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Alô, Alô Marciano!

19 de maio de 2012 18 comentários

Marvin Marciano

Índice

* * *

Os Marcianos Trogloditas da Codificação

O planeta Marte é, sem dúvida, uma fonte de controvérsias entre diversas comunicações mediúnicas. Sua primeira aparição na literatura espírita ocorre na Revista Espírita de março de 1858, Júpiter e alguns outros mundos:

(…)Passemos, agora, para uma outra esfera, onde se encontrem Espíritos de todas as classes da terceira ordem: Espíritos impuros, Espíritos levianos, Espíritos pseudossábios, Espíritos neutros. Sabemos que, em todas as classes dessa ordem, o mal domina; mas, sem terem o pensamento do bem, o do mal decresce à medida que se afastam da última classe, O egoísmo é sempre o móvel principal das ações, mas os costumes são mais brandos, a inteligência mais desenvolvida; o mal, aí, estará um pouco disfarçado, enfeitado e dissimulado. Essas próprias qualidades, engendram um outro defeito, que é o orgulho; porque as classes mais elevadas são bastante esclarecidas para terem consciência da sua superioridade, mas não o bastante para compreenderem o que lhes falta; daí a sua tendência à escravização das classes inferiores, e de raças mais fracas, que tenham sob o seu jugo. Não tendo o sentimento do bem, não têm senão o instinto do eu e acionam a sua inteligência para satisfazerem as suas paixões. Numa tal sociedade, se o elemento impuro domina, esmagará o outro; no caso contrário, os menos maus procurarão destruir os seus adversários; em todos os casos, haverá luta, luta sangrenta, luta de extermínio, porque são dois elementos que têm interesses opostos. Para proteger os bens e as pessoas, serão necessárias leis; mas essas leis serão ditadas pelo interesse pessoal e não pela justiça; o forte as fará, em detrimento do fraco. (…)

(…)O que dá aqui, um certo peso ao dizer dos Espíritos, é a correlação que existe entre eles, pelo menos nos pontos principais. Para nós, que fomos cem vezes testemunhas dessas comunicações, que pudemos apreciá-las em seus menores detalhes, que nelas escrutamos o forte e o fraco, observamos as semelhanças e as contradições, encontramos todos os caracteres da probabilidade; todavia, não lhes damos senão sob benefício de inventário, a título de notícias, aos quais cada um está livre para ligar a importância que julga adequada. Segundo os Espíritos, o planeta Marte seria ainda menos avançado do que a Terra; os Espíritos que nele estão encarnados pareceriam pertencer, quase exclusivamente, à nona classe, a dos Espíritos impuros, de sorte que o primeiro quadro, que demos acima, seria a imagem desse mundo.(…)

Falando especificamente dos marcianos, um artigo da Revista Espírita de outubro de 1860:

Marte é um planeta inferior à Terra da qual é um esboço grosseiro; não é necessário habitá-lo. Marte é a primeira encarnação dos demônios mais grosseiros; os seres que o habitam são rudimentares; têm a forma humana, mas sem nenhuma beleza; têm todos os instintos do homem sem o enobrecimento da bondade.

Entregues às necessidades materiais, eles bebem, comem, lutam, se unem carnalmente. Mas como Deus não abandona nenhuma de suas criaturas, no fundo das trevas de sua inteligência jaz, latente, o vago conhecimento de si mesmo, mais ou menos desenvolvido. Esse instinto basta para torná-los superiores uns aos outros, e preparar a sua eclosão para uma vida mais completa. A sua é curta, como a dos efêmeros. Os homens, que não são senão matéria, desaparecem depois de uma curta duração. Deus tem horror ao mal, e não o tolera senão como servindo de princípio ao bem; abrevia o seu reino e a ressurreição triunfa dele.

(…)

Eles não são canibais; suas contínuas batalhas não têm por objetivo senão a posse de um terreno mais ou menos abundante em caça. Caçam em planícies intermináveis. Inquietos e móveis como os seres desprovidos de inteligência, se deslocam sem cessar. A igualdade de sua estação, por toda a parte a mesma, comporta por conseqüência as mesmas necessidades e as mesmas ocupações; há pouca diferença entre os habitantes de um hemisfério a outro.

(…)

No Livro dos Espíritos (LE, 1862, 2ª ed.) parte II, cap. IV, q. 188, é repetida a classificação de Marte.

Segundo os espíritos, de todos os mundos que compõem o nosso sistema planetário, a Terra é dos de habitantes menos adiantados, física e moralmente. Marte lhe estaria ainda baixo, sendo-lhe Júpiter superior de muito, a todos os respeitos (…)

O curioso é que os espíritos de terceira ordem não são, pelo LE, seres irracionais. Segundo o LE, parte II, cap. I, 101:

A inteligência pode achar-se neles aliada à maldade ou à malícia; seja, porém, qual for o grau que tenham alcançado de desenvolvimento intelectual, suas idéias são pouco elevadas e mais ou menos abjetos seus sentimentos.

Ainda que brutais, portanto, os marcianos teriam algum grau de inteligência, no mínimo; sendo, com certeza, formas de vida complexas. Hoje se sabe que o ambiente de Marte é desolado, hostil, com rala atmosfera e alta incidência de radiação solar. Talvez o planeta tenha tido um passado mais hospitaleiro, tendo inclusive considerável quantidade de água na superfície. Se alguma forma de vida surgiu e sobreviveu, deve estar no subsolo e calotas polares (onde ainda há água congelada). Não se espera mais do que micróbios.

Flammarion e o Marte Avançado

Curiosamente, um dos companheiros e auxiliares de Kardec, Camille Flammarion, publicou em 1888 o livro Uranie (Urânia, na versão em português da FEB), que traz, logo no começo, uma chamativa discrepância com a Codificação:

-A vida universal! disse eu. Os planetas do nosso sistema solar serão todos habitados? … São habitados os milhares de mundos que povoam o infinito?… Essas Humanidades assemelham-se à nossa? … Conhecê-las-emos algum dia?…

– A época em que vives na Terra, a própria duração da Humanidade terrestre não é mais do que um momento na eternidade.

Não compreendi essa resposta às minhas perguntas.

– Nenhuma razão há, acrescentou Urânia [musa da Astronomia, se comunicando por meio de sonhos com um jovem] para que todos os mundos sejam habitados agora. A época presente não tem mais importância do que as precedente ou as que se hão-de seguir.

“A duração da existência da Terra será muito mais longa – talvez dez vezes mais longa – do que a do seu período vital humano. Em uma dezena de mundos, tomados ao acaso na imensidade, poderíamos, por exemplo, conforme os casos, achar apenas um atualmente habitado por uma raça inteligente. Uns o foram outrora; outros sê-lo-ão no futuro; estes se acham em via de preparação, aqueles têm percorrido todas as suas fases; aqui berços, além, túmulos; e depois, uma variedade infinita se revela nas manifestações das forças da Natureza, não sendo a vida terrestre de modo algum o tipo de vida extraterrestre. Seres podem viver, em organizações inteiramente diversas das conhecidas no vosso planeta. Os habitantes dos outros não têm a vossa forma, nem os vossos sentidos. São outros.

Parte I, cap IV, pp. 32-3

Flammarion entre em choque com a Codificação aqui: nem todos os mundos seriam habitados. Não ao mesmo tempo. Outra surpresa surge logo adiante:

[Fala de Urânia]
“Dia virá, e mui proximamente, pois que estás chamado a vê-lo, em que o estudo das condições da vida nas diversas províncias do Universo será o objeto essencial – e o grande encanto – da Astronomia. Bem depressa, em vez de se ocuparem simplesmente com a distância, com o movimento e com a massa material dos vossos planetas vizinhos, os astrônomos descobrir-lhe-ão a constituição física, os aspectos geográficos, a climatologia, a meteorologia; penetrarão o mistério da sua organização vital e discutirão a respeito dos respectivos habitantes. Afirmarão que Marte e Vênus se acham atualmente povoados de seres pensantes; que Júpiter está ainda no seu período primário de preparação orgânica; que Saturno plana em condições inteiramente diferentes das que presidiram ao estabelecimento da vida terrena e, sem jamais passar por estado análogo ao da Terra, será habitado por seres incompatíveis com os organismos terrestres. Novos métodos farão conhecer a constituição física e química dos astros, a natureza das atmosferas. Instrumentos aperfeiçoados permitirão mesmo descobrir os testemunhos diretos da existência dessas Humanidades planetárias e pensar em estabelecer comunicação com elas. Eis a transformação científica que há de assinalar o fim do décimo-nono século e que há de inaugurar o vigésimo.”

Parte I, cap IV, p. 33

Aqui, Júpiter está em posição invertida na hierarquia de mundos do sistema solar, ainda engatinhando na constituição da vida. Marte e Vênus até parecem conferir com o relatado na Revista Espírita (RE), a questão é seres pensantes de que jeito? Civilizações avançadas ou brutucus? Aí que Marte ganhou um nova face:

Os habitantes de Marte são muito superiores aos da Terra, pela sua organização, pelo número e pela delicadeza de seus sentidos, e pelas faculdades intelectuais. O fato de ser a densidade muito fraca na superfície daquele mundo, e as substâncias constitutivas dos corpos menos pesadas lá do que aqui, permitiu a formação de seres incomparavelmente menos pesados, mais aéreos, mais sutis, mais sensíveis. O fato de ser nutritiva a atmosfera, libertou os organismos marcianos das grosserias das necessidades terrestres. É totalmente outro estado. A luz ali é menos viva, estando o planeta mais afastado do Sol do que a Terra; o nervo óptico é mais sensível. Sendo ali intensíssimas as influências elétricas e magnéticas, os habitantes possuem sentidos ignorados das organizações terrestres, sentidos que os põem em comunicação com essas influências. Tudo se contém na Natureza. Os seres, em toda parte, são apropriados aos meios em que habitam e em cujo seio nasceram. Os organismos podem mais ser terrestres em Marte, de igual modo que não podem ser aéreos no fundo do mar.

De mais, o estado de superioridade consequente dessa ordem de coisas evoluiu por si mesmo, pela facilidade da realização de todo o trabalho intelectual. A Natureza parece obedecer ao pensamento. O arquiteto que quer levantar um edifício; o engenheiro que deseja modificar a superfície do solo, quer se trate de levantar ou de cavar, de cortar montanhas ou de aterrar vales, não se esbarram, qual acontece na Terra, com o peso dos materiais e nas dificuldades da execução. Assim, têm a Arte feito, desde a origem, os mais rápidos progressos.

Além disso ainda, sendo a Humanidade marciana várias dezenas de milhares de séculos anterior à terrestre, tem percorrido anteriormente a esta todas as fases do seu desenvolvimento. Os mais transcendentes progressos científicos atuais da Terra não passam de pueris brinquedos de criança, comparados à Ciência dos habitantes daquele planeta.

Parte III, cap III, pp. 145-6

De toscos homens do paleolítico, Marte passou a ter seres sutis e bem mais adiantados que nós. Ignoro como Flammarion lidou com as disparidades entre esse relato -dado por um marciano desdobrado durante o sono do corpo – e o da Codificação. Nesse mesmo capítulo de Urânia, surgem informações que sugerem estarmos diante de “comunicações” que, na verdade, apenas refletiam crenças e expectativas fora fora do meio espírita:

A maior parte das nossas plagas são praias, planícies iguais. Poucas montanhas possuímos, e os mares não são fundos. Os habitantes aproveitam esses transbordamentos para irrigação das vastas campinas. Têm retificado, alargado, canalizado os cursos de água e construído nos continentes uma rede inteira de imensos canais. Esses continentes mesmos não são, qual os do globo terrestre, eriçados de elevações alpestres ou himalaicas, mas planícies imensas, atravessadas em todos os sentidos pelos rios canalizados e pelos canais que põem em comunicação todos os mares uns com os outros.

Outrora havia, relativamente ao volume do planeta, quase tanta água em Marte quanto na Terra. Insensivelmente, de século em século, uma parte da água das chuvas atravessou as profundas camadas do solo e não tornou à superfície. Combinou-se quimicamente com as rochas e foi excluída do curso da circulação atmosférica. De século em século, também, as chuvas, as neves, os ventos, os gelos do inverno, as secas do verão, têm desagregado as montanhas e os cursos de água, trazendo esses destroços para a bacia do mar, cujo leito têm gradualmente levantado. Não mais possuímos grandes oceanos, nem mares profundos, mas unicamente mediterrâneos. Muitos estreitos, golfos, mares análogos à Mancha, ao mar Vermelho, ao Adriático, ao Báltico, ao Cáspio. Praias lindíssimas, enseadas mansas, lagos e espaçosos rios, frotas antes aéreas do que aquáticas, céu quase sempre puro, principalmente pela manhã. A Terra não tem manhãs tão luminosas quanto as nossas.

Parte III, cap III, pp. 152-3

Marte, de fato, pode ter tido um passado marinho e parte de sua água pode se encontrar no subsolo e calotas polares, mas a maior parte deve ter evaporado e se perdido com grande quantidade da atmosfera, que o planeta não reteve por causa de baixa gravidade. Marte não é plano e nele se encontra o maior vulcão conhecido do sistema solar: o monte Olympus, com 24 km de altitude; além disso Marte não possui campo magnético dipolar como a Terra ou Mercúrio, apesar de já ter possuído. Os “marcianos” estão menos sujeitos a influências magnéticas que os terráqueos. Apesar disso, o que na verdade chama atenção é que um contemporâneo de Flammarion, o italiano Giovanni Schiaparelli, relatara um pouco antes a observação de grandes canais cruzando a superfície de Marte. Por volta de meados da década de 1880, a ideia dos canais já havia se disseminado por diversos observadores profissionais e amadores. Flammarion aceitou a ideia de Schiaparelli de as regiões escuras eram mares rasos e as claras, continentes; mas, ao contrário dele, creditava a existência de canais a construções feitas por uma civilização marciana, no intuito de levar água a todo o planeta. No livro Le Planète Mars (1892), sustentou seu ponto de vista no fato de os canais serem muito longos e retos.

Canais Marcianos

Desenhos dos supostos canais marcianos (E) e foto de Marte feita pelo telescópio espacial Huble (D). Canais até foram encontrados, ou melhor, vales fluviais – indícios de um passado aquoso.

A hipótese de uma “civilização marciana” encontrou eco do outro lado do Atlântico. O rico americano Percival Lowell foi o maior representante da “martemania” nos EUA. Fez desenhos extremamente detalhados de um grande complexo de canais de irrigação, que levavam água do derretimento das calotas polares para as regiões equatoriais. Os marcianos seriam uma avançada e sedenta civilização lutando contra uma catástrofe ecológica.

Ironicamente, fortes críticas às teses de Lowell (e, por tabela, Flammarion) vieram de alguém inesperado: o biólogo, codescobridor da seleção natural (junto a Darwin) e espiritualista Russel Wallace. Ele demonstrou que o ar em Marte era muito mais fino e rarefeito para permitir a existência de água líquida. Assim declarou: “Somente uma raça de loucos construiria canais em tais condições” [cf. Cosmos].

Ao contrário de Flammarion e demais espíritas, Wallace advogava uma visão antropocêntrica e geocêntrica do papel da humanidade no universo. Em seu Man’s Place in the Universe, sustenta seus argumentos com a ciência da época:

Agora, se nós considerarmos estas cinco condições distintas [previamente citadas] ou conjuntos de condições, muitas delas dependentes de um delicado equilíbrio de forças atuando na origem de nosso planeta, parecem ser absolutamente necessárias para a existência de formas orgânicas de vida elevadas, veremos de uma vez como são peculiares nosso lugar e condição dentro do sistema solar, desde que saibamos que elas não podem todas coexistir em nenhum outro planeta. E quando considerarmos mais além disto, mesmo se eles de fato existirem agora, não seria nada ao propósito [de abrigar vida] a menos que tivéssemos razão para acreditar que elas tivessem também existido, como [foi] conosco, numa inquebrada continuidade por muitos e talvez milhões de anos. Toda a evidência em nosso controle assegura-nos que apenas nossa Terra no sistema solar esteve desde de sua origem adaptada para ser o teatro para o desenvolvimento de vida organizada e inteligente. Nossa posição dentro do sistema é, desta forma, central e única, assim com a de nosso sol em todo o universo estelar

E Wallace deixa claro no mesmo artigo que o status privilegiado da humanidade seria uma forma de combater o materialismo. Wallace e Flammarion se equiparam num ponto: ambos usaram o que se sabia então para justificar crenças pessoais.

Flammarion e Wallace

Flammarion (E) e Wallace (D). Dois espíritas, duas visões opostas quanto ao papel da humanidade no Universo.

A melhoria dos instrumentos de observação derrubou a crença nos canais marcianos. Observações feitas já em 1909 indicavam a ausência de canais. Hoje, sabe-se que Schiaparelli, Lowell e outros viram uma ilusão de óptica provocada pela baixa resolução suas aparelhagens.

Século XX – Da Queda Marte aos Marcianos Superdimensionais Quânticos

Embora haja sofrido um baque com o fim do frenesi dos canais, a expectativa de um planeta Marte com vida não só complexa como também inteligente continuou a permear o imaginário popular, impulsionada por clássicos como “A Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells, ou criações mais populares e prosaicas, como o personagem de desenho animado “Marvin, o Marciano” – que ilustra o topo deste artigo. As comunicações mediúnicas, de certa forma, acompanharam a tendência em prol de um Marte desenvolvido. Chico Xavier no livro Novas Mensagens do Espírito de Humberto de Campos( FEB, 1940, pp. 57-68) recebeu a revelação de que em Marte é povoado por seres em “adiantadíssima evolução”. Hercílio Maes psicografou de Ramatis o livro A Vida no Planeta Marte onde diz serem os marciano avançados tecnologicamente mil anos em relação à Terra e 500 no aspecto moral. Total contradição com os fatos e com o Marte selvagem. Em Emmanuel – Dissertações Mediúnicas, Introdução, psicografado por Chico Xavier, mais uma vez Marte fica desenvolvido:

A Terra é, pois, componente da sociedade dos mundos. Assim como Marte ou Saturno já atingiram um estado mais avançado em conhecimentos, melhorando as condições de suas coletividades, o vosso orbe tem, igualmente, o dever de melhorar-se, avançando, pelo aperfeiçoamento das suas leis, para um estágio superior no quadro universal.

Cena do filme A Guerra dos Mundos (1953), baseado no romance de H.G. Wells. Quando Marte preenchia a imaginação (e o temor) dos terráqueos.

Um banho de água fria ocorreu quando as primeiras missões não-tripuladas a Marte foram bem sucedidas, notadamente Mariner 4 (1965), a Viking 1 (1976) e a Mars Pathfinder (1997). A sonda Mariner 4 fotografou o planeta de perto e revelou uma superfície árida e esburacada como a de nossa Lua, além de ter uma atmosfera de gás carbônico extremamente rarefeita. A missão Viking 1 foi a primeira a aterrissar um laboratório-robô na superfície e os dados de seus experimentos apontaram um planeta biologicamente morto. Essa análise, todavia, é até hoje considerada inconclusiva e talvez a questão só seja resolvida com a obtenção de uma amostra para estudo na Terra. A Mars Pathfinder foi munida de um robô-explorador, que enviou por mais de um mês imagens da desolada superfície do planeta. Houve diversas outras expedições a Marte, mas nenhuma delas objetivava a busca por civilizações avançadas ou seres sub-humanos. No máximo queriam micróbios. Nenhum sinal dos dois primeiros sequer apareceu. Com exceção das comédias, Marte praticamente sumiu das produções de ficção-científica mais “sérias”, que passaram a buscar alienígenas inteligentes em outros sistemas solares (Star Trek, Avatar) ou numa “galáxia muito, muito distante”. Tal qual os cientistas.

Quanto ao espiritualismo, já existia o problema das comunicações pró “Marte atrasado, porém com seres complexos” em conflito com os relatos do “planeta evoluído”. Agora os fatos contradizem as duas teses. Em vez de aceitar um erro e admitir as limitações do “Consenso Universal dos Espíritos”, as saídas adotadas pelo movimento espírita têm sido um tanto problemáticas. Há quem diga que os robôs pousaram em regiões desérticas (onde deveriam ter pousado, então?) ou que os marcianos, por serem espíritos mais evoluídos, têm um envoltório mais sutil e invisível para nossos olhos e instrumentos. Há ainda apelações para conceitos de ponta da Física moderna, como as dimensões extras do universo previstas na Teoria das Supercordas(2). Todas essas explicações, contudo, destoam de uma passagem de Urânia, que demonstra o que realmente se pensava nas comunicações do século XIX:

A forma das criaturas é, em cada mundo, o resultado dos elementos especiais de cada globo, substância, calor, luz, eletricidade, densidade, peso. As formas, os órgãos, o número dos sentidos – vós outros tendes apenas cinco, e esses mesmos bastante pobres – dependem das condições vitais de cada esfera. A vida terrestre é da Terra; marciana em Marte; saturniana em Saturno; netuniana em Netuno – isto é, apropriada a cada mansão, ou, para melhor dizer, mais rigorosamente ainda, produzida e desenvolvida por esse mundo em particular, conforme o seu estado orgânico, e seguindo uma lei primordial a que obedece a Natureza inteira: a lei do Progresso.

Parte I, cap. II, p. 20

Se é assim, por que seres tão etéreos precisariam de um planeta materialmente grosseiro para viver? Um “astro espiritual”, como uma grande colônia de desencarnados não seria o ideal? Todas as explicações dadas até agora não passam de remendos que ignoram o que os antigos espiritualistas queriam dizer a respeito dos supostos alienígenas e o que Ciência moderna diz a sobre seus próprios conceitos. É duro dizer isso, mas essa é uma atitude tão esquiva e ilusória quanto a dos criacionistas adeptos da “Terra Jovem” na hora de justificar uma idade de 6.000 anos para nosso planeta. E ainda permanece a contradição entre o Marte avançado de Flammarion, Chico Xavier e Ramatis contra o atrasado das comunicações recebidas por Kardec. Sendo que no último caso os marcianos deveriam estar encarnados em corpos tão ou mais “grosseiros” que os nossos, logo a saída de que possuem “um corpo sutil” e “invisível” não se aplica. Note que são duas situações mutuamente excludentes: uma delas tem que estar errada ou as duas! De fato, quem realmente interpreta a questão dos habitantes do Planeta Vermelho é o lado religioso do Espiritismo, mas de uma religiosidade que nada tem de racional e se aproxima daquela que tanto desdenha: a cega. E se os marcianos derem o ar da graça? Bem, aí eu peço desculpas genuflecto. Mas até lá…

Paisagem Marciana

A realidade árida de Marte. Será que há alguém brincando de pique-esconde? Ou será tão difícil assim admitir que nos pregaram uma peça?

* * *

Para dar um jeito nesta crise que rola na Terra, com vocês, Rita Lee:

Alô! Alô Marciano!
Composição: Rita Lee e Roberto de Carvalho

Alô, alô marciano
Aqui quem fala é da Terra
Pra variar, estamos em guerra
Você não imagina a loucura
O ser humano tá na maior fissura porque
Tá cada vez mais down no high society !

Alô, alô marciano
A crise tá virando zona
Cada um por si, todo mundo na lona
E lá se foi a mordomia
Tem muito rei aí pedindo alforria porque
Tá cada vez mais down no high society !

Alô, alô marciano
A coisa tá ficando ruça
Muita patrulha, muita bagunça
O muro começou a pichar
Tem sempre um aiatolá prá atolá , Alá !
Tá cada vez mais down no high society

Notas

(1)Que o digam os alienígenas pirados de Marte Ataca! (1996).

(2)Vide Revista Universo Espírita – Nº 50 / Ano 5, 2008. A Teoria das Supercordas é (mais) uma tentativa de unir todas as força físicas da natureza (gravitacional, nucleares e eletromagnética) em um único arcabouço teórico. Em seu modelo, ela estipula que o universo teria originalmente dez dimensões (uma temporal e nove espaciais) e, por ocasião do Big Bang, seis delas teriam ficado “enroscadas” (aspas, por favor) de forma diminuta no tecido do espaço-tempo originado pelas quatro restantes. Será que os marcianos vivem num aperto?

Para Saber Mais

Antonio Luiz M. C. da Costa, Marte do passado, da lenda à realidade, acessado em 15/05/2012.

Carl Sagan, Cosmos, Parte V, Blues for a Red Planet

Camille Flammarion – Urânia, FEB, 10a. ed., 2007

Projeto Ockham – Canais de Marte , acessado em 10/05/2012.

Russel Wallace – Man’s Place in the Universe , acessado em 15/05/2012

Atlântida: Extraterrestres Reencarnados na Terra.

15 de abril de 2012 11 comentários

Índice

  • Edgard Armond e os Continentes Perdidos
  • Placas Tectônicas: o Fim de Atlântida e Lemúria
  • Atlântida: A Lenda segundo Platão
  • Um Passado enterrado no Gelo
  • Com Raça Adâmica, sem Raça Adâmica e apesar dela
  • Notas
  • Para Saber mais
    • * * *

      Edgard Armond e os Continentes Perdidos

      Em Os Exilados da Capela, Edgard Armond desenvolveu uma ideia já presente em A Gênese: a Raça Adâmica. Legiões de espíritos oriundos de mundos avançados teriam perdido o direito de lá reencarnarem por serem retardatários em seu progresso moral. Como forma de “regeneração”, foram degredados em mundos que ensaiavam os primeiros passos da vida inteligente, onde teriam uma encarnação bem mais áspera e também a oportunidade de acelerar o progresso de seus habitantes. Um desses foi a Terra.

      Armond advogava (baseado em “relatos mediúnicos”) que tal migração ocorrera a partir de um planeta do sistema solar da estrela Capela, situada na constelação de Cocheiro, “uma estrela inúmeras vezes maior que o nosso Sol e, se este fosse colocado em seu lugar, mal seria percebido por nós, à vista desarmada” (cap. I). Bem tirando o fato de uma estrela grande demais consumir seu combustível de forma extremamente rápida, tornando o aparecimento da vida complexa em seu sistema um tanto improvável (quanto mais a inteligente), continuemos.

      A migração dos capelinos teria se iniciado já nas últimas eras glaciais, num período por ele denominado “1º ciclo”. Abaixo, um mapa de como seria o mundo àquela época:

      O mundo do primeiro ciclo.

      O mundo do “primeiro ciclo”, por Edgard Armond.

      Parte dos capelinos teria se tornado os constituintes da terceira e quarta raça de “atlantes”. Seres mais avançados em relação aos demais habitantes do planeta e dotados de poderes psíquicos. Fizeram mal uso destes dons para fins de conquista e dominação. Sua corrupção e abuso de poder provocaram cataclismos que arrasaram o continente e levaram à dispersão dos sobreviventes de três sub-raças atlantes: toltecas, acádios e semitas.

      Afinal, há alguma coisa de verdade no mito de Atlântida? Antes da teoria da deriva continental, estipulada em sua forma moderna por Alfred Wegener em 1912, os paleontólogos tinham tremendo abacaxi para descascar: fósseis da mesma espécie eram encontrados em sítios de continentes distintos, separados por vastos oceanos. Como eles cruzaram tais distâncias? A primeira resposta dada foi a hipótese das “pontes continentais”: grandes massas de terra, agora submersas, que ligariam os continentes, permitindo um fluxo de populações. Um dos primeiros “grandes continentes perdidos” propostos foi Lemúria, sugerido em 1864 pelo zoólogo Philip Sclater num artigo ao Quarterly Journal of Science, [vol. I. p. 215]. Seu objetivo era explicar disparidade entre a ampla distribuição dos fósseis de antigas populações de lêmures (daí Lemúria) – encontrados pela orla do oceano Índico – e os exemplares atuais desses primatas, que estão restritos à ilha africana de Madagascar.

      A hipótese das pontes continentais sofreu refinamentos conforme outros registros fósseis eram descobertos e, em meados do século passado, a seguinte configuração para os continentes antigos era aceita:

      O mundo no carbonífero, segundo as pontes continentais.

      Distribuição de terras durante o carbonífero, segundo a antiga hipótese das pontes continentais. Fonte: Enciclopedia Labor, vol I, cap. V

      Tem-se uma ilustração relativamente semelhante à de “Exilados..”, mas esta semelhança é ilusória, pois figura representa a Terra do período geológico conhecido como carbonífero (de 360 a 286 milhões de anos atrás) e a de Armond já data do pleistioceno (1,8 milhão de anos a 11.000). A hipótese das pontes, por sinal, supunha uma distribuição geológica próxima à atual já no Terciário superior (paleoceno e eoceno – 65 a 35 milhões de anos) já mostram uma distribuição próxima à atual.

      O mundo no terciário, segundo as pontes continentais.

      Distribuição de terras durante o terciário inferior, segundo a antiga hipótese das pontes continentais. Fonte: Enciclopedia Labor, vol I, cap. V

      Embora Armond não tenha dado bibliografia clara, pode-se cogitar que bebera água de alguma fonte relacionada à teosofia. Madame Blavatsky, a fundadora dessa seita ocultista, expôs sua versão de antropogênese no segundo volume de obra Doutrina Secreta, em que não só toma emprestado o continente de Lemúria, mas também a usa a mítica Atlântica e o suposto continente Hiperbóreo. Ela também apresenta parte do vocabulário usado por Armond como “Raças-Mães” (Root Races ou “Raças-Raizes” ) e suas respectivas sub-raças.

      Esses continentes perdidos ganharam um maior desenvolvimento em The Lost Lemuria (“A Lemúria Perdida”, 1904) e The Story of Atlantis (“A História de Atlântida”, 1896), ambos de autoria do também teósofo William Scott-Elliot. Além de informações geológicas, esses livros fornecem dados sobre a suposta história e costumes dos antigos habitantes, bem algumas evidências para esses continentes, que eram baseadas pressupostos científicos da época. O conteúdo antropológico, porém, ficou apenas assentado em alegados poderes de clarividência:

      Na verdade, não há limite aos recursos da clarividência astral na investigação a respeito da história passada da Terra, seja o caso de estivermos envolvidos com os eventos que ocorreram à humanidade nas épocas pré-históricas ou com o próprio desenvolvimento do planeta ao longo dos períodos geológicos anteriores ao advento do homem, ou com eventos mais recentes, narrativas atuais que têm sido distorcidas por historiadores descuidados ou perversos. A memória da Natureza é infalivelmente acurada e não exaustivamente precisa. Tão certo como a precessão dos equinócios, chegará um tempo quando o método literário de pesquisa histórica será posto de lado como ultrapassado, no caso de toda obra original.(…)

      The Story of Atlantis, prefácio à primeira edição.

      Scott-Elliot talvez tenha se deixado levar por um excesso de otimismo, pois o tempo seria cruel para a credibilidade de Lemúria e Atlântida.

      [topo]

      Mapas Lemurianos de Scott-Elliot
      Lemuria 1 Lemuria 2

      Em vermelho, terras lemurianas. Azul, antigas terras Hiperbóreas (Ártica, Báltica e Sibéria).

      Mapas Atlantes de Scott-Elliot
      Atlântida 1

      Entre 1 milhão e 800 mil anos atrás.

      Atlântida 2

      Entre 800 mil e 200 mil anos atrás.

      Atlântida 3

      Entre 200 mil e 80 mil anos atrás.

      Atlântida 4

      Entre 80 mil e 11 mil anos atrás.

      Em vermelho, territórios de formação temporal idêntica a atlante. Em verde, territórios de outras eras (hiperbóreas e lemurianas).

      Placas Tectônicas: o Fim de Atlântida e Lemúria

      As figuras sobre as Pontes Continentais que foram extraídas da Enciclopedia Labor pertencem a uma edição de 1957, portanto são contemporâneas à primeira edição de “Exilados” (1951) e bem anteriores à morte de Armond (1982). As figuras estão lá mais como uma curiosidade, pois essa enciclopédia dá realmente mais ênfase na teoria de Wegener da deriva continental. Todos os continentes estiveram uma vez unidos num só (Pangeia), que teria se fragmentado inicialmente em dois (Laurásia, ao norte, e Gondwana, aos sul) e depois nas massas continentais modernas. Tal ideia conseguia não só explicar a distribuição dos achados fósseis, como a formação geológica contínua entre os blocos separados e o impressionante ajuste do litoral dos continentes modernos.

      Pangeia - O supercontinente.

      Pangeia e a distribuição de fósseis no triássico (200 milhões de anos).

      No entanto, por ocasião da morte de Wegener (1930), sua teoria possuía uma grande lacuna: não explicava que forças realmente moviam os continentes de forma satisfatória. A resposta definitiva só veio em 1962, com a descoberta da “tectônica de placas”. A crosta terrestre não é inteiriça, mas dividida em seis “placas” geológicas principais e outras menores que flutuam sobre o magma do manto. Suas fronteiras são delimitadas pelas dorsais e fossas oceânicas. No manto, surgem correntes de convecção provocadas pelo calor mais intenso no núcleo terrestre, que produziria correntes ascendentes parcialmente afloradas em ambos os lados das dorsais oceânicas e descendentes nas fossas oceânicas. Tanto o é que as rochas mais recentes se encontram junto às dorsais e a idade delas aumenta à medida que se afastam em direção às fossas. O assoalho oceânico se expande junto às dorsais e é reabsorvido pelo manto nas fossas. Os continentes são arrastados como pratos deslizantes durante o ciclo convectivo.

      Placas tectônicas.

      Distribuição das placas tectônicas.

      Esquemático da tectônica de placas.

      Tectônica de Placas.

      Agora vamos a uma análise pormenorizada dos argumentos “armondianos” em prol de Atlântida (cap. XIV de Exilados…).

      • No fundo do Atlântico foram encontradas lavas vulcânicas cristalinas, cuja congelação era própria de agentes atmosféricos, dando a entender que o vulcão que as expeliu era terrestre e o esfriamento de lava se deu em terra e não no mar.
        Resposta: Isto é perfeitamente factível durante a cisão de uma placa, antes que a água do mar invada a parte nova do assoalho oceânico. Mas não é por isso que as antigas terras desabam.

        Cisão de uma placa e a origem de uma dorsal.

        Formação de uma dorsal oceânica.

        Falha de San Andreas

        Falha de San Andreas, na Califórnia. Tectônica de placas a olhos vista.

      • Estudos realizados no fundo desse oceano revelam a existência de uma grande cordilheira, começando na Irlanda e terminando mais ou menos à altura da foz do rio Amazonas no Brasil, cuja elevação é quase três mil metros acima do nível médio do fundo do oceano.
        Resposta: Na verdade, ele está se referindo à cadeia de montanhas submarinas conhecida como “Dorsal Meso-Atlântica”, que vai da Islândia ao fim do continente sul-americano! Muito além do ele gostaria que fosse.

        Fundo Oceânico.

        O fundo oceânico. Ao centro, a Dorsal Meso-Atlântica.

        Ela foi formada na junção de placas por material que vem sendo expelido há milhões de anos. Eu disse EXPELIDO, não sugado. O veredicto da geologia é claro: não houve nenhum continente Atlântico, nem civilização chamada Atlântida (1).

      • Os homens de Cro-Magnon eram do tipo atlante, muito diferentes de todos os demais, e só existiram na Europa ocidental na face fronteira ao continente desaparecido mostrando que é dali que vieram.
        Resposta: É crescente a admissão da tese que os primeiros Humanos anatomicamente modernos vieram da África. Os Cro-Magnons chegaram à Europa vindos do lado oriental.

      • Os crânios dos Cro-Magnons são semelhantes aos crânios pré-históricos encontrados em Lagoa Santa, Minas Gerais (Brasil).
        Resposta: A reconstituição do crânio de uma representante típica do “povo da Lagoa Santa” revelou algo impressionante: ela tinha traços negroides! Os índios não foram os primeiros habitantes do lugar, muito menos o europeus Cro-Magnons. Esta representante foi chamada de Luzia, em homenagem a um famoso achado fóssil: Lucy, o esqueleto mais completo da espécie Autralopithecus Aferensis.

        Luzia

        Luzia, a primeira brasileira.

      • O idioma dos bascos não tem afinidade com nenhum outro da Europa ou do Ocidente e muito se aproxima dos idiomas dos americanos aborígines.
        Resposta: Segure-se na poltrona com o que vou falar: o inglês é parecido com chinês! Sim, são duas línguas em que a separação entre as classes gramaticais é bastante fluida, podendo uma mesma palavra ser utilizada ora como substantivo, ora como adjetivo ou verbo. Agora, volte à calma, pois eu esqueci de falar as diferenças: o chinês é uma língua tonal, com predominância absoluta de monossílabos; características que o inglês não possui. Sem contar que a história das línguas é radicalmente diferente. Em suma, isso é um exemplo de comparação descabida em que se ressalta apenas o que interessa e se esconde o destoante. O idioma basco, de fato, é um “corpo estanho” no meio das línguas indo-europeias que o circundam. Ele deve ser o sobrevivente de idiomas falados na península ibérica antes da chegada de celtas e romanos, mas sua origem ainda permanece um mistério. Muitas comparações entre o basco e línguas ameríndias são feitas apenas por palavras que soam parecido, mas têm escritas e significados diferentes. Como por exemplo, umiak, que em esquimó significa “canoa para toda a família”, e umeak, que em basco é usado para designar crianças (2). Um exemplo fora do basco, foi a afirmação pelo Mesoamericanista Pedro Armillas que a palavras latina ocelli (olhinhos) lembra pequenas manchas e em nahuatl, a língua dos Astecas, um gato malhado é um ocelot [Feder, cap.VI, p. 122]. Tais comparações palavra a palavra podem forçar similaridades em línguas que não têm nenhuma conexão histórica!

      • Há pirâmides semelhantes no Egito e no México, e a mumificação de cadáveres praticada no Antigo Egito também o era no México e no Peru.
        Resposta: Mais um exemplo de mostrar semelhanças e esconder disparidades. Há grandes diferenças entre as pirâmides egípcias e as americanas. As pirâmides do Novo Mundo são truncadas com topos achatados, ao passo que as egípcias são “pontudas”. Pirâmides americanas possuem escadas ascendentes em suas faces; as egípcias, não. As americanas serviam de plataformas para templos e muitas também eram câmaras funerárias para seus líderes; as egípcias não possuíam templos e eram apenas sepulturas para o faraó e suas esposas. Os métodos de construção também eram diferentes; as egípcias eram feitas em etapa única, ao passo que as americanas tinham várias etapas, em geral, representando construções justapostas uma sobre as outras. Finalmente, se as pirâmides americanas e egípcias tivessem a mesma origem em Atlântida (ou qualquer ou buraco), era de se esperar que datassem do mesmo período. Entretanto, as egípcias datam sua entre 5.000 e 4.000 anos atrás; já as americanas não são a 1.500 anos. Ambas são bem mais recentes que o desaparecimento de Atlântida (há 11.000 anos, pela datação Platão). É possível traçar um desenvolvimento autóctone da tecnologia egípcia para a construção de pirâmides. Agora, uma pergunta: a técnica de mumificação era a mesma?

      • Também se verificou que o fundo do Atlântico está lentamente se erguendo: a sondagem feita em 1923 revelou um erguimento de quatro quilômetros em 25 anos, o que concorda com as profecias que dizem que a Atlântida se reerguerá do mar para substituir continentes que serão, por sua vez, afundados, nos dias em que estamos vivendo.
        Resposta: Estamos esperando.

      Gondwana reversa

      Animação monstrando, de trás para a frente, a trajetória do antigo continente de Gondwana, a parte sul de Pageia.

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      Atlântida: A Lenda segundo Platão

      A primeira menção à Atlântida aparece no diálogo filosófico “Timeus” de Platão. Ela é descrita por Crítias, avô materno de autor (que provavelmente não estava vivo, sendo o diálogo fictício). A história teria sido repassada pelo avô de Crítias (de mesmo nome), que teria ouvido do pai dele, Drópides. Este a recebera do sábio grego Sólon, que por sua vez ouvira sacerdotes egípcios. Um relato em primeira mão, sem dúvida!

      A história contada pelos sacerdotes seria a do maior feito dos antigos atenienses. Nove mil anos antes de sua época, uma força poderosíssima vinda de além das “Colunas de Hércules” (estreito de Gibraltar) avançou sobre a Europa e a Ásia, eles possuíam uma armada de 12.000 navios e um exército de 10.000 carruagens. Os sacerdotes disseram a Sólon o nome desse poder do oceano Atlântico: a nação de Atlântida. Os atlantes eram descendentes dos dez filhos do deus Poseidon com uma mortal. Construíram formidável civilização, mas a medida que seu sangue divino foi se diluindo, tornaram-se cruéis e sedentos de dominação. Os únicos que fizeram frente aos atlantes foram aos antigos atenienses. Após os invasores terem varrido todo o norte da África até o Egito, foram derrotados em batalha por uma força menor, mas cheia de patriotismo e virtude. Após este fracasso, toda a Atlântida foi destruída numa série de terremotos e enchentes que, infelizmente, também destruiu os antigos atenienses.

      Agora considere a história que Platão conta pela boca de Crítias: um império longínquo, tecnologicamente sofisticado, mas moralmente arruinado e perverso – Atlântida – tenta a dominação mundial pela força. A única coisa a ficar no seu caminho é um relativamente pequeno grupo de pessoas espiritualmente puras, com princípios morais e incorruptíveis – os antigos atenienses. Superando a desvantagem tecnológica e numérica, os atenienses são capazes de derrotar um adversário muito mais poderoso simplesmente através da força de seus espíritos.

      Isso te lembra de algo?

      “Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante…”

      Sim, Atlântida é uma fonte de inspiração para a série Guerra nas Estrelas de George Lucas. Platão situou os fatos 9.000 antes de sua época numa região quase desconhecida (o oceano Atlântico). A sofisticada e dominadora Atlântida remete ao Império Galáctico, com sua Estrela da Morte. Os atenienses lembram a Rebelião liderada por Lea e Luke Skywalker. Ambos são vitoriosos não por uma superior capacidade militar, mas porque a “Força” (Virtude) estava com eles. Mas as narrativas são mitos: servem para entreter e dar lições morais e são igualmente fantásticas. A partir das características dos primeiros atenienses, Platão exemplifica sua sociedade ideal.

      Pois é, os atrasados nativos, sem nenhum parentesco divino (ou alma extraterrena) se provaram mais valorosos. É impressionante como a história de Atlântida foi distorcida para servir aos propósitos de místicos. Ainda bem que Edgard Armond não é muito levado a sério por centros espíritas, digamos, mais ortodoxos. Mas sua voz se faz sentir nos afins da “Aliança Espírita Evangélica” fundada por ele. O problema maior, porém, é que Armond também teve por base testemunhos espirituais mais tradicionais. Em Exilados… se encontram alusões a Emmanuel. Ele, antes de Armond, falou em exilados da Capela e em Atlântida:

      ORIGEM DAS RAÇAS BRANCAS

      Aquelas almas aflitas e atormentadas reencarnaram, proporcionalmente, nas regiões mais importantes, onde se haviam localizado as tribos e famílias primitivas, descendentes dos “primatas”, a que nos referimos ainda há pouco. Com a sua reencarnação no mundo terreno, estabeleciam-se fatores definitivos na história etnológica dos seres.

      Um grande acontecimento se verificara no planeta. É que, com essas entidades, nasceram no orbe os ascendentes das raças brancas.

      Em sua maioria, estabeleceram-se na Ásia, de onde atravessaram o istmo de Suez para a África, na região do Egito, encaminhando-se igualmente para a longínqua Atlântida, de que várias regiões da América guardam assinalados vestígios.

      Não obstante as lições recebidas da palavra sábia e mansa do Cristo, os homens brancos olvidaram os seus sagrados compromissos.

      Grande percentagem daqueles Espíritos rebeldes, com muitas exceções, só puderam voltar ao país da luz e da verdade depois de muitos séculos de sofrimentos expiatórios; outros, porém, infelizes e retrógrados, permanecem ainda na Terra, nos dias que correm, contrariando a regra geral, em virtude do seu elevado passivo de débitos clamorosos.

      QUATRO GRANDES POVOS

      As raças adâmicas guardavam vaga lembrança da sua situação pregressa, tecendo o hino sagrado das reminiscências.

      As tradições do paraíso perdido passaram de gerações a gerações, até que ficassem arquivadas nas páginas da Bíblia.

      Aqueles seres decaídos e degradados, a maneira de suas vidas passadas no mundo distante da Capela, com o transcurso dos anos reuniram-se em quatro grandes grupos que se fixaram depois nos povos mais antigos, obedecendo às afinidades sentimentais e linguísticas que os associavam na constelação do Cocheiro. Unidos, novamente, na esteira do Tempo, formaram desse modo o grupo dos árias, a civilização do Egito, o povo de Israel e as castas da Índia.

      Dos árias descende a maioria dos povos brancos da família indo-europeia nessa descendência, porém, é necessário incluir os latinos, os celtas e os gregos, além dos germanos e dos eslavos.

      As quatro grandes massas de degredados formaram os pródromos de toda a organização das civilizações futuras, introduzindo os mais largos benefícios no seio da raça amarela e da raça negra, que já existiam.

      É de grande interesse o estudo de sua movimentação no curso da História. Através dessa análise, é possível examinarem-se os defeitos e virtudes que trouxeram do seu paraíso longínquo, bem como os antagonismos e idiossincrasias peculiares a cada qual.

      Xavier, Francisco Cândido; A Caminho da Luz, FEB, ditada por Emmanuel, cap. III

      Um tanto comprometedor, pois a origem da raça branca tem sensível viés racista. Será que Emmanuel se esqueceu dos núbios que invadiram o Egito e promoveram uma dinastia de faraós negros? Com isso, não será tão fácil assim se livrar de Armond chamando-o de dissidente: Emmanuel também aparenta ser um pseudossábio, a começar pela perfumaria do linguajar: “As raças adâmicas guardavam vaga lembrança da sua situação pregressa, tecendo o hino sagrado das reminiscências.” Talvez merecesse um lugar ao lado de Ramatis.

      Mas ainda vale comentar que por volta do lançamento do livro (1939) e até um pouco depois da descoberta da tectônica de placas ainda estava disseminada a hipótese da Atlântida no meio do oceano que lhe herdou o nome, como um resquício da obra de acadêmicos difusionistas (3) como Ignatius Donelly. Isto pode explicar porque tais disparates não causaram espanto na época de publicação, mas hoje não se justificam mais. Antes que alguém diga que Emmanuel só seguiu os conhecimentos se sua época, vale reparar que ele teve acesso a supostas informações privilegiadas (a imigração capelina), então porque não o estado do fundo do mar?

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      Um Passado enterrado no Gelo

      Os seres humanos anatomicamente modernos surgiram entre 200 mil e 160 mil anos atrás. Como o que chamamos de “civilização” começou há apenas 10 mil anos, com o advento da agricultura, uma pergunta natural é por que a humanidade permaneceu tanto tempo estacionada? A tese de uma “raça adâmica” (ou capelina, se preferir) até que poderia explicar bem essa longa estase ao alegar que só após um empurrão inicial dado pelos espíritos imigrantes é que nossos ancestrais saíram da letargia. O problema é que ela gera uma nova pergunta: por que essa imigração demorou tanto? Outra alternativa é procurar uma resposta por aqui mesmo.

      Ossos são capazes de contar algo sobre nossos hábitos ou o que vivenciamos, mas não revelam tanto sobre como pensamos, afinal o cérebro não se fossiliza. Ainda assim ele deixa um “rastro” de seu funcionamento por meio dos pertences que sobrevivem a nós. Não somos a única espécie animal a se valer de ferramentas: elefantes usam galhos para se coçar, macacos de valem de pedras para quebrar cascas e de talos para capturar cupins, mas só a linhagem de hominídeos que nos deu origem foi capaz de usar ferramentas para fabricar outras mais sofisticadas. Artefatos especializados de pedra lascada existem desde os tempos do Homo Habilis, há cerca dois milhões de anos, e cada nova espécie do gênero homo aumentava a complexidade delas. Ao que o registro paleoantropológico fornece, esse desenvolvimento não foi contínuo, mas acelerado nos estágios iniciais de um novo tipo, para depois estagnar-se. De certa forma, nossos ancestrais eram conservadores.

      Por volta de 40 a 50 mil atrás (ou, quem sabe, 100 mil anos), embora anatomicamente a espécie homo sapiens permanecesse a mesma, alguma coisa mudou em sua fisiologia, no modo como seu cérebro funcionava. As ferramentas de pedra continuaram a ser fabricadas, só que agora eram produzidas ao lado de inusitados artefatos como:

      Virgem

      A Virgem de Willendorf

      Estatueta de Mamute

      O Mamute de Vogelherd

      Lascaux

      Caverna de Lascaux: Salão dos Búfalos

      Ao contrário das ferramentas produzidas até então, esses objetos não tinham, sob um olhar bem estrito, nenhuma aplicação prática sequer. Contudo, esses primórdios da arte se revelam ser a exteriorização que chegou até nós de uma aquisição mais profunda e extremamente útil de nossos antepassados diretos: o raciocínio simbólico. A erupção da arte pré-histórica indica quando o cérebro humano atingiu a capacidade de não apenas reagir ao mundo exterior, mas também produzir uma própria realidade, um mundo interior.

      Não foi a arte que levou a um salto evolutivo, pois suas vantagens na luta pela sobrevivência não são tão imediatas quanto a das ferramentas. Na verdade, a ela deve ter sido um subproduto do raciocínio simbólico. Graças a ele é possível se desenvolver estratégias de longo prazo, níveis sofisticados de linguagem e a religiosidade, que daria suporte nas vicissitudes.

      O que teria desencadeado tal mudança? Aqui se entra no território das conjecturas, onde hipóteses plausíveis podem ser dadas embora uma validação completa só fosse possível com a invenção de uma máquina do tempo (ou que permitisse ver o passado). Um leitor espiritualista poderia alegar que foi a suposta migração espiritual interplanetária que deu origem aos humanos fisiologicamente modernos, mas de que adiantaria colocar espíritos mais avançados em corpos que não estariam preparados para eles? Cogitemos uma engenharia genética “em outro plano”, então porque a espécie escolhida foi a de nossos ancestrais e não a de seus primos neandertais, com quem conviveram por um bom tempo? Sem contar que a capacidade craniana deles era 10% maior que a nossa e, mesmo com todo esse tamanho, suas manifestações culturais foram bem mais modestas.

      A razão pode estar bem aqui neste planeta, não grafada em livros – eram tempos ágrafos, lembre-se – nem em pinturas de cavernas, pois o horizonte de nossos ancestrais era limitado à memória dos anciãos, mas registrada na própria natureza. Nesse caso falo do gelo preservado na Groenlândia, um genuíno sobrevivente das era glaciais mais recentes deste planeta. A análise das camadas que o compõe revelam que o (sub)período geológico conhecido como Holoceno (de 10 mil anos atrás até hoje) foi consideravelmente quente se comparado com o anterior – o Eemiano (120 mil a 10 mil anos atrás), época em que se desenrolou a maior parte da existência de nossa espécie. E quando postos lado a lado os gráficos de Temperatura Média por Tempo de ambos os períodos, o que chama mais atenção é a amplitude das oscilações do Eemiano, mesmo se levando em conta sua duração maior. Esses extremos de rigor ficaram gravados na (relativamente) pequena variabilidade genética atual da espécie humana quando comparada a outras muito mais diversificadas: originamo-nos de poucos e quase fomos extintos nesse período. Os que sobreviveram o conseguiram, provavelmente, por causa dessa mutação na fisiologia cerebral e a repassaram adiante. Foi a velha seleção natural em ação.

      Eemiano

      Dados do núcleo de gelo da Groenlândia Fonte: [Cook, cap. I, p. 22]

      Holoceno

      Dados do núcleo de gelo da Groenlândia Fonte: [Cook p. 23]

      As mesmas mudanças abruptas que, indiretamente, nos moldaram foram as mesmas que impediram que nossos ancestrais dessem um passo adiante. Quando se está submetido a um ambiente demasiadamente hostil, pouco há o que fazer além de sobreviver, como atestam os povos ainda no estágio de caçadores-coletores vivendo nos desertos, selvas e no Ártico. Foi preciso a chegada do Holoceno com seu clima suficiente ameno, estável e longo para existir uma janela de tempo em que a humanidade criou a agricultura, a domesticação, dando origem à civilização. Já estávamos prontos bem antes, apenas aguardando um ambiente mais propício para nosso potencial.
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      Com Raça Adâmica, sem Raça Adâmica e apesar dela

      Que também se ressalte a necessidade de “dar tempo ao tempo” para que as coisas aconteçam. Isso parece um truísmo, mas para as gerações recentes, que já vivenciaram mudanças rápidas ao longo de sua vida, isso não parece tão óbvio assim. Sempre foi necessário que a humanidade crescesse numericamente (“muitas cabeças pensam melhor que uma”), acumulasse descobertas, preservasse-as e, principalmente, disseminasse-as entre si até atingir “massa crítica” para passar de uma etapa para outra. Por exemplo, os romanos foram habilidosos engenheiros, legando-nos notáveis realizações, geralmente ignoradas pelos místicos, que só têm olhos para os Egípcios e os Astecas. Então por que não foram capazes de inventar a bomba atômica? A resposta é que, embora tivessem plena capacidade intelectual para isso, careciam de conhecimentos de Física, Química e Matemática que só viriam a ser desenvolvidos muito depois e nem sempre com fins bélicos. Certo que esse exemplo foi um tanto exagerado, pois os romanos jamais inventariam algo que sequer conjecturavam, mas já na Grécia antiga existia a lenda de Dédalo e Ícaro, então por que o sonho de voar só se concretizou no começo do século XX? Por mais alto que voasse a imaginação helênica, nada poderiam fazer sem os conhecimentos de aerodinâmica, metalurgia, um motor de combustão interna e várias, várias tentativas mal sucedidas (quando não fatais) de voo em aparelhos mais pesados que o ar. Esses e todos os demais fracassos na busca por inovações deixam a lição de que nenhum progresso é a ponta de uma sequência ininterrupta de êxitos, mas o remanescente de inúmeros ensaios, malogros, pistas falsas, hipóteses frustradas e recomeços. Perdemos grande parte do “sentimento” quanto a essa dificuldade em razão, ironicamente, de nossa instrução escolar, que muitas vezes passa a visão romântica e linear de uma história científica capitaneada por ilustres sábios (4). Afinal de contas, por acaso haveria Física Clássica sem Isaac Newton, Relatividade sem Albert Einstein, Teoria da Evolução sem Charles Darwin, máquina a vapor sem James Watt, etc? A realidade não é tão simples assim:

      • Isaac Newton: Ele deveu muito a Kepler e Galileu. Robert Hook, contemporâneo seu, acusou-o de plagiar parte da gravitação universal. Ele entrou em choque com Leibniz pela primazia da invenção do Cálculo Diferencial e Integral, porém ambos devem a predecessores como Arquimedes, Wallis, Cavalieri, Pascal, Fermat;

      • Albert Einstein: A primeira versão de sua teoria – a Relatividade Restrita – deve muito aos trabalhos de Henri Poincaré e Hendrik Lorentz. Aliás, as equações para tempo e massa relativísticos recebem o nome de “transformações de Lorentz”. O conceito de espaço-tempo, utilizado na Relatividade Geral, foi proposto por Hermann Minkowski;

      • Charles Darwin: Correu para publicar seu estudo sobre a evolução das espécies ao saber que outro naturalista – Russel Wallace – chegara a conclusões muito próximas. A publicação foi conjunta e hoje ambos são considerados os descobridores do mecanismo da “seleção natural”, embora o lançamento por Darwin do livro “A Origem das Espécies” o tenha deixado mais conhecido junto ao público. O problema aqui é ele não deu o devido crédito a uma pessoa que identificou esse mecanismo muito tempo antes: seu próprio avô paterno Erasmus Darwin;

      • James Watt: Sua máquina a vapor é, essencialmente, um aperfeiçoamento do motor projetado por Thomas Newcomen.

      A ideia de que missionários são cruciais para o avanço da humanidade não se sustenta, pois um avanço científico-tecnológico é, em linhas gerais, o trabalho de levar um passo adiante o conhecimento que outros obtiveram, e não algum tipo de reminiscência de outro planeta. A Ciência é uma criação coletiva em que várias mentes trabalham equipe ou trocando informações entre si. Um exemplo notável disso foi o nascimento da Mecânica Quântica no começo do século XX, que, de Plank a Bohm, colecionou vários “pais”. Um avanço pode ser fruto do próprio ambiente do descobridor, pois quando a matéria-prima e o ferramental já estão todos à disposição, aumentam as chances de mais de um grupo de pessoa reuni-los. Que digam as disputas por primazias e reconhecimento:

      Que isso [uso de anagramas para atestar autoria] não funcionou muito bem como meio de estabelecer anterioridade ficou demonstrado pelos estudos do sociólogo Robert K. Merton, que verificou que 92% dos casos de descobertas simultâneas no século XVII terminaram em disputas. É, provavelmente, ao desenvolvimento do artigo científico que devemos uma diminuição do questionamento das precedências nos séculos posteriores. Merton cita os números de 72% no século XVIII, 59% por volta da segunda metade do século XIX, e 33% na primeira metade do século XX. Talvez se tenha percebido melhor, à medida que passava o tempo, que a descoberta simultânea é um fato bastante usual.

      Fontee: [Hellman, cap. III].

      * * *

      Os livros de História costumam lembrar mais dos generais que dos soldados, até por razões práticas. Mas sempre chega a hora que é preciso lembrar que não se ganha guerra sozinho e dar voz aos desconhecidos pés e mãos dos campos de batalha. Da mesma maneira, não tiremos o mérito de quem chegou lá, só não esqueçamos daqueles que indicaram o caminho, dos que alertaram, por experiência própria, sobre os becos sem saída e de quem forneceu calçados e mantimentos para a jornada rumo ao progresso (5). Esses bem terrenos anônimos e ilustres desconhecidos são invisíveis aos místicos, espiritualistas e “ascencionados” justamente por terem sido o que somos: humanos (terrenos e encarnados), encantadoramente humanos.
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      Notas

      (1) [Feder, cap. VIII, p. 202]

      (2) Extraído de Os Grandes Mistérios da Ciência, encarte de Superinteressante, outubro de 2003, pág. 13, De onde vem o idioma basco?.

      (3) Escola que desacreditava a possibilidade de grandes avanços tecnológicos e culturais poderem se repetir em regiões distintas do globo. Poucos locais seriam núcleos de ideias originais e as repassariam às sua áreas de influência. Atlântida caiu como uma luva para eles na explicação de, por exemplo, existirem pirâmides tanto na Meso-América como no Egito. Só esqueceram ressaltar, como já foi dito, as inúmeras diferenças entre elas.

      (4) Cf. [Diammond]

      (5) Sugestão de Leitura: [Rothman]

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      Para Saber mais

      Sobre o Mito de Atlântida

      – Felder, Kenneth L.; Frauds, Myths and Mysteries – Science and Pseudoscience in Archaeology, McGraw Hill, 4 ª ed.

      – Vidal-Naquet, Pierre; Atlântida – Pequena História de um Mito Platônico, tradução de Lygia Araújo Watanabe, Unesp, 2008.

      Sobre a Antiga Hipótese das Pontes Continentais

      Enciclopedia Labor, Tomo I, “Geologia General”, cap. V, Editorial Labor, Madri, 1957.

      – Sclater, Philip L., Some Dificulties in Zoological Distribution, 1878, acessado em 14/04/2012. Traz uma referência a seu artigo original sobre Lemúria.

      Sobre a Deriva Continental e as Placas Tectônicas

      Enciclopedia Labor, Tomo I, “Geologia General”, cap. V, Editorial Labor, Madri, 1957

      Placas tectônicas – Movimento de placas muda relevo, UOL Educação, acessado em 14/04/2012.

      – Uyeda, Seiya; La Nueva Concepcíón de la Tierra – Continentes y Océanos en Movimiento, Blume Ecología, Barcelona, 1980.

      Sobre os Primeiros Passos da Humanidade Moderna

      Journey of Mankind – Um conjunto de infográficos virtuais do portal de Arqueologia da Bradshaw Foundation. Em inglês.

      – Cook, Michael; Uma Breve História do Homem, Jorge Zahar Editor, 2003.

      = Diamond, Jared; O Terceiro Chimpanzé – A Evolução e o Futuro do Ser Humano, Record, 2011.

      – Mithen, Steven; Depois do Gelo – Uma História Humana Global 20.000 – 5.000 a.C., Imago, 2007.

      Sobre a Dinâmica da Ciência

      – Hellman, Hal; Grandes Debates da Ciência – Dez das maiores contendas de todos os tempos, UNESP.

      – Rothman, Tony; Tudo é Relativo, Bertrand Brasil, 2005.

      Obras Esotéricas Citadas

      – Blavatsky, H.P. The Secret Doctrine, 1888, acessado em 14/04/2012 em Sacred Texts.

      – Scott-Elliot, William; The Story of Atlantis, 1896, acessado em 14/04/2012 em Sacred Texts.

      _________________; The Lost Lemuria, 1904, acessado em 14/04/2012 em Sacred Texts.

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No mundo da Lua

12 de dezembro de 2011 4 comentários

Índice

A Lua sobre o mar.

Apresentação


Em Gen, cap VI, 25 se encontra uma declaração estranha sobre a Lua, feitas pelo espírito de Galileu, através da mediunidade de Camille Flammarion:

As condições em que se efetuou a desagregação da Lua pouco lhe permitiram afastar-se da Terra e a constrangeram a conservar-se perpetuamente suspensa no seu firmamento como uma figura ovoide cujas partes mais pesadas formaram a face inferior voltada para a Terra e cujas partes menos densas lhe constituíram o vértice se com esta palavra se designar a face que, do lado oposta à Terra , se eleva para o céu. É o que faz que esse astro nos apresente sempre a mesma face. Para melhor compreender-se o seu estado geológico, pode ele ser comparado a um globo de cortiça, tendo formada de chumbo a face voltada para a Terra.

Daí, duas naturezas essencialmente distintas na superfície do mundo lunar: uma, sem qualquer analogia com o nosso, porquanto lhe são desconhecidos os corpos fluídicos e etéreos; a outra, leve, relativamente à Terra pois que todas as substâncias menos densas se encaminharam para esse hemisfério. A primeira, perpetuamente sem águas e sem atmosfera, a não ser, aqui e ali, nos limites desse hemisfério subterrâneo; a outra, rica em fluidos, perpetuamente oposta ao nosso mundo.

As viagens espaciais comprovaram que a face oculta da Lua não se difere em natureza da que fica voltada para nós, sendo igualmente inóspita. A aparente imobilidade da Lua se deve ao fato de sua órbita ser síncrona: rotação em torno do eixo e translação em volta da Terra têm a mesma duração (28 dias)

Sistema Terra Lua, segundo A Gênese.

Sistema Terra-Lua, segundo “Galileu”: Lua ovoide, com materiais menos densos na face oculta

Na hora de julgar a comunicação, Kardec foi ao mesmo tempo prudente e descuidado, como relatado na nota de rodapé:

Por muito racional e científica que seja essa teoria, como ainda não foi confirmada por nenhuma observação direta, somente a título de hipótese pode ser aceita e como ideia capaz de servir de baliza à Ciência. Não se pode, porém, deixar de convir em que é a única, até ao presente, que dá uma explicação satisfatória das particularidades que apresenta o globo lunar.

Seria isso mesmo?
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Tão Perto e tão Misteriosa


Na verdade, o entendimento a respeito da rotação lunar (ou aparente falta dela) já contava com amplo histórico. Issac Newton, em seu Principia Mathematica produziu uma das primeiras tentativas de explicar o fenômeno:

Se o corpo da Lua fosse fluido como nosso mar, a força da Terra para levantar este fluido nas partes mais próximas e mais remotas estaria para a força da Lua através da qual nosso mar é levantado nos lugares sob e opostos à Lua da mesma forma que a gravidade aceleradora da Lua em direção à Terra para a gravidade aceleradora da Terra em direção à Lua, e o diâmetro da Lua para o diâmetro da Terra conjuntamente; ou seja, da mesma forma que 39,788 para 1, e 100 para 365 conjuntamente, ou da mesma forma que 1081 para 100. Por conseguinte, já que nosso mar, pela força da Lua, é levantado até 8 1/3 pés, o fluido lunar seria levantado pela força da Terra até 93 pés; e por causa disto a forma da Lua seria um esferoide, cujo maior diâmetro produzido passaria através do centro da Terra, e excederia os diâmetros perpendiculares em 186 pés. Tal é a forma, portanto, para qual a Lua tenderia, e deve ter desde o início. C.Q.E.

COROLÁRIO. Por conseguinte, ocorre que a mesma face da Lua está sempre voltada para a Terra; nem poderia o corpo da Lua possivelmente repousar em qualquer outra posição, mas sempre retornaria através de um movimento de libração para esta situação; mas estas librações, no entanto, devem ser excessivamente vagarosas, por causa da fraqueza das forças que as excitam; de forma que a face da Lua, que deveria estar sempre voltada para a Terra, pode, pelo mesmo motivo designado na proposição XVII se voltar em direção ao outro foco da órbita da Lua, sem ser imediatamente puxada de volta, e convertida novamente em direção à Terra.

O Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, proposição XXXVIII, problema XIX

Sistema Terra-Lua, segundo Newton.

Sistema Terra-Lua segundo Newton: no passado com uma Lua líquida (Esq) e, no presente, solidificada numa forma oblonga (Dir).

Apesar do gênio de Newton, sua tese é passível de sérios questionamentos. Primeiro, supôs aprioristicamente uma falta de rotação na Lua desde o princípio, algo difícil em um universo em que os corpos de grande porte frequentemente giram; e, segundo, desconsiderou a atração do Sol, que desalinharia a maré lunar.

Foi um contemporâneo de Newton, o ítalo-francês Cassini I, que, em 1693, fez a primeira descrição correta da rotação lunar, por meio do enunciado de três leis. A primeira, que é a que nos interessa, diz:

A Lua tem rotação uniforme em torno de um eixo fixo seu, sendo o período de rotação igual ao sideral.

Acontece que as leis de Cassini I são empíricas, dizem o como, não o porquê. Assim como a Gravitação Universal tinha dado um embasamento teórico às leis (também empíricas) de Kepler, era necessária uma teoria para os fatos descritos por ele. A primeira concepção correta a respeito da origem deste sincronismo remonta 1754/1755, em um trabalho de início de carreira do filósofo Immanuel Kant:

Mas se o desenvolvimento de um corpo produz por si mesmo produz a rotação axial, então todas as esferas da estrutura cósmica devem tê-la. Por que, então, a Lua não a tem? Algumas pessoas erroneamente pensam que a Lua tem um tipo de rotação pela qual ela sempre tem o mesmo lado voltado para a Terra muito mais devido ao desbalanceamento de um hemisfério que de um verdadeiro impulso rotacional. Deve a Lua realmente ter girado em seu eixo em um período anterior mais rápido e através de alguma causa desconhecido gradualmente ter reduzido seu movimento até que ele se tornou este leve e ponderado resíduo? Precisamos responder esta questão somente em conexão com um dos planetas. Então a aplicação para todos os planetas se seguirá de si mesma. Estou protelando esta solução para outra ocasião, visto que ele tem uma imperiosa conexão ao tema o qual a Real Academia de Ciências de Berlim estabeleceu para o prêmio no ano de 1754.

Kant, História Natural Universal e Teoria do Céu, 1755.

Kant faz uma alusão (bem) indireta a outro artigo publicado por ele em 1754, em que explica o desenvolvimento de um lado oculto da Lua pela ação das marés. Interessante notar a revelação de Kant que da hipótese da “Lua desbalanceada” era mais antiga do que supunha Kardec.

Sistema Terra-Lua, segundo Kant.

Sistema Terra-Lua segundo Kant (visão atual).

Inicialmente a Lua deveria girar mais rápido, estar mais perto da Terra e sua translação deveria ser mais lenta. A ação das marés sobre cada astro (mais especificamente nos oceanos terrestres e na superfície de uma Lua ainda plástica) não seria equilibrada. F4 e F1 seriam mais intensos que F3 e F1, respectivamente, devido a maior proximidade com o centro de gravidade com o astro oposto. O atrito entre as partes mais “fluidas” com as menos plásticas de cada astro “freia” a rotação de cada um. Na Lua, esta frenagem teria praticamente cessado quando ela atingiu a situação de órbita síncrona, mais permanece na Terra (lado direito da figura acima). Além da diminuição da rotação terrestre, o desequilíbrio da atividade das marés provoca o afastamento progressivo da Lua.

Infelizmente, o artigo de Kant (1754) foi publicado em um jornal sem expressão e caiu no esquecimento. O matemático francês Pierre Simon Laplace elaborou nos fins do século XVIII uma teoria alternativa do movimento lunar condizente com as observações da época. Seu prestígio praticamente eclipsou a importância da fricção das marés. Revisões das equações de Laplace revelaram falhas na teoria, que levaram o físico alemão Helmholtz, quase cem anos após o artigo de Kant, a novamente cogitar a frenagem das marés. O artigo de Kant foi redescoberto em 1867, sendo-lhe os créditos dados como precursor. Foi no começo da década de 80 do séc. XIX é que a interação das marés entre dois corpos recebeu um tratamento matemático amplo por George Darwin (filho de Charles Darwin), mas ainda assim ela não é considerada um tema esgotado até o momento.

É imperioso observar que ao longo do século XIX ainda existiam pesquisadores que defendiam a hipótese da Lua estática. Augustus de Morgan, em sua obra Budget of Paradoxes, analisa diversos panfletos do século XIX que atacam a noção de que a Lua gira. Por exemplo, Henry Perigal, astrônomo amador de Londres, foi infatigável nessa argumentação. Segundo um obituário, “o principal objetivo astronômico de sua vida” consistiu em convencer seus contemporâneos de que a Lua não girava. Assim, escreveu brochuras, construiu modelos, chegou a compor poemas para provar sua tese, “suportando com heroica jovialidade o contínuo desapontamento de ver como era vã tal tarefa”.

Mais tarde, Flammarion declarou:

Nesses encontros da Sociedade Parisiense de Estudos Espiritualísticos, escrevi de minha conta algumas páginas sobre assuntos astronômicos assinadas como “Galileu”. As comunicações permaneceram em posse da sociedade e, em 1867, Allan Kardec os publicou sob o título de Uranografia Geral, em sua obra intitulada Gênesis (preservei uma dessas cópias, com sua dedicatória). Essas páginas astronômicas nada me ensinaram. Portanto, não demorei a concluir que elas eram apenas o eco do que eu já sabia e que Galileu não teve nenhuma mão nelas. Quando escrevi as páginas, estava numa espécie de sonho acordado. Ademais, minhas mãos paravam de escrever quando pensava em outro assunto.

Forças Psíquicas Misteriosas, cap. II, p. 27.

Assim, teria tudo sido uma fraude inconsciente. Em O Mundo Invisível e a Guerra, de Léon Denis, cap XVI, atesta esta descrença de Flammarion já no fim da vida:

Também Camille Flammarion teve suas horas de vacilação e alguém nos fez notar que na última edição de seu livro As Forças Naturais Desconhecidas (*), aparecida em 1917, mostra uma tendência em explicar todos os fenômenos apenas pela exteriorização dos médiuns.

(*)Talvez o que Denis chame de “última edição de As Forças Naturais Desconhecidas” seja, na verdade, Forças Psíquicas Misteriosas, lançado em 1906. Flammarion, na introdução, informa que o primeiro livro jamais fora reeditado.

Ainda o espírito “Galileu”, no mesmo capítulo de Gênese, é a afirmação de que Marte não possui satélites. Em 1877, foram descobertas as duas luas marcianas, menos de uma década após a morte de Kardec. Edições mais recentes da Gênese possuem notas de rodapé corrigindo o erro, mas as mudanças partiram de “baixo para cima” e, pelo menos até a décima edição em português (de 1944, antes das viagens espaciais e bem depois da primeira edição francesa), não existiam tais notas.

Curiosamente, uma quantidade grande de artigos on-line dá o baricentro lunar como estando um pouco afastado do centro, em direção à face oculta. Por outro lado, a crosta da face oculta seria mais espessa. A frenagem das marés teria cessado na situação de maior estabilidade, como intuitivamente esperado. De qualquer forma, não há “fluidos” na face oculta da Lua, que continua tão inóspita como sempre, e a Lua realmente gira, coisa que não ocorreria segundo A Gênese.
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Para saber mais

– Autor desconhecido Physical Conditions Govern Appearances of Spectra, World Wide School.

– Brosche, Peter; Understanding Tidal Friction: A History of Science in a Nutshell

– Campbell, William Wallace; The Evolution of the Stars and the Formation of the Earth World Wide School, cap. V

– Danby, J.M.A; Fundamentals of Celestial Mechanics, Willmann-Bell Inc., 2ª ed., págs 382-385, 401

– Flammarion, Camille; Mysterious Psychic Forces, acessado em 17/08/2015

– Gardner, Martin; Ah, Apanhei-te! – Coleção O Prazer da Matemática, Gradiva (Portugal), 1ª ed., vol. XII, págs. 89-93.

– Hawking, Stephen; Os Gênios da Ciência – Sobre os Ombros de Gigantes[contém todo o Principia Mathematica], Ed. Campus/Elsevier.

– Kant, Immanuel; Universal History and Theory of Heaven, 1755, tradução inglesa de Ian C. Johnston.

– Williams, Henry Smith; History of Science, World Wide School, vol. III, cap. XII,

Why doesn’t the Moon Rotate?

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Vênus: Eterno e Tórrido Verão

8 de dezembro de 2011 4 comentários

Uma descrição especial de Vênus surge na Revista espírita de agosto de 1862, “O planeta Vênus”:

(Ditado espontâneo. – Médium, Sr. Costel.)

O planeta Vênus é o ponto intermediário entre Mercúrio e Júpiter; seus habitantes têm a mesma conformação física que a vossa; o mais ou menos de beleza e de idealidade nas formas é a única diferença delineada entre os seres criados. A sutileza do ar, em Vênus, comparável à das altas montanhas, torna-o impróprio aos vossos pulmões; as doenças ali são ignoradas. Seus habitantes não se nutrem senão de frutas e de laticínios; ignoram o bárbaro costume de se nutrirem de cadáveres de animais, ferocidade que não existe senão nos planetas inferiores; em conseqüência, as grosseiras necessidades do corpo são destruídas, e o amor se enfeita de todas as paixões e de todas as perfeições apenas sonhadas sobre a Terra. Como na madrugada onde as formas se revestem indecisas e alagadas nos vapores da manhã, a perfeição da alma, perto de ser completa, tem as ignorâncias e os desejos da infância feliz. A própria natureza reveste a graça da felicidade velada; suas formas flácidas e arredondadas não têm as violências e as asperezas dos panoramas terrestres; o mar, profundo e calmo, ignora a tempestade; as árvores não se curvam jamais sob o esforço da tempestade e o inverno não as despoja de sua verdura; nada é estridente; tudo ri, tudo é doce. Os costumes, cheios de quietude e de ternura, não têm necessidade de nenhuma repressão para ficarem puros e fortes.

A forma política reveste a expressão da família; cada tribo, ou aglomeração de indivíduos, tem seu chefe pela classe de idade. Ali a velhice é o apogeu da dignidade humana, porque ela aproxima do objetivo desejado; isenta de enfermidades e de fealdade, ela é calma e irradiante como uma bela tarde de outono.

A indústria terrestre, aplicada à pesquisa inquieta do bem-estar material, é simplificada e quase desaparece nas regiões superiores, onde não tem nenhuma razão de ser; as artes sublimes a substituem e adquirem um desenvolvimento e uma perfeição que os vossos sentidos espessos não podem imaginar.

As vestes são uniformes; grandes túnicas brancas envolvem com suas pregas harmoniosas o corpo, que não desnaturam. Tudo é fácil para esses seres que não desejam senão Deus e que, despojados dos interesses grosseiros, vivem simples e quase luminosos.

GEORGES.

(Perguntas sobre o ditado precedente; Sociedade de Paris; 27 de junho de 1862. Médium, Sr. Costel.)

1. Destes ao vosso médium predileto uma descrição do planeta Vênus, e estamos encantados de vê-la concordar com o que já nos foi dito, todavia, com menos de precisão. Pedimos consentir em completá-la, respondendo a algumas perguntas.

Para começar, dizei como tendes conhecimento desse mundo.

_ Sou errante, mas inspirado por Espíritos superiores. Fui mandado a Vênus em missão.

2 – Os habitantes da Terra podem lá encarnar diretamente, ao saírem daqui?

_ Ao deixar a Terra os mais adiantados passam por uma erraticidade mais ou menos longa, que os despoja dos laços carnais, imperfeitamente rotos pela morte.

Observação: A questão não era saber se os habitantes da terra podem lá encarnar-se imediatamente após a morte, mas diretamente, isto é, sem passar por mundos intermediários. A resposta foi que é possível aos mais adiantados.

3 – O estado de adiantamento dos habitantes de Vênus permite se lembrem de sua passagem em mundos inferiores e comparar as duas dimensões?

_ Os homens olham para trás com os olhos do pensamento, que reconstitui de relance o passado extinto. Assim, o Espírito adiantado vê com a mesma rapidez com que se move, rapidez fulminante como a eletricidade, bela descoberta que se liga estreitamente à revelação espírita. Ambas contém em si o progresso material e intelectual.

Observação: Fazendo uma comparação não é necessário saber a posição pessoal que se ocupou; basta conhecer o estado material e moral dos mundos inferiores por onde se passou para lhes notar a diferença. Assim, conforme o que nos dizem de Marte, devemos felicitar-nos para não mais lá estar; e sem sair da terra, basta considerar os povos bárbaros e ferozes e saber que tivemos de passar por esses estados, para nos sentirmos mais felizes. Sobre outros mundos temos apenas informações hipotéticas; mas é possível que nos mais adiantados que nós esse conhecimento tenha um grau de certeza que não nos é dado.

4 – Aí a duração da vida é proporcionalmente mais longa ou mais curta que na terra?

_ Em Vênus a reencarnação é muitíssimo mais longa que a prova terrena. Despojada das violências terrestres e humanas e expandida e impregnada da vivificante influência que a penetra, experimenta as asas que transportam a planetas gloriosos como Júpiter e outros semelhantes.

Observação: Conforme fizemos já notar, a duração da vida corpórea parece ser proporcional ao progresso dos mundos. Em sua bondade, quis Deus abreviar as provas nos mundos inferiores. A esta razão juntasse uma causa física: quanto mais adiantados os mundos, tanto menos são os corpos devastados pelas paixões e pelas doenças, que são a sua conseqüência.

5 – O caráter dos habitantes de Vênus, conforme a vossa descrição, faz-nos pensar que entre eles não haja guerras, disputas, ódios e inveja.

_ O homem só se torna aquilo que as palavras exprimem e seu pensamento limitado está privado do infinito. Assim atribuís até aos planetas superiores as vossas paixões e os vossos motivos inferiores, venenos depositados em vossos seres pela grosseria do ponto de partida, dos quais só vos curais lentamente. As divisões, as discórdias e as guerras são desconhecidas em Vênus, assim como desconhecem a antropofagia.

Observação: Com efeito, por seus vários estágios sociais, a terra nos apresenta uma infinidade de tipos, que podem dar uma idéia dos mundos nos quais cada um desses tipos é o estado normal.

6 – Qual o estado da religião nesse planeta?

_ A religião é a adoração constante e ativa do Ser Supremo. Mas adoração despojada de qualquer erro, isto é, de qualquer culto idólatra.

7 – Os seus habitantes estão todos no mesmo nível, ou, como na terra, uns são mais adiantados que outros? Neste caso, a quais habitantes da terra correspondem os menos adiantados?

_ A mesma desigualdade proporcional existe entre os habitantes de Vênus, como entre os seres terrenos. Os menos adiantados são as estrelas do mundo terrestre, isto é, os vossos gênios e os homens virtuosos.

8 – Há senhores e servos?

_ A servidão é o primeiro degrau da iniciação. Os escravos da antiguidade, como os da América moderna, são seres destinados a progredir num meio superior ao que habitavam na última encarnação. Por toda parte os seres inferiores estão subordinados aos superiores; mas em Vênus tal subordinação moral não se corpórea não se compara à subordinação corpórea que existe na terra: os superiores não são senhores, mais pais dos inferiores. Em vez de os explorar, ajudam-nos a progredir.

9 – Vênus chegou gradualmente ao estado em que se encontra? Passou anteriormente pelo estado em que se encontram a Terra e Marte?

– Reina uma admirável unidade no conjunto da obra divina. Como as criaturas, como tudo que é criado, animais ou plantas, os planetas progridem, inevitavelmente. Nas suas variadas expressões, a vida é uma perpétua ascensão para o Criador: numa imensa espiral ele desenvolve os graus de sua eternidade.

10 – Tivemos comunicações concordantes sobre Júpiter, Marte e Vênus. Por que sobre a Lua só temos coisas contraditórias e que não permitem se fixe uma opinião?

_ Essa lacuna será preenchida e em breve tereis sobre a Lua revelações tão claras e precisas quanto às obtidas sobre os outros planetas. Se ainda não vos foram dadas, mais tarde compreendereis o motivo.

Observação: Certamente esta comunicação sobre Vênus não tem os caracteres da autenticidade absoluta, razão porque a damos a título condicional. Contudo, o que já foi dito sobre esse mundo lhe dá, ao menos, um certo grau de probabilidade, e, seja como for, não deixa de ser o quadro de um mundo que necessariamente deve existir para quem quer que não tenha a orgulhosa pretensão de que seja a Terra o apogeu da perfeição humana: é um elo na escala dos mundos e um grau acessível aos que não se sentem com forças para atingir diretamente a Júpiter.

Vejamos um pouco da natureza de Vênus e dos venusianos:

A sutileza do ar, em Vênus, comparável à das altas montanhas, torna-o impróprio aos vossos pulmões; as doenças ali são ignoradas. (…) Seus habitantes só se nutrem de frutas e produtos do leite: desconhecem o bárbaro costume de alimentar-se de cadáveres de animais, ferocidade só existente nos planetas inferiores. Em consequência, as grosseiras necessidades do corpo são aniquiladas e o amor se reveste de todas as paixões e de todas as perfeições apenas sonhadas na Terra.

Bem, vejamos como é Vênus na verdade:

Atmosfera

É o item de maior destaque do planeta, pois sua espessura e densidade impressionam bastante. É composta principalmente de anidrido carbônico, traços de nitrogênio, vapor d’água, oxigênio, enxofre e até mesmo ácido sulfúrico. Com esses componentes, uma temperatura média de 460ºC e uma pressão de noventa atmosferas terrestres, dificulta qualquer observação de sua superfície. A temperatura é mais elevada que a de Mercúrio, apesar de Vênus estar mais afastado do Sol. O que causa isso é o efeito estufa de Vênus. A explicação desse efeito é a opacidade de sua atmosfera para radiações infravermelho, provocada pela grande concentração de CO2 Ocorre que a radiação visível penetra na atmosfera e aquece a superfície. A superfície aquecida emite infravermelho. O CO2 absorve essa radiação causando o efeito estufa. Esse efeito é mais ou menos como um carro fechado, recebendo as radiações solares. Essas radiações penetram no interior do veículo e o calor não sai, e quando se entra no veículo sente-se o mormaço devido ao acúmulo de calor. Evidentemente que todos esses fenômenos fazem cair por terra o velho conceito de que Vênus é o planeta irmão da Terra.

Há, também, duas afirmações que são, no mínimo, temerárias nesse artigo da RE:

O planeta Vênus é o ponto intermediário entre Mercúrio e Júpiter; seus habitantes têm a mesma conformação física que a vossa; o mais ou menos de beleza e de idealidade nas formas é a única diferença delineada entre os seres criados.

Existe, então, algum padrão absoluto de beleza?

A servidão é o primeiro degrau da iniciação. Os escravos da antiguidade, como os da América moderna, são seres destinados a progredir num meio superior ao que habitavam na última encarnação. Por toda parte os seres inferiores estão subordinados aos superiores; mas em Vênus tal subordinação moral não se compara à subordinação corpórea que existe na terra: os superiores não são senhores, mais pais dos inferiores. Em vez de os explorar, ajudam-nos a progredir.

Afinal, servidão é um mal necessário?

Em defesa desta passagem, pode-se dizer que Kardec não bate o martelo quanto a veracidade desta comunicação, porém afirma que não está em conflito com outras descrições quanto ao avanço venusiano na escala dos mundos, nem quanto ao seu status intermediário entre a Terra e mundos extremamente avançados, como Júpiter.

Note que a última pergunta se refere à falta de uma descrição precisa da Lua que “fixe uma opinião”. Bem, essa descrição virá no artigo No Mundo da Lua.

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Júpiter: O Ápice (!?) do Sistema Solar

5 de dezembro de 2011 6 comentários

Representação artística do planeta Júpiter

Na Revista Espírita de março de 1858, há um descrição detalhada de nossa família solar, culminando com Júpiter:

Segundo os Espíritos, o planeta Marte seria ainda menos avançado do que a Terra; os Espíritos que nele estão encarnados pareceriam pertencer, quase exclusivamente, à nona classe, a dos Espíritos impuros, de sorte que o primeiro quadro, que demos acima, seria a imagem desse mundo. Vários outros pequenos globos estão, com algumas nuanças, na mesma categoria. A Terra viria em seguida; a maioria de seus habitantes pertence, incontestavelmente, a todas as classes da terceira ordem, e a parte menor às últimas classes da segunda ordem. Os Espíritos superiores, os da segunda e da terceira classe, nela cumprem, algumas vezes, uma missão de civilização e progresso, e são exceções. Mercúrio e Saturno vêm depois da Terra. A superioridade numérica de bons Espíritos lhes dá a preponderância sobre os Espíritos inferiores, do que resulta uma ordem social mais perfeita, relações menos egoístas, e, por consequência, uma condição de existência mais feliz. A Lua e Vênus estão quase no mesmo grau e, sob todos os aspectos, mais avançados do que Mercúrio e Saturno. Juno e Urano seriam ainda superiores a esses últimos. Pode-se supor que os elementos morais, desses dois planetas, são formados das primeiras classes da terceira ordem e, na grande maioria, de Espíritos da segunda ordem. Os homens, neles, são infinitamente mais felizes do que sobre a Terra, pela razão de que não têm nem as mesmas lutas a sustentar, nem as mesmas tribulações a suportar, e não estão expostos às mesmas vicissitudes físicas e morais.

De todos os planetas, o mais avançado, sob todos os aspectos, é Júpiter. Ali, é o reino exclusivo do bem e da justiça, porque não há senão bons Espíritos. Pode-se fazer uma ideia do feliz estado dos seus habitantes pelo quadro que demos do mundo habitado sem a participação dos Espíritos da segunda ordem.

A superioridade de Júpiter não está somente no estado moral dos seus habitantes; está, também, na sua constituição física. Eis a descrição que nos foi dada, desse mundo privilegiado, onde encontramos a maioria dos homens de bem que honraram nossa Terra pelas suas virtudes e seus talentos.

A conformação dos corpos é quase a mesma desse mundo, mas é menos material, menos denso e de uma maior leveza específica. Ao passo que rastejamos penosamente na Terra, o habitante de Júpiter se transporta, de um lugar para outro, roçando a superfície do solo,quase sem fadiga, como o pássaro no ar ou o peixe na água.

Júpiter é o maior dos quatro “gigantes gasosos” do sistema solar. É possível que até tenha um núcleo rochoso debaixo de sua grossa e turbulenta atmosfera, seguida de camadas de hidrogênio líquido e metálico. Júpiter pode ser tudo, menos idílico. Se os supostos jupterianos da Revista Espírita utilizam matéria-prima do próprio planeta, então de forma alguma seriam menos densos, porque, para suportar a colossal pressão do ambiente de Júpiter, teriam de igualar sua pressão interna. Uma alternativa seria viver nas camadas mais altas da atmosfera, como já houve quem cogitasse, porém seus corpos em nada se assemelhariam aos nossos.

Flutuadores Jupiterianos

Hipotéticos seres flutuadores da atmosfera de Júpiter exibidos na clássica série televisiva Cosmos, de Carl Sagan, e hoje encarados com ceticismo. A exobiologia (estudo de possíveis formas de vida extraterrenas) ainda está mais para um grande exercício especulativo.

Continuando:

Sendo mais depurada a matéria de que é formado o
corpo, dispersa-se após a morte sem ser submetida à decomposição pútrida. Ali não se conhece a maioria das moléstias que nos afligem, sobretudo as que se originam dos excessos de todo gênero e da devastação das paixões. A alimentação está em relação com essa organização etérea; não seria suficientemente substancial para os nossos estômagos grosseiros, sendo a nossa por demais pesada para eles; compõe-se de frutos e plantas; de alguma sorte, aliás, a maior parte eles a haurem no meio ambiente, cujas emanações nutritivas aspiram. A duração da vida é, proporcionalmente, muito maior que na Terra; a média equivale a cerca de cinco dos nossos séculos; o desenvolvimento é também muito mais rápido e a infância dura apenas alguns de nossos meses.

Como Kardec gosta de fazer analogias, farei uma contra-analogia: essa duração curta da infância vai num caminho oposto àquele que deu a inteligência a nossa espécie, que consistiu na dilatação da infância e a permanência de aspectos infantis até a fase adulta (neotenia). Externamente, isso se manifesta na pouca mudança que nosso crânio sofre com o passar do tempo. Compare com a radical transformação sofrida por nosso primo mais próximo, o chimpanzé.

neotenia

Foto de um bebê chimpanzé (Esq.) emparelhada com a de um adulto de sua espécie. Humanos não sofrem transformação tão radical assim, maturam mais lentamente e preservam boa parte da capacidade de aprendizado juvenil.

Fisiologicamente, nossa “imaturidade” está em termos boa capacidade de criar novas conexões neuronais por mais tempo (devido à longa infância) e a preservarmos em certo grau na idade adulta.

Pergunta-se, então, que tipo de evolução biológica os jupterianos teriam sofrido para adquirir inteligência com uma estratégia oposta. Kardec não se fez essa pergunta provavelmente por dois motivos: primeiro, àquela altura (1858) ele não acreditava na evolução biológica (cf. LE 59), embora pregasse a espiritual, e, segundo, cria na geração espontânea de seres complexos (LE 44-49). Assim, os jupterianos poderiam ter sido criados “prontos” para ter uma infância curta. Alguém, hoje em dia, poderia até alegar que os jupterianos encurtaram sua fase juvenil por meio de manipulação genética. Seria ético fazermos isso no futuro?

Os animais não estão excluídos desse estado progressivo, sem se aproximarem, contudo, daquele do homem; seu corpo, mais material, prende-se à terra, como os nossos. Sua inteligência é mais desenvolvida que a dos nossos animais; a estrutura de seus membros presta-se a todas as exigências do trabalho; são encarregados da execução de obras manuais: são os serviçais e os operários; as ocupações dos homens são puramente intelectuais. Para os animais o homem é uma divindade tutelar que jamais abusa do poder para os oprimir.

Seria correta essa depreciação do trabalho braçal? Não seriam os jupterianos capazes de criar robôs para liberar seus “animais” para viverem de sua própria forma em reservas?

Quanto aos jupterianos ilustres:

Quando se comunicam conosco, os Espíritos que habitam Júpiter geralmente sentem prazer em descrever o seu planeta; ao se lhes pedir a razão, respondem que o fazem com o fito de nos inspirarem o amor do bem, com a esperança de lá chegarmos um dia. Foi com essa intenção que um deles, que viveu na Terra com o nome de Bernard Palissy, célebre oleiro do século XVI, ofereceu-se espontaneamente, sem que ninguém lho pedisse, para elaborar uma série de desenhos, tão notáveis por sua singularidade quanto pelo talento de execução, destinados a dar-nos a conhecer, até nos menores detalhes, esse mundo tão estranho e tão novo para nós.

Palissy, fez a bondade de desenhar por comunicação mediúnica a casa de outro jupiteriano que já passou pela Terra – Mozart – reproduzida na edição de agosto da Revista Espírita, naquele mesmo ano. Ei-la:

Casa de Mozart

Fachada sul da casa de Mozart em Júpiter. Acredite se quiser…

Somos também informados que Cervantes seria vizinho de Mozart e que por aquelas bandas também viveria Zoroastro.

As comunicações sobre Júpiter prosseguiram após Karde. Léon Denis, em seu Catecismo Espírita, cap. VI

P: Todos os planetas têm Lua?

R: Nem todos; porém, Urano tem quatro luas ou satélites; Saturno oito, além de dois imensos anéis que o circundam; e Júpiter, quatro. Esse mundo colossal, Júpiter, não está, como a Terra, sujeito às vicissitudes das estações nem às bruscas alternativas da temperatura: “é favorecido com uma primavera constante”.

Bem, a temperatura média em Júpiter é de -148ºC. Talvez os jupterianos tenham uma noção distinta de frio e calor, mas não parece que Léon Denis deu a entender isso. De fato, são muitas coisas risíveis ao se tratar de Júpiter. Kardec mesmo já admitia isso:

Se há um fato que gera perplexidade entre certas pessoas convencidas da existência dos Espíritos – não nos ocuparemos aqui das outras – é seguramente a existência de habitações em suas cidades, tal como ocorre entre nós. Não me pouparam de críticas: “Casas de Espíritos em Júpiter!… Que gozação!…” – Que seja, nada tenho a ver com isso. Se o leitor aqui não encontra, na verossimilhança das explicações, uma prova suficiente de sua veracidade; se, como nós, não se surpreende com a perfeita concordância das revelações espíritas com os dados mais positivos da ciência astronômica; numa palavra, se não vê senão uma hábil mistificação nos detalhes que se seguem e no desenho que os acompanha, eu o convido a pedir explicação aos Espíritos, de quem sou apenas o instrumento e o eco fiel. Que ele evoque Palissy ou Mozart, ou outro habitante desse mundo bem-aventurado; que sejam interrogados, que minhas afirmações sejam controladas pelas suas; que, enfim, discutam com eles. Quanto a mim, apenas apresento o que me foi dado, repetindo somente o que me foi dito. E, por esse papel absolutamente passivo, creio-me ao abrigo tanto da censura quanto do elogio.

Revista Espírita, agosto 1858, “Habitações do Planeta Júpiter”

Parece que esse gozadores estavam certos, talvez não pelos motivos que alegassem. Foi o tempo que se encarregou de tirar a verossimilhança das mensagens e colocá-las em desacordo com a astronomia. Revelou, também, que Kardec foi confiante demais em seu critério para separar o “joio do trigo” baseado no teor edificantes das mensagens e polidez das palavras.