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Dr. Ian Stevenson, Muito Prazer.

Ian Stevenson (1918 – 2007)

Índice

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Apresentando o Homem

Leia o texto abaixo e depois responda à questão de múltipla escolha.

O Dr. Ian Stevenson é um pesquisador cuidadoso e laborioso, tendo percorrido muitos milhares de milhas por todas as partes do globo desde 1960, a fim de verificar os fatos e pormenores de casos de recordações espontâneas. Sua reputação como uma autoridade em reencarnação tem se espalhado rapidamente; seus arquivos na University of Virginia agora contêm mais de dois mil relatos de alegados de recordações colhidos pelo ao redor do mundo.

Nos casos extensamente analisados por ele em seu livro Vinte Casos Sugestivos de Reencarnação, todos são sobre crianças de dez anos ou menores. Tipicamente, o indivíduo começa a manifestar singularidades de personalidade já aos dois anos. Essas singularidades logo se desenvolvem em um padrão em que a criança insiste que ele(a) é na verdade outra pessoa – alguém que viveu e morreu nos arredores da região no passado recente. Stevenson, geralmente auxiliado por intérpretes, chega ao local e entrevista a criança, tomando copiosas anotações sobre todos os pormenores que o indivíduo lembra da vida passada. Stevenson, então, verifica esses pormenores com a família da falecida pessoa supostamente reencarnada.

Dos casos que Stevenson pesquisou em profundidade, ele vem encontrado notável grau de acurácia (cerca de noventa porcento) nos dados. Os pormenores não são genéricos e, sim, bem específicos, incluindo nomes, localidades, eventos e descrições do núcleo familiar e da parentela. Em alguns casos o indivíduo insiste que certo objeto ou item previamente pertencido por ele está guardado num local desconhecido por todos os demais. Ao checar, Stevenson encontra o item e verifica o conhecimento do indivíduo sobre ele.

Stevenson tem cuidadosamente construído seus métodos para levar em conta fraudes em outras influências culturais e acidentais. Seu trabalho foi revisado por outros cientistas e nenhum criticou sem método científico. A publicação técnica Journal of Nervous and Mental Disease, altamente respeitada nas comunidades médicas e científicas, devotou a maior parte de sua edição de setembro de 1977 a Stevenson e seu trabalho. A séria consideração da pesquisa em reencarnação e por tal grupo de “cientistas de peso” assinala tanto a reputação de Stevenson e a influência da especulação de renascimento e pesquisa psíquica na sociedade ocidental contemporânea.

Agora que você já leu, escolha uma das alternativas para responder à seguinte pergunta:”Quem escreveu esse texto sobre Ian Stevenson?

  1. Um espiritualista;
  2. Um ateu materialista;
  3. Um protestante;
  4. Um parapsicólogo “quevediano”;
  5. Nenhuma das anteriores.

Role a página para baixo para ver a resposta:

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Continue mais um pouco

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Não desista!

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Quase chegando….

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Resposta: letra “c”.

Por incrível que pareça, um evangélico trata Ian Stevenson com mais respeito e dignidade do que às vezes se vê entre céticos materialistas. Isso mesmo: alguém facilmente rotulável pelos espíritas como “fanático” dá o devido louvor ao trabalho de pesquisa de um ícone entre os grupos espiritualistas, coisa que um grupo que está no extremo oposto do espectro de adversários do espiritismo e autoproclamado “científico” não o faz. Seu nome é Mark Albercht (1), em seu livro Reincarnation – A Christian Appraisal (cap. V, pp. 56-7). Por que, então, um evangélico norte-americano, com alguns confrades notórios em utilizar pseudociência para justificar o criacionismo da “Terra Jovem”, pôde falar sem medo ou desdém de Stevenson? Posso apenas cogitar, mas a hipótese mais simples para isso é que, “a rigor, a rigor”, Ian Stevenson nunca provou a reencarnação!
[topo]

A Proposta e Questões em Aberto

“Como é que é?! Como ousa seu herege detrator falar assim de tão renomado pesquisador e blá-blá-blá…” – já imagino algum apologista esbravejando do outro lado do monitor.

Bem, quem se dispuser a ler o prefácio à segunda edição de Twenty… verá bem no último parágrafo:

Com relação à interpretação dos casos, tenho pouco a acrescentar ao que já fiz anteriormente na seção de Discussão Geral. O que posso acrescentar será melhor guardar para a seção de Discussão em um novo livro de relatos de casos, agora em preparação. Nem tenho nada a retratar. Apenas reiteraria aqui que considero esses casos sugestivos [ênfase do autor] de reencarnação e nada mais. Nenhum caso individualmente, nem todos eles em coletivo, oferece algo como uma prova de reencarnação. Minha mais importante conclusão sobre eles é a necessidade de estudos mais aprofundados de casos similares. Se alguém assumir essa tarefa, considerarei meus esforços amplamente recompensados.

Em uma conversa informal como um jornalista, já mais próximo ao fim da vida, reitera sua preferência pela “hipótese reencarnação”, mas não deixa de expressar as limitações do alcance de sua pesquisa.

Acredito que, exceto na matemática, nada pode ser totalmente provado em ciência. Entretanto, para alguns dos casos que conhecemos no momento, a melhor explicação que conseguimos é a reencarnação. Há um importante número de indícios e acredito que estão se tornando cada vez mais fortes. Acho que uma pessoa racional pode vir a acreditar em reencarnação com base em evidências.

[Shroder, Prólogo, p. 27]

Embora tenha falecido ainda muito entusiasta da reencarnação, Stevenson sabia que seu grande desafio era apenas responder se “há ou não reencarnação?”, já dizer “o que é uma reencarnação” e “como é” seria um passo muito maior do que as pernas de sua pesquisa poderiam permitir. Entre as questões ainda carregadas de nebulosidade, poderíamos enumerar

1º – O que Reencarna?

Se você está lendo está lendo este texto, então meu raciocínio está “reencarnando” em você de algum modo. A portadora da informação é uma linguagem humana (o português), codificada por um alfabeto. Como, então, a experiência subjetiva de um indivíduo falecido passaria a outra ainda vivente (se é que passa)?

  1. Fraude consciente ou não: Talvez não se aplique aos melhores casos, mas a possibilidade de alguém querer se promover ou confortar-se com a ideia de renascimento é um risco que os pesquisadores procuram sempre evitar;
  2. Criptoamnésia: É quando uma pessoa não tem uma recordação explícita de relatos ocorridos com outra pessoas e, justamente por estarem em seu inconsciente, apropria-se como seus;
  3. Memória Genética: É uma das mais fracas ou pelo menos muito mal entendidas. Ela advoga que a memória de nossos ancestrais seria transmissível a seus descendentes, tal como as características físicas. Isso pode ser verdade para aspectos inatos da espécie, aquilo que os psicólogos evolutivos chamam de “natureza humana”. Para que memórias eventos testemunhados por indivíduos específicos (em vez de uma espécie toda) fossem transmitidos, seria preciso admitir algum grau de lamarckismo em biologia. Sem contar que muitas lembranças espontâneas não envolvem parentesco;
  4. Inconsciente Coletivo: Ideia proposta pelo psicólogo suíço Carl Jung como um etéreo reservatório de pensamentos, impressões e experiências de todo o gênero humano. Dada a queda de Jung pelo ocultismo, pode-se especular se ele não reciclou a antiga concepção indiana de akasha. O “inconsciente coletivo”, por sua vez, pode ter influenciado a formulação dos…
  5. Campos morfogenéticos: Hipótese aventada por Rupert Sheldrake para explicar a emergência de padrões similares entre populações geograficamente desconectada de uma mesma espécie. Esse tipo de campo seria um tipo de memória biológica coletiva de uma espécie, que influencia a formação corporal dela e para qual cada membro dela contribui. Em vez de forças físicas, transportariam “informações”, ou seja, permitiriam que uma “memória ancestral” reentrasse sem apelar para a genética. Todavia, tanto o inconsciente coletivo como os campos morfogenéticos têm um pequeno problema até agora: são totalmente especulativos. Explicam muito, mas se não puderem ser testados estarão mais para a metafísica que para a ciência.
  6. Hipótese Psi: Cogita a existência de funções ou capacidades cerebrais ainda desconhecidas, que lhe permitiriam (I) adquirir conhecimento sem o uso dos sentidos convencionais (percepção extrassensorial) e (II) interagir fisicamente com o ambiente (psicocinese). A junção de (I) (II) constitui a “Hipótese Psi”, estudada pelos parapsicólogos, descartando a existência de uma agente externo, i.e., “almas”. Tem o mérito de vir sendo submetida a engenhosos testes controlados nas últimas décadas, porém foram tantas reavaliações que o resultado continua inconclusivo (2).
  7. Hipótese Sobrevivência: É o conceito “clássico” de reencarnação aos olhos ocidentais, com preservação de uma individualidade em uma espécie de “corpo astral” (ou perispírito) a ser repassado para um novo corpo material. É mais atraente para alguns cientistas pela simplicidade do conceito(em relação à Psi), embora bem menos testável. Fornece, também, uma explicação imediata para marcas ou defeitos de nascença correlatos à traumas sofridos por ocasião da morte da personalidade anterior. Isso, por outro lado, não é um desafio incontornável para as hipóteses de mera transmissão de memória dado que, mesmo na presente vida, nosso corpo pode vir a somatizar um agudo estresse emocional.
  8. Renascimento: Comum no budismo Theravada, é muito similar à hipótese sobrevivência, porém sem a preservação de um “eu”. Existiria uma espécie de continuidade entre indivíduos por meio de “forças kármicas”, mas eles não compartilhariam a mesma identidade. Mal comparando, seria como uma vela prestes a se esgotar acendendo uma nova vela. Desdobramento interessante seriam hipóteses como uma “vela antiga” acender mais de uma nova, a exemplo do que ocorre no filme “O Pequeno Buda” (1993), ou duas “velas” acenderem uma terceira juntas.

Stevenson propôs o nome psychophore (“portador da alma”, em grego) para o veículo que transmitiria dados de memória, personalidade e físicos de uma vida a outra. Talvez um leitor espiritualista possa imediatamente associar isso a algum tipo de “corpo astral” (vulgo perispírito), mas a concepção de Stevenson é um pouco diferente:

Este psychophore corresponde à tela de Schrödinger (1955, p. 91-92) sobre a qual se reúnem experiências.

Estou familiarizado com uma considerável literatura hindu e budista sobre corpos não-físicos que seriam veículos das mentes entre as vidas. Entretanto, esses textos derivam de tradições religiosas; além disso, se eles têm base observacional, isso deve ser apenas a subjetiva percepção pessoal obtida por videntes e transmitida a seus seguidores. Não desmereço tal evidência, mas ela difere dos dados publicamente verificáveis que encontramos nos casos que investiguei. Esses casos, devo reconhecer, não provêm nenhuma evidência direta de algo como um psychophore; mas visto que incluem alguma informação verificável e aparentemente oriunda dos sujeitos de forma paranormal, penso que podemos basear conjectures em cima delas com mais confiança que podemos dar à autoridade escritural, contudo mantendo nosso respeito a última de qualquer modo.

Algumas das ideias das religiões sul-asiáticas sobre tais veículos intermediários passaram – muitas vezes por meio da teosofia e seus desdobramentos – para a literatura popular no ocidente sobre experiências fora do corpo; mas termos como “corpos atrais” têm conotações que acho que devemos evitar. Por essas razões, pareceu-me sábio elaborar uma nova palavra que não teria conexão com ensinos religiosos ou ocultistas

[Steveson (2001), nota 1 ao capítulo XI, p.309]

A referência a Erwin Schrödinger é para seu livro What is Life?, mais especificamente para o epílogo dele. Schrödinger foi um físico austríaco que construiu sua carreira na primeira metade do século XX e um dos pais da Mecânica Quântica, legando para a Ciência a “equação de onda” de uma partícula, batizada posteriormente com seu nome. Fugindo da ascensão nazista, imigrou para a Inglaterra e depois para a Irlanda, onde redigiu What is Life?: um pequeno tratado em que procura entender os fenômenos da vida por meio das leis da física, sem ter que apelar para profundos algebrismos. Tornou-se um clássico na literatura científica por seus vislumbres e, de certa forma, caráter profético de algumas especulações (como a antevisão da molécula de DNA). No epílogo – “Sobre o determinismo e o livre-arbítrio”- ele se aventurou na relação entre mente e matéria, revelando-se uma adepto da dualidade do homem (mente separada do corpo), da sobrevivência da mente e um simpatizante de doutrinas um tanto panteístas como o Brahman (3) hindu. Ao final, expôs suas ideias a respeito da natureza da individualidade e a “tela” a que Stevenson se refere.

Ainda assim, cada um de nós tem a indiscutível impressão de que a soma total de suas experiências e reminiscências forma uma unidade muito distinta da de qualquer outra pessoa. A pessoa se refere a si própria como “Eu”. O que é esse “Eu”?

Se analisar de perto, verá penso, que ele é pouco mais que uma coleção de dados singulares (experiências e memórias), nomeadamente, a tela sobre a qual eles são coletados. E verá, numa introspecção mais cuidadosa, que o que você realmente quer dizer por “Eu” é essa base sobre a qual eles são coletados. Você pode ir para um país distante, perder o contato com seus amigos, tudo, menos esquecê-los. Você adquire novos amigos e compartilha com eles sua vida tão intensamente quanto o fazia com os antigos. Cada vez menos importante se tornará o fato de que, enquanto vive sua nova vida, ainda se lembra da antiga. “O jovem que fui”; você pode vir a falar dele na terceira pessoa, quando na verdade o protagonista do romance (4) que lê está provavelmente muito próximo de seu coração, por certo mais intensamente vivo e melhor conhecido por você. E, ainda assim, não houve quebra intermediária, não houve morte. E mesmo que um habilidoso hipnotizador conseguisse apagar completamente todas as nossas reminiscências mais antigas, não concluiria que ele nos tivesse morto. Em caso algum há uma perda de existência pessoal a deplorar.

E nunca haverá.

Isso abre espaço para interessantes elucubrações. Caso seja eu um ente reencarnado, que tenho a ver com meu “eu anterior”? Talvez não mais do que um velho tenha a ver com a criança que uma dia foi…

Cenas do anime Code Geass R2, episódio 21, com dois ângulos diferentes da “memória da humanidade” (em forma de uma helicodal de almas) existente no “Mundo de C”. Inconsciente Coletivo otaku.

2º – Reencarnam Todos?

Todos os casos registrados de recordações espontâneas de vidas anteriores podem sugerir que há reencarnação … para as pessoas que relembram espontaneamente vidas anteriores. Ponto.

Querer generalizar isso para os demais bilhões de habitantes deste planeta seria, no mínimo, uma extrapolação indevida. Nas próprias palavras de Stevenson:

Eu já rejeitei essa questão. Considero-a como completamente irrespondível por ora e no futuro visível. Não vou tentar qualquer generalização em cima de bilhões de seres humanos baseado nos dados de 2.500 casos, nem todos dos quais, devo lembrar, proveem boa evidência de ocorra reencarnação. O máximo que direi sobre esse ponto é que se a reencarnação realmente acontece, pode ser algo que todos vivenciem; mas não podemos saber isso.

[Stevenson (2001), cap. X, p. 216]

Ainda que existissem dois ou três bilhões de casos relatados de reencarnação isso ainda não seria prova de uma reencarnação universal. E os outros bilhões? Poderiam ser almas novas cujo psychophore se desenvolveu concomitantemente com o corpo físico, por que não? Se o psychophore for o estado organizado de alguma coisa (uma “partícula de informação”), então por que essa organização seria indestrutível, à prova de qualquer aumento de entropia?

3º – Existe o Binômio Ação/Reação (vulgo Karma)?

Ninguém melhor que o próprio para responder:

Já enfatizei que muitas pessoas do mundo que acreditam em reencarnação o fazem sem vinculá-la a seus valores morais. Pode-se quase dizer que a noção de tais vínculos é uma peculiaridade do hinduísmo e do budismo. Contudo, em razão de a maioria dos ocidentais conhecer conceitos hindus e budistas muito melhor que os de grupos como os drusos, os alevis, os tlingits e os Igbos, a maioria dos que acreditam em reencarnação adotou o conceito hindu-budista de karma sem pensar. Segundo ele, nossa conduta em uma vida determina as circunstâncias que encontraremos numa encarnação anterior, embora não necessariamente na logo em seguida a uma ação ou má ação específica.

Nos casos que tenho investigado, não encontrei quase evidência alguma de efeitos da conduta moral em uma vida sobre as circunstâncias externas de outra. Quando examino os casos que incluem uma diferença marcante no status socioeconômico entre as famílias envolvidas, não posso encontrar nenhum padrão indicando que vícios foram rebaixados e virtudes promovidas.

[Stevenson (2001), cap. XI, p. 251]

Óbvio que existem casos que sugerem penalidade kármica e Stevenson até relata alguns, porém:

Os casos supramencionados e alguns outros oferecem os únicos indícios para o funcionamento de um processo como karma retributivo. Mesmo esses casos, contudo, não proveem evidência substancial alguma para tal processo. As explicações oferecidas pelos indivíduos (e outras pessoas) para as diferentes circunstâncias de duas vidas aparentemente interligadas podem vir a constituir nada mais que uma racionalização das diferenças. Entretanto, pessoas compromissadas com a ideia de karma retributivo podem tentar salvá-lo, apesar da falta de evidência corroborativa, com uma de duas alternativas. Podem dizer que um criminoso notório tinha uma virtude privada que se sobressaía, como uma afeição altruísta direcionada a sua família, e que isso rendeu-lhe um avanço para uma condição material superior. Analogamente, uma pessoa que externamente agia como um santo poderia ter praticado um vício secreto que levou a um rebaixamento em sua encarnação seguinte. Se essas explicações aparentam ser insuficientes para cobrir todos os casos, proponentes de karma retributivo sugerem que os efeitos do mal comportamento de uma pessoa não ocorrem até muitas vidas depois da vida em que ela o apresentou. Essas são explicações irrefutáveis, mas também insustentáveis. Não consigo ver nenhuma forma pela qual possa estudá-las empiricamente.

Sem contar que há casos em que o karma parece ser “inverso”. Por exemplo, quando as marcas e/ou defeitos de nascença de uma criança ocorrem numa que lembra ter sido a vítima de um assassinato, em vez de o algoz.

[topo]

Mas “peraí”, Doutor!

Na seção anterior foram mostradas questões do trabalho de Ian Stevenson que não podem ser respondidas ainda. Pelo menos não da forma como os espíritas e seus afins ocidentais gostariam. Por outro lado, há relatos registrados em suas pesquisas que podem colocar em xeque alguns dogmas postulados do espiritismo. A diferença entre as duas situações é que para responder afirmativamente a uma questão é preciso juntar uma quantidade grande de evidência, a passo que para negar basta um contraexemplo. Vejamos, então:

1º – Metempsicose

Nas próprias palavras de Stevenson:

Os casos de alegadas vidas como animais não humanos pode, por sua natureza, oferecer pouca evidência do tipo que temos encontrado em casos humanos comuns. E a maioria deles [menos de 30] não provê qualquer evidência – meramente a declaração sem sustento de um indivíduo que ele teve tal encarnação

[Stevenson (2001), cap. X, p. 210]

Na nota nº 13 ao capítulo VIII:

Os poucos casos conhecidos por mim em que um indivíduo alegou ter tido uma existência prévia como um animal não humano incluíram (por óbvias razões) quase nada que possamos considerar como evidência verificável de reencarnação. Uma menina de Burma, Ma Than Than Aye, relembrava com considerável detalhamento a vida de uma monja budista que morrera alguns anos antes de o indivíduo nascer. Suas memórias dessa vida tinham detalhes verificáveis e o indivíduo, ainda criança, mostrava uma piedade notavelmente precoce que concordava com a vida que lembrava. Ela também disse que entre a morte da monja e seu nascimento tivera uma vida intermediária como um boi, que foi morto por uma bomba durante a ocupação japonesa de Burma na Segunda Guerra Mundial. A vida como um boi é completamente inverificável.

Como adição, na nota nº 3 ao capítulo X:

Os seguintes indivíduos adicionais estão entre os que alegam ter tido vidas intermediárias como animais não humanos: Warnasiri Adikari (vida como uma lebre) e Pratomwan Inthanu (vaga impressão de uma vida como um macaco).

O grande problema em lidar com supostos casos de metempsicose é que eles estão além de qualquer verificação, pois não há como saber qual animal se tratava. A não ser que se encontre algum caso de lembrança de vida como um animal específico, que possa ser corroborado pelo testemunho de algum antigo tratador ou pessoa achegada que ainda esteja viva. Mesmo assim, o caso Ma Than Than Aye chama atenção.

Talvez alguém alegue as explanações do Livro dos Espíritos:

611. A comunhão de origem dos seres vivos no princípio inteligente não e a consagração da doutrina da metempsicose?

– Duas coisas podem ter a mesma origem e não se assemelharem em nada mais tarde. Quem reconheceria a árvore, suas folhas, suas flores e seus frutos no germe informe que se contém na semente de onde saíram? No momento em que o princípio inteligente atinge o grau necessário para ser Espírito e entrar no período de humanidade, não tem mais relação com o seu estado primitivo e não é mais a alma dos animais, como a árvore não é a semente. No homem, somente existe do animal o corpo, as paixões que nascem da influencia do corpo e os instintos de conservação inerente à matéria Não se pode dizer, portanto, que tal homem, é a encarnação do Espírito de tal animal, e. por conseguinte a metempsicose, tal como a entendem, não é exata.

612. O Espírito que animou o corpo de um homem poderia encarnar-se num animal?

– Isso seria retrogradar, e o Espírito não retrograda. O rio não remonta à nascente. (Ver item 118.)

613. Por mais errônea que seja a idéia ligada à metempsicose, não seria ela o resultado do sentimento intuitivo das diferentes existências do homem?

—Reconhecemos esse sentimento intuitivo nessa crença como em muitas outras; mas, como a maior parte dessas ideias intuitivas, o homem a desnaturou.

Comentário de Kardec: A metempsicose seria verdadeira se por ela se entendesse a progressão da alma de um estado inferior para um superior, realizando os desenvolvimentos que transformariam a sua natureza; mas é falsa, no sentido de transmigração direta do animal para o homem e vice-versa, o que implicaria a ideia de uma retrogradação ou de fusão. Ora não podendo realizar-se essa fusão entre seres corporais de duas espécies temos nisso um indicio de que se encontram em graus não assimiláveis e que o mesmo deve acontecer com os espíritos que os animam. Se o mesmo Espírito pudesse animá-los alternativamente, disso resultaria uma identidade de natureza que se traduziria na possibilidade de reprodução material. A reencarnação ensinada pelos Espíritos se funda, pelo contrário, sobre a marcha ascendente da Natureza e sobre a progressão do homem na sua própria espécie, o que não diminui em nada a sua dignidade O que o rebaixa é o mau uso que faz das faculdades que Deus lhe deu para o seu adiantamento. Como quer que seja. a antiguidade e a universalidade da doutrina da metempsicose e o número de homens eminentes que a professaram provai que o principio da reencarnação tem suas raízes na própria Natureza; esses são portanto argumentos antes a seu favor do que contrários.
(…)

O problema dessas explicações é que elas são meramente retóricas, pois dependem da aceitação da tese kardecista de progresso contínuo, que está além de comprovação no momento. A dita “fusão” ou “retrogradação” poderia ocorrer no psychophore por um mecanismo desconhecido e sem ter nada a ver com o corpo biológico. Não é que se esteja advogando a metempsicose (o que me obrigaria a mudar meus hábitos alimentares), mas apenas ressaltando que não há base factual para refutá-la, nem para confirmá-la, ainda que como ocorrência rara, afinal basta um caso relevante para as questões 611-3 do LE entrarem em xeque.

Uma reencarnação “pra lá de animal”.

2º – Interstício entre vidas (bem) menor que uma gestação

Compare a flagrante diferença entre a primeira edição do Livro dos Espíritos (1857) e a segunda (1860), que é a utilizada até hoje pelos centros espíritas. Começando pela primeira:

86– Em que momento a alma se une ao corpo?

“Ao nascimento.”

– Antes do nascimento a criança tem uma alma?

“Não.”

– Como vive então?

“Como as plantas.”

Comentário de Kardec: A alma ou espírito se une ao corpo no momento em que a criança vê a luz e respira. Antes do nascimento a criança só tem vida orgânica sem alma. Ela vive como as plantas, tendo apenas o instinto cego de conservação, comum em todos os seres vivos.

104 – A alma é um ser independente do Princípio Vital?

“Sim, o corpo vivo é apenas envoltório; repetimo-lo sem cansar.”

– O corpo vivo pode viver sem alma?

“Sim; e, não obstante, desde que o corpo cessa de viver, a alma o deixa. Antes de nascer o corpo, a alma não está nele; não há ainda união de alma e corpo; no entanto, depois que a união é formada, a morte do corpo rompe os liames que o prendiam à alma e o Espírito o abandona.”

Comentário de Kardec: A alma é ser independente do Princípio Vital. Antes de nascer, o corpo pode viver sem alma, pela razão de não ter ainda havido união entre a alma e o corpo; mas depois que esta união fica formada, a alma deixa o corpo desde que este cesse de viver, visto como então os liames que existiam entre alma e corpo ficam rompidos. A vida orgânica pode mover um corpo sem alma, todavia a alma não pode habitar um corpo sem vida orgânica.

Agora a segunda:

344 Em que momento a alma se une ao corpo?

“A união começa na concepção, mas não se completa senão no momento do nascimento. Desde o momento da concepção, o Espírito designado para tomar determinado corpo a ele se liga por um laço fluídico, que se vai encurtando cada vez mais, até o instante em que a criança vem à luz; o grito que então se escapa de seus lábios anuncia que a criança entrou para o número dos vivos e dos servos de Deus.”

(…)
353 A união do Espírito com o corpo não estando completa e definidamente consumada, senão depois do nascimento, pode considerar-se o feto como tendo uma alma?

“O Espírito que deve animar existe, de qualquer maneira, fora dele. Propriamente falando, ele não tem uma alma, pois a encarnação está apenas em vias de se realizar, mas está ligado à alma que deve possuir.”

354 Como se explica a vida intrauterina?

“E a da planta que vegeta. A criança vive a vida animal. O homem possui em si a vida animal e a vida vegetal, que completa, ao nascer, com a vida espiritual.”

Na primeira edição, o reencarne só se dava efetivamente no nascimento do indivíduo, na segunda edição é ele é um processo gradual que começa na concepção e vai gradualmente se fortalecendo até se completar com o nascimento, numa espécie de clímax. Como não temos mais acesso à base de dados de comunicações espirituais com que Kardec trabalhou, fica impossível saber qual a razão de tão radical mudança entre uma edição e outra.

Reduzir fetos a plantas parece ser um exagero, mas Stevenson já registrou casos de reencarnes em estágio bem avançado de gestação. Em Almas Antigas, por exemplo, Tom Shroder relata um caso estudado por Stevenson (Hanan Monsour/Suzanne Ghanem, no Líbano) em que o intervalo entre a morte de uma personalidade e o nascimento da seguinte foi de apenas dez dias! Talvez o psychophore só possa se associar a um corpo quando houver um encéfalo minimamente desenvolvido para recebê-lo, deixando o instante do começo de uma reencarnação um tanto incerto. Descobrir a partir de que etapa isso seria viável seria uma interessante pesquisa espiritualista e poderia ter diversas repercussões na vida pessoal de seus crentes, afinal a tese da existência de uma alma dentro do útero desde o início de uma gestação é o principal motivo da oposição do movimento espírita ao aborto e até mesmo contra métodos de controle da natalidade “antinidação”, como o DIU e a pílula do “dia seguinte” (5).

Por outro lado, se nem todos reencarnarem e for possível que um encéfalo também desenvolva um psychophore novo a partir do zero, então o instante de um reencarne viável deixará de valer como critério para essas questões éticas.

3º – Bebendo Água da Mesma Fonte

No filme “O Pequeno Buda” (1993), supra citado, são identificadas três crianças como possíveis sujeitos em que um falecido monge budista teria reencarnado. Já perto do final, é revelado que as três SIMULTANEAMENTE são o finado monge reencarnado. Estranho, talvez para o olhar ocidental acostumado a entender a alma como algo indestrutível, indivisível e único. Contudo, muitas culturas não veem assim:

(…) os inuit, os igbos da Nigéria, os tibetanos, os haidas do Alasca e Colúmbia Britânica e os gitksans de Colúmbia Britânica creem todos nisso [duplicação ou divisão de almas].
[Stevenson (2001), cap. X, 208]

Na primeira nota ao capítulo X do mesmo livro, Stevenson sumariza sua experiência em casos com os igbos, assinalando que:

Meu próprio exame de alguns casos sugere que uma criança pode dar uma evidência mais forte de lembranças de uma vida passada de uma pessoa falecida do que os demais candidatos dão. Os igbos aparentam aceitar uma criança como sendo uma pessoa em particular reencarnada em bases de evidência muito mais fracas que os informantes de outra cultura requerem antes de fazer tal julgamento.

Por fim…

A ocorrência de múltiplos candidatos a ser a reencarnação de uma pessoa falecida em particular deixa sem resposta a questão de se as almas ou mentes podem, de fato, se duplicar ou dividir (esses não são conceitos idênticos).

Bem, aguardemos.

Cena de “O Pequeno Buda” (1993) com as três reencarnações simultâneas do monge Lama Dorje.

4º – Explosão Populacional

Esta é uma das perguntas recorrentes não só para Stevenson, mas para todos os crentes em reencarnação: “Se o número de pessoas está aumentando, de onde vêm as almas novas?”

A resposta kardecista tradicional seria algo como “as almas são continuamente criadas, não só na Terra mas em todo o universo, a partir de um estágio ‘simples e ignorante’. Muitas almas novas, então, são imigrantes de outros mundos já aptos para reencarnar neste após longo processo de evolução ou são missionários a nos instruir”. O caso mais notório de uma suposta imigração espiritual coletiva seria a “Raça Adâmica” postulada por Kardec em A Gênese, tida por algumas correntes como oriunda de algum planeta de uma estrela da constelação de Capela (daí, “capelinos”). Flammarion também relatou um caso de emigração: um terráqueo reencarnando em (um avançado) Marte.

Stevenson também tem seu leque de hipóteses ad hoc para explicar o problema (cf. [Stevenson (2001), cap. X, 207-9]):

  • Não há correspondência entre as pessoas que nascem e as que já morreram, ou seja, nem todo mundo é a reencarnação de alguém falecido. Uma alma poderia ser criada já para implantação em embrião humano ou se desenvolver com ele.
  • Existe metempsicose
  • Almas podem ser duplicadas e/ou divididas.
  • Existe um número absurdo de almas (ou mentes) aguardando reencarnação. Estimativas propõem um total de cerca de 100 bilhões para o número de pessoas á nascidas no planeta até por volta do ano 2000 de nossa era (6). Isso não quer dizer que haja atualmente uns noventa e tanto bilhões de almas na fila, mas abre a possibilidade de uma série de reencarnações para o mesmo indivíduo.
  • Alguma combinação das hipóteses anteriores.

O que chama atenção é a hipótese que Stevenson não faz: a de reencarnações interplanetárias. Parece não haver casos assim em seus registros que mereçam nota (como os de metempsicose) e, ainda que existissem, seriam inverificáveis. Não sei se há algum sustento para ela em tratamentos de regressão hipnótica, que não são muito estimados por ele (7).

5º – Vale dos Suicidas: Tô Fora!

Embora não condene os suicidas à danação eterna, como faz a maioria das demais seitas das religiões abraâmicas, o espiritismo de forma alguma dá bons prospectos em curto e médio prazo para os que tiraram a própria vida. Relatos mediúnicos tenebrosos podem ser encontrados na segunda parte de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, ou no romance mediúnico Memórias de um Suicida de Yvonne do Amaral Pereira. Vale lembrar que, segundo a tese espirita, o próximo reencarne de um suicida geralmente sofreria alguma consequência do trauma autoprovocado: uma cardiopatia, retardamento mental, etc.

Em meio aos 2.500 casos analisados, Stevenson registrou em 29 deles uma morte autoprovocada pela personalidade anterior, a saber:

  • Quatro acidentalmente;
  • Dois para evitar uma captura iminente por policiais ou soldados
  • Os vinte e três restantes teriam para escapar de infortúnios julgados piores que a própria morte, como ruína financeira, decepções amorosas, etc.

No cômputo geral, Stevenson parece ter uma opinião bem mais amena sobre as consequências de um suicídio:

Se considerarmos a reencarnação como a melhor interpretação para esses casos [mencionados acima], eles refutam a crença exposta em algumas religiões de que pessoas que cometeram suicídio vivem no Inferno por séculos ou mesmo por toda eternidade. Eles também oferecem para uma pessoa a considerar o suicídio que isso não acabará com seus problemas, mas apenas mudará o local da ocorrência deles.

[Stevenson (2001), cap. X, pp 219-20]

Há um caso interessante relatado neste link publicado por Stevenson em Casos Europeus de Reencarnação (Vida & Consciência, 2003) em que a nova personalidade teria reencarnado em condições melhores que a antiga, que se suicidara.

* * *

Algum leitor pode alegar:“Bem, ainda que a reencarnação não se processe do modo como os espíritas kardecistas alegam, a estrutura da ‘fé cega’ dos fanáticos ortodoxos já está fortemente abalada, certo?”

Errado. Pelo menos ainda é muito cedo para dizer isso.

[topo]

O Cristianismo Ortodoxo e Stevenson

Não é difícil encontrar um apologista enchendo a boca ao mencionar os 2.500 casos relatados por Stevenson como demonstração da ignorância de cristãos “tradicionais” (i.e., católicos e evangélicos) acerca das pesquisas no campo, como se eles fossem provas avassaladoras da reencarnação, quando ele mesmo ignora (ou desconsidera?) que o próprio Ian Stevenson nunca fora tão categórico (embora entusiasta) e admitia que a qualidade dos casos era irregular. Até o presente momento, evidências de reencarnação estão longe de serem tão retumbantes como, por exemplo, as da evolução biológica – outro tema a que os cristãos mais fundamentalistas são refratários.

Na verdade, os cristãos tradicionais gozam de uma vantagem em relação aos materialistas quanto à questão da reencarnação: admitem a existência de um mundo espiritual e sua interação com o nosso. A principal diferença com relação aos espíritas é sobre a “natureza” dos habitantes desse mundo. “E o que isso tem a ver?”, perguntaria alguém. Não se mencionou antes, mas uma das explicações alternativas para a “hipótese sobrevivência” seria justamente a atuação de alguma entidade desencarnada. E isso quem disse, foi ninguém menos que Stevenson:

Em geral, não tenho permitido entrar na discussão desses casos [de possessão] quaisquer comunicações por meio de médiuns, a partir de comunicantes desencarnados ostensivos, relativas às questões envolvidas ao escolher entre as hipóteses relevantes para esses casos. Entretanto, talvez possas fazer, aqui, uma exceção para mencionar algumas comunicações mediúnicas relatadas por Wickland. Alguns dos comunicantes se dirigindo a Wickland (*) por meio da mediunidade de sua esposa declararam que tinham “possuído” erroneamente o corpo de uma personalidade encarnada na equivocada ideia de que deveriam reencarnar. Quando descobriram seus enganos, desculparam-se e se retiraram. E ainda supondo que esses comunicantes sejam personalidades desencarnadas que um dia estiveram vivas, poderíamos concluir que seu erro que cometeram não foi sobre se reencarnação ocorre ou não, mas o instante e circunstâncias para suas próprias reencarnações ocorrerem. Assim, eles podem ter ficado tateando ou tropeçado em um corpo já ocupado.

Twenty…, General Discussion, p. 378-9.

(*)Nota de Stevenson: C.A. Wickland: Thirty Years Among the Dead. London: Spiritualist Press, 1924.

Stevenson não nutre muita simpatia por hipóteses de possessão espiritual do tipo que denomina de “assombração” (haunt, mais próximas ao conceito espírita de “obsessão”) e, entre outras razões, aponta que essa hipótese não explicaria o estado fragmentário, em muitos casos, da memórias acerca da vida anterior, ou por que o entendimento do reencarnado a respeito de sua nova vida não é tão pleno assim, o que seria de se esperar de uma ação de entidade externa. Há, porém, um tipo específico de possessão que talvez dê o que pensar:

Não considero nenhum dos argumentos anteriores como decisório entre reencarnação e possessão para explicação do tipo comum de caso de reencarnação. Há dois séculos, Swedenborg declarou que casos aparentes de reencarnação eram, na verdade, exemplares da influência sobre os vivos de personalidades desencarnadas.

,
Não é permitido a um anjo ou espírito falar com um homem a partir de sua própria memória, mas a partir da do homem, pois anjos e espíritos também têm memória como os homens. Se um espírito falasse com um homem a partir de sua própria memória, então o homem não iria de outro saber que as coisas que então pensava eram suas próprias, quando na verdade eram do espírito; é como a lembrança de algo, embora o homem nunca tenha ouvido ou visto. É o que vim a saber pela experiência. Disso alguns dos antigos tiveram a opinião de que após alguns milhares de anos deveriam retornar para sua vida anterior, a todos os atos dela, e que também já tinham retornado. Concluíram a partir disso, que algumas vezes lhes ocorreu uma lembrança, por assim dizer, de coisas que eles nunca viram ou ouviram; e isso veio a ocorrer porque espíritos verteram sua própria memória nas ideias ou pensamentos deles. (*)

O argumento de Swedenborg ainda tem hoje muito convencimento e ganha suporte do caso de Jasbir, em que podemos nos sentir seguros que a personalidade falecida influenciando o comportamento de Jasbir (ou de seu corpo, pelo menos) morreu vários anos após [grifo do autor] o nascimento do corpo de Jasbir. Outros casos do presente grupo podem ser exemplares de similar “influência possessiva” em que a personalidade anterior, por acaso, morreu bem antes do nascimento do corpo da personalidade atual.
Twenty…, General Discussion, p. 381.

(*)Nota de Stevenson: E. Swedenborg. Heaven and Its Wonders and Hell (Publicado originalmente em latim, Londres, 1758). Rotch Edition. Boston: New-Church Union, 1906. (Parágrafo 156, p. 155).

Certo que Swedenborg é considerado herético pelos evangélicos e um precursor por alguns espiritualistas, mas isso não tem importância no momento porque seu raciocínio pode ser perfeitamente adaptado por católicos e evangélicos que precisam limitar essa transferência de memória espiritual à maquinação de “demônios”. Poder-se-ia dizer que essa hipótese não é tão enxuta como a de reencarnação(8) ou que apela para algo inverificável (a existência demônios), mas então se deveria lembrar que esse é o domínio da Fé e, justamente em razão de suas premissas serem (por enquanto) inatingíveis, ela nada deve ao da Ciência. A bem da verdade, isso não impede que os argumentos baseados nessas premissas sejam perfeitamente racionais e lógicos, nada tendo de “cegueira”(9). Por outro lado, doutrinas calcadas em pretensões cientificistas estão mais vulneráveis a dificuldades quando as descobertas não se enquadram em suas cartilhas (10).

Quanto ao caso Jasbir (11), ele se refere a um menino indiano com esse nome que, em 1954, chegou a ser dado como morto pelos familiares aos três anos e meio de idade, vítima de varíola. Felizmente, o menino reagiu e recuperou semanas depois, porém jamais voltaria a ser a criança que conheceram. Ele agora declarava ser um brâmane – indivíduo de uma casta superior a de sua família – chamado Sobha Ram, que morrera em um acidente aos 22 anos, em maio do mesmo ano. Como “Ram”, o menino informou que encontrou um sadhu (homem santo) que lhe disse para se “abrigar” no corpo de Jasbir (12). Seu linguajar mudara, adotando um vocabulário mais aristocrático e recusava-se a se alimentar com a família, que não seguia as normas da culinária brâmane. A antiga personalidade de Jasbir foi sobrescrita por outra e não retornou mais ao estado anterior, como seria de se esperar em uma incorporação mediúnica. Com o tempo, Jasbir/Ram conformou-se com sua nova realidade e já cogitava até se casar com uma pessoa da mesma casta de sua nova família, mas nunca perdeu totalmente hábitos e atitudes brâmanes. Dependendo de quem lê, um espírito assumiu um corpo já plenamente formado ou um impostor do além transferiu memórias de outrem a Jasbir. O que aconteceu com a personalidade original está em aberto.

Stevenson, na “Discussão Geral” ao fim do Twenty… ainda prefere a tese de reencarnação à de transmissão sobrenatural de memória, pois ela explicaria melhor os casos que envolvem marcas de nascença (13). Sua distinção entre “reencarnação” e “possessão” se torna essencialmente a relação cronológica entre a morte da antiga personalidade e constituição do corpo físico da nova: antes ou depois.

* * *

Bem, suponhamos que as pesquisas com recordações espontâneas progridam e a “hipótese sobrevivência” ganhe de suas concorrente e se torne um novo paradigma científico. Então os “cristãos tradicionais” hão de curvar à cartilha kardecista e abandonar ideias “sem noção” como salvação, ressurreição, sacramentos, etc; certo?

Eu não seria tão categórico.

Para começo de conversa, existem vários modelos de sistemas reencanacionistas e, até o presente momento, os 2.500 casos de Ian Stevenson são indecisivos em alguns pontos do modelo kardecista e possivelmente em choque com outros. Pode ser cansativo, mas vale reforçar que a grande pergunta do momento é se “há ou não reencarnação?”. Já querer dizer “como é” e cantar vitória é, no mínimo, muita pretensão. Em segundo lugar alguma resistência é esperada por parte dos demais cristãos, como ocorreu (e ainda ocorre) com a evolução biológica; e, por fim, a reencarnação é que teria de se adequar a conceitos já existentes no cristianismo tradicional, não o inverso.

Talvez esse último ponto seja um dos que mais provoque faíscas entre o espiritismo kardecista e o cristianismo tradicional. Como já analisado em outro artigo, o kardecismo reedita aspectos do cristianismo contido nos evangelhos sinópticos (excetuando sua escatologia), mas descarta as opiniões paulinas, joaninas e qualquer escatologia. Assim, fica difícil qualquer diálogo entre esses grupos e quem ceder pode se descaracterizar.

Para haver alguma chance de o cristianismo ortodoxo aceitar em massa algum grau de reencarnacionismo, conceitos como Queda, Graça, Sacrifício da Cruz, Salvação, Parúsia e, por que não, Ressurreição devem ser preservados. De certa forma, dois exemplos históricos podem fornecer insumos de como isso poderia vir ocorrer: o origenismo em sua forma original e a adoção da reencarnação pelo judaísmo a partir da Idade Média.

Orígenes (185? – 254? d.C), em sua obra De Principiis, expôs o que talvez seja o mais antigo tradado de teologia sistemática do cristianismo ortodoxo. Sim, ORTODOXO, pois ao contrário do que alguns escritores espiritualista alegam por aí, Orígenes o escreveu para refutar gnósticos, defendendo a unicidade entre Deus e o Criador, a encarnação do Verbo, a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento, e, em especial, uma resposta ao “Problema do Mal” que respeitasse esses princípios. Ao contrário do gnósticos, ele defendia a justiça de Deus na fundação do Cosmo para a regeneração de almas decaídas, por sua própria escolha, de um estado de beatitude original. Cada alma ocuparia um lugar conforme seu grau de queda: o Céu para os anjos, o Firmamento para os corpos celestes (seres racionais, segundo ele), a Terra para os humanos e o Hades para os demônios. Teria havido criações antes desta e haveria novas, cada qual com uma ressurreição geral e um Juízo Final, estando a condição cada ser na criação seguinte condicionada a seus atos na que se encerrou. Em nossa era, ocorreu um diferencial: a vinda de Jesus Cristo, cujo sacrifício serviu de catalizador para que todas as almas retornassem à beatitude, em vez de agir erraticamente.

Há um grande empecilho, entretanto, para um retorno às teses de Orígenes: seu reencarnacionismo é “entre eras”, ou seja, ele defendia a vida única dentro de uma mesma era (ou criação) e, enquanto ela não chegasse ao fim, as almas passariam por uma espécie de “fogo moral” para depuração. Desconheço caso de recordação espontânea ou via hipnose que dê suporte a isso. Outros aspectos que talvez sejam nevrálgicos seriam a salvação do Diabo – uma consequência lógica desse sistema (14) cuja a simples cogitação deu munição a seus detratores entre o século IV e VI – e a ausência de uma salvação eterna, pois novas quedas poderiam ocorrer após todos retornarem à beatitude.

Portanto seria necessário remodelar isso para que comportasse tudo em uma única criação e mantendo a sua essência da Terra como uma dimensão purgatorial. A forma como a reencarnação (gigul neshamot) foi adotada por algumas vertentes do judaísmo pode fornecer alguns vislumbres.

Ao contrário do que alegou Kardec no Evangelho segundo o Espiritismo (ESE):

A reencarnação fazia parte dos dogmas judeus, sob o nome de ressurreição. Somente os saduceus, que pensavam que tudo acabava com a morte, não acreditavam nela. As ideias dos judeus sobre essa questão, como sobre muitas outras, não estavam claramente definidas. Porque só tinham noções vagas e incompletas sobre a alma e sua ligação com o corpo. Eles acreditavam que um homem podia reviver, sem terem uma ideia precisa da maneira por que isso se daria, e designavam pela palavra ressurreição o que o Espiritismo chama, mais justamente, de reencarnação. Com efeito, a ressurreição supõe o retorno à vida do próprio cadáver, o que a Ciência demonstra ser materialmente impossível, sobretudo quando os elementos desse corpo já estão há muito dispersos e consumidos. A reencarnação é à volta da alma ou Espírito à vida corpórea, mas num outro corpo, novamente constituído, e que nada tem a ver com o antigo. A palavra ressurreição podia, assim, aplicar-se a Lázaro, mas não a Elias, nem aos demais profetas. Se, portanto, segundo sua crença, João Batista era Elias, o corpo de João não podia ser o de Elias, pois que João tinha sido visto criança e seus pais eram conhecidos. João podia ser, pois, Elias reencarnado, mas não ressuscitado.

ESE – Cap. IV, item 4

O entendimento de ressurreição como reconstrução do antigo corpo físico era o realmente adotado pelos judeus intertestamentários, do contrário obras do período como II Baruque jamais teriam sido elaboradas. O importantíssimo e negligenciado pormenor é que a expectativa era de uma apoteótica Ressurreição Universal após o fim da “realidade como conhecemos” para a chegada do “Mundo Vindouro”, o “Reino dos Céus”. Aliás, segundo os historiadores adeptos da tese de Jesus como “profeta apocalíptico”(15), o papel dos milagres é justamente servir como antecipação desses eventos: não haveria doentes, então que eles fossem curados; ninguém morreria, então que os mortos se levantem; não haveria ódio, então que as pessoas se amassem desde já. Se tais milagres são impossíveis segundo a ciência atual, não importa; pois tal julgamento não passa de um anacronismo para impor aos antigos uma opinião dos tempos modernos. Por mais absurda que seja a ideia para muitos, essa era a crença do período e lugar.

Durante a evolução do judaísmo, a crença na ressurreição no “Mundo Vindouro” (Olam Ha-bá) permaneceu firme e distante da gigul e, de certa forma, adaptou-se a ela. A questão de qual das personalidade ressuscitaria recebeu pelo menos três respostas distintas, dependendo da filosofia do rabino (16):

  • Somente a personalidade original seria ressuscitada, pois ela seria a mais importante e as demais apenas complementariam o que faltasse nela;

  • Somente a última personalidade seria ressuscitada, pois seria o “produto final”;

  • Todas as personalidades seriam ressuscitadas, preservando os laços familiares.

Também não há uniformidade de opiniões quanto a questão de “quem reencarna?”. Um denominador comum entre elas é a necessidade de terminar algo, como por exemplo, cumprir todos mandamentos da Lei (17).

Embora haja consenso quanto à época da “ressurreição geral”, outra vez ocorre uma pluralidade de opiniões dentro do judaísmo(18), agora quanto à forma em que ela se dará e se ela será tão “geral” assim. Podem ser encontrados textos textos na literatura judaica alegando uma ressurreição apenas para Israel, outros para os judeus e gentios justos, e até mesmo os que creem numa genuína universalidade, uns para a glória e outros para o juízo (19). Quanto ao corpo ressurreto, mais diversidade: há os que defendem uma ressurreição física, ainda que imune a doenças e à velhice, como Saadia Gaon (20); um corpo físico espiritualizado pela presença de uma alma radiante, como os kabalistas (21), e até uma ressurreição puramente espiritual, conforme especulou Maimônides (22).

De posse dessa variedade de soluções apresentadas, seria possível criar um sistema reencarnacionista ao gosto da ortodoxia cristã? Mark Albrecht – o cidadão que ele elogiou Stevenson na abertura deste artigo – impôs algumas condições:

a maior barreira à reencarnação para o cristão é o tão simples conceito de nascer outra vez e outra. É concebível [grifo do autor] que o renascimento possa coexistir com doutrinas bíblicas se for altamente saneado e aplicado apenas aos não crentes. O que torna a reencarnação impossível para os cristãos é que ela não pode ser separada de seu substrato metafísico, a superestrutura do misticismo gnóstico e o monismo. (…)

[Albrecht, cap. X, p. 122]

Albrecht estabelece que o conceito de renascimento deve ser cristianizado e de aplicação limitada, ao contrário de híbridos teológicos que nada adaptam afirmam que tanto faz ser cristão ou não. Albrecht cita vários escritores espiritualistas para refutar suas concepções errôneas a respeito do cristianismo primitivo e da compatibilidade da ortodoxia cristã com o modelo reencarnacionista deles. Há, contudo, uma notória exceção: o teósofo Geddes MacGreggor, autor de Reincarnation in Christianity, que foi amplamente citado como corroborador de seus pontos de vista, ao menos em parte. MacGregor é, ao menos até agora, o único escritor já me apresentado que teve alguma preocupação em elaborar um modelo de reencarnação compatível com o mainstream do cristianismo atual, ao invés de forçá-lo dentro de um modelo que lhe era alienígena.

Com todas as ressalvas feitas, eis algumas propostas:

  • Manter a noção de “queda” de um estado de beatitude e a necessidade de redenção;
  • Preservar a noção de Jesus Cristo como esse redentor, tornando a volta em novo corpo físico imperiosa apenas para os não crentes, até a vida em que se convertessem; (23)
  • Possibilitar a reencarnação para cristãos, em caso de alguma pendência a cumprir (como no judaísmo após a Idade Média) ou como missionários;
  • Existência de um estágio purgatorial pós-vida apenas para “aparar as arestas” da almas cristãs que superaram a maior parte de suas deficiências em vida;
  • Estabelecer um fim ao processo. Refratários à mensagem cristã ou hipócritas com ela não seriam salvos por ocasião do fim dos tempos. Pode-se cogitar uma dimensão infernal privada para presença divina, como as versões mais recentes e amenas do inferno católico (Catecismo, item 1035), ou um aniquilacionismo;
  • Como pressuposto acima, manter algum tipo de escatologia, de clímax redentor, um “mundo vindouro”.

Não é necessário dizer que isso está longe de ser um tratado teológico e, a quem quiser uma discussão mais profunda, recomenda-se o livro de MacGregor (24). Talvez alguém relembre a frase “o espiritismo não é a religião do futuro, mas o futuro das religiões” e veja nessa proposta um primeiro passo nessa direção. Entretanto, não custa lembrar que o futuro ainda não está escrito e a história humana parece se assemelhar a um sistema físico caótico: suas leis são conhecidas, mas ele é muito sensível a qualquer mudança em seus parâmetros. Sendo assim, melhor considerar isso como apenas um dos milhares de futuros possíveis e quem se atrever a dizer categoricamente qual será ele corre sério risco de fornecer matéria-prima aos humoristas do século XXII (25).

[topo]

Réquiem

Nem tudo é absoluto nas pesquisas de Stevenson, como já se observou:

  • Discordâncias qualitativas com pesquisas baseadas em recordações induzidas por hipnose(26);

  • Um universo cultural favorável à reencarnação pode incentivar alegações de espontâneas que revelam, posteriormente, fracas(27);

  • Tem de se confiar na subjetividade das memórias e percepções nem sempre confiáveis de indivíduos (28);

  • O reconhecimento de pessoas e lugares da supostas vida anterior nem sempre é feitas por partes neutras (29);

  • Entre os surgimento de um possível caso de reencarnação (com o começo de comportamentos estranho de uma criança) e sua ampla divulgação, passam-se, em média, três a cinco anos (30). Muita coisa pode acontecer nesse ínterim.

Mas como seus antagonistas chegaram a isso? Simples: o próprio Stevenson forneceu material para eles (31). A riqueza de pormenores e a transparência de suas pesquisas o levaram a expor suas fraquezas. Longe de ser um erro ou demérito, essa deve ter sido sua maior virtude como pesquisador. Sua base de dados ainda está disponível na Universidade de Virgínia a quem quiser reanalisar seus resultados ou cruzá-los com os de outras pesquisas. A mesma coisa não pode ser feita com os dados de Kardec, que se perderam na noite dos tempos(32).

Não pretendia falar sobre Ian Stevenson, pois ele está fora do escopo deste portal, que se preocupa mais o aspecto histórico da reencarnação no cristianismo do que em avaliá-la como fato. Mas não há como evitá-lo, porque seu nome é muito recorrente no meio espiritualista. Infelizmente, esse grupo o vê, muitas vezes, como um mero corroborador de suas crenças, ao passo que não é difícil encontrar materialistas que o rejeitam sem ao menos se dar ao trabalho de o ler. Aqui busquei resgatar um pouco do rigoroso cientista adepto da “hipótese sobrevivência” e ao mesmo tempo frustrante para os mais “espirituosos”. Não havia como ele ser diferente, pois sua pesquisa foi construída de baixo para cima, ao invés de ser uma retumbante revelação descida do Céu (ou Colônia Espiritual). Os resultados na área ainda são modestos, inconclusivos, talvez decepcionantes para alguns, porém incomparavelmente mais sólidos que qualquer romance mediúnico.

Stevenson nos deixou em 2007 e, quem sabe, já tenha as respostas para todas as suas dúvidas. Compartilhá-las conosco é que será outro problema… De qualquer forma, ele já mostrou um caminho e deve ser uma questão de tempo para que outros o trilhem. Os que o fizerem talvez sejam os novos “trabalhadores da última hora”. Até lá e além:

* * *

Que sua memória permaneça entre nós, Dr. Stevenson

* * *

Notas

(1) É um livro fino que, quando mo emprestaram, tinha a intenção de refutar. Muitos de seus argumentos podem ser considerados um tanto fracos, “manjados” ou só admissíveis dentro de uma igreja, mas foi um choque quando li a parte reencarnação no cristianismo primitivo, onde vários mitos acerca da patrística foram sistematicamente refutados. Foi quando constatei que a “fé racionada” também podia se tornar extremamente “cega” quando convinha e usei o material dessa parte do livro como base para meu portal, incrementando com minhas próprias pesquisas. Hoje, com um olhar em retrospectiva, penso que cegueira não está nesse ou naquele credo, mas nas pessoas. Até a Ciência não está livre disso.

(2)Isso não é desfeita minha. Um dos principais pesquisadores nesse campo, Wellington Zangari, em entrevista dada ao periódico Superinteressante de maio de 2005:

P. A parapsicologia tem pouco mais de um século de existência. Nesse período, afinal, o que se produziu de sólido e incontestável?

Nada. Todos os resultados são frequentemente contestados pelos próprios pesquisadores da área. Mas muitos experimentos tiveram resultados consistentes e positivos em relação à existência da paranormalidade. Por exemplo: se não existe transmissão telepática, os sujeitos que passam por esse tipo de experimento deveriam ter um índice de acerto muito próximo de 25%. Mas a maior parte das meta-análises indica que, na média, eles são capazes de acertar 35% da vezes. Do ponto de vista estatístico, é uma diferença bastante significante. De maneira que algo além do acaso deve estar acontecendo entre a pessoa que emite e a que recebe essas informações.

(3) Nas palavras se Schrödinger:

Mas experiências imediatas, em si mesmas, quão numerosas e diferentes sejam, são logicamente incapazes de se contradizerem mutuamente. Assim, vejamos se não somos capazes de extrair a conclusão correta, não-contraditória, das duas premissas seguintes:

  1. Meu corpo funciona como um puro mecanismo, de acordo com a Leis da Natureza.
  2. Ainda assim, sei, por experiência direta incontestável, que comando seus movimentos, dos quais prevejo os efeitos, que podem se decisivos e extremamente importantes, em cujo caso sinto e assumo por eles total responsabilidade.

A única inferência possível a partir deste dois fatos, imagino, é que eu – eu no sentido amplo da palavra, ou seja, toda mente consciente que jamais disse ou sentiu “eu” – sou a pessoa, se é que existe alguma, que controla “o movimento dos átomos”, de acordo com as Leis da Natureza.

No âmbito de um determinado ambiente cultural (Kulturkreis) em que certos conceitos (que já tiveram ou ainda têm um significado mais amplo entre outros povos) foram limitados ou especializados, é ousado dar a essa conclusão a palavra simples que ela requer. Na terminologia cristã, dizer “Logo, eu sou o Deus Todo-Poderoso” parece tanto blasfemo quanto lunático. Mas, por favor, abstraiam por ora essas conotações e considerem se a inferência acima não é o mais próximo que um biólogo pode chegar para provar, de uma só vez, a existência de Deus e da imortalidade.

Em si, a ideia não é nova. Os registros mais antigos datam, até onde sei, de 2.500 anos atrás. Desde os primitivos grandes upanixades, no pensamento indiano, a identificação de ATHMAN = BRAHMAN (o seu eu pessoal iguala-se ao eu eterno, e onipresente e onisciente), longe de constituir uma blasfêmia, representava a quintessência da mais profunda intuição quanto aos acontecimentos do mundo. O maior empenho de todos os estudiosos da escola Vedanta era, após o aprendizado dos movimentos dos lábios para a pronúncia correta, realmente assimilar em suas mentes este pensamento, o mais grandioso de todos.

De novo, os místicos de muitos séculos, independentemente, mas em harmonia uns com os outros (algo como ocorre com as partículas de um gás ideal) descreveram, cada um deles, a experiência única de sua vida em termos que podem ser resumidos na expressão DEUS FACTUS SUM (Tornei-me um Deus).

(4) A UNESP publicou uma tradução em português de What is Life, mas eu, particularmente, não gostei dela. A palavra novel, por exemplo, foi traduzida por “novela”, quando melhor significado seria “romance”, como escrevi aqui. A não ser que se entenda “novela” com a conotação de “romance curto”, mas creio que não foi o caso.

(5)Nidação é quando um embrião, ainda nos estágios iniciais de diferenciação celular, se fixa no epitélio uterino. Há muita controvérsia quanto ao caráter abortivo ou não desses métodos. O DIU (Dispositivo Intra Uterino) recebe cobertura de um fio de cobre (de efeito espermicida) ou de hormônios (para impedir a ovulação), deixando-o próximo de um verdadeiro contraceptivo e também atua no endométrio uterino. A pílula de “dia seguinte” também teria um mecanismo tríplice, atrasando ou impedindo uma ovulação iminente, espessando o muco cervical para impedir a mobilidade dos espermatozoides e seu encontro com o óvulo, além de criar um ambiente uterino impróprio para a fixação do embrião. Portanto, a prevenção da nidação serve como uma última barreira para esses métodos. Como cerca de 50% dos óvulos fecundados não se fixam no útero, esses métodos apenas dificultam o que já é difícil por natureza. Ademais, tanto a prática médica quanto a jurídica têm considerado a nidação como o real início da gestação, em vez da fecundação.

(6)[Steven (2001), cap. X, p. 208] traz uma cifra mais “conservadora” de 80 bilhões e é óbvio que esse número há de variar dependendo do instante que se considere o início da contagem (a partir dos humanos anatomicamente modernos ou dos primeiros hominídeos bípedes?). Vale lembrar que as suposições feitas ajudam a elevar a cifra, como taxa de natalidade alta nos primeiros tempos e uma expectativa de vida extremamente curta.

(7)Nas palavras de Ian Stevenson:

As “personalidades” comumente evocadas durante regressões hipnoticamente induzidas a uma “vida anterior” parecem reunir uma mistura de diversos ingredientes. Esses podem incluir a personalidade atual do indivíduo, suas expectativas sobre o que ele acha que o hipnotizador deseja, suas fantasias sobre o que acha que sua vida anterior deve ter sido e também, talvez, elementos obtidos paranormalmente.

Twenty…, Introdução, p.3.

(8)Ou seja, perderia num critério conhecido como “Navalha de Ockham”.

(9) E assim foi feito por [Albrecht, cap. VI, pp.74-7]

(10) Três exemplos que me vêm à memória: marxismo, espiritismo e psicanálise.

(11) Twenty …, cap. II, p. 47s

(12) Em Twenty …, cap. II, p. 47, Stevenson informa que as memórias sobre esse sadhu perderam clareza com o tempo, tornado-se confusas e contraditórias, ao passo que as como Sobha Ram mantiveram-se melhor. A crença de que santos desencarnados guiem os falecidos para sua próxima reencarnação também foi encontrada em casos da Tailândia e de Burma.

(13) A não ser que uma transmissão paranormal/espiritual de memórias também possa provocar somatização em fetos. A presente falta de limites definidos para a hipótese psi ainda deixa bastante “pano para manga” em discussão com os adeptos da hipótese sobrevivência. Para os que creem na hipótese de transmissão espiritual(ou demoníaca), não há limites, porém apenas seus crentes poderão acatar suas conclusões.

(14) Chegaram até nós, por vias indiretas, dois supostos documentos de Orígenes que refutariam claramente a tese da “salvação do diabo”. O primeiro é uma carta endereçada “a alguns amigos de Alexandria” citada por Rufino:

Algumas das pessoas que se comprazem em acusar seus vizinhos trazem contra nós e nosso ensino a acusação de blasfêmia, embora de nós nunca tenham ouvido nada do tipo. Que prestem atenção a si mesmas em como recusam a atentar para aquela solene injunção que diz que ‘maldizentes não herdarão o reino de Deus’ quando declaram que o pai da iniquidade e perdição e dos que estão expulsos do reino de Deus, ou seja: o diabo, será salvo, algo que nenhum homem pode dizer mesmo que tenha perdido o juízo e esteja manifestadamente insano. Embora não surpreenda, imagino se meu ensinamento é falsificado por meus adversários e está corrompido e adulterado da mesma foram que as epístolas de Paulo, o Apóstolo.

Rufino – Da adulteração das Obras de Orígenes, parágrafo 7

O segundo foi trazido por seu antagonista, Jerônimo de Aquileia. Após acusar Rufino e haver editado a carta supracitada, ele dá uma nova fonte onde Orígenes negaria a salvação do diabo:

Existe em grego um diálogo entre Orígenes e Cândido, o defensor da heresia de Valentino, em que, admito, parece-me que quando o leio estou assistindo a uma luta entre dois gladiadores andabacianos. Cândido alega que o Filho é da substância do Pai, caindo no erro de declarar uma Probolé ou Produção. Por outro lado, Orígenes, como Ário e Eunômio, recusa a admitir que Ele seja produzido ou gerado, por temor que, assim, o Pai deve ser dividido em partes: mas diz que Ele era uma sublime e excelentíssima criação que veio a existir pela vontade do Pai como as outras criaturas. Eles, então, passam para uma segunda questão. Cândido declara que o diabo é de uma natureza totalmente má que nunca pode ser salva. Contra isso, Orígenes declara corretamente que ele não é de uma substância perecível, mas que é por sua própria vontade que caiu e pode ser salvo. Isso Cândido falsamente transforma numa censura contra Orígenes, como se ele tivesse dito que a natureza diabólica poderia ser salva. Por essa razão, aquilo de que Cândido tinha falsamente o acusado, Orígenes refuta. Contudo, vemos que nesse apenas nesse Diálogo Orígenes acusa os heréticos de ter falsificado seus escritos, não nos outros livros, acerca dos quais nenhuma questão foi levantada. De outra forma, se tivermos de acreditar que tudo que é herético não devido a Orígenes, mas aos heréticos, ao passo que quase todos os seus livros estão cheios desses erros, nada de Orígenes permanecerá, mas tudo deve ser trabalho daqueles cujos nomes ignoramos.

Jerônimo – Apologia própria contra os Livros de Rufino, livro II, 19

Pena que Jerônimo não traga exatamente qual foi o argumento para a refutação ao valentiano, mas não importa qual dos dois fale a verdade, pois se tem tanto um defensor quanto um detrator de Orígenes afirmando que ele chegou a negar uma tese dedutível a partir de De Principiis, pode-se cogitar que muitos antagonistas dele transformaram um exercício especulativo em afirmação categórica.

(15)Como o “querido” Bart Ehrman, cf. [Ehrman, cap. XI, p. 199]

(16)Cf. [Blau, p. 11], a referência dada para essas três opiniões é o Comentário sobre Deuteronômio, do rabino Issac Abravanel. A opinião de apenas uma ressurreição para a última encarnação pode ser encontrada no tratado kabalístico de Zohar (cf. [Blau, cap. VIII, p. 325]).

(17) Cf. [Raphael, cap. VIII, pp. 317-20].

(18) Essa Babel de opiniões pode ser intrigante para os criados no cristianismo, habituados desde cedo seguir corpos doutrinários rígidos. O judaísmo, por sua vez, possui um modus operandi bem diferente, como observou o historiador Paul Johson:

[Na Idade Média] Havia uma tal variedade de opiniões sobre o Messias no judaísmo que era quase impossível ser herético nesse assunto. O judaísmo dizia respeito à Lei e sua observância. O cristianismo dizia respeito à teologia dogmática. Um judeu podia atrapalhar-se quanto a um ponto delicado da observância do sábado que a um cristão pareceria ridículo. Por outro lado, um cristão podia ser queimado vivo por sustentar uma ideia sobre Deus que a todos os judeus pareceria um assunto de opinião legítima e de controversa.

Johson, Paul; A História dos Judeus, Imago, 1995, parte III, p. 228.

É por esse motivo que não levo a sério quem queira usar um único judeu da atualidade para julgar o material deste portal: falta-lhe a dimensão histórica da coisa. Mal comparando, seria como um hindu pegasse um católico como referência para todo o cristianismo, desprezando todas as demais seitas moderna e, principalmente, as grandes discussões teológicas do passado.

(19)De [Raphael, cap. V, pp. 158-9]

Os rabinos frequentemente reportam-se à questão de quem será ressuscitado no fim dos dias. Não houve uma crença uniformemente aceita. Pelo contrário, a literatura rabínica exibe uma ampla diversidade de opiniões sobre essa questão.

Em alguns casos, demonstra-se uma crença universalista de que todos – judeus e gentios, justo ou ímpios – serão ressuscitados:”Os que nascerão estão destinados a morrer e os mortos a serem trazidos à vida outra vez” (M. Avot 4:29). Outras passagens, contudo, alegam que “a ressurreição está reservada para Israel” (Gênesis Rabbah 8:6).

Outros rabinos, porém, criam que apenas os justos seriam ressuscitados [cita Taanit 7a].

Para a literatura apócrifa intertestamentária, cf. [Raphael, cap. IV, pp. 109-14].

(20) Cf. O Livro das Crenças e Opiniões, tratado VII.

(21) Cf. [Raphael, cap. VIII, p. 325].

(22) Cf. Tratado sobre a Ressurreição.

(23) No catolicismo romano existe a noção de “batismo de desejo” para os que buscaram viver de acordo com os ditames da “Lei Natural e Sobrenatural” de Deus, ainda que não tenham recebido nenhum de catequese (“estado de ignorância invencível”). É uma solução um tanto remendada para a impossibilidade de se pregar o evangelho a todos antes do retorno de Jesus, mas é difícil pensar em algo melhor no contexto de “vida única”. Existe, ainda, a salvação dos predestinados, conforme parte do protestantismo, que pode até ser uma doutrina com coerência interna, embora indigesta para quem está de fora.

(24) Alguns excertos de [MacGregor]:

A Bília não ensina explicitamente o reencarnacionismo. Ou seja, não há pronunciamento algum sobre a questão, seja no Antigo Testamento ou no Novo, ao qual se possa indicar e por meio do qual forçar a aceitação de uma pessoa que se sinta obrigada a receber como revelação divina tudo que está claro e inequivocamente afirmado na Sagrada Escritura. Não exite tal justificativa bíblica para a reencarnação

Cap. I, p. 16

Isso não impediu que MacGregor visse alguma noção de reencarnação implícita em passagens até hoje debatidas, como o episódio do “cego de nascença” (Jo 9) ou a dualidade Elias/João Batista. A doutrina explicitamente descrita na Bíblia foi a da ressurreição. Sobre ela, foi dito:

Pela época de Cristo, o conceito de um julgamento final fora desenvolvido, de modo que tanto o Paraíso e a Gehena podiam ser, algumas vezes, entendidos como temporários, estados intermediários. Outras noções, contudo, fora introduzidas no pensamento judaico. A origem das influências que as trouxeram para dentro é obscura e de modo algum precisamos nos preocupar aqui. A mais notável dentre essas noções era a da ressurreição, que surgiu no período macabeu. O Livro de Daniel se refere a ela de forma quase casual, como se fosse uma crença já duradoura, embora tudo que sabemos do pensamento hebreu antigo faça inacreditável tal pressuposto (5). Referências para a ressurreição para a vida eterna são abundantes na literatura judaica apocalíptica, apócrifa e deuterocanônica(6) do período imediatamente anterior a Cristo. Os escritos do Novo Testamento claramente afirmam que a doutrina da ressurreição era adotada pelos fariseus, mas não pelos samaritanos, nem pelos saduceus(7). O historiador judeus Josefo confirma esse testemunho do Novo Testamento. Pela época em que Paulo escrevia suas cartas às Igrejas, a situação do cristãos mudara radicalmente por causa da crença de que Jesus, após sua morte na Cruz, fora “erguido dos mortos.” Paulo e outros ensinaram que, em razão dessa suprema demonstração do poder de Deus em Cristo, os cristãos podiam esperar ser erguidos por ele e com ele para a vida eterna (8). João ensina que “no último dia” Jesus erguerá [ressuscitará] os que os que creem em Cristo (9). A prometida ressurreição é a ressurreição para a nova vida com um novo e glorificado corpo (soma). Paulo deplora a noção. que aparentemente fora proposta, de que a ressurreição já ocorrera aqui e agora. Tais ensinamentos, avisa a Timóteo, “são discussões filosóficas vãs” e corrosivas à verdadeira fé (10). No entanto, embora a esperança cristã da ressurreição esteja especificamente associada à crença na ressurreição de Cristo, o caminho já havia sido preparado para a ideia de ressurreição por seu desenvolvimento no pensamento tardio pensamento judaico pré-cristão. Tal ideia havia tomado várias formas; mas o que é mais importante para nós reparamos é o fato de que o patrimônio dos primeiros cristãos tinha os acostumado a pensar em tais termos.

Notas de MacGregor:
(5) Dn 12:2.
(6) Ver, por exemplo, 2 Mac 7:9, 14:46.
(7) Mt 22:23, Mc 12:18, Lc 20:27, At 23:8.
(8) Ex. 2 Co 4:14, Fp 3:10, 2 Tm 2:11. Paulo expõe sua opinião sobre o tema especificamente em I Co 15.
(9) Jo 11:25, 6:39.
(10) 2 Tm 2:17.

Cap. IX, p. 91

Será que esse cara é teósofo, mesmo?

A noção de reencarnação como é entendida em termos upanixades [hindus], em associação com doutrinas kármicas, era, obviamente, irrelevante uma situação que era assim compreendida. Uma doutrina de pré-existência das almas, porém, não o era, e nenhuma forma em que uma teoria reencarnacionista se apresentasse às mentes dos cristãos naquela situação [de crença no iminente fim dos tempos] poderia se referir ao futuro. A reencarnação pode ter ocorrido no passado; não poderia ocorrer neste mundo no futuro, já que não haveria tal mundo.

Cap. IX, p. 94

Sinceramente, se houvesse mais espiritualistas como ele, a seção “Reencarnação na Bíblia” seria desnecessária. Não assino embaixo de tudo ele diz e creio que derrapa às vezes na reconstrução histórica, mas acho que merece uma lida pelos que sabem inglês. Ele é muito superior a seus congêneres nacionais e os, até agora, estrangeiros traduzidos.

(25) Bem, continuamos aguardando a previsão da questão 798 do Livro do Espíritos. Mas com certeza ela não se cumpriu “em duas ou três gerações”.

(26)Albrecht [cap. VI, p. 63] apontou descrepâncias entre os resultados de Stevenson e Helen Wambach (adepta da regressão via hipnose), como, por exemplo, uma comum troca de grupos étnicos entre uma reencarnação e outra segundo Wambach, ao passo que os casos mais fortes de Stevenson não dão sustento a isso; o intervalo médio entre vidas também varia em cerca de 51 anos para Wambach e apenas 5-10 anos para Stevenson. Fazendo uma hipótese ad hoc, poderia ser apenas uma diferença no do tipo de reencarnação com que cada autor trabalhe, i.e., um entre vidas longo pode dificultar recordações espontâneas. De qualquer forma, vale ver a nota nº 7 sobre a opinião de Stevenson sobre a regressão induzida.

(27)Nas palavras de Stevenson:

Não devemos, pois, ficar surpresos que a incidência que a incidência de casos entre os drusos seja talvez a mais alta no mundo

Twenty…, cap. VI, p. 274

Ver também em “Bebendo Água da Mesma Fonte”, como a crença entre os igbos da crença em reencarnação múltiplas simultâneas aumenta as alegações desses casos.

(28)Twenty…, Introdução, p. 4.

(29)Twenty…, Introdução, p. 6.

(30)Lembremos que Twenty… é “pré-Internet”.

(31)Cf. [Albrecht, cap. VI]. Óbvio que Stevenson elaborou protocolos para minimizar essas fraquezas.

(32)Um debatebor espírita, Marcos Arduin (vulgo “Botânico”), declarou certa vez quevários documentos de Kardec se perderam e os que sobraram estão de posse da família [de] Canuto Abreu, que se recusa em trazê-los a público, infelizmente. ” Canuto Abreu foi o organizador da edição bilíngue da primeira edição do Livro dos Espíritos, em comemoração ao centenário dessa obra (1957), tendo ido à França buscar material. Considero Arduin uma fonte idônea, mas ainda assim é um relato informal. Se alguém puder fornecer mais consistência a essa alegação, entre em contato.

[topo]

Para Saber Mais

– Albrecht, Mark; Reincarnation – A Christian Appraisal Inter Varsity Press, 1982.

– Blau, Yitzchak; Body And Soul:Teh.iyyat ha-Metim and Gilgulim in Medieval and Modern Philosophy, publicado em The Torah u-Madda Journal (10/2001).

– Ehrman, Bart; Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millenium, Oxford, 1999.

– Kardec, Allan; O Primeiro Livro dos Espíritos (1857), Organização de Octávio Caúmo Serrano, João Pessoa:Idéia, 2009.

– MacGregor, Geddes,Reincarnation in Christianity, The Theosophical Publishing House, 1989, 4ª impressão.

– Raphael, Simicha Paul; Jewish Views of the Afterlife, Rowman & Littlefield Publishers, 2004

– Schödinger, Erwin; O que é Vida?/Mente e Matéria, UNESP/Cambrige, 1997.(Ver também “O que é Vida?”: 50 anos depois, diversos autores, UNESP, 1997)

– Stevenson, Ian; Twenty Cases Suggestive of Reincarnation, The Universty Press of Virginia, 2ª ed., 5ª impressão em brochura, 1999.

______________; Children who Remember Previous Lives – A Question of Reincarnation (revised edition), McFarland & Company, 2001.
[topo]

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  1. Diogo Farias
    27 de setembro de 2015 às 18:43

    Ainda não terminei de ler o texto mas já marquei nos favoritos pra mais tarde fazê-lo.
    Primeiramente quero agradecer por juntar tanta informação sobre um assunto que é tão negligenciado, certamente muitas das informações servirão como fonte de pesquisa pra muita gente, obrigado! E já devo admitir que sou um tanto leigo no assunto, mas gostaria de te recomendar a buscar mais sobre o Inconsciente Coletivo do Carl Gustav Jung, não recomendo muito seus textos, mas os de sua seguidora, Marie-Louise Von Franz, só devo também acrescentar que o inconsciente coletivo não se trata de metafísica, mas sim puramente de ciência, poderia até afirmar que Jung conseguiu comprovar sua teoria, mas estaria me metendo em um assunto que não passo de um “curioso”, considerando que sou apenas um contabilista que nem sabe dizer se é ateu ou católico xD
    Mais uma vez agradeço pelo texto, e vou terminá-lo assim que minhas tarefas permitirem.

  2. Pant2011
    13 de março de 2015 às 22:33

    Não vou perder o meu tempo. A verdade é que Jonas foi engolido por um peixe. Que Adão e Eva foram os primeiros a habitar a terra . Noé salvou o mundo Deus criou o arco – iris para não se esquecer que o mundo não vai acabar em água….

  3. Cientista Médium
    27 de abril de 2014 às 14:34

    Sou engenheiro, mestre e doutor pela Escola Politécnica da USP. Desenvolvo pesquisa operacional para produção e finanças, além de ser especialista em risco aeroespacial. Sou professor da Fundação Getúlio Vargas e do Insper. Fui agnóstico até 2012, quando minha mediunidade se manifestou e passei a perceber, ver, ouvir e conversar com espíritos seja por psicografia, psicofonia ou mesmo desdobramento. Tenho anotações e gravações com detalhes de todo o ocorrido até agora.
    Tenho buscado insistentemente trabalhos científicos sobre o tema, mas é impossível expressar o quão frustrante é perceber como esses trabalhos são raros, limitados e muitas vezes mal executados. Dr. Stevenson para mim é uma rara exceção.
    Infelizmente as experiências espirituais são pessoais e de valor científico relativo. No que tange o entendimento dos espíritos e das dimensões espirituais fica claro que a ciência, por seu rigor inerente, corre atrasada buscando verificar quais hipóteses religiosas fazem ou não sentido.
    Como agnóstico que ainda me considero, congratulo o excelente trabalho do misterioso autor do site. Percebo o extenso trabalho que este gerou e noto a coerência científica conquistada através do esforço.
    Sem dúvida o espiritismo é um apanhado mal estruturado de idéias, com inúmeros autores, inconsistências lógicas, entre muitos outros defeitos, como a presença de dogmas, baixo cientificismo e defensores irracionais.
    Acho importante dizer que os espíritos possuem defeitos, seguem lógicas estranhas e possuem crenças religiosas muitas vezes baseadas em experiências pessoais. São pessoas similares as encarnadas, porém sem RG, CPF, endereço e história pregressa.
    Tendo dito tudo isso. Agradeço aos espíritas por terem me socorrido nas crises iniciais da minha mediunidade, quando eu era visitado por espíritos perturbados e desequilibrados. Sem dúvida a ciência falhou em me ajudar nesse momento. Os psiquiatras não sabiam o que fazer, mas um tratamento espiritual resolveu o problema em menos de 15 dias.
    A ciência carece de humildade, assim como os espíritas. Ambos possuem limitações, sendo a ciência mais limitada nesse campo e os espiritismo menos flexível. Apesar de tratar ciência e espiritismo como unidades sei que são ambos constituídos de indivíduos e grupos com filosofias e crenças diversas.
    O dia em que ciência tiver orientações para pessoas que como eu estiverem vivendo fenômenos mediúnicos, poderemos considerar que essa saiu do jardim de infância em se tratando de conhecimento espiritual.
    O dia em que o espiritismo conseguir unidade, for capaz de abandonar idéias equivocadas de autores do século XIX, manter valores religiosos, mas não dogmas religiosos, adotar metodologia científica em seus trabalhos e os espíritos tiverem a disposição de se manifestarem de forma verificável, teremos o início de uma união entre ciência e um espiritismo renovado, como ferramenta para desenvolvimento da sociedade.

  4. moizés montalvão
    28 de fevereiro de 2013 às 1:55

    Quando alguém qualifica um texto de “besteira” sem demonstrar onde estaria o besteirol não está dizendo coisa com coisa: apenas ofende gratuitamente. O artigo é esclarecedor, mas mexe com crenças e “certezas”, isso explica o repúdio veemente, embora faltem argumentos aos críticos.

  5. 24 de dezembro de 2012 às 5:35

    então ja somos 3!

  6. 1 de setembro de 2012 às 2:23

    Nem eu.

  7. Anônimo
    27 de agosto de 2012 às 4:39

    Nunca lí tanta besteira em toda minha vida.

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