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O Outro Outro Mundo dos Espíritas

24 de dezembro de 2015 6 comentários

Por Acauan Guajajara, do Religião é Veneno

Os espíritas oscilam entre este mundo e um outro no qual habitam os desencarnados que guiam os médiuns na escrita de livros de estilo indistinguível ou na execução de procedimentos cirúrgicos não reconhecidos pelos conselhos de medicina.

E tem um terceiro.

Um outro outro mundo, exclusivo dos espíritas e invisível para quem não o é, mas mais próximo e compreensível para os terrenos do que o etéreo entre o nirvana e o umbral, onde karmas se cumprem obedecendo a enredos parecidos com os das novelas mexicanas.

O interessante do segundo outro mundo dos espíritas é que, ao contrário do primeiro, ele é repleto de realizações positivas aferíveis pelos prosaicos observadores deste plano.

Este outro mundo manifesta-se no nosso através dos Centros Espíritas. Não… não pensem de início em lugares onde apenas se dão passes e gente morta manda recados sobre o quanto estão felizes e bem lá do outro lado.

Os Centros Espíritas são complexos impressionantes, pelos menos os grandes Centros, que agregam, além das atividades típicas requeridas pela doutrina kardecista, as ações de caridade exigidas por ela.

Os grandes Centros Espíritas são de matar pastor de igreja neopentecostal de porta de garagem de inveja. Enquanto estes espremem o dom de apascentar que lhes é dado pelo Espírito Santo para tentar recolher até o último centavo de dízimo que lhe permita pagar o aluguel do mês daquele espaçozinho sem graça, os espíritas se dão ao luxo de manter prédios no porte e forma parecidos com escolas públicas, onde, além de exercitarem seus iniciados no diálogo com o além-túmulo, mantém uma enormidade de atividades sociais que muitas vezes incluem creches, orfanatos, escolas de deficientes e coisas do tipo.

Estou certo que todo mundo sabe que manter estas coisas é caro. Talvez nem todo mundo saiba que manter estas coisas é muito, muito caro.

Há Centros Espíritas que mantém creches para carentes, escolas para excepcionais, lares para órfãos ou asilos para idosos dotados de toda a infraestrutura e tocados por profissionais especialistas remunerados. O custo mensal disto tem muitos zeros a direita da primeira cifra.

Mas segundo o IBGE os espíritas são uma percentagem pequenininha da população e não cadastram seus adeptos para pingar o dim-dim do fim do mês nos cofres das lideranças religiosas sob a pena de terem o devorador comendo suas rendas caso não o façam (hei, hei, fiz piada com vocês sabem quem…).

Como então conseguem manter tantas obras, cujo funcionamento exige uma garantia de recursos fluindo todo quinto dia útil do mês para pagar folhas de pagamento e toda semana para pagar alimentos, materiais de consumo e serviços de manutenção? E para complicar parece que ainda sobra para campanhas várias, da Páscoa ao Natal.

A resposta é o que os espíritas mantém uma enorme, silenciosa e extremamente organizada rede de coleta e distribuição de recursos que não só fazem fluir quantidades imensas de dinheiro e donativos para a manutenção de suas obras como mantém um gerenciamento eficiente na aplicação destes recursos.

Os grandes Centros Espíritas são reflexo disto. Todos funcionais, limpinhos e ascéticos.
Cheios de salas, algumas de portas trancadas embaixo das quais sempre olho para ver se tem ectoplasma escorrendo pela fresta. Quadras de esportes, cantinas e anfiteatros completam o pacote.

Os espíritas brasileiros que sustentam tudo isto estão concentrados na classe média, mas a comunidade abrange empresários e profissionais liberais bem sucedidos que de modo notavelmente discreto estão por traz das contas que não fechariam sem a contribuição deles.

Lembro-me de uma muito conhecida família de advogados criminalistas de São Paulo que assumia pessoalmente a direção de uma grande creche mantida pelos espíritas. Nunca entendi como tinham tempo para dar atenção aos seus casos jurídicos cuidando de todos os pepinos que aquele abacaxi lhes proporcionava.

Como empresário espírita não bota neon na fachada de suas empresas anunciando que “Deus é Fiel”, como fazem prosélitos de outras crenças, ninguém sabe que eles existem. Mas há muitos. Talvez o seu patrão seja um deles, vá saber.

Um conselho: não tentem fazer marketing social em instituições espíritas dando algum dinheiro para ostentar faixas do tipo “a empresa tal mantém esta instituição”. Para quem não sabe, os espíritas não aceitam isto. Se quiser doar dinheiro eles agradecerão e dirão que o donativo será tratado com discrição, mesmo que sua intenção ao doar fosse fazer o máximo possível de propaganda da sua bondade.

Alguns Centros Espíritas são mantidos exclusivamente pelos chamados servidores, membros da comunidade que realizam todos os serviços para manter a instituição – da contabilidade a lavar banheiros – sem receber um centavo por isto.

E há também empresas mantidas e tocadas por espíritas cujo objetivo é levantar fundos para manter as obras da comunidade. Um grau de especialização e sofisticação que parece planejado por alguma administração central.

Só que os espíritas não têm organização central nenhuma.

O consenso mais próximo que os espíritas parecem ter quanto à uma autoridade reconhecida por todos é que todos parecem concordar que a Federação Espírita Brasileira não é esta autoridade.

E quem é?

Ninguém.

É isto que torna o outro outro mundo dos espíritas um fenômeno digno de nota. A mais pura expressão do Laissez-faire transferida para o mundo da religião.

* * *

Do administrador: um bom Natal e feliz ano novo!

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Prezado Fred…

5 de julho de 2015 11 comentários

Índice

Um Inusitado Admirador

escrevendo

Quero deixar aqui minha admiração a este “anônimo” adversário da Doutrina Espírita. Nunca vi alguém estudar com tanto afinco para contrapor uma filosofia. Você é um ser com uma capacidade de raciocínio e de argumentação incrível, e eu como espírita, não tenho sequer coragem de arriscar algum argumento em defesa da Doutrina Espírita, diante de suas argumentações e documentações apresentadas. Minha argumentação e conhecimentos seriam simplórios diante da astúcia com que você se desenvolve em suas argumentações. Eu não tenho experiências espirituais que comprovem sequer o que eu acredito, apenas meus parcos estudos dentro da Doutrina. Portanto, só o que há em mim que possa abonar minha crença, é a fé. Talvez, como já falou aquele carinha famosinho, este seja o meu “ópio”, mas eu prefiro isso, do que enfrentar o vazio da incerteza. Quanto a você, meu irmão “anônimo”, não compreendo onde tudo isso o está conduzindo. Não compreendo qual a vantagem de dispensar tanta energia em um combate como este. Como escreveu o @Claudio, é uma das filosofias de amor mais coerentes que eu conheço. Ainda concordando com a colocação de nosso amigo Claudio, não compreendo porque você não empreende melhor todo este seu dom e toda esta energia, de um modo mais positivo em favor de você e de nossa humanidade. Com sinceridade, tenho muito respeito pelos teus textos, teus argumentos, tuas pesquisas, pois são de uma lucidez muito grande, ainda que eu não compreenda onde você quer chegar com isso, e qual a vantagem que almeja. Eu compreenderia se você me dissesse que está defendendo a sua religião ou a sua filosofia, mas não consigo entender o motivo desta guerra sem objetivo. Da minha parte, o que digo é que a Doutrina Espírita não precisa ser defendida, e que toda a verdade desta filosofia se constata em pouco tempo, que é o nosso pós-tumulo. Eu compreendo que há muita verdade no trabalho que você tem feito, mas também acredito que algumas verdades também deve haver na filosofia Espírita, bem como em tantas outras filosofias espiritualistas espalhadas pelo mundo. E a única argumentação que tenho, e que para você não deve significar nada, é a minha fé. Se você está em busca de alguma verdade, desejo que a encontre, e que compartilhe conosco quando a encontrar. (Comentário postado em Vinde Espírito Santo)

É Fred (posso te chamar assim?), você merece uma resposta. Até porque não deve estar sozinho. Vou deixar este fixo no topo por uns tempos até ter encerrado. Seus comentários serão os únicos que autorizarei, ao menos de início.
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Origens

Planeta dos Macacos - A Origem

Quem viu esse filme talvez possa perceber algo a ver …

As coisas começaram, de certa forma, bem antes de nascer. Não falo de planejamento reencarnatório em alguma colônia etérea ou coisa assemelhada, mas na minha figura paterna. Em sua juventude ele chamara a atenção de seus pares veteranos. Muito culto e inteligente, podia-se dizer que ele era uma promessa para o movimento espírita. E, realmente, foi só isso mesmo: ao falecer tragou toda sua cultura para o túmulo. Por outro lado, o fato de ele ser quem era rendeu-me um ambiente culturalmente rico, com boa oferta de livros e, às vezes conversas, longas sobre os assuntos mais aleatórios que uma curiosidade infantil permitisse.

Minha apresentação ao espiritismo foi feita por ele mesmo, baseada numa espécie de “catecismo” antigo que possuía. Por sinal, ao contrário de outros familiares de minha faixa etária, não frequentei nenhuma sala de evangelização. Não sei se por alguma implicância com a orientação do Centro mais próximo, alguma sensação de autossuficiência ou qualquer outra razão oculta, preferiu-se um home schooling. Não sei quanto essa relação mestre/discípulo pode ter emulado as escolas catequéticas católicas ou as dominicais dos protestantes, mas já ouvi (fico te devendo de onde) que relações mais horizontais, lúdicas e com outras crianças teriam sido melhores. Bem, agora só me restam cogitações.

Caesar e o Dr. Rodman

Definitivamente, não éramos da mesma espécie, mas a gente se entendia.

O que ele não contava era ter um aluno … “questionador”, principalmente ao chegar ao começo puberdade. Por exemplo, quando chegamos à parte “Fora da caridade não há salvação” no Evangelho Segundo o Espiritismo (ESE), perguntei algo como ”como praticar a caridade sem ter interesse em me salvar, pois do contrário não é caridade?”. Em outras palavras, perguntei se existia altruísmo genuíno ou sempre haveria um interesse subjacente. Não quero começar uma discussão filosófica aqui, pois diferentes respostas já escutei. Basta saber que por esse tipo de pergunta meu velho não esperava e tive um bom número de evasivas. Às vezes, buscava respostas sozinho, o que me levou a ler o Pentateuco por conta própria. Para o quê fui fazer isso: O Céu e o Inferno me encheu de horror em sua segunda parte. Hoje, claro, já não teria esse efeito, mas naquela época … Conforme cresci, o controle paterno se afrouxou e fui naturalmente me afastando. E, respondendo a sua pergunta, não, nunca tive nenhuma experiência “sobrenatural”. No máximo ouvia histórias e “causos” que ele presenciara, mas não se emprestam vivências. Aliás, o que eu realmente quase não li, nem muito me interessei, foi o Livro dos Médiuns (LM).

Mas Falhas do Espiritismo ainda estava um pouco longe… o que aconteceu foi em seguida foi uma espécie de comportamento ciclotímico que, hoje, nem entendo como aconteceu. Bem, tal como uma criança chora por um brinquedo quebrado – que alguns anos depois não daria a mínima –, o que senti na época foi importante. Já por volta da maioridade e sem contar mais com a presença da figura paterna, levada de forma súbita, fui tomado por um processo de, digamos, “aborrescência”, catalisado por experiências negativas. Tornei-me arisco e recluso, mas não depressivo ou inerte. O fim dos laços sociais, pelo menos, deu-me tempo de sobra para focar nos estudos, o que me permitiu passar pelo funil do vestibular com até mais de uma opção. Mudei de ares com a entrada no ensino superior, mas não de cabeça. Continuava alguém de “mal com a vida”, uma presa interessante para quem me desse uma proposta capaz de me fazer sentir especial: os evangélicos, por exemplo.

Caesar no santuário símio

Longe de serem aqueles estereotipados pregadores em cima de um banquinho, no meio da rua, clamando em voz alta: eles eram seus próprios cartões de visita. No meio da loucura do corpo discente das universidades, eles eram uma ilha de sanidade para pessoas de formação mais “tradicional”, como a minha. Não era apenas isso. Sentia neles uma alegria de viver, uma autoconfiança, uma garra que me causava m uma certa inveja, não algo mesquinho, mas a vontade partilhar disso também. Fiz sinceras amizades naquele meio e, entre uma conversa e outra, assuntos religiosos acabam por aflorar. Não, não conheci nenhum daqueles clássicos “ex-isso”, “ex-aquilo”, todos, que eu me lembre, haviam sido criados assim de berço ou, pelo menos, muito cedo. O que me mostraram foi outra forma vivência, com um relacionamento com o Divino em nada racional, porém muitíssimo pessoal. O batismo, como de praxe, dado na adolescência parece um rito de passagem extremamente marcante a eles. Um verdadeiro “renascer”, bem distinto daquele aprendido na “catequese doméstica”. Foi de histórias como essas que comecei a entender o significado de transcendência, embora jamais viesse a me sentir tocado por algo além de meu ego humano. Também foi deles a sensação de acolhimento que precisava: no âmbito doméstico, nas poucas vezes em que pensei me abrir com outros parentes, a resposta era sempre algo como “você que escolheu isso” ou “essas foram as consequências de seus atos”, e “não estou aí para seus dramas existenciais”. Doía ouvir isso de gente que visitava orfanatos, hospitais, fazia trabalho voluntário, sempre lidando abnegadamente com desconhecidos e, ao mesmo tempo, sendo dura com alguém que conheceu de berço e até dividiu o teto. Fazer o quê? O espiritismo, em si, é uma meritocracia. O que os evangélicos me traziam, por sua vez, era bem diferente: eu poderia ser especial, mesmo sem merecer, aliás, mérito não fazia sentido nessa teologia. Eu não precisava estar pronto para ser acolhido: se acolhesse a oferta, eu que seria preparado. A porta deles sempre esteve aberta, não se precisava bater. Se eu havia cortado laços, outra comunidade muito maior estava prestes a me chamar de “irmão”. Não tinha em conta que estava imerso em um jogo de sedução (no bom sentido) muito bem orquestrado, que quase funcionou. Quase. Até hoje penso que, tivesse eu me entregado, não teria vivido mais feliz. Mas eles cometeram um erro sério no processo: exageraram na dose.

Caeser e Maurice

Havia alguns entre eles que eram criacionistas da “Terra Jovem”, adeptos de uma interpretação literal do livro de Gênesis. De início achei divertido discutir com eles, tamanha era a ignorância que tinham sobre o assunto. Depois fiquei um pouco preocupado, pois não eram ignorantes como pessoas, muito pelo contrário, mas tinham escolhido voluntariamente antolhar a mente num tema específico. Isso por si só não seria o bastante para prevenir uma possível conversão – também havia conciliadores entre ciência e fé -, pois o verdadeiro tiro pela culatra ocorreu quando me apresentaram o livro O Império das Seitas, de Walter Martin, volume 4. Um capítulo inteiro era dedicado ao Espiritismo. Se as dúvidas já haviam me afligido durante a catequese paterna, aquilo foi um choque: o autor reunira diversos absurdos científicos, inconsistências, argumentações fracas, interpretações enviesadas da Bíblia (afinal, era um livro da ortodoxia cristã) e rixas internas do espiritualismo de século XIX. Fiquei com a impressão de que havia tanto de apelação no espiritismo como no protestantismo. Passado o impacto inicial, entrei numa espécie de “negação”, não podia admitir que a “fé racionada” tivesse alicerces tão frágeis. Fiz, então, algo inédito em minha vivência religiosa: adentrei um centro espírita.

Um passeio em família

Ficava a algumas quadras de casa. Lembro ainda menino, em um passeio a pé pelas redondezas, de lhe perguntar por que ele não o frequentava. Não recordo, porém, da resposta, apenas da sensação de ele querer desconversar. Não sei se não gostava dos dirigentes, da dinâmica do trabalho ou se apenas não queria se envolver. O que quer que fosse não era nada fidagal, tanto que outros parentes próximos o frequentaram sem que ele implicasse. Nunca me encaminhou, porém, nem eu fizera questão. Como se diz no meio, já que não me voltava a Deus por amor, estava voltando pela dor, ainda que fosse uma dor emocional.

Olhando ao longe.

Olhei na fachada um cartaz com a programação semanal e soube quando eram as reuniões de mocidade (embora, tecnicamente, já fosse adulto jovem). Na reunião seguinte, estando a porta aberta, entrei e sentei-me ao fundo. Não demorou a minha presença ser notada e ser convidado a chegar à frente (cf. Lc 14:7-10). Posso dizer que fui bem recebido e o pessoal da mocidade não deixava nada a desejar em termos de acolhimento em relação aos evangélicos. Revi até alguns colegas de ginásio, pois a escola em que estudamos também era no mesmo bairro. A única diferença que vi entre os dois grupos – além das doutrinárias, claro – é a ausência do proselitismo dos últimos nos espíritas. Bem, isso não vem ao caso aqui. Coincidência ou não, minha chegada permitiu que os organizadores formassem um pequeno grupo com outros recém chegados (uns quatro, acho, contando comigo) a serem apresentados mais formalmente à doutrina. No essencial, não me mostraram nada de novo; mas, como modesto calouro, recomecei do zero. As novidades se encontravam naquilo que “não estava escrito”: os jargões, práticas e maneiras, enfim, tudo o que faz um membro de um grupo reconhecer outro sem grandes formalidades. Por exemplo, foi aí que descobri que “Pentateuco” era usado como sinônimo das obras básicas da codificação, em vez de meramente os cinco primeiros livros da Bíblia.

Passada a fase de apresentação, as coisas transcorriam mais ou menos assim em cada reunião:

  1. Alguma dinâmica de grupo para descontrair ou integrar, concluída com um prece;
  2. Partida dos grupos de estudo cada um para sua sala, conforme o grau de adiantamento. Se não me engano eram dois apenas;
  3. O estudo em si era dividido em dois tempos: um para algum capítulo de um livro do Pentateuco, artigo da RE ou o OQEE, seguido por outro para a leitura de algum romance psicografado, um daqueles “clássicos”: Memórias de um Suicida, Nosso Lar, Ação e Reação, etc;
  4. Uma reunião de despedida, como anúncios de caráter geral, um esboço para a próxima semana e uma prece final.

Íamos, também, visitar uma instituição de amparo pelo menos à tarde de um domingo do mês. Às vezes, numa frequência que não me lembro agora, também chegávamos mais cedo à reunião semanal para uma espécie de faxina no centro. Durante as férias de verão, havia uma programação mais leve, com a leitura de livros de pequenos contos, como alguns do Richard Simonetti, seguidas por dinâmicas calcadas na história lida.

Foram três anos eu acho. Melhor, quatro incompletos. Tive um entusiasmo inicial, admito, chegando a argumentar melhor com os crentes da faculdade e até a distribuir alguns exemplares de bolso do ESE (não para esses últimos, claro). Não era difícil, como a maioria dos apologistas já o sabe, usar contradições bíblicas contra eles. Se minha passagem por lá serviu de algo, foi para me convencer de que o espiritismo não se trata de “artimanha de satanás”. Por outro lado, ainda não estava convencido que fosse algo divino, ou pelo menos obra feita sob orientação superior. A fé não precisa de coerência para se manter firme, precisa de motivos e esses podem muito bem ser reunidos num ente misterioso chamado “inspiração divina“. Já a razão exige coerência, mesmo que se calque em premissas falsas. Uma “fé racionada” deveria ir pelo mesmo caminho, supunha. Só que as contradições científicas e filosóficas do Espiritismo continuavam a me assombrar e minha empolgação foi arrefecendo paulatinamente. Tentei trazer uma ou outra vez algum ponto à discussão, mas geralmente se preferia não interromper o fluxo do estudo do dia. Quando isso ocorria, era costume algum gentil veterano dar uma explicação à parte para mim, após a prece final. Achava um tanto fracos os argumentos, mas acatava. Não queria entrar num embate. Não lá dentro. Não me sentia à vontade. Essa era outra questão e aflição.

Eu simplesmente não conseguia me integrar. Ao contrário dos religiosos da faculdade, cujo convívio era quase diário, os membros da mocidade só se encontravam uma vez por semana e nem sempre eram os mesmos cada vez. Na faculdade era nítido que estávamos no mesmo barco apesar de nossas diferenças, enquanto no centro, com toda comunhão de ideias, ainda me sentia um estranho. Muitos dos demais estavam lá desde a época de evangelização (i.e., cresceram dentro do centro), mesmo os que eu já conhecia do ginásio, estavam apenas para colegas de classe que amizades profundas. Os coordenadores até sentiam isso e estimularam a participação em outros grupos para aumentar a interação (biblioteca, distribuição de cestas, etc.). Participei de um deles e penso que até a proposta era boas, porém chegou um tanto tarde para mim. Era complicado me envolver mais quando, internamente, a sensação de deslocamento aumentava mais e mais.

Caesar diante do espelho

Percebendo essa contradição, brequei qualquer passo na direção de um envolvimento mais profundo e fui me afastando gradualmente. Comecei a ir semana sim, semana não, em seguida mensalmente, até sumir. Sim, fui embora sem dizer adeus. Se me arrependo, não sei. Meu eu antigo precisava sair, mas se acovardou. Ainda esbarro com um outro dos antigos contemporâneos de mocidade por essas andanças da vida e, se me reconhecem, devolvem ao menos um aceno. Acho que deixei boas lembranças, mas me constrange quão ignoram o que fiz.

No período em que fiquei, não tive nenhuma experiência, digamos, sobrenatural. Não era meu foco quando entrei e, quando próximo a sair, já não acreditaria nos bastidores do fenômeno. “Tomei passe” apenas uma vez e nada senti, até talvez porque já estivesse meio cético.

Já formado, encontrava-me sozinho de novo, por escolha própria outra vez, só que agora o cenário era outro: a internet começava a explodir e com ela as primeiras páginas pessoais e fóruns. Os primeiros autores e foristas que li eram ex-religiosos de origem católica ou protestante, sem muito em comum com minha vivência pessoal. Os únicos a realmente debater com espíritas eram os ainda religiosos, mas eram de um indigência intelectual de dar pena. Até que depois de muita busca encontrei um ex-espírita a criticar racionalmente o espiritismo. Tentei trocar ideias com ele, mas nada. Hoje, relembrando o fato, creio que ele já tivesse outros afazeres, assim como eu não respondo a vários dos que me escrevem também, mas na época essa pequena frustração foi a gota d’água para que eu decidisse agir por conta própria.

Caeser espalha o vírus

Resolvi criar minha própria página pessoal, inicialmente no domínio hpg e, logo depois, no GeoCities (ambos já extintos). No começo, o material não passava de uma coletânea que fiz do supracitado livro de Walter Martin, mas já era um bastante para um objetivo duplo: melhorar a argumentação de evangélicos e católicos, além de deixar espíritas na defensiva. Isso foi uma atitude calculista de minha parte? Sim, foi. A ideia era dar aos espíritas adversários à altura, a fim de os forçar a responder as dúvidas que me afligiam, ou, quem sabe, produzir mais céticos “ex-píritas” como eu mesmo, assim não ficaria mais sozinho. Estava disposto a acender a centelha de uma guerra ideológica ou, pelo menos, de uma corrida armamentista.

Caesar na batalha da ponte Golden Gate

Assim surgiu “Falhas do Espiritismo”. Parti com as aspirações de glória de um recruta, mas o veterano que agora te escreve, preferiria a paz. Na época, não tinha ideia do que estava por vir.
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Flame Wars: a Era dos Fóruns

Game of Thrones

The winter is coming!

Entrar na Internet é fácil, fazer-se notar que é difícil. Então fui espalhar minhas sementes por aí. Criei o nick de “Cyrix”, que nada mais é que o nome de antiga uma empresa de processadores de baixo custo (uma “prima pobre” da Intel) cujo um dos produtos movia um laptop que usava. Coisa bem nerd, reconheço, e a maioria hoje não o deve saber sem pedir ajuda a um motor de busca. Bem, foi esse o “nome de guerra” que adotei no fórum Sociedade Terra Redonda (STR), talvez um dos primeiros fóruns céticos virtuais do país, ao lado do ainda ativo Religião é Veneno.

Processador da Cyrix

Adicionei um link para o portal em minha assinatura da STR, mas o resultado inicial foi um tanto pífio: o foco do fórum estava no combate a radicais católicos, evangélicos, criacionistas de ambos os grupos e ufólogos. Os tópicos que abri para divulgá-lo não iam além de algumas postagens. Tentei repassar o material para outros portais que abrissem espaço para a paranormalidade, como o finado “A Busca da Verdade”, como algum sucesso e olhe lá. Cheguei ao cúmulo de postar na caixa de entrada de portais de centros espíritas pedindo ajuda para refutar minha própria criação, fingindo ser um pobre adepto em crise de fé. Quase todos, porém, me recomendaram buscar orientação e estudo num centro espírita.

As coisas começaram a mudar após um debate entre o cético Cláudio Loredo e o espírita Marcus Arduin a respeito da “vida após a morte”, moderado pelos administradores da STR. Isso colocou esse fórum cético/materialista no radar dos espíritas. Por meio de alguns espíritas que lá aportaram, tomei ciência do sítio Portal do Espírito (ainda ativo) e de seu fórum. Registrei-me lá também, porém um perfil falso chamado “Círius”, com o qual pratiquei uma espécie de “trollagem moderada”. Explico: não abria tópicos com a intenção de implicar, mas alfinetava dentro de outros já abertos por outros foristas declaradamente “do contra”. Tanto que a moderação local criou uma seção justamente com esse nome por lá. Ficava eu mais como uma espécie de vírus incubado, esperando o momento certo de agir. Os que realmente abriam pegavam material de meu portal, mas os foristas locais não respondiam, pois havia outra pessoa a fazer isso por eles, à qual eles apenas linkavam.

Jon Snow e Mance

Inimigos também podem guardar respeito, ainda que a contragosto.

Chamo-o momentaneamente de V., pois talvez eu fale sobre coisas particulares de uma outra pessoa à qual não pedi autorização. Para resumir, diria que foi uma das poucas interações produtivas que tive ao longo da última década. Eu já tinha ciência de sua existência, pois ele já tentara dialogar com A Busca da Verdade, mas foi uma perda de tempo, devido, ao que eu que me lembre, à “falta de modos” dos administradores daquele portal. Então, decidi dar-lhe uma nova oportunidade quando me enviou um “e-mail resposta”. Logo percebi a razão do pouco interesse dos espíritas pelo meu portal: estava tudo muito cru e facilmente contra-argumentável. Foram duas ou três rodadas de respostas e réplicas, que me valeram para incrementar o próprio portal. Durante esse período, travei contato com o trabalho de nomes como Pastorino, J.R. Chaves, Severino Celestino da Silva, Paulo Neto e outros escritores, divulgadores e apologistas espíritas. Constatei ainda ter muito a me aperfeiçoar e, ao mesmo tempo, um amplo campo por onde expandir. No balanço final, eu diria que levei a melhor na crítica à reencarnação na história e ele em na defesa dela como fato. V. também aproveitou o material que produziu para a criação de se seu próprio portal, que depois foi reformulado para outro em formato de blog, dedicado à análise de evidências quanto à existência de espíritos e de casos de recordações de vidas passadas, além de fazer avaliações críticas dos romances psicografados considerados clássicos entre os espíritas. Não sei se ele ainda se declara espírita, mas gostaria que existissem mais como ele.

Algum tempo depois, por motivos técnicos (problemas com a hospedagem) e brigas internas por motivos que já não me lembro mais, a STR se desagregou. Parte de seus foristas fundaram o Clube Cético (ainda ativo) e outra migrou para o supracitado Religião é Veneno. Criei perfil no primeiro e já tinha um no segundo, pois ambos tinham estilos bem diferentes. O “Clube Cético” (CC, para os íntimos) manteve a postura de “rédea curta” em termos de moderação da STR, que sempre evitou uma escalada exagerada das discussões, ao passo que o “Religião é Veneno” (RV, para os íntimos) era bem mais anárquico. Havia moderação, sim, e ela agia (e ainda age) prontamente quando uma postagem descambava em algum crime contra a honra da pessoa real por trás da tela (injúria, calúnia e difamação), de ódio e/ou racismo. Agora, quando o único afetado era um “nick”, então a pancadaria era livre! Trollagem era tolerada? Digamos que em um nível muito maior que no CC, mesmo assim um bom número de foristas conseguiu a proeza de torrar a paciência da moderação e ser banido.

Debate no Religião é Veneno

Dizem que se um debate no Religião é Veneno não tiver pelo menos três mortes, ele é considerado chato.”

Foi no RV que conheci alguém que se propunha ser uma espécie de Nêmesis meu (e de outros, quem sabe). Seu nome, bem, para protegê-lo, será “Kevin”. Era um ex-membro de uma seita evangélica e prosélito do espiritismo, um caso raro em minha vivência. Segundo testemunho seu, em outro fórum (de orientação evangélica), fora uma espécie de apologista cristão contra o espiritismo, como tantos outros, que, quando teve o senso de dúvida despertado indiretamente pelos próprios espíritas que atacava, entrou em crise fé. De um crente devoto, tornou-se kardecista igualmente fanático devoto, sem deixar de agir como um pretenso teólogo. Óbvio que eu era uma presa cobiçada e ele estava em fóruns alheios justamente para refutar, desprezar e escrachar os que se opusessem a sua nova fé, como um bom troglodita.

Só que ele não sabia como a banda tocava ali. Ninguém ali estava preocupado em “salvar a alma” ou praticar a “reforma íntima”, enfim, os céticos/materialistas não faziam a menor questão de bancar os bonzinhos. Muito menos alguém ali acreditava na Inerrância Bíblica para defender se esta ou aquela interpretação era a mais piedosa. Os sentidos mais crus e ásperos para nós eram os mais prováveis, principalmente se estivessem a serviço da mitologia nacional do Antigo Israel. Vendo a incapacidade de se fazer notar, tentou mudar de tática, atendo-se aos aspectos mais, digamos, “científicos” do espiritismo ou criticando os adeptos a parapsicologia “quevedista”, que ninguém de fora levava a sério, mas que nos divertiam com suas teorias ridículas sobre o inconsciente. Comigo, não conseguiu ir muito longe, pois, primeiramente, não oferecia eu combate aberto, adotando mais a tática do Picador. Ainda assim, consegui surpreendê-lo refutando textos de Aksakof, besteiras sobre a Patrística e o II Concílio de Constantinopla. E, em segundo lugar, outros fóruns em que postava, de perfis religiosos, consumiam mais de suas energias.

Nem tudo foi ruim com a presença de espiritualistas: o fórum, por algum tempo, foi um interessante lugar de debate entre a “hipótese psi” (a versão séria) e a de “sobrevivência”, i.e., a separação entre mente e corpo, mas foi impressionante a incapacidade dos kardecistas ortodoxos em acrescentar algo. Houve duas honrosas exceções, mas jamais os classificaria como ortodoxos, tal como Kevin era. Esse começou a se incomodar com um forista cético que bancava o papel de Palhaço Malvado, não que os argumentos desse fossem grande coisa, mas evidenciavam como Kevin caía muito fácil em “zoações”. Ele gostava de bater com seus punhos de aço, mas detestava que lhe arranhassem o queixo de vidro.

Sabendo disso, revolvi me aproveitar e dar-lhe o sabor do próprio veneno: registrei-me em um fórum evangélico do qual ele participava e comecei a abastecer os foristas religiosos com os “furos” na doutrina espírita e em suas defesas apologéticas. Não demorou muito para a irritação dele dar sinais de que iria rebentar. Retirei-me discretamente antes de uma “guerra aberta” (que não conseguiria manter, afinal ele tinha boa retórica, embora prolixo demais) e deixei que os “donos da casa” cuidassem do resto. Fiquei por um tempo restrito ao Religião é Veneno, até porque meu perfil fake fora descoberto no Portal do Espírito. Estava eu a fim de “dar o troco” em um forista espírita com quem me desentendi no Clube Cético, de certa forma, fui traído pela própria demonstração de conhecimento quando debatedores melhores lá chegaram e fui “convidado” peitá-los. No RV esteve mais do mesmo algum tempo, até que, em um fatídico dia Kevin, cometeu um erro fatal.

Jon Snow contra Night Walker

– Seu maldito! Kardec é inatacável!!
-Ah, vai te catar!

Ele caiu numa armadilha colocada pelo supramencionado evil clown: as polêmicas declarações da codificação quanto à inferioridade de negros (e asiáticos, também) em relação aos europeus. Em vez de dar uma daquelas respostas-padrão de que Kardec estava preso no século XIX e, sendo assim, portaria o “ranço” de sua época, etc. e tal, ele corroborou e quis provar que isso não era racismo porque essa superioridade existiria de fato (e da pior maneira possível). Não contava, porém, com a emergência de outro forista muito mais competente que ele em eloquência e, para seu azar, membro de uma etnia tida por inferior na codificação. Foi um massacre. Nenhum dos demais espíritas foi em seu socorro para defender o indefensável e os demais céticos, como eu, ficamos assistindo de camarote Kevin ser humilhado, com uma ou outra provocação manifestação ocasional. Kevin não sumiu de imediato depois dessa, mas sua participação diminuiu significativamente, até se extinguir. Bem mais tarde, em buscas no Google, fiquei se sabendo que desenvolvera uma doença autoimune. Já estava melhor, porém havia passado por maus bocados. Não sei se, de certa forma, isso foi uma somatização de seu próprio jeito irascível de ser ou mero azar (karma?), o que posso dizer é quanto a mim: minha primeira reação íntima não foi de pena, nem de escárnio, mas de apreensão. O receio de que, em um possível reencontro virtual, ele estivesse pior ainda (como pessoa, não de saúde), afinal o sofrimento nem sempre é um bom professor, muito pelo contrário. No momento em que escrevo, tal encontro jamais ocorreu, mas Kevin deixara uma espécie de escudeiro em meu encalço. Chamá-lo-ei de “Jaime”. De início, achei que ele seria um adversário promissor, mais tarde percebi que jamais sairia da aba de alguém que fosse maior que ele, seja o Kevin, outro apologista, ou até mesmo todo um bando de asseclas. Não sei o que houve, mas acho que lhe dava mais excitação intelectual que crentes do Fórum Evangelho. Tal como um antagonista de cinema, passou a amar me odiar.

Nem sempre fui bem no RV e em pelo menos dois episódios levei a pior. O primeiro foi com um meteórico forista que chamarei de “Rodger”. Ele apareceu do nada, procurando diretamente por mim para uma “contenda”. Ele avisou, logo de início, que iria responder “como espírita” e eu aceitei (ou pelo menos não rejeitei) essa condição. Foi um erro fatal. Achei poderia contradizer o espiritismo com ele mesmo, mas esqueci que ele não se resume apenas ao Pentateuco kardecista. É todo um contexto criado ao longo de 150 anos, que foi lapidado para ter coerência interna. De certa forma, permiti a Rodger que fizesse inúmeras petições de princípio ao deixar que presumisse diversas hipóteses ad hoc que só eram válidas dentro de um centro espírita e as usasse como argumento. Quando tentava eu apontar para esse “pormenor”, Rodger já passava para outro assunto. Por fim, rebaixei-me ao nível dele ao postar textos enormes para que refutasse (o que não fez, claro). Quando já cansado dessas sandices, abandonei unilateralmente e deixei que tivesse a última palavra, o que deve ter deliciado uma invisível plateia. Não me lembro de Rodger ter postado mais no fórum. Uma das lições que aprendi, ruminando as mensagens daquele tópico, foi a necessidade de transcender a condição de espírita se quisesse ainda peitar a ortodoxia kardecista. A verificação de sua (in)validade estaria fora dela e os ortodoxos jamais sairão da zona de conforto voluntariamente.

O outro envolveu um forista que chamarei de Williams. De certa forma, lembrava Kevin no objetivos, porém desprovido do menor estilo. Parecia mais um hidrófobo Barnabé anticatólico, antievangélico e, moderadamente, anticético. Controlava-se lá, apenas, por estar em casa alheia, mas, para perder as estribeiras, bastavam apenas alguns cutucões. Como bom “picador” costumava também a mostrar os furos dos autores espíritas que utilizava. Contudo, e também diferentemente de Kevin, era impossível que alfinetadas evoluíssem para uma verdadeira “tourada”. A postura era mais a de um feirante a querer ganhar discussões no grito e a depreciar o argumentador, não o argumento (algo proibido na finada STR e no CC, mas liberado no RV). Quando, por fim, reparando que xingar não bastava, tomou uma medida diversiva: mandou-me falar com os próprios autores criticados por mim e (alguns) usados por ele. De nada adiantou oferecer minhas fontes para que lesse e verificasse que não estava de bravata (Kevin o faria, ao menos), só os autores originais seriam autorizados a dar a última palavra sobre os assuntos que escreveram. Sinceramente, hoje isso para mim é uma declaração tácita de derrota, pois se você não é capaz de abalizar uma posição com seus próprios argumentos ou entender o cerne dos que tomou emprestado para defendê-la, então você não passa de um papagaio a repetir o que escuta achando que as compreende. Pode-se até repetir coisas certas, mas a discussão já terá acabado para ti. Só que àquela época não tinha essa visão e, com o orgulho ferido, fui atrás de um desses escritores, no Portal do Espírito (e Williams conseguiu o que queria: tempo).

Tyrion Lannister e o mercenário Bronn

Se não tiver a menor chance, duele por procuração…

Retornei ao Portal do Espírito, só que dessa vez sem perfil fake, e sim como Cyrix, mesmo. E já cheguei atirando. Fui, primeiramente, atrás de um dos autores usados por Williams: alguém, segundo o raivoso forista, cuja réplica seria “arrasadora” e a quem chamarei de Apostol. Cheguei bem no momento quando ele destroçava um forista evangélico não muito capacitado se valendo justamente da tese da remoção da reencarnação no século VI. Ataquei-o com um dos argumentos que Williams recusou a lidar – a inexistência de um testemunho de época quanto aos fatos alegados – e o fiz de forma nem um pouco educada. Para a minha surpresa, a postura dele foi a de um genuíno “lorde inglês” e solicitou tempo para buscar tais fontes. Para isso, foi falar com outro articulista espírita – que chamarei de Klés – também utilizado por Williams e que, naquele momento, gozava de bem mais projeção que o primeiro, inclusive com uma coluna semanal em jornal de grande circulação em certo estado importante da Federação. Havia, também, outra diferença crucial entre ambos: apenas Klés havia sido criticado em meu portal, até porque apenas ele possuía obras impressas (minhas preferidas), ao passo que Apostol ainda estava se fazendo no meio virtual e como palestrante. As coisas estavam prestes a tomar uma dimensão inesperada.

Algum tempo depois (uma semana ou duas), Apostol me apareceu com a notícia de que Klés publicara em sua coluna um artigo falando sobre meu portal – com direito a link, inclusive -, mais especificamente sobre minha crítica à história de Teodora e o suposto assassinato de 500 prostitutas a seu mando como gatilho para o V Concílio e a supressão da reencarnação do cristianismo. O problema é que no exíguo espaço pré-definido de uma coluna não foi possível dar uma resposta que prestasse. No máximo, diria que foram repetidos os mesmos chavões de um modo um pouco diferente. Por outro lado, foi a maior propaganda gratuita que já recebi, incrementando muito meus acessos por quase uma semana. Redigi uma resposta a Klés no meu portal e encaminhei-lhe o link, a tréplica – se é que posso chamar assim – foi o repasse de um e-mail congratulatório de uma terceira pessoa a sua coluna. Apostol até tentou ser uma ponte entre nós, mas nada de nada adiantou: continuei sem saber quais eram as fontes dele em seu livro, aumentando as suspeitas de que tudo não passava de teoria conspiratória, boato. Não fiquei mais a incomodar Klés e Apostol deixou uma promessa vaga de averiguar os fatos daquele longínquo passado.

Após apresentar o artigo do jornal e mencionar minha troca de correspondência com os dois acima, Williams simplesmente zombou afirmando que isso não era grande coisa, dado que a querela não foi levada aos holofotes, i.e., ao próprio jornal onde Klés publicava. De início, senti-me logrado pelo “aumento da exigência” e com a sensação de estar diante de uma arapuca: levar aquele debate à imprensa de massa podia gerar consequências inesperadas com as quais temia lidar, enquanto ele ficaria ileso. Williams se aproveitou do que viu ser uma demonstração de fraqueza – ainda que ele mesmo não desse o exemplo – e tripudiou em cima com diversas acusações a mim ou à forma como redigia, não abordando argumento meu algum. Respondi a essa série de ataques ad hominem rebaixando-me ao mesmo tom que ele. Não foi um momento do qual me orgulhe de lembrar e saí realmente chamuscado. Minha participação no RV foi, a partir daí, minguando até enfim sumir. Esse fórum trocaria de servidor e nem sei se meu perfil foi migrado. Não fiz nenhuma despedida choramingona como alguns – esses sempre voltam -, simplesmente me desinteressei. Senti-me, também, desmotivado por uma espécie de “falta de corporativismo” por parte dos céticos locais, havendo quem perfilasse com Williams em alguns ataques. Fazer o quê? A briga era minha e aquele era o RV: se quiser bater, se disponha a apanhar, como Kevin descobrira de uma maneira ainda pior. Havia outros “ex-píritas” por lá? Sim, mas podiam ser contados nos dedos de uma só mão e esses poucos já não participavam muito, pois certo processo já estava em andamento: a ascensão das redes sociais.

Casamento Vermelho - Game of Thrones

É uma cilada, Bino!

Pode ter sido coincidência, mas acho que não postaria ativamente em fóruns por muito tempo de qualquer jeito, pois começava o fim de uma era. Os perfis do Orkut acabaram com as páginas pessoais e suas comunidades com os fóruns, drenando boa parte dos antigos foristas, só que não eles não se mudaram para criar algo análogo. Houve uma espécie de “feudalização” das relações virtuais, em que pessoas se agrupam segundo suas afinidades. Não há mais tanto do “balaio de gatos” que eram os fóruns. Em seguida, o Facebook sucedeu ao Orkut e o material discutido se perde rapidamente nas timelines. Além da concorrência, houve uma saturação dos temas. Hoje tanto o RV como o CC discutem mais política que religião ou ceticismo, pois parece que tudo já foi dito sobre esses temas e nenhum teísta ou esotérico vem trazer algo diferente, ao passo que Brasília não se cansa de fornecer “novidades”. No RV a sangria foi até maior, quer por abandono de alguns (meu caso), brigas internas (que levaram uns para o CC), ou a simples expulsão dos que eram radicais até para os padrões do RV. Alguns desses exilados fundaram um fórum alternativo – o Realidade -, que por algum tempo manteve a tradição de “arranca-rabos” até decair, também. O Portal do Espírito, coitado, hoje parece mais uma daquelas cidades fantasmas dos filmes de faroeste. Paralelamente, surgiu em terras lusitanas o Fórum Espírita, que ainda está melhor que o Portal, mas, com o perdão do trocadilho, não possui mesmo “espírito” de seu irmão mais velho.

Hoje encaro um pouco os fóruns como aqueles colégios internos ou escolas militares dos filmes de época: locais onde se faz amigos, inimigos, intrigas e muitas experiências (boas e más), contudo eles são uma fase que, após terminada, você gosta até de relembrar, porém não tem o menor desejo de voltar àquele tempo, principalmente se for no mesmo papel. Houve outras personagens que marcaram, sim, e no sentido positivo do termo. Aqui gostaria de citar seus nicks, e agora uso as versões originais ou apelidos íntimos, pois não há nada de errado em elogiar. Começando pelo Portal do Espírito: Lelê, a mãezona do lugar e uma lembrança de que os kardecistas não têm monopólio do espiritismo; Pedro, pois sei que, apesar do jeito bronco, tem bom coração; Marcelo, outro admirador inusitado do Cyrius/Ethos; Rhea, uma pequena anja adoçando a vida por lá; Aridi, sempre a cair fácil “na pilha” e proporcionando momentos engraçados; Virgílio, que tenha ido em paz e que sua memória permaneça sempre entre nós; Leafar, que teve uma paciência comigo maior do que eu merecia (e uma estranha obsessão em saber no quê eu acreditava); e Douglas, u’a mão que se estendeu a mim, mas, na época, não tinha a menor condição de aceitar. Do lado do RV, minhas lembranças para Apodman, com uma trajetória de vida com pontos em comum com a minha; Anna, sempre cheia de simpatia e conhecimentos sobre teoria da evolução (por onde andas?); FlavioChecker, todo zen e grande moderado daquela selva; Res, que sempre dizia o que ninguém tinha coragem; o “Gavião que caminha”, com sua retórica que dava gosto de ouvir mesmo quando não concordava com nada; Vitor, que marcou com os embates sobrevivência X psi; e Botanico, um espírita que se fez respeitar pelos céticos sem ser babaca (muito pelo contrário).

Após uma traição e a perda do marido e do filho, Daenerys dá à luz aos dragões

Às vezes, da mais dura perda e da mais amarga lição, se originam as chaves para a próxima etapa!

As Flame Wars acabaram discretamente e terminei sem nenhuma condecoração ou algo para me orgulhar. Muito pelo contrário, olhando para trás sinto vergonha de mim mesmo, de como me portei, seja com os mais fortes ou com os mais fracos. A Internet tem esse poder de liberar nossos piores instintos, mas ela é apenas uma tentação. Nossas tendências é que nos fazem ceder a ela. Contudo, esses embates me legaram um caso de estudo. Era um assunto que minha intuição dizia ter certeza de que eu estava certo e os espíritas redondamente enganados. Com o orgulho ferido, pus mãos à obra numa tarefa que seria um marco na trajetória do portal.

Um Caso de Amor e Intrigas

Antigo (1954), esquecido, não muito fiel aos fatos, cheio de licenças poéticas,
e ainda assim toda a fibra de Teodora está lá.

As brigas nos fóruns legaram um mistério para averiguar: a suposta supressão da reencarnação do cristianismo pelo casal de monarcas Justiniano e Teodora, no século VI. Em meus contatos com os evangélicos, nos tempos de faculdade, já havia reparado a irritação deles quando versículos de seu livro sagrado eram utilizados pelos espíritas de forma “heterodoxa”, apesar de terem feito algo parecido com o Antigo Testamento, há dois mil anos. Posteriormente, com meus próprios estudos, percebi que não há como a sério a ideia de que os primeiríssimos cristãos fossem reencarnacionistas, visto que possuíam uma grande urgência escatológica: para eles o mundo, tal como conheciam, acabaria ainda na geração deles, o Reino de Deus seria instaurado sobre a Terra e o Mal eliminado. Bem, assim aparece o recado em Marcos, Mateus, um pouco em Lucas, e nas (genuínas) cartas de Paulo. Ainda que houvesse, em alguns casos, retorno à carne nos moldes de certos pagãos antigos ou dos espíritas modernos, em pouco tempo não deveria haver mais nenhum. Os evangélicos estão certos nesse ponto, embora continuem tendo de explicar porque o fim não veio ainda.

Mesmo com uma constatação simples, convencer nem sempre é fácil, em especial aqueles que chamo de Barnabés, i.e., os que defendem que a ortodoxia cristã seria uma fraude história e o e espiritismo a verdadeira expressão da mensagem de Jesus e dos apóstolos. Faço isso em homenagem à Epístola de Barnabé, um pseudo-epígrafe cristão que pretendia fazer algo parecido, só que com o judaísmo. Um ponto de partida para a tarefa foi a única referência dada por autores espíritas a um cronista da época: Procópio de Cesareia. Segundo esses autores (dentre eles, Klés) esse historiador teria relatado que Teodora fora filha de um criador de ursos, usados para a diversão do populacho no “pão e circo” de Constantinopla. Até aí nada de mais ou inverídico. O problema surge quando se atribui a ela – sem uma menção direta a Procópio – a execução de 500 prostitutas da capital, antigas colegas de ofício. Teodora teria ficado com medo de expiar por esse crime reencarnando como escrava e, então, fez a cabeça de seu marido para que convocasse um Concílio cuja principal pauta era banir a doutrina da reencarnação da Igreja, junto seu principal postulante: o teólogo do século III Orígenes. E assim foi feito.

Tirando a origem do meretrício, nada disso tem base documental. Aliás, Procópio relatava algo diferente: Teodora teria trancafiado 500 prostitutas num convento chamado Arrependimento. Algumas teriam morrido ao tentar escapar de lá, descendo pelas muralhas. E só. Contudo, isso dá margem a divagações como as hipóteses de que as internas eram maltratadas, mortas longe dos olhos e ouvidos da capital, ou simplesmente preferiam uma vida de incertezas a um noviciado forçado. De qualquer forma, não havia nenhuma vinculação disso com o II Concílio de Constantinopla e nem poderia: Teodora morrera em 548 d.C., cinco anos antes. Como até mesmo encontrei espírita apelando com a tese de Teodora ter agido como obsessora do marido na erraticidade, não houve outro jeito senão buscar quais foram as reais causas do referido Concílio e da suposta condenação de Orígenes.

Encontrei várias referências para fontes primárias sobre o assunto se encontram no artigo Orígenes e Origenismo. O problema, como quem acessá-lo poderá perceber, é que ele faz parte da Catholic Encyclopedia, uma fonte totalmente confessional. Alguns autores espiritualistas já a utilizaram assim mesmo, quando ela parecia lhes corroborar, mas isso não seria argumento aceitável por muitos, não importando quão boa fosse a qualidade do referido artigo (e é bom). Portanto, decidi me debruçar diretamente sobre as fontes indicadas, começando pela mais extensa delas: A Vida dos Monges da Palestina, de Cirilo de Citópolis. Comprei o livro e fiquei tentado simplesmente a escanear e disponibilizar os capítulos de A Vida de São Saba. O problema era que estava tudo em inglês e um dos murmúrios constantes dos apologistas que evitam “olhar para fora da caverna” era justamente a ignorância desse idioma (ou de qualquer outro). Arregacei as mangas e me pus a um trabalho paciente de tradução. Como já havia falado de Procópio e a questão de Teodora em um artigo do portal, criei um novo: Contendas do Deserto, em alusão às batalhas ideológicas (e físicas) entre os monastérios do deserto palestino do século VI.

Foi interessante ler sobre a instalação dos primeiros origenistas bem embaixo das barbas de Saba em um dos mosteiros por ele fundado – o Nova Laura – e sua súbita expansão após sua morte (532 d.C.). Seu biógrafo se esmerou por realçar suas qualidades pias, contudo pode ter equivocadamente passado a impressão de frouxidão. Cirilo até relata que Saba apresentara sua preocupação com o origenistas (e outros grupos heréticos) diretamente ao imperador Justiniano, que aparentemente nada fez contras os insubmissos na ocasião. Curiosamente, Saba peitou a imperatriz Teodora recusando-lhe dar uma bênção para engravidar.

Justiniano encontra Teodora

Não me lembro de nada disso nos clássicos greco-latinos

Somente após os origenistas palestinos partirem para a uma campanha de conquista de “corações e mentes” nos mosteiros da região é os ortodoxos buscaram apoio em Constantinopla, desencadeando o Sínodo de 543 d.C., que não passou de uma condenação protocolar. Os dez anos seguintes marcaram o apogeu do partido origenista da região, quando conseguiram manobrar massas para encurralar os ortodoxos em poucos redutos ainda fiéis. Apenas quando surgiu uma nova e firme liderança, aliada a um cisma entre os origenistas – com muitos deles retornando à Igreja – é que se iniciou a reação da ortodoxia. Por fim, outra vez a questão foi levada à capital, aproveitando-se do V Concílio, em pleno andamento. O origenismo fora condenado mais uma vez e, agora, com uma ação militar que desalojou os insubmissos de Nova Laura.

Li uma versão fatos um pouco diferente em outro cronista – Liberato de Cartago, também apresentado pelo mesmo artigo da Catholic Encyclopedia. Nela, o pedido de condenação a Orígenes em 543 não teria ido diretamente dos clérigos palestinos para Constantinopla, mas teve um intermediário – Pelágio, o “embaixador” da cúria romana em Constantinopla – que viu numa condenação a Orígenes a oportunidade para se vingar de um bispo da Ásia Menor: Teodoro Ascidas. Esse, além de origenista, também era monofisita, uma heresia cristológica que incomodava Roma. Pelágio conseguiu o que queria, mas Ascidas deu respondeu à altura: como o sínodo de 543 abriu precedente para anatematizações póstumas, ele sugeriu ao imperador que condenasse as obras de três teólogos acusados de nestorianismo (um deles antigo opositor de Orígenes) e assim angariar a simpatia dos monofisitas (cuja cristologia era incompatível com a dos nestorianos) e fazê-los voltar à comunhão com a Igreja. Com o auxílio de ninguém menos que a imperatriz Teodora (também monofisista), Ascida conseguiu seu intento. Contudo, apesar de realmente, sob um olhar posterior, terem flertado com o nestorianismo, esses teólogos morreram em paz com a Igreja; o que levou à rejeição do decreto imperial por muitos bispos. Começava a Questão dos Três Capítulos, a principal razão para a convocação do II Concílio de Constantinopla.

Ainda traduzi um pequeno trecho do tratado Em Defesa dos Três Capítulos, do bispo norte-africano Facundo de Hermiano, que, junto com Liberato, demonstra que a Igreja Latina não se importava nem um pouco com os origenistas, aliás, até se irritou com a confusão por eles provocada.

Apenas com esse (imenso) material, já era possível dar ao público uma boa ideia do que aconteceu tanto em Bizâncio como na Palestina do século VI, só que isso não era o bastante. Precisava destrinchar como a situação chegara àquele estado de contendas. Já havia descrito alguns vislumbres portal, baseado numa tese redigida em inglês pela Igreja Copta do Egito intitulada Deans of The School of Alexandria, cujo segundo volume trata de Orígenes. Decidi aprofundar um pouco mais a questão indo atrás das fontes por eles utilizadas e um nome muito citado era o de Henri Crouzel, um jesuíta francês e professor na Pontífica Universidade Gregoriana de Roma. Crouzel fez, de fato, uma pesquisa ampla e profunda, mas é preciso tomar certo cuidado com ele. Uma coisa é reconhecer que Orígenes tomou liberdades numa época em que a ortodoxia cristã ainda não estava plenamente definida em determinados pontos, outra é achar que tais liberdades ainda poderiam ser tidas por razoáveis numa época posterior. Houve um Pai da Igreja chamado Pânfilo, do começo do século IV, que procurou o mais possível apresentar o pensamento de Orígenes como ainda válido para a ortodoxia da época de Niceia e o que não fosse aproveitável seria obra da corrupção de seus escritos por hereges ou de uma leitura enviesada deles. Pânfilo fez escola nos séculos IV e V, legando dedicados defensores da memória de Orígenes, como Rufino, e Crouzel (falecido em 2003) é seu mais recente herdeiro. Procurando um estudo um pouco, digamos, menos “entusiasta”, deparei-me com The Origenist Controversy, Elizabeth Ann Clark. Já sabia, pela Catholic Encyclopedia, que houve duas “crises origenistas”: a segunda é a que os escritores espiritualistas adoram apontar com “a supressão da reencarnação no cristianismo”, sem o menor conhecimento do assunto, a primeira é geralmente desconsiderada por eles. A Catholic Encyclopedia a apresentava como um difuso embate entre teólogos dos séculos IV e V; precisava, portanto, aprofundar-me mais sobre esse período.

Foi uma frustração inicial seguida por grata e impressionante surpresa. Não encontrei nada acerca do Orígenes de carne e osso que viveu na Alexandria do século III, nem sobre os conflitos na Palestina do século VI. Ainda que não fossem da proposta do livro, mereceriam uma abordagem maior. Por outro lado, devo reconhecer que The Origenist Controversy é uma obra acadêmica feita para acadêmicos, ou ao menos estudantes; ou seja, gente que já conhecia algo do assunto, para os quais ela preferiu não repetir pormenores que já esperava que soubessem. Isso permitiu que ela focasse no período que vai do século IV a meados do V e daí que veio minha surpresa: não imaginava que daí viriam tão ricas discussões a respeito do velho Alexandrino. Para ser sincero, pouco se debateu acerca do Orígenes histórico, mas de como ele era lembrado por suas especulações numa época de consolidação do cristianismo como religião oficial. Assim, todos que procuravam estar do “lado certo” do pensamento religioso acusavam os adversários de alguma heresia; e um lugar comum se tornou a acusação de ser “origenista”, pouco importando se Orígenes concordaria com o acusado. Mal comparando, seria como alguém nos anos 60 do século XX ser tachado de comunistas por apenas demonstrar alguma preocupação com a questão social. Do outro lado, estavam os partidários de Orígenes tentando explicar que os verdadeiros hereges faziam mal uso do seu teólogo preferido. Chegou-se ao cúmulo de um mesmo texto seu poder ser usado tanto contra como a favor de sua reputação. No final, excetuando Pelágio e seus seguidores, nenhum dos antiorigenistas adversários conseguiu dar uma resposta à altura da dele para a questão do Problema Mal: o porquê de um Deus Bom ter criado um mundo de sofrimento. O melhor que se conseguiu foi a doutrina do “pecado original” de Agostinho de Hipona, que, de certa forma, é um leve origenismo, como observou a autora. Enfim, o II Concílio de Constantinopla empalidece diante da efervescência intelectual (e política) de 150 anos antes.

Teodora na corrida de bigas

Go, Theodora! Go!

Percebendo a complexidade do tema “Orígenes e Origenismo”, decidi fazer toda uma revisão profunda em torno do tema. Aproveitando-me de um câmbio monetário um pouco mais favorável, maltratei meu cartão de crédito como nunca em livrarias virtuais – como Amazon, Abe Books e Alibris – atrás muitas vezes de livros raros e/ou esgotados, cuja existência soube por meio de obras mais acessíveis. No rol das aquisições estavam exemplares da série Origeniana de colóquios, traduções inglesas de Orígenes mais recentes, confiáveis e comentadas que as já de domínio público da Internet, estudos sobre a teologia de Orígenes, obras de bizantinólogos famosos do passado (como J. B. Bury) e da atualidade (James A. S. Evans), biografias de Teodora, fontes primárias disponíveis apenas em livros físicos (como Crônicas, de João Malalas) e estudos sobre a evolução do cristianismo, em particular sobre o período do século IV ao VI. De posse de todo esse material, propus-me ao seguinte plano de desenvolvimento:

  1. Um sumário das teses de Orígenes, em especial sua teodiceia e soteriologia;

  2. O surgimento do “Orígenes lembrado” nos séculos IV e V que, no meio do cabo de guerra entre detratores e apoiadores, começava a se distanciar do indivíduo de carne e osso que andou pela Alexandria do século III;

  3. O superorigenismo dos místicos do deserto dos séculos V e VI, codificado no desconhecido e impressionante Livro de Hierotheos. Sinceramente, depois de ler suas páginas tenho certeza de que os espíritas não têm a menor, a mais ínfima noção do que estava em jogo ao se lamentarem pelo V Concílio;

  4. Uma apresentação do meio ambiente onde o origenismo e suas crias se evoluíram: o império romano em progressiva cristianização declínio, até a queda de sua metade ocidental ante os bárbaros;

  5. O pano de fundo em que a segunda crise origenista: o reinado de Justiniano no Oriente e sua tentativa de restauração de um império ao redor de toda orla do Mediterrâneo, unido espiritualmente por uma fé única e monolítica;

  6. Uma apresentação à imperatriz Teodora. Sinceramente, uma das maiores calúnias já feitas pelos movimentos espiritualistas foi contra esta pessoa. Já vi discretos alertas para que se interrompessem as acusações sem base, mas ainda estou por encontrar um sincero mea culpa por parte deles;

  7. Apresentação das fontes primárias da questão da prostituição e do tráfico de escravas sexuais no governo de Justiniano;

  8. Exposição das análises feitas por historiadores modernos (Paolo Cesaretti, J.A.S. Evans, etc.) sobre as duas questões acima e a conclusão: Justiniano e Teodora tentaram inicialmente extinguir o tráfico sexual por bem – comprando a liberdade das cativas e indenizando seus “credores” -, para depois, vendo que essa abordagem não surtira efeito, combater ferozmente traficantes e rufiões, ao passo que tentaram proteger as prostitutas, ainda que não da melhor forma;

  9. Apresentação das fontes primárias para o V Concílio Ecumênico. Exceção feita para o imenso relato de Cirilo de Citópolis, que é apenas descrito no corpo do texto e posto integralmente em um dos apêndices;

  10. Exposição de análises de historiadores (e de um espiritualista que estudou ao menos um mínimo) sobre o desenrolar dos fatos do V Concílio;

  11. Análise pormenorizada dos anátemas do sínodo de 543 d.C. e os do V Concílio para averiguar suas reais relações com as ideias originais de Orígenes ou com as de seus continuadores;

  12. Averiguação do real impacto da condenação de Orígenes no V Concílio na História do cristianismo. Resposta: nenhuma, pois o origenismo já não fazia mais parte da corrente principal dos cristianismo havia tempos;

O estudo foi publicado de forma folhetinesca, o que deu tempo para uma resposta espírita. Embora eu tenha visto uma considerável e positiva mudança de opinião, velhas práticas entre os autores espíritas persistiam, com nenhuma literatura especializada no Alexandrino sequer, muito menos a leitura direta de Orígenes ou de cronistas bizantinos. O próprio biógrafo de Teodora usado – Carlo Maria Franzero – estava mal traduzido em sua edição brasileira. Adicionei mais um capítulo rebatendo esses comentários e decidi incluir mais outros dois que foram frutos de um amadurecimento ocorrido durante a pesquisa. Primeiramente, houve a constatação de que Orígenes, Teodora e o V Concílio compunham, na verdade, um “mito auxiliar” para complementar outro mito, o de que o cristianismo primevo era uma espécie de protoespiritualismo, isso, sim, fundamental a muitos espíritas. A necessidade de mais um mito advinha de uma pergunta quase natural provocada pelo primeiro: “se a reencarnação estava entre os ensinamentos do cristianismo, por que foi abandonada?” Um curso alternativo da História – em que Orígenes chegasse inconteste ao século VI, Teodora agisse como louca sanguinária e a anatematização da preexistência fosse a questão central do V Concílio – viria bem a calhar.

Justiniano e Teodora in love

– Oh, “Justi”, não sabia que você era tão galante!
– É que andei lendo Ovídio fim de semana passado, querida.

O primeiro acréscimo girava em torno de um ensaio do historiador britânico Eric Hobsbawm (“Dentro e fora da História“) sobre diversas tentativas de políticos, ideólogos e religiosos de moldar o passado à própria imagem e semelhança. Sua maior sacada está aqui resumida:

O passado legitima. O passado fornece um pano de fundo mais glorioso para um presente que não tem muito o que comemorar.

Uma síntese que cai como uma luva para as mistificações em torno do V Concílio. O segundo “extra” foi uma busca pelo real passado do cristianismo, pelo que as primeiras gerações de cristãos realmente ansiavam. Ajudou-me nisso o “maior biblista do mundo” (aspas, pois são palavras de Klés) Bart Ehrman, que em seu livro Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millennium (sem tradução em português, creio), expôs o caráter apocalíptico da mensagem evangélica, que me convenceu. Sei que existem outras visões quanto ao Jesus Histórico, mas mesmo esses pesquisadores alternativos (como os do Jesus Seminar) concordam que João Batista, Paulo de Tarso e a comunidade marcana foram apocalipsistas. Aí que está o X da questão: se os primeiros cristãos acreditavam que o cosmos, tal como o conhecemos, chegaria a um término em pouco tempo com a instauração do Reino de Deus, então a reencarnação perdia a razão de ser. Foi esse contexto histórico que me propus a resumir no segundo extra.

Encerrei o estudo falando sucintamente do destino do Império Romano do Oriente no longo prazo, com o sonho de Justiniano de um novo Mare Nostrum destruído por sucessivas invasões, bem como o de uma Igreja unida sob o Patriarcado de Constantinopla. Nesse caso, o movimento monofisita prosseguiu firme e forte na Síria e no Egito, onde se beneficiou imensamente da conquista islâmica. Contudo seus libertadores terminaram por asfixiar lentamente os antigos protegidos de Teodora, em razão de um fluxo contínuo de conversões ao Islã. Se por um lado esses dois sonhos se extinguiram como o fogo de uma vela, também terminou gradualmente o pesadelo Orígenes. Redescoberto no Renascimento, suas apologias e comentários remanescentes o reabilitaram no seio da Igreja Católica, que hoje apenas deixa de lado seu papel de “teólogo investigativo”. Muito de sua obra se foi, com certeza, mas o resta ainda é impressionante. Lê-lo é como visitar um sítio de ruínas da Antiga Roma: tem-se a sensação paradoxal de se estar diante de uma grandeza ao mesmo tempo perdida e perene.

No total, foram quase três anos de trabalho exclusivos sobre o tema (novembro de 2007 a setembro de 2010), do quais não desenvolvi nenhum outro grande assunto no portal. Pelo contrário: esse artigo é que serviu de base para o aperfeiçoamento dele. Foi algo que me encheu de orgulho por ter feito o que ninguém da intelligentsia espírita se dispusera até então, aliás, eu acabara por realizar um serviço que deveria ter sido deles. Meu portal, que antes apenas catalogava e listava erros, pela primeira vez estava agregando conhecimento aos que o liam. Não chegou a ser uma pesquisa genuína – afinal nada de original foi apresentado sobre o tema -, mas senti que quase esgotara o material disponível sobre a questão. De certa forma, ficou faltando uma coisa: descobrir de onde surgiu o boato, algo um tanto difícil sem a colaboração dos espíritas que o repassaram, e não querem me ver nem pintado de ouro.

Justiniano e Teodora na meia-idade

– Que cara é essa, meu bem?
– Tive um sonho horrível: parecia que, num futuro distante, uma seita falaria mal de ti…
– Ah, querido! Você sabe como as seitas são: sempre querendo se apropriar do passado alheio.
– Hehe, tens razão.

Por mais que neguem, o boato desmascarado em Contendas do Deserto é um equivalente espírita do Homem de Piltdown dos biólogos. Não chegaram a abalar, respectivamente, os pilares do espiritismo (como gostariam muitos cristãos fundamentalistas), nem os da Teoria da Evolução (idem), porém demonstram o quanto de credulidade podem existir entre os “adeptos da razão”. A única diferença a apontar é que os próprios cientistas detectaram a fraude de Piltdown, ao passo que para o V Concílio e a reencarnação foi necessária a intervenção de um “detrator”. Nenhum biólogo mais tenta salvar as aparências daquele fóssil forjado, já quanto à história do V Concílio Ecumênico…

Esse trabalho me encheu de orgulho, o que, no fim das contas, não me foi muito benéfico.

Uma Descida ao Abismo

Poster de Breaking Bad

– Say my name!
– Cyrix.
– Goddamn right!

Durante o período de redação de Contendas do Deserto, encerraram-se as atividades do GeoCities, que fora incapaz de concorrer com o formato blog e outras modalidades de hospedagem. Migrei para o domínio “6te.net” e adotei o livro de visitas da DreamBook, o que foi muito bom, pois tinha agora um endereço mais enxuto e uma caixa de comentários eficiente. Paralelamente, afastei-me dos fóruns, postando uma ou outra trivialidade ocasionalmente em intervalos espaçados. Produzi até um boletim de atualizações numa área reservada do fórum Portal do Espírito para postagens “do contra”. Salvo uma forista, ninguém demonstrou maiores interesses. Contudo “não demonstrar” não significa “não possuir”, pois encontrava meus textos pela Internet afora. Um caso curioso se deu no fórum Ex-testemunhas de Jeová quando um forista, que, por sinal, havia conhecido do Portal do Espírito, usou meus textos sobre Orígenes, admitindo que era de “um site contrario ao espiritismo“, porém sem dar nenhum link para a fonte. Citava-me porque concordava parcialmente com ele, apesar de nossas diferenças, mas por que não me referenciava? Talvez para não aumentar o número de referências ao meu portal em motores de busca, ou uma simples referência seria como abrir uma “Caixa de Pandora” cheia de questionamentos embaraçosos. Senti-me como o vilão de Harry Potter, Voldemort: “Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado”. Só de provocação, cadastrei-me apenas para postar os links omitidos.

Finda a publicação de Contendas…, comecei a colher os frutos de um serviço bem feito. Era progressivamente mais citado na rede social Orkut que, com suas comunidades, havia substituído boa parte dos fóruns independentes e decidi acelerar o processo. Dessa vez, porém, não me envolveria em discussões propriamente ditas. Repetindo o que fizera no Ex-testemunhas…, buscava por discussões onde houvesse alguma menção a Teodora e Orígenes, lançava nelas o link para minha criação e deixava os contendores locais se digladiarem. Assuntos como “Teoria da Beleza” e vida extraterrena também eram bem prolíficos em acirradas flame wars.

– Mais um artigo pronto!
– Yeah, Mr. Cyrix, science!

Por essa época, tomei conhecimento que, pouco tempo antes, Klés lançara um livro com uma coletânea dos artigos de sua coluna. A crítica ao meu portal era logo uma das primeiras. Se eu já desfrutara de meus 15 minutos de fama anos antes em terras mineiras, agora podia já sonhar com alguma nota de rodapé na trajetória do espiritismo brasileiro. Aos poucos, o vaticínio que fizeram sobre meu pai se cumpria em mim, ainda que de uma forma bem torta. De certa forma, ajudei-o comprando um exemplar do livro e lhe reservando um lugar de destaque em minha estante, aberto justamente na página de meu interesse. Era estranho, mas esse reconhecimento a contragosto afagava meu ego como nunca e me desconfortava ao mesmo tempo. Algo como almejar a fama de um gangster: que me quisessem mal, contanto que falassem de mim.

No mundo real, paguei com frieza o desdém que recebi julguei receber nos meus tempos estudantis: qualquer pedido de ajuda dos familiares ainda envolvidos com o espiritismo era simplesmente desconsiderado se envolvesse assuntos dos seus respectivos centros. Mesmo a jantares beneficentes – com direito a churrasco e show de mágica – recusei-me atender. Havia particularmente um parente adepto de métodos coercitivos de “motivação” – uma semelhança flagrante entre religiosos e mafiosos – e, irritado com minhas negativas sucessivas, passou a me intimidar com insinuações de que uma temporada no umbral me purgaria de meu egoísmo. Engoli sapo uma ou duas vezes até que respondi com veemência: “Com certeza seria muito bom, pois assim ficaria livre e longe de hipócritas com você!” Ainda bem que havia mais pessoas por perto para acalmar os ânimos na ocasião.

I’m not in danger. I am the danger!

Meu campo de atuação até ensaiou se expandir um pouco, ocorrendo, inclusive, um convite de V. para fazer parte de um grupo de estudo da “hipótese sobrevivência”; algo que, em tempos modernos, representaria melhor o espírito (com o perdão do trocadilho) dos investigadores da segunda metade do século XIX e do começo do XX. Aproveito aqui a oportunidade para tecer minha desculpa a V. por não ter sido lá um membro dos mais atuantes. Embora eu reconheça a importância da iniciativa, simplesmente era uma área que não me empolgava. Cheguei a colaborar com a revisão da tradução de uma obra do final do século XIX – um estudo sobre a médium Leonora Piper -, mas minhas energias estavam focadas em projetos mais pessoais. Basicamente, ambicionava transformar Contendas do Deserto em livro. Não seria tarefa fácil, pois teria de situar o leitor no contexto do problema do revisionismo histórico do espiritualismo moderno e daí mostrar o que aconteceu de forma didática. A “didática” era o X da questão, afinal, não podia simplesmente tascar as inúmeras citações de pesquisadores e fontes primárias tal como fizera na internet. O objetivo não era mais esmagar apologistas e, sim, instruir e seduzir o leitor com uma história contada com minhas próprias palavras. Decidir o que deixar, o que tirar não era nada fácil, mas ainda assim continuava motivado: era uma chance que vislumbrava de sair de trás da tela e assumir meu nome verdadeiro, além de minha descrença, em grande estilo. Bem diferente do que meramente colocar em meu cartão de visitas o link para um portal especializado em catalogar erros e bancar o chato. As coisas não saíram exatamente como planejado, contudo.

Um baque veio numa reunião em família. Conversa vai, conversa vem, caímos no “assunto” remoção da reencarnação na Bíblia pela Igreja Católica. Sim, espíritas, new agers e ascensionados também possuem seus carolas, a se esquecem de que outros assuntos e, principalmente, outras vivências religiosas existem. O boato, daquela vez, mudara de Concílio, retrocedendo uns duzentos anos para o de Niceia. No caso, a remoção da reencarnação teria se dado pela escolha de um cânon livre de referências a ela, algo ao estilo O Código da Vinci. Tentei me conter, mas chegou a hora me que não suportei mais ouvir tamanha quantidade de abobrinhas e perguntei se alguém lera realmente as atas de tal Concílio. A composição do cânon sequer foi assunto tratado lá! Aproveitando a oportunidade de eu ter me manifestado, aquele parente com quem discutira antes voltou a provocar, insinuando não querer eu mais do que bancar um sabichão metido a historiador. “Antes isso que um ignorante como você” e comecei a relatar diversas das imposturas espíritas que havia catalogado ao longo dos anos, tudo cobrando explicações que ele era incapaz de fornecer. E jamais forneceria, afinal a discussão foi interrompida quando uma série de gemidos oriundos de um canto da sala chamou a atenção dos presentes, que, em seguida, lançaram seus olhares de reprovação em mim.

Breaking Bad, cena de Walter White confrontando seu reflexo deformado.

Eu tinha acabado de fazer alguém chorar.

Tentei, em vão, retratar-me, e, por fim fui, convidado a me retirar. Voltei para casa mais silencioso que um túmulo. Por dentro, ressoavam em meu ouvido o riso de meu desafeto e o choro de alguém que poderia muito bem ter dormido sem esse freak show. Naquela noite, o primeiro me incomodou mais; ao fim de uma semana, era o último. Era uma experiência que não os fóruns não podiam dar: a existência de alguém do outro lado da tela. Enquanto matutava sobre isso, eis que em minha caixa de comentários aparece Jaime – o subalterno de Kevin – cobrando que eu escrevesse algo sobre Elias e sua (suposta) reencarnação em João Batista. Dei-lhe como resposta algo que nas redes sociais de hoje poderia até ser chamado de “textão”, mas cujo efeito foi simplesmente o de lhe irritar. Ele insistia ad nauseam numa resposta binária para a questão, sem se mancar de que não falava com um crente. Para meu desgosto, um pequeno e infrutífero debate surgiu, sendo que no meio dele aparece uma curta mensagem de “Douglas” me atacando. Seria aquele mesmo Douglas que quis me ajudar durante minha “infiltração” no “Portal do Espírito”? Não conhecia outro, o fato de os dois estarem juntos não seria mera coincidência. Então, por que estava tão diferente? O que Kevin e seus asseclas fizeram com ele? O que eu fiz a ele?

A conversa acabou por pura saturação, como tantos outros embates sem mediação. Não julgo que fui mal, mas estava arrasado. Era esse tipo de gente que eu atraía: hipócritas querendo aumentar seu valor diminuindo o dos que lhes cercam, nanicos ambicionando parecerem mais altos me usando como escada e ex-empáticos transformados em inimigos? E quanto a quem eu repeli … ou magoei – mesmo não nunca tendo visto a vermelhidão em seus olhos -, que ganhei com isso? Por que Falhas do Espiritismo deveria continuar a existir, se tinha caído a ficha de resultados tão chifrins?

Skyler e Walter - último diálogo

Por alguns dias, tirei o portal do ar. Precisava encontrar ao menos algumas respostas.

[topo]

O Livro que Ninguém lerá

Cartaz de Mr. Holland - Adorável Professor

Afinal, o que é o sucesso? Sucesso para quem?

Foi uma espécie de crise existencial em menor escala. Pretendi bastante com o portal e, como uma facada no ego, não tive o retorno esperado. Sem contar que ele me tomava tempo, sim, o único ativo neste mundo que é irrecuperável; desperdiçado com algo que não me dava dinheiro, nem contatos (por uma postura minha), e que poderia ser gasto no convívio com os meus, aperfeiçoando-me profissionalmente, ou, simplesmente, em bons e saborosos momentos de ócio. Tentei me desintoxicar à maneira que diversos tabagistas tentam largar o cigarro: abstinência radical o quanto puder, porém sem direito a adesivos de nicotina. Tal como muitos deles, falhei miseravelmente. Não eram só os pensamentos a respeito dos artigos que ainda queria escrever, mas também uma reflexão sobre os já escritos: eram rasos, sem nada acrescentar além de apontar erros. A única exceção era Contendas do Deserto, mas mesmo ele não me agradava mais tanto assim. Seu crescimento um tanto desordenado, as misturas de pedantismo e falas coloquiais, além do fato de, no afã de ser exaustivo no tema, ser capaz de exaurir quem o lesse; davam-me vontade de refazê-lo do zero. Era, em parte, a proposta do livro que planejava escrever, mas se agora já não tinha tanta motivação, constatava que não tinha condições para redigir algo que prestasse. Seria uma versão cética dos mesmos sujeitos que criticava.

Prof. Holland na primeira devolução de provas corrigidas

– Suas notas foram horríveis!
– Graças ao senhor, mestre!

Eu precisava me reinventar se não quisesse perecer ante à malícia externa e ao inferno interior que eu mesmo criei. Começando pela casca, abandonei o formato “puro html” do “6te.net” – que já estava irritando com seus anúncios e pop-ups – e comecei a migrar meu conteúdo para um blog do WordPress. Escolhi um tema elegante e enxuto, pagando por um domínio “.org” para possuir um link mais compacto e me ver livre de propagandas. Enfim, o novo “Falhas do Espiritismo” tinha de ser agradável à visão do leitor. Como lema, subintitulei-o com os dizeres “entender, desconstruir, reconstruir“. Sim, confesso que o plagiei de uma animação japonesa – outro escapismo meu – e não me envergonho: tinha tudo a ver com a nova proposta, embora o contexto fosse outro.

Primeiramente, entender por que uma falha, equívoco, engano, etc. ocorre. Todo erro tem uma história para contar, as motivações de seus personagens, o ponto de partida que tiveram, as bifurcações com que se depararam e, claro, as escolhas que tomaram. A escola nos dá a ilusão de um progresso linear do conhecimento quando, na verdade, aquilo que chamamos de Ciência deveria ser apelidado de “cemitério de ideias”: uma imensidão de equívocos oriundos de uma eterna “bateção” de cabeças. Kardec estava preso no século XIX, então o que era tido por científico naquela época? Quais eram os principais programas de pesquisa, suas dúvidas e escolas concorrentes? Simplesmente apontar-lhe erros é não deixar ao cidadão do Segundo Império Francês a oportunidade de falar por si mesmo.

Mr. Holland ensina a uma aluna a tocar clarinete

– Por que não consigo tocar esta passagem?
– Você está com tanto medo de errar que se esquece de se divertir.

Existe, também, o atemporal fator humano. Os que dão ao Codificador o atributo de “Bom Senso Encarnado” mal têm ideia do quão há de enganoso nesse título. Podemos ser tudo, menos genuínos animais racionais capazes de discernimento imparcial. A Emoção e a Intuição são as verdadeiras molas mestras de nossa existência. Aquilo que chamamos de “racionalidade” é apenas uma ferramenta a serviço dessas duas; que pode usada para arranjar comida, traçar estratégias com o inimigo, alcançar status num grupo, codificar uma nova doutrina ou escrever um blog. Enfim, a razão serve para descobrir a melhor maneira de dar vazão a nossas fortíssimas paixões. Kardec, Léon Denis, “Klés” e “Kevin”, nenhum deles esteve imune à própria condição humana que lhes antolha a vista, dá falsas heurísticas, muitas convicções e poucas provas. Tudo metodicamente explicado e justificado. Entender por que caímos nessas armadilhas com o devido cuidado para não tropeçar em outras é um outro desafio do “entendimento”.

desconstruir é um pouco mais complicado. Isso poderia até ser um sinônimo pós-moderno para “crítica construtiva”, se não fosse o problema de inexistir tal coisa. Afinal de contas, toda crítica visa destruir. Por outro lado há destruições e destruições: pode-se usar dinamite para explodir uma construção ou retirar-lhe tijolo por tijolo. Isso implicou, para mim, em revisar cada um dos artigos. Como não gostaria mais de ferir corações sensíveis, reduzi bastante o grau de ironia e sarcasmo (para não dizer deboche, mesmo) que um dia aqui abundou. Alguns comentários continuam a apontar a presença de um tom que lhes desagrada. A seus autores, respondo que já foi bem pior.

Qual o valor disto, professor?

– Professor, é o seguinte: todos os livros que concordam com a Codificação são desnecessários, os que discordam são horríveis, então…
– Pode parar, rapaz! Na última vez que alguém falou algo assim, começou a Idade das Trevas.

Por outro lado, não tenho a menor intenção de proteger egos sensíveis. Até porque seria muita pretensão querer estar de bem com todo mundo, ainda mais quando credibilidades são postas em xeque, reputações questionadas, falta de solidez nos argumentos evidenciada e, principalmente, as “vacas sagradas” de muitos são transformadas em churrasco. Por mais que eu tente separar as pessoas de suas obras, é difícil alguém não se ressentir. Ou que um terceiro tome suas dores e tente justiçá-lo. Em ambos os casos estão envolvidos sentimentos de vergonha e humilhação, quer contra si mesmo ou contra a comunidade à qual pertence.

Já me apoquentei um bocado com tal situação, mas hoje estou mais tranquilo e até me divirto um pouco. Reparei, muitas vezes, que suas reações não são contra mim, mas direcionadas a uma visão distorcida que tem a meu respeito. Uma caricatura mais fácil de responder, carente dos pontos mais espinhosos apontados pelo original, cujas críticas objetivas sequer são ao menos explicitamente enunciadas em diversas ocasiões. Assim é tão mais fácil…

Holland e seu adversário

– Nosso grão-mestre-articulista-mor vai acabar contigo!
– Quando ele aprender a interpretar textos, quem sabe…

Se apenas ficasse refutando textos como na época dos fóruns, jamais partiria para reconstruir. Para tanto, posso dizer que Contendas do Deserto me ajudou, não exatamente com seu material, mas como modelo. No princípio, não fazia coisas muito diferentes das que encontrei no fatídico O Império das Seitas: catalogar erros e zombar. Com os próprios pressupostos que assumi acima, decidi partir em busca das histórias por trás desses erros – em que pé estava a ciência vitoriana, o que significava ser cristão no tempo dos apóstolos, a razão de certas opções equivocadas serem tão sedutoras, etc. – para depois analisar porque é tentador se apropriar de um passado que nunca existiu numa forma de autoafirmação. Acredito que, não só para o espiritismo como para qualquer filosofia ou ideologia, será mais producente buscar uma identidade própria mirando no futuro, no lugar de sair atrás de uma mítica “Era de Ouro” ou “Paraíso Perdido”.

Em seguida, cada artigo, quando possível, deve vir com uma explanação sobre o que é agora considerado o certo e por quê. Parece simples, mas nem sempre o é, afinal, pela nossa educação escolar, temos a ilusão de um desenvolvimento linear da ciência, numa acumulação de conhecimento sempre crescente. Pouco se fala dos “becos sem saída” ou das ideias estapafúrdias outrora respeitáveis, embora constituam grossa parte do que a humanidade já pensou. Enfim, é preciso “contar histórias” de forma simples sem perder o rigor, o que acrescenta mais um desafio a ser vencido. O resultado final são artigos, em média, bem maiores, uma redação melhor elaborada e um intervalo bem mais longo entre um artigo concluído e outro. Sem contar que brindo meus leitores com uma bibliografia bem mais profunda e farta ao final de cada artigo, para que possam prosseguir com seus próprios pés.

ensinando o ritmo

– Me disseram que, quando o espiritismo concorda com a Ciência, só fica demonstrado o quanto ele é demais. Quando discorda, é porque a Ciência é algo falível.
– Já entendi porque você voltou aqui para aprender os passos básicos de Ciência.

Paulatinamente, os resultados começaram a surgir na forma de retornos positivos de meus leitores. Poucos, mas ainda assim significativos comentários interessados – como o seu – indicam que meu novo direcionamento ao menos é melhor que o anterior, pois nos tempos do GeoCities eles praticamente inexistiam: ou eram críticas iradas de espíritas ressentidos ou elogios de fanáticos cristãos “tradicionais” e céticos militantes. Houve, inclusive algumas propostas de parcerias, locais de hospedagem e até financiamento para publicações. Alguns declinei polidamente, outros (desculpem) sequer respondi. A todos digo, agora, que Falhas do Espiritismo é um projeto pessoal e intransferível: é minha forma de vivenciar a religiosidade e desejo plena liberdade nisso, mesmo que implique em tocá-lo sozinho. Não é por mal, nem por esnobismo, apenas prefiro as coisas assim. Há outras formas pelas quais posso ser ajudado, sem que eu me sinta afetado por riscos de ingerências.

Holland recebe proposta inusitada.

– Venha comigo, professor. Com minha voz e sua música seremos uma dupla imbatível.
– Desculpe, querida, mas acho que isso vai dar ruim. Muito ruim.

Infelizmente, em uma coisa vou te decepcionar: jamais irei muito a fundo na tarefa de reconstruir. Justamente por minha postura de “lobo solitário”, o trabalho se torna gigantesco demais para mim, e nem Kardec fez tudo sozinho. O máximo que pretendi fazer é um pouco de terraplanagem e fincar alguns alicerces para os que viessem a auxiliar os que realmente estivesse a fim. Só isso já consome tanto de meu “tempo inútil” (como dizia o utilíssimo Kevin) que desisti de redigir meu ambicioso livro. Contudo, ainda sonho que ele seja concluído, não por mim exatamente, mas por todos aqueles leitores a quem eu conseguir cativar. Quero que ninguém passe por aqui ileso, que sentimentos de amor e ódio permeiem a todos, nunca a indiferença. Assim terei marcado seus corações de alguma forma. Tal como na parábola do semeador, sei que a maioria das sementes que eu lançar em nada dará, porém cruzo os dedos desejoso em viver o suficiente para topar pelas andanças da vida com algumas das que vingarão.

Holland: reencontros

“Humm, conheço essa ruiva de algum lugar…”

Também sei que muitas delas serão ervas daninhas loucas para me envenenar lentamente. Fazer o quê: ao arrancar ídolos de pedestais é óbvio que seus adoradores iriam gemer, ainda mais quando caem em cima deles. Não há muito o que fazer quanto a eles. Por outro lado, aposto que muitos dos “irados” na verdade estão apenas perplexos, que, uma vez passado o impacto inicial, podem começar a me dar razão em alguns pontos após investigar por conta própria, tentando contra-atacar. Conto com a colaboração inclusive deles para que a proposta de Falhas do Espiritismo se torne uma grande obra coletiva e fique maior que qualquer coisa já imaginada desde quando aqui comecei.

Enfim, quando as luzes se apagarem e o pano descer em meio a uma cacofonia de vaias, eu gostaria de poder ouvir ao fundo os lábios que verdadeiramente me entenderam:

Mr. Holland rege a Sinfonia Americana.

Bravo! Bravo!

Assim, creio que metade ou mais de minha vida não terá sido vão. A torcida contra é grande, mas estou esperançoso porque, graças à nova abordagem tomada, não preciso vencer. Basta apenas existir e persistir, pois a intransigência dos fanáticos idólatras só fará o tempo jogar a meu favor.

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Quatorze Anos depois

Caesar e seu filho

Sinto que falta algo, você também não? Não teria chegado até aqui se simplesmente minha motivação fosse externa, uma vontade de ver o Espiritismo mais dinâmico. Eu poderia simplesmente reconhecer que ele perdeu o bonde da história e seguir em frente. Não me é tão fácil. Sinceramente, acho que ainda sou assombrado pelas mensagens da segunda parte de O Céu e o Inferno ou das regiões umbralinas da literatura posterior. A distorção apropriação que o espiritismo fez da terceira Lei de Newton nunca me desceu pela goela. O destino dos suicidas – com direito a uma região trevosa especial para eles onde são tratados como os piores dos criminosos em vez de pessoas necessitadas de ajuda – é simplesmente horrorizante. Enfim, a solução para o Problema do Mal talvez seja o que mais me desagrade, no fundo.

Caesar dentro da jauna no santuário símio.

Talvez eu não quisesse aceitar a solução espírita sem que alguém me desse garantias de não estar sendo enganado. Vendo o majestoso edifício kardecista ter tantas rachaduras, ficaria aliviado se o que não consigo averiguar – sua soteriologia – fosse comprometido pelos buracos do “Consenso Universal dos Espíritos”. Ironicamente, as propaladas pesquisas de Ian Stevenson não indicam a existência de um “karma retributivo” ou de um vale dos suicidas. Óbvio que ninguém mete o dedo nessas discrepâncias dentro do movimento enquanto enaltecem seus “casos sugestivos de reencarnação”.

Uma hora acordo desses pesadelos e inspeciono esses ecos do passado, só para constatar que, em meu íntimo, eu sou e sempre serei espírita. Por mais que tente renegá-lo, por mais que me esforce para que me chamem de detrator, essa é minha identidade. Não é possível arrancá-la de mim. Só me resta reelaborá-la.

Caesar vê imagens da infância em seu antigo quarto (no sótão)

Aconteça o que acontecer, sempre me lembrarei de onde vim. Com direito a um sorriso nostálgico.

Vila dos Macacos

Nesse meio tempo, procurei novos ambientes, fiz novos amigos e, com o passar dos anos, a presença do Espiritismo ficou um tanto tênue em meu cotidiano e só não desapareceu de vez pelos parentes espíritas que possuo, mas com os quais já não convivo tanto. Um mundo se abriu, de certa forma, pois conheci novas maneiras de vivenciar a fé; particularmente a busca pela transcendência, algo desconhecido em Centros Espíritas (pelo menos nos que adentrei) e que embasbaca até este descrente que vos fala. Também foi com eles que passei a compreender a mitologia cristã, que é fundamental para a compreensão da História do Ocidente. Jamais aprenderia isso com livros preocupados em (autodefensivamente) demolir esses mitos em vez de explicá-los a leigos.

Caesar e Koba

E, ainda, sou muito grato a um segmento dos cristãos, pois partiram dele as mãos que se estenderam quando eu mais precisava. Se foi uma ajuda de interesse missionário, que seja. Os religiosos que conheci antes deles achavam ser de minha única responsabilidade me reerguer, ainda que estivesse com as pernas quebradas. Jamais esquecerei ambas as atitudes.

Koba

Conheci entre eles indivíduos sofridos, cada um a sua maneira. Muitos deles só não fizeram besteira pela fé que adotaram. Não me admira que, quando a viram ser vilipendiada, acusada de inculta e mentirosa; tenham ficado refratários a qualquer ideia vinda de grupos externos, ainda mais de um que lhes queira tomar o lugar como “verdadeiro cristianismo”. Embora o material deste portal não lhes sirva completamente, sou de pleno acordo que utilizem a parte que lhe adequar em sua própria defesa apologética, afinal eles terão sido as vítimas.

Exército símio encara a colônia humana

Minha ajuda talvez nem seja tão mais necessária assim. Eles estão alcançando seus irmãos norte-americanos e já desenvolveram seu próprio núcleo de elite, sendo capazes de se defender intelectualmente em grande parte sozinhos. A arraia miúda é que ainda apanha em discussões virtuais, o que dá aos apologistas da ortodoxia espírita uma falsa sensação de força. Às vezes, pergunto-me se possuo um prazer sádico em destronar presunçosos. Talvez eu e Kevin tenhamos mais em comum do que imaginemos, incluindo nosso jeito de extravasar o excesso de testosterona. A questão é como sublimar isso?

Caesar enfrenta Koba

Por outro lado, também sei que vítimas e algozes têm o estranho hábito de trocar constantemente de posições. É tudo uma questão de quem tem a oportunidade de estar com o poder. Nessa hora, meu passado me chamará e hei de enfrentar meus novos companheiros. Essa briga já dura mais de 150 anos e acho que as atuais gerações sequer lembram quem começou o quê.

Caesar e Cornelia

Nesse ínterim, casei com uma mulher não espírita e isso me fez bem, entre outras coisas, ao me afastar um pouco de discussões familiares. A religiosidade dela não me incomoda, enquanto mantenho um respeitoso agnosticismo “não praticante”. Se eu me relacionaria com uma espírita … bem, estaria mentindo se dissesse que não rolaram alguns flertes em meus tempo de mocidade. Por sorte saí antes que algum ficasse sério demais. Minhas divergências com o movimento seriam uma pedrinha no sapato a corroer lentamente qualquer possível relacionamento afetivo. Reconheço que minha calmaria atual pode ser ilusória. Como um lago plácido, porém cheio de lodo no fundo, basta uma pedra bem arremessada para fazer toda a sujeira aflorar à superfície. Sabe, parte de mim quer “chutar o balde”, assumir meu nome verdadeiro e encarar as consequências, dentre elas a rejeição definitiva e (talvez) recíproca de metade de minha família. A outra quer “deixar quieto”, sublimar e apaziguar.

Difícil. Em mais de uma década fiz churrasco das “vacas sagradas” do Espiritismo. A maioria dos espíritas – os seguros de sua fé – simplesmente tocará sua vida sem me importunar. Já os ressentidos não irão perdoar. Para esses, deixar-me impune será um crime maior que o de se suicidar. Bem, se é para enxergar um lado bom, então de alguma forma para eles sou importante, antes o ódio que a indiferença.

Caesar se despede de Malcolm

Agora, a você, Fred, ou a qualquer um que tenha aguentado até aqui ouvindo meus lamentos, é chegada a hora de nos despedirmos.

Caesar eh chamado pelo sacerdote

Sei que é um tanto abrupto, mas espero que compreenda que estou sendo chamado com certa urgência.

O nascimento de Milo

Afinal, o ciclo da vida está para completar mais uma volta. Tenho fé (fé cega, mesmo) nesta nova geração. Que eles sejam os próximos trabalhadores da última hora e saibamos lhes ceder o lugar.

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Réquiem

A distância traz a saudade, nunca o esquecimento.

Will Rodman e Caesar

Se você ainda existir de alguma forma, fique tranquilo…

Will Rodman procura por César

…, pois Cyrix está em casa!

Cyrix is home!

Adeus, professor!
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Categorias:Miscelânea

O Critério de Salomão

5 de abril de 2014 4 comentários

Índice

Salomão ante as duas mães

Um Bebê e Suas Duas Mães

Para ler:

Então duas prostitutas vieram ter com o rei e apresentaram-se diante dele. Disse uma das mulheres: “Ó meu senhor! Eu e esta mulher moramos na mesma casa e eu dei à luz junto dela na casa. Três dias depois de eu ter dado à luz, esta mulher também teve uma criança; estávamos juntas e não havia nenhum estranho conosco na casa: somente nós duas. Ora, certa noite morreu o filho desta mulher, pois ela, dormindo, o sufocou. Ela então se levantou, durante a noite, retirou meu filho do meu lado, enquanto tua serva dormia; colocou-o no seu regaço, e no meu regaço pôs seu filho morto. Levantei-me para amamentar meu filho e encontrei-o morto! Mas, de manhã, eu o examinei e constatei que não era o meu filho que eu tinha dado à luz!”

Então a outra mulher disse: “Não é verdade! Meu filho é o que está vivo e o teu é o que está morto!” E a outra protestava: “É mentira! Teu filho é o que está morto e o meu é o que está vivo!” Estavam discutindo assim, diante do rei, que sentenciou: “Uma diz: ‘Meu filho é o que está vivo e o teu é o que está morto!’, e a outra responde: ‘Mentira! Teu filho é o que está morto e o meu é o que está vivo!’ Trazei-me uma espada”, ordenou o rei; e levaram-lhe a espada. E o rei disse: “Cortai o menino vivo em duas partes e dai metade a uma e metade à outra.”

Então a mulher, de quem era o filho vivo, suplicou ao rei, pois suas entranhas se comoveram por causa do filho, dizendo: “Ó meu senhor! Que lhe seja dado então o menino vivo, não o matem de modo nenhum!” Mas a outra dizia: “Ele não seja nem meu nem teu, cortai-o!” Então o rei tomou a palavra e disse: “Dai à primeira mulher a criança viva, não a matem. Pois é ela a sua mãe.”

Todo o Israel soube da sentença que o rei havia dado, e todos lhe demonstraram muito respeito, pois viram que possuía uma sabedoria divina para fazer justiça.

1 Reis 3:16-28

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Uma Proposta para Critério

“Você seria capaz de se sabotar em prol de algum bem?”

Foi essa a pedra de toque o famoso rei de Israel usou para distinguir a mãe verdadeira da impostora: somente a primeira seria capaz de tão grande ato de renúncia. Essa história grande parte dos leitores já deve conhecer, seja por leitura da Bíblia ou do “ouvi falar” e de forma alguma venho fazer proselitismo de Javé usando os bons momentos de seus escolhidos. O que tenho em mente é se, por acaso, não seria possível generalizar a “metodologia” de Salomão para avaliar a sinceridade de alguém na busca pelo conhecimento.

Não me considero bom em “lançar moda” – aliás esta seria minha primeira tentativa -, mas ainda assim gostaria de propor um critério para se avaliar a honestidade intelectual dos defensores de alguma tese: eles devem permitir que sua própria pesquisa seja posta em xeque. Para isso, são necessárias, pelo menos, duas coisas:

  1. Transparência: uma descrição precisa do modus operandi deve ser feita, base de dados deve ser pública e bibliografia bem referenciada.
  2. Um advogado do diabo: assumir provisoriamente um ponto de vista que não é o seu, como uma teoria rival ou até mesmo uma tentativa refutação, tudo para achar brechas em sua próprias alegações (1);

Se bem satisfeitas essas condições, o resultado será a exibição públicas das fraquezas de seu estudo, mas a verdade por trás dos fatos agradece, seja ela qual for.
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O que este Critério não é

Para delimitar sua aplicação, gostaria de começar por eliminação, deixando claro o que ele não pode fazer ou ser. Aqui uso seu conceito mais amplo, como o que Salomão intuitivamente adotou, não somente o acadêmico.

  • Uma garantia de idoneidade, caso se passe nele: No começo do século XXI, certo deputado brasileiro líder de um partido aliado ao do governo sentiu-se vendido quando o executivo lavou as mãos em um escândalo que envolvia um de seus colegas. Como desforra, denunciou um esquema de corrupção maior ainda, encabeçado pelo partido do próprio governo e no qual ele próprio estava envolvido. Vulgarmente falando, “tacou m* no ventilador”. Se você considerar que moralidade está mais no resultado que nas intenções (i.e., algum grau de utilitarismo), então ele passou no critério, ao menos nesse episódio, pouco importando que não fosse recomendável votar nele;

  • Atestado de desonestidade, caso NÃO se passe nele: talvez o leitor tenha algum primo, amigo, vizinho ou conhecido que é bom parceiro, marido, pai e funcionário, mas basta tocar em algum ponto nevrálgico – que pode ser religião, política, sexo, futebol, etc. – para que vire um cão raivoso a defender as posturas mais tacanhas e controvertidas. Justifica (ou minimiza) massacres, relativiza más ações, adota “dois pesos, duas medidas”, faz vista grossa a atos dúbios e daí para baixo. Seria ele hipócrita? Muito provavelmente, não. Apenas mais um exemplo da incrível capacidade humana de compartimentalizar sua moral e continuar vivendo candidamente cheio de contradições. Pode-se comprar sem medo um carro usado dele, mas para certos assuntos é melhor não procurá-lo;

  • Garantia que esteja certo: Se você clama aos quatro ventos que não é o dono da verdade e que ninguém é infalível, então quais são suas falhas? Seria uma boa pergunta para uma entrevista de emprego. Adotar o critério seria uma forma de respondê-la e conciliar suas pretensas palavras de humildade com suas atitudes;

  • Comprovação de que esteja errado, caso NÃO o siga: Você pode se portar da forma mais arrogante do mundo e ainda calhar de estar do lado certo. Um exemplo clássico foi o livro Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo, de Galileu Galilei. Partidário do sistema heliocêntrico de Copérnico, Galileu se animou quando um amigo seu, o cardeal Maffeo Barberini, foi eleito papa, com o título de Urbano VIII. Essa poderia ser a oportunidade para Igreja Católica adotar de vez o novo modelo e abandonar as ideias geocêntricas de Aristóteles e Ptolomeu. Obteve, então, autorização para escrever um livro apresentando os dois sistemas, mas com a condição de deixar o resultado final em aberto, mostrando os prós e contras de cada um de forma equilibrada. Galileu, contudo, não se conteve deu os melhores argumentos para seu modelo preferido e deixou a defesa do sistema geocêntrico a cargo do fraco personagem Simplício, cujo nome diz tudo. Urbano VIII deve ter se sentido bem ultrajado pela petulância de seu pupilo e deixou-lhe aos “cuidados” do Santo Ofício (2). O já idoso astrônomo teve de se retratar de forma humilhante e passou seus últimos dias em prisão domiciliar. Acontece que ele estava certo… Bem hoje nós o sabemos, mas àquela o sistema geocêntrico ainda não caducara por completo e o heliocêntrico ainda tinha vários furos (3). Galileu não passaria no critério, ainda que sua premissa para o funcionamento do sistema solar estivesse correta.

  • Demonstração de ausência de viés: o viés é como o sotaque: se alguém fala sem sotaque (viés) é porque o sotaque (viés) dele é igual ao seu. Qualquer pessoa sempre possuirá uma opinião preferida sobre algum assunto (não ter posicionamento definido também é uma opinião) e, mesmo que reconheça as limitações dela, tenderá a protegê-la de algum modo. O que o critério vem propor é dar um pouco de ética ao viés, colocando limites na ambição de protegê-lo (4).

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Para o que serve, então?

Alvo pintado em torno de flecha

Existe uma receita simples para produzir uma nova pseudociência:

  1. Tenha um ideia preconcebida de como a Natureza de comporta;
  2. Reúna tudo que corroborar sua tese;
  3. Desconsidere tudo que for contrário a ela;
  4. Repita o processo a partir do nº 2.

Os criacionistas, principalmente os adeptos da “Terra Jovem”, são peritos nessa arte. De forma alguma ela é exclusiva deles, apenas a praticam de forma indecente de escancarada, e na prática, qualquer grupo pseudocientífico se vale dela: astrólogos selecionam previsões mais certeiras, viúvas de Stalin e crias de Mao relevam a morte de milhões como um mal necessário para se chegar ao verdadeiro socialismo, e analistas de risco simplificam o mundo para que ele caiba em sua matemática. Qualquer tentativa de debate
com gente desse tipo é inútil porque eles já têm a resposta e tudo que disser será filtrado, distorcido, corrompido ou descartado.

Agora, se você encontrar alguém que passe pelo critério e, por acaso, ele também te considere aprovado, então há condições suficientes (5) para que algo realmente auspicioso surja de uma troca de ideias entre vocês, pois nenhum debate tem condições de inovar se ninguém arreda pé. Isso seria uma briga de torcidas, tão comuns no meio virtual. Melhor deixar esses “torcedores” em seus cercadinhos ideológicos, a lançar flechas sobre seus anteparos preferidos para só depois pintar o alvo em volta.

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Quem não passa no Critério

Segue uma lista não exaustiva de indivíduos ou grupos cuja chance de autocrítica, por razões diversas, tende a zero.

  • Literalistas bíblicos: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8:32). Acontece que a própria verdade está na Bíblia e, o mais restritivo ainda, no próprio Jesus (cf. Jo 14:6). Assim, qualquer coisa que conflite com as Escrituras é, por definição, falsa. Seria um exagero afirmar que cada seita cristã moderna tem sua própria verdade, pois, mesmo com toda a diversidade, os protestantes, vistos de longe, lembram mais variações de um mesmo tema se que diferem sobre questões em aberto ou passíveis de reinterpretação, mas cada fiel ainda consegue se diferenciar do mundano “homem natural”. Os católicos possuem um grau extra de liberdade intelectual ao aceitarem, além da Escritura, a “Tradição” (oral e escrita), que permitiu sua doutrina constantemente evoluir, embora lentamente;

  • Allan Kardec: apesar de incorporar boa parte dos modismos intelectuais de sua época, Kardec peca pela falta de transparência. Sabe-se, em linhas gerais, como ele trabalhava, o princípio do Consenso Universal dos Espíritos, etc., mas qual era a base dados que ele tinha, afinal? Há trabalhos com médiuns (ou psíquicos) já atuantes na Era Vitoriana que são muito melhor documentados que a Codificação (6), como a Sra. Piper;

  • Ortodoxia Espírita: caso Kardec estivesse vivo hoje, ele seria kardecista? Se repararmos bem, Kardec deu mostras de mudar certas opiniões ao longo da carreira(7), mas um belo dia ele se foi, como todo mortal. Ninguém pode alterar o que ele já escreveu, óbvio, mas o quanto ainda é válido hoje? Ninguém aprende Química pela obra de Lavoisier, Física pelos Principia Mathematica (8), nem Teoria da Evolução com Darwin. São clássicos que muitos professores exibem orgulhosos em suas estantes, buscam citações e inspiração, mas não criam apostilas com eles, porque há muito estão defasados. Entretanto, se a Codificação virou um cânon fechado, então passou a progressivamente padecer dos males do literalismo bíblico. Há que sugira que notas de rodapé bastariam, mas a quantidade delas tende a aumentar com tempo, o que pode tornar o panorama a longo prazo um tanto incômodo, além de não sanarem as questões em que a Codificação é omissa e que a literatura mediúnica não tem o mesmo status para resolver. Fazer um terceiro Livro dos Espíritos, com mais abrangência e transparência, e deixar os de Kardec no pedestal de honra seria uma solução, mas quem se habilita e que preço pagará? Por outro lado, os que mais protegem a imutabilidade de Codificação (9) acabam por matar seu espírito original (com o perdão do trocadilho);

  • CSI: Não é daquela série policial que estamos falando, mas do Committee for Skeptical Inquiry (“Comitê para Investigação Cética”). Fundado em 1976 por Paul Kurtz (10) e contando com a participação de cientistas renomados, filósofos e até algumas “celebridades céticas” (como James Randi e Carl Sagan), o CSI pegou a crista da onda do misticismo barato trazido pelos newagers da contracultura, procurando dar uma “ducha de água fria” nos esotéricos, ufólatras ou autoproclamados paranormais, seja na grade mídia ou por meio de seu periódico Skeptical Inquirer. O problema foi que, no afã de combater a pseudociência, a atitude do CSI prejudica a pesquisa genuína de fenômenos ainda inexplicados por causar preconceito, medo do ridículo e falta de verbas aos cientistas realmente sérios e interessados nesses fenômenos. De certa forma, por vezes seus membros se mostram mais como “inquisitores” do que verdadeiros “inquiridores” (11);

  • Ideólogos político-econômicos: temo muito os que têm pretensão de santidade, pois não há grau de pureza que os satisfaça. Se eles têm na mão um poder decisão que afeta milhões e uma ideologia inflexível na cabeça, é apenas uma questão de tempo para uma tragédia ocorrer. Impérios teocráticos que o digam. O que muitos não percebem, contudo, é a existência de “religiões seculares”, cujos adeptos não captaram muito bem o espírito libertador de seus “gurus”. É o que notadamente ocorre no campo conhecido como “Economia Política”. Em se tratando do grau de intervenção estatal na sociedade, um extremo abriga o liberalismo, cujo louvor da livre iniciativa como motor do progresso geral – por mais egoísta que fossem os motivos dos indivíduos – acabou por creditar uma quase onipotência aos mercados. No outro lado, encontra-se o dirigismo socialista, com sua crença que um punhado de comissários – assessorados (ou não) pelos técnicos certos – é capaz de decidir o que é melhor para nós, em todas as esferas da vida. Cada extremo produziu suas próprias tragédias, mas seus adeptos jamais as reconhecerão (12). Afinal, já que a culpa foi deles, colocam-na em quem quiser;

  • Psicanalistas: polêmicas desde o começo, as teses de Sigmund Freud não incomodam mais pelo forte papel que dão impulso sexual, mas porque não mais o destrincham tanto como suas irmãs de estudo da mente humana. Nascida na virada dos século XIX para o XX, teve por base as observações clínicas do Dr. Freud para a elaboração de uma “teoria da mente” e, até aí, foi mais uma “ciência de observação” positivista, ao estilo do que Espiritismo se propunha originalmente. Acontece que o tempo passou e, de certa forma, a psicanálise começou a padecer de uma dificuldade em comum com Espiritismo: ficou centrada demais na obra na pessoa de seu fundador. Freud até revisou alguns pontos seus, mas, como todo bom mortal, faleceu um belo dia e ninguém pôde a mudar uma vírgula sequer depois. Ou melhor, surgiram “dissidentes” a propor formas alternativas de terapia em um ou outro aspecto e as discussões no meio psicanalítico ganharam ares de rixas entre seitas (13). Enquanto isso, a neurologia, a psiquiatria e outros ramos da psicologia avançaram por contra própria e por vezes discordaram do Doutor (14). As respostas aos desafios muitas vezes vieram na forma de pesada retórica, como se a psicanálise justificasse a si mesma (15). Mas, afinal, ela uma ciência? Vai depender de qual critério se use. O filósofo da Ciência Karl Popper a colocou ao lado da astrologia e do marxismo em termos de cientificidade (16). Outros filósofos seriam mais gentis, mas não muito (17). Os profissionais, em defesa própria, podem desfilar exemplos de cura como prova de eficácia (18), só não garantem se alcançaram o resultado devido à teoria que advogam ou por serem bons e perspicazes ouvintes, além de sugestivos conselheiros (19). Ao menos, a teoria psicanalítica serve de filosofia (20) e literatura (Freud tinha boa prosa), mas tome cuidado ao argumentar com um adepto dela: você pode descobrir que é sexualmente frustrado (21).

Pausa para pedradas.

Será que sobrou alguém?
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Quem passa?

Destruição de Sodoma e Gomorra

O livro de Gênesis traz uma impressionante “barganha” feita pelo patriarca Abraão:

Disse mais o Senhor: Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito,
Descerei agora, e verei se com efeito têm praticado segundo o seu clamor, que é vindo até mim; e se não, sabê-lo-ei.
Então viraram aqueles homens os rostos dali, e foram-se para Sodoma; mas Abraão ficou ainda em pé diante da face do Senhor.
E chegou-se Abraão, dizendo: Destruirás também o justo com o ímpio?
Se porventura houver cinquenta justos na cidade, destruirás também, e não pouparás o lugar por causa dos cinquenta justos que estão dentro dela?
Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?
Então disse o Senhor: Se eu em Sodoma achar cinquenta justos dentro da cidade, pouparei a todo o lugar por amor deles.
E respondeu Abraão dizendo: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza.
Se porventura de cinquenta justos faltarem cinco, destruirás por aqueles cinco toda a cidade? E disse: Não a destruirei, se eu achar ali quarenta e cinco.
E continuou ainda a falar-lhe, e disse: Se porventura se acharem ali quarenta? E disse: Não o farei por amor dos quarenta.
Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, se eu ainda falar: Se porventura se acharem ali trinta? E disse: Não o farei se achar ali trinta.
E disse: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor: Se porventura se acharem ali vinte? E disse: Não a destruirei por amor dos vinte.
Disse mais: Ora, não se ire o Senhor, que ainda só mais esta vez falo: Se porventura se acharem ali dez? E disse: Não a destruirei por amor dos dez.
E retirou-se o Senhor, quando acabou de falar a Abraão; e Abraão tornou-se ao seu lugar.

Gn 18:20-33

Mas nem dez Abraão achou e as cidades foram destruídas. O máximo que pôde fazer foi alertar seu sobrinho Ló e sua família para que partissem de lá.

Não estou dizendo que não haja ninguém que siga o critério e, muito menos que algo será destruído. Reconheço que não fiz nenhuma busca em profundidade e que o impulso mais natural do ser humano é violar o critério. Contudo, um nome eu gostaria de assinalar pois ele (I) se destaca da massa e (II) foi muito criticado justamente por seguir o critério:

Dr. Ian Stevenson (1918 – 2007)

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Notas

(1) A título de curiosidade, o Promotor da Fé (vulgo, “Advogado do Diabo”) foi uma figura criada pela Contrarreforma e seu papel era o de questionar o caráter em vida do candidato a santo (ou beato) ou a veracidade (e inexplicabilidade) dos milagres atribuídos a ele, em oposição ao Promotor da Causa (ou “Advogado de Deus”). Essas funções foram, na prática, extintas durante o pontificado de João Paulo II, o que resultou numa profusão de canonizações. [voltar]

(2) Que a Igreja Católica tem seu quinhão de pecados, não se discute. Contudo o episódio de Galileu não está entre eles. Ele é, sem dúvida, uma das maiores injustiças que evangélicos, ateus militantes e espiritualistas e outros anticlericais têm lhe imposto, pois, longe de ser uma prova de ser uma prova de obscurantismo, ele é uma demonstração de como a Ciência da época ainda dependia muito de relações de patronagem. O fato foi que Galileu traiu a confiança de um amigo e protetor, que reagiu com fúria. Tivesse ele sido um pouco menos “gaiato”, poderia continuar a ter debates proveitosos (embora tensos) com intelectuais acerca dos “Dois Sistemas do Mundo”, muitos deles clérigos ou tão devotos quanto ele. Já existe considerável literatura erudita e popular que desfaz esse mito (cf. [Gould, cap. II, pp. 61-4], [Letin, cap. IV], [Nantes, pp. 65-83] e [Woods, cap. V, pp. 68-76]), assim como ainda há muita gente a insistir nele. [voltar]

(3) O modelo geocêntrico de Ptolomeu estipulava que a trajetória dos planetas seria uma composição de dois movimentos circulares. O primeiro e maior, chamado de deferente, seria descrito em torno do centro do sistema solar e o segundo, chamado de epiciclo era descrito em torno de um posição fictícia (ou hipotética “esfera de cristal”) que, por sua vez, percorreria o deferente. Isso era uma forma de explicar porque os planetas ora avançavam para, em seguida, diminuir sua velocidade até inverter o sentido do movimento e, por fim, retomar a direção original ao realizar um pequeno “laço”.

Epiciclos de Ptolomeu

Em princípio, o sistema ptolomaico até não era tão complicado assim, porém, sucessivos refinamentos posteriores ao sistema levaram a um aumento de sua complexidade com introdução de epiciclos de epiciclos, não só para conformá-lo melhor às observações, mas também ao princípio aristotélico de que só o movimento uniformemente circular era autossustendado (Ptolomeu aceitava órbitas excêntricas e de velocidade variável em relação o centro do deferente).

Já no Renascimento, Nicolau Copérnico propôs colocar a Terra no centro do universo como uma forma de resolver uma complicação que modelo de Ptolomeu já tinha desde o berço [Aaboe, cap. II, p. 111]: os cálculos para os epiciclos dos planetas interiores (Mercúrio e Vênus, que teriam órbitas menores que a do Sol) eram diferentes dos exteriores (Marte, Júpiter e Saturno). Colocando o Sol no centro e a Terra entre esses dois grupos, isso se tornava uma consequência do movimento relativo entre eles, ao passo que no modelo de Ptolomeu era algo arbitrário. O modelo de Copérnico, contudo, não abria mão dos epiciclos e ainda tinha dificuldades extras a explicar, como o fato de os objetos em queda não ficarem para trás conforme a Terra girasse ou a ausência de alteração na posição das estrelas ao longo do ano.

Por essas razões sua aceitação não foi tão rápida assim. Para acelerar esse processo, Galileu difundiu descobertas suas feitas com a luneta astronômica e que corroborariam seu modelo preferido: a descoberta dos quatro maiores satélites de Júpiter e de que o planeta Vênus possuía fases, como a Lua. Além disso, sua elaboração do “princípio de inércia” justificava porque os corpos acompanhavam a Terra em seu deslocamento.

Entretanto isso não era suficiente: o fato de Vênus girar em torno do Sol não impedia que o Sol, por sua vez, continuasse a girar em torno da Terra. O mesmo raciocínio serve para Júpiter e seus satélites. De fato, um contemporâneo seu – Tycho Brahe – concebeu um sistema geo-heliocêntrico com a Terra ao centro, a Lua e o Sol a orbitando diretamente, e todos os outros planetas girando em torno dele.

Sistema cosmológico de Tycho Brahe

Sistema cosmológico de Tycho Brahe. Fonte: Observatório Nacional

O sistema de Tycho Brahe era matematicamente equivalente ao de Copérnico e ainda tinha a vantagem de não precisar responder à aparente ausência de uma modificação cíclica no posicionamento das estrelas ao longo do ano (paralaxe estelar), só confirmada em 1727. Os proponentes do heliocentrismo alegavam que a “esfera das estrelas” estaria muito mais afastada que as demais e, por isso, imperceptível. Embora a essência desse raciocínio se revelasse correta no futuro, à época era apenas uma hipótese ad hoc inverificável e não muito intuitiva.

Embora tivesse rompido com a tradição aristotélica em muitos pontos, Galileu ateve-se a ela em outros. Por exemplo, insistiu nas órbitas circulares, cêntricas e de velocidade constante para os corpos celestes, o que prejudicava a concordância do modelo com as observações. Galileu, inclusive, trocou correspondência com o astrônomo Johannes Kepler – antigo colaborador de Brahe em medições astronômicas e que aperfeiçoara o modelo heliocêntrico estipulando órbitas elípticas e velocidade variável -, mas o ignorou solenemente.[voltar]

(4)Uma anedota sobre o filósofo e matemático Bertrand Russell diz que, certa vez, quando perguntado se morreria por suas crenças, ele prontamente respondeu: “Claro que não. Afinal de contas, posso estar errado”. Também apresentada na forma de um aforismo: “nunca morreria por minhas crenças porque posso estar errado”. Não consegui encontrar a origem dela e vários outros também não. Até mesmo a Wikipedia a classifica como “em disputa”. Apócrifa ou não, essa história representa bem a ideia passada aqui. [voltar]

(5) Repare bem: a conformidade com o critério por ambas as partes é uma condição suficiente para um diálogo produtivo. Em instante algum é dito que ela é uma condição necessária e muito menos “necessária e suficiente”. Até mesmo de arranca-rabos pode-se extrair algo de bom, inclusive o que não fazer. [voltar]

(6) Nas andanças pela internet, encontrei o artigo O Dossiê Canuto Abreu, que traz algumas informações curiosas:

Escreveu Carlos de Brito Imbassahy, sob o título “Dr. Canuto de Abreu” (“Mundo Espírita”, PR, de 31.08.1980): “Os tempos se passam”. Indo a São Paulo em companhia do Olympio (que fazia vez de meu irmão), e da esposa, fomos almoçar com o Dr. Canuto de Abreu; nesta tarde, ele nos leva para os seus arquivos particulares e nos mostra um “dossier” contando-nos a história.

“Estava na França pouco antes de estourar a Guerra de 1939 quando, intempestivamente, fui procurado por dois cidadãos que se apresentaram e se disseram que ali estavam por ordem espiritual. Os cidadãos haviam recebido instrução de seus guias que deveria vir do Brasil uma determinada pessoa em tais circunstâncias que coincidiam exatamente com as minhas (dizia o Dr. Canuto) e que a esse cidadão deveriam ser entregues os arquivos particulares do próprio Allan Kardec, pois a Europa iria passar uma fase conturbada de guerra e, se esses documentos fossem encontrados, seriam destruídos”.

Ali estava, diante de mim e de Olympio, a letrinha de Kardec, suas opiniões e um envelope “confidencial-não pode ser publicado”. Mostrou-me seu conteúdo dizendo:

“Gostaria de doar este acervo à Federação Espírita Brasileira, mas ela é roustainguista e, na certa, não vai admitir que seja ela própria a portadora de documentos que condenam “Os Quatro Evangelhos” (de Roustaing!).

Disse isso e mostrou-me duas cartas manuscritas onde, por cima, lia-se:

“Carta enviada ao senhor João Batista Roustaing, cartas essas que são um libelo terrível, no qual acusa o “colega” de controverter a ordem doutrinária, deixando-se envolver por mistificadores cujo único objetivo era desmoralizar o sistema de comunicação com os mortos.”

E prossegue:

Jamil Salomão (CF [Correio Fraterno] do ABC, janeiro/1990) escreveu, sob o título “J. B. Roustaing, o Judas do Espiritismo”:

“Esta afirmativa é atribuída a Allan Kardec”, feita em uma carta endereçada ao insigne escritor Léon Denis, cujo próprio original se encontra em poder do Dr. Canuto de Abreu, conhecido intelectual e espírita da capital de São Paulo, que possuía farto material que pertencia a Kardec. Numa Visita fraterna ao Dr. Canuto, pelos idos de 1974, em companhia do Dr. Freitas Nobre e da médica Dra. Marlene Severino Nobre, ouvimos essas revelações surpreendentes, pois desconhecíamos a existência de um documento de tal importância. Imediatamente foi solicitado ao Dr. Canuto de Abreu permissão para a divulgar o material, bem como obter cópia do mesmo, a fim de ser noticiado no jornal “A Folha Espírita”, que estava sendo lançado naquela época, como o primeiro jornal espírita a ser colocado nas bancas públicas e com distribuição nacional. O Dr. Canuto se mostrou temeroso, não permitindo a divulgação da carta de Kardec, na qual atribuía a Roustaing a condição de traidor dos postulados espíritas, ao lançar “Os Quatro Evangelhos”, atribuindo-lhes o título de “Revelação da Revelação”, o que poderia ser motivo de uma cisão no movimento espírita.”(…)

A que o articulista acrescentou:

Comentário: Quanto ao escrúpulo do Dr. Canuto de Abreu, e agora de seus familiares, em não dar publicidade às cartas de Allan Kardec contra Roustaing, ocorre-nos lembrar à distinta família que, se o plano espiritual se preocupou com a preservação dos documentos de Kardec, incluídas as referidas cartas, não foi para que elas permanecessem desconhecidas do público espírita. É óbvio, caso contrário os espíritos deixariam que tais documentos fossem destruídos pelos invasores alemães, como estava previsto. Com essa atitude, a nosso ver, equivocada, da respeitável família Canuto de Abreu, apenas se exumaram, em Paris, as cartas de Allan Kardec para dar lhes nova sepultura, no Brasil. E perguntamos: Para que? Consultando sobre o paradeiro dessas cartas, informou Carlos de Brito Imbassahy que conforme lhe disseram, elas estariam em poder de um neto do Dr. Canuto de Abreu. Fazemos este apelo a quem guarde estas cartas de Allan Kardec: que as entregue para divulgação, a um jornal de grande circulação, “Correio Fraterno do ABC” ou “Jornal Espírita”, a meu ver, os mais credenciados para dar-lhes publicidade.

Só com isso não dá para saber o quanto esse material dos primórdios da codificação seria elucidativo sobre a metodologia do Codificador. O que se pode dizer é que, enquanto inacessível ao público, ele tem o mesmo valor de um tesouro no fundo do mar: nenhum. [voltar]

(7) Por exemplo: as mudanças ocorridas entre a primeira e segunda edição de O Livro dos Espíritos e a considerável mudança de opinião de Kardec quanto à evolução biológica, ao longo da Codificação. Compare o que ele diz no capítulo III de O Livro dos Espíritos

A diversidade das raças humanas vem ainda em apoio desta opinião. O clima e os hábitos produzem, sem dúvida, modificações das características físicas, mas sabe-se até onde pode chegar a influência dessas causas, e o exame fisiológico prova a existência, entre algumas raças, de diferenças constitucionais mais profundas que as produzidas pelo clima. O cruzamento de raças produz os tipos intermediários; tende a superar os caracteres extremos, mas não cria estes, produzindo apenas as variedades. Ora, para que tivesse havido cruzamento de raças, era necessário que houvesse raças distintas, e como explicarmos a sua existência, dando-lhes um tronco comum e sobretudo tão próximo? Como admitir que, em alguns séculos, certos descendentes de Noé se tivessem transformado a ponto de produzirem a raça etiópica, por exemplo?

Uma tal metamorfose não é mais admissível que a hipótese de um tronco comum para o lobo e a ovelha, o elefante e o pulgão, a ave e o peixe. Ainda uma vez, nada poderia prevalecer contra a evidência dos fatos.

Seção VI -“Considerações e Concordâncias Bíblicas Referentes à Criação”, q. 59

Com o que aparece em A Gênese

Se os seres orgânicos complexos não se produzem dessa maneira, quem sabe como eles começaram? Quem conhece o segredo de todas as transformações? Quando se vê o carvalho e a bolota (de onde ele nasce), quem pode afirmar que não existe um elo misterioso entre o pólipo e o elefante?

Cap. X, 23.

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(8) Embora tenha sido um dos criadores da Análise matemática (a que chamava de “método das fluxões”), Issac Newton não o utilizou em seu colossal Principia Mathematica. Talvez pelo método ainda ser novidade e por ele mesmo ainda estar em disputa pela primazia da descoberta com o matemático alemão Leibniz, Newton adotou métodos de resolução geométricos que remontam aos antigos gregos, mas que não eram questionados. O resultado final foi um livro bem indigesto. [voltar]

(9) Alô, GAE. [voltar]

(10) Originalmente denominado Committee for the Scientific Investigation of Claims of the Paranormal (“Comitê para a Investigação Científica de Alegações do Paranormal”), suas inicias (CSICOP) constituíam uma espécie de acrônimo com a mesma pronúncia inglesa que Sci Cop, algo como “polícia da Ciência”. [voltar]

(11) Nas próprias palavras de Carl Sagan:

(…)Aqueles que são alvos das análises da CSICOP formulam às vezes exatamente esta queixa: ela é hostil a toda nova ideia, dizem, chega às raias do absurdo com seu desmarascamento previsível, é uma organização de vigilância, uma Nova Inquisição, e assim por diante.

A CSICOP é [grifo do autor] imperfeita. Em alguns casos, essa crítica é em certa medida justificada. Mas, de meu ponto de vista, ela desempenha uma função social importante – como uma organização bem conhecida que a mídia pode recorrer quando deseja escutar o outro lado da história, especialmente quanto uma afirmação surpreendente da pseudociência é considerada digna de ser notificada. A regra era (e para grande parte da mídia global ainda é) que todo guru levitador, todo visitante alienígena, todo canalizador e todo aquele que cura pela fé fosse tratado de forma superficial e acrítica. Não havia memória institucional no estúdio de televisão, nos jornais ou nas revistas sobre alegações semelhantes já desmascaradas como fraudes e logos. Embora ainda não seja uma voz bastante forte, a CSICOP representa um contrapeso à credulidade da pseudociência, que parece ser uma segunda natureza de grande parte da mídia.

[Sagan, cap. XVII, pp.291-2]

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Smith x Marx

Adam Smith(E) e Karl Marx: dois profetas, duas Escrituras, dois deuses.

Os humanos são seres que reagem a estímulos: amor e dor, chicote e cenoura, prêmio e castigo. Se acha isso um reducionismo, saiba que está nas entranhas nas religiões judaico-cristãs que, por mais que digam que “não é bem assim”, partilham de dueto similar: “céu e inferno” (ou colônia e umbral, se preferir). Os economistas clássicos sabiam disso e tinham a vantagem, em relação aos religiosos, de poder quantificar o empenho em cifrões. O livre comércio tornou-se a vaca sagrada de gerações de políticos justamente por tornar a “cenoura” maior e mais apetitosa. Qualquer interferência destruiria a motivação individual e acabaria se tornando maléfica, por mais que fosse bem intencionada. Por exemplo, Adam Smith, no seu clássico A Riqueza das Nações, assim explicou como um controle de preços em época de escassez poderia levar a desastres:

Quem quer que examine atentamente a história das fases de miséria e penúria de víveres que têm afligido qualquer região da Europa, no decurso do presente século [XVIII] ou dos dois séculos anteriores – sendo que de várias delas possuímos relatos bastante precisos – constatará, como creio, que jamais uma carestia se originou de uma associação ou conluio entre os comerciantes internos de trigo, nem de qualquer outra causa que não fosse uma escassez real, resultante, por vezes, ocasionalmente, em determinados lugares, da devastação da guerra, porém, na grande maioria dos casos, das estações pouco favoráveis; constatará igualmente que uma fome geral nunca se originou de outra causa senão da violência do Governo, que, na tentativa de remediar os inconvenientes de uma carestia, recorreu a meios inadequados.

Em um país produtor de trigo e de grande extensão, se entra todas as suas regiões existir liberdade de comércio e de comunicação, a escassez gerada pelas estações mais desfavoráveis nunca pode ser tão grande a ponto de provocar uma fome, por outro lado, a colheita mais precária, se administrada com parcimônia e economia, será capaz de sustentar, através do ano, o mesmo número de pessoas que se alimentam com maior abundância com uma colheita mais farta. As estações mais desfavoráveis para a colheita são as de seca excessiva ou de chuvas excessivas. Entretanto, já que o trigo se desenvolve de maneira igual tanto em terras altas como em terras baixas, em solos de natureza mais úmida e em solos de natureza mais seca, a seca ou o excesso de chuvas, que são prejudiciais para uma parte do país, são favoráveis para outra; e, embora tanto na estação de secas como na estação chuvosa, a colheita seja bastante menos abundante do que em uma estação favorável, acontece que nessas duas estações desfavoráveis, o que se perde em uma região do país, de certo modo é compensado pelo que se ganha em outra. Nos países produtores de arroz, onde a colheita não somente requer um solo muito úmido, e onde também, durante um determinado período do cultivo, o arroz deve crescer debaixo d’água, os efeitos de uma seca são muito mais funestos. Não obstante isso, mesmo em tais países, a seca talvez dificilmente seja alguma vez tão generalizada a ponto de provocar necessariamente uma fome, se o Governo permitir o livre comércio. A seca de Bengala, há alguns anos [1770], poderia provavelmente ter provocado uma carestia muito grande. Possivelmente, algumas medidas inadequadas, algumas restrições pouco sensatas impostas pelos empregados da Companhia das Índias Orientais ao comércio do arroz tenham contribuído para transformar essa carestia em uma fome generalizada.

Quando o Governo, para remediar os inconvenientes de uma carestia, ordena a todos os comerciantes que vendam seu trigo a um preço que ele presume razoável, de duas uma: ou os impede de comercializá-lo – o que, às vezes, pode produzir fome, mesmo no início da estação – ou, se os comerciantes levam o trigo ao mercado, o Governo dá condições à população – e com isso a estimula a fazê-lo – de consumir o estoque tão rapidamente, que inevitavelmente haverá fome antes do fim da estação. A liberdade ilimitada e irrestrita de comercializar cereais não só constitui a única medida eficazmente preventiva das agruras da fome, como também representa o melhor paliativo para os inconvenientes da carestia; com efeito, os inconvenientes de uma real escassez não podem ser remediados; para eles só existem medidas paliativas. Não há nenhuma atividade que mereça mais plena proteção da lei, nenhuma exija tanto; e isso porque nenhuma outra atividade está tão exposta à reprovação popular.

[Smith, Livro IV, cap. V, pp. 31-2]

Smith acertadamente atribui a fome de Bengala (atual Bangladesh e arredores) à impiedosa ação da Companhia da Índias Orientais. Tendo se tornado, em termos práticos, dona da região, ela impôs o monopólio comercial, aumentou o imposto agrário, direcionou a produção para a exportação e proibiu a estocagem de grãos, tudo em meio a época de seca e más colheitas. Resultado: dez milhões de mortos ou um terço da população local. Os revolucionários comunistas do século XX também se notabilizaram por produzir epidemias de fome (como o holodomor na URSS de Stálin e o Grande Salto para frente, na China de Mao), porém, em vez da maximização de lucros, objetivo deles era a reengenharia social à toque de caixa para trazer o paraíso à Terra e superar o capitalismo (cf. [White, pp. 463, 523-6]). No Brasil, embora ainda haja problemas com a seca nordestina e em bolsões de miséria, não há, na história recente, uma crise de inanição tão generalizada. Contudo, houve uma carestia e relativo desabastecimento durante o “Plano Cruzado” (1986), quando uma tentativa de violar a “Lei da Oferta e Procura” por meio de um tabelamento de preços, associada à uma economia fechada, desestimulou o comércio. Oito anos depois, o Plano Real teve a virtude de compensar a esperada elevação da demanda que se seguiria ao controle dos preços (dessa vez por uma paridade cambial ao dólar) com a abertura da economia e, portanto, aumento da oferta.

Quer dizer que Adam Smith estava absolutamente certo, não? Nem tanto. De fato, o poder dos governos de produzir desastres é grande – daí a defesa apaixonada de alguns pelo “Estado mínimo” -, mas se a única coisa a esperar de agentes individuais é “satisfação de seu próprios interesses”, por que razão eles haveriam de vender alimentos para um bando de famélicos sem dinheiro? Ainda mais se houver acesso a outros mercados mais promissores! Foi essa a armadilha que os ingleses montaram para os indianos na Era Vitoriana, quando a Coroa já havia assumido controle direto do subcontinente. Por ocasião de uma seca em 1876, o governo colonial quase nada fez em amparo à população e, quando muito, criou frentes de trabalho insalubres. A boa notícia foi que o comércio continuou a fluir sem empecilhos e quem ainda tinha alguma produção pôde escoá-la para os portos usando alguma ferrovia construída pelos ingleses (cf. [White, pp. 377-84]). Curiosamente, dois anos antes o governador de Bengala, Richard Temple, conseguiu prevenir um desastre importando meio milhão de toneladas de arroz da Birmânia, que distribuiu aos necessitados. Como foi muito criticado por essa forma de gastar dinheiro do Tesouro, mostraria depois ter “aprendido a lição”.

Justiça seja feita: toda essa omissão não pode ser atribuída exclusivamente às ideias de Adam Smith. Ele próprio reconhecia que nem tudo era da alçada do livre mercado:

O terceiro e último dever do soberano ou do Estado é o de criar e manter essas instituições e obras públicas que, embora possam proporcionar a máxima vantagem para uma grande sociedade, são de tal natureza, que o lucro jamais conseguiria compensar algum indivíduo ou um pequeno número de indivíduos as crie e mantenha. Também o cumprimento deste dever exige despesas cujo montante varia muito conforme os diferentes períodos da sociedade.
[Smith, Livro V, cap. I, parte III, p. 198]

Foi preciso adicionar outro arcabouço teórico para que os governantes pudessem lavar as mãos sem se tornarem mal vistos: a teoria populacional de Thomas Malthus. Publicada originalmente em 1798 no tratado Um Ensaio sobre o Princípio da População e como ele afeta o Futuro Desenvolvimento da Sociedade, ela, super-resumidamente, advoga que a população tende a crescer de forma geométrica (1, 2, 4, 8, 16 …), ao passo que os meios de subsistência cresceriam de forma aritmética (1, 2, 3, 4, 5 …). Já que essas duas razões de crescimento não se encaixam, não o só número de seres humanos acabaria limitado pela Natureza, como também a qualidade de vida deles:

A fome parece ser o último, o mais horrível recurso da natureza. O poder da população é tão superior ao poder da terra em prover subsistência para o homem, que a morte prematura deve de uma forma ou de outra visitar a raça humana. Os vícios da humanidade são ativos e capazes agentes do despovoamento. Eles são os precursores no grande exército da destruição; e frequentemente dão cabo ao horrível serviço por contra própria. Mas caso falhem nessa guerra de extermínio, doenças endêmicas, epidêmicas, pestilências e pragas avançam em terrível sucessão e varrem seus milhares e dezenas de milhares [de vidas]. Caso o sucesso ainda seja parcial, uma gigante e inevitável fome espreita ao fundo e, com um poderoso golpe, nivela a população com o alimento do mundo.

Malthus, Thomas R.; An Essay on the Principle of Population, cap. VII, parágrafo 20, primeira edição (1798).

Era Malthus um crápula? Não, apenas alguém sinceramente preocupado com persistência da pobreza no mundo, em meio a uma relativa prosperidade econômica geral. Sua solução para o problema – exposta mais enfaticamente nas edições posteriores – se encontrava na melhoria e “restrição moral” da humanidade. Ou seja, pensar menos “naquilo”. Muito já se discutiu a respeito de sua obra, mas a principal refutação veio pela prova do tempo: novos métodos contraceptivos associados a uma melhora geral das camadas mais baixas do povo levaram à queda da natalidade, além de a “Revolução Verde” ter expandido rapidamente a oferta de alimentos. Nem por isso o malthusianismo deixou de se reciclar e sua roupagem atual apela para questão ecológica. Por ora, é interessante constatar aqui existência de distorções popularescas do malthusianismo à época da “Economia Clássica”. O escritor vitoriano Charles Dickens, em Um Conto de Natal (1843), retratou o avarento Scrooge como um adepto delas logo no primeiro capítulo, como desculpa para sua sovinice.

– Desejo que me deixem em paz; já que os senhores querem saber, é isso que eu desejo. Eu não faço banquetes para mim próprio pelo Natal, vou agora dar banquete aos vagabundos! Já faço muito em dar minha contribuição às organizações de que falamos ainda há pouco [prisões, asilos, casas de correção], e elas não ficam barato! Aqueles que tiverem necessidade que recorram a elas.

– Muitos não o podem fazer, outros preferem a morte.

– Se preferem a morte, – disse Scrooge –, está ótimo! Que morram! Isso virá diminuir o excesso de população. De resto, queiram desculpar-me, porém não estou bem a par dessa questão.

Não foi à toa que o Ministro das Finanças por ocasião da fome indiana de 1876-7 – Sir Evelyn Baring (futuro Lorde Cromer) – declarou: “Toda tentativa benevolente de mitigar os efeitos da fome e do saneamento precário só serve para aumentar os danos resultantes da superpopulação” (cf. [White, p. 380] e [Davis, cap. I, p.32]).

Não é apenas o pessoal mais, digamos, à direita que é capaz de endurecer o coração ante o sofrimento alheio. Esquerdistas comumente fazem vista grossa às matanças promovidas por revolucionários, como a política do Terror durante a Revolução Francesa, os gulags soviéticos e o paredón cubano. E você não precisa(va) estar do lado errado da fronteira para se tornar escorregadio. Um exemplo emblemático foi a postura Noam Chomsky – linguista e ativista norte-americano cheio de publicações – ante o genocídio cambojano dos anos 70:

In extremis, os que pensam conforme aquilo em que desejam acreditar preferem abandonar por completo a realidade e a moral a renunciar a suas escolhas reconfortantes. No fim da década de 1970, Chomsky ridicularizou sistematicamente a ideia de que Pol Pot pudesse ser um assassino em massa, apesar do depoimento de muitos cambojanos que tinham fugido pela fronteira. “Os refugiados fica assustados e indefesos, à mercê de forças alheias”, disse ele aos leitores de The Nation em junho de 1977. “É natural que tendam a contar o que acreditam que seus interlocutores queiram ouvir. (…) Especialmente, os refugiados questionados por ocidentais ou tailandeses têm interesse especial em relatar atrocidades por parte dos revolucionários cambojanos, fato óbvio que nenhum repórter sério deixará de levar em conta.” Dois anos depois, após a derrubada de Pol Pot, as imensas pilhas de crânios humanos em seus campos de extermínio confirmaram que não eram os refugiados que se haviam iludido. A estimativa mais abalizada é que, entre abril de 1975 e janeiro de 1979, o Khmer Vermelho tenha matado 1.670.000 cambojanos, ou 20% da população – proporcionalmente, a maior carnificina já infligida por um governo a seus súditos. Todavia, mesmo em 1980, ao publicar After the Cataclysm: Postwar Indochina and the Reconstruction of Imperial Ideology [“Depois do cataclismo: a Indochina do pós-guerra e a reconstrução da ideologia imperial”], Chomsky recriminou os que aplicavam a palavra “genocídio” a esse Holocausto. “As mortes no Camboja não resultaram da matança sistemática e da inanição promovidas pelo Estado, mas são atribuíveis, em larga medida, à vingança dos camponeses, a unidades militares indisciplinadas, fora do controle do governo, à fome e à doença que são uma consequência direta da guerra norte-americana, ou a outros fatores desta natureza.” Afinal, por que continuar reprisando a questão desses cadáveres? “O lado positivo do quadro [do Khmer Vermelho] foi praticamente apagado”, reclamou Chomsky. “O lado negativo tem sido apresentado a uma plateia em massa, numa saraivada de informações que encontra poucos paralelos históricos, excetuada a propaganda dos tempos de guerra.”

Noam Chomsky sempre concedeu o benefício da dúvida a regimes antiamericanos como os de Pol Pot ou Slobodan Milosevic, esforçando-se por minimizar a escala de seu terrorismo e duvidando até das provas mais criteriosamente ratificadas. (…)

[Wheen, cap. XI, pp. 323-4]

A origem dessa dissonância cognitiva é antiga. Já no Manifesto Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels assim clamaram aos operários:

Os comunistas consideram indigno dissimular as sua ideias e propósitos. Proclamam abertamente que os seus objetivos só podem ser alcançados derrubando pela violência toda a ordem social existente. Que as classes dominantes tremam ante a ideia de uma Revolução Comunista! Os proletários não têm nada a perder com ela, além das suas cadeias. Têm, em troca, um mundo a ganhar.

PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNI-VOS!

De lá para cá, muitos dos que deram atenção a esse chamado perderam o ganha-pão, a integridade física, própria vida e a de seus filhos. A arapuca contida nele talvez tenha sido identificada por ninguém menos que Josef Stálin numa frase que lhe é atribuída (embora de origem incerta): “a morte de um homem é uma tragédia; a de milhões, uma estatística.” Ou seja, quando pessoas deixam de ser vistas com indivíduos e passam a ser tratados como coletivos, perde-se a compaixão por elas. Ficam como se fossem as células de um organismo, que não têm consciência individual e são continuamente trocadas. Apenas o organismo permanece e importa. Assim, que mal há se milhões morrem, mas a economia vai bem ou se está mais próximo da concretização do modo de produção socialista?

Há quem diga que a moral judaico-cristã é narcisista porque seu conceito de salvação é um processo essencialmente individual, ao contrário da redenção coletiva proposta por ideologias. Se assim for, melhor, pois só conseguimos nos colocar nos pés de outros indivíduos – a quem, segundo essa moral, devemos amar como nós mesmos -, não de abstrações numéricas. [voltar]

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Freud x Jung

Sigmund Freud (E) e Carl Jung: discípulos ameaçando o reinado dos mestres desde os tempos de Platão e Aristóteles.

O historiador Paul Johnson descreveu de forma pesada a relação entre Freud e círculo mais íntimo:

Freud era bem mosaico nas suas convicções sobre a questão do que era justo. A tradição de tolerância, de pontos de vista e de uma liderança policêntricos, não o atraía. Max Graf, pai do Pequeno Hans, disse que o clima no gabinete de Freud era “o da fundação de uma nova religião”. Os pacientes eram “os apóstolos” e Freud, “embora atencioso e de bom coração em sua vida privada”, era “duro e inflexível na apresentação de suas ideias”[229]. Freud tinha a sua pequena corte, da mesma forma que os sábios hassídicos. Formada inicialmente em 1902, nela ele nunca tolerou uma oposição séria a sua pessoa. Alfred Adler (1870 – 1937), um dos primeiros e mais brilhantes de seus membros, foi tratado – quando uma vez ele arriscou a discordar – não como um colega exercendo a crítica, mas como um heresiarca, ou ainda, por um termo que os marxistas iriam popularizar:’dissidente’. Como Graf colocou a situação: “Foi um julgamento e a acusação que pesava sobre o réu era de heresia … Freud, na condição de líder da igreja, excomungou Adler; ele o expulsou da igreja oficial. Durante um período de alguns anos, eu vivenciei todo o desenvolvimento de uma igreja”. Daí em diante, a excomunhão (herem), foi muito usada, principalmente no caso de Jung, o maior de todos os heresiarcas. O rompimento com Jung foi particularmente rancoroso, pois, como Jones colocou, ele deveria ter sido o Josué do Moisés de Freud. Seu “semblante mostrava um aspecto exultante quando falava de Jung: ‘Esse é meu filho querido, com quem eu estou muito satisfeito’. “Quando o império que eu fundei ficar órfão”, ele escreveu, “cabe a Jung herdá-lo todo, e a ninguém mais”[230].

[Johson, parte V, pp. 432-3]
Notas de autor:

[229]Citado em Roazen, op. cit., 197. (No caso, Paulo Roazen, Freud and his Followers, Londres, 1976.)
[230] Jones, op. cit., ii 33. (No caso, Ernest Jones, Life and Work of Sigmund Freud, 3 vols. (Nova York, 1953-7).

Embora fosse de família judia, Freud não era religioso e muito menos praticante. Ainda assim, aspectos da cultura judaica permearam sua obra, como a experiência subjetiva da interpretação da mente, que tem paralelos com estilo de exegese de expoentes da mística judaica:

Freud, na tradição judaica irracionalista, foi mais um Namânides ou um Besht [místicos] do que um Maimônides [racionalista]. Mas, talvez exatamente por isso, ele tornou-se um pilar central da estrutura intelectual do século vinte, uma construção com bases predominantemente irracionais. Para variar a metáfora, podemos dizer que ele deu à humanidade um novo espelho, pois nunca nenhum homem mudou de maneira tão radical e irreversível a maneira pela qual as pessoas se olham a si mesmas; ou mesmo a maneira como elas falam de si mesmas, pois ele também mudou o vocabulário da introspecção.
[Idem, p. 434]

E assim, um ateu teria criado seu próprio credo. Mas não do nada. [voltar]

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Masters of Sex - a série

FREUD LEVOU PAU EM GINECOLOGIA!

Um dos mais controversos pontos talvez seja a questão do orgasmo feminino no desenvolvimento sexual da mulher:

Se a vivência do sentimento de prazer sexual acaba por ser tão subjetiva, é lógico pensar que os fatores culturais tê um peso importante em sua experimentação. A expectativa que se tem do orgasmo é culturalmente determinada. Atualmente, as mulheres ocidentais esperam e desejam ter orgasmos e seus companheiros sexuais esperam também que elas os tenham. Quando não é assim, pensa-se que algo vai mal. Sem dúvida, até há poucos anos acreditava-se que as mulheres não tinham capacidade de experimentar prazer sexual, e que, nas poucas que o sentiam, isto era considerado um defeito ou, pelo menos, em hipótese alguma, devia ser exteriorizado. A tradição vitoriana fez com que as mulheres acreditassem que, na melhor das hipóteses, o orgasmo era algo pecaminoso.

Nesse contexto, surgiu a obra de Freud, que afirmou que existiam dois tipos de orgasmo feminino: o clitoriano e o vaginal. A afirmação em si não teria provocado maiores problemas se Freud não tivesse acrescentado que os orgasmos clitorianos (obtidos por meio da masturbação e por atos alheios ao coito) evidenciavam a imaturidade psicológica da mulher, enquanto os orgasmos vaginais (decorrentes do coito) eram os verdadeiramente saudáveis e maduros. Em seu ensaio Algumas consequências psicológicas da diferença anatômica entre os sexos, Freud escreveu que “a supressão da sexualidade clitoriana é um requisito necessário para o desenvolvimento da feminilidade”. A partir desta teoria freudiana, criou-se uma importante controvérsia entre a natureza e as implicações do orgasmo feminino, em virtude da qual inúmeras mulheres foram classificadas de neuróticas. Na realidade, segundo diversos estudos, só uma pequena percentagem de mulheres (em torno de 30% a 40%) atinge um orgasmo durante o coito, sem nenhum outro tipo de estimulação simultânea. Isto ocorre, talvez, devido a diferenças na sensibilidade genital e não a fatores como imaturidade, ansiedade e comunicação deficiente com o parceiro.

Por outro lado, numerosos estudos demonstravam que, em termos fisiológicos, existe apenas uma resposta orgástica. Um orgasmo obtido por meio da estimulação do clitóris é idêntico, fisiologicamente falando, a outro obtido pelo coito. Apesar disto, a ideia da existência de dois diferentes tipos de orgasmos tem-se mantido e chegou até os nossos dias. Talvez seja porque se confundiu a resposta fisiológica com a experiência orgástica das mulheres. Neste ponto, é verdade que as mulheres capazes de conseguir orgasmos clitorianos e vaginais descrevem dois tipos de experiência diferentes. Mas isto é devido à diferente experiência emocional, não à uma diferente resposta física. De fato, entre as mulheres, há preferências para todos os gostos. Enquanto umas preferem o orgasmo coital porque a experiência parece-lhes satisfatória, embora o orgasmo seja menos intenso, outras valorizam o orgasmo clitoriano, possivelmente pelas vantagens que este envolve, quanto a sua maior intensidade e por não se verem envolvidas pelas necessidades e pelo ritmo de seu companheiro sexual.

Em conclusão, atualmente não se considera patológico o fato de não se atingir o orgasmo por meio do coito; aceita-se que a resposta fisiológica, como a descrevemos anteriormente [dividida nas fases excitação, platô, orgasmo e resolução], é a mesma seja qual for a estimulação e o tipo de orgasmo, e considera-se que nenhum deste tipos é mais maduro ou imaturo, melhor ou pior que o outro.

[Enciclopédia da Sexualidade, vol. I, pp.58-60]

Masters of Sex - a série

A série Masters of Sex reconta a trajetória das pesquisas de William Master e Virginia Johson (acima, uma foto real deles), alfinetando o pai da psicanálise no sexto episódio da primeira temporada. Ignoro o quanto a dramatização é fiel aos fatos, mas a série dá um bom sentimento entre a diferença entre pesquisa a partir de experimentos controlados com boa base de dados e uma teoria de poucas amostras e muita especulação.

A resposta fisiológica do orgasmo foi primeiramente estudada por William H. Masters e Virginia E. Johnson, no fim dos anos 50 e começo dos 60 do século XX, tendo seus resultados publicados em Human Sexual Response, lançado em 1966. Suas pesquisas utilizaram o que havia de mais avançado na época (como eletrocardiogramas e eletroencefalogramas), além de instrumentos de invenção própria (como um vibrador transparente munido de iluminação interna, para registrar o comportamento do canal vaginal), e, de fato, não apontaram diferenças na forma como o corpo feminino reponde aos dois tipos de orgasmo. Com o posterior avanço da tecnologia, contatou-se, por meio de tomógrafos, que o cérebro feminino tem diferentes áreas ativadas durante cada um deles, o que pode explicar as distintas experiências subjetivas relatadas pelas que conseguem vivenciar os dois tipos. Acrescente-se à discussão o famigerado “ponto G”, cuja existência e localização no canal vaginal ainda é debatida. Talvez uma sensata opinião seja a proferida pelo cientista Emmanuele Jannini (citado no link anterior):

Uma mulher deve ter uma compreensão de quem ela é, como é constituído seu corpo, qual é capacidade de seu corpo, mas não deve buscar por algo como se fosse uma corrida, um jogo, um dever. Buscar o ponto G ou o orgasmo vaginal como uma necessidade, como um dever, é a melhor maneira de perder a felicidade do sexo.

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Diagrama do solipsismo.

Uma armadilha em as correntes psicanalíticas caem muitas vezes é a do “solipsismo metodológico”: a crença que o conteúdo dos pensamentos de um indivíduos é determinada por fatos acerca deles, fato esses independentes do que ocorre no mundo exterior. Se você lembrou de A Interpretação dos Sonhos, não foi mera coincidência.

O problema é a experiência subjetiva, como o próprio nome diz, não pode ser avaliada acima de qualquer dúvida razoável aqui do mundo exterior. Por isso, pode-se criar todo um arcabouço teórico – perfeitamente lógico e coerente, cujas premissas não podem ser determinadas como certas ou erradas – para explicar questões sobre a inteligência, as emoções e o comportamento. Assim, constrói-se um castelo à prova de qualquer contestação. Tudo bem se ficarmos no campo da filosofia, mas se for para falarmos de validade científica, complica.

De qualquer modo, os adeptos dessas teorias precisam a linguagem para se exprimir e convencer, aí que o palavrório rebuscado entra em ação para ocultar a falta de embasamento:

Isso é profundamente enigmático, pois é, em última análise, uma relação para algo secreto e oculto. Se me permitir usar uma dessas fórmulas que me vêm a medida que escrevo minhas notas, a vida humana poderia ser definida como um cálculo em que zero fosse um irracional. Essa fórmula é apenas uma imagem, uma metáfora matemática. Quando digo “irracional”, refiro-me não a um inapreensível estado emocional, mas precisamente ao que é chamado de número imaginário. A raiz quadrada de menos um não corresponde a nada que esteja sujeito a nossa intuição, nada real – sentido matemático do termo – e ainda assim, precisa ser conservado, juntamente com sua função total. É o mesmo com o elemento oculto da referência vivente, o sujeito, na medida em que toma a função de significador, não pode ser subjetificado como tal.

Lacan, Jacques & al.; Desire and the Interpretation of Desire in Hamlet, Yale French Studies, No. 55/56, Literature and Psychoanalysis. The Question of Reading: Otherwise. (1977), pp. 11-52.

Jacques-Marie Émile Lacan, um dos expoentes da psicanálise freudiana, confundiu números inteiros com irracionais e esses com os imaginários. Mesmo mantendo o raciocínio como metáfora, o uso que faz para termos matemáticos nada tem a ver com seus significados originais. De fato, os números imaginários geraram muita discussão, porém os “irracionais” têm esse nome não por ferirem a razão nem por serem a radiciação de um negativo, mas por não poderem ser expressos por uma razão entre dois inteiros e, ao contrário dos imaginários, têm exemplos abundantes na realidade cotidiana (ainda que não se dê conta). O zero, por sua vez, é um número racional. Então, o que significa o parágrafo acima? Não sei, mas não faltará quem tente explicar. Vale lembrar que rebater nem sempre significa refutar e o estilo extremamente obscuro de Lacan pode tanto ajudar quem quer defendê-lo quanto reforçar a imagem de uma falsa erudição e/ou ausência de conteúdo.

Lacan era um figurão? Sim. Yale é universidade respeitada? Muito. Então, como alguém renomado concebeu um texto aparentemente extraído de um “gerador de lero-lero” e uma universidade conceituada o deixou passar? Bem, isso muito mais comum do que imagina. Procure saber sobre o “Caso Sokal” e, se quiser pequena introdução aos filósofos “pós-modernos”, recomendo a leitura de [Navega, cap. IV]. [voltar]

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Retrato de Popper

Karl Popper (1902 – 1994)

O filósofo da ciência Karl Popper até hoje desperta discussões com seu critério de “falsificação” para distinguir a solidez um conhecimento científico da de outro que não o seja, o que pelo menos seja má Ciência. Em outras palavras, será científico um conhecimento que puder ser comprovado falso de algum modo, em vez de aquele que alega ter uma série verificações positivas. Isso foi uma inversão de valores com o paradigma indutivo exclusivo até meados do século XX e deve ter sido, em grande parte, motivada por sua vivência juvenil:

Foi no verão de 1919 que comecei a ficar mais e mais insatisfeito com essas três teorias – teoria marxista da história, a psicanálise e a psicologia individual; e comecei a sentir dúvidas quanto a suas demandas de status científico. Meu problema talvez, primeiramente, tomasse uma forma simples: “o que há de errado com o marxismo, a psicanálise e a psicologia individual? Por que elas são tão diferentes de teorias físicas, da teoria de Newton e, especialmente, da teoria da relatividade?”

Para clarear esse contraste, devo explicar que poucos de nós à época teríamos dito que acreditávamos na validade da teoria da gravitação de Einstein. Isso mostra que não era minha dúvida da validade dessas três outras teorias que me incomodava, mas alguma outra coisa. E nem era que eu quase considerasse que física matemática fosse mais exata que uma teoria do tipo sociológico ou psicológico. Assim, o que me preocupava nem era o problema da validade, naquele estágio pelo menos, nem o problema da exatidão e mensurabilidade. Era mais que eu sentia que essas três teorias, embora posassem de ciência, tinha, de fato, mais em comum com mitos primitivos que com ciência; que pareciam mais com astrologia que com astronomia.

Eu descobri que muitos dos meus amigos que eram admiradores de Marx, Freud e Adler ficavam impressionados pelo número de pontos em comum a essas teorias, e especialmente pelo seu seu aparente poder explanatório. Essas teorias aparentam ser capazes de explicar praticamente tudo que acontece dentro dos campos a que se referiam. O estudo de qualquer uma delas parecia ter o efeito de uma conversão ou revelação, abrir os olhos a uma nova verdade oculta dos que não foram ainda iniciados. Uma vez, então, os olhos sejam abertos, via-se instâncias confirmatórias por toda parte: o mundo estava cheio de confirmações da teoria. O que quer que acontecesse sempre a confirmava. Assim, sua verdade parecia manifesta; e os incréus eram claramente pessoas que não queriam ver a manifesta verdade; que se recusavam a vê-la, seja porque ela era contra seu interesse de classe ou é por causa de suas repressões que ainda estavam “não analisados” e clamando por tratamento.

O mas característico elemento nessa situação parecia-me ser a incessante corrente de confirmações, de observações que “verificavam” as teorias em questão; e este ponto era constantemente enfatizado por seus adeptos. Um marxista não podia abrir um jornal sem encontrar em cada página uma evidência confirmatória para sua interpretação da história; não apenas nas notícias, mas também em sua apresentação – que revelava o viés de classe do jornal – e especialmente, é claro, o que o jornal não dizia. Um analista freudiano enfatizava que suas teorias eram constantemente verificadas por suas “observações clínicas”. Assim como Adler, eu ficava muito impressionado por uma experiência pessoal. Certa vez, em 1919, reportei-lhe uma caso que não me parecia particularmente adleriano, mas que ele não encontrou nenhuma dificuldade em analisar em termos de sua teoria de inferioridade de sentimentos, apesar de nem mesmo ter visto a criança. Levemente chocado, perguntei-lhe como ele poderia estar tão seguro. “Por causa de minha experiência de um milhar [de casos]”, respondeu; após o que não adiantaria nada se eu dissesse: E com esse novo caso, suponho, sua experiência se tornou de um milhar e um.”

O que eu tinha em mente era que suas prévias observações podiam não ter sido tão sonoras como essa nova; que cada uma, em sua vez, fora interpretada à luz de “prévia experiência”, e que ao mesmo tempo contou como confirmação adicional. O que – perguntava-me – ela confirma? Nada mais que um caso que podia ser interpretado à luz de uma teoria. Mas isso significava muito pouco, refleti, já que cada caso concebível podia ser interpretado à luz da teoria de Adler ou igualmente da de Freud.

Eu posso ilustrar isso por meio de dois exemplos bem diferentes de comportamento humano: o de um homem que empurra uma criança dentro d’água com a intenção de afogá-la e o de um homem que sacrifica sua vida para salvar a criança. Cada um desses casos pode ser igualmente explicado com igual facilidade em termos freudianos e adlerianos. Segundo Freud, o primeiro sofria de repressão (digamos, de algum componente de seu complexo de Édipo), ao passo que o segundo alcançara a sublimação. Segundo Adler, o primeiro sofria de sentimentos de inferioridade (talvez produzindo a necessidade de provar para si mesmo que ousaria cometer algum crime), e da mesma forma o segundo (cuja necessidade era provar para si que ousaria resgatar a criança). Não conseguiria imaginar comportamento humano algum que não pudesse ser interpretado em termos de ambas teorias. Foi precisamente esse fato – que elas sempre se adequam, que eram sempre confirmadas – que aos olhos de seus admiradores constituiu o mais forte argumento a favor dessas teorias. Começou a me ocorrer que essa aparente força era, na verdade, a fraqueza delas.

[Popper (1957), cap. I]

Para Popper, mereceria o status científico hipótese que:

  1. Pudesse ser demonstrada falsa de alguma forma, i.e., fosse falseável;
  2. Ainda não tivesse sido falseada, i.e., tivesse resistido a todas as tentativas de falsificação.

Com isso, Popper invertia a postura vigente na metodologia do Indutivismo Lógico: em vez de teorias continuamente validadas (já ouviste falar de Consenso Universal dos Espíritos?), teríamos apenas hipóteses úteis que ainda não foram refutadas. Isso seria uma forma de prevenir a adoção de “teorias que nunca estão erradas”, pois elas sempre serão confirmadas, não importando o que a acontecer. Por exemplo, a noção de que vivemos em um “mundo justo” pode muito bem ser refutada por uma catástrofe. Por outro lado, admitindo-se a existência de uma entidade supra-humana capaz de controlar a natureza direta ou indiretamente, podendo, assim, punir humanos por crimes cometidos no passado (via reencarnação), presente ou, até mesmo, no futuro (via presciência), então a teoria está salva. Caso se chame essa entidade de “Deus”, então terá sido um argumento religioso e não científico, como alguns argumentarão. Mas que diferença faz, em termos práticos, para uma determinada ciência postular uma onipotência absoluta ou dar uma “onipotência especializada” ao livre mercado, à dialética materialista da História ou ao inconsciente (inclusive o quevediano)? [voltar]

(17)

Retrato de Kuhn

Thomas Kuhn (1922 – 1996)

A abordagem de Popper se foca em dar uma definição “lógica” ao que seria ciência, mas será que o progresso científico realmente se deu na forma de falsificações sucessivas? A resposta é “não” conforme avaliou Thomas Kuhn no livro A Estrutura das Revoluções Científicas. Segundo ele, quando um conjunto de pressupostos teóricos, leis e técnicas de um campo científico (o paradigma do momento, em seu jargão) começa a não responder de modo eficiente a novas perguntas, isso não significa que ele seja imediatamente abandonado em prol de outro superior. Pelo contrário, tenta-se salvar o paradigma tradicional com a adoção de hipóteses especiais (também chamada de hipóteses ad hoc) que contornem suas dificuldades. Somente quando o volume de hipóteses especiais cresce demais e/ou se torna apelativo (como o exemplo “divino” do parágrafo anterior) é que o paradigma tradicional entre em “crise” e segue-se uma “revolução científica”, em que novos paradigmas são propostos e competem entre si até que haja um vencedor aceito pela comunidade científica e um reinício do ciclo. Um exemplo clássico desse esquema teria sido a revolução coperniciana, que jamais teria acontecido no modelo de Popper, pois teria sido prontamente falseada pela ausência da paralaxe estelar. Vale lembrar que, ao contrário do que preconizava Popper, a racionalidade pode ficar de fora na briga entre paradigmas e a opção de um grupo por este ou aquele candidato se dar por motivos subjetivos, como a insistência na cosmologia geocêntrica pela reverência a Aristóteles ou a rejeição da “hipótese sobrevivência” por motivos puramente materialistas.

Mesmo com essa mudança de abordagem, Kuhn não foi muito mais gentil que Popper quanto status científico da psicanálise (ou do marxismo), embora o fosse por razões bem distintas:

Examinando os casos mais inquietantes, por exemplo, a psicanálise e a historiografia marxista, para os quais Sir Karl [Popper] nos diz que seu critério foi inicialmente elaborado, concordo que eles não podem adequadamente ser rotulado de “ciência”. Contudo, chego a tal conclusão por um caminho mais seguro e direto que o dele. Um breve exemplo pode sugerir que dos dois critérios – testagem e solução de mistérios (*) – o último é, de uma só vez, menos equivocável e mais fundamental.

Para evitar irrelevantes controvérsias contemporâneas, tomo a astrologia no lugar da psicanálise. A astrologia é o exemplos mais frequentemente citado por Sir Karl de uma pseudociência. Diz ele [em Conjecturas e Refutações, parte II]: “Ao fazer suas interpretações e profecias suficientemente vagas, [os astrólogos] foram capazes de rechaçar qualquer coisa que pudesse ter sido uma refutação, tivessem a teoria e as profecias sido mais precisas. A fim de escapar da falsificação, destruíram a falseabilidade da teoria”. Essas generalizações captam algo do espírito do empreendimento astrológico. Contudo, levadas de forma totalmente literal, como devem ser se forem para prover um critério de demarcação, são impossíveis de se sustentar. A história da astrologia durante séculos, quando ela era intelectualmente reputada, registra muitas predições que categoricamente falharam. Nem mesmo os mais convincentes e veementes expoentes duvidaram da recorrência de tais falhas. A astrologia não pode ser banida das ciências por causa da forma em que suas predições foram dadas.

Nem pode ser banida por causa do modo que seus praticantes explicaram o fracasso. Astrólogos assinalaram, por exemplo, que, ao contrário das predições gerais sobre, digamos, as propensões de um indivíduo ou uma calamidade natural, a previsão de um futuro individual era uma tarefa imensamente complexa, exigindo a maior habilidade e sensível ao menor erro num dado relevante. A configuração das estrelas e dos oito planetas estava constantemente mudando; as tabelas astronômicas usadas para computar a configuração ao nascimento de um indivíduo eram notoriamente imperfeitas; poucos homens sabiam o instante de seu nascimento com a precisão requisitada. Não admira que, portanto, as previsões frequentemente falhassem. Somente após a própria astrologia ter se tornado implausível é que esses argumentos vieram a se parecer com petição de princípio. Argumentos similares são regularmente usados hoje ao se explicar, por exemplo, falhas na medicina ou meteorologia. Em ocasiões de dificuldades, eles também são dispostos nas ciências exatas, campos como física, química e astronomia. Nada havia de anticientífico acerca das explicações de fracasso dos astrólogos.

Contudo, a astrologia não era uma ciência. Em vez disso, era um ofício, uma das artes práticas, com semelhança próxima à engenharia, à meteorologia e à medicina como esses campos eram praticados até a pouco mais de um século atrás. Os paralelos com uma medicina mais antiga e com a psicanálise contemporânea são, creio, particularmente próximos. Em cada um desses campos, a teoria partilhada era adequada apenas para estabelecer a plausibilidade da disciplina e para providenciar uma racionalização para as diversas regras de ofício que governavam a prática. Essas regras tinham comprovado seu uso no passado, mas nenhum praticante supunha que elas eram suficientes para prevenir falhas recorrentes. Eram desejadas uma teoria mais articulada e regras mais poderosas, mas teria sido absurdo abandonar uma plausível e tremendamente necessária disciplina com uma tradição de limitado sucesso simplesmente porque essas coisas desejáveis não estavam à mão. Na ausência delas, contudo, nem o astrólogo, nem o médico podiam fazer pesquisa. Embora tivessem regras a aplicar, não tinham mistérios a resolver e, portanto, nenhuma ciência para praticar.

Compare as situações do astrônomo e do astrólogo. Se a predição de um astrônomo falhou e seus cálculos foram checados, ele podia esperar ajustar a situação corretamente. Talvez os dados estivessem errados: antigas observações podiam ser reexaminadas e novas medições feitas, tarefas que forneciam uma gama de mistérios calculacionais e instrumentais. Ou talvez a teoria precisasse de ajuste, seja pela manipulação de epiciclos, ecêntricos, equantes, etc., ou por reformas mais fundamentais da técnica astronômica. Por mais de um milênio houve mistérios matemáticos e teóricos circundantes com os quais, aliados a suas contrapartes instrumentais, a tradição de pesquisa astronômica foi constituída. O astrólogo, em contraste, não tinha tais mistérios. A ocorrência de falhas podia ser explicada, mas falhas particulares não davam origem à pesquisa de mistérios, pois ninguém, ainda que habilidoso, podia fazer uso delas numa tentativa construtiva de revisar a tradição astrológica. Havia fontes de dificuldades em demasia, a maioria delas além do conhecimento, controle e responsabilidade do astrólogo. Da mesma forma, falhas individuais não eram instrutivas e não refletiam sobre a competência do prognosticador aos olhos de seus pares profissionais. Embora a astrologia e a astronomia fossem comumente praticadas pelas mesmas pessoas – inclusive Ptolomeu, Kepler e Tycho Brahe – nunca houve um equivalente astrológico da tradição astronômica de solução de mistérios. E sem mistérios, capazes de, primeiramente, desafiar e, então, atestar a engenhosidade do praticante individual, a astrologia não poderia ter se tornado uma ciência, mesmo se as estrelas, de fato, controlassem o destino humano.

Em suma, embora os astrólogos fizessem predições testáveis e reconhecessem que essas predições às vezes falhavam, eles não se engajaram (e nem podiam) nos tipos de atividades que normalmente caracterizam todas as ciências reconhecidas. Sir Karl está certo ao excluir a astronomia das ciências, mas seu foco excessivo em revoluções ocasionais da ciência o impede de ver a razão mais acertada para fazer isso

[Kuhn (1970), parte I. Notas omitidas.]

(*)Puzzle no original, comumente traduzido por “quebra-cabeça” nas edições brasileiras de Kuhn. Preferi o sentido mais abstrato da palavra. “Enigma” seria outra opção.

Embora centre-se na astrologia em vez da psicanálise, Kuhn deixa claro que há paralelos entre o modus operandi de uma e de outra que as impedem de se tornar genuínas ciências, independentemente da suposta regência dos astros ou (subentende-se) da validade da teoria freudiana. Vale atentar que, em uma nota ao texto acima, que Kuhn reconheceu a existência de “escolas” dentro da astrologia, a exemplo das ciências sociais e, também, da psicanálise. O problema é que os membros de cada escola preferiam atacar a teoria das outras, em lugar de refinar a da sua, por não enxergar mistérios nela por resolver. Fico a perguntar se o espiritismo, em seu estado atual, não se enquadraria mais numa “arte prática”, como os exemplos apresentados por Kuhn, do que exatamente uma ciência. Nesse caso, pesquisadores psi ou da “hipótese sobrevivência” fariam o papel dos astrônomos e os espíritas, dos astrólogos. O quanto esses grupos se sobreporiam?

Uma última opinião que gostaria de expor é a de Imre Lakatos, que reparou que muitas das críticas de Khun a Popper, embora acertadas em sua opinião, se referiam a uma versão, digamos, “ingênua” do falsificacionismo, centrada numa aplicação restrita dos dois pressupostos mencionados acima. Um pressuposto extra, um tanto difuso na obra original de Popper, fortaleceria esse critério de demarcação: uma hipótese científica deveria ser mais falseável que suas competidoras, implicando que deveria ter uma comprovação empírica maior (para, comparativamente, ter sido “menos falseada”) e uma capacidade preditiva maior (para ser mais “falseável”, caso uma previsão falhe). Esse falsificacionismo “sofisticado” contém uma abordagem para o crescimento da ciência, ficando um pouco mais próximo do historicismo de Kuhn. Além disso, embora ambas as filosofias fossem rivais, elas tinham muito em comum: se posicionavam contra o enfoque positivista (inducionista) da ciência, davam prioridade à teoria (ou paradigma) sobre a observação e insistiam que a busca por interpretação, aceitação ou rejeição dos resultados de um experimento ou observação ocorriam tendo uma teoria (ou paradigma) como pano de fundo [Chalmers, cap. IX, p.130]. Acontece que, mesmo em sua versão “sofisticada”, o falsificacionismo ainda apresenta dificuldades difíceis de contornar como, por exemplo, se uma observação não condiz com uma previsão, o que está errado: a teoria, a observação/experimento ou ambos? Por pura e simples lógica não é possível responder e caso a observação (ou experimento) esteja correta, será toda a teoria errada ou parte dela apenas?

A resposta de Lakatos foi sugerir que nem todas as partes de uma ciência estão no mesmo patamar. Algumas seriam seu “núcleo duro” (hardcore), o cerne fundamental cuja falsificação a invalidaria. Exemplos disso seriam as três leis de Newton e sua Gravitação Universal para a Mecânica clássica ou a disposição dos planetas ao redor do Sol para o modelo coperniciano. Em torno desse núcleo, haveria um “cinturão protetor” de teorias auxiliares, hipóteses complementares (ad hoc) e métodos observacionais/experimentais, que seria constantemente modificado, expandido e refinado com o tempo conforme problemas surgissem. A junção desses dois constituiria o programa de pesquisa, a alternativa de Lakatos ao paradigma de Kuhn como panorama em a atividade científica se desenvolve. O valor de um programa de pesquisas estaria no fato de ele ter realmente um “programa de pesquisa” capaz de guiar a futuras descobertas – coisa que tanto a psicanálise e o marxismo possuiriam – e na extensão em que levaria a novas predições posteriormente confirmadas. Um programa progressivo atenderia esse quesito. Por outro lado, se ele fosse constantemente surpreendido pelo novo, precisando ajustar o cinturão em razão de um crescimento empírico inesperado; isto é, se somente oferece explicações a posteriori de descobertas fortuitas ou, pior, de fatos previstos e descobertos por um programa rival, então seria considerado regressivo ou degenerante, situação em estariam os dois anteriores. A substituição de um programa regressivo por um rival progressivo seria o equivalente de Lakatos para “revolução científica”.

Atendo-se apenas à abordagem de Lakatos, o espiritismo seria um programa regressivo, estando as pesquisa em psi e sobrevivência como rivais progressivos, embora menos pretensiosos.

Poderia continuar esta discussão passando pelo anarquismo epistemológico de Paul Feyeranbend, pela defesa do retorno ao indutivismo pelos advogado pelos bayesianos, pelo neoexperimentalismo, etc., o que fugiria muito do escopo aqui. A quem quiser se aprofundar nas correntes filosóficas da ciência, sugiro como leitura o nono capítulo de [Ferreira] e, principalmente, [Chalmers]. De qualquer forma, duvide sempre de qualquer debatedor alegando que se der cara ele ganha e coroa, você perde. [voltar]

(18) Curiosamente, há quem diga que Freud nunca curou ninguém! Bem, isso é com Freud, não com os que vieram depois. [voltar]

(19)

Cartaz de Mumford (1999)

Na cidadezinha de Mumford, o analista Mickey Mumford (sim, são homônimos) tem feito grande sucesso com seu consultório. Tanto ao ponto de outros profissionais da região começarem a querer saber mais a respeito da origem do Dr. Mumford…

Bem, esse é o argumento da comédia romântica Mumford (1999). Está longe de ser um filmaço, mas é uma boa pedida para distrair a mente (e cutucar seu amigo analista). Dica: ainda no começo da história, quando Mumford chega em casa depois do expediente, ele liga a TV e a fica escutando enquanto cuida de outros afazeres domésticos. Repare no programa que está passando. Ele será crucial para a trama mais adiante, no melhor estilo arma de Tchecov. [voltar]

(20) Seria uma espécie de “filosofia natural” especializada na mente humana. Justiça seja feita, uma proposta chave de Freud – o inconsciente – é tido como real para a moderna neurociência, ainda que ela não lide da mesma foram com ele. [voltar]

(21) Talvez você até seja mesmo, mas esta brincadeira é apenas um lembrete para não levar a sério quem usa no meio de um raciocínio a própria conclusão a que deveria chegar (no caso, a teoria psicanalítica) e não digo que todos os farão isso. Agora, a tentação pode ser grande ao se lidar de conhecimento introspectivo. [voltar]

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Para saber mais

– Aaboe, Asger; Episodes from the Early History of Astronomy, Spinger, 2001.

– Chalmers, Alan F.; What is this thing called Science?, Hackett Publish Company, 3a. edição, 1999.

– Davis, Mike; Late Victorian Holocausts, Verso, 2001.

Enciclopédia da Sexualidade para o Casal Moderno, 2 vols., Editora Três, 1995.

– Ferreira, Juliana M.H.; Estudando o Invisível – William Crookes e a Nova Força, Educ/FAPESP, 2004.

– Gould, Stephen Jay; Pilares do Tempo – Ciência e Religião na Plenitude da Vida, Rocco, 2002.

– Johnson, Paul; História dos Judeus, Imago, 2ª ed., 1995.

– Kuhn, Thomas; Logic of Discovery or Psychology of Research?, editado por Imre Lakatos & Alan Musgrave em Criticism and the growth of knowledge, Cambridge University Press, 1970.

– Kuhn, Thomas; Estrutura das Revoluções Científicas, Coleção Debates, Perspectiva, 8a. ed., 2003.

– Lentin, Jean-Pierre ; Penso, logo me engano, Ática, 1997.

– Narloch, Leandro; Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, Leya, 2013.

– Navega, Sergio, Pensamento Crítico e Argumentação Sólida, Intellwise, 2005

– Popper, Karl; Science: Conjectures and Refutations, 1957.

– Popper, Karl; A Lógica da Investigação Científica, Coleção Os Pensadores, vol. XLIV, Abril Cultural, 1975.

– Sagan, Carl; O Mundo Assombrado pelos Demônios, Companhia das Letras, 2002.

– Smith, Adam; A Riqueza das Nações, coleção Os Economistas, Nova Cultural, 1996.

– Wheen, Francis; Como a Picaretagem conquistou o Mundo, Record, 2007.

– White, Matthew; O Grande Livro das Coisas Horríveis, Rocco, 2013.

– Woods, Thomas E.; How the Catholic Church built the Western Civilization, Regnery Publishing, 2005.

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Uma Resposta a José Reis Chaves

29 de maio de 2013 2 comentários

Índice

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O Artigo em Questão

A Bíblia e o Espiritismo

José Reis Chaves, escritor espírita e ex-seminarista, lançou em 2009 o livro O Espiritismo e a Bíblia (Espaço Literarium Editora), uma compilação de artigos que escreve às segundas-feiras no jornal O Tempo, de Belo Horizonte – MG. Logo no início, há um artigo a respeito do trabalho deste portal:

Precisaríamos do espaço de um volumoso livro para abordar o site http://br.geocities.com/falhasespiritismo/index_int_2.html Mas fá-lo-emos assim mesmo. Ele cita Flávio Josefo, Procópio, são Clemente de Alexandria, Orígenes, são Gregório de Nissa, são Jerônimo, Kardec, Léon Denis, Elizabeth C. Prophet, N. Langley, H. Kersten, dom Estêvão Bitencourt, S. Celestino, este colunista e outros.

E já que os espíritas gostam de estudar, vale a pena ver o site, apesar das falhas. São simplistas algumas de suas questões, que se apoiam em teses também simplistas. Kardec disse que se houver divergência entre um ensino espírita e a ciência, que se seguisse a ciência. De fato, o espiritismo não se considera infalível. Aliás, nem Jesus sabia tudo! Céptico, o site critica os Evangelhos. E desfaz-se do inconsciente coletivo de Jung, dos campos morfogenéticos, do adamantino Pastorino e do renomado cientista Ian Stevenson, diretor do Dtº de Psiquiatria da U. de Virgínia, o qual pesquisa o fenômeno da reencarnação, há mais de 50 anos e em mais de 40 países, autor duma obra de 2.300 páginas (2 volumes) sobre a reencarnação, e admirado por todo o mundo científico.

São de autoria de Procópio (morto em 562) “Histórias das Guerras de Justiniano” e “História Secreta”. Ele registra, de modo diferente, o episódio de 500 prostitutas, que, segundo vários autores, foram assassinadas a mando da imperatriz Teodora, esposa de Justiniano, que era mesmo sanguinário, pois mandou matar cerca de um milhão de pessoas adeptas da reencarnação no Oriente Médio, após a condenação dela pelo Concílio de Constantinopla, em 553 (Paul Brunton, “Ideias em Perspectivas”, pág. 118, Ed. Pensamento).

Não teria Procópio contado essa história de modo diferente, justamente porque era amigo do casal imperial? E porque o site desconhece outras fontes que registram essa história das prostitutas assassinadas, ele tenta depreciar o meu livro “A Reencarnação na Bíblia e na Ciência”, EBM Ed., SP, e outras obras que falam do assunto. E é insustentável a sua tese de que só se conhece um autor, lendo suas obras, pois Jesus, Sócrates e outros grandes vultos da História não escreveram nada. Aliás, o próprio site se contradiz nisso, ao defender ideias de certos autores tiradas de obras de outros autores.

Realmente, as críticas desse site não persuadem ninguém!

Será feita uma análise passo a passo dessas declarações.
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Sobre o Portal

Precisaríamos do espaço de um volumoso livro para abordar o site http://br.geocities.com/falhasespiritismo/index_int_2.html Mas fá-lo-emos assim mesmo. Ele cita Flávio Josefo, Procópio, são Clemente de Alexandria, Orígenes, são Gregório de Nissa, são Jerônimo, Kardec, Léon Denis, Elizabeth C. Prophet, N. Langley, H. Kersten, dom Estêvão Bitencourt, S. Celestino, este colunista e outros.

Pois então abordem todo o portal em uma obra ampla ou parceladamente, o que pode ser feito até via internet. Mesmo tendo se limitado a um único assunto – o suposto assassinato de 500 prostitutas a mando de uma imperatriz bizantina como estopim para a supressão do reencarnação na Igreja – continua sendo imprudente comentá-lo no espaço exíguo de uma coluna semanal. O resultado saiu mais como um espécie de desabafo do que uma dissecação do tema, o que seria de se esperar de uma verdadeira refutação. Listar os autores citados no portal pode até impressionar seus leitores com a tarefa hercúlea a que está se propondo, embora seja algo um tanto nebuloso, pois não diz exatamente a intenção com que os cito: aprovar, discordar, usar como testemunha histórica, como referência, discordar de interpretações de terceiros, etc. Um último comentário a esse parágrafo, em forma de sugestão, seria a utilidade em colocar o nome deste portal junto ao endereço virtual, pois esse pode mudar (e já mudou), ao passo que a “marca” do portal permanece. [topo]

Espiritismo e Ciência

E já que os espíritas gostam de estudar, vale a pena ver o site, apesar das falhas. São simplistas algumas de suas questões, que se apoiam em teses também simplistas. Kardec disse que se houver divergência entre um ensino espírita e a ciência, que se seguisse a ciência. De fato, o espiritismo não se considera infalível. Aliás, nem Jesus sabia tudo!

Concordo que certas partes de meu portal são sofríveis. Sério! Ele se desenvolveu de forma desigual. Nas partes bem incrementadas, como a da reencarnação bíblica, o texto cresceu muitas vezes por “sedimentação”. Apesar de me agradar o conteúdo, a forma não estava boa e por isso o estou reescrevendo. Agora, justiça me seja feita: por ocasião da publicação do artigo original (27/08/2007) já havia material suficiente no portal para ao menos fazer os espíritas suspeitarem que havia algo errado na história repassada em seus centros e, posteriormente, fiz um estudo exaustivo sobre a questão que, quando comparado com a literatura espiritualista disponível, nem apelando pode ser chamado de “simplista”.

Quanto ao dito de Kardec, já o conheço e considero utópico. Nem a ciência “tradicional” avança desse jeito, descartando teorias a cada novo fato contrário. Muito pelo contrário, sempre são levantadas hipóteses ad hoc para conciliar dados discrepantes com um arcabouço teórico já bem estabelecido. Muitas vezes isso é bem sucedido ou o é por algum tempo. Quando a quantidade de anomalias se avoluma ou as hipóteses auxiliares começam a ficar fracas, impassíveis de qualquer verificação, podemos estar diante uma iminente mudança nos paradigmas científicos. Enfim, a ciência é resistente à mudança e é bom que seja assim, do contrário ela seria um caos (1). Com o espiritismo, não é diferente e, mesmo quando a ciência o contradiz, é capaz de lançar uma “carta na manga”. Vide as supostas civilizações marcianas que seriam invisíveis aos nossos olhos e aos instrumentos de nossas sondas. Isto não deixa de ser uma hipótese auxiliar. Das mais fracas.

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O Peso da Autoridade

Céptico, o site critica os Evangelhos. E desfaz-se do inconsciente coletivo de Jung, dos campos morfogenéticos, do adamantino Pastorino e do renomado cientista Ian Stevenson, diretor do Dtº de Psiquiatria da U. de Virgínia, o qual pesquisa o fenômeno da reencarnação, há mais de 50 anos e em mais de 40 países, autor duma obra de 2.300 páginas (2 volumes) sobre a reencarnação, e admirado por todo o mundo científico.

A primeira e curta frase pode dar a impressão de que desdenho de um conjunto de livros que lhe é prezado, então retruco: critico os evangelhos de que jeito? Digo que são um amontoado de disparates ou material que contém coisas boas para os dia de hoje, mas que deve ser analisado tendo em mente seus primeiros leitores – os judeus do primeiro século? Lógico que eu, jogando no time dos céticos, não darei a eles a mesma análise tua ou a dos cristãos “tradicionais”, a quem tanto critica. Digamos que eu seja adepto da tese de Jesus como Profeta Apocalíptico, defendida também por outro descrente e “céptico” chamado Bart D. Ehrman (2). Ele foi, por sinal, considerado “o maior biblista do mundo” em sua coluna de 24/03/2008.

Também não estou muito interessado na reencarnação como fato, atendo-me mais ao revisionismo histórico perpetrado por alguns espiritualistas para conceber um cristianismo antigo “à própria imagem e semelhança“. Muitos repassam essa moeda falsa de total boa fé, mas ainda assim erram por um excesso de confiança não condizente com a “fé racionada”. Um pouco de ceticismo lhes faria bem e foi a isso que me propus.

Quanto ao Dr. Ian Stevenson, nem de longe me atrevi a questionar seu gabarito acadêmico e, principalmente, sua disposição em fazer “trabalho de campo” e sua postura crítica. Só não entendo por que espíritas extraem de seu trabalho mais do que pode oferecer e fazem vista grossa para as discrepâncias. A grande pergunta que ele tentou responder foi se “há reencarnação”, porém ele achava um passo grande demais querer dizer “como ela é” ou afirmar que sua ocorrência fosse universal. Também vale lembrar que muitos dos casos de “recordação espontânea” com que trabalhou foram considerados fracos por ele mesmo, sendo divulgada ao grande público justamente uma seleção dos mais fortes.

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Procópio: Esse Desconhecido (Parte I)

São de autoria de Procópio (morto em 562) “Histórias das Guerras de Justiniano” e “História Secreta”. Ele registra, de modo diferente, o episódio de 500 prostitutas, que, segundo vários autores, foram assassinadas a mando da imperatriz Teodora, esposa de Justiniano (…)

Faltou uma importante obra de Procópio no trecho acima: Das Construções, um registro dos principais feitos arquitetônicos do reinado de Justiniano. Além da afamada Catedral de Santa Sofia, Procópio relata a construção do convento Metanoia (Arrependimento):

(…)Havia uma multidão de mulheres em Bizâncio que realizava em bordéis uma atividade de libertinagem, não por escolha própria, mas sob a força da luxúria. Visto que isto era mantido por cafetões, e as mulheres de tais casas eram obrigadas a toda e qualquer hora a praticar obscenidade e copular de imediato com desconhecidos à medida que apareciam, elas se submetiam aos seus abraços. Já que houvera um numeroso corpo de alcoviteiros na cidade desde os tempos antigos, conduzindo seu tráfico em licenciosidade nos bordéis e vendendo a juventude alheia no mercado público, reduzindo pessoas virtuosas à escravidão. Mas o imperador Justiniano e a Imperatriz Teodora, que sempre compartilhavam uma comum piedade em tudo que faziam, arquitetaram o seguinte plano. Limparam o estado de poluição dos bordéis, banindo o próprio nome dos cafetões e libertaram de uma licenciosidade adequada apenas a escravas as mulheres que estavam lutando com imensa pobreza, provendo-as com sustendo independente e liberando virtude. Isso ele conseguiram da seguinte forma. Próximo à margem do estreito que está à direita dos que navegam em direção ao mar chamado Euxino, eles transformaram o que fora anteriormente um palácio em um imponente mosteiro projetado para servir de refúgio a mulheres que se arrependessem de suas vidas anteriores, de forma que lá, através da ocupação que suas mentes teriam com Deus e com a religião, poderiam ser capazes de limpar os pecados de suas vidas no prostíbulo. Portanto, denominaram o domicílio de tais mulheres de ‘Arrependimento’, em adequação com seu propósito. E estes soberanos dotaram este convento com ampla soma em dinheiro e adicionaram várias construções, a maioria notável por sua beleza e suntuosidade, para servirem de consolo às mulheres, a fim de que nunca se sintam compelidas a se afastar da prática da virtude de uma forma ou de outra.(..)

Procópio, Das Construções (De Aedificiis), livro I, cap. IX.

Na verdade, existem dois relatos feitos por Procópio para o episódio. Como Das Construções é propaganda estatal, essa é versão idílica dos fatos. O outro se encontra em História Secreta:

Teodora também devotou considerável atenção ao castigo de mulheres flagradas em pecado carnal. Ela apanhou quinhentas prostitutas no Fórum, que lá auferiam uma vida miserável se vendendo por três óboles (3), e as enviou para a margem oposta [do Bósforo], onde foram trancadas no mosteiro chamado Arrependimento, para forçá-las a reformar seu estilo de vida. Algumas delas, porém, atiravam-se à noite dos parapeitos e assim se livravam de uma salvação indesejada.

Procópio, A História Secreta, (Anekdota), cap XVII, “Como Teodora salvou quinhentas prostitutas de uma vida de pecado.”

Essa versão mostra que aquela obra social não era tão perfeita assim, com um certo número de internas que não queriam estar lá e chegando ao ponto de tentar uma fuga suicida. Existe um outro cronista de época que também relata a relação entre Teodora e as prostitutas.

Naquela época, a piedosa Teodora acrescentou o seguinte a suas outras boas ações. Certos conhecidos cafetões percorriam cada distrito em busca que homens pobres que tivessem filhas e dando-lhes, dizia-se, sua palavra e alguns nomismata, levavam as garotas como se fosse um contrato; transformavam-nas em prostitutas públicas, vestindo-as como sua desventurada sorte exigia e recebendo delas, e miserável preço de seus corpos, forçavam-nas a ingressar na prostituição. Ela ordenou que todos os cafetões deveriam ser presos com urgência. Quando foram apresentados junto com as garotas, ordenou que cada um deles declarasse sob juramento o quanto haviam pagado aos pais das garotas. Disseram que deram a cada um cinco nomismata. Quando todos deram a informação sob juramento, a piedosa imperatriz devolveu o dinheiro e libertou as garotas do jugo de sua desgraçada escravidão, ordenando que a partir daí não houvesse cafetões. Presenteou as garotas com um conjunto de roupas e dispensou-as com um nomismata para cada.

João Malala; Crônicas, Livro XVIII, seção 24

Uma possível conciliação entre esses dois episódios(4) seria a hipótese de tentativa de acabar com a prostituição “por bem” ter fracassado: a relativamente pequena indenização paga não bastou para que recomeçassem a vida, muito menos para se livrarem do estigma. Já o dinheiro mais polpudo dados aos cafetões prestou para realimentar o tráfico de seres humanos. Teodora, então, teria resolvido agir “na marra”, isolando as prostitutas e endurecendo o cerco à caftinagem. Alguém poderia alegar “oh, mas as garotas estavam querendo fugir, algo de horrível devia estar acontecendo lá dentro!” Não necessariamente: a vida daquele internato forçado simplesmente poderia ser espartana demais para algumas que preferissem as incertezas do meretrício à perda da liberdade. Guardada as devidas proporções, uma atitude análoga aos pacientes que fogem das clínicas de reabilitação modernas, após uma internação compulsória. Há, pelo menos, três fatos de depõem contra a tese de que Teodora criou um matadouro:

  1. Metanoia era obra de propaganda estatal e ficaria estranho realizar vultosos investimentos em instalações luxuosas no que seria um mero campo de concentração.
  2. Esse convento transcendeu Teodora em pelo menos cinco séculos (5). Ele foi feito para durar e não para “um serviço sujo de dois déspotas”. Seu princípio não seria essencialmente diferente de conventos similares surgidos no ocidente posteriormente, como os patrocinados pela corte papal de Avignon (6). Um exemplo próximo a nós desse tipo de instituição seriam os “Asilos Madalena” presentes na Irlanda até os anos 90 do século passado e que foram causticamente retratados no filme “Em Nome de Deus” (The Magdalene Sisters, 2002, lançado em 2004 no Brasil).
  3. O Código de Justiniano – o maior legado jurídico de seu reinado – é simpático às vítimas da prostituição, mas contra a caftinagem (Novella XIV, artigo primeiro)

Ainda que isso não tenha convencido a ti ou a algum leitor, continua a questão sobre qual a relação desse episódio com a condenação o II Concílio de Constantinopla, que supostamente baniu a reencarnação do cristianismo. Procópio nem de longe os relaciona e podem muito bem ser independentes. Será que algum outro historiador o fez?

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Um Milhão de Mortos(?)

Uma piadinha para aliviar a tensão:

Em uma fábrica, o Presidente envia uma mensagem clara e precisa para seu Gerente:

De: Diretor Presidente
Para: Gerente

“Na próxima sexta-feira, aproximadamente às 17 horas, o Cometa Halley estará nesta área. Trata-se de um evento que ocorre somente a cada 78 anos. Assim, por favor, reúnam os funcionários no pátio da fábrica, todos usando capacetes de segurança, quando explicarei o fenômeno a eles. Se estiver chovendo, não poderemos ver o raro espetáculo a olho nu, sendo assim, todos deverão se dirigir ao refeitório onde será exibido um filme documentário sobre o Cometa Halley”.

De: Gerente
Para: Supervisor

“Por ordem do Diretor Presidente, na sexta-feira, às 17 horas, o Cometa Halley vai aparecer sobre a fábrica, se chover, por favor, reúna os funcionários, todos com capacete de segurança e os encaminhe ao refeitório, onde o raro fenômeno terá lugar, o que acontece a cada 78 anos a olho nu”.

De: Supervisor
Para: Chefe de Produção

“A convite de nosso querido Diretor, o Cientista Halley, 78 anos, vai aparecer nu no refeitório da fábrica, usando capacete, pois vai ser apresentado um filme sobre o problema da chuva na segurança. O Diretor levará a demonstração para o pátio da fábrica”.

De: Chefe da Produção
Para: Mestre

“Na sexta-feira, às 17 horas, o Diretor pela primeira vez em 78 anos, vai aparecer no refeitório da fábrica, para filmar o Halley nu, o cientista famoso e sua equipe. Todo mundo deve estar lá, e de capacete, pois será apresentado um show sobre a segurança na chuva. O Diretor levará a banda para o pátio da fábrica”.

De: Mestre
Para: Funcionários

Todo mundo nu, sem exceção, deve estar com segurança no pátio da fábrica, na próxima sexta-feira, às 17 horas, pois o mandachuva (Diretor), e o Sr. Halley, guitarrista famoso, estarão lá para mostrar o raro filme “Dançando na Chuva”. Caso comece a chover mesmo é para ir para o refeitório de capacete na mesma hora. O show será lá, o que ocorre a cada 78 anos.

Aviso para Todos
Na sexta-feira, o chefe da diretoria vai fazer 78 anos e liberou geral para a festa, às 17 horas, no refeitório. Vai estar lá, pago pelo mandachuva, Bill Halley e seus Cometas. Todo mundo deve estar nu e de capacete, porque a banda é muito louca e o rock vai rolar solto até no pátio, mesmo com chuva”.

Talvez alguém esteja se perguntando por que resolvida resgatar essa piada antiga do limbo. É que não pude deixar de lembrar dela quando analisei melhor isto aqui:

[Justiniano],que era mesmo sanguinário, pois mandou matar cerca de um milhão de pessoas adeptas da reencarnação no Oriente Médio, após a condenação dela pelo Concílio de Constantinopla, em 553 (Paul Brunton, “Ideias em Perspectivas”, pág. 118, Ed. Pensamento).

O passo lógico foi verificar em in loco a referência repassada:

O vigor com que o imperador Justiniano proscreveu e destruiu livros e documentos heréticos deixou poucos registros que permitissem às gerações subsequentes saber o que outros cristãos haviam ensinado e acreditado a respeito da doutrina da reencarnação. Só no Oriente Próximo, Justiniano mandou matar mais de um milhão de hereges.

[Brunton, p. 118]

Não há menção alguma no referido livro de algo que vincule essa matança especificamente ao II Concílio de Constantinopla, não passando, provavelmente, de uma livre associação feita por ti. Os que estudaram algo a respeito do reinado de Justiniano sabem que ele se caracterizou por profunda intolerância religiosa, tendo dedicado grande esforço na supressão dos remanescentes pagãos, no extermínios dos maniqueus e repressão aos dissidentes e aos judeus. Isso foi uma política imperial (7) iniciada bem antes do Concílio, fossem os hereges reencarnacionistas (como os maniqueus) ou não. Quanto a Paulo Brunton, convém mencionar que ele não foi especialista em história bizantina, mas um jornalista inglês que, após uma estadia na Índia, tornou-se uma espécie de “guru ocidental”. A obra Ideias em Perspectiva não é exatamente algo que se possa chamar de livro, mas um apanhado póstumo de anotações feito por admiradores e discípulos em seus cadernos. Sendo assim, não há nenhuma bibliografia ou referência nela. Entretanto, foi viável encontrar uma possível origem do “fato” relatado:

Os drusos (8) são os únicos representantes modernos dos assassinos exterminados. Como eles, são ismaelitas, seu declarado fundador é Hakim, um califa fatímida do Cairo (9), que se considerava a nova encarnação da Mente de Deus. Sua noção de que o local atual de seu sempre ausente Grão Mestre é a Europa corresponde com bastante curiosidade à teoria de Von Hammer sobre o relacionamento que existiu entre os Templários e o real progenitor dos drusos. Esses mesmos drusos talvez também representem os “politeístas e Samaritanos” que floresceram tão vigorosamente no Líbano até tão tardiamente quanto os tempos de Justiniano, a cuja perseguição Procópio atribui o extermínio de um milhão de habitantes somente daquele distrito. De seu atual credo, preservado com segredo inviolado, jamais algo autêntico veio à luz; a crendice popular entre seus vizinhos faz deles adoradores de um ídolo em forma de bezerro e, para celebrar suas reuniões noturnas, [fazem] orgias como aquelas atribuídas aos ofitas (10) em Roma, aos templários (11) nos tempos medievais e aos maçons (continentais) (12) nos modernos.

King, Charles William, The Gnostics and their Remains , parte V, p. 413

Ou seja, por vias tortas, retorna-se ao famigerado Procópio! Agora, pelas mãos de C.W. King, um joalheiro da Inglaterra vitoriana que procurou em The Gnostics and their Remains (“Os Gnósticos e seus Vestígios”) reunir tudo que havia sobrado de informações sobre o antigo gnosticismo. A obra se encontra ultrapassada hoje, pois, além não ter podido contar com o material da biblioteca de Nag Hammad (descoberto em 1945), King se vale de teses hoje um tanto duvidosas ou imprecisas. A origem mais provável do relato de King atribuído a Procópio deve ter sido o capítulo XI de História Secreta, onde uma mais detalhada descrição é feita sobre uma luta ocorrida numa região próxima ao atual Líbano – a revolta samaritana de 529 d.C.:

E quando uma lei similar [obrigando conversão à ortodoxia] foi imediatamente emitida, afetando também os samaritanos, uma confusão indiscriminada varreu a Palestina. Então, todos os residentes de minha própria Cesareia e de todas as outras cidades, considerando-a como uma tolice para submeter a qualquer sofrimento em defesa de um dogma sem sentido, adotaram a denominação de cristãos no lugar da que então seguiam e, por meio desse disfarce conseguiram se safar do perigo oriundo da lei. E todos entre eles que eram pessoas de alguma prudência e racionalidade não demonstraram nenhuma relutância em aderir lealmente a essa fé, mas a maioria, sentindo ressentimento que, não por sua própria escolha, mas sob coação da lei, tiveram de abandonar a crença de seus pais, instantaneamente foram favoráveis aos maniqueus e politeístas, como eram chamados. E todos os agricultores, tendo se reunido em grande número, decidiram se rebelar contra o imperador, lançando como seu imperador um certo bandoleiro de nome Juliano, filho de Savaro. E travando combate com os soldados, suportaram por algum tempo, mas finalmente foram derrotados na batalha e pereceram junto com seu líder. E diz-se que cem mil pereceram nessa luta e a terra, que era a melhor no mundo, tornou-se, em consequência, destituída de agricultores. E para os donos de terra que era cristãos, isso deixou consequências muito sérias. Pois lhes foi incumbida, como um tipo de coerção, pagar para sempre ao imperador, ainda que não estivesse auferindo nenhuma renda da terra, a imensa taxa anual, já que não se mostrou nenhuma piedade na administração dessa atividade.

Assim, o total de cem mil mortos (dez miríades, no original) pode ter sido corrompido para um milhão ao passar para o livro de King (13). Caso se continuasse um encadeamento, Brunton colocou todos os mortos como reencarnacionistas e, depois, outros espiritualistas intuíram que deveriam ser origenistas. Óbvio que isso é uma especulação de como a informação teria se deteriorado. É plausível e o melhor que pôde ser feito com o material fornecido, pois o simples fato de que nenhum autor de King a Chaves ser capaz de dizer de onde a informação saiu torna impossível a eliminação de qualquer dúvida.

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Procópio: Esse Desconhecido (Parte II)

Não teria Procópio contado essa história de modo diferente, justamente porque era amigo do casal imperial?

Depende de qual Procópio vocês está falando. Ele é reconhecido como o autor das três obras supracitadas, mas ele mudava seu estilo conforme cada. Das Construções foi feita por encomenda e, aí sim, bajula o casal imperial. Em Guerras, tenta manter um certo distanciamento, mas não deixar de alfinetar as obsessões de Justiniano em reconquistar o ocidente e se envolver em questões teológicas, ao passo que a segurança das províncias orientais era negligenciada. Foi em A História Secreta que Procópio realmente extravasou seus ressentimentos contra o casal de monarcas. Para ele:

  1. Justiniano era um demônio: Isso não era uma figura de linguagem, nem queria dizer que ele vendeu sua alma por meio de um pacto. Ele seria, mesmo, um demônio sob uma casca humana. Vários “causos” são contados no capítulo XII: a mãe de dele foi fecundada por um demônio, viram-no andando pelo palácio sem a cabeça, seu rosto poderia se transformar numa massa disforme de carne, um monge do deserto se recusou a adentrar o salão do trono porque vira o Rei dos Demônios sentado sobre o mesmo. A imperatriz – ainda em seus dias de palco – recebia a visita de demônios em seu quarto, que expulsavam os amantes da ocasião para ficar com ela. Em um sonho ela soube que dividiria o leito com o Rei dos Demônios. Até os hábitos frugais de alimentação de Justiniano e sua pouca necessidade de sono eram indicativos de uma natureza satânica!
  2. Seria obra dos governantes tudo o que fosse fatídico: Uma consequência direta do item acima. Nas próprias palavras de Procópio (cap. XII): “Pois foi por meio de terremotos, pestilências e enchentes das águas dos rio que veio posteriormente a ruína, como presentemente demonstrarei. Não por meios humanos, mas por algum outro tipo de poder eles alcançaram seus terríveis desígnios”. E, realmente, Procópio coloca na conta de Justiniano (cap. XVIII) os mortos do terremoto de Antioquia.
  3. A imperatriz seria a mais pervertida das criaturas: a falta de “virtude” da jovem Teodora teria se refletido em sua crueldade quando no poder. Não bastava para ele ressaltar a sua origem de uma profissão socialmente desprestigiada. Era preciso deixar clara que ela foi a maior de todas as prostitutas de seu tempo. Para isso vale, como relatado acima, dizer que ela se deitava com demônios, descrever suas performances no palco (cap. IX) e assombrar o leitor com a incrível disposição sexual de Teodora, capaz de dar conta de dez marmanjos mais a criadagem deles, totalizando cerca de quarenta indivíduos em pleno vigor numa noite só(id.)! É difícil dizer se o que movia Procópio era uma espécie de machismo contra mulheres que gozavam de influência nos círculos do governo (como Teodora e a esposa de Belisário, Antonina) ou um ódio de classe. Ele não se conformava por Justiniano ter desposado uma cortesã quando poderia ter escolhido a mais nobre e educada de todas as donzelas do império (cap. X). A nova imperatriz seria apenas uma alpinista social, que fazia questão de mostrar seu novo status humilhando homens da elite com um cada vez mais estrito cerimonial da corte (cap. XV).

Mencionados tantos “atributos” assim, fica difícil chamar o autor de História Secreta de “amigo”. O que mais impressiona é que, com toda sua virulência, Procópio não disse taxativamente que estaria havendo um massacre dentro dos muros de Metanoia, nem vinculou sua inauguração ao II Concílio de Constantinopla. Afinal, de onde veio essa ideia? Nenhum espiritualista até agora soube responder.
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“Vaidade de Vaidades! Tudo é Vaidade…”

E porque o site desconhece outras fontes que registram essa história das prostitutas assassinadas, ele tenta depreciar o meu livro “A Reencarnação na Bíblia e na Ciência”, EBM Ed., SP, (…)

O que eu desconheço são fontes primárias que atestem tal assassinato. Já rastreei Procópio, Evágrio Escolástico, João Lídio, João Malalas e outros. Não encontrei absolutamente nada. Se nenhuma pessoa da Idade Média fez o favor de registrar esse episódio e vinculá-lo ao II Concílio de Constantinopla, surge a hipótese de tudo não passar de um boato criado por espiritualistas modernos. Quanto à desmoralização, eu jamais faria uma análise crítica por tão pouco. Somente comparei inúmeras citações feitas com os textos que lhes eram atribuídas. Muita coisa não bateu. Sinceramente, Chaves, acho que levou a coisa demais para o pessoal ou entendeu tudo errado. Consegui te chamar a atenção, mas o resto está sendo mais complicado. O exemplar que possuo de seu livro traz na capa “sétima oitava ed. Revisada”. Simplesmente, talvez tenha de fazer outra revisão. Caso não tenha problemas com o inglês, poderá ler boa parte de minha bibliografia e avaliar se há realmente pontos nebulosos ou não. Terá acesso a muitas coisas em primeira mão e será capaz de se aperfeiçoar largamente. Pode me ver como um mero detrator a mais (intuo que, para a maioria, eu faça o papel de vilão) ou encarar isto como uma oportunidade. Oportunidade de ir bem a fundo em cada pesquisa, avaliar todos os ângulos, montar panoramas, buscar o contraditório. Não fará apenas cópia desse ou daquele autor, mas superará muitos deles. Fará pesquisa historiográfica de qualidade.

Pode adotar em uma atitude defensiva e se encastelar em bibliografia que julga “segura”. É um direito seu. Entretanto duvido que em todo o portal não haja algo que lhe acrescente “substância”. Se baixar um pouco a guarda, talvez aprenda coisas com este antagonista que jamais aprenderia em um meio que só te congratula. E quem sabe, eu também aprenda algo…

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Ninguém sabe, Ninguém viu

Capa do Livro The Lives of the Monks of Palestine

Uma fonte primária, para quem se interessar.

(…) e outras obras que falam do assunto.

Quais são elas, por favor? Como só com absurda boa vontade seria possível relacionar o texto de Brunton com o assunto, então você ainda não trouxe nenhuma. Já que está usando o plural (“obras”), presumo que conheça ao menos outra fonte. De preferência uma feita por um historiador, que me permita rastrear a origem do relato. Agora, se você só me trouxer obras de espiritualistas que apenas citam (se citarem) outros espiritualistas, então nada mudará. De conhecimento meu, sei de Holger Kersten (14), mas você aparentemente não o utiliza e, mesmo que o tivesse usado, de pouco valor seria por ele não dar referência alguma para autoria do relato. Conheço, também, Cajazeiras (15) e Severino Celestino da Silva (16), mas eles não contam por serem dependentes de você nesse episódio. Esse último, por sinal, tem em sua bibliografia G. Alberigo (17), que traz em seu trabalho uma versão bem mais embasada dos fatos:

Claro, o origenismo não chamava tanto a atenção dos ortodoxos, pois não questionava o concílio de Calcedônia. Mas depois do decreto de 533 e do sínodo de 536, os ortodoxos perceberam que por trás das decisões imperiais havia sempre um origenista. Roma, sobretudo, não tinha motivo para tolerar o origenismo, pois este não compartilhava as ideias romanas a propósito dos “três capítulos” (cf. Liberatus, Breviarium, ACO II V, 98-141). Os ortodoxos do Oriente começaram a se preocupar com os origenistas, pois estes fortaleciam suas fileiras com padres ortodoxos como Gregório de Nissa, Dídimo, o Cego, e outros. Sobretudo na Síria, os origenistas apareciam demais, por causa de seu grande número. Por isso o patriarca Efrém de Antioquia convocou em 542 um sínodo que condenou o origenismo. Os origenistas da Palestina recorreram, então a Pedro de Jerusalém, pedindo-lhe que não mencionasse mais Efrém nos dísticos de Jerusalém. Pedro, apertado entre as próprias opiniões ortodoxas e as pressões dos origenistas, apelou para Justiniano, com o apoio também do patriarca Mena e do representante de Roma, Pelágio. Justiniano publicou um “Edito” em 543 (Mansi, 9, col. 125-128; ACO III, 189-214) contra o origenismo. Mena aproveitou a ocasião e no mesmo ano convocou um sínodo, que deu à decisão imperial autoridade sinodal. O papa Vigílio, os patriarcas orientais, e também os origenistas de Constantinopla Ascida e Domiciano assinaram a decisão. Isso, porém, não eliminou o origenismo, que continuou a existir e predominar na Palestina. A condenação sinodal conseguiu radicalizar as posições dos origenistas, que assumiram então atitude hostil à ortodoxia.

[Alberigo, pp. 130-1]

O gatilho para a segunda crise origenista foi um conflito local entre monges ortodoxos e origenistas na Palestina do século VI, que foi relativamente bem registrado por cronistas da época como Liberato de Cartago, Facundo de Hermiano e, principalmente, Cirilo de Citópolis. Teodora mal entra na história e, quando aparece, intercede por Ascida (origenista) ou leva um pito do monge Saba (ortodoxo). Ainda que nossas fontes careçam de uma versão origenista dos fatos, fica ao menos patente que a ortodoxia do século VI (aliás, desde o século IV) estava longe de morrer de amores pelos voos mais altos da mente de Orígenes.

Voltando ao artigo:

E é insustentável a sua tese de que só se conhece um autor, lendo suas obras, (…)

Então, por que centros espíritas sempre recomendam o Pentateuco a todos os que querem aprender a doutrina? Uma obra do Frei Boaventura Kloppenbourg seria recomendável aos iniciantes em espiritismo? Você pode até entender algo de um autor por vias indiretas, contanto que você se garanta de não estar aprendendo por um intermediário “duvidoso”. Do contrário, pode estar brincando de “telefone sem fio” como na piada do “cometa Halley” sem o saber. Na primeira vez que li Gibbon, notei que havia algo de diferente no relato dele de Teodora com o que era repetido no meio espírita. Declínio e Queda do Império Romano é um clássico. Não está imune a imprecisões, equívocos na metodologia e a uma inevitável defasagem, mas Gibbon ganhou fama, entre outras coisas, pela esmerada busca por fontes primárias que fazia. A partir das notas de rodapé presentes em versões on-line, cheguei às duas obras de Procópio que cito. Gibbon tem todo o caminho das pedras disponível a seus leitores. Repetir seus passos é simples caso se tenha as mesmas fontes primárias disponíveis. Já as obras espiritualistas apresentadas, ninguém sabe, ninguém viu …

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Em Nome dos Grandes

(…) pois Jesus, Sócrates e outros grandes vultos da História não escreveram nada.

Imagino que sua intenção era se apoiar “em ombros de gigantes”, mas lamento informar que fincou seus alicerces na areia. Não poderia ter escolhido exemplos piores que esses para usar em defesa da qualidade de fontes indiretas.

Comecemos por Sócrates. Chegaram até nós três grandes fontes a respeito dessa personagem histórica:

  1. Platão: Discípulo mais famoso de Sócrates, fez do mestre o personagem principal na maioria de seus diálogos filosóficos. Escreveu também Apologia, em que relata os argumentos usados por ele em seu julgamento;

  2. Xenofonte: Também discípulo e autor de Ditos e Feitos Memoriáveis de Sócrates. Não teve, contudo, a mesma envergadura intelectual que Platão;

  3. Aristófanes: Teatrólogo cuja comédia As Nuvens retrata Sócrates como um charlatão a enganar desde escravos a homens da elite e, de quebra, corrompe um jovem tornando-o um tremendo sofista.

Temos as opiniões de discípulos e a de um oponente. As primeiras, provavelmente, exageram nos elogios, ao passo que a última pode ter carregado demais nas críticas. Como As Nuvens foi lançada uns trinta anos antes do julgamento de Sócrates, há quem cogite ela retratar um filósofo ainda imaturo, um “Sócrates pré-socrático”, além de lembrar que Aristófanes criou uma caricatura em sua peça, distinta do filósofo real. Por outro lado, ele não poderia distorcer Sócrates a ponto de deixá-lo irreconhecível para o público e, tirando os apelos, o estilo elucubrativo ridicularizado na peça tem ecos em diálogos platônicos. Talvez haja, de fato, um fundo de verdade em As Nuvens no modo como o filósofo era visto por não socráticos ou, pelo menos, pelo “povão”. Dos perfis legados pelos discípulos, outros problemas emergem. O filósofo de Platão é muito mais intelectualizado que o de Xenofonte. Não que seja inviável ver na obra desse último o estilo de ensinar em perguntas para induzir o instruendo ao conhecimento por conta própria (maiêutica), muito pelo contrário, mas falta-lhe a elaboração de sistemas filosóficos mais sofisticados. De certa forma, sempre haverá a suspeita de que Platão colocou na boca de seu mestre ideias que, na verdade, seriam suas (19).

E no caso de Jesus Cristo a situação piora, pois nem sequer temos um registro de contemporâneos dele. A aparente similaridade entre os evangelhos sinópticos é ilusória, pois Lucas e Mateus são, muito provavelmente, dependentes do fio narrativo de Marcos. Quando lidos em paralelo, as discrepâncias aparecem, não apenas em pormenores narrativos, mas até mesmo na teologia. Por exemplo: as bem-aventuranças em Mateus buscam mais aplacar o sofrimento moral, ao passo que Lucas enfoca mais a questão social. Como se isso já não bastasse para criar certo desconforto aos cristãos ortodoxos, eles resolveram adotar João, que traz um perfil com diferenças ainda mais gritantes:

Sinópticos João
  • Começa com João Batista ou histórias da natividade e infância.
  • Jesus é batizado por João.
  • Jesus fala em parábolas e aforismos.
  • Jesus é um sábio.
  • Jesus é um exorcista.
  • O Reino de Deus é o tema de seus ensinos.
  • Jesus fala pouco de si mesmo.
  • Jesus toma partido dos pobres e oprimidos.
  • O Ministério público de Jesus dura um ano.
  • O incidente do Templo é tardio.
  • Jesus toma a Última Ceia com seus discípulos
  • Viés apocalíptico forte ou mediano.
  • Baixa cristologia (Jesus humano).
  • Começa com a criação. Nenhum registro sobre nascimento ou infância.
  • O batismo de Jesus é pressuposto.
  • Jesus fala em longos e elaborados discursos.
  • Jesus é um místico.
  • Jesus não faz exorcismos.
  • O próprio Jesus é o tema de seus ensinamentos.
  • Jesus reflete extensamente sobre si e sua missão
  • Jesus tem pouco a dizer sobre os pobres e oprimidos.
  • O ministério público dura dois anos.
  • O incidente do Templo ocorre cedo.
  • Lavagem dos pés e “Discurso de Despedida” no lugar da Última Ceia.
  • Ausência de escatologia.
  • Baixa e alta cristologia (Jesus divino).

E posso complicar ainda mais: basta lembrar que há um “Jesus folclórico” permeando vários textos apócrifos, com direito a emoções, digamos, “humanas demais” e atitudes que lembram mais um feiticeiro que um messias. Ah! Não esqueçamos do exotérico Cristo dos evangelhos gnósticos, claro.

Não creio que todas essas visões de Jesus Cristo (ou Sócrates) sejam ao mesmo tempo verdadeiras, como naquela historinha dos três cegos tateando um elefante (18). As personagens dessa história poderiam pesquisar o animal mais demoradamente, dar-se conta que tomavam partes dele como o todo, trocar ideias e daí imaginar o animal completo. Mas esses hipotéticos “pesquisadores do elefante” tinham duas vantagens em relação aos historiadores do Jesus e do Sócrates históricos: possuíam seu objeto de análise completo à disposição e, em princípio, ninguém havia enxertado algum pedaço alienígena ao animal. Assim, o desafio que os historiadores enfrentam é muito mais difícil e, justamente por isso, instigante.

Se isso não te convenceu, então vou me valer de outra figura famosa: Paulo de Tarso. Ao contrário desses dois exemplos, chegaram até nós cartas que são tidas como de autoria genuína dele e um relato em segunda mão de seu trabalho missionário contido em boa parte de Atos dos Apóstolos. Acontece que nem tudo é harmonioso entre essas partes. Compare:

Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça,

Revelar seu Filho em mim, para que o pregasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue,

Nem tornei a Jerusalém, a ter com os que já antes de mim eram apóstolos, mas parti para a Arábia, e voltei outra vez a Damasco.

Gálatas 1:15-17

Com isto:

E, quando Saulo chegou a Jerusalém, procurava ajuntar-se aos discípulos, mas todos o temiam, não crendo que fosse discípulo.

Atos 9:26

Afinal, após a experiência com a visão de Jesus, o gatilho para a transformação de Saulo em Paulo, o futuro apóstolo foi (levado) direto para Damasco ou passou um tempo na Arábia antes (20)? Se acha isso um pormenor sem significância, há outras questões bem cruciais em jogo, por exemplo, será que o “Concílio de Jerusalém” (At 15 e, talvez, Gl 2) conseguiu convencer a todos os judeus cristão que os seus irmãos gentios estavam dispensados da Lei Mosaica? Se assim o fosse, qual o porquê das Epístolas Pseudoclementinas com sua crítica velada a Paulo e defesa da primazia de Pedro? Lucas tenta passar em Atos que qualquer disenção entre os primeiros cristãos era resolvida por algum consenso entre as lideranças. Talvez a concórdia não fosse tão plena assim (21). É possível que haja tanta diferença entre o “Paulo histórico” e o “Paulo segundo Lucas” quanto entre o “Jesus histórico” e o “Salvador do Mundo” contido em seu evangelho.

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“E Tu Também!”

Aliás, o próprio site se contradiz nisso, ao defender ideias de certos autores tiradas de obras de outros autores.

Simplesmente porque é impossível, para mim, ter todas as fontes primária que gostaria. E olhe que muito de minha biografia envolve livros caros, raros, importados e há muito não impressos. Muita coisa coisa até já está gratuita na Internet, mas é preciso que já esteja em domínio público e alguma alma caridosa a tenha digitalizado. No caso o II Concílio de Constantinopla, creio que já rastreei os cronistas de época mais importantes, cujos nomes já estão supracitados.

Quanto a consultar outros autores, sim, deve-se fazê-lo mesmo que se tenha a fonte primária, para que se inteire do que outros já pensaram sobre o tema, cruze informações e, então, crie um juízo próprio. A questão é quem você consulta: historiadores profissionais e/ou renomados ou leigos, no caso “leigos espiritualistas”. É impressionante que historiadores que escreveram longas páginas sobre a querela arianista e, mais tarde, sobre o movimento monofisita passem quase que de raspão na Segunda Crise Origenista. Ela sem dúvida tem importância no estudo do origenismo, mas será que teve tanta relevância na política imperial? Na história do cristianismo? Provavelmente, não:

A condenação do origenismo em 553 não teve o eco de alcance mundial que a disputa dos Três Capítulos criaria. A disputa foi bem sucedidamente decidida em particular com os monges afetados antes e, dentro desse grupo, especialmente os monges da Palestina. Mesmo lá, ele afetou predominantemente, conforme os princípios do evagrianismo ascético, apenas uma classe, na verdade um exótico grupo de monges, que após uma dura praktike estavam treinados para a theoria e, após essa preparação, confessavam a extrema cristologia evagrianista. Contudo, é adequado notar a explosiva natureza dessa posição. Foi apenas no século sexto que ela teve efeito, como os cânones de 553 e, posteriormente, nossas exposições sobre o patriarcado de Jerusalém mostrarão.

[Grillmeier, parte III, cap. III, p. 408]

Se quer ter ideia do que esses monges palestinos elucubravam, busque saber sobre O Livro de Hierotheos, outra fonte primária – dessa vez dos origenistas. Duvido, contudo, que você ou qualquer outro espírita compre o pacote inteiro.

Como só encontro material espiritualista falando de tal “catástrofe histórica”, fico com a impressão que boa parte do movimento padece de uma “síndrome de paraíso perdido”: a ideia de que o cristianismo antes do século VI era uma espécie de protoespiritualismo. Não vejo fundamento algum para tal crença. Os primeiríssimos cristãos foram apocalipsistas – uma característica ausente nos espiritualistas modernos -, os traços gerais da ortodoxia nicena já estavam delineados no século III, Orígenes nunca foi consenso e o reencarnacionismo dele era incompatível com o seu (22). A Segunda Crise Origenista (sabiam que houve outra?) foi, de certa forma, fim de feira.

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Uma Incoerência ao Final

Realmente, as críticas desse site não persuadem ninguém!

Se não convencem a ninguém, então por que dedicar um artigo a elas? E mais: por que selecionar esse artigo para uma coletânea e, ainda por cima, encabeçando-a? Estranho. De certa forma, mereceram alguma atenção justamente por significarem algo. O que foi é que não está claro. Talvez tenha sido grande o incômodo que ser lhe apontadas fraquezas argumentativas que antes julgasse exclusivas da ortodoxia cristã que tanto critica. Porém também sei que quando os critica não os quer mal, mas que evoluam para o que julga ser mais condizente com a mensagem cristã. Da mesma forma, não gostaria que levasse para o lado pessoal, mas como um apelo e convite para que qualidade da argumentação espiritualista melhore.

Tenho ciência que boa parte de seus confrades jamais admitirá que o movimento foi vítima de um hoax, seja por convicção, para não ferir o orgulho ou credulidade em teorias conspiratórias. Por incrível que pareça, a simples tentativa de desmentir boatos pode acabar por reforçá-los, embora ainda tenha eu alguns fios de esperança a que me agarro, como a considerável mudança de opinião de um conhecido seu e também profícuo articulista.

Após ter feito esta pequena propaganda de um livro seu, gostaria de fazer outra, só que agora do livro
Reincarnation in Christianity, escrito por seu confrade teósofo Geddes MacGregor. Não que eu morra de amores pelo livro ou o considere isento de pontos duvidosos, mas seu entendimento sobre o começo do cristianismo como credo profético e apocalítico, sobre as crises origenistas e de como se poderia conceber a atual ortodoxia aceitando a reencarnação é muito mais produtivo do que o que tenho visto por aí. Ele tenta conceber uma delicada adaptação entre o conceito de salvação e o de reencarnação, de futura aceitação um tanto incerta, mas que respeita a História do Cristianismo, em vez de sugerir que ela é uma fraude.

Um outro Olhar

Tudo de bom e que possamos um dia nos falar em termos mais amenos.

Notas

(1) Sugestões de leitura:

  • What Is This Thing Called Science?, de A.F. Chalmer, Hackett Publishing Company; 3ª ed. (1999)
  • A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Kuhn, editado em português pela Perspectiva

(2) Sugestões de leitura para o autor Ehrman sobre o Jesus apocalipsista: [Ehrman (1999)] e [Ehrman (2004)]. Sobre a descrença de Ehrman, ver O Problema com Deus, 2008, Agir.

(3)Fração da moeda grega dracma. Lembra da parábola “Óbolo da viúva”.

(4) [Cesaretti, cap. XIII, p. 228-230]

(5) Cf. Janin, Raymond; Constantinople Byzantine. Développement urbain et répertoire topographique. 2ª ed., Paris, 1964, p. 151

(6) Cf. [Rollo-Koster].

(7) Cf. Código de Justiniano 1.5.12.

(8) Seita muçulmana, presente em partes da Síria e do Líbano, que acredita num sistema reencarnacionista sem karma: ao longo dos tempos cada alma é submetida a inúmeras experiências diferentes, não havendo relação de “causa e efeito” entre elas. Na consumação final, é feito um balanço das ações feitas em sua existência total, o que decidirá se o destino dela será o paraíso ou o inferno.

(9) A principal diferença entre as duas maiores correntes do islamismo – sunitas e xiitas – é sobre como deveria ser a liderança da comunidade após a morte do profeta Maomé. Os primeiros defendiam a escolha de líderes entre os membros da comunidade, ao passo que os últimos defendem que sucessão sempre pertença aos descendentes da união entre Ali e a filha de Maomé chamada Fátima. Perseguidos desde o princípio pela maioria sunita, o movimento xiita ganhou um perfil radical e uma de suas mais extremadas facções era a dos ismaelitas, crentes na figura do imã, um infalível e inspirado descendente de Ali e Fátima, por intermédio de Ismael, a ser obedecido sem objeção. No século X, o poder no Egito foi tomado por uma dinastia que alegava esse parentesco e estabeleceu o califado fatímida (de Fátima) do Cairo, para rivalizar com o califado sunita de Bagdá.

No tempo das cruzadas, o império fatímida entrou em declínio e foi finalmente tomado por lideranças sunitas oriundas da Síria. Pela mesma época, um grupo de ismaelitas da Pérsia, sob o comando de Hasan Ibn al-Sabbah, estabeleceu-se nas montanhas da Síria e do Líbano, onde montou um complexo de fortalezas que serviu de base para suas campanhas de conversão e ataques aos sunitas, visando restaurar o reinado fatímida. Seu principal método era o terrorismo político: membros da seita se infiltravam entre a população próxima ao alvo e, quando sua comitiva passava, tentavam matá-lo e também todos os que estivessem ao redor. O nome de “assassino” (do árabe hashshashîn), atribuído a um fiel da seita, vem de seu hábito de tomar haxixe (hashish) para praticar um atentado em estado alterado e, assim, mais imune ao medo. A seita foi extinta no século XIII, com a ascensão de uma casta de guerreiros-escravos que tomou o poder do Egito à Síria – os mamelucos – e também destruiu os últimos redutos cruzados.

Uma curiosidade: a palavra “assassino” chegou ao ocidente por via italiana e, até hoje, no idioma inglês (assassin) se refere a quem atenta contra a vida de pessoas importantes.

(10)Seita gnóstica que atribuía à serpente (do grego ophis) a missão de ter revelado o conhecimento para Adão e Eva, coisa que o demiurgo queria ocultar.

(11)Antiga ordem monástico-militar da Igreja Católica. Sua principal missão era guardar os lugares santos nas terras cruzadas e zelar pelo bem-estar dos peregrinos. Também foram usados como exército regular no combate a tropas muçulmanas. Por desenvolver sofisticada rede de abastecimento para suas tropas no Levante, a Ordem dos Cavaleiros Templários despertou a cobiça do rei francês Felipe IV e, principalmente após a perda de prestígio com o fim do ciclo das cruzadas, foi alvo de uma campanha difamatória promovida por ele, envolvendo acusações de sodomia, feitiçaria e prática secreta do islamismo. A ordem foi extinta, seu líderes queimados e seus bens confiscados. Em tempos modernos, desenvolveu- se toda uma mística em torno do destino dos templários, com direito a teorias especulativas alegando a existência de remanescentes, responsáveis por guardar o Santo Graal ou o tesouro de Salomão.

Por outro lado, sua ordem irmã – os Hospitalários – sobreviveu à Idade Média, em parte por ter uma base segura em na ilha de Rodes e, depois, em Malta, onde poderiam se refugiar. Além disso, a própria sorte dos templários os convenceu da importância de manterem um corpo de advogados profissionais para defender seus interesses, coisa com que seus rústicos irmãos não puderam contar. Com o tempo, o Hospital perdeu seu caráter militar e essa transição suave fez com ela praticamente não tivesse mítica alguma junto ao grande público leigo.

(12) “Continentais” no sentido de “pertencentes à Europa continental”, para diferenciar da maçonaria do arquipélago britânico.

(13) Não está claro se esse número (cem mil mortos) se refere somente aos rebeldes ou também aos não combatentes mortos por ambos os lados. Malala, no livro XVIII de sua Crônica, falha em vinte mil mortos em combate e número igual vendidos como escravos, crianças entre esses. Há, também, uma quantidade indeterminada de refugiados nas montanhas que foram mortos posteriormente. São mencionadas chacinas de cristãos pelos samaritanos, tanto por Malala quanto por Cirilo de Citópolis (A Vida de Saba, cap.LXX), mas seu total de vítimas também é desconhecido.

(14) Cf. Jesus Viveu na Índia, Ed. Best Seller, 7ª ed., cap. VI – “Considerações Finais”.

Bart Ehrman chega a fazer um breve comentário a respeito das teses do “Jesus Indiano” em [Ehrman (2003), cap. IV, p. 68]:

Outras falsificações têm sido perpetradas nos tempos modernos, de relevância direta para nosso corrente estudo de apócrifos cristãos antigos. Pode-se pensar que, em nossos dias e época, ninguém seria tão ardiloso para assegurar quaisquer relatos de primeira mão de Jesus como autênticos. Mas nada poderia estar mais longe da verdade. Estranhos evangelhos aparecem regularmente, se você souber onde procurá-los. Muitas vezes esses registram incidentes dos “anos perdidos” de Jesus, por exemplo, relatos de Cristo ainda criança ou jovem anteriores a seu ministério público, um gênero que retrocede até o segundo século. Esses relatos
algumas vezes descrevem viagens de Jesus à Índia para aprender a sabedoria dos brâmanes (como de outra forma ele seria tão sábio?) ou seus feitos no deserto, juntando-se com monges judaicos para aprender o caminho da santidade.

Esse parágrafo deixa transparecer que a tese não é levada muito a sério nos meios acadêmicos.

(15) Elementos de Teologia Espírita, EME.

(16) Analisando as Traduções Bíblicas

(17) História dos Concílios Ecumênicos, Paulus, 1995.

(18) Em determinada aldeia, chega um caravana transportando diversos animais tidos como exóticos para seus isolados habitantes. Três residentes cegos, que nunca haviam travado contato com um elefante, põem-se a tateá-lo. O que apalpava a orelha diz: “este animal se parece com um tapete”. O que apalpava a perna declara: “este animal se parece com uma coluna”. O terceiro, abrindo os braços sobre a lateral, é categórico: “Nada disso, este animal se parece é com uma parede.”

(19) Para um discussão pormenorizada a respeito do Sócrates histórico, cf. [Pensadores, vol. LIII, cap. II, pp. 33-5].

(20) E há quem tente harmonizar isso.

(21) Cf. [Ehrman (2003), cap. V, pp. 95 – 103; cap. IX, pp. 181-5]

(22) A concepção da reencarnação para Orígenes, como elaborada em sua obra De Principiis era “inter eras”. Teria havido várias eras antes desta em que vivemos e haveria outras após. A Bíblia falaria explicitamente de apenas três: a paradisíaca no começo de Gênesis, a atual e uma futura em Apocalipse, deixando as demais nas entrelinhas. Cada uma teria seu própria criação envolvendo uma região celeste, um firmamento, uma Terra e uma região infernal, que seriam habitadas respectivamente por anjos, corpos celestes (portadores de alma, segundo Orígenes), humanos e demônios. Originalmente, todas as almas teriam sido criadas perfeitas e puras, mas pelo mau uso do livre-arbítrio, se afastaram da graça e Deus criou essas quatro regiões para que pudessem se regenerar e distribuiu as almas conforme o grau de queda que tiveram. O destino de cada alma numa era futura estava condicionado às suas atitudes na anterior, podendo até mesmo haver quedas para níveis mais baixo. Ao final de cada era, ocorreria uma ressurreição e um julgamento final, seguido por um estado purgatório (fogo moral) a fim de preparar a alma para a próxima era. O diferencial da nossa seria a encarnação do Verbo coeterno do Pai, que se associou à única alma que não caíra para constituir a natureza humano-divina de Jesus Cristo. Seu sacrifício na cruz teve o poder de catalizar a retorno das almas à beatitude original. Por fim, o último inimigo – a Morte – se tornaria submisso a Deus por meio de Jesus. É bom ressaltar que Orígenes era contra a ideia de múltiplas vidas dentro de uma mesma era, como deixou claro em outras obras.

Se atentarmos que Bíblia identifica claramente a existência de pelo menos três eras (a primeira antes da queda de Adão, a atual e o pós-apocalipse) e que, de certa forma, a ressurreição cristã também é um tipo de reencarnação, então o origenismo guarda mais similaridades com a ortodoxia cristã do que com o kardecismo.

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Para Saber Mais:

– Alberigo, Giuseppe; História dos Concílios Ecumênicos, Ed. Paulus, 1995.

– Cesaretti, Paolo; Theodora – Empress of Byzantium, tradução inglesa de Rosanna M. Giammanco Frongia, Vendome Press, 2001.

– Ehrman, Bart D.; Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millennium, Oxford University Press, 1999.

_______________; Lost Christianities, Oxford University Press, 2003

_______________; The New Testament: A Historical Introduction to the Early Christian Writings , Oxford Press, 2004

– Grillmeier, Aloys & Hainthaler, Theresia; Christ in Christian Tradition, tradução inglesa Pauline Allen e John Caste, vol. II, parte II, Mowbray/ Westminster John Knox Press, 1995.

Os Pensadores, vol. LIII – Biografias I, Abril Cultural, 1972

– Rollo-Koster, Joëlle; From Prostitutes to Brides of Christ: The Avignonese Repenties in the Late Middle Ages, publicado em Journal of Medieval and Early Modern Studies – Volume 32, nº 1, Inverno 2002, pp. 109-144.

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Dr. Ian Stevenson, Muito Prazer.

3 de julho de 2012 7 comentários

Ian Stevenson (1918 – 2007)

Índice

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Apresentando o Homem

Leia o texto abaixo e depois responda à questão de múltipla escolha.

O Dr. Ian Stevenson é um pesquisador cuidadoso e laborioso, tendo percorrido muitos milhares de milhas por todas as partes do globo desde 1960, a fim de verificar os fatos e pormenores de casos de recordações espontâneas. Sua reputação como uma autoridade em reencarnação tem se espalhado rapidamente; seus arquivos na University of Virginia agora contêm mais de dois mil relatos de alegados de recordações colhidos pelo ao redor do mundo.

Nos casos extensamente analisados por ele em seu livro Vinte Casos Sugestivos de Reencarnação, todos são sobre crianças de dez anos ou menores. Tipicamente, o indivíduo começa a manifestar singularidades de personalidade já aos dois anos. Essas singularidades logo se desenvolvem em um padrão em que a criança insiste que ele(a) é na verdade outra pessoa – alguém que viveu e morreu nos arredores da região no passado recente. Stevenson, geralmente auxiliado por intérpretes, chega ao local e entrevista a criança, tomando copiosas anotações sobre todos os pormenores que o indivíduo lembra da vida passada. Stevenson, então, verifica esses pormenores com a família da falecida pessoa supostamente reencarnada.

Dos casos que Stevenson pesquisou em profundidade, ele vem encontrado notável grau de acurácia (cerca de noventa porcento) nos dados. Os pormenores não são genéricos e, sim, bem específicos, incluindo nomes, localidades, eventos e descrições do núcleo familiar e da parentela. Em alguns casos o indivíduo insiste que certo objeto ou item previamente pertencido por ele está guardado num local desconhecido por todos os demais. Ao checar, Stevenson encontra o item e verifica o conhecimento do indivíduo sobre ele.

Stevenson tem cuidadosamente construído seus métodos para levar em conta fraudes em outras influências culturais e acidentais. Seu trabalho foi revisado por outros cientistas e nenhum criticou sem método científico. A publicação técnica Journal of Nervous and Mental Disease, altamente respeitada nas comunidades médicas e científicas, devotou a maior parte de sua edição de setembro de 1977 a Stevenson e seu trabalho. A séria consideração da pesquisa em reencarnação e por tal grupo de “cientistas de peso” assinala tanto a reputação de Stevenson e a influência da especulação de renascimento e pesquisa psíquica na sociedade ocidental contemporânea.

Agora que você já leu, escolha uma das alternativas para responder à seguinte pergunta:”Quem escreveu esse texto sobre Ian Stevenson?

  1. Um espiritualista;
  2. Um ateu materialista;
  3. Um protestante;
  4. Um parapsicólogo “quevediano”;
  5. Nenhuma das anteriores.

Role a página para baixo para ver a resposta:

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Continue mais um pouco

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Não desista!

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Quase chegando….

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Resposta: letra “c”.

Por incrível que pareça, um evangélico trata Ian Stevenson com mais respeito e dignidade do que às vezes se vê entre céticos materialistas. Isso mesmo: alguém facilmente rotulável pelos espíritas como “fanático” dá o devido louvor ao trabalho de pesquisa de um ícone entre os grupos espiritualistas, coisa que um grupo que está no extremo oposto do espectro de adversários do espiritismo e autoproclamado “científico” não o faz. Seu nome é Mark Albercht (1), em seu livro Reincarnation – A Christian Appraisal (cap. V, pp. 56-7). Por que, então, um evangélico norte-americano, com alguns confrades notórios em utilizar pseudociência para justificar o criacionismo da “Terra Jovem”, pôde falar sem medo ou desdém de Stevenson? Posso apenas cogitar, mas a hipótese mais simples para isso é que, “a rigor, a rigor”, Ian Stevenson nunca provou a reencarnação!
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A Proposta e Questões em Aberto

“Como é que é?! Como ousa seu herege detrator falar assim de tão renomado pesquisador e blá-blá-blá…” – já imagino algum apologista esbravejando do outro lado do monitor.

Bem, quem se dispuser a ler o prefácio à segunda edição de Twenty… verá bem no último parágrafo:

Com relação à interpretação dos casos, tenho pouco a acrescentar ao que já fiz anteriormente na seção de Discussão Geral. O que posso acrescentar será melhor guardar para a seção de Discussão em um novo livro de relatos de casos, agora em preparação. Nem tenho nada a retratar. Apenas reiteraria aqui que considero esses casos sugestivos [ênfase do autor] de reencarnação e nada mais. Nenhum caso individualmente, nem todos eles em coletivo, oferece algo como uma prova de reencarnação. Minha mais importante conclusão sobre eles é a necessidade de estudos mais aprofundados de casos similares. Se alguém assumir essa tarefa, considerarei meus esforços amplamente recompensados.

Em uma conversa informal como um jornalista, já mais próximo ao fim da vida, reitera sua preferência pela “hipótese reencarnação”, mas não deixa de expressar as limitações do alcance de sua pesquisa.

Acredito que, exceto na matemática, nada pode ser totalmente provado em ciência. Entretanto, para alguns dos casos que conhecemos no momento, a melhor explicação que conseguimos é a reencarnação. Há um importante número de indícios e acredito que estão se tornando cada vez mais fortes. Acho que uma pessoa racional pode vir a acreditar em reencarnação com base em evidências.

[Shroder, Prólogo, p. 27]

Embora tenha falecido ainda muito entusiasta da reencarnação, Stevenson sabia que seu grande desafio era apenas responder se “há ou não reencarnação?”, já dizer “o que é uma reencarnação” e “como é” seria um passo muito maior do que as pernas de sua pesquisa poderiam permitir. Entre as questões ainda carregadas de nebulosidade, poderíamos enumerar

1º – O que Reencarna?

Se você está lendo está lendo este texto, então meu raciocínio está “reencarnando” em você de algum modo. A portadora da informação é uma linguagem humana (o português), codificada por um alfabeto. Como, então, a experiência subjetiva de um indivíduo falecido passaria a outra ainda vivente (se é que passa)?

  1. Fraude consciente ou não: Talvez não se aplique aos melhores casos, mas a possibilidade de alguém querer se promover ou confortar-se com a ideia de renascimento é um risco que os pesquisadores procuram sempre evitar;
  2. Criptoamnésia: É quando uma pessoa não tem uma recordação explícita de relatos ocorridos com outra pessoas e, justamente por estarem em seu inconsciente, apropria-se como seus;
  3. Memória Genética: É uma das mais fracas ou pelo menos muito mal entendidas. Ela advoga que a memória de nossos ancestrais seria transmissível a seus descendentes, tal como as características físicas. Isso pode ser verdade para aspectos inatos da espécie (por exemplo, o medo de cobras), aquilo que os psicólogos evolutivos chamam de “natureza humana”. Para que memórias eventos testemunhados por indivíduos específicos (em vez de uma espécie toda) fossem transmitidos, seria preciso admitir algum grau de lamarckismo em biologia. Sem contar que muitas lembranças espontâneas não envolvem parentesco;
  4. Inconsciente Coletivo: Ideia proposta pelo psicólogo suíço Carl Jung como um etéreo reservatório de pensamentos, impressões e experiências de todo o gênero humano. Dada a queda de Jung pelo ocultismo, pode-se especular se ele não reciclou a antiga concepção indiana de akasha. O “inconsciente coletivo”, por sua vez, pode ter influenciado a formulação dos…
  5. Campos morfogenéticos: Hipótese aventada por Rupert Sheldrake para explicar a emergência de padrões similares entre populações geograficamente desconectada de uma mesma espécie. Esse tipo de campo seria um tipo de memória biológica coletiva de uma espécie, que influencia a formação corporal dela e para qual cada membro dela contribui. Em vez de forças físicas, transportariam “informações”, ou seja, permitiriam que uma “memória ancestral” reentrasse sem apelar para a genética. Todavia, tanto o inconsciente coletivo como os campos morfogenéticos têm um pequeno problema até agora: são totalmente especulativos. Explicam muito, mas se não puderem ser testados estarão mais para a metafísica que para a ciência.
  6. Hipótese Psi: Cogita a existência de funções ou capacidades cerebrais ainda desconhecidas, que lhe permitiriam (I) adquirir conhecimento sem o uso dos sentidos convencionais (percepção extrassensorial) e (II) interagir fisicamente com o ambiente (psicocinese). A junção de (I) (II) constitui a “Hipótese Psi”, estudada pelos parapsicólogos, descartando a existência de uma agente externo, i.e., “almas”. Tem o mérito de vir sendo submetida a engenhosos testes controlados nas últimas décadas, porém foram tantas reavaliações que o resultado continua inconclusivo (2).
  7. Hipótese Sobrevivência: É o conceito “clássico” de reencarnação aos olhos ocidentais, com preservação de uma individualidade em uma espécie de “corpo astral” (ou perispírito) a ser repassado para um novo corpo material. É mais atraente para alguns cientistas pela simplicidade do conceito(em relação à Psi), embora bem menos testável. Fornece, também, uma explicação imediata para marcas ou defeitos de nascença correlatos à traumas sofridos por ocasião da morte da personalidade anterior. Isso, por outro lado, não é um desafio incontornável para as hipóteses de mera transmissão de memória dado que, mesmo na presente vida, nosso corpo pode vir a somatizar um agudo estresse emocional.
  8. Renascimento: Comum no budismo Theravada, é muito similar à hipótese sobrevivência, porém sem a preservação de um “eu”. Existiria uma espécie de continuidade entre indivíduos por meio de “forças kármicas”, mas eles não compartilhariam a mesma identidade. Mal comparando, seria como uma vela prestes a se esgotar acendendo uma nova vela. Desdobramento interessante seriam hipóteses como uma “vela antiga” acender mais de uma nova, a exemplo do que ocorre no filme “O Pequeno Buda” (1993), ou duas “velas” acenderem uma terceira juntas.

Stevenson propôs o nome psychophore (“portador da alma”, em grego) para o veículo que transmitiria dados de memória, personalidade e físicos de uma vida a outra. Talvez um leitor espiritualista possa imediatamente associar isso a algum tipo de “corpo astral” (vulgo perispírito), mas a concepção de Stevenson é um pouco diferente:

Este psychophore corresponde à tela de Schrödinger (1955, p. 91-92) sobre a qual se reúnem experiências.

Estou familiarizado com uma considerável literatura hindu e budista sobre corpos não-físicos que seriam veículos das mentes entre as vidas. Entretanto, esses textos derivam de tradições religiosas; além disso, se eles têm base observacional, isso deve ser apenas a subjetiva percepção pessoal obtida por videntes e transmitida a seus seguidores. Não desmereço tal evidência, mas ela difere dos dados publicamente verificáveis que encontramos nos casos que investiguei. Esses casos, devo reconhecer, não provêm nenhuma evidência direta de algo como um psychophore; mas visto que incluem alguma informação verificável e aparentemente oriunda dos sujeitos de forma paranormal, penso que podemos basear conjectures em cima delas com mais confiança que podemos dar à autoridade escritural, contudo mantendo nosso respeito a última de qualquer modo.

Algumas das ideias das religiões sul-asiáticas sobre tais veículos intermediários passaram – muitas vezes por meio da teosofia e seus desdobramentos – para a literatura popular no ocidente sobre experiências fora do corpo; mas termos como “corpos atrais” têm conotações que acho que devemos evitar. Por essas razões, pareceu-me sábio elaborar uma nova palavra que não teria conexão com ensinos religiosos ou ocultistas

[Steveson (2001), nota 1 ao capítulo XI, p.309]

A referência a Erwin Schrödinger é para seu livro What is Life?, mais especificamente para o epílogo dele. Schrödinger foi um físico austríaco que construiu sua carreira na primeira metade do século XX e um dos pais da Mecânica Quântica, legando para a Ciência a “equação de onda” de uma partícula, batizada posteriormente com seu nome. Fugindo da ascensão nazista, imigrou para a Inglaterra e depois para a Irlanda, onde redigiu What is Life?: um pequeno tratado em que procura entender os fenômenos da vida por meio das leis da física, sem ter que apelar para profundos algebrismos. Tornou-se um clássico na literatura científica por seus vislumbres e, de certa forma, caráter profético de algumas especulações (como a antevisão da molécula de DNA). No epílogo – “Sobre o determinismo e o livre-arbítrio”- ele se aventurou na relação entre mente e matéria, revelando-se uma adepto da dualidade do homem (mente separada do corpo), da sobrevivência da mente e um simpatizante de doutrinas um tanto panteístas como o Brahman (3) hindu. Ao final, expôs suas ideias a respeito da natureza da individualidade e a “tela” a que Stevenson se refere.

Ainda assim, cada um de nós tem a indiscutível impressão de que a soma total de suas experiências e reminiscências forma uma unidade muito distinta da de qualquer outra pessoa. A pessoa se refere a si própria como “Eu”. O que é esse “Eu”?

Se analisar de perto, verá penso, que ele é pouco mais que uma coleção de dados singulares (experiências e memórias), nomeadamente, a tela sobre a qual eles são coletados. E verá, numa introspecção mais cuidadosa, que o que você realmente quer dizer por “Eu” é essa base sobre a qual eles são coletados. Você pode ir para um país distante, perder o contato com seus amigos, tudo, menos esquecê-los. Você adquire novos amigos e compartilha com eles sua vida tão intensamente quanto o fazia com os antigos. Cada vez menos importante se tornará o fato de que, enquanto vive sua nova vida, ainda se lembra da antiga. “O jovem que fui”; você pode vir a falar dele na terceira pessoa, quando na verdade o protagonista do romance (4) que lê está provavelmente muito próximo de seu coração, por certo mais intensamente vivo e melhor conhecido por você. E, ainda assim, não houve quebra intermediária, não houve morte. E mesmo que um habilidoso hipnotizador conseguisse apagar completamente todas as nossas reminiscências mais antigas, não concluiria que ele nos tivesse morto. Em caso algum há uma perda de existência pessoal a deplorar.

E nunca haverá.

Isso abre espaço para interessantes elucubrações. Caso seja eu um ente reencarnado, que tenho a ver com meu “eu anterior”? Talvez não mais do que um velho tenha a ver com a criança que uma dia foi…

Cenas do anime Code Geass R2, episódio 21, com dois ângulos diferentes da “memória da humanidade” (em forma de uma helicodal de almas) existente no “Mundo de C”. Inconsciente Coletivo otaku.

2º – Reencarnam Todos?

Todos os casos registrados de recordações espontâneas de vidas anteriores podem sugerir que há reencarnação … para as pessoas que relembram espontaneamente vidas anteriores. Ponto.

Querer generalizar isso para os demais bilhões de habitantes deste planeta seria, no mínimo, uma extrapolação indevida. Nas próprias palavras de Stevenson:

Eu já rejeitei essa questão. Considero-a como completamente irrespondível por ora e no futuro visível. Não vou tentar qualquer generalização em cima de bilhões de seres humanos baseado nos dados de 2.500 casos, nem todos dos quais, devo lembrar, proveem boa evidência de ocorra reencarnação. O máximo que direi sobre esse ponto é que se a reencarnação realmente acontece, pode ser algo que todos vivenciem; mas não podemos saber isso.

[Stevenson (2001), cap. X, p. 216]

Ainda que existissem dois ou três bilhões de casos relatados de reencarnação isso ainda não seria prova de uma reencarnação universal. E os outros bilhões? Poderiam ser almas novas cujo psychophore se desenvolveu concomitantemente com o corpo físico, por que não? Se o psychophore for o estado organizado de alguma coisa (uma “partícula de informação”), então por que essa organização seria indestrutível, à prova de qualquer aumento de entropia?

3º – Existe o Binômio Ação/Reação (vulgo Karma)?

Ninguém melhor que o próprio para responder:

Já enfatizei que muitas pessoas do mundo que acreditam em reencarnação o fazem sem vinculá-la a seus valores morais. Pode-se quase dizer que a noção de tais vínculos é uma peculiaridade do hinduísmo e do budismo. Contudo, em razão de a maioria dos ocidentais conhecer conceitos hindus e budistas muito melhor que os de grupos como os drusos, os alevis, os tlingits e os Igbos, a maioria dos que acreditam em reencarnação adotou o conceito hindu-budista de karma sem pensar. Segundo ele, nossa conduta em uma vida determina as circunstâncias que encontraremos numa encarnação anterior, embora não necessariamente na logo em seguida a uma ação ou má ação específica.

Nos casos que tenho investigado, não encontrei quase evidência alguma de efeitos da conduta moral em uma vida sobre as circunstâncias externas de outra. Quando examino os casos que incluem uma diferença marcante no status socioeconômico entre as famílias envolvidas, não posso encontrar nenhum padrão indicando que vícios foram rebaixados e virtudes promovidas.

[Stevenson (2001), cap. XI, p. 251]

Óbvio que existem casos que sugerem penalidade kármica e Stevenson até relata alguns, porém:

Os casos supramencionados e alguns outros oferecem os únicos indícios para o funcionamento de um processo como karma retributivo. Mesmo esses casos, contudo, não proveem evidência substancial alguma para tal processo. As explicações oferecidas pelos indivíduos (e outras pessoas) para as diferentes circunstâncias de duas vidas aparentemente interligadas podem vir a constituir nada mais que uma racionalização das diferenças. Entretanto, pessoas compromissadas com a ideia de karma retributivo podem tentar salvá-lo, apesar da falta de evidência corroborativa, com uma de duas alternativas. Podem dizer que um criminoso notório tinha uma virtude privada que se sobressaía, como uma afeição altruísta direcionada a sua família, e que isso rendeu-lhe um avanço para uma condição material superior. Analogamente, uma pessoa que externamente agia como um santo poderia ter praticado um vício secreto que levou a um rebaixamento em sua encarnação seguinte. Se essas explicações aparentam ser insuficientes para cobrir todos os casos, proponentes de karma retributivo sugerem que os efeitos do mal comportamento de uma pessoa não ocorrem até muitas vidas depois da vida em que ela o apresentou. Essas são explicações irrefutáveis, mas também insustentáveis. Não consigo ver nenhuma forma pela qual possa estudá-las empiricamente.

Sem contar que há casos em que o karma parece ser “inverso”. Por exemplo, quando as marcas e/ou defeitos de nascença de uma criança ocorrem numa que lembra ter sido a vítima de um assassinato, em vez de o algoz.

[topo]

Mas “peraí”, Doutor!

Na seção anterior foram mostradas questões do trabalho de Ian Stevenson que não podem ser respondidas ainda. Pelo menos não da forma como os espíritas e seus afins ocidentais gostariam. Por outro lado, há relatos registrados em suas pesquisas que podem colocar em xeque alguns dogmas postulados do espiritismo. A diferença entre as duas situações é que para responder afirmativamente a uma questão é preciso juntar uma quantidade grande de evidência, a passo que para negar basta um contraexemplo. Vejamos, então:

1º – Metempsicose

Nas próprias palavras de Stevenson:

Os casos de alegadas vidas como animais não humanos pode, por sua natureza, oferecer pouca evidência do tipo que temos encontrado em casos humanos comuns. E a maioria deles [menos de 30] não provê qualquer evidência – meramente a declaração sem sustento de um indivíduo que ele teve tal encarnação

[Stevenson (2001), cap. X, p. 210]

Na nota nº 13 ao capítulo VIII:

Os poucos casos conhecidos por mim em que um indivíduo alegou ter tido uma existência prévia como um animal não humano incluíram (por óbvias razões) quase nada que possamos considerar como evidência verificável de reencarnação. Uma menina de Burma, Ma Than Than Aye, relembrava com considerável detalhamento a vida de uma monja budista que morrera alguns anos antes de o indivíduo nascer. Suas memórias dessa vida tinham detalhes verificáveis e o indivíduo, ainda criança, mostrava uma piedade notavelmente precoce que concordava com a vida que lembrava. Ela também disse que entre a morte da monja e seu nascimento tivera uma vida intermediária como um boi, que foi morto por uma bomba durante a ocupação japonesa de Burma na Segunda Guerra Mundial. A vida como um boi é completamente inverificável.

Como adição, na nota nº 3 ao capítulo X:

Os seguintes indivíduos adicionais estão entre os que alegam ter tido vidas intermediárias como animais não humanos: Warnasiri Adikari (vida como uma lebre) e Pratomwan Inthanu (vaga impressão de uma vida como um macaco).

O grande problema em lidar com supostos casos de metempsicose é que eles estão além de qualquer verificação, pois não há como saber qual animal se tratava. A não ser que se encontre algum caso de lembrança de vida como um animal específico, que possa ser corroborado pelo testemunho de algum antigo tratador ou pessoa achegada que ainda esteja viva. Mesmo assim, o caso Ma Than Than Aye chama atenção.

Talvez alguém alegue as explanações do Livro dos Espíritos:

611. A comunhão de origem dos seres vivos no princípio inteligente não e a consagração da doutrina da metempsicose?

– Duas coisas podem ter a mesma origem e não se assemelharem em nada mais tarde. Quem reconheceria a árvore, suas folhas, suas flores e seus frutos no germe informe que se contém na semente de onde saíram? No momento em que o princípio inteligente atinge o grau necessário para ser Espírito e entrar no período de humanidade, não tem mais relação com o seu estado primitivo e não é mais a alma dos animais, como a árvore não é a semente. No homem, somente existe do animal o corpo, as paixões que nascem da influencia do corpo e os instintos de conservação inerente à matéria Não se pode dizer, portanto, que tal homem, é a encarnação do Espírito de tal animal, e. por conseguinte a metempsicose, tal como a entendem, não é exata.

612. O Espírito que animou o corpo de um homem poderia encarnar-se num animal?

– Isso seria retrogradar, e o Espírito não retrograda. O rio não remonta à nascente. (Ver item 118.)

613. Por mais errônea que seja a idéia ligada à metempsicose, não seria ela o resultado do sentimento intuitivo das diferentes existências do homem?

—Reconhecemos esse sentimento intuitivo nessa crença como em muitas outras; mas, como a maior parte dessas ideias intuitivas, o homem a desnaturou.

Comentário de Kardec: A metempsicose seria verdadeira se por ela se entendesse a progressão da alma de um estado inferior para um superior, realizando os desenvolvimentos que transformariam a sua natureza; mas é falsa, no sentido de transmigração direta do animal para o homem e vice-versa, o que implicaria a ideia de uma retrogradação ou de fusão. Ora não podendo realizar-se essa fusão entre seres corporais de duas espécies temos nisso um indicio de que se encontram em graus não assimiláveis e que o mesmo deve acontecer com os espíritos que os animam. Se o mesmo Espírito pudesse animá-los alternativamente, disso resultaria uma identidade de natureza que se traduziria na possibilidade de reprodução material. A reencarnação ensinada pelos Espíritos se funda, pelo contrário, sobre a marcha ascendente da Natureza e sobre a progressão do homem na sua própria espécie, o que não diminui em nada a sua dignidade O que o rebaixa é o mau uso que faz das faculdades que Deus lhe deu para o seu adiantamento. Como quer que seja. a antiguidade e a universalidade da doutrina da metempsicose e o número de homens eminentes que a professaram provai que o principio da reencarnação tem suas raízes na própria Natureza; esses são portanto argumentos antes a seu favor do que contrários.
(…)

O problema dessas explicações é que elas são meramente retóricas, pois dependem da aceitação da tese kardecista de progresso contínuo, que está além de comprovação no momento. A dita “fusão” ou “retrogradação” poderia ocorrer no psychophore por um mecanismo desconhecido e sem ter nada a ver com o corpo biológico. Não é que se esteja advogando a metempsicose (o que me obrigaria a mudar meus hábitos alimentares), mas apenas ressaltando que não há base factual para refutá-la, nem para confirmá-la, ainda que como ocorrência rara, afinal basta um caso relevante para as questões 611-3 do LE entrarem em xeque.

Uma reencarnação “pra lá de animal”.

2º – Interstício entre vidas (bem) menor que uma gestação

Compare a flagrante diferença entre a primeira edição do Livro dos Espíritos (1857) e a segunda (1860), que é a utilizada até hoje pelos centros espíritas. Começando pela primeira:

86– Em que momento a alma se une ao corpo?

“Ao nascimento.”

– Antes do nascimento a criança tem uma alma?

“Não.”

– Como vive então?

“Como as plantas.”

Comentário de Kardec: A alma ou espírito se une ao corpo no momento em que a criança vê a luz e respira. Antes do nascimento a criança só tem vida orgânica sem alma. Ela vive como as plantas, tendo apenas o instinto cego de conservação, comum em todos os seres vivos.

104 – A alma é um ser independente do Princípio Vital?

“Sim, o corpo vivo é apenas envoltório; repetimo-lo sem cansar.”

– O corpo vivo pode viver sem alma?

“Sim; e, não obstante, desde que o corpo cessa de viver, a alma o deixa. Antes de nascer o corpo, a alma não está nele; não há ainda união de alma e corpo; no entanto, depois que a união é formada, a morte do corpo rompe os liames que o prendiam à alma e o Espírito o abandona.”

Comentário de Kardec: A alma é ser independente do Princípio Vital. Antes de nascer, o corpo pode viver sem alma, pela razão de não ter ainda havido união entre a alma e o corpo; mas depois que esta união fica formada, a alma deixa o corpo desde que este cesse de viver, visto como então os liames que existiam entre alma e corpo ficam rompidos. A vida orgânica pode mover um corpo sem alma, todavia a alma não pode habitar um corpo sem vida orgânica.

Agora a segunda:

344 Em que momento a alma se une ao corpo?

“A união começa na concepção, mas não se completa senão no momento do nascimento. Desde o momento da concepção, o Espírito designado para tomar determinado corpo a ele se liga por um laço fluídico, que se vai encurtando cada vez mais, até o instante em que a criança vem à luz; o grito que então se escapa de seus lábios anuncia que a criança entrou para o número dos vivos e dos servos de Deus.”

(…)
353 A união do Espírito com o corpo não estando completa e definidamente consumada, senão depois do nascimento, pode considerar-se o feto como tendo uma alma?

“O Espírito que deve animar existe, de qualquer maneira, fora dele. Propriamente falando, ele não tem uma alma, pois a encarnação está apenas em vias de se realizar, mas está ligado à alma que deve possuir.”

354 Como se explica a vida intrauterina?

“E a da planta que vegeta. A criança vive a vida animal. O homem possui em si a vida animal e a vida vegetal, que completa, ao nascer, com a vida espiritual.”

Na primeira edição, o reencarne só se dava efetivamente no nascimento do indivíduo, na segunda edição é ele é um processo gradual que começa na concepção e vai gradualmente se fortalecendo até se completar com o nascimento, numa espécie de clímax. Como não temos mais acesso à base de dados de comunicações espirituais com que Kardec trabalhou, fica impossível saber qual a razão de tão radical mudança entre uma edição e outra.

Reduzir fetos a plantas parece ser um exagero, mas Stevenson já registrou casos de reencarnes em estágio bem avançado de gestação. Em Almas Antigas, por exemplo, Tom Shroder relata um caso estudado por Stevenson (Hanan Monsour/Suzanne Ghanem, no Líbano) em que o intervalo entre a morte de uma personalidade e o nascimento da seguinte foi de apenas dez dias! Talvez o psychophore só possa se associar a um corpo quando houver um encéfalo minimamente desenvolvido para recebê-lo, deixando o instante do começo de uma reencarnação um tanto incerto. Descobrir a partir de que etapa isso seria viável seria uma interessante pesquisa espiritualista e poderia ter diversas repercussões na vida pessoal de seus crentes, afinal a tese da existência de uma alma dentro do útero desde o início de uma gestação é o principal motivo da oposição do movimento espírita ao aborto e até mesmo contra métodos de controle da natalidade “antinidação”, como o DIU e a pílula do “dia seguinte” (5).

Por outro lado, se nem todos reencarnarem e for possível que um encéfalo também desenvolva um psychophore novo a partir do zero, então o instante de um reencarne viável deixará de valer como critério para essas questões éticas.

3º – Bebendo Água da Mesma Fonte

No filme “O Pequeno Buda” (1993), supra citado, são identificadas três crianças como possíveis sujeitos em que um falecido monge budista teria reencarnado. Já perto do final, é revelado que as três SIMULTANEAMENTE são o finado monge reencarnado. Estranho, talvez para o olhar ocidental acostumado a entender a alma como algo indestrutível, indivisível e único. Contudo, muitas culturas não veem assim:

(…) os inuit, os igbos da Nigéria, os tibetanos, os haidas do Alasca e Colúmbia Britânica e os gitksans de Colúmbia Britânica creem todos nisso [duplicação ou divisão de almas].
[Stevenson (2001), cap. X, 208]

Na primeira nota ao capítulo X do mesmo livro, Stevenson sumariza sua experiência em casos com os igbos, assinalando que:

Meu próprio exame de alguns casos sugere que uma criança pode dar uma evidência mais forte de lembranças de uma vida passada de uma pessoa falecida do que os demais candidatos dão. Os igbos aparentam aceitar uma criança como sendo uma pessoa em particular reencarnada em bases de evidência muito mais fracas que os informantes de outra cultura requerem antes de fazer tal julgamento.

Por fim…

A ocorrência de múltiplos candidatos a ser a reencarnação de uma pessoa falecida em particular deixa sem resposta a questão de se as almas ou mentes podem, de fato, se duplicar ou dividir (esses não são conceitos idênticos).

Bem, aguardemos.

Cena de “O Pequeno Buda” (1993) com as três reencarnações simultâneas do monge Lama Dorje.

4º – Explosão Populacional

Esta é uma das perguntas recorrentes não só para Stevenson, mas para todos os crentes em reencarnação: “Se o número de pessoas está aumentando, de onde vêm as almas novas?”

A resposta kardecista tradicional seria algo como “as almas são continuamente criadas, não só na Terra mas em todo o universo, a partir de um estágio ‘simples e ignorante’. Muitas almas novas, então, são imigrantes de outros mundos já aptos para reencarnar neste após longo processo de evolução ou são missionários a nos instruir”. O caso mais notório de uma suposta imigração espiritual coletiva seria a “Raça Adâmica” postulada por Kardec em A Gênese, tida por algumas correntes como oriunda de algum planeta de uma estrela da constelação de Capela (daí, “capelinos”). Flammarion também relatou um caso de emigração: um terráqueo reencarnando em (um avançado) Marte.

Stevenson também tem seu leque de hipóteses ad hoc para explicar o problema (cf. [Stevenson (2001), cap. X, 207-9]):

  • Não há correspondência entre as pessoas que nascem e as que já morreram, ou seja, nem todo mundo é a reencarnação de alguém falecido. Uma alma poderia ser criada já para implantação em embrião humano ou se desenvolver com ele.
  • Existe metempsicose
  • Almas podem ser duplicadas e/ou divididas.
  • Existe um número absurdo de almas (ou mentes) aguardando reencarnação. Estimativas propõem um total de cerca de 100 bilhões para o número de pessoas já nascidas no planeta até por volta do ano 2000 de nossa era (6). Isso não quer dizer que haja atualmente uns noventa e tanto bilhões de almas na fila, mas abre a possibilidade de uma série de reencarnações para o mesmo indivíduo.
  • Alguma combinação das hipóteses anteriores.

O que chama atenção é a hipótese que Stevenson não faz: a de reencarnações interplanetárias. Parece não haver casos assim em seus registros que mereçam nota (como os de metempsicose) e, ainda que existissem, seriam inverificáveis. Não sei se há algum sustento para ela em tratamentos de regressão hipnótica, que não são muito estimados por ele (7).

5º – Vale dos Suicidas: Tô Fora!

Embora não condene os suicidas à danação eterna, como faz a maioria das demais seitas das religiões abraâmicas, o espiritismo de forma alguma dá bons prospectos em curto e médio prazo para os que tiraram a própria vida. Relatos mediúnicos tenebrosos podem ser encontrados na segunda parte de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, ou no romance mediúnico Memórias de um Suicida de Yvonne do Amaral Pereira. Vale lembrar que, segundo a tese espirita, o próximo reencarne de um suicida geralmente sofreria alguma consequência do trauma autoprovocado: uma cardiopatia, retardamento mental, etc.

Em meio aos 2.500 casos analisados, Stevenson registrou em 29 deles uma morte autoprovocada pela personalidade anterior, a saber:

  • Quatro acidentalmente;
  • Dois para evitar uma captura iminente por policiais ou soldados
  • Os vinte e três restantes teriam para escapar de infortúnios julgados piores que a própria morte, como ruína financeira, decepções amorosas, etc.

No cômputo geral, Stevenson parece ter uma opinião bem mais amena sobre as consequências de um suicídio:

Se considerarmos a reencarnação como a melhor interpretação para esses casos [mencionados acima], eles refutam a crença exposta em algumas religiões de que pessoas que cometeram suicídio vivem no Inferno por séculos ou mesmo por toda eternidade. Eles também oferecem para uma pessoa a considerar o suicídio que isso não acabará com seus problemas, mas apenas mudará o local da ocorrência deles.

[Stevenson (2001), cap. X, pp 219-20]

Há um caso interessante relatado neste link publicado por Stevenson em Casos Europeus de Reencarnação (Vida & Consciência, 2003) em que a nova personalidade teria reencarnado em condições melhores que a antiga, que se suicidara.

* * *

Algum leitor pode alegar:“Bem, ainda que a reencarnação não se processe do modo como os espíritas kardecistas alegam, a estrutura da ‘fé cega’ dos fanáticos ortodoxos já está fortemente abalada, certo?”

Errado. Pelo menos ainda é muito cedo para dizer isso.

[topo]

O Cristianismo Ortodoxo e Stevenson

Não é difícil encontrar um apologista enchendo a boca ao mencionar os 2.500 casos relatados por Stevenson como demonstração da ignorância de cristãos “tradicionais” (i.e., católicos e evangélicos) acerca das pesquisas no campo, como se eles fossem provas avassaladoras da reencarnação, quando ele mesmo ignora (ou desconsidera?) que o próprio Ian Stevenson nunca fora tão categórico (embora entusiasta) e admitia que a qualidade dos casos era irregular. Até o presente momento, evidências de reencarnação estão longe de serem tão retumbantes como, por exemplo, as da evolução biológica – outro tema a que os cristãos mais fundamentalistas são refratários.

Na verdade, os cristãos tradicionais gozam de uma vantagem em relação aos materialistas quanto à questão da reencarnação: admitem a existência de um mundo espiritual e sua interação com o nosso. A principal diferença com relação aos espíritas é sobre a “natureza” dos habitantes desse mundo. “E o que isso tem a ver?”, perguntaria alguém. Não se mencionou antes, mas uma das explicações alternativas para a “hipótese sobrevivência” seria justamente a atuação de alguma entidade desencarnada. E isso quem disse, foi ninguém menos que Stevenson:

Em geral, não tenho permitido entrar na discussão desses casos [de possessão] quaisquer comunicações por meio de médiuns, a partir de comunicantes desencarnados ostensivos, relativas às questões envolvidas ao escolher entre as hipóteses relevantes para esses casos. Entretanto, talvez possas fazer, aqui, uma exceção para mencionar algumas comunicações mediúnicas relatadas por Wickland. Alguns dos comunicantes se dirigindo a Wickland (*) por meio da mediunidade de sua esposa declararam que tinham “possuído” erroneamente o corpo de uma personalidade encarnada na equivocada ideia de que deveriam reencarnar. Quando descobriram seus enganos, desculparam-se e se retiraram. E ainda supondo que esses comunicantes sejam personalidades desencarnadas que um dia estiveram vivas, poderíamos concluir que seu erro que cometeram não foi sobre se reencarnação ocorre ou não, mas o instante e circunstâncias para suas próprias reencarnações ocorrerem. Assim, eles podem ter ficado tateando ou tropeçado em um corpo já ocupado.

Twenty…, General Discussion, p. 378-9.

(*)Nota de Stevenson: C.A. Wickland: Thirty Years Among the Dead. London: Spiritualist Press, 1924.

Stevenson não nutre muita simpatia por hipóteses de possessão espiritual do tipo que denomina de “assombração” (haunt, mais próximas ao conceito espírita de “obsessão”) e, entre outras razões, aponta que essa hipótese não explicaria o estado fragmentário, em muitos casos, da memórias acerca da vida anterior, ou por que o entendimento do reencarnado a respeito de sua nova vida não é tão pleno assim, o que seria de se esperar de uma ação de entidade externa. Há, porém, um tipo específico de possessão que talvez dê o que pensar:

Não considero nenhum dos argumentos anteriores como decisório entre reencarnação e possessão para explicação do tipo comum de caso de reencarnação. Há dois séculos, Swedenborg declarou que casos aparentes de reencarnação eram, na verdade, exemplares da influência sobre os vivos de personalidades desencarnadas.

,
Não é permitido a um anjo ou espírito falar com um homem a partir de sua própria memória, mas a partir da do homem, pois anjos e espíritos também têm memória como os homens. Se um espírito falasse com um homem a partir de sua própria memória, então o homem não iria de outro saber que as coisas que então pensava eram suas próprias, quando na verdade eram do espírito; é como a lembrança de algo, embora o homem nunca tenha ouvido ou visto. É o que vim a saber pela experiência. Disso alguns dos antigos tiveram a opinião de que após alguns milhares de anos deveriam retornar para sua vida anterior, a todos os atos dela, e que também já tinham retornado. Concluíram a partir disso, que algumas vezes lhes ocorreu uma lembrança, por assim dizer, de coisas que eles nunca viram ou ouviram; e isso veio a ocorrer porque espíritos verteram sua própria memória nas ideias ou pensamentos deles. (*)

O argumento de Swedenborg ainda tem hoje muito convencimento e ganha suporte do caso de Jasbir, em que podemos nos sentir seguros que a personalidade falecida influenciando o comportamento de Jasbir (ou de seu corpo, pelo menos) morreu vários anos após [grifo do autor] o nascimento do corpo de Jasbir. Outros casos do presente grupo podem ser exemplares de similar “influência possessiva” em que a personalidade anterior, por acaso, morreu bem antes do nascimento do corpo da personalidade atual.
Twenty…, General Discussion, p. 381.

(*)Nota de Stevenson: E. Swedenborg. Heaven and Its Wonders and Hell (Publicado originalmente em latim, Londres, 1758). Rotch Edition. Boston: New-Church Union, 1906. (Parágrafo 156, p. 155).

Certo que Swedenborg é considerado herético pelos evangélicos e um precursor por alguns espiritualistas, mas isso não tem importância no momento porque seu raciocínio pode ser perfeitamente adaptado por católicos e evangélicos que precisam limitar essa transferência de memória espiritual à maquinação de “demônios”. Poder-se-ia dizer que essa hipótese não é tão enxuta como a de reencarnação(8) ou que apela para algo inverificável (a existência demônios), mas então se deveria lembrar que esse é o domínio da Fé e, justamente em razão de suas premissas serem (por enquanto) inatingíveis, ela nada deve ao da Ciência. A bem da verdade, isso não impede que os argumentos baseados nessas premissas sejam perfeitamente racionais e lógicos, nada tendo de “cegueira”(9). Por outro lado, doutrinas calcadas em pretensões cientificistas estão mais vulneráveis a dificuldades quando as descobertas não se enquadram em suas cartilhas (10).

Quanto ao caso Jasbir (11), ele se refere a um menino indiano com esse nome que, em 1954, chegou a ser dado como morto pelos familiares aos três anos e meio de idade, vítima de varíola. Felizmente, o menino reagiu e recuperou semanas depois, porém jamais voltaria a ser a criança que conheceram. Ele agora declarava ser um brâmane – indivíduo de uma casta superior a de sua família – chamado Sobha Ram, que morrera em um acidente aos 22 anos, em maio do mesmo ano. Como “Ram”, o menino informou que encontrou um sadhu (homem santo) que lhe disse para se “abrigar” no corpo de Jasbir (12). Seu linguajar mudara, adotando um vocabulário mais aristocrático e recusava-se a se alimentar com a família, que não seguia as normas da culinária brâmane. A antiga personalidade de Jasbir foi sobrescrita por outra e não retornou mais ao estado anterior, como seria de se esperar em uma incorporação mediúnica. Com o tempo, Jasbir/Ram conformou-se com sua nova realidade e já cogitava até se casar com uma pessoa da mesma casta de sua nova família, mas nunca perdeu totalmente hábitos e atitudes brâmanes. Dependendo de quem lê, um espírito assumiu um corpo já plenamente formado ou um impostor do além transferiu memórias de outrem a Jasbir. O que aconteceu com a personalidade original está em aberto.

Stevenson, na “Discussão Geral” ao fim do Twenty… ainda prefere a tese de reencarnação à de transmissão sobrenatural de memória, pois ela explicaria melhor os casos que envolvem marcas de nascença (13). Sua distinção entre “reencarnação” e “possessão” se torna essencialmente a relação cronológica entre a morte da antiga personalidade e constituição do corpo físico da nova: antes ou depois.

* * *

Bem, suponhamos que as pesquisas com recordações espontâneas progridam e a “hipótese sobrevivência” ganhe de suas concorrente e se torne um novo paradigma científico. Então os “cristãos tradicionais” hão de curvar à cartilha kardecista e abandonar ideias “sem noção” como salvação, ressurreição, sacramentos, etc; certo?

Eu não seria tão categórico.

Para começo de conversa, existem vários modelos de sistemas reencanacionistas e, até o presente momento, os 2.500 casos de Ian Stevenson são indecisivos em alguns pontos do modelo kardecista e possivelmente em choque com outros. Pode ser cansativo, mas vale reforçar que a grande pergunta do momento é se “há ou não reencarnação?”. Já querer dizer “como é” e cantar vitória é, no mínimo, muita pretensão. Em segundo lugar alguma resistência é esperada por parte dos demais cristãos, como ocorreu (e ainda ocorre) com a evolução biológica; e, por fim, a reencarnação é que teria de se adequar a conceitos já existentes no cristianismo tradicional, não o inverso.

Talvez esse último ponto seja um dos que mais provoque faíscas entre o espiritismo kardecista e o cristianismo tradicional. Como já analisado em outro artigo, o kardecismo reedita aspectos do cristianismo contido nos evangelhos sinópticos (excetuando sua escatologia), mas descarta as opiniões paulinas, joaninas e qualquer escatologia. Assim, fica difícil qualquer diálogo entre esses grupos e quem ceder pode se descaracterizar.

Para haver alguma chance de o cristianismo ortodoxo aceitar em massa algum grau de reencarnacionismo, conceitos como Queda, Graça, Sacrifício da Cruz, Salvação, Parúsia e, por que não, Ressurreição devem ser preservados. De certa forma, dois exemplos históricos podem fornecer insumos de como isso poderia vir ocorrer: o origenismo em sua forma original e a adoção da reencarnação pelo judaísmo a partir da Idade Média.

Orígenes (185? – 254? d.C), em sua obra De Principiis, expôs o que talvez seja o mais antigo tradado de teologia sistemática do cristianismo ortodoxo. Sim, ORTODOXO, pois ao contrário do que alguns escritores espiritualista alegam por aí, Orígenes o escreveu para refutar gnósticos, defendendo a unicidade entre Deus e o Criador, a encarnação do Verbo, a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento, e, em especial, uma resposta ao “Problema do Mal” que respeitasse esses princípios. Ao contrário do gnósticos, ele defendia a justiça de Deus na fundação do Cosmo para a regeneração de almas decaídas, por sua própria escolha, de um estado de beatitude original. Cada alma ocuparia um lugar conforme seu grau de queda: o Céu para os anjos, o Firmamento para os corpos celestes (seres racionais, segundo ele), a Terra para os humanos e o Hades para os demônios. Teria havido criações antes desta e haveria novas, cada qual com uma ressurreição geral e um Juízo Final, estando a condição cada ser na criação seguinte condicionada a seus atos na que se encerrou. Em nossa era, ocorreu um diferencial: a vinda de Jesus Cristo, cujo sacrifício serviu de catalizador para que todas as almas retornassem à beatitude, em vez de agir erraticamente.

Há um grande empecilho, entretanto, para um retorno às teses de Orígenes: seu reencarnacionismo é “entre eras”, ou seja, ele defendia a vida única dentro de uma mesma era (ou criação) e, enquanto ela não chegasse ao fim, as almas passariam por uma espécie de “fogo moral” para depuração. Desconheço caso de recordação espontânea ou via hipnose que dê suporte a isso. Outros aspectos que talvez sejam nevrálgicos seriam a salvação do Diabo – uma consequência lógica desse sistema (14) cuja a simples cogitação deu munição a seus detratores entre o século IV e VI – e a ausência de uma salvação eterna, pois novas quedas poderiam ocorrer após todos retornarem à beatitude.

Portanto seria necessário remodelar isso para que comportasse tudo em uma única criação e mantendo a sua essência da Terra como uma dimensão purgatorial. A forma como a reencarnação (gigul neshamot) foi adotada por algumas vertentes do judaísmo pode fornecer alguns vislumbres.

Ao contrário do que alegou Kardec no Evangelho segundo o Espiritismo (ESE):

A reencarnação fazia parte dos dogmas judeus, sob o nome de ressurreição. Somente os saduceus, que pensavam que tudo acabava com a morte, não acreditavam nela. As ideias dos judeus sobre essa questão, como sobre muitas outras, não estavam claramente definidas. Porque só tinham noções vagas e incompletas sobre a alma e sua ligação com o corpo. Eles acreditavam que um homem podia reviver, sem terem uma ideia precisa da maneira por que isso se daria, e designavam pela palavra ressurreição o que o Espiritismo chama, mais justamente, de reencarnação. Com efeito, a ressurreição supõe o retorno à vida do próprio cadáver, o que a Ciência demonstra ser materialmente impossível, sobretudo quando os elementos desse corpo já estão há muito dispersos e consumidos. A reencarnação é à volta da alma ou Espírito à vida corpórea, mas num outro corpo, novamente constituído, e que nada tem a ver com o antigo. A palavra ressurreição podia, assim, aplicar-se a Lázaro, mas não a Elias, nem aos demais profetas. Se, portanto, segundo sua crença, João Batista era Elias, o corpo de João não podia ser o de Elias, pois que João tinha sido visto criança e seus pais eram conhecidos. João podia ser, pois, Elias reencarnado, mas não ressuscitado.

ESE – Cap. IV, item 4

O entendimento de ressurreição como reconstrução do antigo corpo físico era o realmente adotado pelos judeus intertestamentários, do contrário obras do período como II Baruque jamais teriam sido elaboradas. O importantíssimo e negligenciado pormenor é que a expectativa era de uma apoteótica Ressurreição Universal após o fim da “realidade como conhecemos” para a chegada do “Mundo Vindouro”, o “Reino dos Céus”. Aliás, segundo os historiadores adeptos da tese de Jesus como “profeta apocalíptico”(15), o papel dos milagres é justamente servir como antecipação desses eventos: não haveria doentes, então que eles fossem curados; ninguém morreria, então que os mortos se levantem; não haveria ódio, então que as pessoas se amassem desde já. Se tais milagres são impossíveis segundo a ciência atual, não importa; pois tal julgamento não passa de um anacronismo para impor aos antigos uma opinião dos tempos modernos. Por mais absurda que seja a ideia para muitos, essa era a crença do período e lugar.

Durante a evolução do judaísmo, a crença na ressurreição no “Mundo Vindouro” (Olam Ha-bá) permaneceu firme e distante da gigul e, de certa forma, adaptou-se a ela. A questão de qual das personalidade ressuscitaria recebeu pelo menos três respostas distintas, dependendo da filosofia do rabino (16):

  • Somente a personalidade original seria ressuscitada, pois ela seria a mais importante e as demais apenas complementariam o que faltasse nela;

  • Somente a última personalidade seria ressuscitada, pois seria o “produto final”;

  • Todas as personalidades seriam ressuscitadas, preservando os laços familiares.

Também não há uniformidade de opiniões quanto a questão de “quem reencarna?”. Um denominador comum entre elas é a necessidade de terminar algo, como por exemplo, cumprir todos mandamentos da Lei (17).

Embora haja consenso quanto à época da “ressurreição geral”, outra vez ocorre uma pluralidade de opiniões dentro do judaísmo(18), agora quanto à forma em que ela se dará e se ela será tão “geral” assim. Podem ser encontrados textos textos na literatura judaica alegando uma ressurreição apenas para Israel, outros para os judeus e gentios justos, e até mesmo os que creem numa genuína universalidade, uns para a glória e outros para o juízo (19). Quanto ao corpo ressurreto, mais diversidade: há os que defendem uma ressurreição física, ainda que imune a doenças e à velhice, como Saadia Gaon (20); um corpo físico espiritualizado pela presença de uma alma radiante, como os kabalistas (21), e até uma ressurreição puramente espiritual, conforme especulou Maimônides (22).

De posse dessa variedade de soluções apresentadas, seria possível criar um sistema reencarnacionista ao gosto da ortodoxia cristã? Mark Albrecht – o cidadão que ele elogiou Stevenson na abertura deste artigo – impôs algumas condições:

a maior barreira à reencarnação para o cristão é o tão simples conceito de nascer outra vez e outra. É concebível [grifo do autor] que o renascimento possa coexistir com doutrinas bíblicas se for altamente saneado e aplicado apenas aos não crentes. O que torna a reencarnação impossível para os cristãos é que ela não pode ser separada de seu substrato metafísico, a superestrutura do misticismo gnóstico e o monismo. (…)

[Albrecht, cap. X, p. 122]

Albrecht estabelece que o conceito de renascimento deve ser cristianizado e de aplicação limitada, ao contrário de híbridos teológicos que nada adaptam afirmam que tanto faz ser cristão ou não. Albrecht cita vários escritores espiritualistas para refutar suas concepções errôneas a respeito do cristianismo primitivo e da compatibilidade da ortodoxia cristã com o modelo reencarnacionista deles. Há, contudo, uma notória exceção: o teósofo Geddes MacGreggor, autor de Reincarnation in Christianity, que foi amplamente citado como corroborador de seus pontos de vista, ao menos em parte. MacGregor é, ao menos até agora, o único escritor já me apresentado que teve alguma preocupação em elaborar um modelo de reencarnação compatível com o mainstream do cristianismo atual, ao invés de forçá-lo dentro de um modelo que lhe era alienígena.

Com todas as ressalvas feitas, eis algumas propostas:

  • Manter a noção de “queda” de um estado de beatitude e a necessidade de redenção;
  • Preservar a noção de Jesus Cristo como esse redentor, tornando a volta em novo corpo físico imperiosa apenas para os não crentes, até a vida em que se convertessem; (23)
  • Possibilitar a reencarnação para cristãos, em caso de alguma pendência a cumprir (como no judaísmo após a Idade Média) ou como missionários;
  • Existência de um estágio purgatorial pós-vida apenas para “aparar as arestas” da almas cristãs que superaram a maior parte de suas deficiências em vida;
  • Estabelecer um fim ao processo. Refratários à mensagem cristã ou hipócritas com ela não seriam salvos por ocasião do fim dos tempos. Pode-se cogitar uma dimensão infernal privada para presença divina, como as versões mais recentes e amenas do inferno católico (Catecismo, item 1035), ou um aniquilacionismo;
  • Como pressuposto acima, manter algum tipo de escatologia, de clímax redentor, um “mundo vindouro”.

Não é necessário dizer que isso está longe de ser um tratado teológico e, a quem quiser uma discussão mais profunda, recomenda-se o livro de MacGregor (24). Talvez alguém relembre a frase “o espiritismo não é a religião do futuro, mas o futuro das religiões” e veja nessa proposta um primeiro passo nessa direção. Entretanto, não custa lembrar que o futuro ainda não está escrito e a história humana parece se assemelhar a um sistema físico caótico: suas leis são conhecidas, mas ele é muito sensível a qualquer mudança em seus parâmetros. Sendo assim, melhor considerar isso como apenas um dos milhares de futuros possíveis e quem se atrever a dizer categoricamente qual será ele corre sério risco de fornecer matéria-prima aos humoristas do século XXII (25).

[topo]

Réquiem

Nem tudo é absoluto nas pesquisas de Stevenson, como já se observou:

  • Discordâncias qualitativas com pesquisas baseadas em recordações induzidas por hipnose(26);

  • Um universo cultural favorável à reencarnação pode incentivar alegações de espontâneas que revelam, posteriormente, fracas(27);

  • Tem de se confiar na subjetividade das memórias e percepções nem sempre confiáveis de indivíduos (28);

  • O reconhecimento de pessoas e lugares da supostas vida anterior nem sempre é feitas por partes neutras (29);

  • Entre os surgimento de um possível caso de reencarnação (com o começo de comportamentos estranho de uma criança) e sua ampla divulgação, passam-se, em média, três a cinco anos (30). Muita coisa pode acontecer nesse ínterim.

Mas como seus antagonistas chegaram a isso? Simples: o próprio Stevenson forneceu material para eles (31). A riqueza de pormenores e a transparência de suas pesquisas o levaram a expor suas fraquezas. Longe de ser um erro ou demérito, essa deve ter sido sua maior virtude como pesquisador. Sua base de dados ainda está disponível na Universidade de Virgínia a quem quiser reanalisar seus resultados ou cruzá-los com os de outras pesquisas. A mesma coisa não pode ser feita com os dados de Kardec, que se perderam na noite dos tempos(32).

Não pretendia falar sobre Ian Stevenson, pois ele está fora do escopo deste portal, que se preocupa mais o aspecto histórico da reencarnação no cristianismo do que em avaliá-la como fato. Mas não há como evitá-lo, porque seu nome é muito recorrente no meio espiritualista. Infelizmente, esse grupo o vê, muitas vezes, como um mero corroborador de suas crenças, ao passo que não é difícil encontrar materialistas que o rejeitam sem ao menos se dar ao trabalho de o ler. Aqui busquei resgatar um pouco do rigoroso cientista adepto da “hipótese sobrevivência” e ao mesmo tempo frustrante para os mais “espirituosos”. Não havia como ele ser diferente, pois sua pesquisa foi construída de baixo para cima, ao invés de ser uma retumbante revelação descida do Céu (ou Colônia Espiritual). Os resultados na área ainda são modestos, inconclusivos, talvez decepcionantes para alguns, porém incomparavelmente mais sólidos que qualquer romance mediúnico.

Stevenson nos deixou em 2007 e, quem sabe, já tenha as respostas para todas as suas dúvidas. Compartilhá-las conosco é que será outro problema… De qualquer forma, ele já mostrou um caminho e deve ser uma questão de tempo para que outros o trilhem. Os que o fizerem talvez sejam os novos “trabalhadores da última hora”. Até lá e além:

* * *

Que sua memória permaneça entre nós, Dr. Stevenson

* * *

Notas

(1) É um livro fino que, quando mo emprestaram, tinha a intenção de refutar. Muitos de seus argumentos podem ser considerados um tanto fracos, “manjados” ou só admissíveis dentro de uma igreja, mas foi um choque quando li a parte reencarnação no cristianismo primitivo, onde vários mitos acerca da patrística foram sistematicamente refutados. Foi quando constatei que a “fé racionada” também podia se tornar extremamente “cega” quando convinha e usei o material dessa parte do livro como base para meu portal, incrementando com minhas próprias pesquisas. Hoje, com um olhar em retrospectiva, penso que cegueira não está nesse ou naquele credo, mas nas pessoas. Até a Ciência não está livre disso.

(2)Isso não é desfeita minha. Um dos principais pesquisadores nesse campo, Wellington Zangari, em entrevista dada ao periódico Superinteressante de maio de 2005:

P. A parapsicologia tem pouco mais de um século de existência. Nesse período, afinal, o que se produziu de sólido e incontestável?

Nada. Todos os resultados são frequentemente contestados pelos próprios pesquisadores da área. Mas muitos experimentos tiveram resultados consistentes e positivos em relação à existência da paranormalidade. Por exemplo: se não existe transmissão telepática, os sujeitos que passam por esse tipo de experimento deveriam ter um índice de acerto muito próximo de 25%. Mas a maior parte das meta-análises indica que, na média, eles são capazes de acertar 35% da vezes. Do ponto de vista estatístico, é uma diferença bastante significante. De maneira que algo além do acaso deve estar acontecendo entre a pessoa que emite e a que recebe essas informações.

(3) Nas palavras se Schrödinger:

Mas experiências imediatas, em si mesmas, quão numerosas e diferentes sejam, são logicamente incapazes de se contradizerem mutuamente. Assim, vejamos se não somos capazes de extrair a conclusão correta, não-contraditória, das duas premissas seguintes:

  1. Meu corpo funciona como um puro mecanismo, de acordo com a Leis da Natureza.
  2. Ainda assim, sei, por experiência direta incontestável, que comando seus movimentos, dos quais prevejo os efeitos, que podem se decisivos e extremamente importantes, em cujo caso sinto e assumo por eles total responsabilidade.

A única inferência possível a partir deste dois fatos, imagino, é que eu – eu no sentido amplo da palavra, ou seja, toda mente consciente que jamais disse ou sentiu “eu” – sou a pessoa, se é que existe alguma, que controla “o movimento dos átomos”, de acordo com as Leis da Natureza.

No âmbito de um determinado ambiente cultural (Kulturkreis) em que certos conceitos (que já tiveram ou ainda têm um significado mais amplo entre outros povos) foram limitados ou especializados, é ousado dar a essa conclusão a palavra simples que ela requer. Na terminologia cristã, dizer “Logo, eu sou o Deus Todo-Poderoso” parece tanto blasfemo quanto lunático. Mas, por favor, abstraiam por ora essas conotações e considerem se a inferência acima não é o mais próximo que um biólogo pode chegar para provar, de uma só vez, a existência de Deus e da imortalidade.

Em si, a ideia não é nova. Os registros mais antigos datam, até onde sei, de 2.500 anos atrás. Desde os primitivos grandes upanixades, no pensamento indiano, a identificação de ATHMAN = BRAHMAN (o seu eu pessoal iguala-se ao eu eterno, e onipresente e onisciente), longe de constituir uma blasfêmia, representava a quintessência da mais profunda intuição quanto aos acontecimentos do mundo. O maior empenho de todos os estudiosos da escola Vedanta era, após o aprendizado dos movimentos dos lábios para a pronúncia correta, realmente assimilar em suas mentes este pensamento, o mais grandioso de todos.

De novo, os místicos de muitos séculos, independentemente, mas em harmonia uns com os outros (algo como ocorre com as partículas de um gás ideal) descreveram, cada um deles, a experiência única de sua vida em termos que podem ser resumidos na expressão DEUS FACTUS SUM (Tornei-me um Deus).

(4) A UNESP publicou uma tradução em português de What is Life, mas eu, particularmente, não gostei dela. A palavra novel, por exemplo, foi traduzida por “novela”, quando melhor significado seria “romance”, como escrevi aqui. A não ser que se entenda “novela” com a conotação de “romance curto”, mas creio que não foi o caso.

(5)Nidação é quando um embrião, ainda nos estágios iniciais de diferenciação celular, se fixa no epitélio uterino. Há muita controvérsia quanto ao caráter abortivo ou não desses métodos. O DIU (Dispositivo Intra Uterino) recebe cobertura de um fio de cobre (de efeito espermicida) ou de hormônios (para impedir a ovulação), deixando-o próximo de um verdadeiro contraceptivo e também atua no endométrio uterino. A pílula de “dia seguinte” também teria um mecanismo tríplice, atrasando ou impedindo uma ovulação iminente, espessando o muco cervical para impedir a mobilidade dos espermatozoides e seu encontro com o óvulo, além de criar um ambiente uterino impróprio para a fixação do embrião. Portanto, a prevenção da nidação serve como uma última barreira para esses métodos. Como cerca de 50% dos óvulos fecundados não se fixam no útero, esses métodos apenas dificultam o que já é difícil por natureza. Ademais, tanto a prática médica quanto a jurídica têm considerado a nidação como o real início da gestação, em vez da fecundação.

(6)[Steven (2001), cap. X, p. 208] traz uma cifra mais “conservadora” de 80 bilhões e é óbvio que esse número há de variar dependendo do instante que se considere o início da contagem (a partir dos humanos anatomicamente modernos ou dos primeiros hominídeos bípedes?). Vale lembrar que as suposições feitas ajudam a elevar a cifra, como taxa de natalidade alta nos primeiros tempos e uma expectativa de vida extremamente curta.

(7)Nas palavras de Ian Stevenson:

As “personalidades” comumente evocadas durante regressões hipnoticamente induzidas a uma “vida anterior” parecem reunir uma mistura de diversos ingredientes. Esses podem incluir a personalidade atual do indivíduo, suas expectativas sobre o que ele acha que o hipnotizador deseja, suas fantasias sobre o que acha que sua vida anterior deve ter sido e também, talvez, elementos obtidos paranormalmente.

Twenty…, Introdução, p.3.

(8)Ou seja, perderia num critério conhecido como “Navalha de Ockham”.

(9) E assim foi feito por [Albrecht, cap. VI, pp.74-7]

(10) Três exemplos que me vêm à memória: marxismo, espiritismo e psicanálise.

(11) Twenty …, cap. II, p. 47s

(12) Em Twenty …, cap. II, p. 47, Stevenson informa que as memórias sobre esse sadhu perderam clareza com o tempo, tornado-se confusas e contraditórias, ao passo que as como Sobha Ram mantiveram-se melhor. A crença de que santos desencarnados guiem os falecidos para sua próxima reencarnação também foi encontrada em casos da Tailândia e de Burma.

(13) A não ser que uma transmissão paranormal/espiritual de memórias também possa provocar somatização em fetos. A presente falta de limites definidos para a hipótese psi ainda deixa bastante “pano para manga” em discussão com os adeptos da hipótese sobrevivência. Para os que creem na hipótese de transmissão espiritual(ou demoníaca), não há limites, porém apenas seus crentes poderão acatar suas conclusões.

(14) Chegaram até nós, por vias indiretas, dois supostos documentos de Orígenes que refutariam claramente a tese da “salvação do diabo”. O primeiro é uma carta endereçada “a alguns amigos de Alexandria” citada por Rufino:

Algumas das pessoas que se comprazem em acusar seus vizinhos trazem contra nós e nosso ensino a acusação de blasfêmia, embora de nós nunca tenham ouvido nada do tipo. Que prestem atenção a si mesmas em como recusam a atentar para aquela solene injunção que diz que ‘maldizentes não herdarão o reino de Deus’ quando declaram que o pai da iniquidade e perdição e dos que estão expulsos do reino de Deus, ou seja: o diabo, será salvo, algo que nenhum homem pode dizer mesmo que tenha perdido o juízo e esteja manifestadamente insano. Embora não surpreenda, imagino se meu ensinamento é falsificado por meus adversários e está corrompido e adulterado da mesma foram que as epístolas de Paulo, o Apóstolo.

Rufino – Da adulteração das Obras de Orígenes, parágrafo 7

O segundo foi trazido por seu antagonista, Jerônimo de Aquileia. Após acusar Rufino e haver editado a carta supracitada, ele dá uma nova fonte onde Orígenes negaria a salvação do diabo:

Existe em grego um diálogo entre Orígenes e Cândido, o defensor da heresia de Valentino, em que, admito, parece-me que quando o leio estou assistindo a uma luta entre dois gladiadores andabacianos. Cândido alega que o Filho é da substância do Pai, caindo no erro de declarar uma Probolé ou Produção. Por outro lado, Orígenes, como Ário e Eunômio, recusa a admitir que Ele seja produzido ou gerado, por temor que, assim, o Pai deve ser dividido em partes: mas diz que Ele era uma sublime e excelentíssima criação que veio a existir pela vontade do Pai como as outras criaturas. Eles, então, passam para uma segunda questão. Cândido declara que o diabo é de uma natureza totalmente má que nunca pode ser salva. Contra isso, Orígenes declara corretamente que ele não é de uma substância perecível, mas que é por sua própria vontade que caiu e pode ser salvo. Isso Cândido falsamente transforma numa censura contra Orígenes, como se ele tivesse dito que a natureza diabólica poderia ser salva. Por essa razão, aquilo de que Cândido tinha falsamente o acusado, Orígenes refuta. Contudo, vemos que nesse apenas nesse Diálogo Orígenes acusa os heréticos de ter falsificado seus escritos, não nos outros livros, acerca dos quais nenhuma questão foi levantada. De outra forma, se tivermos de acreditar que tudo que é herético não devido a Orígenes, mas aos heréticos, ao passo que quase todos os seus livros estão cheios desses erros, nada de Orígenes permanecerá, mas tudo deve ser trabalho daqueles cujos nomes ignoramos.

Jerônimo – Apologia própria contra os Livros de Rufino, livro II, 19

Pena que Jerônimo não traga exatamente qual foi o argumento para a refutação ao valentiano, mas não importa qual dos dois fale a verdade, pois se tem tanto um defensor quanto um detrator de Orígenes afirmando que ele chegou a negar uma tese dedutível a partir de De Principiis, pode-se cogitar que muitos antagonistas dele transformaram um exercício especulativo em afirmação categórica.

(15)Como o “querido” Bart Ehrman, cf. [Ehrman, cap. XI, p. 199]

(16)Cf. [Blau, p. 11], a referência dada para essas três opiniões é o Comentário sobre Deuteronômio, do rabino Issac Abravanel. A opinião de apenas uma ressurreição para a última encarnação pode ser encontrada no tratado kabalístico de Zohar (cf. [Blau, cap. VIII, p. 325]).

(17) Cf. [Raphael, cap. VIII, pp. 317-20].

(18) Essa Babel de opiniões pode ser intrigante para os criados no cristianismo, habituados desde cedo seguir corpos doutrinários rígidos. O judaísmo, por sua vez, possui um modus operandi bem diferente, como observou o historiador Paul Johson:

[Na Idade Média] Havia uma tal variedade de opiniões sobre o Messias no judaísmo que era quase impossível ser herético nesse assunto. O judaísmo dizia respeito à Lei e sua observância. O cristianismo dizia respeito à teologia dogmática. Um judeu podia atrapalhar-se quanto a um ponto delicado da observância do sábado que a um cristão pareceria ridículo. Por outro lado, um cristão podia ser queimado vivo por sustentar uma ideia sobre Deus que a todos os judeus pareceria um assunto de opinião legítima e de controversa.

Johson, Paul; A História dos Judeus, Imago, 1995, parte III, p. 228.

É por esse motivo que não levo a sério quem queira usar um único judeu da atualidade para julgar o material deste portal: falta-lhe a dimensão histórica da coisa. Mal comparando, seria como um hindu pegasse um católico como referência para todo o cristianismo, desprezando todas as demais seitas moderna e, principalmente, as grandes discussões teológicas do passado.

(19)De [Raphael, cap. V, pp. 158-9]

Os rabinos frequentemente reportam-se à questão de quem será ressuscitado no fim dos dias. Não houve uma crença uniformemente aceita. Pelo contrário, a literatura rabínica exibe uma ampla diversidade de opiniões sobre essa questão.

Em alguns casos, demonstra-se uma crença universalista de que todos – judeus e gentios, justo ou ímpios – serão ressuscitados:”Os que nascerão estão destinados a morrer e os mortos a serem trazidos à vida outra vez” (M. Avot 4:29). Outras passagens, contudo, alegam que “a ressurreição está reservada para Israel” (Gênesis Rabbah 8:6).

Outros rabinos, porém, criam que apenas os justos seriam ressuscitados [cita Taanit 7a].

Para a literatura apócrifa intertestamentária, cf. [Raphael, cap. IV, pp. 109-14].

(20) Cf. O Livro das Crenças e Opiniões, tratado VII.

(21) Cf. [Raphael, cap. VIII, p. 325].

(22) Cf. Tratado sobre a Ressurreição.

(23) No catolicismo romano existe a noção de “batismo de desejo” para os que buscaram viver de acordo com os ditames da “Lei Natural e Sobrenatural” de Deus, ainda que não tenham recebido nenhum de catequese (“estado de ignorância invencível”). É uma solução um tanto remendada para a impossibilidade de se pregar o evangelho a todos antes do retorno de Jesus, mas é difícil pensar em algo melhor no contexto de “vida única”. Existe, ainda, a salvação dos predestinados, conforme parte do protestantismo, que pode até ser uma doutrina com coerência interna, embora indigesta para quem está de fora.

(24) Alguns excertos de [MacGregor]:

A Bília não ensina explicitamente o reencarnacionismo. Ou seja, não há pronunciamento algum sobre a questão, seja no Antigo Testamento ou no Novo, ao qual se possa indicar e por meio do qual forçar a aceitação de uma pessoa que se sinta obrigada a receber como revelação divina tudo que está claro e inequivocamente afirmado na Sagrada Escritura. Não exite tal justificativa bíblica para a reencarnação

Cap. I, p. 16

Isso não impediu que MacGregor visse alguma noção de reencarnação implícita em passagens até hoje debatidas, como o episódio do “cego de nascença” (Jo 9) ou a dualidade Elias/João Batista. A doutrina explicitamente descrita na Bíblia foi a da ressurreição. Sobre ela, foi dito:

Pela época de Cristo, o conceito de um julgamento final fora desenvolvido, de modo que tanto o Paraíso e a Gehena podiam ser, algumas vezes, entendidos como temporários, estados intermediários. Outras noções, contudo, fora introduzidas no pensamento judaico. A origem das influências que as trouxeram para dentro é obscura e de modo algum precisamos nos preocupar aqui. A mais notável dentre essas noções era a da ressurreição, que surgiu no período macabeu. O Livro de Daniel se refere a ela de forma quase casual, como se fosse uma crença já duradoura, embora tudo que sabemos do pensamento hebreu antigo faça inacreditável tal pressuposto (5). Referências para a ressurreição para a vida eterna são abundantes na literatura judaica apocalíptica, apócrifa e deuterocanônica(6) do período imediatamente anterior a Cristo. Os escritos do Novo Testamento claramente afirmam que a doutrina da ressurreição era adotada pelos fariseus, mas não pelos samaritanos, nem pelos saduceus(7). O historiador judeus Josefo confirma esse testemunho do Novo Testamento. Pela época em que Paulo escrevia suas cartas às Igrejas, a situação do cristãos mudara radicalmente por causa da crença de que Jesus, após sua morte na Cruz, fora “erguido dos mortos.” Paulo e outros ensinaram que, em razão dessa suprema demonstração do poder de Deus em Cristo, os cristãos podiam esperar ser erguidos por ele e com ele para a vida eterna (8). João ensina que “no último dia” Jesus erguerá [ressuscitará] os que os que creem em Cristo (9). A prometida ressurreição é a ressurreição para a nova vida com um novo e glorificado corpo (soma). Paulo deplora a noção. que aparentemente fora proposta, de que a ressurreição já ocorrera aqui e agora. Tais ensinamentos, avisa a Timóteo, “são discussões filosóficas vãs” e corrosivas à verdadeira fé (10). No entanto, embora a esperança cristã da ressurreição esteja especificamente associada à crença na ressurreição de Cristo, o caminho já havia sido preparado para a ideia de ressurreição por seu desenvolvimento no pensamento tardio pensamento judaico pré-cristão. Tal ideia havia tomado várias formas; mas o que é mais importante para nós reparamos é o fato de que o patrimônio dos primeiros cristãos tinha os acostumado a pensar em tais termos.

Notas de MacGregor:
(5) Dn 12:2.
(6) Ver, por exemplo, 2 Mac 7:9, 14:46.
(7) Mt 22:23, Mc 12:18, Lc 20:27, At 23:8.
(8) Ex. 2 Co 4:14, Fp 3:10, 2 Tm 2:11. Paulo expõe sua opinião sobre o tema especificamente em I Co 15.
(9) Jo 11:25, 6:39.
(10) 2 Tm 2:17.

Cap. IX, p. 91

Será que esse cara é teósofo, mesmo?

A noção de reencarnação como é entendida em termos upanixades [hindus], em associação com doutrinas kármicas, era, obviamente, irrelevante uma situação que era assim compreendida. Uma doutrina de pré-existência das almas, porém, não o era, e nenhuma forma em que uma teoria reencarnacionista se apresentasse às mentes dos cristãos naquela situação [de crença no iminente fim dos tempos] poderia se referir ao futuro. A reencarnação pode ter ocorrido no passado; não poderia ocorrer neste mundo no futuro, já que não haveria tal mundo.

Cap. IX, p. 94

Sinceramente, se houvesse mais espiritualistas como ele, a seção “Reencarnação na Bíblia” seria desnecessária. Não assino embaixo de tudo ele diz e creio que derrapa às vezes na reconstrução histórica, mas acho que merece uma lida pelos que sabem inglês. Ele é muito superior a seus congêneres nacionais e os, até agora, estrangeiros traduzidos.

(25) Bem, continuamos aguardando a previsão da questão 798 do Livro do Espíritos. Mas com certeza ela não se cumpriu “em duas ou três gerações”.

(26)Albrecht [cap. VI, p. 63] apontou descrepâncias entre os resultados de Stevenson e Helen Wambach (adepta da regressão via hipnose), como, por exemplo, uma comum troca de grupos étnicos entre uma reencarnação e outra segundo Wambach, ao passo que os casos mais fortes de Stevenson não dão sustento a isso; o intervalo médio entre vidas também varia em cerca de 51 anos para Wambach e apenas 5-10 anos para Stevenson. Fazendo uma hipótese ad hoc, poderia ser apenas uma diferença no do tipo de reencarnação com que cada autor trabalhe, i.e., um entre vidas longo pode dificultar recordações espontâneas. De qualquer forma, vale ver a nota nº 7 sobre a opinião de Stevenson sobre a regressão induzida.

(27)Nas palavras de Stevenson:

Não devemos, pois, ficar surpresos que a incidência de casos entre os drusos seja talvez a mais alta no mundo

Twenty…, cap. VI, p. 274

Ver também em “Bebendo Água da Mesma Fonte”, como a crença entre os igbos da crença em reencarnação múltiplas simultâneas aumenta as alegações desses casos.

(28)Twenty…, Introdução, p. 4.

(29)Twenty…, Introdução, p. 6.

(30)Lembremos que Twenty… é “pré-Internet”.

(31)Cf. [Albrecht, cap. VI]. Óbvio que Stevenson elaborou protocolos para minimizar essas fraquezas.

(32)Um debatebor espírita, Marcos Arduin (vulgo “Botânico”), declarou certa vez quevários documentos de Kardec se perderam e os que sobraram estão de posse da família [de] Canuto Abreu, que se recusa em trazê-los a público, infelizmente. ” Canuto Abreu foi o organizador da edição bilíngue da primeira edição do Livro dos Espíritos, em comemoração ao centenário dessa obra (1957), tendo ido à França buscar material. Considero Arduin uma fonte idônea, mas ainda assim é um relato informal. Se alguém puder fornecer mais consistência a essa alegação, entre em contato.

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Para Saber Mais

– Albrecht, Mark; Reincarnation – A Christian Appraisal Inter Varsity Press, 1982.

– Blau, Yitzchak; Body And Soul:Teh.iyyat ha-Metim and Gilgulim in Medieval and Modern Philosophy, publicado em The Torah u-Madda Journal (10/2001).

– Ehrman, Bart; Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millenium, Oxford, 1999.

– Kardec, Allan; O Primeiro Livro dos Espíritos (1857), Organização de Octávio Caúmo Serrano, João Pessoa:Idéia, 2009.

– MacGregor, Geddes,Reincarnation in Christianity, The Theosophical Publishing House, 1989, 4ª impressão.

– Raphael, Simicha Paul; Jewish Views of the Afterlife, Rowman & Littlefield Publishers, 2004

– Schödinger, Erwin; O que é Vida?/Mente e Matéria, UNESP/Cambrige, 1997.(Ver também “O que é Vida?”: 50 anos depois, diversos autores, UNESP, 1997)

– Stevenson, Ian; Twenty Cases Suggestive of Reincarnation, The Universty Press of Virginia, 2ª ed., 5ª impressão em brochura, 1999.

______________; Children who Remember Previous Lives – A Question of Reincarnation (revised edition), McFarland & Company, 2001.
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Espiritões

30 de abril de 2012 3 comentários

Por Acauan Guajajara, do Religião é Veneno

Todo mundo conhece o termo “crentão”, usado para se referir àquele tipo de evangélico que não pula da cama enquanto não acha na Bíblia uma passagem que lhe diga se deve fazê-lo pelo lado esquerdo ou direito e tem sempre na ponta da língua um versículo que prova o quanto ele é mais competente para opinar sobre a vida dos outros do que os próprios.

A composição química do crentão, muitas vezes, é um azeótropo de arrogância e hipocrisia que tende a ser segregado até por seus próprios irmãos de crença melhor providos de simancol e fé sincera.

Se esta espécie é naturalmente associada ao habitat evangélico, alguns exemplares que melhor personificam este comportamento são encontráveis no grupo religioso cujas autodefinições o tornaria o mais insuspeito de abriga-los: os espíritas kardecistas.

Os espíritas gostam de se apresentar e à sua doutrina como uma religião moderna, que fez o casamento ideal entre a fé e razão, entre religiosidade e ciência, pairando eles acima dos fanatismos dogmáticos ou da miopia doutrinária, características de cultos menos esclarecidos.

Qualquer um que acredite nisto é porque nunca conheceu o crentão espírita, o espiritão.

O espiritão tem todos os defeitos do crentão evangélico e mais um – o jargão.

Alguém aqui já ouviu um espiritão explicando tecnicamente como a rotina do Evangelho no Lar fluidifica a água da residência e assim contribui não só para a saúde espiritual, como física dos residentes?

Eu já, é ridículo pois o “Evangelho no Lar” é feito em cima do “Evangelho Segundo o Espiritismo” do Kardec, possivelmente o livro religioso mais sem pé nem cabeça que já foi escrito, não se fluidifica (fluidifica???) algo que já é fluido e esta história de água curativa é mais velha que água benta, que por sinal é como gente menos pedante chama a tal “água fluidificada”.

Tudo que o crentão faz, o espiritão faz melhor (no entender dele próprio, claro), já que enquanto o primeiro se baseia apenas na Bíblia, o segundo além desta conta com os livros da codificação (aqueles troços que o Kardec escreveu), com o poder do pensamento científico e com o auxílio direto das equipes de apoio espirituais, com as quais se comunica diretamente através de algum tipo de conexão de banda larga com o Além.

Enquanto o pobre crentão se limita a repreender demônios em nome do Senhor Jesuis, o espiritão opera as práticas iniciáticas da desobsessão, no qual se vale tanto do saber do mundo material quanto do espiritual para aprimorar o que o crentão faz, ou seja, iludir-se e aos incautos de que foi o responsável por algum mau espírito parar de encher o saco de alguém.
E tem o papo das vibrações.

Espiritão que se preza adora falar de vibrações. Alguns vão além e como verdadeiras antenas orgânicas transmitem e recebem sei-lá-o-quê. Uma vez eu estava na condição de observador em um evento espírita e a certa altura alguém recomendou que os presentes vibrassem pela paz no mundo (ou algo parecido). Eu fiquei na minha, claro, mas o cara do meu lado, não me pergunte como, estava lá todo concentrado – vibrando pela paz no mundo. Eu ia perguntar qual é o truque para se transformar num diapasão espiritual, mas muito provavelmente não iria poder continuar observando muita coisa por lá depois disto.

E quem acha esquisito testemunho de crentão, deveria ouvir testemunho de espiritão. Os crentes que testemunham pelo menos se declaram vivos e aparentemente estão. Espírita sempre dá um jeito de descolar um testemunho de alguém que já teria batido as botas, quase sempre falando exatamente as mesmas coisas que outro cara que já teria batido as botas falou em algum outro evento espírita anterior.

No campo das curas então a competição é braba. O crentão junta a sua turma, faz as orações coletivas e individuais pelo enfermo, pede a intercessão do Senhor Jesuis e se o cara se recupera tem-se mais um testemunho de cura divina, às vezes esquecendo-se que o tratamento médico pode ter ajudado um pouquinho também. Se o paciente morre ou continua entrevado, fazer o que, Deus quis assim e vamos tocar a vida até o próximo doente.

Com o espiritão é diferente. Para ele esta história de orar pedindo curas divinas é pura superstição. Como cientificista convicto, o espiritão sabe que a esperança reside na medicina. Assim, quando decidido a auxiliar na recuperação de algum doente ele convoca uma junta médica espiritual, que disponibiliza generosamente, em prol da cura do paciente, tecnologias clínica e cirúrgica infinitamente superiores àquelas operadas pelos simples mortais. Ou seja, nada a ver com aquele misticismo primitivo dos crentes.

Aviso: Nunca use a palavra magnetismo perto de um espiritão. As dissertações que ele fará te levarão a acreditar que tudo que te ensinaram na escola sobre o tema estava errado.

Mas eu gosto dos espíritas, os espiritões são muito chatos, mas também são pessoas extremamente empenhadas em ações de caridade anônima, que sustentam creches, orfanatos, escolas para excepcionais etc, sem que ninguém saiba que a comunidade kardecista é a mantenedora destas instituições.

Mas que os espiritões são muito chatos, isto eles são.

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Kardecismo x Espiritismo x Cristianismo: O Poder das Definições (para o Bem e para o Mal)

22 de fevereiro de 2012 3 comentários

Índice

  • BBB 12: A Polêmica interna e a Externa
  • Pensando “Naquilo”
  • Cristianismos pra que Te Quero
  • Cristianismo e Espiritismo
  • Kardecismo e Espiritismo
  • Quem detém a Definição, detém o Poder
  • Notas
  • Para Saber Mais

    BBB 12: A Polêmica interna e a Externa


    No começo de 2012, ocorreu um controverso incidente no Reality Show “Big Brother Brasil 12”, promovido pela Rede Globo de televisão. Após uma festa regada a bastante álcool, um dos participantes masculinos foi para a cama com uma colega de confinamento. Encobertos por um edredon, o casal começou a realizar o que de início pareciam ser carícias, que foram ficando mais e mais intensas até sugerirem que ocorria realmente um ato sexual debaixo daquelas cobertas. Só havia um porém: apenas o rapaz se mexia, enquanto a moça parecia inerte, como se grogue da bebida. A versão integral da cena ficou apenas disponível para os assinantes do pay per view, mas foi a faísca que bastava para explodir uma série de discussões na Internet e, em seguida, na imprensa sobre a possibilidade de um estupro ter sido ter sido transmitido ao vivo na “TV paga”, a ponto de as instalações do programa receberem a visita de oficiais de justiça para coleta de depoimentos e material para análise (o edredon entre eles). Constrangida pela repercussão, a emissora desclassificou o participante masculino, embora o apresentador do BBB 12 apenas informasse que ele “violou regras”, sem dizer quais eram. No momento em que este artigo é redigido, ainda não foram concluídas as investigações.

    Essa foi a polêmica interna do BBB 12. Do lado de fora, o bafafá coube aos que apontavam sérios indícios de estupro e a “turma do deixa disso”, afinal os dois já formavam “um casal” dentro programa, foi tudo farra, não houve violência, etc. De fato, caso se considere que estupro só acontece entre desconhecidos, em algum lugar ermo, sob a ameaça de uma arma e vitimando “boas moças”, então magicamente um bom percentual de estupros deixou de ocorrer no passado e não ocorrerá no futuro. Ter-se-á desconsiderado os casos que envolvem maridos (estupro marital), familiares, amigos, colegas de trabalho. Não será dado às prostitutas o direito recusar clientes e serão ignoradas outras formas de coerção, como chantagem ou o uso de drogas. Por sinal, a droga aqui em questão é o álcool e lei brasileira enquadra bem esse caso:

    LEI Nº 12.015, DE 7 DE AGOSTO DE 2009.
    Estupro de vulnerável

    Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos:

    Pena – reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.

    § 1o Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência.

    Para a polícia, o problema todo reside, agora, em saber se a moça estava bêbada demais para entender o que estava acontecendo com ela e/ou oferecer resistência. Vale lembrar que o suspeito é inocente até que se prove o contrário e tem a seu favor o depoimento da moça. Aguardemos a conclusão das investigações.

    Nota: Em 20/03/2012, O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro encerrou o inquérito policial contra o modelo Daniel Echaniz, investigado pelo crime de estupro de vulnerável, durante a participação no “Big Brother Brasil 12”.
    O Tribunal entendeu que, de acordo com o depoimento de Monique, a suposta vítima do abuso, não houve crime e arquivou o inquérito. Com isso, foi suspensa também a proibição de o modelo sair do país, como já havia pedido à Justiça a advogada de Daniel.

    Adaptado de Justiça do Rio arquiva inquérito contra Daniel por suposto estupro no BBB12

    Você pode até achar que se aproveitar de uma pessoa desacordada não é algo tão grave assim quando comparado com uma versão “clássica” de estupro exposta acima, mas o juiz e o promotor não vão querer saber de sua opinião. Nem seus futuros companheiros de cela. Muito menos tente racionalizar declarando coisas como: “ela não deveria ter bebido”, “ela se insinuava”, etc.; porque a motivação do criminoso não interessa. Se acha a lei exagerada e vaga demais, então eleja políticos mais machistas que a mudem, pois, por ora, é com ela que os juristas irão se balizar (1).

    Deixo claro que este portal não é criminalista, apenas está usando um exemplo que talvez seja de conhecimento geral como apresentação para uma questão mais ampla a afetar todas as discussões filosóficas: o poder de uma definição. Poder-se-ia dizer que quem impõe sua definição aos demais já está a meio caminho de ganhar um debate. Por isso que o machismo atávico ainda presente na sociedade brasileira tende a restringir a definição de estupro, ao passo que as feministas preferem generalizá-lo, às vezes em níveis paranoicos(2).
    [topo]

    Pensando “Naquilo”

    Paulsen: Adão e Eva

    Felizmente, juízes e advogados têm parâmetros (princípios, leis, jurisprudências, etc.) que reduzem a subjetividade de suas avaliações, mas isso é algo que não se dispõe na maioria das discussões mundo afora. Um tema relacionado com o mencionado acima é “SEXO”. Como defini-lo? Ninguém deve duvidar que a cópula entre homem e mulher é sexo, mas e se isso ocorrer por estupro? Para a vítima e, creio, para maioria dos leitores a resposta é “não”, mas o contrário se dá para o criminoso. Não tanto tempo atrás no ocidente, e ainda em alguns lugares do mundo, qualquer mulher deflorada não era (é) considerada virgem. Por mais violento e doloroso que fosse o ato, aos olhos alheios ela tinha seu valor para de matrimônio significativamente reduzido. E se a existência de carinho é fundamental para que haja sexo, como classificar os serviços prestados por uma prostituta? Simulação?

    Mesmo que nos restrinjamos apenas ao sexo “consensual” e “gratuito” (3), a nebulosidade persiste. Será que homossexuais masculinos não fazem sexo? Lésbicas o fazem apenas quando se valem de consolos? Estava o ex-presidente norte-americano Bill Clinton certo ao chamar sexo oral de “relação imprópria” por ocasião do escândalo que quase lhe custou o cargo? De fato, restringir o termo “sexo” apenas à relação pênis/vagina é limitar demais a sexualidade humana. Por outro lado, expandi-la também traz complicações, por exemplo, como enquadrar o beijo? Em nossa sociedade liberal, a maioria o consideraria, no máximo, uma preliminar. Por outro lado, é um ato que precisa de duas pessoas, possui estilos e uma “primeira vez” pode ser até mais agradável e saudosa que a dos “finalmentes”, além de também ser capaz de transmitir algumas DST’s. E quanto à masturbação? Ela, com a devida higiene, não transmite doenças e é solitária, mas atua diretamente mos genitais, sendo considerada pecaminosa para vários grupos cristãos. Se a estimulação genital ocorre entre duas pessoas, então fica difícil descartar isso como já dentro das fronteiras do sexo “propriamente dito”. Ou não?

    Assim, qualquer coleta de dados estatísticos a respeito da sexualidade humana corre o risco de distorcer a realidade, porque:

    • É comum se mentir a respeito da própria sexualidade, muitas vezes por se ter vergonha de confessar que pouco pratica quando todo o resto “aparenta” estar fazendo muito ou por pura presunção;
    • Afinal, o que deve ser contado como “relação sexual”? (4)

    Na realidade, não existe uma definição consistente para “sexo”. Em vez disso, há um amplo espectro de práticas sexuais cada qual avançando mais ou menos em alguma das dimensões que um relacionamento entre duas pessoas pode ter (afeição, intimidade, libido, prazer, reprodução, etc.). Pode-se cogitar que para há uma definição mais adequada para cada necessidade. Para um genecologista, a restritiva definição de sexo como cópula entre suas pacientes e seus parceiros lhe satisfaz na maioria das circunstâncias (relações lésbicas à parte). Um agente social empenhado em uma campanha de prevenção de prevenção a DST’s tem uma gama de situações maior para lidar. Um padre, então, tem de levar em conta até as confissões de “sexo virtual” em seu ofício.

    Se o leitor acha que este artigo está carnal demais, não se preocupe. Há um grupo de (supostos) abstêmios ou fiéis monógamos que também só “pensa naquilo” em razão de, entre outros motivos, sua filosofia de vida ser tão difusa quanto a definição de sexo: os devotos religiosos cristãos.
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    Cristianismos pra que Te Quero

    Não há razão para duvidar que a mensagem de Jesus tenha sido única. A questão é que seus ensinos foram todos orais, repassados, segundo a tradição cristã, em profundidade para um seleto grupo de discípulos, os doze apóstolos. Não é provável que cada um os tenha assimilado da mesma maneira, ninguém pensa igual. Talvez para evitar essa possibilidade, o livro de Atos passa a ideia de que todas as decisões entre os primeiros cristãos eram tomadas em conjunto e as desavenças que surgiam eram sanadas por assembleias, mas é duvidoso que sempre chegassem a um consenso. Uma questão particular foi o modo como os gentios poderiam ser aceitos entre eles: deveriam se tornar judeus antes de cristãos ou estariam dispensados disso? Atos (cap. XV) informa que ganhou o grupo de Paulo (que não conheceu Jesus pessoalmente, a não ser em uma visão), ao convencer os apóstolos originais de que gentios precisariam seguir apenas os mandamentos de Noé e não a Lei Mosaica. Nem tudo, porém, parece ter corrido tranquilamente depois dessa decisão. A própria literatura patrística dá indícios de ainda existirem cristãos judaizantes até o século III (5) e chegou até nós uma amostra da literatura desse grupo – As Epístolas Pseudo-Clementinas. Supostamente atribuídas a Clemente de Roma, elas narram suas jornadas ao lado de Pedro com um viés judaizante e antipaulino. Nem é preciso recorrer à literatura apócrifa, pois o próprio Novo Testamento, na Epístola aos Gálatas, temos Paulo a esbravejar contra certos “falsos irmãos que se intrometeram, e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade, que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão” (Gl 2:4), por ainda insistirem na prática da Lei.

    Paulo também demonstra grande ênfase na fé na ressurreição de Jesus como única forma de alguém se tornar justo perante Deus, uma opinião que não deve ter sido unânime para a primeira e segunda geração de cristãos. Do contrário, não teríamos discrepâncias como esta:

    E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano,

    E algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí?

    Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.

    Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.
    Tg 2:15-18

    * * *

    Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus.

    Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.

    Não vem das obras, para que ninguém se glorie;

    Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.
    Ef 2:7-10

    Nesse caso, parece que algum discípulo de Paulo foi pregar em outra freguesia e se chocou com cristãos mais afinados com postura éticas dos sinópticos. A mensagem de Paulo é que era, ali, a intromissão. E ela não deixou de evoluir após a morte do “apóstolo de gentios”, ganhando uma versão radical no século II pela defesa de Marcião da eliminação de quaisquer resquícios de judaísmo e a adoção única do Pai amoroso de Jesus, em contraposição ao implacável Iahweh do Antigo Testamento.

    Ainda que a tendência das comunidades cristãs fundadas por judeus para judeus fosse manter a reverência à Lei, restou-nos um caso de uma comunidade que nasceu judia, foi rejeitada pelos judeus não cristãos e, por fim, pôs-se contra o judaísmo: a comunidade do Evangelho de João. Dessa comunidade surgiu uma dissidência que começou a negar uma real encarnação de Jesus (cf. epístolas joaninas): Jesus não somente era Deus, mas era completamente divino, apenas aparentando estar na carne(6). Essa cristologia, aliada à visão joanina de Jesus como um salvador enviado dos céus, possivelmente se harmonizou com algum misticismo gnóstico do mundo helênico, dando origem ao gnosticismo cristão.

    Evolução dos grupos cristãos.

    Desenvolvimento do cristianismo primitivo
    Adaptado de [Theissen, p.345].

    O cristianismo se tornou aquilo que os cristãos fizeram com ele. Cada comunidade fundada o adaptava conforme sua origem (gentio/judaica), sua vivência e ao inexorável avanço do tempo (e a demora da parúsia). Talvez se Jesus tivesse deixado algo de próprio punho, a dispersão fosse menor, mas nem assim isso seria certo, pois:

    • O texto de seus escritos poderia ser corrompido;
    • Se fossem herméticos demais, produziriam uma infinidade de interpretações;
    • Ainda que fossem redigidos numa linguagem simples e objetiva, dificilmente seriam exaustivos. A exemplo de nossos códigos de leis, não seria possível abordar todas as nuances da vivência humana. Seus continuadores teriam de usar o material existente para avaliar uma questão descoberta, ou seja, teriam de fazer julgamentos subjetivos, um passo dado para vários conflitos de opinião.

    Se fizéssemos um retrato do cristianismo no final do século II, teríamos um mosaico de seitas, variando nas dimensões de grau de judaísmo e no teor místico da mensagem e natureza de Jesus. Todas alegavam ser o verdadeiro entendimento de sua mensagem, estando as mais antigas a declarar suas dissidências como hereges ou endemoninhadas e essas a acusar sua antigas matrizes de terem um entendimento imperfeito. Todas produziram missionários sinceros a competir uns com os outros pelos corações dos fiéis. O final da história o leitor já conhece: ganhou o grupo que

    • Aceitava gentios como gentios, ganhando um potencial número de prosélitos muito maior;
    • Não rejeitava herança judaica, ganhando aos olhos de muitos uma respeitabilidade por ser “doutrina antiga” e “profecia concretizada”;
    • Manteve uma mensagem simples o bastante para as massas;
    • Ainda permitia voos filosóficos para uma elite intelectualizada.

    Outros fatores podem ser levados em conta – como uma organização melhor e hierarquizada -, mas o que aqui tem mais relevância foi a vitória do grupo mais eclético, que seria depois conhecido com protocatolicismo ou proto-ortodoxia. Isso se percebe graças à vantagem de termos uma visão em retrospectiva dos fatos. Para os cristãos dos séculos II, porém, a disputa estava longe de um desfecho previsível.

    Mesmo com a vitória da ortodoxia, ela não parou de evoluir. Muitas questões doutrinárias ainda estavam pendentes após a legalização do cristianismo pelo imperador romano Constantino (312 d.C.), a principal delas, sem dúvida, era relação de Jesus com o Pai. Desde a finalização do Evangelho de João, Jesus exibia atributos divinos, embora estivesse em aberto era de que jeito ele seria divino. Após várias idas e vindas – que fogem do escopo deste artigo – venceram (os debates) os partidários da atual fórmula Trinitária, que ganhou os contornos quase finais no Concílio de Calcedônia (451 d.C.), apesar de na metade oriental do Império ainda fossem fortes os que defendiam uma total dissolução da parte humana de Jesus dentro da divina (monofisistas) e na Pérsia se difundissem os que pregavam uma separação radical entre as duas naturezas (nestorianos). No ocidente, os governantes dos reinos bárbaros que se formaram após a queda do Império Romano do Ocidente ou eram pagãos ou adotaram o cristianismo ariano (Jesus inferior ao Pai e criado por Ele). De certa forma, a vitória de Calcedônia era mais formal, do que algo realmente concreto.

    A maré mudou com a inesperada e retumbante ascensão do Islã, que tomou de roldão a Pérsia, a Síria, a Palestina, o Egito, o Magreb , a Espanha e deixou Constantinopla na defensiva. No ocidente, ocorreu a inesperada conversão dos Francos ao catolicismo e posterior hegemonia de seu reino em aliança quase simbiótica com o papado. Roma agora podia falar em pé de igualdade com Constantinopla e, como não tinham mais como agir sobre os territórios agora em poder islâmico, começaram uma disputa pela primazia política alimentada por minúcias doutrinárias, que culminou com o “Grande Cisma do Oriente” (1.054). A Igreja oriental se espalhou dos gregos para a maior parte dos povos eslavos e, com a queda de Constantinopla para os turcos otomanos (1.453), as dioceses locais começaram a assumir autonomia. O ocidente se recuperou de um cisma temporário (1378 a 1417) e lançou cruzadas contra hereges locais (cátaros), mas acabou sofrendo grande abalo com a Reforma Protestante, iniciada em 1.527 e duradoura até hoje. Ao contrário dos cismas anteriores, não há nenhuma liderança geral ou líderes locais definidos para os cristãos protestantes, o que leva à contínua ramificação de grupo, tornando praticamente impossível uma reunificação total com o cristianismo católico.

    Alguém poderia pensar que o atual estado das igrejas cristãs é tão fragmentário quanto no século II, mas isso seria enganoso. Se pudéssemos transportar um proto-ortodoxo daquela época para o presente, ele provavelmente acharia a maior parte da doutrina das atuais igrejas compatível com o que ele estava acostumado, ainda que os ritos fossem um tanto diferentes. A contrário da dissonância do século II, o bojo do cristianismo atual é constituído, basicamente, por variações de um mesmo tema: a ortodoxia cristã do Concílio de Niceia (325 d.C.). Então qual o espaço para um cristianismo destoante da ortodoxia no mundo moderno?
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    Cristianismo e Espiritismo

    Acredito que sejam basicamente três as hipóteses que levantam a sobre a relação entre o espiritismo e o cristianismo:

    1. O espiritismo é uma religião cristã e não só isso, ela é a verdadeira manifestação do cristianismo antigo redivivo, centrado no amor e na caridade, adepto da reencarnação e praticante da mediunidade, portanto livre das corrupções acumuladas por quase dois milênios;
    2. O espiritismo possui alguns elementos que estavam presentes no cristianismo primitivo, carece de uma parte e é inovador em outros. No seu trato com a Escritura, ele dá novo significado a textos que originalmente tinham outros propósito, ou seja, uma forma de interpretação conhecida como “pesher”, que já foi usada por judeus, em seus comentários rabínicos, e por cristãos, ao justificar o Novo Testamento reinterpretando o Antigo;
    3. O espiritismo não é cristianismo, porque não aceita Jesus como salvador, não crê na ressurreição da carne, não tem sucessão apostólica, não aceita a Santíssima Trindade, prega a reencarnação, etc.

    Faço a aposta de que espíritas nais tacanhos vão assumir a primeira alternativa e os cristãos “tradicionais” (i.e., católicos e protestantes) mais tacanhos ficarão com a última. A minha preferida é, tacanhamente, a segunda, e não descarto que alguém possua outras alternativas a essas três.

    Infelizmente, essa atitude dá margem para que ambos me acusem de “ficar em cima do muro” por não querer me indispor com nenhum deles. Na verdade, quero me indispor com os dois e com qualquer outro grupo ou pessoa que considere ser obrigatório responder a todas as perguntas com um simples “sim” ou “não”. E o caráter cristão (ou não) do espiritismo cai nessa zona de perguntas complexas, onde nada é “preto no branco” e isso por um simples motivo: não há uma definição clara e única do que seja cristianismo. Não há nem mesmo consenso entre os historiadores sobre quem foi o “Jesus Histórico”. Há os que o apontam como um profeta apocalíptico (a minha tese preferida), como tantos de sua época; outros o veem como o adepto de uma espécie de contra-cultura, um hippie fora de época similar a outros “filósofos cínicos” do passado clássico; uns pensam que ele era um reformador social, ao estilo da “Teologia da Libertação” moderna; um feminista da Antiguidade, e há os que, até mesmo, o reduzem a um mago-curandeiro, como tantos outros de sua época. Todas essas opiniões, porém, têm um ponto em comum: ele era judeu e como um judeu intertestamentário deve ser estudado. Se, pelo que os indícios sugerem, não houve consenso com relação às teses de Paulo de Tarso, então, se você quiser realmente posar de continuador do cristianismo primevo, submeta-se à circuncisão (se for homem), ingira apenas comida kosher e guarde o sábado como dia santo. Aliás, existem seitas judaico-cristãs modernas que se propõem a reviver o credo dos apóstolos originais. Todas, contudo, possuem um problema em comum: o mundo em que Jesus viveu não existe mais. Para ser preciso, não existe desde de a destruição do Segundo Templo. De certa forma, elas lembram os dinossauros da série Jurassik Park, como seres extintos que foram ressuscitados, embora não fosse possível devolver-lhes ao habitat original. Extrapolando essa comparação, as seitas ortodoxas de hoje estariam para os cristãos primitivos assim como os pássaros estão para os dinossauros: são descendentes diretos de um grupo específico deles, mas se diferenciaram consideravelmente de seus ancestrais e são apenas o desdobramento de uma entre diversas possibilidades evolutivas antes da queda o meteoro no fim do Cretáceo (ou Niceia). E não poderia ser diferente, pois só se adaptando puderam angariar prosélitos e resistir à passagem do tempo, do contrário o cristianismo seria, no máximo, apenas mais uma seita judaica quase engolida pelo rabinismo.

    O espiritismo, por sua vez, não pode alegar uma descendência direta. Como religião, ele cai na classe dos credos revelados, em que material totalmente novo (vindo por revelação “superior”) é adaptado e justaposto a algum substrato prévio. As três religiões abraâmicas – judaísmo, cristianismo e islã – também o são, mas seria razoável considerar o cristianismo uma facção do judaísmo e o islã uma facção de ambos? Em sua origem, o cristianismo foi, sim, uma seita judaica, mas deixou de sê-lo em razão de dois processos que ocorreram a partir do final do século I:

    • A rejeição da sinagoga: processo ocorrido notadamente com a comunidade joanina. Essa comunidade rejeitada passou a adotar, em resposta, uma postura francamente antissemita (cf. Jo 8:31-59);
    • O surgimento do cristianismo gentio: capitaneada pela pregação paulina, a expansão do cristianismo ocorreu majoritariamente sobre um substrato sem memória do judaísmo.

    Certo que judeus-cristãos continuaram a existir por algum tempo, mas não foram bem sucedidos em angariar prosélitos.

    O islã se considera continuador dessas duas religiões monoteístas, guardando em seus ensinamentos especial respeito pelos “Povos do Livro” (judeus e cristãos). Maomé teve contato como ambas durante sua vida, que lhe legaram princípios de conduta moral e aspectos ritualísticos (circuncisão, restrições dietéticas, etc.), mas nenhum de seus livros passou diretamente ao islã, a mensagem final de Deus veio diretamente da recitação (Corão) feita por Maomé. Assim os primeiros islâmicos já o foram exclusivamente desde de sua conversão, que se processou em cima de um povo originalmente politeísta. O islã, sem dúvida, já nasceu bem independente de suas antecessoras.

    O surgimento do espiritismo aparenta ser uma versão incompleta desses dois processos. Tal como o cristianismo nasceu como uma variedade de judaísmo, o espiritismo se originou na França católica do século XIX sem originalmente ambicionar ser uma dissidência. Aliás, as pesquisas espíritas poderiam até mesmo ser feitas em outras culturas:

    Em sua origem, o Cristianismo teve de lutar contra uma potência perigosa: o paganismo, então universalmente disseminado. Entre eles não havia nenhuma aliança possível, como não há entre a luz e as trevas; numa palavra, não poderia propagar-se senão destruindo o que havia. Assim, a luta foi longa e terrível, de que as perseguições são a prova. O Espiritismo, ao contrário, nada vem destruir, porque assenta suas bases no próprio Cristianismo; sobre o Evangelho, do qual não é mais que a aplicação. Concebeis a vantagem, não de sua superioridade, mas de sua posição. Não é, pois, como o pretendem alguns, quase sempre porque não o conhecem, uma religião nova, uma seita que se forma à custa das mais antigas; é uma doutrina puramente moral, que absolutamente não se ocupa dos dogmas e deixa a cada um inteira liberdade de suas crenças, pois não impõe nenhuma. E a prova disto é que tem aderentes em todas, entre os mais fervorosos católicos, como entre os protestantes, os judeus e os muçulmanos. O Espiritismo repousa sobre a possibilidade de comunicação com o mundo invisível, isto é, com as almas. Ora, como os judeus, os protestantes e os muçulmanos têm almas como nós, o que significa que podem comunicar-se tanto com eles quanto conosco, e que,
    conseguintemente, eles podem ser espíritas como nós.

    Revista Espírita, outubro de 1861, “Discurso do Sr. Allan Kardec”

    Mas nem tudo era tão promissor assim. Nessa mesma edição da revista, Kardec relata os primeiros sinais de séria reação católica às teses espíritas:

    Até este momento o Espiritismo não havia sido atacado seriamente. Quando certos escritores da imprensa periódica, em seus momentos de lazer, se dignaram ocupar-se dele, foi apenas para o ridicularizar. Trata-se de encher um rodapé, de fornecer um artigo a tanto por linha, não importa sobre que assunto, desde que a contagem dê certo. De que matéria tratar? Tratarei de tal coisa? pergunta a si mesmo o redator encarregado da parte recreativa do jornal. Não; é muito séria. E daquela outra? É assunto por demais repetido. Inventarei uma autêntica aventura da alta sociedade, ou da gente do povo? Nada me vem à mente neste quarto de hora e a crônica escandalosa da semana ainda está por fazer. Ah!tive uma ideia!Achei o meu assunto!Vi em algum lugar o título de um livro que fala de Espíritos; e há em toda parte gente bastante tola para levar isto a sério.

    (…)

    Mas eis que surge um novo campeão, que pretende esmagar o Espiritismo por outro meio: trata-se do Sr. Georges Gandy, redator da Bibliographie Catholique, atirando-se num corpo-a-corpo em nome da religião ameaçada. E vejam só!a religião ameaçada por aquilo a que chamais de utopia!Tendes, pois, bem pouca fé em sua força; acreditais, assim, na sua vulnerabilidade, desde que temeis que as ideias de alguns sonhadores possam abalar os seus fundamentos; assim, considerais esse inimigo deveras temível, para o atacar com tanta raiva e furor. Obtereis resultado melhor que os outros? Duvidamo-lo, já que a cólera é má conselheira. Se conseguirdes amedrontar algumas almas timoratas, não receais acender a curiosidade num maior número de outras? Julgai-o pelo fato seguinte. Numa cidade que conta com certo número de espíritas e com alguns grupos íntimos que se ocupam das manifestações, um pregador fez certo dia um sermão virulento contra o que chamava a obra do demônio, pretendendo que só este vinha falar nessas reuniões satânicas, cujos membros estavam todos notoriamente votados à danação eterna. Que aconteceu? Desde o dia seguinte bom número de ouvintes se pôs em busca das reuniões espíritas, pedindo para ouvir os diabos falarem, curiosos de saber o que lhes diriam; porque tanto se tem falado que a gente se familiarizou com um nome que já não incute medo. Ora, nessas reuniões eles viram pessoas sérias, honradas, instruídas, orando a Deus, coisa que não faziam desde a primeira comunhão; pessoas que acreditavam em sua alma, em sua imortalidade, nas penas e recompensas futuras, trabalhando para se tornarem melhores, esforçando-se por praticar a moral do Cristo, não falando mal de ninguém, nem mesmo dos que lhes lançavam anátemas. Então aquelas criaturas compreenderam que se o diabo ensinava tais coisas é que se havia convertido.

    Revista Espírita, outubro de 1861, “A ‘Bibliografia Católica’ Contra o Espiritismo”

    No dia nove daquele mês de outubro, realizava-se o Auto de Fe de Barcelona, em que foram queimados, a mando do bispo local, livros espíritas recém importados da França. Kardec tratou do incidente de intolerância na edição do mês seguinte da RE, e após um sumário dos fatos, publicou uma seleta de mensagens mediúnicas, uma delas a portar as palavras:

    Fazia-se mister alguma coisa que chocasse com violência certos Espíritos encarnados, para que se decidissem a ocupar-se com essa grande doutrina, que há de regenerar o mundo. Nada, para isto, se faz inutilmente na Terra e nós que inspiramos o auto de fé em Barcelona, bem sabíamos que, procedendo assim, forçávamos um grande passo para a frente. Esse fato brutal, inaudito nos temos atuais, se consumou tendo por fim chamar a atenção dos jornalistas que se mantinham indiferentes diante da agitação profunda que abalava as cidades e os centros espíritas. Eles deixavam que falassem e fizessem o que bem entendessem; mas, obstinavam-se em passar por surdos e respondiam com o mutismo ao desejo de propaganda dos adeptos do Espiritismo. De bom ou mau grado, hoje falam dele; uns comprovando o histórico do fato de Barcelona; outros, desmentindo-o, ensejaram uma polêmica que dará volta ao mundo, de grande proveito para o Espiritismo. Essa a razão por que a retaguarda da Inquisição fez hoje o seu último auto de fé. É assim que o quisemos.

    Óbvio que a Igreja Católica não haveria de querer um novo rival lhe subtraindo rebanho, mas isso é um aspecto meramente político da questão. Quando se trata de indivíduos, será não haveria desavença teológicas que levassem indivíduos como Georges Gandy ou os modernos evangélicos brasileiros a bradar contra o “demônio” do Espiritismo? Por que a réplica de Kardec de indagar como o diabo poderia fazer boas obras não os convenceu até hoje? De fato, a ética contida nos evangelhos – a qual o Espiritismo declaradamente adotou – é um aspecto cristão, mas o cristianismo “ortodoxo” não é só isso. O verdadeiro perfil do espiritismo está contido nas próprias referências feitas no Evangelho segundo o Espiritismo aos livros da Bíblia:

    Mateus Marcos Lucas João Atos/Cartas Antigo Testamento
    83 21 33 10 6 7

    Número de referências aos livros da Bíblia em O Evangelho segundo o Espiritismo. Fonte: ESE, FEB, 120ª ed., 2002,. pp 13-6. Foram inclusas apenas as citações que realmente estão no ESE, desconsiderando-se as catalogadas como “relacionadas”.

    O Espiritismo, de certa forma, assemelha-se mais a uma adaptação do cristianismo sinóptico, expurgado de sua escatologia (p. ex., Mc 14:62 e Lc 22:69 estão ausentes). Não há nele a fé no Cristo ressuscitado de Paulo, nem a adoração ao Verbo encarnado (e coeterno com Deus) de João, mas a moral de Jesus. Ainda que haja no Evangelho Segundo o Espiritismo (ESE) interpretações ao estilo pesher de João e apologistas espíritas citem Paulo, suas palavras ganham um sentido que não seria aceito por seus primeiros leitores.

    O Espiritismo foi rejeitado pela ortodoxia moderna, mas, como nasceu dentro de uma religião dominante, não pôde renegar sua origem e espalhar sua mensagem em outro grupo, como ocorreu no cristianismo primitivo. Nem tinha ele um cânon totalmente novo como o Corão, pois ainda era (é) muito dependente dos evangelhos. A solução que acabou materializando por essas circunstâncias foi reavaliar o significado do que é ser cristão e passar-se a considerar a verdadeira expressão da fé de Jesus. Um passo significativo nessa direção foi a publicação de Cristianismo e Espiritismo, por Léon Denis, que procura demonstrar que o cristianismo primitivo já adotava muitas práticas e crenças que teriam sido retomadas pelo Espiritismo, como a reencarnação e a mediunidade, além não ter “adulterações” como a doutrina da Trindade, os sacramentos a hierarquia sacerdotal. Esse processo continuou pelo século XX até chegar às teorias conspiratórias sobre o II Concílio de Constantinopla (553 d.c.) e sua suposta proibição da reencarnação por decreto do imperador romano da ocasião, a mando de sua esposa, a prostituta Teodora.

    Com o conhecimento histórico que possuímos hoje, será possível afirmar que essas alegações têm algum fundamento? A resposta é um sonoro NÃO:

    • Reencarnação: Ainda que haja controvérsias quanto à mensagem do Jesus Histórico, não muito há muita dúvida quanto ao fato de João Batista, Paulo de Tarso, a comunidade de Marcos e, em menor grau, as de Mateus e Lucas foram apocalipcistas. Para eles o mundo tal como conheciam estava prestes a acabar de forma cataclísmica, quando o Mal seria punido e seria instaurado o Reino de Deus pelo Filho do Homem. Se a pregação da “boa nova” era impulsionada por essa expectativa de reviravolta iminente, pouco sentido faz o ensino de um demorado processo de depuração ao longo de sucessivas vidas terrenas. Léon Denis (e outros) alega(m) que ele se escondia na…
    • Doutrina Secreta: Caso se defenda a existência de uma doutrina para as “massas” e, sem uma prova documental, de outra para um grupo seleto de iniciados capaz de entendê-la, então essa última pode ser qualquer coisa que a imaginação conceba. Alguns dos argumentos elaborados para que essa deixar essa “doutrina secreta” ao gosto espírita foram um entendimento errôneo da descrição de Flávio Josefo sobre a crença dos fariseus e empréstimos da cabala judaica, pouco importando se o desenvolvimento dela se deu ao longo da Idade Média. Vale lembrar que hoje temos documentação direta e indireta de crenças do gnosticismo cristão e algumas de suas seitas realmente acreditavam na reencarnação. O “porém” é que para elas a reencarnação não era algo bom, mas a manutenção do cárcere das almas no malévolo mundo material criado por um demiurgo inferior. E aí, compram essa ideia?
    • Mediunidade: O problema em enxergar as manifestações do “Espírito Santo” e outros episódios sobrenaturais/miraculosos como fenômenos mediúnicos é que isso é uma anacronismo: está se usando de forma equivocada conceitos de uma época para analisar os de outra. Certa vez vi em uma rede social uma comunidade chamada “Jesus Cristo era um X-Men”. Alguns leitores acharão isso uma blasfêmia e outros uma gozação de desocupados, mas para mim é um instrutivo (embora irônico) exemplo proposital de anacronismo. Considerar mutações genéticas como a fonte de poder de Jesus ou seus apóstolos explicaria tanto quanto alegar que eram médiuns. Que diferença faz, se nenhum deles está mais aqui para poder ser estudado em laboratório? Aliás, não há nem como saber se prodígios relatados na Bíblia ocorreram da forma como foram repassados, ou mesmo se foram verídicos. Eles estão à margem do método científico e os fiéis não precisam da frieza da razão para acreditar neles, mas da subjetividade intensa de uma emoção que chamam de “inspiração divina”. O que realmente importa para um historiador é como os antigos cristãos enxergavam essas manifestações, ainda que lhes fossem relatos de segunda mão. Eis um exemplo:

      Mas há tempo estamos argumentando somente com palavras. Agora trataremos de apresentar provas dos fatos, pelas quais mostraremos que sob diferentes nomes tendes uma mesma e real identidade. Leve-se uma pessoa que está inquestionavelmente sob possessão demoníaca, ante vossos tribunais. O espírito mau ordenado a falar por um seguidor de Cristo prontamente fará a confissão verdadeira de que ele é um demônio, assim como, de outro modo, ele falsamente afirmará que é uma divindade. Ou, se quereis assim, que a pessoa seja possuída por uma divindade, como supondes que seja, a qual aspirando junto ao altar recebeu a divindade pelos vapores, quando estava em ânsias de vômito, em espasmos de respiração.

      Tertuliano, Apologia, cap. XXIII

      Por incrível que pareça, é provável que os antigos cristãos se sentissem mais à vontade em um culto pentecostal moderno do que em um centro espírita.

    * * *

    Apesar de ter denunciado apropriações indébitas feitas pelo movimento espírita e, principalmente, suas distorças da História, não considero erro algum classificar sua faceta religiosa como cristã, contanto que se defina, claro, de que cristianismo estamos falando. O espiritismo, como já mencionado, reedita aspectos o cristianismo sinóptico seja em sua prática social, ética a defesa do universalismo de mensagem de Jesus e de sua humanidade. Óbvio que há diferenças profundas com cada um dos evangelhos sinópticos no diz que respeito ao entendimento sobre o papel do Messias, o valor da Lei Mosaica, a Natividade e a ressurreição; mas justiça seja feita: os próprios sinópticos não concordam entre si nas ênfases que dão para os temas da fé. E há autores espíritas bem cientes de que é problemático justificar o espiritismo com a Bíblia.

    Nem a Bíblia prova para nós coisa nenhuma, nem temos a Bíblia como probante. O Espiritismo não é um ramo do Cristianismo como as demais seitas cristãs. Não assenta os seus princípios nas Escrituras. Não rodopia junto à Bíblia. A discussão, no terreno em que se acha, seria ótima com católicos, visto como católicos e protestantes baseiam suas crenças nas Escrituras. Mas a nossa base é o ensino dos espíritos, daí o nome – espiritismo.

    Imbassahy, Carlos; À Margem do Espiritismo, FEB, 4ª Edição, 2002, “Tréplica”, p. 214

    Para ele, o espiritismo é um cristianismo distinto dos demais por não se basear na Bíblia, coisa que seria até mais clara caso estivesse polemizando no século II, quando o cânon ainda não estava definido e cada ramo do cristianismo possuía suas próprias Escrituras. Só que isso seria, hoje, um anacronismo, pois o grosso do cristianismo já tem um cânon consolidado e espiritismo faz uso de uma coletânea dele. Se levada a às últimas consequências, a afirmação de Imbassahy é simplesmente falsa, já que, desde Kardec, versículos bíblicos têm sido utilizados não apenas como fonte de ética – do contrário, até um ateu poderia ser cristão -, mas como corroborações doutrinárias e até mesmo proféticas(7). O aspecto religioso espiritismo não é só a moral cristã, mas toda uma reinterpretação de conceitos cristãos como salvação, pós-morte, a natureza da missão de Jesus, etc. O que cristãos ortodoxos têm feito é assinalar essa apropriação parcial da Bíblia, da mesma forma que judeus acusam o uso dado por esses ao Antigo Testamento. Do jeito que o espiritismo foi codificado por Kardec, fica difícil superar essa rixa. Seriam possíveis outros espiritismos?

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    Kardecismo e Espiritismo

    Em 1859, Allan Kardec publicou um pequeno livro chamado O que é Espiritismo (OQEE), em que faz um apanágio dos principais tópicos do espiritismo. Logo em seu preâmbulo, ele define em poucas palavras a proposta:

    Para responder, desde agora e sumariamente, à questão formulada no título deste opúsculo, nós diremos que:

    “O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as consequências morais que decorrem dessas relações.

    Pode-se defini-lo assim:

    O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos, e das suas relações com o mundo corporal“.

    Note que não há referência alguma ao aspecto religioso. Pelo menos até esse estágio de desenvolvimento, o movimento espírita não buscava ser um ramo à parte do cristianismo estabelecido e, sim, um corpo de conhecimento que pudesse ser aceito independente da religião do indivíduo. Foi o aspecto filosófico, mais especificamente a Moral, que permitiu um desdobramento religioso. Mais adiante, na seção Espiritismo e espiritualismo do cap. I:

    “Pergunto-vos, em primeiro lugar, qual a necessidade da criação de novos termos: espírita e espiritismo, para substituir: espiritualista e espiritualismo, que são da língua vulgar e por todos compreendidos? Já ouvi alguém classificar tais termos de barbarismos.”

    A.K. “De há muito tem já a palavra espiritualista uma acepção bem determinada; é a Academia que no-la dá: Espiritualista, aquele ou aquela pessoa cuja doutrina é oposta ao materialismo. Todas as religiões são necessariamente fundadas sobre o espiritualismo. Aquele que crê que em nós existe outra coisa, além da matéria, é espiritualista, o que não implica a crença nos Espíritos e nas suas manifestações. Como o podereis distinguir daquele que tem esta crença? Ver-vos-eis obrigado a servir-vos de uma perífrase e dizer: É um espiritualista que crê ou não crê nos Espíritos.

    Para novas coisas são necessários termos novos, quando se quer evitar equívocos. Se eu tivesse dada à minha Revista a qualificação de espiritualista, não lhe especificando o objeto, porque, sem desmentir-lhe o título, bem poderia nada dizer nela sobre espíritos, e até combatê-los”.

    Em “Dissidências”, ainda no cap. I

    V.(isitante) – “Essa diversidade, na crença que vós chamais uma ciência, é, parece-me a sua condenação. Se ela se baseasse nos fatos positivos, não deveria ser a mesma na América e na Europa?”
    A.K. – “A isso responderei, primeiramente, que tal divergência só existe na forma, sem afetar o fundo; realmente ela apenas se limita ao modo de encarar alguns pontos da doutrina e não constituir um antagonismo radical nos princípios, como afirmam nossos adversários, sem ter estudado a questão.

    Dizei-me, porém, qual a ciência que, em seu começo, não deu nascimento a dissidências, até que seus princípios ficassem claramente assentados? Não encontramos as mesmas dissidências nas ciências melhormente constituídas? Estarão os sábios de perfeito acordo sobre todos os pontos? Não tem cada qual seus sistemas particulares? As sessões das Academias apresentam sempre o quadro de perfeito e cordial entendimento? Em medicina não há as Escolas de Paris e a Escola de Montpellier? Cada descoberta, em qualquer ciência, não em produzido cismas entre os que querem adiantar-se e os que desejam estacionar?(…)´”

    Essas três passagens de OQEE mostram algo interessante no começo do espiritismo:

    1. Ele tinha uma definição flexível, capaz de comportar muito daquilo que hoje chamas de espiritualismo;
    2. O espiritismo não estava atrelado à figura de Kardec, considerando o trabalho em outros continentes também como espiritismo;
    3. ”Espiritualismo” era qualquer coisa que se opusesse ao materialismo. Catolicismo poderia ser um “espiritualismo”, coisa que hoje não é mais dita. Deve-se ressaltar que Kardec já ouvira falar usos para o termo espiritualismo mais próximos ao moderno:

      Espiritualismo, espiritualista, são as palavras inglesas empregadas nos Estados Unidos desde o início das manifestações: delas se serviu, primeiro, por algum tempo, na França. Mas, desde que apareceram as palavras espírita e Espiritismo, compreendeu-se tão bem sua utilidade, que foram imediatamente aceitas pelo público. Hoje o uso delas é de tal modo consagrado, que os próprios adversários, os que primeiro as apregoaram de barbarismo, não empregam outras. Os sermões e as pastorais que fulminam contra o Espiritismo e os espíritas, não poderiam, sem confundir as ideias, lançar anátema sobre o Espiritualismo e os espiritualistas.

      Cap I, Espiritismo e Espiritualismo

    4. Kardec era tolerante com dissidências e as via como algo normal no processo de evolução da ciência.

    Ao parece, Kardec manteve esse opinião liberal por algum tempo considerável. Mais de meia década depois, ainda podia-se ler de sua pena:

    …Já se operaram divisões entre vós. Duas grandes seitas existem entre os Espíritas: os Espiritualistas da escola americana e os Espíritas da escola francesa; mas não consideremos senão esta última. Ela é una? não. Eis, de um lado, os Puristas ou Kardecistas, que não admitem cada verdade senão depois de um exame atento, e a concordância de todos os dados; é o núcleo principal, mas não é o único; diversos ramos, depois de terem se infiltrado nos grandes ensinos do centro, separam-se da mãe comum para formar seitas particulares; outros, não inteiramente destacados do tronco, emitem opiniões subversivas. Cada chefe de oposição tem seus aliados; os campos não estão ainda desenhados, mas se formam, e logo eclodirá a cisão. Eu vo-lo digo, o Espiritismo, como as doutrinas filosóficas que o precederam, não poderá ter uma longa duração. Ele foi, cresceu; mas agora está no auge, e já desce. Faz sempre alguns adeptos, mas, como o Saint-Simonismo, como o Fourierismo, como os Teósofos, ele cairá, para ser talvez substituído, mas cairá, eu o creio firmemente…”

    O Abade D… (um opositor do Espiritismo recentemente desencarnado)

    Resposta de Allan Kardec:

    (…) Falais das seitas que, em vossa opinião, dividem os Espíritas, de onde concluís a ruína próxima de sua doutrina; mas vos esqueceis de todas aquelas que dividiram o Cristianismo desde seu nascimento, que o ensanguentaram, que o dividem ainda, e cujo número, até este dia, não se eleva a menos de trezentos e sessenta. No entanto, apesar das dissidências profundas sobre os dogmas fundamentais o Cristianismo ficou em pé, prova de que é independente dessas questões de controvérsias. Por que quereríeis que o Espiritismo, que se liga por sua própria base aos princípios do Cristianismo, e que não é dividido senão sobre questões secundárias se elucidando cada dia, sofresse divergência de algumas questões pessoais, quando tem um ponto de união tão poderoso: o controle universal?

    O Espiritismo estaria, pois, hoje dividido em vinte seitas, o que não é e não será, que isso não levaria a nenhuma consequência porque é o trabalho de nascimento. Se divisões fossem suscitadas por ambições pessoais, por homens dominados pelo pensamento de se fazerem chefes de seitas, ou de explorarem a ideia em proveito de seu amor-próprio ou de seus interesses, estes seriam, sem contradita, os menos perigosos. As ambições pessoais morrem com os indivíduos, e se aqueles que quiseram se elevar não têm por eles a verdade, suas ideias morrem consigo, e talvez antes deles; mas a verdade verdadeira não poderia morrer.

    Estais no verdadeiro, senhor abade, dizendo que haverá ruínas no Espiritismo, mas isso não é como o entendeis. Essas ruínas serão a de todas as opiniões errôneas que fervem e se fazem luz; se todas estão no erro, todas elas cairão, isto é inevitável; mas se houver uma só delas que esteja na verdade, ela sobreviverá infalivelmente (…)

    Revista Espírita de Out/1865 – Partida de um adversário do Espiritismo para o mundo dos Espíritos.

    Nem tudo, porém, era concórdia e diplomacia. Pouco depois, na edição de abril de 1866, dois artigos teceram fortes críticas a duas dissidências: uma que depreciava o valor das comunicações espirituais recebidas até então, preferindo até mesmo interrompê-las (“Espiritismo sem Espíritos”), e outra autodenominada “Espiritismo Independente” que seria “o Espiritismo livre, não só da tutela dos Espíritos, mas de toda direção ou supremacia pessoal, de toda subordinação às instruções de um chefe, cuja opinião não pode, tendo em vista que não é infalível“. Ainda que não seja possível provar, fica-se com a impressão que esse último grupo enviara uma crítica indireta a alguma postura centralizadora de Kardec. Ele teria visto que a carapuça era de seu tamanho e a vestiu (8). Na edição de junho, é discutido o lançamento de Os Quatro Evangelhos, de J.B. Roustaing, um comentário dos evangelhos à luz de comunicações espirituais. No geral, a RE é simpática à novidade que, em suas palavras “ é um trabalho considerado, e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar, sobre nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada por O Livro dos Espíritos e o dos médiuns. As partes correspondentes àquelas que tratamos em O Evangelho Segundo o Espiritismo o são num sentido análogo“. A única objeção feita foi contra a alegação de que Jesus nunca tivera um corpo de carne e ossos, mas um (peri)espiritual(9). De certa forma, isso é reedição de heresia docetista(10), usada como premissa para explicar não só a Imaculada Concepção, mas todos os milagres de Jesus. O artigo da RE aceita esse neodocetismo como hipótese a ser averiguada por novas comunicações espirituais e assevera um grande poder perispiritual de Jesus (um supermédium por sua altíssima evolução espiritual) já bastaria como explicação. A opinião de Kardec sobre as teses rustanistas deve ter mudado algum tempo depois, já que em A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, publicado em 1868, ele declaradamente rejeita essa hipótese (cap. XV, itens 64-5). Esse foi apenas o começo de uma longa rivalidade no meio espírita/espiritualista e que ainda dá o que falar (11).

    Após a morte de Kardec, escritos seus ainda inéditos foram reunidos em Obras Póstumas (OP), onde se encontra o que talvez seja sua opinião final sobre o espiritismo:

    Tomando a iniciativa da constituição do Espiritismo, usamos de um direito comum, o que todo homem tem de completar, como o entender, a obra que haja começado e de ser juiz da oportunidade. Desde o instante em que cada um é livre de aderir ou não a essa obra, ninguém se pode queixar de sofrer uma pressão arbitrária. Criamos a palavra Espiritismo, para atender às necessidades da causa; temos, pois, o direito de lhe determinar as aplicações e de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita. (Revista Espírita, abril de 1866, página III)

    OP, 2ª parte, Constituição do Espiritismo

    Isso não está nem um pouco de acordo com a ideia contido em OQEE, onde definiu o termo espiritismo de forma bem liberal e tolerante à divergência. No fim da vida, vendo essa liberalidade levar o espiritismo a rumos que não aprovava, quis se apoderar do neologismo que criara. Como nem OQEE, nem OP pertencem ao conjunto de obras tidas como básicas pelos espíritas (o Pentateuco), então fica-se com uma espécie de “limbo doutrinário”. Mas Kardec, ao menos originalmente, não se propôs a uma doutrina, mas a uma “ciência e filosofia”, passível de dividir em escolas, portanto não seria mais conveniente chamar o resultado de seu trabalho de kardecismo?

    A codificação espírita e as obras complementares (RE, OP, OQEE, etc) são o resultado da pesquisa coordenada por Kardec. Só que ele não o único a estudar as supostas relações entre o mundo espiritual e o nosso, sendo que muitos que também o fizeram chegaram a conclusões distintas. Com a ciência desse fato e a definição ampla de espiritismo constante em OQEE, sem dúvida é conveniente chamar aquele seguem bem de perto as teses de Allan Kardec de kardecistas.

    De experiência pessoal, há os sentem calafrios com essa palavra por a entender que existiria alguma espécie de “adoração” a Kardec. Isso é particularmente besteira, afinal os luteranos não cultuam Lutero. Outros consideram-na um neologismo desnecessário para distingui-los de membros de espiritualismos distintos (cultos afro-brasileiros, principalmente), afinal “o espiritismo é um só”. Longe de ser uma novidade brasileira, esse termo pode ser rastreado até o século XIX, no livro Lights and Shadows of Spiritualism (1877), do médium escocês Daniel Dunglas Home. No segundo capítulo da terceira parte do livro (Modern Spiritualism), Home faz uma apreciação nada agradável da obra de Kardec, particularmente de sua defesa da reencarnação, tratando-a como uma das fallacies of Kardecism (12). Nem só antagonistas se valeram do termo. Henri Sausse – um dos maiores partidários do espiritismo e autor de uma biografia de Kardec que até hoje a FEB edita junto com OQEE – lançou em 1918 o periódico Le Spiritisme Kardéciste.

    Portanto, é plenamente viável considerar os adeptos da umbanda, Roustaing, Ramatis, e afins como seguidores de correntes diferentes de espiritismos. Já vejo “kardecistas” levantando pedras e clamando: “umbanda é um sincretismo, Roustaing escreveu absurdos e Ramatis é um pseudossábio!”. Uma coisa de cada vez:

    • Se o problema da umbanda é sua mistura com religiões africanas, então o kardecismo também é problemático por misturar cristianismo com modismos cientificistas vitorianos e reencarnação pagã. A não ser que se viva numa tribo isolada, não há como se professar uma doutrina que seja “puro sangue”, pois todas herdam algo de suas antecessoras, trocam ideias com suas rivais (ou se definem em oposição a elas) e se adaptam ao gosto local.
    • Se Roustaing escreveu coisas duvidosa, não creia que Kardec está isento disso;
    • Se Ramatis é suspeito, não ache que a codificação está livre deles, do contrário este portal não existiria. Talvez o principal erro dos ramatistas foi colocar muitos ovos num mesmo cesto.

    O que realmente há de impressionante nessa querela, é que os espíritas kardecistas, que se se consideram a adeptos da “Terceira Revelação”, advogam o reconhecimento do seu caráter cristão pelas filhas da “Segunda Revelação” ao mesmo tempo rejeitam como espíritas as seitas que são irmãs da sua! Alguma coisa está incoerente…

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    Quem detém a Definição, detém o Poder

    Fuga do cérebro

    Nos primeiros séculos do cristianismo, circulou, principalmente entre os cristãos egípcios, um documento conhecido como Epístola de Barnabé, que era na verdade um tratado apócrifo atribuído a esse companheiro de Paulo de Tarso. Datado entre 70 e 132 de nossa Era, seu texto pode chegar a assustar o leitor moderno com alguns absurdos escritos, como a declaração de as hienas trocam de sexo a cada ano (13), coisa completamente compreensível pela ignorância da época quanto ao funcionamento da Natureza. Ressalte-se o cuidado para que essas “curiosidades” não distraiam o leitor da característica mais, digamos, marcante dessa obra: o antissemitismo.

    Valendo-se de inúmeros (às vezes hilários) simbolismos, seu anônimo autor tentou provar que o judaísmo seria uma religião falsa desde o princípio, não tendo os judeus tido nunca uma aliança com Deus. Isso porque tomaram o Antigo Testamento de forma muito literal, quando seu verdadeiro (e bem alegórico) significado corresponderia às práticas do cristianismo nascente. Os cristãos, por esse autor, seriam o verdadeiro povo de Deus e seus herdeiros, pois os judeus cortaram seu vínculo com Ele ao construir sua religião de forma errônea. Ao contrário do (também anônimo) autor da Epístola aos Hebreus, “Barnabé” não defende nenhuma continuidade entre o judaísmo histórico e o cristianismo nascente, mas, sim, sua ruptura. Uma continuidade, por outro lado, ocorreria em relação às Escrituras (no caso, ao Antigo Testamento), cuja verdadeira interpretação era a professada pelos cristãos.

    Felizmente, a Epístola de Barnabé acabou fora do cânon, senão haveria o risco de o antissemitismo cristão pelos séculos ter sido ainda mais intenso do que foi. Resta matutar o que levou um seguidor de Jesus a agir de modo tão pouco “cristão” para com os membros da religião que seu Messias professou. Se você quer descobrir isso com o enfoque de um ocidental do século XXI, não verá muita coisa além de preconceito. Entretanto, se lembrar que entre final do século I e o começo do II o cristianismo não passava de um conjunto de seitas marginais cujos ínfimos seguidores não contavam com reconhecimento estatal, ao passo que o judaísmo estava bem estabelecido como credo étnico e contava com um número bem maior de adeptos, então tudo ganha outro sentido (14). “Barnabé” precisava justificar a seu público que a religião que abraçaram não era errada, nem mal conduzida. Para tanto, tomou uma postura defensiva ante uma força (então) bem mais poderosa que seu grupo ao definir sua identidade em oposição a seus adversários imediatos: os judeus. Foi o início da pregação cristã antissemita, que se sofisticou à medida que o cristianismo convertia sua porção de eruditos. Isso não teve consequências mais sérias enquanto os cristãos foram minoria no Império Romano, mas após a conversão do imperador Constantino no começo do século IV, o cristianismo se expandiu a galope e já era dominante na virada do século seguinte. Tempos sombrios começaram para os judeus e, de certa forma, ainda não se encerraram.

    Por que se desenterrou esse antigo documento cristão? Que tem ele a ver com o espiritismo moderno? Bem, os tempos são outros, os judeus não são o assunto principal aqui e temos a vantagem de poder olhar em retrospectiva uns vinte séculos de erros cometidos em nome de Jesus. É essa vantagem que permite enxergar que, embora cenários e atores sejam diferente, algumas atitudes permanecem. A primeira é defensiva, muito similar a da Epístola de Barnabé, em que espíritas rompem com religião que os antecedeu (cristianismo ortodoxo), mas não inteiramente com seu livro sagrado: o Novo Testamento. No processo, infelizmente, acusaram seus predecessores de “falsidade ideológica”. Se “Barnabé” usava e abusava de simbolismos, Kardec não ficou muito atrás no Evangelhos Segundo o Espiritismo (ESE), foi complementado no revisionismo histórico de Léon Denis, refinado nas traduções “à moda da casa” de Pastorino e Severino C. da Silva, atingindo o zênite com a boataria do V Concílio Ecumênico. Isso não é tão danoso para o cristianismo ortodoxo, já que o espiritismo ainda é minoritário, mas que não se esqueça de suas pretensões:

    798. O Espiritismo se tornará crença comum, ou ficará sendo partilhado, como crença, apenas por algumas pessoas?

    “Certamente que se tornará crença geral e marcará nova era na história da humanidade, porque está na natureza e chegou o tempo em que ocupará lugar entre os conhecimentos humanos. Terá, no entanto, que sustentar grandes lutas, mais contra o interesse do que contra a convicção, porquanto não há como dissimular a existência de pessoas interessadas em combatê-lo, umas por amor-próprio, outras por causas inteiramente materiais. Porém, como virão a ficar insulados, seus contraditores se sentirão forçados a pensar como os demais, sob pena de se tornarem ridículos.”

    Comentário de Kardec:

    ☼ As ideias somente se transformam ao longo do tempo e não subitamente. De geração a geração vão se enfraquecendo e acabam por desaparecer pouco a pouco junto com seus seguidores, substituídos por outros indivíduos inspirados por novos princípios, como ocorre com as ideias políticas. Observai o paganismo; não há ninguém que atualmente aceite suas ideias religiosas; entretanto, muitos séculos após o surgimento do Cristianismo, ainda há traços do paganismo que somente a completa renovação das raças pode apagar. Ocorrerá o mesmo com o Espiritismo; ele fez muito progresso, mas haverá ainda, durante duas ou três gerações, um fermento de incredulidade que apenas o tempo destruirá. Todavia, sua marcha será mais rápida que a do Cristianismo, porque o próprio Cristianismo é quem lhe abre os caminhos e está nele apoiado. O Cristianismo tinha o que destruir; o Espiritismo só tem que edificar.

    Livro dos Espíritos, – Parte 3ª – Cap. VIII

    Por enquanto, a humanidade ainda aguarda um desfecho para esse vaticínio (quem sabe mais um século e meio), porém se fizéssemos um exercício mental acerca do que aconteceria se ele já fosse verdade, qual seria o paradigma da pesquisa histórica do cristianismo? Será que os livros sobre esse período seriam reescritos enfocando as semelhanças com espiritismo e descartando as diferenças? Para ser sincero, não é preciso que a resposta da pergunta 798 do LE se concretize para que isso aconteça. Fazendo um paralelo com os livros didáticos de ciências humanas escritos por autores marxistas nos anos 80 e 90 do século XX, distorções dos fatos podem atingir um público muito mais amplo que os adeptos de uma doutrina. Ainda mais quando se propõem que a denúncia desses “fatos” são uma forma tardia de justiça contra o que julgam ser a encarnação do Mal sobre a Terra. No caso das esquerdas, o desforrismo se deu contra as Forças Armadas, particularmente em sua atuação na Guerra do Paraguai; a enquanto vítima preferida dos credos e filosofias de “vanguarda” (sempre) foi a Igreja Católica. O sucesso das teorias de O Código Da Vinci que o diga. Felizmente, a historiografia brasileira já conta com uma postura um mais balanceada e sólida surgida com uma nova geração de historiadores não tão maniqueísta (15). A “história segundo os místicos”, por sua vez, nunca fez sucesso entre os acadêmicos, a diferença é que agora há mais deles traduzindo seus jargões para os leigos, embora não vendam tanto assim, afinal os mitos têm muito mais apelo que a verdade.

    Outra, e lamentável, atitude do passado que se repete com atores modernos é a ânsia de monopólio. Da mesma forma que a hoje chamada “ortodoxia cristã” não passa da facção que venceu a disputa por “corações e mentes”, é muito similar à alegação dos kardecistas de que eles são o único espiritismo. A diferença é que nunca houve uma definição sólida do que é cristianismo (lembre-se: Jesus nada escreveu), ao passo que o espiritismo já nasceu com uma definição, só que era uma bem elástica. É de espantar que kardecistas, hoje, usem o termo “espiritualismo” para agregar todas os sistemas que lidam com espíritos – deixando “espiritismo” para si mesmos – , quando OQEE considerava ambos intercambiáveis. Quem mais paga com essa postura purista são os membros da umbanda, que possuem uma relação conflitante com os kardecista.

    A umbanda não atacava diretamente as ideias de Kardec, daí uma certa ambiguidade de associações espíritas e de suas federações para com ela; as lideranças estavam propensas, no entanto, a considerá-la fora do movimento espírita.

    Do espiritismo não raro partiam definições dos caboclos e pretos-velhos da umbanda como espíritos inferiores. Dirigentes espíritas incomodavam-se com as características rituais da umbanda envolvendo imagens, sons, cores, fumo, bebida e oferendas rituais conhecidas como despachos. Mesmo assim, a decisão de excluir umbandistas demorou a se consolidar. Em 1953, a Federação Espírita Brasileira declarava que os umbandistas podiam ser considerados espíritas, afirmando então que “todo aquele que crê na manifestação dos espíritos é espírita”. Essa abertura sofreu forte combate interno, e, em 1958, o Segundo Congresso Brasileiro dos Jornalistas e Escritores Espíritas opunha-se à umbanda em nome do rigor doutrinário. Por fim, em 1978, o principal órgão da imprensa espírita, O Reformador, definia como “imprópria, abusiva e ilegítima” a prática que tinham os umbandistas de se denominarem espíritas.

    [Santos, cap. VI, p. 57]

    Ambas as atitudes repousam seu poder no controle das definições de “cristianismo” e de “espiritismo”. Basicamente:

    • Caso se queira deixar algo de fora de um conjunto, é só utilizar uma definição o suficiente específica e estreita;
    • Caso se queira incluir algo, é só adotar uma definição bem liberal.

    Isso pode ser aplicado a qualquer discussão. Por exemplo, é fácil desconsiderar certos trechos da literatura kardequiana (16) como racistas, basta restringir “racismo” às antigas políticas dos estados sulistas dos EUA ou da África do Sul na vigência do Apartheid. E quem detém uma definição, detém o poder, já tem meio caminho andado para impor seu ponto de vista a outrem. A questão é se é justo ou não acatar os termos que são propostos, que parecem bem discutíveis na temática tratada: se você é “cristão ortodoxo”, informo que não tem nenhum “pedigree” aqui, e se é umbandista, nunca deixe um advogado da “Codificação” te rebaixar. Somos todos vira-latas, que se unem aleatoriamente e dão origem a novas linhagens. Aí está a nossa força, ao contrário dos que se atêm a uniões endogâmicas que acabam por lhes enfraquecer.

    Quanto a política deste portal, os termos “espiritismo” e “kardecismo” são usados de forma um tanto promíscua. Há coisas mais importantes para se preocupar.
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    Notas

    (1) Curiosamente, até 2009, nossa legislação considerava como estupro apenas atos de violência sexual de homem contra mulher. O sexo forçado homossexual era “atentado violento ao pudor”. Asina lex, sed lex.

    (2) É atribuída à feminista Marilyn French a frase: “todos os homens são estupradores e isso é tudo que eles são”. É, provavelmente, uma citação falsa, mas em 1992, ela lançou o livro The War against Women (“A Guerra contras as Mulheres”) que deixa transparecer que é realmente isso que ela pensa. Ela e Valerie Solanas (com seu Manifesto SCUM) prestaram um grande desserviço ao feminismo com seu humor involuntário.

    (3) Analisando sob certo ângulo e com umas pitadas de cinismo, a rigor, nenhum sexo é gratuito.

    (4) Os norte-americanos têm uma interessante forma de classificar “gradações” de sexo, baseados no jargão do beisebol:

    1. Primeira base: beijo;
    2. Segunda base: contato acima da cintura;
    3. Terceira base: contato abaixo da cintura;
    4. Quarta base: cópula, coito, intercurso, etc.

    Eis uma forma um tanto “nerd” de retratar isso:

    Base System.

    Repare que o limite da “virgindade” fica entre a terceira e a quarta base. Você o colocariam em outro lugar? Procure na internet informações sobre a “Linha de Maginot” (Maginot Line) para saber por que a virgindade foi comparada a ela e por que os adolescentes (teens) a contornam.

    (5) Orígenes, Contra Celso, livro II, cap. I.

    (6) Essa opinião veio a ser conhecida como “docetismo”, do grego dokeo: aparentar (ser carnal).

    (7) Vide a “pluralidade de mundos” e o “Consolador prometido” no ESE.

    (8) Fica-se a pensar quais teriam sido os argumentos deles. Aqui está apenas uma rápida versão dos fato de Kardec, mas os textos de o Espiritismo Independente seriam bem mais reveladores, afinal Kardec não pôde desconsiderá-los. É uma situação similar à briga entre Paulo de Tarso e os missionários cristãos judaizantes: só temos a versão do primeiro (cf. Gálatas).

    (9) Ou fluídico, no jargão espírita.

    (10) Cf. nota nº 5.

    (11) De [Santos, cap. VI, p. 54-5]

    A disputa entre kardecistas e rustanistas era um dos entraves internos à coordenação unificada do movimento. A FEB tinha sido assumida pelos rustanistas na virada do século XIX para o XX e assim permaneceu. Nem a FEB, a despeito de sua condição de referência nacional do espiritismo, escapou de um confronto direto quanto as suas pretensões federativas.

    Em 1926, espíritas descontentes com a FEB convocaram uma Constituinte Espírita Brasileira. O motivo alegado de insatisfação foi a inação da FEB quando da reforma parcial da Constituição, ocorrida no ano anterior, ocasião em que uma corrente clerical do poder legislativo havia apresentado emendas favoráveis à Igreja Católica, dispondo sobre ensino religioso nas escolas e a definição do catolicismo como religião do povo brasileiro.

    A FEB foi acusada de omissão, e a oposição espírita às emendas, que não foram aprovadas, ficou por conta de iniciativas individuais.

    Reunida no Rio de Janeiro, a Constituinte Espírita resultou na criação da Liga Espírita do Brasil com propósitos de unificar o movimento espírita em âmbito nacional. Apresentava-se, assim, como uma alternativa à Federação Espírita Brasileira e, ao contrário desta, suas lideranças eram kardecistas.

    A FEB reagiu convocando, no mesmo ano de 1926, a primeira reunião de seu Conselho Federativo, composto de representantes de centros e associações a ela filiados. Procurava com isso manter sua posição de referência para o espiritismo nacional e propunha objetivos ambiciosos para os debates da reunião: “para que a Terra de Santa Cruz se desobrigue da missão que lhe coube na obra de disseminação da verdade espírita pelo mundo”. A Liga Espírita do Brasil, por seu turno, continuava suas atividades, tentando organizar ligas espíritas nos Estados, com fins federativos.

    Um aspecto importante desse período de expansão é que o espiritismo cresceu mais com base no kardecismo do que no rustanismo. Em Estados que iam assumindo peso no movimento espírita, como São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul, a presença do rustanismo foi discreta, ainda que não tenha deixado de influir no movimento federativo.

    (…)

    Como os rustanistas não negavam a obra de Allan Kardec, antes pretendiam acrescentar a ela a de Roustaing, os livros de Kardec tornavam-se referência comum para os espíritas. A questão rustanista era assim uma questão interna do movimento.

    Então, houve uma postura da FEB de abraçar as obras kardecistas e rustanistas ao mesmo tempo, colocando essas últimas continuação direta das primeiras, ou, usando a expressão usada, “um curso superior de espiritismo”. Veja a figura abaixo com uma propaganda próxima à época:

    Propaganda de Os Quatro Evangelhos.

    Propaganda de Os Quatro Evangelhos constante nas páginas finais de uma edição de 1932 de Cristianismo e Espiritismo, pela Livraria da FEB.

    Com o grande processo de conciliação e unificação ocorrido no final dos anos 40 e início dos 50 – o “Pacto Áureo” -, a FEB voltou a se tornar referência no movimento, mas nada se disse a respeito dos livros de Roustaing. Optou-se pelo silêncio nessa questão e, a quem quisesse, sua obra ficaria apenas como literatura complementar à Codificação Kardecista [Santos, cap. VII, p. 63].

    (12) A título de curiosidade, nesse mesmo livro Home transcreve uma suposta comunicação que teria recebido de Allan Kardec logo após a sua morte, em que “ele” lamenta a condução que deu ao movimento espírita. O problema dessa carta é que … Não há como saber se foi realmente de Kardec, creia-se ou não em vida após a morte. O engraçado é que às vezes esbarro com protestantes e católicos fanáticos alegando que “Kardec se arrependeu do espiritismo” sem ter a menor noção de que se referem a uma informação obtida por meio de um médium. Coisa do demônio, segundo eles. Os espíritas, por sua vez, também têm ao menos um caso de obscura “mudança de opinião pós-morte”. Nesse caso, falamos do Dr. Bezerra de Menezes, um grande expoente do movimento em seus primeiros anos no Brasil e diretor da FEB, além de notório rustanista, que, na mensagem “Kardec e Vida”, psicografada por Chico Xavier, teria declarado “kardequizar é a legenda de agora!”. Ok, mas que cuidado tomaram para saber se era o Dr. Bezerra mesmo?

    (13) Do seguinte trecho:

    Outra vez, “não comerás a hiena”; não irás, disse Ele, tornar-se um adúltero ou um fornicador, nem hás de se parecer com tais pessoas. Por que isso?, Porque esse animal muda sua natureza ano a ano, e se torna ora macho, ora fêmea. Além disso, Ele também detestou a doninha com boa razão. Não se tornarás, disse Ele, tal como aqueles homens de quem ouvimos praticar iniquidade com suas bocas em razão de imundície, nem penetrarás mulheres impuras que praticam a iniquidade com suas bocas. Já que esse animal engravida com sua boca.

    10:7-8

    De experiência pessoal, já vi recusarem a análise desse documento (e outros) por causa desses absurdos. O problema é isso é raciocinar como um homem de fé rejeitando outra fé. O enfoque historicista não pode ignorar que isso não era absurdo na época em que foi escrito e por mais estranha que uma crença seja aos olhos modernos, deve-se descobrir como seus adeptos originais se relacionavam com ela. Deixe os juízos de valor para os debatedores fanáticos.

    Ademais, com algum conhecimento de zoologia, pode-se compreender porque o autor de Barnabé escreveu tal coisa: as fêmeas da hiena malhada possuem a particularidade de serem mais suscetíveis, durante a gestação, aos efeitos do hormônio testosterona e, como resultado, seu clitóris se torna exageradamente desenvolvido. Quando excitadas, são capazes de ter “ereções” maiores que as dos machos. Isso não é uma mudança de sexo, mas um psedo-hermafroditismo, só não era possível dar essa explicação no começo do século II.

    (14) Se um judeu do século II lesse a Epístola de Barnabé, ele poderia muito bem falar “Ah, tá!” com um sorriso debochado na cara. Já seus tataranetos….

    (15) Sugiro a leitura de Maldita Guerra, de Francisco Doratioto. Ou pode ler esta pequena amostra. Um trecho que gostei muito foi:

    Infelizmente, há um problema: os professores de história, que faziam faculdade nos anos 60 e 70, continuam ensinando essas besteiras aos nossos jovens.

    Falo de Guerra do Paraguai e já vem alguém me dizer que nós, capachos da Inglaterra, destruímos a única nação do século XIX que oferecia uma alternativa ao modelo econômico colonialista imperialista vigente. Ufa!

    E eu pergunto: quantos livros você leu, quantos arquivos você estudou pra fazer afirmações tão bombásticas? E ele conta que a tia Stanililda, que usava sandálias de couro cru e não comia no McDonald’s, contou isso tudo pra ele na quinta série, e ele nunca mais esqueceu.

    Fazendo um paródia do blog, com quem você aprendeu sobre o cristianismo primitivo? Pesquisou a melhor literatura acadêmica (ou de divulgação) sobre o tema ou buscou em livros de leigos místicos, ascencionados e simpatizantes?

    Quanto ao Código Da Vinci, Bart Ehrman (sim, quem diria!?) tem um livrinho interessante sobre ele. Mas se você é espírita, talvez não goste dele…

    (16) Cf. OP (“Teoria da Beleza”) e RE de abril de 1862 (“Frenologia Espiritualista e Espírita _ Perfectibilidade da Raça Negra”).

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    Para Saber Mais

    – Joannides, Paul; Tudo sobre Sexo, Leganto, 2005.

    – Santos, José Luiz dos; Espiritismo – Uma Religião Brasileira, Coleção Polêmica, Editora Moderna, 2ª ed., 1997.

    – Theissen, Gerd, A Religião dos Primeiros Cristãos, Paulinas, 2009.

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