professor!
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Categorias:Miscelânea

O Critério de Salomão

5 de abril de 2014 4 comentários

Índice

Salomão ante as duas mães

Um Bebê e Suas Duas Mães

Para ler:

Então duas prostitutas vieram ter com o rei e apresentaram-se diante dele. Disse uma das mulheres: “Ó meu senhor! Eu e esta mulher moramos na mesma casa e eu dei à luz junto dela na casa. Três dias depois de eu ter dado à luz, esta mulher também teve uma criança; estávamos juntas e não havia nenhum estranho conosco na casa: somente nós duas. Ora, certa noite morreu o filho desta mulher, pois ela, dormindo, o sufocou. Ela então se levantou, durante a noite, retirou meu filho do meu lado, enquanto tua serva dormia; colocou-o no seu regaço, e no meu regaço pôs seu filho morto. Levantei-me para amamentar meu filho e encontrei-o morto! Mas, de manhã, eu o examinei e constatei que não era o meu filho que eu tinha dado à luz!”

Então a outra mulher disse: “Não é verdade! Meu filho é o que está vivo e o teu é o que está morto!” E a outra protestava: “É mentira! Teu filho é o que está morto e o meu é o que está vivo!” Estavam discutindo assim, diante do rei, que sentenciou: “Uma diz: ‘Meu filho é o que está vivo e o teu é o que está morto!’, e a outra responde: ‘Mentira! Teu filho é o que está morto e o meu é o que está vivo!’ Trazei-me uma espada”, ordenou o rei; e levaram-lhe a espada. E o rei disse: “Cortai o menino vivo em duas partes e dai metade a uma e metade à outra.”

Então a mulher, de quem era o filho vivo, suplicou ao rei, pois suas entranhas se comoveram por causa do filho, dizendo: “Ó meu senhor! Que lhe seja dado então o menino vivo, não o matem de modo nenhum!” Mas a outra dizia: “Ele não seja nem meu nem teu, cortai-o!” Então o rei tomou a palavra e disse: “Dai à primeira mulher a criança viva, não a matem. Pois é ela a sua mãe.”

Todo o Israel soube da sentença que o rei havia dado, e todos lhe demonstraram muito respeito, pois viram que possuía uma sabedoria divina para fazer justiça.

1 Reis 3:16-28

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Uma Proposta para Critério

“Você seria capaz de se sabotar em prol de algum bem?”

Foi essa a pedra de toque o famoso rei de Israel usou para distinguir a mãe verdadeira da impostora: somente a primeira seria capaz de tão grande ato de renúncia. Essa história grande parte dos leitores já deve conhecer, seja por leitura da Bíblia ou do “ouvi falar” e de forma alguma venho fazer proselitismo de Javé usando os bons momentos de seus escolhidos. O que tenho em mente é se, por acaso, não seria possível generalizar a “metodologia” de Salomão para avaliar a sinceridade de alguém na busca pelo conhecimento.

Não me considero bom em “lançar moda” – aliás esta seria minha primeira tentativa -, mas ainda assim gostaria de propor um critério para se avaliar a honestidade intelectual dos defensores de alguma tese: eles devem permitir que sua própria pesquisa seja posta em xeque. Para isso, são necessárias, pelo menos, duas coisas:

  1. Transparência: uma descrição precisa do modus operandi deve ser feita, base de dados deve ser pública e bibliografia bem referenciada.
  2. Um advogado do diabo: assumir provisoriamente um ponto de vista que não é o seu, como uma teoria rival ou até mesmo uma tentativa refutação, tudo para achar brechas em sua próprias alegações (1);

Se bem satisfeitas essas condições, o resultado será a exibição públicas das fraquezas de seu estudo, mas a verdade por trás dos fatos agradece, seja ela qual for.
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O que este Critério não é

Para delimitar sua aplicação, gostaria de começar por eliminação, deixando claro o que ele não pode fazer ou ser. Aqui uso seu conceito mais amplo, como o que Salomão intuitivamente adotou, não somente o acadêmico.

  • Uma garantia de idoneidade, caso se passe nele: No começo do século XXI, certo deputado brasileiro líder de um partido aliado ao do governo sentiu-se vendido quando o executivo lavou as mãos em um escândalo que envolvia um de seus colegas. Como desforra, denunciou um esquema de corrupção maior ainda, encabeçado pelo partido do próprio governo e no qual ele próprio estava envolvido. Vulgarmente falando, “tacou m* no ventilador”. Se você considerar que moralidade está mais no resultado que nas intenções (i.e., algum grau de utilitarismo), então ele passou no critério, ao menos nesse episódio, pouco importando que não fosse recomendável votar nele;

  • Atestado de desonestidade, caso NÃO se passe nele: talvez o leitor tenha algum primo, amigo, vizinho ou conhecido que é bom parceiro, marido, pai e funcionário, mas basta tocar em algum ponto nevrálgico – que pode ser religião, política, sexo, futebol, etc. – para que vire um cão raivoso a defender as posturas mais tacanhas e controvertidas. Justifica (ou minimiza) massacres, relativiza más ações, adota “dois pesos, duas medidas”, faz vista grossa a atos dúbios e daí para baixo. Seria ele hipócrita? Muito provavelmente, não. Apenas mais um exemplo da incrível capacidade humana de compartimentalizar sua moral e continuar vivendo candidamente cheio de contradições. Pode-se comprar sem medo um carro usado dele, mas para certos assuntos é melhor não procurá-lo;

  • Garantia que esteja certo: Se você clama aos quatro ventos que não é o dono da verdade e que ninguém é infalível, então quais são suas falhas? Seria uma boa pergunta para uma entrevista de emprego. Adotar o critério seria uma forma de respondê-la e conciliar suas pretensas palavras de humildade com suas atitudes;

  • Comprovação de que esteja errado, caso NÃO o siga: Você pode se portar da forma mais arrogante do mundo e ainda calhar de estar do lado certo. Um exemplo clássico foi o livro Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo, de Galileu Galilei. Partidário do sistema heliocêntrico de Copérnico, Galileu se animou quando um amigo seu, o cardeal Maffeo Barberini, foi eleito papa, com o título de Urbano VIII. Essa poderia ser a oportunidade para Igreja Católica adotar de vez o novo modelo e abandonar as ideias geocêntricas de Aristóteles e Ptolomeu. Obteve, então, autorização para escrever um livro apresentando os dois sistemas, mas com a condição de deixar o resultado final em aberto, mostrando os prós e contras de cada um de forma equilibrada. Galileu, contudo, não se conteve deu os melhores argumentos para seu modelo preferido e deixou a defesa do sistema geocêntrico a cargo do fraco personagem Simplício, cujo nome diz tudo. Urbano VIII deve ter se sentido bem ultrajado pela petulância de seu pupilo e deixou-lhe aos “cuidados” do Santo Ofício (2). O já idoso astrônomo teve de se retratar de forma humilhante e passou seus últimos dias em prisão domiciliar. Acontece que ele estava certo… Bem hoje nós o sabemos, mas àquela o sistema geocêntrico ainda não caducara por completo e o heliocêntrico ainda tinha vários furos (3). Galileu não passaria no critério, ainda que sua premissa para o funcionamento do sistema solar estivesse correta.

  • Demonstração de ausência de viés: o viés é como o sotaque: se alguém fala sem sotaque (viés) é porque o sotaque (viés) dele é igual ao seu. Qualquer pessoa sempre possuirá uma opinião preferida sobre algum assunto (não ter posicionamento definido também é uma opinião) e, mesmo que reconheça as limitações dela, tenderá a protegê-la de algum modo. O que o critério vem propor é dar um pouco de ética ao viés, colocando limites na ambição de protegê-lo (4).

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Para o que serve, então?

Alvo pintado em torno de flecha

Existe uma receita simples para produzir uma nova pseudociência:

  1. Tenha um ideia preconcebida de como a Natureza de comporta;
  2. Reúna tudo que corroborar sua tese;
  3. Desconsidere tudo que for contrário a ela;
  4. Repita o processo a partir do nº 2.

Os criacionistas, principalmente os adeptos da “Terra Jovem”, são peritos nessa arte. De forma alguma ela é exclusiva deles, apenas a praticam de forma indecente de escancarada, e na prática, qualquer grupo pseudocientífico se vale dela: astrólogos selecionam previsões mais certeiras, viúvas de Stalin e crias de Mao relevam a morte de milhões como um mal necessário para se chegar ao verdadeiro socialismo, e analistas de risco simplificam o mundo para que ele caiba em sua matemática. Qualquer tentativa de debate
com gente desse tipo é inútil porque eles já têm a resposta e tudo que disser será filtrado, distorcido, corrompido ou descartado.

Agora, se você encontrar alguém que passe pelo critério e, por acaso, ele também te considere aprovado, então há condições suficientes (5) para que algo realmente auspicioso surja de uma troca de ideias entre vocês, pois nenhum debate tem condições de inovar se ninguém arreda pé. Isso seria uma briga de torcidas, tão comuns no meio virtual. Melhor deixar esses “torcedores” em seus cercadinhos ideológicos, a lançar flechas sobre seus anteparos preferidos para só depois pintar o alvo em volta.

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Quem não passa no Critério

Segue uma lista não exaustiva de indivíduos ou grupos cuja chance de autocrítica, por razões diversas, tende a zero.

  • Literalistas bíblicos: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8:32). Acontece que a própria verdade está na Bíblia e, o mais restritivo ainda, no próprio Jesus (cf. Jo 14:6). Assim, qualquer coisa que conflite com as Escrituras é, por definição, falsa. Seria um exagero afirmar que cada seita cristã moderna tem sua própria verdade, pois, mesmo com toda a diversidade, os protestantes, vistos de longe, lembram mais variações de um mesmo tema se que diferem sobre questões em aberto ou passíveis de reinterpretação, mas cada fiel ainda consegue se diferenciar do mundano “homem natural”. Os católicos possuem um grau extra de liberdade intelectual ao aceitarem, além da Escritura, a “Tradição” (oral e escrita), que permitiu sua doutrina constantemente evoluir, embora lentamente;

  • Allan Kardec: apesar de incorporar boa parte dos modismos intelectuais de sua época, Kardec peca pela falta de transparência. Sabe-se, em linhas gerais, como ele trabalhava, o princípio do Consenso Universal dos Espíritos, etc., mas qual era a base dados que ele tinha, afinal? Há trabalhos com médiuns (ou psíquicos) já atuantes na Era Vitoriana que são muito melhor documentados que a Codificação (6), como a Sra. Piper;

  • Ortodoxia Espírita: caso Kardec estivesse vivo hoje, ele seria kardecista? Se repararmos bem, Kardec deu mostras de mudar certas opiniões ao longo da carreira(7), mas um belo dia ele se foi, como todo mortal. Ninguém pode alterar o que ele já escreveu, óbvio, mas o quanto ainda é válido hoje? Ninguém aprende Química pela obra de Lavoisier, Física pelos Principia Mathematica (8), nem Teoria da Evolução com Darwin. São clássicos que muitos professores exibem orgulhosos em suas estantes, buscam citações e inspiração, mas não criam apostilas com eles, porque há muito estão defasados. Entretanto, se a Codificação virou um cânon fechado, então passou a progressivamente padecer dos males do literalismo bíblico. Há que sugira que notas de rodapé bastariam, mas a quantidade delas tende a aumentar com tempo, o que pode tornar o panorama a longo prazo um tanto incômodo, além de não sanarem as questões em que a Codificação é omissa e que a literatura mediúnica não tem o mesmo status para resolver. Fazer um terceiro Livro dos Espíritos, com mais abrangência e transparência, e deixar os de Kardec no pedestal de honra seria uma solução, mas quem se habilita e que preço pagará? Por outro lado, os que mais protegem a imutabilidade de Codificação (9) acabam por matar seu espírito original (com o perdão do trocadilho);

  • CSI: Não é daquela série policial que estamos falando, mas do Committee for Skeptical Inquiry (“Comitê para Investigação Cética”). Fundado em 1976 por Paul Kurtz (10) e contando com a participação de cientistas renomados, filósofos e até algumas “celebridades céticas” (como James Randi e Carl Sagan), o CSI pegou a crista da onda do misticismo barato trazido pelos newagers da contracultura, procurando dar uma “ducha de água fria” nos esotéricos, ufólatras ou autoproclamados paranormais, seja na grade mídia ou por meio de seu periódico Skeptical Inquirer. O problema foi que, no afã de combater a pseudociência, a atitude do CSI prejudica a pesquisa genuína de fenômenos ainda inexplicados por causar preconceito, medo do ridículo e falta de verbas aos cientistas realmente sérios e interessados nesses fenômenos. De certa forma, por vezes seus membros se mostram mais como “inquisitores” do que verdadeiros “inquiridores” (11);

  • Ideólogos político-econômicos: temo muito os que têm pretensão de santidade, pois não há grau de pureza que os satisfaça. Se eles têm na mão um poder decisão que afeta milhões e uma ideologia inflexível na cabeça, é apenas uma questão de tempo para uma tragédia ocorrer. Impérios teocráticos que o digam. O que muitos não percebem, contudo, é a existência de “religiões seculares”, cujos adeptos não captaram muito bem o espírito libertador de seus “gurus”. É o que notadamente ocorre no campo conhecido como “Economia Política”. Em se tratando do grau de intervenção estatal na sociedade, um extremo abriga o liberalismo, cujo louvor da livre iniciativa como motor do progresso geral – por mais egoísta que fossem os motivos dos indivíduos – acabou por creditar uma quase onipotência aos mercados. No outro lado, encontra-se o dirigismo socialista, com sua crença que um punhado de comissários – assessorados (ou não) pelos técnicos certos – é capaz de decidir o que é melhor para nós, em todas as esferas da vida. Cada extremo produziu suas próprias tragédias, mas seus adeptos jamais as reconhecerão (12). Afinal, já que a culpa foi deles, colocam-na em quem quiser;

  • Psicanalistas: polêmicas desde o começo, as teses de Sigmund Freud não incomodam mais pelo forte papel que dão impulso sexual, mas porque não mais o destrincham tanto como suas irmãs de estudo da mente humana. Nascida na virada dos século XIX para o XX, teve por base as observações clínicas do Dr. Freud para a elaboração de uma “teoria da mente” e, até aí, foi mais uma “ciência de observação” positivista, ao estilo do que Espiritismo se propunha originalmente. Acontece que o tempo passou e, de certa forma, a psicanálise começou a padecer de uma dificuldade em comum com Espiritismo: ficou centrada demais na obra na pessoa de seu fundador. Freud até revisou alguns pontos seus, mas, como todo bom mortal, faleceu um belo dia e ninguém pôde a mudar uma vírgula sequer depois. Ou melhor, surgiram “dissidentes” a propor formas alternativas de terapia em um ou outro aspecto e as discussões no meio psicanalítico ganharam ares de rixas entre seitas (13). Enquanto isso, a neurologia, a psiquiatria e outros ramos da psicologia avançaram por contra própria e por vezes discordaram do Doutor (14). As respostas aos desafios muitas vezes vieram na forma de pesada retórica, como se a psicanálise justificasse a si mesma (15). Mas, afinal, ela uma ciência? Vai depender de qual critério se use. O filósofo da Ciência Karl Popper a colocou ao lado da astrologia e do marxismo em termos de cientificidade (16). Outros filósofos seriam mais gentis, mas não muito (17). Os profissionais, em defesa própria, podem desfilar exemplos de cura como prova de eficácia (18), só não garantem se alcançaram o resultado devido à teoria que advogam ou por serem bons e perspicazes ouvintes, além de sugestivos conselheiros (19). Ao menos, a teoria psicanalítica serve de filosofia (20) e literatura (Freud tinha boa prosa), mas tome cuidado ao argumentar com um adepto dela: você pode descobrir que é sexualmente frustrado (21).

Pausa para pedradas.

Será que sobrou alguém?
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Quem passa?

Destruição de Sodoma e Gomorra

O livro de Gênesis traz uma impressionante “barganha” feita pelo patriarca Abraão:

Disse mais o Senhor: Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito,
Descerei agora, e verei se com efeito têm praticado segundo o seu clamor, que é vindo até mim; e se não, sabê-lo-ei.
Então viraram aqueles homens os rostos dali, e foram-se para Sodoma; mas Abraão ficou ainda em pé diante da face do Senhor.
E chegou-se Abraão, dizendo: Destruirás também o justo com o ímpio?
Se porventura houver cinquenta justos na cidade, destruirás também, e não pouparás o lugar por causa dos cinquenta justos que estão dentro dela?
Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?
Então disse o Senhor: Se eu em Sodoma achar cinquenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles.
E respondeu Abraão dizendo: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza.
Se porventura de cinquenta justos faltarem cinco, destruirás por aqueles cinco toda a cidade? E disse: Não a destruirei, se eu achar ali quarenta e cinco.
E continuou ainda a falar-lhe, e disse: Se porventura se acharem ali quarenta? E disse: Não o farei por amor dos quarenta.
Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, se eu ainda falar: Se porventura se acharem ali trinta? E disse: Não o farei se achar ali trinta.
E disse: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor: Se porventura se acharem ali vinte? E disse: Não a destruirei por amor dos vinte.
Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, que ainda só mais esta vez falo: Se porventura se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei por amor dos dez.
E retirou-se o Senhor, quando acabou de falar a Abraão; e Abraão tornou-se ao seu lugar.

Gn 18:20-33

Mas nem dez Abraão achou e as cidades foram destruídas. O máximo que pôde fazer foi alertar seu sobrinho Ló e sua família para que partissem de lá.

Não estou dizendo que não haja ninguém que siga o critério e, muito menos que algo será destruído. Reconheço que não fiz nenhuma busca em profundidade e que o impulso mais natural do ser humano é violar o critério. Contudo, um nome eu gostaria de assinalar pois ele (I) se destaca da massa e (II) foi muito criticado justamente por seguir o critério:

Dr. Ian Stevenson (1918 – 2007)

[topo]

Notas

(1) A título de curiosidade, o Promotor da Fé (vulgo, “Advogado do Diabo”) foi uma figura criada pela Contrarreforma e seu papel era o de questionar o caráter em vida do candidato a santo (ou beato) ou a veracidade (e inexplicabilidade) dos milagres atribuídos a ele, em oposição ao Promotor da Causa (ou “Advogado de Deus”). Essas funções foram, na prática, extintas durante o pontificado de João Paulo II, o que resultou numa profusão de canonizações. [voltar]

(2) Que a Igreja Católica tem seu quinhão de pecados, não se discute. Contudo o episódio de Galileu não está entre eles. Ele é, sem dúvida, uma das maiores injustiças que evangélicos, ateus militantes e espiritualistas e outros anticlericais têm lhe imposto, pois, longe de ser uma prova de ser uma prova de obscurantismo, ele é uma demonstração de como a Ciência da época ainda dependia muito de relações de patronagem. O fato foi que Galileu traiu a confiança de um amigo e protetor, que reagiu com fúria. Tivesse ele sido um pouco menos “gaiato”, poderia continuar a ter debates proveitosos (embora tensos) com intelectuais acerca dos “Dois Sistemas do Mundo”, muitos deles clérigos ou tão devotos quanto ele. Já existe considerável literatura erudita e popular que desfaz esse mito (cf. [Gould, cap. II, pp. 61-4], [Letin, cap. IV], [Nantes, pp. 65-83] e [Woods, cap. V, pp. 68-76]), assim como ainda há muita gente a insistir nele. [voltar]

(3) O modelo geocêntrico de Ptolomeu estipulava que a trajetória dos planetas seria uma composição de dois movimentos circulares. O primeiro e maior, chamado de deferente, seria descrito em torno do centro do sistema solar e o segundo, chamado de epiciclo era descrito em torno de um posição fictícia (ou hipotética “esfera de cristal”) que, por sua vez, percorreria o deferente. Isso era uma forma de explicar porque os planetas ora avançavam para, em seguida, diminuir sua velocidade até inverter o sentido do movimento e, por fim, retomar a direção original ao realizar um pequeno “laço”.

Epiciclos de Ptolomeu

Em princípio, o sistema ptolomaico até não era tão complicado assim, porém, sucessivos refinamentos posteriores ao sistema levaram a um aumento de sua complexidade com introdução de epiciclos de epiciclos, não só para conformá-lo melhor às observações, mas também ao princípio aristotélico de que só o movimento uniformemente circular era autossustendado (Ptolomeu aceitava órbitas excêntricas e de velocidade variável em relação o centro do deferente).

Já no Renascimento, Nicolau Copérnico propôs colocar a Terra no centro do universo como uma forma de resolver uma complicação que modelo de Ptolomeu já tinha desde o berço [Aaboe, cap. II, p. 111]: os cálculos para os epiciclos dos planetas interiores (Mercúrio e Vênus, que teriam órbitas menores que a do Sol) eram diferentes dos exteriores (Marte, Júpiter e Saturno). Colocando o Sol no centro e a Terra entre esses dois grupos, isso se tornava uma consequência do movimento relativo entre eles, ao passo que no modelo de Ptolomeu era algo arbitrário. O modelo de Copérnico, contudo, não abria mão dos epiciclos e ainda tinha dificuldades extras a explicar, como o fato de os objetos em queda não ficarem para trás conforme a Terra girasse ou a ausência de alteração na posição das estrelas ao longo do ano.

Por essas razões sua aceitação não foi tão rápida assim. Para acelerar esse processo, Galileu difundiu descobertas suas feitas com a luneta astronômica e que corroborariam seu modelo preferido: a descoberta dos quatro maiores satélites de Júpiter e de que o planeta Vênus possuía fases, como a Lua. Além disso, sua elaboração do “princípio de inércia” justificava porque os corpos acompanhavam a Terra em seu deslocamento.

Entretanto isso não era suficiente: o fato de Vênus girar em torno do Sol não impedia que o Sol, por sua vez, continuasse a girar em torno da Terra. O mesmo raciocínio serve para Júpiter e seus satélites. De fato, um contemporâneo seu – Tycho Brahe – concebeu um sistema geo-heliocêntrico com a Terra ao centro, a Lua e o Sol a orbitando diretamente, e todos os outros planetas girando em torno dele.

Sistema cosmológico de Tycho Brahe

Sistema cosmológico de Tycho Brahe. Fonte: Observatório Nacional

O sistema de Tycho Brahe era matematicamente equivalente ao de Copérnico e ainda tinha a vantagem de não precisar responder à aparente ausência de uma modificação cíclica no posicionamento das estrelas ao longo do ano (paralaxe estelar), só confirmada em 1727. Os proponentes do heliocentrismo alegavam que a “esfera das estrelas” estaria muito mais afastada que as demais e, por isso, imperceptível. Embora a essência desse raciocínio se revelasse correta no futuro, à época era apenas uma hipótese ad hoc inverificável e não muito intuitiva.

Embora tivesse rompido com a tradição aristotélica em muitos pontos, Galileu ateve-se a ela em outros. Por exemplo, insistiu nas órbitas circulares, cêntricas e de velocidade constante para os corpos celestes, o que prejudicava a concordância do modelo com as observações. Galileu, inclusive, trocou correspondência com o astrônomo Johannes Kepler – antigo colaborador de Brahe em medições astronômicas e que aperfeiçoara o modelo heliocêntrico estipulando órbitas elípticas e velocidade variável -, mas o ignorou solenemente.[voltar]

(4)Uma anedota sobre o filósofo e matemático Bertrand Russell diz que, certa vez, quando perguntado se morreria por suas crenças, ele prontamente respondeu: “Claro que não. Afinal de contas, posso estar errado”. Também apresentada na forma de um aforismo: “nunca morreria por minhas crenças porque posso estar errado”. Não consegui encontrar a origem dela e vários outros também não. Até mesmo a Wikipedia a classifica como “em disputa”. Apócrifa ou não, essa história representa bem a ideia passada aqui. [voltar]

(5) Repare bem: a conformidade com o critério por ambas as partes é uma condição suficiente para um diálogo produtivo. Em instante algum é dito que ela é uma condição necessária e muito menos “necessária e suficiente”. Até mesmo de arranca-rabos pode-se extrair algo de bom, inclusive o que não fazer. [voltar]

(6) Nas andanças pela internet, encontrei o artigo O Dossiê Canuto Abreu, que traz algumas informações curiosas:

Escreveu Carlos de Brito Imbassahy, sob o título “Dr. Canuto de Abreu” (“Mundo Espírita”, PR, de 31.08.1980): “Os tempos se passam”. Indo a São Paulo em companhia do Olympio (que fazia vez de meu irmão), e da esposa, fomos almoçar com o Dr. Canuto de Abreu; nesta tarde, ele nos leva para os seus arquivos particulares e nos mostra um “dossier” contando-nos a história.

“Estava na França pouco antes de estourar a Guerra de 1939 quando, intempestivamente, fui procurado por dois cidadãos que se apresentaram e se disseram que ali estavam por ordem espiritual. Os cidadãos haviam recebido instrução de seus guias que deveria vir do Brasil uma determinada pessoa em tais circunstâncias que coincidiam exatamente com as minhas (dizia o Dr. Canuto) e que a esse cidadão deveriam ser entregues os arquivos particulares do próprio Allan Kardec, pois a Europa iria passar uma fase conturbada de guerra e, se esses documentos fossem encontrados, seriam destruídos”.

Ali estava, diante de mim e de Olympio, a letrinha de Kardec, suas opiniões e um envelope “confidencial-não pode ser publicado”. Mostrou-me seu conteúdo dizendo:

“Gostaria de doar este acervo à Federação Espírita Brasileira, mas ela é roustainguista e, na certa, não vai admitir que seja ela própria a portadora de documentos que condenam “Os Quatro Evangelhos” (de Roustaing!).

Disse isso e mostrou-me duas cartas manuscritas onde, por cima, lia-se:

“Carta enviada ao senhor João Batista Roustaing, cartas essas que são um libelo terrível, no qual acusa o “colega” de controverter a ordem doutrinária, deixando-se envolver por mistificadores cujo único objetivo era desmoralizar o sistema de comunicação com os mortos.”

E prossegue:

Jamil Salomão (CF [Correio Fraterno] do ABC, janeiro/1990) escreveu, sob o título “J. B. Roustaing, o Judas do Espiritismo”:

“Esta afirmativa é atribuída a Allan Kardec”, feita em uma carta endereçada ao insigne escritor Léon Denis, cujo próprio original se encontra em poder do Dr. Canuto de Abreu, conhecido intelectual e espírita da capital de São Paulo, que possuía farto material que pertencia a Kardec. Numa Visita fraterna ao Dr. Canuto, pelos idos de 1974, em companhia do Dr. Freitas Nobre e da médica Dra. Marlene Severino Nobre, ouvimos essas revelações surpreendentes, pois desconhecíamos a existência de um documento de tal importância. Imediatamente foi solicitado ao Dr. Canuto de Abreu permissão para a divulgar o material, bem como obter cópia do mesmo, a fim de ser noticiado no jornal “A Folha Espírita”, que estava sendo lançado naquela época, como o primeiro jornal espírita a ser colocado nas bancas públicas e com distribuição nacional. O Dr. Canuto se mostrou temeroso, não permitindo a divulgação da carta de Kardec, na qual atribuía a Roustaing a condição de traidor dos postulados espíritas, ao lançar “Os Quatro Evangelhos”, atribuindo-lhes o título de “Revelação da Revelação”, o que poderia ser motivo de uma cisão no movimento espírita.”(…)

A que o articulista acrescentou:

Comentário: Quanto ao escrúpulo do Dr. Canuto de Abreu, e agora de seus familiares, em não dar publicidade às cartas de Allan Kardec contra Roustaing, ocorre-nos lembrar à distinta família que, se o plano espiritual se preocupou com a preservação dos documentos de Kardec, incluídas as referidas cartas, não foi para que elas permanecessem desconhecidas do público espírita. É óbvio, caso contrário os espíritos deixariam que tais documentos fossem destruídos pelos invasores alemães, como estava previsto. Com essa atitude, a nosso ver, equivocada, da respeitável família Canuto de Abreu, apenas se exumaram, em Paris, as cartas de Allan Kardec para dar lhes nova sepultura, no Brasil. E perguntamos: Para que? Consultando sobre o paradeiro dessas cartas, informou Carlos de Brito Imbassahy que conforme lhe disseram, elas estariam em poder de um neto do Dr. Canuto de Abreu. Fazemos este apelo a quem guarde estas cartas de Allan Kardec: que as entregue para divulgação, a um jornal de grande circulação, “Correio Fraterno do ABC” ou “Jornal Espírita”, a meu ver, os mais credenciados para dar-lhes publicidade.

Só com isso não dá para saber o quanto esse material dos primórdios da codificação seria elucidativo sobre a metodologia do Codificador. O que se pode dizer é que, enquanto inacessível ao público, ele tem o mesmo valor de um tesouro no fundo do mar: nenhum. [voltar]

(7) Por exemplo: as mudanças ocorridas entre a primeira e segunda edição de O Livro dos Espíritos e a considerável mudança de opinião de Kardec quanto à evolução biológica, ao longo da Codificação. Compare o que ele diz no capítulo III de O Livro dos Espíritos

A diversidade das raças humanas vem ainda em apoio desta opinião. O clima e os hábitos produzem, sem dúvida, modificações das características físicas, mas sabe-se até onde pode chegar a influência dessas causas, e o exame fisiológico prova a existência, entre algumas raças, de diferenças constitucionais mais profundas que as produzidas pelo clima. O cruzamento de raças produz os tipos intermediários; tende a superar os caracteres extremos, mas não cria estes, produzindo apenas as variedades. Ora, para que tivesse havido cruzamento de raças, era necessário que houvesse raças distintas, e como explicarmos a sua existência, dando-lhes um tronco comum e sobretudo tão próximo? Como admitir que, em alguns séculos, certos descendentes de Noé se tivessem transformado a ponto de produzirem a raça etiópica, por exemplo?

Uma tal metamorfose não é mais admissível que a hipótese de um tronco comum para o lobo e a ovelha, o elefante e o pulgão, a ave e o peixe. Ainda uma vez, nada poderia prevalecer contra a evidência dos fatos.

Seção VI -“Considerações e Concordâncias Bíblicas Referentes à Criação”, q. 59

Com o que aparece em A Gênese

Se os seres orgânicos complexos não se produzem dessa maneira, quem sabe como eles começaram? Quem conhece o segredo de todas as transformações? Quando se vê o carvalho e a bolota (de onde ele nasce), quem pode afirmar que não existe um elo misterioso entre o pólipo e o elefante?

Cap. X, 23.

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(8) Embora tenha sido um dos criadores da Análise matemática (a que chamava de “método das fluxões”), Issac Newton não o utilizou em seu colossal Principia Mathematica. Talvez pelo método ainda ser novidade e por ele mesmo ainda estar em disputa pela primazia da descoberta com o matemático alemão Leibniz, Newton adotou métodos de resolução geométricos que remontam aos antigos gregos, mas que não eram questionados. O resultado final foi um livro bem indigesto. [voltar]

(9) Alô, GAE. [voltar]

(10) Originalmente denominado Committee for the Scientific Investigation of Claims of the Paranormal (“Comitê para a Investigação Científica de Alegações do Paranormal”), suas inicias (CSICOP) constituíam uma espécie de acrônimo com a mesma pronúncia inglesa que Sci Cop, algo como “polícia da Ciência”. [voltar]

(11) Nas próprias palavras de Carl Sagan:

(…)Aqueles que são alvos das análises da CSICOP formulam às vezes exatamente esta queixa: ela é hostil a toda nova ideia, dizem, chega às raias do absurdo com seu desmarascamento previsível, é uma organização de vigilância, uma Nova Inquisição, e assim por diante.

A CSICOP é [grifo do autor] imperfeita. Em alguns casos, essa crítica é em certa medida justificada. Mas, de meu ponto de vista, ela desempenha uma função social importante – como uma organização bem conhecida que a mídia pode recorrer quando deseja escutar o outro lado da história, especialmente quanto uma afirmação surpreendente da pseudociência é considerada digna de ser notificada. A regra era (e para grande parte da mídia global ainda é) que todo guru levitador, todo visitante alienígena, todo canalizador e todo aquele que cura pela fé fosse tratado de forma superficial e acrítica. Não havia memória institucional no estúdio de televisão, nos jornais ou nas revistas sobre alegações semelhantes já desmascaradas como fraudes e logos. Embora ainda não seja uma voz bastante forte, a CSICOP representa um contrapeso à credulidade da pseudociência, que parece ser uma segunda natureza de grande parte da mídia.

[Sagan, cap. XVII, pp.291-2]

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(12)

Smith x Marx

Adam Smith(E) e Karl Marx: dois profetas, duas Escrituras, dois deuses.

Os humanos são seres que reagem a estímulos: amor e dor, chicote e cenoura, prêmio e castigo. Se acha isso um reducionismo, saiba que está nas entranhas nas religiões judaico-cristãs que, por mais que digam que “não é bem assim”, partilham de dueto similar: “céu e inferno” (ou colônia e umbral, se preferir). Os economistas clássicos sabiam disso e tinham a vantagem, em relação aos religiosos, de poder quantificar o empenho em cifrões. O livre comércio tornou-se a vaca sagrada de gerações de políticos justamente por tornar a “cenoura” maior e mais apetitosa. Qualquer interferência destruiria a motivação individual e acabaria se tornando maléfica, por mais que fosse bem intencionada. Por exemplo, Adam Smith, no seu clássico A Riqueza das Nações, assim explicou como um controle de preços em época de escassez poderia levar a desastres:

Quem quer que examine atentamente a história das fases de miséria e penúria de víveres que têm afligido qualquer região da Europa, no decurso do presente século [XVIII] ou dos dois séculos anteriores – sendo que de várias delas possuímos relatos bastante precisos – constatará, como creio, que jamais uma carestia se originou de uma associação ou conluio entre os comerciantes internos de trigo, nem de qualquer outra causa que não fosse uma escassez real, resultante, por vezes, ocasionalmente, em determinados lugares, da devastação da guerra, porém, na grande maioria dos casos, das estações pouco favoráveis; constatará igualmente que uma fome geral nunca se originou de outra causa senão da violência do Governo, que, na tentativa de remediar os inconvenientes de uma carestia, recorreu a meios inadequados.

Em um país produtor de trigo e de grande extensão, se entra todas as suas regiões existir liberdade de comércio e de comunicação, a escassez gerada pelas estações mais desfavoráveis nunca pode ser tão grande a ponto de provocar uma fome, por outro lado, a colheita mais precária, se administrada com parcimônia e economia, será capaz de sustentar, através do ano, o mesmo número de pessoas que se alimentam com maior abundância com uma colheita mais farta. As estações mais desfavoráveis para a colheita são as de seca excessiva ou de chuvas excessivas. Entretanto, já que o trigo se desenvolve de maneira igual tanto em terras altas como em terras baixas, em solos de natureza mais úmida e em solos de natureza mais seca, a seca ou o excesso de chuvas, que são prejudiciais para uma parte do país, são favoráveis para outra; e, embora tanto na estação de secas como na estação chuvosa, a colheita seja bastante menos abundante do que em uma estação favorável, acontece que nessas duas estações desfavoráveis, o que se perde em uma região do país, de certo modo é compensado pelo que se ganha em outra. Nos países produtores de arroz, onde a colheita não somente requer um solo muito úmido, e onde também, durante um determinado período do cultivo, o arroz deve crescer debaixo d’água, os efeitos de uma seca são muito mais funestos. Não obstante isso, mesmo em tais países, a seca talvez dificilmente seja alguma vez tão generalizada a ponto de provocar necessariamente uma fome, se o Governo permitir o livre comércio. A seca de Bengala, há alguns anos [1770], poderia provavelmente ter provocado uma carestia muito grande. Possivelmente, algumas medidas inadequadas, algumas restrições pouco sensatas impostas pelos empregados da Companhia das Índias Orientais ao comércio do arroz tenham contribuído para transformar essa carestia em uma fome generalizada.

Quando o Governo, para remediar os inconvenientes de uma carestia, ordena a todos os comerciantes que vendam seu trigo a um preço que ele presume razoável, de duas uma: ou os impede de comercializá-lo – o que, às vezes, pode produzir fome, mesmo no início da estação – ou, se os comerciantes levam o trigo ao mercado, o Governo dá condições à população – e com isso a estimula a fazê-lo – de consumir o estoque tão rapidamente, que inevitavelmente haverá fome antes do fim da estação. A liberdade ilimitada e irrestrita de comercializar cereais não só constitui a única medida eficazmente preventiva das agruras da fome, como também representa o melhor paliativo para os inconvenientes da carestia; com efeito, os inconvenientes de uma real escassez não podem ser remediados; para eles só existem medidas paliativas. Não há nenhuma atividade que mereça mais plena proteção da lei, nenhuma exija tanto; e isso porque nenhuma outra atividade está tão exposta à reprovação popular.

[Smith, Livro IV, cap. V, pp. 31-2]

Smith acertadamente atribui a fome de Bengala (atual Bangladesh e arredores) à impiedosa ação da Companhia da Índias Orientais. Tendo se tornado, em termos práticos, dona da região, ela impôs o monopólio comercial, aumentou o imposto agrário, direcionou a produção para a exportação e proibiu a estocagem de grãos, tudo em meio a época de seca e más colheitas. Resultado: dez milhões de mortos ou um terço da população local. Os revolucionários comunistas do século XX também se notabilizaram por produzir epidemias de fome (como o holodomor na URSS de Stálin e o Grande Salto para frente, na China de Mao), porém, em vez da maximização de lucros, objetivo deles era a reengenharia social à toque de caixa para trazer o paraíso à Terra e superar o capitalismo (cf. [White, pp. 463, 523-6]). No Brasil, embora ainda haja problemas com a seca nordestina e em bolsões de miséria, não há, na história recente, uma crise de inanição tão generalizada. Contudo, houve uma carestia e relativo desabastecimento durante o “Plano Cruzado” (1986), quando uma tentativa de violar a “Lei da Oferta e Procura” por meio de um tabelamento de preços, associada à uma economia fechada, desestimulou o comércio. Oito anos depois, o Plano Real teve a virtude de compensar a esperada elevação da demanda que se seguiria ao controle dos preços (dessa vez por uma paridade cambial ao dólar) com a abertura da economia e, portanto, aumento da oferta.

Quer dizer que Adam Smith estava absolutamente certo, não? Nem tanto. De fato, o poder dos governos de produzir desastres é grande – daí a defesa apaixonada de alguns pelo “Estado mínimo” -, mas se a única coisa a esperar de agentes individuais é “satisfação de seu próprios interesses”, por que razão eles haveriam de vender alimentos para um bando de famélicos sem dinheiro? Ainda mais se houver acesso a outros mercados mais promissores! Foi essa a armadilha que os ingleses montaram para os indianos na Era Vitoriana, quando a Coroa já havia assumido controle direto do subcontinente. Por ocasião de uma seca em 1876, o governo colonial quase nada fez em amparo à população e, quando muito, criou frentes de trabalho insalubres. A boa notícia foi que o comércio continuou a fluir sem empecilhos e quem ainda tinha alguma produção pôde escoá-la para os portos usando alguma ferrovia construída pelos ingleses (cf. [White, pp. 377-84]). Curiosamente, dois anos antes o governador de Bengala, Richard Temple, conseguiu prevenir um desastre importando meio milhão de toneladas de arroz da Birmânia, que distribuiu aos necessitados. Como foi muito criticado por essa forma de gastar dinheiro do Tesouro, mostraria depois ter “aprendido a lição”.

Justiça seja feita: toda essa omissão não pode ser atribuída exclusivamente às ideias de Adam Smith. Ele próprio reconhecia que nem tudo era da alçada do livre mercado:

O terceiro e último dever do soberano ou do Estado é o de criar e manter essas instituições e obras públicas que, embora possam proporcionar a máxima vantagem para uma grande sociedade, são de tal natureza, que o lucro jamais conseguiria compensar algum indivíduo ou um pequeno número de indivíduos as crie e mantenha. Também o cumprimento deste dever exige despesas cujo montante varia muito conforme os diferentes períodos da sociedade.
[Smith, Livro V, cap. I, parte III, p. 198]

Foi preciso adicionar outro arcabouço teórico para que os governantes pudessem lavar as mãos sem se tornarem mal vistos: a teoria populacional de Thomas Malthus. Publicada originalmente em 1798 no tratado Um Ensaio sobre o Princípio da População e como ele afeta o Futuro Desenvolvimento da Sociedade, ela, super-resumidamente, advoga que a população tende a crescer de forma geométrica (1, 2, 4, 8, 16 …), ao passo que os meios de subsistência cresceriam de forma aritmética (1, 2, 3, 4, 5 …). Já que essas duas razões de crescimento não se encaixam, não o só número de seres humanos acabaria limitado pela Natureza, como também a qualidade de vida deles:

A fome parece ser o último, o mais horrível recurso da natureza. O poder da população é tão superior ao poder da terra em prover subsistência para o homem, que a morte prematura deve de uma forma ou de outra visitar a raça humana. Os vícios da humanidade são ativos e capazes agentes do despovoamento. Eles são os precursores no grande exército da destruição; e frequentemente dão cabo ao horrível serviço por contra própria. Mas caso falhem nessa guerra de extermínio, doenças endêmicas, epidêmicas, pestilências e pragas avançam em terrível sucessão e varrem seus milhares e dezenas de milhares [de vidas]. Caso o sucesso ainda seja parcial, uma gigante e inevitável fome espreita ao fundo e, com um poderoso golpe, nivela a população com o alimento do mundo.

Malthus, Thomas R.; An Essay on the Principle of Population, cap. VII, parágrafo 20, primeira edição (1798).

Era Malthus um crápula? Não, apenas alguém sinceramente preocupado com persistência da pobreza no mundo, em meio a uma relativa prosperidade econômica geral. Sua solução para o problema – exposta mais enfaticamente nas edições posteriores – se encontrava na melhoria e “restrição moral” da humanidade. Ou seja, pensar menos “naquilo”. Muito já se discutiu a respeito de sua obra, mas a principal refutação veio pela prova do tempo: novos métodos contraceptivos associados a uma melhora geral das camadas mais baixas do povo levaram à queda da natalidade, além de a “Revolução Verde” ter expandido rapidamente a oferta de alimentos. Nem por isso o malthusianismo deixou de se reciclar e sua roupagem atual apela para questão ecológica. Por ora, é interessante constatar aqui existência de distorções popularescas do malthusianismo à época da “Economia Clássica”. O escritor vitoriano Charles Dickens, em Um Conto de Natal (1843), retratou o avarento Scrooge como um adepto delas logo no primeiro capítulo, como desculpa para sua sovinice.

– Desejo que me deixem em paz; já que os senhores querem saber, é isso que eu desejo. Eu não faço banquetes para mim próprio pelo Natal, vou agora dar banquete aos vagabundos! Já faço muito em dar minha contribuição às organizações de que falamos ainda há pouco [prisões, asilos, casas de correção], e elas não ficam barato! Aqueles que tiverem necessidade que recorram a elas.

– Muitos não o podem fazer, outros preferem a morte.

– Se preferem a morte, – disse Scrooge –, está ótimo! Que morram! Isso virá diminuir o excesso de população. De resto, queiram desculpar-me, porém não estou bem a par dessa questão.

Não foi à toa que o Ministro das Finanças por ocasião da fome indiana de 1876-7 – Sir Evelyn Baring (futuro Lorde Cromer) – declarou: “Toda tentativa benevolente de mitigar os efeitos da fome e do saneamento precário só serve para aumentar os danos resultantes da superpopulação” (cf. [White, p. 380] e [Davis, cap. I, p.32]).

Não é apenas o pessoal mais, digamos, à direita que é capaz de endurecer o coração ante o sofrimento alheio. Esquerdistas comumente fazem vista grossa às matanças promovidas por revolucionários, como a política do Terror durante a Revolução Francesa, os gulags soviéticos e o paredón cubano. E você não precisa(va) estar do lado errado da fronteira para se tornar escorregadio. Um exemplo emblemático foi a postura Noam Chomsky – linguista e ativista norte-americano cheio de publicações – ante o genocídio cambojano dos anos 70:

In extremis, os que pensam conforme aquilo em que desejam acreditar preferem abandonar por completo a realidade e a moral a renunciar a suas escolhas reconfortantes. No fim da década de 1970, Chomsky ridicularizou sistematicamente a ideia de que Pol Pot pudesse ser um assassino em massa, apesar do depoimento de muitos cambojanos que tinham fugido pela fronteira. “Os refugiados fica assustados e indefesos, à mercê de forças alheias”, disse ele aos leitores de The Nation em junho de 1977. “É natural que tendam a contar o que acreditam que seus interlocutores queiram ouvir. (…) Especialmente, os refugiados questionados por ocidentais ou tailandeses têm interesse especial em relatar atrocidades por parte dos revolucionários cambojanos, fato óbvio que nenhum repórter sério deixará de levar em conta.” Dois anos depois, após a derrubada de Pol Pot, as imensas pilhas de crânios humanos em seus campos de extermínio confirmaram que não eram os refugiados que se haviam iludido. A estimativa mais abalizada é que, entre abril de 1975 e janeiro de 1979, o Khmer Vermelho tenha matado 1.670.000 cambojanos, ou 20% da população – proporcionalmente, a maior carnificina já infligida por um governo a seus súditos. Todavia, mesmo em 1980, ao publicar After the Cataclysm: Postwar Indochina and the Reconstruction of Imperial Ideology [“Depois do cataclismo: a Indochina do pós-guerra e a reconstrução da ideologia imperial”], Chomsky recriminou os que aplicavam a palavra “genocídio” a esse Holocausto. “As mortes no Camboja não resultaram da matança sistemática e da inanição promovidas pelo Estado, mas são atribuíveis, em larga medida, à vingança dos camponeses, a unidades militares indisciplinadas, fora do controle do governo, à fome e à doença que são uma consequência direta da guerra norte-americana, ou a outros fatores desta natureza.” Afinal, por que continuar reprisando a questão desses cadáveres? “O lado positivo do quadro [do Khmer Vermelho] foi praticamente apagado”, reclamou Chomsky. “O lado negativo tem sido apresentado a uma plateia em massa, numa saraivada de informações que encontra poucos paralelos históricos, excetuada a propaganda dos tempos de guerra.”

Noam Chomsky sempre concedeu o benefício da dúvida a regimes antiamericanos como os de Pol Pot ou Slobodan Milosevic, esforçando-se por minimizar a escala de seu terrorismo e duvidando até das provas mais criteriosamente ratificadas. (…)

[Wheen, cap. XI, pp. 323-4]

A origem dessa dissonância cognitiva é antiga. Já no Manifesto Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels assim clamaram aos operários:

Os comunistas consideram indigno dissimular as sua ideias e propósitos. Proclamam abertamente que os seus objetivos só podem ser alcançados derrubando pela violência toda a ordem social existente. Que as classes dominantes tremam ante a ideia de uma Revolução Comunista! Os proletários não têm nada a perder com ela, além das suas cadeias. Têm, em troca, um mundo a ganhar.

PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNI-VOS!

De lá para cá, muitos dos que deram atenção a esse chamado perderam o ganha-pão, a integridade física, própria vida e a de seus filhos. A arapuca contida nele talvez tenha sido identificada por ninguém menos que Josef Stálin numa frase que lhe é atribuída (embora de origem incerta): “a morte de um homem é uma tragédia; a de milhões, uma estatística.” Ou seja, quando pessoas deixam de ser vistas com indivíduos e passam a ser tratados como coletivos, perde-se a compaixão por elas. Ficam como se fossem as células de um organismo, que não têm consciência individual e são continuamente trocadas. Apenas o organismo permanece e importa. Assim, que mal há se milhões morrem, mas a economia vai bem ou se está mais próximo da concretização do modo de produção socialista?

Há quem diga que a moral judaico-cristã é narcisista porque seu conceito de salvação é um processo essencialmente individual, ao contrário da redenção coletiva proposta por ideologias. Se assim for, melhor, pois só conseguimos nos colocar nos pés de outros indivíduos – a quem, segundo essa moral, devemos amar como nós mesmos -, não de abstrações numéricas. [voltar]

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Freud x Jung

Sigmund Freud (E) e Carl Jung: discípulos ameaçando o reinado dos mestres desde os tempos de Platão e Aristóteles.

O historiador Paul Johnson descreveu de forma pesada a relação entre Freud e círculo mais íntimo:

Freud era bem mosaico nas suas convicções sobre a questão do que era justo. A tradição de tolerância, de pontos de vista e de uma liderança policêntricos, não o atraía. Max Graf, pai do Pequeno Hans, disse que o clima no gabinete de Freud era “o da fundação de uma nova religião”. Os pacientes eram “os apóstolos” e Freud, “embora atencioso e de bom coração em sua vida privada”, era “duro e inflexível na apresentação de suas ideias”[229]. Freud tinha a sua pequena corte, da mesma forma que os sábios hassídicos. Formada inicialmente em 1902, nela ele nunca tolerou uma oposição séria a sua pessoa. Alfred Adler (1870 – 1937), um dos primeiros e mais brilhantes de seus membros, foi tratado – quando uma vez ele arriscou a discordar – não como um colega exercendo a crítica, mas como um heresiarca, ou ainda, por um termo que os marxistas iriam popularizar:’dissidente’. Como Graf colocou a situação: “Foi um julgamento e a acusação que pesava sobre o réu era de heresia … Freud, na condição de líder da igreja, excomungou Adler; ele o expulsou da igreja oficial. Durante um período de alguns anos, eu vivenciei todo o desenvolvimento de uma igreja”. Daí em diante, a excomunhão (herem), foi muito usada, principalmente no caso de Jung, o maior de todos os heresiarcas. O rompimento com Jung foi particularmente rancoroso, pois, como Jones colocou, ele deveria ter sido o Josué do Moisés de Freud. Seu “semblante mostrava um aspecto exultante quando falava de Jung: ‘Esse é meu filho querido, com quem eu estou muito satisfeito’. “Quando o império que eu fundei ficar órfão”, ele escreveu, “cabe a Jung herdá-lo todo, e a ninguém mais”[230].

[Johson, parte V, pp. 432-3]
Notas de autor:

[229]Citado em Roazen, op. cit., 197. (No caso, Paulo Roazen, Freud and his Followers, Londres, 1976.)
[230] Jones, op. cit., ii 33. (No caso, Ernest Jones, Life and Work of Sigmund Freud, 3 vols. (Nova York, 1953-7).

Embora fosse de família judia, Freud não era religioso e muito menos praticante. Ainda assim, aspectos da cultura judaica permearam sua obra, como a experiência subjetiva da interpretação da mente, que tem paralelos com estilo de exegese de expoentes da mística judaica:

Freud, na tradição judaica irracionalista, foi mais um Namânides ou um Besht [místicos] do que um Maimônides [racionalista]. Mas, talvez exatamente por isso, ele tornou-se um pilar central da estrutura intelectual do século vinte, uma construção com bases predominantemente irracionais. Para variar a metáfora, podemos dizer que ele deu à humanidade um novo espelho, pois nunca nenhum homem mudou de maneira tão radical e irreversível a maneira pela qual as pessoas se olham a si mesmas; ou mesmo a maneira como elas falam de si mesmas, pois ele também mudou o vocabulário da introspecção.
[Idem, p. 434]

E assim, um ateu teria criado seu próprio credo. Mas não do nada. [voltar]

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Masters of Sex - a série

FREUD LEVOU PAU EM GINECOLOGIA!

Um dos mais controversos pontos talvez seja a questão do orgasmo feminino no desenvolvimento sexual da mulher:

Se a vivência do sentimento de prazer sexual acaba por ser tão subjetiva, é lógico pensar que os fatores culturais tê um peso importante em sua experimentação. A expectativa que se tem do orgasmo é culturalmente determinada. Atualmente, as mulheres ocidentais esperam e desejam ter orgasmos e seus companheiros sexuais esperam também que elas os tenham. Quando não é assim, pensa-se que algo vai mal. Sem dúvida, até há poucos anos acreditava-se que as mulheres não tinham capacidade de experimentar prazer sexual, e que, nas poucas que o sentiam, isto era considerado um defeito ou, pelo menos, em hipótese alguma, devia ser exteriorizado. A tradição vitoriana fez com que as mulheres acreditassem que, na melhor das hipóteses, o orgasmo era algo pecaminoso.

Nesse contexto, surgiu a obra de Freud, que afirmou que existiam dois tipos de orgasmo feminino: o clitoriano e o vaginal. A afirmação em si não teria provocado maiores problemas se Freud não tivesse acrescentado que os orgasmos clitorianos (obtidos por meio da masturbação e por atos alheios ao coito) evidenciavam a imaturidade psicológica da mulher, enquanto os orgasmos vaginais (decorrentes do coito) eram os verdadeiramente saudáveis e maduros. Em seu ensaio Algumas consequências psicológicas da diferença anatômica entre os sexos, Freud escreveu que “a supressão da sexualidade clitoriana é um requisito necessário para o desenvolvimento da feminilidade”. A partir desta teoria freudiana, criou-se uma importante controvérsia entre a natureza e as implicações do orgasmo feminino, em virtude da qual inúmeras mulheres foram classificadas de neuróticas. Na realidade, segundo diversos estudos, só uma pequena percentagem de mulheres (em torno de 30% a 40%) atinge um orgasmo durante o coito, sem nenhum outro tipo de estimulação simultânea. Isto ocorre, talvez, devido a diferenças na sensibilidade genital e não a fatores como imaturidade, ansiedade e comunicação deficiente com o parceiro.

Por outro lado, numerosos estudos demonstravam que, em termos fisiológicos, existe apenas uma resposta orgástica. Um orgasmo obtido por meio da estimulação do clitóris é idêntico, fisiologicamente falando, a outro obtido pelo coito. Apesar disto, a ideia da existência de dois diferentes tipos de orgasmos tem-se mantido e chegou até os nossos dias. Talvez seja porque se confundiu a resposta fisiológica com a experiência orgástica das mulheres. Neste ponto, é verdade que as mulheres capazes de conseguir orgasmos clitorianos e vaginais descrevem dois tipos de experiência diferentes. Mas isto é devido à diferente experiência emocional, não à uma diferente resposta física. De fato, entre as mulheres, há preferências para todos os gostos. Enquanto umas preferem o orgasmo coital porque a experiência parece-lhes satisfatória, embora o orgasmo seja menos intenso, outras valorizam o orgasmo clitoriano, possivelmente pelas vantagens que este envolve, quanto a sua maior intensidade e por não se verem envolvidas pelas necessidades e pelo ritmo de seu companheiro sexual.

Em conclusão, atualmente não se considera patológico o fato de não se atingir o orgasmo por meio do coito; aceita-se que a resposta fisiológica, como a descrevemos anteriormente [dividida nas fases excitação, platô, orgasmo e resolução], é a mesma seja qual for a estimulação e o tipo de orgasmo, e considera-se que nenhum deste tipos é mais maduro ou imaturo, melhor ou pior que o outro.

[Enciclopédia da Sexualidade, vol. I, pp.58-60]

Masters of Sex - a série

A série Masters of Sex reconta a trajetória das pesquisas de William Master e Virginia Johson (acima, uma foto real deles), alfinetando o pai da psicanálise no sexto episódio da primeira temporada. Ignoro o quanto a dramatização é fiel aos fatos, mas a série dá um bom sentimento entre a diferença entre pesquisa a partir de experimentos controlados com boa base de dados e uma teoria de poucas amostras e muita especulação.

A resposta fisiológica do orgasmo foi primeiramente estudada por William H. Masters e Virginia E. Johnson, no fim dos anos 50 e começo dos 60 do século XX, tendo seus resultados publicados em Human Sexual Response, lançado em 1966. Suas pesquisas utilizaram o que havia de mais avançado na época (como eletrocardiogramas e eletroencefalogramas), além de instrumentos de invenção própria (como um vibrador transparente munido de iluminação interna, para registrar o comportamento do canal vaginal), e, de fato, não apontaram diferenças na forma como o corpo feminino reponde aos dois tipos de orgasmo. Com o posterior avanço da tecnologia, contatou-se, por meio de tomógrafos, que o cérebro feminino tem diferentes áreas ativadas durante cada um deles, o que pode explicar as distintas experiências subjetivas relatadas pelas que conseguem vivenciar os dois tipos. Acrescente-se à discussão o famigerado “ponto G”, cuja existência e localização no canal vaginal ainda é debatida. Talvez uma sensata opinião seja a proferida pelo cientista Emmanuele Jannini (citado no link anterior):

Uma mulher deve ter uma compreensão de quem ela é, como é constituído seu corpo, qual é capacidade de seu corpo, mas não deve buscar por algo como se fosse uma corrida, um jogo, um dever. Buscar o ponto G ou o orgasmo vaginal como uma necessidade, como um dever, é a melhor maneira de perder a felicidade do sexo.

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Diagrama do solipsismo.

Uma armadilha em as correntes psicanalíticas caem muitas vezes é a do “solipsismo metodológico”: a crença que o conteúdo dos pensamentos de um indivíduos é determinada por fatos acerca deles, fato esses independentes do que ocorre no mundo exterior. Se você lembrou de A Interpretação dos Sonhos, não foi mera coincidência.

O problema é a experiência subjetiva, como o próprio nome diz, não pode ser avaliada acima de qualquer dúvida razoável aqui do mundo exterior. Por isso, pode-se criar todo um arcabouço teórico – perfeitamente lógico e coerente, cujas premissas não podem ser determinadas como certas ou erradas – para explicar questões sobre a inteligência, as emoções e o comportamento. Assim, constrói-se um castelo à prova de qualquer contestação. Tudo bem se ficarmos no campo da filosofia, mas se for para falarmos de validade científica, complica.

De qualquer modo, os adeptos dessas teorias precisam a linguagem para se exprimir e convencer, aí que o palavrório rebuscado entra em ação para ocultar a falta de embasamento:

Isso é profundamente enigmático, pois é, em última análise, uma relação para algo secreto e oculto. Se me permitir usar uma dessas fórmulas que me vêm a medida que escrevo minhas notas, a vida humana poderia ser definida como um cálculo em que zero fosse um irracional. Essa fórmula é apenas uma imagem, uma metáfora matemática. Quando digo “irracional”, refiro-me não a um inapreensível estado emocional, mas precisamente ao que é chamado de número imaginário. A raiz quadrada de menos um não corresponde a nada que esteja sujeito a nossa intuição, nada real – sentido matemático do termo – e ainda assim, precisa ser conservado, juntamente com sua função total. É o mesmo com o elemento oculto da referência vivente, o sujeito, na medida em que toma a função de significador, não pode ser subjetificado como tal.

Lacan, Jacques & al.; Desire and the Interpretation of Desire in Hamlet, Yale French Studies, No. 55/56, Literature and Psychoanalysis. The Question of Reading: Otherwise. (1977), pp. 11-52.

Jacques-Marie Émile Lacan, um dos expoentes da psicanálise freudiana, confundiu números inteiros com irracionais e esses com os imaginários. Mesmo mantendo o raciocínio como metáfora, o uso que faz para termos matemáticos nada tem a ver com seus significados originais. De fato, os números imaginários geraram muita discussão, porém os “irracionais” têm esse nome não por ferirem a razão nem por serem a radiciação de um negativo, mas por não poderem ser expressos por uma razão entre dois inteiros e, ao contrário dos imaginários, têm exemplos abundantes na realidade cotidiana (ainda que não se dê conta). O zero, por sua vez, é um número racional. Então, o que significa o parágrafo acima? Não sei, mas não faltará quem tente explicar. Vale lembrar que rebater nem sempre significa refutar e o estilo extremamente obscuro de Lacan pode tanto ajudar quem quer defendê-lo quanto reforçar a imagem de uma falsa erudição e/ou ausência de conteúdo.

Lacan era um figurão? Sim. Yale é universidade respeitada? Muito. Então, como alguém renomado concebeu um texto aparentemente extraído de um “gerador de lero-lero” e uma universidade conceituada o deixou passar? Bem, isso muito mais comum do que imagina. Procure saber sobre o “Caso Sokal” e, se quiser pequena introdução aos filósofos “pós-modernos”, recomendo a leitura de [Navega, cap. IV]. [voltar]

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Retrato de Popper

Karl Popper (1902 – 1994)

O filósofo da ciência Karl Popper até hoje desperta discussões com seu critério de “falsificação” para distinguir a solidez um conhecimento científico da de outro que não o seja, o que pelo menos seja má Ciência. Em outras palavras, será científico um conhecimento que puder ser comprovado falso de algum modo, em vez de aquele que alega ter uma série verificações positivas. Isso foi uma inversão de valores com o paradigma indutivo exclusivo até meados do século XX e deve ter sido, em grande parte, motivada por sua vivência juvenil:

Foi no verão de 1919 que comecei a ficar mais e mais insatisfeito com essas três teorias – teoria marxista da história, a psicanálise e a psicologia individual; e comecei a sentir dúvidas quanto a suas demandas de status científico. Meu problema talvez, primeiramente, tomasse uma forma simples: “o que há de errado com o marxismo, a psicanálise e a psicologia individual? Por que elas são tão diferentes de teorias físicas, da teoria de Newton e, especialmente, da teoria da relatividade?”

Para clarear esse contraste, devo explicar que poucos de nós à época teríamos dito que acreditávamos na validade da teoria da gravitação de Einstein. Isso mostra que não era minha dúvida da validade dessas três outras teorias que me incomodava, mas alguma outra coisa. E nem era que eu quase considerasse que física matemática fosse mais exata que uma teoria do tipo sociológico ou psicológico. Assim, o que me preocupava nem era o problema da validade, naquele estágio pelo menos, nem o problema da exatidão e mensurabilidade. Era mais que eu sentia que essas três teorias, embora posassem de ciência, tinha, de fato, mais em comum com mitos primitivos que com ciência; que pareciam mais com astrologia que com astronomia.

Eu descobri que muitos dos meus amigos que eram admiradores de Marx, Freud e Adler ficavam impressionados pelo número de pontos em comum a essas teorias, e especialmente pelo seu seu aparente poder explanatório. Essas teorias aparentam ser capazes de explicar praticamente tudo que acontece dentro dos campos a que se referiam. O estudo de qualquer uma delas parecia ter o efeito de uma conversão ou revelação, abrir os olhos a uma nova verdade oculta dos que não foram ainda iniciados. Uma vez, então, os olhos sejam abertos, via-se instâncias confirmatórias por toda parte: o mundo estava cheio de confirmações da teoria. O que quer que acontecesse sempre a confirmava. Assim, sua verdade parecia manifesta; e os incréus eram claramente pessoas que não queriam ver a manifesta verdade; que se recusavam a vê-la, seja porque ela era contra seu interesse de classe ou é por causa de suas repressões que ainda estavam “não analisados” e clamando por tratamento.

O mas característico elemento nessa situação parecia-me ser a incessante corrente de confirmações, de observações que “verificavam” as teorias em questão; e este ponto era constantemente enfatizado por seus adeptos. Um marxista não podia abrir um jornal sem encontrar em cada página uma evidência confirmatória para sua interpretação da história; não apenas nas notícias, mas também em sua apresentação – que revelava o viés de classe do jornal – e especialmente, é claro, o que o jornal não dizia. Um analista freudiano enfatizava que suas teorias eram constantemente verificadas por suas “observações clínicas”. Assim como Adler, eu ficava muito impressionado por uma experiência pessoal. Certa vez, em 1919, reportei-lhe uma caso que não me parecia particularmente adleriano, mas que ele não encontrou nenhuma dificuldade em analisar em termos de sua teoria de inferioridade de sentimentos, apesar de nem mesmo ter visto a criança. Levemente chocado, perguntei-lhe como ele poderia estar tão seguro. “Por causa de minha experiência de um milhar [de casos]”, respondeu; após o que não adiantaria nada se eu dissesse: E com esse novo caso, suponho, sua experiência se tornou de um milhar e um.”

O que eu tinha em mente era que suas prévias observações podiam não ter sido tão sonoras como essa nova; que cada uma, em sua vez, fora interpretada à luz de “prévia experiência”, e que ao mesmo tempo contou como confirmação adicional. O que – perguntava-me – ela confirma? Nada mais que um caso que podia ser interpretado à luz de uma teoria. Mas isso significava muito pouco, refleti, já que cada caso concebível podia ser interpretado à luz da teoria de Adler ou igualmente da de Freud.

Eu posso ilustrar isso por meio de dois exemplos bem diferentes de comportamento humano: o de um homem que empurra uma criança dentro d’água com a intenção de afogá-la e o de um homem que sacrifica sua vida para salvar a criança. Cada um desses casos pode ser igualmente explicado com igual facilidade em termos freudianos e adlerianos. Segundo Freud, o primeiro sofria de repressão (digamos, de algum componente de seu complexo de Édipo), ao passo que o segundo alcançara a sublimação. Segundo Adler, o primeiro sofria de sentimentos de inferioridade (talvez produzindo a necessidade de provar para si mesmo que ousaria cometer algum crime), e da mesma forma o segundo (cuja necessidade era provar para si que ousaria resgatar a criança). Não conseguiria imaginar comportamento humano algum que não pudesse ser interpretado em termos de ambas teorias. Foi precisamente esse fato – que elas sempre se adequam, que eram sempre confirmadas – que aos olhos de seus admiradores constituiu o mais forte argumento a favor dessas teorias. Começou a me ocorrer que essa aparente força era, na verdade, a fraqueza delas.

[Popper (1957), cap. I]

Para Popper, mereceria o status científico hipótese que:

  1. Pudesse ser demonstrada falsa de alguma forma, i.e., fosse falseável;
  2. Ainda não tivesse sido falseada, i.e., tivesse resistido a todas as tentativas de falsificação.

Com isso, Popper invertia a postura vigente na metodologia do Indutivismo Lógico: em vez de teorias continuamente validadas (já ouviste falar de Consenso Universal dos Espíritos?), teríamos apenas hipóteses úteis que ainda não foram refutadas. Isso seria uma forma de prevenir a adoção de “teorias que nunca estão erradas”, pois elas sempre serão confirmadas, não importando o que a acontecer. Por exemplo, a noção de que vivemos em um “mundo justo” pode muito bem ser refutada por uma catástrofe. Por outro lado, admitindo-se a existência de uma entidade supra-humana capaz de controlar a natureza direta ou indiretamente, podendo, assim, punir humanos por crimes cometidos no passado (via reencarnação), presente ou, até mesmo, no futuro (via presciência), então a teoria está salva. Caso se chame essa entidade de “Deus”, então terá sido um argumento religioso e não científico, como alguns argumentarão. Mas que diferença faz, em termos práticos, para uma determinada ciência postular uma onipotência absoluta ou dar uma “onipotência especializada” ao livre mercado, à dialética materialista da História ou ao inconsciente (inclusive o quevediano)? [voltar]

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Retrato de Kuhn

Thomas Kuhn (1922 – 1996)

A abordagem de Popper se foca em dar uma definição “lógica” ao que seria ciência, mas será que o progresso científico realmente se deu na forma de falsificações sucessivas? A resposta é “não” conforme avaliou Thomas Kuhn no livro A Estrutura das Revoluções Científicas. Segundo ele, quando um conjunto de pressupostos teóricos, leis e técnicas de um campo científico (o paradigma do momento, em seu jargão) começa a não responder de modo eficiente a novas perguntas, isso não significa que ele seja imediatamente abandonado em prol de outro superior. Pelo contrário, tenta-se salvar o paradigma tradicional com a adoção de hipóteses especiais (também chamada de hipóteses ad hoc) que contornem suas dificuldades. Somente quando o volume de hipóteses especiais cresce demais e/ou se torna apelativo (como o exemplo “divino” do parágrafo anterior) é que o paradigma tradicional entre em “crise” e segue-se uma “revolução científica”, em que novos paradigmas são propostos e competem entre si até que haja um vencedor aceito pela comunidade científica e um reinício do ciclo. Um exemplo clássico desse esquema teria sido a revolução coperniciana, que jamais teria acontecido no modelo de Popper, pois teria sido prontamente falseada pela ausência da paralaxe estelar. Vale lembrar que, ao contrário do que preconizava Popper, a racionalidade pode ficar de fora na briga entre paradigmas e a opção de um grupo por este ou aquele candidato se dar por motivos subjetivos, como a insistência na cosmologia geocêntrica pela reverência a Aristóteles ou a rejeição da “hipótese sobrevivência” por motivos puramente materialistas.

Mesmo com essa mudança de abordagem, Kuhn não foi muito mais gentil que Popper quanto status científico da psicanálise (ou do marxismo), embora o fosse por razões bem distintas:

Examinando os casos mais inquietantes, por exemplo, a psicanálise e a historiografia marxista, para os quais Sir Karl [Popper] nos diz que seu critério foi inicialmente elaborado, concordo que eles não podem adequadamente ser rotulado de “ciência”. Contudo, chego a tal conclusão por um caminho mais seguro e direto que o dele. Um breve exemplo pode sugerir que dos dois critérios – testagem e solução de mistérios (*) – o último é, de uma só vez, menos equivocável e mais fundamental.

Para evitar irrelevantes controvérsias contemporâneas, tomo a astrologia no lugar da psicanálise. A astrologia é o exemplos mais frequentemente citado por Sir Karl de uma pseudociência. Diz ele [em Conjecturas e Refutações, parte II]: “Ao fazer suas interpretações e profecias suficientemente vagas, [os astrólogos] foram capazes de rechaçar qualquer coisa que pudesse ter sido uma refutação, tivessem a teoria e as profecias sido mais precisas. A fim de escapar da falsificação, destruíram a falseabilidade da teoria”. Essas generalizações captam algo do espírito do empreendimento astrológico. Contudo, levadas de forma totalmente literal, como devem ser se forem para prover um critério de demarcação, são impossíveis de se sustentar. A história da astrologia durante séculos, quando ela era intelectualmente reputada, registra muitas predições que categoricamente falharam. Nem mesmo os mais convincentes e veementes expoentes duvidaram da recorrência de tais falhas. A astrologia não pode ser banida das ciências por causa da forma em que suas predições foram dadas.

Nem pode ser banida por causa do modo que seus praticantes explicaram o fracasso. Astrólogos assinalaram, por exemplo, que, ao contrário das predições gerais sobre, digamos, as propensões de um indivíduo ou uma calamidade natural, a previsão de um futuro individual era uma tarefa imensamente complexa, exigindo a maior habilidade e sensível ao menor erro num dado relevante. A configuração das estrelas e dos oito planetas estava constantemente mudando; as tabelas astronômicas usadas para computar a configuração ao nascimento de um indivíduo eram notoriamente imperfeitas; poucos homens sabiam o instante de seu nascimento com a precisão requisitada. Não admira que, portanto, as previsões frequentemente falhassem. Somente após a própria astrologia ter se tornado implausível é que esses argumentos vieram a se parecer com petição de princípio. Argumentos similares são regularmente usados hoje ao se explicar, por exemplo, falhas na medicina ou meteorologia. Em ocasiões de dificuldades, eles também são dispostos nas ciências exatas, campos como física, química e astronomia. Nada havia de anticientífico acerca das explicações de fracasso dos astrólogos.

Contudo, a astrologia não era uma ciência. Em vez disso, era um ofício, uma das artes práticas, com semelhança próxima à engenharia, à meteorologia e à medicina como esses campos eram praticados até a pouco mais de um século atrás. Os paralelos com uma medicina mais antiga e com a psicanálise contemporânea são, creio, particularmente próximos. Em cada um desses campos, a teoria partilhada era adequada apenas para estabelecer a plausibilidade da disciplina e para providenciar uma racionalização para as diversas regras de ofício que governavam a prática. Essas regras tinham comprovado seu uso no passado, mas nenhum praticante supunha que elas eram suficientes para prevenir falhas recorrentes. Eram desejadas uma teoria mais articulada e regras mais poderosas, mas teria sido absurdo abandonar uma plausível e tremendamente necessária disciplina com uma tradição de limitado sucesso simplesmente porque essas coisas desejáveis não estavam à mão. Na ausência delas, contudo, nem o astrólogo, nem o médico podiam fazer pesquisa. Embora tivessem regras a aplicar, não tinham mistérios a resolver e, portanto, nenhuma ciência para praticar.

Compare as situações do astrônomo e do astrólogo. Se a predição de um astrônomo falhou e seus cálculos foram checados, ele podia esperar ajustar a situação corretamente. Talvez os dados estivessem errados: antigas observações podiam ser reexaminadas e novas medições feitas, tarefas que forneciam uma gama de mistérios calculacionais e instrumentais. Ou talvez a teoria precisasse de ajuste, seja pela manipulação de epiciclos, ecêntricos, equantes, etc., ou por reformas mais fundamentais da técnica astronômica. Por mais de um milênio houve mistérios matemáticos e teóricos circundantes com os quais, aliados a suas contrapartes instrumentais, a tradição de pesquisa astronômica foi constituída. O astrólogo, em contraste, não tinha tais mistérios. A ocorrência de falhas podia ser explicada, mas falhas particulares não davam origem à pesquisa de mistérios, pois ninguém, ainda que habilidoso, podia fazer uso delas numa tentativa construtiva de revisar a tradição astrológica. Havia fontes de dificuldades em demasia, a maioria delas além do conhecimento, controle e responsabilidade do astrólogo. Da mesma forma, falhas individuais não eram instrutivas e não refletiam sobre a competência do prognosticador aos olhos de seus pares profissionais. Embora a astrologia e a astronomia fossem comumente praticadas pelas mesmas pessoas – inclusive Ptolomeu, Kepler e Tycho Brahe – nunca houve um equivalente astrológico da tradição astronômica de solução de mistérios. E sem mistérios, capazes de, primeiramente, desafiar e, então, atestar a engenhosidade do praticante individual, a astrologia não poderia ter se tornado uma ciência, mesmo se as estrelas, de fato, controlassem o destino humano.

Em suma, embora os astrólogos fizessem predições testáveis e reconhecessem que essas predições às vezes falhavam, eles não se engajaram (e nem podiam) nos tipos de atividades que normalmente caracterizam todas as ciências reconhecidas. Sir Karl está certo ao excluir a astronomia das ciências, mas seu foco excessivo em revoluções ocasionais da ciência o impede de ver a razão mais acertada para fazer isso

[Kuhn (1970), parte I. Notas omitidas.]

(*)Puzzle no original, comumente traduzido por “quebra-cabeça” nas edições brasileiras de Kuhn. Preferi o sentido mais abstrato da palavra. “Enigma” seria outra opção.

Embora centre-se na astrologia em vez da psicanálise, Kuhn deixa claro que há paralelos entre o modus operandi de uma e de outra que as impedem de se tornar genuínas ciências, independentemente da suposta regência dos astros ou (subentende-se) da validade da teoria freudiana. Vale atentar que, em uma nota ao texto acima, que Kuhn reconheceu a existência de “escolas” dentro da astrologia, a exemplo das ciências sociais e, também, da psicanálise. O problema é que os membros de cada escola preferiam atacar a teoria das outras, em lugar de refinar a da sua, por não enxergar mistérios nela por resolver. Fico a perguntar se o espiritismo, em seu estado atual, não se enquadraria mais numa “arte prática”, como os exemplos apresentados por Kuhn, do que exatamente uma ciência. Nesse caso, pesquisadores psi ou da “hipótese sobrevivência” fariam o papel dos astrônomos e os espíritas, dos astrólogos. O quanto esses grupos se sobreporiam?

Uma última opinião que gostaria de expor é a de Imre Lakatos, que reparou que muitas das críticas de Khun a Popper, embora acertadas em sua opinião, se referiam a uma versão, digamos, “ingênua” do falsificacionismo, centrada numa aplicação restrita dos dois pressupostos mencionados acima. Um pressuposto extra, um tanto difuso na obra original de Popper, fortaleceria esse critério de demarcação: uma hipótese científica deveria ser mais falseável que suas competidoras, implicando que deveria ter uma comprovação empírica maior (para, comparativamente, ter sido “menos falseada”) e uma capacidade preditiva maior (para ser mais “falseável”, caso uma previsão falhe). Esse falsificacionismo “sofisticado” contém uma abordagem para o crescimento da ciência, ficando um pouco mais próximo do historicismo de Kuhn. Além disso, embora ambas as filosofias fossem rivais, elas tinham muito em comum: se posicionavam contra o enfoque positivista (inducionista) da ciência, davam prioridade à teoria (ou paradigma) sobre a observação e insistiam que a busca por interpretação, aceitação ou rejeição dos resultados de um experimento ou observação ocorriam tendo uma teoria (ou paradigma) como pano de fundo [Chalmers, cap. IX, p.130]. Acontece que, mesmo em sua versão “sofisticada”, o falsificacionismo ainda apresenta dificuldades difíceis de contornar como, por exemplo, se uma observação não condiz com uma previsão, o que está errado: a teoria, a observação/experimento ou ambos? Por pura e simples lógica não é possível responder e caso a observação (ou experimento) esteja correta, será toda a teoria errada ou parte dela apenas?

A resposta de Lakatos foi sugerir que nem todas as partes de uma ciência estão no mesmo patamar. Algumas seriam seu “núcleo duro” (hardcore), o cerne fundamental cuja falsificação a invalidaria. Exemplos disso seriam as três leis de Newton e sua Gravitação Universal para a Mecânica clássica ou a disposição dos planetas ao redor do Sol para o modelo coperniciano. Em torno desse núcleo, haveria um “cinturão protetor” de teorias auxiliares, hipóteses complementares (ad hoc) e métodos observacionais/experimentais, que seria constantemente modificado, expandido e refinado com o tempo conforme problemas surgissem. A junção desses dois constituiria o programa de pesquisa, a alternativa de Lakatos ao paradigma de Kuhn como panorama em a atividade científica se desenvolve. O valor de um programa de pesquisas estaria no fato de ele ter realmente um “programa de pesquisa” capaz de guiar a futuras descobertas – coisa que tanto a psicanálise e o marxismo possuiriam – e na extensão em que levaria a novas predições posteriormente confirmadas. Um programa progressivo atenderia esse quesito. Por outro lado, se ele fosse constantemente surpreendido pelo novo, precisando ajustar o cinturão em razão de um crescimento empírico inesperado; isto é, se somente oferece explicações a posteriori de descobertas fortuitas ou, pior, de fatos previstos e descobertos por um programa rival, então seria considerado regressivo ou degenerante, situação em estariam os dois anteriores. A substituição de um programa regressivo por um rival progressivo seria o equivalente de Lakatos para “revolução científica”.

Atendo-se apenas à abordagem de Lakatos, o espiritismo seria um programa regressivo, estando as pesquisa em psi e sobrevivência como rivais progressivos, embora menos pretensiosos.

Poderia continuar esta discussão passando pelo anarquismo epistemológico de Paul Feyeranbend, pela defesa do retorno ao indutivismo pelos advogado pelos bayesianos, pelo neoexperimentalismo, etc., o que fugiria muito do escopo aqui. A quem quiser se aprofundar nas correntes filosóficas da ciência, sugiro como leitura o nono capítulo de [Ferreira] e, principalmente, [Chalmers]. De qualquer forma, duvide sempre de qualquer debatedor alegando que se der cara ele ganha e coroa, você perde. [voltar]

(18) Curiosamente, há quem diga que Freud nunca curou ninguém! Bem, isso é com Freud, não com os que vieram depois. [voltar]

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Cartaz de Mumford (1999)

Na cidadezinha de Mumford, o analista Mickey Mumford (sim, são homônimos) tem feito grande sucesso com seu consultório. Tanto ao ponto de outros profissionais da região começarem a querer saber mais a respeito da origem do Dr. Mumford…

Bem, esse é o argumento da comédia romântica Mumford (1999). Está longe de ser um filmaço, mas é uma boa pedida para distrair a mente (e cutucar seu amigo analista). Dica: ainda no começo da história, quando Mumford chega em casa depois do expediente, ele liga a TV e a fica escutando enquanto cuida de outros afazeres domésticos. Repare no programa que está passando. Ele será crucial para a trama mais adiante, no melhor estilo arma de Tchecov. [voltar]

(20) Seria uma espécie de “filosofia natural” especializada na mente humana. Justiça seja feita, uma proposta chave de Freud – o inconsciente – é tido como real para a moderna neurociência, ainda que ela não lide da mesma foram com ele. [voltar]

(21) Talvez você até seja mesmo, mas esta brincadeira é apenas um lembrete para não levar a sério quem usa no meio de um raciocínio a própria conclusão a que deveria chegar (no caso, a teoria psicanalítica) e não digo que todos os farão isso. Agora, a tentação pode ser grande ao se lidar de conhecimento introspectivo. [voltar]

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Para saber mais

– Aaboe, Asger; Episodes from the Early History of Astronomy, Spinger, 2001.

– Chalmers, Alan F.; What is this thing called Science?, Hackett Publish Company, 3a. edição, 1999.

– Davis, Mike; Late Victorian Holocausts, Verso, 2001.

Enciclopédia da Sexualidade para o Casal Moderno, 2 vols., Editora Três, 1995.

– Ferreira, Juliana M.H.; Estudando o Invisível – William Crookes e a Nova Força, Educ/FAPESP, 2004.

– Gould, Stephen Jay; Pilares do Tempo – Ciência e Religião na Plenitude da Vida, Rocco, 2002.

– Johnson, Paul; História dos Judeus, Imago, 2ª ed., 1995.

– Kuhn, Thomas; Logic of Discovery or Psychology of Research?, editado por Imre Lakatos & Alan Musgrave em Criticism and the growth of knowledge, Cambridge University Press, 1970.

– Kuhn, Thomas; Estrutura das Revoluções Científicas, Coleção Debates, Perspectiva, 8a. ed., 2003.

– Lentin, Jean-Pierre ; Penso, logo me engano, Ática, 1997.

– Narloch, Leandro; Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, Leya, 2013.

– Navega, Sergio, Pensamento Crítico e Argumentação Sólida, Intellwise, 2005

– Popper, Karl; Science: Conjectures and Refutations, 1957.

– Popper, Karl; A Lógica da Investigação Científica, Coleção Os Pensadores, vol. XLIV, Abril Cultural, 1975.

– Sagan, Carl; O Mundo Assombrado pelos Demônios, Companhia das Letras, 2002.

– Smith, Adam; A Riqueza das Nações, coleção Os Economistas, Nova Cultural, 1996.

– Wheen, Francis; Como a Picaretagem conquistou o Mundo, Record, 2007.

– White, Matthew; O Grande Livro das Coisas Horríveis, Rocco, 2013.

– Woods, Thomas E.; How the Catholic Church built the Western Civilization, Regnery Publishing, 2005.

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