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A Reencarnação na Bíblia e na Ciência

28 de maio de 2013 Deixe um comentário

A História como o Espiritualismo gostaria que fosse. Gostaria.

Autor: José Reis Chaves, ebm editora, 7ª ed.

Fiquei na dúvida se classificaria este livro como de “Ciência e Religião” ou de “História”. Optei por esta última porque vou apenas me deter ao capítulo VI e VIII da obra, que têm um cunho mais histórico. Bem, aqui vai uma relação de “problemas” encontrados:

São Justino, mártir, autor de Apologia da Religião Cristã, também faz parte da lista de santos reencarnacionistas e sábios do cristianismo primitivo. Segundo ele, “a alma habita corpos sucessivos, perdendo a memória das vidas passadas” (16)

Cap VI. p.203

e em nota de rodapé:

(16)A Reencarnação e a Lei do Carma, pág. 46, William Walker Atkinson, Editora Pensamento, São Paulo, SP.

É uma citação de citação e quem buscar a obra de Atkinson não encontrará referência alguma. Puxa-se o fio para descobrir que não há nada na outra ponta. Por meio de citações análogas feitas por outros espiritualistas, chega-se ao livro Diálogos com Trifão, cap. IV. Quando se lê esse texto, constata-se que Justino ainda era pagão e foi convencido de estar errado por seu interlocutor. Se o leitor ainda acha que ele continuou reencarnacionista ainda cristão, tudo bem. Mas lembre-se: o ônus da prova passa a ser teu, i.e., diga a todos onde ele escreveu isso!

Ademais, São Clemente de Alexandria era liga à corrente gnóstica cristã, e os gnósticos eram contrários à entrega espontânea ao martírio por parte de muitos cristãos da época dele. E, assim, sempre que lhes fosse possível, eles protegiam sua vida contra as perseguições dos inimigos do cristianismo (…)
Fócio, um patriarca de Constantinopla no século IX, era político ambicioso e sem escrúpulos, como diz a História, e responsável pelo Cisma dos Gregos, em 863, foi, no entanto, escritor de talento.

Sempre houve uma certa rivalidade entre os sábios de Constantinopla e os de Alexandria, sendo que os desta cidade sempre levavam vantagem sobre os daquela. E essa rivalidade atingiu os próprios patriarcas das duas cidades.

Não se sabe muito bem por que, pois Fócio viveu cerca de seiscentos anos depois de São Clemente de Alexandria, mas o fato é que Fócio escreveu um trabalho em que desprestigiava muito o célebre sábio de Alexandria, de cuja universidade São Clemente foi reitor. Teria Fócio escrito esse livro por causa da citada rivalidade intelectual que havia entre os sábios de Constantinopla e Alexandria?

O certo é que o Papa Benedito (Bento) XIV, em meados de século XVIII, após ter lido a referida obra do patriarca de Constantinopla, Fócio, decidiu-se pela cassação do título de santo de São Clemente, cujo nome foi tirado do calendário de santos da Igreja.

Se Fócio, como vimos, era um político ambicioso e de poucos escrúpulos, além de ter sido responsável pelo Cisma Grego (863) já mencionado, é estranho que o Papa Benedito (Bento) XIV tenha se deixado influenciar pela citada obra de Fócio. Por isso, nos arriscamos a dizer que o fato dessa cassação do título de santo de São Clemente de Alexandria, por parte de Benedito (Bento) XIV, poderia ter sido, na verdade, a crença de São Clemente na reencarnação, fato esse que passou a se destacar muito, justamente na época de Benedito (Bento) XIV.

cap. VI, pp. 200-1.

Em primeiro lugar, situemos qual obra de Fócio deve ser pesquisada: Biblioteca (Myriobiblon). Ao contrário do que se alega, não foi escrita no intuito de denegrir Clemente de Alexandria por ele ser de uma escola teológica rival, que, por sinal, àquela época já estava sob domínio muçulmano e fora das maquinações da corte bizantina. Biblioteca é, na verdade, um grande conjunto de resenhas de mais de 200 livros de diversos teólogos lidos e comentados por Fócio. No bojo dessa “biblioteca”, Fócio comenta três obras de Clemente de Alexandria e o que talvez seja de interesse dos autores reencarnacionistas seja a entrada 109 acerca da obra Esboços. A questão é que esse livro está perdido atualmente e não dá para saber até que ponto a resenha dele é justa ou não. As outras duas (Miscelâneas e Tutor) receberam comentários bem mais simpáticos. Em Miscelâneas, por sinal, fica claro que o conceito dele de gnose é bem diferente das seitas gnósticas, às quais ele combate no livro.

Orígenes é conhecido como um dos maiores sábios cristãos de todos os tempos. Foi praticamente o criador de nossa teologia cristã. E, como apenas 17 anos, foi reitor da Universidade de Alexandria, em substituição a São Clemente de Alexandria. E diga-se, de passagem, que Alexandria foi o maior centro intelectual do mundo, na época de Orígenes, século 3º.

cap. VI, p. 203.

Eusébio de Cesaréia – o principal biógrafo de Orígenes -, em seu “História Eclesiástica”, Livro VI, cap. III, item 3, informa que Orígenes dirigiu a Escola Catequética da cidade. Um cargo importante para a comunidade cristã, de fato, mas irrelevante para o mundo pagão a sua volta.

São Jerônimo (…) também aceitava a reencarnação. Aliás talvez seja por isso que a Igreja pouco fale de São Jerônimo.

Ele afirma que a transmigração das almas foi ensinada durante um longo tempo na Igreja. (9)

Muito do que escreveu São Jerônimo escreveu está em forma de cartas. Em suas Cartas a Avitus, imperador romano, Jerônimo fala sobre a reencarnação (transmigração das almas) (10).

E eis o que escreveu São Jerônimo: “A transmigração das almas é ensinada secretamente a poucos, desde os mais remotos tempos, como uma verdade não divulgável”.(11)

Cap. VI, p. 210-211

As notas de rodapé são:

(9) Evangelho Esotérico de São João, pág. 68, Paulo le Cour, São Paulo, 1993.

(10) Vidas Passadas – Vidas Futuras, pág. 237, Dr. Bruce Goldberg, Editorial Nórdica Ltda. Rio de Janeiro, 1993.

(11) O Mistério do Eterno Retorno, pág. 123, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, SP.

Não existiu nenhum imperador romano de nome Ávitus durante o tempo de vida de Jerônimo. Apenas trinta anos após sua morte houve um que governou por cerca de um ano. Pouco se sabe a respeito do destinatário dessa carta. Ademais, ela não tem referência elogiosa alguma para a reencarnação, muito pelo contrário: é a carta em que Jerônimo expõe uma sinopse de sua tradução de De Principiis e o critica o tempo todo.

São Gregório de Nissa era reencarnacionista e fazia parte dos teólogos cabalistas que afirmavam que o maior argumento a favor da reencarnação era a justiça de Deus.(14)

Um texto dele: ”Há necessidade de natureza para a alma imortal ser curada e purificada, e se ela não o for na sua vida terrestre, a cura se dará através de vidas futuras e subsequentes.”(15)

Cap VI; p. 212

notas de rodapé:

(14) A Reencarnação e a Lei do Carma, pág 47, William Walker Atkinson, São Paulo, SP.

(15) Reencarnação, pág. 153, John Van Auken, Editora Record, Rio de Janeiro, RJ, 1989; e O Mistério do Eterno Retorno, pág. 123, Jean Prieur, Editora Best Seller, São Paulo, SP.

Bem, estamos diante de mais uma “citação de citação” patrística sem referência exata da fonte. Diz-se o nome do autor, mas nada sobre a obra de onde ela saiu. Chaves até acerta ao afirmar (um pouco antes) que Gregório de Nissa não cria na “eternidade do inferno” e, junto a Orígenes, foi um dos poucos universalistas da patrística. Entretanto, como fica patente em suas obras Sobre a alma e a Ressurreição e Sobre a Construção do Homem (cap. XXVIII), Gregório de Nissa acreditava que a alma se formava junto com o corpo (traducianismo).

Santo Agostinho morreu em 430, ou seja, 123 anos antes de V Concílio Ecumênico de Constantinopla II (553), o qual, supostamente, teria condenado a reencarnação.

Cap. VI, p.209-10

Agostinho de Hipona, mais de 123 antes de 553, já condenava o origenismo com seu sistema inter eras (Dos Processos de Pelágio, cap. IX e X.) e as ideias universalista ao estilo de Gregório de Nissa (Cidade de Deus, XXI, 17), afinal fora contemporâneo à primeira crise origenista. Podes até achar cruéis as palavras de Agostinho – também acho – mas era o que ele realmente pensava. Apesar de sugerir certo tipo de preexistência em Confissões, recusava-se a fazer qualquer afirmação categórica quanto a origem da alma (Da Alma e Sua Origem, Livro I, cap. III) adota a vida única em estado mortal. Uma combinação sui generis. Ironicamente, um autor usado por Chaves – William Walker Atkinson, em A Reencarnação e a Lei do Carma, p. 47; uma página após falar de Justino – já falava da oposição de Agostinho ao origenismo.

A Igreja teve alguns concílios tumultuados. Mas parece que o V Concílio de Constantinopla II (553) bateu o recorde em matéria de desordem e mesmo de desrespeito aos bispos e ao próprio Papa Virgílio, papa da época.

O imperador Justiniano tem seus méritos, inclusive o de ter construído, em 552, a famosa Igreja de Santa Sofia, obra-prima da arte bizantina, hoje uma mesquita muçulmana.

Era um teólogo que queria saber mais que teologia do que o papa. Sua mulher, a imperatriz Teodora, foi uma cortesã e se imiscuía nos assuntos do governo do seu marido, e até nos de teologia.

Contam alguns autores que, por ter sido ela uma prostituta, isso era motivo de muito orgulho por parte das suas ex-colegas. Ela sentia, por sua vez, uma grande revolta contra o fato de suas ex-colegas ficarem decantando tal honra, que, para Teodora, se constituía em desonra.

Para acabar com esta história, mandou eliminar todas as prostitutas da região de Constantinopla – cerca de quinhentas.

Como o povo naquela época era reencarnacionista, apesar de ser em sua maioria cristão, passou a chamá-la de assassina, e a dizer que deveria ser assassinada, em vidas futuras, quinhentas vezes; que era seu carma por ter mandado assassinar as suas ex-colegas prostitutas.

O certo é que Teodora passou a odiar a doutrina da reencarnação. Como mandava e desmandava em meio mundo através de seu marido, resolveu partir para uma perseguição, sem tréguas contra essa doutrina e contra o seu maior defensor entre os cristãos, Orígenes, cuja fama de sábio era motivo de orgulho dos seguidores do cristianismo, apesar de ele ter vivido quase três séculos antes.

Como a doutrina da reencarnação pressupõe a da preexistência do espírito, Justiniano e Teodora partiram, primeiro, para desestruturar a da preexistência, com o que estariam, automaticamente, desestruturando a da reencarnação.

Cap. VIII, p. 231-2

Não há evidência histórica alguma quanto a essas alegações e nem referência que se preze é fornecida. Seria um boato espalhado? O único cronista da época (Procópio: Dos Edifícios, Livro I, cap. IX, e História Secreta, cap. XVII) que comenta sobre Teodora e as 500 prostitutas, não assevera nenhuma chacina e não relaciona isso com o V Concílio. Os cronistas que efetivamente falaram do V Concílio ou do sínodo de 543 (Cirilo de Citópolis: Vida de Saba; Liberato de Cartago: Breviarium…, cap. XXIII e XXIV; Evágrio Escolástico: História Eclesiástica, Livro IV, cap. XXXVIII) mostram que o estopim para a sua convocação partiu de baixo para cima, mais especificamente através da solicitação de monges ortodoxos da Palestina. Nenhum dá importância à Teodora no desenrolar dos acontecimentos e, inclusive, Liberato (cap. XXIV) a expõe como favorecedora de um origenista. Ademais, não há explanação alguma quanto à Primeira Crise Origenista ocorrida 150 anos antes e que praticamente definiu os dogmas da ortodoxia quanto à origem e o destino da alma.

* * *

Bem, o panorama é esse: em pouco espaço de texto, uma quantidade alta de erros históricos. Livros com erros são coisas da vida e compra quem quiser. As edições mais antigas do mesmo livro tinham o título A Reencarnação Segundo a Bíblia e Ciência e, conforme entrevista dada pelo autor, ele teria sido usado para trabalho na PUC-RS. De posse das informações acima, será que ainda seria usado?

O problema desses capítulos é que não se fez uma verdadeira pesquisa a respeito do cristianismo primitivo, em especial, da ortodoxia. Caso estivéssemos falando de seitas gnósticas, seria menos complicado para ele, pois muitas eram realmente reencarnacionistas, apesar de não crerem que estar encarnado fosse algo bom… Onde o livro “peca” é em atribuir à própria ortodoxia um pensamento reencarnacionista moderno. Uma simples leitura das obras da patrística desfaria muito dos equívocos aqui mostrados, mas o que se vê é um apanhado de informações de segunda mão, muitas duvidosas. Não que fazer “citações de citações” seja algo proibitivo, até porque muitas vezes o original pode não estar tão acessível assim, porém até para isso há convenções a que convém seguir. Primeiramente, a referência deve encadear até que se chegue à fonte primária. Quanto mais distante estiver a citação presente da ponta da cadeia, pior; já que aumentam as chances de ter ocorrido alguma prática de misquotation ou cherry picking. Outro pormenor importante é saber de quem você está pegando a informação. É um trabalho acadêmico ou algo de caráter mais jornalístico, voltado à divulgação e ao lucro? As fontes dos capítulos em questão encontram-se majoritariamente neste segundo e bem mais fraco grupo ou, no caso de Teodora, não há uma referência sequer. Isso viola o princípio da verificabilidade: uma fonte bem indicada para que outros possam lê-la e, se for o caso, refutá-la. Até a mal afamada Wikipedia procura seguir isso. E, em terceiro, é preciso ter em mente que fontes primárias são sempre filtradas pelas secundárias. O ideal é sempre ler as primárias e, então, partir para uma gama de secundárias para se inteirar do que os pesquisadores antes de ti já pensaram, porque eles descartaram ou relativizaram esse ou aquele testemunho, e só daí tecer o seu juízo. Afinal você também será uma fonte secundária para outros e deve se embasar em argumentos e evidências de melhor qualidade, e não meramente pinçar esse ou aquele autor que lhe aprouver. Quando isso não é plenamente possível, prefira os autores que fornecem generosos extratos dos originais em que se basearam e os discutem, também mostrando opiniões contrárias as sustentadas, ainda que para mostrar que estão erradas logo depois. As chances de má fé são menores, mas não impossíveis.

No caso da patrística, boa parte dos originais já está disponível ao público. Temos as séries Nicene and Ante-Nice Fathers – já de domínio público – em vários portais como o Sacred Texts ou a Christian Classics Ethereal Libary (em inglês), várias obras de autores cristãos primitivos em Documenta Catholica Omnia (vários idiomas, principalmente grego e latim), e finalmente o Google Books nos oferta digitalizações da Patrologia Graeca e da Patrologia Latina, de Migne. Estas duas últimas são, sem dúvida, as coletâneas mais completas de obras da Patrística atualmente em domínio público. Como a Patrologia Graeca é bilíngue, o conhecimento de latim é suficiente para ambas. Se você é monoglota, existe a coleção Patrística, da editora Paulus. Só que ela não é tão exaustiva como as anteriores e juntar todos os seus volumes pode doer no bolso, além de existir certo preconceito no meio espiritualista contra editoras católicas. Mas cá entre nós: se tens alguma pretensão em ser estudioso (em qualquer coisa), vais ter que aprender alguma língua estrangeira. Viva, morta ou moribunda. Portanto, não há desculpa para deixar de ler os originais neste assunto.

Avaliação: Sem nota. Não avaliei o livro inteiro porque o resto não me atrai tanto, então me abstenho. Mas a porção analisada merece séria revisão.

Recomendado para: quem ainda quer arriscar quanto ao que é dito sobre reencarnação na ciência nesse livro, por sua própria conta e risco. Mas, sinceramente, sugiro que se leia o portal Existem Espíritos. É gratuito, tem vasto estoque de artigos quanto ao estado da arte e, o melhor de tudo, não subordina as pesquisas científicas às crenças religiosas espiritualistas (use a codificação UTF-8 em seu navegador). Para quem souber inglês e desejar saber mais sobre a compatibilidade entre cristianismo e reencarnação, recomendo Reincarnation in Christianity, de Geddes MacGregor. Não que eu assine embaixo de tudo que ele diz, mas ele respeita muito mais a história do cristianismo que a maioria dos autores espiritualistas.

The Origenist Controversy – The Cultural Construction of an Early Christian Debate

16 de agosto de 2012 Deixe um comentário

Por Elizabeth Ann Clark, Princeton University Press.

The Origenist Controversy - visão lateral

Orígenes como você nunca viu (ou leu)!

É muito comum se usar em diversos debates usar um estratagema desonesto chamado de “rótulo odioso”: atribui-se ao oponente algum adjetivo tido como repugnante à plateia. Nos anos 60, quem que defendesse a reforma agrária, mesmo que não fosse compadre do Brizola, podia ser acusado de ter com o comunismo, de ser financiado pelo “ouro de Moscou”. Após a volta da democracia, o perigo está em atacar os ex-guerrilheiros de esquerda e, então, tornar-se suspeito de ser “filhote da ditadura”. Besteira. Achar que pegar em armas era a melhor – ou mesmo a única – maneira de combater os milicos é esquecer dos esforços dos vários políticos cassados do MDB, a ação da OAB pelos direitos humanos e a resistência passiva da Igreja Católica brasileira (já sua irmã argentina…). Chamar de herói quem só combatia uma ditadura de direita para impor outra de esquerda é, no mínimo, equivocado. A pior situação do rótulo odioso é quando o debate é ao vivo. Nessa circunstância, o calor das emoções embota o raciocínio e o tempo para o acusado ressaltar suas diferenças em relação ao atribuído é exíguo.

Por que estou relembrando essas histórias? Talvez seja uma atitude defensiva minha, mas já preparo terreno para o que pode vir. Desqualificam traduções porque o tradutor talvez tivesse interesses em defender certa facção, sem analisar o próprio texto traduzido. Um historiador não pode ser usado por ser membro do grupo vencedor (algum não é?). Um católico/protestante/ateu não pode criticar o espiritismo por ser fanático ou detrator. Assim, fica fácil. Porém é bem mais difícil acusar quem é do meio, ainda mais se for respeitado. Por isso, ninguém melhor para falar de Orígenes do que uma estudiosa declaradamente simpática a ele. Elizabeth Ann Clark (favor não confundir com a Prophet):

Minha abordagem, como mesmo um leitor desatento poderá notar logo, é admitidamente partidária. Trouxe todos os documentos que conheço para sustentar minha interpretação dos eventos, Estive ciente do começo ao fim de fazer uma leitura simpática do lado origenista do debate. Evágrio Pôntico, Rufino e os pelagianos são, portanto, os “heróis” de meu relato – e não Epifânio, Jerônimo e Agostinho. A minha abordagem não é a mesma da maioria dos livros-texto de teologia. É, em vez disso, uma tentativa de promover, por consideração, a teologia derrotada que, por alguns anos, moveu o mundo cristão em direção a uma nova criatividade intelectual.

Introdução.

Curiosamente, Clark fala pouco de Orígenes, dedicando-se mais a contar o que foi feito dele após sua morte. Ele é analisado de forma retrospectiva a partir das críticas de grandes antagonistas dos séculos IV e VI e de seus defensores. Como a própria diz na introdução:

Ainda permanece uma pergunta irritante: o debate era realmente sobre Orígenes? Por alguns ângulos, a resposta é não: “Orígenes” servia como uma palavra-código para vários tópicos problemáticos aos cristãos na virada do século V.

No primeiro capítulo, a autora ambienta o leitor com as relações de mecenato existentes ao fim do século IV. Muitas das personagens envolvidas nos ácidos debates (Jerônimo e Rufino, por exemplo) gozavam de generoso patrocínio de viúvas ricas. Mulheres a maioria das vezes desconhecidas para o grande público, mas que, por causa das redes socais de amizade e antagonismo que teceram, contribuíram para dar à crise origenista do século IV um tom extremamente vigoroso, para não dizer passional. Além de motivos teológicos, houve razões de cunho bem pessoal para que seus protegidos se empenhassem tanto; afinal, num mundo bem mais religioso que o nosso, era de vital importância garantir que realmente representava e defendia o “lado ortodoxo” da questão.

Rufino, Jerônimo e vários outros contendedores foram monges e promoveram comunidades monásticas em determinada etapa de suas vidas. Pois é pelo monacato oriental que surgiu outra faceta da primeira crise origenista, discutida no capítulo II. Entre os monges eruditos do deserto, a teologia origenista evoluiu para formas mais radicais, representadas principalmente na Kephalaia Gnostica de Evágrio Pôntico. O homem ainda mantinha ou não a imagem e semelhança de Deus ou as perdera depois da queda, quando teria recebido o invólucro carnal? Que repercussões isso teria para o sacramento da Eucaristia? O corpo de Deus (Cristo) poderia ser representado lá? Muitos historiadores da Igreja, como assinala Clark, acusam a repressão promovida pelo patriarca de Alexandria, Teófilo, aos monges do mosteiro de Nítria em 399 d.C. como motivada por fins políticos. Sua brevidade sugere que ela não era sincera ou motivada por fins exclusivamente teológicos. Ainda que fosse assim, as acusações de origenismo podiam, sim, ter certa razão, baseando-se na difusão que o evagrianismo alcançou nos mosteiros dos desertos.

Teófilo, por outro lado, pode ter apenas reproduzido um comportamento que já era recorrente desde meados do século IV: acusar adversários teológicos (ou políticos) de origenismo. Por incrível que pareça, a acusação de ser “origenista” se tornara um “rótulo odioso” tal qual comentado acima. Orígenes escreveu sua obra para uma realidade em que o gnosticismo era o principal desafio à teologia ortodoxa, mas após cem anos o panorama mudara bastante. De seita marginal, o cristianismo passou a ser a religião imperial e seus principais antagonistas também já não eram os mesmos. A controvérsia cristológica de Niceia ainda não estava bem resolvida e, por muito tempo, o arianismo rivalizou ombro a ombro com os trinitários; no campo pagão e sincrético, o determinismo do qual alguns gnósticos eram acusados ressurgia no maniqueísmo. Seria o subordinacionismo (hierarquia entre Pai, Filho e o Espírito Santo) de que Orígenes era acusado uma característica ariana? Se o corpo físico era um resultado da queda das almas, então a reprodução humana era algo ruim, como alguns grupos maniqueus pensavam? Que lugar teria o corpo na ressurreição? Sua restauração universal conflitava com a teoria de Jerônimo da hierarquia celestial baseada no mérito da renúncia ascética? Como essas diversas questões mexeram com a cabeça dos antiorigenistas é o assunto do capítulo III, quando é feito um retrospecto das acusações de origenismo feitas de 370 até cerca de 450 d.C., passando de Epifânio até o longevo Shenute [também grafado Shenoute ou Shenoud. Não encontrei sua versão em português]. A conclusão desse apanhado é que a definição do origenismo e seus pontos problemáticos era extremamente elástica. Nas próprias palavras da autora:

Uma passagem cronológica pelos escritos de Epifânio, Teófilo, Jerônimo e Shenute que dizem respeito ao origenismo proverá uma indicação surpreendentemente próxima de como temas da teologia de Orígenes faziam interseção com questões religiosas de suas próprias épocas. (…) Pelo exame dos escritos de cada autor na ordem de sua composição, podemos notar os pontos exatos em que novas referências surgem e lançar algumas hipóteses sobre as razões do surgimento delas.

Nem só da fala dos opositores foi feita a primeira crise origenista. De seus defensores, destacam-se os grandes nomes de Pânfilo e Rufino. Pânfilo defendeu em Apologia em prol de Orígenes que, onde soava mais herético, o teólogo alexandrino apenas expressara uma opinião pessoal acerca de temas que Igreja ainda não tinha uma tese definida – como a origem das almas – e para tanto usou o próprio prefácio de De Principiis. Citou largamente tratados de Orígenes para assegurar que ele atacava grupos hereges notórios, defendia uma visão ortodoxa da Trindade e tinha uma visão tradicional da ressurreição. A ironia (capítulo IV) é que uma das obras usadas por Pânfilo para defender a questão da ressurreição (Comentário sobre o I Salmo, v. 5) é a mesma que Epifânio se valeu para acusar Orígenes de uma opinião heterodoxa. Cada lado via o que queria! Quanto a Rufino, sua participação se deu em longa e tensa controvérsia com Jerônimo. Por estranho que pareça, ambos foram amigos e Jerônimo deveu muito ao estilo de interpretação alegórico de Orígenes em suas primeiras obras. Quando Rufino lançou sua tradução latina de De Principiis e incluiu o nome de Jerônimo em seu prefácio, dando a entender que ele também era simpatizante, Jerônimo se alarmou: sua reputação como ortodoxo poderia estar em risco. Jerônimo providenciou sua própria tradução (da qual resta apenas a sinopse contida em sua carta a Ávito) e acusou Rufino de despudoradamente editar o texto grego, eliminando suas partes mais heréticas. Rufino defendeu sua tradução em um tratado onde alegava que boa parte dos textos de Orígenes já estava corrompida e apenas tentou restaurar o texto de suas fases espúrias, dando razoáveis justificativas para isso. Traduziu, também, a Apologia de Pânfilo e escreveu seus próprios ataques a Jerônimo.

No balanço geral, Rufino levou a pior na briga contra Jerônimo. No ocidente, a teologia origenista entrou em rápido declínio com a morte de seus principais partidários pouco após o saque de Roma pelos visigodos (410 d.C.), entre eles, Rufino. Mesmo assim diversas questões levantadas pelos origenistas ainda estavam em aberto, em especial, o Problema do Mal; afinal como conciliar a bondade divina com a maldade do mundo? No vácuo deixado pelo origenismo, Clark narra no capítulo V a ascensão de uma novo sistema teológico que também condenava origenismo, mas se dispunha a tapar o buraco deixado por sua rejeição: o pelagianismo. Sem explanar sua teologia em detalhes aqui, pode-se adiantar que Pelágio e seus continuadores conseguiram criar um sistema coerente que conseguia solucionar boa parte da questão do Mal sem apelar para preexistência. Baseavam-se grandemente no livre-arbítrio humano: cada bebê nasceria puro como Adão antes da queda, mas tal como ele, cometeria pecados ao longo da vida. Cabia a fiel zelar por todos os mandamentos e se abster de pecar. Cristo mostrou como isso era possível. A questão dos gêmeos (Esaú e Jacó), por exemplo, foi respondida valendo-se do atributo de onisciência divina: Deus teria antevisto tudo o que cada irmão faria por espontânea vontade e daí escolhido seu preferido. Apesar não terem obtido uma explicação satisfatória para o sofrimento infantil, não tinham medo de encará-la e matutaram longamente sobre a questão. Sua ênfase na responsabilidade individual em seguir os mandamentos ou pecar e, portanto, ser senhor de sua própria salvação se chocava com a opinião de teólogos do ocidente como Agostinho de Hipona. Onde ficaria a graça divina nesse sistema? Mas graça não envolvia um bem imerecido, uma espécie de determinismo tão criticado pelos pelagianistas? A solução aceita pela ortodoxia foi sintetizada por Agostinho em sua teoria do pecado original que, de certa forma, sugeria que a queda de Adão era transmitida a seus descendentes. Mesmo fazendo essa observação, Clark repara no igualitarismo da humanidade em sua condição de pecadora e na recusa sistemática do teólogo latino em tomar uma posição quanto à origem da alma, o que a leva a não crer que tenha sido essa a mensagem implícita dele. Ao fechar o capítulo, faz uma declaração que vale alguns minutos de reflexão:

Mais apropriadamente, seu postulado de pecado original “representa” uma teoria de preexistência da alma e queda no corpo. Foi a surpreendentemente única reconstrução agostiniana da teodiceia de Orígenes que iria influenciar toda a posterior teologia do ocidente.

Repare nas aspas. É provável que Agostinho negasse isso até a morte, mas ele teve que aceitar algum grau de origenismo ainda que fosse para criar um sistema meia-boca. Tal como o Evangelho de João foi o “gnosticismo” de adentrou na ortodoxia, a solução de Agostinho foi o origenismo aceito por ela. Como não faz sentido falar em um e, sim, em vários sistemas origenistas nos séculos IV e V, não há razão para negar ao agostinianismo um lugar na família. Será que se vivesse em Roma, em vez do norte africano, ou lesse mais avidamente os materiais gregos ele teria uma postura diferente? Conforme Clark assume na conclusão, esta é uma pergunta “perturbadora” e “irrespondível”.

O pelagianismo foi rechaçado no Concílio de Éfeso (431 d.C.) e desapareceu como seita herética. Mas a história não acaba aí, já que o origenismo oriental continuou a existir no deserto egípcio ao longo do alto rio Nilo durante o século V. Sua versão radical se instaurou na Palestina do século VI, mais especificamente no panteísmo final do partido “isocrista”. A briga deste com os origenistas moderados marcou o colapso do movimento após o II Concílio de Constantinopla.

Além de uma referência ao relato dado por Cirilo de Citópolis, Clark pouco fala dos episódios do século do VI. Eles transcendem o escopo do livro e, de certa forma, pouco têm a acrescentar. As ações dos monges do mosteiro Nova Laura e a intervenção de Justiniano tiveram lá sua importância histórica, mas empalidecem tremendamente diante da primeira crise origenista dos século IV e V. Foi essa época que gerou as mais intensas discussões teológicas, envolvendo personagens que viviam em lugares tão variados como Roma, Constantinopla, Alexandria, Jerusalém e África Romana. Grandes membros da patrística como Jerônimo, Rufino e Agostinho tomaram parte nelas e catalizaram o processo iniciado em Niceia de consolidação do credo ortodoxo. Mesmo declarando sua simpatia pelo origenismo (e pelagianismo), Clark, sem querer, deixa uma importante lição para aqueles que continuam a defender a teoria conspiratória de que “a Igreja até 553 acreditava na reencarnação e ela foi proibida por um casal de monarcas”. Primeiro que nem todos os sistemas origenistas advogavam a reencarnação e, segundo, quando o faziam, não era nos moldes espiritualistas modernos; terceiro, Orígenes nunca foi consenso, sendo que sua rejeição levou décadas de acaloradas discussões feitas por teólogos, não por imperadores; quarto, a consolidação da ortodoxia já havia se delineado pelo menos 120 anos antes. A segunda crise origenista foi uma erupção datada e de efeito local, um fenômeno mais especificamente palestino. Perto de sua antecessora, ela foi fim de feira.

Mas não há livros em português que também tratem essas duas crises de forma panorâmica? Pode ser que haja, mas os livros de grande aceitação junto ao público espiritualista não tratam o assunto dessa forma. Dou quatro exemplos: Holger Kersten (Jesus Viveu na Índia), Severino Celestino da Silva (Analisando as Traduções Bíblicas), José Reis Chaves (A Reencarnação na Bíblia e na Ciência) e Elizabeth C. Prophet (Reencarnação – O Elo Perdido do Cristianismo). Kersten e Celestino falam apenas da segunda crise e da nada embasada conspiratória do assassinato das 500 prostitutas pela imperatriz bizantina Teodora. Chaves também se restringe só a segunda crise, cita a conspiração sem chegar a endossá-la totalmente, mas ainda dá a Teodora uma importância que ela nunca teve. Os três dão a errônea ideia que o origenismo foi amplamente aceito, inclusive pela patrística ortodoxa, até o século VI. A abordagem “menos infiel” aos fatos é a de Prophet. Vale comentar que Clark consta na bibliografia de Prophet, mas a discípula não fez jus à mestra. Se o fizesse não usaria a tradução inglesa de De Principiis feita por Butterworth, a partir da desastrada reconstituição alemã de Koetschau (capítulo III, nota 1 de Clark); não dividiria simploriamente os monges egípcios em cultos (origenistas) e incultos (antiorigenistas), pois muitos dos antiorigenistas, egípcios ou não, eram monges de cultura (Jerônimo que o diga); nem esqueceria de dizer que a condenação de 553 contou com a sabotagem interna dos origenistas protoktistas (posfácio de Clark). Só que não é possível falar da rixa entre estes e os isocristas omitindo uma importante personagem: Evágrio Pôntico, pois foi derivado dele o origenismo rejeitado em 553. Uma simplificação menos radical, mas ainda indevida, dos fatos foi feita por Prophet, pois muitas vezes o “debate não era sobre Orígenes”.

O que torna Clark diferente desses quatro? É que, para ela, Orígenes não é um “mártir reencarnacionista”, e, sim, uma “chance perdida” e houve até uma segunda chance (Pelágio). Apesar de simpatizar com os origenistas, ela não demoniza seus adversários com atributos de “incultos”, “fanáticos”, “maus”. Muito pelo contrário, ela faz uma reconstrução em profundidade deles, buscando, na realidade de sua época, as razões para tenham agido de tal maneira. A consequência é que sua narrativa é bem mais profunda e muito menos emotiva que a de suas contrapartes espiritualista. Clark honra o passado tentando reconstitui-lo em toda sua complexidade, pesquisando em cerca de 250 páginas um período de tempo (350 – 450) que os demais não dedicaram nem um décimo em papel.

Avaliação: 9,0. Darei 10,0 se vier uma continuação. Não que eu assine embaixo de tudo que ela escreva, mas tenho de admitir sua tese foi extremamente bem defendida. Ah! Existe uma virtude grande nela: além de uma quantidade imensa de citações, a amostragem que fiz revela que são genuínas e devidamente contextualizadas. Isto é algo que ainda estou para ver em seus congêneres já editados em língua portuguesa.

Recomendado para: quem ainda considera Prophet, Chaves, Celestino e Kersten o supra-sumo da historiografia do tema.

Armas, Germes e Aço – O destino das sociedades humanas

9 de dezembro de 2011 Deixe um comentário

Por Jared Diamond, Ed. Record.

Capa de Armas, Germes e Aço

Uma breve história da humanidade.

Este livro descreve uma das mais longas e gratificantes respostas a uma (não tão) simples pergunta. Quando certa vez esteve numa Nova Guiné prestes a conquistar a independência, o biólogo Jared Diamond foi interpelado por um político local – Yali – que lhe indagou com olhos brilhantes:

Por que vocês, brancos, produziram tanto “cargo” [machados de aço, fósforos, remédios, roupas, etc.] e trouxeram tudo para a Nova Guiné, mas nós, negros, produzimos tão pouco “cargo”?

Diamond não deu uma resposta satisfatória naquele instante. Foram necessários 25 anos para o término desta obra-prima, mas provavelmente algumas respostas fáceis (e insatisfatórias) o leitor já deve ter tido acesso. Uma foi a disparidade tecnológica entre os europeus e os povos recém “descobertos” da América e Oceania, o que facilitou a rápida conquista de um pelo outro. Outra resposta oferecida está no LE, cap. V:

(6) Por que há selvagens e homens civilizados? (…) Segundo ela [a doutrina espírita], não há muitas espécies de homens, há tão somente homens cujos espíritos estão mais ou menos atrasados, porém todos suscetíveis de progredir.

A primeira “resposta” peca por contar a história a partir do meio – dos grandes descobrimentos para cá – não deixando claro por que não foram os polinésios que conquistaram a Europa. A “solução” kardecista faz sentido dentro da obra à luz da questão 53:

O homem surgiu em muitos pontos do globo?
R:”Sim e em épocas variadas, o que constitui a causa da diversidade de raças” (…).

Sobre esse pressuposto, os “selvagens” seriam raças mais recentes, cujos corpos seriam habitados por espíritos mais jovens que os dos europeus. Kardec nunca deve ter realmente convivido com “selvagens”, tal como o bem viajado biólogo e espiritualista inglês Russel Wallace que se impressionou com a sofisticação cultural de muitos nativos, ou o próprio Diamond, que comenta no prólogo: “Nós dois [ele e Yali] sabíamos perfeitamente bem que os cidadãos de Nova Guiné são, em geral, tão espertos quanto os europeus.” Mesmo sem ter de apelar para uma “correção política” para refutar a proposta kardecista, ela esbarra no fato de ter se baseado em pressupostos falsos. Primeiro, não importa que se adote a visão da escola monogenista (predominante no momento) ou poligenista, as raças humanas se desenvolveram concomitantemente, sendo igualmente velhas. Segundo e principal: há quinze mil anos, após o término da última glaciação e o começo de um longo período de estabilidade climática, todas as comunidades humanas se encontravam no estágio de caçadores-coletores. Pode-se dizer que no ponto de vista tecnológico, cultural e de organização social, toda a humanidade teve um ponto de partida relativamente semelhante.

A resposta de Diamond está longe de qualquer reducionismo: é sofisticada e multidisciplinar. Lança mão da história, geografia, linguística, antropologia, ecologia e política para mostrar a quantidade de fatores que convergiram para o casual sucesso europeu em relação ao resto do mundo. Porém, em meio a esse banho de cultura, há uma linha mestra: geografia foi destino. Não, não. Pode ficar calmo que não se trata de uma reedição de teorias de que o “homem é produto do meio” da antiga “escola determinista” (nem Ratzel, seu fundador, era tão simplório assim). Ao contrário dos antigos deterministas, Diamond não prega que um ambiente hostil estimule a operosidade de seus habitantes (por exemplo, a presença de uma estação fria) ou elimine os indolentes, muito pelo contrário: se o ambiente é extremamente parco de recursos, não há muito o que fazer além de sobreviver, como fizeram os ancestrais dos atuais beduínos e esquimós. Diamond segue pista oposta: uma avaliação de como o meio pode limitar plena manifestação de todo potencial humano e, principalmente, evitar que uns se beneficiem dos avanços de outros.

Para tanto, o autor se vale de um “experimento social”, suas cobaias foram as ilhas da Oceania. É feito todo um retrospecto do processo de colonização dessa parte do globo a partir da Ásia, o que cada recém-chegado trazia consigo de bagagem técnico-cultural, que plantas e animais encontrava (ou levava) em condições de ser domesticado, aspectos naturais hostis encontrados, a influência de tamanho de cada ilha na capacidade de sustentar populações maiores e de organização mais complexa e, principalmente, o quanto o isolamento geográfico de cada ilha determinou fluxo de inovações entre eles. Então, à época das grandes navegações, surge um mosaico antropológico, com toda uma gama de sociedades mais ou menos complexas espalhadas pelo Pacífico.

É dessa conjunção entre geografia e ecologia que autor dá o pontapé inicial em sua tese. Há dez mil anos ocorreu o principal marco que definiria a separação entre “civilização” e os antigos caçadores-coletores: o advento da agricultura, sendo que ela surgiria primeiro onde era mais propícia, ou seja, nos grandes vales fluviais da Eurásia (Europa + Ásia) – o Crescente Fértil, no Oriente Médio, os rios Indo e Ganges, na Índia, e os vales chineses do rios Azul e Amarelo. O que determinou a permanência da vantagem desses centros foram particularidades do continente eurasiático: a maioria de seus rios e caminhos terrestres o cortam em sua dimensão principal, permitindo um alto fluxo de povos, mercadorias e inovações. A Europa, inicialmente, estava bem atrás dos seus parceiros asiáticos, mas conseguiu “queimar etapas” por se beneficiar da grande herança que outros povos lhe forneciam. Poucas inovações da Antiguidade foram genuinamente europeias, até mesmo o alfabeto – que registrou a orgulhosa literatura greco-latina – é herdeira de longo desenvolvimento iniciado com os primeiros pictogramas do Crescente Fértil. A África tinha duas grandes barreiras para difusão dessa prosperidade para o sul do continente: o Saara ao norte e uma densa floresta tropical ao centro. A maioria de seus rios a corta na direção leste-oeste e não norte-sul. Da mesma forma a América tinha um panorama pouco propício a um rápido intercâmbio entre povos. Desenvolvimentos autóctones rumo a processo civilizatório pleno estavam bem adiantados em ambos os continentes (que o diga os Impérios Inca e Asteca, na América, e o reino Zulu, na África), porém eles foram mais tardios e abortados pela invasão europeia. Uma outra conjuntura natural dos eurasiáticos lhes deu vantagem crucial contra americanos e africanos: a presença de uma boa gama de animais domesticáveis. Além de útil fonte proteica, de roupas e de força; houve mais um subproduto não muito desejável da domesticação: doenças, ou melhor, enfermidades originalmente próprias de determinados animais passaram ao homem quando aumentou a intimidade dos contatos dos nossos ancestrais com eles. Isto explica a grande disparidade de doenças que europeu levaram à Américas e as que trouxeram de lá. Fora o lhama, não houve outra espécie animal de grande porte americano domesticado. A maioria da megafauna americana fora extinta ainda na pré-história. Mais do que a pólvora (passada a surpresa inicial, os arcabuzes de um tiro só não eram páreos para flechas), foram os germes e cavalos que permitiram a um punhado de espanhóis conquistar as capitais de impérios.

Isto diz a vantagem da Eurásia sobre a América, mas ainda está em aberto por que a Europa suplantou a Ásia nas grandes navegações. Cem anos antes de Colombo e Vasco da Gama, chineses se lançavam pelo Índico e Pacífico em embarcações que fariam as caravelas parecerem cascas de noz perto delas. Até que uma facção rival ascendeu ao poder e eliminou sistematicamente tudo o que lembrasse o governo anterior, incluindo os grandes barcos e seus estaleiros. Por um capricho palaciano, a China ficou quatrocentos anos marcando passo. Por pouco, que sabe, não teríamos um “Lun yu segundo o espiritismo”, Confúcio como o espírito mais evoluído que já encarnou no planeta e governador espiritual do mesmo, e um tal de “Ká dé-ki” teria, em sua compilação, situado os europeus entre os chineses e negros na escala das raças… Quando os europeus lá chegaram com seus navios e cheios de exigências, eram os nativos que se assustavam com a potência de seus canhões (a pólvora foi invenção chinesa, ironicamente) e o tamanho das embarcações com relação a seus juncos. A China tinha virado um “gigante de pés de barro”, meio lerda para reagir. Mas reagiu! Como assinala Diamond, a geografia voltou a ter um dedo aqui. O compacto território da China permitiu que ela passasse a maior parte de sua história com um bloco monolítico, sem grandes adversários internos ou externos. Era viável um regente fraco fazer uma grande cagada e ficar por isso mesmo, ou só afetar seu povo. O panorama entrecortado da Europa, por sua vez, fez com que fosse dificílimo que alguém a unificasse. Mesmo Roma em seu apogeu não dominava nem metade dela. Com isso, uma cabeça coroada fraca de reino podia se compensada com a de outro. Colombo tomou vários “nãos” antes de conseguir patrocínio da Espanha. Quando o ouro começou a chegar aos borbotões, os demais monarcas correram atrás do prejuízo antes que fosse tarde. Eles possuíam rivais imediatos, mas a China, não.

No outro extremo do progresso, estariam os aborígines da Tasmânia, ao sul da Austrália. Os tasmanianos foram o povo mais tecnologicamente primitivo que a história já registrou. Diferentemente dos aborígines do continente australiano, os tasmanianos não sabiam acender fogo, não tinham bumerangues, atiradores de lança, utensílios de pedra especializados, machados com cabo, canoas, agulhas de coser nem habilidade para pescar. o registro arqueológico mostra que seus ancestrais haviam chegado do continente australiano com essas tecnologias 10 mil anos antes. Mas a faixa de terra que ligava a Tasmânia ao continente submergiu, e a ilha ficou isolada do resto do mundo. Diamond imagina que qualquer tecnologia pode ser perdida em uma cultura em algum momento de sua história. Quem sabe a matéria-prima tenha escasseado e as pessoas tenham parado de fazer os artigos que dependiam dela. Ou talvez todos os artesãos especializados em uma geração tenham sido mortos por uma tempestade anormal. Talvez o capricho de algum sacerdote ou chefe retrógrado tenham imposto um tabu sobre a prática por uma razão fútil. Sempre que isso acontece com uma cultura que tem contato com outras, a tecnologia perdida pode ser readquirida quando as pessoas demandam o padrão de vida mais elevado que seus vizinhos desfrutam. Mas na isolada Tasmânia, o povo teria precisado reinventar a proverbial roda toda vez que ela fosse perdida, por isso seu padrão de vida gradualmente se deteriorou. Mesmo na Eurásia, as culturas que eram isoladas por terrenos montanhosos – por exemplo, nos Bálcãs e nas highlands escocesas – permaneciam atrasadas por séculos em comparação com a vasta rede de pessoas à sua volta.

Diamond não cai nas armadilhas de considerar a epopeia humana apenas uma sucessão de fatos tomados por líderes, como era nos tempos da antiga historiografia, nem a considera um instrumento regido por inexoráveis forças, no qual os indivíduos são meras peças sem o saber, tal como sempre fizeram os religiosos e, posteriormente, os marxistas. Há um meio termo entre os dois no qual o que ocorre a indivíduos pode fazer toda uma diferença, como um acidente automobilístico ocorrido na Alemanha entre guerras que, se tivesse matado certo passageiro, talvez evitasse uma guerra e poupasse inúmeras vidas; por outro lado, houve grandes contingências com as quais nossos longínquos ancestrais pouco podiam fazer. Veja só: o cavalo teve todo o seu desenvolvimento evolutivo em solo norte-americano. Por ocasião das glaciações, com o soerguimento do isto do Panamá e o breve estabelecimento de uma “ponte” entre o Alasca e a Rússia, migrou para a Eurásia e América do Sul. Por razões ainda muito discutidas, extingui-se nas Américas, sobrevivendo apenas em seu lar adotivo de outro hemisfério. Numa hipótese plausível, o cavalo poderia ter sobrevivido no “Novo Mundo”, sido domesticado pelos indígenas, que passariam a contar com um grande animal de carga e corrida, venceriam melhor cordilheiras e distâncias, difundindo mais rápido os conhecimentos das grandes civilizações ameríndias. Quando chegassem aqui (se os índios não chegassem à Europa antes), os espanhóis não teriam a vantagem das cargas de cavalaria sobre os exércitos de infantes incas e teriam perdido a guerra. Possível? Sim. Os índios norte-americanos domesticaram por conta própria os cavalos que retornam ao continente trazido pelos colonizadores e voltavam ao estado selvagem caso escapassem. Graças a isso, a conquista do oeste norte-americano deu mais trabalho aos “ianques” do que a conquista da América Latina. E poderia ter sido pior que se os revólveres e rifles de repetição não fossem bem mais eficientes que os velhos arcabuzes. Por uma particularidade ecológica, a Europa teve uma vantagem determinante num instante crítico. Enfim, os europeus não foram vitoriosos na conquista do mundo por serem melhores por genética ou espírito. Simplesmente porque tinham condições de aproveitar melhor o princípio de que “muitas cabeças pensam melhor que uma”. Hoje, a tecnologia nos liberou das amarras da natureza em grande parte. As culturas modernas ainda têm forte peso do que aconteceu no passado, contudo são fatores que podem ser identificados e transformados.

Avaliação: 10,0. Sem dúvida, fez todo o jus ao prêmio Pulitzer que recebeu na categoria “não-ficção geral”, 1998. “Armas, Germes e Aço” vale mais pelo transcurso da viagem a que te convida, que pelo seu destino final. Tudo o que foi escrito acima é uma super-simplificação da narrativa.

Recomendado para: quem quer ser “politicamente correto” sem ser falso ou forçado.

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Analisando as Traduções Bíblicas

11 de outubro de 2011 9 comentários

Tem caroço nesse angu!

Um Adendo

Para saber mais

Ao final de março de 2002 o jornalista Élio Gaspari publicou artigo n’O Globo (“Sinfonia dos Educatecas Doidos”) apontando erros factuais sobre o livro didático “O Brasil Atual e a Mundialização”, de Zilda Iokoi. Parte de sua motivação não estava nos erros em si, mas no fato de o livro ter se tornado a fonte de estudo para mil escolas públicas. Foi um auê na comunidade acadêmica. Gaspari respondeu com outro artigo (“Aos colegas, tudo. Aos fatos e aos alunos, o rigor da lei”) a um professor da USP que saíra em defesa de sua colega. Ele acusava o jornalista de ter “ranço positivista da história das datas, dos nomes e da sucessão dos fatos“. Gaspari deu um troco à altura, mostrando que positivismo nada tem a ver com “datas e nomes”, a historiografia clássica podia, sim, fazer obras-primas como “o 18 de Brumário de Luís Bonaparte” na qual um dos maiores autores da aclamada “ala progressista” – Karl Marx – não se furtou ao uso de pesada bagagem factual. Toda correta. De quebra, jogou mais erros factuais do livro e alguns extratos de conteúdo conceitual, no mínimo, questionável, que indicavam um viés ideológico da autora de “O Brasil…” tão alto a ponto de transformar a história numa sucessão de teorias da conspiração.

Para quem estava de fora, parecia que Gaspari incomodara não por criticar um livro, mas por ser um “estranho no ninho”, furão, bicão. E quem sabe o fosse mesmo, por isso não teve nenhum pudor de meter o bedelho numa situação a qual os profissionais da área se omitiam. E nada de chamá-lo de reacionário, pois quem leu seu livro “Ditadura Escancarada” sabe muito bem de quem ele toma partido. Bem, o que tem a ver a pendenga acima com esta resenha? Muita coisa. Entre as idas e vindas internéticas, recebi um comentário de um apologista: “Não acho nada ético ficar apontando erros de livros. Devemos alertar os autores para que corrijam suas obras”. Curiosamente, ele mesmo confessara não ter tido muito sucesso em fazer Celestino corrigir um erro. Daí pergunto: será que Gaspari conseguiria que uma versão revisada de “O Brasil…” se não tivesse jogado “esterco” no ventilador? A postura que rolou mais entre os historiadores não foi a de ética e, sim, o corporativismo. Por isso achei um tanto ingênua a fala de meu interlocutor. Talvez ele achasse ético um portal com os erros e contradições da Bíblia (há muitos por aí), sobre as Cruzadas, o Santo Ofício ou atacando o padre Quevedo. Isto não é um “tu também”, simplesmente a constatação de uma propriedade intrínseca da natureza humana: muitas vezes só nos aperfeiçoamos sob o atrito com nossos adversários. Assim como muito deste portal evoluiu no melhor estilo “corrida armamentista”, sofisticando-se a medida que as refutações a ele aumentavam, quem sabe esta resenha sirva para um “Analisando…” revisado, ou que simplesmente saia de circulação. De repente o tiro sai pela culatra e o leitor fica curioso demais e sai correndo comprá-lo. Outros podem pensar duas vezes antes de abrir a carteira, uma parcela ínfima – porém agressiva – de paladinos sairá em sua defesa.

Há algo de errado com esta obra, que deveria ser seriamente repensada e revisada. Muito de lá já foi falado em “Reencarnação na Bíblia”. Primeiro e principal erro, que é a causa de muitos outros ao longo da obra, é a crença de que existe disponível um original hebraico (i.e. o texto massorético – TM) a partir do qual toda tradução “fidedigna” deve se calcar. No caso, a dele. O TM, apesar de estar no idioma do original, ter tido grande estabilidade e ser o ponto de partida dos estudantes, está longe do que fora os “autógrafos” de cada um de livros. Mesmo que não existisse nenhuma outra versão, paralelos em textos análogos extraídos de livros distintos denunciam evolução do conteúdo e edição. A consequência direta dessa postura do autor é uma verdadeira depreciação do testemunho versional. No capítulo II, o autor traça uma história das traduções bíblicas simplesmente que distorce a origem das versões gregas e latinas e retira todo o seu valor como aparato crítico para o TM, em especial a Septuaginta (LXX). Isso poderia ser até compreensível antes da restauração e publicação dos manuscritos do Mar Morto, quando se pensava que as discrepâncias do texto grego eram devido a traduções parafrásticas ou puro erro. Hoje, principalmente devido aos manuscritos, sabe-se que havia uma pluralidade textual grande no período intertestamentário e muitos texto encontrados refletiam a tradição grega. Ou seja, a LXX é uma janela para uma versão hebraica hoje perdida. O desprezo da LXX ainda era comum mesmo entre grandes autores até a década de 80, como observou o hebraísta Emanuel Tov, o que poderia ser até um atenuante para Celestino, mas não o é como explicarei depois.

Celestino aparenta realmente entender de hebraico. O que não fica muito claro é o quanto ele entende de uma gramática histórica do hebraico, para uma crítica textual de qualidade. No capítulo VIII, em que analisa a troca das preposições (`al – sobre) em ex. 20:5 e 34:7. O capítulo abre com uma transcrição em hebraico desta preposição e outra (`ad – até) sugerindo nas entrelinhas que uma não poderia ter sido trocada pela outra numa tradução descuidada, ainda que bem intencionada. O que mela a análise do autor é que (`al) pode ter muito mais sentidos, em parte devido a uma evolução linguística do hebraico que a tornou homófona com outra preposição ('el – a, para), o que pôde ter levado a confusões quando um texto era ditado para outros copiarem. O resultado é que se pode achar textos hebraicos (4Qsama) em que essas três preposições foram intercambiadas. Além de faltar uma visão histórica da evolução do hebraico, há coisas que chamam muita atenção nesse capítulo: o texto grego é usado quando confirma a tese do autor (ex. 34:7) e omitido quando discorda (ex. 20:5). E mais: Celestino erra quanto ao uso da preposição latina in, que explica muito do que ocorre nas traduções modernas que se baseiam na Vulgata. Poucas análises do livro são tiradas do latim, não deixando claro o quanto o autor domina desse idioma.

Os erros citados nos parágrafos acima poderiam ter sido facilmente evitados caso uma leitura mais cuidadosa do “Bíblia Judaica e Bíblia Cristã” (J. Barrera) – constante na bibliografia de “Analisando…”- fosse feita pelo autor. O valor da LXX e as trocas (`al/'el) não deveriam ser novidades para Celestino. Outra coisa que surpreende é no capítulo VI – um estudo de Sl 19:8 – ser afirmado que a palavra nefesh (sopro, espírito, alma, vida, ser) jamais poderia ter sido traduzida por “vida” tal como é seu similar grego psiké. Ironicamente, ela pode sim ser vertida para esse sentido como atesta outro livro de sua bibliografia – “O Judaísmo Vivo” (M. Asheri), cap. XLI – ainda que não seja seu sentido mais usual. Vale lembrar que o sentido “restaura a alma” pode ser encontrado em comentários de rabinos medievais como Gaon e Rashi (Sl 23:3). No capítulo VII, em que se dedica à tradução do salmo 23, a palavra chaim (“vida”, com sufixo possessivo chaiâi) é traduzida como plural “minhas vidas”. De fato, chaim é uma palavra palavra plural, mas não de “vida”. Ao pé da letra, ela significa “vivos” (pl. de chayy) e é em geral traduzido por “vida”, “duração da vida”, “anos de vida”. Como em Gn. 23:1: “A duração da vida de Sara foi de 123 anos”. O próprio autor traduziu Gn 2:7, no cap. IV, “… um sopro de vida…” (e não “vidas”) e reiterou esse sentido no cap. VI. Muda misteriosamente de opinião no VII sem dar ao leitor a informação que hebraico emprega muitas vezes o plural sem se referir a um plural numérico (ex. dom, “sangue”; domym, “derramamento de sangue”).

Outras questões de gramática também repercutem na língua grega. A preposição grega (ek/en) é traduzida por um simples “de” no capítulo XVII, ao contrário de seu sentido completo “a partir de”, o justificaria o uso do artigo na tradução para o português da conversa de Jesus com Nicodemos (“da água e do espírito” x “de água e de espírito”). Como se não bastasse, no capítulo VII esse mesmo versículo apareceu como “pela água e pelo espírito”. Além de trocar a preposição por outra bem distinta, pôs um artigo que mais à frente diria não existir. Ainda acerca do mesmo episódio, no que se refere à querela “do alto” x “de novo” (ambos expressos por anothen), Celestino lança mão de um suposto texto hebraico da passagem que… não possui fonte alguma! O evangelho de João só possui textos e fragmentos mais antigos em grego. Ainda se discute se a redação original foi em aramaico, mas ainda falta uma evidência documental disto. Como João foi obra de uma comunidade de cristãos helênicos, é possível que este jogo de palavras (Jesus falou um sentido, Nicodemus entendeu outro) tenha realmente existido. Traduções hebraicas do Novo Testamento datam do século XIX. Ah! E o por ele elogiado Chouraqui (cap. VIII) é um adepto do jogo de palavras. Em Tito 3:4-5, traduz palinggenesias como “reencarnação”, um possível, embora improvável uso, da palavra, principalmente quando confrontada com Mt 19:28 e outros autores cristãos.

No capítulo IX, é apresentada uma teoria da conspiração de que a doutrina da reencarnação teria sido suprimida do cristianismo por ação da imperatriz bizantina Teodora, que teria banido os ensinos do teólogo Orígenes no século VI. A questão é que o suposto estopim para a perseguição dela (o assassinato de 500 prostitutas) nunca ocorreu. Não há nenhum cronista antigo que respalde isso, mesmo o virulento Procópio fala somente de um confinamento de prostitutas em um mosteiro. Apenas caça-níqueis modernos vendem essa moeda falsa. A data da morte de Orígenes está com um erro da ordem de uns três séculos, dando a entender que a Imperatriz nem esperou o cadáver do dito cujo esfriar direito para começar a agir e, quem sabe influenciado por esse erro, o autor passa por cima das controvérsias origenistas que vieram muito antes do II concílio de Constantinopla. O pior de tudo é ele teve acesso a uma versão correta dos fatos através de um item de sua própria bibliografia (Alberigo, G. História dos Concílios Ecumênicos, Ed. Paulus, 1995) e preferiu a tese conspiratória.

Há muitos pormenores desenvolvidos no portal. Por hora fica claro que o livro está longe de ser algo imparcial (ou abusa demais do direito de ser parcial). É um livro direcionado a um público específico e se beneficiou grandemente da ignorância das línguas bíblicas entre seus leitores e, principalmente, do despreparo de católicos e protestantes. Em mais de um trecho, seu trabalho de pesquisa aparenta ser superficial, podendo ser contestado até por simples enciclopédias como a Barsa (esta ao menos acerta a data de falecimento de Orígenes e o sentido de “apocatástase”) e gramáticas. No geral, o livro é um enorme desserviço à inteligentsia espírita, estando mais para pura apologética, do que para uma verdadeira crítica textual. Um dos poucos instantes em que revela valor é quando refuta traduções que associam “agoureiros” e “adivinhos” a “médiuns” e “espíritas”. Olhando as técnicas usadas por seitas cristãs para fazer essas transformações linguísticas, repara-se algo interessante. Por exemplo, em Lv 20:27 a palavra ob tem o significado literal de “vaso”, um recipiente que é preenchido com algo, um médium que é incorporado por algo (demoníaco, na concepção deles). Ou seja, uma senhora livre associação de ideias; não muito diferente da transformação de “renascimento” em “reencarnação” de Tito 3. “Analisando…” até é um bom livro quando defende, mas quando parte para o ataque, se vale das mesmas técnicas de seus adversários. Talvez se mereçam por terem mais em comum (no mal sentido) do que pensam.

Avaliação: 3. A serem pagos em uma única cédula de papel-moeda.

Recomendado para: quem quer bancar o maioral em fóruns de internet, especialmente nos cristãos. Mas cuidado para que a máscara não caia e passes uma tremenda vergonha. Aliás, às vezes eu dou uma forcinha para que isso ocorra mais rápido.

Um Adendo

Em razão das dúvidas e clamores emitidos pelo leitor Fabrício (vide comentários abaixo), venho explicitar alguns pontos sobre por que não considero Analisando as Traduções Bíblicas possuidor de algum valor acadêmico ou científico. Julgava desnecessário fazer isso, visto que meus próprios textos deveriam falar por si mesmos, mas reações como a dele me deram o alerta que nem tudo está tão cristalino assim. Uma autocrítica é que, não afã de me embasar e exaurir assuntos, acabei por exaurir o leitor. O resultado é que muitos devem fazer leituras em diagonal e não entender realmente a gravidade da questão. Podem até terem lido a resenha acima mas não os link onde os assuntos são desenvolvidos. Como suponho que as angústias de Fabrício ante alguém que resolveu tocar numa das “vacas sagradas” do movimento espírita devem ser comuns a outros leitores, venho aqui bater os pontos mais nevrálgicos.

Eis o resumo do resumo: o problema com este livro não é o que ele diz, mas as coisas que poderiam ter sido ditar e não foram. Ou, melhor, as coisas que o autor deveria ter dito, mas, por algum ignoto motivo, omitiu. Como eu sei disso? Simples, usando a própria bibliografia que ele dá. Desculpem-me por ser repetitivo:

  • O autor se mostra um adepto da “primazia massorética”, i.e., a principal fonte hebraica disponível hoje – o Texto Massorético (TM) – seria o original em que toda e qualquer tradução deveria se basear. A questão é que o começo dos trabalhos dos sábios massoretas se deu pelo menos quatrocentos anos após os autógrafos (i.e, os primeiríssimos manuscritos) dos últimos livros do Velho Testamento e mais de um milênio depois dos textos mais antigos. Ou seja, eles preservaram maravilhosamente bem um conjunto de textos que já passara um bom tempo com uma transmissão sem estrito controle e, portanto, passível de flutuações (cf. [Barrera, IV.1, p. 439]). Ademais, o TM foi fixado, grosso modo, a partir de um único conjunto de textos (cf. [Barrera, III.2, p. 325]), e não de uma seleção dos melhores manuscritos de cada livro. Enfim, ainda que ele diga que no começo “a Bíblia possuía uma só língua ([cap. II, p.41]), não existia uma só Bíblia. As variantes que hoje encontramos também são fruto de matrizes hebraicas diversas e não apenas de sucessivas traduções;

  • Um efeito colateral da postura acima é praticamente o menosprezo do testemunho versional em Analisando…, com direito a uma motivação mais religiosa que científica:

    O talmude comenta que “o dia da tradução foi tão doloroso quanto o dia em que o bezerro de Ouro foi construído, pois a Torá não poderia ser acuradamente traduzida’. Alguns rabinos disseram que ‘as trevas cobriram a terra por três dias”, quando a LXX (Setenta ou Septuaginta) foi escrita”[grifos do autor]

    Idem, p.44

    De fato, por muito tempo se considerou a Septuaginta (LXX) como uma tradução no mínimo dúbia, por haver considerável desigualdade entre ela e o massorético em diversas partes. Essa opinião, contudo, ficou obsoleta após a divulgação dos Manuscritos do Mar Morto, pois muitos deles se assemelhavam ao que seria a matriz hebraica (Hebrew Vorlage) da LXX (cf. [Barrera, IV.1, p.448]). Assim, hoje se considera a LXX como uma janela para uma versão hebraica perdida;

  • O autor até aceita o testemunho versional quando esse o corrobora. Por exemplo, em Ex 34:7, a LXX traduz todas as ocorrências da preposição hebraico `al pela grega epi (cujo sentido básico é “sobre”). O autor ressalta isso (cap. VIII, p. 134), porém “esquece” de informar ao leitor que a LXX traduz a tal preposição, em passagens similares como Ex 20:5 e Nm 14:18, também como heos, i.e, “até” (cf. edição crítica de Alfred Rahlfs);

  • Também com traduções modernas é feita a mesma coisa:

    A excelente tradução de André Chouraqui também apresenta o texto correto sem o uso do ATÉ, além de não apresentar nenhum preconceito religioso.

    Cap VIII, 135

    Isso é verdade para Ex 34:7, mas Chouraqui usa ATÉ para Ex 20:5 (cf. [Nomes, p.245]);

  • Outra tradução moderna:

    A tradução da Torá (A lei de Moisés e as Haftarots) do rabino MEIR MATZLIAH MELAMED usa a preposição correta.

    Sim, porém de um jeito diferente daquele encontrado em Analisando…:

    Êxodo 20:5
    Analisando
    as Traduções Bíblicas
    que visito a culpa dos pais sobre os filhos, na terceira e quarta geração dos que me odeiam…
    Torá:
    A Lei de Moisés
    que visito a iniquidade dos pais nos filhos, sobre terceiras e sobre as quartas gerações, aos que me aborrecem…

    E aí? Essa diferença é uma mera questão de gosto estilístico ou a forma como está em Analisando… pode induzir um sentido de salto entre gerações no leitor? De qualquer forma, Torá: a Lei de Moisés traz a seguinte nota para Ex 20:5

    Quando os filhos continuam praticando a iniquidade de seus pais, pois os filhos não devem seguir o mau exemplo dos pais, depois de conhecer suas consequências.

    e existe observação similar em Ex 34:7. Portanto, há uma maneira de interpretar esses dois versículos (e Dt 5:9 e Nm 14:18) sem apelar para a reencarnação e mantendo a responsabilidade individual de cada um. Uma linha de raciocínio que estava acessível ao autor e não foi explorada por ele;

  • Mas afinal, qual a tradução correta para a preposição hebraica `al: “em, sobre” ou “até”? As duas. Originalmente, apenas o primeiro sentido existia, mas uma mudança linguística fez com que ela pudesse assumir o outro também:

    Algumas consoantes hebraicas representam sons não conhecidos no português, como é o caso do 'alep ('), oclusão glotal surda, e do `ayin (`), fricativo glotal sonoro, e algumas cinco sibilantes conhecidas no hebreu. Nos Manuscritos do Mar Morto e até na tradição massorética é frequente a confusão destas guturais (p.ex.: `l, sobre e 'l , até). As variantes dialetais e as modificações linguísticas de uma a outra época originaram numerosas confusões. Exemplo típico é o da diferente pronúncia de xibbolet na montanha de Efraim ou sibbolet na Transjordânia, que deu origem ao famoso episódio relatado em Jz 12:5-6

    [Barrera, parte I.1, p. 69]

    Aliás, O Dicionário Hebraico-Português, de Rifka Berezin – constante na bibliografia de Analisando… – em seu verbete para `al (pág. 501) traz os seguinte significados:

    sobre, em cima; perto, junto; até, por, para

    Os três último, devem ter se originado da confusão entre `al e 'el nos tempos bíblicos. Contudo, apenas o sentido de “sobre” encabeça o capítulo VIII de Analisando…;

  • Seu dicionário grego também informa uma multiplicidade de sentidos para epi:

    Epi - Dicionário de Isidro Pereira

    De particular interesse, são as acepções para quando esta preposição rege o caso acusativo (ac.);

  • No caso das versões latinas, a Vulgata mais especificamente, fiquei em dúvida com relação ao quanto ele domina do idioma. Na questão dos versículos Ex 20:5 e Ex 34:7, ele atribui à preposição latina in unicamente o significado de “em” (cap. VIII, p. 134-5). O próprio dicionário que ele utilizou informa que ela pode assumir diversos significados, conforme o caso (ablativo ou acusativo) que esteja regendo:

    In - Dicionário de António G. Ferreira

  • Ao final do capítulo VIII, o autor diz:

    Não sei como encontraram este sentido para a língua portuguesa, nem de onde o tiraram, pois, no hebraico, bem como, no grego e no latim, ele não existe.

    p. 135

    Ele pode até não saber mesmo, mas teria como.

  • Mudando de assunto:

    No entanto, na Bíblia de Jerusalém e na Bíblia Tradução Ecumênica, colocaram a palavra espírito (néfesh), como vida. Isto porque os tradutores se basearam em um dos significados gregos da palavra psyké (alma), que também pode significar “vida“, mas esta adaptação só pode ocorrer no significado grego, porque, no texto original em hebraico, isto não é verdadeiro, pois neshamá e nefésh significam espírito mesmo (Veja 2,7) e não vida (chaim) que, em hebraico, é totalmente diferente de (neshamá) e (néfesh) tanto na grafia quanto em significado. E aqui, especificamente, significa espírito.

    cap. VI

    Porém, uma das próprias fontes do autor -o livro O Judaísmo Vivo– diz:

    Nefesh é a centelha que mantém vivos os seres humanos. Quando falamos de “preservação da vida”, para qual quase todos os mandamentos podem ser desprezados, a expressão hebraica é pikuach nefesh. No mesmo sentido, o “perigo à vida” é denominado sakanat n'fashot. Não devemos pensar na nefesh como sendo simplesmente uma força vital mecânica ou animal; ela também contém a personalidade do ser humano, mas parece faltar-lhe qualquer qualidade puramente espiritual. A implicação do acima dito é que ela morre com o corpo.

    [Asheri, cap XLI, p. 253]

    Ou seja, em Analisando… tenta-se reencarnar algo perecível.

  • Entremos agora no famigerado II Concílio de Constantinopla ou V Concílio Ecumênico. No capítulo XI de Analisando … é dito:

    A Igreja Católica aceitava a reencarnação até o ano 553 da nossa era (p .157)

    (. . .)

    Orígenes afirmava ser a doutrina do Carma e do renascimento uma doutrina Cristã.

    Devido a esta sua crença, 299 (duzentos e noventa e nove) dias, após sua morte, contra ele a igreja decretou a excomunhão. O segundo Concílio de Constantinopla, no ano 553, decretou: Todo aquele que defender a doutrina mística da preexistência da alma e a consequente assombrosa opinião de que ela retorna, seja anátema.

    Até esta época, a doutrina do renascimento e do carma era aceita pela Igreja Cristã.
    (p. 158)

    (. . .)

    O concílio condenou o Origenismo em termos claros e severos2.
    (p. 159)

    Essa tese de que a Igreja aceita a reencarnação até o século VI foi disseminada por diversos autores espiritualistas como Prophet, Atkinson, J.R. Chaves, etc., que também aparecem na bibliografia de Analisando…. Note que não se fala de algum grupo específico de cristãos, geograficamente determinado e adepto de uma versão muitíssimo particular de reencarnação. Não: toda a Igreja Católica aceitava a reencarnação.

    A terceira citação acima foi deixada propositadamente com o índice (2) que constava no original. Este número nada mais é do que a referência bibliográfica:

    2. Alberigo, G. História dos Concílios Ecumênicos. São Paulo: Paulus, 1995.

    Bem, o que realmente continha o texto da coletânea de Alberigo acerca do origenismo?

    Nesse contexto já complicado, um novo movimento – o origenismo – veio tornar a situação realmente insolúvel. É verdade que Orígenes fora condenado há muito tempo, mas sua irradiação intelectual nunca cessou, e seu misticismo exercia constante atração sobre os monges instruídos do deserto. Na realidade, o origenismo jamais desapareceu das zonas sírio-palestinenses. Era tolerado na medida em que não criava problemas. Ora, na efervescência provocada pelas decisões do concílio de Calcedônia, tudo estava envolto pela suspeita de heresia. Pelo final do séc. V, o origenismo reapareceu sob a forma de contestação contra a ortodoxia, contra o monofisismo e contra o nestorianismo. É claro que essa quarta via não tinha muitas possibilidades em contexto tão carregado como aquele.

    [Alberigo, p. 125 ]

    Ou seja, a única fonte acadêmica sobre o assunto constante em Analisando… afirma que origenismo não só já foi condenado anteriormente, como permanecia apenas entre sectários. Mais à frente:

    Quanto ao origenismo, uma carta de Justiniano, cujo texto se perdeu (Jorge o Monge, ed. ch. De Boor, 1904, 630), servia como documento de trabalho. O decreto de 543 foi praticamente ignorado. É certo que o concílio condenou Orígenes, suas idéias, seus seguidores. São consideradas como heréticas as teorias sobre a apocatástase do universo, sobre a reencarnação das almas e outras menos conhecidas. Infelizmente, perderam-se as atas e não possuímos sequer sua tradução latina, pois a questão não interessava aos ocidentais. Ainda que nossos conhecimentos sejam incompletos nesse campo, o rápido declínio do origenismo depois do concílio indica que ele foi condenado em termos claros e severos.

    [Alberigo, p. 134 ]

    A questão não interessava aos ocidentais“, claro, pois eles – os origenistas – estavam nos mosteiros da Síria e da Palestina. De onde saiu, então, a ideia de que “A Igreja Católica aceitava a reencarnação”? Não foi do livro de Alberigo, com certeza.

    Quanto ao gatilho que levou à convocação do V Concílio, Severino Celestino da Silva opta pela versão trazida por José Reis Chaves:

    O papa, Vigílio, apesar de se encontrar em Constantinopla, recusou-se a participar do concílio convocado pelo imperador e tampouco se fez representar. O Concílio pressionado pelo imperador excomungou o papa. O papa Vigílio acabou reconhecendo o concílio em troca da suspensão de sua excomunhão.

    A esposa de Justiniano chamada Teodora, teve muita influência nos assuntos do marido e até no que se referiu à teologia. Foi ela quem acomodou os monges egípcios e os clérigos siríacos nos vários palácios da capital e sobretudo no palácio Hormisdas, que se tornara o centro da propaganda monofisista.

    Por ter sido uma prostituta, suas ex-colegas se sentiam orgulhosas e decantavam tal honra. Mas esse fato a revoltava e se constituía numa desonra, fazendo com que mandasse matar todas as quinhentas prostitutas de Constantinopla.

    Os cristãos da época passaram a chamá-la de assassina e a dizer que ela deveria ser assassinada, quinhentas vezes, em vidas futuras. Este seria seu carma por ter mandado matar suas quinhentas ex-colegas prostitutas.
    A partir daí, Teodora passou a odiar a doutrina da Reencarnação e como mandava e desmandava em meio-mundo através de seu marido, resolveu partir para a perseguição sem tréguas contra essa doutrina e contra maior defensor que era Orígenes.

    p. 158-9

    O único problema é que Teodora já estava morta em 548, uns cinco anos antes do concílio. Será que ela atuou na primeira condenação em 543? Alberigo explana que:

    Claro, o origenismo não chamava tanto a atenção dos ortodoxos, pois não questionava o concílio de Calcedônia. Mas depois do decreto de 533 e do sínodo de 536, os ortodoxos perceberam que por trás das decisões imperiais havia sempre um origenista. Roma, sobretudo, não tinha motivo para tolerar o origenismo, pois este não compartilhava as ideias romanas a propósito dos “três capítulos” (cf. Liberatus, Breviarium, ACO II V, 98-141). Os ortodoxos do Oriente começaram a se preocupar com os origenistas, pois estes fortaleciam suas fileiras com padres ortodoxos como Gregório de Nissa, Dídimo, o Cego, e outros. Sobretudo na Síria, os origenistas apareciam demais, por causa de seu grande número. Por isso o patriarca Efrém de Antioquia convocou em 542 um sínodo que condenou o origenismo. Os origenistas da Palestina recorreram, então a Pedro de Jerusalém, pedindo-lhe que não mencionasse mais Efrém nos dísticos de Jerusalém. Pedro, apertado entre as próprias opiniões ortodoxas e as pressões dos origenistas, apelou para Justiniano, com o apoio também do patriarca Mena e do representante de Roma, Pelágio. Justiniano publicou um “Edito” em 543 (Mansi, 9, col. 125-128; ACO III, 189-214) contra o origenismo. Mena aproveitou a ocasião e no mesmo ano convocou um sínodo, que deu à decisão imperial autoridade sinodal. O papa Vigílio, os patriarcas orientais, e também os origenistas de Constantinopla Ascida e Domiciano assinaram a decisão. Isso, porém, não eliminou o origenismo, que continuou a existir e predominar na Palestina. A condenação sinodal conseguiu radicalizar as posições dos origenistas, que assumiram então atitude hostil à ortodoxia.

    [Alberigo, pp. 130-131]

    Teodora nada teve a ver com a história (nem houve assassinato de 500 prostitutas). Foi tudo um problema local levado ao arbítrio do imperador e o papa não hesitou em assinar a decisão do sínodo, visto que os ocidentais não davam a mínima por Orígenes. A questão nevrálgica e real motivação para o V Concílio foram os “Três Capítulos”, i.e., a condenação de antigos teólogos cujos escritos estavam sendo utilizados pelos nestorianos (adeptos de uma distinção radical entre as naturezas humana e divina de Cristo). Justiniano esperava angariar com isso a simpatia dos monofisitas – que advogavam a preponderância da parte divina – e trazê-los de volta para a ortodoxia. Embora tais teólogo tivessem realmente sido verdadeiros protonestorianos, eles morreram dentro da ortodoxia e, por isso, o papa e demais bispos ocidentais estavam reticentes. Os ortodoxos da Palestina apenas aproveitaram a discussão dos “Três Capítulos” em Constantinopla para resolver de vez seus problemas com os origenistas;

  • O equívoco dos “299 dias” para o V Concílio contados após a morte de Orígenes deve ter se originado de um “copy/paste” de O Livro Tibetano dos Mortos [(W.Y. Evans-Wentz, Ed. Pensamento, p. 177]. Isso foi apenas, digamos, “a cereja do bolo” de um problema bem maior: parte da bibliografia de Analisando… é ruim, composta de livros de leigos que às vezes se enveredam por temas que não dominam e não se preocupam em pesquisar a fundo. Por outro lado há livros bons como os supracitados A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã, de Barrera, A História dos Concílios Ecumênicos, de Alberigo, e as traduções de André Chouraqui; contudo tenho a impressão que o autor não os leu devidamente ou fez uma leitura muito seletiva. Entre uma opinião acadêmica desfavorável e outra mais confessional que o corrobore, o autor parece preferir a segunda;

  • Há uma falha em particular que não é por uma dele fonte dizer algo em contrário, mas por ela simplesmente inexistir:

    Esta ambiguidade de entendimento só acontece na língua grega, porque no hebraico, que foi realmente a língua em que Jesus dialogou com Nicodemos, este problema não existe. O texto é bem claro e jamais pode significar ”do alto”. Diz o seguinte: (“im Iô iualed ish mimkôr ’ai lô-iukal lirôt et-malkut haelohim”) im=se, =nâo, iualed= incompleto do grau qal do verbo “nolad”= nascer, ish= um homem, mimekôr= palavra composta, formada por mi=de + makôr=fonte de água viva, origem. Existe a expressão hebraica “Mekôr chaim” que quer dizer “fonte da vida”. Observe que não existe nada referente “ao alto”, no texto grego, como muitos querem se fazer entender. Assim, o Cristo fala que aquele que não nascer em origem, no sentido de se voltar à fonte original da vida, ou seja, nascer novamente, “não poderá” (lô-iuchal=incompleto do verbo iachôl=poder) ver o reino de Deus (lirôt et-malkut haelohim).

    Cap. XVII, p. 239.

    Aqui o autor discute se melhor tradução para a palavra grega anothen, falada por Jesus em sua conversa com Nicodemos (Jo 3:3), seria “de novo” ou “do alto”. Ele conclui que o primeiro significado seria o correto, pois tal ambiguidade não existiria na língua original. Bem, ainda estou para encontrar algum teísta (espíritas entre eles) a se perguntar se tal diálogo teria realmente ocorrido e, caso sim, se alguém estava por perto tomando nota. O Evangelho pode ter sido escrito diretamente em grego, língua em que esse jogo de palavras era válido. Outra questão é quanto a língua em que esse diálogo teria se dado: o hebraico não era mais falado na Galileia à época em que Jesus viveu. Ainda era uma língua litúrgica, mas é duvidoso que Nicodemos tenha se dirigido a Jesus em outra língua que não fosse a vernacular, o aramaico. O pior não é isso: de onde saiu esse texto em hebraico que foi analisado? Todas as cópias antigas dos evangelhos chegaram até nós em grego koiné e a versão Peshitta está em siríaco. O autor deve ter se valido de um “retroversão” (como edição hebraica de Franz Delitzsch), porém não achei nenhum Novo Testamento em Hebraico na bibliografia;

  • Por fim, teço uma crítica ao sistema de referência adotado no livro. O autor indica apenas de qual obra foi extraída uma citação, sem menção alguma ao capítulo ou página. Duvido que ele, como um professor universitário, aceite alguma monografia, dissertação ou tese escrita assim. Pode apenas ter sido um desleixo, mas um efeito colateral disso é dificultar a checagem de fontes por outrem, dado que algumas delas são verdadeiros “calhamaços”.

Bem são essas as objeções que encontrei a este livro, baseando-me exclusivamente na própria bibliografia dele. Há outras críticas calcadas em outras fontes, disponíveis nos artigos linkados acima. Para as do primeiro caso, apenas o próprio autor seria capaz de rebatê-las, pois teria de deixar claro os motivos que o levaram a tal manuseio heterodoxo de suas fontes. Por que, então, ele não toma a iniciativa para respondê-las ou corrigi-las? Posso lançar algumas hipóteses:

  1. Ele as desconhece, o que acho difícil. Duvido que ao menos um dos vários apologistas que amam me odiar já não tenha entrado em contato com ele;

  2. São críticas tão infundadas que não merecem o esforço gasto em refutação. Julgo difícil que eu não tenha feito um mínimo, mas ele simplesmente parece ter pensado que não valia a pena;

  3. Seria uma propaganda negativa. Se não estou causando muito burburinho, responder-me apenas colocaria as críticas em evidência. Um outro escritor cometeu esse deslize;

  4. As críticas estão tão bem fundamentadas que respondê-las seria pior, um verdadeiro atestado de falta de solidez nos argumentos.

Seja o for, isso não impede que haja os que partam em sua defesa. Eles simplesmente refazem as traduções com outras fontes que lhes sejam favoráveis, por exemplo, com dicionários hebraicos que não contenham a acepção “até” para preposição `al. Assim, até reconhecem que as críticas existem, mas não te dizem quais são todas elas exatamente, esquivam-se de responder aos pontos mais espinhosos, fornecem explicações sobre alguns pormenores e conseguem “pregar para o coral”. Por coral, entenda como o tipo de gente que já apoiava o autor antes e que também engoliria as respostas evasivas que dão, e ainda se convence de que tudo não passa de intriga de detrator. O curioso é que, ao aprofundar a discussão, tais apologistas acabam por desnudar toda a falta de profundidade com que esses temas foram tratados nesse livro em questão. De certa forma, eles me lembram do personagem Z. Zagalo, do romance póstumo de Eça de Queirós O Conde d’Abranhos. O Sr. Zagalo fora um diligente secretário particular de Alípio Severo Abranhos, o conde que dá nome ao romance. Condoído com o falecimento do antigo patrão, a quem admirava muito, ele se põe a escrever sua biografia. O problema é que sua vida é sempre narrada de uma forma tal, que a impressão passada nem de longe é a pretendida biógrafo.

Longe de mim comparar o autor de Analisando…, cuja pessoa desconheço, com o inepto conde e, sim, seus atrapalhados defensores com o bem intencionado Zagalo. Nisso quero deixar clara a imensa diferença do que seria caluniar a figura de Severino Celestino da Silva e denunciar a pouca solidez dos argumentos usados em seu livro. Pessoas devem ser respeitadas; já suas ideias, não necessariamente. E, no caso dele, é possível perfeitamente separar o autor da obra. Isso que muitos dos comentam em tom demasiadamente emotivo não percebem.

Para saber mais

– Alberigo, G.; História dos Concílios Ecumênicos. São Paulo: Paulus, 1995.

– Asheri, Michael, O Judaísmo Vivo, Imago, 1995.

– Barrera, Julio Trebolle; A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã, Editora Vozes, 2ª ed, 1999.

– Berezin, Rifka; Dicionário Hebraico-Português, Edusp, 1ª ed., 2003,

– Chouraqui, André;A Bíblia: Nomes (Êxodo), Imago, 1996.

– Ferreira, António Gomes; Dicionário Latim-Português, Porto, 1985.

– Melamed, Meir Matzliah; Torá – A Lei de Moisés, Sêfer, 2001.

– Rahlfs, Alfred; Septuaginta, Sociedade Bíblica do Brasil, 2006. Sob licença da Deutsche Bibelgesellschaft, Stuttgart , Alemanha.